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3.

Atos de constituição das sociedades comerciais

As sociedades comerciais podem constituir-se por diversos medos: forma


tradicional, pelo processo moderno, pela empresa na hora, pela empresa online… Para
constituir uma sociedade comercial não é necessário recorrer a um solicitador ou
advogado, muito embora “seja adequado obter o aconselhamento jurídico
especializado, para assegurar as menções mínimas obrigatórias” (Paulo Olavo Cunha).
O aspeto mais relevante e sensível da constituição de uma sociedade é a elaboração
do contrato de sociedade.

O primeiro passo consiste em definir a atividade a exercer e escolher a firma.


Obtenção do certificado de admissibilidade da firma- a não ser que constitua a
sociedade na empresa na hora e se opte por uma das firmas da lista de firmas pré-
aprovadas. Os futuros sócios deverão elaborar o contrato de sociedade:

Elementos essenciais:

 Comuns a todos os tipos de sociedades: art.9º CSC;


 Específicos de cada sociedade (“inúteis” - Coutinho de Abreu):
SNC- art.176º
SQ-art.199º
SA-art.272º

Requisitos da celebração de um contrato de sociedade:

A) Relativos ás partes:
 Número: art.7º nº2 CSC;
 Natureza: pessoas singulares ou pessoas coletivas.

Historicamente, a sociedade foi uma entidade criada e pensada para pessoas


singulares; não obstante, já há muito que se admite que as pessoas coletivas possam
ser partes. Temos a participação de pessoas coletivas em sociedades comerciais, em
que estará em causa o princípio da especialidade. Temos ainda a participação de
sociedades comerciais em sociedades comerciais: art.11º nº4 e 5 CSC.

A participação de sociedades em sociedades dá origem á coligação de


sociedades: art.481 e ss CSC. Há 4 tipos de relações:

 Relação simples de participações;


 Relação de participações recíprocas;
 Relação de domínio;
 Relação de grupo.
 Capacidade:

As partes têm que ter capacidade de exercício de direitos; há formas de suprir


as incapacidades de exercício:

 Como representantes dos filhos, os pais podem entrar em SQ ou SA, sem


autorização do MP; todavia para entrar em SNC ou Scom já é necessária tal
autorização- art.1889º nº1 d) C.C;
 O tutor do menor necessita da autorização do MP para qualquer tipo de
sociedade;
 Aplica-se a exceção da incapacidade dos menores: art.127º nº1 a) CC;
 O tutor do menor necessita de autorização do MP para entrar em qualquer
sociedade- art.1938 nº21 a), b) e d), salvo se a tutela recair no pai ou na mãe,
aplicando-se neste caso o art.1889º nº1 d);
 Quanto aos maiores acompanhados-art.145º CC.

 Legitimidade: art.8º CSC

Os cônjuges podem constituir ou participar numa mesma SQ e SA. Não podem


constituir ou participar numa mesma SNC ou Scom em que ambos são sócios de
responsabilidade ilimitada.

B) Relativos á forma

Art.7º nº1 CSC: o contrato de sociedade deve ser reduzido a escrito, com
reconhecimento presencial das assinaturas dos sócios, salvo se a forma mais solene for
exigida para a transmissão dos bens com que s sócios entram para a sociedade,
devendo, neste caso, o contrato revestir essa forma, sem prejuízo do disposto em lei
especial.

 As entradas: bem imóvel: Se um dos sócios entrar com um bem imóvel, o


contrato de sociedade terá que ser celebrado por escritura publica ou por DPA.

Artigo 875.º C.C: “Sem prejuízo do disposto em lei especial, o contrato de compra e
venda de bens imóveis só é válido se for celebrado por escritura pública ou por
documento particular autenticado”.

 Registo comercial: o registo é requerido nos termos do art.3º nº1 a) CRC e no


prazo de 2 meses a contar da celebração do contrato de sociedades- art.15º
nº2 CRC.

Artigo 5.º CSC: “as sociedades gozam de personalidade jurídica e existem como tais a
partir da data do registo definitivo do contrato pelo qual se constituem (…)”.

 Publicações: art.167º CSC e art.70 nº1 a) CRC- publicacoes.mj.pt


Modos de constituição:

Por escritura publica outorgada em cartório notarial ou por DPA (no caso de
um dos sócios entrar para a sociedade com um bem imóvel).

Por redução a escrito com reconhecimento presencial das assinaturas dos


sócios.

No âmbito do regime especial de constituição imediata de sociedade-


“empresa na hora”.

No âmbito do regime especial de constituição online de sociedades.

