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ANGELA MARIA LA SALA BATÀ

O DESENVOLVIMENTO
DA CONSCIÊNCIA
Método Prático com Questionários e Exercícios

Tradução
de
Nair Lacerda

B
EDITORA PENSAMENTO
São Paulo
T i'tulo do original:
Lo SvHuppo delia Coscienza
Me todo pratico con questionari ed esercizi

© 1976 — Casa Editrice Nuova Era — V itinia di Roma

Edição Ano
9876543 9

Direitos reservados
EDITORA PENSAMENTO
Rua Dr, Mário Vicente, 374, fone: 63-3141,
04270 São Paulo, SP

Im presso em n ossa*
oficinas g rifle a s.
fndice

Introdução 7
Cap. I : O que vem a ser a consciência 11
Exerc. n°. 1: Interiorização 23
Cap. II: 0 mistério da autoconsciência 25
Exerc. n°. 2 : 0 encontro da auto­
consciência 37
Cap. III: A aparente dualidade do Eu 39
Exerc. n°. 3 : Desidentificação do cor­
po físico 52
Cap. IV: 0 espectador interior 53
Exerc. n°. 4 : Desidentificação do corpo
emotivo 63
Cap. V: Reconhecimento dos obstáculos 65
Exerc. n°. 5 : Desidentificação da mente 77
Cap. VI: Resultados da Desidentificação 79
Exerc. n°. 6 : Auto-reconhecimento 89
Cap. V II: Continuidade de consciência 91
Exerc. n°. 7 : Preparação para o sono 104
Cap. V III: Liberação da "falsa" consciência 107
Exerc. n°. 8 : Exame noturno 119
Cap. IX: Liberação da natureza emotiva das
impurezas e dos condicionamentos 121
Exerc. n°. 9 : Exato funcionamento da
natureza emotiva 132
Cap. X: Libertação da mente das impurezas e
dos condicionamentos 135
Exerc. n°. 10: Concentração para
aprender a pensar 147
Cap. XI: Da consciência individual à consciência
cósmica 149
Exerc. n°. 11: Meditação para expandir
a consciência 162
INTRODUÇÃO

Segundo Teilhard de Chardin, os homens poderiam


dividir-se em três grandes categorias, de acordo com a ati­
tude que assumem em relação à vida:
1) os cansados;
2) os folgazãos;
3) os ardentes.
Os primeiros têm um conceito pessimista e negativo
da existência. Para eles "existir é um erro, um engano". Tal
atitude traz insatisfação, rebelião, incapacidade de encon­
trar um sentido para a vida e isso acaba por levar à depres­
são, à infelicidade, ao insucesso.
Os segundos são levados à contínua busca do prazer.
Para eles, viver é “ gozar", provar sensações, fazer experiên­
cias agradáveis, procurar a felicidade, entendida no sentido
mais exterior e materialista.
A conseqüência de tal atitude é um altemar-se cons­
tante de estados de excitação e depressão, de ilusão e desi­
lusão, condição essa que mais cedo ou mais tarde resulta
em crises de insatisfação, de amargura, de sensação de der-
^ rota, e naquela perniciosa "frustração existencial", de que
fala Victor Frankl, causa de tanto sofrimento físico e psí­
quico.
Os terceiros, ao invés, são aqueles para os quais a vida
é uma contínua ascensão para estados sempre mais profun-
i dos de consciência. Para eles o homem é um ser capaz de

7
aperfeiçoar-se, de progredir, de realizar-se em toda a sua
plenitude, que é latente e potencial. Viver, para eles,
é "amadurecer", "crescer", procurar a Verdade, é uma via­
gem difícil, mas estimulante para a descoberta de si pró­
prio e de Deus. Um fogo arde dentro deles, o fogo da aspi­
ração ao verdadeiro, ao real, ao que está por trás das apa­
rências. . . 0 fogo da procura do Absoluto, da Harmonia;
por isso são chamados "os ardentes".
Essa subdivisão do jesuíta e biólogo francês, embora
esquemática e sintética demais, pode, ainda assim, ajudar-
nos a compreender onde nós próprios poderemos nos colo­
car e só se nos reconhecermos como "ardentes" poderemos
começar o trabalho do desenvolvimento da consciência,
trabalho que pouco a pouco nos ajudará a autoconhecer-
mo-nos e auto-realizarmo-nos naquilo que é nossa real
essência: o Eu.
Se não sentimos esse impulso interior para "crescer
por dentro", para nos tornarmos verdadeiros homens, para
despertarmos do estado de inconsciência em que estamos,
é inútil empreender qualquer trabalho de autoconheci-
mento e de auto-realização, porque faltaria a base necessá­
ria e o impulso indispensável para um sucesso nessa inicia­
tiva.
O ponto de partida para o desenvolvimento da cons­
ciência é o preciso e claro reconhecimento de estar imerso
na inconsciência, de não ter ainda consciência, é a sofredo­
ra e atribulada insatisfação produzida pelo próprio estado
mecânico, condicionado, limitado, não-autêntico, que é o
sintoma e o indício de um outro estado para o qual nos es­

8
tamos movendo, cientemente ou não, e que é a alavanca
sobre a qual devemos esforçar-nos para "despertar" do nos­
so sono e recordarmos a nossa verdadeira natureza, inician­
do assim o lento, mas maravilhoso, trabalho de transforma­
ção do homem-animal em homem-Deus, e passar do quarto
para o quinto reino.
Todas as religiões, todas as doutrinas esotéricas e espi­
ritualistas permanecem para nós como letras mortas se não
trabalharmos no desenvolvimento da nossa consciência,
pois o conhecimento puramente intelectual não produz no
homem uma maturação eficaz, ficando ali apenas gélida ba­
gagem de noções que obstruem a mente e ofuscam a visão
direta.
Devemos "viver" a teoria, transformar o conhecimen­
to em consciência, fazer com que a doutrina se torne expe­
riência vivida, e então brotará, do nosso próprio íntimo,
uma força, uma realidade, um entendimento, que nos
transformarão, nos farão mais verdadeiros, mais vivos, mais
autênticos, mais completamente "humanos".
0 trabalho do desenvolvimento da consciência requer
constância, paciência e pureza de intenção, mas os resul­
tados que aos poucos se irão obtendo, se realmente prati­
carmos o treinamento, os exercícios e as atitudes interiores
necessárias, pagarão com muita largueza o esforço que se
terá feito.
Desde que se teve a primeira "tomada de consciên­
cia", a primeira revelação, ainda que mínima, será como se
nos debruçássemos a uma janela escancarada para um mun­
do novo e luminoso, que sempre esteve ali, porque é o
mundo da realidade e dos significados, o mundo das causas,
que habitualmente não podemos perceber, porque estamos
acorrentados e vendados pelo nosso estado de inconsciên­
cia. E esse primeiro vislumbre não será senão o início de
uma série de aberturas e de experiências íntimas, que aos
poucos nos levarão ao "despertar" total e completo, à
identificação com a nossa essência central: o Eu.

10
Capftulo I

O QUE VEM A SER A CONSCIÊNCIA

.. Consciência e Vida são


idênticas, dois nomes para uma
só coisa, conforme é observada
do interior ou do exterior. Não
há vida sem consciência, não há
consciência sem vida." (Do Estu­
do da Consciência, de A. Besant)

Todos os erros e sofrimentos do homem derivam do


fato dele ignorar exatamente o que deveria ser a coisa mais
importante de conhecer: que a única finalidade verdadeira
da existência é o "desenvolvimento da consciência", até ao
ponto de realizar a própria essência espiritual, o centro
autêntico do próprio ser, que é o Eu.
Realizar o Eu não é uma abstração, não é uma fuga
da vida: é realizar-se plenamente, é despertar e tornar-se
naquilo que verdadeiramente somos. Esta últim a frase, apa­
rentemente paradoxal, explica-se com o fato de que o ho­
mem, embora sendo em sua essência mais profunda uma
centelha divina, é insciente disso, está imerso na obscuri­

11
dade da inconsciência. Por isso, todo seu caminho evoluti­
vo tem como escopo o sair de tal inconsciência, o despertar
gradativo e, finalmente, o encontro da própria natureza
real.
Estas palavras, todavia, podem parecer-nos carentes
de significação, ou puramente teóricas, se não procurar­
mos, antes de mais nada, o que vem a ser realmente a
consciência.
A palavra "consciência" é uma das expressões à qual
se podem atribuir os mais variados significados, se a con­
siderarmos do ponto de vista comum. Encontramo-la, por
exemplo, usada apenas como "compreensão" de alguma
coisa (compreender que se está caminhando, que se está
sentindo uma dor física ou moral, etc.), ou como "cons­
ciência m oral" (voz da consciência), isto é, senso subjetivo
do bem e do mal, como remorso, senso de culpa, etc. Mui­
tas vezes a encontramos usada em sentido psicológico, co­
mo compreensão dos fatos interiores, como capacidade de
perceber as modificações psíquicas. . .
Sob esse aspecto ela é considerada pelos estudiosos
como suscetível de desenvolvimento, de ampliação e refi­
namento, tanto que seu grau de sensibilidade e de profun­
didade pode varrar de pessoa para pessoa.
As doutrinas espiritualistas, todavia, dão à palavra
"consciência" um significado m uito mais vasto, universal
e profundo, até identificá-la com a própria essência do Es­
p írito, que penetra toda manifestação. Ela é, por isso,
considerada como a própria Vida, como Energia Divina,
o Agni fundamental, ou o Jiva dos hindus. A consciên­

12
cia-vida está em toda parte, em todo o cosmo, em todos
os reinos da natureza e, finalmente, no átomo, onde se re­
vela como reatividade inteligente. Embora tal consciência
atômica esteja muitíssimo distante da consciência do ho­
mem, demonstra que também na matéria, que acreditamos
inerte e estática, há uma certa sensibilidade, uma capacida­
de de reagir, uma espécie de inteligência.
Em 1890, Édison já havia chegado a essa conclusão,
e escrevia:
"Não acredito que a matéria seja inerte, nem que
obedeça a uma força externa. Parece-me que cada átomo
possui certa quantidade de inteligência primigênia. Basta
observar os milhares de modos pelos quais os átomos do
hidrogênio se combinam com os dos outros elementos fo r­
mando diversas substâncias".
Em todas as formas, em todos os reinos da natureza,
essa energia universal e divina, essa força misteriosa que é a
consciência faz sentir, de mil maneiras, a sua presença.
Ela é a alavanca da evolução, é o fogo oculto que inci­
ta a natureza a multiplicar-se em inumeráveis formas, até
alcançar a forma humana, que parece ser a última da escala
evolutiva. E é aqui que a consciência-vida, a consciência-
força encontra aquilo que tinha incansavelmente procura­
do: o veículo adaptado para expressá-la em toda a sua ple­
nitude, passando do estado de latência para o pleno conhe­
cimento.
Na verdade, antes do homem ela era, paradoxalmente,
"consciência insciente", potencial, não-manifestada. A sua
qualidade verdadeira e essencial de conhecimento de ser.

