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Estado, Governo e Sociedade

Créditos
Centro Universitário Senac São Paulo – Educação Superior a Distância
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e de Desenvolvimento Lilian Brito Santos
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Coordenadora de Desenvolvimento
Tecnologias Aplicadas à Educação Equipe de Design Audiovisual
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Educação a Distância Carlos Eduardo Toshiaki Kokubo
Alcir Vilela Junior Christian Ratajczyk Puig
Professora Autora Danilo Dos Santos Netto
Ana Paula Rupp Hamms Hugo Naoto Takizawa Ferreira
Inácio de Assis Bento Nehme
Revisora Técnica Karina de Morais Vaz Bonna
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Hágara Rosa da Cunha Araújo Renan Carlos Nunes De Souza
Janandrea Nelci do Espirito Santo Rodrigo Benites Gonçalves da Silva
João Francisco Correia de Souza Wagner Ferri
Juliana Quitério Lopez Salvaia
Estado, governo e sociedade
Aula 01
Antecedentes históricos da formação do Estado brasileiro: a
herança portuguesa.

Objetivos Específicos
• Reconhecer os aspectos que caracterizam o Estado português como um dos
elementos formadores do Estado brasileiro.

Temas

Introdução
1 Da origem e das caraterísticas do Estado português
2 O patrimonialismo e suas implicações
Considerações finais
Referências

Professora
Ana Paula Rupp Hamms
Estado, Governo e Sociedade

Introdução

Por experiência, sabemos que o jeito de cada um de nós, em parte, é constituído do


que herdamos de nossos pais. Fisionomia, gostos, gestos, um jeitinho ou outro, muitas vezes
tornam-se um “espelho” que reflete nossos ascendentes. Um país, uma nação, também
não nasce sem que tenha alguma marca da sociedade que a fundou, que deu origem ao
novo grupamento humano. Assim, desenvolve-se, em princípio, muito parecido com os seus
fundadores; depois, amadurece, fica independente, mas, mesmo assim, conserva muitas
características dos seus fundadores.

Com o Brasil não foi diferente, como veremos nesta aula. Muitas das características do
Estado brasileiro têm origem na forma como Portugal regia seus domínios e que, por sua vez,
foi marcada pelos povos que participaram da formação do povo português.

Para conhecer melhor nosso país, nossa política, a formação do Estado e as relações
estabelecidas, historicamente, entre o Estado e a sociedade brasileira, é necessário visitar a
nação que nos colonizou, Portugal. Portugal levou para o outro lado do oceano Atlântico suas
experiências de governo e sua estrutura de Estado, que tem como principais características o
patrimonialismo e o Estado formado por estamento.

Convido você a fazer esta volta ao passado, para reconhecer, nas raízes da sociedade
portuguesa, nossas próprias raízes.

1 Da origem e das caraterísticas do Estado português

A espécie humana foi ocupando a Península Ibérica em sucessivos movimentos


migratórios vindos primeiramente da África e depois da parte central da Europa. Estes povos
encontraram no oceano Atlântico, região onde hoje é Portugal, a barreira natural para o
processo de migração. No decorrer de milhares de anos, povos foram se sobrepondo a outros.

Os grupos que vieram da Europa foram se misturando aos que já estavam lá, dando,
então, origem a outros grupos, que surgiram deste processo. Entre estes grupos formados por
descendentes dos primeiros ocupantes daquele território e as tribos europeias, estavam os
lusitanos. Para saber mais sobre o assunto, acesse o link disponível na Midiateca da disciplina.

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Figura 1 – Mapa da Europa

Fonte: Atlas Geográfico Metódico, Instituto de Agostine (1996).

Localize Portugal no mapa da Europa.

1.1 Romanos, visigodos e mulçumanos: a disputa por domínios que


resultou em uma nação
A história de Portugal começa com o processo de ocupação romana, com a resistência do
povo lusitano com relação à ocupação de seu território. Conquistado o território, o Império
de Roma estabelece seus domínios na região, inaugurando, assim, a Província romana da
Lusitânia no século II a. C. Por cerca de seis séculos, o Império romano foi forjando os costumes
e as crenças naquele domínio.

Durante o século V, com o Império romano enfraquecido, o poderio de Roma cedeu


espaço para os visigodos, um povo que vinha da região do leste da Europa. Os visigodos
estavam entre aqueles que os romanos chamavam de “povos bárbaros”, e ocuparam a região
por mais de dois séculos. E este novo invasor preservou muito da cultura romana, absorvendo,
inclusive o direito romano. Para saber mais sobre o assunto, acesse o link na Midiateca desta
disciplina. Os visigodos ocuparam a região da Província da Lusitânia até o século VIII, quando
foram sucedidos pelos mouros.

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Os mouros eram mulçumanos que invadiram a Península Ibérica a partir da África.


Dominaram a região a partir do sul. Nos séculos em que ocuparam a região, estiveram em
constante conflito com os cristãos. Da luta pela reconquista do território pelas tropas cristãs,
surgiu o reino de Portugal, e sua independência foi reconhecida (pela Igreja Católica) em
1143. No entanto, a luta contra os muçulmanos continuou até o ano de 1249, quando os
mouros foram definitivamente derrotados.

Para Faoro (2014), a história de Portugal, de seu Estado, tem seu início a partir desde
cenário, que foi sendo construído durante muitos séculos. A cultura romana estabelecida
pela “força da espada”, o poder dos visigodos e a guerra “interminável” entre mouros e
cristãos criou o alicerce para a relação entre o soberano e seus súditos.

Se você quer saber mais sobre a história de Portugal, acesse o link


disponível na Midiateca desta disciplina.

1.2 As relações entre o súdito e seus soberanos: um jeito diferente


de exercer a soberania durante a Idade Média
O que esperar de um reino que surge do imperativo da guerra? O que devemos supor
de um rei que se estabelece como um guerreiro que vence a batalha? O rei-guerreiro, que
conduziu seu povo para a vitória contra os muçulmanos, firma sua soberania de forma distinta
do que acontecia no restante da Europa medieval.

De forma prematura na história ocidental, Faoro (2014) afirma que, já nos primeiros
tempos de formação de Portugal, o poder relacionado ao ato de dominar (dominare) e de
reinar (regnare) foi logo de início distribuído de forma a garantir aos senhores da terra apenas
o seu domínio – com o objetivo de ocupar e preservar o território conquistado, e ao rei
caberia a função de reinar, ou seja, de exercer funções políticas, jurídicas, administrativas e
fiscais por toda a extensão de seu território.

A estrutura de poder que perseverou em grande parte da Europa durante a Idade Média,
o feudalismo, tinha como característica importante a decadência de um poder centralizado
nas mãos do soberano e o fortalecimento da autoridade dos demais senhores da terra.
Portugal, por sua história, não correspondeu a estas características, na medida em que a
soberania real foi confirmada, ao longo dos séculos, como a forma de poder mais importante,
em detrimento do domínio exercido pelos senhores de terra.

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A divisão do território em feudos também aconteceu em Portugal, pois era uma forma de
manter o território conquistado distante do perigo, sempre presente, de invasão por outros
povos. No entanto, apesar de donos da terra, estes senhores não tinham a prerrogativa de
governo, pois o poder, a regência, vinha do rei. A concessão de domínios territoriais a um
senhorio fazia parte das prerrogativas do rei, o que, porém, não significava também a licença
para exercer o poder público (legislar, impor regras de governo).

Segundo Faoro (2014), existiam duas ordens de nobres: os nobres proprietários


(senhorio) que sobreviviam da terra, mas não tinham o domínio fiscal e jurídico sobre elas,
e os funcionários do reino. Os funcionários do rei tinham, entre as suas atribuições, a de
administrar os domínios dos senhores. A prerrogativa real de exercer a justiça condicionou os
súditos portugueses a uma subordinação direta a um poder centralizado “nas mãos” do rei e
não dos senhores de terra.

A criação e a manutenção, pelo governo real, de milícias responsáveis por defender


o território é outro fato que reafirma o poder centralizado em Portugal, diferente do que
acontecia em outros lugares na Europa naquela época, no sentido em que as tropas estavam
subordinadas ao rei e não à nobreza territorial.

A cobrança de impostos por meio de agentes reais próprios, as concessões


administrativas em troca de pagamentos feitos à coroa, nos diversos lugarejos, entre
tantas outras receitas, conforme Faoro (2014), garantiam ao soberano uma grande riqueza
e a manutenção do poder centralizado.

O rei, por seu poder supremo, conquistou grande patrimônio, quando a riqueza, na
época, estava relacionada à posse da terra. A superioridade política e a abundância da riqueza
determinaram uma característica determinante na cultura de poder portuguesa, a saber, o
fato de a propriedade do rei (seu patrimônio rural) não se confundir com sua própria casa
(FAORO, 2014), ou seja, não se estabeleceu uma distinção entre aquilo que seria público, ou
seja, das coisas do reino destinadas aos súditos e aquilo que seria privado (o que deveria
favorecer de forma particular o rei).

O rei, como senhor de tudo, o que seria uma herança dos visigodos e da prática militar,
fez da riqueza que vinha de seus súditos e seus domínios como se fosse um patrimônio seu
(FAORO, 2014). Assim, o que era gasto do governo (pagamentos aos “funcionários”, benfeitorias
etc.) e o que era usado como recurso particular para o rei, acontecia de forma indistinta. Não
havia, desta forma, uma separação entre o patrimônio público (Estado) e privado (rei) – tudo
é do rei e, na mesma forma, do reino. Essa prática da monarquia portuguesa estabeleceu uma
característica importante do Estado português, o patrimonialismo. O patrimonialismo, que
veio a ser também uma característica do Estado brasileiro, é uma herança de seu colonizador,
e está fundamentado no direito romano.

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1.3 O direito romano e os fundamentos da monarquia


patrimonialista
A prática política do patrimonialismo não era guiada simplesmente pelo desejo
do regente, visto que o exercício de governar e o conteúdo do Estado tem que estar
fundamentadas juridicamente. O ordenamento jurídico que fundamentou o Estado e o
governo português foi o direito romano.

Apesar de o Império romano ter perdido seu espaço na Península Ibérica para os visigodos
e mouros, permaneceu como importante influência no campo do direito. Isso, aliado ao fato
de os visigodos terem absorvido grande parte do direito romano em seu próprio código.
Um forte aliado da sobrevivência do direito romano na Península Ibérica foi a Igreja Católica
que, no século VI, converteu o rei visigodo à religião cristã impondo-lhe um modelo social e
político romanizado, utilizando, para isso, o direito romano.

O direito romano transportou para a ordem jurídica a ideia de soberania que se assentava
sobre Roma, onde o soberano era senhor do Estado e proprietário de tudo o que estivesse
sob seus domínios, além de ser o chefe militar, o responsável por deliberar sobre questões
administrativas e ser a autoridade máxima no que se relacionava à justiça.

Mais uma vez, o que ocorria em Portugal era diferente do que acontecia no restante da
Europa medieval. Os domínios dos senhores de terra seguiam a lógica típica do feudalismo.
Quando havia, então, a dispersão do poder, o direito era aplicado segundo os costumes da
terra, nos moldes de uma common law. Assim, juízes julgavam a partir dos costumes e não
utilizavam como base um código escrito.

No entanto, apesar do caráter racional e impessoal que a lei determinava, isso não
foi suficiente para garantir que o soberano português aplicasse a legislação segundo seus
caprichos e desejos, quando lhe fosse conveniente (FAORO, 2014). E as demais instituições
ligadas à justiça também não tinham um controle total de suas decisões, já que eram
subordinadas ao poder do regente.

Os nobres nem sempre estavam satisfeitos com a situação de estarem sempre tão longe
do poder. Para amenizar o sentimento de descontentamento, o poder régio inaugurou um
processo de dar mais poder para certos membros da nobreza. Para tal, encontrou uma via nas
antigas práticas romanas. Assim, o direito romano também foi um importante instrumento
para garantir o desenvolvimento de um quadro de funcionários ligados à administração
pública. O quadro administrativo do reino de Portugal era composto por cortesãos que
estavam diretamente subordinados ao rei. Estas pessoas desempenhavam funções próximas
ao que seria hoje um ministro; detentores de poder, porém, diferente de um poder típico de
um senhor feudal da época, pois sua autoridade estava limitada aos desígnios reais (FAORO,
2014). O poder relativo de cada um desses cargos estava relacionado ao papel estratégico de
cada esfera de atuação, o que variava muito, dependendo do momento histórico.

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Portanto, o direito romano e a formação histórica de Portugal determinaram


características próprias de um Estado caracterizado como patrimonialista. Em seguida,
veremos em que medida o patrimonialismo implicou um desenvolvimento diferenciado do
capitalismo em Portugal com relação aos outros países europeus.

2 O patrimonialismo e suas implicações


Faoro (2014) defende que o Estado português nunca passou pelo feudalismo, uma
estrutura social, política e econômica pelas quais passaram várias sociedades, tanto no
ocidente quanto no oriente. Por que é importante reconhecer tal característica do Estado
português? Porque, segundo Faoro (2014), esta característica determinou os rumos da
história portuguesa e brasileira no decorrer dos séculos até os dias de hoje.

2.1 Feudalismo
Para saber se o sistema feudal faz parte da história de Portugal e do Brasil,
determinando, desta forma, o destino político dessas duas nações, é importante que
você relembre um pouco de suas aulas de história.

A premissa do feudalismo é a descentralização do poder. Para garantir a posse do


território, os governos soberanos foram destinando uma boa quantidade de seu território
para algumas pessoas que faziam parte da nobreza, as quais ficaram conhecidas como
senhores feudais. Aos senhores feudais foi dada, além do usufruto da terra, a prerrogativa
política, ou seja, o poder de governar seus feudos. Esse fato deu muito poder aos senhores
e, no decorrer do tempo, o poder não se diferenciava muito do poder de um rei.

Neste estado de coisas, o capitalismo deu seus “primeiros passos” a partir de novas
e mais lucrativas rotas comerciais, da descoberta de novas terras de onde foi possível
extrair riquezas e da produção artesanal que cedia espaço à manufatura. O feudalismo
foi, então, cedendo seu espaço a uma nova ordem, a capitalista.

Para Faoro (2014), o Estado português não poderia ser caracterizado como feudal,
mas sim patrimonialista. Esse patrimonialismo determinou a forma como Portugal e, por
conseguinte, o Brasil, ingressaram na economia capitalista.

2.2 Feudalismo, não


Agora que você já sabe como que o Estado português surgiu e quais são suas principais
características, é fácil perceber que Portugal não conheceu o feudalismo, principalmente
pelo fato de que o regime autoritário de governo não delegou às glebas, terra dos senhores,
uma autonomia política e econômica. Toda a riqueza pertencia ao rei e ao reino, de forma
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indistinta. Como não havia a separação entre o público e o privado, o Estado poderia ser visto
como monopólio do rei.

Além de um poder centralizado, o Estado português também se caracterizou pela


criação de uma rede de servidores, com relativo poder, só que sempre subordinados ao rei.
Eram nobres, apesar disso, seu poder não estava ligado à terra, mas sim a alguma função
administrativa designada pelo rei.

A economia medieval e o surgimento da burguesia em Portugal se desenvolveram a partir


de um modelo atrelado ao poder monárquico (FAORO, 2014). É certo que a base da produção
medieval era a agricultura, principalmente porque ela garantia o sustento da população. No
entanto, a economia portuguesa não estava necessariamente vinculada à exploração do solo,
mas sim ao comércio vinculado à atividade marítima e à exploração do mar: pesca, produção
de sal e a comercialização de produtos a partir do movimento portuário. Característica esta
que é reforçada com o advento das rotas de navegação para as Américas. Esta característica
específica da economia portuguesa determinou o surgimento de uma burguesia cuja atividade
econômica não estava ligada aos produtos agrícolas.

Destacamos que a classe social emergente não encontrou em Portugal espaço para
desenvolver livremente as relações comerciais, isso porque encontrou no poder centralizado
do Estado um “freio”, já que todas as operações comerciais eram regidas pelo soberano. O
Estado português tomava todas as relações comerciais de seu território (e, posteriormente
também em seus domínios coloniais) sob seu controle (FAORO, 2014).

O Estado converteu-se em um empreendimento econômico nas “mãos” do rei, que


interferia em todas as transações, como um empreendedor afoito por riquezas com o
objetivo de incorporá-las ao seu patrimônio pessoal (FAORO, 2014). E Portugal já tinha uma
estrutura de Estado preparada para este controle da economia, um corpo de funcionários
que executava essa função, em nome do rei.

A economia sob “as rédeas” de Estados absolutistas foi a primeira fase do capitalismo, a
saber, o mercantilismo, que marcou a morte das relações feudais e determinou o nascimento
de uma economia baseada no capital, com os Estados interferindo nas atividades econômicas.
Portugal saiu à frente e criou a base dessa política econômica, no entanto, ficou preso às
lógicas mercantilistas, o que determinou o futuro econômico, político e social português e,
em consequência, também o brasileiro (FAORO, 2014).

2.3 As travas econômicas do Estado patrimonialista


O patrimonialismo do Estado português agiu como um freio para o desenvolvimento do
capitalismo, determinando sua estagnação econômica ao passo que, em outros lugares, a
economia capitalista seguiu seu curso “natural”, no sentido de deixar aos poucos as práticas
mercantis para estabelecer o capitalismo industrial.
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Os laços econômicos, políticos e sociais estabelecidos a partir de uma lógica


patrimonialista, característica principal do Estado português, não permitiu que a burguesia
industrial se desenvolvesse, já que, para isso, era necessário oferecer autonomia e liberdade,
prerrogativas essenciais para que as empresas privadas fixassem as novas diretrizes da
economia capitalista (FAORO, 2014).

Em toda a Europa, onde o feudalismo foi uma realidade, os laços absolutistas que
sucederam o modelo feudal não determinaram uma insubordinação ao monarca de modo a
servir de freio para a industrialização como aconteceu em Portugal. A herança da autonomia
vivenciada nestes lugares ao longo de todo o período medieval, um legado do feudalismo,
determinou a forma como a industrialização se desenvolveu de maneira diferenciada se
compararmos Portugal (assim como a Espanha) ao restante do continente europeu.

O Estado patrimonialista, de forma diferente do que aconteceu no feudalismo, com


direitos e obrigações consolidadas e fixas, prendia o povo (a rede de servidores e os demais
súditos) a uma lógica típica do patriarcado, sendo que favorecimentos e privilégios dependiam
dos “humores” reais (FAORO, 2014). Assim, fica evidente de que forma as nações da Península
Ibérica não favoreceram as relações capitalistas relacionadas ao processo de industrialização,
permanecendo a prática mercantilista.

2.4 A economia sob o controle do rei e seu estamento


O Estado português não se estabeleceu como uma “grande empresa” mercantil sem o
apoio de uma camada social responsável por administrar, junto ao rei, os negócios da coroa.
Para este grupo, o soberano delegou o poder de gerir diversos setores da sociedade. A esta
corporação de pessoas dá-se o nome de estamento.

Faoro (2014) relaciona as características do estamento e de seus integrantes:

• não devem ser tomados como uma classe, no sentido clássico, pois não se trata de
uma camada social que tem origem em práticas econômicas; são uma comunidade
sem forma definida, mas seus membros têm a consciência de pertencer ao grupo a
partir do que tem em comum – estar qualificado para o exercício do poder;

• além do poder diferenciado, os membros do estamento gozam de elevado prestígio


entre a população em geral;

• o estamento parte do princípio da desigualdade social, a qual não pode ser alcançada
através de uma via econômica, pois entrar no estamento depende de critérios
relativos à personalidade do indivíduo;

• é marcada pela conquista e manutenção de privilégios exclusivos;

• o surgimento dos estamentos está ligado a sociedades onde o mercado não dominava
as práticas econômicas.
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A sociedade dividida em estamento é diferente de uma sociedade dividida em classe,


principalmente do ponto de vista econômico. Nas sociedades divididas em classe, as
transformações econômicas acontecem na base social, e agem de forma a pressionar os
governos. Em uma sociedade onde existe o estamento, a economia e todas as outras esferas
sociais são determinadas de cima para baixo. Em Portugal, esta realidade é confirmada; afinal,
apesar do papel social da burguesia, as decisões no âmbito da economia política não passam
por ela.

A ascensão dos privilégios do estamento determinou, por sua vez, o fim de privilégios
seculares dos senhores territoriais, por exemplo, a isenção de impostos. O fim destes
privilégios foi estabelecido por membros específicos dos estamentos, os juristas. Restando
à nobreza “mendigar” cargos públicos ao rei, pois estes eram a única via para o poder e o
enriquecimento.

Ao se consolidar o estamento, a perspectiva de que o soberano é dono de tudo – no


sentido em que não se separa o público do privado – começou a se transformar, a fim de
estabelecer esta separação. Esta nova realidade foi forçada pela consciência de que os
membros do estamento, apesar de seus privilégios, não trabalham por interesses privados
(como um chefe de família pensando em sua casa), mas sim por uma nação (trabalhavam pelo
interesse público). Tal situação não determinou, segundo Faoro (2014), o declínio do poder
do soberano. Neste processo, o rei deixou de ser o proprietário do reino e passou a ser seu
maior servidor, no sentido em que a importância do Estado estava acima de seu soberano.

O Estado continuou patrimonialista, as relações de poder entre o rei e o estamento


aconteceram em forma de acordos e de negociações; a barganha por privilégios e favores
representava onde se apoiava a atividade pública, sempre com vistas ao poder e à riqueza do
reino.

Neste cenário social, político e econômico de Portugal, surgiram as expedições


ultramarinas do século XV. A descoberta do Brasil, como resultado deste processo, foi um
acontecimento importante para a economia mercantil, reforçando e dando continuidade às
práticas comerciais da coroa portuguesa.

O Brasil seguiu seu rumo na história, como colônia, e o colonizador estabeleceu as bases
do Estado brasileiro. Patrimonialismo, estamento e privilégios públicos foram princípios
que caracterizaram (e, de certa forma ainda caracterizam) as relações políticas em nossa
nação. Também do ponto de vista econômico, Portugal perpetuou-se no Brasil: a produção
agrícola e a atividade extrativista foram voltadas para a exportação, havendo dificuldades
para desenvolver a indústria em função da estrutura patrimonial do Estado (FAORO, 2014).

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Considerações finais
Nesta aula, vimos que o Estado português se caracterizou por ser patrimonialista e que
o poder estava centralizado nas “mãos” do rei, o qual não separava o público do privado. Por
ser patrimonialista, Portugal não passou pelo regime feudal durante a Idade Média e teve
dificuldade para desenvolver o capitalismo industrial.

O Estado patrimonialista desenvolveu, em seu cerne, o estamento. Por estamento,


entendemos como um conjunto de pessoas com função pública com a prerrogativa de decisão
e de influenciar as deliberações reais. Assim, o estamento português foi importante para que
o Estado garantisse a gerência econômica do Estado durante o período do mercantilismo.

As peculiaridades inerentes ao Estado de Portugal são os elementos formadores do


Estado brasileiro. É muito importante que você fixe estas características do Estado português
relacionadas nesta aula, porque você reconhecerá, em vários momentos na nossa história, os
traços do Estado português.

Referências
Atlas Geográfico Metódico. Instituto de Agostine, 1996.

FAORO, R. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. São Paulo: Globo
Livros, 2014.

PACIEVITCH, T. História de Portugal. Infoescola. Disponível em: <http://www.infoescola.com/


historia/historia-de-portugal>. Acesso em: 25 ago 2014.

RODRIGUES, A.D.; FREITAS, D.; FERREIRA, I. V. História de Portugal: de Foz Côa ao Reino de
Portugal. Disponível em: <http://www.escolovar.org/historia_castro.celta.pdf>. Acesso em: 25
ago 2014.

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Aula 02
O regime político e administrativo das capitanias hereditárias

Objetivos Específicos
• Conhecer os primeiros passos do processo civilizatório brasileiro iniciado a
partir da ocupação do território até a instituição do Governo Geral.

Temas

Introdução
1 O descobrimento
2 A colonização
Considerações finais
Referências

Professora
Ana Paula Rupp Hamms
Estado, Governo e Sociedade

Introdução
Nesta aula, você saberá o que aconteceu no Brasil após o descobrimento logo nos
primeiros anos. Entenderá a política de colonização implementada no Brasil por Portugal, os
objetivos e as estratégias do colonizador no processo de povoamento das terras brasileiras.
Você verá que as características do Estado português, aquilo que você aprendeu, influenciaram
muito a história brasileira, desde o seu início.

Mostraremos para você que o ponto de partida para a relação entre o indivíduo e o Estado
aconteceu a partir da política de distribuição das capitanias hereditárias. As características das
relações de poder que germinaram durante o período colonial determinaram uma realidade
que até hoje podemos enxergar em nosso cotidiano.

1 O descobrimento
Quando o português chega às terras brasileiras, vem com uma “fome” voraz por ouro
e prata. Não encontra estes metais, de início, tornando a conquista das novas terras muito
desinteressante, do ponto de vista econômico (FAORO, 2014). A primeira impressão da terra
conquistada, já que parecia não ser um veio de riquezas para a Coroa, é a de que ela era o
paraíso na terra. Essa visão parte da imagem do indígena como um ser tomado de pureza,
fruto da natureza, e, por outro lado, esse imaginário idílico também está relacionado com a
ideia de que a terra recém-descoberta seria um território livre do trabalho e dos sofrimentos
vividos na Europa.

Essa foi, então, a primeira visão do Europeu com relação às terras descobertas, partindo,
como escreveu Faoro (2014) de uma “invenção edênica da América”. Assim, durante os
primeiros anos após o descobrimento, Portugal não investiu muito no “novo mundo”. Com
o início da exploração do pau-brasil, o nosso primeiro produto de exportação, estabeleceu
algumas feitorias ao longo do litoral brasileiro com o objetivo de garantir o comércio do
produto para a Europa.

1.1 Do comércio do pau-brasil à necessidade de colonizar


Essa ocupação tímida dos domínios da terra conquistada acabou se mostrando pouco
eficaz. As poucas feitorias instaladas aqui não garantiram que o pau-brasil fosse explorado
apenas pelos portugueses, outras nações desembarcavam no território brasileiro para
extrair a madeira valiosa em locais fora do alcance das feitorias. A mão de obra destinada
ao trabalho extrativista também era um problema; entre os indígenas, a maior parte não
aceitou o trabalho escravo, além do que o gentio que entrava em contato com o Europeu
morria facilmente devido a doenças para as quais não tinha nenhuma imunidade, como a
gripe.

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Segundo Faoro (2014), mesmo a insipiente entrada do colonizador, que, em sua maioria,
era composta por homens pertencentes a uma escória social, mesmo estes acabavam
ingressando no Brasil em locais onde não havia instalada qualquer espécie de órgão
administrativo do Estado português (o mais comum eram as benfeitorias). Essas pessoas
acabavam entrando para o interior e eram incorporadas à população indígena principalmente
pelo apelo sexual representado pelas índias.

As feitorias se mostraram ineficientes na garantia do comércio do pau-brasil e da garantia


de ocupação do território. Assim, o colonizador percebeu que, se não se criasse aqui núcleos
populacionais, os quais fossem leais à Coroa e realmente se fixassem no território, poderia
perder seu domínio colonial. Além do aparato de guarda e de comércio (as feitorias), Portugal
investiu na colonização com o objetivo de povoar efetivamente as terras no “novo mundo”..

As feitorias eram uma espécie de armazém mantido pela Coroa, geralmente


fortificados, onde as mercadorias eram depositadas à espera de um navio para
serem levadas para fora do Brasil; por isso, estavam estrategicamente localizadas
no litoral. As feitorias eram mais do que um depósito, pois também possuiam a
função alfandegária e portuária. Cada feitoria tinha a presença de um feitor, um
funcionário do reino que conduzia as relações comerciais. Para saber mais
sobre as feitorias, acesse o link disponível na Midiateca da disciplina.

2 A colonização
Não obstante o propósito do colonizador povoar a nova terra tendo em vista estabelecer
de fato seus domínios, a principal motivação para a “mudança de plano” feita por Portugal
era a atividade mercantilista.

Com vistas ao comércio, foi necessário efetivamente povoar a nova e extensa terra.
Porém, com a estrutura rudimentar das feitorias, que se reduzia a poucas pessoas cujo papel
estava relacionado ao entreposto comercial e à defesa armada, a Coroa portuguesa não
estava conseguindo atingir esse objetivo. Era necessário ampliar e incrementar as feitorias
para intensificar a economia mercantil.

O projeto de ocupação da terra ocorreu por meio da concessão de grandes extensões


de terra. Embora este sistema pareça muito próximo ao que aconteceu na Europa durante
o período feudal, por se tratar de concessão de terra destinada à agricultura e com uma
aparente característica de autonomia, muitos historiadores interpretaram essa política de
povoamento como um retrocesso ao sistema feudal, que já estava em franca decadência no
século XVI. Essa significação, segundo Faoro (2014), não permite a compreensão de que o
processo de colonização foi determinado por fins mercantis.
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Faoro (2014) considera que, na verdade, o processo de colonização estava intimamente


ligado com a dinâmica do mercantilismo europeu e foi uma ampliação do sistema de
benfeitorias. Ou seja, o desejo era aumentar o volume do comércio e, para tal, era necessário
ocupar o território que cada vez mais mostrava uma vocação agrícola. Portanto, a ideia de
fomentar a agricultura nas terras brasileiras não estava relacionada ao desenvolvimento de
uma produção de subsistência a fim de garantir a vida do colono, o que se pretendia, na
verdade, era criar uma grande empresa produtora para o mercado europeu. Para desenvolver
este negócio, seria fundamental ocupar a terra.

Os interesses comerciais dominavam o reino de Portugal e eram eles que ditavam o


desejo de povoamento visando à exploração econômica do Brasil. Depois do intenso comércio
de pau-brasil, foi crescendo a importância e a lucratividade do comércio do açúcar. Para o
comércio de açúcar, era necessário, além do cultivo intensivo da cana-de-açúcar, a construção
de engenhos.

Quando Portugal deu início às concessões de território, já se tinha em mente o


potencial agrícola brasileiro para a produção de açúcar. Nas cartas de doações de terra e
nos documentos que regulamentavam a administração das terras concedidas, além de se
assegurar a exploração do pau-brasil, também se falava em aprimorar os engenhos.

O empreendimento colonizador promovido pelas capitanias hereditárias que marcaram


o início deste processo tiveram um caráter capitalista. É falsa a ideia de se tratar de uma
transposição de um modelo feudal tipicamente europeu. Com a colonização, a coroa
Portuguesa objetivou incrementar ainda mais seu comércio, tal como uma empresa investindo
em um novo projeto.

2.1 As capitanias hereditárias


A colonização requeria um alto investimento da coroa (FAORO, 2014), pois necessitava
de pessoas que se prestassem a vir para o Brasil como colonos. Isso não seria muito difícil, até
porque esta gente estava entre os gananciosos, ávidos pelo enriquecimento rápido. Para
administrar o processo de colonização e a colônia, burocratas do reino, acostumados com os
negócios do reino, e militares experientes fariam a composição do quadro de servidores. O
maior entrave para o empreendimento colonizador eram as dificuldades financeiras, ou seja,
a escassez de recursos do tesouro real.

Como implementar o grandioso projeto sem gastar tanto?

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A solução encontrada pelo reino de Portugal foi repassar grande parte do investimento
para a iniciativa particular. As terras doadas eram uma concessão do rei, ao passo que o
investimento e os recursos destinados a estabelecer o colono donatário nas terras concedidas
viriam do próprio colono. O reino garantia a guarda e o controle das novas terras para si, além
de lucrar com o que seria produzido nas terras colonizadas.

A atuação das feitorias teria que ser incrementada no sentido de ampliar seu papel
administrativo nas colônias (FAORO, 2014). Caberia às feitorias a partilha da terra, as
cobranças de impostos assim como o controle de toda a movimentação financeira oriunda
do comércio. Cada capitania funcionaria como um estabelecimento destinado à defesa do
território contra os invasores que vinham pela costa e também como uma unidade destinada
à atividade produtiva que permitisse favorecer o comércio português. A atividade pública
estava ligada a coordenar o processo de fixação do colono com a garantia de que houvesse
produtividade e a explorar o comércio dos produtos da terra. Faoro (2014) enfatiza um fato
que devemos ter sempre em mente: a colônia era parte dos negócios do rei.

Os donatários, como ficaram conhecidos os senhores da terra no período inicial das


capitanias hereditárias, recebiam a terra e um foral. O foral era um documento que
regulamentava a administração da terra, assim como os direitos, deveres e privilégios
consignados ao donatário. Podemos destacar entre os direitos e deveres dos donatários
(SANTANA, [s.d.]):

• criação de vilas;

• doação de terras;

• administrar as terras;

• exercer autoridade judicial;

• usar os índios como mão de obra escrava;

• receber parte do lucro do comércio de pau-brasil.

Entre a parte das taxas devidas ao rei, estavam 10% da receita de produtos agricultáveis
e 1/5 dos metais preciosos.

O donatário era o governador da terra e agia em nome do rei. Assim, os negócios do rei
eram também seus. Sobre a atuação do donatário em atividades como o comércio, a justiça,
a cobrança de impostos, Faoro (2014) ressalta que não pode ser vista como um privilégio
do ponto de vista econômico e político, pois estas seriam suas atribuições enquanto agente
público subordinado ao rei. Logo, podemos entender que as terras doadas aos donatários não
se constituíram, na prática, como uma propriedade privada, mais sim como uma extensão
territorial do rei e do Estado português, uma vez que ao rei cabia o direito de conservar ou
modificar as capitanias de acordo com as necessidades do Estado ou da colônia, conforme

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sugerisse a ocasião.

Outro fato que serve pra corroborar a ideia de que a colônia seria um negócio do rei é
que este não recrutou para donatários pessoas com experiência no setor do comércio, mas
sim pessoas próximas ao rei, burocratas, nobres ou militares, os quais o soberano poderia
manter com “rédeas curtas”, já que os vínculos de dependência garantiriam a proximidade.

O controle do rei sobre a colônia, apesar de traçar as estratégias políticas que garantissem
seu domínio, era frágil. A distância entre o reino e a colônia acabou sendo uma situação
que pendia para a autonomia dos donatários. O rei estava sempre atento a este estado de
coisas. Por isso, “pesava” sobre a cabeça dos senhores da terra a prerrogativa real de anular
o contrato de doação da terra.

Figura 1 – O mapa das capitanias hereditárias

Fonte: Atlas Histórico Escolar (1991, p. 16).

2.2 Sobre a política de distribuição das terras: as sesmarias


A distribuição de terras para fins de colonização teve como princípio norteador uma
antiga política portuguesa, estabelecida ainda no século XIV, baseada na Lei das Sesmarias.

Na época das capitanias, o território brasileiro era mais ou menos a metade do que ele
é hoje; todavia, para a coroa portuguesa tratava-se de uma imensidão de terras. Apesar de
ter dividido o território colonial em 15 capitanias hereditárias, mesmo assim seria bem difícil
para o donatário aproveitar a terra que lhe foi doada no sentido de torná-la o mais produtiva
quanto fosse possível.

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Ao donatário era permitido a doação de terras de sua capitania com o objetivo de fazer
de toda a terra um solo produtivo. Esta ação de doação foi normatizada através da Lei das
Sesmarias. Foi para atender às necessidades econômicas da metrópole que a política de
distribuição de terras foi aplicada, para garantir o maior rendimento possível da terra.

A garantia da produtividade estava, teoricamente, determinada pela lei. O sesmeiro,


nome dado ao proprietário de uma sesmaria, teria que garantir a produtividade da terra,
sob a pena de ver suas terras sendo repassadas para quem quisesse realmente cultivá-las.
Assim, a lei imprimiu uma lógica na política de distribuição de terras que garantiria a plena
produtividade. Já ao donatário cabia a preocupação de fazer do sesmeiro um produtor, ou
então, por força da lei, teria que repassar o terreno para outro, pois se tratava de seu próprio
chão, doado pelo rei e o donatário também tinha a obrigação de produzir em sua terra. O que
podemos entender disso é que, na verdade, o donatário doava sesmarias em nome do rei, e
não em seu nome. Desta forma, o sesmeiro estava subordinado ao rei e não ao donatário e
tinha a obrigatoriedade de pagar o dízimo para a coroa.

O sistema de distribuição de sesmarias foi responsável pelas relações sociais e


políticas, reforçando uma submissão à coroa. E, ao mesmo tempo em que o sesmeiro foi
se transformando, ao longo da história do Brasil, surgiu um grande proprietário rural, o
latifundiário, a elite do período colonial (SOUSA, [s.d.]).

Aos sesmeiros não cabia a concessão de sesmarias, entretanto, na prática, o sesmeiro,


muitas vezes, por perceber que não teria capacidade de produzir na extensão de sua gleba,
decidiu reparti-la com outros colonos, dando origem aos posseiros. Estes cultivavam a terra
sem ter nenhum poder legítimo sobre elas, já que estavam ali de forma ilegal, em contraste
com a sesmaria, já que esta, sim, dava a posse legítima da terra através de escritura pública.
Assentado por meio de uma transação ilegal, o posseiro muitas vezes pagava para o dono da
terra a prerrogativa de estar usando a terra.

O sistema de distribuição de terras através das sesmarias enfrentou muitos problemas


nos séculos em que esteve vigente, até ser revogada sua lei em 1822, caducando, desta
forma, o sistema de doações, para entrar em vigor a lógica de compra e venda. Entre os
problemas que podemos listar, destacamos: a doação de terras de forma ilegal e a dificuldade
de fiscalizar se a lei estava sendo cumprida (a obrigatoriedade do cultivo da terra). Além
desses dois fatores, Faoro (2014) aponta outro: a Lei da Sesmaria permitiu a fixação de
latifúndios e, consequentemente, de uma elite cada vez mais poderosa e menos submissa
às determinações régias. Percebendo o fato, a administração real, no século XVIII, definiu o
limite máximo que uma sesmaria poderia ter, o que a lei original não havia determinado.

2.2.1 A herança da política da sesmaria na estrutura agrária brasileira

A Lei das Sesmarias é considerada, por muitos autores, como a origem do problema
agrário no Brasil, porque dela resultou a grande concentração de terras nas “mãos” de poucas
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famílias. A terra doada, resultado de doação, acabou também sendo sinônimo de poder.
A terra era cedida na condição de ser agricultada; mas, na prática, a “frouxa” fiscalização
acarretou a consagração de latifúndios improdutivos.

A elite que se formou sobre estas grandes extensões rurais garantiu para si poder e
privilégios, e assim a preservação de suas prerrogativas. Em contrapartida, esse mesmo
sistema que permitiu a existência do grande latifundiário, também gerou os sem-terra.
Até o início do século XIX não era permitida a compra de terras no Brasil, não havia lei que
amparasse esta transação visto que a Lei vigente era a da Sesmarias, que determinava que
a terra deveria ser repartida através de concessões. Então, a forma de lavrar a terra sem
ser sesmeiro era através de meios ilegais de ceder a terra para a lavoura em troca de algum
pagamento periódico.

Fica evidente que a estrutura fundiária brasileira, desde o início, foi marcada pela
desigualdade. Também desde o início havia, já na Lei da Sesmaria, a ideia de que a terra
deveria sempre cumprir com sua função social, de que precisava sempre ser destinada à
produção de riqueza – seja qual fosse o destino dessa riqueza (REIS, [s.d.]). Se a terra não
estava sendo utilizada, porque não deixar que outro a ocupasse?

A questão agrária no Brasil tem raízes profundas na nossa história e é


resultado da forma como o colonizador português definiu a distribuição de
terras.

2.3 Um povo de costas para o Brasil


A proposta de colonização das terras brasileiras determinou algumas características
específicas da população colonizadora. Os que para cá vieram, incluindo aqueles que
receberiam capitanias, não vieram com a expectativa de fundar algo novo marcado pela
autonomia e iniciativa. Vieram funcionários do rei para servirem de soldados e para cultivarem
lucros para o reino. É fácil perceber que os que vieram para cá mantiveram vínculos com o
Estado português, e não com a terra, com o espaço que vieram colonizar. Do mesmo modo que
a vida cotidiana era voltada para fora do Brasil, pois tudo o que se fazia aqui era para a coroa,
para o rei, era destinado para fora do Brasil. Tudo isso determinou uma dificuldade intrínseca
de fazer com que o colono criasse laços com a terra, diferente do que aconteceu em outras
experiências de colonização, como aconteceu, por exemplo, na história do povoamento dos
Estados Unidos.

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Inicialmente, a população não criou povoamentos, vilas, cidades, mas foi habitar as
cercanias já determinadas pela administração a serviço do rei. Toda a organização social
carecia de autonomia, já que a “mão” do Estado português moldava a estrutura social,
política e econômica da colônia. Como era importante garantir o sucesso econômico da
colônia, esta era tomada como uma empresa, cujo modelo administrativo estava fora, não
sendo determinado por quem executava as atividades.

Outra importante característica do povoamento do Brasil nos primeiros anos foi o fato de
que vieram para cá um grande número de homens sem vínculos familiares. Esses homens, de
forma geral, não tinham como objetivo estabelecer-se na terra. Eles queriam, sim, procurar
uma forma rápida de enriquecer na colônia, para então voltarem para a Europa, à civilização.

O historiador brasileiro Sérgio Buarque de Holanda explorou bem essa faceta do


colonizador que veio para o Brasil, ao distinguir o “homem aventureiro” do “homem
trabalhador” (GOLDMAN, [s.d.]): o primeiro foi aquele que procurou enriquecer de forma
rápida e oportunista; já o segundo estava orientado por valores éticos voltados à pratica do
trabalho, era um empreendedor, o que plantou e criou “raízes” na terra. Para Goldman ([s.d.]),
o tipo de pessoa que veio povoar o Brasil nos anos da colonização era bem mais do tipo
“aventureiro” do que “trabalhador”. E esse homem aventureiro colaborou para estabelecer
uma cultura do relacionamento humano com valores éticos fracos e avesso aos ordenamentos
legais.

Será que aquele “homem aventureiro”, que veio para o Brasil para obter
vantagens e enriquecer, não está ainda presente no cotidiano do povo brasileiro
através de suas práticas?

2.4 O fracasso das capitanias hereditárias


A política das capitanias hereditárias fracassou em seus propósitos em alguns aspectos
fundamentais. Cabe destacarmos o fato de não ter resguardado o território da invasão de
inimigos ávidos por nossas riquezas e o controle e a pacificação da população indígena,
um foco de constantes conflitos (FAORO, 2014). Podemos somar a estes aspectos, os quais
revelaram o insucesso do sistema das capitanias, a distância entre o reino de Portugal e a
colônia e a grande extensão das terras brasileiras.

Saiba que as únicas capitanias que prosperaram economicamente foram as de


Pernambuco e São Vicente. As capitanias hereditárias duraram pouco, e, no ano de 1549, a

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coroa portuguesa instaurou no Brasil o governo-geral, com o objetivo de dar continuidade ao


seu projeto de prosperidade econômica e financeira.

Considerações finais
Nesta aula, conhecemos as políticas através das quais o colonizador português procurou
estabelecer no Brasil uma empresa lucrativa, alguns anos depois de ter descoberto as terras
do outro lado do Atlântico.

As capitanias hereditárias foram o primeiro impulso para o investimento na colônia,


com o objetivo de que ela rendesse ao Estado português muita riqueza. Não era possível
enriquecer por meio da terra sem povoá-la e sem protegê-la dos mercenários vindos dos
mais diversos lugares; por isso, a ideia das capitanias pareceu uma instituição interessante
para servir aos propósitos da coroa.

A Lei da Sesmaria foi o instrumento jurídico através do qual o Estado português distribuiu
as terras na colônia; todavia, essa política de distribuição de terras trouxe sérios problemas
para a estrutura agrária no Brasil.

Por fim, você percebeu que a maioria dos homens que povoou as terras brasileiras era do
tipo aventureiro, cujo principal propósito era o de enriquecer facilmente para depois voltar
para a Europa.

Referências
Atlas histórico escolar. Rio de Janeiro: FAE, 1991.
FAORO, R. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. São Paulo: Globo
Livros, 2014.
GASPARETTO JUNIOR, A. Feitorias. 2010. História Brasileira. Disponível em: <http://www.
historiabrasileira.com/brasil-colonia/feitorias/>. Acesso em: 27 ago 2014.
GOLDMAN, E. A Cultura Personalista como Herança Colonial em Raízes do Brasil. Educação
Pública. Disponível em: <http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/historia/0002.
html>. Acesso em: 27 ago 2014.
REIS, C. S. A função social da propriedade rural e o acesso à terra como respeito à dignidade
da pessoa humana. Âmbito Jurídico. Disponível em: <http://www.ambito-juridico.com.br/
site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=2912>. Acesso em: 1 set. 2014.
SANTANA, M. I. Capitanias Hereditárias. Infoescola. Disponível em: <http://www.infoescola.
com/historia/capitanias-hereditarias/>. Acesso em: 31 ago 2014.
SOUSA, R. G. As sesmarias. Mundo Educação. Disponível em: <http://www.mundoeducacao.
com/historiadobrasil/as-sesmarias.htm>. Acesso em: 28 ago 2014.

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Aula 03
Governo geral: a centralização e os caudilhos.

Objetivos Específicos
• Compreender o sistema de gestão política do período colonial implementado
pelo governo geral.

Temas

Introdução
1 O governo geral
2 O poder centralizado e a criação de municípios
3 A conquista do interior
Considerações finais
Referências

Professora
Ana Paula Rupp Hamms
Estado, Governo e Sociedade

Introdução
Nesta aula, você verá mais um pouco da história do Brasil colonial, com ênfase na
formação do Estado, do declínio da administração embasada nas capitanias hereditárias à
constituição do governo-geral e sua gestão centralizadora e autoritária.

A fundação de municípios fez parte da administração do governo-geral e, mesmo que


aparente justamente o contrário, veremos que essa dinâmica fez parte do projeto de um
governo centralizado, que determinou, entre outras coisas, a produção do espaço urbano de
nossas primeiras cidades.