Por escritura publica:

Marcação e realização da escritura:

 Certificado de admissibilidade de firma (número);


 Fotocópia dos documentos de identificação dos outorgantes;
 Relatório do ROC para as entradas em bens diferentes de dinheiro- art.28º CSC;
 Documentos comprovativos do pagamento do IMT quando há entradas em
bens imoveis para a realização do capital social, salvo se estiver isento- art.2º
nº5e) do CIMT;
 Documento comprovativo da obtenção de autorização especial quando
obrigatória (por ex., instituição de crédito).

Aplica-se, neste âmbito, o que foi referido para a constituição por escritura,
mas neste caso o título é o DPA.

 Nota: não é apenas o notário que poderá fazer o termo de autenticação,


também um solicitador ou advogado.

Redução a Escrito com reconhecimento presencial das assinaturas:

O contrato de sociedade deve ser reduzido a escrito e as assinaturas dos


subscritores do contrato reconhecidas presencialmente (art.7º nº1 CSC)- salvo se
forma mais solene for exigida para a transmissão dos bens com que os sócios entram
para a sociedade, devendo, neste caso, o contrato revestir essa forma, sem prejuízo do
disposto em lei especial.

Registo

Seja por escritura publica, por DPA ou por escrito com reconhecimento
presencial das assinaturas, segue-se o registo, que pode ser pedido em qualquer
conservatória do registo comercial.
Documentos:

 Escritura ou DPA;
 Certificado de admissibilidade de firma;
 Declaração de aceitação do ROC.

Prazo para requerer o registo: 2 meses a contar da data do título- art.15º nº2 CRC.

Legitimidade para requerer o registo:

 Socio, gerente ou administrador;


 Mandatário com procuração bastante;
 Solicitadores, advogados e notários.

Custo do registo do contrato de sociedade: 360€

Oficiosamente envia para publicação.

Declaração de início de atividade: no prazo de 15 dias após a apresentação do registo


deve ser apresentada a declaração de início de atividade num serviço de Finanças, a
fim de dar cumprimento ás suas obrigações de natureza fiscal.

Inscrição oficiosa na segurança social.

Empresa na hora
Constituir a ENH a partir da bolsa de firmas permanentemente disponíveis ou
juntar o código do certificado de admissibilidade de firma. Constituir a ENH e
simultaneamente adquirir uma marca registada a partir da bolsa de firmas e marcas
permanentemente disponíveis.

Tipos de sociedades que podem ser constituídas- art.1º: sociedades


comerciais/sociedades civis sob comercial do tipo de quotas e anónima. Pela pratica
dos atos compreendidos no regime especial de constituição imediata de sociedades,
com ou sem nomeação de órgãos sociais ou secretário da sociedade- 360€.

Art.3º pressupostos de aplicação

Opção por pacto de modelo aprovado pelo presidente do IRN. Se o capital da


sociedade for total ou parcialmente realizado mediante entrada em bens diferentes de
dinheiro sujeitos a registo, os bens estiverem registados definitivamente em nome do
sócio que os dá como entrada.

Documentos a apresentar:

Art.4.º A Marcação prévia no caso das entradas em espécie

Os procedimentos de constituição imediata de sociedades em que o capital seja total


ou parcialmente realizado mediante entradas em bens diferentes de dinheiro sujeitos
a registo, podem ser realizados mediante agendamento da data da realização do
negócio jurídico.

Art.7º

Documentos comprovativos da identidade, capacidade e poderes de representação


para o ato, bem como autorizações especiais que sejam necessárias. Sendo o capital
total ou parcialmente realizado mediante entradas em bens diferentes de dinheiro,
deve ser apresentado o relatório elaborado por um ROC sem interesses na sociedade
(art.º 28º do CSC).

Caso ainda não haja sido efetuado, os sócios devem declarar, sob sua
responsabilidade, que o depósito das entradas em dinheiro é realizado no prazo de 5
dias úteis ou proceder à sua entrega nos cofres da sociedade até ao final do primeiro
exercício económico;

Os interessados podem proceder à entrega imediata da declaração de início de


atividade para efeitos fiscais;
Procedimento

Art.8

Cobrança dos encargos devidos; Promoção da liquidação do IMT e de outros


impostos que se mostrem devidos, tendo em conta os negócios jurídicos a celebrar,
assegurando o seu pagamento prévio à celebração do negócio jurídico; Aprovação de
firma no posto de atendimento ou afetação, por via informática e a favor da sociedade
a constituir, da firma escolhida ou da firma e marca escolhidas e do número de
identificação de pessoa coletiva (NIPC); Preenchimento do pacto, por documento
particular, de acordo com o modelo previamente escolhido; Reconhecimento
presencial das assinaturas dos intervenientes no ato; Registo de constituição de
sociedade e de outros factos sujeitos a registo comercial, predial e de veículos a serem
efetuados em consequência do procedimento;

