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L’OSSERVATORE ROMANO

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Ano LII, número 5 (2.702) Cidade do Vaticano terça-feira 2 de fevereiro de 2021

Anunciado no Angelus de 31 de janeiro, será celebrado no quarto domingo de julho

O Papa instituiu o Dia mundial


dos avós e dos idosos
«Decidi instituir o Dia mundial
dos avós e dos idosos, que será ce-
lebrado na Igreja inteira todos os
anos no quarto domingo de julho,
nas proximidades da festa dos san-
tos Joaquim e Ana, “avós” de Je-
sus», anunciou de surpresa o Papa
no final do Angelus de 31 de janei-
ro. «Depois de amanhã, 2 de feve-
reiro, celebraremos a festa da Apre-
sentação de Jesus no Templo — ex-
plicou o Pontífice, depois da recita-
ção da prece mariana na Biblioteca
particular do Palácio apostólico —
quando Simeão e Ana, ambos ido-
sos, iluminados pelo Espírito San-
to, reconheceram em Jesus o Mes-
sias». Mas, acrescentou, «o Espíri-
to Santo ainda hoje suscita nos
idosos pensamentos e palavras de
sabedoria» e além disso eles «são o
elo de ligação entre as gerações,
para transmitir aos jovens experiên-
cia de vida e de fé», mesmo se, in-
felizmente, «muitas vezes são es-
quecidos». Eis o motivo da decisão
de dedicar um dia aos avós e aos
idosos, que este ano será celebrado
a 25 de julho, no centro do “Ano
da família Amoris laetitia”.
Por fim, o Papa recordou o dia
dos doentes de lepra e saudou os
NESTE NÚMERO
jovens da Ação católica romana —
representados por um pequeno
Mensagem para o Dia mundial grupo — e ouviu a anual mensagem
das missões da Caravana da paz, lida por dois
adolescentes.
Instrumentos
PÁGINA 8
de compaixão
e de esperança
PÁGINA 2
A Congregação para os Institutos de vida consagrada e as sociedades de vida apostólica para a festa de 2 de fevereiro
Audiência geral de quarta-feira

Obedientes Na «Fratelli tutti» as raízes da profecia


e criativos como
os santos inspirados Tendo em vista a festa litúrgica da Apresen- neste Dicastério. Acompanhamos há junto, a fazer renascer em todos «uma Consagradas e consagrados nos
pela Palavra de Deus tação do Senhor, que se celebra a 2 de feverei- meses as notícias que chegam das co- aspiração mundial à fraternidade» (n. institutos religiosos, monásticos, con-
ro, o prefeito e secretário da Congregação para munidades das várias nações: falam 8), a sonhar juntos (cf. n. 9) a fim de templativos, nos institutos seculares e
PÁGINA 3 os institutos de vida consagrada e as socieda- de desorientação, de contágios, de que, «perante as várias formas atuais nos novos institutos, membros da ordo
des de vida apostólica enviaram a seguinte mortes, de dificuldades humanas e de eliminar ou ignorar os outros, seja- virginum, eremitas, membros das socie-
carta a todos os consagrados e consagradas. económicas, de diminuição de institu- mos capazes de reagir com um novo dades de vida apostólica, a todos vós
Necessidade de um ecumenismo
tos, de receios... mas falam também sonho de fraternidade e amizade so- pedimos que coloqueis esta Encíclica
sapiencial
Vaticano, 18 de janeiro de 2021. de fidelidade provada pelo sofrimen- cial...» (n. 6). no âmago da vossa vida, formação e
to, de coragem, de testemunho sereno missão. Doravante, não podemos
Coelet nosso A todos os consagrados e consagradas até na dor ou na incerteza, de partilha prescindir desta verdade: somos todos
contemporâneo de todas as aflições e feridas, de cui- irmãos e irmãs, como de resto reza-
Dirigimo-nos a vós na vigília de um dado e de proximidade aos últimos, mos, talvez não de modo muito cons-
JOSÉ TOLENTINO DE MEND ONÇA dia querido a todos nós, consagradas de caridade e de serviço à custa da ciente, no Pai-Nosso, pois «sem uma
NAS PÁGINAS 4 E 5 e consagrados, porque ele é dedicado própria vida (cf. Fratelli tutti, cap. II). abertura ao Pai de todos, não podem
à nossa maravilhosa vocação, que faz Não podemos pronunciar todos os haver razões sólidas e estáveis para o
Discurso à Rota romana
resplandecer de diferentes maneiras o vossos nomes, mas sobre cada um de apelo à fraternidade» (n. 272).
amor de Deus pelo homem, pela mu- vós pedimos a bênção do Senhor, a Esta Encíclica, escrita num mo-
lher e pelo universo inteiro. A 2 de fe- fim de que possais passar do “eu” pa- mento histórico que o próprio Papa
Um caminho eclesial vereiro celebraremos o XXV Dia da vi- ra o “nós”, conscientes «de estar no Francisco definiu «a hora da verda-
com as famílias da consagrada. Na basílica de São Pe- mesmo barco, todos frágeis e deso- de», é uma dádiva preciosa para cada
e pela família dro, às 17h30, o Papa Francisco presi- rientados mas ao mesmo tempo im- forma de vida consagrada que, sem
dirá a uma Celebração eucarística, portantes e necessários: todos chama- esconder as numerosas feridas contra
PÁGINA 6 despojada dos sinais e dos rostos jubi- dos a remar juntos» (Papa Francisco, a fraternidade, pode encontrar nela as
losos que a iluminavam nos anos pre- Momento extraordinário de oração, sexta- raízes da profecia.
cedentes, e que no entanto é sempre feira, 27 de março de 2020). Sede os Estamos diante de uma nova cha-
Obra das Franciscanas Missionárias
expressão daquela fecunda gratidão samaritanos destes dias, superando a mada do Espírito Santo. Como São
do Imaculado Coração de Maria
que carateriza as nossas vidas. tentação do fechamento e da autoco- João Paulo II, à luz da doutrina sobre
na Guiné-Bissau
Com esta carta desejamos atenuar miseração, ou de fechar os olhos a Igreja-comunhão, tinha exortado as
aquela distância física, que a pande- diante da dor, dos sofrimentos, da po- pessoas consagradas a «ser verdadei-
Amar, gerando mia nos impôs durante tantos meses, breza de tantos homens e mulheres, ramente peritas em comunhão e a
vida saudável e manifestar a cada um de vós e a ca- de tantos povos. praticar a sua espiritualidade» (Vita
da comunidade a proximidade, tanto Na Encíclica Fratelli tutti o Papa
PÁGINA 7 nossa como a de quantos trabalham Francisco convida-nos a agir em con- CONTINUA NA PÁGINA 2
página 2 L’OSSERVATORE ROMANO terça-feira 2 de fevereiro de 2021, número 5

