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Sobre Ontens

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ISSN 2176-1876

Editorial

EDITORES
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COMISSÃO EDITORIAL
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Periódico produzido e promovido pelo


LAPHIS - Laboratório de Aprendizagem Histórica
UNESPAR
ABRAM OS PORTÕES: A EMIGRAÇÃO SÍRIO-LIBANESA NO PARANÁ
DO SÉCULO XIX ATÉ A ATUALIDADE
Thays Bieberbach 1

Resumo: Em tempos que a emigração e crise dos refugiados é apresentada com


fervor nos meios de comunicação mundial, gerando muitas vezes uma repulsa aos
emigrantes, nesse artigo vamos trabalhar alguns aspectos da emigração Sírio-
Libanesa no Brasil e em especial no Estado do Paraná, o texto está dividido em três
partes, uma explicando como eles vieram para território brasileiro e os aspectos
culturais, o segundo sobre a criação do clube sírio-libanês no Paraná e por último
vamos discutir a emigração, imigração e atualidade no Brasil e Paraná

Palavras chaves: Imigração, Síria, Crise

Em tempos que a emigração e crise dos refugiados é apresentada


com tanto fervor nos meios de comunicação mundial, gerando muitas
vezes uma repulsa aos emigrantes, nesse artigo pretendemos trabalhar
alguns aspectos da emigração Sírio-Libanesa no Brasil e em especial no
Estado do Paraná, dividimos o presente artigo em três partes, uma
explicando como eles vieram para território brasileiro e os aspectos
culturais, outro falando da criação do clube sírio-libanês no Paraná e
por último vamos discutir a emigração, imigração e atualidade no
Brasil e Paraná.
A imigração é o deslocamento de um grupo humano
de um país para o outro, objetivando a colonização
de novas terras, tendo dois momentos: o primeiro,
denominado emigração (o grupo humano sai de seu 2
país com destino a outro); o segundo denominado
imigração (o grupo entra no país a que se destina).
A colonização é o povoamento e a exploração
econômica de regiões distantes e incultas, podendo
ser realizadas por imigrantes ou nacionais.
(SIQUEIRA, 2002, p. 38)

Milhares de imigrantes sírios e libaneses se dirigiram ao Brasil a


partir das duas últimas décadas do século XIX e isso se deu quando a
região da Grande Síria (hoje são os estados da Síria e Líbano) estava
sob o domínio dos turcos. Quando os primeiros sírios e libaneses
chegaram ao Brasil, ainda no início da imigração, muitos tinham o
passaporte expedido pelo império turco.
O território da Síria e Líbano pertencem ao chamado mundo
árabe, seus habitante falam árabe, os sírios e libaneses se identificam
com a religião, região e aldeia de origem, com tudo o que fundou as
suas identidades, muito mais do que um estado-nação, até porque nem
existia na época da emigração. Dessa forma não podemos olhar para a
cultura árabe de forma homogênea, não levando em consideração as
particularidades singulares, tanto de natureza geográfica quanto
histórica. Precisamos lembrar que a região da Síria e Líbano são rotas
entra o ocidente e oriente e já tiveram suas cidades dominadas por
exércitos imperiais. Portanto, religião, família e aldeia, encerram os
fundamentos mais caros da identidade de sírios e libaneses. (TRUZZI, 3

2005).
A imigração desses grupos no Brasil começou perto do século XX,
teve seu auge antes da Primeira Guerra Mundial. Por muito tempo, as
estatísticas de entradas de imigrantes do Oriente Médio eram
consideradas na categoria “outras nacionalidades”, a partir de 1908 no
Estado de São Paulo, o serviço emigratório passou a registrar os
imigrantes, ora como turcos, sírios e libaneses.
Quando alguns pioneiros ficaram bem-sucedidos
financeiramente no Brasil, isso motivou outros imigrantes a virem, a
ideia de ganhar dinheiro, fez as famílias se organizarem para enviarem
seus filhos para o Brasil temporariamente, afim de resolver os
problemas financeiros da família e as que não conseguiam enviar
perdiam o “status” frente a comunidade.

Só peço a Deus para que não me deixe sentir o


tempo. Para mim, vocês saíram anteontem.
Anteontem. As vezes consigo ver claramente a cara
de todos. Um por um. Iskândar, com o bigodão, só
para esconder aquela cara de menino assustado. In-
Hula, elétrico, apressado, sempre se queimando
com a sopa quente. Muzáref, tinindo os dedos,
mexendo os dedos. Fazendo exercício para contar o
dinheiro, dizia ele, esfregando as mãos ao de invés
de adeus, na hora da partida. Ziad recitando versos
repentistas para um desafiante que sempre perdia. 4
E para uma plateia que só o aplaudia. Nazira
amedrontada, vai-não-vai, querendo ir, só eu sabia
porque. Para se casar. E casou? Mas como é que
você não me disse nada antes? Não abuse dessa
desculpa. Estou ficando surda, mas não da para
ouvir as notícias de meus filhos. Notícia de filho, a
gente ouve antes mesmo das bocas se abrirem. E
você, o orgulhoso, o emproado, o briguento Tauil?
“Vou lá no Brasil e trago todos, pelo cangote”.
Trouxe quem? Trouxe nada. Perdeuse no mesmo
atoleiro. (FARHAT, 1987: 72-3)

Esse trecho da obra de Emil Farhat “Dinheiro na estrada: uma


saga de imigrantes”,idealizado a partir de cartas trocadas entre o autor
e sua mãe, mostra como essa relação de enviar os filhos para o Brasil
era dolorosa, os imigrantes tinham em mente que alguns anos nas
Américas, eles conseguiriam assegurar uma vida financeira mais
branda aos seus familiares nas aldeias de origem, tirar delas de
situações desfavoráveis.
Isso vale tanto para os cristãos que vieram, quanto para os
muçulmanos, tanto para a imigração no final do século XIX e para a
atual.
É importante destacarmos que no início na imigração a maior
parte das pessoas que chegaram eram de agricultores de pequenas
propriedades cultivadas pela família, a palavra comércio era quase 5

desconhecida e foi na medida que o século XX avançava é que a figura


do mascate foi ganhando forças.
No início do texto apresentamos como muitos dos imigrantes
Sirios e Libaneses que chegaram ao Brasil eram vistos como turcos,
isso ficou cada vez mais comum e ganhou um peso favorável e negativo
também, no comércio quando as pessoas se referiam a “turcos”
significava que eles poderiam fazer qualquer negócio, pela facilidade
que tinham em negociar e vender, mas o peso negativo é que por muito
foram conhecidos como “turcos de prestação”, essa é visão que as
pessoas tem desses comerciantes até hoje, usada pelas pessoas que
não pertencem a esse grupo, para ataca-las.
Muitos comerciantes que tinham lojas fixas, se incomodavam
com a maneira de vendedores ambulantes que os imigrantes
desempenhavam, os fregueses gostavam de receber produtos em casa
e com facilidade na hora do pagamento.
Sírios e Libaneses eram tratados de forma homogênea no
primeiro momento, mais tarde quando as religiões, a questão
geográfica e também o sonho da emancipação após a Primeira Guerra
Mundial começaram a ser observadas, as diferenças foram aparecendo.
Não era só de comércio que eles viviam, entre 1880 e 1950,
muitos imigrantes entraram nas universidades, as famílias tinham
dúvidas do futuro da família, se os filhos continuavam os negócios ou 6

ingressavam em outro ramo.


Eles se misturaram e se espalharam pelo Brasil, dos centros
urbanos até a floresta amazônica, não foi uma tarefa fácil, foi umA
história de embates e confraternizações.

Os sírios e libaneses no Paraná, uma relação de fraternidade


Os grupos étnicos que se estabeleceram no Paraná trouxeram
contribuições significativas na formação e desenvolvimento de uma
sociedade paranaense e persistente na cultura e tradição do estado.
No Paraná o processo de imigração esteve presente desde sua
formação, em 1885, o então Presidente da Província, Zacarias Goes de
Vasconcelos estabeleceu a Lei nº 29 de 21 de março que permitia o
governo a promover a imigração de estrangeiros visando povoar o
território e a agricultura de subsistência, no meio rural. Essa política de
imigração teve continuidade nas outras gestões governamentais, que
acreditavam que a imigração de estrangeiros sem nacionalidade
exclusiva, trazia mais benefícios que malefícios, mas a convivência de
etnias variadas, trouxe hostilidades e preconceitos, os imigrantes eram
considerados causadores de tumultos e propagadores de doenças.
Entre os diversos grupos de imigrantes, existiam os urbanistas,
como os sírios e libaneses, disseminados por quase todos os centros
urbanos do Estado. A presença deles no Paraná começou por volta de 7

1890. Embora os sírios e libaneses desejassem preservar a sua cultura


de origem e transmiti-la para outras gerações, isto não foi possível,
pois eles viviam em um local diferente e com culturas diferentes que
fez com que ela se transformasse ao longo do tempo.
Já apresentamos como a religião, aldeia, costumes e tudo que
ligasse diretamente a identidade sírio-libanesa era forte para eles, o
fato de viverem em um país estranho, fez com que a relação das
famílias se tornasse mais próxima para reforçar a cultura de origem.
Nesse momento começam a surgir associações para reafirmar suas
identidades.
O Paraná apresentou uma grande presença de homens sírios e
libaneses, como era costume, primeiro vinha o chefe da família, depois
ele mandava buscar a esposa, depois os filhos (normalmente solteiros)
e estes preferiam casar com moças da colônia.
Inicialmente o principal foco da imigração no Paraná era
Curitiba, quando chegavam procuravam alguém próximo na colônia. O
Paraná estava se urbanizando e os sírios e libaneses utilizaram do
comércio para se inserir profissionalmente no estado, o seu grande
mercado consumidor era o interior. O trabalho de mascate fez com que
a sociedade se valorizasse e com que sírios e libaneses disputassem
carreiras liberais e um lugar na política juntos com a elite local.
8

Em São Paulo, dentre as profissões liberais seguidas


pelos descendentes da colônia – sobretudo sexo
masculino -, não há duvidas de que a medicina foi a
mais importante. [...] No Líbano, as possibilidades
de estudo sempre se restringiram ao ensino
religioso. No Brasil de tão significativo que era essa
escola para os que aqui chegaram, foi fundada em
1922 uma Associação de Ex- Alunos da
Universidade de Beirute. [...] No caso de sírios e
libaneses, a maior parte daqueles que após Segunda
Guerra Mundial lançaram-se em carreiras políticas
procedia de famílias cujos pais haviam começado
como mascates, apenas uma geração antes.
(TRUZZI, 2005, p. 74-77)

Vale lembrar que isso só foi possível graças a receptividade que a


sociedade heterogênea e aberta na medida do possível tinha, o
processo de expansão econômica e mudança formada por diferentes
classes sociais e pouco consolidadas que colocava brasileiros e
diferentes geração de imigrantes, descendentes da população negra e
mestiça. Se compararmos a trajetória dos imigrantes sírios e libaneses
no Brasil com a trajetória deles na Argentina e Estados Unidos,
observamos a facilidade da integração que eles tiveram na sociedade
brasileira.
Amigos da natureza, apaixonados por lugares bonitos, rios, eles
se divertiam como se estivem em seus países. Fundaram o Primeiro
Clube que se chamou União Síria Paranaense, todas as festas, reuniões, 9

festividades cívicas da colônia e do país de origem aconteciam lá.


Começou uma pequena distinção entre sírios e libaneses dentro da
colônia, havia um desejo mais nacionalista por parte de um grupo que
desejava ter seu próprio clube e criaram o Clube Cedro de Líbano, mas
não deixaram de apoiar as festividades do outro clube, o que durou
pouco tempo porque os dois de juntaram e fundaram o Clube Sírio
Libanes do Paraná, onde até hoje se reúnem todos os descendentes de
sírios e libaneses.

O surgimento do clube sírio-libanês


Ocorreu em 31 de janeiro de 1948 a fusão da União Síria
Paranaense e do Clube Cedro do Líbano, que teve o nome de União
Sírio Libanesa do Paraná, com sede na rua XV de Novembro em
Curitiba. Em 15 de julho de 1948 foi eleita a primeira Diretoria e tinha
como objetivo tornar realidade concreta a união e congraçamento das
duas colônias síria e libanesa, domiciliadas no Estado do Paraná. Em 20
de maio de 1955, os associados se reuniram e discutiram a reforma do
Estatuto e a nova denominação Clube Sírio-Libanês, a junção dos dois
clubes foi harmoniosa, preservou as culturas e sempre abriram as
portas para pessoas de outras nacionalidades freqüentarem o clube.
A relação sírio-libanesa e brasileira foi harmoniosa, no Paraná o 10

Clube acolhe as culturas e não esquece de integrá-las a sociedade


brasileira. Em cada festividade, a lembrança do país de origem e o
carinho pelo sono que os abriga é algo sempre presente nos imigrantes
e descendentes.
A valorização de suas identidades fez com que desenvolvessem e
criassem instituições que só fazem a sociedade paranaense crescer.

Século xxi - emigração e imigração e refugiados

Desde o princípio da humanidade existem guerras,


perseguições e discriminações de todo o tipo. E
desde estes tempos há aqueles que podem ser
chamados de refugiados, as vítimas destas
atrocidades. Eles são de todas as raças, de todas as
cores, de todas as religiões, e podem ser
encontrados em todas as regiões do mundo na
atualidade. Obrigados a fugir porque receiam por
suas vidas e por sua liberdade, os refugiados muitas
vezes abandonam tudo o que possuem – seus lares,
seus bens, sua família, sua identidade, rumo a um
futuro incerto em terras estranhas buscando voltar
a ter um mínimo de dignidade humana, um valor
imensurável e sem precedentes. Em outros termos,
são pessoas que fogem de condições opressivas ou
perigosas existentes no seu país ou sua região e
procuram abrigo em um Estado estrangeiro ou
mesmo em outra região que lhe possa devolver suas 11
condições “normais” de vida, ou seja, sua dignidade.
(SILVA; RODRIGUES, 2002, p. 123)

Nesse texto já discutimos a importância que os sírios e libaneses


dão para tudo o que remete a sua identidade. Nesse trecho queremos
estabelecer as origens do problema internacional do refúgio, as
repercussões e posicionamentos de países como o Brasil, a crise dos
refugiados árabes abala o mundo. Como eles são obrigados a migrar de
um país a outro ou de uma região a outra, perdendo, ainda que
temporariamente, suas raízes, sua identidade, e precisando se adaptar
a um novo mundo e a uma nova realidade.
A crise dos refugiados não é europeia, ela é mundial. Ninguém
gosta de ser um refugiado ou escolhe ser. A pessoa se torna refugiada
quando um ou mais dos seus direitos humanos fundamentais são
violados, seja por causa das guerras, da discriminação e de intolerância
política ou religiosa, tornando a situação insustentável para este
indivíduo ou população permanecer em seu país ou região.
O Brasil participou ativamente da Conferência Mundial de
Direitos Humanos de Viena, em 1993, num espírito renovador de sua
política, mas precisamos avançar mais na questão global de receber e
integrar refugiados, já que o país ainda está em processo de construção
de suas políticas públicas voltadas ao tema mais geral dos direitos 12

humanos, e para os refugiados em particular. Tanto a legislação


nacional quanto a realização de políticas concretas sobre o assunto têm
muito ainda a ser aperfeiçoado.
Precisamos ter em mente, que todo homem que parte para a
emigração avalia a sua vida atual e a vida que provavelmente irá ter.
Quando essas pessoas deixam o mundo real em busca do mundo
imaginário, elas sabem que não será fácil encontra-lo de imediato, mas
a ONU, e demais instituições e organizações não governamentais, estão
para assegurar a essas pessoas o direito humano, uma política que não
violente os imigrantes e direitos humanos.

REFERÊNCIAS
SILVA, C. Direitos humanos e refugiados. Dourados: Ed. UFGD, 2002.
144 p.

SIQUEIRA, M. Da imigração à fundação do Clube Sírio Libanês do


Paraná. Coordenação de Mohty Domit Filho. Curitiba: Edição do
Coordenador, 2002. 108 p.

TRUZZI, O. Sírios e Libaneses. São Paulo: Companhia Editora


Nacional, 2005. Série Lazuli imigrantes no Brasil.
A EXPERIÊNCIA COLONIAL E OS ESCRAVOS NA SOCIEDADE DO
BRASIL COLÔNIA

Indiamara C. Pech

Resumo: Debater a experiência colonial e os escravos na época é extremamente


importante, pois não só corresponde a uma parte do conteúdo de História do Brasil,
como dá conta de avançar em suas múltiplas contribuições, seja ela econômica, social,
política e cultural. Pretendemos, além de descrever a experiência colonial, destacar as
condições de trabalho e vida escravistas dentro da sociedade, reconhecendo que os
trabalhadores escravos foram sujeitos de sua história, não apenas quando
participaram de revoltas de caráter mais contundente, mas e principalmente no seu
dia-a-dia. Também pretendemos, suscitar, superficialmente, reflexões a respeito de
aspectos econômicos e culturais travadas no Brasil, a partir da mão-de-obra escrava.
Consideramos que os estudos sobre a temática, vista sob o olhar de grandes escritores
como Luiz F. Alencastro (2000), Leila Algranti (1988), Stuart Schwartz (1999), entre
outros.

Palavras-chave: colonização, escravos africanos, sociedade.

2010
INTRODUÇÃO
A colonização do Brasil, deu-se ao fato das alterações geopolíticas e
econômicas entre 1529 e 1548, e aos sistemas de arrendamento e de
capitanias de mar e terra. Esse fato influenciou a formulação do projeto
de construir uma América Portuguesa. Através desse domínio, teve um
aumento demográfico, fazendo crescer espaços urbanos, incrementando
atividades econômicas e a expansão católica.
O presente trabalho tem por objetivo fazer um ensaio sobre a
experiência colonial no Brasil, desde a ocupação territorial até as
condições de trabalho, relembrando rapidamente o início, logo após do
descobrimento, do trabalho indígena e a passagem desse para uma
economia feita a partir do trabalho escravo africano. Com base neste,
descrever a marca e originalidade da formação histórica brasileira
deixada por estes trabalhadores.

2010
1 EXPERIÊNCIA COLONIAL NO BRASIL
Quando pensamos na experiência colonial no Brasil logo nos
perguntamos: por que Portugal manteve o domínio no Brasil? A
historiografia brasileira considerou que um dos motivos para o sucesso
da empresa colonial portuguesa foi resultado do baixo grau de
institucionalização política, da generalização das arbitrariedades, da
formação dos territórios onde não existia rei e nem lei, e a criação de
territórios de bandos onde Portugal jamais entrou.
A colonização do Brasil, deu-se ao fato das alterações geopolíticas e
econômicas entre 1529 e 1548, e aos sistemas de arrendamento e de
capitanias de mar e terra. Esse fato influenciou a formulação do projeto
de construir uma América Portuguesa. A terra sul americana estava sob
um domínio, que acabou aumentando demograficamente, fez crescer
espaços urbanos, incrementou atividades econômicas e tem-se a
expansão católica (COUTO in MOTA, 2000). Onde a lógica colonial
religiosa baseava-se na idéia de que os portugueses teriam que ser
católicos e fazer todos católicos, assim podiam agir em nome da religião,
mas que não significava que era para Deus.

2010
Até meados do século XVII, o poder da coroa foi até certo ponto
limitado diante dos colonos. Não interessava contrariar os colonos que
estavam desbravando o território e promovendo os interesses da
metrópole a quem faltavam os recursos materiais e humanos para tal
empreitada. Mas com a decadência da influência de Portugal no comércio
com o Oriente e com a descoberta das minas, o Brasil passa a ser a jóia da
coroa, que devia ser administrada com a máxima eficiência, surgindo uma
forma mais intensa de pensar em governo.
Alencastro (2000), em O Tratado dos Viventes, afirma que os
domínios coloniais em outras regiões como a do Peru, Angola, Goa e
Moçambique, tornaram-se experiências essenciais para a formação de
uma conduta de colonização do Brasil, ou seja, a partir dessas
experiências constroem-se um “projeto de colonização” no país. Os
portugueses constatam que

A presença de colonos num território não assegura a


exploração econômica desse mesmo território. A
dominação colonial não se apresenta forçosamente

2010
como uma decorrência da exploração colonial
(ALENCASTRO, 2000, p. 19).

Decorrente a isso, na América foi tomada medida para o


povoamento e valorização do território. No início, logo após o
descobrimento, no Brasil a economia era baseada na coleta, no trabalho
indígena e no corte do pau-brasil, e somente mais tarde se opera uma
passagem para a economia na produção do açúcar, nos engenhos e no
trabalho escravo africano, o que estimula o tráfico negreiro. Estes irão
marcar a originalidade da formação histórica brasileira.
Segundo Alencastro (2000), quando se tinham descobertas de
terras, os estrangeiros católicos também obtinham privilégios para
transacionar com as colônias. Mas após 1580 se define o “exclusivo
colonial”, essa idéia de direito aos estrangeiros é proibida, pois poderia
causar danos ao comércio do Reino. Isto é chamado por Alencastro de
“processo de colonização dos colonos”, ou seja, os portugueses irão
colonizar os colonos, fazendo com que estes trabalhem para o mercado
europeu, o que resultará na exploração colonial econômica. Assim,
quando eles conseguem unir domínio e exploração, conseguem colonizar.

2010
Terá um avanço no quadro econômico a partir do tráfico negreiro,
onde muda todo o sistema colonial, formando vínculos diretos entre o
Brasil e a África Ocidental, pois os interesses luso-brasileira cristalizam-se
nas áreas escravistas sul-americanas e nos portos africanos. É com o
tráfico negreiro que os portugueses ganham algumas vantagens, primeiro
porque Portugal teria ligações ao Médio e Extremo Oriente, podendo
saldar trocas das quais eram poucos providos, como ouro, prata, cobre e
metais. Segundo pelo fato de que o comércio de escravos trás ganhos
fiscais que sobrepõem aos ganhos econômicos da escravidão. Em terceiro,
o tráfico torna-se um vetor produtivo da agricultura. Dessa forma, o
tráfico negreiro faz a escravidão se transformar em escravismo, que será
responsável pela totalidade de produção econômica do Brasil
(ALENCASTRO, 2000).
É entre 1521-1557 que se inicia a colonização do Brasil. Para
garantir o sucesso da empresa, foi adotado em 1530 e 1548 três modelos
políticos, pretendendo responder a tenaz resistência oposta por vários
grupos tribais, o primeiro foi o de exclusividade régia (1530-33), o
segundo foi o de exclusividade particular (1534-48) e o terceiro foi o

2010
sistema misto. Os dois primeiros não deram certos, pois eram
insuficientes para atingir os objetivos pretendidos. O terceiro, que
articulava um forte empenho militar, econômico e judicial da Coroa,
adotou um modelo misto que mantinha as capitanias donatários em
vários domínios (militar, judicial e fiscal), defendendo os ataques internos
e externos, permitindo progressos na ocupação da terra brasílica (COUTO
in MOTA, 2000).
O processo de ocupação territorial brasileira se dá pelas Capitanias
Hereditárias – que foi a primeira expedição colonizadora - pelo Governo
Geral, que será mais conhecido como processo de mercantilismo. O
mercantilismo é o que dá sentido à expansão e colonização européias,
durante todo o século XVI, XVII e XVIII, pois é um comércio que
movimenta e dinamiza as relações entre metrópole e colônia.
As idéias mercantilistas sobre as Colônias baseavam-se em dar à
metrópole o maior mercado para seus produtos; dar à ocupação dos seus,
permite um mercado de emprego para os portugueses; fornecer uma
maior quantidade de artigos de necessidade para seu próprio
desenvolvimento, como o açúcar, o ouro, tinta pau-brasil, entre outros.

2010
As relações coloniais se dão pela expansão legislativa (para proibir
manufaturas nas colônias, para pagamentos de produtos, entre outros),
para tentar controlar as relações entre metrópole e colônia; pelo
movimento de circulação de comércio (matérias-primas, agricultura,
minerais, manufaturas); e pela legislação de proibição de navios de
produtos estrangeiros. Assim, a colonização apresenta-se como um
sistema de acumulação primitiva de capital que é a base de formação do
capitalismo moderno.
As Capitanias Hereditárias representaram para Portugal um espaço
de definição de governo e um espaço de normalização, de incentivo e de
coordenação, aproximando as relações com o rei, expandindo
religiosidade e distribuindo mais títulos de nobreza. Porém as capitanias
não deram certo porque não foram capas de dar conta das riquezas do
Rei, não conseguindo proteger externamente as terras do Brasil.
Através de um regimento, de 1548, foi instituído o Governo Geral.
Tomé de Souza é o primeiro governador geral do Brasil, chegou em
Salvador em 1549, fundando Salvador como primeira capital do país.

