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MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO

UNIVERSIDADE FEDERAL DOS VALES DO JEQUITINHONA E MUCURI


INSTITUTO DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
UNAÍ – MG

GLOBALIZAÇÃO COMO MODELO DE


DESENVOLVIMENTO
Autor: Prof. Dr. Ezequiel Redin

O Professor Dr. Ezequiel Redin, ao longo do texto, sintetiza as principais ideias sobre a
globalização tomando como base a linha interpretativa sobre os modelos de desenvolvimento. Ele
se aventura pelas obras para decifrar a compreensão de desenvolvimento calcado na racionalidade
do padrão global adotada, de forma mais enfática no Brasil, a partir da década de 90.

O recorte analítico tem por propósito introduzir um novo conceito para um


velho problema, o truísmo sobre a “melhor” abordagem do desenvolvimento.
Apelidado agora de globalização, palavra originária, talvez, pela capacidade de
acoplar o todo, o global, ou seja, o integral e/ou mundial e que poderia ser aplicável a
um conjunto. A palavra com “tom moderno” parece, inicialmente, explicar o
inexplicável quanto a sua menção quase com capacidade de auto-definição. Nessa
expectativa que iniciamos a reflexão do texto de Galvão “Globalização: arautos, céticos
e críticos”, que trata de distinguir três eixos de analistas e personalidades que
marcaram a globalização acentuando: a) os elementos da descontinuidade (os arautos
da globalização; divulgadores de um mundo novo e de seus supostos imperativos); b)
àqueles que privilegiam os fatores de continuidade, seja a prevalência do poder e dos
Estados-nação nas relações internacionais (céticos), c) seja a renovação e expansão do
capitalismo como motor de uma história mundial, cuja lógica caberia denunciar e
contra cujos efeitos os povos deveriam insurgir-se (críticos). O analista inicia
chamando de modismo a era da Globalização. Baseado em escritos de Rosenau em
1996 converte questionamentos sobre a terminologia. Indica que sociólogos como
Roland Robertson e Anthony Giddens auxiliaram na massificação do termo. Parece-
nos que a etimologia surgiu como aposta para substituir de vez a noção de
desenvolvimento, mas não teve, talvez, essa dimensão devastadora.

As raízes do debate, tópico em que Galvão fornece responsabilidade para Jan


Aart Scholte, para falar da cristalização do discurso sobre a globalização e a disputa
entre conservadores (céticos) que negam essa tendência e, os liberais (arautos) que
celebram os benefícios presumidos e os críticos que denunciam seus alegados efeitos
negativos. Através do viés adotado por Roger Tooze afirma que existe cooperação na
economia global, no entanto, sob condição de hegemonia. A estrutura da economia
global é determinada pelo poder estatal, que se exprime por meio da hegemonia de

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um ou mais Estados nacionais. Após apresenta uma série de precursores sobre o
advento da globalização. A argumentação dos arautos (liberais defensores) é
fortalecida por uma série de dados econômicos positivos para a economia global. O
autor apresenta os principais influentes e representantes dos arautos na década de 90,
Robert Reich e Kenich Ohmae, ambos, com ideia de uma economia mundial
profundamente integrada, mesmo existindo grande diferença entre as suas posições.
Riech estuda um resgate mínimo de justiça social nos EUA e defende a adoção de um
nacionalismo econômico positivo. Ohmae declara o fim das fronteiras nacionais e do
Estado nação, mas dedica boa parte de seu esforço para construção de argumentos que
auxiliem na superação dos desentendimentos entre Japão e Estados Unidos. Quando
o analista aborda a temática das finanças globais cita Peter Ducker, o chamado guru
da estratégia empresarial, informa que a economia mundial já havia mudado antes do
imaginado (déc. 70), quando aconteceu descolamento dos produtos primários da
economia industrial, da produção do emprego, e os movimentos de capital, não mais
o comércio de bens e serviços, transformaram a força propulsora da economia
mundial. A primeira parte da publicação termina falando da Revista The Economist
como uma das principais responsáveis pela divulgação da globalização.

