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L’OSSERVATORE ROMANO
EDIÇÃO SEMANAL EM PORTUGUÊS
Unicuique suum Non praevalebunt
Ano LI, número 43 (2.668) Cidade do Vaticano terça-feira 27 de outubro de 2020

O anúncio no final do Angelus na praça de São Pedro

Francisco criará treze novos cardeais


O consistório terá lugar a 28 de novembro

O Papa Francisco criará treze novos D. Marcello Semeraro, Prefeito da


cardeais no consistório que terá lugar a Congregação para as Causas dos
28 de novembro próximo. Foi o próprio Santos;
Pontífice que o anunciou no final do D. Antoine Kambanda, Arcebispo
Angelus recitado domingo, 25 de de Kigali, Ruanda;
outubro, com os fiéis na praça de São D. Wilton Gregory, Arcebispo de
Pedro. Washington;
No próximo dia 28 de novembro, D. José Advincula, Arcebispo de
véspera do primeiro Domingo de Capiz, Filipinas;
Advento, realizarei um Consistório D. Celestino Aós Braco, Arcebis-
para a nomeação de treze novos po de Santiago do Chile;
Cardeais. Eis os nomes dos novos
Purpurados: D. Cornelius Sim, Bispo titular de
Putia in Numidia e Vigário Apostó-
D. Mario Grech, Secretário-Geral lico de Brunei, Kuala Lumpur;
do Sínodo dos Bispos;
D. Augusto Paolo Lojudice, Arce-
bispo de Siena-Colle Val d’Elsa-
Montalcino;
Frei Mauro Gambetti, Franciscano
Apelo do Papa e dos chefes religiosos aos responsáveis dos Estados no final do encontro de oração Conventual, Guardião do Sagrado
Convento de Assis.

Uma nova arquitetura da paz Juntamente com eles, unirei aos


membros do Colégio Cardinalício:
D. Felipe Arizmendi Esquivel,
Bispo Emérito de San Cristóbal de
las Casas, México;
D. Silvano M. Tomasi, arcebispo ti-
tular de Acelum, Núncio Apostólico;
Frei Raniero Cantalamessa, Capu-
chinho, Pregador da Casa Pontifícia;
Mons. Enrico Feroci, pároco de
Santa Maria do Divino Amor em
Castel di Leva.
Oremos pelos novos Cardeais pa-
ra que, confirmando a sua adesão a
Cristo, me possam ajudar no meu
ministério como Bispo de Roma, pa-
ra o bem de todo o povo santo e fiel
de Deus.

Prorrogado o Acordo
entre a Santa Sé e a República
Popular da China

PÁGINAS 6/7 E 8 Finalidade e motivos


PÁGINA 4

A irmandade entre visão profética e trabalho artesanal Entrevista do patriarca ecuménico


de Constantinopla

ANDREA MONDA quitetura da paz», lê emocionada a ganhar de novo o prémio Nobel da Abandonemos
jovem. Compreende-se então que o paz, como há oito anos, mas é evi- a indiferença e o
sol põe-se suavemente sobre que todos os líderes religiosos estão dente que o impulso propulsor nas-

O o Capitólio deixando lugar


a uma brisa fria quando
uma jovem lê o apelo a favor da
a realizar, todos sentados lado a la-
do, não é um lindo desfile, um
evento destinado a emocionar nu-
cido no final da Segunda Guerra
Mundial (precisamente em Roma,
com os Tratados dos anos 50) pare-
cinismo
ANDREA TORNIELLI NA PÁGINA 5
paz que conclui o encontro de ora- ma tarde agradável de outubro em ce ter-se desvanecido, ter empreen-
Roma, porque a paz não é um sen- dido o processo descendente. A pa- «Fratelli tutti»
ção «Ninguém se salva sozinho.
timento bonito, mas uma obra. lavra “arquitetura” impressiona: faz
Paz e fraternidade» organizado pela Cansativa, constante, paciente, uma pensar na capacidade de visão, de
Comunidade de Santo Egídio no Uma nova
obra que precisa de criatividade: a projeto, de sonho, a visão que le-
espírito do grande evento de Assis arquitetura da paz deve ser “nova”. vou João Paulo II em 1986 a iniciar «Pacem in terris»
de 27 de outubro de 1986: «Aos res- A anterior evidentemente já não é esta história com um gesto que foi,
ponsáveis dos Estados, dizemos: suficiente, deve ser reparada, atuali- MASSIMO BORGHESI NA PÁGINA 9
trabalhemos juntos numa nova ar- zada, reinventada. A Europa pode CONTINUA NA PÁGINA 8
página 2 L’OSSERVATORE ROMANO terça-feira 27 de outubro de 2020, número 43

Magia do cinema e ajuda anticovid nos rios da Amazónia

A missão de um sonhador
ELISA PINNA macacos, tucanos e araras. A cozi- uma criança não tem preço», explica de água, no sulco das doenças trazi-
nheira de bordo, Lucineide, prepara o piloto de Gaia, Dinho, acostuma- das há séculos pelos conquistadores
Gaia é o nome de uma típica embar- as pipocas, que certamente não po- do a navegar em águas traiçoeiras, europeus, a Covid-19 atingiu cidades
cação que navega nos rios amazóni- dem faltar num cinema digno desse onde há até piratas. Mas depois veio e aldeias, transformando a Amazónia
cos, pintada de amarelo, inteiramen- nome. «A felicidade no olhar de o coronavírus. Ao longo dos cursos na região mais afetada e indefesa do
te de madeira, com dois conveses e Brasil. Gaia voltou a zarpar, desta
dotada de redes para dormir à noite vez para entregar mais de 30 tonela-
sob o céu equatorial que se reflete das de ajudas alimentares às comu-
nas águas escuras ou para ouvir o nidades indígenas. «Quando chega-
canto inquietador dos macacos. Tor- mos, as pessoas recebem-nos com
nou-se lenda, nesta terra de maravi- admiração», observa Pluviano, «pois
lhas naturais e de sofrimentos huma- mais ninguém se ocupa delas». Du-
nos, graças a um sonhador chamado rante a pandemia morreram vários
Oliviero Pluviano. Jornalista, hoje feiticeiros e caciques idosos: assim
aposentado, músico itinerante e ex- desapareceram inteiras “bibliotecas”
correspondente no Brasil da Agência
de conhecimentos, explica.
italiana de imprensa (Ansa), um be-
É por isso que, quando acabar a
lo dia decidiu que Gaia, já julgada
emergência de saúde, ele quer voltar
inadequada para socorrer os doentes
da região de Santarém, poderia ser o a navegar, e não só para divulgar o
instrumento para realizar um sonho: cinema, mas também para reunir
levar o cinema aos povos indígenas histórias e o saber dos sobreviventes
mais distantes, pobres e isolados da mais idosos, antes que seja demasia-
Amazónia, a aldeias em palafitas on- do tarde. «Além disso, tenho outro
de ninguém jamais vira um filme e sonho. Posso dizê-lo? Construir um
muitas pessoas nem sequer imagina- Templo de Deus, em madeira e fer-
vam que pudesse existir tal oportu- ro, em Alter de Chão, um dos luga-
nidade de admiração e maravilha. res mais lindos da Amazónia, para
Levá-lo às comunidades mais iso- todos os credos, no centro de uma
ladas, cuja identidade — e muitas ve- região onde está em jogo a salvação
zes a própria sobrevivência — é do planeta».
ameaçada pela desflorestação, pela
violência dos colonos e pelos devas-
tadores incêndios criminosos que,
para dar espaço ao cultivo especula-
tivo, destroem o pulmão do planeta.
Pluviano — sangue genovês, rosto
Presença dos católicos no mundo
emoldurado por cabelo macio, barba
e bigode brancos — queria que a sua
Desde o início do pontificado do Papa Francisco até 2018
“gaiola” colorida, com uma marcha
ligeiramente torta mas muito rápida, A publicação do Anuário Estatístico da Igreja para o Em 2018, a América é o continente ao qual pertencem
espalhasse cultura e alegria entre os ano de 2018 permite examinar a presença dos católicos 48,3% dos católicos do mundo. Destes, quase 58% es-
índios. «Não é justo viver só de no mundo durante os últimos cinco anos. tão presentes na América do Sul. Moderadamente cres-
mandioca e peixe». Na esteira de De 2013 a 2018, o número de católicos batizados a cente parece a incidência no mundo católico do conti-
Fitzcarraldo, o homem que esperava nível mundial aumentou de pouco mais de 1.254 mi- nente asiático que, com uma relevância de 60% da po-
construir um teatro de Ópera lírica lhões para cerca de 1.329 milhões, um incremento de pulação mundial, permanece cerca de 11,1% durante to-
na Amazónia e inspirador de um 6%. Comparando estes dados com a evolução da po- do o período analisado, no que diz respeito aos católi-
grande filme de Werner Herzog, em pulação mundial, que passou de 7.094 para 7.496 mi- cos. Ao contrário, continua estável a incidência dos ca-
2011 Oliviero zarpou com os primei- lhões no mesmo período, verifica-se que a presença re- tólicos batizados na Oceânia em relação ao total mun-
ros filmes, recebidos da embaixada lativa dos católicos aumentou ligeiramente de 17,68% dial, mas com uma consistência que não chega a 0,8%.
italiana. Havia também “La vita è para 17,73%. A análise geográfica das variações no pe- De particular interesse é também a leitura dos da-
bella”, de Roberto Benigni que, Plu- ríodo examinado mostra um incremento exaltante de dos, continente por continente, do número relativo de
viano recorda, se tornou um sucesso cerca de 18% de católicos na África, que no entanto au- católicos em relação à população: um quociente que
imediato entre as comunidades indí- mentou a sua população de pouco mais de 15%, e a mostra o número de católicos por cada 100 habitantes
genas. Desde então até 2020, Gaia comparação entre as duas percentagens demonstra a do continente. Estes valores mostram que a presença
navega no coração da Amazónia pa- eficácia da atividade pastoral nos países africanos. dos católicos no final de 2018 é radicalmente diferente
ra relançar a magia do cinema em Também no continente americano houve um aumento nas várias áreas geográficas: variam de 63,7% de católi-
lugares esquecidos por todos: do rio de católicos superior ao da população (4,6% contra cos presentes na população na América a 39,7% na Eu-
Tapajós, afluente do Amazonas, a 4,4%). Ao aumento muito maior dos católicos asiáticos ropa e a 3,3% na Ásia. É importante realçar que a área
cursos de água como o Arapiuns, em comparação com o da população (7,6% contra americana é em si muito diferenciada: se no Norte a
com as suas brancas praias caribe- 4,4%) seguiu-se na Europa uma diminuição de 0,4% percentagem de católicos é de apenas 24,8%, no Sul
nhas e os seus crepúsculos ardentes, dos católicos contra um ligeiro aumento da população (86,5%) e no Centro (88,5%) a presença de católicos
ou como o misterioso Paru, um rio de 0,2%; por outro lado, na Oceânia houve um au- parece muito mais consistente. Uma leitura diacrónica
de beleza pungente, rodeado pelas mento muito acentuado dos católicos em comparação dos quocientes permite destacar as diferentes tendên-
árvores mais imponentes da floresta, com os habitantes (9,6% contra 8,1%). cias que prevalecem nas áreas geográficas a partir de
com quase 100 metros de altura. Em De acordo com a diferente relevância demográfica 2013 e que, contudo, mostram sempre variações bastan-
cada etapa, os membros da tripula- nos diversos continentes, a distribuição dos católicos é te pequenas. Pois bem, se a presença dos católicos a
ção de Gaia preparam o cinema du- bastante diversa nas várias áreas geográficas do plane- nível planetário resulta ao longo do tempo uma situa-
rante o dia. Penduram a lona onde ta. Confirma-se a tendência para um aumento da rele- ção quase inalterada, em cada área continental — e em
podem, instalam o projetor e o siste- vância da África (onde os católicos aumentaram de particular na África e na América — a tendência é de
ma de som, verificam se o gerador 16,4% para 18,6% da população mundial) e, por outro um crescimento lento. É plausível que o resultado apa-
elétrico funciona; cheias de encanto, lado, para o declínio contínuo na Europa, onde a per- rentemente contraditório se deva à preponderância de-
as crianças acompanham as prepara- centagem do total mundial diminuiu em 2018 em qua- mográfica da Ásia, onde a presença católica parece exí-
ções, no meio de um alvoroço de se um ponto e meio, em relação aos 22,9% em 2013. gua.