Constituição online de sociedades

 Sem deslocação a serviços públicos;


 Tipos de sociedades que podem ser constituídas –artigo 1.º:
 sociedades comerciais;
 sociedades civis sob forma comercial do tipo por quotas e anónima;
 Por qualquer interessado, desde que possua uma assinatura eletrónica
qualificada (titular do cartão do cidadão);
 Por solicitadores, advogados ou notários que possuam certificado digital;

Processo de criação

 Escolher a firma da sociedade na bolsa de firmas ou utilizando um certificado


de admissibilidade obtido pela via tradicional;
 Preencher os elementos de identificação dos sócios;
 Escolher o pacto social de entre uma lista de pactos pré-aprovados ou juntar o
pacto elaborado pelos interessados.
 Depois de devidamente assinados, os documentos necessários à constituição
são digitalizados e enviados através do referido site; (Atenção ao disposto no
n.º 2 do art.º 7º: reconhecimento presencial das assinaturas com a menção de
que os contraentes “manifestaram a sua vontade em constituir a sociedade”);
 Pagar, por via eletrónica com multibanco ou cartão de crédito.
Custos:

Artigo 13.º + Artigo 27.º Regulamento Emolumentar dos Registos e Notariado

Pela prática dos atos compreendidos no regime especial de constituição online


de sociedades, com ou sem nomeação de órgãos sociais ou secretário da sociedade e
com a opção por pacto ou ato constitutivo de modelo aprovado- 220€.

Pela prática dos atos compreendidos no regime especial de constituição online


de sociedades, com ou sem nomeação de órgãos sociais ou secretário da sociedade e
com opção por pacto ou ato constitutivo elaborado pelos interessados- 360€.

VI. OS CONTRATOS DE DISTRIBUIÇÃO COMERCIAL

Contratos de distribuição comercial

O contrato de franquia, o contrato de agência e o contrato de concessão


comercial são classificados como contratos de distribuição comercial, embora apenas o
de agência seja um contrato típico Uma das notas comuns entre os três contratos é a
obrigação do distribuidor (agente, concessionário e franquiado) promover os negócios
e interesses da outra parte (principal, concedente e franquiador).

Contrato de agência

O contrato de agência é, como já referido, um contrato típico: Decreto-Lei n.º


178/86, de 3 de julho – LCA. (transpôs a Diretiva 86/653/CEE, do Conselho, de 18 de
dezembro de 1986 e foi alterado pelo Decreto-Lei nº 118/93, de 13 de abril). O artigo
1.º n.º 1 LCA define o contrato de agência como “o contrato pelo qual uma das partes
se obriga a promover por conta da outra a celebração de contratos, de modo
autónomo e estável e mediante retribuição, podendo ser-lhe atribuída certa zona ou
determinado círculo de clientes”. Contraentes: principal e o agente…

Este artigo consagra os elementos essenciais do contrato de agência; através da


sua análise, será mais fácil identificar este contrato.

Características:

1) Autonomia
2) Estabilidade
3) Retribuição

1) Autonomia: ao contrário do trabalhador que está subordinado juridicamente à


entidade empregadora, o agente é independente e atua com autonomia; não
obstante, essa autonomia não é absoluta: deve conformar-se com as orientações
recebidas, adequar-se à política económica da empresa e prestar regularmente contas
da sua atividade (Pinto Monteiro).
2) Estabilidade: “tem em vista não uma operação isolada, antes um número indefinido
de operações”. Aliás, se as partes não tiverem convencionado prazo, o contrato
presume-se celebrado por tempo indeterminado – cf. Artigo 27.º LCA.

3) Retribuição: a agência é um contrato oneroso; a retribuição determina-se,


fundamentalmente com base no volume de negócios obtido pelo agente. Tem carácter
variável sob a fora de comissão ou de percentagem calculada sobre o valor dos
negócios realizados. Como é óbvio, nada impede que os contraentes acordem uma
parte fixa – artigos 15.º a 18.º LCA.

O agente tem como obrigação principal promover a celebração de contratos.


“É uma atividade material, de prospeção do mercado, de angariação de clientes, de
difusão dos produtos e serviços, de negociação, etc., que antecede e prepara a
conclusão dos contratos, mas na qual o agente já não tem de intervir”. (Pinto
Monteiro). Na verdade, o dever do agente é zelar pelos interesses do principal,
conforme o disposto no artigo 6.º LCA.

A lei, por si só, não confere ao agente poderes para celebrar contratos com
terceiros; todavia se tal for convencionado por escrito, poderá ter poderes
representativos – artigo 2.º LCA (o mesmo se aplica à cobrança de créditos – artigo 3.º
LCA).

