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MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO

UNIVERSIDADE FEDERAL DOS VALES DO JEQUITINHONA E MUCURI


INSTITUTO DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
UNAÍ – MG

O MITO DO DESENVOLVIMENTO
ECONÔMICO
Autor: Prof. Dr. Ezequiel Redin

O Professor Dr. Ezequiel Redin, ao longo do texto, sintetiza as principais ideias sobre o mito
do desenvolvimento tomando como base dois principais pensadores: Celso Furtado e Edgar Morin.
Ele se aventura pelas obras para decifrar a compreensão de desenvolvimento adotada na segunda
metade de século.

O livro de Celso Furtado busca explicar o mito do desenvolvimento econômico


através da compreensão da realidade social, procurando ilustrar as consequências do
processo econômico no meio físico e na natureza. Trata de interpretar o mito como um
conjunto de hipóteses que não podem ser testadas, tendo como função principal
orientar o processo social. O documento esforça-se para a compreensão das noções de
progresso e desenvolvimento, além das características econômicas, como um processo
essencialmente político, social e cultural.
Faz menções críticas aos economistas que dedicaram horas de imaginação para
entender os complexos esquemas do processo de acumulação de capital movido pelo
processo tecnológico, deixando de lado o plano cultural, de um crescimento
exponencial do estoque de capital. A crítica dele era na visão unilateral dos
economistas que ignoravam as modificações no mundo físico, acreditando que o
progresso tecnológico poderia ser a solução do sistema, o que se verificou ao contrário,
isto é, ajudou a agravar os problemas. O autor questiona o modelo do sistema
econômico no auge das taxas de crescimento do milagre econômico. Parecia prever
que o fato estaria com os dias contados. Uma visão que na época foi desconsiderada
por muitos analistas por ser uma linha de pensamento contrária ao consenso atual.
Para o autor, o desenvolvimento econômico, que foi sendo aplicado nos países que
lideraram a revolução industrial, não deveria ser universalizado, como defendiam
vários outros economistas na época.
A obra identifica e reinterpreta a noção de subdesenvolvimento a partir da
concepção primária de que o mesmo está ligado a uma maior heterogeneidade
tecnológica, a qual reflete a natureza das relações externas desse tipo de economia.
Furtado refuta a ideia que subdesenvolvimento é medido de acordo com a idade de
uma sociedade ou país, no entanto, admite que ele seja mensurado pela acumulação
de capital e o grau de acesso aos bens finais. Alerta para o fato que capitalismo facilita

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a concentração do poder econômico e a emergência de grandes empresas que
controlam o mercado. A diferença entre o desenvolvimento e subdesenvolvimento é a
orientação dada ao uso do excedente engendrado pelo incremento de produtividade.
O ensaio evidencia os países cêntricos como promotores de uma efetiva tutela
política no plano econômico, sendo legitimado pelos Estados periféricos como uma
reconstrução estrutural necessária, onde se deu na reconstrução de infraestruturas,
modernização das instituições, intensificação da capitalização, ampliação da força de
trabalho, tudo isto fortalecendo grandes empresas dentro de cada país. A tutela
política sob controle norte-americano, sendo que os Estados nacionais tinham em
diferentes formas, considerável autonomia. As empresas americanas eram as que mais
estavam preparadas para explorar as novas possibilidades criadas pelas reformas
estruturais do sistema capitalista, sejam pelo poder financeiro ou pelo avanço
tecnológico. Furtado sustenta claramente a tese de que a concentração de renda seria
uma condição do capitalismo periférico e seu mimetismo cultural, reproduzem as
formas de consumo dos países do centro, isto é, enquanto nos países cêntricos a
acumulação avançou, nos periféricos a industrialização provocou concentração.
São enfatizadas expressões como a concentração de renda, dependência, tutela
política, mimetismo cultural, relações assimétricas centro-periferia, mercado externo e
interno. Foca-se na tentativa de explicar sob uma abordagem estruturalista os
fenômenos que enlaçavam o subdesenvolvimento e o desenvolvimento. O analista
aponta para fatores causantes da diferença de rentabilidade, se o nível de tecnologia
for parecido, como: a) escala de produção; b) economias externas locais; c) custo dos
insumos que não podem ser importados; e d) impostos locais em termos de produto
final. À medida que para determinada indústria o ponto de saturação é alcançado, o
fator fundamental passa a ser o custo da mão de obra em termos de produto final
vendido no mercado internacional. Está acontecendo nas grandes empresas o uso de
técnicas e capitais dos países centro e mão de obra (e capital) da periferia, aumentando
o poder de manobra, o que reforça a tendência da internacionalização das atividades
econômicas dentro do sistema capitalista.
O analista prevê cenários para os próximos anos afirmando que o sistema de
integração tende a reforçar as grandes empresas. Por outro lado, a necessidade de
assegurar estabilidade, em âmbito interno de cada subsistema nacional, requer
crescente eficiência e sofisticação na ação dos Estados. No entanto, o papel da
superestrutura tutelar do sistema capitalista, para Furtado, não se limita a promover a
ideologia da integração e a, ocasionalmente, arbitrar em conflitos regionais.
As opções dos países periféricos permeiam, segundo o economista, pela
detenção dos recursos naturais, onde para os países cêntricos é um limitante pelo
crescimento desordenado. O analista repercute assuntos ligados à burocracia do
Estado e reafirma que a detenção dos recursos naturais não renováveis nos países
periféricos é visto como fonte de poder. As tensões sociais serão norteadores dos
interesses sociais e da orientação das grandes empresas que, grosso modo, devem ser
compatíveis com um ordenamento interno do processo de desenvolvimento.