L’OSSERVATORE ROMANO ANDREA MONDA TIPO GRAFIA VATICANA EDITRICE


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número 43, terça-feira 27 de outubro de 2020 L’OSSERVATORE ROMANO página 3

CATEQUESE

Sobre a oração dos Salmos

Crer em Deus
e odiar os homens
é ateísmo prático
Contra o «ateísmo prático de todos os que os mestres da ascese denomi-
dias» — que consiste em crer em nam “temor sagrado de Deus” — é
Deus e manter a distância dos outros o que nos torna plenamente huma-
ou até odiá-los — o Papa alertou na nos, é o limite que nos salva de
audiência geral de quarta-feira, 21 de nós mesmos, impedindo que nos
outubro, na sala Paulo VI. aventuremos nesta vida de modo
Respeitando as medidas de predatório e voraz. A oração é a
distanciamento devido ao coronavírus salvação do ser humano!
— como explicou aos fiéis presentes — Certamente, existe também uma
o Pontífice concluiu a catequese sobre oração falsa, uma prece feita ape-
a oração dos salmos iniciada na nas para sermos admirados pelos
semana passada. outros. Aquele ou aqueles que vão tecismo da Igreja Católica: «As ex- porque nos ama primeiro, ele olha
à missa apenas para mostrar que pressões multiformes da oração dos para nós primeiro, ele compreende-
Prezados irmãos e irmãs, bom dia! são católicos ou para exibir o últi- salmos tomam forma, ao mesmo nos primeiro. Ele espera sempre
Hoje temos que mudar um pouco mo modelo que compraram, ou pa- tempo, na liturgia do templo e no por nós — Se alguém disser: “Amo
o modo de realizar esta audiência ra fazer uma boa figura social. Es- coração do homem» (n. 2588). E a Deus”, mas odeia o seu irmão, é
devido ao coronavírus. Vós estais ses vão a uma oração falsa. Jesus deste modo a oração pessoal haure mentiroso. Porque aquele que não
distanciados, também protegidos advertiu fortemente a este respeito e alimenta-se primeiro daquela do ama o seu irmão, a quem vê, é in-
pela máscara e eu estou aqui um (cf. Mt 6, 5-6; Lc 9, 14). Mas quan- povo de Israel e depois daquela do capaz de amar a Deus, a quem não
pouco afastado e não posso fazer o do o verdadeiro espírito de oração povo da Igreja. vê. — Se rezas muitos terços por
que faço sempre, aproximar-me de é acolhido com sinceridade e entra dia mas depois falas mal de outros,
Inclusive os salmos na primeira
vós, pois cada vez que me aproxi- no coração, então faz-nos contem- e também sentes rancor interior,
pessoa do singular, que confiden-
mo, vós aproximais-vos todos jun- plar a realidade com o olhar do ódio contra o próximo, isto é puro
ciam os pensamentos e os proble-
tos e perde-se a distância e há o próprio Deus. artifício, não é verdadeiro. — De
mas mais íntimos de um indivíduo,
perigo de contágio para vós. La- Quando rezamos, tudo adquire são património coletivo, a ponto Deus recebemos este mandamento:
mento fazer isto, mas é para a vos- “profundidade”. Isto é curioso na de serem recitados por todos e pa- aquele que amar a Deus, ame tam-
sa segurança. Em vez de me apro- oração, talvez comecemos por uma ra todos. A oração dos cristãos tem bém ao seu irmão» (1 Jo 4, 19-21).
ximar de vós, apertando as mãos e coisa subtil, mas na oração essa este “respiro”, esta “tensão” espiri- A Escritura admite o caso de uma
saudando, cumprimentamo-nos de coisa adquire espessura, adquire tual que mantém unidos o templo pessoa que, mesmo procurando
longe, mas sabei que estou perto peso, como se Deus a tomasse nas e o mundo. A prece pode começar sinceramente a Deus, nunca conse-
de vós com o coração. Espero que Suas mãos e a transformasse. O na penumbra de uma nave, mas gue encontrá-lo; mas afirma tam-
compreendais por que estou a fazer pior serviço que pode ser prestado, depois acaba a sua corrida pelas bém que nunca se pode negar as
isto. Depois, enquanto os leitores a Deus e também ao homem, é re- ruas da cidade. E vice-versa, pode lágrimas dos pobres, sob pena de
liam a passagem bíblica, chamou a zar com tédio, de maneira habitu- germinar durante os afazeres diá- não encontrar a Deus. Deus não
minha atenção aquele menino ou dinária. Rezar como papagaios. rios e encontrar o seu cumprimento suporta o “ateísmo” daqueles que
menina que chorava. E vi a mãe Não, reza-se com o coração. A ora- na liturgia. As portas das igrejas negam a imagem divina impressa
que abraçava e amamentava o bebé ção é o centro da vida. Se houver não são barreiras, mas “membra- em cada ser humano. Aquele ateís-
e pensei: “É assim que Deus faz oração, o irmão, a irmã, até o ini- nas” permeáveis, disponíveis para mo quotidiano: acredito em Deus,
connosco, como aquela mãe”. Com migo, torna-se importante. Um an- acolher o clamor de todos. mas com os outros mantenho a mi-
quanta ternura segurava o bebé, tigo ditado dos primeiros monges nha distância e permito-me odiar
O mundo está sempre presente os outros. Isto é ateísmo prático.
para o amamentar. Estas são belas cristãos reza: «Abençoado é o na oração do Saltério. Os Salmos,
imagens. E quando isto acontece monge que, depois de Deus, consi- Deixar de reconhecer a pessoa hu-
por exemplo, dão voz à promessa mana como imagem de Deus é um
na igreja, quando um bebé chora, dera todos os homens como Deus» divina de salvação dos mais frágeis:
sabemos que existe a ternura de (Evágrio Pôntico, Tratado sobre a sacrilégio, uma abominação, é a
«Por causa da aflição dos humildes pior ofensa que se pode levar ao
uma mãe, como hoje, existe a ter- Oração, n. 123). Quem adora Deus, e dos gemidos dos pobres, levan-
nura de uma mãe que é o símbolo ama os seus filhos. Quem respeita templo e ao altar.
tar-me-ei — diz o Senhor — para
da ternura de Deus para connosco. Deus, respeita os seres humanos. lhes dar a salvação que desejam» Estimados irmãos e irmãs, que a
Nunca silenciar uma criança que Por esta razão, a oração não é (12 [11], 6). Ou alertam para o pe- oração dos Salmos nos ajude a não
chora na igreja, nunca, porque é a um calmante para aliviar as ansie- rigo das riquezas mundanas, por- cair na tentação da “impiedade”,
voz que atrai a ternura de Deus. dades da vida; ou, contudo, uma que «o homem que vive na opulên- ou seja, de viver, e talvez até de re-
Obrigado pelo testemunho. prece deste tipo certamente não é cia e não reflete é semelhante ao zar como se Deus não existisse, co-
Hoje completamos a catequese cristã. Ao contrário, a oração res- gado que se abate» (48, 21). Ou, mo se os pobres não existissem.
sobre a oração dos Salmos. Antes de ponsabiliza cada um de nós. Ve- ainda, abrem o horizonte ao olhar
mais, notamos que nos Salmos mos isto claramente no “Pai-Nos- de Deus sobre a história: «O Se- No final, o Papa saudou os vários
aparece frequentemente uma figura so”, que Jesus ensinou aos seus dis- nhor desfaz os planos das nações grupos presentes, proferindo entre
negativa, a do “ímpio”, ou seja, cípulos. pagãs, reduz a nada os projetos outras as seguintes palavras.
aquele ou aquela que vive como se Para aprender este modo de re- dos povos. Só os desígnios do Se- Saúdo os peregrinos e ouvintes de
Deus não existisse. É a pessoa sem zar, o Saltério é uma grande escola. nhor permanecem eternamente, os língua portuguesa, recordando a
qualquer referência ao transcenden- Vimos que os Salmos nem sempre pensamentos do seu coração por todos que a oração abre a porta da
te, sem freios na sua arrogância, usam palavras requintadas e gentis, todas as gerações» (33, 10-11). nossa vida a Deus. E Deus ensina-
que não teme o julgamento sobre o e muitas vezes têm as cicatrizes da Em síntese, onde está Deus, de- nos a sair de nós mesmos para ir
que pensa e o que faz. existência. No entanto, todas estas ve estar também o homem. A Sa- ao encontro dos outros mergulha-
Por esta razão, o Saltério apre- orações foram utilizadas primeiro grada Escritura é categórica: «Mas dos na prova, dando-lhes consola-
senta a oração como a realidade no Templo de Jerusalém e depois amamos, porque Deus nos amou ção, esperança e apoio. De cora-
fundamental da vida. A referência nas sinagogas; até as mais íntimas primeiro — Ele está sempre à nossa ção, vos abençoo em nome do Se-
ao absoluto e ao transcendente — a e pessoais. Assim se expressa o Ca- frente. Ele espera sempre por nós nhor.
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Prorrogado o Acordo provisório entre a Santa Sé e a República Popular da China