Poderá ser atribuído ao agente um círculo de clientes exclusivo; contudo, esta


atribuição terá que ser convencionada por escrito - artigo 4.º LCA.

O capítulo II da LCA é dedicado aos direitos e obrigações das partes:

 Artigos 6.º a 11.º - obrigações do agente;


 Artigos 12.º a 20.º - direitos do agente.

E se o agente atua sem os poderes representativos celebrando negócios e


cobrando créditos sem estar autorizado? Cf. artigo 22.º LCA. De acordo com as regras
gerais, esses negócios serão ineficazes em relação ao principal, se por ele não forem
ratificados - artigo 268.º n.º 1 CC. Contudo, a LCA considera que há ratificação se o
principal, tendo tido conhecimento da celebração do negócio e respetivo conteúdo
essencial, não manifestar ao cliente de boa-fé, no prazo de 5 dias a contar desse
conhecimento, que se opõe ao negócio.

Quanto ao problema da representação aparente, problema geral de direito (em


que o representado se apresenta como tendo poderes para celebrar determinado
negócio), o artigo 23.º LCA consagrou uma “solução justa e equilibrada” (Pinto
Monteiro).

As regras sobre a cessação do contrato estão consagradas nos artigos 24.º e ss. LCA
(iremos abordar esta matéria quando nos referirmos às causas de cessação do
contrato de franquia).
Especial importância têm os artigos 33 e 34.º LCA – indemnização de clientela.

A não ser que o contrato tenha cessado por razões imputáveis ao agente, este
tem direito a uma indemnização de clientela, caso se verifiquem cumulativamente os
pressupostos previstos no art.º 33.º n.º 1 LCA. Esta pretende compensar o agente pela
mais-valia que o agente gerou para a empresa do principal. Há que provar um juízo de
prognose: que o principal venha a retirar benefícios consideráveis da clientela
angariada pelo agente.

Por sua vez, o artigo 34.º LCA refere-se ao cálculo da indemnização de clientela
e estabelece um limite máximo: não poderá ultrapassar um valor equivalente a uma
indemnização anual, calculada a partir da média anual das retribuições recebidas pelo
agente nos últimos 5 anos.

A doutrina distingue o contrato de agência do contrato de mandato, do


contrato de mediação, do contrato de trabalho…

 Mandato (1157.º CC): prática de atos jurídicos;


 Agência: prática de atos materiais. O mandatário tem direito ao reembolso das
despesas, ao contrário do agente (cf. Artigo 20.º LCA);
 Mediação: quer o mediador, quer o agente atuam com intermediários,
procurando a concretização do negócio.

Todavia, existem inúmeras diferenças entre o contrato de mediação e o da agência:

 O agente atua por conta do principal, representando-o economicamente;


enquanto que o mediador age por conta própria (age com imparcialidade, no
interesse de ambos os contraentes, sem estar ligado a qualquer um deles por
relações de colaboração, dependência ou representação);
 Sendo a atuação do mediador imparcial e não se encontrando vinculado a
qualquer dos possíveis contraentes, poderá vir a ser retribuído por qualquer
deles ou mesmo por ambos;

Todavia, existem inúmeras diferenças entre o contrato de mediação e o da agência:

O mediador intervém de forma ocasional, quando solicitado; já o agente exerce


uma atividade contínua. Na verdade, o contrato de agência postula uma certa
continuidade, constituindo-se para relações duradouras; ao invés, o contrato de
mediação tem como elemento essencial a promoção de certos e determinados
negócios, cessando logo que os mesmos se concluam.

 Nota: Embora conceptualmente seja clara a distinção entre as figuras, o certo é


que quando a atividade do mediador ganha estabilidade, a figura aproxima-se
bastante da do agente.
Contrato de trabalho (artigo 11.º CT):

Estamos perante uma distinção que nem sempre é fácil de fazer na prática.
Existem algumas afinidades entre os dois contratos, no que respeita à estabilidade; as
principais diferenças assentam no facto de o agente ser independente e autónomo,
em vez do trabalhador que está subordinado juridicamente ao empregador (dever de
obedecer às ordens e instruções).

“Os contratos que o agente promove são normalmente contratos pelos quais o
principal irá vender os seus bens ou prestar os serviços que fornece” – daí que a
agência seja um contrato de distribuição comercial.

 o agente atua sempre por conta do principal;


 o agente é independente e atua com autonomia;
 o agente exerce a sua atividade de modo estável;
 o contrato de agência é um contrato oneroso.

Contrato de concessão comercial

 Contrato atípico, apesar da sua tipicidade social;


 Duas partes: concedente e concessionário;
 Há muita jurisprudência relativa a este contrato, o que revela a frequência com
que é celebrado e a sua enorme importância prática;

Noção: contrato de concessão é o contrato pelo qual uma das partes (concedente)
vende à outra (concessionário), determinado produto, de forma exclusiva ou não, para
que esta revenda ao público, numa determinada zona.

