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O sistema de classificação biológica sofre mudanças constantes o que demonstra a taxonomia

como uma ciência muito dinâmica nos estudos da Biologia.


Vamos abordar cinco sistemas de classificação, cientistas e até tribos que colaboraram ao
longo do tempo para o conhecimento e a estrutura que atualmente conhecemos, suas metodologias,
suas contribuições positivas e pontos fracos de suas tentativas de classificar os seres vivos de nosso
planeta.

Aristóteles - Filósofo

Aristóteles, filósofo grego (384 - 322 a.C.) foi o primeiro na tentativa de classificar os seres
vivos, Teofrasto, um dos discípulos de Aristóteles, descreveu todas as plantas conhecidas no seu
tempo e ao classificá-las usou como um dos critérios o tamanho. Os animais catalogados por
Aristóteles foram subdivididos de acordo com o meio em que se moviam (água, terra e ar). Dividindo
então os animais em dois grupos:

Vertebrados (animais de sangue vermelho) e Invertebrados (animais sem sangue vermelho).

As primeiras classificações eram catálogos de seres vivos, os critérios eram arbitrários, um


exemplo disso pode ser observado ao classificarmos um animal tendo como critério apenas o ambiente
que ele vive. Morcegos, insetos e aves eram classificados como animais aéreos, mas sabemos hoje que
são totalmente diferentes entre si. Não havia uma reflexão nas possíveis relações de parentescos entre
os seres vivos. Mas foi este filósofo a iniciar o que hoje chamamos de taxonomia.

Carolus Linnaeu - Naturalista e médico sueco

O grande marco da história na classificação dos seres vivos foi estabelecido por Linnaeus. No
sistema proposto por ele a espécie é a unidade de classificação e pode ser definida como sendo um
grupo de organismos que se acasalam na natureza e cujos descendentes são férteis. A partir daí a
moderna classificação biológica teve início.

O Sistema de Linnaeus utiliza duas categorias para designar cada tipo de organismo: gênero e
espécie e o latim foi a língua utilizada no sistema de nomenclatura binomial (dois nomes em latim). O
gênero é uma categoria mais abrangente e inclui várias espécies. Além dessas duas categorias,
Linnaeus criou outras que se organizam da seguinte forma:

Reino > Filo > Classe > Ordem > Família > Gênero > Espécie

Lineu considerava que a natureza e número das espécies eram constantes e inalteráveis, pois
cada indivíduo era comparado com um ideal, um padrão fixo (essencialismo) e também não foi levado
em conta em sua tentativa de classificação biológica, as relações de parentesco evolutivo entre os seres
vivos, pois se acreditava que as espécies existentes em nosso planeta tinham sido criadas unicamente
por Deus, e que desde o instante da criação até então elas teriam permanecido sem qualquer alteração.
Esse princípio da imutabilidade, denominado fixismo era a influência da crença generalizada entre os
naturalistas da época de Linnaeu.
Lamarck – Naturalista Francês

Lamarck foi um dos pioneiros a propor uma teoria de evolução, no livro Filosofia Zoológica
do ano de 1809 suas idéias foram publicadas. Segunda as idéias deste naturalista, uma alteração na
natureza causaria uma mudança nas necessidades dos organismos que vivem num determinado
ambiente, essas novas necessidades levariam à formação de novos comportamentos e hábitos das
espécies, com isso um novo comportamento levaria ao maior ou menor uso de determinados órgãos ou
estruturas que poderiam ao longo do tempo se desenvolver ou se atrofiar. Essas alterações seriam
transmitidas aos seus descendentes.

Lamarck então desenvolveu duas teorias:

A lei do uso ou desuso – Segundo essa teoria quanto mais uma parte do corpo é usada, mais
ela se desenvolve, ao contrário ela se atrofiaria

Lei de herança de caracteres adquiridos – O que o ser vivo adquire ao longo de sua
existência é transmitida de geração a geração.

Na teoria de Lamarck, o ambiente tinha um papel secundário, ele não explicava o aumento da
complexidade dos seres vivos.

Lamarck acreditava que como o ambiente terrestre sofre constantes modificações, as suas
alterações estruturais forçam os seres que nele vivem a se transformarem para se adaptarem ao novo
ambiente. Ao decorrer de muitas gerações, o acúmulo de alterações pode levar ao surgimento de novos
grupos de seres vivos e por isso causam a transmutação das espécies.