Finalidade e motivos
O Acordo Provisório entre a Santa Acordo Provisório. Muitos deles
Sé e a República Popular da China, nasceram da atribuição ao Acordo
relativo à nomeação de Bispos, foi de objetivos que não são seus, ou de
assinado em Pequim a 22 de setem- acontecimentos relativos à vida da
bro de 2018. Portanto, tendo entra- Igreja católica na China que lhe são
do em vigor um mês depois, com a alheios, ou de ligações com questões
duração de dois anos ad experimen- políticas que nada têm a ver com o
tum, o Acordo termina agora. Na próprio Acordo. Recordando que o
proximidade de tal data, as duas Acordo diz respeito exclusivamente
partes avaliaram vários aspetos da à nomeação de Bispos, o Cardeal
sua aplicação e concordaram, através Parolin afirmou que está consciente
do intercâmbio oficial de Notas Ver- da existência de vários problemas re-
bais, em prolongar a sua validade lativos à vida da Igreja católica na
por mais dois anos, até 22 de outu- China, mas também da impossibili-
bro de 2022. Portanto, a renovação dade de os tratar todos em conjun-
do Acordo Provisório parece ser to.
uma oportunidade propícia para Portanto, a estipulação do Acordo
aprofundar a sua finalidade e os constitui o ponto de chegada de um
seus motivos. longo caminho empreendido pela
O comunicado
O principal objetivo do Acordo Santa Sé e pela República Popular No termo da vigência do Acordo Provisório entre a Santa Sé e a República Po-
Provisório sobre a nomeação de Bis- da China, mas é também e sobretu- pular da China sobre a nomeação de Bispos, assinado em Pequim a 22 de setem-
pos na China consiste em apoiar e do o ponto de partida para acordos bro de 2018 e que entrou em vigor um mês depois, as duas partes concordaram
promover a proclamação do Evange- mais amplos e clarividentes. O Acor- em prorrogar a fase experimental de implementação do Acordo Provisório por
lho naquelas terras, reconstituindo a do Provisório, cujo texto, dada a sua mais dois anos. A Santa Sé, acreditando que o início da aplicação do Acordo aci-
unidade plena e visível da Igreja. natureza experimental, foi consen- ma mencionado — de fundamental valor eclesial e pastoral — foi positivo, graças
Com efeito, as principais razões que sualmente mantido confidencial, é o à boa comunicação e colaboração entre as Partes no assunto concordado, está dis-
guiaram a Santa Sé neste processo, resultado de um diálogo aberto e posta a continuar o diálogo aberto e construtivo para promover a vida da Igreja
em diálogo com as Autoridades do construtivo. Este diálogo, alimenta- Católica e o bem do povo chinês.
país, são fundamentalmente de natu- do pelo respeito e pela amizade, foi
reza eclesiológica e pastoral. A ques- fortemente desejado e promovido
tão da nomeação de Bispos é de im- pelo Santo Padre. O Papa Francisco
portância vital para a vida da Igreja, está bem ciente das feridas causadas
tanto a nível local como universal. A à comunhão da Igreja no passado, e disso, existe a plena consciência de Em relação aos resultados alcança-
este respeito, na Constituição Dog- após anos de longas negociações, que o diálogo entre a Santa Sé e a dos até agora, com base no quadro
mática sobre a Igreja, o Concílio Va- iniciadas e prosseguidas pelos seus República Popular da China favore- normativo estabelecido pelo Acordo,
ticano II afirma que «Jesus Cristo, predecessores e numa indubitável ce uma busca mais fecunda do bem foram nomeados dois Bispos (Sua
Pastor eterno, edificou a Igreja ten- continuidade de pensamento com comum, em benefício de toda a co- Ex.cia D. Antonio Yao Shun, de Ji-
do enviado os Apóstolos como Ele eles, restabeleceu a plena comunhão munidade internacional. ning, Região Autónoma da Mongó-
fora enviado pelo Pai (cf. Jo 20, 21); com os Bispos chineses ordenados Precisamente com estes entendi- lia Interior; e Sua Ex.cia D. Stefano
e quis que os sucessores deles, os sem mandato pontifício, autorizando mentos, o Arcebispo Paul R. Gal- Xu Hongwei, em Hanzhong, Pro-
Bispos, fossem Pastores na sua Igre- a assinatura do Acordo sobre a no- lagher, Secretário para as Relações víncia de Shaanxi), enquanto estão
ja até ao fim dos tempos. Mas, para meação de Bispos, cujo esboço já ti- com os Estados, encontrou-se com o em curso vários outros processos pa-
que o mesmo episcopado fosse uno nha sido aprovado pelo Papa Bento Sr. Wang Yi, Conselheiro de Estado ra novas nomeações episcopais, al-
e indiviso, colocou o bem-aventura- XVI. e Ministro dos Negócios Estrangei- guns em fase inicial e outros em fase
do Pedro à frente dos outros Após- O Cardeal Parolin salientou que o ros da República Popular da China, avançada. Talvez, estatisticamente,
tolos e nele instituiu o princípio e atual diálogo entre a Santa Sé e a na tarde de 14 de fevereiro de 2020 isto não pareça um grande resultado,
em Munique, à margem da 56ª edi- mas representa um bom começo, na
fundamento perpétuo e visível da China tem raízes antigas e é a conti-
ção da Conferência sobre a Seguran- esperança de alcançar progressiva-
unidade de fé e comunhão» (Lumen nuação de um caminho que come-
ça, embora a sua primeira reunião mente outras metas positivas. Não é
gentium, 18). çou há muito tempo. Os últimos
pessoal, apesar de não ser oficial, ti- possível ignorar que nos últimos me-
Este ensinamento fundamental, Pontífices, com efeito, procuraram o
vesse tido lugar por ocasião de uma ses o mundo inteiro ficou quase pa-
que diz respeito ao papel peculiar que o Papa Bento XVI indicou como
Assembleia Geral da Organização ralisado pela emergência sanitária,
do Sumo Pontífice no seio do Colé- a superação de uma «situação carre-
das Nações Unidas em Nova Ior- que atingiu a vida e a atividade em
gio episcopal e na própria nomeação gada de mal-entendidos e incompreen-
que. É preciso observar que ambos quase todos os âmbitos públicos e
dos Bispos, inspirou as negociações sões», que «não favorece as Autorida- privados. Obviamente, o mesmo fe-
e foi um ponto de referência na re- des chinesas, nem a Igreja católica na os encontros foram realizados no
contexto da diplomacia multilateral, nómeno influenciou também os con-
dação do texto do Acordo. Pouco a China». Citando o seu predecessor tactos regulares entre a Santa Sé e o
pouco, ao longo do caminho, isto João Paulo II, em 2007 escreveu: agindo a favor da paz e da seguran-
Governo chinês, e a própria imple-
garantirá a unidade de fé e comu- «Não é um mistério para ninguém que ça globais, procurando captar todos
mentação do Acordo Provisório.
nhão entre os Bispos e o pleno servi- a Santa Sé, em nome de toda a Igreja os sinais, até mínimos, para susten-
Portanto, a aplicação do Acordo,
ço à comunidade católica na China. católica e — penso — em benefício de tar a cultura do encontro e do diálo-
com a participação efetiva e cada
Já hoje, pela primeira vez em muitas toda a humanidade, deseja a abertura go.
vez mais ativa do Episcopado chinês
décadas, todos os Bispos da China de um espaço de diálogo com as Auto- Como a Santa Sé divulgou, du-
tem grande importância para a vida
estão em comunhão com o Bispo de ridades da República Popular da Chi- rante o colóquio realizado na Ale- da Igreja católica na China e, como
Roma e, graças à implementação do na no qual, ultrapassadas as incompre- manha foram evocados os contactos resultado, para a Igreja universal.
Acordo, não haverá mais ordenações ensões do passado, se possa trabalhar entre as duas partes, que ao longo Neste contexto, insere-se também o
ilegítimas. em conjunto para o bem do Povo chi- do tempo se desenvolveram positiva- objetivo pastoral da Santa Sé, de
Contudo, deve-se notar que o nês e para a paz no mundo» (Carta mente. Nessa ocasião, foi renovada a ajudar os católicos chineses, há mui-
Acordo não trata de todas as ques- do Santo Padre Bento XVI aos bispos, vontade de continuar o diálogo ins- to tempo divididos, a dar sinais de
tões abertas ou das situações que aos presbíteros, às pessoas consagradas titucional a nível bilateral para pro- reconciliação, colaboração e unidade
ainda suscitam preocupações para a e aos fiéis leigos da Igreja católica na mover a vida da Igreja católica e o para uma proclamação renovada e
Igreja, mas exclusivamente do tema República Popular da China, n. 4). bem do Povo chinês. Esperava-se mais eficaz do Evangelho na China.
das nomeações episcopais, decisivo e Alguns setores da política interna- também uma maior cooperação in- À comunidade católica na China —
imprescindível para garantir a vida cional fizeram uma tentativa de ana- ternacional, a fim de promover a aos Bispos, sacerdotes, religiosos, re-
ordinária da Igreja, tanto na China lisar o trabalho da Santa Sé, princi- coexistência civil e a paz no mundo, ligiosas e fiéis — o Papa confiou de
como em todas as partes do mundo. palmente segundo uma hermenêuti- intercambiando considerações sobre forma particular o compromisso de
Recentemente, o Em.mo Cardeal ca geopolítica. Por outro lado, no o diálogo intercultural e os direitos viver um autêntico espírito de amor
Pietro Parolin, Secretário de Estado, caso da estipulação do Acordo Pro- humanos. Em particular, salientou-se fraterno, fazendo gestos concretos
falando sobre «A Igreja católica na visório, para a Santa Sé trata-se de a importância do Acordo Provisório que ajudem a superar incompreen-
China entre passado e presente», no uma questão profundamente eclesio- sobre a nomeação de Bispos, agora sões, testemunhando a sua fé e amor
Congresso que teve lugar em Milão lógica, em conformidade com dois prorrogado, com a esperança de que genuíno. Devemos reconhecer que
a 3 de outubro, por ocasião do 150º princípios que foram explicitados: os seus frutos sejam cada vez mais ainda existem muitas situações de
aniversário da chegada dos missioná- “Ubi Petrus, ibi Ecclesia” (Santo Am- abundantes, com base na experiên- grande sofrimento. A Santa Sé está
rios do Pime a Henan, assinalou que brósio) e “Ubi episcopus, ibi Ecclesia” cia amadurecida nos dois primeiros
surgiram alguns equívocos sobre o (Santo Inácio de Antioquia). Além anos da sua aplicação. CONTINUA NA PÁGINA 5
número 43, terça-feira 27 de outubro de 2020 L’OSSERVATORE ROMANO página 5

Entrevista do patriarca ecuménico de Constantinopla aos meios de comunicação do Vaticano

Bartolomeu: abandonemos a indiferença e o cinismo


ANDREA TORNIELLI próximo daquele homem que foi es-
pancado e ferido pelos bandidos. À
«Concordamos completamente com pergunta inicial do doutor da lei,
o convite-desafio» do Papa Francis- «Quem é o meu próximo?» (Lc 10,
co a «abandonar a indiferença ou 29), Cristo responde com uma per-
até o cinismo que governa a nossa gunta: «Qual desses três parece ter
vida ecológica, política, económica e sido o próximo daquele que caiu nas
social em geral, como unidades cen- mãos dos salteadores?» (Lc 10, 36).
tradas em si mesmas ou desinteressa- Aqui, ao homem não é permitido fa-
das, e a sonhar com o nosso mundo zer perguntas, mas ele é solicitado e
como uma família humana unida». chamado a agir. É sempre necessário
Com estas palavras, o patriarca ecu- fazer emergir o próximo, o irmão,
ménico de Constantinopla Bartolo- diante e em relação ao distante, ao
meu, em visita a Roma, comentou a estrangeiro, ao inimigo. É preciso
Encíclica Fratelli tutti de Francisco, observar que na parábola do Bom
num diálogo com os meios de co- Samaritano, em resposta à pergunta
municação do Vaticano. do doutor da lei, que põe Cristo à
prova: «Que devo fazer para alcan-
Santidade, qual foi a sua reação à lei- çar a vida eterna» (Lc 10, 25), o ver-
tura da Encíclica «Fratelli tutti», do dadeiro amor ao próximo tem uma
Papa Francisco? clara referência soteriológica. Esta é
Ainda antes de conhecer a Encícli- doutrina social. Concordamos com- O problema dos refugiados, o terro- também a mensagem da perícope do
ca Fratelli tutti do nosso irmão, Papa pletamente com o convite-desafio de rismo, a violência de Estado, a hu- Juízo.
Francisco, sabíamos que seria mais Sua Santidade a abandonar a indife- milhação da dignidade humana, as
um exemplo do seu interesse inaba- rença ou até o cinismo que governa modernas formas de escravatura e a Com que base podemos considerar-nos
lável pelo homem, «amado por a nossa vida ecológica, política, eco- epidemia de Covid-19 colocam a po- todos irmãos, e por que é importante
Deus», através da manifestação de nómica e social em geral, como uni- lítica diante de novas responsabilida- descobrir-nos tais, para o bem da hu-
solidariedade por todos os “cansa- dades centradas em si mesmas ou des e anulam a sua lógica pragmáti- manidade?
dos, oprimidos” e necessitados, e desinteressadas, e a sonhar com o ca. Os cristãos da Igreja nascente
que conteria propostas concretas pa- nosso mundo como uma família hu-
ra enfrentar os grandes desafios do chamavam-se uns aos outros “ir-
mana unida, na qual somos todos ir- Qual é a proposta do cristianismo nes- mãos”. Esta irmandade espiritual e
momento, inspirados pela fonte ines- mãos sem exceção. Neste espírito, ta situação?
gotável da tradição cristã, e que bro- cristocêntrica é mais profunda que o
manifestamos os bons votos e a es- A proposta de vida da Igreja é o parentesco natural. No entanto, para
tam do seu coração cheio de amor. perança de que a Encíclica Fratelli
As nossas expetativas foram plena- ponto de viragem para “uma só coi- os cristãos, irmãos não são apenas os
tutti se revele fonte de inspiração e sa necessária”, ou seja, o amor, a membros da Igreja, mas todos os
mente satisfeitas após uma análise de diálogo fecundo através de inicia-
completa desta Encíclica muito inte- abertura ao outro e a cultura da soli- povos. A Palavra de Deus assumiu a
tivas determinantes e ações transver- dariedade das pessoas. Diante do natureza humana e uniu tudo em si.
ressante, que não é simplesmente um sais a nível intercristão, inter-religio-
compêndio nem um resumo das En- moderno e arrogante “homem-deus” Tal como todos os seres humanos
so e pan-humano. anunciamos o “D eus-Homem”. Face são criaturas de Deus, assim todos
cíclicas anteriores ou de outros tex-
tos do Papa Francisco, mas a coroa- ao economicismo, damos lugar à foram incluídos no plano da salva-
No primeiro capítulo da Encíclica fala- ção. O amor do crente não tem con-
ção e a feliz conclusão de toda a economia ecológica e à atividade
se das “sombras” que persistem no fins nem limites. Com efeito, abran-
económica baseada na justiça social.
mundo. Quais são as que mais o preo- ge toda a criação, é «o ardor do co-
À política da “lei do mais forte”,
cupam? E que esperança haurimos do ração por toda a criação» (Isaac, o
opomos o princípio do respeito pe-
olhar sobre o mundo, que nos advém Sírio). O amor pelos irmãos é sem-
los direitos inalienáveis dos cidadãos
do Evangelho?
Finalidade Com o seu perspicaz sentido hu-
e pelo direito internacional. Diante
da crise ecológica, somos chamados
pre incomparável. Não se trata de
um abstrato sentimento de simpatia
e motivos manista, social e espiritual, o Papa
Francisco identifica e menciona as
ao respeito pela criação, pela simpli-
cidade e pela consciência da nossa
pela humanidade, que normalmente
ignora o próximo. A dimensão da
“sombras” no mundo moderno. Fa- responsabilidade de legar à próxima comunhão pessoal e da irmandade
CONTINUAÇÃO DA PÁGINA 4 lamos de “pecados modernos”, mas geração um meio ambiente natural distingue o amor e a fraternidade
profundamente consciente disto, gostamos de frisar que o pecado ori- íntegro. O nosso esforço para en- cristã do humanismo abstrato.
tem-no em conta e não deixa de ginal não ocorreu no nosso tempo, frentar estes problemas é indispensá-
na nossa época. Não idealizamos de vel, mas sabemos que quem age Na Encíclica, o Papa faz uma conde-
chamar a atenção do Governo
modo algum o passado. No entanto, através de nós é o Deus amigo dos nação muito forte da guerra e da pena
chinês para encorajar um exercí-
estamos justamente perturbados por- homens. de morte. Como comenta aquele capítu-
cio mais frutuoso da liberdade re- lo de «Fratelli tutti»?
que os modernos desenvolvimentos
ligiosa. O caminho ainda é longo Por que é atual hoje o ícone do Bom
técnicos e científicos fortaleceram a Sobre este tema, o Santo e Gran-
e não sem dificuldades. “hybris” do homem. As conquistas Samaritano?
Com plena confiança no Se- de Concílio da Igreja Ortodoxa
da ciência não correspondem às nos- Cristo une em particular o “pri- (Creta, junho de 2016) referiu-se, en-
nhor da história, que guia infali- sas investigações existenciais funda-
velmente a sua Igreja, e na inter- meiro e grande mandamento” do tre outros, nestes termos: «Em geral,
mentais, nem as eliminaram. Consta- amor a Deus, ao “segundo, seme- a Igreja de Cristo condena a guerra,
cessão materna da Santíssima Vir- tamos também que o conhecimento
gem Maria, Nossa Senhora de lhante ao primeiro” mandamento do que considera o resultado do mal e
científico não penetra nas profunde- amor ao próximo (Mt 22 36-40). E do pecado» (A missão da Igreja orto-
Sheshan, a Santa Sé confia esta zas da alma humana. O homem sa-
fase delicada e importante ao am- acrescenta: «Toda a Lei e os Profetas doxa no mundo moderno, D, 1) . Dos
be isto, mas comporta-se como se dependem destes dois mandamen- lábios de cada cristão deve brotar o
paro cordial e, sobretudo, à ora- não o soubesse. tos». E João, o teólogo, é muito cla- slogan: «Nunca mais a guerra!». E a
ção de todos os católicos, espe-
ro: «Quem não ama, não conheceu atitude de uma sociedade em relação
rando que os contactos e o diálo- O Papa fala também da lacuna persis-
a Deus» (Jo 4, 8). A parábola do à pena de morte constitui um indi-
go com a República Popular da tente entre os poucos que possuem mui-
Bom Samaritano está próxima da cador da sua orientação cultural e da
China, que amadureceram um to e os muitos que possuem pouco ou
parábola do Juízo (Mt 25, 31-46). sua consideração pela dignidade hu-
primeiro fruto na assinatura do nada...
Lucas 10, 25-37 é o texto bíblico que mana. O sistema digno da cultura
Acordo Provisório sobre a nomea- O desenvolvimento económico nos revela toda a verdade sobre o constitucional europeia, do qual um
ção de Bispos e hoje a sua pror- não reduziu a lacuna entre ricos e mandamento do amor. Nesta pará- dos pilares fundamentais é a ideia
rogação, contribuam para a solu- pobres. Pelo contrário, deu priorida- bola, o Sacerdote e o Levita repre- do amor, como expressão das suas
ção das questões de interesse co- de ao lucro, em desvantagem da sentam a religião, fechada em si crenças cristãs, exige que se conside-
mum ainda abertas, com particu- proteção dos mais frágeis, e contri- mesma, interessada unicamente em re que a cada homem deve ser dada
lar referência à vida das comuni- bui para a exacerbação dos proble- manter a “lei” inalterada, ignorando a possibilidade de arrependimento e
dades católicas na China, bem co- mas ambientais. E a política tornou- e negligenciando de modo farisaico melhoramento, mesmo que tenha si-
mo para a promoção de um hori- se serva da economia. Os direitos as «prescrições mais graves da lei» do condenado pelo pior crime. Por-
zonte internacional de paz, num humanos e o direito internacional (Mt 23, 23), o amor e a ajuda ao tanto, é uma consequência lógica e
momento em que vivemos nume- são elaborados e servem finalidades próximo. O Bom Samaritano revela- moral que quem condena a guerra
rosas tensões a nível mundial. alheias à justiça, à liberdade e à paz. se como o filantropo estrangeiro rejeite a pena de morte.
número 43, terça-feira 27 de outubro de 2020 L’OSSERVATORE ROMANO página 6/7

