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Promoção dos direitos

da população em
situação de rua
Módulo

4 Trabalho - Saúde - Educação


Fundação Escola Nacional de Administração Pública

Presidente
Diogo Godinho Ramos Costa

Diretor de Educação Continuada


Paulo Marques

Coordenador-Geral de Educação a Distância


Carlos Eduardo dos Santos

Conteudista/s
Gustavo Clayton Alves Santana

Curso produzido em Brasília 2019.

Enap, 2019

Enap Escola Nacional de Administração Pública


Diretoria de Educação Continuada
SAIS - Área 2-A - 70610-900 — Brasília, DF

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Sumário
1. Justificativa e objetivos.................................................................. 5

2. A situação educacional das pessoas em situação de rua e a educação


como estratégia emancipadora.......................................................... 5

3. Trabalho........................................................................................ 8

4. Saúde.......................................................................................... 12

5. Guarde na memória!................................................................... 15

6. Referências Bibliográficas............................................................ 16

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4
Módulo

Trabalho - Saúde - Educação

1. Justificativa e objetivos
A condição em que as pessoas em situação de rua se
encontram acaba moldando as interações que a sociedade
geral vai construir com essas pessoas. É comum perceber
o medo e até mesmo a repulsa nos rostos de quem passa
apressado pelas ruas das cidades.

Falta, para a maior parte do senso comum e até para muitos


agentes estatais, a compreensão de que situação de rua,
à qual muitas pessoas hoje no Brasil são submetidas, é
condicionada por diversos fatores estruturais – ausência
de moradia fixa, trabalho formal, renda inconstante –
e biográficos – a desagregação de vínculos familiares,
acometimento de doenças mentais ou o uso e abuso na
utilização de álcool ou drogas – que podem ocorrer em Fonte: https://www.freepik.com/
conjunto ou separadamente.

A situação de extrema vulnerabilidade das pessoas em situação de rua deve ser considerada para
que lhes seja oferecida a chance de fortalecer sua autonomia individual e de um efetivo retorno
à vida em comunidade. Nessa perspectiva, o acesso aos direitos sociais fundamentais de saúde,
educação e trabalho constituem vias para o encontro com a autonomia e para a saída efetiva das
ruas.

Este módulo abordará estes três direitos sociais. Ao concluir o módulo, você terá aptidão para
categorizar algumas das políticas públicas de trabalho, saúde e educação oferecidas pelo estado
brasileiro para a população em situação de rua.

2. A situação educacional das pessoas em situação de rua


e a educação como estratégia emancipadora
A pesquisa nacional sobre a população em situação de rua, realizada em 2007, traz detalhamentos
sobre o perfil de educação desta população. Na época da divulgação da pesquisa, foi identificado
o abismo educacional ao qual estas pessoas são submetidas. Segundo a pesquisa, das pessoas
que estavam nas ruas naquela época, 15,1% nunca havia estudado, 48,4% não havia terminado o
primeiro grau, 10,3% haviam terminado o primeiro grau, 3,8% tinham o segundo grau incompleto
e 3,2% tinham completado o segundo grau, pessoas com ensino superior incompleto e completo
significavam, em ambas as categorias, 0,7% dos entrevistados.

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O artigo 6º da Constituição Federal, quando
trata dos direitos sociais, aponta a garantia
à educação como uma das formas de tornar
reais os conceitos republicanos que movem
o país. Seguindo este pensamento, a Política
Nacional para População em Situação de
Rua, consolidada no decreto nº 7.053/2009,
aponta a educação como uma de suas ações
estratégicas para a promoção dos direitos
desta população.

Ainda hoje, apesar de o decreto nº


Fonte:http://www.cefuria.org.br/2015/10/30/educacao-
7.053/2009 determinar que a União, popular-trocando-saberes-construindo-sabedoria/
estados, municípios e distrito federal devem
assegurar à população em situação de rua o acesso amplo, simplificado e seguro aos serviços e
programas de educação, as políticas direcionadas para este segmento da população são escassas.

