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REFORMA AGRÁRIA POPULAR

Como parte dos processos de reflexão, dos debates coletivos e por


ocasião da realização de seu VI Congresso Nacional (em 2014), o Movimento
Sem Terra atualizou o seu “Programa Agrário”. É basicamente sobre esse
documento que se formula a nova estratégia do MST: a Reforma Agrária
Popular. Essa estratégia representa o enfrentamento com o modelo do capital,
o Agronegócio, e busca criar as condições e acumular forças para as
mudanças estruturais de toda sociedade.
Assim, propomos a compreensão desta temática sob três aspectos: o
contexto histórico, as implicações na luta pela terra e os desafios para os
assentamentos1.

Contexto histórico
Faz-se necessário, preliminarmente, contextualizar o atual estágio de
desenvolvimento das forças produtivas no campo que, controladas pelo grande
capital, hegemonizam há duas décadas um projeto de agricultura - o
agronegócio. Com esse modelo, a burguesia, o Estado e os governos
assumem a posição de que não é mais necessária uma reforma agrária para o
desenvolvimento da agricultura brasileira.
No atual contexto, o capitalismo mundial, agora controlado pelo capital
financeiro (ver Financeirização) e pelas grandes empresas privadas
transnacionais, passa também a controlar a forma de produção das
mercadorias agrícolas. O capital financeiro e as grandes empresas não só
controlam a produção, mas também os preços e o volume das mercadorias
padronizadas (commodities), a circulação, os insumos, portando dominam os
mercados e ficam com a maior margem da renda agrícola e dos lucros. Com a
crise do próprio capitalismo, estamos assistindo, a partir de 2008, uma ofensiva
de capitais estrangeiros que migram para o hemisfério sul, investindo
sobretudo na agricultura, na apropriação privada da natureza, seja terra, água,