“Pelo contrato de concessão “concede-se” a outrem o “privilégio” de


comercializar bens “pré-vendidos”, seja pela notoriedade da marca, seja pela
integração numa rede de distribuição, seja pela publicidade de que beneficiam esses
produtos, seja, enfim, pela vantagem concorrencial e as oportunidades de ganho em
face aos demais comerciantes” (Pinto Monteiro).

O concessionário compra para revenda, age por conta própria e assume o risco
de comercialização (tal como o franquiado).

O concedente (em regra identificado com o produtor) transfere para o


concessionário o risco de comercialização e assegura “o escoamento de bens sem
perder o controlo da distribuição e sem arcar com os custos de organização e outros
que teria de suportar se fosse ele a encarregar-se da distribuição”.

O concedente consegue impor a sua política comercial e controlar a própria


distribuição; e o concessionário tem uma posição de privilégio e uma provável
vantagem concorrencial.
O setor em que tradicionalmente mais se recorre à atividade de
concessionários é o dos veículos automóveis (também no setor das bebidas, vestuário,
perfumes, eletrodomésticos…).

 Quatro notas finais:


 Contrato em que o concessionário assume a obrigação de compra para
revenda, estabelecendo-se as regras e que os negócios serão feitos;
 O concessionário age em seu nome e por conta própria, assumindo os riscos da
comercialização (tal como o franquiador);
 As partes estão sujeitas a outro tipo de obrigações: visa-se definir e executar
determinada política comercial, por outras palavras, regras de comportamento
(estabelecimento de regras sobre a organização e as instalações, métodos de
venda, publicidade, assistência aos clientes). “está em causa a integração do
revendedor na rede de distribuição do concedente” (Pinto Monteiro).
 É um contrato atípico: por analogia- quando e na medida em que ela se
verifique”, diploma que regula o contrato de agência, sabendo á partida que a
analogia se verifica sobretudo em matéria de cessação do contrato.

Contrato de franquia ou franchising

1. Comprar roupas da Tintoretto e na Benetton, acessórios na parfois, óculos de


sol na multiópticas, utilizar os serviços da lavandaria 5 á séc, os serviços de
seguros da Império, saborear um café na Storia Del Caffé, comer um
hambúrguer da MacDonald’s, acompanhado de uma Coca-Cola, são condutas
do nosso dia-a-dia.

Na verdade, o universo dos contratos de franquia é bastante vasto: desde o


vestuário até ás gelatarias, do imobiliário á hotelaria, da informática ás limpezas
(serviços), esta figura contratual é poderosa.

2. Discute-se qual a terminologia a adotar para o contrato em questão: contrato


de franquia ou franchising? Há quem proponha as expressões contrato de
franquia, franquiador e franquiado, como tradução do inglês franchising,
franchisor e franchisee.

Tendo em conta o âmbito internacional deste contrato, a expressão franchising


é a mais utilizada.

3. O contrato de franquia teve a sua origem nos EUA, na segunda metade do


século XIX, com a Singer Sewing Machine Company. No final da guerra da
secessão, com o objetivo de superar as dificuldades comerciais existentes entre
os estados federados, concretamente no que respeitava á distribuição de bens,
aquela empresa decidiu instalar uma rede de distribuição de máquinas de
costura, em regime de franchising. Não seria fácil para um empresário do Norte
do pais expandir os seus negócios: para alem da dificuldade de se mover
geograficamente, não teria o capital suficiente. Assim os comerciantes do sul e
oeste do pais, investiram na compra de produtos já conhecidos pelos
consumidores. No entanto, apenas nos anos 20 e 30, este sistema contagiou
outras áreas, tais como o mercado automóvel, com a General Motors e o setor
dos refrigerantes, como a coca-cola, na modalidade de franchising industrial ou
de produção.

A grande expançao do franchising deu-se após a II Grande Guerra, tendo ficado


contagiada a área do fast food, como a MacDonald’s ou KFC, tendo sido uma
“epidemia” eficaz: muitas outras áreas de produção e de serviços foram também
“contaminadas”. O sucesso obtido foi tao grande, que vários franquiadores norte-
americanos, por volta dos anos 50, decidiram alargar as suas redes ao mercado
europeu. Nos anos 80 é que as partes contratuais do franchising passaram a ser
também europeias.