Mensagem para o Dia mundial das missões que será celebrado em outubro

Instrumentos de compaixão
e de esperança
Nestes tempos de pandemia, perante 22). Tudo, em Cristo, nos lem- Com Jesus, vimos, ouvimos transformar cada incómodo,
a tentação de mascarar e justificar a bra que o mundo em que vive- e constatamos que as coisas contrariedade e dificuldade
indiferença em nome do distancia- mos e a sua necessidade de re- podem mudar. Ele inaugurou em oportunidade para a mis-
mento social, é urgente «a missão da denção não lhe são estranhos e — já para os dias de hoje — os são. Os próprios limites e im-
compaixão», a fim de «fazer da ne- também nos chama a sentir- tempos futuros, recordando- pedimentos tornaram-se um
cessária distância um lugar de en- nos parte ativa desta missão: nos uma caraterística essencial lugar privilegiado para ungir,
contro, de cuidado e de promoção», «Ide às saídas dos caminhos e do nosso ser humano, tantas tudo e todos, com o Espírito
desejou o Papa Francisco na mensa- convidai todos quantos encon- vezes esquecida: «Fomos cria- do Senhor. Nada e ninguém
gem em vista do próximo Dia mun- trardes» (cf. Mt 22, 9). Nin- dos para a plenitude, que só se podia permanecer alheio ao
dial das missões, que será celebrado guém é estranho, ninguém po- alcança no amor» (Enc. Fratelli anúncio libertador.
no penúltimo domingo de outubro. No de sentir-se estranho ou afasta- tutti, 68). Tempos novos, que Possuímos o testemunho vi-
texto, o Pontífice exortou os missioná- do deste amor de compaixão. suscitam uma fé capaz de esti- vo de tudo isto nos Atos dos
rios a «ir às periferias do mundo» e mular iniciativas e plasmar co- Apóstolos, livro que os discípu-
a «tornar-se mensageiros e instru- munidades a partir de homens los missionários sempre têm à
mentos de compaixão» e esperança. A experiência dos Apóstolos e mulheres que aprendem a mão. É o livro que mostra co-
ocupar-se da fragilidade pró- mo o perfume do Evangelho
A história da evangelização pria e dos outros (cf. ibid., n. se difundiu à passagem deles,
tem início com uma busca 67), promovendo a fraternida- suscitando aquela alegria que
apaixonada do Senhor, que de e a amizade social. A comu- só o Espírito nos pode dar. O
chama e quer estabelecer com nidade eclesial mostra a sua livro dos Atos dos Apóstolos
cada pessoa, onde quer que es- beleza, sempre que se lembra, ensina-nos a viver as provações «uma comunidade de perten- vimos e ouvimos» (At 4, 20) —
teja, um diálogo de amizade com gratidão, que o Senhor unindo-nos a Cristo, para ma- ça e solidariedade, à qual sai- é um convite dirigido a cada
(cf. Jo 15, 12-17). Os Apóstolos nos amou primeiro (cf. 1 Jo 4, turar a «convicção de que bamos destinar tempo, esforço um de nós para cuidar e dar a
são os primeiros que nos refe- 19). Esta «predileção amorosa Deus pode atuar em qualquer e bens» (Enc. Fratelli tutti, 36). conhecer aquilo que tem no
rem isto, lembrando inclusive do Senhor surpreende-nos e circunstância, mesmo no meio É a sua Palavra que diariamen- coração. Esta missão é, e sem-
a hora do dia em que o encon- gera maravilha; esta, por sua de aparentes fracassos», e a te nos redime e salva das des- pre foi, a identidade da Igreja:
traram: «Eram as quatro da natureza, não pode ser possuí- certeza de que «a pessoa que culpas que levam a fechar-nos «Ela existe para evangelizar»
tarde» (Jo 1, 39). A amizade da nem imposta por nós. (...) se oferece e entrega a Deus por no mais vil dos ceticismos: (SÃO PAULO VI, Exort. ap.
com o Senhor, vê-lo curar os Só assim pode florir o milagre amor, seguramente será fecun- «Tanto faz; nada mudará!». Evangelii nuntiandi, 14). No iso-
doentes, comer com os peca- da gratuidade, do dom gratui- da (cf. Jo 15, 5)» (Exort. ap. Pois, à pergunta: «Para que lamento pessoal ou fechando-
«Não podemos deixar dores, alimentar os famintos, to de si mesmo. O próprio ar- Evangelii gaudium, 279). hei de privar-me das minhas se em pequenos grupos, a nos-
de afirmar o que vimos aproximar-se dos excluídos, dor missionário nunca se pode O mesmo se passa connos- seguranças, comodidades e sa vida de fé esmorece, perde
e ouvimos» (At 4, 20) tocar os impuros, identificar- obter em consequência de um co: o momento histórico atual prazeres, se não vou ver qual- profecia e capacidade de en-
se com os necessitados, fazer raciocínio ou de um cálculo. também não é fácil. A situação quer resultado importante», a canto e gratidão; por sua pró-
Queridos irmãos e irmãs! apelo às bem-aventuranças, Colocar-se “em estado de mis- da pandemia evidenciou e au- resposta é sempre a mesma: pria dinâmica, exige uma
Quando experimentamos a ensinar de maneira nova e são” é um reflexo da gratidão» mentou o sofrimento, a soli- «Jesus Cristo triunfou sobre o abertura crescente, capaz de
força do amor de Deus, quan- cheia de autoridade, deixa (Mensagem às Pontifícias Obras dão, a pobreza e as injustiças pecado e a morte, e possui to- alcançar e abraçar a todos.
do reconhecemos a sua presen- uma marca indelével, capaz de Missionárias, 21 de maio de de que já tantos padeciam, e do o poder. Jesus Cristo vive Atraídos pelo Senhor e a vida
ça de Pai na nossa vida pessoal suscitar admiração e uma ale- 2020). desmascarou as nossas falsas verdadeiramente» (Exort. ap. nova que oferecia, os primei-
e comunitária, não podemos gria expansiva e gratuita que E, no entanto, os tempos seguranças e as fragmentações Evangelii gaudium, 275) e, tam- ros cristãos, em vez de ceder à
deixar de anunciar e partilhar não se pode conter. Como di- não eram fáceis; os primeiros e polarizações que nos dilace- bém a nós, nos quer vivos, fra- tentação de se fechar numa eli-
o que vimos e ouvimos. A relação zia o profeta Jeremias, esta ex- cristãos começaram a sua vida ram silenciosamente. Os mais ternos e capazes de acolher e te, foram ao encontro dos po-
de Jesus com os seus discípu- periência é o fogo ardente da de fé num ambiente hostil e ár- frágeis e vulneráveis sentiram partilhar esta esperança. No vos para testemunhar o que vi-
los, a sua humanidade que nos sua presença ativa no nosso duo. Histórias de marginaliza- ainda mais a sua vulnerabili- contexto atual, há urgente ne- ram e ouviram: o Reino de
é revelada no mistério da En- coração que nos impele à mis- ção e prisão entrelaçavam-se dade e fragilidade. Experi- cessidade de missionários de Deus está próximo. Fizeram-
carnação, no seu Evangelho e são, mesmo que às vezes impli- com resistências internas e ex- mentamos o desânimo, a dece- esperança que, ungidos pelo no com a generosidade, grati-
na sua Páscoa mostram-nos que sacrifícios e incompreen- ternas, que pareciam contradi- ção, o cansaço; e até a amargu- Senhor, sejam capazes de lem- dão e nobreza próprias das
até que ponto Deus ama a nos- sões (cf. 20, 7-9). O amor está zer e até negar o que tinham ra conformista, que tira a espe- brar profeticamente que nin- pessoas que semeiam, sabendo
sa humanidade e assume as sempre em movimento e põe- visto e ouvido; mas isto, em rança, se apoderou do nosso guém se salva sozinho. que outros comerão o fruto da
nossas alegrias e sofrimentos, nos em movimento, para parti- vez de ser uma dificuldade ou olhar. Nós, porém, «não nos Como os Apóstolos e os pri- sua dedicação e sacrifício. Por
os nossos anseios e angústias lhar o anúncio mais belo e pro- um obstáculo que poderia le- pregamos a nós mesmos, mas meiros cristãos, também nós isso apraz-me pensar que
(cf. CONC. ECUM. VAT. II, missor: «Encontramos o Mes- vá-los a retrair-se ou fechar-se a Cristo Jesus, o Senhor, e nos exclamamos com todas as nos- «mesmo os mais frágeis, limi-
Const. past. Gaudium et spes, sias» (Jo 1, 41). em si mesmos, impeliu-os a consideramos vossos servos sas forças: «Não podemos dei- tados e feridos podem [ser
por amor de Jesus» (2 Cor 4, xar de afirmar o que vimos e missionários] à sua maneira,
5). Por isso ouvimos ressoar ouvimos» (At 4, 20). Tudo o porque sempre devemos per-
nas nossas comunidades e fa- que recebemos, tudo aquilo mitir que o bem seja comuni-
mílias a Palavra de vida que que o Senhor nos tem concedi- cado, embora coexista com
Na «Fratelli tutti» as raízes da profecia ecoa nos nossos corações, di-
zendo: «Não está aqui, ressus-
do, ofereceu-no-lo para o por-
mos a render, doando-o gra-
muitas fragilidades» (Exort.
ap. pós-sinodal Christus vivit,
citou» (Lc 24, 6); uma Palavra tuitamente aos outros. Como 239).
CONTINUAÇÃO DA PÁGINA 1 a cultura do encontro e do nossa perseverança, o próxi- de esperança, que desfaz qual- os Apóstolos que viram, ouvi- No Dia Mundial das Mis-
diálogo entre diferentes po- mo dia 2 de fevereiro será quer determinismo e, a quan- ram e tocaram a salvação de sões, que se celebra anualmen-
consecrata, 46), o Papa Fran- vos e gerações, a partir da também este ano uma bonita tos se deixam tocar por ela, dá Jesus (cf. 1 Jo 1, 1-4), também te no penúltimo domingo de
cisco, inspirando-se em São própria comunidade vocacio- festa na qual louvar e dar a liberdade e a audácia neces- nós, hoje, podemos tocar a outubro, recordamos com gra-
Francisco, fundador e inspi- nal, para depois chegar a to- graças ao Senhor pelo dom sárias para se levantar e procu- carne sofredora e gloriosa de tidão todas as pessoas, cujo
rador de numerosos institu- dos os recantos da terra e a da nossa vocação e missão! rar, criativamente, todas as for- Cristo na história de cada dia e testemunho de vida nos ajuda
tos de vida consagrada, alar- todas as criaturas, pois nunca A Maria, nossa Mãe, Mãe mas possíveis de viver a com- encontrar coragem para parti- a renovar o nosso compromis-
ga o horizonte e convida-nos como neste tempo de pande- da Igreja, mulher fiel, e a paixão, «sacramental» da pro- lhar com todos um destino de so batismal de ser apóstolos
a ser artífices de fraternidade mia experimentamos que tu- São José, seu esposo, neste ximidade de Deus para con- esperança, este traço indubitá- generosos e jubilosos do Evan-
universal, protetores da casa do está interligado, tudo está ano a ele dedicado, confia- nosco, que não abandona nin- vel que provém de saber que gelho. Lembramos especial-
comum: da terra e de cada relacionado, tudo está conec- mos cada uma e cada um de guém na beira da estrada. somos acompanhados pelo Se- mente aqueles que foram ca-
criatura (cf. Encíclica Laudato tado (cf. Encíclica Laudato vós. Que em vós se fortale- Neste tempo de pandemia, pe- nhor. Como cristãos, não po- pazes de partir, deixar terra e
si’). Irmãos e irmãs de todos, si’). çam uma fé viva e amorosa, rante a tentação de mascarar e demos reservar o Senhor para família para que o Evangelho
independentemente da fé, «Sonhemos como uma uma esperança certa e jubilo- justificar a indiferença e a apa- nós mesmos: a missão evange- pudesse atingir sem demora e
das culturas e das tradições única humanidade, como ca- sa, uma caridade humilde e tia em nome de um sadio dis- lizadora da Igreja exprime a sem medo aqueles ângulos de
de cada um, porque o futuro minhantes feitos da mesma concreta. tanciamento social, é urgente a sua valência integral e pública aldeias e cidades onde tantas
não é “monocromático” (Ft, carne humana, como filhos Do Pai e do Filho e do Es- missão da compaixão, capaz de fa- na transformação do mundo e vidas estão sedentas de bên-
n. 100) e o mundo é como desta mesma terra que nos pírito Santo, nosso Deus mi- zer da distância necessária um na salvaguarda da criação. ção.
um poliedro que deixa trans- alberga a todos, cada qual sericordioso, imploramos a lugar de encontro, cuidado e Contemplar o seu testemu-
parecer a sua beleza, precisa- com a riqueza da sua fé ou bênção sobre cada um de promoção. «O que vimos e nho missionário impele-nos a
mente através das suas dife- das suas convicções, cada vós. ouvimos» (At 4, 20), a miseri- Um convite ser corajosos e a pedir, com in-
rentes faces. qual com a própria voz, to- João Braz Card. de Aviz córdia com que fomos trata- a cada um de nós sistência, «ao dono da messe
Então, trata-se de abrir dos irmãos!» (Ft, n. 8). As- Prefeito dos, transforma-se no ponto que mande trabalhadores para
processos para acompanhar, sim, no horizonte deste so- D. José Rodríguez de referência e credibilidade O tema do Dia Mundial das a sua messe» (Lc 10, 2), cientes
transformar e gerar; de ela- nho que é confiado nas nos- Carballo, O.F.M. que nos permite recuperar e Missões deste ano — «Não po-
borar projetos para promover sas mãos, à nossa paixão, à Arcebispo Secretário partilhar a paixão para criar demos deixar de afirmar o que CONTINUA NA PÁGINA 3

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número 5, terça-feira 2 de fevereiro de 2021 L’OSSERVATORE ROMANO página 3

Catequese - É triste ver cristãos que recitam versículos da Bíblia como papagaios

Obedientes e criativos
como os santos inspirados
pela Palavra de Deus
«A Palavra de Deus faz-se carne naqueles que a acolhem», a se sobre a oração, na audiência geral de quarta-feira, 27 de ja-
ponto que «mesmo se todas as Bíblias do mundo fossem quei- neiro — na Biblioteca particular do Palácio apostólico do Va-
madas, um “molde” dela ainda poderia ser salvo através da ticano, sem a presença de fiéis por causa da pandemia — o Pon-
marca que deixou na vida dos santos». Prosseguindo a cateque- tífice falou da prece que se inspira nas leituras bíblicas.