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O autor credita na tese de que o próprio desenvolvimento é um mito
inalcançável para as economias periféricas. Usa argumentos sobre a única riqueza dos
países periféricos: os recursos naturais. Seguindo a afirmação malthusiana de que a
densa população rural dependente de uma agricultura de subsistência exercerá uma
grande pressão sobre os recursos, o que pode provocar calamidades em certas regiões.
O aumento do consumo, a concentração de renda, também são elementos que
pressionam os recursos não reprodutíveis. Afirmação de Furtado sobre que as
econômicas periféricas nunca serão desenvolvidas, no sentido de similares às
economias que formam o atual centro do sistema capitalista, parece soar com os mais
ardentes defensores de um desenvolvimento sustentável. Furtado admite: o
desenvolvimento econômico é um simples mito. A crítica reflete no sentido de expor
suas previsões de avanço do sistema capitalista contribuindo para eliminar certos erros
decorrentes no percurso. Grosso modo, as contribuições de Celso Furtado, atualmente,
ainda continuam válidas na tentativa de construir um desenvolvimento que atenda as
diferentes concepções de mundo da sociedade contemporânea.

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Na obra Sociologia de Edgar Morin, a reflexão do texto “O desenvolvimento da


crise do desenvolvimento” é construída em quatro partes principais: a) a noção de
desenvolvimento; b) crise de crescimento ou crescimento de uma crise; c) a pseudo-
solução e d) o horizonte. O primeiro tópico Morin afirma que o problema preliminar é
um problema de conceitos. A existência da crise é devido ao fato que surgiu a incerteza
ao que parecia coerente e confuso o que era certo. Faz analogia entre o
desenvolvimento e o desenvolvimento biológico para explicar que o último também
apresenta problemas, inclusive de regenerações.
O analista faz questionamentos sobre se é mesmo certo que o desenvolvimento
econômico/industrial/técnico/científico suscita por si o desabrochar e o progresso
antropossocial? Em sua concepção existem duas respostas antagônicas: a) sim, desde
que em condições democráticas-liberais; b) sim, desde que em modo socialista. O mito
do desenvolvimento surgido na década de 60 envolvem dois aspectos: a) um global e
sintético que é o mito da sociedade industrial: com a industrialização a humanidade
alcança êxito, felicidade plena, isto é, resolução de todos os conflitos existenciais e
sociais; b) e um aspecto redutor de caráter econômico-tecnocrático: o desenvolvimento
industrial era impulsionador do desenvolvimento econômico que era propulsor do
desenvolvimento social que iniciava o desenvolvimento humano. Morin chama isso
de mito global: reducionista, economística, tecnocrata e pobre. Esclarece que para
afastar-se das incertezas do desenvolvimento humano foram propostos os índices de
crescimento, sendo o desenvolvimento industrial o que é mensurável em
desenvolvimento social. Descobre-se então que na raiz de desenvolvimento o que é
pobre é o que parece mais rico: a própria noção de homem e de sociedade. Assim
sendo, na perspectiva mitológica de desenvolvimento, o homem é racional, tecnocrata