Um amplo acesso à educação possibilita o desenvolvimento da autonomia dos sujeitos, fazendo


com que ele se perceba como construtor e transformador da realidade em que vive. Possibilita,
ademais, a organização política dos sujeitos na luta por seus direitos.

Paulo Freire, um dos maiores educadores do mundo, estudado dentro e fora do Brasil, entendia
que a real humanização dos sujeitos não pode se concretizar se estes estiverem na indigência,
mas apenas com liberdade, possibilidade de decisão, de escolha e de autonomia. Estes são
exatamente os obstáculos estruturais enfrentados pela população em situação de rua em relação
às tentativas de retorno e continuação de sua escolarização.

Saiba mais
Paulo Freire (1921-1997) é tido como o mais célebre educador brasileiro, autor
de diversos livros, defendia que o objetivo da educação é ensinar o aluno a
"ler o mundo" para poder transformá-lo. Para ele, a educação pautada por
estes objetivos contribui para levar as parcelas desfavorecidas da sociedade a
entender sua situação de oprimidas e agir em favor da própria libertação. O
livro mais conhecido de Paulo Freire se chama Pedagogia do Oprimido.

A superação dessas dificuldades pode se dar de maneira mais rápida e concreta com a efetivação
do que é proposto pela ideia de educação libertadora e popular, na qual a emancipação, libertação
e produção de consciências críticas, permite a humanização da população em situação de rua,
no sentido de serem concebidos como sujeitos de direitos que merecem não apenas a liberdade
para comer, mas liberdade para criar e construir, para admirar e se aventurar, como diz Paulo
Freire.

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Dica
Veja o vídeo explicativo sobre o que é a educação popular: Link: https://www.
youtube.com/watch?time_continue=1&v=lsMYhhc4ckM&feature=emb_title

Como uma prática educacional voltada para a conquista dos direitos sociais culturais, políticos
e geradora de possibilidades, a educação popular ajuda a compreender a realidade vivida pelos
grupos ou comunidades e aponta caminhos para a superação dos problemas encontrados. A
educação popular contribui, também, com as demais áreas tratadas neste módulo, no sentido
de atuar como uma ferramenta de organização na luta por justiça e dignidade das pessoas em
situação de rua.

Fato é que as escolas atuais não estão adaptadas para receber este público. Uma política
educacional para a população em situação de rua deve se pautar por ações estratégicas que
promovam a inclusão nos currículos das questões de igualdade social, gênero, raça, etnia, cultura
e comunicação discriminatórias, especialmente com relação à população em situação de rua. É
importante, ainda, pensar maneiras de a educação ser feita em meio aberto, onde as pessoas se
encontram.

Uma iniciativa pública de oferecimento de educação para as pessoas em situação de rua


interessante é a Escola Meninos e Meninas do Parque, localizada em Brasília. A escola tem como
objetivo principal garantir o direito à escolarização de adolescentes, jovens e adultos que estão
em situação de rua ou acolhidos em instituições da capital federal. Suas ações proporcionam
a reintegração escolar, considerando as possibilidades e limitações de cada um e estimulam a
convivência comunitária entre os estudantes, através do respeito das identidades pessoais e
histórias de vida.

Atualmente, 16 professores ministram as disciplinas básicas do ensino regular como matemática,


português e história e também oficinas sobre o corpo e artes em geral. Além disto, a escola
promove a educação integrada baseada nas temáticas: Direitos Humanos, Diversidade, Cidadania
e Meio Ambiente.

Em setembro de 2018, havia 182 pessoas matriculadas na escola, que funciona pela manhã
e à tarde. Os alunos que são formados lá recebem o diploma de ensino fundamental e são
encaminhados a outras unidades públicas para continuar cursando o ensino médio.

Dica
Para conhecer um pouco mais sobre a Escola Meninos e Meninas do Parque,
assista ao vídeo abaixo: Link: https://www.youtube.com/watch?time_
continue=1&v=5SutUsUmGPg&feature=emb_title

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Saiba mais
Para conhecer mais sobre educação popular, leia o Caderno de Formação –
Educação popular e direitos humanos, do Instituto Paulo Freire. Disponível
em: https://www.paulofreire.org/images/pdfs/livros/Cadernos_Formacao_
Educacao_Popular.pdf

3. Trabalho
O direito ao trabalho é um direito humano inalienável reconhecido pela Declaração Universal em
seu artigo 23, que diz:

I. Todo o homem tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições


justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego.