Lamarck defendia a geração espontânea contínua das espécies, com os organismos mais
simples a serem depois transmutados com o tempo tornando-se mais complexos e próximos da
perfeição ideal. Acreditava portanto num processo orientado para um fim em que os organismos se
tornam mais perfeitos à medida que evoluem.

As teorias e os pensamentos de Lamarck podem ser considerados Transformistas, pois


propõem a transformação e a evolução dos organismos. Suas idéias também evoluíram ao longo de
seus estudos, e formaram um panorama que muito contribuíu para a biologia moderna. Seus estudos
serviram de base a formulação da Teoria Sintética da Evolução de Charles Darwin.

A visão que os teóricos contemporâneos tiveram de Lamarck pareceu injusta, pois suas
contribuições para a biologia são de grande valor, Lamarck acreditava na evolução numa época em
que existia muito pouco conhecimento para sustentar essa teoria. Defendeu ainda que a função precede
a forma, uma ideia controversa na sua época. No entanto, a herança dos caracteres adquiridos foi
completamente refutada, por que ficou provado que esta teoria é equivocada. Exemplo: Vamos supor
que eu seja uma grande atleta da natação, ao longo de minha vida adquiri várias medalhas olímpicas,
então quando eu tiver meus filhos (as) eles já serão nadadores natos, já que dentro da teoria de
Lamarck os caracteres adquiridos passam de geração a geração. Viu o erro de sua teoria?

Charles Robert Darwin – Naturalista Inglês

Darwin desenvolveu idéias sobre a evolução dos seres vivos através da seleção natural e
sexual, foram essas idéias que permitiram o que é agora considerado o paradigma central para explicar
os diversos fenômenos no campo da Biologia. Suas pesquisas levaram-no ao estudo da diversificação
das espécies.
Darwin, quando viajou no navio Beagle durante 4 anos e 9 meses, ficou impressionado com a
flora e a fauna que ele pode observar ao longo de sua viagem ao redor do mundo, passando a partir daí
a se interessar pela biologia. Em 1836, já de volta a Inglaterra, ele estava de posse de uma grande
massa de informações de espécimes.
Uma observação que iria chamar a atenção de Darwin foi realizada numas das ilhas
Galápagos, durante sua viagem. Ao estudar os pássaros da região ficou intrigado com a notória
semehança entre as cercas de 14 espécies que lá viviam, cada pássaro se diferenciava de outro apenas
pelo tipo de bico, os que viviam no solo tinha o bicos fortes e largos, excelentes para quebrar
sementes, seu principal sustento, os que viviam nas árvores tinha bicos curtos e espessos e se
alimentavam de insetos, e assim cada bico favorecia em forma e tamanho a espécie em sua
necessidade de se alimentar para sobreviver. As similaridades levou Darwin a pensar que todas
aquelas aves teriam se originado de um ancestral comum. Mas qual seria o mecanismo para essa
evolução? Darwin concluiu que o mecanismo era a necessidade de uma seleção natural atuando sobre
a diversidade de uma espécie, os indívidos competiam entre si por alimento, luz, água e demais
recursos do meio ambiente e que a escassez de recursos em uma população de mesma espécie, já que
todas elas recorriam ao mesmos recursos limitados, levaria a morte de parte desta população e os que
tivessem uma variação mais vantajosa e sobrevivesse, passaria essa característica aos seus
descendentes ao se reproduzir. As variações herdáveis pelos descendentes da população mais
vantajosa, tornariam essa população ao longo do tempo diferente das espécies originais, e
consequentemente o surgimento de uma nova espécie.