4. O contrato de franchising é o “contrato pelo qual alguém (franquiador) autoriza


e possibilita que outrem (franquiado), mediante contrapartidas, atue
comercialmente (produzindo e/ou vendendo produtos ou serviços), de modo
estável , com a formula do sucesso do primeiro (sinais distintivos,
conhecimentos, assistência…) e surja aos olhos do publico com a sua imagem
empresarial, obrigando-se o segundo a atuar nestes termos, a respeitar as
indicações que lhe forem sendo dadas e a aceitar o controlo e fiscalização a que
for sujeito.
5. O contrato de franquia não está regulado na lei portuguesa e o mesmo
acontece na generalidade dos ordenamentos jurídicos europeus. Estamos
perante um contrato atípico, embora “pese a sua indiscutível tipicidade social”,
que se desenvolve ao abrigo da liberdade contratual, nos termos do art.405º
do código civil. Isto não significa que o contrato esteja totalmente
desprotegido…

O regime geral dos contratos, designadamente, o art27º CC (responsabilidade


contratual), o art.280º CC (possibilidade do objeto, não contrariedade á lei, á ordem
publica e aos bons costumes), os art.334º e 762º nº2 CC (dever de agir de boa fé na
execução do contrato);

O regime das clausulas contratuais gerais, caso o contrato em apreço seja um


contrato de adesão- o que é muito frequente;

O regime jurídico da concorrência, caso alguma clausula do contrato não esteja


conforme ás normas constantes do novo regime jurídico da concorrência;

O código da propriedade industrial, uma vez que o contrato de franquia implicará,


muitas vezes, licenças de exploração de direitos industriais, nomeadamente no que diz
respeito a marcas e patentes;
O decreto-lei nº178/86, de 3 de julho (LCA) “por analogia, quando e na medida em
que ela se verifique” diploma que regula o contrato de agencia, sabendo á partida que
a analogia se verifica sobretudo em matéria de cessação do contrato.

6. Existem 3 modalidades do contrato de franchising:

Na franquia de serviços, o franquiador oferece um serviço sob o logótipo ou marca do


franquiador, ajustando-se com as instruções desde. Temos como exemplos a
MacDonald’s, na área da restauração; a Avis e Hertz, na locação de automóveis; a
Império, na comercialização de serviços de seguro; a 5 á Séc, na lavandaria e limpeza a
seco, entre muitos outros.

Na franquia de produção ou industrial “o próprio franquiado fabrica, segundo as


indicações do franquiador, produtos que ele vende sob marca deste”. Os exemplos
mais conhecidos desta modalidade de franquia são a coca-cola e a pepsi.

Por último, na franquia de distribuição o franquiado limita-se a vender determinados


produtos num estabelecimento que utiliza o logótipo e marca do franquiador. São
muitos os exemplos desta modalidade: Benetton, tintoretto, levi’s, boticário, entre
outros.

A distribuição de produtos e a prestação de serviços podem ser conjugadas no


mesmo contrato de franquia. É exatamente o que se passa, com a Multiópticas e a
Optivisão : para alem dos serviços óticos que prestam, também vendem óculos de sol,
armações, lentes de contacto, etc. é suficiente para uma simples leitura das muitas
franquias disponíveis nas revistas da área, para se concluir que a franquia de serviços e
a distribuição são as dominantes.

7. Um conjunto de vantagens contribuiu para o sucesso do franchising, quer para


o franquiador, quer para o franquiado. O franquiador chega a um mercado
maior com muito menos esforço em termos de investimento, do que se
quisesse expandir o seu negocio por conta própria, ou seja, controla e gere,
”através de empresas independentes”, a distribuição dos bens, como se se
tratasse de uma filial, mas não suporta riscos, nem custos.
Por sua vez, o franquiado tudo fará para que o negocio corra o melhor possível,
uma vez que também procura o lucro e a eficiência, comercializando produtos
e/ou serviços conhecidos pelos consumidores, sendo maiores as hipóteses de
sucesso, em comparação com a criação de raiz de um negocio, já que utiliza o
logotipo de marca do franquiador, que muitas vezes até é conhecida a nível
mundial. O franquiado beneficia ainda do saber-fazer (Know-how) comunicado
pelo franquiador, bem como da assistência técnica prestada por este.

A maior desvantagem será no caso de a rede de franchising ter algum


problema de imagem (quer seja da responsabilidade do franquiador ou do
franquiado); por exemplo, na hipótese de uma intoxicação alimentar no MacDonald’s
serão também afetados todos os outros franquiados, embora se trate de empresas
independentes.
8. As obrigações que recaem sobre as partes, em regra, constam do contrato de
franquia. As clausulas mais frequentes em relação ás obrigações do :

franquiador são: transmitir o direito ao uso da marca e outros sinais distintivos “na
comercialização de serviços ou produtos por este adquiridos ou fabricados”;
comunicar o saber-fazer; fornecer assistência técnica e/ou comercial; clausula de
exclusividade territorial, ou seja, o franquiado terá o direito exclusivo de vender os
produtos ou prestar serviços numa determinada zona; retomar os bens em stock
depois da cessação do contrato; estipulação de uma indemnização de clientela.