II. Todo o homem, sem qualquer distinção, tem direito a igual remuneração por igual
trabalho.

III. Todo o homem que trabalha tem direito a uma remuneração justa e satisfatória, que
lhe assegure, assim como a sua família, uma existência compatível com a dignidade
humana, e a que se acrescentarão, se necessário, outros meios de proteção social.

IV. Todo o homem tem direito a organizar sindicatos e a neles ingressar para proteção
de seus interesses.

A Constituição Federal de 1988, por sua vez, trata do direito ao trabalho individual do artigo
sétimo até o artigo onze. Nesses artigos, são assegurados a qualquer cidadão brasileiro o direito
a ter férias remuneradas com um terço a mais, os direitos dos empregados domésticos, a licença
paternidade, o Fundo de Garantia por tempo de Serviço (FGTS), entre outros avanços legais.

A inclusão do trabalho nesses textos legais tão importantes, como a Declaração Universal dos
Direitos Humanos e a Constituição Federal de 1988, reforça que o direito ao trabalho é um direito
social e um direito humano.

O trabalho, de fato, é o principal mecanismo de mediação entre a humanidade e a natureza. É


por meio do trabalho que os seres humanos agem objetivamente sobre a natureza para construir
algo novo que sirva para a manutenção de sua existência. O Trabalho como ação é, portanto,
sempre a transformação da realidade e das consciências, já que, ao construir objetivamente uma
coisa, qualquer que seja ela, os sujeitos constroem a si mesmos também.

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Conforme o desenvolvimento das formas de produção das coisas, o sujeito trabalhador (homem
ou mulher), que é contratado para produzir algo, não mais se vê como parte do que é produzido,
porque não participa mais de todas as etapas e, na maioria das vezes, sequer consegue adquirir o
que produz. Isto é algo bastante visível no Brasil, onde as relações de trabalho não são totalmente
reguladas e a superexploração do trabalhador é uma marca histórica.

Como diz a música “um sorriso negro”, cantada pela sambista Dona Ivone Lara, “negro sem
emprego fica sem sossego”. De verdade, qualquer pessoa sem trabalho/emprego perde o
referencial de organização prática da vida, é o trabalho e o dinheiro obtido dele que possibilita
aos sujeitos satisfazerem suas necessidades mais básicas, como alimentação, vestuário, acesso à
saúde, acesso à educação, acesso ao lazer, entre outras coisas.

As sucessivas crises econômicas pelas quais o Brasil passou em todo século XX e agora neste início
do século XXI ampliaram a exclusão e os impedimentos de as pessoas chegarem ao mercado
de trabalho formal. Como parte de um sistema impiedoso, conforme desemprego, trabalho
precário e relações de trabalho opressivas aumentam com essas crises, identicamente, os índices
de pobreza e de vulnerabilidade da classe trabalhadora se elevam e, consequentemente, há uma
expansão da população em situação de rua.

A existência da população em situação de rua


torna visíveis as desigualdades sociais criadas
pelo modo econômico no qual estamos
vivendo. A principal pesquisa nacional sobre
a população em situação de rua, realizada
pelo Ministério do Desenvolvimento Social e
Combate à Fome (MDS) em 2007, revelou a
extrema pobreza da população em situação
Fonte: http://www.sbcs.org.br/sbcs-nrl/
de rua brasileira, composta, em sua maioria, wp-content/uploads /2016/11/Dra.-Marcia-
por homens negros que, mesmo estando em Marques-Waste-management-in-Brazil.pdf
idade economicamente ativa, não conseguem
ocupar postos formais de trabalho.