2010
Com o Governo Geral, tem-se uma nova estrutura política, o qual a
fonte central de poder tem a característica em estar subordinada
hierarquicamente e diretamente ao rei; acaba a capitania hereditária; o
capitão donatário perde todo o poder para o governador geral, porém fica
com os particulares, perdendo se vendendo, abandonando ou por justa
causa; surge o senhor de engenho; reduz o espaço econômico para um
espaço administrativo. Tem-se o Pacto Colonial, onde a Colônia deve estar
debaixo da imediata dependência e proteção dos fundadores, o comércio
e a agricultura devem ser exclusivas dos mesmos fundadores, ou seja, a
Colônia seria subordinada à coroa portuguesa.
Nessa época, a sociedade era composta por senhores de engenhos,
escravos, índios e homens brancos, livres e pobres. A sociedade tinha uma
base patriarcal, acentuada em critérios da nobreza, onde o Estado seria a
cabeça, o clero o coração, a nobreza os braços e o povo, o tronco da
sociedade. O senhor de engenho tinha um status elevado devido a grandes
posses de vastas extensões de terras, sendo ele o nobre. O clero teve um
papel muito importante no período colonial, o de evangelizar os escravos
africanos, para que se tivesse um ajustamento doutrinário pró-escravista.

2010
A mulher, na colônia, teria que ser honrada sendo virtuosamente pura e
fiel, pois a honra feminina refletia, também, na honra masculina e da
família. Os escravos sempre estiveram em más condições sanitárias,
enquanto o seu senhor morava na sua casa grande, eles moravam na
senzala, trabalhavam em troca de nada, e em muitas ocasiões sofriam
castigos.
A sociedade brasileira formou-se através da aculturação e
miscigenação, entre índios, portugueses e africanos, através do escambo,
da atividade missionária e do engenho.

Os cruzamentos étnicos de portugueses com


ameríndios e negras, bem como entre as diversas
variantes possíveis, contribuíram para criar uma
sociedade fortemente miscigenada, do ponto de vista
biológico, na qual os intercâmbios lingüísticos,
religiosos, técnicos, botânicos e zoológicos geraram
uma cultura portadora de uma profunda originalidade
(COUTO in MOTA, 2000, p.67).

2010
A base manufatureira girava em torno da cana-de-açúcar, a qual
tinha uma larga escala. Era uma produção orientada para o mercado
externo, e atingia um grande contingente de trabalho escravo. Além do
açúcar, também tinha a produção do tabaco e do algodão.
Com o surgimento dos engenhos, a colônia vai se tornar uma
sociedade escravista, não só pelos escravos, mas também extinções
jurídicas entre os povos escravos e livres, entre princípios de hierarquias,
raças, senhor de engenho.
Os africanos escravizados foram à mão direita do desenvolvimento
econômico brasileiro, pois foram elementos ativos e criadores,
contribuindo para a formação social e cultural do país. Foram eles que
fecundaram os canaviais e cafezais, que amaciaram a terra seca, que
exploravam minas e artífices de ferro.

Utilizado inicialmente no campo, o trabalho escravo


substituiu rapidamente as outras formas de trabalho e
conquistou os vários setores de economia em certas
partes do novo mundo. Expandiu-se com facilidade até
atingir os centros urbanos, onde o escravismo acabou
por dominar as relações de produção, constituindo-se

2010
na estrutura fundamental dessas sociedades.
(ALGRANTI, 1988, p. 47).

No Brasil Colônia, a passagem do século XVIII para o XIX foi


marcada por algumas revoltas e conflitos que iam contra as ações e
decisões da Coroa, e contra a subordinação do senhor, como a Guerra dos
Emboabas, a Revolta dos Males, as Inconfidências de Minas, Bahia e Rio
de janeiro, entre outras. Porém essas inconfidências foram muito
marcantes no período colonial, pois estas se aproximaram da idéia de
República, pensaram em livrar-se do opressor, pensaram em liberdade
no ciclo econômico e liberdade política, contribuindo para a
independência do Brasil.

1.1 O ESCRAVO AFRICANO NO BRASIL COLÔNIA


Os trabalhadores escravos foram sujeitos de sua história, seja
quando participaram de revoltas de caráter mais contundente, tanto
quanto no seu dia-a-dia, fato que muitos acabam esquecendo. Apesar de
terem chegado ao Brasil sob as mais penosas condições, os africanos

2010
participaram intensamente da formação das vivencias culturais. Estas se
integraram no modo de ser, pensar e viver da população brasileira, assim
como marcou a economia do nosso país ao longo da história.

A escravidão africana constituiu o elemento básico da


vida econômica e social do Brasil. Introduzida
inicialmente na lavoura açucareira no litoral
nordestino em meados do século XVI, espalhou-se
rapidamente por todo o país nas diversas esferas da
vida rural e urbana até o final século XIX. Apesar do
caráter essencialmente agrícola da economia Colonial,
os centros urbanos nela tiveram papel de destaque
servindo de entrepostos comerciais, enquanto
ocuparam na esfera política o papel de sede do poder
administrativo, formando os escravos parte integrante
e fundamental de suas populações. (ALGRANTI, 1988.
p. 17).

Quando começou a escassear a força do trabalho indígena por causa


da política de extermínio e da fuga dos indígenas, os colonizadores
europeus passaram a encarar duas opções: a mão-de-obra européia ou a
africana. Mas, porque explorar a mão-de-obra africana?

2010
Os europeus tinham capital, eles mantinham domínio sobre e
controle à determinados padrões (cultural e religioso), e através da
subordinação, economia, política e submissão implicava no surgimento de
várias formas de colonização. Além disso, a África não possuía sua própria
moeda e nem um próprio governo.
Porém, vários são os motivos apontados para explicar a
predominância da escravidão africana em relação à indígena, desde o
século XVII: o índio não estava adaptado ao trabalho na lavoura; o contato
intenso com os colonizadores levou à transmissão de várias doenças
européias epidêmicas aos indígenas; muitos negros provinham de
culturas familiarizadas com a metalurgia e a criação de gado. Também,
não era novidade para os portugueses a escravidão africana, desde de
1441, capturavam negros na costa atlântica da África.
Segundo Schwartz (1999, p. 68), em seu livro “Segredos Internos”,
“uma longa experiência com a escravidão negra na península ibérica,
intensificada durante a expansão da indústria açucareira no Atlântico,
familiarizava os portugueses com os africanos e suas aptidões”. Portanto,
como já estavam habituados, os colonizadores começaram a pensar na

2010
África como fonte lógica para mão-de-obra. Ainda segundo Schwartz, os
primeiros africanos vieram para o Brasil no século XVI, e provinham,
principalmente, da região da Senegâmbia, denominada Guiné pelos
portugueses, onde eram capturados nativos de vários povos, como
manjacas, balantas,bijagos, mandingas, jalafos, entre outros. Mais tarde,
decediram colonizar Angola, Congo, Luanda, Benguela, Cabinda e
Moçanbique.
Ao chegarem no Brasil, os africanos eram vendidos e levados a
morar em uma construção rústica e precária, denominada senzala. Essas
“senzalas consistiam de cabanas separadas, de paredes de barro e telhado
de sapé, ou, mais caracteristicamente, de construções enfileiradas
divididas em compartimentos, cada um ocupado por uma família ou
unidade residencial” (SCHWARTZ, 1999, p. 125). Enquanto seus patrões
eram alojados nas casas grandes, um casarão térreo ou um sobrado.
Os africanos e seus descendentes desempenharam as mais diversas
tarefas: trabalhavam na lavoura, nos engenhos, nas minas, nos
transportes de cargas, de pessoas e de dejetos, na indústria e na
construção.

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Utilizado inicialmente no campo, o trabalho escravo
substituiu rapidamente as outras formas de trabalho e
conquistou os vários setores da economia em certas
partes do Novo Mundo. Expandiu-se com facilidade até
atingir os centros urbanos, onde o escravismo acabou
por dominar as relações de produção, constituindo-se
na estrutura fundamental dessas sociedades
(ALGRANTI, 1988, p. 47).

Nos centros urbanos, os escravos (homens e crianças) dedicavam-


se principalmente às tarefas domésticas, mas também executavam as
atividades de sapateiros, alfaiates, carpinteiros, carregadores, ferreiros.
Às mulheres cabiam os trabalhos de cozinheiras, lavadeiras, amas,
ajudavam as senhoras a vestir-se, serviam de acompanhantes para suas
senhoras, dentre outros. Segundo Leila Algranti (1988), um homem
branco jamais faria certas tarefas, sob o risco de perda de prestígio e
dignidade, pois qualquer serviço manual era visto como trabalho escravo.
É interessante ressaltar que, existia o “sistema de aluguel”, muito
comum na sociedade urbana, onde a pessoa que possuíam mais escravos

2010
poderia alugá-los para terceiros, obtendo lucros. Também, era um hábito
comum de se oferecer ou procurar escravos através de anúncios em
jornais.
O matrimônio de escravos foi um dilema no qual os moradores
temiam que o escravo ao se casar teria direito à alforria, ameaçando as
linhagens e as hierarquias sociais. Com isso, os embaixadores no Concílio
de Trento solicitam um endurecimento do direito canônico relativo ao
matrimônio, o qual não foi aceito. Assim, as constituições do arcebispado
da Bahia sentenciam que os escravos que se casassem continuassem a ser
o que eram. Também, os escravos batizados só poderiam ser revendidos a
senhores cristãos, para que não se ocorresse o risco de voltarem a ser
pagão (ALENCASTRO, 2000).
Após a chegada da família Real no Brasil, surge a prostituição, pois
era uma fonte de renda para os senhores. Também não restam duvidas, e
podemos constatar no livro “Casa-Grande e Senzala”, de Gilberto Freyre
(1966), que as senzalas estimulavam à promiscuidade e à poligamia, e
fazendeiros mantendo relações extraconjugais com suas negras. Assim, a
idéia da mulher honrada, que na época era muito valioso, pois a honra

2010
feminina refletia na honra masculina e da família, não se aplicava a todas
elas, pois a honra era um atributo aos grupos dominantes, sendo assim, as
escravas eram consideradas mulheres sem honra, não possuindo
privilégios e nem direitos de se defender, sendo dominada pelo seu
senhor, consideradas desqualificadas (ALGRANTI, 1993).
O tráfico negreiro unia interesses na África, Europa e América. Os
navios europeus levavam mercadorias para a costa africana, como tecidos
grosseiros, aguardente, tabaco e armas, que eram trocadas por escravos,
vendidos posteriormente para os colonos americanos. As estimativas
sobre o total de escravos trazidos para o Brasil variam muito, até a
extinção do tráfico negreiro, o numero de escravos existentes em todo o
país correspondia cerca de 33% da população, e até o século XIX, estima-
se que s encontrava em torno de 40% a 60%. Portanto, é impossível
pensar no Brasil Colônia sem pensar na sociedade africana.
As primeiras capitanias que receberam africanos foram Bahia e
Pernambuco, locais onde a produção açucareira mais prosperou. Depois
de aprisionados em seu continente, eram acorrentados e marcados com
ferro em brasa para identificação, vendidos aos comerciantes e mandados

2010
para a América nos navios negreiros. Trabalhavam nos engenhos de
açúcar, nas plantações de algodão, na mineração, nos serviços domésticos,
no artesanato ou ainda nas cidades, como escravos de ganho (ALGRANTI,
1988). Estes realizavam trabalhos temporários em troca de pagamento,
que era revertido para seus proprietários.
Quando os escravos desobedeciam às ordens, sofriam vários tipos
de castigos, não só eram vitimas do açoite, como também sofriam
suplícios semelhantes às torturas medievais. A violência para com os
escravos era um símbolo de poder que apavorava os escravos e também
um principio que lhe justificava sua ação. Nas fazendas, os escravos eram
castigados pelas mãos do feitor ou do senhor, na cidade, o proprietário
podia recorrer à polícia.
Os escravos procuravam reagir contra a escravidão de diversas
maneiras, a fuga, a capoeira, o suicídio e o aborto eram comuns entre eles.
Os escravos fugidos começaram a formar comunidades, primeiramente
denominadas mocambos e, no século XVIII, quilombos, onde a maioria
vivia de forma de banditismo social ou saques por grupos guerreiros
(SCHWARTZ, 1999). Esses quilombos situavam-se próximos de

2010
propriedades agrícolas. O povo sentia muito medo desses fugitivos, pois
estes se utilizavam muito de agressões físicas como o passo da capoeira e
o uso de navalha e faca. A vida nos quilombos estava ligada a uma série de
atividades para a sua sobrevivência, a agricultura e caça, coleta,
mineração e comercio, recebiam ajuda de escravos de ganho ou libertos, e
sustentavam-se por meio de alianças clandestinas.
Porém, as reações contra a escravidão existiram desde as
embarcações nos navios negreiros. Segundo Rodrigues (2005, p. 225)
existem vários “registro sobre revoltas de africanos a bordo de navios
negreiros, pois os africanos escravizados, ainda de acordo com Rodrigues
(2005, p. 228), acreditavam ser uma viagem sem volta a um destino que
nenhum deles desejava ou planejava.
Lutavam pela liberdade e para impedir a expansão dos europeus
pelo continente, tanto que no século XVIII e XIX as rotas de tráficos eram
controladas pelos africanos.

Muito embora os africanos aprisionados se rebelassem


em diversas fases da escravização na captura em seus
territórios de origem, na viagem até a costa ou durante

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a permanência nos barracões - , era nos navios
negreiros que as revoltas provocavam maior temor
aos brancos. Para os escravos, essa modalidade de
resistência poderia ser a ultima antes de se verem
enredados em uma viagem de retorno. Para os
marinheiros, enfrentar essa revolta de escravos a
bordo era um dos medos mais constantes, já que
estariam lidando com inimigos pouco dispostos a
negociar numa luta que não se encerrava enquanto
restasse um tripulante vivo nas mãos dos rebeldes.
(RODRIGUES, 2005, p. 245).

Para prevenir essas revoltas ou, até mesmo, suicídios, os traficantes


faziam adaptações, faziam divisão etária e sexual, e raramente davam
permissão para os escravos saírem do porão. Neste havia falta de ar e
higiene, má alimentação e castigos físicos.
Na ultima década do século XVIII, em São Domingos, os negros se
rebelavam contra a escravidão, proclamando sua independência em 1804,
colocando em prática os princípios da Revolução Francesa. (AZEVEDO,
1987). Também, em 1º de julho de 1857, aconteceu na Bahia a primeira
greve escravista. O culto Malê no Brasil, trazidos pelos africanos

2010
islamizados, “se impôs como importante fator de mobilização na luta
contra a escravidão (LOPES, in NASCIMENTO, 2009, p.58). Essas revoltas,
também, devem ser interpretadas como séries de agitações de ordem
política e social, que se movimentavam pela independência, no qual:

Seus planos para o futuro consistiam não em esmagar


o regime explorador que os restringia, mas em
conseguir acesso aos benefícios que aquela estrutura
prometia, especialmente durante um período de
rápidas mudanças políticas. As rebeliões escravas,
portanto, servem aqui como uma medida não de
resistência ou opressão, e sim de consciência e
estratégia, bem como do funcionamento dessa
sociedade escravista em um momento de crise
(SCHWARTZ, 1999; p. 381).

Não podemos esquecer que, a maioria das revoltas deu-se no


ambiente rural, onde “as insatisfações surgiam na grande maioria no
interior das senzalas onde ganhavam forma e eram então veiculadas
através da cidade a outras fazendas” (ALGRANTI, 1988, p. 153).

2010
Ninguém lutou mais contra a escravidão como os próprios escravos,
pois são inúmeras na história da escravidão no Brasil as revoltas e
estratégias de resistência.
Em algumas sociedades africanas o desenvolvimento e a
organização social e política estava muito além de outras populações
européias, pois já trabalhavam com o ferro e tinham uma metalurgia
avançada, explorando e controlando seus próprios comércios (FAGE,
1972). Através desses e outros conhecimentos é que os africanos
escravizados puderam “desenvolver a plantação de cana-de-açúcar, a
extração de minérios, a cafeicultura, a criação de gado e diferentes
ocupações artesanais” (TRIUMPHO, in NASCIMENTO, 2009, p. 263).
De acordo com Freyre (1966) muitas foram as culturas africanas
que se contagiou e enriqueceu a brasileira, percebemos isso na economia
agrária; no fetichismo, como a escultura em madeira; na culinária, como a
cocada, doces, azeite de dendê, mandioca, leite, carne e vegetais, a
pimenta malagueta, o quiabo, o uso da banana, peixe e galinha, o vatapá;
nas danças alegres e colores de búzios; nos saios adamascados e de cores

2010
vivas, dentre outros. Esses pontos são fundamentais da influência africana
sobre a cultura, o caráter e a eugenia brasileira.
A partir desses elementos devemos evitar lembrar dos negros
africanos apenas como escravos portadores de mão-de-obra, e começar a
pensá-los como principais contribuintes para a formação da sociedade
brasileira. As relações de Brasil com a África foram muito mais
importantes que com o Portugal, porque se relacionaram culturalmente,
politicamente, economicamente e socialmente. Como diz Alencastro
(2000) o Brasil formou-se fora do Brasil, formou-se basicamente no
contexto Atlântico Sul. Onde a presença da áfrica na realidade social e
cultural brasileira corresponde entre 40% e 60% da população brasileira,
onde a herança negra africana é encontrada nas práticas religiosas, nas
músicas, danças, nas técnicas agrícolas tradicionais, permitindo melhor
compreensão para a formação socioespacial e histórica do Brasil
(SERRANO e WALDMAN, 2007).

2010
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Podemos afirmar que, o sucesso da empresa colonial portuguesa, no
Brasil, foi o resultado do baixo grau de institucionalização política, da
generalização das arbitrariedades, da formação dos territórios de não
existir nem rei e nem lei, e a criação de territórios de mando. Assim,
Portugal pode se impor juridicamente e politicamente, surgindo uma
sociedade do pacto.
Assim percebemos que, ocorreu uma articulação do poder
metropolitano, que assumiu maior complexidade. O poder está presente
e, ao mesmo tempo, distante, constituindo como que uma síntese
privilegiada das diversas formas assumidas pela articulação entre
Portugal e Brasil durante o período colonial.
Entretanto, a colonização desenvolveu-se a partir da subordinação
econômica e política, controlando a produção e subordinando,
forçosamente, a um determinado padrão cultural e religioso, onde o negro
africano teve importante papel, pois participava de todas as atividades
braçais, e além da contribuição da formação de nossa etnia, os seus usos e
costumes influenciaram bastante a cultura brasileira.

2010
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALGRANTI, Leila Mezin. O feitor ausente: estudos sobre a escravidão
urbana no Rio de Janeiro – 1808-1822. Editora Vozes; Petrópolis, RJ,1988.
ALGRANTI, Leila Mezin. Honradas e Devotas: mulheres da Colônia,
condição feminina nos conventos e recolhimentos do sudeste do Brasil,
1750-1822. Rio de Janeiro: José Olympio, 1993.
ALENCASTRO, Luiz Felipe. O tratado dos viventes: formação do Brasil
no Atlântico Sul. Companhia das Letras, 2000.
AZEVEDO, Celia Maria Marinho de. Onda negra medo branco: o negro
no imaginário das elites século XIX. Editora Paz e Terra; Rio de Janeiro,
1987.
FAGE, Roland Oliver J. D. Breve História da Africa. Alianza editorial;
Madrid, 1972.
FREYRE, Gilberto. Casa grande e senzala. Livraria José Olympio Editora;
Rio de Janeiro, 1966.
MOTA, Carlos Guilherme (org.). Viagem Incompleta: a experiência
brasileira (1500-2000). Formação história. São Paulo: ed. SENAC, 2000.

2010
NASCIMENTO, Elisa Larkin org. SANKOFA 2 Cultura em movimento:
matrizes africanas e ativismos negro no Brasil. Editora Selo Negro, 2009.
RODRIGUES, Jaime. De costa a costa: escravos, marinheiros e
intermediários do tráfico negreiro de Angola ao Rio de Janeiro (1780-
1860). São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
SCHWARTZ, Stuart. Segredos internos: engenhos e escravos na
sociedade colonial, 1550-1835. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
SERRANO, Carlos; WALDMAN, Mauricio. Memória d´África: temática
africanaem sala de aula. Editora Cortez: Saõ Paulo, 2007.

2010
DO MITO A FILOSOFIA

Jaquelline Maria Cardoso

Resumo:

A temática dessa pesquisa acadêmica trata basicamente das relações entre mito e
razão na sociedade grega. O enfoque é em torno dessa crença nos mitos pela
sociedade, onde o mito era a explicação para qualquer acontecimento do dia-a-dia,
bem como a filosofia que aparece para questionar esses mitos, tendo como
precursor o filósofo Sócrates.

Palavras-chave: Mito, razão e filosofia.

2010
INTRODUÇÃO

O objetivo desta pesquisa é apresentar o modo como o mito


influenciava no cotidiano da sociedade grega e a crítica ao mito feita
por filósofos como Sócrates. Ao longo da história, todos os povos
sentiram necessidade de explicar a origem do mundo através de
lendas, fábulas e mitos, sendo a maioria deles heróicos, com forças
sobrenaturais que influenciavam diretamente a vida das pessoas
fazendo assim uma ligação entre real e o imaginário. Sendo assim, o
seguinte estudo irá tratar dessa cultura grega que de certa maneira
tendem a influenciar o nosso pensamento e existência.

Todos os povos produziram seus mitos, seus contos, suas lendas,


seus personagens extraordinários. Na Grécia o mito sempre foi uma
presença constante e viva na mentalidade dos povos. Os gregos têm a
sua maneira de acreditar na sua mitologia, onde nós podemos, a partir
dessa mitologia, muitas vezes buscar o imaginário, a mentalidade de
determinada sociedade que escolhemos sendo assim algo curioso e
fascinante.

2010
O presente trabalho analisará o mito nessa sociedade grega
considerando o momento dessa sociedade para deixar mais
transparente tal definição de mito, que no início parece ser um pouco
complexa, mas aos poucos acaba sendo mais compreensível, e
pretendo também apresentar a crítica dos filósofos em relação ao mito,
ou seja, o mito versus a razão.

Primeiramente nos preocupamos em entender o que são os


mitos, buscando definições de autores que pesquisaram o assunto. O
mito sofre lentamente algumas transformações que influenciam as
pessoas que crêem, fazendo surgir assim pessoas que criticam essa
forma de pensamento.

Algumas dúvidas surgem com o passar do estudo como: Os


gregos acreditavam em suas fabulações? Se acreditarem nas fábulas,
sabiam ao menos distingui-las da ficção? O que o filósofo Sócrates
procurava? É por essas e outras perguntas que se estuda o mito e a
filosofia da época, trazendo para um contexto atual, algo que está
distante de nós, despertando assim cada vez mais o nosso interesse,

2010
curiosidade, imaginação, e analisando os problemas e hipóteses que
surgiram no decorrer da pesquisa.

Se professarmos que as lendas transmitem com


freqüência lembranças coletivas, acreditaremos na
historicidade; porém se as considerarmos como
ficção, não acreditaremos nelas e interpretaremos
diversamente os dados demasiadamente equívocos
das escavações arqueológicas (VEYNE, 1983, p. 26).

Vale ressaltar que a filosofia não vem para romper radicalmente


com o mito, mas sim utilizar o uso da razão no esclarecimento da
origem do mundo.

1.0 AS DEFINIÇÕES DO MITO

Tanto as traduções etimológicas da palavra Mito, quanto à


transmissão e análise dos temas relacionados a ela é algo delicado de
se trabalhar, pois cada autor procura fazer uma interpretação própria
da mesma enquanto conceito.

