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Universidade Federal de Campina Grande

Centro de Engenharia Elétrica e Informática


Departamento de Engenharia Elétrica

Aluno: Allan Michell de Medeiros


Matricula: 115211251

MEDIÇÃO DE ENERGIA ELÉTRICA ATIVA:


CIRCUITOS MONOFÁSICOS E TRIFÁSICOS

Campina Grande
2018
Introdução

Os medidores de energia elétrica

Os medidores de energia elétrica eletromecânicos têm sido gradativamente


substituídos por modelos digitais e esta alteração foi impulsionada,
especialmente nos últimos anos, pelo processo de implantação das redes
inteligentes no Brasil. Como vantagens em relação a seus antecessores,
pode-se destacar a capacidade de medição bidirecional, bem como de
mensurar o consumo de reativo(Figura1).

Estima-se que a troca dos medidores de energia elétrica no Brasil possa


custar algo em torno de R$13,4 bilhões. Segundo a Agência Nacional de
Energia Elétrica (Aneel), o país possui cerca de 67 milhões de medidores
instalados, sendo que o custo médio de cada medidor digital seria de,
aproximadamente, R$ 200,00.

Ainda, segundo a agência, além dos benefícios ao consumidor, o sistema


de smart grids (redes inteligentes) é visto como importante ferramenta para
gestão do sistema elétrico nacional. Através dele será possível introduzir
tarifas diferenciadas para consumidores residenciais, promover a interação
do consumidor com a conta de energia, reduzir as perdas não técnicas e
prevenir algum eventual dano à rede elétrica, por exemplo. O processo de
regulamentação tem por etapas uma série de consultas e audiências
públicas, ocorridas desde 2009.

(Figura1).
1 - Estado da arte das teorias de potência e energia

A fim de fixar critérios quanto à verificação dos medidores, o Inmetro,


considerando as Resoluções Normativas Aneel nº 414, de 9 de setembro de
2010, e nº 418, de novembro de 2010, e após consulta pública realizada em
2011, aprovou o Regulamento Técnico Metrológico (RTM) para medidores
de energia elétrica ativa e reativa. Segundo o Inmetro, os testes em
medidores visam comparar o medidor comercial com um medidor padrão ou
com o valor estimado por meio do método Potência x Tempo.

Quanto ao protocolo de medição, no que diz respeito às teorias de potência,


há mais de um século tem-se discutido sua formulação mais adequada,
dado a relevância e complexidade do tema. Personalidades
como Steinmetz, Fortescue, Buchholz, Budeanu, Czarnecki, Fryze,Depenbr
ock e Emanuel são apenas alguns dos pesquisadores que colaboraram
para um melhor entendimento do assunto. À medida que os sistemas
elétricos vão evoluindo e as cargas se tornando mais sensíveis e cada vez
mais distantes de uma senoide perfeita, há necessidade de aperfeiçoar os
modelos, tornando-os mais detalhados e algumas vezes mais complexos.

O Brasil tem aderido em geral à chamada “escola europeia”, que está


fortemente relacionada às normas da IEC. Esta escola baseia-se
principalmente nos estudos de Depenbrock (teoria de FDB – Fryze-
Buchholz-Depenbrock). Sua formulação matemática básica pode ser
visualizada de forma resumida nas equações a seguir.
2 - Influência de distorções das formas de onda na medição de energia
elétrica

Uma preocupação importante está associada ao comportamento dos


medidores digitais quando operando em circuitos contendo harmônicos e
desequilíbrios. Trabalhos destacam os erros observados em medidores de
energia elétrica devido à presença de harmônicos. Outras distorções na
forma de onda como: desequilíbrio, variações bruscas da carga e desvios
da freqüência da rede, por exemplo, também podem levar a medições
divergentes. Conseqüentemente, seria relevante avaliar o comportamento
dos medidores em cenários em que haja distorções na forma de onda da
tensão e da corrente.

O uso de cargas que variam sua impedância durante um ciclo de onda


convencional da tensão de alimentação (cargas não lineares) é cada vez
mais freqüente, seja em residências, comércios ou na indústria em geral.
Neste contexto não senoidal, suspeita-se que os medidores de energia
elétrica possam realizar medições incorretas devido às interferências
decorrentes das distorções presentes nas formas de onda da tensão e/ou
corrente, provocadas por tais cargas não lineares. A título de exemplo,
podem-se citar algumas destas cargas: lâmpadas fluorescentes compactas,
lâmpadas de led, computadores, televisores, retificadores controlados
eletronicamente, dentre outras.