Segundo a pesquisa, 47,7% dessa população nunca teve anotação na carteira de trabalho ou fazia
muito tempo que estava sem vínculo empregatício. Esses trabalhadores, apesar da precariedade
de sua formação, e contrapondo o senso comum preconceituoso que os identifica como
preguiçosos e pedintes, exercem atividades no dia-a-dia das ruas que lhes garantem uma renda
mínima diária. Na época da pesquisa, cerca de 52,6% dos entrevistados atuavam em atividades
informais, sendo 27, 5% como catadores de materiais recicláveis, 14,1% como guardadores de
carro, 6,3% atuando em atividades de limpeza e 3,1% como carregadores.

Conforme esses dados, uma parte considerável das trabalhadoras e trabalhadores que estão em
situação de rua atua na coleta de materiais recicláveis (27,5%). Esses trabalhadores recebem
assessoramento do Centro Nacional de Defesa dos Direitos Humanos da População em Situação
de Rua e dos Catadores de Materiais Recicláveis (CNDDH) na defesa e garantia de seus direitos,
enfrentamento às violações, sistematização de dados, produção de conhecimento e formação.

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Alguns já se organizam no Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR),
onde a participação de todos é estimulada para construir a luta de seus direitos e onde são
trabalhados princípios de auto-gestão e organização dos catadores.

Saiba mais
Para saber mais sobre as influências da escravidão na formação do
mundo do trabalho no Brasil, leia a tese de Alexandre de Freitas Barbosa,
denominada “A formação do mercado de trabalho no Brasil: da escravidão
ao assalariamento”. A tese está disponível em: http://bdtd.ibict.br/vufind/
Record/CAMP_29e2fec4ca6bc76e1c5873caaee32758

Incluir a população em situação de rua no mundo do trabalho é um dos desafios colocados pela
Política Nacional. Com esse objetivo, a Câmara Municipal do Rio de Janeiro aprovou, em 2018,
uma lei que reserva o percentual de cinco por cento do total de vagas de trabalho disponibilizadas,
a partir das contratações de serviços e obras públicas municipais, para pessoas em situação de
rua que estejam sendo assistidas por políticas da Secretaria Municipal de Assistência Social e
Direitos Humanos daquela cidade.

Similarmente, há um projeto de lei que cria cota de contratação para pessoas em situação de rua
tramitando no Senado Federal. Este projeto foi aprovado na Comissão de Assuntos Sociais do
Senado (CAS) em 2018 e segue sendo analisado pelos senadores.

Economia solidária

A precarização das relações e condições de trabalho eleva sobremaneira os níveis de pobreza.


Muitas são as alternativas de organização dos trabalhadores empobrecidos para se contrapor a
este sistema excludente e criar alternativas de trabalho e renda. Entre essas alternativas, destaca-
se a economia solidária, modo de pensar o sistema econômico por meio de possibilidades mais
humanas, em que as pessoas e os cuidados com suas vidas são os eixos que dão centralidade.

Na economia solidária, o trabalho deixa de ser um modo de opressão para se tornar fator de
agregação das relações entre os diversos sujeitos que dele participam.

As cooperativas de economia solidária se apresentam como uma resposta interessante ao


problema do desemprego e à exclusão social. Ao afirmar um modelo de desenvolvimento
sustentável apoiado na dinamização de redes participativas, a economia solidária empresta um
conteúdo transformador à inserção local das práticas econômicas solidárias. As experiências de
autogestão promovem sistemas amplos de reciprocidade e contribuem para a consolidação da
autonomia dos sujeitos e construção de vínculos que podem contribuir para uma saída efetiva
das ruas.

Alguns empreendimentos econômicos solidários vêm sendo desenvolvidos com pessoas


em situação de rua e apresentam bons resultados, por ter seu enfoque na integração desta

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população com a realização de atividades de formação e fomento a redes de comercialização e
crédito solidários, não somente prezando a renda, como também um resgate da dignidade destas
pessoas. Estes empreendimentos são constituídos, principalmente, por cooperativas populares
(como as de catadores de materiais recicláveis) e associações de pequenos produtores.

h,
Destaque,h
Entre os princípios da economia solidária, alguns merecem destaque:

Autogestão: todos os integrantes são responsáveis pelo processo administrativo


do coletivo. Na hora de tomada decisões são realizadas reuniões ou assembleias
para que cada membro se manifeste para que coletivamente se decida o
melhor.