Estimados irmãos e irmãs, uma palavra de Deus. Foi escrito sem a instrumentalizar. O crente
bom dia! para cada um de nós. Esta expe- não procura nas Sagradas Escri-
Hoje gostaria de me concentrar riência acontece a todos os cren- turas o apoio para a própria visão
na oração que podemos recitar a tes: uma passagem da Escritura, filosófica ou moral, mas porque
partir de um trecho da Bíblia. As ouvida muitas vezes, de repente espera um encontro; sabe que es-
palavras da Sagrada Escritura não um dia fala-me e ilumina uma si- sas palavras foram escritas no Es-
foram escritas para permanecer tuação que estou a viver. Mas é pírito Santo e por isso, nesse mes-
presas nos papiros, nos pergami- necessário que eu esteja presente mo Espírito, devem ser acolhidas,
nesse dia, no en- devem ser compreendidas, para
contro com essa que o encontro se realize.
Palavra, que esteja Incomoda-me quando ouço
ali, ouvindo a Pa- cristãos a recitar versículos da Bí-
LEITURA D O DIA lavra. Todos os blia como papagaios. “Oh, sim, o
dias Deus passa e Senhor diz… Ele assim o
lança uma semen- quer…”. Mas naquele versículo
Salmo 119, 1.15.18.48.105.130
te no terreno da encontraste-te com o Senhor?
nossa vida. Não Não é apenas um problema de
Felizes os de caminho perfeito
sabemos se hoje memória: é um problema de me-
os que conduzem os seus passos
encontrará terra mória do coração, aquela que te
na lei do Senhor [...]
árida, silvas, ou abre para o encontro com o Se-
Nos Vossos preceitos quero meditar,
terra fértil que fa- nhor. E aquela palavra, aquele
e refletir nas Vossas sendas [...]
ça crescer essa se- versículo, leva-te ao encontro com
Abri os meus olhos para que eu possa
mente (cf. Mc 4, 3- o Senhor. confiança e amor que o protege ve ser obediente, mas deve ser
contemplar as maravilhas da Vossa lei [...]
9). Depende de Portanto, lemos as Escrituras dos ataques do maligno. criativo. Obediente porque ouve
Levanto as mãos para os Vossos preceitos,
nós, da nossa ora- para que elas “nos leiam”. E é É assim que a Palavra de Deus a Palavra de Deus; criativo, por-
que eu amo, e medito nas Vossas leis[...]
ção, do coração uma graça ser capaz de se reco- se faz carne — permito-me usar es- que tem dentro o Espírito Santo
A Vossa palavra é qual farol
aberto com que nhecer nesta ou naquela persona- ta expressão: faz-se carne — na- que o impele a praticá-la, a anun-
para os meus passos [...]
nos aproximamos gem, nesta ou naquela situação. A queles que a acolhem na oração. ciá-la. Jesus diz isto no final de
O conhecimento dos Vossos oráculos ilumina,
das Escrituras, pa- Bíblia não é escrita para uma hu- Nalguns textos antigos emerge a um dos seus discursos proferidos
dá inteligência aos simples.
ra que elas possam manidade genérica, mas para nós, intuição de que os cristãos se em parábolas, com esta compara-
tornar-se para nós para mim, para ti, para homens e identificam tão intimamente com ção: «Todo o escriba instruído
a Palavra viva de mulheres em carne e osso, ho- a Palavra que, mesmo se todas as acerca do reino dos céus é seme-
Deus. Deus passa, mens e mulheres que têm nome e Bíblias do mundo fossem quei- lhante a um pai de família que ti-
nhos ou no papel, mas para ser continuamente, através da Escri- sobrenome, como eu, como tu. E madas, um “molde” dela ainda ra coisas novas e velhas do seu te-
recebidas por uma pessoa que re- tura. E repito o que disse na se- a Palavra de Deus, impregnada poderia ser salvo através da marca souro» — o coração (Mt 13, 52). As
za, fazendo-as brotar no próprio mana passada, citando Santo do Espírito Santo, quando é rece- que deixou na vida dos santos. É Sagradas Escrituras são um tesou-
coração. A palavra de Deus vai ao Agostinho: “Tenho medo do Se- bida com coração aberto, não dei- uma bonita expressão. ro inesgotável. Que o Senhor nos
coração. O Catecismo afirma: «A nhor quando passa”. Por que ter xa as situações como antes, nun- A vida cristã é obra de obe- conceda, a todos nós, haurir delas
leitura da Sagrada Escritura deve medo? Que eu não o ouça, que ca, muda alguma coisa. E esta é a diência e, ao mesmo tempo, de cada vez mais através da oração.
ser acompanhada de oração — a não me aperceba que é o Senhor. graça e a força da Palavra de criatividade. Um bom cristão de- Obrigado!
Bíblia não pode ser lida como um Através da oração realiza-se D eus.
romance — para que seja possível uma nova encarnação do Verbo. A tradição cristã é rica de expe-
o diálogo entre Deus e o homem» E nós somos os “tabernáculos” riências e reflexões sobre a oração
(n. 2653). Assim a oração te con- onde as palavras de Deus querem com a Sagrada Escritura. Em par-
duz, pois é um diálogo com ser recebidas e guardadas, para ticular, afirmou-se o método da Palavras do Papa no dia da memória
Deus. Aquele versículo da Bíblia poder visitar o mundo. Por esta “lectio divina”, nascido em ambiente
foi escrito também para mim, há razão, devemos aproximar-nos da
muitos séculos, para me trazer Bíblia sem segundas intenções,
monástico mas agora praticado
também por cristãos que frequen-
Recordar é também estar atentos
tam as paróquias. Trata-se antes
de mais de ler a passagem bíblica No final da catequese, o
com atenção, mais ainda, diria Santo Padre recordou o
com “obediência” ao texto, a fim Dia da memória do holo-
Mensagem para o Dia mundial de compreender o que ele signifi-
ca em si mesmo. Em seguida, en-
causto e saudou em várias
línguas os fiéis que o
das missões tra-se em diálogo com a Escritura,
para que aquelas palavras se tor-
acompanhavam através
dos meios de comunicação,
nem um motivo de meditação e entre os quais os ouvintes
CONTINUAÇÃO DA PÁGINA 2 círculos, chegar àqueles que, oração: permanecendo sempre de expressão portuguesa.
espontaneamente, não sentiria fiel ao texto, começo a perguntar-
de que a vocação para a missão como parte do «meu mundo de me o que ele “diz a mim”. Este é Hoje, aniversário da
não é algo do passado nem interesses», embora estejam um passo delicado: não devemos libertação do campo
uma recordação romântica de perto de nós (cf. Enc. Fratelli resvalar para interpretações subje- de extermínio de
outrora. Hoje, Jesus precisa de tutti, 97). Viver a missão é aven- tivas, mas inserir-nos no sulco vi- Auschwitz, celebra-
corações que sejam capazes de turar-se no cultivo dos mesmos vo da Tradição, que une cada um mos o Dia da Memória. Comemora- sua grande bondade e misericórdia!
viver a vocação como uma ver- sentimentos de Cristo Jesus e, de nós à Sagrada Escritura. E o mos as vítimas do Holocausto e todas Desça generosamente a sua Bênção so-
dadeira história de amor, que com Ele, acreditar que a pessoa último passo da lectio divina é a as pessoas perseguidas e deportadas bre vós e vossas famílias.
os faça sair para as periferias do ao meu lado é também meu ir- contemplação. Aqui as palavras e pelo regime nazista. Recordar é expres- Dirijo uma cordial saudação aos fiéis
mundo e tornar-se mensageiros mão, minha irmã. Que o seu os pensamentos dão lugar ao são de humanidade. Recordar é sinal de língua italiana. Amanhã é a memó-
e instrumentos de compaixão. amor de compaixão desperte amor, como entre os namorados de civilização. Recordar é condição pa- ria litúrgica de S. Tomás de Aquino, pa-
E esta chamada, fá-la a todos também o nosso e, a todos, nos que por vezes só se olham em si- ra um futuro melhor de paz e fraterni- droeiro das escolas católicas. Que o seu
nós, embora não da mesma for- torne discípulos missionários. lêncio. O texto bíblico permane- dade. Recordar significa também estar exemplo encoraje todos, especialmente
ma. Lembremo-nos que exis- Maria, a primeira discípula ce, mas como um espelho, como atentos, pois estas coisas podem voltar os estudantes, a ver em Jesus o único
tem periferias que estão perto missionária, faça crescer em to- um ícone a ser contemplado. E a acontecer, começando por propostas mestre de vida; e que a sua doutrina vos
de nós, no centro de uma cida- dos os batizados o desejo de ser assim tem-se o diálogo. ideológicas que pretendem salvar um encoraje a confiar na sabedoria do co-
de ou na própria família. Há sal e luz nas nossas terras (cf. Através da oração, a Palavra de povo e acabam por destruir um povo e ração para cumprir a vossa missão.
também um aspeto da abertura Mt 5, 13-14). Deus vem habitar em nós e nós a humanidade. Estai atentos a como Por fim, como de costume, o meu
universal do amor que não é habitamos nela. A Palavra inspira começou este caminho de morte, de ex- pensamento dirige-se aos idosos, aos
geográfico, mas existencial. Roma, São João de Latrão, bons propósitos e apoia a ação; termínio, de brutalidade! jovens, aos doentes e aos recém-casa-
Sempre, mas especialmente Solenidade da Epifania do dá-nos força, serenidade, e até De coração, saúdo os ouvintes de dos. Espero que cada um, na própria
nestes tempos de pandemia, é Senhor, 6 de janeiro de 2021. quando nos põe em crise nos dá língua portuguesa. Que nada vos im- condição, contribua generosamente pa-
importante aumentar a capaci- paz. Em dias “maus” e confusos, peça de viver e crescer na amizade do ra difundir a alegria de amar e servir Je-
dade diária de alargar os nossos assegura ao coração um núcleo de Senhor Jesus, e testemunhar a todos a sus.
página 4, terça-feira 2 de fevereiro de 2021, número 5 L’OSSERVATO