Abordaremos o processo que determinou a conquista do interior da colônia, por meio


das incursões protagonizadas por paulistas que ficaram conhecidos como bandeirantes até a
ascensão e o declínio do poder dessa camada da população.

Você entenderá a sucessão de acontecimentos históricos que levou o governo-geral a


tratar a colônia de forma cada vez mais autoritária, tendo em vista, principalmente, o sucesso
econômico da metrópole portuguesa.

O autoritarismo português deixou marcas indeléveis em nossa sociedade. A trajetória


pelos caminhos de nossa história visa a mostrar que a maneira como o Estado se estabeleceu
e configurou seu poder na colônia foi determinante para a formação da cultura política do
brasileiro de ontem e de hoje.

1 O governo geral
A administração das terras coloniais por meio do modelo das capitanias hereditárias
durou pouco tempo (1530-1548). Em 1548, o governo português instituiu o governo geral,
instalado na Bahia no ano seguinte. É importante destacarmos que a divisão política em
capitanias e o domínio dos donatários foram mantidos, sendo que o que mudou foi a forma
de administrar, ou seja, o conjunto de mecanismos utilizados para o controle da colônia foi
refeito. O sistema de divisão política em capitanias hereditárias perdurou até o ano de 1759.

Na prática, o que mudou: durante a vigência do governo com base em capitanias, havia
uma delegação de poderes de Estado a mandatários locais; com a instituição do governo
geral, o poder de Estado passou para as “mãos” do governador geral. Era um processo de
centralização do poder, que estava distribuído entre os donatários.

O fracasso das capitanias orientou o reino português para uma nova forma de governar.
Apenas as capitanias de São Vicente e de Pernambuco prosperaram, mas as demais
sucumbiram na pobreza e não lograram o êxito esperado por Portugal. Mas o que, exatamente,
era esperado das capitanias? O que determinou seu fracasso?

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1.1 Causas do fracasso das capitanias hereditárias


Grande parte das capitanias fracassou do ponto de vista administrativo, visto que não
conseguiram proteger as terras brasileiras do inimigo externo, que chegava ao litoral e
saqueava o que podia, principalmente o pau-brasil; também não conseguiram submeter o
inimigo interno, ou seja, os índios, que estavam em conflito constante com o colonizador
português.

O fracasso político implicava dificuldades em alcançar o sucesso econômico esperado


por Portugal com a extração de madeira e a produção de açúcar, já iniciada na época das
capitanias. Ou seja, Portugal esperava um ganho econômico muito maior do que teve durante
o período das capitanias; por isso, acabou mudando de estratégia.

Há ainda, segundo Faoro (2014), outro motivo que determinou o fim das capitanias
hereditárias como estratégia de governo, e que não estava diretamente ligada aos fracassos
políticos e econômicos: o vínculo que os donatários passaram a ter com a terra.

O rei foi alertado, por seu estamento, sempre com receio de perder seus privilégios, de
que os donatários estavam tomando aquilo que seria para ser governado em nome do rei, ou
seja, as capitanias, consideradas como algo que fosse seu, de forma privada. Estabeleceu-se,
então, uma confusão entre o bem público e o bem privado, o que é próprio de um Estado que
se estabelece a partir de uma lógica patrimonialista. Só que os senhores, ao cuidarem das
capitanias de forma particular, procurando fazê-las prosperarem economicamente, cuidavam,
na verdade, dos interesses reais. Da mesma forma que, quando defendiam o território das
colônias de corsários e índios, estavam em princípio defendendo a si mesmos – pois dessas
ações dependia a própria vida.

Eram ciumentos os funcionários do rei, pois, para eles, os donatários pareciam estar
tomando de forma privada aquilo que também lhes pertencia, o Estado, os bens públicos do
reino de Portugal e de seu rei. Assim, crescia “nos olhos” do estamento a visão de que esses
primeiros colonizadores eram, na verdade, usurpadores das riquezas do reino.

A colônia, sendo distante do centro do poder, acabou como um terreno propício para
o desenvolvimento de interesses meramente particulares com relação ao que aqui se fazia.
Para Faoro (2014), tanto donatários quanto os colonos vieram reproduzir na colônia o mesmo
espírito de ganância que levou muitos portugueses à Ásia, para o enriquecimento rápido
e fácil. Usavam a terra de forma apenas proveitosa, sem criar raízes, pois o que motivava
o espírito aventureiro dos primeiros colonizadores era o enriquecimento seguido de um
retorno à Portugal, para que pudessem desfrutar suas riquezas.

Diante dessa situação, o reino de Portugal achou que deveria por “ordem na casa”
administrando a colônia mais de perto e, para isto, instituiu o governo geral.

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1.2 A instalação do governo-geral


O governo-geral, logo de início, absorveu as funções públicas dos donatários quanto
à defesa do território, à cobrança de impostos e aos encargos com a justiça. O primeiro
governador-geral, Tomé de Sousa, foi nomeado como capitão da capitania da Bahia, seria
seu governador-geral, assim como das demais capitanias e terras brasileiras. Tal feito foi
protestado pelo donatário das terras bahianas, Duarte Coelho, pois, além de ser destituído
de seu poder político, também foi usurpado de “seu” patrimônio a capitania.

Isto pode nos parecer meio contraditório hoje porque distinguimos bem o patrimônio
particular do patrimônio público. Mas o donatário da Bahia contestou que foi retirado dele o
que tinha como privado, a terra, e a terra lhe parecia privada porque era dela que o donatário
sobrevivia. No entanto, o patrimônio territorial havia sido doado a ele, como uma concessão
pública, de um bem público, mas que o donatário passaria a usufruir dela também de forma
privada. Entendida dessa forma, a atitude do rei não é absurda, pois patrimônio público e
privado eram coisas que não estavam, na maioria das vezes, separadas.

Apesar de estar muito nítido o caráter indistinto entre o bem público e o bem privado
naquela época, é importante refletirmos que ainda hoje podemos enxergar que essa separação
não foi ainda concretizada totalmente no que diz respeito à cultura política brasileira, ou a
forma como as elites têm se comportado historicamente, com relação ao patrimônio público.

É importante deixar claro que o governo-geral estava focado no potencial econômico


da colônia. Dessa forma, as novas determinações políticas que visavam a estabelecer, de
fato, o poder da Coroa em terras coloniais, estavam voltadas para a garantia de riquezas.
O empenho na defesa do território, o exercício exclusivo de atividades navais (o colono
foi proibido de construir qualquer tipo de embarcação de grande calado) e o controle
das excursões rumo ao interior – foram ações de governo que mostravam a ideia de
que o controle administrativo seria também o controle econômico. A população deveria
ser controlada; logo, era proibido que dispersassem para o interior da colônia, pois era
importante que todo o povoamento estivesse ao alcance da coroa.

1.3 A divisão de poderes


O novo modelo centralizador de governar não estava preocupado em controlar apenas
o povo, mas todos aqueles que estavam submissos ao rei, seu estamento, e em todos os
lugares onde ele estivesse.

O próprio governador-geral não estava isento do controle da Coroa. Por isso, o estatuto
do governo-geral instituiu os cargos de provedor-mor, com a autoridade máxima para
deliberar questões fazendárias (para a gestão das finanças públicas), e de ouvidor-mor, para a
última instância de assuntos ligados à justiça. Esses dois cargos não estavam subordinados ao

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governador-geral. Estava dividido o poder do governo-geral em três setores: administrativo,


financeiro e jurídico. No entanto, esses setores deveriam ter um propósito comum, qual seja,
a garantia de riquezas para a Coroa.

Mesmo com essa estrutura de governo, mesmo com a pretensão de regular o curso da
vida social na colônia de forma opressora, o Estado não alcançava todas as áreas povoadas e
tampouco todo o território. As distâncias eram grandes, dificultando a comunicação entre o
quadro administrativo. Muito do que acontecia na colônia fugia “das garras” da Coroa, só que
essas manifestações eram, por vezes, fortemente repreendidas e, em outras, havia tolerância.
Contando que o governo-geral durou até o fim do período colonial, não foi constante quanto
à sua rigidez.

2 O poder centralizado e a criação de municípios


Uma das facetas do modelo administrativo implantado pelo governo-geral foi a da criação
de municípios. A municipalização pode até parecer um processo que garante certa autonomia
local, mas o objetivo era o contrário. A criação dos municípios significou um controle mais
centralizado por parte da metrópole.

2.1 A administração das cidades


A prática do controle administrativo no âmbito local era um antigo hábito de governar
do reino de Portugal, quando usado para conter os exageros da nobreza e recolher impostos.
Na colônia, serviria para controlar os audaciosos senhores de terra e suas pretensões de
autonomia diante da Coroa. Para Faoro (2014), o modelo de governo serviria também para
valorizar o povo em detrimento dos que detinham o poder local (senhores de engenho e
fazendeiros), aprimorar a arrecadação de tributos, organizar o povoamento, submeter os
moradores ao poder da realeza e recrutar soldados.

Uma das formas de controlar a insurgência dos senhores de terra, e mesmo de uma parte
dos moradores das cidades, era dando-lhes cargos públicos dos quais demandasse pouco
poder, mas para “entrelaçá-los nas malhas” da Administração Pública. O poder municipal
procurava gerenciar as tensões sociais e políticas entre o governo e a população. Do ponto de
vista econômico, as câmaras municipais foram criadas para fiscalizar mais de perto o comércio
e o pagamento de tributos devidos ao rei.

Em meados do século XVII essa característica meio complacente do governo para com o
colono mudou. A ascensão da casa de Bragança ao trono inaugurou uma postura muito mais
autoritária.

A Península Ibérica foi palco, no século XVII, da luta de Portugal para recuperar
sua soberania, já que se encontrava sob o domínio de Castela (Espanha). Desgastado

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economicamente pela guerra e pelos acordos que teve que fazer (com a Holanda e com a
Inglaterra) para vencer o conflito, o reino lusitano se voltou vorazmente para sua colônia,
enrijecendo demasiadamente a política autoritária e centralizadora.

Com relação aos municípios, sua administração e representatividade, ligadas às câmaras


(órgão de deliberação da política local) apesar de mantidas, perderam seu poder e passaram
a ser submetidas ao governo-geral. Assim, às câmaras municipais restava o papel de simples
obediência.

2.2 A produção do espaço urbano no Brasil colonial


O processo de urbanização da colônia, ou seja, o surgimento das cidades, não aconteceu
de forma espontânea, no sentido da autodeterminação daqueles que por aqui chegavam. No
Brasil colonial, o governo fundava a cidade e já delegava a um capitão-mor regente (que, nos
dias de hoje, seria o prefeito) para a administração municipal.

Conforme Faoro (2014), na história brasileira a realidade foi sendo forjada de maneira
autoritária. Era escolhido o lugar onde se fundaria o núcleo populacional, que nascia ao redor
de três fundamentos: o pelourinho, um pilar de pedra ou madeira onde os infratores eram
punidos e que simbolizava a presença do rei; a igreja, que representava a vigilância de uma
autoridade moral; e a alfândega, o entreposto comercial, além de ser o lugar onde se realizava
a cobrança de tarifas e impostos. Com o poder instalado, a população se assentava.

A escolha do lugar estava diretamente relacionada a critérios econômicos e de defesa da


costa brasileira. Quanto aos critérios econômicos, o escoamento da produção era o principal
aspecto, por isso, as primeiras cidades litorâneas tinham características portuárias, com baías
nas quais era possível que um navio aportasse (LUNARDI, 2011). Pesava também a questão
da defesa do território para a escolha do sítio de povoamento. No interior, em locais onde
já havia certo número de latifúndios, o governo instalava cidades para impor seu poder, de
forma estratégica, para inibir o espírito autônomo dos senhores de terra e também para
controlar a produção das fazendas (FAORO, 2014).

3 A conquista do interior
Nos primeiros anos de colonização, o povoamento tinha como base no litoral. Por motivos
econômicos, para que houvesse a exploração imediata dos recursos naturais e o assentamento
da lavoura, assim como a facilidade de escoamento dos produtos para o comércio, a costa
brasileira representava uma maior probabilidade de lucro rápido e com menor custo e risco
do que se fosse feito no interior.

A incursão para o interior representava mais despesas com o combate ao índio e o


desbravamento da floresta. No entanto, o passo para o interior tinha que ser dado, pois a

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esperança da riqueza e do proveito econômico dominava a Coroa Portuguesa e o interior


aguardava o colonizador com a promessa de novas riquezas, ou seja, a velha “fome por ouro”
lançou o governo português ao desconhecido. Por isso, a Coroa Portuguesa tomou o rumo
do interior, oficialmente, a partir da bacia do rio São Francisco, ainda do século XVI. Nesse
movimento, fez o reconhecimento da região do sertão nordestino, mas não o ocupou.

No entanto, na capitania de São Vicente, onde a lavoura da cana-de-açúcar não teve


tanto êxito como aconteceu no nordeste, houve, continuamente, incursões para o interior,
em todas as direções do território. Nessa região nasceu uma categoria social distinta, a dos
conquistadores (FAORO, 2014). O impulso pelo bandeirantismo se iniciou no final do século
XVI e seus levantes duraram mais trezentos anos.

Esses homens conquistadores foram para o interior respaldados pelo governo. Por suas
ações de desbravadores, ganhavam a concessão de grandes extensões territoriais e podiam
também escravizar índios. Seus objetivos eram: procurar ouro, encontrar terrenos próprios
para a criação de gado e cativar o indígena. Os objetivos do governo eram mais amplos, pois
este desejava também aumentar o território da colônia.

Segundo Faoro (2014), o que tornou o Brasil economicamente viável foi a conquista do
interior. E esta foi uma brava conquista, visto que portugueses e espanhóis brigavam pelo
território, que fora tacitamente dividido pelo Tratado de Tordesilhas (1494).

Faoro (2014) alerta que os desbravadores não eram como funcionários públicos, apesar
de serem apoiados pelo governo, tampouco as excursões para o interior faziam parte de algum
plano de governo, no sentido que conhecemos hoje. O governo apoiava os bandeirantes
mediante um contrato que lhes garantia privilégios públicos, como já foi dito aqui. Algumas
vezes, o governo financiava parte das jornadas, as quais na maioria das vezes eram custeadas
pelo próprio desbravador.

Com prerrogativas de funcionário público, estava longe de ser um tipo burocrata, mas
era essencialmente um militar. Apesar da faceta militar (em muitos momentos até ganhavam
soldo), não eram como um exército, pois esses conquistadores não eram mantidos em
caráter permanente, já que as milícias eram organizadas por campanha, de acordo com a
necessidade. O recrutamento para as bandeiras era fácil, visto que os colonos achavam muito
honrosos os títulos militares.

As ações dos desbravadores submetiam-se a uma autoridade pública, mas o lucro obtido
nas conquistas poderia ser investido, de forma particular, no sustento da tropa visando à
manutenção do lucro da atividade. Mais uma vez, as relações entre o Estado e a sociedade
apresentavam um caráter patrimonialista.

Ao lado das bandeiras oficiais, também havia aquelas totalmente desvinculadas da


autoridade pública. Embora tivessem os mesmos objetivos, a incursão para o interior ocorria
sem a outorga de privilégios para seus comandantes ou qualquer outro incentivo público. E,

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apesar de não serem legalmente autorizadas, eram toleradas, pois essas bandeiras cumpriam
a importante missão de conquistar o interior da colônia.

Nos primeiros tempos, as entradas para o interior não enriqueceram os desbravadores,


que tinham como principal atividade econômica o comércio de índios para serem usados
como mão de obra escrava. O índio valia muito menos do que o escravo africano. A riqueza
só chegou com a descoberta das minas de ouro.

Os desbravadores eram, portanto, uma camada social sem riqueza, se comparados aos
senhores de terra do nordeste, com suas lavouras de cana e os engenhos de açúcar. Sem
riqueza, mas com poderes, privilégios e honrarias, fatores que contribuíram para a formação
de caudilhos.

Caudilho: é uma autoridade ligada a uma patente militar; a ação política


do caudilho ao exercer a liderança sobre um grupo de pessoas é chamada de
caudilhismo. Para saber mais a respeito dos caudilhos, acesse o link disponível
na Midiateca da disciplina.

3.1 Os caudilhos
Vê-se, mais uma vez, o papel do Estado moldando as relações sociais e caracterizando
os indivíduos. A pompa militar, somados os títulos militares e as façanhas heróicas realizadas
em campanha (captura ou matança do gentil e as vitórias contra os espanhóis), deram a essa
camada social ares de nobreza, uma nobreza sem terra.

Os bandeirantes tornaram-se caudilhos. Líderes com atributos militares, formavam em


torno de si uma rede de influência que determinava uma posição de poder. Estabelecidos
no interior da colônia, estavam longe do alcance das “rédeas” do governo-geral, ou seja, da
Coroa Portuguesa. A autonomia e a soberba do herói pelas armas do caudilho representou
uma ameaça para o reino de Portugal. Dessa forma, o governo criou seu “monstro”, que
reivindicava independência, em contraste com o centralismo do governo colonial.

A verdade é que, enquanto os caudilhos tinham serventia para a Coroa, neutralizando e


escravizando o indígena e guerreando contra os espanhóis, foram prudentemente tolerados.
Essa circunstância deu ainda mais poder para os paulistas, acentuando sentimentos de
autonomia no comando da política local.

Lembramos que uma das motivações dos bandeirantes era a de buscar ouro e pedras
preciosas no interior, o que de fato aconteceu no final do século XVII. Os bandeirantes

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caçavam índios quando se depararam com uma grande jazida de ouro, começando, assim, a
exploração das minas pelos paulistas.

Figura 1 – Monumento aos bandeirantes.

3.2 A descoberta do ouro


Com a descoberta oficial das minas, a indulgência para com o caudilho paulista
mudou radicalmente. A tendência autoritária e centralizadora do governo metropolitano
se consolidou com mais rigor ainda. Apesar de mantidos em seus cargos militares e civis,
aumentou o controle sobre os atos dos paulistas e foi encerrada a concessão de honrarias, as
trocas de favores e a tolerância.

Instaurou-se o processo de controle das minas, inicialmente nas “mãos” dos paulistas,
pois foram os que descobriram o ouro. As minas não atraíam só “os olhos” da Coroa
Portuguesa, mas também de toda a gente. Além dos paulistas (bandeirantes) e reinóis,
forasteiros chegavam de toda a parte atraídos pelo “El Dorado”. Instalou-se, dessa forma, o
conflito conhecido como Guerra dos Emboabas.

No conflito entre o bandeirante estabelecido na terra para explorar minas e os emboabas


(assim os paulistas chamavam os forasteiros), o governo ficou do lado dos paulistas. Com a
ajuda do poder da Coroa, que enviou às minas forças militares, os paulistas reconquistaram
o domínio da região. Mas, essa mesma circunstância que os fez vencer, também determinou
sua derrota. A autoridade burocrática e militar enviada para a região de conflito, acalmados
os ânimos e encerrada a disputa, acabou tomando o poder definitivamente nas minas. Os
caudilhos foram destituídos de suas funções públicas e militares. As “leis” estabelecidas pelos
heróis do sertão não vigoraram mais, valia o que era determinado pela metrópole.

A Coroa deslumbrava-se com o brilho do ouro e o garantiu para si com a tributação


da quinta parte do metal que era fundido. Fiscalizava de forma rigorosa o tributo devido à
Coroa. Não só nas minas, mas em toda a colônia, o incipiente poder local foi drasticamente

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aniquilado e o quadro administrativo viu sua autonomia restrita apenas para a realização de
pequenas obras de benfeitoria, como a abertura de estradas ou a construção de pontes.

A disciplina régia foi acirrada naquele momento. A burocracia aumentou o controle


sobre as riquezas. O Estado só “tinha olhos” para o que o ouro representava para seus cofres,
governando para si e não para o bem público. Para Faoro (2014), o cenário explica a cultura
de obediência e de silêncio que é vivida pelo povo brasileiro, estabelecida em séculos de
história, na qual foi cobrada a submissão do povo, ficando restrita às elites a prática política.

A prática do Estado (do poder centralizado, da autoridade atroz e de avidez por riqueza
consubstanciada na cobrança de impostos) colabora para a percepção popular de que o
Estado existe para si mesmo, para seus interesses e não para as demandas da população. Os
únicos a se beneficiarem do bem público são aqueles que fazem parte do estamento, ou seja,
do quadro de funcionários do governo.

Você já ouviu falar na expressão “quinto dos infernos”? Talvez você já


tenha mandado alguém para o “quinto dos infernos” sem saber ao certo onde
fica isto. Você leu no texto que o governo português tributava a quinta parte do
ouro que ia para as casas de fundição; então, o metal valioso era enviado para
Portugal em navios que ficaram conhecidos como “naus dos quintos”. Quando
esses navios chegavam à metrópole, os portugueses diziam: “Lá vem a nau dos
quintos dos infernos”, fazendo referência ao Brasil, querendo se referir a um
lugar longínquo, repleto de tormentos (MOIOLI, 2004).

Considerações finais
Nesta aula, você viu que o governo-geral se instalou na colônia para garantir aquilo que
esperava dela: aumentar sua riqueza.

O governo-geral foi uma forma de governo centralizadora e autoritária. Apesar de ter


composto uma estrutura de governo que favorecesse uma descentralização, como no caso
da fundação de cidades e suas câmaras ou fomentando as incursões pelo interior da colônia
e concedendo privilégios aos desbravadores, ou seja, mesmo com arranjos políticos, o que se
viu na colônia foi uma submissão ao poder cada vez mais despótico da Coroa.

A Coroa Portuguesa estava principalmente preocupada com a exploração econômica da


colônia, assim, o poder público governava em benefício próprio e não pelo bem comum. Essa
característica do Estado português provocou a construção de uma cultura política brasileira
ligada à perspectiva patrimonialista.

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Referências
FAORO, R. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. São Paulo: Globo
Livros, 2014.

IGLESIAS, F. Caudilhismo. Disponível em: <http://www.historianet.com.br/conteudo/default.


aspx?codigo=40>. Acesso em: 10 set. 2014.

LUNARDI, E. M. As primeiras cidades brasileiras. 2011. Disponível em: <http://www.


folhaojornal.com.br/as-primeiras-cidades-brasileiras>. Acesso em: 8 set. 2014.

MOIOLI, J. O quinto dos infernos. Guia do Estudante. 2004. Disponível em: <http://
guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/quinto-infernos-433526.shtml>. Acesso em:
10 set. 2014.

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Aula 04
Independência ou morte: um novo sistema de governo para
um país independente.

Objetivos Específicos
• Compreender as principais transformações que ocorreram no Brasil durante
o Primeiro Reinado.

Temas

Introdução
1 Os preâmbulos da independência
2 O Primeiro Reinado
Considerações finais
Referências

Professora
Ana Paula Rupp Hamms
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Introdução
Nesta aula, resgataremos toda a sucessão de fatos que determinou o processo de
independência do Brasil. Da chegada da família real ao grito de independência de D. Pedro,
até as transformações sociais e políticas que determinaram o início do Primeiro Império.

Veremos que a presença da Corte Portuguesa no Brasil deu à colônia ares de


modernidade, mas as medidas tomadas na época não foram pensadas para beneficiar o
povo, tampouco as elites brasileiras. A presença da família real no Brasil resultou em uma
nova realidade que acabou levando o Brasil a tornar-se independente de Portugal.

Compreenderemos em que sentido a independência do Brasil apresentou uma nova


realidade de Estado e de governo, mesmo com a permanência de um regime autoritário, que
é garantido por nossa primeira constituição por meio do poder moderador.

Da popularidade à impopularidade de D. Pedro I, do rompimento com as forças políticas


que sustentaram o processo da Independência, conheceremos o processo histórico que levou
o Imperador a abdicar em nome de seu filho, na época com cinco anos de idade.

1 Os preâmbulos da independência
No decorrer dos séculos, as fazendas e os engenhos foram transformando suas
características, tonaram-se, no decorrer do tempo, unidades autossuficientes. Tudo se
produzia nos latifúndios e a monocultura garantia a renda do senhor da terra. As unidades
agrárias se tornaram também unidades de poder, ou seja, dentro da propriedade o senhor
tinha um poder quase que absoluto, era o “senhor de um pequeno reino”(FAORO, 2014).

No final do século XVIII, o cenário econômico e político do Brasil mudou bruscamente


com a crise que abateu os principais produtos coloniais; as jazidas de ouro estavam esgotadas
e o preço do açúcar caiu. Esse cenário fez a empresa agrícola, que estava sempre buscando
um equilíbrio entre a produção de açúcar para o consumo interno e o que era destinado à
exportação, assumir a tendência de abastecer muito mais o mercado interno do que o externo.
Como a unidade agrícola passou a consumir muito mais do que produzia, intensificou-se a
policultura para o consumo dentro do próprio latifúndio.

A diminuição da renda do senhor da terra fez com que ele se revoltasse com aquilo
que antes parecia não o atingir muito: os tributos. O que antes não “pesava” tanto, com
a diminuição do lucro advindo da exportação de açúcar, passou a ser encarado como uma
grande tirania da Coroa. Nesse cenário, também perdeu o comerciante, que deixou de fazer
negócio com os proprietários rurais e passou a depender dos funcionários do Estado para
vender suas mercadorias.

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Foi nesse ambiente de crise econômica e insatisfações de toda a ordem que a Corte de
Portugal chegou ao Brasil, fugindo do exército francês, liderado por Napoleão.

1.1 A chegada da corte portuguesa ao Brasil

Quando Napoleão preparava-se para invadir Portugal, no início do ano de 1808, a família
real e sua corte embarcaram para o Brasil, ficando cerca de um mês na Bahia, para depois
se instalar definitivamente no Rio de Janeiro, deixando o reino ao encargo de uma regência.

Vamos recordar um pouco por que isto aconteceu? Inglaterra e França estavam em
guerra; a França declarou o bloqueio continental, que nada mais foi do que a proibição de
qualquer outra nação comerciar com os ingleses. Só que Portugal, antiga parceira comercial
da Inglaterra, rompeu o bloqueio e manteve suas relações comerciais, o que levou Napoleão
a decidir invadir Portugal (BARRROS, [s.d.]). Escoltada e respaldada pelos parceiros ingleses,
a realeza portuguesa deixou Lisboa rumo à sua colônia.

Com a família real, vieram também serviçais, cortesões, além de outros funcionários
ligados ao Reino e muitos militares. No total, estima-se que chegaram “de uma hora para
outra” ao Brasil cerca de dez a quinze mil pessoas. A chegada da família real e sua comitiva
mudou o rumo da história do Brasil.

A primeira providência a ser tomada foi a abertura dos portos para todas as nações que
mantinham relações comerciais com Portugal. Vale lembrar que, antes desse episódio, nos
portos da colônia apenas podiam atracar navios comerciais portugueses. Mas, por que a
Coroa tomou essa decisão logo de início? Foi para abastecer a população lisboeta, recém-
chegada, de produtos com os quais estavam acostumados a viver.

O Brasil tomou “ares” de modernidade, de progresso, pois a presença da família real


provocou uma onda empreendedora. A construção de teatros, bibliotecas, escolas, museus,
entre outras realizações, criava uma realidade que era, na verdade, pensada para a família real
e todos os fidalgos que vieram com ela de Lisboa. As benfeitorias eram parte do investimento
do Estado nas pessoas que faziam parte de seus quadros, ou seja, de seu estamento. O
investimento público concretizou benefícios privados e o Estado patrimonialista já instalado
foi reforçado com a transferência da família real para o Brasil.

O campo político e da Administração Pública também não ficou para trás. O setor
administrativo do Estado foi moldado para empregar como funcionários os nobres
desempregados que seguiram a família real. O sentido era o de reproduzir no Brasil o que
havia em Portugal: a Coroa teria que favorecer a elite portuguesa. A família real esbanjava
seus recursos para manter pessoas em cargos inúteis, o que empobrecia cada vez mais os
cofres públicos.

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Em contrapartida, as relações comerciais modernizaram-se e o monopólio que garantia


o comércio apenas com negociantes portugueses foi revogado. O sistema produtivo também
entrou em uma nova fase, pois a proibição de implantar indústrias deixou de vigorar. Mas a
principal consequência dessas medidas foi a entrada dos produtos ingleses no Brasil. Porém, o
comerciante inglês entrou em choque com a forma de negociar do português (FAORO, 2014),
este último, acostumado às lógicas pré-capitalistas embasadas em transações fraudulentas e
em trapaças.

A quebra do monopólio comercial com Portugal e a liberdade para a prática industrial


foram medidas importantes para a acomodação e manutenção dos que vieram de Lisboa,
para que, principalmente, fosse mantido o seu estilo de vida. De outra parte, a pressão feita
pela Inglaterra para entrar no mercado brasileiro também determinou as mudanças do ponto
de vista da economia. No entanto, essas transformações representaram um conflito para
Portugal, pois entram em desacordo duas ideologias, dois capitalismos: o mercantil e o liberal.

A emancipação econômica significava um perigo para a Coroa, que acabava perdendo as


rédeas da economia, na medida em que as leis de mercado substituíam às lógicas mercantis.
O medo era o de a quebra do domínio econômico também fosse significar a ruína do sistema
monárquico.

Então, diante da ameaça representada pelo liberalismo, várias medidas foram tomadas
para garantir que o capitalismo estrangeiro, principalmente o inglês, não tomasse conta da
economia brasileira. Podemos destacar as principais previdências tomadas nesse período:

• criação do Banco do Brasil: para garantir crédito aos que quisessem montar uma
empresa;

• fundação de uma siderúrgica nacional: para produzir o ferro necessário para construir
o maquinário destinado à manufatura;

• inauguração de uma prensa oficial destinada à cunhar moedas;

• criação do Jardim Botânico: que funcionava como uma espécie de “laboratório”


destinado à adaptação de espécies vegetais que não pertenciam à nossa flora, mas
que poderiam ser aproveitadas na agricultura;

• construção de uma fábrica de pólvora: para produzir carga explosiva para as armas,
com o objetivo de garantir a defesa do país;

• implementação da construção naval: para que os navios passassem a ser produzidos


também no Brasil.

Tais medidas, apesar de demonstrarem certa índole nacionalista, foram tomadas com
o objetivo de manter o controle da ordem econômica da colônia portuguesa, ou seja, não
visavam a beneficiar o povo da colônia, nem as elites brasileiras foram favorecidas com

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as transformações que a chegada da família real e sua corte trouxeram. Pelo contrário, as
providências tomadas aumentaram o descontentamento não somente do povo mas também
das elites.

1.2 O descontentamento das elites brasileiras


Você deve supor que o povo brasileiro, da elite ao tipo mais popular, não gostou de ver
seu espaço invadido por toda a sorte de fidalgos portugueses; afinal, estes vieram para a
colônia gozando de inúmeras prerrogativas, muitos deles confortavelmente estabelecidos em
cargos públicos e, ainda, tratando com desdém tudo o que se relacionava à colônia.

De início, os fidalgos estabeleceram um laço estreito com os comerciantes estabelecidos


no Rio de Janeiro. Esse laço se fez porque muitos desses burgueses tiveram que sair das suas
casas e cedê-las para os lisboetas. Esta foi a solução dada pela Coroa para acomodar tanta
gente de uma hora para outra. O problema é que, depois de estabelecidos, os cortesãos não
saiam mais das casas. Soma-se a esse problema o fato de que o aluguel pago para o dono da
casa era quase insignificante. Com o passar do tempo, essa situação provocou uma extrema
animosidade entre essas duas camadas sociais.

Além disso, a abertura dos portos brasileiros provocou uma verdadeira “avalanche” de
produtos estrangeiros, principalmente ingleses, por todo o território brasileiro. Esse fato
também provocou grande desagrado no comerciante português.

No campo, os senhores de terra – principalmente das províncias do Rio de Janeiro, de


São Paulo e de Minas Gerais – sentiram-se atraídos pelo brilho da corte. A Coroa aproveitou
o momento para acalmar as relações conflituosas com os proprietários rurais que estavam,
como já comentamos, empobrecidos e indignados com os impostos. A família real atraiu os
ruralistas com as pompas da corte, convidados ao convívio social com a fidalguia e, mais do
que isto, recebendo da Coroa títulos de nobreza. Mas em pouco tempo perceberam que a
distribuição de títulos não passava de um engodo, pois eram vazios de poder.

Os proprietários rurais voltaram, cabisbaixos, para o interior, “remoendo” um desejo


separatista, que foi também reforçado com a valorização do café no mercado mundial.
Devemos perceber que esses senhores de terra, cada vez mais, tinham interesses próprios;
mas o autoritarismo da Coroa atrapalhava suas ambições. Assim, os descontentamentos
relativos ao domínio português eram muitos.

1.3 A independência
O quadro de insatisfação popular vivido na colônia e a propagação dos ideais do
liberalismo econômico resultaram em protestos que reivindicavam a independência do Brasil,
entre os quais podemos destacar a Inconfidência Mineira e a Conjuração Baiana. No entanto,

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todos os movimentos foram severamente punidos pelo governo colonial.

Inconfidência Mineira: revolta popular que ocorreu no final do século


XVIII, na região das minas, contra a cobrança de impostos abusivos sobre o
ouro, cobrados pela Coroa Portuguesa, no momento em que o metal precioso
rareava. Os inconfidentes pertenciam a uma elite de mineradores que foram
influenciados por ideias de liberdade trazidas da Europa, e o que eles queriam
era a independência do Brasil. Os inconfidentes foram presos e levados ao Rio
de Janeiro. Em julgamento, a maioria jurou inocência, menos Joaquim José da
Silva Xavier, o Tiradentes; por isso, ele foi morto e teve seu corpo esquartejado
(SOUSA, [s.d.]).

Conjuração Baiana: revolta popular que ocorreu em 1798, na Bahia.


Quando Salvador deixou de ser a capital da colônia, muitas pessoas sentiram o
empobrecimento e as dificuldades no abastecimento de alimentos, fato que
gerou uma revolta popular, liderada por um médico chamado Cipriano Barata,
da qual participaram pessoas das mais diversas ocupações, até escravos, e
também muitos alfaiates (por isso, o movimento é conhecido como Revolta dos
Alfaiates). Inspirados nos ideais iluministas, desejavam a independência de
Portugal e a implantação do sistema republicano; mas o movimento foi
reprimido com a prisão de muitos dos revoltosos. Os mais abastados foram
absolvidos e os pobres receberam pena de morte. (GASPARETTO JR., 2009).

No ano de 1820, houve, em Portugal, a Revolução do Porto, quando a burguesia mercantil


assumiu o poder e estabeleceu uma monarquia constitucional. O episódio forçou D. João VI
a voltar para Lisboa. Uma das intenções do poder que se instaurou em Portugal era a de
reforçar a condição de colônia do Brasil, ideia que ficou conhecida como “recolonização”.
Assim, o Brasil ficou entregue à regência de D. Pedro, filho do rei.

Nesse período, houve uma grande aproximação entre o regente e a aristocracia rural.
Estes últimos tinham o objetivo de conduzir o processo de independência de forma que não
fossem prejudicados. As elites temiam principalmente duas coisas: a continuidade do status
de colônia ou que o processo de independência fosse conduzido por forças populares e
republicanas, como estava acontecendo na América Espanhola, que foi esfacelada e dividida.
E um Brasil dividido e tomado por forças populares acabaria com muitos privilégios da elite
rural.

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D. Pedro estava pressionado por forças antagônicas. Por um lado, era chamado de volta
à Portugal; por outro, era pressionado pelos senhores da terra a ficar no Brasil e conduzir o
processo de independência, o que garantiria a manutenção da integridade do território. D.
Pedro decidiu ficar ao lado da aristocracia rural, um episódio que ficou conhecido como o Dia
do Fico, ocorrido no dia 9 de janeiro de 1822.

Meses de turbulência, policiais caracterizados pela pressão que Portugal fazia pelo
retorno de D. Pedro e as movimentações políticas da elite brasileira pela permanência do
príncipe e para a condução segura até a independência resultaram no famoso grito de
“independência ou morte”, em 7 de setembro de 1822.

O principal articulador da independência foi José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-


1838), filho de uma família ligada à aristocracia portuguesa e sem laços com a elite rural
brasileira, pois conseguiu conciliar as forças políticas, os interesses liberais, de um lado; e
os interesses da casa real e seu estamento, de outro. Assim, o “sete de setembro” foi uma
ruptura política com Portugal, conduzida de cima para baixo, ou seja, sem a participação
popular.

Figura 1 – D. Pedro I.

2 O Primeiro Reinado
A preocupação, logo que foi proclamada a independência, era a de manter a unidade do
território brasileiro, ameaçada por levantes separatistas. Para garantir a união das províncias,
em outubro, D. Pedro foi coroado imperador do Brasil, para que assim consolidasse o
poder soberano, mesmo antes de ser aberto o processo constitucional, que fundamentaria
legalmente a posição de D. Pedro I.

A outra batalha travada pelo imperador estava relacionada com a luta contra as tropas
portuguesas. Vencida a batalha, o soberano consolidou o seu poder. Apoiado por seu carisma,
foi aclamado pelo povo. Seguro em sua posição, não precisava mais dos conselhos e das
manobras políticas de José Bonifácio, que foi destituído do poder. Segundo Faoro (2014) o

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Primeiro Reinado não acabou com a política colonial, centralizadora, autoritária e tampouco
com a distinção e o distanciamento entre um Estado grandioso e um povo rude. O regime se
modernizou, mas manteve o caráter do estamento, sua magnitude e seu poder.

De fato, a transição política para uma lógica mais liberal e com uma maior participação
popular foi bastante emperrada, um exemplo disto é o processo constituinte, pois não se
conseguiu consolidar uma nova ordem política em substituição às velhas lógicas do poder.

2.1 Uma constituição para o Brasil


Em 1822 D. Pedro I convocou a assembleia constituinte, que só se reuniu no ano seguinte.
Durante o processo de elaboração da constituição, houve uma incompatibilidade ideológica
entre muitos dos constituintes e o Imperador. Por um lado, D. Pedro I, o defensor maior
dos interesses do Estado, pensava em assegurar na Constituição seu poder absoluto como
imperador, sem que houvesse espaço para mediadores de seu poder. Em sentido oposto,
vários legisladores queriam assegurar na Carta Magna limites para o poder do Imperador.
Diante desse fato, D. Pedro I dissolveu a assembleia, que foi invadida pelas forças armadas.

Mas a necessidade de uma constituição permaneceu e, para redigi-la, o imperador


convocou um grupo de juristas de sua confiança para redigir a Carta Magna do Império. A
primeira constituição brasileira foi outorgada em 25 de março de 1824. A constituição serviu
aos propósitos do Imperador, porque que lhe dava a autoridade que desejava, contrária às
aspirações liberais que fez com que D. Pedro I interrompesse o processo inicial da assembleia
constituinte. Entre as prerrogativas legais do Imperador, podemos destacar: dissolver a
Câmara e os conselhos das províncias, nomear senadores e ministros e indicar nomes para
os mais diversos cargos. A vontade do soberano era estabelecida por intermédio do Poder
Moderador.

2.1.1 O Poder Moderador

O Poder Moderador foi instituído pela Constituição de 1824. Além dos três poderes
tradicionais existentes no Estado moderno, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário, passou
a vigorar no Brasil um quarto poder, o Poder Moderador. Esse poder era pessoal e exclusivo
do Imperador e estava acima dos outros poderes, podendo, inclusive, anular decisões
estabelecidas nas outras esferas do poder.

A ideia do poder moderador foi defendida pelo pensador e político suíço Benjamin
Constant. O quarto poder teria, segundo seu idealizador, o objetivo de manter o equilíbrio e
a harmonia dos demais poderes. Para Constant, em uma monarquia constitucional, como era
o caso do Brasil, o poder do soberano deveria ser colocado como um mediador natural dos
conflitos existentes entre os demais poderes.

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Constant viveu o período da Revolução Francesa (1789), época em que havia grande
conflito político e ideológico entre duas classes sociais, a nobreza, que defendia a tese do
poder absoluto nas “mãos” do monarca, e a burguesia, que lutava por seus ideais ligados
ao liberalismo. Foi no sentido de procurar combinar em uma só forma de governo as duas
vertentes políticas que defendeu a tese da necessidade do poder moderador, “[...] a palavra
de ordem no tempo da restauração era conciliar: absolutismo e liberalismo, liberalismo e
democracia” (LYNCH, 2010, p. 94-95). Constant entendia que a autoridade do Estado deveria
ser restrita para que as liberdades individuais fossem garantidas (resguardando os perigos do
absolutismo) ao mesmo tempo em que também a soberania popular deveria ser limitada, pois,
acima das liberdades individuais, existem os direitos fundamentais do homem (resguardando
os perigos do liberalismo). Esse limite seria garantido pelo Poder Moderador.

Apesar de suas ideias refletirem uma inquietação histórica, os dois únicos países que
adotaram o poder moderador foram Portugal e Brasil; neste último, o quarto poder esteve
vigente initerruptamente durante 65 anos. O Brasil foi governado durante o Império pelo
Poder Moderador e, como chefe de Estado acima dos outros poderes, o imperador submetia
a ordem pública à sua vontade.

2.2 A abdicação de D. Pedro I.


A popularidade de D. Pedro I foi uma característica passageira do governo do Imperador,
porque seu carisma começou a se desgastar junto com o episódio de dissolução da Assembleia
Constituinte. Além da popularidade junto ao povo ter decaído, as forças liberais que o
apoiaram no processo de independência do Brasil também ficaram desgostosas com a forma
como o governante conduziu a política durante seu reinado.

O Primeiro Reinado mudou a aparência do governo, deu ao Brasil uma constituição, mas
as práticas políticas pouco ou nada mudaram. O período que compreende a regência de D.
Pedro I, de 1822 até 1831, foi marcado por tensões de toda ordem.

O período logo após a independência resultou em popularidade para D. Pedro I, pois


o povo reconhecia no novo governante uma índole genuinamente brasileira. Mas, com o
decorrer dos anos, o povo percebeu que se enganara, uma vez que as atitudes do regente
mostravam que ainda estava ligado à Portugal: continuava mediando a política lusitana,
nomeava apenas portugueses naturalizados para os cargos mais importantes, entre outras
medidas. O que o povo concluía era que o reinado do D. Pedro I era uma continuidade da
política colonial, principalmente no que se refere à submissão à Coroa Portuguesa.

As forças políticas e ideológicas também estavam desgastadas. Quando assumiu o


Império, D. Pedro I tinha uma base de sustentação política nos comerciantes e senhores de
terra, inspirados pelos ideais liberais. Todavia, os conflitos criados entre a necessidade de
consolidar o poder do novo governo e os desejos políticos das elites, com base no liberalismo,
acabaram arruinando a aliança que garantia a legitimidade do Primeiro Reinado.

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Estado, Governo e Sociedade

O Primeiro Reinado foi caracterizado pelo poder centralizado, por um despotismo


garantido pela Lei Magna e pela manutenção de um quadro estamental português. Os
brasileiros não tiveram oportunidade de participar da política, do processo decisório,
mesmo com o Brasil independente de Portugal. Essa era uma realidade que desagradava
profundamente o nativo, tanto o rico quanto o pobre. As decisões econômicas tomadas no
período também foram alvo de críticas. Acordos desvantajosos e o aumento das dívidas do
Estado desagradavam as elites econômicas e políticas.

Levantes anti-lusitanos insurgiam da população nativa. Porém, o “bota-fora” de D.


Pedro I aconteceu quando alguns setores militares se uniram aos levantes oposicionistas. O
exército, até então, era o fiel baluarte do governo e sua insubmissão significou o fim da base
de sustentação que ainda persistia. O episódio determinou a abdicação do imperador em 7
de abril de 1831.

D. Pedro I abdicou do trono em nome de seu filho Pedro, que na época tinha apenas 5
anos e, legalmente, não poderia exercer o comando do Estado. Para tal, foi instituído um
governo provisório, período que ficou conhecido na história brasileira como Regencial, que
aguardava, então, a maioridade do príncipe.

Para saber mais sobre o período em que D. Pedro I governou o Brasil,


assista ao filme “Independência ou Morte”, filmado no ano de 1972, sob a
direção de Carlos Coimbra.

Considerações finais
Nesta aula, vimos que a família real e a sua corte chegaram ao Brasil fugindo do cerco
continental determinado por Napoleão e encontraram a colônia em plena crise econômica. E
para se estabelecerem, precisaram mudar muitas coisas por aqui.

As mudanças em decorrência da vinda da família real determinaram certa modernização


nos mais diversos aspectos, principalmente econômico e social. Mas as medidas foram
tomadas para beneficiar a Corte Portuguesa no Brasil e não necessariamente o seu povo.

O quadro de descontentamento, tanto popular quanto das elites brasileiras, só cresceu


com a estada da família real e sua corte. Nesse cenário, o rei deixou o Rio de Janeiro para
resolver problemas em Portugal, permanecendo no Brasil o seu filho, D. Pedro, como príncipe
regente.

O príncipe regente se aliou às forças liberais da elite brasileira e, assim, ganhou a


força política necessária para romper os laços de dominação com Portugal, proclamando a
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independência do Brasil e iniciando o Primeiro Reinado – tempo em que o então imperador


D. Pedro I governou o país. Uma importante medida tomada na época foi a elaboração da
Constituição, o que, em um primeiro momento representou uma modernização política no
sentido de dar uma maior soberania ao povo, dentro dos moldes do liberalismo. Entretanto,
não foi bem isto que aconteceu, pois a Constituição acabou sendo outorgada em 1824,
e, além disso, estabelecia a existência de um quarto poder, chamado de Moderador, que
permitia que o regente governasse de forma despótica.

O governo de D. Pedro I, no início, parecia ser uma real independência, pois parecia
acenar para os desejos liberais das elites e também foi bem recebido pelo povo brasileiro,
que esperava que seu soberano governasse segundo os seus anseios, promovendo uma
verdadeira ruptura com Portugal. Contudo, com o decorrer do tempo, as esperanças de
todos foram sendo frustradas, afinal o Primeiro Reinado demonstrava ser, nos mais diversos
aspectos, uma continuidade da política colonial.