Encontro de oração no Capitólio no espírito de Assis

Intervenções do palco
Sete pronunciamentos precederam o discurso dirigido pelo Papa Francisco na praça do Capitólio aos líderes religiosos e

A guerra é uma falência da humanidade políticos que assinaram o apelo a favor da paz “Roma 2020”. O primeiro foi o de Andrea Riccardi, fundador da
Comunidade de Santo Egídio, que há 34 anos organiza estes eventos internacionais no “espírito de Assis”. Depois foi a
vez do presidente da República italiana, Sergio Mattarella, ao qual se seguiram os líderes das principais religiões
mundiais: o patriarca ecuménico Bartolomeu; o judeu Haïm Korsia, rabino-chefe da França; o juiz muçulmano
Apelo assinado pelo Pontífice e pelos chefes religiosos Mohamed Abdelsalam Adellatif, secretário-geral do alto Comité para a fraternidade humana, em representação do grão-
imã de al-Azhar; o budista Shoten Minegishi; e o sikh Karmaljit Singh Dillon.

Congregados em Roma no «espírito va arquitetura da paz. Unamos as e corajoso é o antídoto contra a des-
de Assis», unidos espiritualmente aos forças em prol da vida, da saúde, da confiança, as divisões e a violência.
crentes de todo o mundo e às mulhe-
res e homens de boa vontade, reza-
mos uns ao lado dos outros para im-
educação, da paz. Quanto aos recur-
sos empregues na produção de armas
cada vez mais destrutivas, fautoras de
O diálogo dissolve, pela raiz, as ra-
zões das guerras, que destroem o
projeto de fraternidade inscrito na
O dever de dizer basta
plorar sobre esta nossa terra o dom
da paz. Lembramos as feridas da hu-
manidade, trazemos no coração a
morte, chegou a hora de os utilizar
para corroborar a vida, cuidar da hu-
manidade e da nossa casa comum.
vocação da família humana.
Ninguém pode deixar de se sentir
envolvido. Todos somos corresponsá-
às armas e à violência
oração silenciosa de tantos atribula- Não percamos tempo! Comecemos
veis. Todos temos necessidade de
dos, muitas vezes sem nome nem por objetivos atingíveis: unamos, já
voz. Por isso comprometemo-nos a perdoar e ser perdoados. As injusti- Eis o texto do discurso proferido pelo
hoje, os esforços para conter a propa-
viver e propor solenemente aos res- ças do mundo e da história curam-se, Pontífice na praça do Capitólio, após os
gação do vírus até termos uma vacina
ponsáveis dos Estados e aos cidadãos não com o ódio e a vingança, mas pronunciamentos dos líderes políticos e
que seja apropriada e acessível a to-
do mundo inteiro este Apelo de Paz. com o diálogo e o perdão. religiosos, por ocasião do Encontro
dos. Esta pandemia veio lembrar-nos internacional de oração pela paz, que teve
Nesta Praça do Capitólio, pouco que somos irmãs e irmãos de sangue. Que Deus inspire estes ideais a to-
lugar em Roma no final da tarde de 20
tempo depois do maior conflito béli- A todos os crentes, às mulheres e dos nós e este caminho que percorre-
de outubro.
co de que há memória na história, as aos homens de boa vontade, dize- mos juntos, plasmando o coração de
nações que se guerrearam estabelece- mos: Com criatividade façamo-nos cada um e fazendo-nos mensageiros Queridos irmãos e irmãs!
ram um Pacto, fundado sobre um so- artesãos da paz, construamos amiza- de paz!
nho de unidade que em seguida se de social, assumamos a cultura do Roma, Capitólio, É motivo de alegria e gratidão a Deus
realizou: uma Europa unida. Hoje, poder encontrar aqui no Capitólio, no
diálogo. O diálogo leal, perseverante 20 de outubro de 2020.
neste tempo de desorientação, açoita- coração de Roma, ilustres líderes reli-
dos pelas consequências da pandemia giosos, distintas autoridades e numero-
de Covid-19, que ameaça a paz ao sos amigos da paz. Rezamos, uns pró-
aumentar as desigualdades e os me- ximos dos outros, pela paz. Saúdo o
dos, digamos com força: Ninguém Homilia na basílica de Santa Maria “in Aracoeli” Presidente da República Italiana, Se-
pode salvar-se sozinho, nenhum po- nhor Sérgio Mattarella. E estou feliz
vo, ninguém!
A guerra e a paz, as pandemias e
os cuidados da saúde, a fome e o
Os outros são o caminho para salvar a nós próprios por me encontrar com o meu irmão,
Sua Santidade o Patriarca Ecuménico
Bartolomeu. Muito aprecio o facto de
que ele e outras personalidades, não
acesso aos alimentos, o aquecimento obstante as dificuldades de viajar, te-
global e a sustentabilidade do desen- Publicamos a seguir o texto da Infelizmente, o Reverendíssimo Ar- tação de pensar só em defender-se nham querido participar neste encontro de. Por isso, também este encontro im- anos de guerra que passaram assolando
volvimento, os deslocamentos de po- homilia pronunciada pelo Papa cebispo de Cantuária Justin não a si mesmo ou ao próprio grupo, de oração. No espírito do Encontro de pele os líderes religiosos e todos os os povos.
pulações, a eliminação do risco nu- Francisco durante a hora de oração pôde vir por causa da pandemia. ter em mente apenas os próprios Assis, convocado por São João Paulo crentes a rezarem insistentemente pela Há uma palavra do Senhor Jesus que
clear e a redução das desigualdades pela paz, presidida na basílica de O trecho da Paixão do Senhor, problemas e interesses, ao passo II em 1986, a Comunidade de Santo paz, não se resignarem jamais com a se impõe pela sua profunda sabedoria:
não dizem respeito apenas a cada na- Santa Maria “in Aracoeli”, na tarde que escutamos, tem lugar pouco que tudo o mais não conta. É um Egídio celebra anualmente, de cidade guerra e agirem mediante a força suave «Mete a tua espada na bainha — diz
ção individualmente. Compreende- de 20 de outubro. antes da morte de Jesus e fala da instinto muito humano, mas mau, e em cidade, este evento de oração e diá- da fé para pôr fim aos conflitos. Ele — pois todos quantos se servirem
mo-lo melhor hoje, num mundo tentação que se abate sobre Ele, constitui o último desafio a Deus logo em prol da paz entre crentes de Há necessidade de paz! Mais paz! da espada morrerão à espada» (Mt 26,
cheio de conexões, mas onde muitas Rezar juntos é uma dádiva. Agra- exausto na cruz. Encontrando-se no crucificado. várias religiões. «Não podemos ficar indiferentes. Hoje 52). Quantos empunham a espada,
vezes se perde o sentido da fraterni- deço e saúdo afetuosamente a todos ponto mais alto do sofrimento e do crendo talvez que resolvem rapidamen-
Salva-te a ti mesmo: os primeiros Naquela visão de paz, havia uma se- o mundo tem uma sede ardente de paz.
dade. Somos irmãs e irmãos, todos! vós, em particular a Sua Santidade amor, muitos, sem piedade, lançam a dizê-lo são «os que passavam» te situações difíceis, experimentarão em
meu irmão Bartolomeu, o Patriarca mente profética que, graças a Deus, foi Em muitos países, sofre-se por guerras,
Peçamos ao Altíssimo que, depois contra Ele o estribilho: «Salva-te a (15, 29). Eram pessoas comuns, que tantas vezes esquecidas, mas sempre si mesmos, nos seus entes queridos, nos
deste tempo de provação, deixe de Ecuménico, e ao amado Bispo ti mesmo!» (Mc 15, 30). Trata-se de amadurecendo, passo a passo, com en-
ouviram Jesus falar e fazer prodí- causa de sofrimento e pobreza» (Dis- seus países a morte que vem da espada.
haver «os outros» para existir apenas Heinrich, Presidente do Conselho uma tentação crucial que ameaça a contros inéditos, iniciativas de pacifica- «Basta!» (Lc 22, 38): diz Jesus, quando
gios. Agora dizem-lhe: «Salva-te a curso no Dia Mundial de Oração pela
um grande «nós» rico de diversida- da Igreja Evangélica na Alemanha. todos, mesmo a nós cristãos: a ten- ção, novos pensamentos de fraternida- os discípulos Lhe mostram duas espa-
ti mesmo, descendo da cruz». Não Paz, Assis, 20 de setembro 2016). O
de. É tempo de voltar a sonhar, com de. Com efeito, olhando para trás, ao das antes da Paixão. «Basta!»: é uma
tinham compaixão, mas desejo de mundo, a política, a opinião pública
ousadia, que a paz é possível, a paz é mesmo tempo que nos deparamos infe- resposta inequívoca a toda a violência.
milagres, de o ver descer da cruz. correm o risco de habituar-se ao mal da
necessária, um mundo sem guerras lizmente, nos anos passados, com fac- Aquele «basta» de Jesus atravessa os
Talvez nós também preferíssemos às guerra, como companheira natural da
não é uma utopia. Por isso queremos tos dolorosos como conflitos, terroris- séculos e chega, forte, até nós hoje:
vezes um deus espetacular em vez história dos povos. «Não fiquemos em
dizer mais uma vez: «Nunca mais mo ou radicalismo, às vezes em nome basta com as espadas, as armas, a vio-
de compassivo, um deus poderoso discussões teóricas, tomemos contacto
guerra!» da religião, temos também de reconhe- lência, a guerra!
aos olhos do mundo, que se impõe com as feridas, toquemos a carne de
cer os passos frutuosos no diálogo en-
Infelizmente, aos olhos de muitos, pela força e desbarata quantos nos quem paga os danos. (...) Prestemos Em 1965, nas Nações Unidas, São
querem mal. Mas este não é Deus; tre as religiões. É um sinal de esperan-
a guerra voltou a aparecer como uma atenção aos refugiados, àqueles que so- Paulo VI deu eco a este apelo quando
é o nosso eu. Quantas vezes quere- ça que nos incita a trabalhar juntos co- afirmou: «Nunca mais a guerra!». Esta
via possível para a solução das dispu- mo irmãos: como irmãos. Assim chega- freram radiações atómicas e os ataques
tas internacionais. Não é assim. An- mos um deus à nossa medida, em é a súplica de todos nós, dos homens e
mos ao importante Documento sobre a químicos, às mulheres que perderam os
tes que seja demasiado tarde, quere- vez de nos configurarmos nós à me- mulheres de boa vontade. É o sonho
Fraternidade Humana em prol da Paz filhos, às crianças mutiladas ou priva-
mos lembrar a todos que a guerra dida de Deus; um deus como nós, de todos os indagadores e artesãos da
Mundial e da Convivência Comum, que das da sua infância» (FT, 261). Hoje, as paz, bem cientes de que «toda a guerra
sempre deixa o mundo pior do que o em vez de nos tornarmos nós como
assinei com o Grande Imã de al-Azhar, tribulações da guerra são agravadas deixa o mundo pior do que o encon-
encontrou. A guerra é um falimento Ele! Mas, desta forma, preferimos o
Salva-te a ti mesmo: os segundos Ahmed al-Tayyeb, em 2019. também pela pandemia do coronavírus trou» (FT, 261).
da política e da humanidade. culto do eu à adoração de Deus. É
um culto que cresce e se alimenta a lançar este estribilho, são os prín- De facto, «o mandamento da paz es- e pela impossibilidade, em muitos paí-
ses, de se ter acesso aos tratamentos ne- Como sair de conflitos intermináveis
Apelamos aos governantes para mediante a indiferença para com o cipes dos sacerdotes e os escribas. tá inscrito nas profundezas das tradi- e gangrenados? Como desenvencilhar
que rejeitem a linguagem da divisão, outro. De facto, àqueles que passa- Foram os mesmos que condenaram ções religiosas» (Enc. Fratelli tutti, 284; cessários.
os nós emaranhados de tantas lutas ar-
frequentemente apoiada por senti- vam, só lhes interessava Jesus para Jesus, porque representava um peri- em seguida, FT). Os crentes compreen- Entretanto os conflitos continuam e, madas? Como prevenir os conflitos?
mentos de medo e desconfiança, e satisfazer os seus desejos. Mas as- go para eles. Mas todos somos pe- deram que a diversidade de religião com eles, o sofrimento e a morte. Pôr Como pacificar os senhores da guerra
não adotem caminhos sem retorno. sim reduzido a um desperdício na ritos em colocar os outros na cruz, não justifica a indiferença nem a inimi- fim à guerra é dever inadiável de todos ou quantos confiam na força das ar-
Pensemos conjuntamente nas vítimas. cruz, já não lhes interessava. Estava contanto que nos salvemos a nós zade. Antes pelo contrário, a partir da os responsáveis políticos perante Deus. mas? Nenhum povo, nenhum grupo
Existem tantos, demasiados conflitos diante dos seus olhos, mas longe mesmos. Pelo contrário, Jesus dei- fé religiosa, é possível tornar-se artesãos A paz é a prioridade de qualquer polí- social pode alcançar, sozinho, a paz, o
ainda em aberto. do seu coração. A indiferença man- xa-se crucificar, para nos ensinar a de paz e não espectadores inertes do tica. Deus pedirá contas a quem não bem, a segurança e a felicidade. Nin-
Aos responsáveis dos Estados, di- tinha-os longe do verdadeiro rosto mal da guerra e do ódio. As religiões procurou a paz ou fomentou as tensões
zemos: trabalhemos juntos numa no- de Deus. CONTINUA NA PÁGINA 8 estão ao serviço da paz e da fraternida- e os conflitos, de todos os dias, meses, CONTINUA NA PÁGINA 8
página 8 L’OSSERVATORE ROMANO terça-feira 27 de outubro de 2020, número 43