Podemos observar que a teoria de Darwin não explicava como surgiram novas características numa
espécie, ele partia da observação de que não existe dois indivíduos iguais numa mesma espécie, só se
forem gêmeos é claro, isto é, a as variações estava presente em todas as espécies e que muitas destas
eram hereditárias. Assim o ambiente atuaria sobre essa variabilidade presente, selecionando os
indíviduos mais favoráveis, os mais adaptáveis. Porém foi a partir da aceitação da teoria de Darwin
que a classificação biológica passou a ser compreendida por muitos cientistas, como o reflexo das
relações entre os organismos e sua evolução.
Índios canelas
O artigo "Notas sobre a Zoologia dos Índios Canela", de P. E. Vanzolini, é
realmente um trabalho pioneiro no seu gênero. Publicou-o a Revista do Museu Paulista
há mais de quinze anos (Nova Série, vol. 10, São Paulo, 1956/58, pp. 155- 171). O
autor tenta "elaborar um vocabulário de nomes de animais em língua Canela e, com
base nesse vocabulário, fazer algumas inferências sobre as noções de classificação
zoológica desses indígenas" (p. 155). Os dados apresentados por Vanzolini foram
colhidos nos quarenta e cinco dias que conviveu com os canelas, ao realizar uma
viagem de estudos zoológicos ao Estado do Maranhão no primeiro trimestre de 1955.
Digo que se trata de um trabalho pioneiro porque, talvez, pela primeira vez no
Brasil, uma lista de nomes de animais em língua indígena tenha sido tomada através
do exame direto dos exemplares pelos informantes indígenas, tendo sido o trabalho
de anotação quase todo executado em torno da mesa de taxidermia. Desse modo, foi
evitado o tipo de coleta de dados sujeito a erros crassos, que consiste em dizer ao
índio o nome vulgar do animal em português para ouvir dele o correspondente em
sua língua. Trata-se pois, de um trabalho muito seguro e sério e seu autor é o
primeiro a reconhecer suas. limitações. Assim, conclui que: "A primeira vista a
sistemática dos Canela parece uma sistemática de caçadores: maior preocupação com
animais de caça e fatos a eles ligados, desinteresse relativo por outras questões
zoológicas" (p. 169). Mas logo em seguida põe essa conclusão de quarentena,
alertando o leitor: "Em primeiro lugar, minha amostra é muito viciada. Não expus
aos Canela uma coleção representativa da fauna de sua área, nem mesmo uma
coleção preparada de modo a solver os problemas mais importantes. Meu trabalho
foi todo feito aos azares da coleta zoológica, e os mamíferos e aves predominavam de
forma acentuada nas séries examinadas pelos índios. Por outro lado, achei difícil
conversar com eles a respeito de répteis, anfíbios e invertebrados. Tentei colher
dados sobre abelhas (os Canela são meladores inveterados), mas, na ausência de
séries de abelhas, de ninhos habitados e de outros insetos, não consegui nem mesmo
resultados preliminares" (p. 170). Num outro trecho do artigo o leitor fica sabendo
que muitas formas foram subtraídas à apreciação dos índios, "especialmente aquelas
preservadas em meio líquido, cujo manuseio é mais difícil que o de exemplares
taxidermizados" (p. 157).
Vanzolini à primeira vista dá a impressão de que os canelas só se interessam
pelo que comem, mas ele próprio põe em dúvida o que sua conclusão tem de
implícito, observando: "Por outro lado, parece que os Canela não comem os lagartos
menores, pelo menos habitualmente. No entanto, conhecem muito bem esse grupo,
por outro lado abundante e conspícuo na sua chapada" (p. 170).
Lendo com atenção o artigo, fica patente que a principal preocupação de
Vanzolini é saber até que ponto os canelas sabem classificar os animais da mesma
maneira que os zoólogos. Percebe-se que a todo momento o autor está procurando
saber se os índios distinguem corretamente uma determinada espécie de outra ou se
agrupam certas espécies, da maneira que um zoólogo poderia esperar, numa
unidade maior. Transcrevo aqui alguns trechos em que está clara essa preocupação:
"Os Canela parecem ter uma noção clara da classe Mammalia, mas não pude
descobrir um termo coletivo, equivalente, por exemplo, ao "bichos de pêlo" dos
caipiras. Pelo menos um dos meus informantes (Pedro Gregório) estava a par da
verdadeira posição dos morcegos entre os mamíferos, mas não sei se terá aprendido