Franquiado são: pagamento de uma contrapartida; obrigação de suportar um


controlo; obrigação de não concorrer com a rede durante a vigência do contrato,
cem como depois de cessado o contrato; clausulas respeitantes á publicidade;
manutenção de um stock mínimo; cumprir um volume mínimo de negócios; fixação
dos preços de venda dos bens e/ou serviços; manter as instalações, mobiliário,
decoração e demais material nas condições exigidas pelo franquiador; não aduirir
participações sociais no capital de concorrentes do franquiador; apresentar
anualmente o seu balanço àquele.

As contrapartidas a prestar pelo franquiador são essencialmente:

 direito de entrada;
 royalities;
 taxa de publicidade.

Direito de entrada: prestação inicial, paga, em regra, no momento da celebração do


contrato (poderá ser paga numa ou em várias prestações); é uma “joia” que remunera
o franquiador pelo saber-fazer e notoriedade da marca e pelos serviços iniciais
prestados ao franquiado;

Royalies: pagamento regular, em regra mensal, cujo valor resulta normalmente da


aplicação de uma percentagem sobre as vendas, poderá ser um valor fixo ou até
poderá nem existir (em média ronda os 5% ou 6%);

Taxa de publicidade: pagamento regular, em regra mensal, e tal como as royalties,


pode resultar da aplicação de uma percentagem sobre as vendas, de um valor fixo ou
até nem existir. O pagamento da referida taxa destina-se a pagar um serviço
(publicidade) prestado pelo franquiador, não sendo, desta forma, um ganho daquele
(nada obsta a que o próprio franquiado promova as suas próprias campanhas
publicitárias, desde que o franquiador aprove as referidas campanhas e desde que
esteja estipulado no contrato).

Por último, será importante mencionar uma clausula que poderá constar do
contrato de franchising, que consiste na possibilidade do franquiado contratar
subfranquiados na zona que lhe foi atribuída pelo franquiador. Estamos perante o
master franchising ou contrato de franquia principal, que até se podia chamar
“franchising do franchising”. O franquiado fica, desta forma, responsabilizado pela
administração da rede nessa zona, pela assistência e controlo dos subfranquiados.
Geralmente tal ocorre num pais estrangeiro, relativamente ao pais de origem do
franchising.

9. Cessação do contrato:

No que respeita á cessação do contrato de franquia aplicar-se-ão, por recurso á


analogia, as causas de cessação previstas parra o contrato de agência, consagradas no
art.24º LCA, tendo em conta que este é o contrato típico com mais laços de afinidade
com a franquia. O contrato de agência pode cessar por: acordo das partes, caducidade,
denuncia e resolução.

Acordo das partes: esta “forma autónoma” de cessar o contrato está regulada no
art.25º LCA. Sendo certo que vigora o princípio da liberdade contratual, de acordo com
o art.405 nº1 CC, esta liberdade pode manifestar-se no acordo das partes em por um
fim ao contrato, seja celebrado por tempo determinado ou por tempo indeterminado.
Exige-se que o acordo conste de documento escrito, por razoes de segurança.

Caducidade: o art.26º LCA faz uma enumeração meramente exemplificativa, entre os


quais, “findo o prazo estipulado”. Trata-se de uma forma de cessação automática do
contrato, pois verificando-se algum dos factos estipulados no artigo ou outros
acordados, o contrato caduca. Na realidade, a maioria é celebrado por tempo
determinado, caducando no fim do prazo estipulado.

É bastante frequente as partes preverem a renovação automática do contrato


(“5 anos renováveis” ou “5 anos com renovação automática”); todavia, de acordo com
Pinto Monteiro, tal não acontece se franquiador ou franquiado, previamente se
manifestarem contra essa renovação.

Se as partes não tiverem previsto a renovação automática do contrato e


continuarem a cumpri-lo passado o prazo estipulado, a doutrina é pacificada em
ampliar analogicamente o art.27º LCA: aproveita-se o silencio das partes e considera-
se o contrato renovado por tempo indeterminado.

Denúncia: esta declaração unilateral aplica-se aos contratos celebrados por tempo
indeterminado e não carece de ser motivada. A denúncia só poderá ser exercida
validamente, se for comunicada á outra parte como razoável antecedência. A questão
primacial é a de saber qual será essa “razoável antecedência”.