2010
A palavra mito vem do grego, mythos, e deriva de dois verbos: do
verbo mytheyo (contar, narrar, falar alguma coisa para outros) e do
verbo mytheo (conversar, contar, anunciar, nomear, designar). O mito é
uma história dos acontecimentos que são eternos, porque se repetem,
mas é uma história diversa da que conhecemos, pois ela se refere
sempre há um tempo que não é irreversível, a uma temporalidade, que
se elimina pela participação no sagrado, há um tempo circular,
portanto não é uma forma de pensamento própria dos povos
primitivos, senão uma categoria eterna do pensamento humano ao
lado do pensamento racional. (RIBEIRO, 1992, p. 16-22)

O mito, como palavra e linguagem trata da vida, do mundo, das


coisas como uma totalidade e procura descrever as origens, as relações
e o destino do mundo humano. É também um fato vivo, autêntico que
acompanha os povos em todo o seu ciclo de vida, dentre eles os gregos
dos quais trataremos com mais destaque. O mito não permanece em
sua forma primitiva, mas, desenvolve-se primeiro oralmente e depois
se fixa na escrita, adapta-se para onde esta sendo transportado,
adquire feições populares e se transforma. Descrever, narrar e

2010
interpretar essa mudança do mito para o pensamento racional é um
dos principais objetivos.

O mito tem primeiro o sentido de explicar o mundo


antropomorficamente, ou seja, a mitologia: os deuses são homens
divinizados superiormente que influenciam de alguma forma, a
existência dos homens, fazendo referência a sua vida e ao seu destino.

O mito não só representa uma explicação sobre as origens do


homem e do mundo em que ele vive, mas também traduz por
simbologias ricas em significado o modo como um povo ou civilização
entende e interpreta a sua existência. Ele não é uma realidade
independente, mas que evolui com as condições históricas e étnicas e
conserva testemunhos. Os gregos estavam acostumados a explicar o
passado em função de mitos e os poemas homéricos eram provas
suficientes e incontestáveis na época. Os mitos recordam que este
passado glorioso é em parte recuperável, onde se vive o mito, e este é
sempre recorrente. Esses mitos gregos aconteciam “antes” na época
das gerações heróicas em que os deuses ainda se misturavam aos
humanos. O mito é uma forma de linguagem necessária para que se

2010
expressem desejos ou realidades que em alguns momentos tornavam-
se difíceis de transmitir. (LEAL, 1986)

Com a abrangência no assunto, nos permitimos estudar a


mitologia como ponte entre o imaginário e o social deste período,
apresento a idéia de Mircea Eliade (1963) que trata do assunto num
contexto geral, e que se encaixa com o núcleo do trabalho quando diz:

Seria difícil encontrar uma definição de mito que


fosse aceita por todos os estudiosos e ao mesmo
tempo acessível aos não especialistas [...] O mito é
uma realidade cultural extremamente complexa,
que pode ser abordada e interpretada em
perspectivas múltiplas e complementares (...) o
mito conta uma história sagrada, relata um
acontecimento que teve lugar no tempo primordial.
O tempo fabuloso dos “começos” (...) o mito conta
graças aos feitos dos seres sobrenaturais uma
realidade que passou a existir, quer seja uma
realidade total, o cosmos, quer apenas um

2010
fragmento, uma ilha, uma espécie vegetal, um
comportamento humano, é sempre, portanto uma
narração de uma criação descreve-se como uma
coisa foi produzida, como começou a existir O mito
só fala daquilo que realmente aconteceu daquilo
que se manifestou plenamente. (...) (ELIADE, 1963,
p. 12-13)

Sendo assim, o mito procura dar sentido ao mundo tendo o


homem como ponto entre a realidade e o sobrenatural. Para os gregos,
a própria visão de mito tinha as suas variações. Tudo o que norteava a
sociedade grega, seja do bem ou do mal, eram conferidos aos deuses, já
que o mito era o centro de todos os princípios que envolviam esta
sociedade fazendo assim um elo entre real e imaginário.

Assim, para LEAL (1986) tudo está relacionado entre os mitos e


o cotidiano dos povos:

Inicialmente, pode-se dizer que o mito é um


discurso que visa à formalização do mundo [...]

2010
encarado deste modo, o mito não pode ser um
produto da criação individual, mas uma forma
que nasce “espontaneamente” no meio cultural
[...] O mito é realidade e não ficção e está é uma
das primeiras verdades que devemos saber sobre
ele. (LEAL, 1986, p. 06)

Os mitos servem para nós como fonte de conhecimento sobre o


pensamento grego. A mitologia não tem espaço nem tempo para
acontecer: ela existe o tempo todo e assim os mitos continuam a ser
criados. Mitos na história só se admitem os primeiros, e os segundos
são admitidos como cultura geral. A própria palavra "mito" significa
"relato" e não tinha o sentido de história fantasiosa que adquiriu
posteriormente. Ao contrário, acreditava-se que os mitos eram relatos
que provinham dos antepassados e, por isso mesmo, eram aceitos
como acontecimentos de um passado distante.

Ainda em Mircea Eliade onde enfatiza a natureza e a função do


mito nas sociedades o que pode ser aplicado como uma reflexão sobre
o tema:

2010
(...) nas civilizações primitivas, o mito desempenha
uma função indispensável ele exprime, enaltece e
codifica a crença, salvaguarda e impõe os princípios
morais, garante a eficácia do ritual e oferece regras
práticas para a orientação do homem. O mito,
portanto, é um ingrediente vital da civilização
humana, longe de ser uma fabulação vã, ela é ao
contrário uma realidade viva a qual se recorre
incessantemente; não é absolutamente uma teoria
abstrata ou uma fantasia artística, mas uma
verdadeira codificação da religião primitiva da
sabedoria pratica (...). O conhecimento dessa
realidade revela ao homem o sentido dos atos
rituais e morais indicando-lhes o modo como deve
executá-los. (ELIADE, 1963, p. 24)

2010
Com o passar do tempo e o desenvolvimento da escrita, depois
de muitos séculos de transmissão oral, os mitos foram registrados por
escrito, redefinidos, aprimorados, seus personagens tornaram-se
figuras esculpidas em mármore ou solidificadas em bronze. Entretanto,
os mitos não deixaram de evoluir e modificar-se durante todo o
período de existência da civilização grega. (FUNARI, 2002, p. 25).

2.0 DO MITO A FILOSOFIA

Atenas produziu Sócrates, Platão e acolheu Aristóteles, filósofos


que procuravam a verdade e podiam criticar os supersticiosos,
preconceituosos e poderosos, à diferença dos sofistas, que defendiam
qualquer argumento. Platão e Aristóteles fornecerão os fundamentos
para todas as formas de pensamentos posteriores, na própria
Antigüidade, mas também na Idade Média e até chegar aos Tempos
Modernos.

A filosofia nasce entre o final do século VII a.C. e inicio do século


VI a. C onde o pensamento grego se torna cada vez mais dominado por
essa filosofia.

2010
A razão era um conceito essencial que os gregos estudaram a
fundo. Razão em grego era logos, palavra derivada do verbo legein, que
quer dizer "juntar" e, daí, "dizer" e logos significa, ao mesmo tempo,
"palavra", "discurso" e "razão".

E com tantos mitos, como teriam os gregos chegado ao


pensamento racional? Essas distinções entre ciência, religião, crença e
experiência faziam sentido aos gregos? Certamente que não, pois não
há entre eles um rompimento radical entre o pensamento mitológico e
o pensamento racional. A Filosofia começou ocupando-se do problema
da origem do mundo e da verdadeira realidade, da unidade por detrás
das aparências. Desde o século VI a.C. uma série de pensadores,
começaram a se ocupar desses temas. No período arcaico (VII e VI a.C.)
com o comércio externo, houve grande interação de idéias decorrente
do contato com o Egito e a Mesopotâmia. Os marinheiros e negociantes
que chegavam do Oriente traziam consigo narrativas, tradições e
conhecimentos técnicos observados em outras terras, desenvolvidos
ao longo de séculos por outros povos. Foi então que surgiu o

2010
pensamento racional e a Filosofia, definida como o estudo
caracterizado pela intenção de ampliar a compreensão da realidade.

Explicar o mundo a partir da razão, deixando de lado deuses e


mitos procurando agora identificar começos, estabelecer uma ordem
para os fenômenos naturais e sociais a partir da idéia sobre a
experiência cotidiana foi uma preocupação da época. Para alguns
filósofos, tudo nasceu de um princípio único (FUNARI, 2002).

Mircea Eliade faz uma definição sobre o modo de pensar desses


filósofos da época, que tem um pensamento propriamente dito
racional:

Quase todos os povos pré-letrados são realistas ao


extremo. Empenham-se em controlar o mundo; e
muitas das suas práticas visam a fazer que a
realidade funcione de acordo com as suas ordens
[...] Quanto mais “letradas” se tornam as pessoas,
tanto mais propendem a alhear-se do mundo em

2010
que vivem e a desvencilhar-se e afastar-se do
mundo da natureza. (ELIADE, 1957, p. 216)

Ou seja, esses letrados têm de serem práticos, sendo que sua


crença desfruta sempre de liberdade de expressão pessoal. Com tais
reflexões nasceu a ciência grega, que buscava a unidade e a
regularidade, propondo o estabelecimento de leis que explicassem o
funcionamento do universo. Essas idéias afetam a própria definição de
homem, considerado aquele que pode conhecer e cuja alma (psykhé)
era tida como composta de razão (logos) e espírito (nous). Esse modo
de pensar marcou uma mudança importante, ao centrar a atenção na
capacidade de pensamento e explicação dos homens, sem depender, de
forma direta, dos deuses.

Segundo FUNARI (2002, p. 46), “esta pode ser considerada uma


das mais importantes contribuições gregas para a cultura da
humanidade”. Alguns destes pensadores da época chegaram a
contestar a própria validade da mitologia antropomórfica, com seus
deuses em forma humana. Ou seja, mais do que um povo homogêneo,

2010
uma raça superior, o que ocorreu na Grécia foi uma grande mistura,
que talvez explique a própria capacidade de adaptação e dinamismo
que os gregos demonstram ao longo da História. Os gregos souberam
incorporar elementos culturais de outros povos à sua própria
civilização, adaptando-os às suas necessidades. No início do século VIII
a.C. o mundo grego está dividido politicamente em uma porção de
cidades. Do século VIII ao VI, o processo de formação desse mundo de
cidades se completa, passando de uma sociedade camponesa e
guerreira, para uma civilização centrada nas cidades (poleis).

A partir daí, as análises diferem. Alguns viram no fenômeno do


surgimento da idéia de logos uma ruptura radical entre duas formas
distintas e irreconciliáveis de pensamento, o mítico e tradicional e o
pensamento racional que se centra na própria capacidade cognitiva do
ser humano. Para isso, esses estudiosos deram o nome de "milagre
grego". (FUNARI 2002, p. 51). Nos últimos anos do século XX d.C., esta
visão tem sido criticada, por diversos motivos. Em termos políticos,
pois essa suposta superioridade grega e ocidental implicaria uma visão

2010
pouco atenta às contribuições culturais de tantos povos e civilizações,
do passado e do presente. Para Funari:

Essas idéias possuem um potencial revolucionário e


libertador incrível, pois o homem está colocado no
centro das atenções, não mais dependendo, de
forma passiva, dos deuses, além disso, dão a
entender que são os homens que "criam" os deuses
à sua imagem e semelhança e não o contrário.
(FUNARI, 2002. p. 63).
No estudo da própria Filosofia grega, também, começou-se a
questionar a possibilidade de um pensamento racional criado no
vácuo. A filosofia grega transpunha, de forma laica e abstrata, o mesmo
sistema de representação do mundo que a mitologia havia transmitido.
Além disso, a própria mitologia grega, tem se mostrado, segundo esses
novos estudos, muito mais ligada ao Egito e à Mesopotâmia do que se
supunha. Assim, tramas olímpicas tiveram suas origens em plenas
margens dos rios Tigre e Eufrates. Sendo assim os gregos forjaram uma
cultura própria, mas não deixaram de ser influenciados por outros

2010
povos e culturas. Os filósofos jônios seguiam uma tradição mitológica,
baseada nas noções de unidade primordial, luta e união incessante dos
opostos, mudança cíclica eterna. O que há de novo na Filosofia consiste,
justamente, na humanização, na passagem dos relatos recebidos da
mitologia para sua explicação pelos homens. A grande novidade da
Filosofia consistiu em analisar a razão das coisas, à luz da experiência
cotidiana, sem muita consideração pelos antigos mitos. Esta passagem
não é resultado de um "milagre" inexplicável, mas se liga às diferenças
entre a sociedade dos relatos mitológicos e o mundo das cidades, das
poleis. Ou seja, foi a nova vida material e cultural nas cidades, com suas
novas relações sociais, que propiciou o desenvolvimento de uma nova
forma de pensar sobre o mundo.
Na mitologia, os deuses espelham um mundo de reis e nobres e o
Olimpo é imaginado à imagem da sociedade aristocrática. Chuvas,
ventos, tempestades, raios, antes manifestações do poder real e divino,
puderam passar a ser fenômenos explicáveis pelo homem, problemas a
serem discutidos pelos homens. A cidade, por sua parte, torna-se o
lugar da discussão, na medida em que os homens se reúnem para
tratar dos seus assuntos, não para obedecer ao dominador. As

2010
determinações divinas introduzem-se, agora, as regras ou leis
estabelecidas pelos próprios homens. Isto permite que a nascente
Filosofia apresente duas características essenciais: um pensamento
que abstrai do divino e que é abstrato.

Seriam três diferenças entre Filosofia e mito como podemos


confirmar em Chauí:

1. O mito pretendia narrar como as coisas eram ou


tinham sido no passado imemorial, longínquo e
fabuloso, voltando-se para o que era antes que tudo
existisse tal como existe no presente. A Filosofia, ao
contrário, se preocupa em explicar como e por que,
no passado, no presente e no futuro (isto é, na
totalidade do tempo), as coisas são como são; 2. O
mito narrava a origem através de genealogias e
rivalidades ou alianças entre forças divinas
sobrenaturais e personalizadas, enquanto a
Filosofia, ao contrário, explica a produção natural
das coisas por elementos e causas naturais e

2010
impessoais. O mito falava em Urano, Ponto e Gaia; a
Filosofia fala em céu, mar e terra. 3. O mito não se
importava com contradições, com o fabuloso e o
incompreensível, não só porque esses eram traços
próprios da narrativa mítica, como também porque
a confiança e a crença no mito vinham da
autoridade religiosa do narrador. A Filosofia, ao
contrário, não admite contradições, fabulação e
coisas incompreensíveis, mas exige que a explicação
seja coerente, lógica e racional; além disso, a
autoridade da explicação não vem da pessoa do
filósofo, mas da razão, que é a mesma em todos os
seres humanos. (CHAUÍ, 2002, p. 35)
Por isso, dizia-se que os gregos, como qualquer outro povo,
acreditavam em seus mitos e que a Filosofia nasceu gradualmente, do
interior dos próprios mitos, como uma racionalização deles.

2010
3.0 O SENTIDO DA RAZÃO

Na cultura da chamada sociedade ocidental, a palavra razão


origina-se de duas fontes: a palavra latina ratio e a palavra grega logos.
Essas duas palavras são substantivos derivados de dois verbos que têm
um sentido muito parecido em latim e em grego. Logos vem do verbo
legein, que quer dizer: contar, reunir, juntar, calcular. Ratio vem do
verbo reor, que quer dizer: contar, reunir, medir, juntar, separar,
calcular (FUNARI, 2002, p. 51).

A razão é uma maneira de organizar a realidade pela qual esta se


torna compreensível. É, também, a confiança de que podemos ordenar
e organizar as coisas porque são organizáveis, ordenáveis,
compreensíveis nelas mesmas e por elas mesmas, isto é, as próprias
coisas são racionais (FUNARI, 2002, p. 62).

Na obra de Funari podemos encontramos o exemplo de


Xenófanes que contesta a validade da mitologia antropomórfica co seus
deuses em forma humana, onde nos mostra essa virada de
pensamento:

2010
Homero e Hesíodo atribuem aos deuses
comportamentos reprováveis entre os homens,
como o roubo, o adultério e o engano de uns aos
outros. Os mortais imaginam que os deuses
nasceram, têm roupas, voz e aparência humana
como eles mesmos. Assim, os etíopes dizem que
seus deuses são negros, enquanto os deuses trácios
têm olhos azuis e cabelos ruivos. Mas, na verdade,
existe apenas um deus, o maior entre deuses e
homens, não parecido com os mortais, nem em seu
corpo, nem em seu pensamento. (FUNARI, 2002, p.
63)
Essas idéias possuem um grande potencial, pois o homem está
colocado no centro das atenções, não mais dependendo, de forma
passiva, dos deuses, além disso, dão a entender que são os homens que
"criam" os deuses à sua imagem e semelhança e não o contrário. No
entanto, o que os estudos antropológicos mostraram é que precisamos

2010
reconhecer a “nossa razão” e a “razão deles”, que se trata de outra
razão e não da mesma razão em diferentes graus de uma única
evolução. (FUNARI, 2002, p. 76)

Assim, usamos “razão” para nos referirmos a “motivos” de


alguém, e também para nos referirmos a “causas” de alguma coisa, de
modo que tanto nós quanto as coisas parecemos dotados de “razão”,
mas em sentido diferente. Há vários exemplos que nos mostram
quantos sentidos diferentes a palavra razão possui: certeza, lucidez,
motivo, causa. E todos esses sentidos encontram-se presentes na
Filosofia.

Por identificar razão e certeza, a Filosofia afirma


que a verdade é racional; por identificar razão e
lucidez (não ficar ou não estar louco), a Filosofia
chama nossa razão de luz e luz natural; por
identificar razão e motivo, por considerar que
sempre agimos e falamos movidos por motivos, a
Filosofia afirma que somos seres racionais e que
nossa vontade é racional; por identificar razão e

2010
causa e por julgar que a realidade opera de acordo
com relações causais, a Filosofia afirma que a
realidade é racional. A consciência é a razão.
(CHAUÍ, 2002, p. 70)
Sendo assim, na origem a razão é a capacidade intelectual para
pensar e exprimir-se correta e claramente, para pensar e dizer as
coisas tais como são. A razão é uma maneira de organizar a realidade
pela qual esta se torna compreensível e também a confiança de que
podemos ordenar e organizar as coisas. O verdadeiro é o evidente ou o
visível para a razão. Assim, a verdade é uma qualidade das próprias
coisas e o verdadeiro está nas próprias coisas. Conhecer é ver e dizer a
verdade que está na própria realidade e, portanto, a verdade depende
de que a realidade se manifeste, enquanto a falsidade depende de que
ela se esconda ou se dissimule em aparências. Por esse mesmo motivo,
considera-se que os primeiros filósofos não tinham uma preocupação
principal com o conhecimento enquanto conhecimento, isto é, não
indagavam se podemos ou não conhecer o Ser, mas partiam da
pressuposição de que o podemos conhecer, pois a verdade significa

2010
que o Ser está manifesto e presente para nós e, portanto, nós o
podemos conhecer. (CHAUÍ, 2002, p. 71-73)

A Filosofia se volta para as questões humanas no plano da ação,


dos comportamentos, das idéias, das crenças, dos valores e, portanto,
se preocupa com as questões morais e políticas. Os gregos
consideravam seus deuses como verdadeiros, embora esses deuses
tenham existido para eles num espaço-tempo secretamente diferente
daquele em que viviam seus fiéis. Esta crença dos gregos não nos
obriga a acreditar em seus deuses, mas ela diz muito sobre o que é a
verdade para os homens (VEYNE, 1983, p. 89-90).

Pronunciados em momentos especiais – os momentos sagrados


ou de relação com o sagrado –, os mitos são mais do que uma simples
narrativa; são a maneira pela qual, através das palavras, os seres
humanos organizam a realidade e a interpretam. O mito tem o poder
de fazer com que as coisas sejam tais como são ditas ou pronunciadas.

2010
o desencantamento do mundo, isto é, a passagem do
mito à razão, da magia à ciência e à lógica, todo esse
processo liberou as artes da função e finalidade
religiosas, dando-lhes autonomia. Afirma-se que a
Filosofia, percebendo as contradições e limitações
dos mitos, foi reformulando e racionalizando as
narrativas míticas, transformando-as numa outra
coisa, numa explicação inteiramente nova e
diferente. ( CHAUÍ, 2002, p. 34)

Podemos notar que as concepções míticas não admitia reflexões


ou discordância; já a filosofia nascente por sua vez deixa o espaço livre
para reflexão, daí cada filósofo surgirá com uma explicação diferente
para a origem do mundo, ou seja, os filósofos passam a exigir fatos que
justifiquem as idéias expostas.

2010
CONSIDERAÇÕES FINAIS

É importante explicar que primeiramente nos preocupamos em


entender o que são os mitos, pesquisando definições de autores que se
aprofundaram no assunto, e com eles, ficou mais compreensível a
leitura. Num segundo momento a pesquisa se concentra na questão se
os gregos acreditavam nos seus mitos e como estes passavam através
das gerações. Após vem a explicação pelo mundo letrado, isto é, os
filósofos com a “razão” para explicar todos os acontecimentos na vida
das pessoas.

o pensamento mítico passa por diversas transformações crescendo e


se modificando continuamente.

Respondendo a pergunta “acreditavam os gregos em seus mitos?


a resposta é : claro que eles acreditavam em seus mitos. Os mitos
sempre transmitiram algo útil” ( VEYNE, 1983, p. 145).

A filosofia, primeiramente com Sócrates é a primeira tentativa de


compreensão do mito. A compreensão filosófica do mito põe a questão

2010
do seu sentido e assim há a aproximação filosófica ao mito, já que
pretendia mostrar que a consciência mítica, surgida com o
aparecimento do ser humano no mundo, não é uma consciência arcaica
ou primitiva, mas sim, a consciência mítica é um dos níveis da
consciência humana, que corresponde à primeira experiência do ser
humano no mundo. “Com essa filosofia os mitos não são eliminados
definitivamente, justamente porque são dois níveis estruturais da
consciência humana” (ELIADE, 1963, p. 106). Os mitos são
indispensáveis, tanto para os indivíduos como para as sociedades onde
servem para construir as categorias nas quais se aprofundam as
culturas, eles lançam ao mesmo tempo as bases do significado e da
comunicação. Sócrates é condenado, porém injustamente, pois nada
fazia além de questionar a sociedade;

Os juízes erram em não terem ouvido o mais


importante ensinamento de Sócrates, isto é, que
todos os homens são iguais porque todos são
capazes de ciência, todos são dotados de uma alma
racional onde se encontra a verdade e todos são

2010
capazes de virtude. Temem que a pólis raciocine,
discuta e pense. (CHAUÍ, 2002, p. 204)
E por último concluímos que no passado a mitologia era
essencial para a vida humana, porque era através dela que se explicava
a origem de certas coisas. A investigação desse passado provoca a
reflexão e nos ensina muito sobre nós e nossa sociedade. Essa
antiguidade está presente no nosso cotidiano.

REFERÊNCIAS

BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia: A idade da fábula.


Rio de Janeiro: MEC/INL, 1967.

CHAUI, Marilena. Introdução a História da Filosofia: Dos pré-


socráticos a Aristóteles. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo, Ed. Ática, 2000.

ELIADE, Mircea. Aspectos do mito. Lisboa: Edições 70, 1963.

ELÍADE, Mircea. Mito e Realidade. São Paulo: Perspectiva S.A, 1972

2010
FINLEY, Moses . Os gregos antigos. Lisboa: Edições 1985.

FINLEY, Moses . Aspectos da Antiguidade. São Paulo: Martins Fontes,


1991.

FUNARI, Pedro Paulo. Grécia e Roma. São Paulo: Contexto 2ª edição,


2002

GRIMAL, Pierre. A Mitologia Grega. São Paulo: 2ª ed. Saber atual, 1958

LEAL, José Carlos O Universo do mito. Rio de Janeiro: Mahatma


Gandhi Espaço Cultural, 1986

NAQUET, Pierre Vidal. O mundo de Homero. São Paulo: Companhia


das Letras, 2002.

PESSANHA, José Américo Motta. Coleção: Os pensadores. São Paulo:


Nova Cultural, 1991.

RIBEIRO Jr, João. As perspectivas do mito. São Paulo, Pancast, 1992

2010
STONE, I.F. O Julgamento de Sócrates. São Paulo. Companhia das
Letras, 2005.

VERNANT, Jean Pierre. O universo, os deuses, os homens. São Paulo.


