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Dossiê América Latina

Ricardo G. Borrmann

Futuro passado ou a contribuição


de Reinhart Koselleck como
ferramenta de análise
metodológica para o contexto
latino americano
Ricardo G. Borrmann*

*
Bacharel em ciências sociais pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ) e mestre em ciência política pela
Universidade Federal Fluminense (UFF).

Introdução

O
presente trabalho pretende ser uma breve análise da con-
tribuição teórica do historiador alemão Reinhart Koselleck
(1923-2006). Daremos ênfase especial aos desdobramen-
tos metodológicos gerais em suas inter-relações com o período his-
tórico analisado.
A partir da ideia de “futuro passado”, Koselleck formula uma
análise das expectativas de futuro e dos diversos tempos históricos,
distante de qualquer marco analítico de uma teoria da história maior
do que ela própria, ou seja, fora dela mesma. Sua noção de futuro

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passado, como um “futuro concebido pelas gerações passadas”1,


permite, portanto, uma analise diretamente situada historicamen-
te e inscrita em determinado contexto social e político. A história é
vista como resultado direto de determinadas relações sócio-políti-
cas e analisada tendo em vista às permanências e alterações que
nela se operaram. Koselleck não adota qualquer concepção pré-
estabelecida de um padrão do que seria a história. Preocupa-se,
consequentemente, com a história como ela foi vista em cada tem-
po, a partir de conceitos-chave para uma compreensão histórica da
realidade social. Sua concepção de história carrega desdobramen-
tos metodológicos fundamentais, pois postula múltiplas possibili-
dades de tempos históricos, que, por sua vez, devem ser levadas
em conta pelo analista.
Nas palavras do próprio autor:

“Sob o ponto de vista dessas investigações, mantém-se inalterada a


importância das condições de longa duração que se perpetuam des-
de o passado, condições que, aparentemente, caíram no esquecimen-
to. Esclarecê-las é tarefa da história estrutural, à qual os seguintes
estudos pretendem ter dado sua contribuição.” 2

Trata-se de uma pesquisa que se debruça sobre a noção do


tempo histórico numa perspectiva de longa duração, onde a
análise linguística por dentro de uma história dos conceitos
(Begriffsgeschichte) se articula com uma teoria (histórica) da histó-
ria (Historik). A linguagem figura aí como elemento importante
de análise das transformações que forjaram a modernidade euro-
péia na passagem do século XVIII para o século XIX. Seu estudo
possibilita uma percepção mais acurada da forma como esta
modernidade foi percebida pelos seus próprios atores, assim como
a maneira pela qual expectativas, esperanças e prognósticos foram
trazidos à superfície (por meio da linguagem), revelando a justa-

1 KOSELLECK, Reinhart. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janei-
ro: Contraponto/PUC-Rio, 2006, p. 23.
2 IDEM, p. 16.

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posição de diferentes espaços da experiência e o entrelaçamento de


distintas perspectivas de futuro. Neste enfoque, cada tempo pre-
sente configura-se como uma relação de reciprocidade entre uma
dimensão temporal do passado e outra do futuro, relação esta que
se concretiza na conjuntura, ou seja, no tempo presente, no ‘ago-
ra’, conformando expectativas, que influem no espectro de ações
dos agentes. Dessa forma, “as permanências culturais de longa
duração”3 tem importância central para a análise proposta por
Koselleck.
O tempo seria, então, algo diverso daquele tempo gregoriano4
dos calendários, a-histórico, essencial, sugerindo uma abordagem
do mesmo enquanto construção sócio-cultural, que produz uma
maneira específica de relacionamento entre o que foi experimenta-
do como passado e as possibilidades que se descortinam em dire-
ção ao futuro.
Fica claro que Koselleck não fala apenas de um tempo histórico,
mas de muitos tempos, que se sobrepõem uns aos outros. Noções
de tempo histórico inscritas na história, que se mesclam, superpõem-
se e assimilam-se umas às outras, permitindo que se vislumbre, em
cada dinâmica temporal (histórica) distinta, épocas inteiras.
Essa questão metodológica de uma teoria da história verdadei-
ramente histórica quebra com a ideia de uma ordem (natural) da
história ou de uma essência desta. Por outro lado, dentro dessa
perspectiva, não há com não frisar a importância da longa duração
e das “condições que aparentemente caíram no esquecimento”. Tais

3 BRAUDEL, Fernand. “A Longa duração”. In: História e Ciências Sociais. Lisboa: Editorial Presença,
1990, p. 15.
4 O termo “gregoriano” possui, de acordo com o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, dois
significados: 1.) “relativo ao santo e papa Gregório I (c540-604), reformador do papado e da
liturgia da Igreja católica e arquiteto da sociedade cristã medieval, a quem se deve haver coligido
o repertório do cantochão”. 2.) “relativo ao papa Gregório XIII (regn. 1572-1585) e à reforma do
calendário por ele realizada”. Quando utilizamos o adjetivo gregoriano ao referir-nos ao tempo,
fazemos menção à segunda acepção, relacionada ao papa Gregório XIII, contudo, é interessante
frisar a pregnância das conotações cristãs no adjetivo citado, ambos referidos a papas de funda-
mental importância para a Igreja católica romana. O primeiro conhecido como “arquiteto da
sociedade cristã medieval” e o segundo (Gregório XIII), responsável pelo calendário vigente
atualmente pelo globo todo, bem como, ao lado de Paulo II, Júlio III, Paulo IV, Pio V e Sisto V,
um dos grandes orientadores da contra-reforma.