Desacreditado por seu povo e pressionado politicamente, D. Pedro I abdicou de seu


trono e deixou o Brasil no comando de uma regência, que vigoraria até a maioridade de seu
filho, Pedro, futuro D. Pedro II.

Referências
BARROS, J. de. A família real portuguesa no Brasil. Escola Kids. Disponível em: <http://www.
escolakids.com/a-familia-real-portuguesa-no-brasil.htm>. Acesso em: 13 set. 2014.

FAORO, R. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. São Paulo: Globo
Livros, 2014.

GASPARETTO JR., A. Conjuração Baiana. História Brasileira. 2009. Disponível em: <http://www.
historiabrasileira.com/brasil-colonia/conjuracao-baiana>. Acesso em: 15 set. 2014.

LYNCH, C. E. C. O Poder Moderador na Constituição de 1824 e no anteprojeto Borges de Medeiros


de 1933: Um estudo de direito comparado. Revista de Informação Legislativa. Brasília a. 47, n.
188, out./dez. 2010, pp. 93-111. Disponível em: <http://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/
handle/id/198714/000901836.pdf?sequence=1>. Acesso em: 12 set. 2014.

SOUSA, R. Os detalhes de uma das maiores revoltas do Brasil Colônia: A Inconfidência Mineira.
Brasilescola. Disponível em: <http://www.brasilescola.com/historiab/inconfidencia-mineira.
htm>. Acesso em: 15 set. 2014.

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Estado, Governo e Sociedade
Aula 05
Segundo Reinado: parlamentarismo, Poder Moderador e
representatividade popular.

Objetivos Específicos
• Entender as principais transformações político-administrativas instauradas
no Império brasileiro durante o Segundo Reinado.

Temas

Introdução
1 A política durante o Segundo Reinado
2 Novos rumos da política do Segundo Reinado
Considerações finais
Referências

Professora
Ana Paula Rupp Hamms
Estado, Governo e Sociedade

Introdução
Nesta aula, você compreenderá as principais transformações políticas que ocorreram
durante a vigência do Segundo Reinado e o debate político que preparou o Brasil para o
período de transição histórica, que culminou na proclamação da república.

A política do Segundo Reinado foi marcada pela trajetória de dois partidos, o liberal e o
conservador. Veremos que, apesar de apresentarem uma proposta política diversa, a prática
política dos dois partidos os tornou iguais, pelo menos até a segunda metade do século XIX.

Nesta aula, aprenderemos sobre o sistema parlamentarista. O parlamentarismo foi


adotado pela primeira vez no Brasil durante o império, esse regime já fazia parte da história
política de nações europeias; por isso, os políticos brasileiros debateram a respeito de qual o
modelo a ser adotado no Brasil. Os políticos apreciavam o modelo de parlamentarismo inglês,
mas, no Brasil, devido às características do Estado, foi implementado o parlamentarismo
possível e não o ideal, o parlamentarismo possível estava mais próximo da experiência
francesa.

A questão das eleições durante o período do Segundo Reinado deixava muitas lacunas
no que diz respeito à sustentação popular do regime parlamentarista no Brasil. Grande parte
da população brasileira não tinha direito ao voto e, quando tinha, sofria muita violência
quanto à liberdade de votar; o processo eleitoral, marcado pela fraude, maculava ainda mais
a legitimidade popular do Segundo Reinado.

A segunda metade do século XIX foi marcada por importantes mudanças no cenário
político brasileiro. O surgimento da Liga Progressista e o Manifesto Republicano foram eventos
importantes que determinaram o início de uma onda de mudanças no Brasil.

1 A política durante o Segundo Reinado


O Segundo Reinado foi marcado por transformações políticas e ideológicas muito
significativas. Durante o Período Colonial, as opiniões políticas giravam em torno de posições
favoráveis a Portugal ou contra o domínio da metrópole. Essas posições não chegaram a
constituir necessariamente partidos políticos.

Em princípio, com a independência do Brasil, essas posições tendiam a perder o seu


propósito, claro, pois teoricamente não tinha mais sentido ser contrário ao domínio exercido
por Portugal, já que o Brasil não tinha mais laços políticos de dominação. Mas, o Primeiro
Reinado ainda mantinha um certo ranço do Período Colonial, pois as posições políticas
tomadas por D. Pedro I nem sempre eram compatíveis com o rompimento definitivo com
Portugal.

Foi durante o Período Regencial (1831-1840), entre a abdicação de D. Pedro I até a

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maioridade de D. Pedro II, que os partidos políticos que marcaram o Segundo Reinado se
estabeleceram, mas principalmente depois de 1836 (FAORO, 2014), duas correntes ideológicas
começaram a tomar corpo e a dominar o cenário político brasileiro.

O Partido Liberal e o Partido Conservador, fortalecidos em disputas políticas no Período


Regencial, eram distintos quanto às suas ideologias e ao seu modo particular de governar.
Além disso, também estavam fundamentados em doutrinas políticas e experiências de
governo estabelecidas na Europa.

Figura 1 – D. Pedro II

Fonte: Thinkstock (2014).

1.1 Partido Liberal


Esse partido teve como principal projeto político a descentralização do poder, com base
no fortalecimento da política local através da federalização das províncias. Seus princípios
políticos estavam fundamentados na ideia de soberania do povo; por isso, apostavam na
necessidade de um governo que garantisse a participação popular na Câmara de Deputados,
fortalecida politicamente.

De fato, a Câmara não tinha a força política que desejavam os liberais, pois os órgãos
com maior força deliberativa eram o Senado e o Conselho de Estado, e a instituição que
garantia toda essa força era o Poder Moderador. A Constituição de 1824 estabelecia um
quarto poder, o Poder Moderador, chefiado pelo próprio imperador. O Poder Moderador
dava ao imperador prerrogativas que garantiam a manutenção do poder centralizado, pois
era ele quem determinava os titulares no Senado e nos Ministérios.

O imperador tinha o poder de nomear e demitir ministros segundo seus próprios


critérios; também os senadores dependiam da preferência imperial, eles eram escolhidos a
partir de uma lista de três nomes, votados em eleições provinciais. O cargo de senador era
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vitalício. Essas características do Estado no Brasil imperial garantiam a centralidade do poder;


e, contra isso, lutavam os liberais.

Já vimos o que os liberais defendiam, agora saberemos quem o Partido Liberal


representava. É certo que os dois partidos que aglutinavam ideias e forças políticas durante
o Segundo Reinado não se valiam de qualquer respaldo popular; pelo contrário, estavam
ali representando o poder das minorias (FAORO,2014). No caso dos liberais, representavam
as oligarquias (os senhores de terra), distribuídas pelas províncias e por elas reivindicavam
poder e representatividade.

1.2 Partido Conservador


Os conservadores, como escreveu Faoro (2014), aperfeiçoavam-se no “corcundismo”.
Sua prática política estava sempre de acordo com as determinações imperiais. Do ponto de
vista ideológico, defendiam que o rei reina, governa e administra, ou seja, é o representante
do Estado e do governo e, além disso, agrega também para si o comando administrativo,
ligado ao Poder Executivo.

Na prática, o Partido Conservador apoiava a estrutura centralizada do Estado, conduzida


pelo Poder Moderador, o conselho de Estado, o Senado vitalício e o poder estratégico do
estamento burocrático.

Os conservadores, além de defenderem as posições relacionadas às instituições imperiais,


situavam-se ao lado dos comerciantes e dos responsáveis pelo sistema financeiro, que eram
exatamente os opressores da classe dos senhores de terra. Desta forma, também defendiam
causas desfavoráveis às oligarquias. Os conservadores foram responsáveis pelo projeto de lei
que extinguiu o tráfico de escravos e a escravidão, por exemplo.

1.3 Liberais e conservadores: na prática, muito parecidos


Apesar de as linhas de pensamento e posições políticas dos dois partidos serem, em
princípio, diferentes, Faoro (2014) aponta para o fato de que, na prática cotidiana da política,
o que realmente acontecia não diferenciava um representante de um partido do outro. As
práticas liberais e conservadoras estavam relacionadas com estratégias de manutenção do
poder, quando se estava nos quadros do governo, ou de busca por uma colocação, quando
estavam fora da “máquina” do Estado. Essa característica determinou uma tendência muito
mais conciliatória do que conflituosa entre os dois partidos.

A divergência que deu origem aos dois partidos estava relacionada à maior ou menor
participação e autonomia política das províncias, à discussão sobre o grau de centralização
da autoridade imperial. Como o sistema político do Segundo Reinado acabou assentando
definitivamente o poder centralizado na figura do imperador, a divergência política perdeu

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Estado, Governo e Sociedade

um pouco a sua força; assim, a verdadeira disputa passou a ser por cargos nos ministérios,
pois o verdadeiro poder não estava em cargos parlamentares, mas sim no Poder Executivo.

Os quase cinquenta anos de vigência do Segundo Reinado foram marcados por uma
grande mudança de ministros, alternando o partido do ocupante da pasta ministerial. Para
Faoro (2014), esse fato evidencia a semelhança entre liberais e conservadores. Semelhantes
também no fato de serem representantes apenas das elites, comprovando que a política
dessa época era um exercício para alguns privilegiados, não para o povo.

1.4 Sobre a representatividade popular dos partidos


Embora os partidos representassem, teoricamente, o modo de pensar da população
e de, em princípio, ser considerada essa opinião por meio das urnas, o que acontecia de
fato não estava de acordo com essa teoria. O sistema eleitoral e os deputados eleitos não
garantiam a autêntica vontade popular e muito menos sua opinião.

Na verdade, o sistema eleitoral era frágil do ponto de vista da liberdade e da


representatividade. Quanto à liberdade de escolha, o que era mais comum era o voto
submetido a alguma autoridade local, que criava mecanismos para controlar o voto. Mesmo
quando o escrutínio1 era honesto, o resultado das urnas não significava que o povo tivesse
seus interesses representados, pois o voto controlado evidenciava que aqueles aptos para
votar estavam alheios aos verdadeiros anseios políticos de seus “representantes”.

Os políticos que ocupavam os cargos públicos não eram representantes da opinião


pública, a política partidária era reflexo da estrutura política do Estado e dos desejos das
classes dominantes do Período Imperial. Nesse sentido, é importante ressaltarmos que o
destino político do Brasil estava incontestavelmente nas “mãos” de suas elites. Ou, ainda,
essa realidade reflete a contestação feita por Faoro (2014) de que as minorias privilegiadas
são munidas de um profundo desprezo e desrespeito com relação às classes populares.

Para Faoro (2014), D. Pedro II, guiado pela Constituição, acreditava que o sistema político
estava legitimamente representado pelos partidos, mas que os partidos, por sua vez, muitas
vezes não representavam a opinião pública – por isso, era necessário estudar esses desejos
populares, o que era difícil em função da forma como as eleições aconteciam no Brasil.

1.5 O parlamentarismo nos modelos inglês e francês


No Segundo Reinado, vigorou o sistema parlamentarista a partir do decreto de 20 de
julho de 1847, que instituiu a presidência do Conselho de Estado, ou seja, um conselho de
ministros. Na teoria, o Conselho atuaria no comando do governo e D. Pedro II assumiria o

1 Tipo de votação em que os votos são recolhidos a partir da utilização de uma urna.

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papel de chefe de Estado, conforme determina o regime parlamentarista.

Instaurado o parlamentarismo, ficou para os políticos a discussão do modelo a ser


adotado pelo Brasil a partir das experiências já existentes, mais precisamente os modelos
inglês e francês. Mas, antes de discutirmos esses modelos, seria interessante lembrar você
das principais características do sistema parlamentarista.

1.5.1 O parlamentarismo

O parlamentarismo é um sistema de governo usado em monarquias ou em república.


Historicamente, foi a saída em processos de formação do Estado nacional quando existia a
forte referência política da realeza. Esse sistema, apesar de apresentar algumas diferenças
com relação ao país onde vigorou ou vigora, tem algumas características básicas (GROFF,
2003).

• Separação entre o chefe de Estado e o chefe de governo: o chefe de Estado pode ser
um presidente ou um soberano ligado a um poder monárquico (rei, imperador); ele
não governa, ou seja, não tem responsabilidades políticas, mas é o representante
simbólico da unidade nacional do Estado. Já o chefe de governo (primeiro ministro) é
responsável pelo Poder Executivo, ou seja, é ele quem vai administrar o Estado.

• Eleição indireta: chefe de governo e chefe de Estado (quando este chefe é o presidente,
pois quando é um monarca este cargo é hereditário) são leitos pelo parlamento.

• Dependência recíproca entre os Poderes Executivo e Legislativo: existe um equilíbrio


de forças entre os dois poderes, o chefe de governo (Poder Executivo) depende da
confiança do Poder Legislativo para exercer seu poder e permanecer no seu cargo;
a política de governo executada pelo chefe de governo precisa da aprovação do
parlamento.

• Voto de desconfiança: o Poder Legislativo (parlamento) pode destituir o chefe de


Estado através do voto de desconfiança; e este, por sua vez, também pode pedir a
dissolução do Parlamento.

• Monção de censura: é o pedido do parlamento para que o governo mude a sua


política.

Foram os parlamentarismos inglês e francês que serviram de referência para os políticos


brasileiros, durante o Segundo Reinado, discutirem o modelo de parlamentarismo a ser
implementado no Brasil.

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O parlamentarismo é um sistema de governo que se fundamenta em uma


confiança mútua entre os Poderes Executivo e Legislativo.

1.5.2 O modelo inglês

O parlamentarismo nasceu na Inglaterra com o objetivo de estabelecer controle e limites


para o poder despótico do soberano, e estima-se que seu esboço data do século XVIII (PINTO,
[s.d.]). Esse modelo foi se aperfeiçoando ao longo dos séculos; e também influenciou várias
outras nações. Os políticos brasileiros debatiam os sistemas políticos e quiseram copiar a
fórmula inglesa de governar, por se tratar dos princípios clássicos do parlamentarismo.

Saiba que na Inglaterra, ao convocar eleições, são eleitos os deputados para o


Parlamento. O partido com maioria na casa legislativa escolherá o primeiro-ministro que,
por sua vez, escolherá os nomes para compor as pastas dos ministérios e com eles exercer
o Poder Executivo. A escolha do primeiro-ministro é um voto de confiança. Se esse voto
é retirado, deve haver o pedido de demissão dos ministros. O modelo inglês delega ao
soberano a chefia do Estado.

Nesse sentido, o rei (ou rainha) teve seu papel no governo paulatinamente
enfraquecido. Mas, ainda assim, em momentos de extrema crise política ou de
impossibilidade de se formar uma maioria no Parlamento, é facultado ao rei o poder
de dissolução do Conselho Ministerial (FAORO, 2014). No entanto, essa prerrogativa foi
levada ao desuso na medida em que o rei deve se ater ao seu papel costumeiro; pois,
se agir fora do que cabe tradicionalmente ao rei, pode acabar recebendo um voto de
desconfiança, o que pode afetar, desta forma, sua permanência como chefe de Estado.

Então, qual seria o papel tradicional do Rei em um sistema parlamentarista? Para Faoro
(2014), o rei dever saber o limite entre aconselhar o governo e governar, entre estimular e
conduzir o governo. Entretanto, existe ainda uma função velada do rei no parlamentarismo, é
a de dar a sensação de uma continuidade, por mais que possam estar acontecendo disputas
políticas e transformações no âmbito do governo.

1.5.3 O modelo francês

O parlamentarismo francês foi influenciado pela experiência inglesa. A instituição do


Parlamento na França foi uma forma de conter a volta do absolutismo. Com a queda do
Império Francês, sob o domínio de Napoleão, os Bourbons (família real) voltaram ao trono
em 1814. Para não acontecer um retrocesso à situação que a Revolução Francesa derrubou,
foi instituído o parlamentarismo na França, para “temperar” o poder do rei (BELISAIRE, 2014).

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Estado, Governo e Sociedade

A Câmara de Deputados e a Câmara dos Lordes foram fundadas, mas seu papel político
era instável, os valores monárquicos ainda estavam muito presentes, ao mesmo tempo em
que as ideias liberais já faziam parte de uma realidade sem volta.

Nesse período de transição, a França, através do debate político e ideológico, buscava


saber qual seria a melhor forma de parlamentarismo. Uma parte dos intelectuais franceses
defendia que o rei reinava, mas não governava; que eram os ministros, apoiados pelo
parlamento, que governavam; outra corrente de pensamento defendia que o rei poderia agir,
segundo a sua vontade, mas a partir do aconselhamento dos ministros (FAORO, 2014). A
despeito do debate, o rei francês desse período governava, mas com a anuência dos ministros.

1.6 O parlamentarismo à brasileira do Segundo Reinado


Diante desses modelos amplamente discutidos por políticos e intelectuais brasileiros,
o que ocorreu no Brasil foi uma imitação teórica aplicada conforme a realidade política
brasileira. Apesar de o estímulo inicial estar relacionado com o modelo parlamentarista inglês,
ocorreu no Brasil o inverso, visto que a Câmara de Deputados era um espaço de pouco poder;
o Poder Legislativo estava subordinado ao Poder Executivo; era o imperador que nomeava
os ministros e os demitia, e o presidente do Conselho de Ministros (que seria o primeiro-
ministro) também era escolhido pelo imperador. Essas características do sistema de governo
brasileiro durante o Segundo Império evidenciam que o modelo inglês não foi aplicado.

O estatuto do Poder Moderador garantia que o imperador reinasse e governasse,


garantindo para si um poder centralizado. Governava junto com seus ministros, que, por
sua vez, estavam no cargo por escolha de D. Pedro II. Os nomes escolhidos para as pastas
ministeriais estavam relacionados aos dois partidos políticos, mas a escolha não estava
subordinada à ideia de maioria partidária na Câmara. Mesmo porque os partidos não se
diferenciavam, ambos estavam ligados à elite e, da mesma forma, apoiavam o imperador.
Diante dos fatos, Faoro (2014) conclui que o parlamentarismo à brasileira do Segundo Reinado
estava muito mais próximo da proposta francesa do que da inglesa.

Os ministérios de D. Pedro II apenas referendavam, ou seja, assinavam embaixo das


determinações imperiais. A lógica da necessidade da referenda ministerial seria a de controlar
o poder abusivo que poderia insurgir da autoridade legítima; mas como nomear ministros
fazia parte dos atos do imperador, prerrogativa garantida pelo Poder Moderador, esse tipo de
controle não acontecia.

No parlamentarismo brasileiro do Segundo Reinado, o imperador reinava, governava e


administrava. Fato que não era contestado nem por liberais, nem por conservadores e nem
mesmo pelo próprio D. Pedro II. Segundo Faoro (2014), só havia oposição contra o poder
pessoal do imperador quando acontecia de alguém ser destituído de um cargo no governo.
Nesse momento, a pessoa que se julgasse prejudicada pelo procedimento do imperador se
insurgia contra o poder absoluto do soberano, independente de sua filiação partidária.

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1.6.1 A representatividade popular no parlamentarismo à brasileira

O parlamentarismo é um sistema que se sustenta na lógica da vontade popular que, na


teoria, estaria presente nos espaços legislativos através de seus representantes. Teoricamente,
é o povo que dá sustentabilidade ao governo. A teoria do sistema tem toda a sua beleza; mas,
na prática, o povo, base da pirâmide, não tinha participação alguma no governo.

Em primeiro lugar, conforme a Constituição de 1824, a parcela da população que estava


apta para votar em eleições diretas era muito pequena. A legislação da época não permitia
que a maioria da população votasse, vários eram os impeditivos, por exemplo, o fator renda,
que servia como um recorte da população que poderia ou não comparecer às urnas. Assim,
conforme a lei, não poderiam votar “[...] os que não tiverem de renda liquida annual duzentos
mil réis por bens de raiz, industria, commercio, ou emprego” (BRASIL, 1824). Só que ter
um emprego ou participar da economia formal não era parte da realidade da maioria dos
brasileiros no século XIX.

Além da limitação legal, o processo eleitoral era fraudulento e o voto era manipulado, e
a população votante era coagida. Essa realidade permite afirmarmos que, no que se refere
ao sistema político brasileiro, não existia representação da vontade do povo; o que havia era
apenas a vontade de uma elite política; e esta era, por sua vez, a representação da vontade
do imperador. A base da população brasileira, ou seja, a maioria do povo, era politicamente
“invisível”.

2 Novos rumos da política do Segundo Reinado


A política do Segundo Reinado, apesar de todas as suas controvérsias, firmou-se
da forma como vimos; um parlamentarismo às avessas, um bipartidarismo monótono sem
respaldo popular e um sistema eleitoral que não garantia a representatividade popular. Foi
assim pelo menos até meados do século XIX, um clima ameno na política.

Esse clima de tranquilidade política só escondia o que, na realidade, nunca deixou de


acontecer, a saber, o debate político. As eleições de 1860, referentes à legislatura 1861-1864,
trouxeram à tona antigos nomes de políticos liberais. O renascimento do debate liberal foi um
movimento sem volta até o final do império.

Antigas reclamações liberais dirigidas ao poder centralizador e dominador do


imperador, sustentados pelo Poder Moderador, voltaram à pauta do debate político. A reação
do Partido Conservador a esses ataques foi a de criar a Liga Progressista do Império.

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Para saber mais sobre o período em que D. Pedro II governou o Brasil,


assista ao filme “Mauá – O Imperador e o Rei”, produzido no ano de 1999, sob
a direção de Sérgio Rezende.

2.1 Liga progressista


A disputa por uma pasta no ministério em 1859 foi o estopim para o fim do período
de conciliação entre liberais e progressistas (ROAHNY, 2013). A partir desse fato, um novo
cenário político começou a ser desenhado. O debate político em torno das eleições, em 1860,
reacendeu as antigas reivindicações liberais. A resposta para este movimento foi a criação da
Liga Progressista, por membros tanto do Partido Liberal quanto do Partido Conservador.

A liga progressista propunha uma melhoria substancial das instituições imperiais, com
o objetivo que procurar conciliar as velhas reinvindicações dos liberais “ressuscitados” com
os interesses da coroa, sem, no entanto, mudar a estrutura básica do Estado. Esse novo
alinhamento ideológico determinou o seguinte jogo de forças (FAORO, 2014):

• conservadores “puritanos”;

• linha liberal histórica;

• liga progressista.

Os conservadores “puritanos” mantiveram a postura de defesa da ordem tal qual estava


estabelecida, os liberais se posicionaram por mudanças mais radicais (mais próximos aos
ideais republicanos), e os progressistas conciliaram pequenas reformas institucionais, mas
com a manutenção do sistema monárquico – a liga progressista incorporou ideias dos liberais
e dos conservadores, e sua luta política partia da lógica de que “o rei reina, mas não governa”.

No decorrer das disputas políticas e devido ao “calor” dos debates sobre o futuro do
sistema escravocrata no Brasil, a liga progressista posteriormente se dissolveu, em razão de
disputas internas das alas conservadora e liberal.

2.2. O Manifesto Republicano


As disputas políticas e ideológicas que marcaram a segunda metade do século XIX
determinaram o acirramento das posições liberais, o que acabou resultando no Manifesto
Republicano (publicado no Rio de Janeiro em 3 de dezembro 1870, no primeiro número do
periódico “A República”). A ideia era fundar o Clube dos Republicanos, uma agremiação cujo
objetivo era derrubar a monarquia e instaurar a república no Brasil.
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No Manifesto Republicano, evocaram a necessidade da soberania do povo, evidenciando


a obscuridade do processo eleitoral, assim como todas as liberdades (individuais, econômicas,
de expressão etc.) que eram apregoadas pelo liberalismo e que foram incorporadas à
realidade social como um privilégio para poucos ou como concessões ocasionais. Os liberais
consideravam inconciliável a soberania do povo e o poder monárquico.

O sucesso do sistema republicano nos Estados Unidos era a “menina dos olhos” dos
liberais no Brasil, o exemplo da democracia e do progresso, que só seriam alcançados com
a via da República. E esse movimento por um ideal, por mudanças radicais, envolveu uma
nova geração, e muitos jovens estudantes passaram a militar na causa republicana. Foi essa
realidade política que preparou o Brasil para o período de transição da monarquia para a
República.

Considerações finais
Nesta aula, vimos que a política no Segundo Reinado foi conduzida da mesma forma
centralizadora como foi no governo de D. Pedro I, e que a presença dos partidos políticos,
o conservador e o liberal, não garantiam a representatividade popular. Os partidos políticos
defendiam os interesses das elites e, muito além disso, faziam um jogo político no sentido de
conduzir os membros do partido aos quadros do Estado, sendo que, na verdade, não havia
muitas divergências entre eles, pelo menos até a segunda metade do século XIX.

Vimos que o sistema parlamentarista vigorou durante o Segundo Reinado e que, nesse
tipo de regime político, na sua forma clássica, existe a separação entre o chefe de governo
e o chefe de Estado. No entanto, no Brasil, essa separação não existia, o que determinava
que o imperador reinasse e governasse por meio de um quarto poder, chamado de Poder
Moderador.

Além disso, o governo não tinha respaldo popular, visto que a parcela da população
que podia votar era bem pequena, e as eleições no Brasil eram marcadas pela fraude e pela
violação das consciências individuais no momento do voto.

Vimos também que a política brasileira até a segunda metade do século XIX era marcada
por uma monótona estabilidade no que diz respeito ao debate político-ideológico. Depois
dessa data, as divergências políticas e ideológicas voltaram à tona e determinam uma
tendência a transformações no sistema de governo.

Referências
BELISAIRE. La France de la Restauration à l’Empire (1814-1852). 2014. Philisto. Disponível em:
<http://www.philisto.fr/cours-56-la-france-de-la-restauration-a-l-empire-1814-1852.html>.
Acesso em: 28 set. 2014.

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Estado, Governo e Sociedade

BRASIL. Constituição Política do Império do Brazil (1824). Elaborada por um Conselho de


Estado e outorgada pelo Imperador D. Pedro I, em 25.03.1824. Disponível em: <http://www.
planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao24.htm>. Acesso em: 29 set. 2014.

FAORO, R. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. São Paulo: Globo
Livros, 2014.

GROFF, P. V. Modelos de parlamentarismo: inglês, alemão e francês. Revista de Informação


Legislativa, Brasília, a. 40, n. 160, out./dez. 2003, p. 137-146. Disponível em: <http://www2.
senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/910/R160-11.pdf?sequence=4>. Acesso em: 27 set.
2014.

PINTO, D. S. de P. Parlamentarismo: surgimento e características gerais. Âmbito Jurídico.


Disponível em: <http://www.ambito-juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_
leitura&artigo_id=2949>. Acesso em: 27 set. 2014.

ROAHNY, L. A Liga Progressista e a construção do Estado Imperial, 1860-1868. 2013. 109


p. Monografia (Graduação em Ciências Sociais) – Setor de Ciências Humanas, Universidade
Federal do Paraná, Curitiba, 2013. Disponível em: <http://www.humanas.ufpr.br/portal/
cienciassociais/files/2013/09/MONOGRAFIA-LUCAS-ROAHNY.pdf>. Acesso em: 30 set. 2014.

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Estado, Governo e Sociedade
Aula 06
O fim do Segundo Reinado e o nascimento da República.

Objetivos Específicos
• Analisar as condicionantes sociais, políticas e econômicas que determinaram
a proclamação da República.

Temas

Introdução
1 Cenário político do fim do Segundo Reinado
2 Por que foram os militares que proclamaram a República?
Considerações finais
Referências

Professora
Ana Paula Rupp Hamms
Estado, Governo e Sociedade

Introdução
Nesta aula, analisaremos as condições históricas que determinaram a queda do Segundo
Império e a Proclamação da República no Brasil.

Os debates ideológicos sobre o liberalismo foram disseminados; estudantes, políticos,


ruralistas e vários setores da sociedade brasileira passaram a conhecer e discutir os benefícios
de uma política liberal e do sistema republicano.

A decadência da economia baseada no trabalho escravo implicava a necessidade de


um novo sistema de governo que suprisse as demandas de uma sociedade, a qual precisava
modernizar suas relações sociais, políticas e econômicas. Além disso, os engenhos de açúcar
e as fazendas de café receberam, de forma diferente, o impacto do progressivo rareamento
de escravos nas lavouras.

O avanço das ideias republicanas colocou o governo em um dilema: se não cedesse,


perderia o trono; se cedesse demais, inviabilizaria a continuidade do Império. Como parte da
cultura política do estamento, o governo procurou um consenso entre interesses conflitantes.
A saída era ceder para a descentralização administrativa.

Por fim, você entenderá porque o processo que trouxe o poder republicano ao poder
não foi conduzido pelo povo, mas sim pelos militares que, aliados à causa republicana,
representaram a via segura para a transição para a república.

1 Cenário político do fim do Segundo Reinado


A segunda metade do século XIX foi marcada por discussões sobre a queda da monarquia
e a implantação do sistema republicano no Brasil. O renascimento do debate liberal criou o
alicerce para as transformações políticas que resultarão na queda da monarquia e na assunção
do sistema republicano.

Entre os porta-vozes da causa republicana, estavam os estudantes e os liberais. Os


estudantes, principalmente os da faculdade de Direito de São Paulo, foram contagiados
pela causa republicana e não era incomum vê-los discursar publicamente; e os liberais,
principalmente os mais radicais, também se posicionavam pela república. Essa era a camada
da população que mais aparecia na defesa de um novo sistema de governo.

No entanto, segundo Faoro (2014), representava apenas uma parcela dos defensores da
república, pois havia outras forças sociais entre os liberais e estudantes. Os agentes de
transformação social estavam tanto nas cidades quanto no meio rural. Nas cidades, havia os
políticos positivistas e liberais, com seus projetos que eram irrealizáveis na vigência do regime
monárquico, e sonhavam com uma república onde se conseguisse viver com mais igualdade
e com a representatividade popular. No meio rural, era a elite dos proprietários que se

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Estado, Governo e Sociedade

aproximava dos ideais republicanos apesar de, ao mesmo tempo, também serem
conservadores; pois representavam uma camada da população essencial para a formação da
sociedade brasileira. Assim, é importante fazermos uma análise mais profunda de sua posição
político-ideológica.

O positivismo é uma corrente de pensamento formulada pelo filósofo


francês Augusto Comte (1798-1857), que pregava que o conhecimento científico
é a única forma de conhecimento possível (como crítica às interpretações
teológicas e filosóficas) e que, quando aplicado amplamente em todas as
instâncias sociais, levaria a uma sociedade melhor – e essa ideia estava muito
presente no pensamento dos republicanos brasileiros do século XIX.

1.1 Os proprietários rurais e o projeto republicano


A realidade vivida pelo proprietário rural na segunda metade do século XIX está
relacionada com os seguintes aspectos:

• mão de obra escrava escassa e cara;

• esgotamento da terra;

• dívidas.

Para Faoro (2014), a situação dos senhores de terra os levou a uma consciência de classe,
ou seja, a uma percepção do seu verdadeiro papel social. E esse papel social não estava
relacionado ao poder dominante, da classe dominante, pois perceberam simplesmente que
agiam como marionetes nas “mãos” do verdadeiro poder, o poder dominador da Coroa e seu
estamento.

O fazendeiro, senhor das terras, para Faoro (2014), estava ao lado do simples lavrador.
Na parte superior do estrato social, estava o estamento político-burocrático e o imperador,
direcionando a economia segundo seus desejos, sem dar espaço para a impessoalidade e a
racionalidade, próprias do sistema capitalista.

É importante destacarmos que, para Faoro (2014), a cultura política cristalizada no


estamento do Estado brasileiro foi responsável pelo desenvolvimento tardio do capitalismo
moderno no Brasil.

Nesse sentido, os desejos e as necessidades dos fazendeiros, enquanto classe econômica,


não estavam representados nas políticas do governo; pelo contrário, as leis anti-escravocratas
que determinaram o processo de abolição da escravatura “apunhalavam” os senhores de

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Estado, Governo e Sociedade

engenho e evidenciavam que o governo não estava ao lado dos produtores, mas tratava de
cumprir seus acordos internacionais, principalmente com a Inglaterra (FABER, [s.d.]). Ademais,
os problemas com a mão de obra e o esgotamento da terra provocaram aumento da
necessidade de crédito e, como consequência, houve o endividamento dos proprietários
rurais – mas o governo protegia a classe dos credores.

Escondidos “por trás” de questões humanistas, os ingleses desejavam que


o Brasil fosse um grande comprador de seus produtos industrializados, mas o
mercado consumidor era pequeno, principalmente porque existiam poucos
trabalhadores assalariados, já que grande parte da mão de obra era escrava.

Então, esse “golpe de consciência” fez a classe rural perceber situações, sobre as quais
ainda não tinha pensado, por força da nova realidade que se apresentava. Assim, essa camada
da população, levada pelas circunstâncias, aproximou-se das ideias republicanas.

O ideal da república entrou na fazenda por uma necessidade de transformação política


e econômica, com vistas a uma maior autonomia, e contra o poder centralizado. No entanto,
em razão de as características das propriedades rurais da época não serem homogêneas, os
ideias republicanos acabaram entrando de modo diferenciado em cada um dos diferentes
tipos de atividade econômica. Podemos destacar os engenhos de açúcar e as fazendas de
café.

1.1.1 Os engenhos de açúcar

Como já falamos, a extinção do tráfico e as leis abolicionistas representaram um grande


golpe para o senhor de engenho. O tráfico de negros da África para o Brasil foi oficialmente
extinto em 1830; mas clandestinamente continuou vigente por mais duas décadas, e só veio
realmente a acabar em 1850, ano da Lei Eusébio de Queirós, que proibia definitivamente o
tráfico. As leis abolicionistas, exceto a Lei Áurea, foram medidas paliativas para equacionar a
questão da escravidão.

Foi principalmente a extinção do tráfico dos africanos que representou um grave


problema econômico para os senhores de engenho, que, historicamente, usavam escravos
como mão de obra, pois contratá-los custaria muito caro e os senhores também não tinham
capital disponível para pagar salários para trabalhadores livres.

Faoro (2014) ressalta que os fazendeiros não acreditavam na restauração da estrutura


escravagista, ou seja, eles tinham a consciência de que o fim da escravidão era um caminho
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Estado, Governo e Sociedade

sem volta. Logo, o que determinou um direcionamento político e ideológico republicano


dessa classe foi o ressentimento, uma vez que, por estarem sofrendo as consequências das
políticas que acabaram extinguindo a escravidão, revoltaram-se contra D. Pedro II e tudo o
que estava relacionado ao seu governo. E uma das maneiras de manifestar essa revolta foi
aderindo ao movimento republicano.

As leis abolicionistas trataram primeiro de fazer livres os filhos das escravas,


por meio de leis. A Lei do Ventre Livre (1871); no entanto, a lei apresentava um
paradoxo e recebeu severas críticas dos abolicionistas, no que toca à liberdade
do negro. Ela só ocorreria de fato depois que esse filho completasse 21 anos,
antes dessa data deveria ficar na fazenda como escravo. A Lei do Sexagenário
concedia liberdade aos escravos depois dos 65 anos. E, finalmente, a Lei Áurea
(1888) extinguiu definitivamente as relações de servidão no Brasil (SOUSA,
[s.d.]).

Figura 1 – Navio negreiro

1.1.2 As fazendas de café

O café chegou ao Brasil no século XVIII. De início, seu cultivo foi testado na região norte e
não prosperou. No início do século seguinte, foi levado para a região sudeste, e foi nesse local
que a lavoura de café prosperou, sendo que seu caráter agroexportador se deu a partir de
1850. No apogeu da lavoura cafeeira, o escavo já era escasso e caro; por isso, essa economia
se desenvolveu com mão de obra livre ou por meio de arrendamento de terras.

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O fazendeiro de café necessitava de um fluxo de capital que lhe garantisse pagar salários,
o que implicou a necessidade de um sistema de crédito. A administração da lavoura cumpriu
uma lógica de empresa capitalista, em que era necessário calcular racionalmente a expectativa
de lucro. Era necessária, então, uma maior independência para fazer negócios, fato que era
dificultado pelo domínio centralizado do governo.

O modelo federativo das repúblicas seria bem mais vantajoso para o tipo de negócio da
fazenda cafeeira. Logo, não foi por acaso que os barões do café engrossaram o movimento
liberal, em favor da implantação do modelo republicano.

Figura 2 – Lavoura de café

1.2 Descentralização administrativa ou federalização?


O arroubo do novo liberalismo, ou seja, do ideário republicano, estava presente em
praticamente todas as camadas sociais, exceto entre aquelas pessoas que, de alguma forma,
estavam inseridas ou se beneficiavam do estamento burocrático. Diante dessa realidade, os
governistas teriam que tomar medidas no sentido de manter o poder sentado no trono.

Na medida em que certas províncias prosperavam economicamente (Rio de Janeiro,


São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul), elas se constituíam como uma grande força
descentralizadora e federativa, mas sem, no entanto, ter poder político.

O governo, seu estamento, começou a por em prática um processo de descentralização


política, com o objetivo de imunizar o governo do projeto federativo. O projeto governista
pretendia descentralizar algumas funções administrativas, por intermédio da eleição de
administradores para as cidades (uma espécie de prefeito) e da nomeação de presidentes
para as províncias (como se fosse o cargo de governador) e também estabeleceu o fim do
Senado com cargos vitalícios.

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No entanto, não estava presente nesse projeto a quebra da unidade política, ou seja, o
princípio da federalização, tão desejado pelos republicanos. Esse fato, que daria verdadeira
autonomia para as províncias, foi omitido pelos monarquistas.

O impasse político permitiu duas soluções (FAORO, 2014): descentralização administrativa


ou federação política. Os monarquistas acreditavam que bastaria a descentralização
administrativa e que ceder mais do que isso acarretaria a queda da monarquia; já os
republicanos achavam que a federalização política era incompatível com a figura de um
imperador.

Como não foi possível conciliar os interesses monarquistas e republicanos, o futuro


político deveria ser decidido de outra forma. As medidas de descentralização administrativa
só adiariam o inevitável: o fim do Segundo Reinado.

1.3 O estamento burocrático na transição para a república


A transição para a república era “um caminho sem volta”, e o estamento sabia disso.
Diante dessa realidade, os principais responsáveis pelo andamento da “máquina” do Estado,
as “cabeças” do estamento burocrático, tomaram “as rédeas” dos acontecimentos, ou seja,
viram os protagonistas do processo que encerrou a monarquia e instaurou a república.

Na impossibilidade de manter a monarquia, o estamento queria permanecer no poder;


por isso, era necessário “fazer a cama para a república” e, mesmo com a vigência de outro
sistema de governo, manter-se no comando. Pensavam os membros do governo que, se
perdessem “as rédeas” na condução para a república o país entraria em uma anarquia – no
sentido de imaginar o Brasil sendo comandado por “outras cabeças” que não fossem as do
estamento.

Desta forma, o próprio Estado (seu segmento militar) conduziu o Brasil para uma
República Federativa, sem que tivesse havido a participação direta, popular, ou mesmo uma
pressão de âmbito internacional. Os condutores trocam de roupa, mas continuam a conduzir
o Brasil segundo seus interesses.

2 Por que foram os militares que proclamaram a República?


As divergências entre o exército e a Coroa vinham de muito tempo. No período colonial, o
exército era constituído por nomes da aristocracia. A formação do militar era feita em escolas
que só admitiam membros da nobreza, e o soldado era formado não para a guerra, mais sim
para atividades político-administrativas.

No início do século XIX, o fator nobreza deixou de ser um requisito para alguém ingressar
no exército, e surgiu a necessidade da realização de um exame de capacidade, permitindo com

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que pessoas de diversos segmentos sociais pudessem fazer parte dos quadros do exército.
Em pouco tempo, o exército passou a ser um dos poucos meios de ascensão social para as
camadas mais populares, fazendo que o status de pertencer aos quadros militares fosse algo
decadente. O exército tornou-se uma instituição de pouco prestígio no Estado.

A participação das tropas do exército no levante que determinou a abdicação de D.


Pedro I (o 7 de abril) e a democratização do acesso às patentes militares fizeram o estamento
“olhar” para essa instituição com desconfiança. Além disso, crescia a ideia entre a população
civil de que os militares nada mais eram do que um “bando de parasitas”.

A criação da Guarda Nacional, em 1831, tinha como objetivo organizar um grupamento


militarizado para a manutenção da segurança no período de levantes sociais vividos no
Período Regencial. Apenas aqueles que poderiam votar e ser votados poderiam se alistar
nessa guarda, configurando, assim, uma instituição elitizada.

Por terem expectativas sociais associadas à farda – que, no passado, estava ligada ao
prestígio de um aristocrata –, a partir do período regencial e durante o Segundo Reinado,
o uniforme não representava o prestígio social de antes, pelo contrário, os militares eram
estigmatizados pelos demais setores do Estado e perderam a expectativa de ingressarem no
cenário político e em cargos no estamento.

Nesse sentido, essa condição de subordinação levou os integrantes do exército a


desenvolverem um espírito corporativo. Por meio desse espírito corporativo, formou-se a
cultura de que seriam eles os únicos patriotas, visto que os demais civis, principalmente
políticos e funcionários do alto escalão do governo, eram pessoas corruptas que só tinham
interesse em enriquecer, aproveitando-se da miséria do povo. Esse sentimento corporativo
foi um elemento importante para a autoestima da corporação militar.

Os valores militares acabaram aproximando as instituições dos ideais republicanos.


O exército assimilou os ideais republicanos, exceto o conteúdo federalista. Assim, a
ligação definitiva entre militares e republicanos aconteceu com o discurso republicano do
reconhecimento do papel dos militares na política, conteúdo negado sistematicamente pelos
monarquistas.

Essa valorização do exército no processo de transição para a república estava ligada ao


medo do desmantelamento político que a ascensão republicana poderia provocar. Quando
pareceu impossível frear o processo que culminaria com o fim do Segundo Reinado e o início
do período republicano, o exército parecia bem servir ao propósito de conduzir o processo de
mudança de sistema político sem o perigo de uma desagregação do território.

O que se temia era que, ao se instalar o sistema federativo, os chefes políticos


encaminhassem a política para uma autonomia extrema, a qual acarretaria um processo
separatista. E, com isso, somente o exército, com sua consciência nacionalista, teria a força de
manter a união nacional. Foi assim que o movimento republicano e todos os setores sociais

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Estado, Governo e Sociedade

engajados na defesa de ideais liberais não fizeram acontecer a república.

E quando a República veio, foi como um golpe levado a termo pelos militares, que
aproveitaram a conjuntura política para impor, de forma oportunista, o seu poder e as suas
ideias, que foram historicamente negligenciados pelo estamento. Muitos republicanos, então,
lamentaram essa forma de conduzir o novo sistema e que a tão sonhada república tivesse “a
cor do exército”.

Figura 3 – Lavoura de café.

Considerações finais
Nesta aula, você compreendeu que o cenário que marcou o final do Segundo Império
foi marcado por uma retomada do debate liberal, encampado por políticos e estudantes, até
porque a aspiração dessas pessoas era o fim da monarquia e a implantação da república.

Entretanto, não foram apenas os jovens e os políticos liberais que se envolveram com a
República. Os senhores de terra, dos engenhos de açúcar e do café também se engajaram na
causa republicana. Os primeiros, por se sentirem abandonados pela Coroa depois das medidas
antiescravagistas; os segundos, por desejarem desenvolver a produção cafeeira em moldes
incompatíveis com a ideologia centralizadora e baseada no poder pessoal do imperador.

Você estudou também que, frente às pressões republicanas, os monarquistas investiram


em medidas de descentralização política, com o objetivo de “acalmar os ânimos” republicanos
e manter a Coroa “na cabeça” do imperador. E essa medida não deu certo, pois as forças
políticas divergiram e não chegaram a um consenso sobre os rumos da política. A saída
inevitável, então, seria a República.

Era consenso que não haveria um Terceiro Reinado. Foi necessário conduzir o processo
de transição para a República. E esse processo não ocorreu via popular, aos moldes
revolucionários pelos quais outros países passaram. Assim, parte do estamento burocrático,
para não perder o comando, foi conduzindo o Brasil para a república. Os melhores condutores
seriam os militares.

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Estado, Governo e Sociedade

Os militares foram segregados pelo estamento político e se sentiram marginalizados por


isso. Acabaram, por fim, aproximando-se dos ideais republicanos e representando uma “via
segura” para a implantação da república com o poder de manter a unidade política brasileira,
ou seja, sem o risco que a federalização representava – a fragmentação do Brasil.

Referências
FABER, M. E. E. A questão escravagista e as leis abolicionistas no Brasil. História Livre. Disponível
em: <http://www.historialivre.com/brasil/escravidao.htm>. Acesso em: 1 out. 2014.

FAORO, R. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. São Paulo: Globo
Livros, 2014.

SOUSA, R. G. As leis abolicionistas. Mundoeducação. Disponível em: <http://www.


mundoeducacao.com/historiadobrasil/as-leis-abolicionistas.htm#comentarios>. Acesso em: 1
out. 2014.

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Estado, Governo e Sociedade
Aula 07
O Brasil republicano: os fundamentos políticos da
República Velha.

Objetivos Específicos
• Compreender o sistema republicano implementado no Brasil no período
conhecido como República Velha.

Temas

Introdução
1 A Proclamação da República e o governo provisório
2 A República da Espada
3 A República das oligarquias
4 O coronel
Considerações finais
Referências

Professora
Ana Paula Rupp Hamms
Estado, Governo e Sociedade

Introdução
Nesta aula, você conhecerá como foram os primeiros anos do período republicano,
conhecido como República Velha. Saberemos mais sobre as forças políticas que motivaram
a derrubada da monarquia e a implementação de um sistema republicano. A República foi
proclamada por militares, que permaneceram no poder durante os quatro primeiros anos da
República, sendo sucedidos por governos civis.