1
Para uma abordagem mais geral da Reforma Agrária, consultar o Dicionário da Educação do Campo.
minérios (ferro, bauxita, ouro, cobre, etc) ou usinas de etanol, e no controle da
produção, sobretudo de soja, milho, laranja, cacau, aves, suínos, carne bonina,
entre outras.
No caso brasileiro, as mudanças econômicas que permitiram a
aproximação da empresa rural capitalista das empresas transnacionais que se
controlam diferentes pontos da cadeia produtiva (o mercado internacional de
grãos; a fabricação de tratores e colheitadeiras, entre outras máquinas
agrícolas; e a produção dos insumos agrícolas, especialmente venenos,
sementes transgênicas e adubos químicos solúveis), remontam ao ano de
1999. O Governo Cardoso, iniciando o seu segundo mandato,, desvalorizou a
moeda (real) em função da crise econômica, forçando o aumento de
exportações para gerar superávit na balança comercial, necessário para dar
segurança aos especuladores internacionais, atraindo-os para aplicações
financeiras de curto prazo (DELGADO, 2012; FILGUEIRAS, 2000).
Essa política econômica fez com que se constituísse uma nova força
política no campo: a empresa rural capitalista, associada aos interesses das
empresas transnacionais. Esta nova configuração passou a “blindar” o
latifúndio improdutivo, para que nestas áreas se avançasse nos cultivos e
criações destinados ao mercado externo. Neste contexto, a Reforma Agrária foi
bloqueada, impedindo que a população sem terra tivesse acesso aos
latifúndios, que passaram a ser áreas de futuros investimentos deste setor.
Os sucessivos governos deFHC, Lula e Dilma não romperam com o
capital financeiro e sua lógica parasitária, ficando reféns dos superávits da
balança comercial como forma de ampliar as reservas cambiais (dólar no
Banco Central), sinal de segurança ao capital especulativo. Por isto, as
políticas agrícolas, ao longo deste período, sempre foram de favorecimento à
grande fazenda e ao setor agroexportador, conformando assim o que se
denominou de Agronegócio.
Portanto, o Agronegócio, é expressão de uma nova alianças de classe
no campo, com enorme força política, econômica e ideológica, transformando-
se no principal inimigo das populações que vivem no campo e exigindo do
MST uma nova estratégia expressa na insígnia Reforma Agrária Popular.
Esse projeto evidentemente trouxe mudanças estruturais na propriedade
da terra, no emprego e na composição das classes sociais.
No tocante às mudanças estruturais na propriedade da terra, houve um
processo acelerado de concentração. Os grandes proprietários (acima de
1.000 ha) passaram de 68.585 imóveis (em 2003), para 95.030 em 2014 e a
área controlada passou de 195,7 para 428,6 milhões de hectares (DELGADO,
2016). Os grandes e médios proprietários que representam o agronegócio
controlam 85% das terras e praticamente toda a produção de grãos para
exportação. Além disso, estima-se que as empresas estrangeiras controlem
mais de 30 milhões de hectares no Brasil (STEDILE, 2013), revelando o grau
de desnacionalização da propriedade da terra em nosso país.
Houve um aumento significativo da produtividade agrícola, por hectare e
por trabalhador, em todos os ramos de produção, combinado com o aumento
de escala dos monocultivos, bem como com o uso intensivo de agrotóxicos e
máquinas agrícolas, o que revela que nossa agricultura é químico dependente,
de insumos e venenos importados.
Para continuar com a sanha de acumulação de riqueza através da
produção agrícola, esse capital procura se expandir incorporando novas áreas
ao agronegócio, sobretudo na região centro-oeste, no BIOMA CERRADO, no sul
da Amazônia e no chamado Matopiba (sul do Maranhão e do Piauí, norte de
Tocantins e oeste da Bahia).
Já os trabalhadores assalariados do agronegócio totalizam 2,2 milhões
(na década de 1980 eram de 6 a 10 milhões, segundo o IBGE). Além disso,
entre 2006 e 2017 houve uma redução de 1,5 milhões de pessoas ocupadas no
campo (IBGE, 2018). A conclusão é obvia: o agronegócio não gera emprego e
por isso é uma atividade rentável apenas para os grandes capitalistas. Na
condição social de camponeses, as estatísticas apontam o número de 4,8
milhões de agricultores familiares. Destes, apenas 1 milhão possuem renda
que garanta sua reprodução social . Os demais, 3,8 milhões de camponeses
pobres estão inviabilizados por esse modelo (STEDILE, 2013), produzem
basicamente para a subsistência e vendem um volume pequeno de produção.
Entre eles está a base social que lutaria pela terra e pela reforma agrária. Eles
estão à margem deste projeto de agricultura do agronegócio, excluídos de
políticas públicas e incluídos em parte nas políticas sociais do bolsa família.
Frente a esse modelo , não há mais espaço para uma reforma agrária do
tipo clássica, aquela que visa a democratização da propriedade da terra,
garantindo a reprodução dos camponeses com sua integração ao mercado
interno e geração de renda. Ela não cabe no atual projeto de agricultura que
está se estruturando em nosso país. Assim, a luta pela reforma agrária se
transformou numa luta contra o modelo do capital para a agricultura brasileira.
Esse novo novos posicionamentos do MST e dos movimentos sociais
como um todo, dentre os quais, defender um novo projeto de reforma agrária
que seja popular, isto é, construir alianças entre todos os movimentos
camponeses, com a classe trabalhadora urbana e com outros setores sociais
comprometidos com mudanças estruturais, de caráter popular. Uma mudança
que não interessa apenas aos camponeses, mas ao conjunto dos
trabalhadores. Evidentemente que não se trata de mudança de nome apenas.
A mudança é de conteúdo.

