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Departamento de Economia – FEA/USP

História Econômica Geral I

Aula 7 – Revolução Industrial: interpretações (parte I)

Renato Perim Colistete


2010
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Aula 7 – Revolução Industrial: Interpretações (I)
Objetivos

Nesta aula começamos a tratar de um tema


clássico da história econômica: a Revolução
Industrial Britânica.
O objetivo é apresentar definições básicas e as
principais interpretações e divergências sobre o
tema.
A discussão trata tanto dos conceitos quanto de
evidências apresentados por diferentes autores
que investigaram a Revolução Industrial.

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Aula 7 – Revolução Industrial: Interpretações (I)
Toynbee

O termo “Revolução Industrial” apareceu pela


primeira vez nas descrições da sociedade inglesa
por viajantes/observadores franceses na década
de 1830, ou mesmo antes.
O primeiro uso do termo nos meios acadêmicos
foi possivelmente por Arnold Toynbee (1884).
O termo Revolução Industrial foi empregado
por Toynbee para expressar mudanças amplas
que transformaram o cenário econômico, social
e político da Grã-Bretanha entre os anos 1760 e
1830. 3
Aula 7 – Revolução Industrial: Interpretações (I)
Contemporâneos

A amplitude e profundidade das transformações


a que se referia Toynbee já haviam sido notadas
por contemporâneos.
Robert Owen (1771-1858), industrial,
reformador social e socialista referiu-se ao:
“rápido avanço dos arranjos e
aperfeiçoamentos científicos, introduzidos (...)
em todos os departamentos da indústria
produtiva por todo o império”.

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Aula 7 – Revolução Industrial: Interpretações (I)
Contemporâneos

E James Hole (1820-1895), reformador social e


socialista, observou que:
“[o] princípio da oferta e demanda estendeu-se
das mercadorias para os homens. Esses últimos
obtiveram mais liberdade, mas menos pão. Eles
descobriram que saindo da servidão do
Feudalismo entraram na do Capital; que a
escravidão terminou em nome mas sobreviveu
de fato”.

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Aula 7 – Revolução Industrial: Interpretações (I)
Contemporâneos

Mais conhecido ainda é o livro de Friedrich


Engels (1820-1895), A Situação da Classe
Operária na Inglaterra, de 1845.
Engels descreveu as condições precárias de
habitação, saúde, alimentação e trabalho da
nova classe de trabalhadores industriais em
Manchester.
Para Engels, tais condições foram um resultado
direto da máquina a vapor e das inovações na
indústria têxtil.
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Aula 7 – Revolução Industrial: Interpretações (I)
Visão clássica

A percepção de mudanças econômicas radicais


e, para autores como Engels e Toynbee,
catastróficas mudanças sociais trazidas pela
Revolução Industrial foi transmitida em obras
subsequentes.
Sidney e Beatrice Webb são um exemplo.
Também reformadores sociais de final do século
XIX e início do século XX, eles produziram
obras retratando (e condenando) as condições
sociais da industrialização. Os Webb foram
fundadores da LSE (1895).
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Aula 7 – Revolução Industrial: Interpretações (I)
Visão clássica

Outro exemplo é o de Karl Marx, em O Capital.


Por exemplo, nos capítulos 12 e 13, Marx
discute as mudanças trazidas pela Revolução
Industrial na indústria. Segundo Marx:
a) artesanato - manufatura - grande indústria. A
manufatura é a reunião de artesãos em uma
oficina, sob a direção do capitalista. Período:
séc. XVI-final do séc. XVIII.
b) Grande indústria: a máquina determina o
processo de trabalho, revolucionando a
produção. Período: final do séc. XVIII em
diante = Rev. Industrial = Capitalismo moderno. 8
Aula 7 – Revolução Industrial: Interpretações (I)
Críticas à visão clássica

A interpretação clássica da Revolução Industrial


passou a ser contestada já nos anos 1920, em
pesquisas com forte conteúdo empírico.
O principal nome dessa nova tendência
historiográfica foi John H. Clapham, em seu
Economic History of Modern Britain, publicado
entre 1926-1938 em 3 volumes.
Clapham, com dados do Censo de 1851,
argumentou que as transformações na indústria
foram graduais, localizadas e incompletas.
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Aula 7 – Revolução Industrial: Interpretações (I)
Clapham

Segundo Clapham, a maior parte das indústrias


em meados do século XIX ainda era artesanal,
com fontes de energia tradicionais e pequenas
unidades produtivas.
Ou seja, a imagem de grandes fábricas, com
máquinas movidas a energia a vapor, repletas de
mulheres e crianças trabalhando como
operadoras e auxiliares, seria equivocada como
retrato geral da indústria.

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Aula 7 – Revolução Industrial: Interpretações (I)
Clapham

Essa seria, para Clapham, mais uma realidade


específica de segmentos da indústria
(principalmente a indústria têxtil algodoeira) do
que um fenômeno generalizado da indústria
britânica.
Além disso, embora alguns grupos sociais
perdessem, o padrão de vida dos trabalhadores
em geral teria aumentado ao longo da
Revolução Industrial, ao contrário do que
afirmara a visão clássica.
Veremos na próxima aula críticas a essa visão. 11