As oligarquias, principalmente aquelas ligada às fazendas de café, formaram a base do


poder político do período republicano. A condução política passou a ser ditada segundo os
interesses dos proprietários rurais. E os arranjos políticos que merecem destaque foram a
política do “café com leite” e a política dos governadores.

Apesar do fim do voto censitário, que foi substituído pelo sufrágio universal, isso não
significou um aumento da democracia, pois os mecanismos de controle do processo eleitoral
foram mantidos e diversificados durante a República, tais como: o amadurecimento do
sistema coronelista no meio rural e o uso da chamada “degola” política.

1 A Proclamação da República e o governo provisório


Faoro (2014) defende que a República chegou ao Brasil em 15 de novembro de 1889, pelas
“mãos” dos militares e sem a participação popular. Transmutado o poder, o primeiro passo do
regime militar foi estabelecer um governo provisório, sob o comando do Marechal Deodoro
da Fonseca, o líder do motim que instaurou a República. O momento era de instabilidade
política; por isso, tornou-se essencial consolidar o sistema republicano e evitar a retomada
do poder pela monarquia.

A primeira preocupação foi instaurar um processo constituinte com o objetivo de


ordenar a publicação de uma nova Constituição que desse fundamento legal para o novo
sistema de governo e também para realizar as reformas administrativas necessárias ao regime
republicano. Com esse objetivo, foram convocadas eleições para a escolha dos deputados
constituintes em sete de setembro de 1890.

Um ano depois de proclamada a República, em 15 de novembro de 1890, a Assembleia


Constituinte foi instaurada no Rio de Janeiro, com o objetivo de não somente preparar a
primeira Constituição republicana, mas também estipular definitivamente o primeiro governo
da era republicana para poder extinguir o governo provisório. Entretanto, um embate político
entre as principais forças republicanas foi deflagrado com a eleição para a presidência da
Câmara de Deputados, e esta seria responsável pela elaboração da Constituição. Assim, as
forças civis e militares em confronto elegeram o civil Prudente de Moraes como presidente
da Assembleia Constituinte.

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Estado, Governo e Sociedade

O esboço do texto constitucional já havia sido redigido por Rui Barbosa e alguns
assessores, antes do processo constituinte ter começado; depois, foi colocado em apreciação
pelos deputados (SOUSA, [s. d.]). Após alguns meses de tensões políticas e de debates sobre
alguns pontos polêmicos do texto constitucional, foi promulgada, no dia 24 de fevereiro de
1891, a nossa primeira Constituição republicana.

1.1 A Constituição de 1891

A Constituição de 1891 teve como modelo inspirador a Carta Magna norte-americana


(FAORO, 2014). Nosso país passou a ser chamado de República dos Estados Unidos do Brasil
e a Constituição estabeleceu a República federativa como organização política.

A República é uma forma de governo que tem seu Chefe de Estado eleito pelo povo (de
forma direta ou indireta), e federativa significa que o Estado (Federal) é dividido por regiões
(estados da Federação) que têm autonomia política e competências determinadas pela
Constituição; um governo próprio, mas que está submetido constitucionalmente ao Estado
Federal.

Desta forma, o Brasil foi dividido em estados e não mais em províncias. A principal
diferença é que as unidades da federação passaram a ter mais autonomia, o que determinou
uma descentralização política, contrastando com o modelo político do período do Império.
Além disso, o regime político passou a ser o presidencialista, regime em que o chefe de Estado
é também Chefe de Governo. Foram abolidos pela Constituição o parlamentarismo e o quarto
Poder (Poder Moderador), e foram mantidos os demais Poderes – Legislativo, Executivo e
Judiciário – , como é ainda hoje.

A Constituição de 1891 estabeleceu eleições diretas para representantes municipais


(BRASIL, 1891), estaduais e federais. Poderiam votar somente homens maiores de 21 anos.
O nível de renda deixou de ser um critério excludente para participar da eleição, conforme
estava estabelecido na Constituição de 1824, mas a Carta Republicana trocou a exclusão por
renda pela exclusão por nível de instrução, ou seja, os analfabetos (maioria da população
brasileira naquele período) foram proibidos de votar. Além disso, na democracia dos primeiros
anos da República, o voto não era secreto.

Os termos eleitorais da Constituição evidenciam que a mudança de sistema de governo


não representou um avanço no ponto de vista da democracia, uma vez que as forças políticas
que motivaram a proclamação da República não vinham das classes populares, mas sim da
elite brasileira, principalmente a formada pelos “senhores da terra”.

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Estado, Governo e Sociedade

Você deve ter percebido que a chegada da República não foi um marco
para a democratização do poder, pelo contrário, a Constituição de 1891 mostrou
claramente quais eram os limites da participação popular no processo eleitoral
da época. A República no Brasil não surgiu pelo povo e nem para o povo; ela foi
instaurada para estabelecer novos rumos políticos do Estado, sob as “rédeas”
da burguesia nacional, principalmente dos cafeicultores.

1.2 A República, as oligarquias e o liberalismo


A verdadeira força política “por trás” dos militares que proclamaram a República era a
oligarquia (FAORO, 2014), principalmente aquela ligada aos fazendeiros de café, até porque o
café era a base da economia brasileira na época. Não só os donos das fazendas de café, mas
também os outros senhores de terra, como os donos dos engenhos de açúcar, sentiram-se
muito prejudicados com a abolição da escravatura. E os governos imperiais estiveram sempre
ao lado das oligarquias, garantindo seus interesses.

O fim do trabalho escravo representou uma quebra de confiança das oligarquias com
relação ao governo; então, aquelas forças econômicas agiram como agentes mobilizadores
(por meio de políticos, agentes do Estado, entre outros) e instauraram a República, com a
promessa de que haveria mais autonomia política.

Na República, as oligarquias eram as verdadeiras forças políticas no comando. A ideologia


que prevaleceu entre a elite brasileira no comando do Estado foi a liberal (SANTIAGO, [s.
d.]). O liberalismo é um conjunto de ideias que defendem que o Estado deve garantir aos
indivíduos liberdade política e econômica e também não deve interferir na economia (livre
mercado). Na concepção liberal, os indivíduos devem ter autonomia, e esta perspectiva
procura construir uma expectativa de igualdade entre todos. Todavia, as práticas políticas
da oligarquia defensora do liberalismo faziam transparecer os verdadeiros interesses em
executar uma política liberal no Brasil.

Na maioria das vezes, o liberalismo constituiu-se apenas como uma retórica no discurso
político ou, no mínimo, uma política que enfatizava apenas os avanços no campo econômico,
pois, no que se refere aos avanços sociais, o liberalismo era esquecido pelos políticos, visto que
houve poucos avanços democráticos com o advento da República. Logo, é possível perceber
que a exclusão social das classes populares ainda é mantida e possivelmente seguirá como
parte da realidade brasileira ainda por muitos anos.

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Estado, Governo e Sociedade

Oligarquia significa “governo de poucas pessoas”. Ela representa os


indivíduos que estão relacionados a uma família ou classe social e que têm, em
suas “mãos”, a direção do Estado. Quando o poder de um país está concentrado
em uma oligarquia, o resultado disso é que as ações políticas visam a esta classe
e não os interesses da maioria da população. As oligarquias que estamos citando
neste texto eram constituídas de ricos proprietários de terra, principalmente
cafeicultores da região sudeste.

2 A República da Espada
Os primeiros anos de República foram comandados pelos militares, apesar das
divergências e da desconfiança dos civis para com os “políticos de farda”. O exercício
ditatorial do poder durante este período foi importante para garantir que a monarquia não
fosse reestabelecida e para assegurar que o sistema republicano “vingasse”.

Os dois primeiros governos do período republicano foram liderados pelos militares


Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, um período que ficou conhecido como República da
Espada (1889-1894). Deodoro da Fonseca governou durante o governo provisório; depois
assumiu o primeiro governo constitucional, eleito pelo Congresso (ARAÚJO, 2010). Entretanto,
em menos de um ano, Deodoro da Fonseca renunciou ao cargo e deixou Floriano Peixoto em
seu lugar.

2.1 O governo de Deodoro da Fonseca


O mandato de Deodoro da Fonseca foi marcado por crises econômicas e políticas
(FAORO, 2014). A crise econômica que se instaurou no Brasil durante o período da República
da Espada ficou conhecida como crise do encilhamento.

O encilhamento foi uma política econômica iniciada no Segundo Império e mantida no


período republicano por Rui Barbosa, enquanto este era Ministro da Fazenda. Foi uma aposta
política e econômica no desenvolvimento industrial brasileiro, baseada em uma abertura de
crédito para aqueles que fossem investir em indústrias. E os créditos foram concedidos a
partir da emissão de títulos da dívida pública; porém, sem lastro que garantisse este crédito,
ou seja, sem que houvesse a devida relação em ouro que afiançasse o valor dos títulos. Assim,
o governo passou a emprestar um dinheiro que não tinha, o que causou uma grave crise
inflacionária.

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A crise econômica acabou repercutindo politicamente, pois o Ministro da Fazenda


deixou o cargo. Então, o presidente Deodoro da Fonseca, que já era impopular durante o
governo provisório, passou a ser visto como um governante mal preparado para exercer seu
cargo (ARAÚJO, 2010). Além disso, no início de novembro de 1891, o presidente fechou o
Congresso, o que configurou o início de uma ditadura. Os políticos civis e também parte dos
militares fizeram oposição ferrenha à gestão de Fonseca, que foi forçado a renunciar em 23
de novembro de 1891, depois de ter governado apenas durante nove meses como presidente
eleito pelo Congresso. Com a renúncia de Fonseca, assumiu o governo o Marechal Floriano
Peixoto.

2.2 O governo de Floriano Peixoto


O governo de Floriano Peixoto também foi marcado pela falta de popularidade e por uma
conduta ditatorial logo no início do seu governo. Por lei estabelecida na nova Constituição,
caso o presidente da República tivesse seu mandato menor do que o período de dois anos,
seria necessária uma nova eleição, mas Floriano Peixoto não convocou o pleito eleitoral.

Diante de sua impopularidade e da crise econômica, Floriano Peixoto implementou


medidas mais democráticas. Procurando alcançar a simpatia do povo, baixou os impostos de
vários produtos de primeira necessidade, principalmente alimentos, além de ter reduzido o
valor dos aluguéis. Apesar de propor iniciativas que beneficiariam todos, a popularidade do
presidente não “alavancou”.

Em clima de discórdia e desconfiança por parte dos políticos civis, e até mesmo por
parte dos militares, e enfrentando dois conflitos no ano de 1893 – uma guerra civil no sul do
Brasil (Revolução Federalista) e uma revolta militar (Segunda Revolta Armada) – , o governo
de Floriano Peixoto foi chegando ao fim. Eleições foram realizadas naquele ano, instaurando
pela primeira vez na República um governo civil (SOUSA, [s. d.]). Terminou, assim, o período
da República da Espada.

A República foi estabelecida e estabilizada, pois não rondava mais no Estado “o fantasma
da monarquia”. E os governos militares foram importantes para garantir isso. Em oposição
aos militares, estavam os políticos civis, representantes das oligarquias, ansiosos por ampliar
seus poderes. Com a ascensão do poder oligárquico, a política perdeu um governo amparado
por uma ideologia positivista que determinava o exercício da autoridade com energia e
honestidade (FAORO,2014). Com o fim da República da Espada, teve início a República das
Oligarquias.

3 A República das oligarquias


Prudente de Morais, eleito em 1894, foi o primeiro presidente civil da história. Seu
governo deu origem ao período que ficou conhecido como República das Oligarquias, ou
República Oligárquica, que vigorou até o final da República Velha em 1930.

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O novo presidente, membro do Partido Republicano Paulista (PRP), foi o representante dos
proprietários de fazendas de café, da vitória das forças políticas organizadas que, finalmente,
tomaram o controle político do Estado de forma direta. O café era, na época, o principal
produto da economia brasileira, fazendo dos cafeicultores os homens mais poderosos do
Brasil, não é por acaso que os três primeiros presidentes civis eram do PRP.

Como entender a vigência de um governo “de poucos” se, no sistema político da época,
a distribuição de poder era feita através do voto em representantes do Poder Executivo e
Legislativo? Devemos lembrar aqui a forma como a Constituição de 1891 estabeleceu a eleição.
Apesar de o voto ser universal (em oposição ao voto censitário, por renda, do Império), ele
também era aberto, ou seja, não se podia votar em segredo. Esse permitia uma manipulação
e um controle do eleitor, conhecido como “voto de cabresto”. Esse tipo de voto era a garantia
de que o eleitor votaria naquele candidato determinado pelo chefe político local.

Merecem destaque na estrutura política deste período a política do “café com leite” a
política dos governadores. Confira!

3.1 A política do “café com leite”

A política do “café com leite” foi um acordo político entre os proprietários rurais do
sudeste que começou a vigorar a partir do governo de Campos Sales (1898-1902). Em
seguida, houve a alternância de poder entre o PRP e Partido Republicano Mineiro (PRM) até
o final do primeiro período republicano (SANTIAGO, [s.d.]). Essa política foi apelidada de “café
com leite” porque o café era o produto que garantia o poder da oligarquia paulistana e o
leite fazia referência à economia pecuarista de Minas Gerais; no entanto, essa denominação
também está relacionada aos hábitos culinários regionais relacionados aos derivados de leite,
principalmente o queijo.

Mas por que os paulistas, com sua força econômica, tiveram que fazer um acordo com os
mineiros? Justamente porque, apesar de São Paulo ter a economia cafeeira como base de seu
poder, o estado de Minas Gerais possuía o maior número de eleitores. Foi um acordo tácito
feito pelos paulistas para garantir seu poder diante da força eleitoral mineira (SANTIAGO,
[s.d.]). O poder era alternado no Executivo; no entanto, as forças políticas no comando
permaneciam as mesmas, já que os presidentes governavam privilegiando os interesses dos
dois estados.

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A política do “café com leite” foi decisiva na determinação de uma


característica importante da sociedade brasileira, pois foi um elemento
motivador de um maior desenvolvimento regional da região sudeste, onde
estão os estados de São Paulo e Minas Gerais, em detrimento das demais
regiões do país.

3.2 A política dos governadores


Este foi um esquema político que, embora não fosse oficial (legal), vigorou no Brasil
durante 30 anos (FAORO, 2014). Foi o presidente Campos Sales que idealizou e deu início à
política dos governadores. A estratégia era baseada em um pacto entre os governadores dos
estados e o presidente. Cabia ao presidente não interferir na política dos governadores; em
contrapartida, os governadores garantiriam o poder do presidente não lhe fazendo oposição
(FAORO, 2014). Os govenadores também deveriam assegurar que fossem eleitos apenas
os deputados e senadores alinhados com a política do presidente, e deveriam instruir os
representantes do Poder Legislativo eleitos em seu estado no sentido de aprovar os projetos
do Poder Executivo.

Outro mecanismo de manutenção do poder político sem que houvesse oposição ao


presidente foi chamado de “degola”, que era mais uma forma institucionalizada de corrupção
do processo eleitoral, que começou com a criação da Comissão Verificadora de Poderes. Esta
comissão tinha a incumbência de verificar se o candidato eleito nos estados tinha sido ou não
indicado pelo chefe político local, o coronel. Em caso negativo, o candidato era impedido de
tomar posse, pois a Comissão Verificadora de Poderes passava a considerar ilegal a eleição do
candidato que não tivesse sido indicado (SANTOS, [s.d.]).

Note que, de uma forma ou de outra, os presidentes da República Velha garantiam a


estabilidade política por meio de uma prática política que suprimia a oposição e barrava
qualquer avanço democrático. Então, para que as “regras” dessa política fossem cumpridas,
os governadores usavam as mais diversas artimanhas políticas para garantir a eleição de
representantes políticos favoráveis ao presidente (FAORO, 2014).

Os governadores eram sustentados politicamente pela elite agrária, representada


principalmente pelos proprietários de terra. Na época, os coronéis tinham o poder local e, por
meio deste poder, procuravam garantir a votação para determinados candidatos, utilizando-
se do “voto de cabresto” e de fraudes eleitorais, por serem considerados importantes para o
conjunto do sistema que compunha a política brasileira.

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4 O coronel
A população brasileira, na época da República Velha, era eminentemente rural. Mesmo
que o período tenha apresentado um aumento da população urbana, esta tinha seus
interesses, sua ocupação, relacionada ao meio rural, visto que as relações econômicas
estavam subordinadas principalmente às atividades agrícolas (FAORO, 2014). Segundo Faoro,
as cidades serviam o campo, e não o contrário.

O coronelismo é um fenômeno político que ganhou destaque durante o Império e que


ganhou um novo vigor durante a República, pois promoveu a descentralização do poder e,
desta forma, fortaleceu os poderes locais. A nomenclatura de coronel vem da incorporação
de pessoas socialmente qualificadas, de uma determinada região, à Guarda Nacional. Essas
pessoas, geralmente as mais ricas, recebiam a patente de coronel – uma prática que iniciou
na época do Império (FAORO, 2014). Desta forma, o conceito entrou para a linguagem
corrente para denominar aqueles detentores de poder econômico no meio rural, com ou
sem a patente militar.

O poder exercido pelos coronéis estava no controle do processo eleitoral no plano local.
Do coronelismo vem a expressão “curral eleitoral”, que significa a região onde os coronéis
tinham o poder de impor seu candidato aos eleitores por meio de garantias, da troca do voto
por favores, e até usando violência. Assim, quanto mais eleitores o coronel “arrebanhava”
para si, mais prestígio tinha diante das autoridades estaduais. Esse prestígio lhe garantia
privilégios públicos e estes privilégios, por sua vez, faziam com que aumentasse seu poder de
persuadir os eleitores.

O sistema coronelista se caracteriza por uma troca de favores entre os líderes locais
(coronéis) e o Governo estadual. Geralmente as despesas com as eleições eram pagas pelos
coronéis, os quais, em troca, recebiam benefícios do Estado, principalmente empregos
públicos. Havia desavenças entre coronéis, mas não de coronéis com relação ao governador.

O fenômeno do coronelismo, segundo Faoro (2014) é circunscrito ao meio rural, por


isso o processo de urbanização aos poucos acabou enfraquecendo esta relação de poder.
No meio rural, muitas vezes o eleitor vota no candidato do coronel por ter, com relação a
este, um vínculo de honra, uma relação que também está relacionada à troca de favores. Na
cidade, as relações sociais são outras no que se refere aos vínculos políticos e econômicos;
há uma maior presença do Estado, no que se refere às leis, à justiça, à cobrança de impostos,
à vigência do trabalho assalariado etc.

O coronelismo foi, então, a base da manutenção do poder político durante a República


Velha no meio rural. Como nesse meio estava a maioria da população daquela época, a relação
do coronel com o governo e do coronel com o eleitor foi o que garantiu o funcionamento do
Estado por intermédio das políticas do “café com leite” e dos governadores.

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Considerações finais
Nesta aula, tratamos dos fundamentos políticos da República Velha. Aprendemos que
a República foi implantada no Brasil pelos militares, que estiveram no poder durante os
quatro primeiro anos do regime republicano, período conhecido como República da Espada
e caracterizado pelo autoritarismo dos presidentes militares Deodoro da Fonseca e Floriano
Peixoto.

Em seguida, vimos que os governos militares foram sucedidos por governos civis,
período denominado de República Oligárquica. A República Velha foi fortemente marcada
pela supremacia política das oligarquias, principalmente a representada pelos fazendeiros
paulistas produtores de café. Lembre-se de que oligarquia significa o poder de poucos. E,
realmente, durante a República Oligárquica o poder estava concentrado em poucas “mãos”.

Você também compreendeu que os principais fundamentos políticos vigentes durante o


período da República Velha foram a política do “café com leite”, caracterizada pela alternância
de presidentes paulistas e mineiros, e a política dos governadores, fundamentada em uma
prática que garantia a manutenção do status quo, pois o presidente dava autonomia política
para os governadores desde que estes garantissem que, em seus estados, não surgissem
forças de oposição ao Governo federal.

Não existia, na época, uma participação política da população, apesar de haver um sistema
eleitoral, pois só podiam votar homens maiores de 21 anos e que fossem alfabetizados. Além
disso, o processo de votação era fraudulento, com base no “voto de cabresto”, e mantido
por um sistema político coronelista, especialmente porque as relações econômicas estavam
subordinadas principalmente às atividades agrícolas.

Referências
ARAÚJO, F. República da Espada. 2010. História Brasileira. Disponível em: <http://www.
historiabrasileira.com/brasil-republica/republica-da-espada/>. Acesso em: 17 out. 2014.

BRASIL. Constituição (1891). Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil de 1891.
Diário Oficial da União, Rio de Janeiro, 14 fev. 1891. <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/
constituicao/Constituicao91.htm>. Acesso em: 17 out. 2014.

FAORO, R. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. São Paulo: Globo
Livros, 2014.

SANTIAGO, E. Liberalismo. Infoescola. Disponível em: <http://www.infoescola.com/filosofia/


liberalismo/>. Acesso em: 15 out. 2014.

____. Política do Café-com-leite. Infoescola. Disponível em: <http://www.infoescola.com/


historia/politica-do-cafe-com-leite>. Acesso em: 17 out. 2014.

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Estado, Governo e Sociedade

SANTOS, F. A prática da degola na República Velha. Brasil Escola. Disponível em: <http://www.
brasilescola.com/historiab/pratica-degola-na-republica-velha.htm>. Acesso em: 15 out. 2014.

SOUSA, R. Constituição de 1891. Brasil Escola. Disponível em: <http://www.brasilescola.com/


historiab/constituicao-1891.htm>. Acesso em: 11 out. 2014.

____. República da Espada. Brasil Escola. Disponível em: <http://www.mundoeducacao.com/


historiadobrasil/a-primeira-republica.htm>. Acesso em: 11 out. 2014.

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Aula 08
O fim da política do “café com leite”

Objetivos Específicos
• Conhecer a realidade histórica que determinou o fim da República Velha.

Temas

Introdução
1 Condicionantes sociais e políticas da crise da República Velha
2 Condicionantes econômicos da crise da República Velha
3 O golpe de 1930 e o fim da Primeira República
Considerações finais
Referências

Professora
Ana Paula Rupp Hamms
Estado, Governo e Sociedade

Introdução
Nesta aula, você verá as condições sociais, políticas e econômicas que determinaram um
quadro de crise do modelo político implementado pela República Velha, provocando uma
ruptura com as oligarquias que historicamente detinham o poder no Brasil. Para esta aula,
usaremos como bibliografia básica o livro “Os donos do poder”, de Raymundo Faoro (2014).

As forças contrárias à política do “café com leite” começam a aglutinar suas forças em
diversos momentos, principalmente a partir de 1922, com o conturbado processo que elegeu
Artur Bernardes para a Presidência da República, o que envolveu o protesto oposicionista
conhecido como Reação Republicana. Assim, setores da sociedade se mobilizavam procurando
formas para demonstrar o repúdio à política tradicional, como foi o caso do movimento
tenentista e suas marcantes manifestações em um período em que a democracia era uma
retórica muito longe da realidade.

Os ideais propagados a partir da conquista republicana foram perdendo seu viço na


medida em que a política das oligarquias se estabelecia, criando um “sulco” profundo entre
as elites e o povo. Falta de perspectiva, apatia política e social, é neste estado de coisas que
o povo viu chegar a Era Vargas.

O sucesso da economia cafeeira faz endurecer os políticos paulistas em torno da


manutenção de seus poderes e da expansão do negócio do café. O dinheiro com a exportação
de café era muito e as primeiras indústrias surgiram em São Paulo sob a sombra dos cafezais.
A indústria, veremos, trouxe consigo as reivindicações operárias e a urbanização. Tais fatos
foram, aos poucos, modernizando o Brasil.

Porém, o negócio com o café sofreu um grande golpe com a queda da bolsa de valores e
a crise de 1929. Neste momento de crise econômica e insatisfação política, havia um cenário
para a mudança. Elites políticas e setores do exército se instalaram no Brasil, determinando
o curso da história.

1 Condicionantes sociais e políticas da crise da República


Velha
Várias são as interpretações da história sobre a crise da República Velha que relacionadas
aos acontecimentos que determinam a Revolução de 1930 e o início de um novo período
político (FAORO, 2014). Assim como são variadas as explicações, também não é possível
determinar um único fator a motivar o curso da história, uma vez que aspectos econômicos,
políticos e sociais concorrem para definir a realidade e o fluxo dos acontecimentos.

O sistema político da República Velha, principalmente ao longo da década de 1920,


passou a ser disfarçado por uma série de conflitos que abalaram e enfraqueceram o sistema

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republicano da época (FAORO, 2014). Desde o crescimento da oposição à polícia “café com
leite” a partir da eleição de Artur Bernardes em 1922, até as várias implicações sociais do
movimento tenentista, o quadro que se configurou foi de apatia e descrença na política por
grande parte da população.

1.1 A eleição de Artur Bernardes


A eleição de Artur Bernardes, em 1922, foi marcada por alguns acontecimentos políticos
e sociais que, para Faoro (2014), marcaram o fim da República Velha, oito anos antes do
movimento armado de 1930 (golpe de estado). Este é um momento em que a insatisfação
com a política do “café com leite” e com a supremacia da economia baseada na monocultura
do café veio à tona.

Os políticos de oposição acreditaram que o período de sucessão do presidente Epitácio


Pessoa, em 1921, era um momento oportuno para avivar suas diferenças. Não que antes o
governo não tivesse seus opositores, mas os adversários do governo – dominado pelo Partido
Republicano Paulista (PRP) e o Partido Republicano Mineiro (PRM) – foram motivados por
certo clima de discórdia entre paulistas e mineiros para criar uma chapa de oposição para a
sucessão presidencial (FAORO, 2014).

Para o processo de sucessão de Epitácio Pessoa, o PRP e o PRM indicaram o mineiro Artur
Bernardes. Na ocasião, a bancada do Rio Grande do Sul se posicionou contra a candidatura
de Bernardes e, por isso, lançou como candidato à presidência: Nilo Peçanha (FAORO, 2014).
Este episódio fez parte de um movimento por parte dos estados do Rio Grande do Sul, Rio de
Janeiro, Pernambuco e Bahia, chamado de Reação Republicana.

1.1.1 A Reação Republicana

A Reação Republicana foi uma manifestação política de oposição à hegemonia de


mineiros e paulistas na presidência da República (FAORO, 2014). As oligarquias gaúcha,
carioca, pernambucana e baiana e uma parcela de militares, todos representados por seus
porta-vozes na política e que participaram do manifesto republicano, eram de importância
(econômica e política) mediana, mas eles se sentiam sempre injustiçados pelo sistema de
sucessão presidencial que prevalecia naquela época.

Além da questão política, a Reação Republicana também continha um conteúdo


econômico, visto que a gestão da economia por parte do Estado privilegiava apenas o café, e
a oposição reclamava a proteção de outros produtos brasileiros (FAORO, 2014). A plataforma
política de Nilo Peçanha não era contra a valorização do café na política econômica brasileira;
porém, alertava para o fato de o Estado precisar “dar o devido valor” para outros produtos.

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A oposição não teve poder suficiente para eleger seu candidato; assim, Artur Bernardes
venceu a “corrida presidencial”. A oposição aceitou a vitória sem muito protesto, simplesmente
por aceitar as “regras” do jogo político. No entanto, outros setores mobilizados da sociedade,
principalmente relacionados às camadas médias urbanas, não aceitaram tão bem a vitória do
candidato “café com leite”. A Revolta do Forte de Copacabana demonstrou a insatisfação de
parte dos militares sobre o rumo da política brasileira.

1.1.2 A Revolta do Forte de Copacabana

Parte dos militares estava alinhada com a oposição, pois não gostou da eleição de Artur
Bernardes (FAORO, 2014). Além da questão da sucessão presidencial, outros dois episódios
marcaram o posicionamento dos militares como opositores ao governo federal e fomentaram
o movimento de revolta: as “cartas falsas” e a prisão do Marechal Hermes da Fonseca.

Cartas publicadas pelo jornal Correio da Manhã do Rio de Janeiro e supostamente


escritas por Artur Bernardes, por meio das quais este fazia críticas ao exército e ofendia o
Marechal Hermes da Fonseca, ficaram conhecidas como “cartas falsas” (BOTELHO, 2011).
Junta-se a este fato, outro: a prisão do Marechal, visto que, por ser citado nas “cartas falsas”,
Hermes da Fonseca foi preso por ter criticado o processo eleitoral que garantiu a vitória de
Artur Bernardes.

O clima de desagrado com a política e com a condução dos civis com relação aos militares,
levou certos setores do Exército, principalmente aqueles das patentes mais baixas, tais como
os tenentes e os soldados, a organizar movimentos com caráter de revolta em dependências
do exército no Rio de Janeiro, Niterói e Mato Grosso (FAORO, 2014). Com relação a estes
focos de revolta, a mais significativa foi a que aconteceu no forte de Copacabana.

Militares revoltosos apontaram os canhões do forte de Copacabana para diferentes


direções do Rio de Janeiro. Com esta ameaça, pretendiam tomar o Palácio do Catete (sede
do Governo federal) e instalar ali um governo militar. Eles também tinham a intenção de
recontar os votos que elegeram Artur Bernardes e anunciar a fraude no escrutínio. A maioria
dos militares amotinados resolveu desistir do movimento, cerca de 300 homens, com medo
das medidas repressivas do governo. Restaram 28 revoltosos. Quando o forte foi atacado, 17
homens saíram do Forte, com a intensão de enfrentar as tropas aliadas ao governo e um civil
se juntou ao grupo; por isso, este acontecimento histórico também ficou conhecido como
“Os 18 do Forte”. Do episódio, resultaram 16 mortos, dois presos e um movimento conhecido
como tenentismo.

1.2 O Tenentismo
O tenentismo foi um movimento que agregou uma parte dos integrantes do Exército
durante a década de 1920, principalmente aqueles que ocupavam as patentes mais baixas

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da hierarquia militar, tais como soldados, cabos e tenentes. Estas pessoas tinham em comum
opiniões sobre a política brasileira. Seu pensamento também é uma expressão do que as
camadas médias urbanas pensavam da forma como a política era conduzida no Brasil.

Este movimento tinha como “pano de fundo” os ideais liberais e democráticos; combatia
a liberdade de escolha baseada no voto secreto, pois, sem ele, a política atrelada ao poder
das oligarquias não cederia nunca; criticava a hegemonia das oligarquias no poder; reprovava
a economia baseada na monocultura do café (SOUSA, [s. d.]); e defendia, ainda, o voto
feminino e a educação pública.

A primeira manifestação política do tenentismo foi o episódio “Os 18 do Forte”, mas


também merecem destaque como parte deste movimento a Comuna de Manaus, A Revolta
Paulista e a Coluna Prestes.

O movimento tenentista acabou se enfraquecendo enquanto movimento social no final


da década de 1920, quando grande parte de seus líderes foram “assimilados” pela Aliança
Liberal, uma união de forças de oposição à candidatura de Júlio Prestes, liderada por Getúlio
Vargas. No decorrer da década de 1930 (GASPARETTO JR., [s. d.]), o movimento sofreu uma
divisão: parte dos tenentes fez oposição a Getúlio Vargas e outra parte seguiu o líder da
Coluna Prestes, Luiz Carlos Prestes. Lideranças tenentistas estiveram presentes também no
golpe militar de 1964.

1.3 Ideais republicanos: críticas e incertezas


No decorrer da década de 1920, as justificativas ideológicas do sistema republicano
foram perdendo credibilidade (FAORO, 2014). O “brilho republicano” prometido por seus
precursores, como a democracia e a igualdade, não passou de um engodo daqueles que
queriam assumir o poder. Com o passar do tempo, as pessoas compreenderam os verdadeiros
propósitos políticos dos republicanos e passaram a relacionar a ideia de República com o
que se transformou a realidade política brasileira, com suas instituições políticas voltadas
para o benefício e o exercício do poder das oligarquias. O Estado atuava como interventor
e centralizador do poder, restringindo as liberdades e demonstrando que a ideologia liberal
não passava de um discurso vazio. A política republicana não permitiu que os ideais liberais
fossem realizados, e a consequência disso foi o grande descrédito com relação à organização
política daquela época.

Este estatuto da descrença política estabelecido na sociedade brasileira provocava um


sentimento de que era necessária uma mudança. Era preciso sair daquele estado de coisas
para que fosse criada outra realidade. Porém, mudar para o quê?

Segundo Faoro (2014), não existia na época uma aspiração amadurecida sobre um projeto
de sociedade que pudesse romper com o sistema vigente. Existiam, sim, várias tendências
concorrendo entre si, como a volta do parlamentarismo, do Poder Moderador ou a ênfase

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na descentralização. E até novas tendências ideológicas, como o comunismo, começaram a


aparecer. Mas nenhuma dessas tendências tinha força suficiente para uma mobilização que
provocasse uma verdadeira transformação.

O estado de atonia social, ou seja, de debilidade e inércia nas aspirações da sociedade,


certamente é quando “se planta o germe” de grandes transformações sociais. E a Revolução
de 1930 encontrou o “terreno propício” para que o surgimento de uma nova realidade política
fosse “germinada”.

2 Condicionantes econômicos da crise da República Velha


A economia brasileira na década de 1920 era dominada pelo café paulista, o qual
apresentou um desempenho surpreendente na década, se comparado com os outros
produtos de exportação produzidos no Brasil na época, como o açúcar e a borracha.

O café fluminense, contudo, não teve o mesmo desempenho que o paulista. Para Faoro
(2014), a produção de café em São Paulo apresentava um desempenho maior porque neste
estado as fazendas cafeeiras foram organizadas segundo um modelo mais moderno, voltadas
para uma lógica de empresa capitalista; por isso, os fazendeiros paulistas não sentiram tanto
a falta do trabalho escravo quanto o cafeicultor do estado do Rio de Janeiro.

São Paulo seguiu liderando a economia com relação aos demais estados (CANO, 2012).
A expansão econômica aumentou os interesses dos paulistas em manter uma situação
política que fosse favorável para sua classe, o que acabou gerando mais conservadorismo
e autoritarismo por parte das oligarquias paulistas e de seus representantes na política. O
modelo político da oligarquia paulista não era democrático, este fato acabou repercutindo
em um aumento de posições reivindicatórias e oposicionistas frente a esta política.

Apesar da prosperidade econômica também determinar efeitos positivos, tais como o


aumento nas ofertas de emprego e salário, ela também aumentou os conflitos (CANO, 2012):
com mais empregos, há mais assalariados e, em consequência, mais conflitos “naturais”
gerados por relações trabalhistas (patrão/assalariado).

A prosperidade paulista não ficou apenas no campo, uma vez que o capital gerado
pela exportação de café permitiu ao capitalista paulistano começar a investir na indústria,
principalmente no setor têxtil (FAORO, 2014). A industrialização também foi responsável
por outra faceta das relações sociais, o movimento operário. A classe trabalhadora, embora
insipiente, começou a fazer suas primeiras manifestações, que foram tratadas pelo governo
como um “caso de polícia”.

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2.1 Industrialização, movimento operário e autoritarismo

A industrialização, por sua vez, também provocou o desenvolvimento urbano. Até aqui é
importante destacarmos que a prosperidade do café marcou a sociedade paulista e a cidade de
São Paulo. O processo de urbanização provocado pelo desenvolvimento industrial repercutiu
em muitas transformações sociais e de infraestrutura (CANO, 2012), tais como investimentos
em saúde, educação, saneamento básico e sistema de transporte, sem os quais a indústria
não conseguiria existir e expandir-se. A industrialização deu início a outra questão social a ser
equacionada pelo Estado: os movimentos operários.

Na década de 1920, a cidade de São Paulo já concentrava o maior parque industrial da


América Latina, ja que a mão de obra começou a se formar desde o início do século com a
chegada dos imigrantes europeus. E, nessa época, a massa migratória era nacional, formada
por pessoas vindas principalmente dos estados do nordeste e de Minas Gerais.

O crescimento do contingente de operários faz crescer o volume de reivindicações,


greves e outras manifestações que levaram o governo a ter que intervir nos conflitos de
classe. Na década de 1920, o movimento operário expôs características anarquistas, as quais
foram marcantes na década anterior, e passou a ter uma organização mais consistente no
que se refere às estratégias e pautas de negociação. Cano (2012) destaca que o governo
tinha uma prática de conceder direitos trabalhistas, ou seja, de incluir direitos na legislação
vigente; no entanto, postergava sua aplicação ao máximo.

Além do processo de demora para a concessão de direitos, o Estado criou leis


conservadoras para garantir a manutenção do sistema frente às reivindicações operárias e
de oposição ao governo (CANO, 2012). Exemplos dessa prática foram a “Lei dos Comunistas”,
que dava o direito de o Estado expulsar os “agitadores” estrangeiros, e a Lei de Imprensa,
que permitia prender os jornalistas que escrevessem críticas ao governo. Na época, também
entrou em vigência o estado de sítio. O governo de Artur Bernardes foi marcado pela
turbulência social de movimentos sociais, como o operário e o tenentismo. Para a garantia da
ordem, era comum o presidente decretar estado de sítio.

Como você deve ter percebido, o crescimento econômico do Brasil durante o período
também teve seu lado negativo, do ponto de vista do governo, pois este foi responsável
pelo crescimento da indústria e, por conseguinte, pelo desenvolvimento das forças operárias
e pelo poder de organização e de reinvindicação delas (CANO, 2012). Esta foi mais uma
motivação para o governo “endurecer” em sua política repressiva. A postura autoritária do
Estado levava, por sua vez, grande parte da sociedade a ter uma expectativa negativa com
relação à política.

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Para saber mais sobre a vida da sociedade paulistana durante a década de


1920, assista ao filme “Eternamente Pagu”, filmado no ano de 1988, sob a
direção de Norma Benguell.

2.1.1 Urbanização e declínio do coronelismo

Não podemos deixar de mencionar uma das consequências do processo de


industrialização que aflorou desde os primeiros anos do século XX (MENDONÇA; RIBEIRO;
THOMAZ JR., 2002), mas somente se intensificou como política prioritária para o Estado
brasileiro a partir da década de 1930: a urbanização. O aumento da população nas
cidades, a partir de um processo de migração campo-cidade, caracterizou as sociedades
industrializadas. E neste momento da história, a urbanização aconteceu por causa do
principal fator atrativo das cidades: o trabalho remunerado.

Com o trabalho remunerado, as relações econômicas estabelecidas a partir de um salário,


partem de um outro tipo de lógica, a liberdade (de vender a força de trabalho), bem diferente
do que acontecia no campo, onde as relações tradicionais de poder eram marcadas por uma
lógica coronelista (FAORO, 2014), ou seja, pela confusão entre o poder privado do senhor da
terra e seu poder enquanto agente público, quando exerce sua influência social a partir do
fato de ser dono de terras.

Para Faoro (2014), a autoridade do coronel está relacionada às relações de poder


estabelecidas no meio rural. Na década de 1920, a autoridade do coronel era importante para
que o Governo Federal pudesse garantir que a chamada política dos governadores, que era
garantida por meio do “voto de cabresto”, tivesse êxito. A política dos governadores foi um
pacto feito entre os governadores dos estados e o Presidente da República, a estratégia era a
não interferência do presidente nos assuntos dos Estados e, em troca disso, os governadores
deveriam garantir que fossem eleitos para o Poder Legislativo apenas políticos que não
fizessem oposição ao presidente.

O coronel, líder político de localidades rurais, garantia o voto para seu candidato a partir
do subterfúgio constitucional do voto a descoberto, ou seja, era possível o coronel controlar o
voto do eleitor, garantindo, desta forma, a vitória do candidato simpatizante da política oficial
(FAORO, 2014). Com o crescimento da população nas cidades, as eleições não poderiam mais
ser manipuladas dessa forma, fato que enfraquecia o poder do presidente e seu governo.

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2.2 A crise de 1929 e seus efeitos no Brasil


Ao final da Primeira Guerra Mundial, os países europeus que estiveram envolvidos no
conflito estavam destroçados e endividados. Seu credor: os Estados Unidos da América. A
Europa estava envolvida em reerguer-se, reconstruir suas indústrias, e precisou importar
produtos dos EUA. Este foi um momento de grande crescimento econômico para a economia
estadunidense. Houve um grande impulso na produção industrial, mas no final da década
de 1920 a Europa já havia reconstruído suas indústrias e passou a importar cada vez menos
produtos dos Estados Unidos (MARTINS JR., 2014).

Como a produção dos Estados Unidos só crescia, os produtos começaram a ficar sem
compradores. A maioria das indústrias norte americanas tinha ações na bolsa de valores de
Nova York e muitas pessoas investiram nestas ações, pois a atmosfera de contínua prosperidade
econômica contagiou milhares de pessoas que apostaram no crescimento contínuo daquelas
indústrias. No entanto, diante da crise de superprodução (muito mais produtos oferecidos
do que consumidores), as ações destas indústrias despencaram e muitas pessoas muito ricas
ficam muito pobres de um dia para o outro (MARTINS JR., 2014). Os efeitos da crise na bolsa
de valores dos EUA foram sentidos em todo o mundo capitalista.

A crise de 1929 também afetou o Brasil (VALLONE, 2009). A economia brasileira estava
baseada na exportação de produtos agrícolas, entre eles o café. Nesta crise, o comércio de
gêneros primários foi profundamente afetado, principalmente o café, por não se tratar de um
gênero de primeira necessidade. Em tempos de crise, é natural que se suspenda o consumo
de supérfluos e o café entrou nesta categoria. Assim, a exportação do café caiu muitíssimo,
o que abalou enormemente a economia brasileira, visto que estava fundamentada em uma
monocultura.

A crise econômica afetou negativamente todo o elo produtivo envolvido com o negócio
do café, o dono da fazenda e o trabalhador rural, o banqueiro e o comerciante (VALLONE,
2009). O desencadear da crise a as consequências econômicas deste processo foram sentidos
principalmente na década seguinte, quando não estava mais vigente a política da primeira
República, mas sim a da Era Vargas. Certamente, os efeitos desta crise também afetaram a
política, fundada no poder das oligarquias ligadas à produção de café.

Neste cenário do final da década de 1920, de descrédito político por parte da população,
de enfraquecimento econômico das bases que sustentavam o governo (MARTINS JR., 2014), é
fácil entender que um novo momento, de profundas transformações, precisava ser anunciado.

3 O golpe de 1930 e o fim da Primeira República


O processo que desencadeou uma revolução foi a disputa presidencial que acontecia
naquele ano de 1930 (FAORO, 2014). Durante o processo eleitoral, aconteceu uma interrupção

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no acordo entre o PRP e o PRM, a política do “café com leite”. Quando o presidente Washington
Luís, representante dos paulistas, deveria designar Antônio Carlos Ribeiro de Andrada,
governador de Minas Gerais, como candidato à presidência e, portanto, seu sucessor; todavia,
em seu lugar, indicou o governador do Estado de São Paulo, Júlio Prestes.

Em protesto ao ato de deslealdade cometido pelo presidente Washington Luís, Minas


Gerais uniu-se com as oligarquias que faziam oposição ao governo e à política do “café com
leite”, Rio Grande do Sul e Paraíba, formando a Aliança Liberal (AL). Essa nova composição
política lançou o nome de Getúlio Dornelles Vargas como candidato à presidência da República,
tendo como vice-presidente o governador da Paraíba João Pessoa. O resultado das eleições
não impressionou ninguém. Conforme sempre acontecia, o eleito foi o candidato da situação,
Júlio Prestes.

A oposição sabia que o resultado da eleição tinha sido fraudado. A AL buscou apoio
político entre líderes do movimento tenentista – que durante toda a década de 1920 fizeram
oposição ao governo –, na tentativa de juntar forças para um golpe militar (FAORO,2014). Em
um primeiro momento, o plano não foi adiante; porém, o assassinato do candidato a vice-
presidente mudou o rumo dos acontecimentos.

A Aliança Liberal usou o assassinato de João Pessoa a seu favor, acusando a oligarquia
paulista como mandante da morte do governador paraibano (FAORO, 2014). Motivados por
este acontecimento, os militares finalmente pegaram as armas e derrubaram os paulistas
do poder. Tropas militares deixaram o Rio Grande do Sul, a Paraíba e Minas Gerais rumo
ao Rio de Janeiro e tiraram Washington Luís do poder e colocaram Getúlio Vargas em seu
lugar, dando início à Era Vargas e colocando um ponto final no modelo de fazer política que
dominou grande parte do primeiro período da nossa história republicana.

Considerações finais
Nesta aula, você viu que a Reação Republicana e a Revolta do Forte de Copacabana
foram movimentos políticos e sociais que se opuseram à candidatura de Artur Bernardes, em
1922, para a presidência. Este momento político foi o estopim do movimento social conhecido
como tenentismo.

Você também viu que a população brasileira passou a não acreditar mais nos ideais
republicanos, pois o cotidiano da política demonstrava que a República tinha sido proclamada
para defender os ideais a as aspirações de uma pequena parcela de brasileiros, e não do povo.

No final da década de 1920, o descrédito com relação às instituições provocou um estado


de apatia e incerteza quanto ao futuro do país. Então, era essencial que fossem realizadas
mudanças profundas, pois o descontentamento com a política do “café com leite” e com
a supremacia da economia baseada na monocultura do café era evidente. O café trouxe
riquezas para poucos; no entanto, foi responsável por algumas mudanças que colocaram o
Brasil no cenário da modernidade, como a urbanização e a industrialização.

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O movimento operário da década de 1920 representa outro exemplo de movimento


social que provocou a mobilização do governo no sentido de conter as forças sociais e suas
reivindicações. O processo de urbanização provocado pelo desenvolvimento industrial
repercutiu em muitas transformações sociais e em investimentos em infraestrutura; porém, a
crise de 1929 afetou a economia brasileira e enfraqueceu o poder das oligarquias tradicionais
e, considerando o quadro de insatisfação com o governo por grande parte da população, foi o
que favoreceu o surgimento das novas forças políticas que acabaram tomando o poder.

Por fim, você soube o que desencadeou uma revolução em 1930 e conheceu os fatores
que motivaram o golpe militar e o fim da Primeira República.