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“resquícios esquecidos” permitem um melhor entendimento de


determinados períodos históricos.
Impossível não lembrar o texto de Marx, onde este afirma que a
análise da sociedade burguesa nos permite compreender “a estru-
tura e as relações de produção de todas as formas de sociedade
desaparecidas, sobre cujas ruínas e elementos ela se edificou.”5
Portanto, segundo Marx, inspirado em Charles Darwin, “a anato-
mia do homem é a chave para a anatomia do macaco.”6 Com essa
perspectiva metodológica sugerida por Marx e aplicada brilhante-
mente numa história dos conceitos por Koselleck, fica mais difícil
cair na armadilha de uma essência da história.

O futuro passado do Medievo

Koselleck inicia seu texto Futuro passado: contribuição à semântica dos


tempos históricos com a análise da noção de futuro predominante na
Idade Média. A partir desta, descortina o período que vai da Refor-
ma à Revolução Francesa, explicitando as mudanças que ocorre-
ram nesse período considerado chave pelo autor, especialmente
para o entendimento da gênese do “mundo burguês.”
Segundo Koselleck, a concepção histórica predominante na Cris-
tandade Medieval figura como “uma contínua expectativa do final
dos tempos”, ou melhor, representa uma “história dos repetidos
adiamentos desse mesmo fim do mundo.”7 O horizonte futuro ou
esse futuro passado do período medieval tinha como ponto de che-
gada o apocalipse profetizado nos textos bíblicos.
Esse horizonte apocalíptico era a garantia de ordem e também
de unidade da própria Igreja, cuja história se confundia com o cons-
tante adiamento deste futuro profetizado. Ao combater todas as
outras profecias como heréticas, a Igreja passou a controlar essa
expectativa do final dos tempos:

5 MARX, Karl. “O método da Economia Política”. In: Contribuição à crítica da Economia Política. São
Paulo: Martins Fontes, 2003, p. 254.
6 IDEM.
7 KOSELLECK, op. cit., p. 24.

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“Assim, na qualidade de elemento constitutivo da Igreja e configu-


rado como o possível fim do mundo, o futuro foi integrado ao tem-
po; ele não se localiza no fim dos tempos, em um sentido linear; em
vez disso, o fim dos tempos só pôde ser vivenciado porque sempre
fora colocado em estado de suspensão pela própria Igreja, o que
permitiu que a história da Igreja se perpetuasse como a própria
história da Salvação.” 8

A Reforma foi responsável pela lenta dissolução dessa concep-


ção predominante na Idade Média. Em especial após a Paz de
Augsburgo, celebrada em 1555, paz e unidade religiosa deixaram
de estar intimamente associadas, uma vez que da batalha entre o
‘bem’ e o ‘mal’, ou seja, entre cristãos romanos e protestantes, não
resultou o Apocalipse. A paz, a partir daí, passa a estar mais associ-
ada às ações da política, pois que somente através desta era possí-
vel negociar uma pacificação das frentes de luta. A manutenção da
paz passa a ser, então, uma tarefa do poder estatal. Um tempo fu-
turo novo (da política) é inaugurado.

O futuro passado do Estado absolutista moderno

A partir da Reforma Protestante, a questão do fim dos tempos é


cada vez mais entendida como a um problema relacionado ao mo-
vimento dos astros, sendo, portanto, expulsa da esfera terrena. O
prognóstico político assume seu lugar como orquestrador das ex-
pectativas de futuro. O Estado, por sua vez, apropria-se paulatina-
mente da força, antes pertencente à Igreja, de manipulação do
futuro, engendrando um tempo que lhe é próprio, calcado no qua-
dro de possibilidades finitas dentro do espectro da ação política.
O prognóstico político passa a funcionar como um fator de inte-
gração do Estado, tal qual a profecia bíblica havia sido para a Igreja
no período anterior, quando esta era “o único corpo econômico-
político coerente da Europa.”9 Contudo, ao mesmo tempo em que
8 IDEM, p. 26.
9 A expressão é usada por Michel Foucault, referindo-se especificamente aos séculos X, XI, XII, em
FOUCAULT, Michel. A verdade e as formas jurídicas. Rio de Janeiro: NAU Editora, 2005, p. 71.

