Você está na página 1de 2

É incorreto mentir a um assassino?

Kant adota uma posição muito dura em relação à mentira. Na obra Fundamentação é dada como principal
exemplo de comportamento imoral. Mas suponha que um amigo estava escondido em sua casa e um
assassino batia à porta à procura dele. Não seria correto mentir ao assassino? Kant afirma que não. O
dever de dizer a verdade prevalece independentemente das consequências.
Como é óbvio, ajudar um assassino a cometer a sua má ação é um prejuízo «muito grande». Mas lembre-
se de que, para Kant, a moralidade não tem que ver com as consequências, tem que ver com o princípio.
Não pode controlar as consequências da sua ação - neste caso, dizer a verdade - uma vez que as
consequências estão ligadas à contingência. Tanto quanto sabe, o seu amigo, temendo que o assassino
estivesse no seu encalço, já se esgueirou pela porta dos fundos. A razão pela qual tem de dizer a verdade,
afirma Kant, não é o facto de o assassino ter direito à verdade, ou de uma mentira o prejudicar, é o facto
de que uma mentira - qualquer mentira - «viciar precisamente o fundamento do direito... Ser verdadeiro
(honesto) em todas as declarações é, portanto, um mandamento sagrado e incondicional da razão que
não permite subterfúgios de nenhuma espécie».
Parece uma posição estranha e extrema. Com certeza não temos o dever moral de dizer a um soldado
nazi que Anne Frank e a sua família estão escondidas no sótão. Seria de pensar que a insistência de Kant
em dizer a verdade ao assassino que está à porta faz mau uso do imperativo categórico ou prova a sua
insensatez.
Por muito implausível que o pressuposto de Kant possa parecer, gostaria de fazer a sua defesa. Embora a
minha defesa divirja da apresentada por Kant, respeita, no entanto, o espírito da sua filosofia e lança
alguma luz sobre ela, pelo menos assim o espero.
Imagine-se na desagradável situação de ter um amigo escondido no armário e o assassino a bater-lhe à
porta. Naturalmente não quer ajudar o assassino a executar o seu plano diabólico. Isso é um dado
adquirido. Não quer dizer nada que conduza o assassino ao seu amigo. A questão é, o que dizer? Tem
duas opções. Pode dizer uma completa mentira: «Não, ele não está cá.» Ou pode fazer uma declaração
verdadeira mas ambígua: «Há uma hora vi-o na mercearia ao fundo da rua.»
Do ponto de vista de Kant, a segunda estratégia é moralmente admissível, mas a primeira não. Pode
considerá-la um mero ardil. Qual é, moralmente falando, a diferença entre uma declaração tecnicamente
verdadeira porém ambígua e uma rematada mentira? Em ambos os casos, o que pretende é induzir o
assassino a acreditar que o seu amigo não está escondido na casa.
Kant considera que há muito em causa na distinção. Considere as «mentiras inocentes», as pequenas
inverdades que por vezes dizemos por boa educação, para evitar ferir sentimentos. Suponha que um
amigo lhe dá um presente. Abre a caixa e encontra uma gravata horrorosa, algo que nunca usaria. O que
é que diz? Poderia dizer: «É linda!» Seria uma mentira inocente. Ou poderia dizer: «Não era necessário!»
Ou: «Nunca vi uma gravata igual a esta. Obrigado.» À semelhança da mentira inocente, estas afirmações
dão ao seu amigo a falsa impressão de que gosta da gravata. Não obstante, seriam verdade.
Kant rejeitaria a mentira inocente, porque abre uma exceção à lei moral por motivos consequencialistas.
Poupar os sentimentos de alguém é um fim admirável, mas deve ser feito de maneira a ser consistente
com o imperativo categórico, que exige que estejamos dispostos a universalizar o princípio de acordo com
o qual agimos. Se abrirmos exceções sempre que achamos que os nossos fins o justificam, o caráter
categórico da lei moral perde-se. Por sua vez, a declaração verdadeira, porém ambígua, não ameaça o
imperativo categórico da mesma maneira.

M. J. Sandel, Justiça – fazemos o que devemos?, Presença, 2011, pp.140-142.

© Areal Editores
1. O texto apresenta alguns exemplos de aplicação prática do imperativo categórico. Que razão
apresenta o autor para defender que «fazer uma declaração ambígua» não ameaça o
imperativo categórico?

2. A aplicação prática da moral kantiana pode criar algumas dificuldades. Apresente outro
exemplo que demonstre que a aplicação linear dos princípios do imperativo categórico pode ser
ambígua.

© Areal Editores