Referências
CANO, W. Da década de 20 à de 30: transição rumo à crise e à industrialização no Brasil.
Economia, Brasília(DF), v. 13, nº 3b, p. 897-916, set/dez 2012. Disponível em <www.anpec.org.
br/revista/vol13/vol13n3bp897_916.pdf>. Acesso em: 20 out. 2014.

BOTELHO, F. A. As cartas falsas de Artur Bernardes. 2011. GGN. Disponível em: <http://jornalggn.
com.br/blog/luisnassif/as-cartas-falsas-de-arthur-bernardes>. Acesso em: 19 out. 2014.

FAORO, R. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. São Paulo: Globo
Livros, 2014.

GASPARETTO JR., A. Tenentismo. Infoescola. Disponível em: <http://www.infoescola.com/


brasil-republicano/tenentismo/>. Acesso em: 18 out. 2014.

MARTINS JR., L. A. Crise de 1929. 2014. Educação.história. Disponível em: <http://educacao.


globo.com/historia/assunto/mundo-em-tempos-de-guerra/crise-de-1929.html>. Acesso em:
21 out. 2014.

MENDONÇA, M. R. ; RIBEIRO, D. D. ; THOMAZ JR., A. A modernização da agricultura e os


impactos sobre o trabalho. v. VI, n. 119 (44), 1 de agosto de 2002. Disponível em: <http://
www.ub.edu/geocrit/sn/sn119-44.htm>. Acesso em: 18 out. 2014.

SOUSA, R. Tenentismo. Brasil Escola. Disponível em: <http://www.brasilescola.com/historiab/


tenentismo.htm>. Acesso em: 18 out. 2014.

VALLONE, G. Crise de 1929 atingiu a economia e mudou a ordem política no Brasil. 2009.
Revista Cafeicultura. Disponível em: <http://www.revistacafeicultura.com.br/index.
php?tipo=ler&mat=27265>. Acesso em: 18 out. 2014.

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Aula 09
O Estado Novo e o estatuto da Modernidade

Objetivos Específicos
• Analisar em que medida o Estado Novo, que se estabelece no Brasil após o
término do período chamado de República Velha, instaurou no país políticas
modernizantes.

Temas

Introdução
1 Os antecedentes do golpe de 30
2 O Golpe de 30
3 Breve histórico sobre a era Vargas
4 O projeto político da era Vargas
Considerações finais
Referências

Professora
Ana Paula Rupp Hamms
Estado, Governo e Sociedade

Introdução
Nesta aula, você verá as circunstâncias sociais, políticas e econômicas que motivaram o
golpe de 1930. A crise econômica mundial afeta a exportação de café e, por sua vez, também
a política brasileira. Os cafeicultores precisam reforçar seu poder político, já que do ponto de
vista econômico ficaram enfraquecidos.

O processo de urbanização destrói aos poucos os sistemas de dominação política que


predominavam naquele período. É necessário criar outras formas de impor a autoridade e a
vontade política das elites em um país que se moderniza na medida em que as cidades vão
crescendo.

Você verá, também, a série de fatos históricos que determinaram o Golpe de 30, a
formação da Aliança Libertadora e seus objetivos políticos, a participação dos tenentes e o
movimento de oposição que culminou na chegada de Getúlio Vargas na Capital Federal, o Rio
de Janeiro, pelas mãos dos militares. Depois de tomado o poder, dá-se o início da chamada
Era Vargas, marcada por diferentes períodos, os quais veremos brevemente.

Você verá que, na Era Vargas, o Estado foi conduzido de forma centralizadora. As
necessidades de reforma, as reivindicações sociais, tudo foi incorporado pelo Estado e
conduzido por este, de forma autoritária e patriarcal. Nada poderia fugir do controle do
Estado.

1 Os antecedentes do golpe de 30
O Golpe de 30 foi determinado por crises na economia, com a queda da bolsa de
valores de Nova Iorque e, na política, com a sucessão de Washington Luís. Foi marcado pelo
crescimento de forças de oposição ao Governo Federal e à política dos governadores, com a
formação da Aliança Liberal.

A forma tradicional de fazer política também se vê enfraquecida com o processo de


urbanização deflagrado durante a década de 1920. Com a população rural em decréscimo, a
política dos governadores, sustentada em parte pelo coronelismo, perde um pouco de suas
forças.

1.1 Crise econômica


A crise econômica é motivada pela queda da bolsa de Nova Iorque em outubro de 1929
e afetou todo o sistema capitalista, em escala mundial e, claro, acabou repercutindo também
na economia brasileira, principalmente no que diz respeito à exportação de café.

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Pelo fato do café não ser um produto de primeira necessidade, naquele momento de
crise econômica, sofreu uma drástica queda nas exportações, o que repercutiu na economia
interna, pois era o único produto economicamente relevante naquele período (SANTIAGO,
[s.d.]). A desordem econômica afeta as oligarquias cafeeiras, enfraquecendo-as do ponto de
vista econômico.

A crise econômica traz implicações políticas que motivaram o Golpe de 30. Um dos fatos
motivadores do processo que rompeu com os esquemas políticos que impregnavam o Estado
brasileiro foi a escolha do governador de São Paulo, Júlio Prestes para suceder Washington
Luís, outro paulista; desta forma, o Partido Republicano Paulista (PRP) quebra seu pacto com
os mineiros e com a política do café com leite. Mas, por que o Partido Republicano Paulista
resolveu mudar as regras do jogo naquele momento? Justamente porque as oligarquias que
o compunham estavam fragilizadas economicamente, precisavam naquele momento do
máximo de poder político (que só a presidência da República poderia garantir) para manter-
se na hegemonia do poder, de forma a preservar privilégios e prerrogativas políticas ameaçadas
pela crise econômica.

Depois da primeira Guerra Mundial, os países europeus envolvidos na


Guerra tiveram que empreender seus esforços para a reconstrução do que fora
destruído. Neste momento de fragilidade da Europa, os EUA incrementaram
suas indústrias e a produção aumentou; o objetivo era abastecer os mercados
da Europa com mercadorias industrializadas. Houve, assim, um período de
prosperidade econômica, que entra em crise na medida em que os países
europeus começam a reestabelecer suas indústrias e, como consequência,
importam menos produtos dos EUA. Inicia-se uma crise de superprodução, ou
seja, muitos produtos sem comprador, por isso, as ações das empresas norte
americanas, alvo de investimentos de muitos, tiveram uma brusca queda, fato
que afetou a economia mundial.

1.2 Crise política


A política brasileira foi marcada por inúmeras críticas por praticamente toda a década de
1920, principalmente a partir da disputa política que marcou a eleição de Artur Bernardes para
a presidência da República em 1922, assim como por diversas revoltas militares, movimentos
conhecidos como tenentismo (FAORO, 2014). Os conflitos no campo político eram reflexo
do grande descontentamento relativo ao sistema de regras referentes à gestão do Estado,
principalmente a política dos governadores e a do café com leite; soma-se, ainda, o voto a
descoberto (não secreto) que permitia a estrutura de poder baseada no coronelismo.

O Estado era governado pelas elites dominantes (as oligarquias formadas por fazendeiros
do ramo do café) e para elas mesmas, os outros ramos das oligarquias brasileiras não tinham
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o mesmo poder; isso sem falar do povo que, em geral, não participava dos trâmites do poder,
assim como eram poucos os benefícios que o Estado legava à população.

Diante deste quadro de grande descontentamento político e social, e de crise econômica,


emergiram as forças que derrubaram as relações políticas que historicamente mantiveram
grande parte dos governos republicanos desde o seu surgimento em 1889.

1.3 A Aliança liberal e os tenentes


As forças políticas e sociais que se aglutinam contra a estrutura política na qual se fundava
o Estado brasileiro durante o primeiro período republicano foram as oligarquias reunidas
em torno da Aliança Liberal e forças militares, formadas principalmente pelos “tenentes”, os
mesmos que deflagraram alguns episódios de rebelião durante a década de 20.

As elites brasileiras que não faziam parte do grupo hegemônico, representado pela
oligarquia cafeeira, estiveram, durante a Primeira República, distante das grandes decisões
políticas. Já sabemos que as relações de poder estabelecidas tinham também o objetivo de
afastar os setores sociais que não estivessem ligados ao café.

As crises política e econômica motivaram a formação da aliança política entre as


oligarquias mineira (desgostosa por ter sido afastada do poder com a candidatura do paulista
Júlio Prestes) e gaúcha, assim como de parte das lideranças dos Estados do nordeste. Os
integrantes da Aliança Liberal (AL) eram, em sua maioria jovens, que ideologicamente se
aproximavam dos ideais fascistas, influenciados pelo líder italiano Mussolini, nacionalistas
e corporativos (FAORO, 2014). Em suas bandeiras políticas sustentavam o voto secreto,
independência do Poder Judiciário, além de outras reformas sociais.

Estrategicamente também defendiam a anistia para os “tenentes”, ou seja, para os


militares exilados por terem participado do movimento tenentista. Os tenentes seriam
uma importante força aliada para a AL. Esses militares eram, em grande parte, oriundos de
Estados inexpressivos (FAORO, 2014). Estes estavam fora de qualquer esfera política e muitos
deles foram mandados para exílios em outros países da América Latina por terem fomentado
movimentos de oposição à política vigente durante a década de 1920. Principalmente os ex-
integrantes da Coluna Prestes encontravam-se exilados. Os tenentes também tinham ideais
nacionalistas (FAORO, 2014), só que estatizantes; esse nacionalismo foi somado aos mesmos
ideais defendidos pela AL, só que este, com uma proposta tradicionalista.

As ideias que edificaram a AL e seus aliados e deram origem ao Golpe de 1930, foram,
principalmente, relativas à autonomia dos Estados. Essas reformas giravam em torno daqueles
que já detinham o poder, ou seja, as elites oligárquicas. O povo não participou desse processo,
não pediu as reformas que serviram para fundamentar o Golpe de 30. Há que se anotar que
a população em geral apoiou a Aliança Liberal e seu golpe (FAORO, 2014), mesmo sem saber
exatamente o que pretendiam; qualquer movimento com “ares” de transformação alcançaria
o apoio do povo.
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1.4 Urbanização
A população urbana cresce e, em contrapartida, diminui a população rural. Esta situação
vivida ao longo da década de 1920 deflagra dois problemas no que diz respeito ao controle
político da população.

De um lado, havendo menos pessoas no campo, menor também era a influência dos
coronéis no processo político, o que enfraquecia o “esquema” da política dos governadores.
Do outro lado, a população urbana crescia por conta do processo de migração interna campo-
cidade e pela entrada dos imigrantes estrangeiros, atraídos, principalmente pelo crescimento
do processo de industrialização, e para esta população urbana que se agiganta era necessário
que se criasse outros mecanismos de controle social e político (FAORO, 2014).

Esse aspecto de transformação da sociedade brasileira também denota a necessidade


de modernização da política brasileira, do Estado brasileiro. No entanto, veremos que essa
nova política era mais conservadora do que transformadora (FAORO, 2014), visto que os
condutores do golpe temiam perder as rédeas das reformas e que elas acabassem sendo
uma verdadeira revolução de esquerda.

2 O Golpe de 30
O processo histórico se desencadeia a partir da escolha do nome de Júlio Prestes para
suceder Washington Luís. A indicação de um paulista em lugar de um mineiro motivou o
Partido Republicano Mineiro, juntou-se a outras frentes de oposição, principalmente do Rio
Grande do Sul e da Paraíba e formaram, em agosto de 1929, a AL. Nesse mesmo ano, a AL
lança o nome de Getúlio Vargas para concorrer à Presidência da República, tendo João Pessoa
como vice-presidente. Estavam compostas as forças que desencadearam o golpe de 1930.

Apoiaram a AL intelectuais, membros da classe média urbana e políticos paulistas


que faziam oposição ao PRP. Mas, o principal apoio foi dado por parte dos militares que
integraram o movimento tenentista. Esse apoio foi importante, mas recebido com cautela,
visto que membros da AL tinham medo que os tenentes acabassem sendo os verdadeiros
protagonistas do golpe, fazendo com que a AL perdesse o controle da situação.

Júlio Prestes vence Getúlio Vargas nas eleições em março de 1930. A AL não aceita
o resultado do pleito alegando fraude. Além disso, os deputados da AL que venceram as
eleições foram impedidos de tomar posse. Das eleições em março até a data do golpe, 3 de
outubro de 1930, o cenário político agrava-se, piorando com o assassinato de João Pessoa,
em julho (SANTIAGO, [s.d.]). A data de 15 de novembro se aproxima, momento em que Júlio
Prestes deveria tomar posse. O resultado desse contexto foi a decisão, tomada pela AL, de
iniciar o movimento político que resultou em um golpe de Estado.

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É deflagrada a manobra política em 3 de outubro, primeiro tomando o Governo do Rio


Grande do Sul e depois dos Estados do nordeste. Tropas militares marcham do Estado gaúcho
até a capital da república, o Rio de Janeiro, levando Getúlio Vargas. O presidente foi deposto
em 24 de outubro, quando se formou uma junta de governo, que passa o poder do Governo
Provisório para Getúlio Vargas, empossado no dia 3 de novembro no Palácio do Catete. Esse
foi o primeiro dia do período que ficou conhecido na história como Era Vargas, que vai de
1930 até 1945.

Getúlio Vargas alcança o poder com o apoio de grande parte do Exército e de quase
todos os militares que participaram do movimento tenentista (FAORO, 2014). O que se deu
em seguida, a reforma política, de caráter conservador, pois foram mantidas no poder as
velhas oligarquias de Minas Gerais e São Paulo, e novas oligarquias, como as do Rio Grande
do Sul.

3 Breve histórico sobre a era Vargas


Getúlio Vargas governou o Brasil durante 15 anos; no entanto, esse período de tempo
não foi todo ele governado de uma mesma forma, as mudanças políticas que aconteceram
durante esta fase da história do Brasil permitem perceber como o governo de Vargas teve que
mudar suas estratégias de governo conforme os acontecimentos históricos daquele período
– recessão econômica e Segunda Guerra Mundial.

3.1 Governo provisório (1930-1934)


Assim que Vargas assumiu a presidência, em novembro de 1930, começou a implementar
políticas que visavam fortalecer e manter o seu poder, uma vez que este, até aquele momento,
ainda era provisório. Uma de suas primeiras medidas foi dissolver o Poder Legislativo,
passando ele mesmo a assumi-lo, junto com o Executivo. Além disso, destituiu do poder
os governadores dos Estados, colocando em seu lugar interventores alinhados à AL, vários
deles eram militares (AGUIAR, [s.d.]). O início do governo Vargas é caracterizado por ser uma
ditadura.

Essas medidas não agradaram muito, principalmente as oligarquias encasteladas


nos governos estaduais, pois perderam sua autonomia administrativa. Os que eram mais
poderosos até então, os paulistas, foram os que menos gostaram dos novos rumos da política.
Esse desgosto dos paulistanos desencadeou o movimento que foi chamado de Revolução
Constitucionalista de 1932. Esse movimento reivindicava que fossem feitas eleições para
compor um quadro legislativo constituinte, ou seja, clamavam por uma nova Constituição.

O movimento oposicionista foi em parte abafado, mas o governo cedeu às suas


reivindicações e foram chamadas eleições para uma Assembleia Constituinte. Como resultado
do processo eleitoral, os militares perdem um pouco de espaço no cenário político nacional.
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A nova Constituição é promulgada em 1934 e traz consigo alguns avanços sociais, como o
voto secreto e o voto feminino, além de alguns avanços de leis trabalhistas.

Com a Constituição de 1934, o governo deixa de ser provisório e, dessa forma, entramos
no chamado Governo Constitucional.

3.2 Governo constitucional (1934-1937)


Getúlio Vargas foi eleito para um novo mandato presidencial, de forma indireta e
respaldado pela nova Constituição.

É durante esse período que surgem duas forças políticas importantes na Era Vargas
(SILVA, 2010):

• Ação Integralista Brasileira (AIB): uma facção de extrema – direita, eram partidários
do fascismo e se inspiraram em líderes como Mussolini e Hitler; defendiam o Estado
totalitário e ditatorial.

• Aliança Nacional Libertadora (ANL): essa organização política tinha como base
as ideologias de esquerda e eram influenciados pela Revolução Russa de 1917;
defendiam a reforma agrária e a revolução popular, faziam oposição ao capitalismo e
ao imperialismo.

Ideologicamente, Getúlio Vargas acenava para a AIB, sendo que sua posição foi reforçada
após a tentativa de golpe de Estado organizada pela ANL, ação que ficou conhecida como
Intentona Comunista, em 1935. O movimento de esquerda foi facilmente aplacado, mas a
ameaça comunista “ficou no ar”, fazendo com que o governo federal reforçasse o poder do
executivo em detrimento do legislativo.

Com o objetivo de reprimir os comunistas e seu movimento, Getúlio Vargas decreta


Estado de Sítio e rompe com a Constituição de 1934. Foi apoiado pelas forças militares, pelas
oligarquias e por industriais. Com o “estado de sítio” inicia o terceiro período da Era Vargas,
o Estado Novo.

3.3 Estado novo (1937-1945)


Sob o pretexto de um possível plano de revolução comunista chamado de Plano Cohen
(que mais tarde foi desmentido), Vargas decreta o Estado Novo, em 10 de novembro de
1937 (AGUIAR, [s.d.]). Assim, diante de uma suposta ameaça comunista, Vargas estabelece
novamente um regime ditatorial.

Mais uma vez, com a ajuda das forças armadas, o presidente invade o Congresso Nacional
e outorga uma nova Constituição (AGUIAR, [s.d.]), apelidada de Polaca, por se assemelhar
com a Carta Magna vigente na Polônia, com conteúdo altamente autoritário.
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O novo governo foi aceito por grande parte da população, visto que a propaganda
anticomunista impregnava a cabeça dos brasileiros e o discurso de um governo, mesmo que
ditatorial, mas que fosse contra a marcha comunista, acabou convencendo.

O Estado Novo foi marcado pela censura aos meios de comunicação e às manifestações
artísticas e culturais; a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) de 1943; a pena de morte
para crimes políticos; a intensificação da atividade da polícia política que “caçava” militantes
contrários ao regime; a criação da Agência Nacional, que criava as notícias oficiais e eram elas
que deveriam ser divulgadas pelos órgãos de imprensa; a criação da Companhia Siderúrgica
Nacional e o investimento na infraestrutura das forças armadas.

A política do Estado Novo é marcada por elementos contraditórios (AGUIAR, [s.d.]):


de um lado o Brasil apoiava os países aliados (Inglaterra, EUA) e, por outro, sua política se
assemelhava a dos países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão).

Com o final da 2ª Guerra Mundial, novas ideias invadem o mundo. Os governos fascistas
caíram, fazendo crescer as críticas ao modelo político instituído durante a vigência do Estado
Novo. A oposição é fortalecida com o final da guerra. A sociedade clama por mais democracia.

Em outubro de 1945, um movimento militar tira Vargas do poder, dando um fim ao


Estado Novo e a Era Vargas. Não obstante, é interessante lembrar que Getúlio Vargas volta
ainda ao poder na década de 1950, entre 1951 até seu suicídio 1954.

Para saber mais sobre o período em que Getúlio Vargas governou o Brasil,
assista ao filme “Getúlio”, lançado no ano de 2014, sob a direção de João Jardim.

4 O projeto político da era Vargas


Quanto às mudanças no sentido da democratização do país, o governo de Getúlio Vargas
se caracterizou pelo controle das massas, pelo medo de que favorecendo a participação
popular haveria desordem social (FAORO, 2014). Importante dizer que essa época vivia
uma influência do socialismo e da construção do Estado soviético, por isso era necessário o
controle das massas, controle dos seus desejos e de suas reivindicações.

O caráter liberal impregnado na política da Era Vargas tinha, segundo Faoro (2014) um
caráter tutelador, no sentido em que a soberania popular era encarada como uma forma de
pressão social a ser atendida pelo governo de forma seletiva, ou seja, o governo registrava
as reivindicações e as atendia, segundo seus interesses, apenas as demandas que não
colocassem em risco a ordem estabelecida.

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Estado, Governo e Sociedade

Os conflitos e as dificuldades vividas pela população deveriam ser juntados ao


funcionamento do próprio Estado (FAORO, 2014), com o objetivo de acalmar os ânimos e
evitar uma comoção popular mais extremada; um exemplo desta característica são as leis
trabalhistas que entram em vigor na Era Vargas.

As transformações sociais, a modernização econômica e a condução do país em seus


mais diversos aspectos passam a ser centralizadas. As mudanças em direção aos avanços
sociais, políticos e econômicos deveriam ser tuteladas pelo Estado, afastando as camadas
médias e populares deste processo. Assim, o Estado poderia garantir uma transformação
social sem riscos de sublevação, de forma autoritária e paternalista.

O elemento central que veio a garantir o Estado forte nesse período foi o elemento militar
(FAORO, 2014). O Exército garantiu o declínio das manipulações estaduais e eleitoreiras,
dominando as antigas forças coronelistas e oligárquicas, promovendo de forma autoritária a
organização do poder e garantindo a manutenção da ideologia dominante. As forças militares
garantiram o Estado ditatorial, para que este garantisse as reformas políticas.

4.1 O fenômeno do populismo


Uma das características políticas do governo de Getúlio Vargas foi o populismo. Segundo
Faoro (2014), o populismo é um fenômeno que ocorreu em vários lugares, não apenas no
Brasil e se caracteriza por surgir em um período em que a população assume o movimento
de migração do campo para as cidades; no campo havia a figura paternalista do coronel,
senhor da terra, que era a autoridade local, as quais as pessoas que viviam no campo estavam
acostumadas a obedecer.

Com a partida para a cidade esta população perde este vínculo com a autoridade; então,
o poder que antes era ocupado pelo coronel cede espaço para chefes de governo que se
colocam no papel de protetores, muito semelhante à figura paterna do protetor que é, ao
mesmo tempo, autoritário (FAORO, 2014), uma figura que distribui benefícios e favores
simbólicos, mas que aplica castigos reais.

É sabido que a população urbana cresce na medida em que o modelo industrial se


desenvolve. Não foi diferente no Brasil. O grande impulso industrial aconteceu justamente
durante a Era Vargas; o governo populista desse período veio a substituir o antigo controle
dos coronéis, uma prática que garantia a política da Primeira República.

O populismo centralizado na figura de Getúlio Vargas foi importante como forma de


controle de uma população que era cada vez mais urbana e de uma classe operária que
também aumentava em decorrência da industrialização. O presidente também ficou
conhecido como “pai dos pobres”, o que aconteceu pelo fato de ser assim que muitas vezes a
Agência Nacional se referia à Getúlio Vargas, e é parte do processo de culto à personalidade
do presidente. Divulgar a figura do presidente como “pai do pobres” foi parte da política
populista de Getúlio Vargas.

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Estado, Governo e Sociedade

Dessa forma, se formos pensar sobre aquilo que nos propomos nesta aula, podemos refletir
que a modernização do Estado brasileiro se concentra, principalmente, nos mecanismos de
controle social, visto que grande parte desse período foi marcado por um regime ditatorial,
fazendo com que as forças democráticas e a sociedade civil organizada não tivessem muito
espaço para manifestar seus desejos quanto ao destino do país. Mas, também podemos
citar outras características típicas de uma “sociedade moderna” que marcam o Brasil nesse
período, principalmente a industrialização e a urbanização da sociedade.

Considerações finais
Nesta aula, vimos que as crises políticas e econômicas que marcaram o mundo e o Brasil
determinaram a transformação do Estado brasileiro. Essa transformação foi marcada pelo
golpe de Estado de 1930, com as forças de oposição ao governo e somados a elas os militares,
principalmente aqueles que fizeram parte do movimento tenentista.

Você viu que o governo de Getúlio Vargas trouxe muitas mudanças para o Brasil. Ele
acabou com a política vigente durante a Primeira República, quando eram as oligarquias que
governavam. No governo de Vargas, as oligarquias continuaram poderosas, só que perdem
sua hegemonia política, pois Getúlio Vargas se estabelece no governo como um ditador.

De ditador, por pressões políticas, passa a se submeter a uma Constituição, que foi
promulgada em 1934. Neste período acontecem alguns avanços políticos e sociais. Também
é marcado pela organização de forças políticas antagônicas a partir do dualismo direita-
esquerda. Sob o pretexto de conter as forças de esquerda, Vargas se alia à extrema-direita e
vemos novo golpe, apoiado pelos militares.

O Estado Novo começa com a outorga de uma nova Carta Magna, a chamada Polaca, de
1937, na qual são estabelecidos os ditames da ditadura, que vai até o final da Segunda Guerra
Mundial. Também é o final desta Guerra que provoca a queda de Getúlio Vargas e o fim do
Estado Novo.

Nesta aula, abordamos o conceito de populismo, vimos que o populismo é um tipo de


política típica de uma sociedade que se moderniza, no sentido em que fica mais urbanizada
e industrializada. O populismo é uma forma de controle da população urbana, baseada na
forma de controle a partir da inculcação de uma autoridade próxima à paterna.

Vimos de que forma podemos abordar a questão da modernização da sociedade


brasileira, quanto aos processos de industrialização e urbanização que aconteceram durante
a Era Vargas, assim como se modernizam também os mecanismos de controle social.

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Estado, Governo e Sociedade

Referências
AGUIAR, L. Era Vargas. Brasil Escola. Disponível em: <http://www.brasilescola.com/historiab/
era-vargas.htm>. Acesso em: 31 out. 2014.

FAORO, R. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. São Paulo: Globo
Livros, 2014.

SANTIAGO, E. Revolução de 30. Infoescola. Disponível em: <http://www.infoescola.com/


historia-do-brasil/revolucao-de-1930/>. Acesso em: 29 out. 2014.

SILVA, T. F. da. Governo Constitucional de Getúlio Vargas. 2010. História Brasileira. Disponível
em: <http://www.historiabrasileira.com/brasil-republica/governo-constitucional-de-getulio-
vargas>. Acesso em: 31 out. 2014.

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Aula 10
Estado patrimonialista: considerações sócio-históricas

Objetivos Específicos
• Compreender o conceito de Estado patrimonialista como uma característica
histórica do Estado Brasileiro.

Temas
Introdução
1 O patrimonialismo é uma característica do Estado brasileiro
2 O patriarcado como uma referência para as relações políticas
3 O poder e a democracia
Considerações finais
Referências

Professora
Ana Paula Rupp Hamms
Estado, Governo e Sociedade

Introdução
Nesta aula, você verá que o Estado patrimonialista é uma característica histórica do
Estado brasileiro, foi instituído no Brasil pelos portugueses e foi se perpetuando no decorrer
do tempo através de comportamentos aprendidos e reproduzidos em longa prática na
administração pública. No patrimonialismo, o agente público não distingue os interesses
privados dos interesses públicos.

Por isso, um Estado patrimonialista se distingue do Estado burocrático, na burocracia


estatal. No comportamento patrimonialista prevalecem as relações pessoais e a confusão
entre o público e o privado nas ações públicas, o que difere de um Estado burocrático,
baseado na impessoalidade e na eficiência da gestão pública de um Estado que existe para o
benefício de uma coletividade.

Veremos também que nas relações sociais cotidianas dos brasileiros impera a cultura da
“cordialidade”. Nesta aula, você conhecerá o conceito de “homem cordial” elaborado pelo
historiador Sérgio Buarque de Holanda. A cordialidade está ligada à forma fraternal com a
qual os brasileiros lidam com as pessoas e seus problemas.

Nesta aula, mostraremos para você que a sociedade brasileira foi muito influenciada pelo
tipo de organização familiar que predominou no meio rural brasileiro durante grande parte
da nossa história, a saber: o patriarcado. A família patriarcal influenciou os mais diversos
aspectos da nossa sociedade, inclusive exerceu influência na constituição do Estado.

1 O patrimonialismo é uma característica do Estado


brasileiro
Ao percorrer a história política do Brasil, da construção do Estado português até a ditadura
de Getúlio Vargas, podemos verificar que uma característica da estrutura do Estado, parte do
que foi herdado dos portugueses, é o capitalismo politicamente orientado (FAORO, 2014), ou
seja, o capitalismo conduzido pelo Estado. Esse modelo, instalado durante o período colonial,
sobreviveu e se perpetuou até com a chegada do capitalismo industrial, moderno e racional.
E como isso aconteceu?

A continuidade desse modelo econômico-estatal foi possível por causa da existência


de uma cultura política impregnada e perpetuada pela comunidade política. Foram vários
séculos e, nesse longo tempo, o Estado brasileiro viu passar por eles inúmeros políticos, cada
um deles foi aprendendo a “fazer política”, segundo o modelo já existente nas instituições,
e assimilando uma espécie de protocolo político que se baseia na ideia de que “é assim
porque sempre foi assim”. Essa assimilação da cultura estabelecida nas instituições estatais
foi responsável pela perenidade do modelo de capitalismo político.

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Estado, Governo e Sociedade

O grupo de pessoas responsáveis pelos negócios do Estado, os políticos, conduz os


negócios do Estado como se fossem seus, segundo seus interesses privados. O capitalismo
segue seu destino dentro das rédeas do Estado, um capitalismo aparelhado. Os interesses se
misturam, são interesses públicos, ou seja, do Estado, mas, ao mesmo tempo, são conduzidos
segundo necessidades privadas, das elites econômicas que compõem os quadros do Estado,
e essa característica, segundo Faoro (2014), é o patrimonialismo.

A lógica do comércio, as práticas pré-capitalistas, dão a tônica do patrimonialismo, que,


segundo Faoro (2014), é mais flexível do que uma economia baseada do patriarcalismo, ou
seja, em um regime social no qual existe a figura de uma autoridade (como a de um pai)
que determina tudo. No Estado brasileiro, a economia foi politicamente direcionada segundo
interesses políticos que, por sua vez, também eram econômicos.

Para Faoro (2014), o patrimonialismo sempre reinou no Brasil. A política dos diversos
governos incentivava a economia especulativa, que era voltada para o lucro, para a barganha.
A economia deveria seguir o comando do Estado, no sentido de cumprir as imposições ditadas
por seu estamento burocrático, seja ele civil ou militar. Assim, o estamento é a máquina que
dirige o Estado, que determina a política e, sobretudo, acaba agindo coercitivamente sobre
os diversos setores sociais, até mesmo os mais hegemônicos, que formam a base econômica
(produtores rurais, comerciantes, industriais).

A ação do estamento burocrático não é apenas a de dirigir a economia segundo os


interesses das classes dominantes, mas também de dirigir os negócios a partir de ações
políticas, visando interesses dos próprios integrantes do Estado. Por exemplo, durante a
Primeira República, também conhecida como República das Oligarquias e, não por acaso,
os políticos que geriam o Estado o faziam segundo os interesses dos cafeicultores e seus
interesses acabavam refletindo os interesses do próprio Estado.

O café era um negócio da esfera privada, mas que no Brasil foi gerenciado como de
interesse público; quando se ganhava com o café, o Estado ganhava, entretanto, a riqueza
não era revertida para o bem público, mas sim em benefício do próprio estamento. Assim é
fácil entender que alguns dos que enriqueceram com o café não eram proprietários de terra,
mas políticos que integravam o estamento burocrático, pois o café enriquecia também o
Estado, e os funcionários encastelados usufruíam dessa riqueza.

O contraste com o modelo de Estado patrimonialista é o Estado burocrático, no qual


o exercício da função pública acontece visando a eficiência do Estado como uma entidade
pública, que existe em função da promoção do bem público.

1.1 O Estado patrimonialista e o Estado burocrático


Para os funcionários do Estado patrimonialista, por vezes, não é fácil agir no sentido de
diferenciar o público do privado (HOLANDA, 2012). Os gestores do Estado patrimonialista,

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Estado, Governo e Sociedade

como sabemos, não os diferenciam e usam sua função pública segundo interesses pessoais;
os funcionários de uma burocracia estatal realizam ações de gestores, que são previamente
estabelecidas segundo critérios de eficiência do Estado, ou seja, a atuação desse funcionário
tem como objetivo a eficiência da máquina estatal, como um bem público a serviço de todos.

Mesmo que as funções públicas se especializem e se racionalizem dentro do Estado


patrimonialista, o caráter do agente patrimonialista (que Faoro (2014) chama de “estamento
burocrático”) mantem-se em vários aspectos, tais como a preponderância do caráter pessoal
nas relações de caráter público (o que conhecemos por “jeitinho brasileiro”) e não impessoal
(daquele que se submete de forma igualitária às regras) como impera nos Estados burocráticos.

Outra diferença que podemos apontar está relacionada aos critérios através dos quais se
seleciona alguém para um cargo público (HOLANDA, 2012): no Estado patrimonialista o que
prevalece é a confiança na pessoa que se contrata (por isso é comum, neste caso, a presença
de parentes e amigos de políticos ou de pessoas com cargos públicos dos quais emanam
prestígio e poder) e, em contrapartida, no Estado burocrático, como se prima pela eficiência
na função, o que prevalece é o mérito (um critério de seleção costuma ser o do concurso
público).

Podemos refletir sobre o aspecto exposto anteriormente, é muito mais garantido gerir um
Estado como um patrimônio pessoal colocando para trabalhar consigo pessoas de confiança
do que alguém que está no cargo apenas por mérito, sem que se tenha qualquer ascendência
pessoal sobre ela. Assim fica fácil entender que quanto mais patrimonialista for um Estado,
também é maior a possibilidade de atitudes que podem ser chamadas de corrupção.

Para Sérgio Buarque de Holanda (2012), o que prevalecia no Brasil eram as condutas
ligadas ao patrimonialismo:

No Brasil, pode-se dizer que só excepcionalmente tivemos um sistema administrativo


e um corpo de funcionários puramente dedicados a interesses objetivos e fundados
nesses interesses. Ao contrário, é possível acompanhar, ao longo da nossa história,
o predomínio constante das vontades particulares que encontram seu ambiente
próprio em círculos fechados e pouco acessíveis a uma ordenação impessoal. (, p. 52).

Nesse ponto é importante esclarecer o contexto histórico no qual o autor baseou sua
tese, em obra publicada em 1936, Raízes do Brasil.

Holanda (2012) fala de círculos, que podem ser entendidos principalmente por círculos
familiares. O autor entendia que a representação política da sociedade brasileira se formou
em torno de famílias, de oligarquias, que transportaram para o Estado as lógicas das afinidades
de sangue e os laços de compadrio. Por isso era, e ainda é, comum ver no Brasil políticos que
fazem parte de famílias de políticos, uma família que está no poder por gerações e, apesar
de ser respaldado pelo voto popular, tem referência com a “força” política da família e não
necessariamente com a representatividade popular.

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Estado, Governo e Sociedade

Veja, no quadro que segue, as principais diferenças entre o Estado Patrimonialista e o


Estado Burocrático:

Quadro 1 – Diferenças entre o Estado Patrimonialista e o Estado Burocrático.

Características Estado Patrimonialista Estado Burocrático

Tipo de relação Predomínio de relações


Predomínio de relações pessoais.
interpessoal impessoais.

Forma de ingressar Parentesco, relações de amizade


Concurso público.
no serviço público e interesses pessoais.

Critérios de seleção Critérios meramente pessoais


para ingressar no e subjetivos, relações pessoais, Mérito.
serviço público empatia.

Objetivos que
O Estado funciona como o O Estado funciona como um bem
prevalecem na gestão
patrimônio privado de uma elite. público, para o benefício de todos.
do Estado

Busca a manutenção dos


Objetivos da Busca a eficiência do serviço
privilégios da elite que comanda
burocracia estatal público.
o Estado.

Fonte: Elaborado pela autora.

Essa tendência a privilegiar os laços pessoais é parte da personalidade típica do brasileiro


(HOLANDA, 2012) e, por isso, talvez tão difícil de erradicar essas características das formas de
gerir o que é público. Essa característica que privilegia os laços de amizade, compadrio e
familiar, aliada à generosidade e hospitalidade, integram o que Holanda (2012) chamou de
“homem cordial”.

O nepotismo já foi uma característica dominante nas relações políticas


brasileiras e é comum em um Estado que se caracteriza como patrimonialista.
Nepotismo é o nome que se dá à prática de nomear parentes para ocupar
cargos no quadro administrativo do Estado (PEREIRA [s/d]). O nepotismo só foi
considerado ilegal a partir da Constituição de 1988, quando houve uma
preocupação maior com a eficiência do Estado e para tal foram destacados que
critérios como impessoalidade, moralidade e eficiência deveriam prevalecer no
exercício de funções públicas, o que era dificultado pela prática do nepotismo.

Hoje é proibido a contratação de parentes até 3° grau e que sejam parentes em linha
reta (pais, filhos, avós e bisavós), parentes colaterais (irmãos, tios e sobrinhos) e parentes
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Estado, Governo e Sociedade

por afinidade (padrasto, madrasta, enteado, genro, nora, cunhado (a), e concunhado (a)). O
nepotismo, agora, é crime, mas sua frequência no passado mostra como o Estado brasileiro
se formou a partir de lógicas patrimoniais; as elites colocavam seus familiares nos quadros
estatais; quando houvesse necessidade, essas pessoas favoreceriam aquele que havia
garantido o emprego público, uma espécie de troca de favores. Assim é fácil perceber como
o Estado historicamente favorecia principalmente os integrantes das elites, encastelados na
burocracia estatal.

1.2 O homem cordial


Sergio Buarque de Holanda (2012) afirma que a contribuição da cultura brasileira para
a civilização está relacionada a uma importante característica encontrada nos brasileiros,
a cordialidade. Essa cordialidade diz respeito ao modo afável, generoso e hospitaleiro que
distinguem as pessoas que nascem no Brasil daquelas que nasceram em outros lugares do
mundo. A cordialidade está na base da orientação do comportamento dos brasileiros.

Para Holanda (2012), essa cordialidade é o resultado do patriarcado, dessa forma,


entende que o homem cordial é aquele que reproduz padrões de comportamento típicos
das relações familiares. No entanto, a cordialidade não está relacionada à ideia de “boas
maneiras”, no sentido proposto por Elias (2014), em sua obra O processo civilizatório, no qual
explana que a formação do Estado e o desenvolvimento do capitalismo foram acompanhados
de um processo civilizatório dos costumes cotidianos das pessoas, fato que está ligado a
um conjunto de mecanismos de controle do comportamento e emoções importantes para a
sociedade que se transformava.

A cordialidade, para Holanda (2012), não está relacionada ao processo civilizatório,


pois este processo aconteceu de forma coercitiva, além de estar impregnado com a noção
de “polidez” nas relações humanas, e isto não está presente na lógica da cordialidade,
conforme explica Holanda (2012). A cordialidade pode ser confundida com a civilidade,
mas não o é, porque a polidez consiste “[...] precisamente em uma espécie de mímica
deliberada de manifestações que são espontâneas no ‘homem cordial’” (HOLANDA, 2012,
p. 53). A cordialidade vem do coração, das emoções, e não de um sistema de regras que
são manifestadas por uma coerção social como quando se espera certos comportamentos
“civilizados” de alguém. A cordialidade faz parte da natureza social dos brasileiros e brasileiras.

O homem cordial também não gosta de protocolos, formalidades, rigores legais. Tal
comportamento, comum nas relações familiares, extrapola os limites das relações de
parentesco. A cordialidade influencia em práticas controversas da cultura brasileira como a
do “jeitinho brasileiro”. Esse “jeitinho” nada mais é do que o uso das relações interpessoais
para o favorecimento próprio, na maioria das vezes relacionado a uma insubmissão às regras
ou leis; é a cordialidade que permite que exista o “jeitinho”.

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Estado, Governo e Sociedade

Um conceito nos permite entender melhor o outro. O Estado patrimonialista é reforçado


e se alimenta das práticas do homem cordial dentro do quadro administrativo do Estado.
Onde deveria imperar o rigor das regras e ações, característica típica do Estado burocrático,
prevalece o hábito da cordialidade, o que também dificulta essa passagem do Estado brasileiro
de patrimonialista para burocrático.

2 O patriarcado como uma referência para as relações


políticas
A estrutura social tradicional, baseada no patriarcado, também está presente no
Estado patrimonialista, já que nesse conjunto de relações sociais impera uma lógica familiar.
E o patriarcado foi o modelo familiar estabelecido no Brasil, cuja figura central é a do pai
(patriarca) o “chefe de família”. A família patriarcal está, por sua vez, fundamentada no modo
de vida rural, que predominou no Brasil durante grande parte da nossa história.

As características que prevalecem no patriarcado são (BESERRA [s/d]): a supremacia do


gênero masculino, o poder centralizado nas mãos de um chefe (pai), patriarca é a origem
do direito (leis) que regula as relações sociais, domínio territorial e vínculo de submissão
daqueles que fazem parte da rede social (família) do patriarca em troca de proteção. Nas
relações patriarcais, a autoridade do chefe nunca é questionada, porque é tradicionalmente
aceita.

Os muitos anos de predomínio da vida rural acarretaram em uma influência do


patriarcalismo mesmo fora do segmento familiar. As lógicas da cultura patriarcal predominavam
nas relações sociais estabelecidas pelos indivíduos nas várias esferas sociais. Para Holanda
(2012), essa lógica patriarcal em todas as relações sociais é o que dá origem ao homem
cordial.

Quando as pessoas saem do campo para as cidades levam consigo a cultura do patriarcado
e disseminam, dessa forma, um modelo de relação social que influencia também as práticas
políticas.

A influência do patriarcado pode ser percebida nas instituições políticas, como nos
partidos políticos, por exemplo, que se constituíram à sombra do modelo patriarcal, no que
diz respeito às relações sociais que se desenvolvem nesse meio. Os vínculos entre as pessoas,
nos partidos políticos, são amarrados por laços de convivência como o de uma família, em
que prevalece a relação fraterna muito mais do que uma ideologia ou um programa político.

A ascendência do modelo patriarcal também pode ser percebida no setor da administração


pública, seja nas relações de poder estabelecidas a partir da lógica da cordialidade, seja na
percepção do Estado como um patrimônio particular/familiar. O funcionamento do Estado se
assemelha à administração de um negócio particular, o organismo público funciona, dessa
forma, para beneficiar aqueles que fazem parte do estamento burocrático e pessoas com as
quais os funcionários têm relações pessoais, sejam elas de parentesco, amizade ou compadrio.

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A cultura patriarcal também determina a submissão e/ou aceitação das relações de


poder do tipo autoritária e ditatorial. Em nossa história, analisa Holanda (2002), a prática da
democracia só foi compreendida pelos brasileiros na medida em que enxergavam no político
uma figura familiar, sem compreender muito bem a figura de um ente público, um exemplo
disso foi a aceitação popular do político ditador Getúlio Vargas como “pai dos pobres”.

3 O poder e a democracia
Para Faoro (2014), é a cultura presente no Estado patrimonialista que molda o caráter
de seu governante. O chefe comanda o Estado, mas é o estamento que regula as relações
sociais que são estabelecidas no âmbito público. Na medida em que o Estado se burocratiza,
aumenta o poder do chefe de Estado e diminui o poder do estamento.

A lógica patrimonialista sobreviverá na figura do governante, que ordena segundo


interesses particulares, outorga benefícios e concede favores e cargos no Estado; as pessoas
confiam na sua justiça, no seu julgamento, partindo mais de laços pessoais e menos das leis
estabelecidas. O súdito, ou o governado, não deseja necessariamente participar do processo
político, o que deseja é proteção (de seus bens, de seu trabalho, de sua vida, família etc.).
Na relação governante-governado, o primeiro vai compreender as demandas populares e
atendê-las da forma que desejar, aparelhando as reivindicações populares à máquina do
Estado.

A ideia de Estado foi construída no Brasil como um patrimônio privado das elites. Na
formação de nossa cultura política, a coisa pública aparece como uma propriedade privada
das elites brasileiras. Assim foi sendo construída a ideia de que o que é público, não é do
povo.

Desse modo, podemos refletir sobre a dificuldade de se estabelecer uma cultura de


democracia na sociedade brasileira. Um Estado fixado a partir de lógicas patrimonialistas,
que são perpetuadas a partir das relações sociais presentes na sua estrutura, na forma
de administrar o que é do âmbito público. Acrescenta-se a essa dificuldade a cultura da
cordialidade que permeia as relações sociais do povo brasileiro, acostumado com relações
políticas baseadas na autoridade, e não na democracia.

Na cultura política do brasileiro é compreensível que a maioria da população não consiga


enxergar o Estado como um bem público, ou seja, de todos os brasileiros; essa condição,
como podemos ver, foi historicamente determinada. O povo assimila aquilo que a cultura
dominante expressa e passa e, por isso, vê o Estado como um patrimônio privado de alguns,
de uma elite política.

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Estado, Governo e Sociedade

Considerações finais
Nesta aula, você viu que a característica mais importante da formação do Estado no Brasil
foi o patrimonialismo. No patrimonialismo há uma confusão entre o público e o privado. O
Estado patrimonialista costuma ser conduzido como uma empresa que serve as pessoas que
fazem parte dos quadros do Estado, que é o estamento.

Vimos também as principais diferenças entre o Estado patrimonialista e o Estado


burocrático. No Estado burocrático prevalecem as relações impessoais, e a conquista de um
cargo no quadro da burocracia se dá por mérito; de maneira diferente acontece na lógica
patrimonialista, as relações sociais estabelecidas são pessoais, assim como os critérios de
ingresso no serviço público.

Nesta aula, você aprendeu o conceito de “homem cordial” elaborado por Sérgio Buarque
de Holanda (2012). Para o autor, esta é uma característica da cultura brasileira e está presente
em todos nós, brasileiros, podendo ser percebida em diversas situações.

Os traços de cordialidade extrapolam as relações familiares e, dessa forma, também


vieram determinar a postura política dos brasileiros, vinculada a uma tendência histórica de
submissão ao poder autoritário do governante. Vimos, também, que essa faceta da cultura
brasileira vem dificultando o avanço de um comportamento mais democrático.