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e unidimensional e a sociedade é mecânica, econômica e limitada. O analista afirma
que o desenvolvimento se torna o meio e o fim do sistema auto organizador.
No segundo item abordado, evidencia que a noção de desenvolvimento entrou
em crise quando se almejou integrar harmoniosamente: crescimento, bem-estar,
liberdade, felicidade, equilíbrio, pois são noções antagônicas. O anúncio da crise se dá
em indícios desviantes e periféricos (não reconhecidos e legitimados) que contrariam
a harmonia dos elementos e o desenvolvimento pautado pela riqueza mensurada
especialmente nas sociedades industriais avançadas. A crise do desenvolvimento não
é meramente a crise dos dois grandes mitos do Ocidente moderno, e a conquista da
natureza (objeto) pelo homem (sujeito/soberano do mundo) e o triunfo do indivíduo
atomizado burguês. O ponto chave da interpretação do autor passa quando afirma que
a crise do desenvolvimento também é a crise do controle do desenvolvimento do nosso
próprio desenvolvimento, isto significa que o nosso controle não é efetivo, pois gera
descontroles como as crises econômicas, evoluções tecnológicas, comportamentos
sociais, etc. O desenvolvimento está em crise em todos os mundos, ocidental e terceiro
mundo. As duas crises se se confirmam e se agravam simultaneamente.
No terceiro tópico, trata-se do desenvolvimento na perspectiva do socialismo
como motor do desenvolvimento industrial, sendo o melhor modelo de
desenvolvimento. Morin tenta explicar na perspectiva marxista em dois planos sua
argumentação: a) modelo puro: comunista, partido único. Exclui toda competição
política e pluralista; b) sistemas bastardos: partido relativamente plural, não
monolítico e virtualmente instável. No último tópico, o autor declara e assume que não
existe solução em vista, no entanto, cita condições necessárias para elaboração de uma
solução, as quais devem ter conjunção do pensamento em ação e surgidas no próprio
corpo social. Em relação ao pensamento, não subordinar o desenvolvimento ao
crescimento, mas sim ao contrário; subordinar o desenvolvimento técnico/científico ao
desenvolvimento do homem; criar uma teoria do homem e da sociedade; o objeto é o
desenvolvimento e o homem/sociedade são os sujeitos do processo, não o contrário;
desenvolvimento é inseparável de uma metamorfose social: a sociedade não pode
desenvolver-se sem uma mudança radical.
No final o analista aponta algumas hipóteses: a) catástrofe: a humanidade
“desenvolveu-se” em processos autodestrutivos; b) renascimento da humanidade –
metamorfose social: as potencialidades existem no ser humano e no ser social que
ainda estão no começo das suas potencialidades evolutivas. Geralmente baseadas em
forças fracas e mitificadas que, para Morin, é a grande tragédia da época; c) idade
média planetária: em vez de uma síntese fecunda entre ordem e a desordem, que
deveria ser o progresso, vamos desenhar a justaposição de uma ordem rígida
(garantida por aparelhos implacáveis) e uma desordem não criativa, isto é, onde se
dissolverão as regras civilizadas. Para ele essa última é a mais provável. Por fim,
conclui que todas as grandes mudanças, todos os grandes progressos, na história da
vida como na história do homem, foram vitórias do improvável.

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REFERÊNCIAS
FURTADO, C. O mito do desenvolvimento econômico. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1974/1996.
MORIN, E. Sociologia. Lisboa: Publicações Europa-américa, 1984.

Estudar na UFVJM é excelente!


Estudar com o Prof. Ezequiel, então, nem se fala!

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