essa idéia dos sertanejos, para quem o morcego é um rato de asas" (p. 159). "Não
encontrei conceito de subclasse Marsupialia, nem menção espontânea da bolsa
marsupial e seu papel na criação dos filhotes" (P. 159). "Mostrei aos Canela duas
espécies de Phyllostomatidae, uma de Vespertilionidae e uma de Molossidae. Eles se
mostraram cônscios das diferenças específicas (que não são das maiores, mas são
nítidas) mas não pareceram dar importância aos caracteres de família, como, por
exemplo, a conspícua folha nasal dos Phyllostomatidae" (p. 159). "Os Canela não
parecem reconhecer a unidade dos roedores, nem mesmo dos histricomorfos
grandes" (p. 159). "A onça preta não passa de uma fase melânica da onça pintada,
Panthera (Jaguarius) onca; alguns índios sabem disto, outros dão as duas formas como
diferentes" (p. 160). "Não há indicação nomenclatural de parentesco entre o tatu
verdadeiro e o china — espécies tão próximas que exemplares jovens são difíceis de
separar. Por outro lado, são aproximados pelos nomes o peba e o canastra, espécies
muito diferentes em diversos caracteres evidentes, além do tamanho" (pp. 161-162).
"A sistemática analítica dos Canela é boa, neste capítulo dos mamíferos. Não
surpreendi nenhuma identificação errada por parte de meus informantes, como
também nenhum caso de duas espécies englobadas pelo mesmo nome, a não ser no
caso dos morcegos" (p. 162). "Não consegui evidenciar nome coletivo para os
psitacídeos, um grupo tão conspicuamente natural" (p. 163).
Ora, sabemos que a classificação de animais e plantas é algo que vem sendo
desenvolvido pelos zoólogos e botânicos das sociedades de origem européia desde o
século XVIII, através de longas e pacientes observações. Mas, tal classificação é do
conhecimento apenas dos especialistas, e escapa à maior parte dos membros dessas
sociedades. Por que então esperar que os índios canelas tenham desenvolvido a
mesma classificação? É digno de nota que, na nossa própria sociedade, a par da
classificação dos zoólogos e botânicos, encontram-se outras maneiras de classificar
animais e vegetais. Assim, o zoólogo, ao voltar para casa, depois de um dia de
trabalho, não espera encontrar servida à mesa, para jantar, carne de gato ou de
cachorro, pois aceita, como todos os membros de sua sociedade, uma classificação
tradicional, não científica, que separa animais comestíveis de não-comestíveis. Do
mesmo modo, o botânico, durante suas férias, ao cuidar do jardim de sua casa, nele
não plantará repolhos e arrancará indignadamente as "ervas daninhas" que teimam
em crescer em volta de suas flores; ele, pois, também aceita uma classificação
tradicional que separa plantas ornamentais de árvores frutíferas, de hortaliças etc.
Por conseguinte, não teriam os índios canelas classificações tradicionais de animais e
vegetais que seguiriam critérios diferentes daqueles levados em conta pelos zoólogos
e pelos botânicos?
Nunca estive numa aldeia canela, mas tenho algum tempo de pesquisa entre os
craôs, do norte de Goiás, que visitei por seis vezes entre 1962 e 1971. Ora, tanto os
craôs como os canelas fazem parte do ramo oriental dos timbiras e falam dialetos de
uma mesma língua, entendendo-se mutuamente. Seus costumes são muito
semelhantes, pois os canelas e os craôs têm uma origem comum: Vivem na mesma
região, que é uma área de cerrados cortados por florestas-galeria. Por conseguinte, o
que vou dizer aqui dos craôs talvez tenha algo de semelhante com relação aos
canelas.
Os índios craôs constantemente fazem referência ao comportamento dos
animais, equiparando-o ao comportamento de pessoas em determinadas situações.
Quando contam casos que envolvem outras pessoas ou a si mesmos ou quando
comentam um certo acontecimento, surgem comparações tais como: "Vamos ficar
sozinhos, mesmo como raposa!"; "Nós somos como porco (queixada), sempre
fazemos a aldeia circulada" (isto é, sempre estamos juntos); "Comendo escondido
como curico!" Haveria um número muito grande de comparações desse gênero a
citar. Lembro-me de uma vez em que fui comparado a uma ema, pois estava
descascando umas batatas-doces que tinha ganhado, atirando as cascas para trás, por
cima do ombro; é que a ema, explicaram-me, apanha capim e o atira sobre as
próprias costas.
Em certas narrativas que descrevem episódios guerreiros do passado, histórico