A segunda parte escrita por Galvão, publicada três meses depois, fornece ênfase
aos céticos (conservadores). A eminência dos escritos de Paul Hirst e Granhame
Thompson elencam três aspectos questionáveis sobre os globalistas: a) ausência de um
modelo comumente aceito da nova economia global e de como ela difere dos estados
anteriores da economia internacional; b) a tendência de citar exemplos da
internacionalização de determinados setores e processos como se fossem a prova clara
do surgimento de uma economia dominada por forças autônomas do mercado global;
c) a falta de profundidade histórica, a insistência em retratar as mudanças atuais como
únicas, sem precedentes e fadadas a persistir no longo prazo. Conforme esse viés
defendido, a globalização não passa de um mito para Hirst e Thompson. Afirmação
que lembra Furtado, quando escreveu na década de 70 sobre “O mito do
desenvolvimento econômico”, no entanto, em outro contexto e análise. Os analistas
citados se apoiam em diversas premissas para sustentar a hipótese que a globalização
não passa de uma fábula, como: o nível de integração não é inédito; companhias
relativamente transnacionais são relativamente raras; a mobilidade do capital não tem
levado ao maciço redirecionamento do investimento e do emprego dos países
avançados para as nações em desenvolvimento; a economia mundial está longe de ser
global; as potencias (Japão, EUA, Europa) coordenam políticas exercendo forte
influencia sobre a economia mundial. Sintetizando, a liberação é fruto da decisão
política e a supervisão vai até onde a vontade permite. A redução da capacidade dos
Estados agirem de modo autônomo em relação às próprias sociedades, pois a menor
possibilidade de implementar políticas “nacionais” diferentes restringe a gama de
incentivos e sanções econômicos disponíveis.

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Após citar Robert Cox, Galvão sustenta que os céticos, mesmo os mais
econômicos, tendem a resistir a leitura que subordina o político ao econômico, ao
contrário, acentua a permanência da diversidade do espaço para a ação. Na parte onde
escreve sobre os “Céticos políticos” sustenta que existe uma breve discussão sobre a
distinção entre interdependência (pensado no contexto da guerra fria, da competição
de modelos sociais radicalmente opostos) e globalização (da “vitória” do Ocidente,
ambiente quase monolítico). A ideia de interdependência é vista, grosso modo, por
algumas concessões das nações ricas para os mais pobres e a globalização com
raciocínio inverso, ou seja, são as nações em desenvolvimento que devem ceder em
muitas de suas práticas e posições se quiserem ter acesso aos benefícios do progresso.
Ambas terminologias expostas a críticas, no entanto, o eixo da discussão permanece
igual, isto é, a posição do Estado como ator principal das relações internacionais, num
contexto em que as indicações de crescente integração econômica se tornam cada vez
mais irrefutáveis.

Diante do trabalho de Galvão percebe-se uma ampla apropriação do tema


estudado, bem como o imenso referencial analítico citado. Tal é a profundidade que
arrisca em categorizar analistas, transformando-os em céticos, arautos e críticos com
ampla propriedade. Ao discorrer sobre os críticos aponta Marx e Engels como os
pioneiros mais influentes arautos da globalização econômica pelo viés do papel
libertador da expansão do capitalismo no mundo. Galvão reavalia dizendo que a
dupla acertou na vocação globalizante, no entanto se enganaram quanto aos
resultados, pois pensavam que o capitalismo iria empurrar a história para frente e
gerar condições para o advento do socialismo e do comunismo. Após citar vários
clássicos, assinala o neo-realismo crítico e o neomarxismo contemporâneo na discussão
sobre a globalização. Os divulgadores críticos proporcionaram, assim como os arautos,
uma literatura semipopular para divulgar os efeitos negativos e possíveis perigos da
globalização. Por fim, o analista reitera que apresentou uma síntese sobre as diferentes
posições corroborando que a globalização deve ser guiada pela existência da
possibilidade e a necessidade de tomar decisões e escolher próprios caminhos, com
sua própria autonomia.