3 - Metodologia
3.1 - Simulação de um medidor digital

Criou-se um medidor de energia elétrica virtual utilizando-se a


plataforma LabView, de tal forma que fosse possível avaliar a influência da
falta de qualidade da energia elétrica, especialmente, os harmônicos de
corrente e o desequilíbrio de fases, no faturamento da energia.

Através desta plataforma é possível realizar tanto simulações, bem como


testes reais, utilizando neste caso uma DAC – Digital to Analog Converter.
Por sua vez, para simular as cargas, utilizou-se de uma fonte hexafásica,
programável, modelo CMC 245-6 da Omicron, para gerar os perfis dos
sinais de tensão e corrente (erro garantido de 0,1% em relação à tensão e
corrente).
3.2 - O protocolo de medição utilizado

Em se tratando de medidores digitais, uma primeira decisão diz respeito à


taxa de amostragem necessária para captar de modo satisfatório os sinais
que se pretende processar, assim como o tamanho da janela e a forma de
agrupamento das informações amostradas.

Dispositivos usuais de processamento em medidores de energia trabalham


tipicamente com 256 amostras por ciclo (50-60 Hz), o que se mostra
suficiente para captar com exatidão mesmo harmônicos de até 50ª ordem.
Uma quantidade maior de amostras por ciclo traria poucos benefícios no
que diz respeito à exatidão e poderia onerar desnecessariamente o medidor
e, inclusive, comprometer a velocidade de processamento.

No caso do recurso utilizado para construção do medidor virtual (DAC – NI


USB-6210), suas características técnicas são: taxa de amostragem de 125
kS/s e resolução de 320 μV. Em relação ao tamanho da janela, podem
existir erros relevantes ao se tratar as medidas com diferentes tamanhos de
janelas, em especial num cenário repleto de cargas eletrônicas.

Dessa forma, propõe-se janelas de 12 ciclos, o que, em 60 Hz, corresponde


a 200 ms. O modo como são agrupados os ciclos e as janelas para assim
calcular a potência aparente (60) é expresso de forma resumida na Figura
2.

Figura 2 – Modelo de amostragem digital utilizado

Ʌ: Taxa de amostragem

T: Duração do ciclo

C: Nº de ciclos da janela
a: Amostra

j: Janela

t: Instante de tempo em que ocorre a amostragem

Considerando a janela (j), a primeira janela j=1 começa em t=0. Para o ciclo
(c) da primeira janela, a amostra (a) deste ciclo é computada no instante:

para o ciclo ( c ) da janela ( j ):

A energia ativa da janela (j) é calculada a partir das amostras de potência


ativa P(ta,c,j), ou seja, a potência vigente durante o intervalo da amostra (a)
do ciclo (c) da janela (j):

Em que Δt corresponde ao período de tempo da referida janela.

Para a energia aparente da janela (Aj), é:


O valor da energia aparente acumulada (A) corresponde a:

Sendo j a quantidade de janelas do período de apuração.

4 - Fundamentação teórica para protocolo de medição – sistema


trifásico
Ao analisar medições trifásicas, cabem algumas outras considerações:
segundo Depenbrock, devemos tratar o condutor de retorno (neutro) como
um condutor de fase, a fim de representar adequadamente o sistema, pois
cargas desbalanceadas e/ou não lineares fazem com que flua corrente
também nesse condutor.

Neste caso, as medições de tensão devem ser entre fase e neutro, em


todas as três fases, e as correntes serão de linha, também em todas as
fases. Com isso, mantendo-se as mesmas considerações acerca da
metodologia de amostragem apresentada, tem-se:
A equação (19) representa a potência instantânea trifásica da janela (j),
enquanto (20) corresponde ao total de energia integralizada durante o
intervalo de tempo (Δt) da referida janela.

No caso da energia aparente da janela (j), entende-se como a relação entre


a tensão RMS – Root Mean Square trifásica e a corrente RMS trifásica da
janela (21-22), sendo:
5 - Simulações e testes de laboratório

Foram realizados 19 testes, visando simular fenômenos comuns em


instalações elétricas de baixa tensão. Pretendia-se, com isto, verificar o
comportamento do medidor atuando nos quatro quadrantes
(bidirecionalidade) e sob fator de potência indutivo ou capacitivo. Além
disso, foram escolhidas situações que permitem avaliar o comportamento do
medidor quando há presença de harmônicos ou desequilíbrios.