ou mítico, dos craôs e seus vizinhos, os mortos, os vencidos, os que estão em situação
difícil, são comparados a animais de caça, enquanto que os senhores da situação, os
ameaçadores, são equiparados a animais agressivos. Uma dessas narrativas, os
membros de um grupo indígena, observando a desenvoltura de um inimigo,
exclamam: "Este gavião não é gaviãozinho não; é gavião-real". Noutra, um
personagem lembra a valentia de três líderes da aldeia em que morava: "É, eu bem
estava dizendo, não vão rastejar meu rastro até aquela aldeia, porque lá há três
marimbondos e eles gostam de esporar bem na vista e cega; e quem vai lá não volta".
Numa terceira, um índio que vai observar se ainda havia algum inimigo vivo dentre
os corpos. que jaziam, depois de combate, nas águas de um ribeirão, comunica aos
companheiros: "Não, estão mortos, são os peixes que estão chupando sangue de
veado". Na mesma narrativa, um personagem repreende seus companheiros por se
terem esquecido da derrota que sofreram de um grupo vizinho, quando fugiram por
um ribeirão: "Pega teu arco, pega, mole velho; você é um lagarto que não presta para
nada; você já esqueceu que nadou no riacho feito capivara, mole velho" .
Os craôs não comparam pessoas com animais apenas nessas observações
informais e espontâneas; há casos em que tal comparação é institucionalizada, como
nos gritos que emitem ao finalizar uma reunião noturna, na praça da aldeia. Se
dispersam logo ao pôr-do-sol, imitam os caititus — gritando muk, muk, muk — pois,
quando caçadores surpreendem os caititus, eles fogem depressa. Por isso os índios
dizem: "Vamos gritar como caititu, pois nós combinamos depressa". Quando os
índios dispersam no começo da noite, imitam as galinhas d'água — gritando ka, ka,
ka — pois elas gritam a essa hora. Quando dispersam muito depois do cair da noite,
imitam o socó — gritando põ, põ, põ. Quando a reunião acaba mais tarde ainda,
imitam o morcego — gritando ie, ie, ie, ié — pois os morcegos voam pela aldeia por
volta da meia noite, gritando txit, txit, txit.
Enfim, esses dadas nos mostram que os craôs não perdem nunca a
oportunidade de compararem o comportamento das pessoas com o dos animais. É,
pois, de se esperar que eles classifiquem os animais de algum modo, ainda que tal
classificação não tenha nada de comum com a dos zoólogos. De fato, há um mito que
parece constituir um esboço de classificação de animais. Conta o mito que os animais
se reuniram para realizar uma festa. Durante a festa, resolveram apostar corrida, dois
a dois; o vencedor de cada corrida deveria, dar por diante, morar no cerrado, e o
vencido, morar na floresta. O veado campeiro venceu o mateiro, o catingueiro e o
caititu. Por isso, o campeiro passou a viver no cerrado, enquanto seus rivais
passaram a viver na floresta. Mas o campeiro empatou com a ema; por isso. esta
também foi viver no cerrado. O tamanduá bandeira correu com o tatu-canastra; o
bandeira ganhou. mas os dois correram tão mal que ambos foram viver na fio. resta.
A raposa venceu o papa-mel; assim, a primeira foi viver no cerrado, mas quase
escondida, e o papa-mel foi viver na floresta. Mas os dois freqüentam tanto o mato
quanto a floresta. A cutia venceu a paca, mas ambas resolveram ficar na floresta. O
jacu venceu a seriema e o mutum; mas o jacu preferiu ficar na floresta e a seriema
quis ficar no cerrado. O suçuapara venceu a anta; esta passou a viver na floresta e
aquele no cerrado; mas o suçuapara não gosta de ficar todo tempo no cerrado e
também freqüenta a floresta. Mas por que razão os vencedores deviam ir morar no
cerrado e os derrotados na floresta? A resposta está nas palavras que o mito atribui
ao veado campeiro: "E eu não tenho medo de estar fora (da floresta), não tenho medo
de coisa alguma, não há quem me alcance na carreira, só se for algum bicho que voe".
Em outras palavras, o que se admite no mito é que os animais que correm pouco têm
de evitar o perigo se escondendo, para o que a floresta é mais adequada; os bons
corredores não precisam de se esconder e podem viver no cerrado, pois evitam o
perigo correndo. Além disso, no mito se leva em consideração que essa regra tem
exceções: animais que correm bem preferem a floresta e outros, que perderam a