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a profecia bíblica destrói o tempo, de cujo fim ela se alimenta, o


prognóstico racional feito na esfera da política produz o tempo que
o engendra. O próprio prognóstico constitui-se, assim, como um
momento consciente da ação política na esfera temporal. A batalha
entre o ‘bem’ e ‘mal’ é substituída por aquela entre o ‘mal’ e o
‘menor mal’. A partir deste momento é possível, de acordo com
Koselleck, referir-se ao passado como a uma “Idade Média”.
Podemos dizer que o futuro dado pelo cálculo da política erige-
se sobre uma separação entre a história humana e a história sacra,
descortinando-se a partir de previsões racionais num “campo de
possibilidades finitas [não uma única possibilidade como o “fim
do mundo”], organizadas segundo o maior ou menor grau de pro-
babilidade.” 10 Enquanto no tempo definido pela profecia
escatológica, todos os eventos são meros símbolos de uma trajetó-
ria que leva, inevitavelmente, ao fim do mundo, o cálculo político,
libera uma perspectiva temporal “imprevisivelmente previsível.”11
Ou seja, ao mesmo tempo em que ele próprio configura um futuro
possível, que transcende o mundo no qual essa previsão foi feita, o
faz de maneira limitada por um espectro de possibilidades. Cria
mundos possíveis, dentro de uma “estrutura de poder” definida
pelos pressupostos da própria análise. Ainda uma diferença é dig-
na de nota: as profecias podem ser alongadas no tempo, mesmo que
tenham falhado, pois cada falha reedita a certeza da sua realização
futura. Já um prognóstico falho não pode auto-reforçar-se, uma vez
que joga necessariamente por terra seus pressupostos iniciais.
Apesar dessas distinções entre ambas as concepções de futuro
passado, que carregam consigo, portanto, uma concepção da se-
mântica dos tempos – da significação da história –, há semelhanças
importantes entre elas.
Uma citação do filósofo alemão Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-
1716), trazida por Koselleck, talvez nos ajude a compreender me-
lhor essas semelhanças: “O mundo que está por vir já se encontra
embutido no presente, completamente modelado.” 12

10 KOSELLECK, op. cit., p. 32. Grifos entre colchetes do autor.


11 IBIDEM.
12 IBIDEM, p. 34.

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A filosofia de Leibniz e o encontro


entre ambos os futuros passados

A referência a Leibniz não se dá à toa, já que este amalgama em seu


pensamento três eixos axiais do encontro entre as duas noções de
futuro passado – a do medievo e a do Estado Absolutista Moderno:
a política, a religião e a lógica estatística.
A filosofia de Leibniz tem por objetivo integrar a totalidade do
conhecimento humano. Em oposição ao subjetivismo dos
cartesianos e empiristas, Leibniz postula que a lógica é a chave para
a consecução desse projeto universalista de conhecimento. Somen-
te ela, através de sua sistematicidade, é capaz de integrar a totalida-
de do conhecimento humano, enquadrando-o numa visão unificada
de ciência. Por isso, Leibniz também se debruça sobre o projeto de
formulação de uma linguagem única, precisa e rigorosa, que fosse
a expressão desse conhecimento perfeito e unificado. A lógica-ma-
temática seria esse sistema lógico-simbólico perfeito.13 Segundo o
pensador alemão:

“O pensamento não pode existir sem a linguagem. Sem um signo


ou outro. Basta nos interrogarmos se podemos fazer algum cálculo
aritmético sem usar um signo numérico. Quando Deus calcula e
exerce seu pensamento, o mundo é criado.”14

Nesse projeto, o filósofo alemão se afasta de Descartes e dos


empiristas ao dar mais valor a Lógica na fundamentação da ciência
do que a epistemologia. Contra o ceticismo metodológico de Des-
cartes, Leibniz defende o exame cuidadoso dos graus de aceitação
ou discordância de cada afirmação, já que toda a verdade deve ter
uma razão que a configure como tal.15 Por outro lado, contra o
lema do empirismo lockeano de que “nada está no intelecto que

13 MARCONDES, Danilo. Iniciação à História da Filosofia – dos Pré-Socráticos a Wittgenstein. Rio de


Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002, p. 193.
14 IDEM, ibidem.
15 IDEM, ibidem, p. 192.

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não tenha estado antes nos sentidos”, acrescenta: “exceto o pró-


prio intelecto!”16
Todavia, o cartesianismo sai por uma porta e entra por outra,
pois que Deus prossegue como principal fiador de um conhecimen-
to perfeito, mesmo que Leibniz se afaste do pensamento como a ex-
periência de um sujeito-indivíduo, de uma consciência individual.
Tal perspectiva de uma ordem divina dada pela Lógica e expres-
sa pelos signos matemáticos reflete bem a perspectiva de futuro
passado do período de nascimento dos Estados Absolutistas Mo-
dernos, onde a religião é apropriada num novo tipo de previsão
estatística própria do Estado. O conjunto de estados, responsáveis
pela ‘paz’, de agora em diante, refletiriam a ordem divina da lógica
e cada unidade estatal, poderia ser expressa através de signos mate-
máticos (quantidade de tropas, de população, moedas, armas etc.),
articulados de forma a conformar um prognóstico estatístico sobre
o futuro.
Religião, lógica e política se articulam no pensamento de Leibniz,
revelando como se dão as permanências entre a ideia de futuro
passado da cristandade e do início da era moderna.
Diríamos então, saindo das fronteiras do texto de Koselleck,
embora inspirados em sua citação sugestiva, que Leibniz é um pen-
sador emblemático deste tempo histórico de transição entre o futu-
ro passado do Medievo e o futuro passado do Iluminismo burguês,
definido pelo cálculo político. Vejamos que seu tempo de vida é
anterior ao Iluminismo (1646-1716), por outro lado, um período
crucial na história dos Estados absolutistas europeus. Notemos tam-
bém que seu período de vida coincide com o de Luís XIV da França
(1638-1715), o Rei Sol, símbolo máximo do absolutismo Europeu.
Leibniz foi também um homem de múltiplos interesses, exer-
cendo atividades de filósofo, jurista, linguista, matemático, histori-
ador e diplomata. Embora qualifiquemo-lo como um pensador desse
futuro passado, definido pelo prognóstico político ligado ao Esta-
do, Leibniz antecipa também características centrais do Iluminismo
porvir.