A irmandade entre visão profética


e trabalho artesanal
CONTINUAÇÃO DA PÁGINA 1 Deus é o verdadeiro arquiteto da
paz, só Ele pode realizar uma
diz Francisco hoje, «uma semente “nova arquitetura da paz”. Mas
profética que, graças a Deus, foi então neste canteiro de constru-
amadurecendo, passo a passo, ção aberto (“inacabado” poderia
com encontros inéditos, iniciativas dizer-se usando outro termo caro
de pacificação, novos pensamen- ao Papa Francisco) qual é a tarefa
tos de fraternidade». Esta última, que cabe aos homens? É uma
tal como a paz, não é apenas uma grande tarefa, da qual o apelo es-
visão mas também uma obra, um boça alguns aspetos concretos e
compromisso de esforço físico, urgentes: «Unamos as forças em
uma obra de “artesanato”, uma prol da vida, da saúde, da educa-
“arquitetura” que traz dentro de ção, da paz. Quanto aos recursos
si a imagem de um estaleiro aber- empregues na produção de armas
to e poeirento, onde ainda não é cada vez mais destrutivas, fauto-
fácil vislumbrar o projeto final, se ras de morte, chegou a hora de os
não formos arquitetos. Jesus no utilizar para corroborar a vida,
evangelho é chamado “o filho do cuidar da humanidade e da nossa
carpinteiro” que traduz a palavra casa comum. Não percamos tem-
grega tektòn, da qual deriva ar- po! Comecemos por objetivos
qui-teto, chefe dos carpinteiros. atingíveis: unamos, já hoje, os es-
forços para conter a propagação
do vírus até termos uma vacina
que seja apropriada e acessível a
todos. Esta pandemia veio lem-
Homilia na basílica de Santa Maria in Aracoeli brar-nos que somos irmãs e ir-
mãos de sangue». O sangue der-
ramado pela pandemia da Covid-
CONTINUAÇÃO DA PÁGINA 6 lar contra, ver o mal nos outros e que quer salvar-se a si mesmo, entre 19 superou um milhão de vítimas
não em nós mesmos, chegando-se ao a fé em Deus e o culto do eu, entre em todo o mundo; vem à mente
não descarregar o mal sobre os ou- ponto de descarregar as culpas sobre o homem que acusa e Deus que des- o grito de que fala Deus no diá-
tros. Aqueles líderes religiosos to- os mais fracos e marginalizados! culpa. E chegou a vitória de Deus; a logo com Caim, que se mostra in-
mavam precisamente os outros co- Mas, por que motivo aqueles crucifi- sua misericórdia desceu sobre o diferente em relação ao destino
mo motivo para o acusar: «Salvou cados atacam Jesus? Porque não os mundo. Da cruz, brotou o perdão, do irmão: «Onde está Abel, o teu
os outros, mas não pode salvar-se a tira da cruz. Dizem-lhe: «Salva-te a renasceu a fraternidade: «A cruz tor- irmão?». Ele respondeu: «Não
si mesmo!» (15, 31). Conheciam Je- ti mesmo e a nós também» (Lc 23, na-nos irmãos» (Bento XVI, Alocução sei. Sou, porventura, o guarda do
sus, lembravam-se das curas e liber- 39). Procuram Jesus somente para no final da Via-Sacra, 21 de março de meu irmão?». Retorquiu: «Que
tações por Ele realizadas e fazem resolver os problemas deles. Mas 2008). Os braços de Jesus, abertos fizeste? A voz do sangue do teu
uma dedução maliciosa: insinuam Deus vem não tanto para nos livrar na cruz, assinalam uma mudança ra- irmão clama da terra até mim!»
que salvar, socorrer os outros não dos problemas, que sempre reapare- dical, porque Deus não aponta o de- (Génesis 4, 9-10). No momento de
traz bem algum; Ele que tanto se cem, como sobretudo para nos salvar do contra ninguém, mas abraça a ca- oração foi citado Eli Wiesel: «O
prodigara pelos outros, perde-se a si do verdadeiro problema: a falta de da um. Pois só o amor apaga o ódio, oposto do amor não é ódio mas a
mesmo! A acusação é feita em tom amor. Esta é a causa profunda dos só o amor vence completamente a indiferença».
de escárnio e serve-se de termos re- nossos males pessoais, sociais, inter- injustiça. Só o amor dá espaço ao Foi este o espírito que fez mo-
ligiosos, usando duas vezes o verbo nacionais, ambientais. Pensar apenas outro. Só o amor é o caminho para a ver e convergir para Roma todos
salvar. Mas o «evangelho» do sal- em si mesmo é o pai de todos os plena comunhão entre nós. Com os os líderes para dizerem “basta!” à
va-te a ti mesmo não é o Evangelho males. Mas um dos malfeitores põe- olhos postos em Deus crucificado, guerra e rezarem juntos pela paz,
da salvação. Antes, é o evangelho se a observar Jesus, admirando, peçamos-lhe a graça de ser mais uni- o espírito da responsabilidade
apócrifo mais falso, que coloca as n’Ele, a amorosa mansidão. E obtém dos, mais fraternos. E, quando nos que leva a afirmar com força:
cruzes aos ombros dos outros. Ao o Paraíso, fazendo apenas uma coisa: sentirmos tentados a seguir as lógi- «Ninguém pode deixar de se sen-
contrário, o Evangelho verdadeiro deslocando a atenção de si mesmo cas do mundo, recordemos as pala- tir envolvido. Todos somos cor-
assume as cruzes dos outros. para Jesus, de si mesmo para quem vras de Jesus: «Quem quiser salvar a responsáveis. Todos temos neces-
Salva-te a ti mesmo: por fim, tam- estava ao seu lado (cf. 23, 42). sua vida, há de perdê-la; mas, quem sidade de perdoar e ser perdoa-
bém os crucificados com Jesus se Amados irmãos e irmãs, no Calvá- perder a sua vida por causa de mim dos. As injustiças do mundo e da
associam ao ambiente de desafio rio, aconteceu o grande duelo entre e do Evangelho, há de salvá-la» (Mc história curam-se, não com o ódio
contra Ele. Como é fácil criticar, fa- Deus que veio salvar-nos e o homem 8, 35). Aquilo que, aos olhos do ho- e a vingança, mas com o diálogo
mem, é uma perda, para nós é a sal- e o perdão». Eis o que significa
vação. Aprendamos do Senhor, que ser artesão e arquiteto da paz: fa-
nos salvou esvaziando-se (cf. Fl 2, 7), zer circular uma nova moeda cria-
fazendo-se outro: de Deus fez-se ho- tiva e geradora de vida, a moeda
O dever de dizer basta mem; de espírito, carne; de rei, ser- do diálogo e do perdão que se for
vo. E convida, também a nós, a «fa- levada em frente de modo «leal,
zer-nos outros», a ir ao encontro dos perseverante e corajoso» torna-se
CONTINUAÇÃO DA PÁGINA 6 ter-nos, reconciliando-nos, mode- outros. Quanto mais estivermos «antídoto contra a desconfiança,
rando a linguagem da política e da agarrados ao Senhor Jesus, tanto as divisões e a violência» e desfaz
guém. A lição da pandemia atual, propaganda, desenvolvendo per- mais seremos abertos e «universais», as «razões das guerras, que des-
se quisermos ser honestos, é «a cursos concretos para a paz (cf. FT, porque nos sentiremos responsáveis troem o projeto de fraternidade
consciência de sermos uma comu- 231). pelos outros. E o outro será o cami- inscrito na vocação da família hu-
nidade mundial que viaja no mes- Estamos juntos, nesta tarde, co- nho para nos salvarmos a nós mes- mana».
mo barco, onde o mal de um pre- mo pessoas de diferentes tradições mos: cada um dos outros, cada ser O encontro terminou e a brisa
judica a todos. Recordamo-nos de religiosas, para comunicar uma humano, seja qual for a sua história é ainda mais fria, mas há um
que ninguém se salva sozinho, que mensagem de paz. Isto mostra cla- e o seu credo, a começar pelos po- grande fogo no palco que brilha e
só é possível salvar-nos juntos» ramente que as religiões não que- bres, pelos mais parecidos com Cris- aquece: é o castiçal de paz com-
(FT, 32). rem a guerra; pelo contrário, des- to. O grande arcebispo de Constan- posto por velas acesas por cada
A fraternidade, que brota da mentem quem sacraliza a violência, tinopla, São João Crisóstomo, escre- um dos protagonistas do evento.
consciência de sermos uma única pedem a todos que rezem pela re- veu que, «se não tivéssemos os po- Um pequeno gesto “artesanal”,
humanidade, deve penetrar na vida conciliação e atuem para que a fra- bres, a nossa salvação estaria em mas que no final compôs uma ar-
dos povos, nas comunidades, no ternidade abra novas sendas de es- grande parte arruinada» (Sobre a se- quitetura que gera calor e luz,
íntimo dos governantes, nos foros perança. De facto, com a ajuda de gunda Carta aos Coríntios, XVII, 2). uma luz de esperança que brilha
internacionais. Deste modo, fará Deus, é possível construir um Que o Senhor nos ajude a cami- na bela noite romana e aquece os
crescer a consciência de que só nos mundo de paz e, assim, irmãos e nhar juntos pela senda da fraternida- corações dos muitos presentes,
salvamos juntos, encontrando-nos, irmãs, salvarmo-nos juntos. Obri- de, para sermos testemunhas credí- que regressam ordenadamente e
negociando, desistindo de comba- gado! veis do Deus vivo! confiantes às suas casas.
número 43, terça-feira 27 de outubro de 2020 L’OSSERVATORE ROMANO página 9