13
não se manifestava plenamente, mas permanecia latente
e potencial, expressando-se apenas como sensibilidade
vaga e difusa, como capacidade genérica de seleção e
reação, como inteligência elementar. No homem, ao
invés, ela encontra terreno apropriado para expressar
gradualmente todas as suas qualidades até alcançar seu
completo esplendor divino.
Nele, o gérmen divino da consciência se condensa
e se encerra como em uma matriz, e é exatamente essa
clausura, essa separação da unidade primordial insciente,
que faz despertar a consciência e a transforma em "auto­
consciência".
Na verdade, a forma humana, em seu conjunto
físico-psíquico, é considerada pelas doutrinas esotéricas
como a substância, a matriz que pode ser fecundada pela
energia divina. Por isso ela é simbolicamente chamada
a Madre que, por obra do Pai, dá à luz o Filho, que é
justamente a consciência despertada, a Alma individua­
lizada.
O homem não sabe que é o ponto de encontro do
fin ito com o infinito. Não sabe que ele é a terra fértil
onde foi colocada uma semente divina, que aos poucos
deve brotar e crescer, nutrida pelos elementos, pelas
próprias substâncias que estão em sua natureza. Não o
sabe. Por isso caminha às cegas, resistindo a essa energia
espiritual que fermenta dentro dele, criando para si sofri­
mentos e conflitos, dilacerando-se em luta titânica que
se repete continuamente de ciclo em ciclo. Essa luta,
esse atrito, todavia, não são estéreis, porque é exatamente

14
com eles que se liberta, gradativa e penosamente, a cons­
ciência. A resistência que o homem opõe ao impulso
evolutivo, identificando-se com a matéria, é necessária
de início pois " a consciência nasce da limitação".
"A matéria é limitação e sem limitação não existe
consciência." (Diz A. Besant em seu livro Estudo da
consciência, p. 42.)
Em outras palavras, sem a percepção do não-eu
não é possível despertar o senso do eu. Sem o reconhe­
cimento de um mundo objetivo que se opõe a um mundo
subjetivo, não se pode manifestar o conhecimento do
eu. Essa dualidade, criada com a perda da participação
inconsciente com a unidade, como já dissemos, é neces­
sária ao desenvolvimento da consciência, que deve passar
de um estado vago e inqualificado para um estado de
alta qualificação, de plena delineação e de completo
"auto-reconhecimento".
Chega, porém, um momento no caminho evolutivo
do homem, no qual ele cessa de opor-se, não luta mais,
antes deseja "compreender" o porquê do que acontece,
captar o verdadeiro significado da vida e, sobretudo,
deseja "encontrar-se a si mesmo".
Essa aspiração de conhecer-se é o primeiro passo
no longo caminho do despertar da consciência, e embora
o homem ainda não tenha conhecimento, é a própria
consciência, dentro dele, que o incita para a frente, que
lhe dá a aspiração de procurar a realidade atrás das apa­
rências e o irresistível impulso para engrandecer-se e
auto-realizar-se.

15
A esta altura poderemos perguntar-nos: "Também
nós estamos naquele ponto do caminho evolutivo no
qual aspiramos a descobrir "quem verdadeiramente so­
mos", tornando-nos conscientes da nossa verdadeira
natu reza?"
Se a resposta é afirmativa, devemos dedicar-nos
à obra e (como disse Sri Aurobindo) "agarrar a alavanca
da nossa evolução", para abrir o caminho à luz da cons­
ciência-força que tem urgência de se manifestar.
Como dissemos antes, aquele que busca a consci­
ência procura, antes de mais nada, conhecer-se a si pró­
prio e assim devemos fazer também nós, começando
por nos interiorizarmos a fim de observar nosso mundo
subjetivo, e tentar descobrir quanto de conhecimento
verdadeiro existe em nós.
Perceberemos depressa que o que se apresenta no
primeiro momento da nossa observação é apenas a super­
fície da consciência, por assim dizer, isto é, um conjunto
de sensações, de estados de ânimo, de pensamentos que
afloram como bolhas de ar de um estrato mais profundo
e do qual só vemos a face externa. Essa "superfície"
da consciência, cujos conteúdos são mutáveis, flutuantes
e, muitas vezes, imprecisos, está naquela região da nossa
psique que os psiçanalistas chamam "o consciente" (ou
o cônscio) e que consideram o pólo oposto do incônscio.
Em geral o consciente não é a verdadeira consciência,
antes e muitas vezes, é a "falsa consciência", porque
formado de ilusões, condicionamentos, ficções, que
surgiram aos poucos pelos influxos que vieram do ambien­

16
te, da sociedade, da família, desde a infância. Muito
freqüentemente o consciente é como que uma "más­
cara" que cobre a verdadeira consciência, alterando-a
e deformando-a. Tudo o que pertence, ao invés disso,
à verdadeira consciência, é autêntico, espontâneo, livre,
imediato, criativo. Espelha nossa própria realidade, nossas
verdadeiras tendências, nossas qualidades profundas,
nossa natureza mais íntima.
Eis por que, de vez em quando, conseguimos ex­
pressar alguma coisa que espelha a verdadeira consci­
ência, tornando-nos semelhantes às crianças, no que se
refere ao vigor, à sinceridade, à inocência, à espontanei­
dade e, ao mesmo tempo, verdadeiramente maduros quanto
à sabedoria, ao equilíbrio, à serenidade e à força.
Por isso podemos afirmar que a verdadeira cons­
ciência não se expressa nem mesmo pelo pensamento.
é muito importante ter isso presente, pois, em geral,
nós, ocidentais, paramos no "cogito ergo sum" de Des­
cartes, que devemos antes inverter para "sum, ergo co­
gito". Na verdade, em sua realidade mais completa e
profunda, a consciência é, sobretudo, "o ser oposto
ao vir-a-ser". Além disso, o que dissemos sobre o cons­
ciente, que pode ser inautêntico e condicionado, serve
também para o pensamento. Se ele fosse pensamento
"verdadeiro", se as idéias que se movem em nossa mente
fossem frutos da intuição e espelhassem a realidade, se aci­
ma de tudo o pensamento fosse criativo, isto é, capaz de
transformar-nos, de amadurecer-nos, então poderíamos d i­
zer ser ele o veículo da consciência, uma expressão sua.

17
Como, porém, quase sempre aquilo que pensamos
é fruto de hábitos, de preconceitos, de condicionamentos,
uma inconsciente repetição de idéias alheias, das opiniões
da massa, etc., não podemos afirmar que o pensamento
coincida com a consciência, pois as qualidades funda­
mentais e inconfundíveis da consciência são a autenti­
cidade, a criatividade, a adesão completa à realidade
subjetiva da nossa natureza.
Chega-se, assim, à afirmação, aparentemente absur­
da, de que tudo que é incônscio mais se aproxima da
verdadeira consciência, daquilo que preenche habitual­
mente o nosso conhecimento. Em outras palavras: a
verdadeira consciência ainda é incônscia e o que aflora
à superfície é consciência falsificada e condicionada.
Devemos, pois, descobrir essa "consciência incôns­
cia", fazê-la aflorar e libertarmo-nos dos condicionamentos
e influências externas, que nos desviaram, alienando-nos
de nós próprios.
Isso é o que Sri Aurobindo quer dizer quando afirma:
"A evolução, na realidade, é a transformação da energia
em consciência".
Vimos, de fato, que a consciência também é energia.
é vida, é energia-fundamental, é Agni. Assim, transformar
a energia em consciência significa "tornar cônscio o que
é incônscio", pois o incônscio é energia.
A natureza energética e dinâmica do incônscio é
agora um fato aceito também pela psicanálise e é uma
realidade que deveríamos recordar sempre, já que oculta
o segredo da nossa evolução.

18
A consciência-força universal no homem tem, por­
tanto, dois pólos, sendo um o consciente e o outro o
incônscio, este últim o representando o aspecto energia.
Da fusão desses dois pólos (ou transformação do aspecto
energia em consciência) nasce a verdadeira consciência,
que é a expressão do Eu.
Se nos observarmos para encontrar reforço ao que
ficou dito acima, notaremos que de vez em quando sen­
timos um despertar de consciência, seja em que nível
for, nascido da fusão dos dois pólos opostos, do supera­
mento de uma dualidade.
Essa é uma verdade para se ter sempre presente,
porque ela oculta uma verdadeira e apropriada técnica
de desenvolvimento, um método prático para auxiliar
o despertar da consciência.
Para dar um exemplo concreto, quando procuramos
expressar em palavras um nosso pensamento intuitivo,
sintético, uma idéia abstrata, no esforço que fazemos
para conseguir expressar exatamente o que tínhamos
compreendido, sem alterá-lo, libertamos uma certa quan­
tidade de consciência, pois um "q u id " se manifesta,
nascido da fusão dos dois aspectos ou pólos opostos:
a intuição (aspecto positivo, espiritual), e a palavra (as­
pecto receptivo, humano).
Isso pode acontecer mesmo quando procuramos
transformar uma convicção intelectual nossa do aspecto
teórico para o aspecto prático, desejando assim unir
o conhecimento à experiência e fundir dois pólos, a fim
de que nasça uma maturidade, uma tomada de consciência.

19
Entretanto, chega-se a essas descobertas, a essas
experiências interiores, gradualmente, e através de su­
cessivas fusões e integrações, cada uma das quais libera,
por assim dizer, uma certa quantidade de consciência.
A razão disso está no fato da consciência ser o as­
pecto Filho, isto é, o produto da união do Pai-Espírito
e a Mãe-Matéria, já que, na realidade, a dualidade é um
fato aparente criado pela nossa inconsciência, pela nossa
identificação com a forma e tomar consciência significa
apenas "encontrar" essa unidade.
O homem deve percorrer um caminho longo e árduo,
contudo, para encontrar essa realidade, passando da
inconsciência para a consciência, despertando pouco
a pouco, é um crescimento interior, muitas vezes tra­
balhoso e cansativo, mas que se vai, paulatinamente,
revelando como uma aventura maravilhosa e cheia de
alegria, que nos leva de descoberta em descoberta, de
despertar em despertar, de nível para nível até a des-
lumbradora revelação da nossa verdadeira natureza divina.

* * *

Para concluir este capítulo e tornar mais compreen­


sível o que ficou d ito, procuramos resumir em algumas
frases, sinteticamente, tudo quanto até o momento temos
tentado expor, e nos perguntamos, ainda uma vez:
"Como, pois, podemos definir a consciência?"
1) A consciência é um estado interior de conheci­
mento, que se desenvolve pouco a pouco e tem, por­

20
tanto, vários níveis e graus. Ela nos permite entrar em
contato e experimentar diretamente a realidade das coisas
e a realidade de nós próprios, em qualquer dos níveis a
que elas pertençam.
2) Quando se experimenta a verdadeira consciência
há uma sensação de despertar e de iluminação, como
se tivéssemos feito uma "descoberta", não apenas com
a mente, mas com todo nosso ser.
Para esclarecer esse conceito cito o que disse Erich
Fromm a esse respeito:
" . . . o ato da descoberta, considerado em si, é sempre
uma experiência total, é total no sentido de que a pessoa
a experimenta por inteiro, é uma experiência caracterizada
pela espontaneidade e imediatismo". (De Psicanálise e
Zen-Budismo.)
3) Cada abertura mínima de consciência traz con­
sigo um resultado, uma transformação, um amadureci­
mento, uma ampliação da visão que não mais se perde.
Por isso, o desenvolvimento da consciência está estrei­
tamente ligado com cada experiência direta, com cada
compreensão interior efetiva. Não pode haver consciência
sem transformação.
A essa altura surge a pergunta espontânea: Há um
modo de favorecer esse desenvolvimento, esse crescimento
interior da consciência, até a sua total e luminosa ex­
pressão, que é a consciência do Eu?
Sim, certamente.
E é o que procuraremos examinar à medida que
entrarmos nos próximos capítulos.

21
I

QUESTIONÁRIO RELATIVO AO CAPÍTULO I

1. Poderiam descrever seu estado de consciência habi­


tual? é algo nebuloso e vago ou tem um senso de
lucidez, de conhecimento?
2. Vocês têm a sensação de que a consciência seja o
pensamento?
3. Ou melhor, que se identifique com um estado emo­
tivo?
4. Sabem distinguir, por experiência direta, entre aquele
estado que é chamado "o consciente" e a verdadeira
consciência?
5. Parece-lhes que mudam com freqüência de estado
de consciência e que, entretanto, ele é sempre igual?
6. Já tiveram, alguma vez, estados de consciência dife­
rentes do habitual e que, de certa forma, os trans­
formaram?
7. Sabem transformar o conhecimento em "consciência"?
8. Sentem a impressão de que têm, habitualmente, uma
consciência limitada, condicionada, obscurecida ou
sentem uma consciência autêntica, livre e luminosa?
9. Em que ocasiões, e com que apoio, conseguem sentir
um estado de consciência que lhes parece mais
elevado e autêntico do que o estado habitual?

22
EXERCfCIO N9 1
Interiorização

I. Sentem-se em um lugar tranqüilo e silencioso.


Procurem tomar uma posição cômoda e relaxada.
Afastem a atenção dos objetos externos, procurem
esquecê-los, e dirijam todo o seu interesse para o
interior de vocês mesmos. Fechem os olhos.
II. Procurem, agora, afastar a atenção também de even­
tuais estados emotivos que possam estar dentro de
vocês (preocupações, medos, afetos, desejos, etc.),
e procurem também afastar os pensamentos inúteis
que não se refiram ao exercício que estão fazendo.
III. Pensem apenas na "consciência" e voltem toda a sua
atenção e intensa aspiração para ela, colocando-se
numa posição interior de "escuta" e espera.
IV. Relaxem. Procurem apenas "sentir" o que está predo­
minando dentro de vocês, o que se está opondo à
sua busca e tentando atrair a sua atenção. Não com­
batam esse obstáculo: observem apenas.
V. Permaneçam nessa atitude durante uns dez minutos.