16 IDEM, ibidem.

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O ponto de encontro entre a filosofia de Leibniz e a profecia


escatológica cristã é flagrante, visto que, para Leibniz, tudo já é
conhecido previamente, ou seja, todo o conhecimento é a priori. É
tarefa da lógica matemática, como sistema lógico-simbólico perfei-
to e universal, logo divino, exprimir qualquer pensamento e testar
a validade de qualquer inferência através do cálculo.
Esse racionalismo lógico é reiterado na sua concepção de reali-
dade, constituída por diversas unidades dinâmicas e auto-contidas
denominadas mônadas. Essas mônadas são ordenadas por Deus
em uma harmonia preestabelecida hierarquicamente, desde o grau
mais inferior até Deus – a suprema mônada. Esta ordem é perfeita,
já que constitui o melhor dos mundos possíveis, dentre várias pos-
sibilidades de ordenação das mônadas. Há, portanto, certo otimis-
mo intrínseco a concepção de realidade de Leibniz, pois vivemos
no melhor dos mundos.17
Leibniz afirma também a existência de “verdades da razão”. Tais
verdades seriam eternas e perfeitas, uma vez que não podem ser
negadas sem que se caia em auto contradição. Essas verdades são
desveladas por uma “razão necessária”, que independeria de expli-
cação, tratando-se assim de um ideal de pura racionalidade, cujo
modelo matemático concreto seria o cálculo infinitesimal, formu-
lado por Leibniz ao mesmo tempo em que por Newton.
A ‘natureza’ hobbesiana é substituída, na filosofia de Leibniz,
pela lógica, que seria então, parodiando a abertura do Leviatã, ‘a
Arte com a qual Deus fez e governa o Mundo’.18
A partir da citação de Leibniz, Koselleck aponta para as perma-
nências e semelhanças entre as duas perspectivas de futuro passado:

“...a distância entre a consciência histórica e a política moderna, de


um lado, e a escatologia cristã, de outro, mostra-se menor do que em
princípio se poderia supor. [...] nada de fundamentalmente novo
pode acontecer, seja o futuro perscrutado com a reserva do crente ou

17 IDEM, ibidem, p. 193.


18 HOBBES, Thomas. Leviatã, ou a matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil. São Paulo:
Ícone, 2000, p. 11.

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com o prosaísmo do calculista. Um político poderia tornar-se mais


inteligente ou mais esperto, refinar suas técnicas, tornar-se mais
sábio ou mais cuidadoso; entretanto, a História jamais o levaria a
regiões novas e desconhecidas do futuro. A transmutação do futuro
profetizado em futuro prognosticável não destruiu, em princípio, o
horizonte das previsões cristãs. É isso que une a republica soberana
à Idade Média, também ali onde a primeira não mais se considera
cristã.”19

A inauguração da Filosofia da História: o Iluminismo

A Revolução Francesa consagra um novo tempo, calcado numa Fi-


losofia da História associada a uma também nova noção de histó-
ria. Falamos, sem dúvida, do período que ficou conhecido como
Iluminismo ou Esclarecimento. É dentro desse contexto intelectual
que surge esse novo tempo histórico.
A especificidade desta recém inaugurada filosofia da história está
em uma ousada combinação entre a política e a profecia, ou seja,
numa mistura entre os prognósticos racionais e previsões de cará-
ter salvacionista, estruturada em cima da ideia de progresso. Trata-
se, portanto, de uma filosofia do progresso.
O que caracteriza, então, essa filosofia (iluminista) do progres-
so? Novos prognósticos, transnaturais e de longo prazo, que
descortinam um futuro inédito, típico da nossa modernidade. Tí-
pico no sentido de que é esta a noção que guardamos ainda hoje
sobre o futuro, como algo que possui um caráter desconhecido.
Esse futuro tem como faceta principal a aceleração do tempo, abre-
viando os campos da experiência do tempo presente e, em última
instância, anulando o presente por completo.
Isso se torna ainda mais flagrante no século XXI, com a acelera-
ção completa do tempo (“a vida em tempo real” é o slogan de uma
grande emissora de notícias da TV brasileira) seja nos transportes,
nas comunicações ou nas trocas tanto comerciais como financeiras.