Necessidade de um ecumenismo sapiencial

Coelet
nosso contemporâneo

A
JOSÉ TOLENTINO DE MEND ONÇA* uma apocalíptica prêt-à-porter que encon- tradições, incoerências e limites, mostran- As três crises, segundo Coelet
tramos hoje disseminadas na cultura, na do quanto é a vã a ilusão prometaica que a
tradição bíblica, na reconhecida pluralida- política e na representação do mundo história faz de si mesma, quando se crê in- Poderíamos penso, sem naturalmente
de literária e teológica que a tece, alberga transmitida pelos média se afundam num vestida de força, de conhecimento absolu- pretender esgotar a notável complexidade
esquemas distintos para enfrentar as gran- nihilismo paralisante e autodestrutivo que to e de poder, e esconde as suas vulnerabi- hermenêutica desta obra, identificar em
des crises do ser humano e para iluminar o Papa Francisco denuncia com coragem lidades e fraquezas. Coelet é um austero Coelet três teses fundamentais. E, por sua
com esperança as estações de incerteza da na recente Encíclica Fratelli tutti. No diag-
mestre porque recusa o caminho da con- vez, constatar que estas teses vêm ao nosso
história. Dois desses esquemas, muitas ve- nóstico do momento presente que o Papa descendência, mas é um mestre verdadei- encontro iluminando três faces da crise
zes apresentados como contrapostos entre ali realiza, alerta para o facto da históriaro, porque não aborda a vida como se ela antropológica, e também cultural, de que
si, são a apocalíptica e a sabedoria. Na dar sinais de regressão, reeacendendo con- fosse uma ficção ou uma ideologia. Antes, hoje se fala menos devido à situação de
verdade, ambos são discursos de crise, flitos anacrónicos e formas de egoísmo acredita no valor da experiência, no fazer emergência sanitária que vivemos, mas
pois quer um quer outro se constroem co- que se consideravam superadas (cf. Ft, 11). e refazer da existência em todas as suas es- que ganhamos em não esquecer.
mo reação alternativa a uma conjuntura Uma maneira perigosa de dissolver a tações, no gigantesco passo de civilização
precisa. A sensibilidade apocalíptica, her- consciência histórica é precisamente subs- que representa, por exemplo, o reconheci-
deira direta do profetismo, parte, porém, tituir a sabedoria por um caricatural apo- mento da vulnerabilidade que nos fere e 1. A crise da memória
de uma visão linear do tempo que projeta calipse que substitui a mediação e o en- da necessidade de perdoar e de ser per- e da transmissão
o seu desfecho resolutivo no futuro, pois contro pelo ódio e pelo caos. No lugar do doado, reconhecendo a própria ambigui-
descrê das possibilidades efetivas de trans- dade que nos habita. Coe- A primeira tese é que se trata de uma
formação do presente histórico, visto so- let é um austero mestre, ingenuidade pensar que o caminho histó-
bretudo como lugar para o exercício de mas não usa a desconstru- rico se faz por saltos de progresso e que
perseverança na expectativa do que se re- O Papa Francisco... na «Fratelli tutti»... alerta ção como uma arma: usa-a ganhamos sim em desmontar criticamente
velará. Ao contrário, a visão do tempo para o facto da história dar sinais de regressão, sim como um instrumento a mistificação que se faz da inovação e da
plasmada pela sabedoria de preparar a terra. Não se novidade como automaticamente superio-
é capaz de integrar numa reacendendo conflitos anacrónicos e formas trata de arrancar, mas de res (cf. Ecl 1, 4-11). Pelo contrário, o sábio
FÉ E DIÁLO GO
dinâmica de revisão críti- de egoísmo que se consideravam superadas... semear. Semear um visão observa que o curso do sol recomeça em
ca e construtiva mesmo honesta do que em nós res- cada dia, que o vento parte e retorna, que
Publicamos o discurso que as descontinuidades, as vemos praticar a manipulação e a desfiguração ta por fazer, por aclarar e os rios desaguam no mar sem que o nível
Sua Eminência o cardeal interrogações e os dile- de grandes palavras como democracia, liberdade, por decidir até ao fim. do oceano se altere, que a estrutura cósmi-
prefeito da Biblioteca mas que emergem nas di- Mostrando como somos ca do mundo tem uma estabilidade que
Apostólica proferiu a 17 versas passagens da his- justiça, unidade do género humano. atravessados por tempos deveria fazer o ser humano pensar.
de janeiro na XXXII Jornada tória, acordando pacien- tão diversos, que é preciso O nosso problema é que as gerações se
de Diálogo entre Judaísmo temente a nossa compe- hospedar com esperança, sucedem sem uma efetiva aliança que os
e Cristianismo. tência crítica, dando uma numa interminável apren- una. O saber que os mais velhos transpor-
profundidade reflexiva pensamento crítico, o que vemos praticar dizagem, e escutar com profecia. O tempo tam é apressadamente considerado ultra-
ao nosso olhar e desafiando-nos a um é a manipulação e a desfiguração das não é apenas uma clepsidra que nos esva- passado e inválido. Somos sociedades que
compromisso com a conversão efetiva do grandes palavras como democracia, liber- zia, não è apenas o krónos que nos devora. não querem ouvir a voz dos velhos, socie-
presente. A apocalíptica pratica uma radi- dade, justiça, unidade do género humano O tempo é «o nosso momento», a nossa dades devoradas pela amnésia. Escreve
cal contestação da história atual e projeta- para reutilizá-las depois como um mero oportunidade para crescer, maturar, para Coelet: «Já não há lembrança das coisas
se no que virá. Enquanto que a sabedoria instrumento de domínio (cf. Ft, 14). É nes- aprender a viver com sabedoria. Por isso que precederam, e das coisas que hão de
não desiste da atualidade, procura ainda te contexto, agravado posteriormente pela Coelet assegura: «Tudo tem o seu tempo ser também delas não haverá lembrança,
reorientá-la, diz-nos que ainda vamos a pandemia, que nos abeiramos do Livro de determinado, e há tempo para todo o pro- entre os que hão de vir depois» (Ecl 1, 11).
tempo, ainda podemos fazer alguma coisa Coelet, para escutar o seu ensinamento. pósito debaixo do céu.
e a terapêutica que propõe é o discerni- Ora, uma coisa deve para nós ser clara Há tempo de nascer e
mento, a tomada ativa de consciência da desde o princípio: se quisermos verdadei- tempo de morrer; tempo
nossa situação ou a meditação aprofunda- ramente investir na construção da fraterni- de plantar e tempo de ar- Vivemos mergulhados em mensagens, mas
da do que vivemos à luz da globalidade dade e da amizade social temos de decla- rancar o que se plantou; adoecidos por uma afasia, uma incapacidade de
do destino humano. rar Coelet nosso contemporâneo. tempo de matar e tempo
de curar; tempo de derru- interpretar a vida em profundidade e de
bar e tempo de edificar; estabelecer, de forma explícita, os seus nexos.
A sabedoria e um apocalipse Para que serve tempo de chorar e tempo
prêt-à-porter a sabedoria de rir; tempo de prantear Cada geração é como se proviesse do nada.
e tempo de dançar; tem-
Na cultura contemporânea vemos «Dediquei-me a investigar e a usar a sa- po de espalhar pedras e
triunfar, por vezes de um modo precipita- bedoria para explorar tudo o que se faz tempo de ajuntar pedras;
do, uma «lógica do apocalipse», que só debaixo do céu» (Ecl 1, 13). Desde as suas tempo de abraçar e tempo de afastar-se Hoje todos corremos, mas sem passarmos
enganadoramente se aproxima daquele bí- primeiras linhas, o livro de Coelet explica de abraçar; tempo de buscar e tempo de o testemunho, sem dizermos ao outro que
blico, com quem — é verdade — partilha que toma a vida, esta nossa vida concreta perder; tempo de guardar e tempo de lhe cabe correr por nós e em nosso nome,
um certo tipo de linguagem, mas que do que se desenrola debaixo do sol, como lançar fora; tempo de rasgar e tempo sem investi-lo desse capital de confiança
ponto de vista dos conteúdos não pode matéria da sua investigação. É à história de coser; tempo de estar calado e tempo que lhe permitirá ser. Esta crise da memó-
ser mais oposto. De facto, a apocalíptica propriamente dita que o autor aplica o seu de falar; tempo de amar e tempo de ria e da transmissão vive-se a todos os ní-
bíblica é uma gramática de esperança, en- coração — sede da inteligência —, para odiar; tempo de guerra e tempo de paz» veis: na família, nas instituições, na socie-
quanto que as múltiplas figurações de perscrutar a realidade nas suas áridas con- (Ecl 3, 1-8). dade no seu conjunto.
Na era da comunicação fica tanto por
dizer, porventura o essencial. Vivemos
mergulhados em mensagens, mas adoeci-
dos por uma afasia, uma incapacidade de
interpretar a vida em profundidade e de
estabelecer, de forma explícita, os seus ne-
xos. Cada geração é como se proviesse do
nada. Não raro, as novas gerações olham
para trás e não identificam testemunhas,
transmissores, mediadores para a passa-
gem que devem fazer de uma margem a
outra. Agravado pelo surto tecnológico
que carateriza o nosso tempo, somos to-
dos um pouco como árvores sem raízes.
Erradamente pensamos que somos os an-
tepassados de nós mesmos e quebramos
assim o fio precioso da tradição. Daí a ina-
diável urgência de relançar uma aliança
intergeracional. A transmissão revela-nos
não o que podemos aprender, mas aquilo
que somos. Explica-nos claramente que
nós não estamos na origem de nós pró-
prios, mas que somos aquilo que recebe-
mos dos outros, somos expressão do dom,
uma preciosa herança que nos transcende.
Transmitir consiste em integrar o ser hu-
mano numa história. É dizer-lhe: tu és is-
ORE ROMANO número 5, terça-feira 2 de fevereiro de 2021, página 5

«Golconda», René Magritte (1953)