N.B. é aconselhável repetir esse exercício ao menos


durante uma semana, anotando em um caderno as
impressões recebidas e as dificuldades encontra­
das.

23
Capítulo II

O MISTÉRIO DA AUTOCONSCIÊNCIA

"N o homem encontramos a


mais alta elaboração da vida
cônscia: a autoconsciência." (De
La scala delia vita, de G. White,
p. 101.)

0 que dá ao homem a capacidade de “ tomar cons­


ciência"? O que "é consciente" nele?
Quando dizemos, por exemplo: "Eu sei que penso.
Sei que sou". . ter-nos-emos já perguntado quem é que
sabe?
Há na consciência do homem um "p o n to ", um
centro misterioso, que nem sempre aparece, que é d ifíc il
de individualizar, e que é absoluta subjetividade, é exata­
mente esse centro que lhe dá a capacidade de "te r conhe­
cim ento", de ser autoconsciente.
Só o homem, entre todos os seres e todas as formas
da natureza, "sabe" que existe, tem a faculdade de reco­
nhecer-se, de distinguir-se dos outros, de sentir-se um
indivíduo, uma entidade separada: em outras palavras,
de sentir-se "um eu". Os estudiosos dizem, realmente,

25
que a autoconsciência é o sinal de reconhecimento do ho­
mem.
Contudo, também a autoconsciência, embora sendo
inata no homem, tem um longo e cansativo caminho evo­
lutivo a percorrer, um processo gradual de maturação e de
crescimento a desenvolver.
Desde o primeiro vislumbre de vida, das primeiras ten­
tativas, muitas vezes erráticas e vacilantes, de emersão, até
a plena manifestação da individualidade completa, livre e
autônoma, a autoconsciência deve percorrer um arco que
assinala o caminho do desenvolvimento humano inteiro.
Realmente, o senso do eu aparece, desaparece, reemer-
ge, fixa-se sob falsa identificação, multiplica-se em mil fa­
cetas, recai na inconsciência, enfuna-se em seu orgulhoso
senso de isolamento, projeta-se sobre objetos exteriores,
luta para sair da sua limitação, expande-se, libera-se, eleva-
se até o Espírito, onde encontra sua verdadeira essência e
se identifica com a totalidade do Eu.
Toda a humanidade passa através dos estados de de­
senvolvimento no que diz respeito à expressão da autocons­
ciência, que revelam o lento e fatigante emergir do senso
da individualidade.
No início do caminho evolutivo o homem identifica o
seu eu com o corpo físico. Sente sua forma material como
uma entidade que está consigo, separada das outras formas.
é consciente apenas das suas sensações físicas e das suas
exigências instintivas. Quando pensa em si próprio, só vê o
corpo material e não consegue compreender uma existên­
cia diferente da existência física.

26
é o estágio da completa identificação com o invólu­
cro mais externo do Eu, o material, estágio que, em reali­
dade, não deveria ainda ser definido como "autoconsciên­
cia", mas apenas como senso de separação em nível mate­
rial.
Com o desenvolver-se gradual da sensibilidade emoti­
va, da capacidade de ter sentimentos e estados de ânimo,
o eu do homem parece multiplicar-se em mil facetas, devi­
do à mutabilidade e à riqueza dos estados emotivos: tris­
teza, alegria, medo, angústia, desejo, atração, repulsão, etc.
O eu do homem torna-se poliédrico, variável, esquivo, pois
se identifica com o estado de ânimo do momento, é o es­
tágio da polaridade emotiva, durante o qual o homem per­
de a sensação de ser "uma unidade isolada" e se descami­
nha nas inumeráveis possibilidades sensitivas da sua nature­
za emocional.
Quando a autoconsciência se identificava com o cor­
po físico ele sentia-se um, embora limitadamente na esfera
material mas, com o emergir da sensibilidade emotiva, o
homem cai na multiplicidade, até encontrar um outro
apoio com o qual possa se identificar.
E isso acontece com o desenvolvimento da mente
quando, de início de uma forma intermitente, depois de
maneira sempre mais estável, aflora o eu racional que, por
sua natureza, eleva-se acima das tumultuosas e mutáveis
ondas emotivas e dá capacidade ao homem para se desiden-
tificar delas e tentar controlá-las e dominá-las.
O desenvolvimento da mente é tão importante para o.
homem que, durante longo tempo, ela foi tida como o

27
ponto mais alto de alcance e muitos estudiosos e filósofos
identificaram o eu com o intelecto.
Na realidade, o eu racional, o intelecto, é apenas o pó­
lo oposto da função emotiva e, com ela, forma a "psique"
do homem, o cama-manas das doutrinas esotéricas.
A autoconsciência do homem, em seu caminho para a
completa auto-realização, no seu processo gradual de ma­
turidade, passa de identificação em identificação, de está­
gio a estágio.
A identificação com a mente é apenas um estágio do
desenvolvimento do senso do eu, que assinala o início de
um período de dualidade entre o intelecto e a natureza
emotiva, e que leva o homem para um desenvolvimento ul-
terior da consciência, pois que o libera do estágio no qual o
eu é vivido pelas emoções e estados de ânimo, para o está­
gio em que o eu se torna, paulatinamente, capaz de domi­
nar e controlar as energias emocionais e instintivas. Essa é a
polaridade mental que faz com que o homem novamente
sinta*se "u m ", fechado em sua mente e separado dos
outros.
Também esse estágio, entretanto, é superado, é ape­
nas uma etapa no longo e tortuoso caminho para a verda­
deira consciência.
Não obstante, mesmo sob esse aspecto limitado, dis­
torcido e falsamente identificado, o senso do eu do ho­
mem, a sua autoconsciência, ocultam uma realidade im­
portantíssima, um segredo, por assim dizer, evolutivo, que
deve ser integralmente compreendido, se quisermos captar
a natureza da consciência.

28
Aceitamos como coisa natural o fato de, em nosso ín­
timo, sentirmo-nos indivíduos, que somos, em outras pa­
lavras, "eu” . Vivemos com o nosso ” eu" desde o nascimen­
to e o levamos até o limiar da morte. Estamos sempre com
ele, antes prisioneiros dele, sem poder sair: fechados como
num círculo da sua insuperável couraça de aço, constrangi­
dos a nos ocuparmos dele porque é o centro do nosso ser.
Mesmo que não saibamos disso, ele comanda por trás dos
bastidores, impõe a sua vontade, o seu egoísmo, as suas
exigências, a sua solicitação de cuidadps, as suas preten­
sões, o seu orgulho, a sua obstinação, a sua presunção, os
seus medos. . .
Parece-nos natural sermos "e u " separados, ilhas vivas,
consciências encapsuladas, que espelham, por todos os la­
dos, a si próprias.
Ainda assim, mesmo nessa clausura, nessa absurda se­
paratividade, está oculto o segredo da natureza do homem,
a chave para sua verdadeira realização.
Sob suas aparências egoísticas que tanto mal parecem
produzir, o eu humano é a semente de "alguma coisa dife­
rente", é o gérmen da Divindade imanente, embrionário,
alterado, degradado, limitado, mas potencialmente carrega­
do das qualidades mais elevadas e espirituais.
Por certo não foi por acaso que no Antigo Testamen­
to, Deus, aparecendo a Moisés na sarça ardente, pronun­
ciou as palavras: "Eu sou aquele que sou".
O Eu sou, realmente, em sua mais alta expressão, é a
afirmação do Ser por excelência, da natureza mesma do
Absoluto, oposto ao vir-a-ser.

29
Também a nossa autoconsciência, o nosso senso do
eu, embora desviado e limitado, ocultam em si a mesma na­
tureza da consciência do Ser, do Eu Sou, da mais alta ma­
nifestação da consciência.
É como a semente de uma planta, que oculta latente
em si toda força, beleza, estatura que deverá alcançar quan­
do, liberta dos invólucros, tendo feito caminho através da
terra, absorvido as substâncias e crescido até a plenitude
da sua maturação, torna-se uma planta.
O egoísmo, as limitações, são apenas instrumentais,
pois fornecem as condições adequadas para o nascimento
do conhecimento de si, e os erros que derivam, são apenas
experiências, eventos que contribuem para libertar o ho­
mem, para dar-lhe maturidade.
A autoconsciência do homem é, portanto, o sinal de
sua divindade potencial e, por isso, tem necessidade de
um longo processo evolutivo para crescer até sua plena
expressão.
Voltando agora ao lento desenvolvimento do senso
do eu do homem e às suas falsas identificações, vimos que
os estádios por nós descritos até o presente momento, isto
é, a identificação do eu com o corpo físico, a polaridade
emotiva e a polaridade mental, não são a verdadeira auto­
consciência, mas apenas "apoios", por assim dizer, tempo­
rários e parciais, da consciência, que à medida que evolve
desloca seu centro de gravidade.
A verdadeira autoconsciência emerge apenas quando
o homem integra, sintetiza e recolhe todas as suas funções
psíquicas em um ponto de seu ser, fulcro da sua energia

30
interna, que é capaz de desidentíficar-se delas objetivan­
do-as.
Anterior a essa integração há todos os estágios descri­
tos antes, mutáveis e vários. Mas a verdadeira autoconsciên­
cia, o senso do eu bem delineado e claro, sempre igual a
si mesmo, é o que emerge depois da síntese dos vários as­
pectos psíquicos do homem (ou corpos sutis das doutrinas
esotéricas, que são o corpo físico, o corpo emotivo e o cor­
po mental).
Todavia, pode acontecer que, tendo um indivíduo
uma finalidade a alcançar, um ideal, uma paixão, que
absorve e focaliza todas as suas energias e concentra todo o
seu ser, pode acontecer (repito) que o senso do eu verda­
deiro e próprio, o centro da consciência, surja, porque o
fato de se focalizar todos os aspectos da personalidade
numa direção única produz uma integração.
Esse senso do eu ainda não é o ser autêntico do ho­
mem, mas é, por assim dizer, um seu reflexo, uma sua pro­
jeção, e é "único", não múltiplo, sempre igual a si mesmo,
e tem uma vontade, um sentido de direção e uma unidade
de propósito.
Ele reflete o estágio do eu pessoal que, embora con­
ferindo ao homem dotes de eficiência, autodomínio, força
e lucidez, é limitado e incompleto, porque pode ser egoís­
tico e separativo e, assim, em contraste com a essência do
Eu Real, que é o Eu, inclusivo, amplo, amorável e impes­
soal.
Portanto, podemos dizer que também o eu pessoal
que surje da personalidade integrada é, na realidade, falso

31
e ilusório, é uma construção do homem, uma fase, que
também deverá ser superada e ultrapassada pela luz e pela
consciência mais ampla do Eu Real que é chamado, de pre­
ferência, o Eu, exatamente para indicar sua natureza im­
pessoal e universal.
Todas essas fases do desenvolvimento da autocons­
ciência, entretanto, devem ser atravessadas pelo homem an­
tes que ele compreenda sua natureza real. é como uma
"subida" interior, lenta, mas contínua, cujos degraus são
as várias e sucessivas identificações ilusórias do eu, das
quais, pouco a pouco, a luz da verdadeira consciência, apri­
sionada pela forma, se liberta.
De vez em quando conseguimos objetivar uma parte
de nós mesmos com a qual antes nos identificávamos, libe­
ramos uma parte da consciência latente e nos aproximamos
sempre mais da realidade do nosso eu autêntico.
De vez em quando subimos acima de um aspecto psí­
quico ou conseguimos dissolver um condicionamento, uma
ilusão e um novo lado do nosso ser se delineia, até que che­
guemos ao reconhecimento total, que é como o súbito des­
pertar de um longo sono, uma deslumbrante revelação. Per­
cebemos, então, que o verdadeiro Eu tinha estado sempre
em nós, profundamente, presente e vivo, oculto apenas
pela nossa condição de inconsciência.
Percebemos, então, que a verdadeira autoconsciência,
embora levando-nos a atingir o máximo da nossa identida­
de, embora identificando-se com nossa subjetividade mais
profunda, também nos dá senso de unidade, de inclusivida­
de, de universalidade, de totalidade.