O paper escrito por Featherstone sobre Localismo, globalismo e identidade


cultural, transparece a crítica às interpretações simplistas do processo de globalização
que destacam a ou homogeneização ou a fragmentação. Evidencia a complexidade da
questão diante de situações hegemônicas e das estratégias de preservação, adaptação
ou resistência de culturas locais e particulares, através da argumentação teórica,
ilustrada por vários exemplos de casos concretos. Propõe outro modelo para a
interpretação do processo de globalização cultural baseado na relação social entre
grupos “estabelecidos” e “forasteiros”. Featherstone coloca logo no início que um dos
problemas na tentativa de formular uma teoria da globalização é adotar uma lógica
totalizante, supondo que estaria ocorrendo um processo geral de globalização que
torna o mundo mais unificado e homogêneo. O localismo e o sentido de lugar recuam

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diante do anonimato de “espaços de não-lugar” ou ambientes simulados em que
somos incapazes de sentir que estamos em casa. De fato, para ele parece evidente é
que não se trata de considerar o global e o local como dicotomia separada no espaço
ou no tempo, e sim que os processos de globalização são indissociáveis na fase atual.

Geralmente, presume-se uma identidade cultural estável, homogênea e


integrada, ao mesmo tempo duradoura e única. Featherstone após citar exemplos de
representações da classe operária em produtos midiáticos como filmes, afirma que
essas imagens auxiliam na construção de mitos de pertencimento, calor humano e
solidariedade que indica a segurança mítica de uma infância à qual há muito se
renunciou. Ainda, afirma que gerações sucessivas investiram numa forma de nostalgia
em que o passado é visto numa imagem de coerência e ordem, algo que era mais
simples e mais gratificante emocionalmente, com relações mais diretas e integradas.
Coloca como problemático estabelecer até que ponto uma localidade era integrada no
passado. Há que atentar para o local no tempo-espaço e no espaço social daqueles que
fazem essas declarações e para o fato de que podem estar pintando um retrato
nostálgico demasiado unificado. É importante também não trabalhar com a visão de
que as localidades só mudam por um processo linear de modernização implicando o
eclipse da comunidade e da cultura local. Destaca a importância de processos
comunicativos na sustentação da cultura, depois menciona a nação enquanto
comunidade onde reitera que o lugar é simbólico no sentido de que pode ser um
espaço geograficamente delimitado, sedimentado com sentimentos simbólicos. A
situação global contemporânea é a capacidade de deslocar a moldura, de mover-se em
vários focos, de lidar com um leque de material simbólico, onde várias identidades
podem ser formadas e reformadas em situações diferentes. Após faz reflexão entre a
globalização e a identidade cultural atentando questionamentos sobre a globalização
como um único lugar. Faz crítica ao processo de dominação dos grupos externos
fazendo analogia a colonização.

SÍNTESE OPINATIVA

Por fim, a globalização “novo” marco para compreender o progresso está


calcado, grosso modo, no viés do igual, da padronização, o que implica diretamente
na questão local e cultural levantada por Featherstone. Talvez, a concepção norteadora
do global deveria pressentir e respeitar as racionalidades internas e não buscar o
máximo de uniformização seja em termos de economia, de identidade, de reprodução
social e outras. Ademais, se a globalização é entendida como um processo de erosão
cultural, devemos, ao menos, pensar nos efeitos negativos desse suposto fenômeno e
questionar se é a globalização a “salvação” do mundo contemporâneo ou é mais um
teoria inusitada e fadada ao desaparecimento que marcou história no processo de
evolução da humanidade.

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REFERÊNCIAS

FEATHERSTONE, M. Localismo, globalismo e identidade cultural. Revista


Sociedade e Estado, v.11, n1, p. 09-42, jan. / jun. 1996.

GALVÃO, M. B. A. Globalização: arautos, céticos e críticos (1ª parte). Política


Externa. São Paulo: Paz e Terra / USP, v. 6, n 4, p. 36-88, mar./mai. 1998a.

GALVÃO, M. B. A. Globalização: arautos, céticos e críticos (2ª parte). Política


Externa. São Paulo: Paz e Terra / USP, v. 7, n 1, p. 117-160, jun./ago. 1998b.

Estudar na UFVJM é excelente!


Estudar com o Prof. Ezequiel, então, nem se fala.

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