O revelar-se do próprio Deus

A sabedoria deve entender-se como a


qualificação da vida humana que se con-
fronta com as grandes questões da existên-
cia numa abertura ao mistério, que a poe-
tisa norte-americana Emily Dickinson
chamava «aquela imensidão não se pode
perder». Num dos seus poemas, Dickin-
son desafiava deste modo o leitor: «De-
baixo! Explora-te a ti mesmo! /Pois den-
tro de ti encontrarás/o continente desco-
nhecido». Sem essa abertura ao transcen-
dente, sem essa exploração do divino que
nos atravessa, como declara Coelet, «tudo
é vaidade» (Ecl 1, 2). O termo «vaidade»,
tão repetido nesta obra bíblica, tem um
uso metafórico específico que visa alertar
para a inconsistência, o non-sense, muitas
vezes o estranho teatro do absurdo em que
a condição humana se pode tornar quan-
do se fecha apenas num horizonte de rea-
lização intra-histórica. Viver assim é «vai-
dade», é aceitar correr inutilmente atrás
do vento (Ecl 1, 14). Pois ao Ser Humano
não basta a gestão das questões penúlti-
mas, nem estas podem jamais substituir o
confronto com o horizonte das questões
to, tu és parte de um passado ou de um fu- junto ao poço, e o pó volte à terra, como o síntese, competentes na arte de iluminar últimas. A conclusão de Coelet é, por isso,
turo, tu és coprotagonista de uma comuni- era, e o espírito volte a Deus, que o deu» um sentido para aquilo que vivemos. a seguinte: «Teme a Deus e guarda os seus
dade e de uma história comum. — Ecl 12, 6-7). Ou, como diz Coelet noutra Abundam os saberes, mas escasseia a sa- mandamentos; porque isto é o homem»
passagem, «para aquele que está entre os bedoria. Porém, o que ilumina, argamassa (Ecl 12, 13).
vivos há esperança» (Ecl 9, 4). O tempo e alicerça a vida é necessariamente uma sa- Na verdade, a sabedoria não é apenas,
2. A crise dos modelos não nos pode apenas consumir sem que bedoria. A sabedoria significa não um do ponto de vista da fé bíblica, uma ética
de felicidade através dele nos encaminhemos para a conceito, mas uma experiência integral da da existência humana sobre este mundo.
consumação da promessa. Nesse sentido, própria vida; um olhar de conjunto que
A segunda tese do Livro de Coelet é a podemos dizer que Coelet ilumina a crise abarque não apenas a parte, mas o todo;
de que é insensato fundar a busca de rea- de maturação porque passa o homem con- não apenas o indivíduo, mas a comunida-
lização numa visão materialista, utilitária e temporâneo que resiste a aceitar a verda- de; não apenas o que fomos, mas o que so- No mundo de hoje, temos especialistas de todo
hedonista da vida. E o sábio refere o deira natureza do tempo. A conclusão de mos e seremos. Ora, as religiões represen- o género, tornámo-nos uma sociedade de
exemplo da sua própria história: «Fiz para Coelet é que há um tempo para tudo, e a tam, nesse sentido, um património inalie-
mim obras magníficas; edifiquei para mim vida nos pede uma visão poliédrica e inte- nável de sabedoria colocado ao serviço do peritos... Mas faltam-nos mestres capazes de fazer
casas; plantei para mim vinhas. Fiz para gradora, capaz de espelhar a totalidade. A humano. Recorda o Papa Francisco na uma síntese, competentes na arte de iluminar
mim hortas e jardins... Fiz para mim tan- existência não está imunizada. Ela não é conclusão da Encíclica Fratelli tutti: «A par-
ques de águas... Adquiri servos e servas... conduzida por um determinismo que a tir da nossa experiência de fé e da sabedo- um sentido para aquilo que vivemos.
Amontoei também para mim prata e ouro, torna indiferente às circunstâncias. É uma ria que se vem acumulando ao longo dos Abundam os saberes, mas escasseia a sabedoria.
e tesouros dos reis e das províncias. E fui ilusão pensar que temos tudo sob contro- séculos e aprendendo também das nossas
engrandecido, e aumentei mais do que to- le. Mas, no fundo, a proposta de Coelet é inúmeras fraquezas e quedas, como cren-
dos os que houve antes de mim em Jerusa- teológica: ele afirma que há o tempo de tes das diversas religiões sabemos que tor-
lém» (Ecl 2, 4-9). Mas quando se reduz a Deus que ultrapassa e muitas vezes revo- nar Deus presente é um bem para as nos-
existência à sua estrita materialidade che- luciona a previsibilidade do tempo huma- sas sociedades. Buscar a Deus com cora- Não é por acaso que num determinado
ga o momento, como confessa Coelet, em no. Muitas vezes o homem não chega a ção sincero, desde que não o ofusquemos momento da revelação bíblica se passa a
que se compreende que «tudo era vaidade perceber plenamente o sentido e as liga- com os nossos interesses ideológicos ou falar de «sabedoria» como uma qualidade
e aflição de espírito, e que proveito ne- ções de tudo aquilo que acontece. O sen- instrumentais, ajuda a reconhecer-nos co- divina. A sabedoria outra coisa não é que
nhum havia debaixo do sol» (Ecl 2, 11). A tido do tempo na sua duração total excede mo companheiros de estrada, verdadeira- o revelar-se do próprio Deus, do Seu Espí-
sabedoria de Coelet revela assim a crise o nosso olhar, pertence ao plano do misté-
dos modelos de felicidade assentes no rio. E não podemos perder o sentido do
bem-estar material. Falta uma visão inte- mistério. A vida é maior do que a expres-
gral da vida e que é necessariamente uma são da existência individual ou da de uma
visão sapiencial que abrace a existência época. Não nos basta um conceito de tem-
humana na sua inteireza. A nossa socieda- po linear, ininterrupto, mecanizado, pura-
de declarou como um tabu a doença, o so- mente histórico. O continuum homogéneo
frimento, o envelhecimento ou a morte. do tempo que a teoria do progresso dese-
Mitifica o sucesso, a beleza, uma ideia su- nha não conhece a rutura trazida pela no-
perficial de juventude. Nesse sentido a de- vidade surpreendente do Espírito. Contu-
núncia de Coelet é muito atual, pois em do, o momento presente não é apenas
sociedades de consumo como as nossas uma passagem horizontal, quantitativa, na
tornamo-nos facilmente analfabetos da vi- perspetiva de uma realização entre este
da e das suas expressões fundamentais. instante e o que lhe sucede. Mas o presen-
Numa sociedade vista como um mercado te tem também um sentido vertical que re-
facilmente nos esquecemos daquilo que qualifica o tempo, abrindo-o à eternidade.
não se compra nem se vende. A felicidade, É o tempo qualitativo, epifânico. É o tem-
de facto, não é um automatismo, mas uma po da Promessa e da Salvação.
construção sapiencial. É uma outra visão
mais ampla e abrangente do que aquela
que possuímos. Muitas vezes é a vulnera- Por um ecumenismo sapiencial
bilidade o nosso inesperado mestre, pois
nos revela a nossa condição, aquilo que Por tudo o que dissemos já, Coelet não
preferimos não ver. só é um nosso contemporâneo, mas é tam-
bém um mestre do ecumenismo: de um
ecumenismo sapiencial. A fé que as reli-
3. A crise de maturação giões representam não é, nem pode ser
ou a prova do tempo uma espécie de escapismo que magica-
mente ignora ou passa ao lado dos nós ce-
A terceira tese de Coelet é a de que pre- gos da existência, das suas expectativas,
cisamos compreender o que seja o tempo, fadigas e deceções. As religiões, na sua ar- mente irmãos» (Ft, 274 ). Talvez nós pró- rito que atravessa e impregna de energia
tanto na sua precariedade (pois nascemos quitetura, integram uma sapiencial obser- prios, homens e mulheres religiosos, per- santificante a história e os acontecimentos.
e morremos, tudo tem um princípio e um vação da vida e dos seus acontecimentos. tencentes a tradições diversas, possamos O discurso da sabedoria faz-nos assim
fim), como na sua oportunidade (pois é No mundo de hoje, temos especialistas de juntos fazer mais quanto à curiosidade, ao transitar da ética para a mística.
enquanto temos tempo que se pode atuar: todo o género, tornámo-nos uma socieda- conhecimento e à valorização do imenso
«Antes que se rompa o cordão de prata, e de de peritos, mais do que nunca a técnica repositório de sabedoria que cada religião
se quebre o copo de ouro, e se despedace e a ciência impõem os seus padrões. Mas representa. E possamos investir mais num *Arquivista e bibliotecário da Santa Igreja
o cântaro junto à fonte, e se quebre a roda faltam-nos mestres capazes de fazer uma ecumenismo sapiencial. Romana
página 6 L’OSSERVATORE ROMANO terça-feira 2 de fevereiro de 2021, número 5

Discurso para a inauguração do ano judiciário do Tribunal da Rota romana

Um caminho eclesial
com as famílias e pela família
Na manhã de 29 de janeiro, na Sala Clementina do Palácio Apostólico do Va-
ticano, o Papa recebeu em audiência os prelados auditores, oficiais, advogados e
colaboradores do Tribunal da Rota romana, por ocasião da solene inauguração
do ano judiciário. Após a saudação que lhe foi dirigida pelo decano, Mons. Pio
Vito Pinto — que agradeceu a Francisco a sua atenção à «primazia da família-
matrimónio» e salientou em particular que sobre esta questão «o esforço de
acompanhar, discernir e integrar exige, acima de tudo, fiel e perseverante obediên-
cia ao espírito dos pastores, bem como dos fiéis» — o Pontífice pronunciou o se-
guinte discurso.

Estimados irmãos e irmãs! senvolvimento permanente»