«Fratelli tutti» — Para uma leitura da encíclica do Papa Francisco

Uma nova
«Pacem in terris»
MASSIMO BORGHESI rança. O cristão é um homem de es-
perança, não de resignação. O realis-
ratelli tutti», a encíclica mo autêntico é o real-idealismo. É

«F que acaba de ser publica-


da, deve ser lida com
atenção para ser entendida correta-
por isso que hoje Fratelli tutti repre-
senta uma poderosa rocha no pânta-
no das ideias, da política, de uma fé
mente. Com efeito, o risco é a bana- estagnada.
lização mediática que, concentrando- A encíclica é dirigida a todos —
se em dois ou três pontos, reduz o «Fratelli tutti» — mas é inegável que
documento a uma série de intenções entre os primeiros destinatários estão
piedosas. Antes de mais, trata-se de os cristãos, em particular os católi-
definir o horizonte no qual se situa: cos. Muitos deles, longe de ser pro-
o de um mundo que corre rumo a tagonistas da mudança, são parte do
destinos de guerra. Os Papas não es- problema de hoje, parte deste mani-
crevem encíclicas sobre a fraternida- queísmo político-religioso que cara-
de para uma terra tranquila. Com a teriza o momento presente. Também
crise dos mísseis em Cuba aproxi- eles participam, muitas vezes sem ter
mou-se a terceira guerra mundial, e consciência disto, no grande vento
foi neste contexto que João XXIII da história. Nos anos 70, o vento so-
publicou a Pacem in terris. Hoje feli- prava à esquerda, ao encontro e à
zmente, não é esse o caso. E no en- subordinação do cristianismo no
tanto é inegável que a crise da glo- marxismo. A partir da queda do co-
balização, o confronto cada vez mais munismo, o espírito do mundo vira
insistente entre os blocos (EUA, Chi- à direita. Assim, neste momento, fa-
na, Rússia), as guerras contínuas tra- ce a uma globalização económica
vadas através de meios interpostos, o abstrata e frequentemente violenta, A instalação feita no ano passado em Berlim no trigésimo aniversário da queda do Muro
terrorismo religioso, etc., modelam dominada por um neocapitalismo
um mundo altamente instável, pron- sem escrúpulos, há a reação populis-
to a desencadear em chamas. A isto ta, o ressurgimento de nacionalismos samento dialógico. Três pensadores, dicado ao diálogo entre as religiões,
acrescentam-se as grandes disparida- político-religiosos, a territorialização Georg Simmel, Gabriel Marcel e em citar o “texto memorável” da
des económicas, a tragédia da Covid da religião reduzida a um fator étni- Paul Ricoeur, mencionado duas ve- Centesimus annus, de João Paulo II:
com as suas repercussões nos países co. Há fundamentalismo e terroris- zes, são chamados a apoiar esta «Se não existe uma verdade trans-
mais pobres, a imigração. A mudan- mo em nome de Deus. perspetiva. Do mesmo modo, revela- cendente, na obediência à qual o ho-
ça de época vê, depois de 1989, o Fratelli tutti começa a partir do se fundamental a antropologia polar mem adquire a sua plena identidade,
desmoronamento progressivo dos grande Documento sobre a fraternida- de Romano Guardini, presente em então não há qualquer princípio se-
muros e contrapesos que a humani- de humana em prol da paz mundial e várias partes do documento. É a an- guro que garanta relações justas en-
da convivência comum, de fevereiro de tropologia polar que permite alertar tre os homens» (n. 273). Que não
dade implementou após a imensa
2019, assinado em Abu Dhabi com o contra as falsas “polarizações” atuais, hesita, sobretudo, em salientar que a
tragédia da segunda guerra mundial:
o contraste entre uma globalização identidade cristã constitui um fator
os grandes organismos internacio- Grão-Imã de al-Azhar, Ahmad al-
liberalista, falsamente universalizan- essencial no diálogo fraternal com
nais, a carta dos direitos universais, Tayyeb. Aprofunda-o em todas as
te, e um populismo particularista todos. Por isso, embora apreciando
o processo de unificação europeia. suas implicações, propondo-o ao
que falsifica o conceito de povo. Se- a ação de Deus noutras religiões,
Tudo se decompõe: a ONU, a UE, a mundo como o ideal para o momen-
gundo Francisco, a lei da polaridade «todavia, como cristãos, não pode-
ligação entre os EUA e a Europa, en- to presente. Da fraternidade religiosa
une e distingue o universal do parti- mos esconder que, “se a música do
quanto o relativismo cultural tende a pode surgir uma fraternidade univer-
cular, reconhecendo a sua antinomia, Evangelho parar de vibrar nas nos-
exaltar o particularismo e o isolacio- sal, um movimento de paz capaz de a sua complementaridade na diferen-
nismo. O espírito do tempo traz no- atravessar povos e nações. Isto só sas entranhas, perderemos a alegria
ça. Propõe-se como solução, a nível que brota da compaixão, a ternura
vamente à tona o maniqueísmo nas pode ser acompanhado por uma re- teórico, das ferozes oposições do
suas duas formas: político-económi- volução cultural, por uma “nova cul- que nasce da confiança, a capacida-
presente.
ca e religiosa. Por toda a parte vol- tura”, a cultura do encontro. Uma de da reconciliação que encontra a
Uma última observação que per-
tam a levantar-se barreiras, antigas cultura «que supere as dialéticas que sua fonte na constatação de saber
mite evitar leituras apressadas e
desconfianças, velhos nacionalismos. colocam um contra o outro. É um que somos sempre perdoados-envia-
equívocos. A encíclica responde tam-
Foi neste contexto que Francisco estilo de vida que tende a formar dos. Se a música do Evangelho ces-
bém àqueles que, nos últimos anos,
lançou o sonho de uma fraternidade aquele poliedro que tem muitas fa- acusaram o Papa de filantropismo, sar de repercutir nas nossas casas,
renovada entre povos e pessoas: fra- ces, muitos lados, mas todos com- irenismo, humanismo, de ter separa- nas nossas praças, nos postos de tra-
ternidade religiosa, política, econó- põem uma unidade rica de matizes, do Misericórdia e Verdade. É bom balho, na política e na economia, te-
mica, social. Um sonho semelhante porque “o todo é superior à parte”. que comecem a ler o documento a remos extinguido a melodia que nos
ao de Martin Luther King, cujo no- O poliedro representa uma socieda- partir dos últimos capítulos, do sex- desafiava a lutar pela dignidade de
me é mencionado no final, com São de onde as diferenças convivem inte- to em diante. Aqui, segundo a Cari- todo o homem e mulher”. Outros
Francisco, Gandhi, Desmond Tutu, grando-se, enriquecendo-se e ilumi- tas in veritate, de Bento XVI, é possí- bebem de outras fontes. Para nós,
Charles de Foucauld: I have a nando-se reciprocamente» (n. 215). vel observar uma firme ancoragem este manancial de dignidade huma-
dream. Não se trata de uma cedência Trata-se de afirmações — o poliedro, do diálogo na ideia de verdade. na e fraternidade está no Evangelho
ingénua ao espírito da utopia, ao fi- o todo é superior à parte — que esta- Uma verdade objetiva, a única que de Jesus Cristo» (n. 277).
lantropismo humanitário, como re- vam no centro do pensamento de permite o reconhecimento racional O sonho do Papa Francisco de
clamam os críticos do Papa. Francis- Bergoglio, ainda antes que se tornas- de uma natureza humana única e uma nova fraternidade, num mundo
co é um realista que conhece perfei- se Papa. Deste ponto de vista, a en- universal, em oposição ao relativis- despedaçado, afunda as suas raízes
tamente a crítica de Santo Agosti- cíclica pressupõe uma base cultural mo dominante na cultura atual. Ver- na «música do Evangelho», no
nho à teologia política, à confusão específica, que sustenta o desígnio dade, justiça e misericórdia não po- «Evangelho de Jesus Cristo». Fratelli
entre o Reino de Deus e o reino dos da fraternidade. dem ser separadas. Assim o Papa tutti dirige-se a toda a humanidade,
homens. Mas é um realista que sabe Os capítulos III e IV, dedicados à responde aos seus críticos de direita mas não esquece a raiz da esperan-
que o realismo, se não quiser ser cí- abertura ao mundo e ao coração, que, a partir da Amoris laetitia, não ça. É bom que os críticos do Papa
nico, deve ir além, deve arriscar um pressupõem uma antropologia rela- cessaram de o atacar. Uma resposta saibam isto e leiam o texto com
projeto ideal, deve abrir-se à espe- cional que une personalismo e pen- que não hesita, no capítulo oito, de- atenção.
página 10 L’OSSERVATORE ROMANO terça-feira 27 de outubro de 2020, número 43