Referências
BESERRA, R. G. O homem cordial. Fonte Histórica. Disponível em: <https://fontehistorica.
wordpress.com/tag/raizes-do-brasil/>. Acesso em: 3 nov. 2014.

ELIAS, N. O processo civilizador. Rio de Janeiro: Zahar, 2014, v. 1 e 2.

FAORO, R. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. São Paulo: Globo
Livros, 2014.

HOLANDA, S. B. O homem cordial. São Paulo: Penguim Classis Companha das Letras, 2012.

PEREIRA, L. M. A proibição do nepotismo na administração pública. Solução


Pública. Disponível em: <http://www.solucaopublica.com.br/index.php?option=com_
co nte nt & v i e w = a r t i c l e & i d = 1 4 0 : a - p ro i b i ca o - d o - n e p o t i s m o - n a - a d m i n i st ra ca o -
publica&Itemid=21>. Acesso em: 2 nov. 2014.

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Estado, governo e sociedade
Aula 11
Presidencialismo de coalizão, o presidencialismo à brasileira.

Objetivos Específicos
• Analisar as principais características do sistema presidencialista no Brasil a
partir do conceito de presidencialismo de coalizão.

Temas
Introdução
1 Só podia ser no Brasil...
2 O sistema presidencialista no Brasil
3 Crítica ao capitalismo de coalizão ou por que o sistema político brasileiro não
é diferente dos demais governos democráticos
Considerações finais
Referências

Professora
Ana Paula Rupp Hamms
Estado, governo e sociedade

Introdução
Começaremos esta aula discutindo aspectos da cultura brasileira que permeiam a
percepção que temos do Brasil, e até mesmo a construção do conhecimento sobre nossa
política. Apresentaremos para você o conceito de homem aventureiro, desenvolvido por
Sérgio Buarque de Holanda, que, por meio deste conceito, procura um entendimento sobre
a predominância da informalidade nas nossas relações sociais e sobre a construção histórica
da visão que os brasileiros tem de si mesmos.

Para a primeira hipótese apresentaremos o conceito de presidencialismo de coalizão.


Este conceito, desenvolvido pelo cientista político Sérgio Abranches, tem como objetivo
explicar características específicas do presidencialismo brasileiro.

No sentido de finalizar nossa análise sobre o presidencialismo no Brasil, apresentaremos


a posição teórica do cientista político Fernando Limongi. Este autor considera que o
presidencialismo no Brasil não difere dos outros presidencialismos, quando comparadas
algumas estruturas de funcionamento dos regimes democráticos, tais como as taxas de
sucesso, as taxas de dominância e as taxas de disciplina partidária, que fazem parte da
compreensão da relação entre os Poderes Executivo e Legislativo.

1 Só podia ser no Brasil...


Qual é o pensamento corrente que nós, brasileiros, temos com relação à nossa política?
Você já deve ter percebido que não é incomum escutar de nós, um discurso que apresenta
um certo desdém de nossas instituições, principalmente as políticas. Mas de onde vem este
sentimento recorrente entre os brasileiros de que a verdadeira civilização, a sociedade “que
funciona”, existe fora do Brasil?

O historiador Sérgio Buarque de Holanda (1995) nos dá algumas “pistas” de como


esta aversão à formalidade pode ter se fixado na cultura brasileira como uma espécie de
consciência coletiva a partir dos primeiros colonizadores que chegaram ao Brasil, vamos falar
do homem aventureiro.

1.1 O homem aventureiro


A primeira motivação de grande parte dos que vieram colonizar o território brasileiro foi
a de buscar um rápido proveito material nas novas terras. Para Holanda (1995), este modelo
de indivíduo colonizador foi um marco fundamental na formação da sociedade brasileira.
Esclarecendo que o autor está se referindo a um modelo, a um tipo meramente conceitual,
é uma combinação de múltiplas características (reais) verificadas nos sujeitos, o homem
aventureiro só existe em sua forma pura (conceitual), mas que, no entanto, Holanda julga
que está presente no caráter de boa parte dos primeiros colonizadores das terras brasileiras.

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Estado, governo e sociedade

O homem aventureiro veio buscar aqui a riqueza, mas a riqueza que exigisse pouco
esforço, e essas primeiras intenções dos primeiros homens que vieram ocupar nossas terras
marcaram a formação do povo e da cultura brasileira, conforme escreveu Holanda:

E essa ânsia de prosperidade sem custo, de títulos honoríficos, de posições e riquezas


fáceis, tão notoriamente característica da gente de nossa terra, não é bem uma das
manifestações mais cruas do espírito de aventura? (...) E, no entanto, o gosto da
aventura, teve influência decisiva (não a única decisiva, é preciso, porém, dizer-se) em
nossa vida nacional. (HOLANDA, 1995, p. 46)

Eram pessoas, homens, em sua maioria, que vinham para cá livres de vínculos sociais
fortes como o de uma família, por exemplo, o que implica também uma condição moral
específica e uma cultura de indivíduo autônomo, que não privilegia o papel do indivíduo
dentro da organização social, pois os laços sociais eram muito frouxos.

A estas características já citadas podemos somar outra, que se refere ao fato de não ter a
necessidade de se fixar na terra, na medida em que se trata de uma aventura. Podemos dizer
que o homem aventureiro está vinculado a um lugar de forma transitória e que seu vínculo
à terra acontecia na medida em que vislumbrava uma forma de enriquecer. Os primeiros
colonizadores vieram para o Brasil com o objetivo de enriquecer e depois voltar para a
“civilização” com o objetivo de desfrutar de sua riqueza.

Esta imagem do Brasil, para o próprio brasileiro, reflete nas mais diversas formas de
interpretação a respeito da nossa sociedade, em seus mais diversos aspectos. A política
brasileira muitas vezes aparece como a vilã de nossa estrutura social, marcada por dificuldades
em estabelecer um processo democrático e uma estabilidade política. É importante verificar
até que ponto esta perspectiva é verdadeira e o que difere a organização política brasileira
dos demais modelos existentes em outros países ocidentais.

2 O sistema presidencialista no Brasil


Limongi (2006) faz uma crítica ao fato de que no meio acadêmico existe uma necessidade
de qualificar o sistema político brasileiro como específico, ou seja, suas lógicas, sua
organização, apresenta peculiaridades que são encontradas apenas no Brasil. Desta forma,
o autor questiona esta posição e ressalta a necessidade de se pesquisar até que ponto
as especificidades da forma como se faz política no Brasil dizem respeito apenas a nossa
realidade.

Além de ser recorrente a interpretação da ordem política brasileira como peculiar,


também pesa sobre as análises o fato desta peculiaridade remeter a uma perspectiva negativa
da política feita no Brasil, no sentido de que os autores comparam o que acontece aqui com
o que supostamente acontece em países considerados como modelo de democracia e de
organização política. Mais uma vez é reforçada a posição de inferioridade do Brasil com
relação ao que acontece na Europa e nos EUA.
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2.1 Sistema presidencialista


A política brasileira, seu processo decisório e a forma de funcionamento acontecem
a partir do sistema presidencialista. O sistema presidencialista você sabe o que é, mas é
importante que tenha bem claro que neste sistema de governo os poderes Executivo,
Legislativo e Judiciário são independentes e devem funcionar em harmonia, ou seja, é
necessário que nenhum destes poderes se sobreponha ao outro. Este sistema de governo só
é possível em um Estado republicano, e, portanto, inviável em uma monarquia.

O presidente da República é chefe de Estado e de governo, tem o tempo de seu mandato


estabelecido pela Constituição e é eleito diretamente pela população ou indiretamente pelo
Congresso (DANTAS: 2011), e não depende diretamente do apoio do poder Legislativo (como
acontece no sistema parlamentarista). O Poder Executivo, por sua vez, também não pode
interferir no Poder Legislativo.

Já se disse que os Poderes, no Presidencialismo, são independentes. No entanto, para


que o poder executivo consiga governar a partir da implantação de suas diretrizes políticas,
ou seja, para tornar efetivas suas intenções, ele precisa da aprovação dos seus projetos pelo
Legislativo. Para governar, o poder Executivo precisa do apoio dos legisladores (senadores,
deputados e vereadores) ou não tem aprovados seus projetos, já que todas as ações dos
agentes públicos tem que estar respaldadas em legislações.

Assim fica claro que os representantes do poder Executivo têm que negociar com os
legisladores para poder governar, e é este um momento importante do sistema presidencialista,
e muitas vezes crítico, pois explicitam-se as relações de força e o jogo político-partidário. Este
jogo de forças é dinâmico e caracterizado por vários aspectos relacionados às realidades
políticas de cada país.

Quanto a esta característica do jogo político, autores apontam para a peculiaridade na


forma como o Brasil historicamente é governado. A especificidade da nossa política é esboçada
a partir da comparação com o que acontece em outros países, na medida em que eles servem
de modelo político para o funcionamento de sistemas políticos democráticos. Existe uma
ideia implícita na busca da compreensão do “caso brasileiro”, que é a da dificuldade em se
estabelecer um regime democrático no Brasil. O conceito mais difundido e aceito, e, além
disso, que tem servido para explicar o caráter excepcional do sistema político brasileiro, é
o do presidencialismo de coalizão (ABRANCHES: 1988), criado pelo cientista político Sérgio
Abranches em 1988.

2.2 Presidencialismo de coalizão


Abranches (1988) entende que a história das nossas instituições políticas é marcada por
crises, por instabilidades, e pela fragilidade de nosso regime democrático. Segundo o autor,

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faz parte de nossa tradição republicana as seguintes características: “o presidencialismo,


o federalismo, o bicameralismo, o multipartidarismo e a representação proporcional”
(ABRANCHES: 1988, p. 10), e esses atributos do nosso sistema político têm uma razão de ser,
têm uma história, ou seja, não foram determinados por um acaso ou simples causalidade.
Esta forma de governar é o resultado de nossa realidade social e histórica, de questões
econômicas e culturais que, conjuntamente, determinaram uma relação de força que servem
de base para o “jogo” político.

Tendo em vista a diversidade de nossa sociedade (múltiplos sujeitos, múltiplas realidades


e necessidades), nosso sistema político tem uma forte tendência à instabilidade e ao conflito,
o que não é ruim, pelo contrário, a existência de conflitos evidencia que existe debate, que
existe oposição, o que é salutar para uma democracia. Por esta característica, Abranches
(1988) interpreta nossa realidade política como única quando confrontada com outros
sistemas democráticos.

No artigo “O presidencialismo de coalizão: o dilema institucional brasileiro” (ABRANCHES:


1988), se já partirmos da compreensão do título, podemos verificar que o autor está proposto
a tratar de um problema existente no Brasil, que é o da relação conflituosa entre as instituições
políticas: Executivo e Legislativo. É importante que se diga que o artigo foi escrito em um
momento no qual o Brasil estava se reestruturando, do ponto de vista democrático, pois
acabava de sair de um período de 20 anos de ditadura militar e a nova Constituição estava
em fase de elaboração.

No presidencialismo, o presidente tem sempre que fazer acordos com as bancadas


partidárias dos legisladores para poder governar, como já dissemos anteriormente, e isso não
se dá apenas no Brasil. Com relação à política brasileira, as coalizões são necessárias mesmo
que a maior bancada legislativa seja do mesmo partido do presidente (LIMONGI: 2006),
porque as coalizões não são feitas apenas por critérios partidários, pois não são apenas os
partidos e suas bancadas no Congresso que garantem a sustentação política do presidente.

Para Abranches (1988), o Brasil tem um problema endêmico, o conflito entre os poderes
Executivo e Legislativo. É este problema que faz, segundo ele, a política brasileira ser instável
e a democracia frágil. Conforme o autor:

O conflito entre o Executivo e o Legislativo tem sido elemento historicamente crítico


para a estabilidade democrática no Brasil, em grande medida por causa dos efeitos da
fragmentação na composição das forças políticas representadas no Congresso e da
agenda inflacionada de problemas e demandas impostas ao Executivo. (ABRANCHES:
1988, p. 8)

O autor também considera como problemática a questão da existência de inúmeros


partidos no Brasil, fato que enfraqueceria a disposição das forças políticas, dificultando os
acordos entre Executivo e Legislativo e, desta forma, determinando a necessidade de uma
coalizão a ser feita com outras forças políticas, não apenas a partidária, mas também as forças

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estaduais/regionais (ABRANCHES: 1988). A ideia de presidencialismo de coalizão tem como


base este “pacto” a ser feito pelo presidente, com as forças políticas regionais e com as
bancadas partidárias no Congresso.

O presidencialismo de coalizão expressa a dificuldade do presidente em governar, em


impor suas ações de governo, o que pode ser visto como uma virtude da democracia brasileira,
visto que a oposição ao Poder Executivo é um importante mecanismo de moderação a este
Poder. Este conceito surge para dar conta de explicar o modo como o presidente conseguiu
governabilidade no período em que teve que redesenhar o modelo político-institucional
brasileiro para poder reestabelecer a ordem democrática. A ideia do presidencialismo de
coalizão permanece como referência na compreensão das especificidades do processo
político brasileiro.

Sobre o presidencialismo de coalizão: o que difere o presidencialismo no


Brasil é o critério usado para a base parlamentar de apoio ao presidente e que
não é apenas partidária, pois depende também do critério regional; força da
questão regional está relacionada ao federalismo, diferenças regionais e o
poder dos governadores.

2.2.1 Como entender a questão da fragilidade dos partidos políticos e sua


relação com o presidencialismo de coalizão?

Para Limongi (2006), o conceito de Abranches (1988) está próximo da visão política
corrente que é a de que os partidos políticos no Brasil são frágeis porque o poder tradicional
(oligárquico) sobrevive como importante fonte de poder. Ou seja, a força dos partidos concorre
com as forças tradicionais, como, por exemplo, de famílias que estão há muito tempo no
poder e têm força política para determinar o resultado de eleições (eleger seu candidato).

Ao destacar esta característica da política brasileira reforça a ideia de que nossa política
é “atrasada”, no sentido de, se comparada aos modelos de democracia historicamente
consolidados como os da Europa e dos EUA, o Brasil esta ainda muito longe desses regimes
democráticos, visto que conserva forças políticas retrógradas como as oligarquias.

Assim, se tomarmos como correta a premissa da fragilidade dos partidos e, se a hipótese


de que as esferas políticas tradicionais são forças que não podem ser desprezadas, parece
lógico que a base de sustentação política também passa por alianças entre o presidente e
esses núcleos tradicionais de poder, que atuam no âmbito regional. E esta é uma característica
importante do presidencialismo de coalizão, a necessidade do presidente em receber apoios
regionais, além do apoio partidário.
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Devemos deixar claro que o presidencialismo de coalizão é um ponto de vista, ou seja,


uma forma de interpretar a relação de forças entre Executivo e Legislativo na política brasileira.
A importância de resgatar este conceito está no fato de ser uma interpretação amplamente
aceita pelos analistas políticos brasileiros. Agora tomaremos uma outra interpretação, que
procura demonstrar que, ao contrário do que possa parecer, o funcionamento do sistema
político brasileiro não é diferente da realidade encontrada em outros países democráticos.

3 Crítica ao capitalismo de coalizão ou por que o sistema


político brasileiro não é diferente dos demais governos
democráticos
Do ponto de vista de Limongi (2006), o sistema presidencialista brasileiro não é diferente
do que acontece em outros países cujo sistema democrático está consolidado há mais tempo.
O autor não nega totalmente o conceito de Abranches (1988), pois considera que o sistema
político brasileiro pode ser considerado como um presidencialismo de coalizão. No entanto,
não é diferente da forma como outros países “fazem” o sistema presidencialista funcionar. O
presidente precisa do apoio parlamentar para aprovar suas iniciativas. Neste sentido, existe
sempre a necessidade de uma coalizão em governos presidencialistas.

Limongi usa principalmente dois indicadores para respaldar sua posição quanto às
semelhanças entre o sistema político de países europeus e o Brasil, estes indicadores da
relação entre o Executivo e o Legislativo são: taxa de sucesso, taxa de dominância e a taxa de
disciplina partidária.

• Taxa de sucesso: é a proporção dos projetos do Poder Executivo aprovada pelo


Legislativo (por exemplo: dos 50 projetos de lei enviados para o Congresso, em um
determinado período, pelo executivo, apenas 10 foram aprovados, então é possível
afirmar que a taxa de sucesso do Poder Executivo é baixa);

• Taxa de dominância: sobre o total das leis aprovadas em um determinado período, se


a maioria delas foi proposta pelo Executivo ou pelo Legislativo; é a verificação de qual
dos poderes teve maior aprovação de projetos de lei (exemplo: 100 projetos de lei em
um determinado período, dos que foram aprovados, 90 tiveram origem no executivo
e 10 no legislativo, então é possível afirmar que é muito alta a taxa de dominância do
Executivo);

• Taxa de disciplina partidária: é a medida da influência das lideranças partidárias no


voto dos demais membros do partido quando há uma votação no plenário (exemplo:
o líder do partido x no Congresso é a favor da aprovação de uma lei, todos os
membros da bancada votam favoravelmente, então é possível afirmar que é alta a
taxa de disciplina partidária).

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Estado, governo e sociedade

Dados comparativos dessas duas taxas apontam que existe na atualidade a tendência de
tanto a taxa de sucesso quanto a taxa de dominância girarem em torno dos 90% (LIMONGI:
2006). Se comparadas as taxas de sucesso e as taxas de dominância brasileiras com a de
outros países, tais como a Inglaterra e outros países Europeus (LIMONGI: 2006), é possível
verificar que elas são muito parecidas e não variam muito, o que coloca o Brasil, com relação
a este aspecto, equiparado às demais democracias.

Limongi (2006) evidencia em seu artigo que no Brasil a maioria dos projetos (Medidas
Provisórias) que o Executivo submete ao legislativo é aprovado, ou seja, a maioria do
Congresso vota com o governo. Este notável apoio às medidas governamentais pelo Legislativo
só é possível porque existe um “apoio sólido de uma coalizão partidária” (LIMONGI: 2006).
Vejamos agora como isso acontece.

No presidencialismo o sucesso ou fracasso do chefe do Executivo não interfere no


mandato do Legislativo, fato que pode ocorrer no sistema parlamentarista. Essa característica
poderia fazer com que os membros do partido de oposição simplesmente se opusessem a
votar os projetos de lei do Executivo e apenas os membros do partido do presidente teriam
motivação para votar alinhados com o Executivo (FIGUEIREDO, A. FIGUEIREDO, A.; LIMONGI:
1998). Da mesma maneira que o presidente não teria estímulo para buscar o apoio do poder
Legislativo. Se fôssemos seguir esta lógica, o sistema presidencialista estaria fadado ao
insucesso. Por isso, a coalizão, ou seja, a busca de alianças políticas no presidencialismo, é
de suma importância. Mas não basta a aliança com os partidos, a taxa de disciplina partidária
também precisa ser favorável para que haja governabilidade.

No Brasil a taxa de disciplina partidária é alta (LIMONGI: 2006), as bancadas dos partidos
aliados ao governo, a chamada base aliada, votam da forma como o líder do governo da
Câmara indica. Esta disciplina é a base de sustentação do governo. O governo garante e
fortalece essas alianças através da distribuição de pastas ministeriais. Também o poder do
presidente foi reforçado na Constituição de 1988, acabou dando ao presidente um grande
controle das iniciativas legislativas.

Quando a base aliada não vota de acordo com o líder do governo, fato que não é
frequente, o índice de apoio pode cair para até 70%. Ainda assim fica evidente que o presidente
dificilmente deixa de ver aprovado seu projeto. No entanto, o que chama atenção dos analistas
é a previsibilidade da votação, pois os líderes do partido já sabem antecipadamente como
votará a bancada de seu partido:

Contudo, o que realmente importa não é a magnitude da disciplina, mas a


previsibilidade, isto é, se líderes tem como prever os resultados, se podem garantir
vitórias contando apenas com suas bancadas. E isso ocorre no Brasil. O plenário é
altamente previsível. (...) Com base nestas informações parece difícil sustentar que
a base de apoio do governo careça de solidez. Vale observar que na maioria das
derrotas, a indisciplina da base não foi o problema, mas sua divisão interna, isto é,
pelo menos um partido não seguiu a orientação do líder do governo. (LIMONGI: 2006,
p. 24-25)

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As evidências apresentadas por Limongi (2006) permitem concluir que o presidente


consegue governabilidade apenas estabelecendo alianças com os partidos políticos, sem que
seja necessário buscar uma base de sustentação fora do Congresso e em forças políticas
estaduais e regionais, contrariando, assim, o conceito elaborado por Abranches (1988), o
presidencialismo de coalizão.

Com a grande prerrogativa de legislar dada ao presidente pela Constituição de 1988,


para que um partido aprove políticas públicas de acordo com seus interesses é importante
buscar o apoio das bases do governo. A alternativa, segundo Limongi (2006), é o partido fazer
forte oposição ao governo com o objetivo de vencer a próxima eleição presidencial e, desta
forma, garantir a aprovação de leis do seu interesse.

O Brasil, conclui Limongi (2006), não difere de outras democracias, não é melhor e nem
pior do que outros Estados democráticos. Aqui repetimos as estruturas, relações políticas e
os indicadores que são encontrados em países Europeus. Contrariando pressupostos que nos
levam a pensar que a política se encontra em constante crise e é marcada pela instabilidade.

Os indicadores que servem para medir a relação entre os Poderes Executivo


e Legislativo são: taxa de sucesso, taxa de dominância e taxa de disciplina
partidária.

Considerações finais
Nesta aula vimos que é recorrente entre os brasileiros achar que em nosso país nada
funciona, e que a verdadeira “civilização” só pode ser encontrada fora do Brasil, principalmente
na Europa. Essa expectativa foi sendo formulada na cultura nacional desde os primeiros
anos por meio dos primeiros homens que vieram colonizar nossas terras, os quais Sérgio
Buarque de Holanda chamou de “homem aventureiro”. Este primeiro colonizador desejava
enriquecer com as riquezas naturais do Brasil e depois voltar à civilização. A conduta do
homem aventureiro deixou marcas na nossa cultura até os dias de hoje.

Essa perspectiva intrínseca à nossa cultura influencia a forma com que os brasileiros
explicam nossas instituições como sui generis e, até, atrasadas, quando comparadas a outras
realidades. Este ponto de vista marca até a forma de ver nossa política.

Por ser considerada por vários analistas como um modelo único, marcado por crises e
instabilidade, nossa forma de fazer política ganhou um conceito específico, o presidencialismo
de coalizão, a partir dos estudos do cientista político Sérgio Abranches em 1988.

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O conceito de presidencialismo de coalizão está baseado na ideia de que, para governar, o


presidente precisa fazer alianças políticas que ultrapassam as relações partidárias. Os partidos
representam os interesses da população, mas no Brasil as forças tradicionais (oligarquias) têm
uma força política muito grande, o que faz com que o presidente tenha que formar também
alianças regionais para poder governar.

No entanto, o pesquisador Fernando Limongi nos apresenta uma outra perspectiva das
relações políticas brasileiras, evidencia, através das taxas de sucesso, dominância e disciplina
partidária, que a relação entre o Executivo e o Legislativo não faz o Brasil um país diferente,
pelo contrário, essas taxas aproximam o nosso país das estruturas e do funcionamento dos
demais governos democráticos.

Referências
ABRANCHES, S. O presidencialismo de coalizão: o dilema institucional brasileiro. In: Dados
- Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro. vol. 31, n. 1, 1988, pp. 5-34.

DANTAS, R. P. Sistema presidencialista: origens, características e adoção pelo Brasil. 2011.


Clube Jurídico do Brasil. Disponível em: http://www.clubjus.com.br/?artigos&ver=2.35865
Acesso em 10/11/2014.

FIGUEIREDO, A. FIGUEIREDO, A.; LIMONGI, F. Bases institucionais do presidencialismo de


coalizão. Lua Nova, v. 44, 1998.

HOLANDA, S. B. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

LIMONGI, F. A democracia no Brasil: presidencialismo, coalizão partidária e processo decisório.


Novos estudos-CEBRAP, n. 76, p. 17-41, 2006.

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Aula 12
Voto e identidade partidária

Objetivos Específicos
• Discutir a relação entre a preferência ou rejeição partidária e as intenções de
voto no Brasil.

Temas
Introdução
1 O comportamento dos eleitores
2 Quanto à identificação partidária
3 Rejeição partidária
Considerações finais
Referências

Professora
Ana Paula Rupp Hamms
Estado, governo e sociedade

Introdução
Nesta aula discutiremos a relação entre rejeição ou preferência partidária e as intenções
de voto no Brasil, procurando elucidar o comportamento eleitoral do povo brasileiro. A
importância desta abordagem se dá principalmente pelo fato de que, de forma geral, a
relação entre a sociedade e o governo acontece mediante o voto. Afinal, o que determina a
escolha de um candidato, e não de outro, pela população? O partido político é um critério
para escolher um candidato?

Existem várias formas de analisar o comportamento eleitoral, as abordagens teóricas


mais utilizadas estão ligadas às perspectivas sociológica e psicológica, até da teoria da escolha
racional. Você verá que as teorias sobre o comportamento eleitoral partem principalmente
destes paradigmas.

Os estudos sobre o comportamento eleitoral apontam para diversas direções, no entanto,


é possível aglutiná-los em duas importantes tendências: as que dividem os eleitores em dois
grupos e as que evidenciam que a percepção que os eleitores têm da gestão dos partidos
enquanto gestores responsáveis pela gestão pública influencia nas escolhas eleitorais.

Veremos também que o fenômeno do populismo deixou suas marcas no comportamento


do eleitor brasileiro.

Saberemos em que medida a identidade com um partido político ou a rejeição do eleitor


com relação a um outro influencia no momento da votação. Como é o comportamento do
eleitor quando o assunto em pauta é o partido político? Esta será mais uma questão a ser
discutida nesta aula.

1 O comportamento dos eleitores


A relação entre a sociedade e o governo (que é a autoridade política que administra
o Estado) pode ser entendida a partir da perspectiva do comportamento dos eleitores nas
eleições. Em uma democracia, muitos dos anseios e desejos do povo com relação ao destino
de seu país podem ser compreendidos por meio das intenções de voto. Mas como o cidadão
decide em quem vai votar? Quais são os critérios nos quais se baseia o eleitor para escolher
seu candidato?

Os cientistas políticos têm dedicado inúmeras análises do resultado de eleições e de


pesquisas sobre a afinidade dos eleitores com determinados partidos, ideologias ou ainda
outros quesitos que o comportamento eleitoral expressa. Compreender o comportamento
do eleitorado é uma tarefa complexa, desde o grande número de eleitores, visto que temos a
terceira maior população de eleitores do mundo, perdendo apenas para a Índia e os Estados
Unidos (NICOLAU: 2002), até as constantes transformações na história política do Brasil.

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Estado, governo e sociedade

Para Borba (2005), existem três principais correntes teóricas para explicar o
comportamento dos indivíduos enquanto eleitores: a sociológica, a psicológica e a teoria da
escolha racional.

• sociológica: procura relacionar o contexto social vivenciado pelos indivíduos, o


que envolve inúmeras variáveis, tais como ocupação, ideologia dominante, análise
demográfica, para estabelecer conexões entre estas variáveis e o comportamento
eleitoral;

• psicológica (ou sociopsicológica): esta perspectiva teórica visa interpretar o


comportamento político conhecendo as percepções, as motivações e as atitudes dos
eleitores quando estão tratando de questões políticas; a compreensão dos atores
políticos é feita por meio de pesquisas sobre como os eleitores percebem e criam
conceitos com relação à política, a partir do relato dos sujeitos se cria uma relação
com o comportamento eleitoral;

• teoria da escolha racional: para os que defendem esta teoria, os eleitores se


comportam como consumidores na hora de votar, a escolha do voto é racional e
pautada em interesses particulares; os políticos vão “vender seus produtos”, que são
suas propostas políticas, a moeda que circula neste mercado é o voto, e o eleitor é o
consumidor que escolhe seu “produto” a partir de um razão entre custo e benefício.

Os autores utilizam um desses três paradigmas, ou a união deles, para procurar explicar
o comportamento dos eleitores (BORBA: 2005). No Brasil, os estudos pioneiros sobre o
comportamento eleitoral, realizados principalmente entre os anos de 1950 a 1970, usaram as
teorias sociológica e psicológica para compreender como os fenômenos da industrialização e
da urbanização, que marcaram a sociedade brasileira durante a década de 30 do século XX,
determinaram uma transformação no comportamento do eleitorado.

Pesquisas mais recentes lançam mão da teoria da escolha racional para o estudo do
comportamento do eleitor no Brasil (BORBA: 2005). O uso de diferentes correntes teóricas
resulta em explicações, tipificações e conceitos dos mais diversos. A seguir, mostraremos
alguns marcos analíticos importantes do comportamento do eleitor brasileiro.

1.1 Classificação binária


As teorias que apresentam uma compreensão binária para o comportamento eleitoral
enfatizam que a escolha dos eleitores não está baseada em critérios como o da ideologia
do partido político do candidato (BORBA: 2005), mas sim em uma percepção de políticos
que estariam do lado do povo (os pobres) ou do lado do governo (os ricos). Grande parte
da população cria este tipo de imagem dos candidatos e seus partidos, e, mediante esta
percepção, decidem em quem votar. Existe dentro desta lógica a ideia de que votar nos
candidatos do partido que faz oposição ao governo seria o mesmo que votar nos candidatos
que defendem o povo, anunciando outro sistema binário: oposição (povo) e governo (elite).

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O fenômeno da polarização entre ricos e pobres dever ser uma análise referente a
cada eleição e não é, no Brasil, um critério a ser usado como uma percepção a priori do
comportamento eleitoral dos brasileiros. Segundo Singer (2009), a reeleição de Lula, em 2006,
pode servir de exemplo para o modelo de clivagem entre ricos e pobres, para o autor, “o único
caso anterior de polarização por renda em eleições presidenciais, desde a redemocratização,
surgira no segundo turno de 1989, sendo que naquela ocasião a candidatura de Lula estava,
não por acaso, no lado oposto da linha que dividia pobres e ricos” (p. 86).

Outro critério que estabelece uma lógica binária para a compreensão do


comportamento do eleitor é o da sofisticação dos eleitores (BORBA: 2005). Quanto mais
esclarecido politicamente for o eleitor (a minoria), mais sofisticados serão os critérios de
escolha do candidato, tais como ideologia do partido político e as características do candidato
enquanto político. Na outra ponta estão os eleitores menos esclarecidos politicamente
(a maioria), que não usam critérios políticos para a escolha do seu candidato, mas sim
critérios subjetivos a partir das ideias que são divulgadas do candidato e que contribuem
para a construção da imagem do político, e que não têm necessariamente relação com
ideologias, mas sim com a percepção de um candidato que é defensor da camada menos
favorecida ou da camada menos privilegiada da população.

Limongi (2006) mostra que parte do debate sobre o entendimento da conduta eleitoral
do brasileiro aponta para uma característica histórica deste comportamento, que é a de
votar em partidos conservadores; a explicação para este fenômeno parte do princípio da
sobrevivência de relações de poder autoritárias, consubstanciadas no coronelismo, o que
implicaria na “permanência de redutos eleitorais não competitivos” (p. 39), ou seja, na baixa
competitividade nas eleições. É importante destacar que o autor discorda deste ponto de
vista, destacando o contrário, de que existe competitividade nas eleições brasileiras.

O autor (LIMONGI: 2006) evidencia que a maioria dos municípios tem eleições
competitivas. Essa evidência está relacionada à grande ocorrência de coligações partidárias
com propósito eleitoral e ao fato de que os eleitores votam efetivamente em candidatos
dessas coligações. As coligações mostram que várias forças políticas regionais/locais,
são forçadas a coligar-se para aumentar seu potencial eleitoral, contrariando a tese do
coronelismo, que é a força de uma oligarquia determinando a ordem política. A união
de várias forças também representa uma maior representatividade dos partidos. O autor
destaca, ainda, os importantes avanços da democracia no Brasil.

“Na verdade, esses dados apontam apenas na direção do óbvio: o eleitorado brasileiro
é cada vez mais urbano e, sob estas condições, não há como invocar a sujeição de um
eleitor isolado e dependente social e politicamente para explicar os resultados [das
eleições]. Se controle houver, recursos e explicações devem se adaptar às condições
vigentes”. (LIMONGI: 2006, p. 40)

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1.2 O critério da análise personalista


Os cientistas políticos também têm analisado o comportamento político do eleitor, no
que diz respeito à forma como este faz a escolha de seus candidatos, a partir de critérios
personalistas e menos racionais (BORBA: 2005). Ou seja, os eleitores não se prendem aos
critérios ideológicos dos partidos e nem de identidade partidária, a motivação em votar
tem origem na percepção do candidato. Existe uma cultura de desconfiança com relação às
instituições políticas e aos políticos, esta conduta também explica o fato de grande parte dos
eleitores avaliarem o político enquanto “pessoa” em detrimento da percepção do candidato
enquanto agente público.

As teorias de percepção binária do comportamento eleitoral, que demonstram a postura


personalista do eleitor, também evidenciam o fenômeno político conhecido como populismo,
que muitos autores consideram como um dos traços mais marcantes da política brasileira. O
fenômeno do populismo marca a história das relações de poder no Brasil, fato que marca a
percepção e as condutas políticas de grande parte da nossa população.

O populismo é um fenômeno político, é uma forma de governar que usa


estratégias específicas para conseguir o apoio do povo. Uma das estratégias é a
de promover o culto a sua personalidade, desvinculando sua imagem a de um
político comum e sua relação ideológica com partidos políticos e classes sociais.
Populista é a autoridade pública que usa estratégias associadas ao populismo
em sua carreira política.

O populismo é um fenômeno político que marca a história de várias nações,


principalmente durante o impulso de industrialização e urbanização, quando a população
que migra do campo para a cidade busca transformar os laços políticos patriarcais presentes
no campo por relações políticas de características semelhantes. O populista aproxima-se
do povo, dando a entender que solucionará todos os seus problemas (o que, em parte,
tende a ocorrer) para que possa desta forma fazer com que a população aceite um governo
autoritário (SOUSA: s/d).

Os autores que investigam o fenômeno do comportamento eleitoral têm procurado


entender até que ponto a conduta eleitoral de parte da população, principalmente das
camadas populares, está arraigada ao fenômeno do populismo, no sentido de que aceita/
busca nos políticos as características dos populistas nos candidatos.

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1.3 Critério da avaliação da gestão


Evidências têm mostrado que quando o comportamento do eleitor aponta para a
preferência partidária, esta escolha não está diretamente relacionada ao conteúdo ideológico
do partido político, pois os eleitores não conseguem relacionar da forma consistente a relação
entre o partido, a ideologia do partido e sua intenção de voto (BORBA: 2005). O que pesa
nesta escolha é o critério de avaliação da gestão de um determinado partido, indiferente da
sua inclinação política.

O comportamento da maioria do eleitorado estaria guiado mais por critérios de


eficiência da administração pública ou por questões ‘pós-materialistas’, como meio
ambiente ou qualidade de vida, do que pela identificação ideológica. (BORBA: 2005,
p. 159)

O critério de avaliação da gestão corrobora em certos aspectos a abordagem anterior,


a da classificação binária, pois também constatou a tendência do eleitorado a escolher o
candidato a partir de critérios ligados à imagem do candidato. O critério da avaliação da
gestão perpassa pela percepção do candidato segundo critérios de eficiência administrativa
(BORBA: 2005), sendo que este ponto de vista não está diretamente relacionado com uma
avaliação ideológica que permite distinguir os partidos de direita dos partidos de esquerda.

As diferenças entre esquerda e direita se diluem; se as pesquisas mostram que parte


relevante do eleitorado ainda manifesta preferências e rejeições partidárias, é possível
que estas estejam cada vez menos associadas a programas e ideias defendidos pelos
diferentes partidos. Além da possibilidade de que elas se devam a associações, na
percepção dos eleitores, entre as siglas e seus principais líderes, é provável também
que se devam, em grande medida, à avaliação que os diferentes segmentos do
eleitorado fazem dos partidos, especialmente a partir de suas gestões, quando
comandando governos relevantes. (CARREIRÃO: 2008, p. 321)

Desta forma, a avaliação dos eleitores está relacionada com os resultados das gestões
públicas dos partidos, e não com as diretrizes político-partidárias. Os autores apontam para
os principais aspectos avaliados pela população (CARREIRÃO: 2008): resultados dos planos
econômico e social, segurança pública, honestidade e probidade na gestão pública.

2 Quanto à identificação partidária


Até aqui vimos as perspectivas que apontam para uma não vinculação do voto aos
partidos políticos. No entanto, estudos recentes apontam que é possível relacionar opiniões
políticas e sentimentos partidários (CARREIRÃO: 2008), apesar das divergências entre os
estudos que apontam para a pouca influência dos partidos políticos nas decisões eleitorais e
os que consideram justamente o caminho oposto.

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Segundo Carreirão (2008), a revisão da literatura sobre o assunto aponta que podemos
distinguir algumas tendências quanto à identificação dos eleitores com partidos políticos
e nos mostram que não há consenso entre os autores no que diz respeito à influência da
identidade partidária e as intenções de voto:

• a maioria do eleitorado encontra dificuldade em diferenciar os aspectos ideológicos


dos partidos políticos;

• a identificação dos eleitores com os partidos políticos geralmente ocorre durante o


período eleitoral;

• a identidade partidária é instável, ou seja, ela muda no decorrer do tempo;

• uma parcela significativa dos eleitores brasileiros tem sentimentos partidários que
influenciam seu voto de forma significativa ou razoável;

• o critério de rejeição partidária é cada vez mais uma variável importante para a
decisão do voto.

Os estudos sobre a cultura política ressaltam a importância crescente da análise


sobre as opiniões políticas dos eleitores, no que diz respeito aos valores que sustentam a
ideia de democracia (CARREIRÃO: 2008) - principalmente a liberdade e a igualdade, com
relação ao voto e à identidade partidária. Carreirão (2008) mostra algumas tendências no
comportamento político dos eleitores a partir de pesquisas por ele realizadas: a maioria dos
eleitores não apresenta grandes diferenças de opinião com relação aos partidos políticos
brasileiros, entre 1990 e 2007 a associação entre eleitores com posição mais democrática
e o voto em partidos de esquerda foi diminuindo, ou seja:

(...) quanto às opiniões políticas dos eleitores, há uma tendência de declínio das
correlações positivas (especialmente as de maior magnitude) com os sentimentos
partidários, ao longo do tempo. O contraste entre 1990 e 2007 é muito nítido: em 1990,
havia maior preferência por partidos à esquerda entre eleitores mais democráticos,
igualitários, participativos ou liberais (em questões morais). Em 2007, as opiniões
dos eleitores têm muito pouca associação com o partido que preferem ou rejeitam,
ou, quando há associação, pode haver associação com algumas opiniões no “sentido
esperado”. Em suma, se, em 1990, os eleitores com preferência por diferentes partidos
distinguiam-se razoavelmente entre si no que se refere ao seu autoposicionamento
ideológico e suas opiniões políticas, ao final do período estas diferenças são muito
pequenas e não têm um sentido único. (CARREIRÃO: 2008, p. 339)

Assim, é possível identificar uma propensão à diminuição da relação entre identidade


partidária e as intenções de voto. No início do período estudado, os eleitores com perfil mais
democrático votavam nos partidos mais à esquerda, no final do período esta relação já não
era tão nítida. Apesar da diminuição desta associação necessária entre o perfil do eleitor e
seus sentimentos com relação a partidos políticos, há uma relação mais clara destes fatores
quanto aos eleitores que votam em candidatos do Partido dos Trabalhadores.

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2.1 O caso específico de identificação partidária com o Partido dos


Trabalhadores
No Brasil, segundo Carreirão, o partido em que mais nitidamente é possível fazer a
associação entre opiniões políticas e sentimentos partidários é o Partido dos Trabalhadores
(PT). Houve uma mudança do ponto de vista geográfico com relação à maioria de eleitores
que votavam neste partido. No início do período, a maioria estava na região sudeste e no
final do período esses eleitores eram encontrados, em sua maioria, na região nordeste e
“menor peso dos eleitores com maior perfil de instrução e maior peso dos menos instruídos”
(CARREIRÃO: 2008, p. 339).

O autor explica que esta mudança se deu, em parte, porque eleitores do PT com perfil
mais ligado às questões ideológicas mudaram de opinião sobre o partido, tendo em vista que
o partido, em sua trajetória, mostrou sinais de inconsistência ideológica e moral, segundo a
avaliação de seus eleitores. E, por outro lado, houve um aumento dos eleitores com menor
escolaridade, motivados pelas políticas sociais associadas ao governo petista.

As transformações na imagem do partido e a percepção da gestão do PT no governo


federal influenciaram nos indicadores de identidade relacionados ao partido, mudando o
perfil dos eleitores que votam no partido, por se identificarem com ele.

Singer (2009) também analisa a ascensão do PT ao governo federal com a eleição e


reeleição de Lula. Segundo o autor, para a eleição de Lula em 2002 foi decisivo o fato de o PT
ter buscado aliança com um partido de centro e de ter escolhido como vice-presidente em
sua chapa um político associado ao meio empresarial. Avalia que nas outras duas disputas à
presidência, Lula tinha entre seus eleitores aqueles mais escolarizados e não os das classes
populares e os eleitores de baixíssima renda. Por quê?

Porque, para grande parte dos eleitores, concentrados nas camadas mais abaixo da
pirâmide social, Lula e seu partido representavam uma ameaça à ordem social, ou seja, havia
no imaginário do eleitor o risco de transformações sociais mais radicais e a aproximação de
Lula e as alianças partidárias mais alinhadas “ao centro”, aplacou este suposto risco. Para a
reeleição, segundo o autor, o sucesso do programa de distribuição de renda Bolsa Família foi
um importante elemento que motivou a população mais carente a votar no candidato do PT,
mas ressalta que é equivocado afirmar que o voto desta parcela da população foi motivado
apenas por este programa, mas que, no entanto, também não se deve menosprezar sua
importância.

Para saber mais sobre a história do Partido dos Trabalhadores, acesse o


link disponível na midiateca da disciplina.

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3 Rejeição partidária
Carreirão e Kinzo (2004) acreditam que a relação entre a rejeição partidária e o
comportamento do eleitor está diretamente relacionada ao fato de o eleitor não votar em
um candidato do partido que rejeita. Esta rejeição ao partido é motivada principalmente
por motivos ideológicos, ou seja, os eleitores declaram não estar de acordo com os aspectos
ideológicos relacionados ao(s) partido(s) político(s). Os autores chamam atenção para o fato
de que uma parcela de eleitores que não manifesta a preferência por partido algum rejeita
um ou outro partido.

A rejeição partidária tem um vínculo mais claro com relação ao voto do que aqueles que
se identificam com um partido, ou seja, existe uma maior probabilidade do eleitor que rejeita
um partido nunca votar em um candidato deste partido do que a probabilidade de um eleitor
que tem preferência por um partido votar, na maioria das vezes, em um candidato do partido
que manifestou ter preferência.

É importante ressaltar que os critérios de identidade partidária e rejeição partidária não


têm sido, historicamente, os mais importantes para os eleitores na hora de escolher um
candidato. No entanto, os critérios de escolha e comportamento eleitoral são dados dinâmicos
e podem mudar a cada eleição. Sobre este assunto, o que aconteceu no passado não significa
necessariamente que se repetirá em outras eleições, no entanto pode mostrar uma tendência
do eleitor, e, ainda mais importante, as pesquisas nesta área possibilitam uma compreensão
a respeito da relação dos indivíduos com as instituições políticas.

Compreender o comportamento político significa buscar neste fenômeno


uma forma de manifestação popular, visto que é o momento em que a população
manifesta seus desejos e insatisfações.

Considerações finais
Nesta aula mostramos as principais abordagens a respeito do comportamento dos
eleitores: a sociológica, que relaciona aspectos gerais da sociedade onde o indivíduo está
inserido e seu comportamento enquanto eleitor; a psicológica, que procura relacionar as
motivações individuais à preferência política no processo eleitoral, e a teoria da escolha
racional, que explica que os eleitores têm um comportamento eleitoral que está de acordo
com o comportamento de um consumidor.

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Essas abordagens permitem desenvolver teorias para a compreensão do comportamento


do eleitor, e é comum que elas classifiquem os eleitores a partir de uma percepção binária,
por exemplo, a forma como ricos e pobres votam, ou que procuram ver o comportamento
de pessoas com mais ou com menos instrução de maneira diferenciada. Outro paradigma de
análise é aquele que relaciona a avaliação da gestão com a escolha do candidato.

Vimos também que a identidade partidária e a rejeição partidária pode ser um critério
para analisar o comportamento dos eleitores. Esses critérios estão geralmente associados a
uma identificação (ou rejeição) das ideologias que sustentam os partidos políticos.

A perspectiva de que o eleitor brasileiro vota em determinados candidatos por estar


submetido a um sistema político autoritário, baseado em forças oligárquicas, é refutada, na
medida em que não é mais possível enxergar que exista uma força dominando o cenário
político local, e esta realidade se expressa na necessidade de coligações partidárias para
concorrer às eleições. Este cenário político demonstra a existência de competitividade na
política brasileira e que o brasileiro está cada vez mais inserido em um sistema democrático.

Referências
BORBA, J. Cultura política, ideologia e comportamento eleitoral: alguns apontamentos teóricos
sobre o caso brasileiro. Opinião Pública, Campinas, Vol. XI, nº 1, Março, 2005, p. 147-168

CARREIRÃO, Y. S. Opiniões políticas e sentimentos partidários dos eleitores brasileiros.


OPINIÃO PÚBLICA, Campinas, vol. 14,nº2,Novembro,2008, p. 319-351.

CARREIRÃO, Y. S; KINZO, M. D. G. Partidos políticos, preferência partidária e decisão eleitoral


no Brasil (1989/2002). DADOS – Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, Vol. 47, n. 1, 2004,
pp. 131 a 168.

