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- O Livro Raro e os Critérios de Raridade -

O livro é um documento disseminador de informações tanto de caráter científico e


intelectual como artístico e cultural, perecível enquanto suporte, e é um dos elementos
passíveis de tombamento como patrimônio histórico-cultural, de acordo com o Artigo 216
da Constituição Federal do Brasil.

Os livros são tombados como patrimônio institucional em empresas públicas e


privadas, mas a preocupação com o livro como patrimônio cultural incide sobre o livro
raro, que, relevante para a cultura nacional, torna-se merecedor de empenho em sua
preservação.

O livro raro oferece aos membros do área patrimonial uma problemática complexa e
específica, visto não existirem no Brasil leis que determinem diretrizes para o
estabelecimento da raridade de um livro e a ausência destas interferem na atuação dos
profissionais interessados neste documento, mas não impedem que o mesmo receba a
atenção destes.

Inexiste uma política norteadora da área de raridade bibliográfica que padronize o


tratamento dispensado ao livro raro, havendo inclusive divergências sobre a própria
determinação de raridade. Diferentes instituições adotam procedimentos diversos no
tratamento dos mesmos livros, revelando não apenas a divergência que há na área, como
também a ausência de diálogo eficaz entre os envolvidos na mesma. Infelizmente, além
de confundir o leitor leigo, tais disparidades prejudicam a atuação dos próprios
profissionais.

Pinheiro (1990, p. 46) verbalizou a preocupação biblioteconômica com essa questão,


ao afirmar ser “(. . . ) imprescindível a tomada de posição pelo Bibliotecário, inserindo-se
nesse contexto de animação cultural, como elemento de interseção entre a cultura e a
técnica”, afirmando ainda que “(. . .) o estabelecimento de um método – se não rígido e
exclusivo, pelo menos rigoroso e representativo o bastante, para servir de referência, é
urgente.”(1990, p. 47)

A busca de uma metodologia para a determinação da raridade de um livro partiu da


Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, que através da avaliação de seu próprio acervo de
obras raras estabeleceu princípios divulgados no Plano Nacional de Restauro de Obras
Raras, que aborda separadamente livros e periódicos, sendo utilizado em muitas
bibliotecas brasileiras (Pinheiro, 1990, p. 21).

Tratando-se de uma proposta, a metodologia do Plano Nacional de Restauro de Obras


Raras não é amplamente adotada, e o vácuo operacional persiste. Diante disso, o
estabelecimento de políticas conservação e de proteção ao livro raro são pertinentes para
que o mesmo possa sobreviver ao desgaste temporal e à ação humana, perpetuando
tanto sua apresentação física quanto as informações que registra às gerações vindouras.

O estabelecimento desses critérios é problemático, pois embora a área de raridade


bibliográfica exija uma abordagem interdisciplinar, ela não foge do que García Canclini
(1994,p. 100) denomina como um “(. . .) espaço de disputa econômica, política e
simbólica (. . .)”, sendo constituído pelos vários profissionais que nela atuam:
bibliotecários, bibliófilos, historiadores, arquivistas, documentalistas, museólogos ,
restauradores e outros. Essas disputas tanto enriquecem quanto dificultam o
desenvolvimento de políticas de atuação para o tratamento do livro raro; pois se por um
prisma oferecem uma diversidade de olhares e interpretações, por outro carecem de um
consenso na abordagem conceitual e operacional do que é um livro raro e de como ele
deve ser tratado.
García Canclini ressalta que é “(. . .) prioritária a adoção de políticas para a
preservação e difusão de acervos literários (. . .)”(1994, p. 100) e Pinheiro aprofunda a
discussão dessa necessidade ao considerar que para que isso ocorra são necessários
vários procedimentos, tanto pela ótica do patrimônio histórico-cultural (através da
unificação terminológica de conceitos até a padronização de técnicas de tratamento de
acervos), quanto pela biblioteconômica (com o oferecimento de capacitação profissional
aos bibliotecários para que atuem em acervos de raridades). (1989, p. 21)

Em sua obra Que é livro raro?, Pinheiro compilou o que denominou Recomendações
Metodológicas para a determinação da raridade de um livro, buscando normalizar a
determinação da raridade considerando aspectos gerais e podendo ser amplamente
adotado, embora a própria autora saliente que

