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MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO

UNIVERSIDADE FEDERAL DOS VALES DO JEQUITINHONA E MUCURI


INSTITUTO DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
UNAÍ – MG

DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL: UMA


NOVA ESTRATÉGIA PARA VELHOS
PROBLEMAS
Autor: Prof. Dr. Ezequiel Redin

O Professor Dr. Ezequiel Redin, ao longo do texto, sintetiza as principais ideias sobre o
desenvolvimento territorial tomando como base as estratégias de dinamização da economia. Ele se
aventura pelas obras para decifrar a compreensão de desenvolvimento calcado nas estratégias
territoriais enfatizada no Brasil, a partir da década de 2000.

Os textos trabalham uma reflexão em torno da abordagem territorial para o


desenvolvimento. O texto de Zander Navarro trata de abordar as discussões referentes
ao desenvolvimento nas últimas cinco décadas, conferindo ao “espírito da época” a
justificativa para as ações com ímpeto modernizante. Após breve retrospectiva dos
fatos que marcaram época no país e no mundo, trata de elaborar alguns conceitos: a)
desenvolvimento agrícola (ou agropecuário): condição de produção agrícola e/ou
agropecuária, suas características, assim sendo, a base propriamente material da
produção agropecuária, facetas e evoluções; b) desenvolvimento agrário: estudam as
mudanças sociais e econômicas no longo prazo; c) desenvolvimento rural: foi muito
alterado ao longo do tempo, influenciado por diversas conjunturas da economia, da
vida social e das atividades rurais; d) desenvolvimento rural sustentável: surgiu em
meados da década de 80, em função da expressão “desenvolvimento sustentável”,
incorporando noções de equidade social; e) desenvolvimento local: tomando por
pressuposto estratégias de ação locais. No tópico seguinte, Navarro escreve sobre o
desenvolvimento rural e os limites no Brasil dialogando com os percalços que
imperam estratégias de desenvolvimento rural. Faz críticas sobre a reforma agrária
como a mentora salvadora do desenvolvimento, bem como, nesse momento, trata
também do projeto de jovens agricultores que é muito similar ao modelo norte
americano diante do desenvolvimento do capitalismo agrário. No item “As mudanças
possíveis” alerta que o processo de transformação envolve primeiramente um debate
político e ideológico, para após, trazer a tona um debate ambiental e social. Parece-nos
que o autor demonstra as confluências do desenvolvimento, no entanto, peca no
debate mais profundo sobre esse polêmico, dúbio e complexo tema sobre o
desenvolvimento.

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O artigo de Veiga, “Nascimento de outra ruralidade” aponta para duas


hipóteses extremas sobre a ruralidade: a de completa urbanização ou a de um
renascimento rural, fundamentado em estudos de Lefebvre (urbanização) e Kayser
(renascimento). A terceira hipótese sustentada por Veiga é o nascimento em vez da
“emergência” de outra ruralidade. Ele discute os três vetores, balizado por vários
exemplos de experiências do país e fora dele. No caso, de Lefebvre, o autor afirma que
a redução do rural ao agrário só reforçou a inclinação estrutural em pensar a
contradição urbano-rural como antagonismo. Isso não é um simples equivoco, mas
interpretada como meras anomalias passageiras de um processo demorado de
desaparecimento da ruralidade. Kayser trata do argumento do renascimento do rural,
sendo contrariada por Veiga, onde expõe razões alegando para fatos já conhecidos e
pelo retrospecto da história da sociedade humana. Para o analista, o grau de
artificialização dos ecossistemas que distingue, em última instância, o urbano do rural.
Nesse sentido, em vez da revolução urbana, profetizada por Lefebvre, ou o do
renascimento rural, preferido por Kayser, o que se testemunha é o nascimento de outra
ruralidade.

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Ortega e Mendonça em “Estratégias de desenvolvimento territorial rural no


Brasil: continuidades e rupturas” trata de indicar uma retrospectiva histórica sobre o
tema, bem como contextualizar as concepções dos últimos três governos brasileiros,
FHC e Lula, onde desenvolvimento local ganhou espaço. Os primeiros passos com
experiências em desenvolvimento territorial surgem ainda na década de 80, sob um
contexto de crise econômica, iniciativas emergem no sentido de encontrar respostas
autônomas de desenvolvimento para os espaços locais. A sociedade iniciou a procura
de espaços para a construção de um desenvolvimento que recusava as políticas de
desenvolvimento apoiadas no modelo top-down de planejamento, que
desconsideravam as opiniões da sociedade local com respeito aos projetos formulados
pelo governo central.