32
Encontrar a si mesmo é, estranhamente, transcender-
se, pois o individual e o universal coincidem no homem.
Esse é outro dos paradoxos aparentes que a natureza hu­
mana revela quando aparece em sua mais alta expressão.
Por isso dissemos, antes, que a autoconsciência oculta
um segredo que se deve descobrir, um enigma que se deve
decifrar, pois é a ponte de conexão entre o humano e o di­
vino, entre o relativo e o absoluto, entre o finito e o infi­
nito.
Como podemos, então, favorecer o desenvolvimento
da autoconsciência?
Os gurus hindus aconselham aos seus discípulos um
exercício aparentemente simples.
Consiste em uma única pergunta a fazer a si mesmo,
repetidamente, depois de estar em recolhimento num lu­
gar tranqüilo e silencioso. A pergunta é:
"QUEM SOU EU?"
Dar resposta a uma tal pergunta com certeza não é
fácil: todavia, os resultados que ela atrai são muito úteis
e interessantes, já que revelam o grau de autoconsciência
que realmente alcançamos.
Podemos, por exemplo, notar que o nosso "e u " é
vago e flutuante, sem uma fisionomia precisa ou, então,
que ele tem "m il aparências" e inumeráveis aspectos.
Podemos, também, tomar conhecimento da preva­
lência de um ou de outro aspecto da nossa personalidade;
ou seja, se prevalece em nós o emotivo ou o mental e, en­
fim, se conseguimos, embora apenas de vez em quando,
evocar em nós um senso de consciência livre e desapegado,

33
que não é condicionado pelos nossos estados físicos ou
psíquicos mas, antes, pode controlá-los e dirigi-los.
Fazer perguntas a si mesmo é uma verdadeira e apro­
priada técnica evocadora. é como um anzol que atiramos à
água profunda de nós mesmos. Um "gancho" simbólico
(o ponto de interrogação) para "pescar" a verdade latente.
Por isso a pergunta: "Quem sou eu", com o tempo,
deverá conseguir evocar, não uma resposta, mas a própria
realidade do eu que jaz dentro de nós.
é importante dedicar atenção e paciência a essa evo­
cação, porque se realmente desejamos sair da falsa cons­
ciência e despertar para o verdadeiro conhecimento, deve­
mos, em primeiro lugar, encontrar o nosso próprio centro,
sobre o qual possamos aplicar a alavanca e assim conseguir­
mos nos libertar de todas as superestruturas, condiciona­
mentos, pensamentos automáticos, ilusões que nos fazem
inautênticos e que nos impelem sempre para a névoa da
inconsciência.
Na realidade, nós não vivemos, mas somos vividos pe­
los acontecimentos, sentimentos, impulsos instintivos. Dei­
xamo-nos arrastar por eles, desgarrados, confusos, muitas
vezes infelizes, pois a verdadeira felicidade só é dada pela
expressão completa da nossa natureza divina, que é a nossa
realidade.
Para ajudar-nos em nosso trabalho de encontro de
nós mesmos, sintetizamos os vários estados de desenvolvi­
mento que o homem atravessa, no que se refere à auto­
consciência:
19 estágio: Sou vivido pelas coisas.

34
2o estágio: Vivo (como personalidade).
39 estágio: Sou vivido pelo Eu.
49 estágio: Vivo como Eu.

Já analisamos o 19 e o 29 estágios.
0 39 estágio corresponde àquele período evolutivo
durante o qual começa a surgir um centro de consciência
capaz de desidentificar-se dos aspectos pessoais, e que deles
se faz espectador.

Esse centro é como "um ponto mediano" entre a per­


sonalidade e o Eu. De fato, nesse estágio, náo somos mais
identificados com o eu pessoal, mas não somos ainda cons­
cientes do verdadeiro eu. Sentimos, então, uma condição
de obediência interior, de passividade e espera para com o
Eu ainda"superconsciente".

é um período que pode ter altos e baixos, e não está


livre de incertezas e conflitos, mas é um período muito
profícuo, que precede e preludia aquele que vem em segui­
da: o estágio da completa identificação com o Eu, o 49 es­
tágio: Eu vivo como Eu.

Agora existe uma aderência perfeita entre a vontade


pessoal e a vontade espiritual, e assim realiza-se a verda­
deira consciência.
Esse estágio talvez ainda esteja distante para muitos
dentre nós, mas é bom tê-lo presente como meta a alcan­
çar em nosso fatigante e árduo caminho para o verdadeiro
e completo despertar da consciência real.

35
QUESTIONÁRIO RELATIVO AO CAPITULO II

1. Conseguem sentir sua "identidade" pessoal?


2. O seu "e u " é sempre igual a você mesmo ou tem "m il
aparências"?
3. Conseguem desidentificar-se do corpo físico ou sen­
tem o seu "e u" identificado com o corpo?
4. Sentem, às vezes, como que um outro "e u" mais pro­
fundo, oculto e elevado, embora vago e nebuloso?
5. Em que momentos sentem-se mais em contato com
esse outro "eu"?
6. Em qual dos seguintes estágios acreditam estar:
a) Eu tenho vivido pelas coisas.
b) Eu vivo (como personalidade ou eu superficial).
c) Eu tenho vivido pelo Eu.
d) Eu vivo como Eu?
7. Saberiam dizer que relação existe entre a autocons­
ciência e a consciência em sentido geral?
8. E, além disso, saberiam dizer qual a relação que existe
entre a autoconsciência e a consciência do Eu?

36
EXERCÍCIO NO 2
O Encontro da Autoconsciência

I. Depois de se terem sentado em um lugar tranqüilo e


silencioso, procurem recolher-se interiormente, como
fizeram para o 19 exercício.
Afastem a atenção de todos os objetos externos e in­
ternos (imagens, pensamentos, emoções).
II. Quando tiverem alcançado certo nível de tranqüilida­
de, abstração e relaxamento, façam a vocês mesmos a
seguinte pergunta: "QUEM SOU EU?"
III. Conservem-se em postura de silêncio e de escuta, sem
procurar dar a si mesmo uma resposta pronta.
IV. Deixem que a pergunta "trabalhe" dentro de vocês e
esperem. Se a resposta não vem, nada façam.
Não se esforcem para responder com a mente.
V. Repitam esse exercício todos os dias, fazendo a per­
gunta mais vezes, deixando transcorrer pelo menos
dois minutos entre uma pergunta e outra. Náo te­
nham pressa. Não fiquem tensos. A resposta virá por
si mesma quando for o momento.

N.B. Repitam este exercício ao menos durante uma sema­


na, por 20 minutos, anotando em um caderno as im­
pressões e dificuldades eventuais.

37
Capítulo III

A APARENTE DUALIDADE DO EU

"Duas almas, ai de mim, vivem


em meu p e ito \ " (GoetheJ

Descrito assim o arco evolutivo que percorre a auto­


consciência com a sua identificação com o veículo físico
até o auto-reconhecimento como entidade espiritual indi­
vidualizada, damo-nos conta de um fato fundamentalmen­
te importante, isto é, que a consciência é que deve desen­
volver-se e não o Eu, a consciência que é desde o p rincí­
pio prisioneira de falsas e ilusórias identificações, sufoca­
da, dominada, condicionada por elas, e depois, pouco a
pouco, despertada e realizada em sua plenitude.
é essencial ter sempre presente isso e recordar a cada
momento que o processo de maturação, de crescimento,
refere-se à consciência e não ao Eu que, por sua natureza,
já é completo e perfeito em si mesmo. Todavia, Ele, como
de outras vezes dissemos, ao tomar uma forma, aceita a
autolimitação, esquece-se de si e deve, assim, lenta e cansa­
tivamente, despertar para "retornar" ao estado original
operando, todavia, em seu caminho de retomo à Casa do

39
Pai, um trabalho de transformação e de purificação da
matéria dos invólucros com os quais é identificado. Real­
mente, a encarnação do Eu espiritual na matéria densa tem
exatamente essa finalidade: fazer voltar a substância física
à vibração original e reunir, assim, os dois pólos de Espírito
e Matéria no ponto central e unitivo da consciência.
O Eu do homem é, ao mesmo tempo, transcendente e
imanente, pois permanece eterno, imutável, perfeito, com­
pleto em seu aspecto transcendente, enquanto projeta
"uma parte de si" na personalidade, como um raio da sua
essência total, uma semente, uma energia, que é o aspecto
imanente.

"Tendo penetrado o Universo com uma parte de Mim


mesmo, Eu permaneço."
{Bhavagad Gita, Canto X, 42.)

Estes versos do poema divino hindu nos dão uma


idéia clara dessa realidade do Absoluto Transcendente que,
na manifestação, expressa apenas uma parte de Si mesmo,
permanecendo, entretanto, inalterado e imutável. 0 que
ocorre em nível do macrocosmo reflete-se também no mi­
crocosmo representado pelo homem, no qual revive a mes­
ma realidade de transcendência e imanência do Eu indivi­
dualizado.
A projeção imanente do Eu na personalidade do ho­
mem permanece latente e incônscia durante longo tempo,
mas faz sentir a sua presença como impulso evolutivo,
como exigência de auto-realização, como autoconsciência,

40
embora de maneira vaga e embrionária. É o "grãozinho de
ferm ento" do qual Cristo fala no Evangelho, que pouco a
pouco faz "crescer e levedar" a farinha em que estava ocul­
to: é o Reino do Céu oculto dentro do homem, que mais
cedo ou mais tarde fará sentir a sua presença e irá manifes-
tar-se à luz.
O caminho para alcançar o crescimento pleno dessa
centelha do Eu, profundamente escondida dentro de nós,
é a evolução da consciência, e é um caminho longo e d ifí­
cil, repleto de insídias e de dificuldades. De fato, o senso
de autoconsciência, de início vacilante e nebuloso, primei­
ro vislumbre da consciência do Eu que desperta, corre sem­
pre o perigo de ser sufocado, desviado e de perder-se no la­
birinto da complexa estrutura psíquica do homem. Mas, as­
sim como Teseu teve o "fio de Ariadna", que lhe servia
de guia e de ponto de referência para que não se perdesse
no dédalo, também nós devemos encontrar um ponto de
apoio e de auxílio, que nos dê segurança para não nos per­
dermos nos escuros meandros interiores.
O nosso "Fio de Ariadna" poderia constituir-se do
centro da consciência desidentificado dos aspectos psíqui­
cos da personalidade (centro que assinalamos no capítulo
precedente), capaz de estar sempre estável, lúcido e livre.
Cada um de nós possui a capacidade de levar esse pon­
to focal da consciência a emergir, a meio caminho entre a
personalidade e o Eu, e com exercícios e métodos oportu­
nos podemos favorecer a sua manifestação.
é preciso, antes de mais nada, reconhecer que aquilo
que acreditamos ser o nosso eu é apenas uma projeção

41
fragmentária e alterada do Eu total, condicionada pelo
automatismo inconsciente dos veículos pessoais e encerra­
da na ilusão da separatividade.
Em segundo lugar devemos aprender a "desidentifi-
carmo-nos" desse eu inferior. Para que possamos chegar a
essa atuação devemos saber como é formada e organizada
a personalidade e o que realmente ela vem a ser.
A personalidade, como dissemos da outra vez, é o
conjunto dos três veículos de expressão do Eu que, em sen­
tido psicológico, são chamados "funções psíquicas" (Jung).
Esses três veículos são:
1) o corpo físico com a sua contraparte vital (etéri-
ca);
2) o corpo emotivo (ou astral);
3) o corpo mental.
Esses três veículos, quando a consciência do Eu ainda
está adormecida, são amorfos, passivos, abertos a todas as
influências, e qualificam-se e organizam-se, durante um
longo período, apenas sob os estímulos e as influências que
provêm do exterior, do ambiente, da família, da sociedade,
etc. Esses estímulos e influências são mais fortes do que os
provenientes do Eu, ainda incônscio, e bem depressa se
transformam em automatismos, em hábitos m uito difíceis
de serem superados uma vez estabelecidos.
Por isso podemos dizer que a personalidade do ho­
mem de evolução média, que está bem longe da verdadeira
consciência do eu, é apenas um conjunto de condiciona­
mentos e automatismos, de reações mecânicas e de energias
movidas por impulsos que não provêm do Eu real, mas do