LIMONGI, F. A democracia no Brasil: presidencialismo, coalizão partidária e processo


decisório. Novos estudos-CEBRAP, n. 76, p. 17-41, 2006.

NICOLAU, J. M. História do voto no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 2002.

SINGER, A. Raízes sociais e ideológicas do Lulismo. Novos Estudos 85.Novembro 2009, pp. 83-
102.

SOUSA, R. Populismo. Brasil Escola. Disponível em: http://www.brasilescola.com/historia-da-


america/populismo-1.htm Acesso em: 15/11/2014.

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Aula 13
O voto durante o Império

Objetivos Específicos
• Entender como eram as eleições durante o período imperial brasileiro.

Temas

Introdução
1 As eleições durante o Império: o voto para poucos
2 O processo de votação
Considerações finais
Referências

Professora
Ana Paula Rupp Hamms
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Introdução
Nesta aula, você verá como eram realizadas as eleições durante o Império.

As eleições feitas no Brasil desde 1924 até a proclamação da república foram marcadas
por um sistema complexo de eleições diretas e indiretas, que foi, por diversas vezes,
reajustado com o objetivo de diminuir as fraudes, os abusos de poder e garantir ao máximo a
representatividade dos partidos políticos.

A Constituição de 1824 excluía grande parte da população do direito ao voto: era a


minoria que votava. Os pobres, os escravos e as mulheres não tinham o direito de votar. Assim
também acontecia com aqueles que poderiam ser eleitos; eles formavam uma parcela ainda
menor da população. Veremos que as eleições naquela época foram marcadas por ações
de má-fé, no entanto, havia uma preocupação de moralizar o sistema, com o objetivo de
diminuir os abusos de confiança e de poder. Mesmo com vários ajustes no processo eleitoral,
isso não chegou a garantir que a população fosse representada de forma equitativa.

1 As eleições durante o Império: o voto para poucos


A história da democracia de uma nação e de suas relações políticas também passa pela
história de como era a prática do voto e do processo eleitoral. Nesta aula, você verá que,
durante o Império, foi desenvolvido no Brasil um complexo sistema eleitoral. Não obstante
existência de eleições, veremos até que ponto o voto era sinônimo de uma verdadeira
participação popular na política brasileira.

Durante o Império, houve muitas mudanças no sistema eleitoral, principalmente visando


a um aprimoramento da democracia. Ou seja, as transformações objetivavam, principalmente,
combater as fraudes eleitorais e o cerceamento da liberdade. Veremos que o caminho para a
democracia que vivemos hoje foi feito de avanços e retrocessos e que isso aconteceu desde
quando o Brasil começou a “andar com as próprias pernas”, ainda no período do Império.

1.1 O voto nas paróquias: Estado e religião no Brasil império


Para que se possa entender a sociedade brasileira hoje, é importante revisitar os
processos de constituição e distinção históricos relacionados à organização político-
administrativa do Estado brasileiro. Hoje, temos União, estados e municípios, mas nem
sempre foi assim; a organização política do Estado sofreu várias modificações no decorrer
do tempo. As transformações político-administrativas implicaram também mudanças nas
relações de poder e, por conseguinte, no sistema eleitoral.

A estrutura social, a organização política e as relações de poder na época do Império eram


bem diferentes das de hoje. A organização político-administrativa do período imperial foi

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fundamentada pela Constituição de 1824. O texto constitucional dividia o Brasil em províncias,


o presidente das províncias era nomeado pelo Imperador, portanto, esse cargo não era
submetido ao voto. Para as cidades e vilas, a Constituição determinou a criação de Câmaras,
com a competência de gerir o município do ponto de vista econômico e administrativo.

A unidade eleitoral era a paróquia (também chamada de freguesia). Em cada paróquia,


havia uma mesa de votação. Na época do Império, e já antes disso, durante o Brasil colônia,
o Estado, primeiro na figura do rei e depois do imperador, confundia-se com a autoridade
religiosa. O imperador era o chefe de governo, de Estado e também a autoridade máxima
da Igreja Católica. A autoridade religiosa era garantida a partir do estatuto do padroado, que
nada mais é do que a concessão dada Papa que certas autoridades exercessem o poder em
seu nome.

Era o Estado que pagava o salário dos clérigos e, ao mesmo tempo, cobrava os impostos
religiosos, como o dízimo. Até a proclamação da república, persistiu o padroado no Brasil.
Assim, podemos entender que a paróquia era, ao mesmo tempo, uma unidade territorial civil
e religiosa. Uma cidade ou vila poderia ter várias paróquias. A título de exemplo, em 1873,
havia 1473 paróquias no Brasil (NICOLAU, 2012). Até 1880, as eleições eram feitas nas igrejas
das paróquias, o que tem a sua lógica, porque as igrejas eram uma referência dentro da lógica
urbana. De modo geral, as cidades nos períodos colonial e no império eram formadas a partir
de símbolos ou referências ao catolicismo.

(...) se o início de uma pequena povoação era sempre um cruzeiro ou capela, cuja
acomodação dependia do patrimônio do santo, isto é, das terras doadas pelos grandes
proprietários fundiários, tal fato pode ser interpretado como um sistema patriarcal do
domínio político e uma mistura entre a coisa pública e o negócio privado na ordem
espacial. (FRIDMAN, 2008, p. 3).

As relações políticas nas cidades e vilas confundiam-se com a religião. Muitas vezes, a
autoridade religiosa de uma cidade estava muito mais ligada à família que “mandava” na
cidade do que à hierarquia da Igreja.

As cidades e vilas eram como uma propriedade do grande latifundiário. A votação, feita
nas paróquias, também facilitava um controle mais eficiente do voto, por tratar-se, geralmente,
de uma população menor e das relações de poder serem tramadas em nível pessoal.

1.2 Quais eram os cargos eletivos durante o Império?


Nas cidades, não havia a figura do prefeito, então, quem tinha a responsabilidade de
administrá-las eram os vereadores. A outra autoridade local que assumia o poder mediante
voto era o Juiz de Paz, figura política que estava mais ligada às lógicas do Judiciário do que dos
Poderes Executivo e Legislativo e cujo papel era mediar pequenos conflitos.

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As vilas elegiam sete vereadores e as cidades nove. Nessas câmaras legislativas,


o presidente da casa seria aquele com o maior número de votos. Votava-se também nos
representantes das Assembleias Legislativas das Províncias, chamada de Assembleia
Provincial. Os representantes da Assembleia Legislativa (nos termos de hoje, os Deputados
Federais) também eram eleitos pelo povo.

Quanto à eleição para o Senado, os seus representantes eram eleitos de forma mista.
Vamos entender: o povo votava em candidatos para o Senado, no entanto, era enviada a
lista dos três nomes mais votados para que o Imperador escolhesse um desses nomes. Os
cargos no Senado, uma vez conquistados, eram vitalícios. Quanto ao número de senadores, a
Constituição de 1824 determinava que:

Art. 41. Cada Província dará tantos Senadores, quantos forem metade de seus
respectivos Deputados, com a diferença, que, quando o número dos Deputados
da Província for ímpar, o número dos seus Senadores será metade do número
imediatamente menor, de maneira que a Província, que houver de dar onze Deputados,
dará cinco Senadores. (...) Art. 42. A Província, que tiver um só Deputado, elegerá
todavia o seu Senador, não obstante a regra acima estabelecida. (BRASIL, 1824).

Quanto ao número de deputados a representar cada uma das províncias, a Constituição


esclarece que esse número seria estipulado por uma lei regulamentar, mas esclarecia que
o total dos deputados deveria ser proporcional à população do Império. Sendo assim, a
quantidade de deputados variava a cada legislatura.

Os vereadores e o Juiz de Paz recebiam a votação direta, ou seja, o voto para os cargos
locais era feito em primeiro grau. Já os representantes das Câmaras de Províncias, Assembleia
de Deputados, eram indiretas ou em dois turnos, como se dizia na época. Assim, para estes
últimos cargos, o processo eleitoral era feito em duas etapas, visto que existiam votantes e
eleitores; os votantes elegiam os eleitores que votariam em candidatos a cargos em disputa.
Os senadores também eram eleitos de forma indireta, formando uma lista dos três nomes
mais votados. Um desses nomes seria escolhido pelo Imperador para ocupar o cargo na
Câmara do Senado. Apenas pouco antes do final do Império, em 1881, todas as eleições
passaram a ser diretas.

O voto censitário é diferente do sufrágio universal: o voto censitário


seleciona quem pode ou não ser eleitor através do critério da renda; já o
sufrágio universal dá o direito de voto a todos aqueles indivíduos considerados
maduros para exercer a faculdade de escolha, sem restrição.

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1.3 Quem poderia votar?


Segundo a Constituição de 1824, estavam aptos a votar os homens com 25 anos
completos, porém, a idade caía para 21 anos, caso fosse casado, oficial militar, religioso
de ordem sacra ou bacharel formado. O voto era censitário, ou seja, para ser eleitor, era
necessário comprovar renda, cujo valor foi estipulado em 100 mil réis por ano, no caso dos
votantes e, em 200 mil réis por ano para ser eleitor, sendo que esses valores estabelecidos em
1824 foram ajustados em 1846, dobrando o valor de renda anual para votantes e eleitores.

A Constituição de 1824 listava aqueles que não poderiam votar: os que não tinham
renda líquida anual estabelecida pela constituição, os escravos libertos e os criminosos. A
carta constitucional não proibia explicitamente as mulheres de votar, mas elas não tinham
direito ao voto (NICOLAU, 2002), assim como os escravos. Também não eram excluídos,
por lei, os analfabetos; no entanto, o fato de haver a necessidade de assinar a cédula (isso
até 1842) limitou os votantes àqueles que eram alfabetizados, “[...] entre 1842 e 1881, os
analfabetos puderam ser votantes e eleitores” (NICOLAU, 2002), período em que, estima-se,
os analfabetos que votavam eram muitos, chegando a ser a metade dos eleitores e votantes
em alguns lugares.

A lei também determinava critérios para aqueles que poderiam ser votados para os
cargos de deputado e senador e, além dos critérios que selecionavam os eleitores, ainda
acrescentava: ter renda líquida anual de 400 mil réis, ser brasileiro nato e católico (BRASIL,
1824). A elegibilidade, nessa época, também passava por critérios elitistas, visto que também
era necessária comprovação de renda.

1.4 Como era feito o alistamento eleitoral?


Além da população apta a votar não ser a mesma no período do Império com relação aos
tempos atuais, também a forma como a população era recrutada para participar do processo
eleitoral era bem diferente. Hoje temos um órgão federal, o Supremo Tribunal Federal (TSE),
que faz um cadastro dos eleitores, além de ser responsável pelo controle de todo o processo
eleitoral e em julgar os casos de exceção que podem vir a acontecer nas eleições.

Na época do Império, o alistamento eleitoral tinha uma principal característica: ser feito
no local onde o cidadão deveria votar. Até 1842, esta seleção era feita no dia das eleições,
depois desta data, passou a ser feita uma lista de pessoas aptas a votar, dias antes das eleições,
esta lista era feita por uma comissão eleitoral presidida por um juiz. Mas o fato é que não
existia uma lista permanente dos eleitores, a cada eleição havia a necessidade de um novo
alistamento.

Segundo Nicolau (2002), esse procedimento no processo de alistamento dava margem


para toda a sorte de fraudes. O primeiro acontecia no momento da seleção de quem estava
apto a votar, muito mais problemático quando quem julgava era o juiz presente na paróquia
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onde a votação ocorria, não havia ninguém que fiscalizasse as decisões dos juízes, por isso
depois foram criadas as juntas eleitorais, para minimizar a atuação fraudulenta dos juízes.

Naquela época, os eleitores não tinham nenhum documento que os identificasse no


momento da eleição. A identificação era feita pela mesa no momento em que o cidadão se
apresentava para votar. Esta característica do sistema eleitoral dava margem para fraude, a
mais comum era a de uma pessoa se fazer passar por outra, votar em seu nome, e isso em
mais do que uma paróquia. Esse tipo de eleitor era conhecido como “fósforo”.

1.4.1 O eleitor “fósforo”

No período em que já havia uma lista prévia dos que estavam aptos a votar, não era
incomum um eleitor votar em mais de uma paróquia. Ao mesmo tempo em que já se sabia
quem estava habilitado para votar, se alguém soubesse que uma das pessoas listadas para
votar não fosse efetivamente participar das eleições por algum motivo, tais como: estar
viajando, doente ou até morto, entrava aí a figura do eleitor “fósforo” (NICOLAU, 2002), que
votava no lugar de uma pessoa que não votaria.

O “fósforo” era mais comum no meio urbano do que no rural e era um elemento
importante nas eleições durante o Império. Geralmente votava em várias freguesias de uma
mesma cidade, ou até de outras cidades. O que ocorria também era que mais de um “fósforo”
às vezes se apresentava para votar no lugar de outro eleitor, então votaria aquele que melhor
conseguisse provar que era a pessoa do eleitor. Esta era uma fraude muito comum na época,
tão comum que houve a necessidade de se emitir um título de identificação (NICOLAU, 2002),
o que passou a ocorrer a partir de 1875.

1.5 Em 1875, a identificação do eleitor


O primeiro título de eleitor foi criado em 1875 com o objetivo de diminuir a possibilidade
de fraudes, este documento era intitulado de “título de qualificação”. O título de qualificação
continha as seguintes informações dos eleitores (NICOLAU, 2002): nome, idade, estado civil,
profissão, renda, domicílio, e se era eleitor ou somente votante. Havia, ainda, uma declaração
do indivíduo se era alfabetizado ou não, fato que esclarece que, pelo menos neste período, os
analfabetos poderiam votar. Do título de qualificação era destacado um canhoto, que ficava
com a junta de alistamento, o qual continha as informações a respeito do votante.

Quanto à frequência da qualificação, esta era feita a cada dois anos, por uma junta
eleitoral de âmbito local (municipal). E foi apenas a partir desta época que se passou a exigir
o comprovante de renda dos candidatos a eleitores e votantes (NICOLAU, 2002). Depois
de realizada a qualificação, a lista dos selecionados era afixada na porta da paróquia ou da
câmara municipal, para que então os qualificados fossem pegar seus títulos. Em 1881 as juntas

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eleitorais foram abolidas e a qualificação passou a ser feita por um juiz de direito, (NICOLAU,
2002), mas o título de qualificação continuava com praticamente as mesmas informações
contidas no título expedido pela junta eleitoral.

2 O processo de votação
É importante perceber que de 1824 até a proclamação da república, em 1889, as leis
e os procedimentos relativos às eleições tiveram inúmeras mudanças. Estas mudanças
funcionavam no sentido de ajustar o processo eleitoral buscando uma melhor eficiência e,
principalmente, a lisura nas eleições.

O processo de votação acontecia em duas etapas, como já havíamos colocado. Em uma


primeira etapa, era necessário votar nos eleitores que, depois de eleitos, seriam responsáveis
por eleger os representantes da Assembleia Provincial, da Câmara dos Deputados e os
senadores, o que seria a segunda etapa das eleições. Os cargos locais, vereadores e Juiz de
Paz eram feitos em apenas uma etapa.

2.1 Para votar nos eleitores


Apesar de o processo eleitoral ter sofrido vários ajustes no decorrer do período imperial,
alguns procedimentos são bem característicos dessa época, como o fato de haver a necessidade
de votar, os votantes, para os eleitores de cada paróquia. Os votantes já deveriam trazer
pronta, no momento da votação, a lista de seus candidatos a eleitores, esta lista deveria ser
assinada pelo votante e depositada em uma urna.

O número de nomes listados deveria ser o mesmo do número de eleitores que deveriam
ser eleitos naquela paróquia (NICOLAU, 2002), para que fique claro: o número de eleitores
de uma cidade deveria ser sete, então os votantes deveriam trazer pronta uma lista com sete
nomes, e as suas respectivas profissões.

Foi assim até 1875, quando uma nova lei determinou que fossem listados pelos votantes
apenas 2/3 do número de eleitores previstos na paróquia, a contagem permanecia a da
maioria simples. Outra mudança implementada pela nova lei foi a introdução do voto secreto,
pois os votantes deveriam depositar na urna uma cédula fechada por todos os lados. E em
1981 este sigilo ficou ainda mais criterioso, na medida em que o lugar onde o votante, deveria
depositar seu voto deveria estar separado, por meio de divisória, da mesa eleitoral. Também
o rigor para votar mudou, o voto deveria ser escrito, necessariamente, em papel branco ou
azulado, e não deveria ter marcas, sinais ou numerações que permitissem associar o voto ao
votante.
A cédula, fechada por todos os lados e com o rótulo referente ao cargo em disputa, era
colocada em um envelope fechado, e depositada na urna. Depois o eleitor assinava
um livro de presença; caso não soubesse escrever, outro eleitor indicado por ele
poderia assinar. (NICOLAU, 2002, p. 16).

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Quanto aos candidatos a eleitor, não havia nomes previamente estabelecidos, os


cidadãos mais votados, por maioria simples, e conforme o número estipulado de eleitores
para a localidade (NICOLAU, 2002), seriam os eleitores selecionados pelos votantes para
eleger os representantes da Assembleia Provincial, Câmara de Deputados e a Câmara de
Senadores. Os eleitores recebiam uma cópia da ata da apuração eleitoral, onde constava seu
nome, e esta ata era, na verdade, o comprovante de que seria ele um eleitor.

A qualificação prévia dos votantes, o título de qualificação, e o aumento no sigilo da


votação são medidas que demonstram bem os esforços que foram feitos ao longo dos
anos no sentido de minimizar as fraudes e manipulações eleitorais. Essas medidas tiveram
consequências positivas no sentido de garantir a legitimidade e a integridade do processo
eleitoral.

2.2 Para votar nos deputados da Câmara


Conforme estabelecido na Constituição de 1824, quinze dias depois das eleições de
primeiro turno, como era chamada na época a primeira etapa das eleições, os eleitores de
uma província deveriam se reunir em algumas das cidades de sua província, formando, assim,
um colégio eleitoral. Cada província poderia ter várias cidades como colégios eleitorais, assim,
“[...] a província do Rio de Janeiro tinha quatro colégios eleitorais: São Sebastião, São João
Marcos, Santo Antônio de Sá e Macaé” (NICOLAU, 2002, p. 18).

A Câmara dos Deputados tinha um número determinado de vagas, então, os eleitores


deveriam fazer uma lista com tantos candidatos quantos fossem as cadeiras. As Câmaras
municipais das cidades com colégio eleitoral faziam a contagem dos votos, que eram somados
aos votos dos outros colégios eleitorais da província na Câmara municipal da capital. Os
candidatos mais votados eram eleitos.

Esse sistema eleitoral facilitava a ocorrência de um problema do ponto de vista


representativo: acontecia de haver legislaturas com candidatos de apenas um partido. Em
algumas legislaturas, não havia oposição, além de não estarem representados outros setores
da sociedade. Por isso, em 1855, o sistema eleitoral mudou as províncias foram dividias em
distritos eleitorais (NICOLAU, 2002), chamados de círculos e cada um desses distritos elegia
um deputado.

Quando o eleitor ia votar, ganhava da mesa um papel, no qual deveria escrever o nome
de seu candidato. Da apuração, deveria surgir o nome mais votado, com pelo menos 50%
dos votos mais um. Se isso não ocorresse, no dia seguinte haveria outra disputa, agora, entre
os quatro nomes mais votados e, se ainda não se chegasse a uma maioria absoluta, haveria,
no dia seguinte, a votação entre as duas pessoas mais votadas (NICOLAU, 2002). O que se
pretendia era fazer com que a votação contemplasse candidatos com maior representação
regional (NICOLAU, 2002). Esse sistema funcionou em uma legislatura e, de fato, contribuiu
para a eleição de lideranças locais.

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Também em 1855, proibiu-se que pessoas que ocupavam cargos públicos importantes,
como os de presidente da província, generais, chefes de polícia, juízes, entre outros, se
candidatassem a cargos nas Assembleias Provinciais, Congresso e Senado (NICOLAU, 2002).
Essa medida foi tomada com o objetivo de evitar que as pessoas que ocupavam os cargos
citados acima usassem o poder relacionado à sua função fosse usado como mecanismo de
manipulação eleitoral.

Como o sistema do “círculo” deu resultados positivos, com a eleição de lideranças locais,
houve um temor de que essas lideranças locais passassem a exercer forte pressão política no
processo de votação. Então, o sistema teve que ser alterado novamente: os distritos eleitorais
passaram a eleger três representantes para a Câmara dos Deputados e os três nomes mais
votados eram eleitos (NICOLAU, 2002).

Em 1975, o sistema muda outra vez: “[...] os círculos foram eliminados e a circunscrição
eleitoral voltou a ser a província” (NICOLAU, 2002, p. 21). A ideia era continuar aprimorando
o sistema eleitoral no sentido de garantir a representatividade das minorias, para isso a nova
regra determinava que o eleitor votasse no número de candidatos que correspondesse a 2/3
do número total de candidatos da Câmara, por exemplo: se a província tivesse que eleger
doze deputados, os eleitores deveriam listar oito nomes em seu voto.

Eram constantes os ajustes no sistema eleitoral. Até que, em 1881, a Lei Saraiva extinguiu
o sistema de voto indireto para deputados e senadores.

O sistema eleitoral era organizado pelo partido que apoiava o Imperador. Mesmo com
os ajustes no sistema eleitoral, feitos no decorrer do tempo, o partido que dominava o
parlamento e as Assembleias era sempre o conservador. Na verdade, o sistema político por
mais que fosse revisto e modificado, garantia que não houvesse oposição ao Imperador.

As eleições não garantiam oposição e não davam oportunidades para o avanço


democrático, tanto isso é verdade que foi preciso que as forças militares interviessem no
processo histórico brasileiro para que se pudesse acabar com a monarquia no Brasil.

Mas, afinal de contas, para que servia o sistema eleitoral em um período


em que havia um soberano com poder praticamente absoluto?

Considerações finais
Nesta aula, você viu que as eleições no Brasil eram bem diferentes na época do Império.
Durante esse período, o governo civil misturava-se com a ordem religiosa, por isso, as eleições
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Estado, governo e sociedade

aconteciam dentro das igrejas. As eleições eram feitas em duas etapas, votava-se nos eleitores
e os eleitores votavam para as Assembleias Provinciais, Câmara dos Deputados e Senado.

Vimos, nesta aula, que nem todas as pessoas podiam votar e que o voto só era concedido
a homens com uma determinada renda.

Espero que tenha ficado claro para você que houve muitas modificações no sistema
eleitoral brasileiro no período do Império e que esses ajustes visavam minimizar as fraudes e
garantir uma maior representatividade. Porém, esse esforço das nossas instituições políticas
não garantiu que houvesse oposição ao Imperador.

Referências
BRASIL. Constituição (1824). Constituição política do Império do Brasil (de 25 de março de
1824). Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao24.
htm>. Acesso em: 14 nov. 2014.

FRIDMAN, F. Freguesias do Rio de Janeiro ao final do século XVIII. Anais do segundo encontro
internacional de história colonial. Mneme – Revista de Humanidades. UFRN. Caicó (RN), v. 9.
n. 24, set/out. 2008. ISSN 1518-3394. Disponível em: www.cerescaico.ufrn.br/mneme/anais/
st_trab_pdf/pdf_8/fania_st8.pdf. Acesso em: 19 nov. 2014.

NICOLAU, J. M. História do voto no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 2002.

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Estado, governo e sociedade
Aula 14
Voto e democracia na Primeira República

Objetivos Específicos
• Conhecer o sistema eleitoral brasileiro durante o período da Primeira
República (1989-1930).

Temas
Introdução
1 O sistema eleitoral da Primeira República: novas práticas para perpetuar
velhas dominações
2 O sistema eleitoral da Primeira República: vícios e corrupção
Considerações finais
Referências

Professora
Ana Paula Rupp Hamms
Estado, governo e sociedade

Introdução
Nesta aula, veremos até que ponto as elites que comandaram a primeira fase do período
republicano brasileiro estavam preocupadas em estabelecer uma democracia por meio da
ampliação do direito ao voto e da preocupação com eleições nas quais a população pudesse
livremente manifestar o seu poder político.

O sistema eleitoral dos primeiros 40 anos da república trouxe várias mudanças, entre
elas podemos destacar:

• a proibição do voto dos analfabetos;

• a necessidade do voto para eleger os principais cargos existentes no Estado brasileiro;

• a liberdade dada aos Estados da Federação para legislarem sobre as eleições locais;

• o voto a descoberto.

A forma de alistamento eleitoral era propícia à ocorrência de fraudes, visto que eram
pessoas ligadas aos partidos políticos as responsáveis em fazer o alistamento dos eleitores.
E não apenas o alistamento, veremos que em todo o sistema eleitoral existiam mecanismos
que favoreciam a fraude e a corrupção, alguns deles até institucionalizados, como no caso da
Comissão Verificadora de Poderes, mecanismo institucional que tornava legítima a prática da
degola.

As eleições no Brasil da Primeira República, por um lado ou por outro, não podem ser
entendidas como a manifestação da vontade popular. A maioria da população era proibida de
votar, pois a legislação excluía os não alfabetizados e as mulheres. O voto não era obrigatório,
fato que determinava que grande parte da população não estava motivada a votar, e os que
votavam, na maioria das vezes, eram levados às urnas por pressões políticas ou interesses
particulares.

1 O sistema eleitoral da Primeira República: novas práticas


para perpetuar velhas dominações
A república chegou ao Brasil em 15 de novembro de 1889; foi um golpe militar que
derrubou o imperador D. Pedro II de seu trono. E não nos surpreende que a ruptura com o
regime monárquico fosse feita dessa forma, com a força dos militares, pois, no Brasil Império,
não houve espaço para que as forças populares manifestassem o seu desejo de transformação
das estruturas políticas e sociais.

Durante o Império, houve inúmeros ajustes no sistema eleitoral brasileiro, justificados


pela necessidade de aprimorar a justeza do pleito e aplacar as fraudes, muito comuns durante

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Estado, governo e sociedade

as eleições. Outro problema era garantir uma maior representatividade partidária, visto que
havia uma grande tendência que fossem eleitos apenas os candidatos do partido da situação,
ou seja, o monarquista.

O sistema eleitoral do Império foi marcado pelo voto censitário, o que garantia o voto
para uma parcela muito pequena da população. O processo eleitoral era feito em duas
etapas, pois existiam votantes e eleitores; os votantes elegiam os eleitores que votariam
em candidatos a cargos em disputa. Esse sistema de dois turnos fortalecia ainda mais os
mecanismos de exclusão da maioria da população no que diz respeito à participação política.

Nesta aula, veremos que houve importantes mudanças no sistema eleitoral brasileiro com
o advento da república. No entanto, discutiremos se estas transformações proporcionaram
ou não avanços significativos das forças democráticas.

1.1 A eleição para a Assembleia Constituinte


Uma das primeiras medidas tomadas pelo governo militar provisório que proclamou a
república foi alterar o sistema eleitoral. Proclamada a república em 15 de novembro de 1889,
apenas quatro dias depois é lançado um decreto que extingue a exigência de renda para o
alistamento eleitoral (NICOLAU, 2002). No entanto, o mesmo decreto passa a exigir que o
eleitor saiba ler e escrever, restrição que não havia durante o Império, conforme escrito na
lei: “Declara que se consideram eleitores para as câmaras gerais, provinciais e municipais
todos os cidadãos brasileiros, no gozo dos seus direitos civis e políticos, que souberam ler e
escrever” (Decreto n° 6, de 19 de novembro de 1889). Mas é importante ressaltar que, em
alguns momentos, o processo eleitoral do período anterior à República acabava excluindo
analfabeto, na medida em que exigia que o eleitor assinasse seu nome (NICOLAU, 2002).
Mas, no sistema anterior, objetivamente o analfabeto não era proibido de votar.

O texto que regulamenta as eleições para a Assembleia Constituinte reduz de 24 para


21 a idade mínima para o alistamento eleitoral, autorizando, assim, todos os homens, a partir
da idade citada, a votar, desde que fossem alfabetizados (NICOLAU, 2002). Para casados,
militares, bacharéis e religiosos, era permitido o voto, independente da idade que tivessem,
desde que soubessem ler e escrever.

1.2 As normas eleitorais conforme a Constituição de 1891


O texto constitucional só veio a confirmar o que os primeiros decretos a respeito das
regras da primeira eleição do período republicano estabeleceram. Os analfabetos estavam
proibidos de votar e assim permaneceram por quase 100 anos. Também confirmou a idade
mínima para o alistamento eleitoral, 21 anos. A nova Constituição estabeleceu que o voto não
era obrigatório.

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A lei considerava, ainda, outros que não poderiam participar de eleições (BRASIL, 1891):
mendigos, praças de pré (exceto os alunos de escolas militares de ensino superior), religiosos
de ordens monásticas (visto que faziam voto de obediência e não eram livres para fazer
escolhas). A lei considerava que aqueles que não podiam votar também não poderiam ser
votados, ou seja, eram inelegíveis.

1.2.1 Sobre os cargos a serem preenchidos por meio de eleições

Os cargos importantes no Estado passaram a ser preenchidos por intermédio da escolha


popular. Presidente e vice-presidente, senadores e deputados eram submetidos ao pleito. A
Constituição de 1891 concedeu bastante autonomia para os estados, ou seja, cabia a cada
unidade da Federação legislar sobre o processo eleitoral de governadores e deputados das
Assembleias Legislativas, como também era uma determinação estadual o procedimento de
escolha dos chefes do executivo nos municípios (NICOLAU, 2002). Por causa desse critério,
o procedimento para a escolha das chefias locais variou muito nesse período. Alguns eram
eleitos, outros nomeados, variava também a denominação deste cargo (NICOLAU, 2002), por
exemplo, prefeito, intendente ou superintendente.

A eleição para presidente e vice-presidente era direta e para cada um destes cargos
seriam feitas apurações distintas, ou seja, votava-se no presidente e no vice-presidente
de forma independente (BRASIL, 1891). Os vencedores seriam aqueles que alcançassem a
maioria dos votos; se não houvesse maioria, deveriam ser escolhidos os dois candidatos com
maior número de votos (NICOLAU, 2002), o que, de fato, nunca chegou a ocorrer. O mandato
de presidente e vice-presidente era de quatro anos e não havia a possibilidade de reeleição.

O cargo de senador era regido pelas seguintes regras: três cadeiras para senador para
cada estado, com mandato de nove anos e a cada três anos haveria eleição para 1/3 das
cadeiras. Na Câmara dos Deputados, os seus representantes eram eleitos para legislaturas
de três anos (NICOLAU, 2002), sendo que “[...] o Deputado ou Senador que aceitar o cargo
de Ministro de Estado perderá o mandato e proceder-se-á imediatamente a nova eleição, na
qual não poderá ser votado” (BRASIL, 1891).

1.3 Os sistemas eleitorais


Os sistemas eleitorais que vigoraram durante os 40 anos do primeiro período republicano
foram essencialmente três. O primeiro deles vigorou apenas para eleger os representantes da
Assembleia Constituinte, em 1890; em 1892, um novo sistema eleitoral foi elaborado, agora
alinhado com a nova Constituição (1891) e, ainda, outro sistema, que foi feito em 1904, foi a
que ficou mais tempo em vigor.

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1.3.1 O sistema de 1890

Como já foi dito, este sistema foi utilizado somente uma vez para eleger os deputados
constituintes. Nele, foi usado o mesmo modelo vigente durante o Império: cada eleitor
listava, em seu voto, o número de candidatos igual ou o número de cadeiras que o seu estado
tinha na Câmara de Deputados. Os votos eram contados no mesmo dia. Os resultados de
cada urna eram encaminhados para a Câmara Municipal da capital do estado, onde se faria a
apuração dos nomes mais vezes votados, que seriam, então, os representantes do estado na
Assembleia Constituinte de 1890.

1.3.2 O sistema de 1892

O novo sistema entra em vigor para que fique de acordo com a nova Constituição. Nesse
sistema, houve o fracionamento dos estados em distritos. Cada um desses distritos poderia
eleger três deputados, “[...] quando o número total de deputados do Estado não era múltiplo
de 3, agregava-se a fração ao distrito capital” (NICOLAU, 2002, p. 31). Em estados com até
cinco representantes, não se faria a divisão por distrito, ficando, dessa forma, o estado com
apenas um distrito. Os eleitores votavam em 2/3 do número total de representantes do
distrito. Ao final da votação, os votos eram contados e enviados para serem somados aos
resultados das outras urnas do distrito; eram eleitos os três candidatos mais votados.

1.3.3 O sistema de 1904

Foi mantida a separação do Estado em distritos. O que mudou foi que cada um dos
distritos passaria a eleger não três, mas sim cinco deputados por distrito. O eleitor deveria
votar em quatro nomes. As regras eram muito semelhantes às do sistema de 1892, só houve
a alteração do número de deputados por distrito. Agora, os estados com até sete deputados
constituíam um distrito apenas. Outra diferença era a possibilidade de o eleitor poder votar
repetidas vezes no mesmo candidato (até quatro vezes). Os votos eram contados no município
que sediava o distrito (NICOLAU, 2002, p. 31) e os cinco nomes mais votados eram eleitos.

1.4 As regras para o alistamento eleitoral


O Congresso Nacional formulou uma lei específica para tratar do processo eleitoral, a
qual foi promulgada em 1892 – Lei nº 35, de 26 de janeiro de 1892. Essa lei estabeleceu que
o alistamento deveria ser feito nos municípios por comissões eleitorais formadas por cinco
eleitores. A seleção dos membros das comissões ficava ao encargo do governo local e a lei
cita que os responsáveis pelas comissões deveriam ser votados pelos membros do partido do
chefe do Executivo local. Deveria haver uma comissão por seção eleitoral.

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Estado, governo e sociedade

Segundo Nicolau (2002), essa nova lei permitia que o partido político hegemônico
dirigisse o processo de alistamento, o que dava espaço para ações de má fé e manobras
para alistar simpatizantes e excluir adversários políticos. Assim era feito o alistamento para as
eleições no âmbito federal. O alistamento para cargos dos governos estaduais e municipais
era normatizado pelos estados e municípios.

A lei que regulava o alistamento para eleições na esfera federal mudou em 1904. As
novas regras estabeleciam que a comissão eleitoral deveria ser composta por um “[...] juiz de
direito, dois dos maiores contribuintes de imposto predial, dois dos maiores contribuintes de
imposto sobre a propriedade rural e três cidadãos eleitos pelo governo municipal” (NICOLAU,
2002, p. 29). Essa nova composição da mesa de alistamento eleitoral não extinguiu as fraudes.

Para o cadastramento do eleitor, era necessário que este provasse que sabia ler e escrever.
A prova seria feita mediante o preenchimento, por parte do cidadão, e diante dos membros
da comissão de alistamento, de uma série de informações sobre si (NICOLAU, 2002), tais
como nome, estado civil, profissão e endereço.

Em 1916, as regras de alistamento mudam, a qualificação para o alistamento para


participar das eleições federais passa a ser julgada por comissão formada por membros do
Poder Judiciário e não mais por uma junta politicamente tendenciosa. O alistamento era
feito mediante a apresentação de documentos com firma reconhecida (NICOLAU, 2002). E,
mesmo com o aprimoramento do controle no momento do alistamento eleitoral, as fraudes
continuavam comuns.

1.5 O processo de votação


Os procedimentos relativos ao voto mudaram muito pouco durante a Primeira República:
“[...] o eleitor apresentava o título de eleitor, assinava o livro de presença, e depositava a
cédula de papel fechada na urna” (NICOLAU, 2002, p. 30). O eleitor deveria depositar uma
cédula para cada cargo que estivesse sendo pleiteado, sendo que deveria indicar, do lado de
fora da cédula, o cargo para o qual votava.

O eleitor poderia chegar para votar com a cédula pronta. Era usual que os jornais
publicassem as cédulas com nomes de candidatos, então, bastava o eleitor recortá-las e levá-
las consigo no momento da votação. Outro expediente era o da distribuição de cédulas pelos
cabos eleitorais, o que era feito no dia das eleições.

O voto era, em princípio, secreto, porém, uma lei eleitoral de 1904 estabelecia que o
voto deveria ser “a descoberto”. O eleitor era obrigado a apresentar duas cédulas (para cada
cargo em disputa) e assiná-las diante da mesa. Essas cédulas deveriam ser rubricadas pelos
mesários e também datadas; uma das cédulas era depositada na urna e a outra ficava de
posse do eleitor (NICOLAU, 2002). Esse subterfúgio eleitoral permitia que os líderes locais
pudessem conferir o voto do eleitor.

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Estado, governo e sociedade

2 O sistema eleitoral da Primeira República: vícios e


corrupção
Agora que você já sabe como eram feitas as eleições do ponto de vista legal, veremos
como o sistema de eleições da Primeira República permitia todo tipo de fraude e manipulação
eleitoral. Na maioria das vezes, as eleições não eram competitivas (NICOLAU, 2002) e o sistema
eleitoral era um verdadeiro teatro, dirigido por lideranças estaduais que representavam as
oligarquias locais.

Para Nicolau (2002), corrupção do sistema eleitoral acontecia em todas as fases do


processo, do alistamento do eleitor, passando pela contagem dos votos e a diplomação dos
eleitos. Os procedimentos mais comuns de fraude eram bem conhecidos: o “bico de pena” e
a “degola”.

• “Bico de pena”: quando a mesa eleitoral modificava as atas das eleições e praticamente
escolhia os candidatos eleitos na urna apurada.

• “Degola”: quando candidatos indesejáveis eram eleitos, havia um mecanismo de não


fazê-los assumir o mandato, pois a Comissão Verificadora de Poderes era acionada
para investigar a lisura do pleito que elegeu o candidato. Claro que o resultado das
investigações era sempre o de apontar algum erro no processo eleitoral e o eleito era
impedido de tomar posse; essa prática era conhecida no meio político como degola.

Você pode perceber que era muito difícil, ou quase impossível, acontecer uma surpresa
no processo eleitoral. O resultado das eleições era controlado pelas oligarquias, o que
possibilitou a vigência, durante quase todo o período da Primeira República, da política do
café com leite, que era o revezamento na Presidência da República de políticos republicanos
dos estados de São Paulo e de Minas Gerais, mesmo sendo um cargo submetido ao voto
popular.

E qual era a motivação de alguém para sair de casa e votar? O voto não era obrigatório.
Muitos dos que votavam, votavam por interesse, por troca de favores ou por pressão de chefes
políticos locais. Crônicas da época denunciavam que não era incomum o sujeito não saber em
quem estava votando, pois já recebia a cédula eleitoral pronta e votava sem questionar, ou se
questionasse, também isso não mudaria o rumo das coisas.

E em que medida o sistema eleitoral da Primeira República permitia que a população


fosse representada, de fato, por meio do voto? Com vimos, os resultados das eleições não
representavam de forma alguma a vontade do povo, nem da maioria. Mesmo porque, a
população que votava naquela época era muito pequena. Não se tem muitas estatísticas
confiáveis, mas estima-se que entre 2,5% a 5% da população efetivamente votava (NICOLAU,
2002). Esse número era tão baixo devido a proibição dos analfabetos (que representavam
mais da metade da população brasileira) e das mulheres de votarem.

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Estado, governo e sociedade

A Primeira República, em seus 40 anos de vigência, não resultou, de forma alguma, em


um avanço da democracia, da cidadania e da consciência política do povo brasileiro. A política
era para poucos, para a elite, o Estado também não funcionava como um ente público para
promover o bem comum e era visto e gerido para favorecer uns poucos, para favorecer
aqueles que já eram beneficiados também do ponto de vista econômico e social.

A exclusão das mulheres do processo eleitoral foi uma realidade mundial


e não apenas brasileira. O movimento sufragista pelo voto feminino começou
na Europa e nos Estados Unidos como um movimento social consistente e
articulado. Nos Estados Unidos, a Convenção dos Direitos da Mulher, em 1848,
foi um ato que discutiu a necessidade de igualdade de direitos entre homens e
mulheres. E, na Inglaterra, onde o movimento pelo voto feminino tomou um
rumo mais incisivo, as mulheres dividiram-se em duas correntes de manifestação,
uma mais pacifista e a outra mais radical, chegando a provocar danos à
propriedade. Essas feministas foram chamadas de suffragettes.

No Brasil, as mulheres demoraram mais para se organizar, tanto é que foram os deputados
César Zama e Almeida Nogueira os primeiros a defender, em sessões públicas na Câmara, o voto
feminino. A atividade feminista a favor do voto aconteceu primeiramente de forma isolada,
pela vontade de algumas mulheres, que entravam na justiça para que esta lhes concedesse
o direito ao alistamento e ao voto. A baiana Deolinda Daltro é considerada a pioneira na luta
pelo direito ao voto no Brasil, depois de fazer campanha para Hermes da Fonseca e, quando
este foi eleito presidente da república, começou a lutar pelo voto da mulher. Na década de
1920, a carioca Berta Lutz criou a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino e lutou pelo
direito ao voto das mulheres. O voto feminino no Brasil foi instituído em 24 de fevereiro de
1932, no entanto, só poderiam votar as casadas, se recebessem a autorização do marido, e
as solteiras e viúvas, mediante a uma comprovação de renda própria – estas restrições caíram
dois anos depois, quando foi redigido o código eleitoral de 1934. Porém, nesse novo código, o
voto feminino permanecia como facultativo, ou seja, as mulheres não eram obrigadas a votar.
Foi somente em 1942 que o voto feminino se equiparou ao masculino, perdendo todas as
restrições e passando a ser obrigatório.

Considerações finais
Nesta aula, você viu que a Primeira República trouxe muitas modificações para o processo
eleitoral brasileiro. Porém, grande parte destas mudanças não trouxe benefícios para a
maioria do povo, tampouco desenvolveram as forças democráticas e a participação popular.

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Estado, governo e sociedade

O modelo republicano conservou as antigas forças políticas historicamente no poder,


as oligarquias locais. Um novo sistema eleitoral foi implantado e serviu para garantir que o
poder continuasse nas mesmas mãos.

As práticas de fraude e de corrupção nas eleições eram comumente praticadas e as mais


conhecidas eram o bico de pena e a degola. Por meio desses mecanismos, as elites políticas
garantiam que não haveria oposição e, dessa forma, poderiam continuar a gerir o Estado
brasileiro em benefício próprio.

Vimos que, nessas condições, não houve avanços do ponto de vista da democracia
durante o primeiro período republicano no Brasil.

Referências
BRASIL. Decreto nº 6, de 19 de novembro de 1889. Declara que se consideram eleitores
para as câmaras gerais, provinciais e municipais todos os cidadãos brasileiros, no gozo
dos seus direitos civis e políticos, que souberam ler e escrever. Disponível em: <http://
www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1824-1899/decreto-6-19-novembro-1889-508671-
publicacaooriginal-1-pe.html>. Acesso em: 19 dez. 2014.

BRASIL. Constituição (1891). Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, de 24


de fevereiro de 1891. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/
constituicao91.htm>. Acesso em: 20 out. 2014.

BRASIL. Lei nº 35, de 26 de janeiro de 1892. Estabelece o processo para as eleições federais.
Disponível em: <http://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/1824-1899/lei-35-26-janeiro-1892-
541218-publicacaooriginal-44167-pl.html>. Acesso em: 19 dez. 2014.

NICOLAU, J. M. História do voto no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 2002.

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Estado, governo e sociedade
Aula 15
O sistema eleitoral brasileiro na “Era Vargas” e a
democratização que antecede o Golpe Militar de 1964.

Objetivos Específicos
• Entender a história do voto no Brasil durante o período de 1930 até 1964.

Temas

Introdução
1 O Golpe de 30 e o novo código eleitoral
2 Da ditadura do Estado Novo à democratização
Considerações finais
Referências

Professora
Ana Paula Rupp Hamms
Estado, governo e sociedade

Introdução
Nesta aula, veremos que o governo de Getúlio Vargas, após o Golpe de 1930, teve
um breve período de democracia, que antecedeu um regime ditatorial: de 1937 até 1945,
correspondendo ao período conhecido como Estado Novo. Para as duas eleições que
ocorreram após o Golpe de 30, em 1933 e 1934, houve importantes transformações no
sistema eleitoral, tais como: o voto feminino, o aprimoramento do voto sigiloso e a criação
de uma justiça eleitoral. Com o voto da mulher e as mudanças nos critérios de alistamento
eleitoral, o número de eleitores aumenta significativamente.

Após a ditadura de Vargas, em 1945, o Brasil é palco de um importante período de


democratização. Esta democratização é garantida, principalmente, com as eleições. Mais
uma vez, mudanças no sistema eleitoral garantiram o aprimoramento do controle de fraudes
e uma maior representatividade partidária.

Nesse contraste entre uma ditadura e um Estado democrático você verá como o sistema
eleitoral e a preocupação em estabelecer eleições verdadeiramente competitivas são
essenciais para um Estado que se diz democrático.

1 O Golpe de 30 e o novo código eleitoral


O Golpe de 1930 acaba com a hegemonia paulista e mineira, mantida pela política do
“café com leite”, que garantia a alternância de poder na presidência da república no Brasil
entre paulistas e mineiros. A política brasileira, durante a Primeira República, evidenciava
que as eleições no Brasil não eram competitivas, visto que as urnas sempre mostravam o
resultado que era esperado pelas principais oligarquias que comandavam o país.

A crise política que antecedeu o Golpe de 30 e que representou o fim da Primeira


República foi motivada pelo rompimento do “pacto” entre as oligarquias paulista e mineira,
quando o paulista Júlio Prestes foi escolhido para suceder o também paulista Washington
Luís. Diante desse quadro, os mineiros buscaram aliados para derrubar o Partido Republicano
Paulista e os encontram em oligarquias que faziam oposição à política “café com leite”, por
estarem excluídos do poder na esfera federal. Os mineiros encontraram seus aliados entre
as oligarquias gaúchas e em alguns estados nordestinos, principalmente na Paraíba. A união
dessas forças políticas originou a Aliança Liberal (AL).