Em 1988, através de Carta Institucional é relegado um forte processo de


descentralização do país com o aumento das responsabilidades dos estados e dos
municípios. Isso foi resultado de vários processos reivindicatórios em torno da maior
participação da sociedade civil na formulação e gestão de políticas públicas locais. Para
tanto, foram criados conselhos (arranjos sociais locais), sendo que alguns deles tinham
além do poder consultivo, o poder deliberativo. Para exemplificação criam-se os
conselhos municipais, como: Conselho da Saúde, Conselhos Municipais de Educação,
Conselhos Municipais de Assistência Social, Conselhos Municipais de
Desenvolvimento Rural Sustentável (CMDRS), entre outros.

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Do mesmo modo que FHC, o governo de Lula submete projetos sobre o
desenvolvimento territorial, sinalizando para o prosseguimento da abordagem
territorial dirigida ao meio rural. Porém, diferenciando suas estratégias do governo
anterior, o qual usava políticas descentralizadoras com base nos municípios, agora,
constituem-se espaços sócio-produtivos de caráter intermunicipal. Ortega e Mendonça
afirmam que a busca de arranjos intermunicipais é uma inovação importante podendo
conceber vantagens para que se alcancem escopos desenvolvimentistas, como surtir
dificuldades ao constituir um ente intermediário entre o município-estado-união, não
antecipado constitucionalmente. Entre as ações mais importantes de desenvolvimento
territorial, apontam duas experiências no governo Lula: 1) os Consórcios
Intermunicipais de Segurança Alimentar e Desenvolvimento Local (Consads) no
âmbito do Programa Fome Zero (PFZ), e 2) o Territórios Rurais implementados pela
Secretaria de Desenvolvimento Territorial (SDT) do Ministério do Desenvolvimento
Agrário (MDA). Por fim, os analistas concluem, referindo-se a importância
participação do Estado não apenas a distância como mero coordenador, mas com
presença ativa na correção de distorções criadas por conjunturas da concorrência
causando diferenças sociais.

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O paper de Guanziroli discute o desenvolvimento territorial estabelecendo


como objetivo analisar alguns conflitos no processo de escolha, tais como: a) entre a
ênfase no econômico ou no social-institucional, b) entre participação e eficácia; c) entre
representatividade e inovação, d) entre coesão social e conflito, e) entre rendas
agrícolas e rendas rurais multifuncionais. Para iniciar, faz uma análise das políticas de
desenvolvimento territorial, a partir dos antecedentes, parecida com a abordagem de
Ortega e Mendonça.

No segundo tópico, centra-se nos aspectos conceituais e contradições do


conceito de território. A ênfase no econômico ou no social-institucional trata de
articular de forma competitiva a economia dos territórios, com infraestrutura
sistêmica, demanda externa, economia de escopo, atividades rurais não agrícolas. A
ênfase no institucional é uma construção social, através da participação aumentando a
capacidade, reduzindo a assimetria de informações e “reterriotializa”.

A participação ou eficácia é interpretada pelo viés de ações de cima para baixo


nos anos 70 e de baixo para cima a partir da última década. Usa Veiga para crítica de
que o conflito entre participação e eficácia só é valida se o desenvolvimento rural é
visto além da renda, ao contrário bastariam apenas transferências diretas e crescimento
econômico. Em relação a representatividade ou inovação, momento em que o analista
crítica o programa “Território para a Cidadania” por estar centrada em assentados,
agricultores familiares, quilombolas, etc, sem inclusão da iniciativa privada. Coesão
social, conflito e negociação é outro item abordado, onde ressalta a importância da

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harmonia entre a sociedade e a necessidade de facilitar a negociação entre agentes e
atores.

Em outro momento, foca no papel da agricultura no desenvolvimento


territorial, onde cita a abordagem multifuncional (recursos do território, recurso terra,
identidades culturais, biodiversidade, que remete as funções que o território pode
cumprir: funções produtivas, ambientais, ecológicas e sociais); e multisetorial (agrupar
distintos conjuntos de atividades econômicas, agricultura, indústria, serviços, etc) do
conceito de território. Sustenta que a realidade local é que deve definir o peso das
atividades agrícolas e não agrícolas, em vez do planejador.