Companhia das Letras, 2000

VERNANT, Jean Pierre. Mito e Religião na Grécia Antiga. São Paulo:


WMF Martins Fontes, 2006

VEYNE, Paul. Acreditavam os gregos em seus mitos? São Paulo:


brasiliense S.A, 1983

2010
O BROCK: A FORMAÇÃO DO MERCADO JOVEM DOS ANOS 80

Jeferson Lima

A música brasileira, mais especificamente o rock, traz uma


miríade de influências e informações que vão alem dos ritmos
nacionais. Este ensaio visa traçar um panorama geral sobre o rock
brasileiro, e principalmente, apresentar o movimento Brock, que surge
no Brasil durante a década de 80. Ao analisar quais suas diferenças em
relação aos outros movimentos musicais que utilizaram da linguagem
musical do rock, mas em nada se assemelham a essa manifestação
cultural presente no Brock. O estilo musical intitulado rock é
encontrado em canções anteriores ao movimento do Brock, mas o que
acabara sendo seu diferencial é seu apelo comercial e mercadológico.

. A primeira canção, a utilizar está estética, foi a versão em


português da musica Rock around the Clock, composta por Bill Halley e
His Comets, lançada em 1955 pela cantora Nora Ney, seguida por
versões de interpretes da musica popular como Cauby Peixoto, Celly e

2010
Tony Campleo, entre outros. A diferença entre os primeiros interpretes
de rock no Brasil, e o movimento Brock - alem da composição – vem da
ausência de um movimento mercadológico, ou estético com
característica do rock a caráter. Todos os interpretes pré Jovem Guarda
não se atrelam a um estilo musical especifico, cantam diversos estilos
diferentes, indo do samba-canção, passando por boleros e marchinhas
de carnaval.

Após as primeiras musicas de rock durante a década de 50, o


Brasil vê surgir nos anos 60 a Jovem Guarda. Seu estouro de vendas, de
proporções mercadológicas e ideológicas semelhantes ao Brock, os
jovens da década de 60, embalados ao som de Roberto e Erasmo
Carlos, Wanderléa, Martinha, Wanderley Cardoso, Eduardo Araujo,
entre outros, encontram na Rede Record e seu programa Jovem Guarda
uma nova ferramenta junto a juventude interessada no iê-iê-iê
brasileiro. A Jovem Guarda, tal qual o Brock, ia de encontro à diversão
dos jovens, mas não trazia a contestação ou política, não cometamos
anacronismos, cada qual fora responsável em seu momento pela
diversão empregada a juventude urbana de seu tempo.

2010
É necessário abrir um espaço para Os Mutantes, pois foram um
caso a parte do rock nacional, tiveram representatividade
internacional, mas se encontravam muito mais ligados a idéia
psicodélica que permeava o fim dos anos 60. Eram extremamente
ligados ao experimentalismo, em uma vertente próxima ao rock
psicodélico que se faria no início dos anos 70, tendo em Rita Lee, após
sua saída dos Mutantes, uma das primeiras artistas ligadas ao rock seja
na estética musical e nas atitudes pessoais.

É durante a década de 70 que temos os primeiros grandes nomes


do rock brasileiro, alem de Rita Lee, citada acima, Raul Seixas e Secos e
Molhados. Uma de suas várias características musicais, temos a junção
de elementos do rock, como guitarras elétricas, baixo elétricos e etc. e
sons tradicionalistas, como o fado, nos Secos e Molhados, e o Baião,
com Raul Seixas. Além destes existem ainda grandes nomes surgindo
num circuito underground, nomes como: Casa das Maquinas, O Terço,
Made in Brazil, entre outros, trazem o rock brasileiro a novos
patamares, abrindo caminho para o que será chamado de Brock.

Atribui-se a década de 80 a popularização do rock brasileiro, ou

2010
Brock, alcunha criada por Arthur Dapieve. Um ponto deve ser levado
em consideração para compreender a grande acessibilidade ao
mercado consumidor do período, entendamos como mercado
consumidor a juventude brasileira da década.

A facilidade de disseminação ao grande público acabou


ocorrendo por conta das inovações tecnológicas e facilidade de acesso
as mesmas: a utilização do rádio, além do advento da televisão, mas a
grande ferramenta para a distribuição, e audição das bandas do rock
nacional foram as rádios de freqüência FM. Uma destas rádios FM foi a
grande auxiliadora do Brock, a Fluminense FM:

A Fluminense FM, vulgo "Maldita”, foi uma das


mais importantes rádios alternativas do país.
Em seus primeiros três anos de ousadia,
seguidos ainda de outros quatro não tão geniais
mas ainda fartos de cultura alternativa, a rádio
niteroiense que marcou seu sinal nos 94,9 MHz
fez sua fama e glória, sem ter dinheiro para
fazer publicidade nem para criar uma rede que

2010
ficou só nos sonhos do seu idealizador, Luiz
Antônio Mel/o, e na imaginação de milhares de
alternativos. Ainda assim, todo o rock brasileiro
dos anos 80 e início dos anos 90 deve sua
trajetória à Fluminense FM, que, além de
divulgar as novas bandas, informava sobre o
que havia de novo e de antigo no rock nacional e
internacional, sem medo de fugir das paradas de
sucesso, mesmo aquelas "roqueiras" e sem
qualquer constrangimento de colocar na
programação normal grupos que estão longe de
serem lançados no mercado brasileiro.

(http://br.geocities.com/rockinformacao949/fl
uhistoria.htm” acessado em 21 de dezembro de
2008 às 21h 45min.)

Ao notar a importância da Fluminense FM outras rádios


seguiram seus passos, seja em São Paulo, Rio Grande do Sul, outros
tantos estados.

2010
Mais do que fabricado, o rock nacional dos anos 80 foi
descoberto pelas gravadoras, em meio a diferentes manifestações
vindas de juventudes urbanas do eixo Rio - São Paulo. Entre estas, uma
foi adotada pelas gravadoras, estética do rock tida como New Wave
Contudo, pelo menos outros duas manifestações existiram e chegaram
a testar junto a gravadoras e outras mídias: a vanguarda ou nova
música paulista e o punk:

A nova música ou vanguarda paulistana foi uma


série de artistas e grupos que constituiram-se num
circuito paralelo de MPB universitária. (GROPPO,
1996, p.206).

Indo na contramão do que muitos industriais da música


acreditariam, o Brock não se utilizava de uma antiga concepção ou
cartilha para se formar, vendo que a vanguarda não fora um fenômeno
de vendas, nem tão pouco se aproximava ao mercado fonográfico, a
idéia principal que a mesma traz a esse trabalho se mostra em um viés
interessante e nos ajuda a desvendar a relação entre o mercado
musical e a indústria fonográfica.

2010
Ivan Lins, Guilherme Arantes, Arrigo Barnabé entre outros, que
procuravam o segundo passo da MPB, mas mantinham galgado o
preconceito a nova onda do pop-rock nacional.

O Punk, inicialmente, não procurava uma grande aproximação


junto ao mercado fonográfico, ainda que melhor articulado como
movimento e ligados fortemente a uma linguagem mundialmente
conhecida, não compactuando com os desejos do grande mercado
comercial:

Já os punks, apesar de filiados a uma linguagem


cultural moderna e mundial, o pop-rock, pertenciam
a segmentos da população que, as intenções das
grandes gravadoras e da mídia, não eram
fundamentais naquele momento - as classes baixas -
dado o seu poder de consumo limitado,
principalmente numa economia que cada vez mais
primava pelas distâncias de renda entre as classes
sociais. (GROPPO, 1996, p. 211)

2010
Punk é música de pobre, e por isso, não tem nada de
intelectualismo surrealista dos Beatles e seus vôos
pela música de compositores de vanguarda como
Stockhausen. Punk parte de um velho argumento da
classe trabalhadora inglesa de que não se pode ter
educação sem dinheiro. Por isso, dispensa a
parafernália eletrônica da maioria dos grupos de
rock, A música é simples e as letras abordam
sempre problemas sociais (Lacerda. Jornal da tarde,
1978, IBID. Kemp, 1993, p. 31 e 32)

Vejamos então como o punk se distancia da new wave não


apenas no aspecto sonoro (sem adornos como sintetizadores, ou letras
mais açucaradas), mas também como proposta musical e social,
fortemente ligado ao cenário musical popularesco dos menores
estratos da sociedade, por diversas vezes é retratado como parte do
underground, principalmente no eixo Rio - São Paulo.

Um dado interessante sobre o movimento Punk foi o movimento


de Brasília, onde a maioria dos jovens que escutavam e conheciam o

2010
punk eram de famílias abastadas ou filhos de embaixadores. Em
relação ao punk de Brasília nos interessa muito mais intensa
disseminação, através de seus fanzines rústicos, ou também pelo
auxilio de pequenas gravadoras e selos que propiciaram sua
disseminação, Eram moleques falando para moleques, pregando a
ruptura que os artistas profissionais não tinha coragem de pregar.
(DAPIEVE, 1995, p.52).

Mesmo com sua idéia de união e apelo social, o punk


(principalmente a vertente paulistana) se viu dividida quando o
movimento procura melhorar sua imagem (tida como violenta e
despolitizada) junto à opinião pública, procurando assim não sendo
apresentados apenas como um grupo de rapazes com roupas rasgadas
e cabelos espetados, mas firmá-los junto à sociedade como um grupo
coeso e com idéias a serem ouvidas, a partir do que vira a ser sua
dissolução em dois grupos do punk paulista, e aqui teremos o que será
chamado a posteriori como o surgindo assim o movimento dos
"carecas":

2010
Em São Paulo, muitas gangues outrora punks não
aceitaram as mudanças, principalmente as oriundas
do ABC e da Zona Leste de São Paulo. Deste
paulatino afastamento com o pessoal da city
surgiram os "carecas", inspirados nos skinheads
ingleses, com posturas fascistas e racistas, atitudes
mais rudes e violentas, machistas, nacionalistas e
reacionárias. (GROPPO, 1996, p. 214).

Para além de tudo isso o punk se solidificou como o grito


marginal de garotos procurando uma identidade, neste ponto se
assemelham aos mesmos garotos que surfavam na praia e escutavam o
novo som do verão, a new wave.

Um bom exemplo do que vem a ser a New Wave é a fala de


Arthur Dapieve:

“Quando a MTV americana entrou no ar (em 1º de


agosto de 1981 ( ... )) ela ajudou a solidificar
visualmente o que viria a ser conhecido como new
wave. Para os rapazes, camisas de gola dupla

2010
erguida, cabelos imponentes eternamente
"molhados", ar cool, jaquetas repletas de zíperes,
ternos de ombreiras e estreitas gravatas de crochê;
para as moças, mangas morcego, batons pinks e
pencas de colares; para todos, cortes de cabelo
assimétricos, cores cítricas e xadrez, muito xadrez.
Musicalmente, a new wave zombava da tecnologia
processando vozes e utilizando sintetizadores até as
raias do caricatural, uma quizumba difícil de
rotular, entre a disco music e o calipso, entre o jive e
o sambão, e ainda assim com ares de rock”
(ALEXANDRE, 2002, p. 76).

Aqui se encontram a maior parte dos músicos do Brock, sejam


eles cantores solos como Ritchie e Lulu Santos, ou empipocados em
bandas dos mais variados formatos: no rock de guitarra do Barão
Vermelho ou na sonoridade mais praia e bermudão da Blitz, todos se
encontravam (seja estética ou musicalmente) nesse grande
emaranhado que seria a new wave brasileira. A New Wave foi o maior
movimento do Brock dado seu apelo junto a juventude de classe media,

2010
seja por sua linguagem pop-rock, ou por sua estética "modernete" ,
trazia em si a juventude como consumidora do rock nacional.

O que estiliza o início do Brock são as roupas coloridas e a


facilidade de absorção do rock feito no Rio de Janeiro.

O rock nacional como citado a cima se calca basicamente na


assimilação do que acontece fora do Brasil e consecutivamente de sua
aproximação do gosto nacional, algo como um rock internacional com a
boa pitada do sotaque brasileiro, no caso do Brock e da new wave
brasileira não seria diferente.

Bandas como Gang 90 e as Absurdetes, Eduardo Dusek e João


Penca e Seus Miquinhos Amestrados, Lulu Santos, Ritchie, são
responsáveis pela incitação a New Wave e a criação do que estaremos
chamando a seguir do próprio Brock dos anos 80, sua ligação com o
rock é clara e visível, sua indumentária é basicamente calcada na New
Wave, mas ainda lhes falta a abertura das grandes gravadoras, o
grande boom mercadológico, o real domínio da grande massa
consumidora, a aquisição da classe média brasileira.

2010
É aqui que temos a entrada da primeira banda à estourar como o
fenômeno jovem da década, os percussores do que viria a ser a
miscelânea de gêneros do rock nacional. “Os waves faziam pop-rock
elementar, às vezes alegre e bobinho, mas sempre ganchudo, como o
próprio B-52s ou o próprio Police” (ALEXANDRE, 2002, p.75)

Assim temos a estética do Brock, um agregado multicolor, com


seus terninhos com ombreiras, mostram essa primeira faze do Brock,
sendo seguidos logo após pela invasão carioca, com bandas como Blitz,
Barão Vermelho, Kid Abelha e as Abóboras Selvagens, Paralamas do
Sucesso, levando a formação de bandas mais coesas, com a idéia mais
crível de sonoridade própria, cada um desses ainda que calcados na
Wave traziam suas próprias sonoridades especificas, como o caso do
Barão Vermelho que trazia influencia mais Rock’n roll do que seus
companheiros do Rio de Janeiro.

Enquanto o Rio se materializava como o Rock mais praieiro,


despreocupado, São Paulo e Brasília já despendiam um rock menos
festivo, mais semelhante ao seu status de megalópole e capital
nacional. Ambas trariam uma noção maior quanto a participação de

2010
movimentos diferenciados do rock New Wave (ainda que o início do
Titãs com Sonífera Ilha seja um Ska basicamente descomprometido e
após a dissolução do Aborto Elétrico e sua configuração na Legião
Urbana e Capital Inicial, com músicas distantes da sonoridade punk),
fora em São Paulo e Brasília que o movimento Punk, e
consecutivamente o movimento dos Carecas (no caso de São Paulo),
adentrou ao núcleo das bandas similares a New Wave, e encontrou
assim sua maneira de participar ainda que brevemente do Brock
paulista:

“Bandas punks também foram convidadas a


freqüentar o circuito do rock paulista, como os
Inocentes e Ratos de Porão. Até as principais
bandas do rock brasiliense mantiveram um contato
estreito com o rock paulista e inclusive realizaram
shows em seu circuito”. (GROPPO, 1996, p. 239).

Notamos como a formação do mercado dos anos 80, e de suas


vertentes, construíram o alicerce para a formação do movimento do
Brock, e como sua estética acabou contribuindo para o fortalecimento

2010
do mercado musical junto ao jovem consumidor. Foi através do Brock
que o jovem brasileiro enxergou o rock nacional, não apenas como uma
música a ser consumida, mas também como um estilo de vida e de
ligações sociais. Este esboço serve para auxiliar o contato inicial com o
tema do Brock.

Espero que a partir disso tenhamos mais assuntos sendo


dialogados sobre esse tema, que é novo e deveras importante para o
entendimento do jovem e do mercado musical.

BIBLIOGRAFIA

GROPPO, Luís Antonio. O rock e a formação do mercado de consumo


cultural juvenil: a participação da música pop-rock na
transformação da juventude em mercado consumidor de produtos
culturais, destacando o caso do Brasil e os anos 80, Campinas, 1996.

ALEXANDRE, Ricardo. Dias de Luta, São Paulo, DBA Artes Gráficas,


2002.

DAPIEVE, Arthur. BRock: o rock brasileiro dos anos 80. Rio de


Janeiro, Editora 34, 1995.

2010
LIMA, Luiz Costa. Teoria de Cultura de Massa. Paz e Terra. Rio de
Janeiro, 7ª Edição, 2000.

http://br.geocities.com/rockinformacao949/fluhistoria.htm,
acessado em 21 de dezembro de 2008 às 21h 45min.

2010
ACERCA DA SEXUALIDADE:
SEXUALIDAD O QUE SE FALA, O QUE SE CALA... A
TRADUÇÃO DO DIÁLOGO DO TAO SUPREMO
SUPREMO PARA O MUNDO

Kamila Czepula

Sexualidade; falar sobre ela é ousar. Ousar invadir o espaço


proibido, o profano, o insano e violar o segredo da dita “moral
moral” que

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insiste em abordar o sexo de maneira fragmentada e reprimida. É
nesse jogo de disfarces tão elaborados, como o discurso do pecado, que
muitos ousaram infringir e fizeram eclodir nos anos sessenta e setenta
uma revolução sexual que tentava dissipar com essa sexualidade do
não dizível, do proibido, do censurado, aonde o sexo só era tolerado
como mecanismo de reprodução da espécie. Não há dúvidas de que
desde então, o campo da sexualidade sofreu uma evolução, pois a
liberalização da moral é um fato, assim como o afrouxamento dos
costumes. Mas e a repressão, terá terminado? Definitivamente não. O
que houve foi apenas uma camuflagem, uma ilusão, que conduz os
indivíduos a uma liberdade condicional; vemos na ficção (novelas,
filmes, revistas, dentre outros) o sexo sendo abordado como um ato
totalmente natural. Contudo, na vida real o chamado discurso do senso
comum continua com os velhos slogans e clichês de pecado, obsceno,
imoral, impuro, algo a ser fechado as sete chaves, evitado, escondido; a
sexualidade continua encarcerada, muda e hipócrita, ela grita e se cala,
colocando lado a lado o explícito e o silêncio.

Mas afinal, será que em algum momento da história a


sexualidade pode realmente ser vivenciada como um ato natural?
Seria possível falar de sexo assim tão sem clichês, sem anticlímax, sem

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preconceito, sem malícia e vulgaridade? Há quem diga que sim e quem
diga que não, outros afirmam que nunca saberemos concretamente tais
informações; o fato é, que as respostas para estes questionamentos
oscilavam entre o possível e o duvidoso, já que os conhecimentos
tangíveis sobre a sexualidade, ainda continuavam a ser uma incógnita.
No entanto, em 1973-1974 foram descobertos em uma tumba de
Mawangdui (província de Hunan), na China, uma serie de textos
daoístas, datados da época da dinastia Han. Dentre estes escritos
encontravam-se alguns tratados curtos, porém bastante elucidativos a
respeito da visão chinesa antiga sobre o sexo. Aliás, uma das
peculiaridades destes documentos é que eles comprovam, que a
sexualidade para os chineses não está vinculada ao pudor e a
austeridade, assim como o discurso da moral e do pecaminoso é
simplesmente inexistente; isso ocorre, porque na China antiga o sexo
era visto como algo natural e vital para existência de um ser, não é a
toa, que o primeiro livro de medicina chinesa o Neijing (Tratado
Interno) já fizesse referências abrangentes sobre o mesmo.

Para tanto, os textos de Mawangdui se distingue do Neijing ao


apresentar a atividade sexual como algo a ser a administrado, não
regulado; ou seja, entedia-se que o sexo era para ser saboreado,

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desfrutado, sendo considerado salutar, um protetor da vida, necessário
para a saúde física e mental, para o bem estar de homens e mulheres;
por conta disso careceria ser aprimorado, não realizado de maneira
controlada como propunha o Neijing. Por conseguinte, não seria
nenhum exagero dizer que estes escritos apresentam o sexo de
maneira revolucionaria, já que os mesmos não abordam o ato sexual
como sinônimo de amor, mas sim como um meio de alcançar a
harmonia, e o bem estar mútuo, aonde os parceiros tentariam
desenvolver o seu ritmo (jun), o qual desenvolvido, conseqüentemente
permitiria que o casal desfrutasse o mais puro amor. No entanto, não
era possível alcançar ou melhorar o amor se o casal não atingisse a
união perfeita, a cumplicidade; a qual por sua vez, não necessitaria
estar propriamente relacionada a união matrimonial, pois esse elo
poderia ser estabelecido entre duas ou mais pessoas, por um período
curto ou extremamente longo, já que o tempo é algo que somente as
pessoas que estão envolvidas podem estipular, pois o ato sexual é
entendido como algo bom que deve ser atingido, se alcançado carece
ser mantido e desenvolvido naturalmente. Mas, se realizado de
maneira paranóica, onde o bem estar e a sintonia inexistem, o
relacionamento deve ser simplesmente rompido. Num primeiro

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momento esses conceitos parecem não se distinguir muito dos
discursos machistas e dominadores tão marginalizados, mas
facilmente perceptíveis ainda em nossa sociedade; contudo, essa
idealização pode ser facilmente dissipada se analisarmos um ponto
nodal dessa filosofia o equilíbrio harmônico entre os sexos, ou seja,
temos que ter em mente que essa metodologia daoísta era empregada
a ambos os sexos, aonde tanto os homens quanto as mulheres
tentavam encontrar o ritmo juntos, para fazer do coito um encontro
memorável de satisfação e bem estar.

A ênfase dada à figura feminina nestes textos é explicitamente


clara, e não é por acaso, pois ela era considerada uma mestra da alcova,
aonde era admirada, e venera como uma deusa da natureza. A
concepção daoísta entendia que tanto Yin (mulher) quanto Yang
(homem) deveriam estabelecer relações de troca entre si, para que
pudessem assim encontrar a harmonia, pois somente encontrando o
equilíbrio Yang conseguiria manter-se em plenitude não ejaculando ou
regulando-a ao máximo ,e a mulher por sua vez alcançaria a satisfação,
pois seria estimulada a agir de modo ativo. Todavia, a “satisfação” na
visão daoísta, não se refere apenas a obtenção de um prazer imediato e
instantâneo, seu sentido é muito mais profundo, bem mais metafísico,

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pois envolve o cultivar de uma tranqüilidade mútua. Até mesmo
quando se refere “a técnica”, não se refere apenas a habilidade de
estocar e de ejacular de maneira controlada e pré-estabelecida; refere-
se muito mais ao desenvolvimento de todos os sentidos para que,
dessa forma,obtenha-se a verdadeira harmonia de Yin e Yang. Assim,
pois; fazer amor não é um ato mecânico mais uma experiência total.
Um violinista celo, exímio artista da técnica do dedilhado, ainda assim
não passa de um mero técnico, só será um artista quando conseguir
colocar todos seus sentidos e imaginação plenos dentro da música que
executa. O amor extasiante que os antigos mestres daoístas
propunham está bem próximo a isso.

Intrigante, paradoxal, essa é a sexualidade que grita e se cala, a


qual Freud, Foucault e tantos outros estudiosos ousaram em expor;
questionaram, e discutiram suas várias formas: nua e crua.
Apresentaram aquilo que normalmente não se apresenta na cena da
vida cotidiana, por não convir com a moral e os bons costumes.
Baseando-me neste contexto, o de exibir o indesejável, colocar em cena
o que deveria estar nos bastidores, que trago a tradução de um desses
textos de Mawangdui; escrito a mais de dois mil anos atrás, ele
apresenta a sexualidade de uma maneira consciente e sem

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preconceitos, a qual infelizmente, apesar das inúmeras discussões
realizadas recentemente sobre a importância da sexualidade na
constituição de uma sociedade, ainda somos incapazes de fazer, pelo
menos na sua totalidade.

Os segredos da alquimia sexual chinesa se desvelam a cada


capítulo do texto a seguir; a partir de um questionamento, são
abordados vários métodos que tem como princípio norteador a
complementaridade entre Yin (feminino) e Yang (masculino). No qual,
o homem assume o papel de um discípulo observador e atento, que
tem como principal objetivo atingir e proporcionar o máximo de
prazer que conseguir; utilizando-se de todos os sentidos deve levar a
sua companheira (uma mestra da alcova) a atingir os múltiplos
orgasmos. Se ele conseguir cumprir a sua missão, ambos desfrutarão
de uma saúde perfeita e longeva. Contudo, ele não deve ejacular,
porém, se não for possível evitar a ejaculação, deve ao menos controlar
a sua emissão seminal o máximo que puder, evitando assim, o
esgotamento da sua energia interna. É curioso, no entanto, que um
tratado como este que descreve a sexualidade como parte de uma
ordem natural das coisas, seja visto com hipocrisia e rotulado como
perversão, ainda por muitos. Neste contexto, pergunto aos leitores de

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ocasião, até quando falaremos de sexo anunciando sempre,
simultaneamente, a sua presença e a sua ausência? Talvez. “Eu prefiro
ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião
formada sobre tudo” (Raul Seixas, metamorfose ambulante).