“A adoção desta metodologia de abordagem alternativa na determinação de critérios


de raridade bibliográfica não vai, certamente, estabelecer princípios irremovíveis, porque
parte-se da premissa de que não existe uma realidade objetiva empiricamente
determinável; suas suposições adequam-se [sic] ao contexto, ao momento crítico, à
situação particular.” (Pinheiro, 1989, p. 33)

A autora sugere critérios norteadores que podem ser utilizados tanto como são
apresentados ou ainda serem adaptados às diferentes realidades institucionais brasileiras.

O patrimônio histórico-cultural de uma nação não abrange apenas edificações e


monumentos, ou sua tradição sócio-cultural, mas também seus bens culturais, tangíveis e
intangíveis, como o conhecimento que produz, a documentação que registra esse
conhecimento e suas formas de divulgação. (García Canclini,1994, p. 95-96)

O patrimônio histórico-cultural pode ser interpretado como “(.. .)coleções de objetos


móveis e imóveis, através dos quais é definida a identidade de pessoas e de coletividades
como a nação, o grupo étnico, etc.” (Gonçalves, 1988,p. 266-267)

No Brasil, a Constituição Federal, no seu Artigo 216, afirma:

“Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial,


tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à
memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira (. . .).” (Brasil, 2000,
p. 145)

O mesmo artigo menciona os documentos como parte desses bens. Segundo Moreira,
em linguagem biblioteconômica o livro é um documento caracterizado por ausência de
periodicidade e por possuir mais de 50 páginas. O autor destaca ainda uma terceira
característica, que “(. . .) coloca o livro na posição que o notabilizou, a de suporte
informacional para a preservação e transmissão dos registros do conhecimento humano.”
(Moreira, 1993, p. 15)

A Biblioteconomia e a Documentação consideram o livro um documento,


corroborando a sua inclusão entre os elementos passíveis de reconhecimento como
patrimônio histórico-cultural, visto ser o livro um suporte documental fixador e
disseminador de informações e conhecimentos produzidos pela humanidade.

A elaboração e registro de informações e conhecimentos refletem o posicionamento


de seus criadores, suas formas de perceber e resolver a temática abordada, evidenciando
suas diferentes identidades culturais. Neste aspecto fundamental reside a relevância do
livro raro como patrimônio histórico-cultural de uma nação, pois ao registrar momentos de
seu pensamento, permite que os leitores futuros possam, na leitura destes registros,
conhecer e reconhecer seu passado intelectual, construindo e reconstruindo suas
memórias individuais e coletivas.

Seja resgatado e oferecido por quem quer que seja, é importante corroborar que o
livro raro pode e deve ser considerado um documento representativo da memória nacional
de um país, e que como tal, deve ser passível de consideração como patrimônio histórico-
cultural, por ser parte de seu patrimônio literário e intelectual. E o livro raro destaca-se
neste contexto por ser o último arauto de uma época, registrada em suas páginas através
da impressão de posicionamentos pessoais de seu autor.

Ao mesmo tempo sua raridade, reconhecida como uma caracterização universalista,


o torna relevante à humanidade como um todo. Assim, o livro raro, resguardadas as
dificuldades de sua classificação como tal, é um patrimônio histórico-cultural
representativo da memória nacional brasileira e mundial.

Pinheiro afirma que “(. . .) a melhor das metodologias [para determinação da


raridade de um livro] é aquela desenvolvida pela mesma Instituição que guarda o acervo,
por seus responsáveis, especialistas e usuários.”(1989, p. 29). A autora destaca, porém,
que é “(. . .) imprescindível, para o bom direcionamento de tais procedimentos, a sua
integração numa proposta de trabalho, apta a operacionalizar soluções, sanando as
carências técnicas na área do livro antigo.” (1990, p. 49).

Assim, a confluência de posicionamentos, diretrizes e atuações em relação à raridade


bibliográfica é urgente, e vários elementos permitem que esta ação se estabeleça, mesmo
que informalmente, através do intercâmbio entre especialistas e instituições. No entanto,
como foi abordado anteriormente, existem conflitos e disputas entre os que atuam com o
livro raro, além de que, segundo García Canclini (1994, p.100-102), coexistem dois tipos
de ações na área patrimonial, a privada e a pública, que adotam procedimentos
divergentes em relação ao patrimônio histórico-cultural.