corrida, ficaram no cerrado. Temos, pois, nesse mito, um esboço de classificação com
base na ecologia.
Mas essa não seria a única maneira de classificar animais entre os craôs. A
magia que faz o caçador para matar veado campeiro nos mostra a presença de outros
modos de classificar. Aquele que quer matar veado campeiro, s6 deve comer carne de
animais que andam de dia e evitar a daqueles que entram em atividade à noite, pois
o campeiro anda durante o dia. Há, pois, uma classificação de animais segundo a
etapa do dia em que estão em atividade. O caçador deve também evitar comer carne
de animais espantadiços, pois senão o veado se torna igualmente espantadiço. Por
conseguinte, percebe-se a existência de uma outra classificação de animais em calmos
e espantadiços.
Os homens e as mulheres craôs se dividem em dois grupos, um chamado
Wakm?ye e outro, Katamye. Cada pessoa, segundo o nome pessoal de que seja
portador, pertence a uma ou outra dessas metades. A primeira está associada à
estação seca, ao dia, ao oriente, ao centro da aldeia; a segunda, à estação chuvosa, à
noite, ao ocidente, à periferia da aldeia. Se interrogados, os craôs também classificam
animais e vegetais nessas metades. Assim, um animal é Wakm?ye se mostra maior
atividade de dia, se vive no cerrado, se é notado sobretudo na estação seca; será
Katamye, se vive na mata, em buracos, na proximidade da água ou se caminha à
noite. Os vegetais, geralmente, são classificados segundo a estação, seca ou chuvosa,
em que produzem suas flores ou frutos. Convém notar que os dados que estou
apresentando não são resultados de uma pesquisa especial sobre as classificações
craôs, mas sim informações que apareceram na pesquisa sobre outros temas; dai o
seu caráter precário. De qualquer modo, é possível vislumbrar algumas diferenças
entre as classificações dos craôs e a classificação dos zoólogos e botânicos. Ao que
parece, a classificação dos nossos zoólogos e botânicos leva em muita consideração as
características morfológicas dos animais e vegetais. Baseia-se numa descrição
minuciosa do aspecto externo e dos órgãos internos do animal ou vegetal a ser
classificado. Pelo que notamos até aqui, os craôs dão muita importância ao
comportamento: calmo ou espantadiço, atua de dia ou atua de noite, vive na mata ou
vive no cerrado, mais notado na estação seca ou mais notado na estação chuvosa?
Poderíamos talvez dizer que a classificação craô tem sobretudo base no
comportamento. Em segundo lugar, a classificação dos zoólogos e botânicos
pretende ser exaustiva, enumerando e descrevendo todas as variedades de cada
espécie, todas as espécies de cada gênero, todos os gêneros de cada família e assim
por diante. No caso dos craôs, os mitos, tal como o citado, e também os ritos e a
magia parecem fornecer apenas os critérios de classificação, indicando alguns
animais e vegetais como exemplos e deixando a cada indivíduo a tarefa de classificar
os restantes, na medida de suas necessidades. Em terceiro lugar, assim como a
classificação dos zoólogos e botânicos é apenas uma das várias classificações de
animais e vegetais de nossa sociedade, do mesmo modo os craôs dispõem de várias
classificações.
Disse que nas classificações craôs o comportamento parece ser mais importante
que a morfologia. Entretanto, existe uma outra que de certo modo se baseia na
morfologia. De fato, numa série de ritos diferentes, mas todos ligados de algum
modo à iniciação dos jovens, os craôs se dividem em diversos pares de metades:
Papa- méis e Abelhas; Papa-méis e Muriçocas; Papa-méis e Gaviões; Marrecos e
Gaviões; Lontras e Peixes. É curioso notar, que não raro os índios se confundem,
chamando a metade das Abelhas de Gaviões ou as Muriçocas também de Gaviões.
Isso se explica pelo fato dos índios colocarem os animais desses nomes na mesma
classe. De fato, um índio me contou que os animais, tal como os homens, podem ser
distribuídos nas metades Papa-méis e Gaviões. Os animais de pena pertencem à
segunda, enquanto que os de quatro pés, à primeira. Assim, o cachorro, a lontra, são
Papa-méis. Mas não era apenas esse critério que orientava meu informante.
Classificou as abelhas como pertencentes à metade Gaviões, mas sem me apresentar
um motivo. Mas, classificou os peixes também como Gaviões e apresentou duas