A AL lançou candidato próprio, Getúlio Vargas, para concorrer com Júlio Prestes à
presidência da República. Júlio Prestes vence as eleições. Alguns acontecimentos políticos
fortaleceram o furor oposicionista da AL, foram eles: indício de fraude na eleição de Júlio
Prestes, o impedimento de deputados eleitos da AL de tomar posse e o assassinato de João
Pessoa, candidato a vice-presidente na chapa de Getúlio Vargas (SANTIAGO, 2014). Em
resposta a esse contexto político, é deflagrado o Golpe de 1930, em 3 de outubro. A AL e

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os aliados das Forças Armadas destituem, então, o presidente Washington Luís, em 24 de


outubro, e colocam no seu lugar Getúlio Vargas, sendo este o primeiro dia de seus quinze
anos ininterruptos na presidência da República.

1.1 O Código Eleitoral de 1932


Uma nova conjuntura política é instaurada a partir de 1930. Getúlio Vargas lidera o
Governo Provisório (1930-1934) e nesse período são elaboradas importantes mudanças no
sistema eleitoral. O presidente designou uma comissão encarregada de discutir e elaborar um
novo sistema eleitoral para o Brasil, sendo que desse trabalho nasce o Código Eleitoral de 1932
(Decreto n° 21.076, de 24 de fevereiro de 1932). Tal código traz importantes mudanças quanto
ao alistamento eleitoral e às eleições (NICOLAU, 2002), merecendo destaque a ampliação do
direito ao voto para as mulheres. No entanto, apesar desse avanço, os analfabetos foram
mantidos fora das eleições.

As transformações no sistema de votação tinham como objetivo a moralização do pleito.


Segundo Nicolau (2002), as duas eleições que ocorreram dos anos 30 (1933 e 1934)
apresentaram um número bem menor de fraudes, fato que garantiu uma maior legitimidade
para o sistema eleitoral.

O Código Eleitoral brasileiro de 1932 foi um dos precursores do voto das


mulheres na América Latina, ficando atrás apenas do Equador, que instituiu o
voto feminino em 1929. Para termos uma ideia, o governo brasileiro, em 1932,
antecipou-se a muitos países quanto ao voto feminino (NICOLAU, 2002) se
comparado a nações como a França (1944), Itália (1946), Argentina (1947),
Bélgica (1948), México (1953), Suíça (1971) e Portugal (1974).

1.1.1 Do alistamento

O Código de 1932 ampliou o sistema de alistamento. Apesar de mantido o alistamento


por livre iniciativa do cidadão, tal como era feito no período da Primeira República, a novidade
foi o alistamento automático daqueles que exerciam determinadas funções, a qualificação
ex-offício, ou seja, por dever do cargo. Os encarregados de estabelecimentos públicos ou
privados deveriam alistar seus subordinados como eleitores, mandando com a lista de seus
nomes, o “[...] cargo e profissão que exerça, e o que conste quanto à nacionalidade, idade
e residência [...]” (BRASIL, 1932) para o juiz eleitoral. A lei esclarece sobre aqueles que são
qualificados ex-offício, conforme o art. 37:

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a) os magistrados, os militares de terra e mar, os funcionários públicos efetivos;

b) os professores de estabelecimentos de ensino oficiais ou fiscalizados pelo Governo;

c) as pessoas que exerçam, com diploma científico, profissão liberal;

d) os comerciantes com firma registada e os sócios de firma comercial registada;

e) os reservistas de 1ª categoria do Exército e da Armada, licenciados nos anos


anteriores. (BRASIL, 1932).

Depois de recebida a lista pelo juiz eleitoral, este deveria validá-la. Para tanto, o juiz
dava um visto à lista de eleitores e declararia qualificados os nomes listados. A lista dos
qualificados deveria ser encaminhada para o Tribunal Regional Eleitoral e este se encarregaria
de distribuir, pelo correio ou pessoalmente, os formulários de inscrição para os qualificados.
No ato da inscrição, o requerente deveria levar três fotografias, pois o título eleitoral passou a
ser confeccionado contendo a foto do eleitor e outras informações como a impressão digital
do polegar direito (BRASIL, 1932). Vê-se que a lei aprimora os critérios de identificação do
eleitor.

1.1.2 Das sanções

Pela primeira vez no Brasil a lei eleitoral estabeleceu sanções para aqueles que não se
alistassem como eleitores. A pena estava relacionada ao ingresso no serviço público, que
só seria permitido, no caso de alguém “qualificável”, segundo os critérios da lei, mediante a
apresentação do título de eleitor. Essa regra, contudo, não atingia as mulheres e os maiores
de 60 anos (NICOLAU, 2002). Mas, mesmo com a sanção, é fato que as eleições para o
Congresso Nacional, que ocorreram em 1933, contaram com cerca de 4% da população
brasileira, apenas.

1.1.3 Do sigilo do voto

O código eleitoral de 1932 apresentou a preocupação com o sigilo do voto. Duas regras
entraram em vigência no sentido de garantir o voto secreto: o uso de envelope oficial e o “[...]
isolamento do eleitor em gabinete indevassável” (BRASIL, 1932). Quanto ao envelope, este
deveria ser padronizado, para evitar que sobrecartas com padrões diferentes possibilitassem
uma identificação do voto (o que acontecia, de fato, durante a Primeira República). Assim, o
papel não poderia ser transparente e os envelopes deveriam ser assinados pelo presidente
da mesa eleitoral. O local onde se votava deveria estar fechado por cortina ou porta no
momento em que o eleitor votava.

Além dos dois procedimentos mencionados, as leis eleitorais também aludiam à


necessidade de a urna estar regularizada pelo Tribunal Eleitoral. Havia, ainda, regras a
cumprir caso houvesse indícios de violação das urnas: estas teriam que ser periciadas a fim
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Estado, governo e sociedade

de comprovar a violação antes que se iniciasse a contagem dos votos. Todo o controle do
processo ficava ao encargo do Tribunal Eleitoral.

1.1.4 Dos Tribunais Eleitorais

O código eleitoral de 1932 institui a justiça eleitoral; o Tribunal Superior, na Capital da


República e os Tribunais Regionais, na Capital de cada Estado e no Distrito Federal. É criada
também a magistratura eleitoral, com juízes eleitorais nas comarcas e distritos. Nesse sentido,
a lei instrui sobre o funcionamento dos Tribunais Eleitorais.

A criação dos Tribunais eleitorais demonstra a preocupação com a lisura no processo


de alistamento e nas eleições, envolvendo a votação, o escrutínio e a divulgação dos eleitos.
As seções eleitorais foram progressivamente criadas visando que houvesse, em cada uma
delas, no máximo 400 eleitores (NICOLAU, 2002). Depois do pleito, as urnas eram lacradas e
enviadas para o Tribunal Regional Eleitoral para que fossem apurados os votos.

1.1.5 Do sistema eleitoral

As eleições para a Assembleia Constituinte, em 1933, e para a Câmara dos Deputados,


em 1934, foram realizadas sob o novo sistema instituído no Decreto de 1932. Nesse sentido,
ampliou-se um sistema misto, que utilizava aspectos do sistema majoritário e do sistema
proporcional (NICOLAU, 2002).

Os nomes dos candidatos eram impressos ou datilografados em uma cédula. O eleitor


poderia votar em vários candidatos, independentemente de partido, e este número poderia
ser até um a mais do que o número de representantes que cada Estado tinha no Congresso;
assim, se um Estado tivesse três cadeiras, o eleitor poderia listar em sua cédula eleitoral até
quatro nomes.

Os candidatos deveriam ser inscritos por seus partidos ou coligações até cinco dias
antes das eleições. Os eleitores também podiam apresentar lista de candidatos, desde que
respaldada por, no mínimo, cem eleitores. O resultado das novas leis foi o aumento significativo
no número de candidatos, que, no entanto, tinham sua representatividade restrita ao local
onde viviam (NICOLAU, 2002).

Na apuração dos votos, era privilegiado o primeiro nome que aparecia na cédula eleitoral,
pois a soma dos votos desse candidato resultaria na contagem da votação por partido, que
resultaria em um quociente eleitoral, conforme descrito:

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Estado, governo e sociedade

Calculava-se o quociente eleitoral (número de eleitores que compareceram dividido


pelo número de cadeiras a serem ocupadas). Cada partido elegia tantas cadeiras
quantas vezes atingisse o quociente eleitoral e os candidatos mais votados de cada
partido eram eleitos. Como eram computados os votos para os nomes que não
encabeçavam a lista de cada cédula? Eles eram somados e os nomes mais votados
(portanto, um sistema majoritário) ficava com as cadeiras não ocupadas depois da
distribuição pelo quociente. (NICOLAU, 2002, p. 40).

A escolha dos deputados a partir do quociente eleitoral era chamada de primeiro turno e
a que escolhia por meio do sistema majoritário era denominada de segundo turno (NICOLAU,
2002). A consequência da complexidade do novo sistema eleitoral foi, principalmente, a
demora na apuração dos votos. Em alguns Estados o resultado chegava a levar mais de um
mês.

Entenda a diferença entre sistema majoritário e sistema proporcional.

• Sistema majoritário: quem recebe mais votos vence a eleição. Hoje, no Brasil, esse
sistema é usado para eleger o Presidente da República, governadores, senadores e
prefeitos.

• Sistema proporcional: esse sistema tem o objetivo de proporcionar que partidos


disputem com mais igualdade cadeiras no Poder Legislativo (deputados e vereadores).
Primeiro é definido o número de cadeiras que cada partido ocupará e só depois se
distribui as cadeiras entre os candidatos. Esse cálculo depende do quociente eleitoral
e, para chegar a este número, divide-se o número de votos válidos pelo número de
vagas em cada Casa legislativa, determinando-se, assim, o número de votos válidos
que é preciso para eleger um candidato por uma legenda de partido.

2 Da ditadura do Estado Novo à democratização


Entre 1934 a 1937 o Brasil viveu um breve período de democracia, foi o governo
constitucional de Getúlio Vargas, época em que estava em vigência a Constituição de 1934.
Quanto à questão eleitoral, a Carta de 1934 trouxe como novidade a redução da idade para
votar, de 21 para 18 anos. O voto era obrigatório para todos os homens e apenas para as
mulheres que exerciam função remunerada (BRASIL, 1934).

Nesse período, surgiram duas forças políticas com forte ideologia, representando os
ideais vigentes no mundo ocidental, o fascismo e o comunismo. Essas forças eram a Ação
Integralista Brasileira (AIB), que tinha orientação fascista, e a Aliança Nacional Libertadora
(ANL), que defendia a bandeira do comunismo. Ideologicamente, Getúlio Vargas acenava
para o fascismo.

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Quadro 1 – Diferenças entre o fascismo e o comunismo

Orientação político-ideológica Projeto político Economia

Manutenção da
dominação das
Fascismo Extrema-direita e nacionalista Capitalista
massas por uma
elite

Formação de uma
Extrema-esquerda e
Comunismo sociedade sem Comunista
internacionalista
classes

Fonte: CHAVES (2014).

2.1 Estado Novo


Em 1935 houve uma tentativa de golpe de esquerda, a chamada Intentona Comunista.
Esse movimento foi logo controlado pelo governo. No entanto, sob o pretexto de que haveria
ainda uma ameaça de revolução comunista no Brasil, o presidente decreta o Estado Novo
em 1937 (AGUIAR, 2014). A partir desse ano, até 1945, o país vive sob uma ditadura. O
Estado Novo foi um governo ditatorial, comandado por Getúlio Vargas. Nesse período todos
os partidos políticos foram proscritos, não houve eleições e o Congresso Nacional foi fechado.

A Constituição de 1937, que foi outorgada por Getúlio Vargas, previa que a aprovação
do Estado Novo fosse feita por meio de um plebiscito, para que o povo legitimasse o novo
regime, mas o referendo de fato nunca aconteceu (SILVA, 2008). A Constituição que sustentou
o Estado Novo foi obra do então Ministro da Justiça de Getúlio, Francisco Campos, político
conhecido por suas ideias antiliberais e autoritárias. As concepções desse ministro repassam
o Estado durante a vigência do Estado Novo.

O declínio do Estado Novo acontece no início da década de 40, na medida em o Brasil


entra na Segunda Guerra Mundial para lutar contra os regimes fascistas e autoritários da Itália
e da Alemanha, autoritários como o próprio governo brasileiro. Essa política contraditória
acaba enfraquecendo o governo autoritário, que é finalmente rendido por um golpe militar
em 1945.

2.2 A democratização
Um dos primeiros passos do processo de democratização foi a convocação de eleições
para presidente e para compor uma nova Assembleia Nacional Constituinte. Em 1945, ainda
antes de ser deposto, Getúlio Vargas baixa um decreto para regulamentar futuras eleições,
decreto este que ficou conhecido como Lei Agamenon, nome do autor do decreto, o ministro
da Justiça de Vargas.

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A nova lei manteve vários aspectos do Decreto de 1932, principalmente no que se refere
ao alistamento. No entanto, nota-se que naquele ano o número de eleitores que se alistaram
cresceu 329% com relação ao número de alistamentos feitos em 1933 (NICOLAU, 2002). O
crescimento notável do número de cidadãos que procuraram fazer o título eleitoral pode
ser explicado, segundo Nicolau (2002), pela obrigatoriedade do alistamento para homens e
mulheres, assim como a previsão de multas para quem não se alistasse ou não fosse votar e,
ainda, o crescimento do tipo de alistamento ex-offício.

O novo código eleitoral previa eleições pelo sistema proporcional, apenas, para a Câmara
dos Deputados. Os partidos lançavam uma lista de candidatos e os eleitores deveriam escolher
um único nome e o partido ou coligação poderia eleger “[...] tantas cadeiras quantas vezes ele
atingisse o coeficiente eleitoral” (NICOLAU, 2002, p. 44). A lei permitia que a mesma pessoa
se candidatasse em diferentes estados e para diferentes postos políticos.

O ano de 1945 marcou a história do país: pela primeira vez na sua história houve uma
eleição, de fato, democrática. O controle da Justiça Eleitoral foi importante nesse processo
para garantir a lisura do pleito, do alistamento e da divulgação e diplomação dos candidatos
eleitos. O aumento da participação popular nas eleições, se comparado a outras eleições,
demostra o avanço da democracia nesse período.

2.2.1 A Constituição de 1946

Esta Constituição confirmou o voto obrigatório para homens e mulheres, se alfabetizados


e maiores de 18 anos. O presidente e o vice-presidente, por sua vez, recebiam voto
separadamente (NICOLAU, 2002), ou seja, era possível votar no presidente de um partido ou
coligação e em um vice-presidente de outra chapa eleitoral. Seus mandatos eram de cinco
anos e não havia reeleição para mandato consecutivo. Senadores eram eleitos em sistema
majoritário três para cada estado e com mandato de oito anos, com renovação a cada quatro
anos de um terço da Casa e depois de dois terços. A Câmara de deputados deveria ser
renovada a cada quatro anos.

A eleição para governador era regulamentada por leis estaduais. Os mandatos variavam
de quatro a cinco anos. As mesmas leis estaduais determinavam o sistema de votação nos
municípios. Em cidades com posição estratégica, geralmente localizadas na fronteira do país,
os prefeitos costumavam ser indicados pelo governador (NICOLAU, 2002).

2.2.2 O novo código eleitoral de 1950

As regras eleitorais estabelecidas em 1950 acabaram com a modalidade de alistamento


ex-offício. O alistamento passou a ser um dever exclusivo do cidadão alfabetizado e maior de
dezoito anos (NICOLAU, 2002). Nesse código, ainda, o alistamento foi caracterizado como
obrigatório, sendo modificada também a forma de distribuição de cadeiras por partido no
Congresso Nacional.

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Estado, governo e sociedade

O sistema eleitoral adotado em 1950 continua em vigor até hoje – a única alteração foi
feita em 1998, quando os votos em branco deixaram de ser contabilizados no cálculo
do quociente eleitoral. De todos os sistemas utilizados na história eleitoral brasileira,
este foi o mais duradouro (mais de 50 anos), sendo empregado em 13 eleições para a
Câmara dos Deputados [...]. (NICOLAU, 2002, p. 48).

Para chegar ao quociente eleitoral é necessário somar o total dos votos válidos e dividir
este total entre o número de cadeiras na Câmera de Deputados que cada Estado tem. A partir
do quociente eleitoral, verifica-se a votação por partido, e os partidos que, através da votação
em seus candidatos, atingiram o quociente eleitoral participam da disputa de cadeiras na
Câmara, os demais não. Depois “[...] o total de votos por partido é dividido pelo quociente
eleitoral, cada partido recebe tantas cadeiras quantas vezes atingir o quociente eleitoral”
(NICOLAU, 2002). Depois da divisão pelas cotas, as cadeiras que sobram são distribuídas entre
os partidos com as maiores médias. Feita a distribuição das cadeiras, o critério de escolha
dos candidatos que deverão ocupá-las é o do número de votos, ou seja, os candidatos mais
votados dos partidos que conseguiram as cadeiras na Câmara tomam posse.

Você pode ter mais clareza desse processo por este exemplo: imagine que em uma
eleição para a Câmara de Deputados, determinado estado somou um milhão de votos e que
o número de cadeiras para deputados federais desse estado seja 10. Se você dividir um milhão
por 10, terá como resultado o quociente 100 mil e este é, então, o quociente eleitoral do
Estado para estabelecer quem deverá ocupar os assentos no Congresso Nacional. Estabelecido
esse quociente, a cada 100 mil votos, o partido ou coligação tem garantida uma cadeira na
Câmara, que serão preenchidas pelos candidatos mais votados de cada partido ou coligação.

No modelo eleitoral brasileiro, é o eleitor que define a ordem dos


candidatos que deverão ocupar as cadeiras nas casas legislativas, à medida em
que são conquistadas pelos mais votados. Essa modalidade é conhecida como
lista aberta. Existem países que praticam a lista fechada e, nesse modelo, é o
partido que define a ordem dos candidatos que devem ocupar as cadeiras.
Desse modo, o eleitor vota no partido e a distribuição das cadeiras entre os
candidatos segue a ordem estabelecida pelo partido.

2.3 Medidas importantes para evitar as fraudes


O sistema eleitoral vai se aperfeiçoando, não só do ponto de vista do aperfeiçoamento
do sistema eleitoral quanto a representatividade dos partidos políticos nas Casas legislativas,
mas também buscando evitar as fraudes. Em um sistema representativo, havendo muitas
fraudes, é questionável a verdadeira competitividade das eleições.

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Estado, governo e sociedade

Várias medidas foram sendo tomadas nesse período de democratização para garantir
a lisura do pleito. Quando cada seção eleitoral tinha a listagem dos eleitores aptos a votar,
havia a possibilidade de o eleitor votar em qualquer seção eleitoral de sua cidade, o que
facilitava a fraude, visto que o eleitor poderia votar em mais de uma seção. A partir de 1955,
foi criada a folha individual de votação, que ficava na seção eleitoral onde o eleitor deveria
votar. Tal procedimento evitou que uma pessoa conseguisse votar mais de uma vez e, além
disso, permitia a identificação mais segura do eleitor (NICOLAU, 2002), já que a ficha eleitoral
continha, além de outros dados, a foto do eleitor. O título eleitoral passou a ser rubricado
pela mesa depois que o eleitor votava, impedindo, dessa forma, que conseguisse votar mais
de uma vez.

Em 1955 houve o recadastramento dos eleitores. Assim, foram excluídos da lista os


eleitores falecidos e os que estavam registrados mais de uma vez nos Tribunais Eleitorais.
Segundo Nicolau (2002), essa medida reduziu em 8,7% o número de eleitores, mesmo
período em que a população brasileira cresceu 11%.

As novas regras criadas em 1955 proibiram os partidos de deixar cédulas de votação


prontas dentro das cabines eleitorais. Esta era uma prática comum desde o início da década
de 30, na qual os partidos deixavam prontas as cédulas nas cabines e bastava apenas ao
eleitor escolher uma delas e colocá-la dentro do envelope de votação. Isso facilitava a eleição
dos candidatos dos partidos mais ricos e estruturados, pois conseguiam distribuir mais
cédulas em várias seções eleitorais (NICOLAU, 2002). Em 1955, as cédulas passaram a ser
confeccionadas pela justiça eleitoral, e os eleitores deveriam preencher essa cédula oficial
com o nome de seu candidato.

A mudança do sistema eleitoral teve resultados significativos para a democracia brasileira


no período da democratização, em 1945, até o Golpe Militar, em 1964. Os analistas políticos
da época apontam que, embora não se tenha conseguido eliminar por inteiro a ocorrência de
fraudes, elas foram muito reduzidas e não chegaram a influenciar no resultado das eleições.

A existência de eleições nem sempre é garantia de que o cidadão esteja


representado pelos candidatos nos quais votou, mas a ausência delas denuncia
um regime de governo autoritário. As leis que normatizam o sistema eleitoral
devem estar preocupadas em garantir a representatividade por meio de voto.

Considerações finais
Nesta aula, você viu que o Golpe de 1930, encabeçado por Getúlio Vargas, provocou
mudanças significativas no Estado brasileiro, sendo que a primeira delas foi acabar com o
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Estado, governo e sociedade

sistema eleitoral que permitia a manutenção da política vigente durante a Primeira República,
em que os partidos republicanos paulista e mineiro se revezavam no poder. Nesse sentido,
apesar de haver eleições, isto demonstra que naquela época o processo eleitoral era
totalmente fraudado e as eleições não eram competitivas.

Em duas oportunidades, durante o governo de Getúlio Vargas (de 1930 a 1945),


houve eleições no Brasil. O processo eleitoral foi modificado no sentido de haver maior
representatividade partidária e uma maior participação da população no processo eleitoral.

O governo democrático de Vargas teve seu fim em 1937, quando foi decretado o Estado
Novo. O Estado Novo, por sua vez, é caracterizado por ter sido um governo ditatorial e
autoritário, tendo suspendido, nessa época, as eleições e fazendo com que o governo não
tivesse qualquer respaldo popular. Mas o governo autoritário de Vargas não era uma exceção
naquela época: quando entraram em declínio as ditaduras em outros países, principalmente
na Itália e na Alemanha, isso enfraqueceu o governo, que acabou dando espaço para um
processo de democratização.

A democratização do Brasil a partir de 1945 foi sustentada pelo aprimoramento das


eleições. Houve um aumento significativo do número de eleitores. O novo sistema implantado
também foi importante para inibir as fraudes. Entre 1945 e 1964, os brasileiros experimentam
pela primeira vez na história uma verdadeira democracia.

Referências
AGUIAR, L. Era Vargas. Brasil Escola. Disponível em: <http://www.brasilescola.com/historiab/
era-vargas.htm>. Acesso em: 31 out. 2014.
BRASIL. Decreto n° 21.076, de 24 de fevereiro de 1932. Decreta o Código Eleitoral. Diário Oficial
[da] República Federativa do Brasil, Rio de Janeiro, RJ, 24 de fevereiro de 1932. Disponível em:
<http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1930-1939/decreto-21076-24-fevereiro-1932-
507583-publicacaooriginal-1-pe.html>. Acesso em: 14 jan. 2015.
BRASIL. Constituição (1934). Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil. Disponível
em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao34.htm>. Acesso em: 14
jan. 2015.
CHAVES, L. C. Entendendo algumas definições ideológicas: comunismo, fascismo, nazismo.
2014. Culturabrasil. Disponível em: <http://www.culturabrasil.org/alguns_ismos.htm>. Acesso
em: 5 jan. 2015.
NICOLAU, J. M. História do voto no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 2002.
SANTIAGO, E. Revolução de 30. Infoescola. Disponível em: <http://www.infoescola.com/
historia-do-brasil/revolucao-de-1930/>. Acesso em: 29 out. 2014.
SILVA, P. S. A “polaca”. Revista de História.com.br. 2008. Disponível em: <http://www.
revistadehistoria.com.br/secao/artigos-revista/a-polaca>. Acesso em: 03 dez. 2014.

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Estado, governo e sociedade
Aula 16
O voto no Brasil no Regime Militar até a abertura política.

Objetivos Específicos
• Conhecer o sistema eleitoral brasileiro durante a Ditadura Militar e as
mudanças que foram estabelecidas a partir do fim desse regime.

Temas
Introdução
1 A implantação de um regime autoritário passa pelo controle das eleições
2 O processo de abertura política (1974-1985)
3 A abertura política
Considerações finais
Referências

Professora
Ana Paula Rupp Hamms
Estado, governo e sociedade

Introdução
Nesta aula, conheceremos a forma como o governo militar instaurado no Brasil em 1964
procedeu de forma autoritária e centralizadora. Esse governo, que marca o fim de um regime
democrático, estabeleceu novas regras em todos os campos, procurando, de toda forma,
mitigar os movimentos de oposição, apesar da manutenção do sistema partidário.

Os sucessivos decretos, atos institucionais, entre outros instrumentos normativos,


foram tirando do povo o poder de exercer sua cidadania. Eleições indiretas em vários níveis
caracterizaram o governo autoritário comandado pelos militares. Além das eleições indiretas,
artifícios eleitorais, como o da sublegenda, serviam para a manutenção da elite política no
poder, apesar da existência de eleições.

Mesmo enfraquecido o poder político do cidadão, foi por meio das eleições que os
brasileiros mostraram sua insatisfação com o regime político, determinando, dessa forma, o
crescimento das forças de oposição ao regime e o início do declínio do governo encabeçado
por forças militares.

1 A implantação de um regime autoritário passa pelo


controle das eleições
Podemos assinalar como uma característica distintiva do Regime Militar, por se tratar de
um governo ditatorial, a preservação das eleições. Entre 1966 e 1979, as disputas eleitorais
aconteceram entre dois partidos apenas: o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que
aglutinou as forças de um tipo de oposição “concedida” pelo regime, visto que seus mais
contundentes opositores tiveram seus direitos políticos cassados, e a Aliança Renovadora
Nacional (ARENA), que era o partido de sustentação do Regime Militar – os dois partidos
foram criados em 1966.

Um ano após o Golpe, em 1965, houve eleições nos estados. Nesse ano, os partidos
políticos ainda estavam atuando e lançaram seus candidatos, conforme o previsto. O
novo regime esperava que o processo eleitoral resultasse em uma resposta da população,
mostrando-se contrária às forças políticas de esquerda, ou seja, o Regime Militar esperava
que houvesse uma votação significativa nos partidos de direita (SOUSA, 2014). No entanto, o
resultado das urnas, principalmente nos Estados de Minas Gerais e da Guanabara, desagradou
os militares, pois nomes ligados a um posicionamento político de esquerda venceram as
eleições em alguns estados.

Ao sentirem que os resultados daquelas eleições representaram a vitória de forças


de oposição ao Regime, os militares passaram a encarar o sistema eleitoral vigente como
uma ameaça. Com o objetivo de mudar as regras que normatizavam o processo eleitoral, os
militares lançam, ainda no mesmo ano em que transcorreram as eleições, o Ato Institucional
nº 2.
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1.1 Os dispositivos legais para modificar o processo eleitoral


O Regime Militar modificou significativamente o conteúdo das leis que regiam o processo
eleitoral. Apesar de ter sido mantida a vigência da Constituição de 1946, o novo regime
modificava o texto constitucional, de acordo com as necessidades que foram surgindo no
decorrer desse governo. Por meio de dispositivos legais, como os Atos Institucionais, que
somaram 17 entre 1964 e 1969, e os Decretos-Lei e Atos Complementares, a Constituição de
1946 foi sendo modificada de acordo com os interesses dos militares.

Alguns desses dispositivos se referiam especialmente aos aspectos eleitorais e serviram


para modificar a forma como as eleições deveriam ocorrer. Dentro desse aspecto, o Regime
de 1964 fez com que as eleições para os principais cargos do Poder Executivo passassem de
diretas para indiretas.

1.1.1 Código eleitoral de 1965

Este foi o primeiro ordenamento sancionado no sentido de modificar as regras eleitorais.


Entre as principais transformações podemos citar: ao votar em candidatos para o Poder
Legislativo, era obrigatório que se votasse em candidatos do mesmo partido; o registro das
candidaturas deveria ocorrer até seis meses antes das eleições; a proibição de coligação
partidária para as disputas eleitorais e a previsão multas para os eleitores que não se
alistassem e para os alistados que não comparecem para votar (NICOLAU, 2002).

Àquele que não tivesse votado, não tivesse justificado seu voto ou pagado multa por
não ter votado, era proibida a emissão de passaporte e carteira de identidade, assim como
a proibição de participar de concurso público ou pedir empréstimo em banco estatal e, se
funcionário público, não poderia receber seus vencimentos (BRASIL, 1965). Também não
poderia o cidadão renovar sua matrícula em estabelecimento de ensino público. A lei reforça
a questão da obrigatoriedade do voto.

1.1.2 Ato Institucional nº 2

Lançadas em 27 de outubro de 1965, essas normas foram decretadas com o objetivo


de mudar a Constituição de 1946, com relação, principalmente, ao processo eleitoral e
aos poderes do Presidente da República. Esse decreto aumentou o poder do Executivo e
mitigou os poderes do Legislativo. O AI nº 2 dava ao Presidente da República a prerrogativa
de decretar Estado de Sítio (sem a necessidade da anuência do Congresso) e de suspender
garantias constitucionais (BRASIL, 1965).

Quanto às mudanças no sistema eleitoral, medidas apontam para um retrocesso da


participação democrática popular, como a que extingue as eleições diretas para a presidência
da República, sendo que o presidente passa a ser eleito pelo Congresso Nacional. As eleições
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para os demais cargos do Poder Executivo, assim como para as cadeiras do Senado, são
suspensas ou sofrem restrições.

O AI nº 2 decreta o fim do funcionamento dos partidos políticos que atuavam naquela


época: “Art. 18 – Ficam extintos os atuais Partidos Políticos e cancelados os respectivos registros
[...] Parágrafo único – Para a organização dos novos Partidos são mantidas as exigências da
Lei nº 4.740, de 15 de julho de 1965, e suas modificações” (BRASIL, 1965). Nesse sentido, a
lei citada vetava a criação de partidos com programas políticos que contrariassem o regime
vigente e soma-se a isso o fato de os direitos políticos dos opositores ao regime terem sido
cassados. O resultado desse novo cenário político foi o bipartidarismo.

1.1.3 Ato Institucional nº 3

Em fevereiro de 1966, o Ato Institucional nº 3 estendeu a norma aplicada (eleições


indiretas) para a escolha do Presidente da República e Vice-Presidente aos outros cargos do
poder Executivo: Governador e Vice-Governador, assim como para prefeitos dos municípios
que sediavam as capitais dos estados. O Vice-Presidente e o Vice-Governador eram
considerados eleitos por razão da eleição de presidente e de governador com os quais foram
inscritos.

Os governadores eram eleitos pela Assembleia Legislativa e os prefeitos das capitais


deveriam ser indicados pelo governador, com a anuência dos deputados estaduais. Os
prefeitos dos demais municípios deveriam ser eleitos por voto direto e maioria simples. A lei
também dava permissão para que senadores e deputados estaduais e federais, se sua Câmara
Legislativa assim permitisse, exercessem o cargo de prefeito da Capital.

As medidas aplicadas à sucessão de cargos do Executivo nos Estados e suas respectivas


capitais, determinadas por meio do AI nº 3, evidenciam que o governo militar pretendia
exercer o poder de forma autoritária e, por isso, diminuiu a autonomia dos governos estaduais
e aumentou o controle político da União. O AI nº 3 modifica o que estava determinado na
Constituição de 1946, pois esta dava autonomia aos estados para definirem a forma como os
prefeitos das Capitais seriam escolhidos, se por meio de eleição ou nomeação.

1.1.4 Emenda Constitucional nº 8

Essa medida do governo militar modificou a forma como os senadores passaram a ser
eleitos. A EC nº 8 é o Decreto-Lei nº 1.543, de 14 de abril de 1977, que ficou conhecido
como “Pacote de abril” (NICOLAU, 2002). Essa lei determina que “[...] a eleição destinada ao
preenchimento de uma das vagas, na renovação por dois terços do Senado Federal, far-se-á
por sufrágio do colégio eleitoral” (BRASIL, 1977). A partir dessa medida, definiu-se quando
o Senado deveria mudar dois terços de sua bancada, ou seja, quando chegasse o momento
de eleger dois novos senadores para os estados, um deles seria submetido ao sufrágio

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universal e o outro deveria ser eleito pela Assembleia Legislativa. Assim, o senador escolhido
indiretamente recebeu a alcunha de “senador biônico”.

Quadro 1 – Datas de início e fim das eleições indiretas

Ano de suspensão Ano da primeira


Cargo
das eleições eleição direta

Presidente e Vice-Presidente 1965 1989

Governador e Vice-Governador 1966 1982

Prefeito e Vice-Prefeito 1966 1985

Senador 1977 1986

Fonte: Nicolau (2002, p. 57).

1.2 A sublegenda
A sublegenda consistia em permitir que nas eleições para um mesmo cargo majoritário,
seja de prefeito ou de senador, o partido pudesse lançar mais de um nome, mas, no máximo
três candidatos. Por exemplo, para prefeito de determinada cidade, a ARENA poderia lançar os
candidatos A, B e C. Com esse critério, os partidos políticos (que eram apenas dois, devemos
lembrar), utilizavam várias lideranças para eleger um candidato de seu partido. Os critérios
da sublegenda foram instituídos por meio do Ato Complementar nº 4, em 20 de novembro de
1965 (ANGELIN, 2003) e várias vezes regulamentados, sendo a última vez em 1977.

As eleições com sublegenda funcionavam assim: o partido que fizesse mais votos elegeria
seu candidato mais votado, mesmo que o candidato de outro partido tivesse mais votos.
Melhor entender por meio de um exemplo: para prefeito de uma cidade, a ARENA lança três
candidatos e o MDB lança dois candidatos; o resultado do pleito para os candidatos da ARENA
– candidato A, 50 votos; candidato B, 30 votos; e candidato C, 20 votos. Assim somamos 100
votos para a ARENA. Para os candidatos do MDB o resultado foi – candidato D, com 70 votos
e o candidato E com 20 votos. O total de votos para o MDB foi de 90 votos, nesse caso, o
prefeito eleito seria o A, mesmo que D tenha sido mais bem votado, mas a ARENA, no total,
fez mais votos do que o MDB.

Para Angelin (2003), o critério da sublegenda favorecia o partido do governo, a ARENA,


pelo fato de esse partido ter mais adeptos. Esse critério também possibilitava que várias
lideranças locais, do mesmo partido, pudessem disputar as eleições, sem que precisassem se
alistar no partido adversário para ter vez na disputa eleitoral.

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2 O processo de abertura política (1974-1985)


Em meados da década de 1970, o regime autoritário dá sinais de que começa a perder
força. Nas eleições de 1970, a oposição pregou o voto em branco, o que resultou em uma
esmagadora vitória no partido da situação, a ARENA, nas urnas. Nas eleições seguintes, a
oposição recupera-se, fazendo ótima votação: elegeu, por exemplo, 16 senadores, para as 22
cadeiras em disputa. Essa eleição é marcada pelos historiadores como o início do declínio do
Governo Militar (Jornal do Senado, 19/11/2014). Nas eleições para a Câmara de Deputados,
o MDB conquistou mais de um terço das cadeiras, o que lhe dava o direito de solicitar a
formação de Comissões Parlamentares de Inquérito. A partir dessas eleições, a oposição
ganha espaço e finalmente, depois de 10 anos de regime autoritário, passa a poder exercer
seu verdadeiro papel de oposição.

Mas o regime autoritário não arrefeceu de início, pois foram tomadas medidas como a
da Lei Falcão “[...] que limitou a propaganda eleitoral na TV a currículos e retratos dos
candidatos” (JORNAL DO SENADO, 2014). O fato de em 1977 o Presidente da República fechar
o Congresso Nacional e de criar os chamados senadores biônicos por meio de eleições
indiretas para um terço do Senado, mostra que o governo militar não cedeu seu espaço de
poder facilmente mas que, no entanto, já começava a “agonizar”, na medida em que a
oposição se fortalecia. Contudo, o processo iniciado nas eleições de 1974 não teria volta e
terminaria com o fim do regime autoritário, em 1985.

As eleições de 1974, mesmo sendo feitas em um sistema eleitoral que


favorecia a manutenção do poder por parte dos militares, tiveram um papel
fundamental para o início da abertura política. O fato histórico nos mostra a
importância das eleições para o aprimoramento e manutenção de um Estado
democrático.

Em 1979 o Regime Militar concede a anistia aos presos por crimes políticos ou praticados
por motivação política, era a Lei nº 6.683, de 28 de agosto. Mas essa lei não era ampla, visto
que não concedia os “[...] benefícios da anistia aos que foram condenados pela prática de
crimes de terrorismo, assalto, sequestro e atentado pessoal” (BRASIL, 1979). No mesmo ano,
foi lançada a lei que permitia o pluripartidarismo.

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2.1 A volta do multipartidarismo


O pluripartidarismo ressurge no Brasil no final de 1979 com a Lei nº 6.767, de 20 de
dezembro de 1979. Assim, partir de 1980, novos partidos começaram a se organizar e a entrar
em cena no cenário político nacional. Os partidos do Regime Militar mudam suas siglas: a
ARENA passa a ser chamada de PDS e o MDB de PMDB.

Outros partidos importantes são criados nesse ano: o Partido dos Trabalhadores (PT), o
Partido Democrático Trabalhista (PDT) e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). No entanto, o
Partido Comunista, por exemplo, permanece na clandestinidade e só volta ao cenário político
em 1985, quando o processo democrático já está mais consolidado, com a eleição de um
presidente civil, Tancredo Neves, embora tenha sido eleito ainda por um Colégio Eleitoral.

As eleições de 1982 marcam a volta do sistema pluripartidário e das eleições diretas


para os governadores dos estados. No entanto, a lei que regulava as eleições daquele ano
prejudicou a participação dos novos partidos, pois a norma os obrigava a lançarem candidatos
para todos os cargos em disputa nas esferas estadual e municipal, o que favoreceu os partidos
melhor estruturados, como o PMDB e o PDS. Assim, “[...] tal dispositivo obrigou os novos
partidos deslocarem os nomes dos principais líderes para as eleições majoritárias, nas quais a
chance de vitória era mínima” (NICOLAU, 2002, p. 59), e sem contar que ainda nessas eleições
o voto era vinculado, ou seja, o eleitor poderia votar em candidatos de um só partido, caso
contrário seu voto seria considerado nulo. Para as eleições de 1982, o voto na legenda foi
proibido, assim como a possibilidade de coligação entre os partidos.

3 A abertura política
Após o fim do governo militar, uma das primeiras medidas tomadas pelo governo de
Sarney foi o de mudar as regras do sistema eleitoral. Por meio de Emenda Constitucional nº
25, de 1985, foi reestabelecida no Brasil a eleição direta para Presidente da República, as
candidaturas com sublegendas foram proibidas e as coligações permitidas, além de tornar sem
efeito a fidelidade partidária “[...] que punia com a perda de mandato os parlamentares que
se opusessem às diretrizes do partido ou abandonassem o partido pelo qual foram eleitos”
(NICOLAU, 2002, p. 61). Outro marco da nova lei foi a concessão do voto ao analfabeto, pela
primeira vez na história da república. Dessa forma, o voto do analfabeto figurou na lei como
facultativo e este aparece como inelegível (e dessa forma permaneceu na Constituição de
1988).

3.1 A Constituição de 1988


As regras para as eleições aos cargos do Poder Executivo mudaram com a Constituição
de 1988, pois ela estabeleceu que presidente, governadores e prefeitos de municípios com

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mais de duzentos mil habitantes deveriam ser eleitos por maioria absoluta dos votos, se não
se chegasse a essa maioria na primeira votação (NICOLAU, 2002), devendo haver o segundo
turno de eleições para os dois candidatos mais votados.

Para o sistema eleitoral proporcional, foi novamente permitida a coligação entre os


partidos, o que permite que os votos de cada partido da coligação possam ser somados
com a finalidade de atingir o quociente eleitoral. Essa medida veio a beneficiar os partidos
menores, que não conseguiriam sozinhos atingir o quociente eleitoral e, dessa forma, eleger
um candidato.

A eleição para a presidência da República foi modificada por Emenda Constitucional em


1994, que reduziu de cinco para quatro anos o tempo do mandato presidencial. A medida
tinha como objetivo estabelecer um vínculo entre o mandato presidencial com o da Câmara
dos Deputados (NICOLAU, 2002). Outra Emenda Constitucional, de 1997, permitiu que os
chefes do Executivo nas esferas federal, estadual e municipal pudessem se candidatar a um
segundo mandato consecutivo.

3.2 A urna eletrônica


Segundo Nicolau (2002) as fraudes no processo eleitoral podem acontecer em três
circunstâncias: alistamento, votação e apuração. Com o sistema informatizado desenvolvido
pelo TSE, a fraude no alistamento eleitoral é praticamente nula. Durante a votação, se levarmos
em conta o empenho dos partidos políticos em fiscalizar todo o processo de votação, é cada
vez mais difícil haver fraude durante esse processo. A apuração dos votos é o momento mais
delicado, do ponto de vista do controle das fraudes. Isto pelo menos até o advento da urna
eletrônica, a partir de 1997, em alguns municípios, e em 2000, quando passou a ser usada
pelos eleitores de todo o Brasil.

A urna eletrônica, primeiramente pensada como um mecanismo para evitar as fraudes,


repercutiu de forma positiva em vários outros aspectos do processo eleitoral, como,
por exemplo, a diminuição do tempo de votação de cada eleitor e, consequentemente, o
tempo de espera para votar, que também ficou menor. A agilidade na apuração permite que
o resultado das eleições seja divulgado em pouquíssimo tempo e a facilidade de se votar
em uma urna eletrônica tem estimulado mais pessoas a votarem, mesmo que o voto seja
obrigatório. Lembrando que é facultativo para os analfabetos e que a urna eletrônica facilita
o voto destes. A urna eletrônica também contribuiu para a diminuição dos votos nulos, na
medida em que não existe mais o problema das letras ilegíveis.

A partir da abertura política, o Brasil pode ser considerado como uma “[...] democracia
eleitoral, com eleições competitivas, limpas, regulares [...] ” (NICOLAU, 2002) e com um
grande número de eleitores participando efetivamente do processo eleitoral. No entanto,
problemas existem, por isso sempre haverá a necessidade de aprimorar o sistema eleitoral.
Debates a respeito do processo eleitoral são salutares e fazem parte de todas as democracias.
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Estado, governo e sociedade

Discussões relativas às regras que normatizam o financiamento das campanhas eleitorais,


sobre as regras as quais devem se submeter as coligações partidárias e o voto obrigatório, são
exemplos de como o sistema eleitoral tem que ser discutido e aprimorado, como uma das
formas de incrementar ainda mais nossa democracia.

Considerações finais
Nesta aula, você viu que durante o Regime Militar as regras relativas ao sistema eleitoral
foram mudadas com o objetivo de manter o poder autoritário implementado pelos militares.
O fechamento dos partidos políticos, a cassação de mandatos e a limitação do bipartidarismo
foram medidas que romperam com a ordem democrática que foi estabelecida no Brasil a
partir de 1945.

As instituições de eleições indiretas para os principais cargos do Poder Executivo


favoreceram o controle autoritário do Regime Militar nas diversas esferas do poder. Outro
subterfúgio eleitoral, tal como o da sublegenda, foi importante também para a manutenção
do controle das elites no poder.

Outro fato importante visto nesta aula foi a importância das eleições para a retomada
do regime democrático e o enfraquecimento do governo autoritário, que foi o que ocorreu a
partir das eleições de 1974.

A partir da abertura política, em 1985, o Brasil vem aprimorando seu sistema eleitoral e,
como consequência, a própria democracia. Um sistema eleitoral sem fraudes e que garanta
a representatividade são importantes características de um sistema democrático. Mas é
importante ter em mente que existe sempre a necessidade de se discutir o processo eleitoral
e tudo que o envolve, procurando corrigir as falhas, que são inerentes a qualquer democracia
e não uma exclusividade da realidade brasileira.

Referências
ANGELIN, A. S. Sublegenda. Direito Net. 2003. Disponível em: <http://www.direitonet.com.br/
artigos/exibir/1398/Sublegenda>. Acesso em: 06 dez. 2014.

BRASIL. Lei nº 4.737, de 15 de julho de 1965. Institui o Código Eleitoral. Diário Oficial [da]
República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 16 jul. 1965. Disponível em: <http://www.planalto.
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BRASIL. Ato Institucional nº 2, de 27 de outubro de 1965. Mantém a Constituição Federal de


1946, as Constituições Estaduais e respectivas Emendas, com as alterações introduzidas pelo
Poder Constituinte originário da Revolução de 31.03.1964, e dá outras providências. Diário
Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 27 out. 1965. Disponível em: <http://
www.planalto.gov.br/ccivil_03/AIT/ait-02-65.htm>. Acesso em: 14 jan. 2015.

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BRASIL. Ato Institucional nº 3, de 5 de fevereiro de 1966. Fixa datas para as eleições de 1966,
dispõe sobre as eleições indiretas e nomeação de Prefeitos das Capitais dos Estados e dá
outras providências. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 5 fev. 1966.
Disponível em: <http://www.planalto.gov.br//CCIVIL_03/AIT/ait-03-66.htm>. Acesso em: 14
jan. 2015.

BRASIL. Decreto-Lei nº 1.543, de 14 de abril de 1977. Regula a eleição de senador, prevista no §


2º do artigo 41, “in fine”, da Constituição Federal. Diário Oficial [da] República Federativa do
Brasil, Brasília, DF, 14 abr. 1977. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-
lei/1965-1988/Del1543.htm>. Acesso em: 14 jan. 2015.

BRASIL. Lei nº 6.683, de 28 de agosto de 1979. Concede anistia e dá outras providências. Diário
Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 28 ago. 1979. Disponível em: <http://
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BRASIL. O início do declínio do regime militar. Jornal do Senado, 19/11/2014. Disponível em:
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