Deveria falar de pé, mas sabeis (Discurso à Federação Europeia das
que a ciática é um hóspede um Associações Familiares Católicas, 1 de
pouco incómodo. Peço-vos junho de 2017). Consequente-
desculpa e falarei sentado. mente, somos chamados a
Sinto-me feliz por me en- identificar o caminho que con-
contrar convosco por ocasião duz a escolhas congruentes
da inauguração do ano judiciá- com os princípios afirmados.
rio. Saúdo a todos cordialmen- Todos estamos conscientes de
te: o Decano, Mons. Pio Vito quão árdua é a transição dos
Pinto, a quem agradeço as suas princípios para os factos.
palavras, os Prelados Audito- Quando falamos do bem inte-
res, os Oficiais e os Colabora- gral das pessoas, é necessário
dores do Tribunal da Rota Ro- perguntar-nos como isto pode
mana. acontecer nas muitas situações
Gostaria de me referir ao dis- em que os filhos se encontram.
curso do ano passado, em par- A nova união sacramental,
ticular ao tema que aborda uma que se segue à declaração de
boa parte das decisões da Rota nulidade, será certamente uma
nos últimos tempos: por um la- fonte de paz para o cônjuge
do, a falta de fé, que não ilumi- que a solicitou. No entanto, co-
na a união conjugal como deve- mo explicar aos filhos que —
ria — o meu predecessor Bento por exemplo — a mãe, abando- sível, que diz respeito à preocu- bem dos filhos, a sua paz ou, cônjuge abandonado e possi- caneta à mão?” — “Sim” — “As-
XVI já o denunciara publica- nada pelo pai e muitas vezes pação pelos filhos, como víti- pelo contrário, a perda da ale- velmente dos filhos que sofrem sina. És o juiz, sem tantos ro-
mente três vezes — por outro la- não disposta a estabelecer ou- mas inocentes de tantas situa- gria face à separação. Que a as decisões, por mais justas e le- deios”.
do, os aspetos fundamentais tro vínculo matrimonial, rece- ções de rutura, divórcio ou no- oração — os juízes devem rezar gítimas que sejam, de nulidade Mas esta reforma, especial-
desta união que, além do casa- be a Eucaristia dominical com vas uniões civis (cf. ibid., 245). muito! — e o empenho comum matrimonial. mente o processo breve, teve e
mento entre homem e mulher, eles, enquanto o pai, conviven- Trata-se de exercer a vossa mis- realcem esta realidade humana, Queridas irmãs e irmãos, são tem muitas resistências. Con-
incluem o nascimento e o dom te ou aguardando a declaração são de juízes como um serviço muitas vezes dolorosa: uma fa- estas as considerações que faço fesso: depois desta promulga-
dos filhos e o seu crescimento. de nulidade do casamento, não cheio de sentido pastoral, que mília dividida e outra que, co- questão de apresentar à vossa ção recebi cartas, muitas, não
Sabemos que a jurisprudên- pode participar na mesa euca- nunca pode faltar na delicada mo resultado, é formada, mi- atenção, na certeza de encon- sei quantas, mas muitas. Quase
cia da Rota Romana, em har- rística? Na Assembleia Geral decisão sobre a nulidade ou nando aquela unidade que fez trar em vós pessoas dispostas a todos os advogados que esta-
monia com o magistério ponti- Extraordinária do Sínodo dos não de uma união conjugal. a alegria dos filhos na união an- partilhá-las e a fazê-las pró- vam a perder os seus clientes. E
fício, ilustrou a hierarquia dos Bispos de 2014 e na Assembleia Muitas vezes pensamos na de- terior. prias. Exprimo a cada um em há o problema do dinheiro. Em
bens do matrimónio, esclare- Ordinária de 2015, os Padres si- claração de nulidade matrimo- Aproveito esta oportunida- particular o meu apreço, na Espanha dizem: “Por la plata bai-
cendo que a figura da bonum fa- nodais, refletindo sobre o tema nial como um ato frio de mera de para exortar cada Bispo — confiança de que o Tribunal da la el mono”: por dinheiro o maca-
miliae vai muito além da refe- da família, fizeram a si próprios Rota Romana, máxima mani- co dança. É um ditado que é
rência aos motivos de nulidade; estas perguntas, compreenden- festação da sabedoria jurídica claro. E também isto com dor:
embora no passado se tenha do também que é difícil, e às da Igreja, continuará a realizar vi nalgumas dioceses a resistên-
aberto um certo vislumbre de vezes impossível, oferecer res- com coerência o seu munus não cia de algum vigário judicial
um hipotético motivo de nuli- postas. Contudo, as preocupa- fácil ao serviço do desígnio di- que com esta reforma perdeu,
dade ligado ao bonum familiae. ções dos Padres sinodais e a so- vino para o matrimónio e a fa- não sei, um certo poder, por-
Essa possibilidade foi oportu- licitude materna da Igreja face mília. Invocando os dons do que percebeu que o juiz não era
namente fechada, reforçando a tanto sofrimento encontra- Espírito Santo sobre vós e a ele, mas o bispo.
assim a figura teológica da fa- ram um instrumento pastoral vossa obra, concederei de cora- Agradeço a Mons. Vito Pio
mília como efeito do matrimó- útil na Exortação Apostólica ção a Bênção Apostólica. E pe- Pinto pela coragem que teve e
nio, tal como prefigurado pelo Amoris laetitia. Neste documento ço-vos também, por favor, que também pela estratégia de le-
Criador. Da minha parte, não são dadas indicações claras pa- rezeis por mim. var por diante esta forma de
deixei de recomendar que o bo- ra que ninguém, especialmente E hoje não gostaria de termi- pensar, de julgar, até ao voto
num familiae não seja visto de os pequenos e os que sofrem, nar sem um comentário mais unânime, o que me deu a possi-
modo negativo, como se pu- seja deixado sozinho ou trata- familiar entre nós, porque o bilidade de assinar [o Docu-
desse ser considerado um dos do como meio de chantagem nosso querido Decano comple- mento].
motivos de nulidade. Com efei- entre pais separados (cf. Exor- tará, dentro de alguns meses, a A dupla sentença. O senhor
to, é sempre e em qualquer caso tação Apostólica Amoris laetitia, juventude dos 80 anos e deverá citou o Papa Lambertini, um
o fruto bendito do pacto conju- 241). Como sabeis, no próximo deixar-nos. Gostaria de lhe grande homem de liturgia, de
gal; não se pode extinguir in toto dia 19 de março terá início o agradecer o trabalho que reali- direito canónico, do bom sen-
pela declaração de nulidade, “Ano da Família Amoris laetitia”. zou, nem sempre compreendi- so, até de sentido de humor,
porque ser família não pode ser Também vós, com o vosso tra- do. Acima de tudo, gostaria de mas infelizmente teve de fazer a
considerado um bem suspenso, balho, ofereceis uma valiosa agradecer a Mons. Vito Pio dupla sentença devido a pro-
na medida em que é o fruto do contribuição para este percurso Pinto a tenacidade com que le- blemas económicos nalgumas
plano divino, pelo menos para eclesial com as famílias pela fa- “decisão jurídica”. Mas não é constituído por Cristo como vou a cabo a reforma dos pro- dioceses. Mas voltemos à ver-
a descendência gerada. Os côn- mília. nem pode ser assim. As senten- Pai, Pastor e Juiz na própria cessos matrimoniais: apenas dade: o juiz é o bispo. Deve ser
juges com os filhos dados por Caros Juízes, nas vossas sen- ças do juiz eclesiástico não po- Igreja — a estar cada vez mais uma sentença, depois o proces- ajudado pelo vigário judicial,
Deus são a nova realidade a tenças não deixeis de dar teste- dem prescindir da memória, aberto ao desafio ligado a esta so breve, que foi uma novida- deve ser ajudado pelo promo-
que chamamos família. munho deste anseio apostólico feita de luzes e sombras, que questão. Trata-se de prosseguir de, mas era natural porque o tor de justiça, deve ser ajudado,
Face a um matrimónio legal- da Igreja, considerando que o marcaram uma vida, não só dos tenazmente e levar a bom ter- bispo é o juiz. mas é ele o juiz, não pode lavar
mente declarado nulo, a parte bem integral das pessoas exige dois cônjuges mas também dos mo um caminho eclesiológico e Lembro-me que, pouco de- as mãos. Voltar a isto que é a
que não está disposta a aceitar que não permaneçamos inati- filhos. Cônjuges e filhos consti- pastoral necessário, destinado pois da promulgação do pro- verdade evangélica.
tal medida é, no entanto, com vos perante os efeitos desastro- tuem uma comunidade de pes- a não deixar apenas à interven- cesso breve, um bispo telefo- E depois agradeço também a
os filhos, um unum idem. Portan- sos que uma decisão sobre a soas, que está sempre e certa- ção das autoridades civis os nou-me para me dizer: “Tenho Mons. Vito Pio Pinto pelo seu
to, é necessário ter em conta a nulidade matrimonial pode mente identificada com o bem fiéis que sofrem por julgamen- um problema: uma jovem quer entusiasmo em fazer catequese
questão relevante: o que será acarretar. Ao vosso Tribunal da família, mesmo quando esta tos não aceites e a que foram casar na Igreja; já tinha casado sobre este tema. Ele viaja pelo
dos filhos e da parte que não Apostólico, bem como aos ou- se desmoronou. submetidos. A fantasia da cari- há alguns anos na Igreja, mas mundo ensinando isto: é um
aceita a declaração de nulida- tros Tribunais da Igreja, é pedi- Não nos devemos cansar de dade favorecerá a sensibilidade foi obrigada a casar porque es- homem entusiasta, mas entu-
de? Até agora tudo parecia ób- do que «se tornem mais acessí- dedicar toda a atenção e cuida- evangélica face às tragédias fa- tava grávida... Fiz tudo, pedi a siasta em todos os tons, porque
vio, mas infelizmente não o é. veis, ágeis e possivelmente gra- do à família e ao matrimónio miliares cujos protagonistas um sacerdote que agisse como também ele é temperamental!
Por conseguinte, é necessário tuitos todos os procedimentos cristão: aqui investis grande não podem ser esquecidos. É vigário judicial, a outro que de- É um modo negativo — diga-
que as declarações de princípio para o reconhecimento dos ca- parte da vossa solicitude pelo mais urgente do que nunca que sempenhasse o papel de defen- mos — de entusiasmo. Mas ele
sejam seguidas por propostas sos de nulidade» (ibid., 244). A bem das Igrejas particulares. os colaboradores do Bispo, em sor do vínculo... E as testemu- terá tempo para se corrigir...,
deveras adequadas, lembrando Igreja é mãe, e vós, que tendes Que o Espírito Santo, que in- particular o vigário judicial, nhas, os pais dizem que sim, todos nós temos! Gostaria de
sempre que «a família é a base um ministério eclesial numa vocais antes de cada decisão a quantos se ocupam da pastoral que foi forçado, que aquele ca- lhe agradecer. Interpreto os
da sociedade e continua a ser a área tão vital como a atividade tomar sobre a verdade do ma- familiar e especialmente os pá- samento era nulo. Diga-me, aplausos como um aplauso ao
estrutura mais adequada para judiciária, sois chamados a trimónio, vos ilumine e vos aju- rocos, se esforcem por exercer Santidade, o que devo fazer?”, seu mau feitio [risos].
assegurar às pessoas o bem in- abrir-vos aos horizontes desta de a não esquecer os efeitos de esta diaconia de proteção, cui- perguntou-me o bispo. E eu Muito obrigado, Mons. Vito
tegral necessário para o seu de- pastoral, difícil mas não impos- tais atos: em primeiro lugar o dado e acompanhamento do respondi: “Diz-me, tens uma Pio Pinto! Obrigado! [aplausos]
número 5, terça-feira 2 de fevereiro de 2021 L’OSSERVATORE ROMANO página 7

Obra das Franciscanas Missionárias do Imaculado Coração de Maria na Guiné-Bissau

Amar, gerando vida saudável


CRISTINA UGUCCIONI mortalidade materna e neona- dos curandeiros locais, que
tal começa a diminuir signifi- pretendem impor as soluções