razões para isso: primeiro, porque os peixes têm medo da lontra e esta é da metade
dos Papa-méis; segundo, porque os peixes não têm pés. Esta última razão, à primeira
vista, é bastante estranha, e só pode ser entendida à luz das informações de um outro
índio, segundo o qual os Papa-méis são corredores mais velozes do que os Gaviões,
porque o gavião tem pernas curtas. A cobra foi considerada como pertencente aos
Gaviões, por certo pelo mesmo motivo que o dos peixes. O marimbondo, a borboleta,
como da metade dos Gaviões. Mas o sapo e a formiga, como da metade dos Papa-
méis. Nessa classificação, certos aspectos morfológicos são, pois, levados em
consideração, como a presença de pernas pequenas ou ausência de pernas. Só não
fica claro por que o marreco está do lado dos Papa-méis.
Mas, afinal, de que serve o levantamento dos conhecimentos e das classificações
zoológicas e botânicas de uma tribo indígena? Na verdade há vantagens tanto para a
Biologia quanto para a Etnologia.
Do ponto de vista do biólogo, tais estudos são vantajosos porque podem
suscitar pesquisas sobre propriedades de certos vegetais, assim como trazer novos
conhecimentos sobre hábitos de certas espécies animais Todos sabem que nossos
conhecimentos sobre o curare, sobre a presença do ácido prússico na mandioca, sobre
propriedades de certos vegetais que matam ou atordoam os peixes, derivam de
pesquisas suscitadas por conhecimentos de origem indígena. Assim, é de se esperar
que, dentre os inúmeros vegetais utilizados pelos indígenas como remédios, os
cientistas cheguem a isolar alguns cuja eficácia não esteja assentada puramente nas
crenças mágicas, mas que possuam realmente certas propriedades curativas. Além
disso, nesse trabalho, é possível que o biólogo ainda venha a Identificar novas
espécies. Portanto, o estudo da Botânica e da Zoologia dos grupos indígenas poderia
realmente aumentar nossos próprios conhecimentos de Botânica e Zoologia. Esse
tema me faz lembrar de uma idéia engraçada que teve certo dia um chefe craô.
Estava discutindo comigo sobre o que ele poderia trazer numa futura viagem a
Brasília, a fim de ganhar dinheiro: falava em colares confeccionados pelos índios, em
cabelos naturais para perucas... Então lhe ocorreu que eu poderia ajudá-lo, trazendo
um pedaço de certa raiz para a cidade, a fim de verificar, junto a pessoas
competentes, se ela realmente curava picadas de cobras, como os índios acreditam.
Em caso afirmativo, ele poderia ganhar dinheiro,. vendendo tal raiz a civilizados.
Mas, a fim de evitar que os civilizados chegassem a identificar esse vegetal e lhe
tirassem o monopólio dessa possível mercadoria, o velho chefe me permitiria que
trouxesse apenas a raiz para ser examinada, mas não vegetal inteiro. Em outras
palavras, o índio queria garantir para si a patente do remédio.
E para a Etnologia, de que servem tais conhecimentos? Parece que saber como
os membros de determinado grupo indígena classificam animais e vegetais nos ajuda
a conhecer outros elementos de sua cultura. Assim, para se compreender a magia que
propicia resultados favoráveis na caçada, é importante levar em conta as
classificações de animais, como já indiquei no exemplo de caçada de veado campeiro.
As classificações também nos ajudam a estabelecer relações entre vários ritos: por
exemplo, sabendo-se que os craôs põem numa mesma classe a muriçoca, a abelha e o
peixe, é possível entender porque os membros das metades das Muriçocas, das
Abelhas e dos Peixes, cada uma num rito diferente, nunca devem cortar toras de
corrida e só têm uma moça associada, quando as metades que lhes são opostas têm
de cortar toras e possuem duas moças associadas. O conhecimento dessa classificação
nos conduz ao encontro de uma série de semelhanças que acabam nos mostrando
que os três ritos na verdade constituem versões diferentes de um rito único.
Para dar um exemplo final, os conhecimentos zoológicos e botânicos dos craôs
também nos podem ajudar a relacionar certos ritos com determinados mitos. No rito
Khetwaye, um grupo de meninos e adolescentes fica em reclusão durante alguns
meses; no dia do encerramento do rito, esses jovens devem sair correndo de certo
ponto do cerrado na direção da aldeia. Ao chegarem à aldeia, são lavados com uma
infusão de folhas denominadas pephëkakoho, tiradas de um vegetal que os sertanejos