42
eu superficial. A esse conjunto é que chamamos personali­
dade ou, como diz Aurobindo, "personalidade frontal", e é
tomada como se fosse o Eu, como se fosse a verdadeira in­
dividualidade do homem, quando é apenas máscara (pes­
soa) ilusória e falsa.
Realmente: "Pensamos conhecer-nos, mas só conhece­
mos a parte superficial de nós mesmos. A consciência que
está em cada um de nós e com a qual enfrentamos o mun­
do, é agitada e modelada pela sua influência, é um proces­
so de condicionamento a que estamos sujeitos desde o mo­
mento em que nascemos, mas que, se nos tornarmos cons­
cientes disso, dele nos afastaremos". (De Verso la realtà, de
Sri Ram, p. 163.)
O que acreditamos ser o nosso eu é, pois, uma perso­
nagem fictícia, construída com a substância (por assim di­
zer) que temos em nós, mas segundo um modelo alterado,
distorcido, ilusório.
O que acreditamos ser a nossa consciência é apenas
uma "falsa" consciência, um conjunto de hábitos e de
automatismos, que nos obrigam a declamar uma parte, a
comportarmo-nos de um certo modo, enquanto a nossa
verdadeira consciência, a que provém do Eu Real, da nossa
verdadeira natureza, permanece incônscia, e só em alguns
raros momentos aflora, dando-nos um fugitivo clarão de
"verdadeiro" conhecimento, de autenticidade, de verdade.
É como se tivéssemos dois "e u ", um superficial, ha­
bitual, mecânico, falsamente racional, que nos impõe as
suas exigências, fraquezas e ambições, e um outro "e u",
silencioso e oculto, como que velado por uma névoa, se­

43
mi-adormecido e incònscio, mas que às vezes desperta
subitamente e nos inunda com a sua luz deslumbrante, nos
fulmina com a sua potência, nos sacode com a sua alta vi­
bração, mas que depois, de repente, torna a desaparecer,
sufocado pela cortina de névoa das nossas ilusões.
Tais momentos, infelizmente, são raros e fugidios
para a maioria dentre nós, mesmo porque, ao invés de
reforçá-los com a nossa atenção, com a recordação cons­
tante, com a aspiração ardente, muitas vezes não lhes da­
mos a importância devida, antes os ignoramos, ou depres­
sa os obliteramos com a superficialidade da nossa mente
concreta. . . Isso acontece, também, porque alguma coisa
em nós sabe que para aceitar a verdadeira consciência de­
vemos renunciar ao eu pessoal, superar o egoísmo, os
apegos, as exigências inferiores: em outras palavras, deve­
mos operar em nós uma "inversão", uma conversão das
energias em direção ao alto. Por isso, inconscientemente,
opomos resistência à verdadeira luz, sufocamos a consciên­
cia nascente do Eu, negando-a até mesmo a nós próprios.
Na realidade, a primeira coisa que o afluxo da cons­
ciência real faz aflorar é um senso de "lu z " que ilumina to ­
dos os lados do nosso ser, levando-nos a reconhecer a falsi­
dade, a inauteníickiade, a precariedade de tudo aquilo que
de início considerávamos verdadeiro. Faz vacilar as nossas
presunçosas convicções, a nossa pretendida "fé ", os nossos
ilusórios ideais e, às vezes, até os nossos mais caros afetos.
Coloca-nos diante de uma problemática moral angustiante
e tormentosa, leva-nos a cair em uma profunda crise, da
qual tentamos, de toda a forma, sair e fugir.

44
A voz do Eu, a Sua luz reveladora, não podem, toda­
via, ser sufocadas e negadas e, mais cedo ou mais tarde, re­
tornam, veementes, inexoráveis, para se engajarem com o
eu pessoal numa luta longa, dura e extenuante.
Essa é uma fase evolutiva que o homem deve forçosa­
mente atravessar em um certo momento de seu desenvolvi­
mento interior, e que é m uito importante e útil, pois leva
ao afloramento dos dois pólos da sua natureza, de cujo
atrito, depois resolvido em unificação, poderá vir a libera­
ção da consciência verdadeira.
Ê a fase na qual o Eu é sentido como uma realidade
externa, objetiva, como meta a alcançar fora de nós.
Van der Leeuw descreve assim esse estágio:
"Desde esse momento ele (o homem) deve reconhe­
cer em si duas pessoas em uma: o Eu divino mais alto, que
o chama continuamente para a Sua Divina pátria, e a na­
tureza inferior que é a sua consciência ligada aos corpos e
por eles dominada." {Dei in esilio, p. 12.)
Na realidade, essa sensação de dualidade é ilusória.
Não há dois "e u ” , um inferior e um superior, mas
apenas um. Nós criamos uma cisão na consciência, identi­
ficando-nos com a periferia da circunferência e não com o
centro. Por outro lado, essa sensação de dualidade é m uito
ú til para o desenvolvimento da consciência do homem,
pois é exatamente do conflito, do atrito entre dois pólos,
resolvidos em um nível superior, que pode emergir aquele
princípio de síntese e de unificação que é o Eu.
Por trás dessa cisão ilusória da nossa consciência há
uma realidade universal e esotérica: a lei da polaridade. Es­

45
sa lei se encontra, realmente, em todos os níveis da mani­
festação, do macrocosmo ao microcosmo, sob uma in fin i­
dade de aspectos. Tudo o que existe tem o seu oposto: po­
sitivo e negativo, ativo e passivo, macho e fêmea, vida e
morte, vigília e sono, consciente e inconsciente.. . Estes
são apenas alguns exemplos da dualidade universal. Tudo é
dúplice, tudo é bipolar, como se o Uno, ao manifestar-se, se
tivesse cindido em duas grandes energias cósmicas. E com
efeito assim é, pois que cada polaridade deriva da cisão ini­
cial do Absoluto em Espírito e Matéria, as duas colunas da
manifestação: o Pai e a Mãe cósmicos, que dão vida ao Fi­
lho, isto é, à Consciência.
Assim, também o homem revive em si a lei da polari­
dade, experimenta-a em todos os níveis, sofrendo as lutas
e as angústias da tensão dos opostos, até que consegue su­
perá-las depois de um trabalho de transformação e de subli­
mação, reunindo-as em um centro sintético que tem o po­
der unificador.
A autoconsciência da qual falamos no capítulo prece­
dente, contém ejn si esse "poder unificador", quando se
torna um centro do nosso ser capaz de desidentificar-se dos
aspectos inferiores da personalidade, subir acima dos con­
flito s e nos fazer sentir "u m ".
Por isso, a técnica para a desidentificação dos veículos
pessoais é necessária, a fim de que nos libertemos da falsa
consciência e encontremos esse "ce n tro ": "O método da
negação é indispensável para nos desembaraçarmos das de­
finições e dos limites. . afi rma Sri Aurobindo, conti­
nuando depois: "O meio mais simples consiste em um pro­

46
cedimento familiar, o de criar uma separação entre Purusha
(Espírito) e Pakriti (Matéria)". (De La sintesi dello yoga,
pp. 38 e 59, vol. II.)
A autoconsciência, em relação aos veículos pessoais,
representa o pólo espiritual, o Purusha, enquanto a perso­
nalidade, em seu todo, com os seus automatismos e as suas
vibrações mais lentas e mais baixas, representa o pólo da
matéria (Prakriti). Por isso, só quando tivermos alcançado
um certo grau de liberação e desidentificação do centro da
consciência das energias dos veículos pessoais, poderemos
"unificar os dois", pois teremos um ponto de apoio, um
fio de Ariadna que nos dará a possibilidade de nos desem­
baraçar das falsas identificações, de superar os condi­
cionamentos que por tanto tempo moveram as energias
que formam a nossa personalidade.
é preciso dizer, porém, que esse trabalho de desiden­
tificação é muito mais complexo do que se crê, pois não se
trata tanto de conseguir as três funções da personalidade,
mas também, e sobretudo, de reconhecer os condiciona­
mentos, os automatismos inconscientes, as ilusões ocultas
que nela se instauraram há m uito tempo, e dissolvê-los,
despertando-nos para o real conhecimento de nós mesmos.
Com algum tempo poderemos desidentificar-nos
do que aparece no campo da nossa consciência comum.
Mas, como fazer para nos desidentificar dos impulsos,
das tendências e dos hábitos que têm raízes no incons­
ciente?
No início, o único auxílio será criarmos uma dualida­
de na consciência (se já não surgiu naturalmente), pro­

47
curando observar-nos com objetividade e desapego, é a fo r­
mação do senso do Espectador, da Testemunha interna,
verdadeiro e exato estágio de desenvolvimento da consciên­
cia, que pouco a pouco emerge da névoa, da multiplicidade
dos elementos psíquicos conscientes e inconscientes, e que
permanece estável, livre de todas as influências inferiores.
Essa consciência do Espectador, à proporção que se
torna mais clara, mais contínua, mais forte, adquire o po­
der de levar também os conteúdos inconscientes a aflorar.
Na verdade, eles habitualmente não conseguem vir à super­
fície, entrar no campo do consciente, porque é exatamente
o eu pessoal que a isso se opõe, e os nega, criando uma
"resistência". Mas, se soubermos apelar para o desapego
e a imparcialidade "daquele que observa", se soubermos
colocar nosso enfoque no centro da consciência que antes
descrevemos e que é apenas o Espectador desapegado e
objetivo, então essa resistência cai, e o que antes era in-
cônscio pode aflorar e entrar no campo consciente.
Portanto, devemos começar pela concentração de to ­
dos os nossos esforços para conseguir chegar à postura do
Espectador, porque só depois de termos conseguido isso
poderemos iniciar um trabalho sério, produtivo e eficaz pa­
ra o desenvolvimento da consciência.
Uma prática m uito útil para tal finalidade é a do exa­
me noturno, que consiste em uma análise dos acontecimen­
tos, dos estados de ânimo e dos pensamentos que tivemos
durante o dia, exame que se deve fazer antes de deitar, de­
pois de termo-nos posto em atitude interior de calma, re­
colhimento e relaxamento, procurando objetivar a nós pró­

48
prios, de nos observar e analisar como se se tratasse de
uma outra pessoa. Se fizermos com constância e por um
longo período de tempo esse exame noturno, ganharemos
o hábito de nos observar com desapego e, gradativa­
mente, irá formar-se em nós um ponto focal na consciên­
cia, para onde espontaneamente poderemos "su bir" de vez
em quando, sempre que quisermos analisar-nos e obser­
var-nos. Esse ponto focal é, exatamente, a postura do
Espectador.
Perceberemos, então, que em nós existe realmente a
capacidade de "subir" acima do comum, de objetivarmo-
nos e de saber contemplarmo-nos com desapego e impar­
cialidade. Perceberemos que o Espectador em nós, de in í­
cio silencioso e imóvel, pouco a pouco irá tornar-se fonte
de luz e sabedoria, e, antes de mais nada, instaurará um
conflito e, depois, um "diálogo" com a personalidade, para
tirá-la das suas ilusórias identificações e guiá-la para con­
quistas mais reais.
Esse relacionamento dialético entre um pólo superior
e um pólo inferior internos é uma das muitas fases de de­
senvolvimento que o homem atravessa em seu caminho pa­
ra a autorealização, e é o período necessário de dualismo
que nos ajuda a superar a imersão na matéria e a identifi­
cação com a forma.
A meta é recompor a Unidade perdida, encontrar a
totalidade do nosso ser, que "esquecemos", tornando-nos
inconscientes da essência real de nós mesmos.
A dualidade do eu, na realidade, é apenas aparente,
mas assinala uma fase de desenvolvimento indispensável

49
para passar da inconsciência ao despertar da consciência.
O conflito, o atrito, o relacionamento dialético e a desiden­
tificação, são as várias etapas da inter-relação entre o eu
pessoal e o Eu espiritual, que acaba por resolver-se na uni-
cidade fundamental do homem.
A dualidade da nossa natureza assemelha-se a uma
crucificação, é uma luta dolorosa que repete em nós, m i­
crocosmo, um drama universal que se desenrola também em
nível macrocósmico: a crucificação do Espírito com a
Matéria. Na verdade, a cruz é um símbolo humano e cósmi­
co que quer exatamente expressar o encontro de duas ener­
gias universais provenientes do Uno, que devem cruzar-se
e depois unificar-se em um ponto central.
Subir à Cruz, como o Cristo, e aceitar o sacrifício do
que é inferior, para fazer brotar o superior, simboliza o su­
peramento da dualidade por meio da sublimação e da
transformação da forma, e o encontro da unidade perdida.