Implicações na Luta pela Terra


Como indicado anteriormente, são expressivas as mudanças na
composição da classe dominante no campo: já não são mais ou apenas os
latifundiários (grandes proprietários rurais); a eles se aliaram os capitalistas
financeiros-rentistas e os capitalistas monopolistas (grandes empresários
transnacionais), além dos grandes meios de comunicação – com os quais
buscam disputar o apoio da sociedade. Alterou-se, portanto, a correlação de
forças no campo, impedindo que a reforma agrária avance. Ela está bloqueada
por essa aliança de classes, que permite concentrar terras e políticas públicas.
A luta pela terra, portanto, não se dá mais apenas no campo ou nos
espaços governamentais/institucionais, no âmbito do aparelho do Estado
brasileiro, mas exige uma efetiva participação da sociedade e uma
diversificação dos espaços.
Isso implica conjugar a luta direta pela garantia da existência dos
assentamentos de reforma agrária à resistência à mercantilização da natureza
e ao acelerado processo de espoliação no território brasileiro por empresas
estrangeiras, portanto, trazendo também o debate da soberania nacional (por
exemplo, na extração de minérios, na tentativa de controle das reservas
aquíferas); passando por ações que forcem o Estado Brasileiro ao
cumprimento do seu papel e pelo fortalecimento das articulações com os
diversos segmentos que fazem a luta pela terra (Trabalhadores Sem Terra,
ribeirinhos, quilombolas, indígenas...), de maneira a assegurar o acesso à terra,
como garantia do direito ao trabalho e meio de vida, às milhões de famílias
que ainda não a possuem ou àquelas que tem cotidianamente seus territórios
ameaçados. Assim, resistir e enfrentar o agronegócio passa por confrontar o
capital que tornou a terra uma mera mercadoria a seu serviço, visando apenas
o lucro.
Para enfrentar a lógica predatória e privatista de apropriação e
expropriação , o MST propõe: o estabelecimento do limite da propriedade
rural; a garantia do acesso à terra a todas as famílias que quiserem nela morar
e trabalhar; a desapropriação de todas as propriedades rurais de empresas ou
pessoas que não tenham na agricultura a sua principal atividades e das
grandes propriedades que não cumprem a função social; expropriar, sem
nenhuma indenização, terras onde exista trabalho escravo; e demarcar como
terras coletivas todas as terras indígenas, de quilombolas, faxinais,
manguezais, pastos e serras, de acordo com a tradição de cada região. Além
da arrecadação de todas as terras públicas que estejam de posse de grileiros
(MST, 2013).
Estas medidas colocam em debate o atual modelo de propriedade e de
exploração da terra, atribuindo centralidade à função social da terra, que deve
ser preservada e que precisa estar a serviço da produção de alimentos
saudáveis para toda a sociedade, tendo garantido o seu acesso a quem nela
quer viver e trabalhar.
Contudo, para que estas medidas se efetivem é necessário que o
Estado Brasileiro cumpra o seu papel , seja no cumprimento constitucional da
observância do quesito Função Social, seja no rompimento da lógica
subserviente aos interesses do capital, que tem sua expressão na eficaz
atuação da bancada ruralista no Congresso Federal, acompanhada pelos
poderes executivo e judiciário.
Verifica-se a ausência efetiva do Estado na viabilização da reforma
agrária, pela paralisação na arrecadação ou desapropriação de terras para o
assentamento de novas famílias, ou ainda não garantindo condições para o
desenvolvimento dos assentamentos no que se refere a infraestrutura, crédito,
acesso a políticas públicas, etc.
Por outro lado, verifica-se sua presença forte no reordenamento jurídico
e institucional que foi levando a luta política da Reforma Agrária para a
burocracia estatal, um campo eminentemente da burguesia. O ápice desse
processo foi a lei 13465/17 (antiga MP759), que regulariza a grilagem de terras
na maior parte do território brasileiro e abre caminho para a privatização dos
assentamentos.
Observa-se também o aprofundamento dos processos de criminalização
e deslegitimação da luta pela terra.
Desta forma, embora a luta politica pela terra e reforma agrária precise
continuar sendo enfrentada no campo institucional, ela agora exige dos
movimentos sociais e do MST que seja respaldada para além da garantia
constitucional. É necessário trazer perante a sociedade a justeza desta luta,
frente às enormes desigualdades sociais, o que demanda o fortalecimento das
articulações com os diversos segmentos que fazem esta luta e com a
sociedade de modo geral - com os quilombolas, povos indígenas, pescadores,
posseiros, pequenos agricultores e tantos outros, para a luta direta,
enfrentando o crescente processo de concentração de terras e as
expropriações dos povos de seus territórios.
A luta pela terra passa a ter uma centralidade política na cidade, pois
mesmo que sua materialização se dê no campo, a condição de sua conquista e
legitimação passa necessariamente pela cidade, quando a sociedade
compreende o seu papel na resolução de problemas estruturais que afetam
campo e cidade.
O MST, em sua práxis, compreendeu que a produção de alimentos
saudáveis tem uma enorme força política, tanto para negar o agronegócio,
como para afirmar a possibilidade de organização de uma agricultura voltada
aos interesses da população brasileira, desenvolvendo plenamente a função
social da terra.