19 KOSELLECK. Op. cit., p. 35.

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Talvez seja possível dizer inclusive, que, no âmbito financeiro, as


trocas já ultrapassaram em muito o ‘tempo real’, se tornando ‘mais
realistas que o próprio Rei’, ou melhor, mais rápidas que o próprio
tempo.
Podemos levantar então a seguinte hipótese: a atual crise finan-
ceira tem raízes nessa hiper-velocidade que adquiriram os fluxos e
os mecanismos de reprodução do lucro em escala global. Os papéis
– na verdade nem papéis são mais; não passam de meras cifras em
telas de mega-computadores, celulares, palmtops etc. – circularam
tão rápido que a realidade do tempo não comportou a reprodução
da riqueza que estes incitavam. No final, o valor dos títulos havia
há muito superado o valor das hipotecas das casas e as pessoas sim-
plesmente deixaram as casas. A ideologia se desloca completamen-
te do seu referente real, tal qual nos sugere Fredric Jameson.20 Para
Jameson esse deslocamento completo é, entretanto, uma
especificidade de um novo período – o Pós-Modernismo.
Voltando ao século XVIII, nesse processo de aceleração do tem-
po, engendrado pela filosofia do progresso, o presente se torna algo
‘não vivenciável’, pela inundação de novidades que o futuro nos
traz. Trata-se de um futuro glorioso, que, além de tudo, deve ser
alcançado o quanto antes pela própria ação do homem. Nesse pon-
to já estamos falando de um cidadão-indivíduo, aparentemente
emancipado da submissão do poder absolutista do Estado e tam-
bém da tutela da Igreja. Koselleck chega a falar de um indivíduo
“prophète philosophe”.21

20 JAMESON, Fredric. Pós-Modernismo – a lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo: Ática, 1996.
A referência ao texto de Jameson foi encontrada no capítulo “Individualismo fóbico” do texto de
Gisálio Cerqueira Filho Autoritarismo afetivo (In: Autoritarismo afetivo – a Prússia como sentimento.
São Paulo: Escuta, 2005, pp. 99-116).
21 KOSELLECK. Op. cit., p. 37.

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Uma nova noção de História: esvaziamento do topos22


“Historia Magistra Vitae”

Como já havíamos mencionado acima, uma nova noção de histó-


ria se associa a essa filosofia (iluminista) do progresso. Com isso
ocorre, no entender de Koselleck, um esvaziamento do topos
“Historia Magistra Vitae”, legado da antiguidade e evidência da trans-
formação crucial por que passa a semântica do tempo histórico no
século XVIII.
O topos “Historia Magistra Vitae” foi cunhado por Cícero e em-
presta à história um sentido de instrução para a vida, tornando
perene o seu valioso conteúdo de experiência. A história teria, de
acordo com este lugar (topos), uma função pedagógica capaz de nos
fornecer exemplos ilustrativos para a vida.
Este topos foi apropriado tanto pela Igreja católica no medievo,
quanto pelos Estados absolutistas europeus para comprovar suas
respectivas doutrinas morais, teológicas ou jurídico-políticas.
No caso mais específico do futuro passado da Cristandade Me-
dieval, o topos formulado pelos antigos, foi (re)utilizado pelo hori-
zonte histórico cristão (do apocalipse), dentro do espectro das
profecias salvacionistas. No caso do Estado, a história iluminava o
futuro do ponto de vista dos caminhos político-práticos que o mes-
mo deveria seguir para perpetuar o poder dos príncipes, manten-
do sua soberania.
No século XVIII, contudo, esse topos se dissolve, tendo como
indício o deslize do conceito de história na língua alemã de
“Historie”, associado ao relato, à narrativa de conteúdo pedagógi-
co, para o termo “die Geschichte”, associado ao acontecimento em
si. A história no plural, designando diversas narrativas se condensa
na História no singular, designando uma sequência unificada de
eventos que constituiriam a “marcha da humanidade”.

22 Do grego tópos, lugar. O Dicionário Houaiss da língua portuguesa também define como “motivo ou
tema tradicional; lugar-comum retórico; convenção ou fórmula literária.”

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Ocorre, nas palavras de Koselleck, uma “revolução transcen-


dental,”23 cujo indício seria esse deslize conceitual do termo Historie
(história no plural – narrativas) para Geschichte (a História, no sin-
gular). A História passa a ser, a partir daí, um concateamento, uma
coesão, conexão, um complexo de acontecimentos, ao invés de re-
latos exemplares; torna-se então o conhecimento de si mesma; mero
auto-conhecimento de uma instância autônoma tomada como se
autônoma fosse:

“Leibniz, que ainda compreendia a historiografia e a poesia como


gêneros didáticos e moralizantes, foi capaz de entender a história da
humanidade como um romance escrito por Deus, cujo início estava
contido na Criação. Kant retomou essa ideia ao entender ‘romance’
em um sentido metafórico, a fim de permitir que se manifestasse a
unidade natural da História geral [allgemeine Geschichte]. Em
uma época em que a História universal [Universalhistorie], que
compreendia uma soma de histórias particulares, transformava-se
na História do mundo [Weltgeschichte], Kant procurou o fio con-
dutor que pudesse transformar aquele ‘agregado’ desordenado de
ações humanas em um sistema racional. Está claro que apenas o
aspecto coletivo singular da história [Geschichte] seria capaz de
expressar tais concepções, quer se tratando de história do mundo
[Weltgeschichte] ou de uma história particular.”24

Wilhelm von Humboldt, outro pensador alemão, parece incor-


porar o desdobramento desse deslize semântico no que tange o
ofício do historiador:

“O historiógrafo digno desse nome deve representar cada singulari-


dade como parte de um Todo, o que significa que ele deve também
representar em cada uma dessas partes singulares a própria forma
da história.”25