A ação privada preocupa-se fundamentalmente com o valor econômico do


patrimônio; a ação pública estatal visa a preservação de uma memória nacional
documentada materialmente e a ação pública oriunda dos movimentos sociais deseja a
preservação do que participa de suas memórias coletivas. Estas diferentes formas de ação
refletem-se também na área de raridade bibliográfica, com as bibliotecas de instituições
privadas tratando seus acervos de livros raros de uma forma diferente da adotada pelas
bibliotecas de instituições publicas.

Sendo o patrimônio histórico-cultural um resgate de um passado aceitável, que se


deseja reviver cotidianamente para que seja tradicionalmente reconhecido, o livro é um
patrimônio ainda mais problemático, pois não é monumental, não é facilmente visível,
precisa ser procurado para ser visto e lido para ser resgatado. Como patrimônio, sua
leitura fica ainda mais restrita, pois não está disponível a todos os leitores, usuários do
acervo em que se encontra, pois o acesso a ele é restrito.

As instituições detentoras de livros raros realizam mostras esporádicas, nas quais tais
livros tornam-se visíveis, mas não legíveis. A reprodução e a disponibilização de seus
conteúdos informacionais são uma ação importante no resgate do livro raro como um
documento representativo da memória intelectual nacional, e, desconsiderando-se a
discussão sobre a sua autenticidade, tais reproduções seriam relevantes para a divulgação
do conteúdo informacional dos livros raros, os quais não são disponibilizados para consulta
em acervo aberto. Um ótimo exemplo é o projeto de digitalização e disponibilização do
acervo de obras raras da Biblioteca Nacional brasileira.

Urge que o livro raro seja merecedor de uma lei específica que determine seu
tratamento técnico e conceitual, na qual sejam estabelecidos critérios e diretrizes para seu
reconhecimento como tal, evitando as práticas contraditórias testemunhadas atualmente.

A criação de um órgão normalizador e gerenciador da área de raridade bibliográfica,


que oriente e fiscalize a atuação das instituições possuidoras de acervos de livros raros
também seria importante, sendo que este órgão deveria realizar o levantamento
bibliográfico identificador dos livros existentes nestes acervos.

Mas, para tanto, o entendimento deve iniciar entre os profissionais que atuam na
área de raridade bibliográfica, objetivando que a interdisciplinaridade que a mesma exige
possa realmente contribuir para a preservação do livro raro como patrimônio histórico-
cultural brasileiro e mundial.

Referências Bibliográficas

• BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Organizada por Paulo


Lenir dos Santos. Porto Alegre: Sagra e Luzatto, 2000.
• GARCÍA CANCLINI, Nestor. O patrimônio cultural e a construção imaginária do
nacional. Traduzido por Maurício Santana Dias. Revista do Patrimônio Histórico
e Artístico Nacional, [S.l.], n. 23, p. 95-115, 1994.
• GONÇALVES, José Reginaldo. Autenticidade, memórias e ideologias nacionais: o
problema dos patrimônios culturais. Estudos Históricos, [S.l.], v. 1, n. 2, p. 264-
275, 1988.
________. Patrimônio cultural e narrativas nacionais. In: ________. A retórica da
perda: os discursos do patrimônio cultural no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Da
UFRJ; IPHAN, 1996. Cap. 1, p. 11-35.
• MOREIRA, Walter. Bibliotecário, o livro e a segunda triangulação: é possível esta
triangulação? Ângulo, n. 57, p. 15-16, jan./fev. 1993.
• PINHEIRO, Ana Virginia Teixeira da Paz. Que é livro raro?: uma metodologia para
o estabelecimento de critérios de raridade bibliográfica. Rio de Janeiro: Presença
Edições, 1989.
________. A biblioteconomia de livros raros no Brasil: necessidades, problemas e
propostas. Revista de Biblioteconomia e Comunicação, Porto Alegre, n. 5, p.
45-50, jan./dez. 1990.

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