As partes podem ter previsto esta situação no contrato e é aconselhável; caso


contrário, teremos que analisar, em face das circunstâncias, qual será a antecedência
razoável.
 Opinião da Prof. Suzana Gil

Na opinião da Prof. Susana Gil, os tempos de pré-aviso estabelecidos para o contrato


de agência, consagrados no art.28º, cuja finalidade é impedir uma repentina cessação
do contrato, não deverão ser aplicados ao contrato de franquia. Aquele artigo
estabelece que a antecedência mínima seja de um mês, caso o contrato dure há
menos de um ano; dois meses, se já tiver iniciado o segundo ano de vigência; e três
meses, nos restantes casos.

E os prazos de aviso prévio no franchising devem ser mais longos do que os


estabelecidos para o contrato de agência, desde logo porque o capital investido é, em
regra, bastante superior ao investido no contrato de agência.

Dai que, na opinião da professora, a melhor solução será uma apreciação


casuística das situações, de forma a averiguar qual a antecedência razoável, em cada
caso concreto para a denuncia ser exercida de forma lícita.

Resolução: a resolução carece de ser motivada; faz-se, em regra, através de declaração


extrajudicial de uma parte á outra; e aplica-se quer aos contratos celebrados por
tempo determinado, quer por tempo indeterminado, a declaração á outra parte, como
resulta claramente do art.436 nº1 CC, que se torna eficaz logo que chega ao
destinatário ou é dele conhecida- art.224º nº1 CC, tornando-se assim, irrevogável-
art.230º nº1 CC.

O franquiador e o franquiado podem prever no contrato as situações que


poderão levar á resolução do contrato, através das chamadas clausulas resolutivas. Se
nada estiver estipulado no contrato, aplicamos, por analogia, o art.30º LCA que
estabelece dois fundamentos de resolução para o contrato de agência.

O primeiro, estipulado na a), consagra que o contrato possa ser resolvido, caso
uma das partes falte ao cumprimento das suas obrigações, de forma de tal como grave
ou reiterada, que não será exigível a subsistência do vínculo contratual. Por exemplo,
caso o franquiado não realize pontualmente as contrapartidas financeiras a que está
obrigado ou quando o franquiador não concede ao franquiado uma assistência eficaz,
incumprimentos de tal modo graves ou reiterados, que não se pode exigir á parte
cumpridora que o contrato se mantenha.

Coloca-se a questão de saber se a parte que resolve o contrato tem direito a ser
ressarcida pelo interesse contratual positivo ou apenas pelo interesse contratual
negativo. Aa posição dominante da jurisprudência portuguesa “é no sentido de que, a
indemnização que se pode cumular com a resolução do contrato não é a indemnização
pelo dano in contractu mas pelo dano in contrahendo, ou seja, pelo interesse
contratual negativo”.
Assim coloca-se o lesado na situação em que estaria se não tivesse celebrado o
contrato e não na situação em que se encontraria se o contrato fosse cumprido.

Na b) estipula-se que o contrato possa ser resolvido “se ocorrerem


circunstancias que tornem impossível ou prejudiquem gravemente a realização do fim
contratual”, de forma a que também não seja exigível que o contrato se mantenha até
ao prazo convencionado (quando está em causa um contrato celebrado por tempo
determinado) ou imposto em caso de denúncia (nos casos de contratos celebrados por
tempo indeterminado ou que se renovaram por tempo indeterminado). Desta forma,
“a resolução não depende de qualquer incumprimento culposo por banda da outra
parte”, trata-se de um fundamento objetivo e o legislador estipula que não pode ser
exigível a subsistência do vínculo contratual.

Se aplicarmos analogicamente ao contrato de franquia o art.30º, devemos


aplicar, de igual modo, o art.32º que estipula uma indemnização, que terá lugar nos
dois fundamentos de resolução do contrato, no fundamento previsto na alínea a)
existe o direito a ser indemnizado pelos danos sofridos; no caso da alínea b), a
indemnização será calculada segundo a equidade.

O art.33º LCA consagra o direito a uma indemnização de clientela para o


agente, após a cessação do contrato, preenchidos que sejam os requisitos exigidos
naquele artigo. Esta indemnização visa “compensar o agente da atividade por si
desenvolvida e de que o principal veio a beneficiar; é o ressarcimento de uma mais-
valia acrescida colocada ao serviço do principal, criada ou incrementada pelo esforço
do agente”.

A questão central é a de saber se se poderá aplicar, por analogia, ao contrato


de franquia, a indemnização prevista para a agência.

A doutrina está dividida, na opinião da Prof. Suzana Gil as melhores soluções


defendem uma apreciação casuística, não fechando a porta á aplicação do art.33º LCA
ao contrato de franquia, mas também tendo em conta que a clientela, de uma forma
geral, é angariada através da marca.

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