50
QUESTIONÁRIO R ELATIVO AO CAPITULO III
1. Sentem-se sempre em harmonia consigo mesmos ou
lhes sucede, às vezes, estar em conflito, como se exis­
tissem em suas pessoas duas vontades opostas, mas
igualmente fortes?
2. Sentem, às vezes, como se por trás do seu "e u " co­
mum existisse uma outra pessoa, uma outra presença
velada, nebulosa, entretanto viva e real?
3. São capazes de "ver-se" com desapego e imparciali­
dade, e de sentir-se "espectadores" de suas pró­
prias pessoas?
4. Acontece-lhes, em momentos de emergência ou de ex­
trema necessidade, sentir que aflora inprevistamente
dentro de si uma outra presença, um outro "e u", do­
tado de força, sabedoria, coragem e lucidez?
5. Em que ocasiões sentem-se em perfeita harmonia com
suas próprias pessoas, com um senso de "unidade de
propósito", como se todas as suas energias, todas as
suas aspirações, convergissem em uma única direção?
6. Pensam saber distinguir a aspiração, a tendência, a
qualidade e a energia, que provêm do eu pessoal, das
que provêm de uma parte mais alta de si mesmos?
7. Quando pensam em seu Eu, sentem-no exterior a si
próprios, como algo a alcançar, ou o sentem profun­
damente fechado em si mesmos, como um "q u id "
a evocar e despertar?
8. Acontece-lhes sentir como que "um diálogo" interno
entre um eu limitado e egoístico e um Eu mais am­
plo, luminoso e sábio?

51
EXERCÍCIO N9 3
Desidentificação do Corpo Físico

I. Sentem-se em lugar tranqüilo e cômodo e tentem rela­


xar por completo.
II. Depois de terem obtido um resultado satisfatório, re­
colham a consciência para o interior de si mesmos.
III. Procurem sentir a vida, a realidade, as energias do seu
mundo interior, independentemente das condições do
seu corpo físico.
IV. Procurem, agora, considerar o corpo físico, neste mo­
mento completamente relaxado, apenas como um ins­
trumento que o eu usa e habita.
V. Depois afirmem, silenciosamente, mas com força e
convicção:
"Eu tenho um corpo físico
Mas não sou o meu corpo.
Ele é apenas um instrumento
No qual a consciência habita.
Ele é apenas um veículo
De expressão do meu
Verdadeiro eu".

N.B. Façam esse exercício todos os dias, ao menos durante


15 dias, e por cerca de 15 minutos, a cada manhã. Ha­
bituem-se, também durante o dia, a sentir o corpo físi­
co como um instrumento, uma máquina que usam e
mantêm com todos os cuidados, mas que é apenas um
meio de expressão da consciência do Eu.
52
Capítulo IV

O ESPECTADOR INTERIOR

"Sábio entre os homens e devo­


to no cumprir cada ação é aque­
le que sabe ver a inação na ação
e a ação na inação. " (Bhagavad
Gita, Canto IV , 18.)

Quando evocarmos em nós o centro de consciência


desapegado e desidentificado dos veículos pessoais, pode­
remos tentar a identificação dos dois pólos da nossa natu­
reza, a humana e a divina. Assim, é necessário que nos de­
tenhamos a descrever, embora brevemente, os métodos e
as posturas apropriadas para criar esse centro de consciên­
cia, que é chamado com tantos nomes: o Espectador, o
Observador silencioso, a Testemunha interior, mas que, em
substância, é um nível de consciência, que poderemos de­
fin ir (como já foi dito) "O ponto mediano entre a persona­
lidade e a Alma".
De tal "ponto mediano" podemos observar com desa­
pego, e desapaixonadamente, os movimentos e reações das
três funções pessoais, e ver como tais funções pertencem

53
ao plano do relativo; mas poderemos, sobretudo, procurar
fazer com que brote em nós próprios a capacidade de uni­
ficação, de integração e de síntese.
A possibilidade de "subir acima do co n flito " está ina­
ta em todos os homens, pois, como diz Jung, "psicologi­
camente falando, somos, ao mesmo tempo, o vale e o mon­
te".
Acontece muitas vezes, realmente, que quando somos
tomados por uma forte emoção, uma perturbação, um so­
frimento, sentimos contemporaneamente ao estado emoti­
vo, também um outro conhecimento, uma presença, capaz
de observar e objetivar aquele estado de ânimo em parti­
cular. Esse outro conhecimento nos parece, estranhamente,
embora sendo imóvel, desapegado e incapaz, estar intervin­
do, em um certo sentido, mais real e mais vizinho do nosso
ser verdadeiro, do que a outra parte de nós mesmos, imersa
na agitação, no sofrimento, no conflito.
Se prestássemos mais atenção aos afloramentos súbi­
tos e esporádicos de tal centro interior, desapegado e cal­
mo, semelhante ao "olho do ciclone", e se o cultivássemos
e reforçássemos com o exercício e a concentração, eles se
tornariam pouco a pouco mais freqüentes, mais contínuos,
mais claros e mais fortes, até se tornarem firmes e estáveis.
Ele é a "testemunha interior", como o chama Sri
Aurobindo, o Espectador silencioso, "sentado sobre o tro ­
no entre as sobrancelhas", que deve ser evocado, mais cedo
ou mais tarde, para que possamos começar a libertar-nos
da prisão das falsas e ilusórias identificações, que nos fa­
zem viver como autômatos, sem luz e sem conhecimentos,

54
arrastados pelas paixões e pelos instintos, eternamente em
conflito entre os dois pólos, débeis e incapazes de romper
o círculo vicioso criado por nós próprios.
Evocar o Espectador interior significa subir acima da
dualidade e assim, encontrar a unidade.
Para chegar a isso é necessário, antes de mais nada,
exercitar-se para a desidentificação e o desapego, requisitos
necessários para encontrar o centro.
A qualidade do desapego é, na realidade, um resulta­
do da desidentificação, e implica a liberação dos condicio­
namentos, dos hábitos ilusórios criados pelos aspectos infe­
riores da personalidade e, sobretudo, implica a compreen­
são da sua verdadeira função. Às vezes, os três aspectos, ou
corpos, da personalidade, são chamados "veículos de ex­
pressão", e essa definição pode ajudar a compreender a sua
verdadeira função. Realmente, eles deveriam servir para
"expressar os três aspectos correspondentes do Eu: Von­
tade, Amor, e Inteligência Criativa" no plano da manifesta­
ção. Esse é o seu único e verdadeiro escopo. Ao invés disso,
acontece, devido ao estado de obscuridade e inconsciência
no qual o homem se encontra no início do caminho evolu­
tivo, que eles em lugar de "expressarem", escondam, dis­
torçam e utilizem de maneira errada as energias espirituais
das quais são os canais e, por isso, a personalidade é con­
siderada como a "máscara" e não como o meio de expres­
são do verdadeiro Eu. A verdadeira função da personalida­
de, composta pelos três veículos, não seria a de alterar,
mascarar, criar obstáculos à nossa real essência, mas a de
torná-la notória, compreensível, útil, no plano humano.

55
De fato, a personalidade não é senão um meio de con­
tato, de expressão, de "tradução" em termos humanos e
acessíveis, das nossas energias mais altas. A personalidade,
na verdade, para expressá-lo, o reduz, o adapta, o transfor­
ma, tal como faria um transformador elétrico. A consciên­
cia do eu, como já dissemos, é identificada com o instru­
mento de expressão e com a energia que ele manifesta, e
não com a fonte de tal energia, como seria justo. Esse é o
erro. É preciso assim, que liberemos a consciência do eu
quanto a essa falsa identificação, passando, antes de mais
nada, através da fase da "negação", da desidentificação e,
depois, através da fase na qual está o ponto de apoio, o
centro firme da consciência, sobre o qual podemos colo­
car a alavanca. E esse centro é a postura do Espectador.
Vejamos, agora, como é possível atuar praticamente
na fase de desidentificação.
Há várias fases, ou graus, que necessariamente temos
de atravessar para que possamos alcançar a verdadeira desi­
dentificação, que consiste na emersão na consciência da­
quele centro capaz de objetivar tudo que pertence ao mun­
do psíquico, isto é, todas as razões emotivas, movimentos
psíquicos, etc., que são fruto de ilusão, de condicionamen­
to, de "falsa consciência".
Essas fases são quatro:
1) Imobilidade interior e relaxamento de todos os
três veículos.
2) Escuta e abertura.
3) Elevação da consciência, liberação da falsa identi­
ficação, objetivação.

56
4) Encontro do centro de consciência livre e desape­
gado e identificação com ele.

1) Que quer dizer imobilidade interior?


Quer dizer a manutenção das energias dos três veícu­
los pessoais em um estado de quietude e estabilidade, en­
quanto o centro de consciência emerge.
Podemos conquistar uma certa capacidade de entrar
nesse estado de imobilidade interior gradativamente, ades­
trando-nos com uma série de exercícios práticos, seja no
que se refere ao corpo físico, seja no que se refere aos
outros dois veículos: o emotivo e o mental.
Para o corpo físico existem os exercícios de relaxa­
mento que tendem a nos levar a um estado de completa
distensão.
Para o corpo emotivo existem os exercícios que levam
ao repouso emocional, que é, em certo sentido, o equiva­
lente do relaxamento físico no plano emotivo. A natureza
emocional deve alcançar uma condição de calma, de paz,
e de estabilidade e há práticas e adestramentos com esse
fim .
No que se refere ao veículo mental, ele deve ser man­
tido em um estado de "silêncio", que não é torpor ou vá­
cuo, mas um estado de "receptividade vigilante", uma
quietude lúcida e atenta. A mente deve esvaziar-se de seu
conteúdo habitual e caótico, para depois fazer-se repleta de
conhecimento, de lucidez, e de desapego objetivo.
2) Se conseguirmos alcançar o estado de quietude e
imobilidade interior dos três veículos pessoais, automatica­

57
mente produz-se uma abertura para um nível de consciên­
cia que antes não podíamos perceber, sobrecarregados co­
mo estávamos com as mil vozes discordantes das sensa­
ções físicas, das emoções e dos pensamentos da mente in­
ferior. Realmente, a quietude e o relaxamento interior,
além de servirem para criar uma zona "neutra" de paz, de
imobilidade em cada veículo da personalidade, dão a possi­
bilidade de reconhecer e sentir alguma coisa que pode
emergir e fazer-se ouvir apenas no silêncio da persona­
lidade.
A paz interior é, de fato, chamada "o silêncio que
ressoa", assim como a nota do Eu é chamada "a Voz do
silêncio", exatamente porque só quando as "vozes" do eu
inferior são postas em silêncio, podemos ouvir a verdadeira
voz, a voz da nossa natureza divina.
Assim, se conseguirmos chegar a um estado de quietu­
de subjetiva, espontaneamente alcançaremos uma postura
de escuta, de receptividade, postura que constitui o segun­
do degrau para a evocação da consciência do Espectador
interior.
3) Estando assim no silêncio e na quietude, pouco a
pouco, espontaneamente, o nível da nossa consciência se
elevará, já que por uma inata lei interior, "a luz gira por lei
própria, se não se interrompe seu estado habitual", como
diz o Mestre Lu-Tzu. Em outras palavras, bastaria tirar os
obstáculos, as falsas identificações, as ilusões, para fazer a
realidade emergir, a realidade que está sempre presente
dentro de nós, não-ouvida, não-reconhecida e sufocada pe­
la nossa inconsciência.