Diálogos sobre o Tao supremo para o mundo

O Imperador Amarelo perguntou ao Espírito da Esquerda:

_ O Yin e o Yang, as nove entradas do corpo e os doze pontos mais


importantes nasceram ao mesmo tempo, porém os genitais são os que
“morrem” ou perdem suas funções primeiro. Por que razão?

O Espírito da Esquerda responde:

_ Porque os genitais não se empregam para trabalhar. Não jogam um


papel decisivo nas emoções nem nos ajudam a comer nem a beber; sua
morada se encontra muito oculta e não está exposta ao sol; a usamos
apressadamente, sem suavidade, sem deixá-los amadurecer, dessa
forma não conseguem agüentar a fricção do ato sexual, com o qual se
esgotam prematuramente. Evitamos pronunciar seus nomes e
ocultamos suas partes, os utilizamos sem mensura nem correção; por

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tanto, nascem com o corpo, porém são os primeiros a perder suas
funções.

2a parte

Se uma ereção não é completa, significa que a pele não foi energizada.
Se uma ereção não é firme, significa que os músculos não foram
energizados. Se é firme, porém não é quente, significa que a mente não
foi energizada.

Se a utiliza quando a pele não foi energizada, a ereção decairá. Se a


utiliza quando a mente não foi energizada, a ereção desaparecerá.
Quando os três elementos forem energizados, se denominará tríplice
disposição.

3a parte

[NA SEÇÃO 3 NÃO HÁ NENHUM TEXTO]

4a parte

Como a água, que misteriosamente tudo penetra, como a energia


primaveril e outonal; já que não se pode perceber aquilo que

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desapareceu, não se pode querer aproveitar-se disto; e como o que está
por vir não pode volver, observamos o presente. Tenha cuidado! O
brilho espiritual consiste em não ejacular. Retenha a ejaculação
cuidadosamente e surgirá o brilho espiritual.

Normalmente, cultivar o corpo físico estimula a acumulação de


vitalidade. Quando o corpo está cheio de vitalidade, deve gastá-la; e
quando carece de vitalidade, deve repor-la. A reposição da vitalidade
gastada se conduz a extremidade quando se quer ter vitalidade.

Neste exercício, sentem-se juntos, com a parte do ventre para baixo,


com o nariz e a boca de ambos em grande proximidade. Se a penetras
de súbito deixando-se levar precipitadamente pelo desejo, ejaculará
inutilmente e perderá a vitalidade. Como pode evitá-lo? O “esvaziando”
e o “enchendo”, seguindo normalmente algumas constantes;
empregue-as cuidadosamente e não as esqueça. Evite cansar-se em
excesso e escoar, e teus tendões e ossos se fortalecerão. Em seguida,
engula saliva e inspire ar fresco. Como norma, exale e inale com muita
suavidade, até que se sinta cheio. Quando a energia destas três
constantes em harmonia alcançarem seu zênite, o resultado será a
estabilidade e a força.

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Se deseja dominar este método, deve prestar muita atenção nas
instruções. Detendo a emissão do sêmen, poderá alcançar uma
extraordinária longevidade. Se o efetuar uma vez, teus olhos e ouvidos
voltarão a ser brilhantes. Duas vezes, tua voz será clara. Três vezes,
terá uma pele reluzente. Quatro vezes, tua coluna se endireitará. Cinco
vezes, tuas nádegas e coxas adquirirão uma bela forma. Seis vezes, teu
canal urinário se limpará. Sete vezes, tua mente será firme e forte. Oito
vezes, estará cheio de vida. Nove vezes, se harmonizará com o céu e a
terra. Ao fazer dez vezes, obterá um assombroso brilho espiritual.

5a parte

A energia tem oito fatores positivos e sete negativos. Se não pode


empregar os oitos fatores positivos e abandonar os sete negativos, a
sua energia física será reduzida a metade quando chegar aos quarenta;
aos cinqüenta, suas atividades declinarão; aos sessenta, sua audição e
visão serão defeituosas; aos setenta a parte inferior do seu corpo terá
decaído e a superior, debilitada; a sua energia sexual não funcionará;
seus olhos lagrimarão e o seu nariz gotejará.

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Há um modo de repor a força: elimine os sete fatores negativos para
dissipar as doenças e utilize os oitos fatores positivos para aumentar a
energia. Assim os velhos poderão recuperar a robustez e as pessoas
robustas evitarão a deterioração.

As pessoas cultas vivem rodeadas de comodidades, comem e bebem o


que desejam, a textura de suas peles são excelentes, sua energia e
sangue estão em plenitude, seus corpos gozam de grande mobilidade.
Se efetuar o ato sexual precipitadamente, não seguindo uma conduta
apropriada, acabará provocando enfermidades, transpirações,
respirará com dificuldade, terá transtornos internos e confusão mental.

Se não conseguir curar estas doenças, padecerá com febre interior. Em


tal caso segue um tratamento a base de plantas medicinais e de
moxabustão para estimular a energia, e ingira suplementos dietéticos
para aumentar o vigor físico. Se esforça em efetuar o coito, porém é
incapaz de seguir a conduta apropriada, verá afligido de hemorróidas e
o seu escroto se inflamará, padecerá violentas e sangrentas inchações,
disfunções nas entradas do corpo, fraqueza nas extremidades
superiores e inferiores, hemorróidas e úlceras. Desse modo, para

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utilizar os oito fatores positivos habilmente, deve eliminar os sete
negativos e não padecerá dessas doenças.

6a parte

Os oito fatores positivos são os seguintes: o primeiro, dominar a


energia. O segundo, lubrificar. O terceiro, conhecer o momento
adequado. O quarto, acumular energia. O quinto, lubrificar suavemente.
O sexto, acumular energia. O sétimo, manter o estado de plenitude. O
oitavo, estabilizar a ereção.

7a parte

Os sete fatores negativos são os seguintes: o primeiro, a oclusão; O


segundo, as perdas. O terceiro, o esgotamento. O quarto, a impotência.
O quinto, o transtorno emocional. O sexto, a alienação. O sétimo, o
desperdiço de energia.

8a parte

Para alcançar os oitos fatores positivos, levante ao amanhecer, sente,


endireite a coluna, relaxe as nádegas, contraia os músculos perenais e

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conduza a energia aos órgãos sexuais. Isto se denomina produzir
lubrificação.

Quando as carícias preliminares satisfizerem a ambos e quiserem


iniciar o coito, isto se chama conhecer o momento adequado.

Durante o coito, mantenha as costas relaxada, contraia os músculos


perenais e pressione para baixo; isto se chama acumular energia.

Não movimente o pênis depressa demais ou com movimentos rápidos


e próximos entre si; mova-o deslizando-o com suavidade e controle.
Isto se denomina lubrificar suavemente.

Quando estiver a ponto de finalizar, respire profundamente, evite


agitar-se, reúna a energia e pressione-a para baixo. Aguardando num
estado de calma física; isto se chama manter o estado de plenitude.

Quando terminar, limpe-se; retire o pênis enquanto ainda está ereto.


Isto se chama estabilizar a ereção.

Estes são os oitos fatores positivos.

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9a parte

Os sete fatores negativos são os seguintes: quando o coito resulta


doloroso, recebe o nome de oclusão interior. Suar com abundância e
ejacular prematuramente durante o coito se denomina perdas
exteriores. A hiperatividade significa esgotamento. A incapacidade de
realizar o ato sexual apesar do desejo se chama impotência. Fazer
ofegante e sem controle interior se denomina transtorno emocional.
Esforçar-se em copular sem sentir desejo significa alinhamento. Fazer
com muita pressa equivale a desperdício. Estes são os sete fatores
negativos.

Portanto, se emprega habilmente os oito fatores positivos e elimina os


sete negativos, terá os olhos e ouvidos brilhantes e claros, seu corpo
será ligeiro e ágil, sua energia sexual aumentará dia a dia, viverá mais
anos, a duração da sua vida aumentará e gozará de uma perdurável
felicidade.

10a parte

Os seres humanos nascem sabendo fazer duas coisas sem haver


aprendido: uma é respirar e a outra alimentar-se. Todas as demais

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devem ser aprendidas e praticadas. Portanto, como a nutrição favorece
a saúde e por outro lado à sensualidade a debilita, a pessoa inteligente
segue necessariamente algumas normas com relação ao coito entre
homem e mulher.

11a parte

Assim, pois, a primeira se chama [os tigres divertindo- se] a segunda, [a


cigarra agarrando-se], sendo consciente de respirar externamente; a
terceira [minhoca]; a quarta, [o cervo erguendo os chifres]; a quinta, [a
fênix estendendo as asas], sendo consciente de respirar internamente;
a sexta, [os macacos em cócoras], sendo consciente de respirar
externamente; a sétima, [os sapos]; a oitava, [os coelhos brincando]; a
nona, [as libélulas], sendo consciente de respirar externamente, e a
décima, [alimentando o peixe]. Estas são as dez posturas.

Os dez refinamentos são energizar, engolir a saliva, controlar o pênis,


estimular o clitóris, assegura-se de fazer no momento adequado, unir-
se através do coito, mover-se com suavidade, esperar o estado de
plenitude, chegar ao clímax juntos e descansar fisicamente.

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As oito classes de penetração são para cima, para baixo, para a
esquerda, para a direita, profunda, superficial, depressa e devagar.

Quando estiver pronto para efetuar os dez refinamentos e preparado


para as dez posturas, efetuará o coito pela noite utilizando várias das
oito classes de penetração. Antes de começar a suar, conduza a energia
aos genitais, retenha a respiração e faça vibrar as partes íntimas, assim
limpará os vasos sanguíneos e flexibilizará os ligamentos. Observa os
oito movimentos da mulher, onde está sua energia, e como geme e
suspira para decidir o próximo passo que vai dar.

12a parte

Os oito movimentos da mulher são: abraçar, empurrar, estirar-se


plana, estirar as pernas, cruzar as coxas, vibrar, rodear com as pernas
os lados do homem e rodear com as pernas a parte superior deste.

Os sons que emite são: respirar sonoramente, ofegar, suspirar, gemer e


mordiscar. Observa seus sons atentamente, para saber quê é o que
sente; observa seus oito movimentos cuidadosamente, para conhecer o
que ela gosta e funciona.

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Quando abraça o homem, deseja que os estômagos se toquem, quando
lhe empurra, quer que lhe estimule o monte de Vênus. Quando lhe
abraça com suas pernas os lados, deseja que a estimule lateralmente.
Quando cruza as coxas, significa que a penetração é demais profunda;
quando estira as pernas, quer dizer que a penetração não é o
suficientemente profunda. Quando rodeia com suas pernas a parte
superior do corpo do homem, significa que não está penetrando até o
fundo. Quando se estremece, significa que goza muitíssimo. Estas são
as chamadas oito observações.

Quando a energia ascender e queimar as suas faces, beije-a lentamente.


Quando seus seios ficarem eretos e seu nariz começar a gotejar,
abrace-a com lentidão. Quando suas línguas se cobrirem com uma
tênue camada e estiverem escorregadiças, unias pouco a pouco.
Quando as coxas da mulher se umedecer com as secreções,
movimente-se pausadamente. Quando sua garganta secar e começar a
engolir saliva, mexa-a lentamente. Estes são os chamados cinco sinais.
Relacionam-se com as cinco expressões do desejo. Quando os cincos
estão presentes, pode-se iniciar o ato sexual.

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Quando a ereção não é completa; significa que a pele não foi
energizada. Quando é completa, porém carece de firmeza, significa que
o músculo não foi energizado. Quando é dura, porém não é quente
significa que não há desejo. Quando os três fatores estiverem
energizados, pode-se então, efetuar a penetração.

Com a primeira consumação, surge um claro frescor. Com a segunda,


aparece um odor similar ao dos ossos carbonizados. Com a terceira,
sente-se um ardente calor. Com a quarta, surge uma secreção oleosa.
Com a quinta, aparece um aroma como de cereais. Com a sexta, a
secreção sexual se devolve viscosa. Com a sétima, se torna pegajosa.
Com a oitava, se devolve gordurosa. Com a nona, se espessa. Com a
décima consumação, se alcança o clímax; o corpo volta a umedecer-se e
depois aparece a sensação de uma fresca e renovada energia.

Localiza e estimula: a entrada e a ante-sala da vulva, os lábios maiores


e menores, o clitóris, a entrada muscular da vagina, as paredes
vaginais, a parte superior e inferior, a parte direita e esquerda e a
entrada do colo do útero; retire o pênis antes de perder a ereção.
Conduza a energia para a carne e a pele, e deposita-a na cintura e no
interior do corpo. Seus lábios empalidecem, o suor aparece na parte

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posterior dos joelhos, agora está contando os cem movimentos de
penetração.

13a parte

O bom amante não se impõe a mulher; só quando esta o deseja ter um


bom amante para fazer amor. Não te precipite, não seja dominante, não
a force, porém tampouco duvide. Assegura-se de ir lentamente para
prolongar o ato e de fazer com suavidade para manter o autocontrole,
desse modo não chegará ao clímax quando está a ponto de ter; e a
mulher gozará enormemente.

Se respirar com a boca aberta, expulsa a energia negativa e aumenta a


positiva. Arquejar significa que a respiração está rápida; agora a vagina
se abre. Os suspiros vão acompanhados de um rápido movimento das
nádegas para estimular os lábios vaginais. Os gemidos da mulher
indicam que sente um intenso prazer e o início da tensão pré-orgasmo.
Mordiscar significa que alcançou o clímax e quer continuar.

Assim pois, o homem se classifica como yang, e o yang se associa com o


externo; em compensação, a mulher se classifica como yin, e o yin se
associa com o interno. A estimulação do homem é exterior e a da

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mulher, interior; isto se chama a lógica do yin e do yang, a razão da
mulher e do homem. Se realizado erroneamente, o erro reside
simplesmente na metodologia.

O essencial é que o prazer que surge entre mulheres e homens se


saboreie lentamente, se prolongando durante longo tempo. Se o
homem é capaz de atuar com lentitude, e seguir durante muito tempo,
a mulher experimentará um grande gozo e sentirá por ele uma
amizade mais profunda que aquela entre irmãos, e um amor mais
intenso que dos pais para com seus filhos. Quem conseguir dominar
esta ciência receberá o nome de cavalheiro celestial.

Considerações Finais

Nas entrelinhas desse texto encontramos uma metodologia


daoísta que antecipa em séculos a valorização ao feminino e a ideia de
harmonia sexual entre os sexos. Pudemos ainda constatar que o
principal objetivo desse tratado é a sistematização de um método que
possibilitasse a realização de um ato sexual harmônico, saudável, e
consequentemente prazeroso; no entanto, essas “técnicas” descritas
não era algo para ser cumprido ao pé da letra, mas sim, uma orientação

2010
aos amantes, para que estes pudessem desenvolver todas as suas
habilidades, e sentidos, para que desse modo, conseguissem atingir o
seu ritmo ideal. Transformando o ato em algo inesquecível, não tanto
pelas performances, mas sim, pela troca generosa, em que o bem estar
e a satisfação é experimentada lentamente por ambos. Quem diria que
isso foi escrito há mais de dois mil anos atrás...

Referências Bibliográficas:

BLOFELD, J. Taoísmo a busca da imortalidade. São Paulo:


Pensamento, 1979.

CHANG, J. O Taoísmo do Amor e do Sexo. Rio de Janeiro: Artenova,


1979.

CLEARY, T. Sexo, salud y Larga Vida. Madrid: Ouro, 2000.

HEILMANN, W. Fang Chung Shu. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997.

VAN GULIK, R. La vida Sexual em la China Antigua. Madrid: Sirvela,


2005.

2010
ESTE DIABO EMPACA POR QUALQUER COUSA: COSTUME E
MODERNIDADE NA DÉCADA DE 1870 A PARTIR DO PERIÓDICO A
VIDA FLUMINENSE

Marcio Renato Marques

Resumo:

A proposta deste artigo é discutir a partir de algumas edições do periódico “A Vida


Fluminense” as relações pelas quais as idéias referentes à “modernidade” foram
construídas, tomando como referência dois modelos explicativos para se entender
as passagens da monarquia à primeira república: a questão militar e as discussões
relativas ao clero. Não é nosso fito nestas breves paginas, expor através de
hipóteses mais abrangentes, um direcionamento mais palpável para explicar o fim
do regime monárquico. Nossas perguntas partem das discussões que se iniciam na
década de 1870 e que serão expostas através das charges e das notas do jornal,
fazendo referência quando falam de modernidade e a discrepância em relação ao
“costume”, as medidas higienistas no combate à febre amarela, diga-se de
passagem, um embate simbólico entre uma irrisória elite branca em meio a um
emaranhado de culturas africanas e de uma população predominantemente
mestiça.

Palavras-chave: Império, modernidade, periódicos.

2010
Dentro da historiografia especializada em discutir as passagens que
percorrem da monarquia ao império, tomou forma a idéia de que a
monarquia nos trópicos se fragilizara graças à inépcia, ora do quadro
político, ora do imperador, que não conseguira realizar após 1850, com
a mesma eficácia, suas manobras políticas com o fito de não
desagradar liberais (luzias), nem conservadores (saquaremas). A
perenidade do regime monarquista, incrustado caprichosamente em
um continente que abraçara calorosamente o republicanismo era
dependente da continuidade de monolíticas estruturas econômicas
enraizadas no trabalho escravo, observação feita por Emilia Viotti da
Costa 1 , através da observação de um discurso aparentemente
consensual. Hipoteticamente falando, não buscamos reduzir o valor
atribuído pela historiografia do Segundo Império e da República a
outros fatores intrínsecos, sobretudo no que diz respeito aos militares
e as controvérsias religiosas. Não é nosso fito, portanto, apontar de
uma forma mais apurada uma solução para se reduzir o problema dos
“motivos” pelos quais a República florescera, nem julgar
arbitrariamente os motivos do malogro do Império, e sim a partir da
análise de nossas fontes, debater pautadamente questões relativas ao
1COSTA, Emilia Viotti Da. Da Monarquia à República: Momentos Decisivos. São
Paulo: Editora da UNESP, 1999.

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descompasso entre a “modernidade”, o “progresso”, a “polidez”, e a
“cientificidade”,quando inseridos conjuntamente,aspectos mais
palpáveis na vida cotidiana fluminense.

O objetivo deste breve artigo é, portanto, solucionar algumas


questões que são exteriorizadas na década de 1870 pelo periódico “A
Vida Fluminense”. Dentre as suas temáticas, observamos um debate
satírico, por vezes implícito entre o costume e a idéia de progresso,
oriunda da difusão do pensamento positivista. Nossas perguntas, em
linhas gerais estão ligadas as formas pelas quais a Guerra do Paraguai
era retratada pelo jornal, fator ligado a um retrato heróico da ação dos
militares, que produzirá progressivamente a idéia de “Salvação da
Pátria”, apontando não obstante uma inclinação para a crítica clerical,
bem como criticando a incapacidade do Império de combater
satisfatoriamente epidemias como a varíola e a febre amarela.

Pretendemos discorrer inicialmente sobre “Costume” e


“Modernidade”. Estamos presos de inicio aos sentidos destes dois
conceitos, fator que acarretará na necessidade perceptível de uma
exposição teórica mais pautada. Iremos sugerir de forma bastante
modesta, tendo em vista os problemas que o debate conceitual é capaz

2010
de exteriorizar, um diálogo entre modelos explicativos de naturezas
distintas, que poderão para nosso objeto, gerar uma observação turva
sobre nosso recorte temporal.

O termo “Costume” fora aproximado pela história cultural de uma


matriz definida como “cultura popular2”, eixo de práticas ligadas à
posição social de um grupo, reprodutora circunstancialmente de sua
condição material, que definira uma dicotomia entre o que
familiarmente era cabível aos indivíduos, a partir da característica do
grupo social. Segundo as observações de Bourdieu3 sobre a condição
de classe, é negado o discurso que reproduz a exterioridade de um
“grupo de status”, simulacro de condições materiais virtualmente
inexistentes, representadas simbolicamente. Em suma, a “Cultura
Popular” prende as suas amarras quaisquer representações do que

2 Os debates acerca de como se define uma “cultura popular” são bastante


fecundos. Dentre as duas grandes correntes teóricas é perceptível que: uma destas
defende a idéia de que a cultura popular opera suas ações a partir de um sistema
simbólico coerente e irredutível e alheio a cultura letrada; já o segundo grande
modelo pensa a cultura popular a partir de suas carências e dependências frente a
uma “cultura dominante”. Cf: CHARTIER, Roger. Cultura Popular: Revisando um
conceito historiográfico. In: Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 8, n. 16,
1995. (pp.179-192)
3 BOURDIEU, Pierre. Condição de Classe e Posição de Classe. In: A Economia

das Trocas Simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2004. (pp.3-27)

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seria o “costume”, uma vez que não reconhece a “dissimulação”, a
“teatralização” aparente na defesa do direito consuetudinário;
problema aparente a partir do século XVII como sugeriu Thompson ao
falar sobre derradeiros embates que perpassavam do meio campesino
ao industrial e urbano: a rough music como charivari tardio exprime
como exemplo tais tensões. Um modelo comparativo capaz de pinçar,
analogamente elementos de similitude entre o “costume” para o
trabalhador camponês de uma Inglaterra setecentista que se adaptava
gradativamente, as exigências das novas formas de trabalho e um
regime de mão-de-obra vinculado profundamente a dependência do
regime escravista, pode ser elaborado a partir de uma observação
pautada na subjetividade, sugestiva a partir de tentativas de
aproximação. (THOMPSON, 1998.)

É negada corriqueiramente, segundo Bourdieu uma interpretação


weberiana de que o campo simbólico é reprodutor de uma ideologia,
dos desdobramentos da permanência de uma forma de dominação
estatal. A partir deste crivo, o “costume” quando imerso de uma
“cultura popular” é apenas um “consenso” da tradição, das práticas
imemorialmente aceitas e reproduzidas, enraizadas no que seria
“nativo”, sentido que evidencia uma similitude quando comparamos a

2010
acepção aplicada por uma “teoria teórica4” do conceito de habitus,
exprimindo: “sobretudo a recusa a toda uma série de alternativas nas
quais a ciência social se encerrou”.Tais alternativas de que fala
Bourdieu são ligadas intimamente ao finalismo,ao mecanicismo,a
consciência e ao inconsciente,terrenos ainda pantanosos no que diz
respeito a uma teorização que de forma eficaz seja capaz de produzir
modelos explicativos.Em outras palavras,no sentido inicial do
conceito,o habitus é um refúgio dialético para a teoria,intermediador
do campo simbólico que propõe a dualidade analítica da cultura
imaterial,evidenciando com maior clareza,certa “passividade” e não
seu aspecto “criador” ou “gerador”.

Entendemos que o habitus não e apenas uma confluência de um


discurso ideológico que reproduz as relações de poder perpetuadas,
retido em um “ensimesmamento5“. Sendo reprodutor de uma estrutura

4Teoria “teórica” no sentido de que não faz alusão à práxis, ou quando a faz, produz
um discurso superficial, elemento gerador do lapso entre o campo teórico e a
aplicabilidade. Cf: BOURDIEU, Pierre. A gênese dos conceitos de Habitus e de
campo. In: O Poder Simbólico. Lisboa: Difel Editorial, 1989. P.59-60
5 O conceito de “Ensimesmamento” correlato ao nosso diálogo acerca do costume

aparece para Ortega Y Gasset como síntese do individualismo moderno ou “pós-


moderno”, pautado em uma espécie de “ostracismo mecânico”, conseqüência da
consolidação de uma sociedade industrial. Cf: ORTEGA Y GASSET, José. El Hombre
Y la Gente. Buenos Aires: Ibero-americana, 1960.

2010
estruturada, buscará estabelecer novo desdobramento ligado a práxis
do grupo social, e entraves que distanciem esta esfera da organização
estatal, dantes vista como legitima produzirão senão embates sociais,
tentativas de diálogo pela “reestruturação da estrutura” incapaz de se
“auto-reproduzir”. Mediante este exemplo, podemos situar a
Cemiterada e seu contexto, no que diz respeito ao desejo de
manutenção da “tradição” dos ritos funerários baianos, em
interessante estudo de Reis. Nele a tentativa de manutenção do
costume era perpassada pela estrutura das Irmandades, vinculada não
necessariamente a efetuar uma reprodução fiel da organização social.
As ações jurídicas que segmentam o monopólio da “economia do bem-
morrer”, revestidas pela idéias higienistas bem como o fatídico destino
do cemitério do Campo Santo são representações possíveis de nossa
tentativa de inserção adjunta ao modelo teórico, simplificado de forma
bastante pobre em relação a sua complexidade nestas breves linhas.
(REIS, 1991.)