23 KOSELLECK. Op. cit., p. 48.


24 IDEM, p. 51.
25 IDEM, p. 52.

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A História como substantivo coletivo singular – o termo alemão


Geschichte – engendra consigo a singularidade dos processos histó-
ricos. Cada evento histórico particular condensa-se numa espécie
de força maior – a História –,

“que a tudo reúne e impulsiona por meio de um plano, oculto ou


manifesto, um poder frente ao qual o homem pôde acreditar-se res-
ponsável ou mesmo em cujo nome pôde acreditar estar agindo.” 26

Essa História como coletivo singular, complementa-se com a fi-


losofia da história, pois que esta lhe fornece um tempo especifica-
mente seu, sobre o qual já falamos: o progresso.
Podemos observar claramente certa “obsessão pela autonomia”27
por parte do pensamento iluminista, pelo menos em relação a três
pontos:
1. A autonomia do futuro ou do tempo histórico, dentro de
uma filosofia da história calcada no progresso, que anula o
presente, a partir da aceleração do porvir que se abre para o
desconhecido. “O tempo que assim se acelera a si mesmo
rouba ao presente a possibilidade de se experimentar como
presente, perdendo-se em um futuro no qual o presente” 28
torna-se impossível de ser vivenciado. O presente passa a
ser ‘invivível’ e intervir nele completamente útil apenas no
sentido em que pode acelerar a chegada ao ‘Eldorado’ do
progresso. Dentro dessa perspectiva, tipicamente burguesa,
o importante seria o futuro glorioso (do progresso):
2. A autonomia da história, possuidora de uma ordem interna
própria dela, onde cada evento particular faz parte de um
roteiro geral.

26 IDEM, ibidem.
27 A ideia de uma “obsessão pela autonomia” foi retirada do texto de Gisálio Cerqueira Filho
“Euclides Cunha e a psicopatologia: um indício para abdução” (In: Revista Latinoamericana de Psicopatologia
Fundamental, v. 11, nº 3, setembro 2008. São Paulo: Escuta, 2008, pp. 380-391.).
28 KOSELLECK. Op. cit., p. 37.

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3. A autonomia do sujeito-indivíduo enquanto “prophète


philosophe”.

A crítica de Koselleck é contundente e esclarece os pontos a que


fizemos referência anteriormente:

“... o iluminista conseqüente não tolerava qualquer inclinação para


o passado. O objetivo declarado da Enciclopédia era reelaborar o
passado o mais rapidamente possível, de forma que um novo futuro
fosse inaugurado. Antes conhecíamos exemplos, hoje conhecemos
apenas regras, disse Diderot. ‘Julgar o que acontece agora’, comple-
tava Sieyés, ‘segundo os critérios daquilo que já aconteceu, parece-
me o mesmo que julgar o conhecido a partir do desconhecido’. Não
deveríamos temer abandonar a busca de algo na história que nos
fosse adequado. E logo os revolucionários forneceram, em seu
Dictionaire, as instruções segundo as quais não se deveria escrever
mais nenhuma história, antes que a Constituição fosse terminada.
A capacidade de realização da Geschichte destronou a velha
Historie, ‘pois, em um Estado como o nosso, fundado na vitória,
não existe passado. [Tal Estado] é uma criação na qual, assim como
na criação do mundo, tudo o que existe provém das mãos do criador
e a partir daí, atingindo sua perfeição, passa a fazer parte da exis-
tência’. São palavras triunfantes de um sátrapa de Napoleão. Com
isso, realiza-se a previsão de Kant, que provocativamente pergunta-
ra: ‘como é possível uma história a priori? Resposta: quando o
oráculo faz e molda, ele mesmo, as circunstâncias que previamente
anuncia.’29

Conclusão

Voltemos agora à questão que nos referimos anteriormente como


uma “obsessão pela autonomia”, presente no pensamento
iluminista, observando a maneira como esta se relaciona com os

29 IDEM, ibidem, p. 57.

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três pontos aos quais fizemos referência, a partir da análise do frag-


mento acima citado.
Afirma Koselleck, “...o iluminista consequente não tolerava qual-
quer inclinação para o passado”. Ou seja, o iluminista típico pro-
clama a autonomia do presente e, consequentemente, do futuro
em relação ao passado. Em relação a este passado do topos “Historia
Magistra Vitae”, este passado como diversos relatos variados, que
Kant chamaria de “um agregado desordenado de ações humanas”.
Daí a necessidade postulada pelo Iluminismo de “reelaborar o pas-
sado”, extraindo deste “apenas regras” e não mais “exemplos”,
como defendeu Diderot. Formulando, portanto, tal como propu-
nha Kant, “sistema racional”.
Nessa ‘ânsia’ por autonomia e busca por ‘regras’, o Iluminismo
em geral cai naquele equívoco ao qual Karl Marx nos alerta na con-
tinuação de um texto já citado, fazendo referência aos economistas
clássicos:
“... a economia burguesa nos dá a chave da economia antiga, etc.
Mas nunca à maneira dos economistas que suprimem todas as dife-
renças históricas e vêem em todas as formas de sociedade, as da
sociedade burguesa.”