C
hega, olha à volta e cativamente; assistimos um da medicina tradicional. A fim
pergunta-se: «O número crescente de mulheres de persuadir as mulheres, o
que posso fazer nas- durante a gravidez e acompa- pessoal do hospital decidiu
cer de bom aqui?». nhamos as jovens mães, cui- oferecer-lhes um pacote de ali-
Esta é a pergunta que brota no dando dos seus bebés». mentos quando, uma vez por
discípulo do Senhor, quando Nessa área do país, a Sida mês, fazem a visita médica pa-
se encontra a viver num canto atinge um número muito ele- ra receber os medicamentos.
vado de pessoas: Outro problema grave que
calcula-se que 8- aflige essa área é a generaliza-
10% das mulheres da subalimentação infantil. A
grávidas estão in- sua causa não é só a indigên-
fetadas com o cia mas também a mentalida-
VIH. Para evitar o de da população. Na Guiné-
risco de transmis- Bissau, os idosos e os homens
são da doença aos adultos são as figuras mais im-
filhos, a irmã Va- portantes e honradas da socie-
leria, com os seus dade: as mulheres, sobre cujos
colaboradores, ombros recai inteiramente o
exorta as mulhe- cuidado das crianças, contam
res seropositivas a muito pouco. As crianças são balimentação: inclui a distri- ção a mudar o seu modo de tence-me, faz-me feliz: não sa-
participar na pre- deveras negligenciadas e pres- buição de um nutriente espe- ver as mulheres e as crianças, é beria viver de outra forma. Es-
venção do progra- ta-se pouca atenção à sua ali- cial para a primeira infância, necessário ampliar a ação edu- tou grata ao Senhor que aben-
ma de transmissão mentação. composto por alimentos locais cativa e intervir na formação çoa amplamente o nosso tra-
vertical, que dura No hospital, as crianças altamente substanciosos. das gerações mais jovens. Por balho: com a sua graça, apesar
desde o início da desnutridas são incluídas em Além disso, o hospital organi- isso, o projeto que mais nos dos poucos meios de que dis-
gestação até 18 dois programas: o primeiro, za regularmente reuniões indi- interessa é a abertura de uma pomos, conseguimos dar vida
meses depois o da Unicef, é reservado à suba- viduais e de grupo para expli- escola: estamos convencidos a crianças que pareciam irre-
parto. O progra- limentação grave; o segundo, car às mães como cuidar e ali- de que a instituição educativa cuperáveis e resolver os pro-
ma demonstrou- proposto pelo Programa ali- mentar adequadamente os pode desempenhar um papel blemas das mães que pareciam
qualquer da terra: olha para o se muito eficaz: em 99% dos mentar mundial, é dedicado à seus filhos. «O trabalho que estratégico na construção de insuperáveis. Esta ação do Se-
mundo de acordo com a lógi- casos, os bebés são seronegati- subalimentação moderada. realizamos dá bons resulta- comunidades que respeitam, nhor reforça continuamente o
ca da geração, que descobriu e vos. Mas com frequência as Existe também um terceiro dos», diz a irmã Valeria. ajudam e honram as mães e os meu desejo de ser seu instru-
conheceu na intimidade de mães não completam este pro- programa, concebido pela ir- «Acreditamos, contudo, que filhos». E refletindo sobre a mento e de ajudar estas criatu-
Deus. Em 2015, com 69 anos, cesso devido ao excesso de tra- mã Valeria e seus colaborado- para apoiar eficazmente a ma- própria experiência, afirma: ras». Amar gerando vida boa:
enviada pela sua Congrega- balho e de pressão da parte res, destinado a prevenir a su- ternidade e ajudar a popula- «A dimensão missionária per- eis a lógica da geração.
ção, a irmã Valeria Amato, en-
fermeira e obstetra pertencen-
te ao Instituto das Francisca-
nas Missionárias do Imacula-

INFORMAÇÕES
do Coração de Maria, chegou
a Nhacra, na região de Oio,
na Guiné-Bissau. Olhou ao Audiências novembro de 1942. Emitiu os votos perpétuos
seu redor e observou que a po- na Ordem franciscana dos Frades Menores Ca-
pulação precisava antes de O Papa Francisco recebeu em audiências parti- puchinhos a 14 de julho de 1966. Foi ordenado
mais nada de cuidados médi- culares: pez, Professor Pesquisador da Divisão nia), D. Damian Bryl, até esta data Bis- Sacerdote a 19 de outubro de 1968 e recebeu a
cos e assim decidiu criar o de Filosofia e Membro do «Consejo po Titular de Suliana e Auxiliar da Ar- Ordenação episcopal em 9 de outubro de
Centro «Madre Maria Cateri- No dia 21 de janeiro de Gobierno del Centro de Investiga- quidiocese Metropolitana de Poznań. 2010.
na Troiani», único posto de O Senhor Cardeal Marcello Seme- ción Social Avanzada» (CISAV), de Membros da Pontifícia Comissão
saúde para os mais de 26.000 raro, Prefeito da Congregação para as Santiago de Querétaro (México). Bíblica, os Rev.dos Padres: Andrés Ma- A 20 de janeiro
habitantes das cinquenta al- Causas dos Santos. ría García Serrano, Professor de Novo D. John Baptist Kaggwa, Bispo
deias daquela área. No dia 22 de janeiro Testamento na «Universidad Eclesiás- Emérito da Diocese de Masaka
A irmã Valeria, que vive No dia 22 de janeiro Consultores do Pontifício Conselho tica San Dámaso», Madrid (Espanha); (Uganda), de Covid-19.
nesse país africano desde 1988 Os Senhores Cardeais Gualtiero para os Textos Legislativos, com espe- Federico Giuntoli, Professor de Anti- O ilustre Prelado nasceu a 23 de março de
e trabalhou nos hospitais de Bassetti, Arcebispo de Perugia — Città cial competência em Direito da Igreja go Testamento no Pontifício Instituto 1943, em Bulenga, Arquidiocese de Kampala,
Cumura e Quinhamel, come- della Pieve (Itália), Presidente da Latina, os Rev.dos Padres: Davide Cito, Bíblico, Roma (Itália); Marcin em Uganda. Recebeu a Ordenação presbiteral
çou a oferecer cuidados, assis- Conferência Episcopal Italiana; Kevin Professor de Direito Penal Canónico Kowalski, Professor de Novo Testa- em 12 de dezembro de 1971 e foi nomeado Bispo
tida por alguns médicos e en- Joseph Farrell, Prefeito do Dicastério na Pontifícia Universidade da Santa mento na Universidade Católica de no dia 24 de junho de 1995.
fermeiros locais, que aumenta- para os Leigos, a Família e a Vida; e Cruz; Andrea D’Auria, F.S.C.B., Do- Lublin (Polónia); Blažej Štrba, Profes-
ram ao longo dos anos. Atual- Robert Sarah, Prefeito da Congrega- cente Ordinário de Direito Canónico sor na Universidade «Comenio» de A 22 de janeiro
mente, o pequeno hospital ção para o Culto Divino e a Disciplina na Pontifícia Universidade Urbania- Bratislava, Badín (Eslováquia); Paul D. Alfredo Magarotto, Bispo Emé-
emprega 25 pessoas e realiza dos Sacramentos. na; Bruno Esposito, O.P., Referendário Béré, S.J., Professor de Sagrada Escri- rito da Diocese de Vittorio Veneto, na
uma média de 11.000 consultas do Supremo Tribunal da Assinatura tura no Pontifício Instituto Bíblico, Itália.
ambulatoriais por ano: trata No dia 23 de janeiro Apostólica e Juiz do Tribunal Eclesiás- Roma (Itália); Philippe Lefebvre, O.P., O venerando Prelado nasceu em Pernumia,
pacientes que sofrem de doen- O Senhor Cardeal Marc Ouellet, tico do Vicariato da Cidade do Vatica- Professor de Antigo Testamento na Diocese de Pádua (Itália), a 16 de fevereiro de
ças muito difundidas na Gui- Prefeito da Congregação para os Bis- no; Sebastiano Paciolla, O.Cist., Pro- «Université de Fribourg» (Suíça); e 1927. Foi ordenado Presbítero em 9 de julho de
né-Bissau como Sida, tubercu- pos. motor de Justiça no Supremo Tribunal Henry Pattarumadathil, S.J., Professor 1950 e recebeu a Ordenação episcopal no dia
lose, parasitose intestinal e da Assinatura Apostólica; e Ulrich de Sagrada Escritura no Pontifício 24 de março de 1990.
malária. Com atenção especial Rhode, S.J., Docente Ordinário de Di- Instituto Bíblico, Roma (Itália); e
às mães e às crianças. Naquele Renúncias reito Canónico na Pontifícia Universi- Suas Ex.cias as Senhoras: Bénédicte A 24 de janeiro
país, as mulheres, na maioria dade Gregoriana; e Sua Ex.cia o Se- Lemmelijn, Professora de Antigo Tes- D. Patrick O’Donoghue, Bispo
analfabetas, tornam-se mães O Sumo Pontífice aceitou a renúncia: nhor Vincenzo Buonomo, Magnífico tamento na «Katholieke Universiteit Emérito da Diocese de Lancaster, na
pela primeira vez numa idade Reitor da Pontifícia Universidade La- Leuven» (Bélgica); e Maria Armida Grã-Bretanha.
muito jovem: com apenas 15 A 25 de janeiro teranense. Nicolaci, Professora de Sagrada Escri- O venerando Prelado nasceu em Mourne
anos. «Geralmente dão à luz De D. Nikolaos Printezis, Arcebis- Consultores do mesmo Pontifício tura na Pontifícia Faculdade Teológica Abbey, Diocese de Cloyne (Irlanda), a 4 de
em casa, sem qualquer assis- po Metropolitano de Naxos, Andros, Conselho para os Textos Legislativos, da Sicília «San Giovanni Evangelis- maio de 1934. Recebeu a Ordenação sacerdotal
tência, o que explica a particu- Tinos e Mykonos, e Administrador com especial competência em Direito ta», Palermo (Itália). no dia 25 de maio de 1967 e foi ordenado Bispo
larmente elevada taxa de mor- Apostólico da Diocese de Chios (Gré- das Igrejas Orientais: D. Elie Béchara Consultores da Congregação para a em 29 de junho de 1993.
talidade materna e neonatal. cia). Haddad, Arcebispo de Sidon dos Gre- Doutrina da Fé: o Rev.mo Mons. Anto-
No nosso centro trabalhamos De D. Joseph Luc André Bouchard, co-Melquitas; D. Hanna G. Alwan, nio Pitta, Pró-Reitor da Pontifícia A 26 de janeiro
com grande dedicação para ao governo pastoral da Diocese de Bispo Titular de Sarepta dos Maroni- Universidade Lateranense; e os Rev.dos D. Luc Julian Matthys, Bispo Emé-
mudar este hábito», diz a irmã Trois-Rivières (Canadá). tas e Bispo de Cúria de Antioquia dos Padres: Luca Ezio Bolis, Professor na rito da Diocese de Armidale, na Aus-
Valeria, hoje coadjuvada por Maronitas; e o Rev.mo Mons. Paul Pal- Faculdade Teológica da Itália Seten- trália.
três religiosas. «Explicamos a A 27 de janeiro lath, Relator da Congregação para as trional; e Alessandro Clemenzia, Pro- O saudoso Prelado nasceu em Drongen,
todas as pessoas — incluindo De D. Antony Anandarayar, ao go- Causas dos Santos. fessor na Faculdade Teológica da Itá- Diocese de Gent (Bélgica), no dia 3 de maio de
os chefes das aldeias que en- verno pastoral da Arquidiocese Metro- lia Central. 1935. Foi ordenado Presbítero em 2 de dezem-
contramos periodicamente — politana de Pondicherry and Cudda- No dia 25 de janeiro bro de 1961 e recebeu a Ordenação episcopal a
como é importante que as mu- lore (Índia). Arcebispo Metropolitano de Na- 14 de maio de 1999.
lheres deem à luz em hospi- xos, Andros, Tinos e Mykonos, e Ad- Prelados falecidos
tais, onde a vida da mãe e do ministrador Apostólico da Diocese de
recém-nascido são bem cuida- Nomeações Chios, na Grécia, o Rev.do Pe. Josif Adormeceram no Senhor: Início de Missão
das. Este trabalho de sensibili- Printezis, até agora Pároco da Cate- de Núncios Apostólicos
zação dá bons frutos e senti- O Santo Padre nomeou: dral de Syros. A 19 de janeiro
mo-nos felizes por isto: hoje D. Josif Printezis nasceu no dia 6 de feve- D. William Regis Fey, Bispo Eméri- De D. Bernardito Auza, no Princi-
seguimos aproximadamente No dia 21 de janeiro reiro de 1970, em Poseidonia, Ilha de Syros to da Diocese de Kimbe (Papua-Nova pado de Andorra (5 de outubro de
cinquenta nascimentos por Membro Ordinário da Pontifícia (Grécia), e foi ordenado Sacerdote em 15 de ju- Guiné), de Covid-19. 2020).
mês, enquanto no início eram Academia das Ciências Sociais, Sua lho de 1995. O saudoso Prelado nasceu em Pittsburgh, De D. Giovanni Gaspari, em Ango-
apenas cerca de quinze. A Ex.cia o Senhor Rodrigo Guerra Ló- Bispo da Diocese de Kalisz (Poló- nos Estados Unidos da América, no dia 6 de la (15 de dezembro de 2020).
página 8 L’OSSERVATORE ROMANO terça-feira 2 de fevereiro de 2021, número 5