Segundo as observações de Thompson acerca da legitimidade do


“Costume”, percebemos que ele se cristaliza de fato, torna-se mais
perceptível quando sua continuidade é posta em xeque, por elementos
nem sempre exteriores a sua prática, e ainda perdura

2010
indubitavelmente frente a uma proibição, adquirindo a forma de
“revolta”. Para nossos problemas, no entanto,ele aparece de uma forma
mais imprecisa, nem tanto voltada a uma observação minuciosa. Não
nos esqueçamos que observaremos mais adiante os retratos pintados
por um jornal panfletário, inflamado papel volante que visara trazer
lume através das caricaturas, para os problemas da administração
imperial. Tal qual para a Cemiterada problematizada por Reis, onde é
verificável o discurso higienista, “cientifico”, “moderno” e “benéfico
para a sociedade”, nos interessa retratar, apesar de todas as limitações,
um descompasso polissêmico: não apenas político, mas visto
“ideologicamente” pelas classes letradas como emblema de uma
maturidade estatal, como se o jovem império estivesse as vésperas de
competir tecnologicamente com a Europa. Segundo Schwarz6,as “idéias
estão foras do lugar”,um império escravista e predominantemente
agrícola quer seguir a “curva ascensional” do progresso,quer tornar-se
moderno,encontrando-se através do discurso muito próximo à
realidade européia,apesar da prática estar atrelada ao
“favor”.Acreditamos que esta busca desenfreada pela modernidade se
6SCHWARZ, Roberto. As Idéias estão fora do lugar. In: Ao vencedor as batatas:
forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro. São Paulo:
duas cidades; Ed.34.2000.(pp.9-33)

2010
traduz a partir de suas relações conflituosas,em um “processo
civilizador”.José Murilo de Carvalho em “Os Bestializados7” deflagra as
medidas sanitaristas no Rio de Janeiro da primeira república,
observados circunstancialmente como “fenômenos republicanos”.A
retirada das escarradeiras não é uma tentativa de imputar uma forma
de “civilité8” a um povo que nem de longe,vislumbrava uma “curva
civilizacional”,como diziam fazer as “classes dominantes”?Mediante a
construção de um “Processo Civilizador”, consolidado a partir de
tentativas de uma “desbarbarização dos costumes” conservamos de
fato a mesma morfologia das relações de poder herdadas de um Antigo
Regime moribundo na Europa, que aderira pela negociação e pela ação
organizada de grupos de negociantes, ditos “burgueses” e a ideologia
liberalista conseqüentemente, a uma nova forma de se conceber o
“Estado”, desejoso de parecer ser “moderno” e materialmente, filho
convicto das estruturas nobiliárquicas lusitanas. Falamos e
circundamos demoradamente, o problema de ser “moderno” no século
XIX. Passemos a esmiuçá-lo com maior cuidado adiante.

7 CARVALHO, José Murilo de. Os Bestializados: O Rio de Janeiro e a República


que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
8 ELIAS, Norbert. O Processo Civilizador – uma história dos costumes (vol. I).

Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.

2010
A idéia geral de modernidade é um fenômeno particular do
ocidente, ocorrendo, sobretudo a partir do século XVII e cuja
delimitação é bastante imprecisa. Há um grande lapso entre a
“banalização” do conceito de modernidade e um “discurso filosófico”
da modernidade, como problematizara Habermas, acerca das variações
de sentido e das construções de modelos interpretativos pós
kantianos: a filosofia como “filtro” de uma aplicabilidade da ciência é
deslocada para uma corrente de análise mais “prática”, tendo em vista,
as modificações no cotidiano do homem do século XIX. Buscaremos
encontrar de forma bastante resumida, uma coerência entre a idéia de
modernidade, a partir de um modelo de interpretação, capaz de trazer
um sentido mais amplo as nossas tentativas de análise das fontes.
Falando nestas, passemos a explicar a origem de tal título incomum:
refere-se a legenda de uma das charges utilizadas pelo jornal que
traduz,a partir do que falara Schwarz nossa situação no império a
respeito de uma modernidade9.Nela observamos uma alegoria do
Brasil,um índio montando um burro que está a pastar enquanto a
modernidade se distancia: abaixo está a legenda “este diabo empaca

9 Cf: Fig.1. (Anexos)

2010
por qualquer cousa”, o progresso está sempre próximo mas se
distancia.

Como se distancia para o jovem império do Brasil?O discurso que


permeou a idéia de modernidade sempre buscara ocultar as
ambigüidades do universo social de uma sociedade escravocrata,
mestiça e alheia as decisões políticas;contraste a vida faustosa da
corte,que teimava em reproduzir as tradições da nobreza lusitana,já
moribunda na “Europa moderna”.O índio montado no burro,alegoria
por excelência do exótico império

Costumamos designar como “pós-modernos” ou com outros


equivalentes, todos os indivíduos que viveram após a consolidação de
uma sociedade eminentemente capitalista. Para caracterizar de uma
forma complementar as origens do que de fato é ser moderno,
dispomos de três grandes vertentes teóricas, que apesar de releituras
conservarão alguns argumentos: os marxistas entenderão que a
modernidade é fruto exclusivo da exploração dos proletários pelos
proprietários, uma busca desenfreada pelo capital; Durkheim em
contrapartida dirá que a divisão social do trabalho,fragmentado a
partir de “graus de qualificação” será a responsável por um modo de

2010
vida mais pragmático e por fim,Weber entenderá que há uma interface
entre esta divisão social do trabalho,imputada por Durkheim e o
sistema burocrático do Estado,detentor do “monopólio do uso da
violência”.

Anthony Giddens 10sugere que a modernidade é caracterizada


pelo diálogo entre as fichas simbólicas e os sistemas peritos.Segundo o
autor,as primeiras são sistemas de valorização de mecanismos
reconhecidos por toda a sociedade,semelhantes ao “fetiche” discutido
pelo marxismo acerca do capital,exemplificado pela “moeda”.Os
“sistemas peritos” podem ser entendidos como decorrentes da
especialização do trabalho,onde são criadas “autoridades
reconhecidas” ligadas ao campo profissional,elementos que sugerem
uma certa “confiança”,materializada na noção de “risco”.

Podemos exemplificar esta relação da seguinte forma: um


tratamento médico dito “moderno” funcionará em função do
pagamento de algo reconhecido pela sociedade, que simbolize o “valor”
(as fichas simbólicas), e a opção por um especialista aparentemente

10GIDDENS, Anthony. As Conseqüências da Modernidade. São Paulo: UNESP,


1991.

2010
desperta a sensação de “confiança”, pois o médico é parte de um
“sistema perito” ligado ou não ao Estado. A opção por “outra forma” de
“tratamento” que não a ligada aos sistemas peritos remontará à
tradição, e poderá se aproximar ao “costume”. Por esta lógica, a
modernidade reconstrói os sentidos de tudo o potencialmente é, ”para
como deve ser”, obedecendo no século XIX ao que o “Progresso”
sugere. Mas falando de Brasil a partir do que sugeriu Giddens, falamos
de uma “pré-modernidade”: há uma importância excessiva na
confiança localizada, ou melhor, uma “grande confiança” representada
pela figura do monarca, pai da nação no inicio do reinado. Nesta “pré-
modernidade” as relações de confiança estabilizam os laços sociais, a
comunidade é vista como um lugar, e a tradição assegura a passagem
do presente ao futuro e as cosmologias religiosas constroem uma
“segurança providencial”.Por esta lógica,a “proteção” oriunda da
religiosidade garante a graça (pois o cristianismo é como percebera
Weber,uma religião de “salvação”),a manutenção das relações sociais;e
a antiga “grande confiança” no monarca é reduzida
gradativamente,graças as mudanças que ocorrem no império após
1850(representando um eclipse da pré-modernidade e o florescimento
de uma “modernidade”).Mas o que de fato faz com que ocorram tais

2010
mudanças?Afinal de contas o que se altera?Preocupamo-nos em falar,
acredito que excessivamente sobre dois conceitos, mas até então não
relacionamo-los com o panorama político no Brasil do século XIX.
Passemos a observá-lo resumidamente adiante.

Profundas mudanças econômicas, políticas e sociais marcaram as


passagens do período colonial para o império. Após a chegada da
família real em 1808, inicia-se uma profunda transformação não
apenas política (com o Reino Unido), mas institucional: a mudança da
corte criara além de uma pequena “nobreza brasileira”, novos
caminhos com a proximidade da coroa antes distante além mar. Inicia-
se conjuntamente o processo que conduzirá a independência e ao
Reinado de D. Pedro em 1822, por sinal bastante curto e atribulado.
Entre o término de seu reinado e o golpe da maioridade, está situado
um período de grande instabilidade: a Regência que tivera de conter
inúmeras insurreições que pululavam em todos os cantos do império.
D.Pedro II subira ao trono para ser a panacéia de todas estas desordens
e para garantir a unidade territorial. É justamente a partir da
conjuntura política compreendida entre o inicio de 1840 e as três
décadas seguintes que tentaremos analisar a ambiguidade do discurso
a respeito da modernidade, refletida na belle époque fluminense, com

2010
seus teatros e costumes à francesa da Rua do Ouvidor e o “necessário
arcaísmo colonial” da sociedade escravocrata. Iniciemos nossa
observação a partir de um paralelo entre nosso zombeteiro jornal e um
conflito armado que iniciara um grande descontentamento militar,
intimamente ligado mais tarde a primeira república.

Rozière, Taunay e os Voluntários.

O periódico a “Vida fluminense” dedicara importante espaço à


valorização dos militares quanto à participação na guerra do Paraguay.
Mas de que forma o jornal retratara a ação militar?Quais eram os
parâmetros que evidenciavam a “bravura” do exército brasileiro?Como
o cotidiano da guerra chegara através da imprensa até os leitores
fluminenses? Passemos a analisar as questões a partir de uma
dicotomia implícita, presente ao longo de algumas edições (110 a 116,
publicadas em 1870).

O jornal neste período reproduzira uma grande discrepância entre


os oficiais e os meros voluntários, uma defesa indubitável do papel do
exército durante o conflito, que por ser a marca do jornal, ganhara ares
de comicidade. Quanto às figuras ilustres como Albino de Rozière e
Alfredo de Escragnolle Taunay,dedicara copiosos elogios: eram

2010
indivíduos “bravos”, elogiados “na ordem do dia” pela sua competência
nas atividades bélicas e donos de “uma copia de conhecimentos pouco
comum a sua tenra idade11“. O segundo, aliás, era a partir do retrato
pintado pelo jornal, um individuo eloqüente, que cultivara hábitos
louváveis para uma sociedade que admirara o domínio de outras
línguas:

Escrevendo em francez, quis sem duvida o


Sr.Taunay tornar bem conhecidas na Europa as
immensas dificuldades d´aquela expedição,em que
um punhado de bravos,para fugir à cruel
perseguição de um inimigo,que não poupava nem
decrépitos nem crianças,teve de atravessar densas
mattas virgens[...](FARIA,1870,p.2)

Notemos que a guerra era feita, aos olhares da sociedade, por


poucos “bravos”, “punhados” de homens brancos ligados a favores
cortesãos que permanecerão monarquistas mesmo após a
proclamação da República. Quanto aos elementos que Costa

11 AGOSTINI, Angelo; FARIA Candido Alves; BORGOMAINERIO, Luis. A Vida


Fluminense: folha joco-seria-illustrada (no 110). Rio de Janeiro: Typographia e
Lithographia da Editora Rensburg, 1870. (p.2)

2010
identificara como hipóteses para se explicar a degringolada do império,
a idéia de “Salvação da pátria” na qual, sobretudo os militares de baixa
patente se envolveram,percebemos uma relação muito íntima com o
“reconhecimento” após a guerra. O caso de Taunay a partir da
publicação de obras em francês mostra que um retrato fidedigno da
guerra chegara ao público letrado por vias tortuosas, suscetíveis a
deturpações que engendrassem um “enaltecimento individual”: era
necessário fazer soar “música aos ouvidos” da Vossa Majestade, e em
contrapartida receber os louros pelo seu intento. A barbarização das
ações paraguaias era evidente: criara-se um imaginário particular
envolvendo a participação destes no conflito, um caminho ambíguo
que buscara como acreditamos uma glorificação do exército imperial a
partir de uma representação desumana dos inimigos.

A defesa da imagem de Rozière se demonstrara mais prolongada.


Na edição seguinte, fez-se presente uma continuação das palavras
elogiosas destinadas a exaltar a ação dos militares na guerra, uma vez
que lhe foram negadas mercês prometidas por Sua Majestade antes da
campanha. A edição de número 112 lhe dedica boa parte da introdução
com o fito de justificar sua bravura, pautando em breves linhas sua
carreira como militar. A principal justificativa do jornal em defesa do

2010
alferes é referente ao fato de que este mesmo após o retorno da guerra,
em decorrência de sua saúde debilitada, prestara honrosos serviços ao
império, acompanhando o próprio imperador aos campos de batalha.
Fora esquecido, no entanto em meio à escola de aprendizes, situação
não condizente com seus “bravos feitos” segundo o jornal: como o de
carregar sozinho companheiros feridos em meio a um “chuveiro de
balas” no combate da Ilha do Cabrita. Mesmo sendo designado como
“assistente do deputado general” após a chegada ao Paraguai, ainda
transparece através do jornal o sentimento de valorização não
condizente com o papel relevante de suas ações. Temos desta forma
uma diferença crucial quanto às funções exercidas pelos militares e a
importância atribuída a elas pelo governo imperial. O cargo dado como
“mercê” de D.Pedro II soara como apenas um paliativo, fruto da
“docilidade” de Rozière após seu retorno, mas deixara uma questão
bastante latente relativa à sorte dos combatentes após o término da
guerra. Mas afinal de contas, como nosso monarca distribuía tais
benesses?Lilia Moritz Schwarz 12 observara a constituição de uma
nobiliarquia brasileira completamente atrelada ao caráter meritório e
não hereditário, não reduzindo a titulação dos nobres apenas a uma
12SCHWARZ, Lilia Moritz. As Barbas do Imperador: D.Pedro II um monarca nos
trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

2010
representatividade vultosa da proximidade com a corte, visível nos
grandes bailes e festas. Dentre os benefícios concedidos pelo monarca
estão além das condecorações pelas ações em guerra, típicas de barões
do antigo regime europeu, (do latim baro, varão; aproximação não
utilizada para designarmos entre outros, os grandes fazendeiros que se
tornaram detentores da titulação) cargos de nomeação, decorrentes de
graus de proximidade. Rozière não se sentira possivelmente satisfeito,
talvez almejasse como muitos, desfrutar na Rua do Ouvidor os frutos
de uma belle époque tropical, integrando o seleto grupo de “pessoas de
confiança” da corte. Como a esmagadora maioria de indivíduos
envolvidos na guerra, Rozière assim como todos os oficiais de menor
envergadura no exército, sentira-se desprestigiado. Taunay
representara o alto oficialato, tornara-se amigo de D.Pedro e ferrenho
monarquista após a Proclamação da República: em poucas páginas, de
“A Vida Fluminense” percebemos a grande diacronia pela qual era
observada a atuação dos militares na guerra do Paraguai.

2010
Um breve soneto publicado na edição 111 13 do periódico
representa metaforicamente esta relação de “esquecimento” ou
“desvalorização” dos combatentes:

Tenho pena de ti, meu velho baio,

Co´a meretriz14 não fosse agraciado,

E demais, soffres couces resignado [...]

Foste bravo em combates, fostes raio

No correr foste gordo e arroçoado:

Hoje estas reduzido a tal estado

Que a cada instante vejo-te em desmaio.


(anônimo,1870, p.7)

Este breve recorte, cujo titulo “o baio” fora escrito segundo o


jornal em meados de 1869, e de suposta autoria anônima.

13 AGOSTINI, Angelo; FARIA Candido Alves; BORGOMAINERIO, Luis. A Vida


Fluminense: folha joco-seria-illustrada (no 111). Rio de Janeiro: Typographia e
Lithographia da Editora Rensburg, 1870.
14 Honra meritória segundo a nota do jornal.

2010
Provavelmente fora elaborado por algum antigo combatente já
distante do Paraguai, uma vez que a sugestão do jornal, apontando
para um manuscrito apenas encontrado parece pouco provável. Há de
se notar a utilização de linguagem comum aos soldados,
principalmente ao se referir aos méritos concedidos. Nele observamos
através da metáfora, o esquecimento dos soldados e do baixo oficialato.
Nem com o menor dos méritos era o soldado das frentes de batalha
homenageado, lembrado nos instantes que sucederam o término do
conflito, sendo esquecido após o valor reconhecido ter se esvaído. A
invalidez de muitos ex-combatentes também não fora esquecida: por
trás da fundação de um sentimento patriótico durante a ação militar,
repousa a breve memória do jovem império, no que diz respeito à
valorização do veterano de guerra.

Vejamos outro retrato que diz respeito à guerra, presente na


mesma versão do jornal intitulado “Versos de um voluntário”, uma
homenagem ao jabá15:

Mas do Lopez a campanha/no deserto é


prosseguida [...] a tropa então desmaiando ante a

15 Idem. Equivalente a ração de charque distribuída entre os soldados.

2010
fome, recordando a sua injustiça está [...] Por falta
d´elle recuaram/De Matto Grosso os valentes,
quando-nobres imprudentes-No Paraguay se
internaram. (anônimo, Ed.111, p.6)

A falta de víveres contrasta com o descontentamento em relação ao


tratamento recebido quando comparado ao dos nobres durante a
guerra. Vemos acima a nítida distinção entre os “valentes” e os “nobres
imprudentes”: enquanto uns marcham e retrocedem por falta de jabá,
outros se “internam” à procura de Lopez no Paraguai. Para os famintos
combatentes, o jabá reluz “como o manto real”, para os que se fartam
dele indiferença há. Este retrato pintado pelo poema do suposto
voluntário, de condições semelhantes ao soneto anterior evidencia
mais uma vez a dicotomia sempre presente ao relacionarmos um “grau
de importância” nas ações da guerra. No ano seguinte, uma das edições
(158) ilustrara a partir de um comentário referente às ações de
Bismarck na Europa, uma crítica das mais ácidas a conduta de seus
exércitos. O editor chamara de “cataclysmo social” o que ocorrera em
outros palcos, diferenciando claramente a partir da idéia de
“civilização” e de “barbárie” os atos cometidos por outros exércitos.

2010
Perguntara-se ao longo da breve nota de introdução 16 : Porque
incendiar aldêas florescentes?mattar mulheres inoffensivas?[...] não é
fazer guerra, mas assassinar”,não se esquecendo de afirmar por trás de
um discurso “humanitário”,o que de fato é fazer parte do “pendor da
civilização”.Mas para o império não se desenhava outro cataclismo
social,ligado a guerra?Fortaleciam-se as pressões abolicionistas,e o fim
da mão - de –obra escrava era iminente,enquanto isso a corte vivia
alguns de seus melhores dias em Petrópolis,a partir de uma
estabilidade política confortável.A proibição do tráfico trouxera aos
poucos grupos de imigrantes,que se estabeleceram inicialmente em
diversas regiões,dentre as quais a própria cidade de Pedro:povoada
copiosamente por imigrantes suíços e alemães,que garantiam a jovem
cidade imperial ares de Europa.

Fazer guerra cá e lá fora assunto dos priorizados pela edição (158)


que se preocupara em falar dos conflitos na Europa. A charge que
ilustra a contracapa 17não imiscui o assunto: nela estão os louros da
vitoriosa campanha do monarca tropical contrastando com a

16 AGOSTINI, Angelo; FARIA Candido Alves; BORGOMAINERIO, Luis. A Vida


Fluminense: folha joco-seria-illustrada (no 158). Rio de Janeiro: Typographia e
Lithographia da Editora Rensburg, 1871.
17 Cf: fig.2. (Anexos)

2010
truculência das tropas alemãs. Enquanto vemos de um lado “arcos do
triumpho, poesias e archibancadas”, duas lágrimas derramadas pelas
ações de uma “guerra legítima”, vemos no coração da Europa, exemplo
de uma “civilização florescente” a guerra bárbara, com total ausência
de motivos claros. Todo o contexto do jornal das primeiras edições de
1870 buscara ressaltar o heroísmo, a bravura de nossos militares,
acossados por inimigos impiedosos, cujos costumes não eram nem um
pouco “civilizados”. Fazer “mão-rasa” dos habitantes das zonas de
conflito era segundo tais argumentos, costume dos mais nefastos, atos
de “desumanidade”, incoerentes com a idéia de ser “civilizado”. Aos
olhos dos editores do jornal, ao menos nas edições até então citadas,
verificamos a pertinência de tais conexões, ao que tudo indica a partir
das idéias expostas no jornal, a guerra legítima e “civilizada” com atos
de heroísmo e não de barbárie é fundamentada a partir da
desfiguração do inimigo e da negação, em outros modelos do que soava
como “humanamente aceitável”.

Como falamos dos anos finais da guerra, devemos fazer uma


observação quanto ao prestígio do monarca, visivelmente arranhado
graças ao prolongamento do conflito. As últimas ações militares do
exército, comandadas de forma até tragicômica por Gaston de Orleans

2010
(Conde D´Eu), (de onde o soneto e o fragmento do poema exteriorizam
uma ligação destes anos finais) despirão adiante o barbudo imperador
dos trópicos de suas vestes militares,e endossarão a imagem de um
“monarca cidadão” a partir de suas representações.Como o imperador
apetecera ser representado como intelectual, sua valorização como
mecenas remonta a idéia de cientificidade tão presente no discurso da
época;e no seio desta surgiram algumas teses que proporcionarão após
contatos fortuitos com nossos letrados radicados na Europa,mudanças
significativas frente a alguns costumes,como o Carnaval e o
entrudo,bem como se difundirão teorias higienistas.(SCHWARCZ,1999)

Passemos a observar a partir dos conteúdos do jornal e do


contexto cientifico da época, como as epidemias e as manifestações das
incontroláveis “turbas” passaram a ser representadas, de forma
relacionada à idéia de modernidade.

Febres e festas

Iniciemos nossa discussão a partir de algumas observações,


oriundas de períodos anteriores. Reis 18 atestara que dentro do

18 Idem, op.cit.

2010
contexto da Cemiterada, surgira a partir das primeiras décadas do
século XIX, um fluxo intenso de brasileiros abastados que
freqüentavam círculos intelectuais europeus, principalmente
franceses. A preocupação destes “novos intelectuais” quanto a sua
formação era balizada majoritariamente entre dois eixos distintos: um
ligado a medicina e outro ao direito. Estes contatos criariam condições
de aceitação para a difusão de modelos teóricos a respeito do
higienismo, que devera muito a “teoria da salubridade”. Nesta, o
contato com “ares malsãos” ou “miasmas”, resíduos de material
orgânico putrefato eram extremamente nocivos a saúde; motivos
evidentes para a extinção de cemitérios nos interiores das igrejas e
confrarias religiosas.Pela linha sinuosa que traçava categoricamente o
progresso distante da “barbárie”,as largas avenidas,os finos parques e
jardins passaram a significar na Europa,a idéia de que se criava uma
consciência do que é “cidadania”,ou melhor,uma roupagem para
acomodá-la(definição bastante turva,representada na Primeira
República por Carvalho no conceito de “Estadania”).O espaço
público,vasto e arejado das ruas movimentadas,onde passeavam
jovens moças e dândis entre cafés e confeitarias elegantes,parecia
materializar o sucesso de uma burguesia enriquecida.Para contemplar

2010
uma ligação paradoxal com o império dos trópicos,com seus súditos
negros e mestiços em ruas enlameadas e pouco
pavimentadas,podemos observar um aproximação fortuita de nosso
monarca a partir de 1870 com a imagem de “cidadão” : os trajes
militares da guerra dão espaço ao “jaquetão” e a “cartola”,surge o
daguerreótipo na corte,as viagens ao
exterior.Simbolicamente,entendemos que a mudança no “guarda-
roupa” e nas representações é tendenciosa a contemplar a “evolução”
dos costumes e das reformas feitas duas décadas anteriores.Coroava
portanto o sucesso das anteriores empreitadas,exteriorizando à
européia, um simulacro dotado de suas imperfeições visíveis.Viver esta
belle époque era ocultar aos olhares de visitantes,a copiosa população
negra que orbitara ao redor de uma pequena elite,e que
diferentemente dos “cidadãos” europeus,sustentara a riqueza de
seletos cafeicultores.