Essa pretensa autonomia da história repousa sobre a necessida-


de de uma coerência interna, lastreada num antigo ideal de perfei-
ção, que tem em Deus sua referência última. De outra forma, a
“ordem” teria que ser (re) introduzida de fora, esfacelando, assim,
o ideal de uma história absolutamente independente, racional, tal
como nos tempos do Medievo, onde a Igreja a absorvia para legiti-
mar as Sagradas Escrituras, e no início da Era Moderna, onde os
Estados Nacionais nascentes a utilizavam para legitimar seus prog-
nósticos políticos.
Ao proclamar a independência da história, sua autonomia, esta
passa a funcionar dentro de uma “ordem”, onde cada evento parti-
cular se articula a um “roteiro geral”, que determina o caminhar
da História. Esta ordem provém “das mãos do criador”, como
enfatiza Koselleck. No caso dos empiristas, via ‘natureza’ ou ‘expe-
riência’, sendo esta, ‘a Arte com a qual Deus fez e governa o Mun-

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do’ e no caso dos racionalistas via razão, cujo fiador das ‘ideias
claras e distintas’ é Deus.30
Fechamos o círculo. O topos, lugar da história como mestra da
vida, fonte de exemplos e sabedoria é esvaziado, revelando uma
porta de entrada para a compreensão da gênese do Iluminismo
burguês. A essa história autônoma, possuidora de uma ordem pró-
pria se associa um tempo também específico, o do progresso. Essa
autonomia da história, dotada de um tempo próprio e uma ordem
interna, reclama para si a noção de uma essência (da história) e traz,
consequentemente, o ideal de perfeição. A onipotência divina é
reintroduzida pela via da autonomia da história, ainda que esta se
considere separada das intervenções da Igreja e do Estado.
A crítica que fazemos está focada na ideia de ‘essência’ ou ‘natu-
reza’, seja em qual esfera for (do homem, da História, da política).
Essa crítica se revela tanto no âmbito metodológico quanto no pe-
ríodo analisado – o Iluminismo. Na metodologia reconstruímos
de forma bastante sucinta o percurso magistralmente seguido por
Koselleck na sua história dos conceitos, que vai de encontro à pers-
pectiva de longa duração sugerida por Marx e desenvolvida pela
Escola dos Annales. No âmbito temático, buscamos compreender a
forma como o Iluminismo se (re)apropria da noção de essência na
esteira dessa incessante busca por autonomia. Autonomia esta que
pressupõe um ideal de ordem. Por mais que não se apresente como
perfeita, pressupõe a perfeição a imanência de uma forma superior
de ordem. Tais características remetem, na nossa visão, inevitavel-
mente, a um ideal divino.
Koselleck desenvolve a tese de que a maneira como o tempo é
percebido pelos agentes históricos varia com a passagem do pró-
prio tempo, com as mudanças sociais e com a capacidade a um só

30 Descartes, na sua Meditação terceira, afirma: “...é preciso necessariamente concluir de tudo o que
disse anteriormente que Deus existe; pois, ainda que a ideia da substância esteja em mim, pelo
próprio fato de eu ser uma substância, eu não teria, contudo, a ideia de uma substância que fosse
verdadeiramente infinita. [...] Como seria possível que eu pudesse conhecer que duvido e que
desejo, ou seja, que me falta algo e que não sou totalmente perfeito, se não tivesse em mim nenhu-
ma ideia de um ente mais perfeito de que o meu, por comparação ao qual eu conheceria os defeitos
de minha natureza?” (DESCARTES, René. Meditações metafísicas. São Paulo: Martins Fontes, 2000,
pp. 72-73.) Deus não apenas existe como é fiador das “ideias perfeitas” de nosso intelecto.

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tempo artística e política do homem de se fazer enxergar de manei-


ra distinta de antes.
Para o autor, o Iluminismo é um momento fundamental para
entendermos a afirmação do ‘quantum de ideias’ do ‘mundo burgu-
ês’, que se irradia a partir do continente europeu. Este processo de
afirmação intelectual da burguesia, ou, se quisermos, da ideologia
burguesa, comporta uma incorporação semântica de palavras e sig-
nificados diferentes da tradição anterior e representou um mar-
co na maneira como determinados conceito e, especialmente, o
tempo histórico fora visto, analisado, entendido e vivido.
Na América Latina, o problema se aprofunda, pois acabamos
por absorver categorias de além-mar e adotá-las em contextos his-
tóricos, sociais, políticos e afetivos de natureza totalmente distinta.
Dessa forma, o processo de formação semântica e de deslizes se-
mânticos, que Koselleck frisa, fica ainda mais ‘distante’ da realida-
de latino-americana. Essa distância provoca uma enorme dificuldade
de análise e também de releitura dos conceitos ‘importados’. O
instrumental de Koselleck, nos ajudaría, portanto, argumentamos,
a executar um duplo trabalho: reconstruir a trajetória semântica de
determinados conceitos, para compreender toda a sua amplitude
política, social e histórica e desconstruir a ideia de uma essência
dos conceitos e do próprio tempo histórico, na medida em que
ambos estão em interação ‘dialética’ constante.
No caso do Iluminismo há ainda um agravante, muito bem apon-
tado pelo cientista político Gisálio Cerqueira Filho e pela historia-
dora Gizlene Neder:

“A avassaladora presença do iluminismo no ocidente fez com que


muitas questões e temas referidos ao tomismo fossem deixados de
lado: por exemplo, a hierarquia, o autoritarismo, o absolutismo
afetivo que não cede à ambivalência dos sentimentos; a obediência e
submissão inscritas na prática política, a lógica formal que não
cede ao pensamento dialético apoiado na contradição. Todavia, es-
tes temas, embora do medievo, ainda nos espreitam e seguem pre-
sentes mesmo na pós-modernidade. Parodiando Michel Foucault,
deveríamos nos inquirir sobre de que modo, pelo menos no ocidente,

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o pensamento tomista pressupõe apreciar exatamente o que custa


dele se afastar; o que é tomista mesmo quando supostamente pensa-
mos estar contra o tomismo...”31

Em uma palavra, o instrumental teórico-metodológico de


Koselleck, pode nós ajudar, aqui na América Latina, a realizar uma
tarefa urgente: historicizar, compreender e questionar determina-
dos conceito e a noção mesma de tempo histórico. Nesse rastro,
abre-se a possibilidade de reler e resignificar os conceitos e a
temporalidade, tendo em vista a construção de novos caminhos e
‘tempos’ mais condizentes com a nossa realidade e os nossos dese-
jos enquanto latino-americanos. „
Referências bibliográficas
BRAUDEL, Fernand. “A longa duração”. In: História e Ciências Sociais. Lisboa:
Editorial Presença, 1990.
CERQUEIRA FILHO, Gisálio. Édipo e excesso – reflexões sobre lei e política.
Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor, 2002.
__________. “Euclides da Cunha e a psicopatologia: um indício para abdução”.
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setembro 2008. São Paulo: Editora Escuta, 2008, p. 380-391.
__________. “Individualismo fóbico”. In: Autoritarismo afetivo – a Prússia como
Sentimento. São Paulo: Ed. Escuta, 2005.
DESCARTES, René. Meditações metafísicas. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
FOUCAULT, Michel. A verdade e as formas jurídicas. Rio de Janeiro: NAU
Editora, 2005.
HOBBES, Thomas. Leviatã, ou a matéria, forma e poder de um Estado eclesiásti-
co e civil. São Paulo: Ícone, 2000.
KOSELLECK, Reinhart. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos
históricos. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC-Rio, 2006.
JAMESON, Fredric. Pós-Modernismo – a lógica cultural do capitalismo tardio.
São Paulo: Ática, 1996.
MARCONDES, Danilo. Iniciação à História da Filosofia – dos Pré-Socráticos a
Wittgenstein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.
MARX, Karl. “O método da Economia Política”. In: Contribuição à crítica da
Economia Política. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

31 CERQUEIRA FILHO, Gisálio. Édipo e Excesso – Reflexões sobre Lei e Política. Porto Alegre: Sergio
Antonio Fabris Editor, 2002, p. 22.

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Futuro passado ou a contribuição de Reinhart Koselleck como ferramenta de análise...

Futuro passado ou a contribuição de Reinhart Koselleck como


ferramenta de análise metodológica para o contexto latino americano
Ricardo G. Borrmann

Resumo Abstract
O presente trabalho tem por objetivo vi- The present paper wishes to visit the work of
sitar a obra do historiador alemão the German historian Reinhart Koselleck
Reinhart Koselleck (1923-2006), buscan- (1923-2006), searching in his analysis both
do em sua análise ferramentas teórico- theoretical and methodological tools that may
metodológicas, que descortinem novos unfold new analytical horizons for the Latin
horizontes de análise para a realidade la- American reality. His contribution has two
tino-americana. Sua contribuição caminha interrelated directions: one related to a
em duas direções inter-relacionadas: uma methodological approach and another one to
metodológica e outra temática. A partir da the theme itself. Through the idea of Future
sua ideia de Futuro Passado, Koselleck nos Past, Koselleck opens the possibility of an
descortina a possibilidade de uma leitura understanding of history inside history itself,
da história por dentro dela mesma, des- deconstructing a philosophy of history that
montando uma pretensa filosofia da his- transcends history. On one hand and moving
tória transcendente ao próprio tempo within the history of concepts
histórico. Se movimentando dentro do [Begriffsgeschichte], Koselleck postulates the
campo da história dos conceitos need to realise the inscription of concepts in the
[Begriffsgeschichte], Koselleck postula a historical process itself. On another hand, his
necessidade de percebermos a inscrição focus is the period of genesis of the bourgeoise
dos conceitos no próprio processo histó- order. Therefore, his analysis enables a critical
rico. Por outro lado, sua temática é o perí- perspective towards the enlightened approach
odo de gênese da modernidade burguesa, and to the notion of essence inscribed both in a
promovendo com suas análises uma críti- non-historical method and in the conception of
ca profunda à reflexão iluminista e a pró- history of the bourgeoise Enlightment.
pria noção de essência, tanto inscrita numa
metodologia a-histórica, quanto na concep- Key words
ção de história do Iluminismo burguês.
History of concepts – Enlightment – Historic
time -– Reinhart Koselleck
Palavras-chave
História dos conceitos – Iluminismo –
tempo histórico – Reinhart Koselleck

E-mail:
ricbormann@gmail.com

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