da região chamam de "negra-mina". Esse ato ritual seria incompreensível se os craôs
não me tivessem dito que o cheiro dessas folhas é o mesmo cheiro da formiga
chamada pephë. Daí o nome das folhas: pephë (uma espécie de formiga) kako (suco)
ho (folha). Essa informação. que talvez para o zoólogo e para o botânico seja apenas
algo muito curioso, é muito importante para o etnólogo, pois lhe permite estabelecer
uma relação entre esse rito e um mito dos craôs: o do homem que foi levado aos céus.
Esse mito é a história de um homem em cuja orelha entrou uma formiga-de-
mandioca (atxum). Ele ficou muito doente, pois a orelha começou a Inchar. Foi
abandonado pelos habitantes de sua aldeia, que se mudaram para outro lugar,
inclusive por sua mulher, que tinha um amante. Os urubus se apiedaram do homem,
aproximaram-se dele, providenciaram sua cura e depois o levaram para o céu. Lá o
homem aprendeu alguns ritos com os urubus e os gaviões e ganhou também poderes
mágicos. Desceu de novo à terra e, transformando-se na formiga pephë, picou sua
mulher e seu amante no momento em que se amavam, castigando-os. Em suma, o
mito conta a história de um homem que é afastado do convívio de seus semelhantes,
ficando algum tempo fora, depois retornando com novos conhecimentos e poderes. É
a picada de uma formiga (atxum) e o transporte pelos urubus que o afastam de sua
sociedade. Ao retornar, transforma-se por um momento numa outra espécie de
formiga (pephë). Ora, os jovens, no rito Khetwaye, também passam um certo período
afastados da vida rotineira da aldeia. Ao reingressarem na rotina, são lavados com a
infusão de um vegetal Identificado, pelo cheiro, com a formiga pephë. Assim se
descobre um primeiro ponto de contato entre o rito e o mito. Descoberto o primeiro
ponto, é possível encontrar outros: por exemplo, é um homem do grupo dos Urubus
que, no início do rito, recolhe os meninos e adolescentes para pô-los em reclusão,
assim como são os urubus do mito que levam o homem para o céu. Mas esse rito e
esse mito são demasiado complexos para permitirem sua análise neste breve artigo.
Mas, se o etnólogo está interessado em conhecimentos e classificações
elaborados pelos próprios índios, precisa ele da colaboração do zoólogo e do
botânico? Sem dúvida, essa colaboração é indispensável; em primeiro lugar, porque
o etnólogo não saberá identificar, nem com nomes vulgares, todos os vegetais e
animais com que terá de lidar; em segundo lugar, mesmo que saiba identificá-los
com nomes vulgares, isso não ó suficiente, pois tais nomes muitas vezes abrangem
mais de uma espécie e podem mudar de região para região. Nos seus trabalhos, o
etnólogo terá de escrever o nome científico dos vegetais e animais a que fizer
referência para que possa ser bem compreendido por etnólogos que trabalhem com
outras tribos e em outras regiões e que desejem comparar os resultados obtidos em
grupos diversos. Portanto, o etnólogo deve seguir o conselho de Vanzolini: "parece-
me que seria vantajoso para o etnógrafo entrar em contato com zoólogos antes de
partir para uma viagem. Poderia assim fazer uma idéia da fauna da região, bem
como de métodos expeditos de coleta e preservação de exemplares de eventual
interesse etnográfico" (p. 157). Não é preciso dizer que ele deve procurar também os
botânicos.
Finalizando, convém notar um outro aspecto pioneiro no artigo de Vanzolini:
ele constitui um anúncio de que há um zoólogo disposto a colaborar com os
etnólogos e num momento bastante oportuno, isto é, pouco antes dos anos 60,
quando o Estruturalismo e a Antropologia Cognitiva orientarão a Etnologia para o
estudo dos sistemas de classificação.
Lineu

John Ray

al-Yahiz obra: Avicena

Alberto Magno

Edward Tyson

Georges Cuvier
Nome: Roberta Cerqueira Cavalcante
Matrícula do Aluno: 2007 220 2389
Título: Diversidade dos Seres Vivos – AD1 - 2007/2
Pólo: Resende
Data: 04/08/2007
Referências Bibliográficas:

Livro: Novo Ensino Dinâmico de Pesquisa - Edipar Edições e Participações Ltda – Ano: 2000
Dicionário: Minidicionário Ruth Rocha – Editora Scipione – 9º Edição – Ano: 1996
Site: http://www.fieo.br/v1/acervo/download/normas_trabalhos_academicos.pdf - ABNT
Data: 04/08/2007 - Hora: 18:40
Site:

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