Autonomia: o grupo deve ser capaz de tomar suas próprias decisões, evitando
qualquer influência externa.

Solidariedade: as relações pessoas do grupo devem ser sustentadas pela


solidariedade, informando, dividindo o que se sabe e o que se tem, tendo
compaixão e cuidado com os outros.

Cooperação: a cooperação guia o processo do trabalho individual para o


trabalho coletivo, fazendo com que cada pessoa contribua com a outra.

Respeito à natureza: conduzindo ações que reflitam e pensem o processo


produtivo e do trabalho respeitando o meio ambiente.

Comércio Justo: comércio justo é uma prática de comercialização voltada


para os valores de justiça social e solidariedade. Os preços dos produtos são
definidos a partir do valor da matéria prima e do trabalho empregado.

Consumo consciente: o grupo deve adquirir somente o que precisar, sem criar
excedentes. As relações com empresas que agridam a natureza vão contra um
dos princípios da economia solidária.

Valorização social do trabalho humano: todo trabalho é digno e não deve


existir uma valorização/reconhecimento a mais por diferenças de tarefas de
trabalho.

Valorização da diversidade: reconhecimento do papel fundamental da mulher


e do feminino e valorização da diversidade, sem discriminação de crença, cor,
orientação sexual e qualquer tipo de deficiência.

Os empreendimentos econômicos solidários podem ter ou não um registro legal de existência.


Possuem as mais diversas características, sendo desde cooperativas, associações e empresas

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com autogestão, até redes de prestação de serviços e grupos produtivos dos quais participam
trabalhadores das zonas urbanas ou rurais das cidades, que dividem entre si as tarefas de gestão.

Dica
Para concluir este tópico, assista ao vídeo sobre o encontro dos coletivos
de trabalho e economia solidária com população em situação de rua que
ocorreu no Rio Grande do Sul, link: https://www.youtube.com/watch?v=_
TvhdP1TBnU&feature=emb_title

4. Saúde
Viver no cotidiano das ruas expõe as pessoas a diversas condições que aumentam a vulnerabilidade
e expõem riscos à sua saúde. Situações constantes de invisibilidade social, impedimento de
acesso às políticas públicas, preconceito, violências, privação de sono, estado constante de
alerta, alimentação precária e pouca disponibilidade de água potável geram agravamentos à
saúde difíceis de serem resolvidos.

Apesar de o atendimento nas unidades de saúde ser um direito das pessoas em situação de
rua, muitas se recusam a ir até estes locais por já terem passado ou por saberem da ocorrência
de negação de atendimento, de mau atendimento e impedimento de que entrem por causa
da forma como estão vestidos ou por sua condição de higiene. A pesquisa nacional de 2007, já
citada aqui, revelou que 18,4% das pessoas em situação de rua ouvidas já haviam passado por
alguma experiência como estas.

Importante
A negação ou mau de atendimento para a população em situação de rua nos
serviços de saúde é algo combatido pelo Ministério da Saúde, que entre tantos
documentos, publicou a Portaria nº 940/2011, que dispensa aos ciganos,
nômades e pessoas em situação de rua a exigência de apresentar o endereço
do domicílio permanente para aquisição do Cartão SUS.

A Pesquisa também apontou que 29,7% tinham algum problema de saúde, tais como: hipertensão
10,1%, problemas psiquiátricos ou mentais 6,1%, HIV/AIDS 5,1%, e comprometimentos na visão
ou cegueira 4,6%. Muitas pessoas, aproximadamente 19%, fazem uso regular de remédios que
obtém em centros de saúde e postos locais.

Quando precisam de algum atendimento, 43,8% procuram, em primeiro lugar, as emergências


dos hospitais e 27,4% procuram o posto de saúde de atendimento básico. Em relação à higiene,
os locais que as pessoas em situação de rua mais utilizam para tomar banho são a rua (32,6%), os

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albergues ou abrigos (31,4%), banheiros públicos (14,2%) e a casa de parentes ou amigos (5,2%).
Para fazer suas necessidades fisiológicas, 32,5% usam a rua, 25,2 usam os albergues ou abrigos,
21,3% usam banheiros públicos, 9,4% usam banheiros de estabelecimentos comerciais e cerca
de 3% usam banheiros da casa de parentes ou de amigos.