Desafios para os Assentamentos


Ao indicar que a terra deverá cumprir a sua função social, o MST coloca
na centralidade da luta política a função que os camponeses deverão cumprir,
neste novo período da história brasileira. Assim, produzir alimentos de base
agroecológica e recompor os bens naturais nos assentamentos, passam a ser
as principais tarefas políticas das famílias assentadas.
Entretanto, não basta mais a decisão política de produzir alimentos de
base agroecológica; requer-se criar as condições efetivas para sua implantação
nos assentamentos. E é preciso reconhecer que a organização dos assen-
tamentos passa pelo desenvolvimento econômico-produtivo das famílias,
implicando na constituição de instrumentos econômicos, expressos nas
cooperativas. Aqueles Estados e regiões, onde as lideranças compreenderam
esta necessidade, avançaram na organização das famílias assentadas,
qualificando a ação do movimento.
Onde a organização dos assentamentos está baseada na produção de
alimentos saudáveis, vemos florescer o desenvolvimento cooperado,
democrático (com participação das mulheres e jovens), popular, de base
ecológica, redesenhando os agroecossistemas, trazendo ao MST uma nova
qualidade ético-política. As famílias, no seu cotidiano produtivo, ao optarem por
desenvolver uma agricultura de alimentos de base ecológica, vislumbram a
contradição política expressa no modelo do agronegócio, tornando-se
conscientes das suas implicações sociais, econômicas e ambientais.
Ao se decidirem pelo caminho da agroecologia, afirmam uma trajetória
que as remete ao plano do Gênero Humano. Estas escolhas, permeando sua
reprodução social, ao longo do tempo, afirmam possibilidades de produções
reais, concretas, que as vinculam a um projeto societário distinto do atual; e
promovem condições para o desenvolvimento de uma nova ética (LESSA,
2012; LUKÁCS, 2012).
A estratégia da Reforma Agrária Popular leva o MST, no plano dos
assentamentos, a plasmar, a materializar formas concretas de reprodução
social que nos vinculam ao futuro da humanidade, nos aproximando do gênero
humano.
Estas experiências, também, já indicam a possibilidade da construção de
uma base técnico-científica distinta da matriz produtivista do capital. Sem abrir
mão daquilo que a humanidade já avançou do ponto de vista de aliviar a
penosidade do trabalho, a produção agroecológica introduz novos elementos
técnico-científicos, assim como reincorpora práticas anteriores que foram
abandonadas pela ciência do capital.
Sem querer regressar a formas anteriores de sociabilidade, numa visão
idílica ou bucólica do campo, as experiências práticas do MST permitem abrir
uma avaliação sobre o desenvolvimento das capacidades humanas e, disto,
debater sobre o desenvolvimento das forças produtivas.
Outro aspecto a ser compreendido refere-se ao fato de que, ao se
conquistar o assentamento, surgem novas relações sociais de produção. Se
antes havia o trabalho assalariado (em muitos casos similar ao trabalho
escravo), e um único proprietário, concentrando a terra, agora, com a luta e a
conquista do assentamento, surge o trabalho familiar e a democratização da
terra. Estas novas relações sociais se revelaram, ao longo destes trinta anos
de política de assentamento dos sucessivos governos, insuficientes para
garantir o governo das famílias sobre as terras conquistadas. O governo das
famílias sobre o assentamento (a gestão do território) é sucessivamente
disputada por diferentes forças sociais, sejam elas forças econômicas, forças
políticas locais/regionais, sejam pelas forças ideológicas. E com o avanço do
agronegócio no campo brasileiro, esta força também chegou nos
assentamentos, na forma de arrendamento de áreas e na forma de reprodução
do seu modelo técnico-produtivo. Isto enfraqueceu a força organizada do MST.
No entanto, as experiências vêm indicando que os assentamentos se
tornam realmente uma força política, na medida que assumem ações
produtivas voltadas para a produção de alimentos saudáveis e com base
nestas produções viabilizam renda suficiente para a reprodução social das
famílias.
Disto fica claro que, neste contexto de enfrentamento ao agronegócio e
afirmação da Reforma Agrária Popular, as famílias assentadas e seus
instrumentos econômicos deverão aprofundar e problematizar estas duas
dimensões: o trabalho familiar e a democratização das relações sociais
inauguradas com o assentamento:.
No tocante ao trabalho familiar, cabe problematizar três aspectos:
a) Retomar a cooperação agrícola: Em primeiro lugar, a lógica
tradicional imposta pelo INCRA está superada, seja no processo
individualizante (CPF-Cadastro-Lote-Crédito), seja na forma de corte dos
assentamentos (famoso “quadrado burro”), seja na forma de conceber o
assentamento apenas como unidade de produção agropecuária.É preciso
resgatar as experiências coletivas que as famílias seguem desenvolvendo, em
especial as formas complexas de cooperação, como os grupos e/ou
cooperativas plenamente coletivas. Deve-se também estimular as diferentes
formas simples de entreajuda que emergiram com o desenvolvimento do
mercado institucional.
b) Mudar a matriz produtiva: Afirmar a produção de alimentos para o
mercado interno como atividade central das famílias, é o que indica a estratégia
da reforma agrária popular. Mas esta produção deverá gerar renda. Logo, é
preciso repensar a matriz produtiva, levando em conta a combinação de quatro
fontes de renda:
 Viabilizar atividades que garantam Renda Mensal (hortaliças, leite, etc);
 Garantir a produção do auto-sustento (diversificar a produção, sobretudo
no entorno das moradias), viabilizando a soberania alimentar das
famílias;
 Estabelecer atividades que garantam uma renda sazonal (safra),
destinada aos pequenos investimentos realizado pelas famílias, como
por exemplo a produção de grãos e de frutas.
 Planejar uma “poupança viva”, comoa produção de gado de corte e/ou
árvores.
c) Mudar a matriz tecnológica: A agroecologia é central neste
processo, mas isto requer uma decisão política de realizar, desenvolver e
estimular a agroecologia, rompendo com o modelo do agronegócio.
Evidentemente que a implantação da agroecologia terá na transição o seu
método. Esta ruptura (decisão política) deverá estar amparada em
instrumentos econômicos (cooperativas, assistência técnica, etc) que darão
suporte à sua implementação, tendo presente a necessidade de ampliar
massivamente a produção de alimentos de base agroecológica.
No tocante à Democratização das Relações, é preciso radicalizar a
participação das Mulheres e da Juventude, compreendendo que o
restabelecimento do governo das famílias no território (assentamento)
pressupõe a plena participação de todos que ali vivem. Isto significa partilhar o
poder local, ampliando assim a força política da organização local.
Ainda neste intuito, deve-se também problematizar a vida comunitária,
estabelecer uma nova estética desta vida, influindo nos valores ali
compartilhados, celebrados, no embelezamento das áreas e no acesso a
outros espaços culturais como bibliotecas e centros culturais, praticamente
inexistentes nos assentamentos. Bem como potencializar a escola, como
instrumento de difundir a cultura popular e a cultura política dos trabalhadores e
camponeses.
Por fim, o MST, ao indicar em sua estratégia a Reforma Agrária Popular,
abre caminho para que nos assentamentos, a produção de alimentos de base
agroecológica permita a soberania alimentar, bem como, impulsione uma
aliança de classes mais consistente com os demais trabalhadores brasileiros,
remetendo-nos ao fortalecimento de um projeto societário que supere re-
volucionariamente o capitalismo, criando condições para a efetiva emancipação
humana.