Dessa forma, deseja-se analisar o erro e o impacto quando o medidor não


filtra as componentes harmônicas e os desequilíbrios de fases no processo
de medição das potências ativa e reativa.
– Teste 1: Cliente consumindo energia ativa com carga resistiva e fases
equilibradas;

– Teste 2: Cliente consumindo energia ativa e reativa com fp indutivo e


fases equilibradas;

– Teste 3: Cliente consumindo energia ativa e reativa com fp capacitivo e


fases equilibradas;

– Teste 4: Cliente consumindo energia ativa e reativa com fp indutivo e com


desequilíbrio de tensão;

– Teste 5: Cliente consumindo energia ativa com carga não linear do tipo
retificador trifásico de 6 pulsos não controlado, carga RL, com harmônicos
de corrente de 5ª, 7ª, 11ª e 13ª ordens e fases equilibradas;

– Teste 6: Cliente consumindo energia ativa com carga não linear do tipo
retificador trifásico de 6 pulsos não controlado, carga RC, com harmônicos
de corrente de 5ª, 7ª, 11ª e 13ª ordens e fases equilibradas;

– Teste 7: Cliente consumindo energia ativa e reativa com fp indutivo e


carga não linear do tipo retificador trifásico de 6 pulsos não controlado,
carga RC, com harmônicos de corrente de 5ª, 7ª, 11ª e 13ª ordens e fases
equilibradas;

– Teste 8: Cliente consumindo energia ativa e reativa com fp capacitivo e


carga não linear do tipo retificador trifásico de 6 pulsos não controlado,
carga RC, com harmônicos de corrente de 5ª, 7ª, 11ª e 13ª ordens e fases
equilibradas;

– Teste 9: Cliente consumindo energia ativa e reativa com fp indutivo e


carga não linear do tipo retificador trifásico de 6 pulsos não controlado,
carga RC, com harmônicos de corrente de 5ª, 7ª, 11ª e 13ª ordens e
desequilíbrio de fases;

– Teste 10: Cliente consumindo energia ativa e reativa com fp capacitivo e


carga não linear do tipo retificador trifásico de 6 pulsos não controlado,
carga RC, com harmônicos de corrente de 5ª, 7ª, 11ª e 13ª ordens e
desequilíbrio de tensão;

– Teste 11: Cliente (prosumer) injetando energia ativa com carga resistiva e


fases equilibradas;

– Teste 12: Cliente (prosumer) injetando energia ativa e reativa com fp


indutivo e fases equilibradas;
– Teste 13: Cliente (prosumer) injetando energia ativa e reativa com fp
capacitivo e fases equilibradas;

– Teste 14: Cliente (prosumer) injetando energia ativa e reativa com fp


indutivo e com desequilíbrio de tensão;

– Teste 15: Cliente (prosumer) injetando energia ativa com carga não linear
com retificador trifásico de 6 pulsos não controlado, carga do tipo RC, com
harmônicos de corrente de 5ª, 7ª, 11ª e 13ª ordens e fases equilibradas;

– Teste 16: Cliente (prosumer) injetando energia ativa e reativa com fp


indutivo, carga não linear com retificador trifásico de 6 pulsos não
controlado, carga RC, com harmônicos de corrente de 5ª, 7ª, 11ª e 13ª
ordens e fases equilibradas;

– Teste 17: Cliente (prosumer) injetando energia ativa e reativa com fp


capacitivo, carga não linear com retificador trifásico de 6 pulsos não
controlado, carga do tipo RC, com harmônicos de corrente de 5ª, 7ª, 11ª e
13ª ordens e fases equilibradas;

– Teste 18: Cliente (prosumer) injetando energia ativa e reativa com fp


indutivo, carga não linear com retificador trifásico de 6 pulsos não
controlado, carga RC, com harmônicos de corrente de 5ª, 7ª, 11ª e 13ª
ordens e desequilíbrio de tensão;

– Teste 19: Cliente (prosumer) injetando energia ativa e reativa com fp


capacitivo, carga não-linear com retificador trifásico de 6 pulsos não
controlado, carga do tipo RC, com harmônicos de corrente de 5ª, 7ª, 11ª e
13ª ordens e desequilíbrio de tensão;

Adotou-se para as tensões e correntes fundamentais, nos testes em que


estas variáveis eram equilibradas, o valor eficaz de 127 V e 1 A,
respectivamente, bem como defasagem de 120º entre as fases.