Um grave problema de saúde que tem atingido a população em situação de rua no Brasil é a
tuberculose. Algumas pesquisas realizadas no Distrito Federal e nas cidades do Rio de Janeiro,
São Paulo e Porto Alegre demonstraram que a taxa de incidência de tuberculose entre as pessoas
que estão em situação de rua fica entre 1.576 casos por 100 mil habitantes e 2.750/100 mil. Um
número muito maior se comparados aos casos verificados na população geral, onde a taxa é de
38 ocorrências a cada 100 mil habitantes. Isso significa que a incidência de casos de tuberculose
na população em situação de rua pode ser até 70 vezes maior em relação à média de ocorrência
nacional.

O Ministério da Saúde possui uma política específica para o atendimento da população em


situação de rua, expressa na Resolução n° 2, de 27 de fevereiro de 2013, que apresenta o Plano
Operativo para Implementação de Ações em Saúde da População em Situação de Rua.

A resolução organiza uma série de diretrizes e estratégias para o enfrentamento das desigualdades
no acesso à saúde pela população em situação de rua no contexto do Sistema Único de Saúde
(SUS). Para garantir o acesso da população em situação de rua às ações e aos serviços de saúde, a
resolução entende que é preciso reduzir os riscos à saúde que decorrem dos processos de trabalho
executados pelas pessoas na rua (como o devido armazenamento de materiais recicláveis, que
muitas vezes causam ferimentos ou contaminações) e das suas condições de vida em geral. Para
isso, as estratégias definidas para promoção da saúde se organizam em cinco eixos:

h,
Destaque,h
1. Inclusão da PSR no escopo das redes de atenção à saúde
Para isso é necessário a implantação de Consultórios na Rua; melhoria na
capacitação das equipes que fazem atendimentos de urgência e emergência;
bem como a garantia de acesso à atenção domiciliar nos lugares onde as
pessoas em situação de rua recebem acolhimento institucional.

2. Promoção e Vigilância em Saúde


Neste eixo entende-se que o controle e redução da incidência de tuberculose,
DST/aids devem ser intensificados mediante o estímulo a busca ativa e aos
tratamentos para controle de doenças infecciosas. Acesso dessa população
às vacinas disponíveis no SUS é requisito importante para o sucesso destas
iniciativas.

3. Educação Permanente em Saúde na abordagem da Saúde da PSR


As ações definidas neste eixo preveem a capacitação e sensibilização dos
profissionais de saúde para um melhor atendimento da população em situação

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de rua e a elaboração de material que informe a população em situação de rua
sobre o SUS e as redes de atenção à saúde.

4. Fortalecimento da Participação e do Controle Social


Aqui valoriza-se a formação e sensibilização das lideranças do movimento
social da população em situação de rua para que possam, junto com os gestores
públicos, articular e fomentar a capacitação de conselheiros de saúde sobre a
temática saúde desta população, como parte disto aponta a importância de
se instituir um comitê técnico de saúde da população em situação de rua ou
organismo técnico parecido nas instâncias estaduais e municipais de saúde.

5. Monitoramento e avaliação das ações de saúde para a PSR


O foco deste eixo é o monitoramento e avaliação das ações pactuadas, tendo
sempre como prioridade as metas elencadas nos diversos planos estaduais e
municipais de saúde.

Consultório na rua

Uma importante estratégia de atenção em saúde oferecida para as pessoas em situação de rua é
o consultório na rua. Composto por uma equipe multiprofissional, sua função é ampliar o acesso
da população em situação de rua aos serviços de saúde por meio de atendimento itinerante e,
quando necessário, em parceria com as equipes das Unidades Básicas de Saúde (UBS), presentes
nos territórios.