A dedicação incansável das missionárias da Consolata na Guiné-Bissau

Um sorriso para mães e crianças


CRISTINA UGUCCIONI sobre os ombros das mulheres, que
são pouco consideradas e trabalham
Quando se recorre à compaixão irre- arduamente: são elas que devem as-
vogável de Deus pelas criaturas vul- sistir e manter os filhos, ir buscar
neráveis, quando se transmite a in- água e lenha para as necessidades
tensidade da sua presença, aconte- diárias da família, gerir as bancas de
cem maravilhas: talvez invisíveis do mercado e cuidar da horta. Com a
ponto de vista mediático, mas sem- finalidade de sensibilizar as mulhe-
pre existencialmente decisivas. Ocor- res para o seu valor e as suas compe-
rem em todos os lugares, inclusive tências, as missionárias da Consolata
na Guiné-Bissau, um pequeno país fundaram em Bor um centro de pro-
africano de 1.800.000 habitantes. moção da mulher, que oferece uma
Ali, há mais de trinta anos, para mi- série de cursos à tarde: corte e costu-
lhares de mulheres e crianças a vida ra, bordado, tingimento de tecidos,
renasce, o desânimo dá lugar à espe- artesanato, culinária, educação reli-
rança, o futuro torna-se promissor, giosa, moral e cívica. No final dos
tudo graças à dedicação de dez mis- seus estudos, as jovens conseguem
sionárias da Consolata, de 50 a 88 satisfazer melhor as necessidades das
anos de idade, guiadas pela irmã suas famílias e abrir pequenas em-
Giovanna Panier, 73 anos, residente presas. As religiosas apoiam os seus
em Bor, conselheira da região africa- projetos, ajudam-nas também finan-
na da congregação. ceiramente e encorajam-nas a ir sem-
Subdivididas em comunidades si- pre à escola. «Para nós é uma ale-
tuadas em três localidades diferentes gria acompanhá-las, ajudá-las a des-
— além de se dedicar à atividade cobrir os seus talentos e ver como
pastoral nas paróquias de pertença — muda lentamente a sua visão da vida
as religiosas abriram um centro de e de si mesmas», frisou a irmã Gio-
promoção feminina em Bor, subúr- vanna. «Se o desejam, sentimo-nos
bio da capital Bissau, e — a pedido felizes por dissipar os medos com
da Cáritas nacional — gerem dois que muitas vivem por causa da pró-
núcleos de recuperação nutricional: pria fé: na Guiné-Bissau, os numero-
um no sul, em Empada, do qual de- sos seguidores da religião tradicional
pendem as crianças subalimentadas acreditam num Ser supremo que tem
provenientes de mais de oitenta al- mediadores, os espíritos, que em
deias; o outro na ilha de Bubaque, convidadas, um número sempre cres- porque as mães estavam convencidas qualquer momento podem prejudi-
onde são atendidas as crianças resi- cente de mães trazem os filhos es- de que não conseguiriam alimentá-lo car os seres humanos e, por isso, de-
dentes nas ilhas que compõem o ar- pontaneamente aos centros, concor- nem criá-lo. Trabalhamos incansavel- vem ser constantemente adulados
quipélago de Bijagós. Os centros dam em usar leite de vaca e de cabra mente para dar a entender que a vi- com ofertas e sacrifícios. É comove-
dispõem de dois dispensários, que e desejam aprender os princípios de da do segundo filho é preciosa, dig- dor ver o alívio e a alegria que as
asseguram à população remédios a uma nutrição correta. E, no caso de na de amor e de cuidados, tal como pessoas sentem, tendo vivido sempre
preços realmente moderados. A to- nascimentos de gémeos, muito fre- a do primeiro. Educando e acompa- com medo dos espíritos, quando
das estas atividades acrescenta-se a quentes, cuidam dos dois filhos. nhando as mães, sem as deixar sozi- descobrem Jesus e o seu amor incon-
obra de formação de professores e «Infelizmente — recordou a irmã nhas, conseguimos mudar a situa- dicional, quando encontram o Se-
alunos nas escolas secundárias de Giovanna — até há alguns anos ção». nhor, que é sempre inimigo de todas
Empada e Bor (com 1.300 alunos) e acontecia com muita frequência que Na Guiné-Bissau, a responsabili- as formas de maldade que afligem as
no jardim de infância de Empada. se deixava morrer o segundo filho, dade da família pesa inteiramente suas criaturas».
Para debelar a subalimentação in-
fantil, ainda muito difundida na
Guiné-Bissau, coadjuvadas pelos
seus colaboradores, as religiosas
exercem um duplo trabalho: vão re-
Semana da educação cristã em Portugal
gularmente aos povoados e ilhas pa-
ra visitar e pesar as crianças, ins- A família no centro
truem as mães sobre os princípios da
nutrição adequada, convidando-as a
levar os filhos desnutridos aos dois Realizou-se de 18 a 25 de outubro a Semana nacional de ação, a fim de «preparar um futuro diferente e re-
centros de reabilitação. «As crianças da educação cristã, proclamada pelos bispos de Portu- descobrir neste horizonte o lugar fundamental da famí-
são atendidas com terapias específi- gal com a finalidade de promover a família e apostar lia». É igualmente urgente, reiteraram os prelados,
cas, com uma dieta à base de leite e na sua capacidade de ser igreja doméstica. «prestar atenção e cuidado à família na sua missão
com refeições particularmente nutri- Organizada em particular pela Comissão episcopal evangelizadora, com propostas válidas para apoiar a
tivas, feitas com produtos locais», para a educação cristã e a doutrina da fé, este ano o sua missão educativa». Com efeito, conclui a nota da
disse a irmã Giovanna. «Mediante evento centrou-se na tecnologia e nos subsídios digi- Comissão episcopal para a educação cristã e a doutrina
encontros diários, ensinamos tam- tais, dado que a pandemia do coronavírus não permite da fé, é apenas com «um discernimento lúcido dos si-
bém as mães a preparar estas refei- grandes encontros. Para esta ocasião, circulou um do- nais dos tempos e com a colaboração esclarecida de to-
ções e esforçamo-nos para fazer com cumento especial intitulado “Fortalecer e apoiar a fa- dos que podemos promover a formação humana e cris-
que compreendam a importância de mília, igreja doméstica”, para reiterar a importância do tã nas diferentes realidades educativas» contemporâ-
assegurar uma alimentação correta diálogo entre a Igreja e as famílias, e para manifestar neas.
aos filhos». «apreço e incentivo» a todos os agentes pastorais que A semana teve início com a celebração da eucaristia,
Na Guiné-Bissau há grande po- trabalham neste âmbito com «dedicação e coragem», presidida pelo presidente da Comissão, D. António
breza, mas esta não é a única causa em tempos de «incerteza e dificuldades variadas». Monteiro. Na vigília, 360 professores do Porto e de
da subalimentação infantil. Presta-se Com efeito, a emergência sanitária provocou «a expe- Lisboa reuniram-se em formações específicas e lança-
pouca atenção à alimentação das riência do distanciamento» e uma «paragem no ritmo ram apelos à “proximidade” e “à atenção ao pormenor”
crianças; há também algumas cren- acelerado dos afazeres», no entanto acompanhadas por de uma disciplina opcional, presente em todo o siste-
ças, que as missionárias se esforçam um «suceder-se de preocupações». Esta situação, lê-se ma de ensino, que quer contribuir para a reflexão das
por erradicar, mas que ainda subsis- no documento, «reduziu ou empobreceu muitas di- grandes temáticas da vida humana. Neste contexto, o
tem em várias aldeias. Por exemplo, mensões da vida humana de grande significado e ri- cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, pe-
acredita-se que o leite de vaca ou de queza, como o convívio social, as assembleias religio- diu aos professores para “criarem pontes” entre os vá-
cabra é destinado apenas a bezerros sas», mas ao mesmo tempo salientou «a importância rios saberes e introduzirem a questão da “ecologia inte-
e caprinos, nunca às crianças. Embo- fundamental da família na transmissão da vida e dos gral” tão importante para os dias de hoje.
ra o número de crianças subalimen- valores humanos e cristãos», bem como «a sua função Os eventos foram transmitidos pela organização
tadas seja elevado, ano após ano o insubstituível na construção de laços, na educação dos através do Facebook e do Youtube. Durante a semana,
trabalho educativo levado a cabo pe- afetos, no acolhimento mútuo». Portanto, a situação de maneira significativa, as escolas católicas realizaram
las religiosas dá bons frutos: sem ser causada pela emergência sanitária exige novas formas uma peregrinação simbólica ao santuário de Fátima.
número 43, terça-feira 27 de outubro de 2020 L’OSSERVATORE ROMANO página 11