ANGELUS — Será celebrado no quarto domingo de julho

O Papa instituiu o Dia mundial


dos avós e dos idosos
«Decidi instituir o Dia mundial dos avós e dos idosos, que será celebrado mundo. Aquele possuído — mas, todos temos pecados,
na Igreja inteira todos os anos no quarto domingo de julho, próximo da aquele homem possuído, ob- todos temos doenças espiri-
festa dos Santos Joaquim e Ana, “avós” de Jesus», anunciou de surpresa o cecado — alcançado pelo co- tuais. Peçamos a Jesus: “Je-
Papa no final do Angelus de 31 de janeiro. Antes de presidir à recitação da mando do Senhor, é libertado sus, tu és o profeta, o Filho
prece mariana da Biblioteca particular do Palácio apostólico — ainda sem e transformado numa nova de Deus, aquele que nos foi
a presença de fiéis por causa da Covid-19 — o Pontífice comentou o Evan- pessoa. Além disso, a prega- prometido para nos curar.
gelho do quarto domingo do tempo comum (Mc 1, 21-28). ção de Jesus pertence a uma Cura-me!” Pedir a Jesus a cu-
lógica oposta à do mundo e ra dos nossos pecados, dos
Amados irmãos e irmãs, quê? Porque a Sua palavra do maligno: as suas palavras nossos males.
bom dia! realiza o que Ele diz. Porque revelam-se como a viragem A Virgem Maria guardou
A passagem do Evangelho de Ele é o profeta definitivo. de uma ordem errada das coi- sempre no seu coração as pa-
hoje (cf. Mc 1, 21-28) relata Mas porque digo isto, que sas. Com efeito, o demónio lavras e os gestos de Jesus, e
um dia típico no ministério Ele é o profeta definitivo? presente no homem possuído seguiu-o com total disponibi-
de Jesus; em particular, trata- Recordemos a promessa de grita quando Jesus se aproxi- lidade e fidelidade. Que ela
se de um sábado, dia dedica- Moisés. Moisés diz: «O Se- ma: «Que tens que ver con- nos ajude também a ouvi-lo e
do ao descanso e à oração; o nhor, teu Deus, te suscitará nosco, Jesus de Nazaré? Vies- a segui-lo, a experimentar nas
povo ia à sinagoga. Na sina- dentre os teus irmãos um pro- te para nos perder?» (v. 24). nossas vidas os sinais da sua
goga de Cafarnaum, Jesus lê feta como eu: é a ele que de- Estas expressões indicam a salvação.
e comenta as Escrituras. Os vereis ouvir» (cf. Dt 18, 15). total estranheza entre Jesus e
presentes são atraídos pela Moisés anuncia Jesus como o Satanás: estão em planos No final do Angelus, o Santo Padre
forma como ele fala; eles fi- profeta definitivo. Por esta completamente diferentes; falou sobre a festa da Apresentação
cam muito admirados porque razão [Jesus] fala não com não há nada em comum entre de Jesus no templo, celebrada a 2
demonstra uma autoridade autoridade humana, mas com eles; são um o oposto do ou- de fevereiro, anunciando o Dia dos
avós e dos idosos; em seguida, re-
cordou o Dia dos hansenianos e
saudou os jovens da Ação católica
romana — representados por um pe-
queno grupo que participou na re-
citação da prece na Biblioteca —
ouvindo a mensagem anual da
“Caravana da paz”, lida por dois
adolescentes. tos e que os netos se encon- da Ação Católica desta Dio-
trem com os avós, porque — cese de Roma — alguns deles
Estimados irmãos e irmãs! como diz o profeta Joel — os estão aqui — reunidos em se-
Depois de amanhã, 2 de feve- avós diante dos netos sonha- gurança nas suas paróquias
reiro, celebraremos a Festa da rão, terão ilusões [grandes ou ligados online, por oca-
Apresentação de Jesus no desejos], e os jovens, haurin- sião da Caravana da Paz. Ape-
Templo, quando Simeão e do força dos avós, seguirão sar da emergência sanitária,
Ana, ambos idosos, ilumina- em frente, profetizarão. E também este ano, ajudados
dos pelo Espírito Santo, reco- precisamente a 2 de fevereiro pelos seus pais e educadores
nheceram Jesus como o Mes- é a festa do encontro dos e pelos sacerdotes assistentes,
sias. O Espírito Santo ainda avós com os netos. promoveram esta bonita ini-
hoje suscita pensamentos e Hoje celebramos o Dia ciativa. Ide em frente com as
palavras de sabedoria nos mundial dos doentes de lepra, ini- iniciativas, muito bem, conti-
idosos: a sua voz é preciosa ciado há mais de sessenta nuai assim! Em frente, cora-
porque canta os louvores de anos por Raoul Follereau e gem! Muito bem, obrigado.
Deus e conserva as raízes dos levado por diante especial- E agora ouviremos juntos a
povos. Eles recordam-nos que mente pelas associações inspi- mensagem que alguns deles,
a velhice é um dom e que os radas no seu trabalho huma- em nome de todos, vão ler.
avós são a ligação entre as ge- nitário. Expresso a minha [Leitura da mensagem]
rações, para transmitir aos jo- proximidade àqueles que so- Normalmente, estes jovens
diferente da dos escribas (v. autoridade divina, porque tro. Jesus, com autoridade, vens a experiência da vida e frem desta doença, e encorajo trariam balões para lançar pe-
22). Além disso, Jesus revela- tem o poder de ser o profeta que atrai as pessoas com a da fé. Os avós são muitas ve- os missionários, profissionais la janela, mas hoje estamos
se poderoso também em definitivo, ou seja, o Filho de sua credibilidade, e também zes esquecidos e nós esquece- de saúde e voluntários empe- aqui fechados, por isso não o
obras. De facto, um homem Deus que nos salva, que nos o profeta que liberta, o profe- mos esta riqueza de preservar nhados no seu serviço. A podemos fazer. Mas, no pró-
na sinagoga vira-se contra ele, cura a todos. ta prometido que é o Filho as raízes e de as transmitir. pandemia confirmou como é ximo ano, fá-lo-emos certa-
interrogando-o como Enviado O segundo aspeto, o das de Deus que cura. Ouvimos Por esta razão, decidi instituir necessário proteger o direito à mente!
de Deus; Ele reconhece o es- curas, mostra que a pregação as palavras de Jesus que têm o Dia Mundial dos Avós e dos saúde das pessoas mais frá- Dirijo as minhas cordiais
pírito maligno, ordena-lhe de Cristo tem como objetivo autoridade? Sempre, não vos Idosos, que terá lugar na Igreja geis: espero que os líderes das saudações a todos vós que
que saia daquele homem, e derrotar o mal presente no esqueçais, trazei um pequeno inteira todos os anos no quar- Nações unam os seus esforços participais através dos vários
assim expulsa-o (vv. 23-26). homem e no mundo. A sua Evangelho no bolso ou na to domingo de julho, na pro- para tratar aqueles que so- meios de comunicação. Dese-
Aqui vemos os dois ele- palavra aponta diretamente bolsa, para o lerdes ao longo ximidade da festa dos Santos frem do mal de Hansen e pa- jo-vos bom domingo. Por fa-
mentos caraterísticos da ação contra o reino de Satanás, co- do dia, para ouvirdes essa pa- Joaquim e Ana, os “avós” de ra promover a sua inclusão vor, não vos esqueçais de re-
de Jesus: a pregação e a obra loca-o em crise e fá-lo retro- lavra importante de Jesus. E Jesus. É importante que os social. zar por mim. Bom almoço e
taumatúrgica de cura: prega e ceder, obriga-o a deixar o depois, todos temos proble- avós se encontrem com os ne- Saúdo com afeto os jovens até à vista!
cura. Ambos os aspetos são
frisados na passagem do
evangelista Marcos, mas o
mais evidenciado é a prega-
ção; o exorcismo é apresenta-
do como uma confirmação da
Hino da JMJ
sua singular “autoridade” e
do seu ensinamento. Jesus
de Lisboa 2023
prega com a própria autori-
dade, como alguém que pos- Há Pressa no Ar é o título do hino do
sui uma doutrina que extrai próximo encontro internacional da
de si mesmo, e não como os Jornada mundial da juventude, que
escribas que repetiam tradi- terá lugar em Lisboa em 2023. O tre-
ções e leis recebidas. Repe- cho — acompanhado por um vídeo —
tiam palavras, palavras, só pa- inspira-se no tema do evento: «Maria
lavras, como cantava a grande levantou-se e partiu apressadamente»
Mina. Eram assim: só pala- (Lc 1, 39).
vras. Ao contrário, em Jesus, O texto do hino foi escrito pelo pa-
a palavra tem autoridade, Je- dre João Paulo Vaz e a música foi
sus tem autoridade. E isto to- composta por Pedro Ferreira, ambos
ca o coração. O ensino de Je- da diocese de Coimbra. Os arranjos
sus tem a mesma autoridade foram cuidados por Carlos Garcia. O
de Deus que fala; de facto, hino está disponível no site do Dicas-
com um único comando, ele tério para os leigos, a família e a vi-
liberta facilmente o possuído da:
pelo maligno e cura-o. Por- www.laityfamilylife.va