Segundo Portaria nº 122, de 2011, que define


as diretrizes de organização e funcionamento
das Equipes de Consultório na Rua,as
equipes dos consultórios na rua integram
o componente de atenção básica da Rede
de Atenção Psicossocial e desenvolvem
ações de Atenção Básica, devendo seguir
os fundamentos e as diretrizes definidos na
Política Nacional de Atenção Básica para lidar Fonte: http://www.jacarei.sp.gov.br/consultorio-na-rua-
leva-cuidados-de-saude-populacao-em-situacao-de-rua/
com os diferentes problemas e necessidades
de saúde da população em situação de rua.

Entre suas atribuições, estão: a busca ativa e o cuidado aos usuários de álcool, crack e outras
drogas; o desempenho de atividades in loco (na rua), de forma itinerante, desenvolvendo
ações compartilhadas e integradas às Unidades Básicas de Saúde (UBS) e, quando necessário,
também com as equipes dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), dos serviços de Urgência e
Emergência e de outros pontos de atenção, de acordo com a necessidade do usuário.

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Dica
O vídeo a seguir apresenta mais detalhes sobre a estratégia do
consultório na rua. Link: https://www.youtube.com/watch?time_
continue=1&v=laLwcfdqULU&feature=emb_title

Ainda sobre o consultório na rua, é importante destacar que ele é uma estratégia específica que
faz parte de um todo que é o SUS, e não é a única forma possível para atendimento da população
em situação de rua. Assim como qualquer cidadão brasileiro, a responsabilidade pela atenção
à saúde da população em situação de rua é algo que faz parte das ações de todo e qualquer
profissional do SUS, mesmo que ele não seja membro de uma equipe de consultório na rua.
Ou seja, o atendimento à população em situação de rua não pode ser negado ou repassado
para uma equipe de consultório na rua, caso alguém procure atendimento e alguma unidade de
saúde.

Saiba mais
Para saber mais a respeito da política de consultórios na rua, acesse: Consultório
na Rua, link: https://aps.saude.gov.br/ape/consultoriorua/

5. Guarde na memória!
• Neste módulo você aprendeu a respeito de três importantes direitos sociais e humanos,
trabalho, saúde e educação.

• Ainda nesse módulo, você recebeu informações gerais sobre as características de cada
um deles e sobre a situação da população em situação de rua diante deles.

• Por fim você conheceu algumas políticas públicas de trabalho, saúde e educação
oferecidas pelo estado brasileiro para a população em situação de rua.

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6. Referências Bibliográficas
ALMEIDA, S. F. D. O retorno da população em situação de rua à educação escolar: entre dificuldades
e possibilidades. São Carlos: Especialização em Educação de Jovens e Adultos UFSCAR (TCC),
2011.

BRASIL. Saúde da População em Situação de Rua - Um direito humano. Brasília: Ministério da


Saúde, 2014.

ECOSOL Pop Rua - Formação em Economia Solidária para Pessoas em Situação de Rua. Porto
Alegre: CAMP - Centro de Assessoria Multiprofissional, 2017.

GHIRARDI, M. I. G.; LOPES, S. R.; ET AL. Vida na rua e cooperativismo: transitando pela produção
de valores. Interface - Comunic, Saúde, Educ, São Paulo, p. 601-610, set/dez 2005.

HINO, P.; SANTOS, J. D. O.; ROSA, A. D. S. Pessoas que vivenciam situação de rua sob o olhar da
saúde. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, 2018.

PAIVA , I. K. S. D.; LIRA, C. D. G.; ET AL. Direito à saúde da população em situação de rua: reflexões
sobre a problemática. Ciência e Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, p. 2595-2606, 2016.

REIS, I. R. M. D. POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA E O ACESSO A DIREITOS: uma análise


acerca das políticas de saúde e de assistência social e seus rebatimentos no fenômeno
“população em situação de rua”. VIII Jornada Internacional de Políticas Públicas, São Luis,
ago. 2017. Disponível em: <http://www.joinpp.ufma.br/jornadas/joinpp2017/pdfs/eixo4/
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SANTANA, C. L. A.; ROSA, A. D. S. Saúde Mental das Pessoas em Situação de Rua: Conceitos e
práricas para profissionais da assistência social. São Paulo: Secretaria Municipal de Assistência e
Desenvolvimento Social de São Paulo - SMDAS, 2016.

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