Sidney Chalhoub19 em obra relevante sobre a temática observara


minuciosamente a questão sanitarista no Rio de Janeiro a partir da
década de 1850, relacionada a existência de copiosos e “precários”

19CHALHOUB, Sidney. Cidade Febril: Cortiços e epidemias na corte imperial.


São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

2010
cortiços. “A cidade febril” era periodicamente visitada por epidemias
de febre amarela, cólera e varíola, contrastes evidentes das condições
de vida de uma população predominantemente mestiça e distante dos
faustos da corte. Não teria D. Pedro construído inicialmente uma
residência na Serra dos Órgãos com o fito de lhe aliviar os males do
calor e das epidemias abundantes durante o verão?A cidade que lhe
homenageara nominalmente germinara inicialmente como residência
de veraneio, distante de desordens geradas por problemas
aparentemente irremediáveis. O autor observara que a demolição do
afamado cortiço “Cabeça de Porco” em 1894 travestia uma
preocupação que não se traduzia apenas pelos argumentos científicos,
fazendo menção aos miasmas das teorias; representara o inicio do
isolamento de um grande numero de pobres da proximidade de
“higiênicas habitações”, no antigo morro da favela. Mais do que demolir
as construções “insalubres”, buscara-se combater a febre amarela
durante o império porque esta era causa de diversas mortes entre os
imigrantes; os escravos eram em certa medida “poupados” da moléstia
“naturalmente” por sua consistência física. Fato verificável a partir das
reflexões propostas por Chalhoub é de que a partir da década de 1870,
as idéias sobre a “salubridade” e a “higiene” são robustecidas e

2010
acompanham, sincronicamente o inicio da difusão de “idéias
republicanas”, a partir do manifesto de mesmo ano.

Nosso sarcástico jornal nos fornece em alguns momentos,


reflexões próximas com tais discussões: retrata na edição 11120 um
diálogo entre um marido “bem homem na mais lata acepção do
adjectivo” e sua esposa, extremamente nervosa. O assunto obviamente
é a epidemia de febre amarela: a mulher com sua habitual preocupação
demonstra apreensão e já fala da viuvez ao marido, pedindo-lhe que
alimente seu papagaio e que alforrie o mulatinho que criaram junto de
seu filho,uma vez que as noticias do obituário dos jornais revelava a
média de trinta mortos por dia.Outra passagem seguidamente a esta
faz uma critica a Junta de Higiene Publica: um frade questionado por
um prior não trocara suas vestes “pouco decentes” por temer a
propagação da doença,uma vez que o Dr. Pereira Rego pedira a
população para não mudar de hábitos.Observamos uma perspectiva
bastante singular e que aparece,como alertara Chalhoub “de repente”
na Revolta da Vacina: havia um eminente abismo entre o discurso
sobre a higiene e o que a população entendera como “hábitos
salutares”.Como conservá-los sem ao menos um abrigo
20Op. cit. (pp.2 -3)

2010
“higienicamente” habitável?A demolição dos cortiços não determina o
reaproveitamento dos destroços para novas construções, que serão
reproduzidas de forma “pouco arejada” novamente, não mais ao longo
das largas avenidas, mas nas encostas dos morros.

A presente população mestiça que habitara os cortiços e que não


sentia em demasia os delírios febris da doença tropical ( como diziam
as autoridades) era acusada por toda a “devassidão dos costumes” que
grassava em meio à “imundície”: em cubículos escuros a única forma
de profilaxia a respeito da epidemia seria a destruição total, medida
reforçada com a República, tratada como problema “comum” para o
império. Ressaltemos, no entanto o aparecimento “repentino” de uma
doença “estrangeira” segundo Teixeira Rego; em duas grandes
epidemias (1850 e 1870) o “vômito negro” ceifaria como se acreditava
na época, principalmente a vida dos recém chegados imigrantes,
sobretudo dos “germânicos” segundo sugerem as teorias de
infeccionistas e contagionistas (a representação das controvérsias que
tanto opuseram os higienistas).

Fato incomum entre ambas as passagens é de que a Higiene não


obedecia apenas a prevenção, convertera-se em um equivalente moral.

2010
A mulher preocupada com a morte próxima pedira para que o marido
guardasse o devido luto e que recompensasse seu tenro mulatinho com
a alforria: era como diria o prior do outro exemplo ao frade, modo de
seguir os bons hábitos. Conservar neste sentido higienista os bons
hábitos remete à preservação dos costumes?Observemos uma possível
resposta a partir do entrudo e do carnaval. O primeiro consistia
sumariamente em uma “proibida” festa das ruas, costume de matriz
africana que coincidia com os dias que antecediam a quaresma no
calendário cristão. Era brincadeira comum nas ruas, atirar farinha e
água em baldes, seringas ou cumbucas de barro, ganhando a
concorrência do cortesão “carnaval” a partir da década de 1840, que
viria progressivamente a desaparecer na maior parte dos antigos
espaços. Esta disputa simbólica travada entre entrudo e carnaval pode
ser entendida pela apropriação de um novo habitus21 (o carnaval
reproduz as esferas de poder neste momento de transição, pois veda
acesso à população pobre, e reproduzira ao longo de suas
metamorfoses futuramente outras ideologias, ”seduzindo” o gosto
popular pela festividade, ou ocupando espaços da população branca)
pela enriquecida elite fluminense, em detrimento do “costume” de

21 Idem, op.cit.

2010
fazer uma entre tantas “festas de negros”. O carnaval “branqueara” o
entrudo, pois adaptara o “uso de mascaras”, tradicional entre diversas
culturas africanas, a um simulacro dos grandes salões de festas na
Europa.

Nosso jornal tão ácido não deixara de lado comentários a respeito


de uma festa tão significativa para os habitantes de Petrópolis, que
viviam (perdoem-me o trocadilho), “nas barbas do imperador”, já
imortalizado como “Pedro banana” ou “Pedro Caju” pelos críticos
foliões. (SCHWARZ, 1999) Em duas páginas da edição 113, o periódico
retratara a escassez de habitações na serra, fator que obrigara os
moradores a “alugarem galinheiros” aos visitantes durante a estação; e
a pergunta sempre latente sobre a quantidade de mortos por febre
amarela, com base no que os jornais mais tradicionais diziam é
retratada em charge22·. Mas na edição seguinte, o terrível “vômito
negro” fora esquecido, daria espaço a um comentário relacionado às
exposições anteriores sobre o carnaval. Apesar da preocupação dos
higienistas, dos ares de insegurança, ou como diriam nossos médicos
altamente miasmáticos, a festa toma espaço, mas alude a uma
“decadência” do “carnaval de tempos atrás”:
22 Cf:Fig.3(Anexos)

2010
Outrora o carnaval era um verdadeiro gastrônomo,
um Monsieur de Brisse que dava tratos no espírito
para ter sua mesa continuamente alcatifada de
gostosos acepipes. Hoje o carnaval é um prosaico
comilão, que, em mangas de camisa, de braços nus,
de collarinho aberto, abanca-se diante de uma
enorme terrina de indigesta feijoada! Outro´ra o
carnaval tinha o delicado aroma da modesta
violeta;hoje rescende a arruda![...]Outro´ra era um
conjuncto de mascaras espirituosas;hoje não é quasi
senão um amontoado de immundos Zé
Pereiras!(FARIA, 1870. p.2-3)

O carnaval com a proibição do entrudo era festejado pelos negros


e mestiços, para infelicidade de nossos editores!E o pior, os “immundos
Zé Pereiras” eram quase imunes às epidemias, em contrapartida, como
sugerem algumas conexões, eram os grandes disseminadores.
Chalhoub23 atestara para o fato de que os tumbeiros eram vistos por
médicos ingleses como produtores do “invisível mal” da febre amarela.
Mas em terra firme, quais eram seus equivalentes, dada as condições
23 Idem,op.cit.

2010
de calor intenso e pouca circulação de ar?Justamente os tão odiados
cortiços, que parafraseando a nossa fonte, “rescendiam arruda”. Mas
não apenas o carnaval, as festas e a valorização dos militares eram
preocupações do jornal, freqüentemente algumas críticas direcionadas
ao nosso clero aparecem em suas páginas, ora através das charges bem
humoradas de Angelo Agostini, ora pelas notas que se utilizando de
metáforas, retratam uma situação no mínimo inusitada: os clérigos
eram mendicantes, andavam pelas ruas, batendo nas portas
“implorando por farelos”.

Na capa da edição 113, está exposta uma charge falando das


“mascaras espirituaes e temporaes24“. As ultimas “tem algum espírito”
e só encobrem o rosto durante três dias no ano (a edição fora
publicada na véspera do Carnaval), já as espirituais “não têm espírito
algum” e guardam a “hypocrisia que disfarção durante o anno inteiro”.
Esta sátira da conduta do clero vai de encontro ao lento
distanciamento que ocorrerá entre a Igreja e o poder monárquico,
aguçada pelos debates que permeiam a maçonaria, e que como
apontara Emilia Viotti 25da Costa, produzirá historiograficamente outra

24 Anexos, fig.4
25 Idem, op.cit.

2010
hipótese para que possamos entender a passagem conturbada do
império à república. Nosso jornal, no entanto,não faz menção clara à
maçonaria: obviamente, falar sobre algo tão obscuro para a população
seria atitude no mínimo imprudente. Mas longe de determinar um
posicionamento em questões muito mais abrangentes, é visível uma
proposta que desprestigia a respeitável figura do sacerdote católico:
como vimos anteriormente, a representação a ser reproduzida pelo
jornal a respeito do clero associa a “sujeira”, a “impureza” dos “bons
hábitos” ao frade, que não tirara de modo algum sua “mascara
espiritual”, desta forma como negros e mestiços “lascivos por
natureza”, clérigos são pela mesma lógica,aproveitadores em potencial.

Uma passagem da edição 111 ilustra a “horrenda mendicância” do


clero fluminense. Andara segundo o jornal, certa autoridade
eclesiástica, aliás, muito afamada a andar “de porta em porta,
esmollando pingues offertas”, com o fito de “guarnecer a opipara mesa”
com acepipes finos, de um “estômago acostumado aux bonnes
gourmandises26“, como era o de sua Santidade Pio IX, durante sua
passagem pelos trópicos. Perguntara-se seguidamente sobre o fato do
clero “receber” sempre, admoestando tais transações indignas de tão
26 Aos bons paladares.

2010
avultada autoridade religiosa: as beatas conservam pelas minguadas
ofertas os preceitos religiosos, mas e a “moral” das autoridades?A
partir do que sugere o jornal, tais costumes para os grupos sociais
abastados geravam grandes desconfortos, porém “necessários” para se
exteriorizar uma religiosidade “louvável” vista pelos olhos da
sociedade. O exemplo da eventual mendicância retratada não responde
muitas perguntas, mas retrata a situação de debilidade da instituição
católica no Império. Não há como saber se a prática era recorrente,
mas é de se considerar que havia de fato uma “mútua ignorância” entre
as esferas de poder religioso e político, mas perdura um sentimento de
abandono da igreja. Reis esquadrinhara a partir da Cemiterada uma
questão latente, que nossa ajudará a dar um fecho para nossas
observações quanto ao tema; havia implicitamente uma “resistência”
tradicionalmente católica que criara um “ranço” frente às “inovações”
propostas pelo campo jurídico, ligadas ao caminho da “modernidade”.
Estas diferenças que serão acentuadas mais tarde pelos republicanos
parecem dar a tônica de que pelo menos para certas parcelas da
sociedade, o clero tomara feições parasitárias, fragmentos do legado
colonial e que, fazia adjunto a outros fatores com que nossa caminhada
“empacasse por qualquer cousa”.

2010
Conclusão

Acreditamos que cumprimos com nosso breve propósito a


respeito de analisar, a idéia de costume e modernidade no império a
partir de um periódico. Não temos uma certeza muito sólida sobre
nossas conclusões, pois nosso texto evidencia um conhecimento ainda
parco sobre o tema, que engendraria melhores resultados se ligado
com outras propostas. Não nos atentamos para o problema servil
iniciado a partir de 1850 com a lei de terras, ignoramos por carência de
leituras outros assuntos correlatos, dada a constatação de que o
número de informações é vasto.A maior parte das construções nesta
breve narrativa vem de encontro com um trabalho de interpretação
das fontes que abriram o leque das hipóteses,uma vez que a escolha de
nossos recortes pode ser,se comparado a outro texto preocupado em
dialogar com jornais,superficial ou arbitrário.Sem delongas passemos a
algumas considerações produzidas pelas anteriores reflexões.

Por detrás do discurso dos médicos higienistas e da relação das


epidemias e das festas populares pudemos identificar que havia uma
ligação muito explicita com as teorias a respeito das “desigualdades
entre as raças”. O africano, o mestiço e num sentido mais amplo as

2010
populações pobres, marginais carregaram o estigma e as culpas pelos
“ares insalubres” fluminenses, tão prejudiciais para os imigrantes que
paulatinamente chegavam sinais de que as estruturas escravocratas
definhavam lentamente. Vivíamos como sugere o sociólogo Anthony
Giddens, em uma “pré-modernidade” dada a inconsistência de nossos
“sistemas peritos” se comparados aos modelos europeus: a população
sempre se mantinha desconfiada das medidas higienistas,propostas de
“médicos”,ou “peritos da higiene”.Outro “sistema perito”,no caso, os
militares buscaram primeiramente através do discurso e depois de
ações mais concretas, o “reconhecimento” e a valorização de suas
ações.Taunay e Rozière são os “dois lados da mesma moeda”:por um
lado temos um ferrenho monarquista,intelectual ávido por colher os
louros de seus feitos narrativos e de outro,o representante de um
exército cujo baixo oficialato se mostrara descontente com suas
condições,pedindo inclusive em um simplório jornal que as mercês
prometidas fossem atendidas.Espiritualmente,as máscaras envolviam a
face parasitária de um clero extremamente dependente das benesses
do Estado,que se descontentara com as fecundas discussões sobre a
maçonaria.Temos desta forma,embates simbólicos como o carnaval e o
entrudo,dicotomias que transcendem o campo político e se pulverizam

2010
entre várias esferas da sociedade,gerando ambigüidades que
dificultam nossa compreensão acerca de período tão
conturbado.Porém todas estas questões estão intrinsecamente ligadas
ao trabalho escravo e a marginalização dos mestiços,da população
pobre que aos olhos dos estrangeiros era escondida como “sujeira
embaixo” do imperial tapete de D. Pedro.

Referências:

Fontes:

AGOSTINI, Angelo; FARIA Candido Alves; BORGOMAINERIO, Luis. A


Vida Fluminense: folha joco-seria-illustrada (nos 110, 111, 113,
114, 158). Rio de Janeiro: Typographia e Lithographia da Editora
Rensburg, 1870-1872.

Livros e Artigos

BOURDIEU, Pierre. Condição de Classe e Posição de Classe. In: A


Economia das Trocas Simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2004.
(pp.3-27)

________________. O Poder Simbólico. Lisboa: Difel Editorial, 1989.

2010
CARVALHO, José Murilo de. Os Bestializados: O Rio de Janeiro e a
República que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

CHALHOUB, Sidney. Cidade Febril: Cortiços e epidemias na corte


imperial. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

CHARTIER, Roger. Cultura Popular: Revisando um conceito


historiográfico. In: Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 8, n. 16,
1995. (pp.179-192)

COSTA, Emilia Viotti Da. Da Monarquia à República: Momentos


Decisivos. São Paulo: Editora da UNESP, 1999.

ELIAS, Norbert. O Processo Civilizador – uma história dos costumes


(vol. I). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.

ORTEGA Y GASSET, José. El Hombre Y la Gente. Buenos Aires: Ibero-


americana, 1960.

SCHWARZ, Lilia Moritz. As Barbas do Imperador: D.Pedro II um


monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

2010
SCHWARZ, Roberto. As Idéias estão fora do lugar. In: Ao vencedor
as batatas: forma literária e processo social nos inícios do
romance brasileiro. São Paulo: duas cidades; Ed.34.2000.(pp.9-33)

THOMPSON, Edward Palmer. Costumes em comum: estudos sobre a


cultura popular tradicional. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

2010
ANEXOS

Fig.1.

2010
Fig.2.

2010
Fig.3

Fig.4

2010
A CAPITAL É UM CAOS!

Maytê Regina Vieira

RESUMO:

Em 1904 o Rio de Janeiro viveu um conflito que pode ser comparado a uma guerra
civil. Quebra-quebra, destruição de bondes, iluminação pública. Barricadas nas
ruas para enfrentar a polícia. Esta, mesmo com a ajuda da Marinha e dos
Bombeiros, teve dificuldade em conter o ímpeto popular. A Revolta da Vacina é
comumente retratada como um levante popular contra um decreto que obrigava a
vacinação. Mas não é só isto que a explica. Buscamos neste artigo entender os
mecanismos que levaram a população carioca ao levante e a enfrentar com armas
ou o que pudesse ser usado como tal, as autoridades. Defendemos que a
obrigatoriedade da vacina foi somente uma justificativa. Os motivos eram bem
mais antigos e bem mais profundos. Era uma mescla de frustrações com o governo,
com o novo regime, com as condições de moradia e com a imposição arbitrária de
novos modos de vida que excluíram a maior parcela da população.

Palavras-chave: república, urbanização e modernização, vacinação obrigatória.

2010
1850 – 1889: AS MUDANÇAS QUE ABALARAM AS ESTRUTURAS DA
NAÇÃO.

Durante os 43 anos de reinado de Pedro II, muitas mudanças


ocorreram na nação: os meios de transportes foram modernizados,
assim como a forma de fabricação do açúcar, “o capitalismo industrial
esboçou seus primeiros passos” (COSTA, 1999, p. 463). Por conta disto
aumentaram as indústrias, os créditos financeiros. A mão de obra
escrava começou, gradativamente a ser substituída, nos cafezais
paulistas, pelo trabalhador livre assalariado, a economia deixou de ser
exclusivamente agrícola. Devido a isto cresceu a população nos
grandes centros urbanos. Além disto, desde 1850, uma série de leis
vinha mudando a configuração política e econômica do país, pois elas
iriam pouco a pouco, minar o regime escravocrata no país.

Segundo Carvalho (1998, p. 109), o Brasil do período das últimas


décadas do século XIX importava da Europa idéias e ideais então em
voga como o evolucionismo, o progresso, o materialismo e o
positivismo, o que criou novos grupos sociais.

2010
A nova versão da idéia de progresso dá ainda maior
ênfase à ciência e à técnica como fatores de
transformação social. [...] Mas no caso brasileiro
talvez se devesse mais ainda ao surgimento de um
grupo social urbano e educado que se sentia
sufocado na sociedade escravista e rural. Sua única
credencial para ascender socialmente era a
competência técnica. (CARVALHO, 1998, p. 109)

Entre estes ideais estava o de transformar o Brasil numa


República. Há muito já existia o ideal republicano no Brasil, de acordo
com Costa (1999, p. 468). Em 1870 foi criado o Partido Republicano
formado por fazendeiros de São Paulo e camadas urbanas do Rio de
Janeiro e restante da nação. “Nos últimos anos do Império existia entre
eles um grande número de simpatizantes das idéias republicanas,
embora muitos não estivessem filiados ao partido”. (COSTA, 1999, p.
481).

De 1885 a 1889 o movimento cresceu, surgiram novas adesões e


começaram as conspirações que resultaram na Proclamação da

2010
República através de um golpe militar que uniu civis e militares. Um
ano antes, em 1888 foi assinada a Lei Áurea que proibia a escravidão
no país, este foi o golpe final no sistema monárquico, pois os grandes
fazendeiros, senhores de escravos que sustentavam a monarquia,
foram abalados pela abolição.

A República somente se concretizou por conta da crise e da


fraqueza do Império que não conseguia mais se sustentar. Os
republicanos acreditavam que somente a República poderia solucionar
os problemas brasileiros, promoviam suas idéias, tentavam mobilizar o
povo através de escritores e poetas.

Pela primeira vez, a política saía dos limites


estreitos dos conchavos familiares para a praça
pública. Os políticos falavam às populações urbanas.
Os poetas e escritores voltaram a falar do povo,
redescobrindo-o, como fonte de inspiração. Apesar
dessas tentativas de mobilização popular, a
República se faria como a Independência se fizera –

2010
sem a colaboração das massas. O novo regime
resultaria de um golpe militar. (COSTA, 1999, p. 15)

Para a população em geral, nada mudou. O povo continuou sendo


ignorado nas grandes decisões políticas. O conceito de República, numa
interpretação bem simples, diz respeito à “organização política de um
Estado com vista a servir à coisa pública, ao interesse comum” ou
ainda, um “sistema de governo em que um ou vários indivíduos eleitos
pelo povo exercem o poder supremo por tempo determinado.”
(FERREIRA, 2004). O novo regime manteria as estruturas
oligárquicas, os valores antidemocráticos, elitistas e autoritários que
manteriam o povo afastado do governo e das escolhas políticas.

[...] a mudança de regime político despertava em


vários setores da população a expectativa de
expansão dos direitos políticos, de redefinição de
seu papel na sociedade política, razões ideológicas e
as próprias condições sociais do país fizeram com
que as expectativas se orientassem em direções
distintas e afinal se frustrassem. O setor vitorioso

2010
da elite civil republicana ateve-se estritamente ao
conceito liberal de cidadania, ou mesmo ficou
aquém dele, criando todos os obstáculos à
democratização. (CARVALHO, 1987, p. 64)

Contudo, o povo da capital, que sofreu as conseqüências das


grandes mudanças, deu uma das primeiras lições à jovem República:
não se submeteu de forma dócil à vontade do governo. Em 1904, o
povo se rebelou, a capital virou uma praça de guerra, em um
movimento contra a lei de vacinação obrigatória. A intenção deste
artigo é esclarecer o porquê de uma reação tão violenta a uma medida
que permitiria a erradicação da varíola, doença que atingia a todos sem
distinção. Para isto precisamos abranger as modificações sociais e
culturais na capital.

A CAPITAL REPUBLICANA PRECISA BRILHAR.

No início do século XX a cidade do Rio de Janeiro era a capital do


país, e como tal era o centro político, econômico e social. Sendo assim
foi onde mais foram sentidas as mudanças ocorridas nos últimos anos

2010
do Império até a Proclamação da República. Vivia-se na capital a
agitação dos novos tempos, os sonhos de mudança com o novo regime.

República e América eram o novo, o progresso, o


futuro. Quando os republicanos falavam em
América, era especialmente aos Estados Unidos que
se referiam. Esse País representava o espírito de
iniciativa, o liberalismo econômico, o federalismo, o
industrialismo, o pragmatismo, em oposição ao
paternalismo, ao protecionismo, ao centralismo, ao
ruralismo, ao bacharelismo, da sociedade
monárquica. [...] grupos de técnicos e cientistas
procuravam civilizar as populações da periferia
urbana ainda presas ao que consideravam
superstição e atraso. [Eles buscavam] o progresso, a
civilização, a modernidade. (CARVALHO, 1998, p.
110)

2010
No final do XIX os efeitos da Segunda Revolução Industrial1
alteraram os costumes e o cotidiano no Brasil e no mundo, e para
civilizar o Rio de Janeiro era preciso modernizá-lo, fazer da capital da
república brasileira um modelo, um atrativo para os estrangeiros, uma
capital tão reluzente quanto as européias, uma Paris nos trópicos, sem
nada dever a capital francesa, entretanto para chegar a isto era preciso
enfrentar os problemas da cidade. E eles eram enormes, havia muito a
fazer.

Um dos primeiros locais a ser atacado pela elite dominante era o


centro da cidade e as áreas adjacentes ao porto, local de escoamento
dos produtos de importação e exportação e também de chegada dos

1 A Segunda Revolução Industrial, iniciada na segunda metade do século XIX


(1850 - 1870), foi uma segunda fase da Revolução Industrial, envolvendo uma
série de desenvolvimentos dentro da indústria química, elétrica, de petróleo e de
aço. Outros progressos essenciais nesse período incluem a introdução de navios de
aço movidos a vapor, os automóveis, o desenvolvimento do avião, a produção em
massa de bens de consumo, o enlatamento de comidas, refrigeração mecânica e
outras técnicas de preservação e a invenção do telefone eletromagnético.
Esse período marca também o advento da Alemanha e dos Estados Unidos como
potências industriais, juntando-se à França e à Inglaterra, durante a Segunda
Revolução Industrial, a população urbana superou o contingente populacional do
campo, fazendo crescer a importância das cidades.