58
De tal modo, sem que nos demos conta, tudo com
que antes nos identificávamos e que nos parecia tão impor­
tante e real, irá parecer-nos relativo, não-essencial e carente
de autêntico valor.
Perceberemos que os nossos sentimentos, as nossas
emoções, os nossos desejos eram, na realidade, "hábitos
automáticos", que as nossas opiniões intelectuais eram
"condicionamentos mentais" e que mesmo alguns dos nos­
sos ideais estavam baseados em iluões. . .
Todavia, esse reconhecimento não nos fará cair em es­
tado de depressão e tristeza, mas dar-nos-á um senso de li­
berdade, força, lucidez, pois no mesmo momento em que
tomba a "falsa consciência" e nos desidentificamos com o
seu conteúdo, começa a emergir alguma outra coisa, um
centro de conhecimento novo e luminoso que, embora não
sendo plenamente compreendido, é capaz de olhar com
desapego e objetividade as reações dos veículos pessoais e
permanecer lúcido, sereno e calmo.
4) Essa fase é aqule na qual conseguimos reencontrar,
a cada vez em que o quisermos, o centro de consciência li­
vre e desapegado: a postura do Espectador, completamente
desidentificado das energias pessoais, nosso auxiliar inte­
rior nos momentos de necessidade e de emergência, que
nos dá a capacidade de observar-nos, de não cairmos de no­
vo nas ilusões e nos condicionamentos, que nos faz sentir
serenos e calmos mesmo em meio a provações e a bata­
lhas mais árduas, que nos leva a superar o medo, a descon­
fiança e a dúvida, que nos dá capacidade para resolver
qualquer problema, superando-o, pois ele é como o vértice

59
de um triângulo cuja base é formada pela linha que reúne
os dois pólos da natureza dual humana.
Ter a capacidade de evocar a consciência do Especta­
dor em nós, quando necessitamos, representa um degrau
importante no caminho evolutivo, e é uma meta que deve­
mos, com todos os esforços e treinamentos, tentar alcan­
çar, se quisermos realizar nossa verdadeira natureza e de­
senvolver a consciência do Eu.
Neste ponto é preciso sublinhar uma verdade impor­
tante que muitos aspirantes, em boa fé, ignoram, ou que­
rem ignorar: nada se consegue sem esforço, sem treinamen­
to, sem aplicação da vontade, é uma ilusão crer que basta
a aspiração sincera para obter realização interior, seja ela
qual for.
Diz Sri Aurobindo que o esforço pessoal é indispen­
sável de início. Eis suas palavras: "é preciso começar com
um esforço de superação de si próprio, que permita ao me­
nos um contato com o D ivin o ... até que o contato com o
Divino não esteja estabelecido em certo grau, enquanto
não exista uma certa identidade e continuidade, o esforço
pessoal deverá normalmente prevalecer". (De La sintesi
detlo yoga, vol. I* pp. 57, 58.)
Assim não nos podemos eximir de passar através de
um período de disciplina e de treinamento voluntário, por­
que é necessária a vontade de "captar as energias do egoís­
mo e voltá-las para a luz e a verdade", para inverter a dire­
ção que elas erradamente seguiram por tanto tempo, para
romper o automatismo incônscio e os hábitos falsos e ilu­
sórios.

60
0 primeiro passo, como já foi dito, é a liberação da
consciência das falsas identificações, a desidentifica­
ção e o encontro de um centro de consciência livre, calmo
e desapegado, mensageiro do Eu, sua "testemunha" (como
o chama Sri Aurobindo), que pouco a pouco nos levará pa­
ra uma revelação ulterior e mais alta.
Assim, devemos exercitar-nos com paciência e perse­
verança para a desidentificação, usando todas as práticas
para favorecê-la. Assinalamos, no capítulo precedente, a
prática do exame noturno, muito útil para tal fim. Ele de­
veria ser feito diariamente, com constância, para que pro­
duzisse efeitos sensíveis. Além disso, deveremos praticar, a
cada manhã, o exercício de desidentificação dos veículos
pessoais, que produzirá lentamente uma reorientação das
nossas energias e a colocação do foco do nosso eu sempre
mais para o alto e para o interior, por assim dizer, e assim
sempre mais perto da realidade da nossa natureza, que é o
Eu.

61
QUESTIONÁRIO RELATIVO AOCAPlTULO IV

1. Sabem observar-se com desapego,sem reações emotivas?


2. Sabem ser objetivos e imparciais também consigo
mesmos?
3. Confundem a postura do Espectador com uma tenta­
tiva de evasão do sofrimento, ou com a busca de um
refúgio para as dificuldades e os problemas da vida?
4. Sabem ser interiormente desapegados e, contudo, agir
prontamente quando necessário?
5. Sabem amar, sofrer, gozar, participar da vida, perma­
necendo livres interiormente?
6. Saberiam compreender o verdadeiro significado das
palavras do Bhagavad Gita, que exortam a realizar to­
das as ações vendo " a açãonainaçãoeainaçãona ação"?
7. Qual é o seu principal obstáculo para conseguir a pos­
tura do Espectador:
a) a emotividade?
b) o criticismo?
c) o apego?
d) a suscetibilidade?
e) o orgulho?
Ou qualquer outra coisa não presente nessa lista?
8. Confundem, talvez, a polaridade mental com a postu­
ra do Espectador?
9. Confundem, talvez, a incapacidade de amar e de sentir
compaixão com o desapego do Espectador?
10. Acreditam que a indiferença do Espectador seja frieza
ou aridez do coração?

62
EXERCÍCIO N9‘4
Desidentificação do Corpo Emotivo

I. Preparem-se para o exercício como das outras vezes.


II. Depois de terem conseguido um bom relaxamento e
satisfatória interiorização, desidentifiquem-se do cor­
po físico como foi sugerido no exercício n9 3.
III. Se for preciso, acalmem agora o corpo emotivo, de­
pois procurem ultrapassá-lo, dizendo para si mesmos:
"Eu tenho um corpo emotivo, mas não sou
O meu corpo emotivo.
Ele é apenas um instrumento do Eu
Que deve servir para expressar
Os sentimentos, os afetos, a sensibilidade.
Eu tenho um corpo emotivo, mas
Eu não sou o meu corpo emotivo
IV. Repitam esse exercício todos os dias, até que consi­
gam sentir no próprio momento do exercício, ou mais
tarde, durante o dia, a capacidade de se desidentifica-
rem dos seus estados emocionais e vê-los como que do
alto, com serenidade e desapego, permanecendo im-
pertubáveis e objetivos.

63
Capítulo V

RECONHECIMENTO DOS OBSTÁCULOS

"O centro de toda resistência é


o egoísmo. Devemos descobri-
lo, especificá-lo, seja qual disfar­
ce use para esconder-se, e tra­
zê-lo à luz para destruí-lo."
(Sri Aurobindo: La Sintesi II,
p. 48.)

A tentativa de alcançar a consciência do Espectador


interior e a desidentificação da personalidade, muitas ve­
zes se encontra diante de muitos obstáculos internos, di­
ficuldades e problemas, dos quais antes não tínhamos co­
nhecimento e que não estamos em condição de resolver
apenas com a vontade e com a aspiração, por ardente e
sincera que sejam.
Não são poucos os que diante de tais obstáculos se
desencorajam e sentem diminuir em si o ímpeto espiritual
para a auto-realização. Não há coisa mais errada do que o
desencorajamento, que, por si mesmo, já constitui um
obstáculo, um dos maiores mesmo, no caminho do desen­
volvimento da consciência.

65
Examinemos agora, antes de mais nada, o obstáculo
do desencorajamento e procuremos compreender de onde
ele se origina.
As pessoas que aspiram a auto-realizar-se poderiam ser
divididas em duas categorias principais:
1) As que iniciam o caminho com grande ímpeto e
vivo entusiasmo sem, porém, avaliar plenamente o alcance
da tarefa a que se propuseram, e sem uma bagagem adequa­
da de conhecimento e de força de vontade. Essas pessoas
são as emotivas.
Sinceras e fervorosas em sua aspiração, todavia se
desiludem com facilidade e se desencorajam diante das di­
ficuldades, pois não são aguerridas para superá-las.
2) As que são impelidas, com ou sem conhecimento
disso, por um móvel não completamente puro, isto é, o da
ambição ou do desejo de auto-afirmar-se, ao invés de se­
rem movidas pela aspiração autêntica e espontânea de en­
contrar o centro de si mesmas e a verdadeira consciência.
Os que pertencem a essas duas categorias dificilmen­
te poderão alcançar a meta, e são condenados ao fracasso,
a menos que tomem consciência da errônea colocação de
sua busca interior.
Quem quer realmente alcançar a realização do Eu e
depertar efetivamente a consciência verdadeira, deve estar
muito atento e não se deixar passar para uma ou outra das
posturas acima descritas, e deve colocar-se continuamente
em guarda para vigiar o próprio móvel, a própria aspiração,
cultivando, sobretudo, o justo senso das proporções, a fim
de poder, sensatamente, avaliar, seja a meta a alcançar, se­

66
jam os meios de que dispõe para conquistá-la.
O fracasso e a desilusão derivam exatamente de não se
saber reconhecer as próprias e reais possibilidades, de não
saber prever as dificuldades e os obstáculos eventuais, e
também de não saber descobrir quais são os vários degraus
que devem ser forçosamente superados antes de alcançar
a meta.
Essa postura sábia, equilibrada e conhecedora não di­
minui a força da aspiração, antes a torna mais eficaz e mais
iluminada e é a prova evidente da efetiva maturidade inte­
rior, única a tornar o aspirante pronto a iniciar o caminho
árduo, mas luminoso, do desenvolvimento da consciência.
0 general previdente e sensato faz planos antes de ini­
ciar a batalha, e com agudo e prudente poder de previsão
imagina os perigos, as dificuldades, os ardis contra os quais
deverá combater, e não se abandona à ilusão de uma fácil
vitória.
Assim nós, antes de nos predispormos à tarefa da
transformação das energias da nossa personalidade em
consciência, obra que tem seus momentos de luta, de peri­
gos e de crises, devemos saber conjecturar quais serão as
várias fases desse trabalho, dessa verdadeira batalha, repleta
de obstáculos, de insfdias e de ilusões, que requerem cora­
gem, força e firmeza interior.
Como Arjuna no Bhagavad-Gita deve combater em sua
batalha simbólica contra seus próprios consangu íneos, as­
sim o aspirante, se quiser alcançar a realização do verdadei­
ro Eu, deve combater as forças da personalidade, que, es­
tabilizadas que estão sobre uma vibração inferior, mos­

67
tram-se inimigas e hostis.
E, com estas palavras, viemos a falar dos obstáculos
internos que se interpõem entre a nossa aspiração e a
meta.
Dissemos que as forças da personalidade se estabi­
lizaram sobre uma vibração inferior.
Que querem dizer, exatamente, essas palavras?
Querem dizer que as energias que compõem os três
veículos da personalidade tomaram o "hábito" de vibrar
segundo um certo comprimento de onda, pois a consci­
ência ainda não estando desperta, elas reagem automati­
camente aos estímulos que recebem do exterior.
Já tivemos ocasião de dizer que, na realidade, a
personalidade é constituída de um conjunto de auto­
matismos e de condicionamentos que muito dificilmente
são superados. Quando tentamos nos desidentificar dos
veículos pessoais e nos concentramos na postura do
Espectador, somos, de início, impotentes contra esses
automatismos e é muito duro interrompê-los para levá-los
a mudar de direção, pela simples razão de que sua meca-
nicidade tem origem no incônscio.
Os principais obstáculos internos são, assim, cria­
dos exatamente por essa resistência que as energias dos
veículos inferiores opõem, habituadas que estão a se­
guir um certo ritmo condicionado, ritmo que podería­
mos chamar "involutivo", e que é, portanto, o que está
em oposição à consciência em caminho do despertar,
consciência que, ao invés disso, tem um ritmo "evo­
lutivo".

68
Isso produz o que Sri Aurobindo chama "confu­
são funcional", isto é, a incapacidade de utilizar os veí­
culos pessoais segundo sua verdadeira função, seguindo-se
daí erros, conflitos e sofrimento.
A esta altura uma pergunta vem, espontânea: "Como
pode ser produzida essa cisão, esse dualismo se, na reali­
dade, tudo é composto pela mesma substância, pela
mesma energia e se, realmente, por trás da diversidade
está a Vida Una?"
Espírito e Matéria, dizem as doutrinas esotéricas,
são uma coisa só, todavia se emparelham separadas e
opostas. Por quê?
Porque, embora sendo Espírito e Matéria dois as­
pectos do Uno, esses aspectos são diferentes, como o
podem ser os dois pólos de um magneto: ativo um deles,
passivo o outro. De fato, o Absoluto é " . . . ao mesmo
tempo ativo e passivo, pura essência do Espírito no estado
absoluto de repouso, pura matéria no estado finito e
condicionado". (Do Lettere dei Mahatmas, lettera XI.)
Portanto, Espírito e Matéria, são os dois pólos do
Uno manifestado mas, embora sendo ambos eternos,
sem princípio, embora sendo ambos energia, vida, têm
em si uma distinção e essa distinção está no aspecto.
O aspecto do Espírito é a imobilidade, a calma, o repouso,
pois Ele vibra numa velocidade tão alta que chega a parecer
em absoluta quietude, enquanto o aspecto da Matéria
é vibrante a uma velocidade diferente e muito mais lenta
criando, assim, diversos níveis ou planos e diversas formas,
que estão em contínuo movimento e transformação.