D. Juan Carlos Arcq Guzmán nas- dia); Reinhard Marx, Arcebispo de


ceu em Monterrey, no México, no dia Munique e Frisinga (Alemanha); e
17 de outubro de 1966, e recebeu a Or- Giuseppe Bertello, Presidente do
INFORMAÇÕES denação presbiteral a 15 de agosto de Governatorato do Estado da Cidade
1997. do Vaticano.
D. José Manuel Garza Madero
nasceu em Monterrey, no México, a 15 Prelados falecidos
de janeiro de 1952, e foi ordenado Sa-
cerdote em 8 de setembro de 1979. Adormeceram no Senhor:
A 20 de outubro
De D. Marián Andrej Pacák, C.SS.R., No dia 20 de outubro No dia 13 de outubro
ao governo pastoral da Eparquia dos D. Claude Feidt, Arcebispo Emérito
Santos Cirilo e Metódio de Toronto Administrador Apostólico “sede va-
cante” da Eparquia dos Santos Ciri- de Aix, na França.
dos Eslovacos de Rito bizantino
lo e Metódio de Toronto dos Eslo- O saudoso Prelado nasceu no dia 7
(Canadá).
vacos de Rito bizantino (Canadá), de março de 1936, em Audun-le-Ro-
D. Kurt R. Burnette, atualmente man (França). Foi ordenado Sacerdote
A 21 de outubro
Bispo da Diocese de Passaic dos a 24 de dezembro de 1961 e recebeu a
De D. Julián López Martín, ao go- Rutenos (Estados Unidos da Améri- Ordenação episcopal em 13 de setembro
verno pastoral da Diocese de León ca). de 1980.
(Espanha).
No dia 21 de outubro No dia 15 de outubro
Nomeações Arcebispo Metropolitano de Brasília D. Antonio Ángel Algora Hernando,
(Brasil), D. Paulo Cezar Costa, até Bispo Emérito de Ciudad Real (Es-
O Santo Padre nomeou: agora Bispo da Diocese de São Car- panha), de Covid-19.
los.
No dia 15 de outubro O ilustre Prelado nasceu na locali-
Bispo da Diocese de Barreiras (Bra- dade de La Vilueña, Diocese de Tara-
Prefeito da Congregação para as sil), D. Moacir Silva Arantes, até es-
Causas dos Santos, D. Marcello Se- zona, na Espanha, a 2 de outubro de
ta data Bispo Titular de Tituli in 1940. Recebeu a Ordenação sacerdotal
Audiências meraro, até agora Bispo de Albano Numidia e Auxiliar da Arquidiocese
(Itália) e Secretário do «Conselho em 23 de dezembro de 1967 e foi orde-
O Papa Francisco recebeu em audiên- Metropolitana de Goiânia. nado Bispo no dia 29 de setembro de
cias particulares: de Cardeais para ajudar o Santo Pa-
dre no governo da Igreja Universal e Bispo da Diocese de León (Espa- 1985.
para estudar um projeto de revisão nha), D. Luis Ángel de las Heras
No dia 15 de outubro Berzal, C.M.F., até hoje Bispo de No dia 16 de outubro
da Constituição Apostólica “Pastor
D. Claudio Gugerotti, Arcebispo Ti- bonus” sobre a Cúria Romana». Mondoñedo-Ferrol.
D. Odore Joseph Gendron, Bispo
tular de Rebellum, Núncio Apostóli- Emérito de Manchester, nos Estados
co na Grã-Bretanha; D. Joseph Ma- Membro do mencionado Conselho,
Disposições especiais Unidos da América.
rino, Arcebispo Titular de Natchito- o Senhor Cardeal Fridolin Ambongo
ches, Presidente da Pontifícia Acade- Besungu, Arcebispo de Kinshasa Sua Santidade confirmou: O venerando Prelado nasceu em
mia Eclesiástica; e o Rev.mo Mons. (República Democrática do Congo). Manchester (EUA), a 13 de setembro
Fernando Chica Arellano, Observa- A 15 de outubro de 1921. Foi ordenado Sacerdote em 31
Secretário do mesmo Conselho, D.
dor Permanente nas Organizações e de maio de 1947 e recebeu a Ordena-
Marco Mellino, Bispo Titular de Coordenador do «Conselho de Car-
Organismos das Nações Unidas pa- ção episcopal no dia 3 de fevereiro de
Cresima, até esta data Secretário Ad- deais para ajudar o Santo Padre no
ra a Alimentação e a Agricultura 1975.
junto. governo da Igreja Universal e para
(FAO, IFAD, PAM). estudar um projeto de revisão da
Membro Ordinário da Pontifícia No dia 20 de outubro
Academia das Ciências, Sua Ex.cia o Constituição Apostólica “Pastor bo-
No dia 16 de outubro nus” sobre a Cúria Romana», o Se- D. Bogdan Józef Wojtuś, Bispo Ti-
Prof. Reinhard Genzel, atualmente
Sua Ex.cia o Senhor Christian Wulff, nhor Cardeal Óscar Andrés Rodrí- tular de Vassinassa, ex-Auxiliar da
Diretor do «Max Plank Institute for
ex-Presidente da República Federal guez Maradiaga, Arcebispo de Tegu- Diocese de Gniezno (Polónia), de
Extraterrestrial Physics», em Gar-
da Alemanha. cigalpa (Honduras). Covid-19.
ching (Alemanha).
O Senhor Cardeal Michael Louis Membros do mencionado Conselho, O saudoso Prelado nasceu na locali-
Fitzgerald; e D. Dagoberto Campos No dia 16 de outubro os Senhores Cardeais: Pietro Parolin, dade de Łąsk Wielki, na Polónia, a 4
Salas, Arcebispo Titular de Foronto- Secretário de Estado; Seán Patrick de julho de 1937. Recebeu a Ordenação
Coadjutor da Diocese de Serrinha
niana, Núncio Apostólico na Libé- O’Malley, Arcebispo de Boston (Es- sacerdotal no dia 20 de maio de 1961
(Brasil), D. Hélio Pereira dos San-
ria, Gâmbia e Serra Leoa. tados Unidos da América); Oswald e foi ordenado Bispo em 8 de outubro
tos, até à presente data Bispo Titular Gracias, Arcebispo de Bombaim (Ín- de 1988.
de Thiava e Auxiliar da Arquidioce-
No dia 17 de outubro se Metropolitana de São Salvador
D. Giovanni Gaspari, Arcebispo Ti- da Bahia.
tular de Alba Maritima, Núncio
No dia 17 de outubro
Apostólico em Angola e em São To-
mé e Príncipe, com os Familiares. Administrador Apostólico “sede va-
Ajuda do Papa às famílias da tripulação
Sua Ex.ciao Senhor Panos Kalogero-
pulos, Embaixador da Grécia, para a
cante” da Diocese de Kalisz (Poló-
nia), D. Grzegorz Ryś, atualmente
de um navio que afundou na Ásia
apresentação das Cartas Credenciais. Arcebispo Metropolitano de Łódź.
O Senhor Cardeal Marc Ouellet, Auxiliares da Arquidiocese de Mon- O Papa Francisco, através do Dicastério para o serviço de desenvolvimen-
Prefeito da Congregação para os terrey (México), o Rev.do Pe. César to humano integral (Dsdhi), decidiu enviar uma ajuda económica a todas
Bispos. Garza Miranda, O.F.M., até agora Pá- as famílias dos membros da tripulação do navio m/v Gulf Livestock 1
roco, Decano e Membro do Conse- afundado no mar da China oriental, foi anunciado a 21 de outubro, numa
No dia 19 de outubro lho presbiteral em representação da declaração do próprio Dsdhi, recordando o drama da embarcação com 39
Vida Consagrada, simultaneamente filipinos, 2 australianos e 2 neozelandeses a bordo, que afundou perto da
D. Nikola Eterović, Arcebispo Titu- ilha de Amami Ōshima no dia 2 de setembro passado, após uma falha do
eleito Bispo Titular de Magnetum; o
lar de Cibalae, Núncio Apostólico motor principal enquanto o tufão Maysak estava em fúria. Zarpou do
Rev.do Pe. Juan Carlos Arcq Guz-
na Alemanha; e D. Augusto Paolo porto neozelandês de Napier, e viajava em direção ao porto chinês de
mán, do clero da mesma Arquidioce-
Lojudice, Arcebispo de Siena — Col- Jingtang, Tangshan.
se Metropolitana, até hoje Reitor do
le di Val d’Elsa — Montalcino (Itá- A ajuda económica, em colaboração com as nunciaturas apostólicas e
Seminário arquidiocesano de Mon-
lia). as Stella Maris das Filipinas, Austrália e Nova Zelândia, será entregue
terrey, simultaneamente eleito Bispo
Sua Ex.cia o Dr. Peter Maurer, Presi- Titular de Milevum; e o Rev.do Pe. pessoalmente às famílias dos marinheiros falecidos e aos dois sobreviven-
dente da Comissão Internacional da José Manuel Garza Madero, do cle- tes, juntamente com um pequeno presente pessoal do Papa para mostrar
Cruz Vermelha, com o Séquito. ro da mesma Arquidiocese Metropo- a sua proximidade e solidariedade.
litana, até esta data Reitor da Cate- A contribuição é acompanhada de apoio espiritual, psicológico e perso-
dral e Vigário episcopal, simultanea- nalizado, oferecido desde os primeiros dias da catástrofe às famílias filipi-
Renúncias mente eleito Bispo Titular de Tibur- nas, por uma equipa de profissionais, capelães e irmãs dos centros Stella
nia. Maris da nação asiática. O apoio, que tendo em conta as restrições im-
O Sumo Pontífice aceitou a renúncia:
postas pela Covid-19 foi implementado até agora através da utilização das
D. César Garza Miranda, O.F.M., redes sociais e de uma plataforma digital, continuará durante vários me-
A 17 de outubro
nasceu em San Nicolás de los Garza, ses. Este trabalho, conclui o comunicado, é confiado a Maria “Estrela do
De D. Edward Janiak, ao governo no México, a 18 de outubro de 1971, e Mar”, protetora dos marinheiros, para dar coragem e força a todos os fa-
pastoral da Diocese de Kalisz (Poló- foi ordenado Presbítero em 14 de de- miliares para enfrentar o futuro sem incertezas mas com confiança e sere-
nia). zembro de 2002. nidade.
página 12 L’OSSERVATORE ROMANO terça-feira 27 de outubro de 2020, número 43

ANGELUS

O Papa invocou o fim das violências

Promover a justiça
e o bem comum na Nigéria
Preocupado com a notícia dos tumultos ocorridos recentemente na Nigéria, o
Papa convidou os fiéis, presentes na praça de São Pedro para o Angelus no
domingo, 25 de outubro, a rezar pelo país africano, exortando os líderes
políticos a promover a justiça e o bem comum. Precedentemente, Francisco
dedicou a reflexão introdutória à página evangélica de Mateus (22, 34-40)
sobre o amor a Deus e ao próximo.

Amados irmãos e irmãs, bom dia! gunda pedra angular é que o amor
deve tender junta e inseparavel-
Na página do Evangelho de hoje
mente para Deus e para o próxi-
(cf. Mt 22, 34-40), um doutor da
mo. Esta é uma das principais no-
Lei pergunta a Jesus qual é «o
vidades do ensinamento de Jesus e
maior mandamento» (v. 36), ou se- provações... Mas encontramos sem- pelo contrário, chama-nos a reco-
faz-nos compreender que não é
ja, o mandamento principal de to- amor verdadeiro a Deus o que não pre tempo para coscuvilhar, sem- meçar todos os dias a fim de viver-
da a Lei divina. Jesus responde se expressa no amor ao próximo; e, pre! Não temos tempo para conso- mos o Evangelho de forma coeren-
simplesmente: «“Amarás o Senhor da mesma forma, não é amor ver- lar os aflitos, mas muito tempo pa- te.
teu Deus com todo o teu coração, dadeiro ao próximo o que não se ra bisbilhotar. Atenção! O Apósto-
com toda a tua alma e com toda a Que a intercessão de Maria San-
inspira no relacionamento com lo João escreve: «Quem não ama a tíssima abra o nosso coração para
tua mente”». (v. 37). E acrescenta D eus. seu irmão, a quem vê, como pode
imediatamente: «O segundo é-lhe receber o “maior mandamento”, o
Jesus conclui a sua resposta com amar a Deus, a quem não vê?» (1 duplo mandamento do amor, que
semelhante: “Amarás o teu próxi- Jo 4, 20). Assim, vemos a unidade
mo como a ti mesmo”». (v. 39). estas palavras: «Destes dois man- resume toda a Lei de Deus e da
damentos dependem toda a Lei e destes dois mandamentos. qual depende a nossa salvação.
A resposta de Jesus retoma e une os Profetas» (v. 40). Isto significa No Evangelho de hoje, mais
dois preceitos fundamentais que que todos os preceitos que o Se- uma vez, Jesus ajuda-nos a ir à
Deus deu ao seu povo através de No final da prece mariana, o
nhor deu ao seu povo devem ser fonte viva e jorrante do Amor. E Pontífice lançou um apelo em prol do
Moisés (cf. Dt 6, 5; Lv 19, 18). E postos em relação com o amor a esta nascente é o próprio Deus,
assim supera a cilada que lhe fize- fim das violências na Nigéria e
Deus e ao próximo. De facto, to- que deve ser amado totalmente nu- saudou alguns grupos de fiéis
ram «para o pôr à prova» (v. 35). dos os mandamentos servem para ma comunhão que nada e ninguém
O seu interlocutor, de facto, tenta presentes na praça, no respeito pelas
implementar, para expressar esse pode interromper. Comunhão que
arrastá-lo para a disputa entre os medidas de segurança tomadas para
duplo amor indivisível. O amor a é um dom a ser invocado todos os
peritos da Lei sobre a hierarquia evitar a propagação da pandemia.
Deus exprime-se sobretudo na ora- dias, mas também um compromis-
das prescrições. Mas Jesus estabele- ção, em particular na adoração. so pessoal para que a nossa vida
ce duas pedras angulares essenciais Queridos irmãos e irmãs!
Descuidamos muito a adoração a não seja escravizada pelos ídolos
para os crentes de todos os tem- Deus. Recitamos a oração de ação do mundo. E a avaliação da nossa Acompanho com particular preocu-
pos, duas pedras angulares essen- de graças, a súplica para pedir al- jornada de conversão e santidade pação as notícias vindas da Nigéria
ciais da nossa vida. A primeira é go..., mas negligenciamos a adora- consiste sempre no amor ao próxi- sobre os recentes confrontos violen-
que a vida moral e religiosa não ção. O núcleo da oração consiste mo. Esta é a avaliação: se eu disser tos entre as forças da ordem e al-
pode ser reduzida a uma obediên- precisamente em adorar a Deus. E “amo a Deus” e não amar o próxi- guns jovens manifestantes. Reze-
cia ansiosa e forçada. Há pessoas o amor ao próximo, que também mo, não está bem. A comprovação mos ao Senhor para que todas as
que procuram cumprir os manda- se chama caridade fraterna, é feito de que eu amo a Deus é que amo formas de violência sejam sempre
mentos de uma forma ansiosa ou de proximidade, de escuta, de par- o próximo. Enquanto houver um evitadas, na constante busca da
forçada, e Jesus faz-nos compreen- tilha, de cuidado pelo próximo. E irmão ou irmã a quem fechamos o harmonia social através da promo-
der que a vida moral e religiosa muitas vezes não ouvimos o outro nosso coração, estaremos ainda ção da justiça e do bem comum.
não pode ser reduzida a uma obe- porque é tedioso ou porque me longe de ser discípulos, como Jesus Saúdo todos vós, romanos e pe-
diência ansiosa e forçada, mas deve rouba tempo, não o apoiamos, não nos pede. Mas a Sua misericórdia regrinos de diferentes países: famí-
ter o amor como princípio. A se- o acompanhamos nas suas dores e divina não nos permite desanimar, lias, grupos paroquiais, associações
e fiéis individuais. Em particular,
saúdo o grupo “Célula de Evange-
lização” da Paróquia de São Mi-
guel Arcanjo em Roma; e também
os jovens da Imaculada, presentes
hoje em grande número!

Em seguida o Pontífice anunciou a


sua decisão de criar treze novos
cardeais no Consistório de 28 de
novembro próximo (que publicamos
na primeira página). Em seguida
despediu-se dos fiéis com estas
palavras.
Desejo a todos bom domingo.
Por favor, não vos esqueçais de re-
zar por mim. Bom almoço e até à
vista!