2010
grandes empresários e negociantes estrangeiros, portanto, o centro da
cidade precisava ser modernizado.

O Rio de Janeiro vivia um grande problema com o aumento da


população, a cidade não comportava o enorme contingente
populacional que a ocupava, além das levas de imigrantes “a abolição
lançou o restante de mão de obra escravo no mercado de trabalho livre
e engrossou o contingente de subempregados e desempregados. [...] a
população quase dobrou entre 1872 e 1890, passando de 266 mil a 522
mil”. (CARVALHO, 1987, p.16).

Era uma população pobre que se abrigava em antigos casarões


que foram divididos em vários cômodos que abrigavam famílias
inteiras,

[...] para as autoridades, eles significavam uma


ameaça permanente à ordem, à segurança e à
moralidade públicas. Por essa razão foram
proibidos os rituais religiosos, cantorias e danças,
associadas pelas manifestações rítmicas com as

2010
tradições negras e, portanto, com a feitiçaria e a
imoralidade. (SEVCENKO, 1998, p. 21).

As crises econômicas que fizeram parte dos primeiros anos da


República deixaram na cidade uma grande quantidade de pessoas mal
remuneradas, sem ocupação fixa e vivendo na ilegalidade. Eram
pessoas que, segundo Carvalho (1987, p. 18) estavam freqüentemente
envolvidas com a polícia em contravenções como vadiagem,
embriaguez, jogo. A cidade era considerada perigosa e vista como um
tumulo para estrangeiros, pois aos problemas populacionais somavam-
se a miséria, a sujeira, as doenças. A febre amarela, por exemplo, era
fatal para os estrangeiros. Haviam problemas com saneamento e
higiene que causavam grandes epidemias.

Podemos observar na ilustração a seguir que a Praça da Sé era


uma feira ao ar livre, a sujeira se acumulava nas ruas, os antigos
casarões usados como moradias estavam em péssimas condições e ao
fundo, um quiosque, estes eram considerados ponto de encontro de
todo tipo de desordeiros.

2010
Era preciso, portanto alargar as ruas transformá-las em avenidas
que permitissem o tráfego dos automóveis, das mercadorias do porto,
a renovação da cidade e, principalmente, livrar o centro da população
pobre indesejável, esconder as mazelas dos olhos europeus.

2010
A grande reforma da cidade começou com o presidente
Rodrigues Alves e foi planejada em três etapas: modernizar o porto,
sanear e reformar a cidade. Para isto foram dados poderes ditatoriais e
ilimitados aos três responsáveis o engenheiro Lauro Müller, o médico
sanitarista Oswaldo Cruz e o engenheiro Pereira Passos.

Como era de se prever, os três se voltaram contra os


casarões da área central, que congregavam o grosso
da população pobre. Porque eles cerceavam o
acesso ao porto, porque comprometiam a segurança
sanitária, porque bloqueavam o livre fluxo
indispensável para a circulação numa cidade
moderna. Iniciou-se então o processo de demolição
das residências da área central, que a grande
imprensa saudou denominando-o com simpatia de
a “Regeneração”. Para os atingidos pelo ato era a
ditadura do “bota-abaixo”, já que não eram
previstas quaisquer indenizações para os
despejados e suas famílias, nem se tomou qualquer

2010
providência para realocá-los. (SEVCENKO, 1998, p.
23)

Esta população juntou seus poucos pertences e subiu o morro


montando barracões para acomodar a família com os destroços das
demolições. A demolição dos cortiços causa o que, Chalhoub (1996, p.
17) chama de, a passagem da “era dos cortiços para o século das
favelas”. O agravante é que as condições de higiene e saneamento
permaneceram iguais, senão piores, porém estavam fora da visão da
burguesia que desejava a liberação do centro da cidade e dos
visitantes.

A população pobre que foi despejada era considerada uma classe


perigosa, o que justificava a luta para expulsá-los da cidade em nome
da modernidade. O conceito de classes perigosas foi criado para definir
um grupo de bandidos, desocupados e vagabundos em geral, porém ao
estudar seus hábitos de vida, estes acabaram por fazer um retrato das
condições de vida dos pobres em geral. (CHALHOUB, 1996, p. 21). Para
os parlamentares brasileiros cheios dos ideais capitalistas que
pregavam a oportunidade de riqueza a todos que trabalhassem com

2010
afinco, a associação era simples: se o trabalho gera riqueza, quem é
pobre não trabalha o suficiente, então se não trabalha é vagabundo e se
é vagabundo é perigoso. O mais grave é que o contexto social e
histórico da época fez com que os negros encabeçassem a lista dos
integrantes das classes perigosas. (CHALHOUB, 1996, p. 23).

Alguns anos antes da presidência de Rodrigues Alves e seu plano


de regeneração já haviam sido feitas algumas obras de reforma no Rio
de Janeiro. Na presidência de Floriano Peixoto, em 1893 o prefeito
Barata Ribeiro, mandou demolir o Cabeça de Porco, uma estalagem que
era o cortiço mais famoso do da cidade. Tinha esse nome porque sua
entrada tinha era decorada com uma cabeça de porco e era composta
por um grande corredor com uma centena de pequenas casas que,
segundo as fontes do período, contava com cerca de 2 mil habitantes.
Os proprietários haviam recebido uma intimação dando três dias para
a desocupação. “A intimação não foi obedecida, e o prefeito Barata
Ribeiro prometia dar cabo cortiço à força.” (CHALHOUB, 1996, p.15).
E foi exatamente o que fez, a polícia cercou o lugar e começaram
as demolições sem um mínimo de interesse pelo destino dos
habitantes.

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A imprensa do período aplaudiu a atitude do prefeito. A Revista
Ilustrada2 mostrou uma ilustração que satirizava o acontecimento.
Nela uma barata desfila triunfante em cima de uma cabeça de porco
lacrimejante servida em uma bandeja. As reformas promovidas por
Rodrigues Alves para modernizar a cidade seguiram a mesma linha
impositiva.

2 A Revista Illustrada foi uma publicação satírica, política, abolicionista e


republicana brasileira, fundada no Rio de Janeiro pelo ítalo-brasileio Angelo
Agostini, circulando durante os anos de 1876 a 1898.

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A forma como a moderna República tratava o povo, fazia com
que este tivesse uma antipatia pelo regime. Sua simpatia era dirigida à
Princesa Isabel, pela obvia assinatura da Lei Áurea e ao Imperador D.
Pedro II que era considerado o pai dos pobres e representava a
sacralidade e a tradição familiar.

[...] para o grosso da população alheada dos


processos decisórios, o imperador era uma figura
sagrada, assim como o eram o sacramento do
matrimônio ou o campo santo dos cemitérios. A
deposição do monarca, assim como a separação da
Igreja e do Estado, decretada pelos republicanos, só
poderia lhes soar como atos, além de
incompreensíveis, de desprezo e profanação de suas
crenças mais íntimas e sublimes. (SEVCENKO, 1998,
p. 19)

A República não conseguiu conquistar o povo, sua perseguição


aos pobres e negros, segundo Carvalho (1987, p. 31) causou efeitos
como revoltas populares e agitações, demonstra um profundo abismo

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entre os pobres e a República mostrando o que a modernidade
brasileira não era.

[...] o que a modernidade brasileira não era.


Começando pelo aspecto político, ela não
incorporava a idéia de igualdade e de democracia.
[...] A idéia de povo era puramente abstrata. O povo
era na maior parte hostil ou indiferente ao novo
regime, e nenhum esforço foi feito para incorporá-lo
ao sistema político por meio do processo eleitoral. A
República brasileira foi uma originalidade: não
tinha povo. (CARVALHO, 1998, p. 120).

Para Carvalho, mais que ignorar o povo a modernidade brasileira


era “alérgica ao povo”, não acreditava nele. Os grandes reformadores
se viam como os “salvadores de um povo doente, analfabeto, incapaz
de ação própria, bestializado, se não definitivamente incapacitado para
o progresso.” (CARVALHO, 1998, p. 121).

A modernização do Rio de Janeiro era um processo elitista,


autoritário, antidemocrático, com a intenção única de mostrar uma

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capital civilizada no estrangeiro, para isto era preciso esconder o povo,
esconder o negro, o mestiço, que inferiorizavam a nação. Criar um
espaço único para a elite que mantivesse longe de seus olhos a pobreza
e a miséria.

Infelizmente, o processo que discutimos de maneira breve e


superficial – por conta da limitação do espaço – foi a inauguração de
uma forma de administração que continua ocorrendo nas cidades do
Brasil, ainda hoje, nada se faz para melhorar as condições sociais das
populações pobres, o que se faz é escondê-la dos olhos da elite, que
cria seus próprios espaços e dos visitantes.

A idéia de modernidade, segundo Silva e Silva (2006, p. 299) foi


criada pelos iluministas e previa duas vertentes: a autonomia que
defendia a libertação do homem sem distinção de raça, sexo, credo, cor
ou opinião e, a eficácia que defendia uma maior eficiência científica
através do domínio da natureza que permitiria uma maior produção de
bens e uma melhor administração política. Alguns pensadores
defendem que esta modernidade ideal proposta pelo iluminismo, no
Ocidente, gerou uma grande disparidade. A eficácia criou um grande

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desenvolvimento material que aumentou as diferenças sociais. No
Brasil, assim como na América Latina isto ocorreu porque as elites
promoveram a modernização das cidades aplicando a eficácia, mas não
a autonomia, mantendo o povo dominado e sem direitos democráticos.

A segregação social iniciada no Rio de Janeiro, capital da nação,


no século XIX permanece e continua sendo a base da urbanização de
nossas cidades. Neste primeiro ponto já conseguimos esclarecer um
dos motivos da reação tão violenta à lei de vacinação obrigatória. Ela
era apenas a gota d’água num copo transbordante de uma população
ignorada, que era tratada com descaso pela elite dominante, que não
tinha direito a opinar, apenas lhe cabia aceitar todas as imposições
governamentais.

ALGO DEU ERRADO, A CIDADE SE TORNOU UMA PRAÇA DE GUERRA.

O centro da cidade do Rio de Janeiro no ano de 1904 era um


grande canteiro de obras, as reformas prosseguiam, as demolições dos
cortiços continuavam para abrir as grandes avenidas na cidade, a
grande massa da população pobre continuava sendo despejada e
empurrada para a periferia da cidade.

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Em meio às reformas ocorria também o saneamento e a
higienização da cidade justificadas pela ocorrência de epidemias. O
médico sanitarista Oswaldo Cruz, tentava erradicar as doenças e
acabar com os problemas sanitários no centro. Para isto, assim como o
prefeito Pereira Passos, ele possuía poderes ilimitados para cumprir a
contento sua tarefa. Há muito seus atos incomodavam os cidadãos mais
atingidos.

Em 1850, de acordo com Chalhoub (1996, p. 29-30), houve um


surto de febre amarela no Rio, este mal atingia principalmente os
imigrantes europeus que deveriam substituir os negros nas lavouras
de café. Com o fim de acabar com os focos de febre amarela, foi iniciada
uma operação de guerra contra os cortiços, considerados locais
propícios para o mal. Contudo, a tuberculose, fatal para a população
negra era ignorada, aparecia mais uma vez a segregação social.

E houve então o diagnóstico de que os hábitos de


moradia dos pobres eram nocivos à sociedade, e
isto porque as habitações coletivas seriam focos de
irradiação de epidemias, além de, naturalmente,

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terrenos férteis para a propagação de todos os
vícios. (CHALHOUB, 1996, p. 29)

Havia desde o século XIX leis que regiam a construção das


habitações populares, os chamados cortiços, para que pudessem
permanecer em funcionamento era necessária uma série de reformas
para torná-los habitáveis e a construção teria que passar pela inspeção
da Junta de Higiene, composta por fiscais responsáveis por atestar a
capacidade ou não de uma determinada construção permanecer como
local de moradia. Pode-se antever os problemas com a fiscalização já
neste momento.

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Ao assumir a presidência em 1902 Rodrigues Alves torna
Oswaldo Cruz responsável por acabar com as epidemias no Brasil. O
primeiro alvo é a febre amarela, um grupo de sanitaristas visita as
casas em busca de focos da doença e destruição do mosquito, a
população não entende como um mosquito pode causar o mal. Nos
jornais da época ele é satirizado por caçar mosquitos e ratos para
acabar com as proliferações de doenças, como na charge ao lado, onde
é identificado com um caçador e ganha até mesmo um epíteto. O tempo
provou que Oswaldo estava certo, em 1907 a febre amarela foi
erradicada no Rio de Janeiro. O próximo alvo foi a varíola.

As campanhas de vacinação contra a varíola já eram conhecidas,


a população já era vacinada no reinado de D. Pedro II e a insatisfação
do povo com a invasão dos policiais e dos higienistas às suas moradias,
também. A varíola já era pública desde a antiguidade, bem como os
métodos para sua prevenção, como a inoculação3 que causava a sua
prevenção, entretanto a população do Rio de Janeiro desconfiava dos

3 Inocular: Transmitir uma doença inserindo seu agente etiológico (vírus, neste
caso) em um organismo.

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novos métodos e da nova medicina, que há pouco tempo havia
descoberto as formas de conter ou amenizar os sintomas da doença.

Em 1798 foi publicado o trabalho de Edward Jenner, como


médico ele observou que os camponeses com ferimentos que
ordenhavam vacas infectadas pela varíola, entravam em contato com a
doença, mas não desenvolviam os sintomas. Ele descobriu a vacina
para a varíola que chegou ao Brasil por volta de 1804, segundo
Chalhoub (1996, p. 107) e desde então, passou a haver campanhas de
vacinação. O grande problema foi a obrigatoriedade da lei imposta pela
República e como ela foi aplicada.

Rio de Janeiro, novembro de 1904. A divulgação do


projeto de regulamentação da lei que torna
obrigatória a vacinação antivariólica transforma a
cidade em praça de guerra. Durante uma semana,
em meio a agitações políticas e tentativas de golpe
militar, milhares de pessoas saem às ruas e
enfrentam forças da polícia, do exército e até do
corpo de bombeiros e da marinha. O saldo da

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refrega, segundo os jornais da época: 23 mortos,
dezenas de feridos, quase mil presos, sendo que
centenas destes enfrentariam um breve “estágio” na
ilha das Cobras4 e, em seguida uma viagem sem
regresso para o Acre.5 (CHALHOUB, 1996, p. 97)

4Litoral do Rio de Janeiro


5Há inúmeros livros e artigos que discutem em detalhes os desdobramentos e as
ocorrências durante da Revolta, os levantes populares, as lutas contra a polícia, a
destruição da cidade. Há também as discussões entre os grupos em oposição no
governo e a revolta de uma escola militar que “quase” estourou num novo golpe
militar. Como a intenção deste artigo é entender as mudanças no Rio de Janeiro e
as condições sociais que levaram o povo ao levante, me limitei ao excelente resumo
que Chalhoub (1996, p. 97) faz em seu livro. Além disto, não haveria espaço para
estender de tal forma a reflexão neste artigo.

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A campanha em grande escala contra a doença criou “batalhões
de visitadores que, acompanhados da força policial, invadiam casas a
pretexto de vistoria e da vacinação dos residentes.” (SEVCENKO, 1998,
p. 23). Quaisquer indícios de risco de contaminação ou de possibilidade

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de propagação da doença era a justificativa para a expulsão dos
moradores e a demolição da construção.

Além de controlar o espaço social, em nome da


“política sanitária”, os “exércitos de fiscalizadores”,
os “esquadrões mata-mosquitos” e os “batalhões de
vacinadores” eram autorizados a invadir tanto a
privacidade das casas quanto a intimidade dos
corpos6. As pessoas abordadas eram submetidas a
questionamentos sobre suas origens, suas
condições físicas, seus familiares, seus hábitos, sua
vida sexual, suas atividades e suas andanças. Um
decreto de 1905 determinava que todo indivíduo
recolhido à Casa de Detenção fosse imediatamente
“vacinado e revacinado”. Eventualmente as marcas
da vacinação serviriam para revelar de pronto a
passagem do seu portador pelo sistema
penitenciário. (SEVCENKO, 1998, p. 571-572)

6 Era necessário desnudar os braços para ser feita a vacinação.

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Os próprios fiscais eram conflitantes em suas inspeções aos
cortiços. Num relatório feito em 8 de janeiro de 1905, o inspetor
sanitário Dr. Belisário Penna as condições de seu trabalho durante o
período de maio a dezembro de 1904. No relatório ele fala de alguns
locais onde fez a inspeção e demonstra claramente o preconceito
contra as habitações populares ao mesmo tempo preocupa-se com o
destino dos expulsos e critica a falta de atitude do governo:

Há necessidade de fechar, para demolir, mais cinco


grandes estalagens (cortiços), em más condições, e
não susceptiveis de melhoramentos, e bem assim
outras habitações pª serem reformadas, o que irá se
fazendo opportunamente.

Tenho, porém, adiado essa providencia, diante da


falta de habitações para operarios, e que, fechadas
as estalagens, vae essa pobre gente peiorar as suas e
as condições geraes, aboletando-se em predios
communs, transformados pela ganancia de
exploradores sem escrupulo nas chamadas casas de

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commodos, verdadeiros formigueiros, onde
dominam em geral a immoralidade e a porcaria,
onde a promiscuidade e a agglomeração geram as
molestias e a patifaria, trazendo o definhamento
physico e a perversão moral d'esse povo. Enquanto
os governos não enfrentarem com animo decidido o
importante problema das habitações para
operarios, n'uma capital como esta, onde é notavel a
proporção d'esse grupo, a hygiene encontrará
serios embaraços na debelação das epidemias e nas
medidas geraes de saneamento.

Esses desgraçados vivem agora de malas às costas,


escurraçados d'aqui para ali, sem encontrar
habitações regulares, em numero sufficiente e de
preço ao seu alcance, aboletando-se famílias
inteiras em cubículos detestaveis, para serem d'ali
ha pouco removidas pela auctoridade sanitaria da
zona, que deseja saneal-a, para uma outra, onde por

2010
sua vez a auctoridade competente faz o mesmo, e
assim em seguida. (PENNA, 1905)

Há uma incoerência gritante em relação a todas as fontes que


estudamos para esta produção, todos mencionam a falta de empregos
generalizada por conta do aumento demográfico desenfreado, neste
caso, como o inspetor afirma que,

Isso [a expulsão dos cortiços] traz-lhes o desanimo,


a irritação, e muitas vezes o despertar de máos
instinctos, abafados pelo trabalho que encontram
facilmente na epocha presente.

As medidas a tormar-se a respeito de tão triste


situação tornam-se imprescindiveis e inadiaveis,
d'ellas devendo participar muito directamente a
repartição da hygiene publica....

2010
E para finalizar o relatório, sua opinião em relação às reformas que
estão sendo feitas,

Acredito que melhoradas as condições hygienicas


das habitações, modificados os habitos da
população pelas constantes visitas, conselhos e
exigencias da auctoridade sanitaria relativas ao
asseio e á prophylaxia, evitando as agglomerações, e
dadas providencias efficazes para o bom
funccionamento dos esgotos, ao calçamento regular
das ruas, a limpeza das mesmas, à regularização de
valas e sargetas, etc. será o Rio de Janeiro uma
cidade de primeira ordem, que causará inveja as
grandes capitais pela sua salubridade e belleza
natural e imponente. (PENNA, 1905)

A obrigatoriedade da lei foi somente a gota que faltava para a


reação popular. Esta foi uma forma de demonstrar sua insatisfação
com o governo republicano e o entendimento da mensagem: a

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modernidade era somente para a elite, o povo, novamente, era
ignorado e excluído.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Concordamos com Sevcenko (1998, p. 24) quando diz que a


Revolta da Vacina é um dos episódios menos compreendidos da
história recente do Brasil. Há inúmeras controvérsias entre os
pesquisadores, como aponta Chalhoub (1996) quando discute as
diversas teorias dos pesquisadores para explicar o levante popular.
Segundo ele,

[...] para Sevcenko diz que “a revolta não foi contra a


vacina, mas contra a história”; para Carvalho, “o
inimigo não era a vacina em si mas o governo, em
particular as forças de repressão do governo; para
Needell, a lei da vacinação obrigatória foi apenas a
faísca que ateou por fim o incêndio; para Tereza
Meade, a oposição popular originara-se de um leque
bastante amplo de ressentimentos, apenas teria se

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concentrado em determinado momento na questão
da vacina. (CHALHOUB, 1996, p.101)

Em nossa opinião a Revolta da Vacina se originou de uma mescla


de todos estes fatores desencadeados pelos projetos de modernidade
que mais uma vez, excluíram o povo de seu direito de cidadania.

Por fim, o levante popular fez o governo recuar em relação a


obrigatoriedade da vacina, mas não nas reformas e despejos para
melhoria do centro da cidade. O que aconteceu com este povo que foi
expulso? Ela foi, segundo Sevcenko (1998, p. 610) viver nos morros,
em áreas de periferia, em malocas sem qualquer infra-estrutura, sem
as ditas condições de higiene e habitação que pareceram tão caras ao
governo quando se tratou de modernizar a cidade.

A modernidade do Rio de Janeiro foi feita de forma a privilegiar


somente uma elite, conforme Carvalho (1998, p. 121) foi mais uma
“aristocratização da vida urbana do que sua modernização”
construindo um espaço próprio para as elites e “afastando a presença
deselegante da pobreza”. (CARVALHO, 1998, p.121).

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João do Rio, um personagem repórter citado por Sevcenko (1998,
p.543) conta depois da reforma completada que foi conhecer os
morros onde habitava a população retirada do centro e descreve que
ao ver as luzes da cidade ao pé do morro teve a sensação de que
estavam em outro mundo, regido por leis e condições próprias no
centro do Rio de Janeiro. Diz que a população segregada estava
vivendo em condições piores que aquelas em que vivia nos cortiços.

A Regeneração proporcionou amplos calçadões, áreas em que a


elite poderia passear, comprar nas grandes lojas e desfilar nas novas
praças e avenidas de uma capital urbanizada com ares de cidade
européia nos trópicos. O projeto de governo de Rodrigues Alves e da
República foi alcançado, a duras penas para os excluídos, mas foi
atingido.

Para finalizar repetimos as palavras, já citadas, de José Murilo de


Carvalho, “a República brasileira foi uma originalidade: não tinha
povo.” (CARVALHO, 1998, p. 121). A modernidade foi imposta, assim
como o novo regime político, não interessava a opinião dos maiores

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interessados: a população da cidade. Será que podemos dizer que
atualmente é diferente? Podemos afirmar isto?

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Fonte:

PENNA, B. Relatório dos serviços executados pelo inspetor sanitário dr.


Belisário Penna no decurso de maio a dezembro de 1904. Rio de
Janeiro, 8 de janeiro de 1905.

Referências:

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não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

_____. Brasil 1870 – 1914: A força da tradição. In: Pontos e bordados:


escritos de história e política. Belo Horizonte: UFMG, 1998. p. 107-129.

COSTA, E. C. Da monarquia à república: momentos decisivos. 6ª ed.


São Paulo: UNESP, 1999.

CHALHOUB, S. Cidade Febril: cortiços e epidemias na corte imperial.


São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

FERREIRA, A. B. H. República. In: Novo Dicionário Aurélio da Língua


Portuguesa. 3ª ed. São Paulo: Positivo, 2004.

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SEVCENKO, N. A capital irradiante: técnica ritmos e ritos do Rio. In:
_____. (org.) História da Vida Privada no Brasil. Volume 3. São Paulo:
Companhia das Letras, 1998, p. 514-619.

_____. A revolta da vacina. São Paulo: Bernardi, 2003.

_____. O prelúdio republicano, astúcias da ordem e ilusões do progresso.


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FRANCO, A. M. e LACOMBE, A. J. Rodrigues Alves. São Paulo: Isto é,


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SOUZA, C. M e MACHADO, A. C. Movimentos Sociais no Brasil


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históricos. São Paulo: Contexto, 2006. p. 297-301.

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