Referências
DELGADO, Guilherme Costa. Do capital financeiro na agricultura à economia
do Agronegócio: mudanças cíclicas em meio século [1965-2012]. Porto Alegre:
Editora da UFRGS, 2012.
____________. Questão agrária hoje. 2016. 15 p. Palestra no XI CSBSP.
FILGUEIRAS, Luiz. História do plano real. São Paulo: Boitempo, 2000.
IBGE. Censo Agropecuário 2017: resultados preliminares. Rio de Janeiro,
2018.
LESSA, Sergio. Mundo dos homens: trabalho e ser social. São Paulo: Instituto
Lukács, 2012.
LUKÁCS, Gyorgy. Por uma ontologia do ser social. São Paulo: Boitempo, 2012.
MARTINS, Adalberto Floriano Greco. O contexto da reforma agrária bloqueada.
In: PALUDO, Conceição (org.). Campo e cidade em busca de caminhos
comuns: I SIFEDOC. Pelotas: Editora da UFPEL, 2014. p. 91-103.
____________. Elementos para compreender a história da agricultura e a
organização do trabalho agrícola. Caderno de Formação nº 40. São Paulo:
MST, 2016.
MST. Programa Agrário. São Paulo: 2013.
ROMERO, Daniel. Marx e a técnica – um estudo dos manuscritos de 1861-
1863. São Paulo : Expressão Popular, 2005.
STEDILE, João Pedro. A questão agrária no Brasil: o debate na década de
2000. São Paulo: Expressão Popular, 2013