Para terminar, Guanziroli afirma que o território pode ser visto como uma
configuração mutável, provisória e inacabada, considerando que sua construção
pressupõe a existência de uma relação de proximidades dos atores. Menciona que não
se pode planejar partindo da premissa que a sociedade local é homogênea e que os
interesses de todos são igualmente representados por qualquer um de seus membros.
O processo de construção do território é lento, guiado pela construção social, através
de uma negociação de conflitos e construção de identidade, sendo que qualquer
tentativa de acelerar o processo (pressões, condicionantes ou subsídios excessivos)
pode levar ao aborto de iniciativas que podem ser relevantes para o desenvolvimento
econômico e social das áreas rurais.

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O artigo de Arilson Favareto traz a reflexão do desenvolvimento territorial


ligando a trabalhos de Veiga, Abramovay, Schneider, Favareto, mas originando-se das
novas dinâmicas espaciais dos trabalhos de Bagnasco. Favareto objetiva analisar as
dificuldades dos Estados e governos locais em operar com a nova visão do
desenvolvimento rural enfatizando o combate a pobreza e no caráter territorial das
novas orientações em contraposição ao viés setorial. Traz a tona a discussão de marcos
referenciais consagrados como Bourdieu com a noção de illusio, as formas de
racionalização predominantes de Weber e a dependência de caminho de Douglas
North para trabalhar com as questões institucionais. Indica que as teorias atestam três
indicações: a) a principal forma da mudança é a evolução incremental pelo
aprendizado; b) a mudança pode também ser alcançada pela alteração das posições e
do peso social dos agentes portadores das novas e das velhas instituições; c) mudança
pode ainda ser induzida por alterações nos sistemas de incentivos e constrangimentos.

Todas revelam a introdução do adjetivo territorial no repertório das


organizações não governamentais, da burocracia estatal e dos movimentos sociais,
supondo uma “adição” e não um sinal de mudança institucional. No final, o analista
transmite a ideia de que a dinâmica que envolve estas intersecções revela toda uma

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estrutura de bases cognitivas e interesses traduzidos em incentivos e constrangimentos
estabelecidos em consonância com os aspectos mais marcantes da velha visão.

Assim, Favareto conclui que a passagem do compromisso setorial ao territorial


nas instituições e políticas para o desenvolvimento rural torna-se incompleto, uma
espécie de “inovação por adição” no vocabulário, no discurso e nas políticas, de órgãos
governamentais e de agentes sociais como organizações e apoio e movimentos sociais,
sem, ainda, um correspondente em termos de mudança institucional.

SÍNTESE OPINATIVA

Grosso modo, os textos apontam limites sobre a abordagem territorial e


algumas potencialidades. Em nossa opinião, para a aplicação da política nos territórios
é necessário assimilar que não é somente liberar recursos financeiros para que tudo se
solucione, mas indicar uma ação planejada do Estado, articulada as potencialidades
do espaço rural e a sociedade entender imprescindível a mudança tanto na forma de
agir como nas potencialidades do território. Nesse momento, a participação social se
torna mera protagonista para que as decisões sejam tomadas de acordo as prioridades
e necessidades sociais, minimizando ou abafando as tentativas de indução (interesse
individual ou partidário) pela gestão pública.

REFERÊNCIAS

NAVARRO, Z. Desenvolvimento rural no Brasil: os limites do passado e os caminhos


do futuro. Revista Estudos Avançados, São Paulo: USP, v.16, n.43, dez. 2001.
VEIGA, J. E. Nascimento de outra ruralidade. Revista Estudos Avançados, São Paulo:
USP, v.20, nº, 57, 2006. p. 333-353.
ORTEGA, A. C; MENDONÇA, N. C. Estratégias de desenvolvimento territorial rural
no Brasil: continuidades e rupturas. In: ORTEGA, Antonio C.; FILHO, N. A.
Desenvolvimento Territorial, Segurança Alimentar e Economia Solidária. Ed.
Alínea. Campinas, São Paulo: Ed. Alínea, 2007. 93-121.
GUANZIROLI, Carlos Enrique. Desenvolvimento territorial no Brasil: uma
polêmica. Niterói: UFF, 2008.
FAVARETO, A. A abordagem territorial do desenvolvimento rural – mudança
institucional ou “inovação por adição”?. In: Anais... XLIV Congresso da SOBER.
Fortaleza (CE), 2006.

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Estudar na UFVJM é excelente!
Estudar com o Prof. Ezequiel, então, nem se fala.

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