Para os testes com característica indutiva e capacitiva foram simuladas


cargas que correspondessem a um fator de potência de 0,80. Nos casos em
que há geração de energia elétrica ativa por parte do consumidor, prosumer
(testes 11 a 19), os ângulos das correntes em cada uma das fases foram
defasados de 180º se comparados aos testes 1 a 10 (consumidores), devido
à inversão do fluxo de carga nestes casos.

Na Tabela 1, encontram-se os valores dos testes que possuem


desequilíbrio de tensão:
Nas Tabelas 2 a 4, estão os valores das componentes harmônicos das
correntes.
Nas Tabelas 3 a 5 estão os valores dos componentes harmônicos das
correntes, com módulo em valores em pu em relação à componente
fundamental do teste já expressa na Tabela 2, e ângulo em graus.
6 - Análise dos resultados

Os resultados destacam o erro percentual entre expectativa teórica,


baseando-se nas equações de energia (10 – 11), e os testes em laboratório
utilizando o medidor virtual desenvolvido em LabView.

 Na Figura 4 são apresentados os erros nos dez primeiros testes (C1-C10),
sendo que nestes casos, o consumidor absorve da rede energia ativa em
diversas condições de desequilíbrio e presença de harmônicos, bem como
perfis de cargas hora capacitivos, hora indutivos.

Figura 4 – Gráfico indicando os erros de energia ativa consumida


Na Figura 5 são apresentados os erros nos demais testes (C11-C19),
sendo que nestes casos, o consumidor gera para a rede energia ativa
(prosumer) em diversas condições de desequilíbrio e presença de
harmônicos, bem como perfis de geração hora capacitivos, hora indutivos.

Figura 5 – Gráfico indicando os erros de energia ativa gerado pelo


prosumer.
A Figura 6, por sua vez, apresenta os erros associados à energia reativa,
em diversas condições de desequilíbrio e presença de harmônicos, bem
como perfis de geração hora capacitivos, hora indutivos, naqueles testes em
que o fator de potência não foi considerado unitário (C2-C4, C7-C9, C11-
C13 e C15-C18).

Figura 6 – Gráfico indicando os erros associados à energia reativa nos


testes com fp não unitário.

Pode-se observar que os erros da energia ativa ficaram abaixo de 0,4%


para cargas resistivas, e menores que 2% para os testes em geral. Já na
energia reativa, os erros mantiveram-se em torno de 3%, chegado, no pior
dos casos, a 3,32%.

Portanto, os filtros utilizados (para harmônicos e desequilíbrios), mostraram-


se eficazes e importantes em medidores desta natureza, podendo, caso
sejam suprimidos, proporcionarem uma medição divergente errônea.
Considerações finais

Este trabalho ratifica a necessidade dos testes em medidores digitais


comerciais, em especial aqueles a serem inseridos na baixa tensão, bem
como a definição de um protocolo para medição das energias e do fator de
potência, considerando a não linearidade do sistema. A fim de destacar a
influência de harmônicos e desequilíbrios, o medidor virtual desenvolvido faz
uso de filtros capazes de mitigarem possíveis erros gerados por estes
distúrbios de qualidade na medição de energia ativa, reativa e do fator de
potência. Obtiveram-se bons resultados nos testes realizados, sendo que os
erros ficaram entre 0,4% e 3,32% e estão em conformidade com os limites
adotados pelo Inmetro.
Fatores que contribuem para os erros ocorrem devido às limitações dos
equipamentos, por exemplo: erros no gerador de sinais Omicron, queda de
tensão nos cabos, mas, principalmente, erros nos transdutores e na placa
de aquisição. Logo, o uso de equipamentos de maior precisão tende a
reduzir tais erros. Como trabalhos futuros, propõe-se o aprimoramento dos
transdutores de corrente, inclusive com a possibilidade de utilização de um
resistor tipo shunt, visando à diminuição de ruídos. Outra sugestão é utilizar
o medidor virtual para servir de comparativo em testes com medidores
digitais comerciais.

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