69
Voltando agora aos veículos da personalidade pode­
mos constatar e ver que, embora sendo também eles
compostos de energias e, assim, da mesma "substância"
do Espírito, são considerados "matéria", já que vibram
a uma velocidade lenta e baixa.
Não devemos procurar erguer as vibrações da per­
sonalidade mas sim levá-la a "sintonizar" com as vibra­
ções do Eu, que representa o pólo positivo do homem e,
assim, o aspecto Espírito.
é necessário abrir, agora, um breve parêntese para
assinalar as implicações que derivam do fato de que as
energias dos veículos pessoais vibram em um baixo nível.
Além da "confusão funcional" de que já falamos,
a vibração baixa produz aquilo que chamamos erro, mal,
qualidade negativa.. .
De qualquer maneira, a realidade é que essa mes­
ma energia que em baixo nível se manifesta como "qua­
lidade negativa", se é levada a uma freqüência vibratória
mais alta transforma-se em qualidade positiva. Essa é
uma lei.
Por exemplo: a combatividade, a ira, a agressividade
se forem sublimadas tornam-se força, poder, vontade,
em nível espiritual. O criticismo transforma-se em dis­
cernimento. 0 amor egoístico transmuta-se em Amor
Universal, e assim por diante.
O segredo da transmutação e das sublimações das
energias está oculto exatamente nesta verdade: cada
aspecto negativo do homem é, precisamente, o avesso
de um aspecto positivo, é aquilo que Sri Aurobindo

70
chama "a metade escura da Verdade". Se vemos os nossos
defeitos sob esse ponto de vista, o mal que está em nós
já não nos parecerá insuperável, mas esses defeitos pare­
cerão conter em si mesmos a chave para serem transfor­
mados em aspectos positivos e para se tornarem "degraus"
para subir.
Os antigos alquimistas afirmando que "no alto
como embaixo, embaixo como no alto", demonstravam
ter intuído a existência de uma unidade substancial de
tudo, unidade que, entretanto, deve ser descoberta e
levada a manifestar-se e a ser, de uma certa maneira,
recriada por meio das transformações da matéria.
O símbolo dos alquimistas era o "ouroboros", istoé,
a serpente que morde a própria cauda.

Símbolo que queria significar a obra de transforma­


ção da matéria bruta em ouro puro, ou seja, em Espí­
rito. A serpente que morde a própria cauda representa

71
um círculo no qual princípio e fim se tocam, pois repre­
sentam os dois pólos da realidade, que derivam da mesma
fonte. Diz Jung: "Os alquimistas não fizeram senão repe­
tir que o "opus" surge de uma coisa e reconduz nova­
mente ao Uno e que, portanto, em certo sentido, é um
circuito, como um dragão que morde a própria cauda".
(De Psicologia e Alquimia, p. 320.)
Eis, pois, confirmada a necessidade da purificação
e da sublimação das substâncias que compõem a perso­
nalidade, que sempre estiveram aconselhadas por todas
as escolas iniciáticas através dos tempos, e que não consis­
tem em um árido e duro ascetismo ou em uma repressão
dos instintos e das exigências da personalidade, mas em
reconhecimento primeiro da verdadeira natureza das
energias que estão em nós, depois em uma reorientação
e uma canalização delas em direção da origem de que
vieram.
Diz Sri Aurobindo: "Cada parte da nossa natureza
não tem como escopo final algo que seja totalmente
estranho e de que derive a necessidade da sua extinção,
mas algo de supremo e no qual transcende e encontra
o seu próprio absolutismo, o seu infinito e a sua harmo­
nia, para além de todo o limite humano". (De La sintese
de!Io yoga, II, p. 14.)
O obstáculo principal é assim manter separado
o que na realidade é unido na igualdade da origem, é
querer ignorar essa igualdade e não saber encontrar a
ponte para superar a divisão, a cisão que se criou em
nós.

72
"A divisão. .. a consciência imperfeita, o proceder
às apalpadelas, a luta de um eu afirmando-se separada­
mente, são a causa efetiva da ignorância, do sofrimento
deste mundo." (Sri Aurobindo: L'enigma dei mondo.)
A separação é o verdadeiro mal, é quem cria o egoís­
mo, fonte de todos os erros e de todos os conflitos, e
não é por acaso que a palavra "diabo" (que deriva do
grego dia-ballo) significa, na realidade, "o que divide,
o que separa".
A única fonte de dor, de obscuridade, de ilusão
é o distanciamento, a separação do Uno, a grande heresia,
e é o manter em vida, com obstinação e pertinácia, essa
heresia, voltando as costas à Luz do Espírito que está
em nós, que é parte de nós. Pois é isso que acontece ao
homem que, imerso na sua inconsciência, construiu um
"eu" separado e ilusório e se aferra a ele com todas as
suas forças, resistindo e rebelando-se contra a sua própria
realidade espiritual e eterna.
Como podemos, pois, superar esse obstáculo básico,
do qual todos os outros derivam?
Por que não são suficientes, como dissemos, apenas
a vontade e a aspiração?
Se nos dermos conta de que o obstáculo acima
descrito foi provocado pelo nosso estado de inconsciência
e de obscuridade, que o transformou em um condiciona­
mento, em um automatismo incônscio, poderemos bem
compreender o quanto é difícil, com efeito, libertar-nos
dele, dissolvê-lo, usando meios tais como a vontade cons­
ciente ou a aspiração, porque esses são meios que atuam

73
do exterior e não alcançam a profundidade.
. . cada automatismo reage por si mesmo contra
a modificação que a vontade procura levar à direção
que ele imprime à vida; a inércia que é necessário suplantar
para estabelecê-la continua nele, e o mantém". (Chevrier:
D ottrina occu/ta, p. 25.)
é , portanto, a força da inércia (que é (Visita em todas
as substâncias) que se opõe ao esforço de superar um
hábito, um automatismo e que constitui uma resistência
insuperável, é uma lei da natureza.
é necessário, portanto, proceder de outra maneira,
não diretamente, mas indiretamente, com um trabalho
interior, lento e gradual, de maturação da consciência
que, pouco a pouco, conseguirá desatar, por assim dizer,
aquele condicionamento, e liberar as energias que são
absorvidas por ele, dirigindo-as para a direção certa.
"O Upanishad nos diz que o "existente em si" dispôs
as portas da Alma de tal modo que só podem abrir-se
do interior para o exterior. . ." (Sri Aurobindo: La sintese
deito yoga, II, p. 24.)
Que querem dizer essas palavras?
Querem dizer que para alcançar a verdadeira cons­
ciência não se pode começar do externo, com uma de­
cisão racional ou volitiva, mas do interno, com um tra­
balho de interiorização, que tem início com a observa­
ção de si, com a desidentificação do mundo psíquico
e que depois continua com a liberação dos seus condi­
cionamentos, até levar a emergir o "centro de consciên­
cia", que é o reflexo do verdadeiro Eu, do Eu divino em

74
nós. Somente então supera-se a divisão, a dualidade e as
energias pessoais recuperam a sua exata função.
"Se descobrirmos esse Divino dentro de nós, se
chegarmos a reconhecer-nos Nele, na Sua essência, no
Seu ser, teremos encontrado a porta da liberação. . ."
(Sri Aurobindo.)
é necessário, pois, um perfodo de preparação que
se inicia com a auto-análise para reconhecer a existência
dos obstáculos e que nos leva a uma interiorização gradual
e sempre mais consciente, e depois a um segundo período
de efetiva purificação e transformação das substâncias
que compõem nossos veículos pessoais para, antes de
mais nada, produzir uma reorientação e depois uma
transformação e, de tal maneira haverá uma sintonização
das energias inferiores com as energias superiores do Eu,
que a cisão e a separação interiores desaparecerão.
Essa é a verdadeira ioga, a união dos dois pólos por
meio da ponte interior da consciência.

75
QUESTIONÁRIO RELATIVO AO CAPfTULO V

1. Tendem a desencorajar-se quando não conseguem


obter rapidamente resultados dos seus exercícios?
2. A que categoria de pessoas pensam pertencer entre
as duas apontadas no capítulo quinto?
a) à primeira categoria?
b) à segunda?
3. Ou a nenhuma das duas, pois é uma outra a causa do
eventual desencorajamento?
4. Acreditam que o móvel que os impele a querer reali­
zar a verdadeira consciência seja puro e sincero?
5. Poderiam definir esse móvel?
6. Estão conscientes das dificuldades e obstáculos que
se podem apresentar no caminho do desenvolvimento
da consciência?
7. No que se refere a si mesmos, que obstáculos pensam
que estejam dentro de suas próprias pessoas?
8. Qual é o veículo da sua personalidade que consideram
mais condicionado, portanto menos pronto a estabe­
lecer um novo ritmo de vibração?
a) o mental?
b) o emotivo?
c) o f ísico-etéreo?
9. Sabem ver em um seu eventual defeito ou em uma
sua postura negativa a possibilidade de transformação
na qualidade superior correspondente?

76
EXERCfCIOS N9 5

Desidentificação da Mente

I. Preparem-se para o exercício como fizeram das outras


vezes.
II. Desidentifiquem-se do corpo físico.
III. Desidentifiquem-se do corpo emotivo.
IV. Procurem polarizar-se na mente e depois procurem
afastar todos os pensamentos, todos os movimentos
mentais, objetivando-os, e observando-os como
objetos externos.
V. Procurem sentir que são o “ Pensador" e não os
pensamentos.
VI. Depois digam, a meia-voz, ou inaudivelmente:

"Eu tenho uma mente, mas não sou a minha mente.


A mente é apenas um instrumento que serve
ao verdadeiro Eu para formular
conceitos e raciocínios,
para conhecer e pensar, mas não é o eu.
Os pensamentos são o produto
desse instrumento,
mas não são o pensador.
O eu é o pensador.
Eu sou o pensador

77
Capítulo VI

RESULTADOS DA DESIDENTIFICAÇÃO

"Somos dominados por tudo


aquilo com que nos identifica­
mos. Podemos dominar, dirigir
e utilizar tudo aquilo com que
nos desidentificamos." (R. As-
sagioli)

A desidentificação dos três veículos da personalidade


e a obtenção da postura do Espectador levam o homem,
pouco a pouco, a saber observar, atrás das aparências,
os significados reais e as causas atrás dos efeitos, desen­
volvendo a sensibilidade para as energias sutis. E isso
acontece porque os eventos, as formas e as manifestações
do mundo da fenomenalidade, observados com desapego
e com ausência de personalismo e de emotividade, revelam
o seu verdadeiro significado de "símbolos" do mundo
do Real. é esta a razão pela qual a desidentificação não
acentua o dualismo Espírito-Matéria, embora no início
pareça enfatizar a distinção entre Eu e não-eu, mas, ao
contrário, conduz à capacidade de síntese e ao reconhe­

79
cimento da unidade fundamental de todas as coisas.
Realmente a desidentificação, sendo essencialmente
liberação da falsa consciência e superação dos erros fun­
cionais dos veículos, produz a emersão da “ verdadeira"
consciência, que representa o "F ilh o ", partícipe, ao
mesmo tempo, da natureza do Pai-Espírito Santo e da
Mao-Matéria, sendo, assim, capaz de reunir em si os dois
aspectos. Portanto, o primeiro resultado efetivo produ­
zido pela desidentificação é o despertar da exigência de
um equilíbrio que gradualmente pode transformar-se
em simultaneidade e adesão completas.
De início não é fácil alcançar tal equilíbrio, mas
há contínua oscilação entre os dois pólos representados
pela personalidade de um lado e o Eu de outro lado,
e alternam-se períodos de imersão no mundo exterior
e períodos de retiro e de busca interior. A obtenção
da postura do Espectador é que dá a capacidade de nos
mantermos firmes no centro e assim podermos chegar
a um equilíbrio harmônico entre a vida interior e a vida
exterior. "A ação na inação e a inação na ação", como
se diz no Bhagavad-Gita, é a faculdade do discípulo que
conseguiu o desapego e a desidentificação e cuja cons­
ciência está sempre instalada "no local onde está o Espec­
tador silencioso".
Na prática nem sempre é fácil conservar a focaliza-
ção naquele nível, e só em raros momentos conseguimos
nos sentir espectadores e subir acima da dualidade e do
conflito. Esses raros momentos, todavia, são preciosos,
porque nos dão a certeza de que aquela obtenção é possí­

80
vel e, sobretudo, nos dão estímulo para procurar reprodu-
zi-los em nossa consciência. As experiências interiores têm
isso em particular: são criativas e dinâmicas, isto é, não per­
manecem apenas em si mesmas, mas produzem um movi­
mento, mesmo inicial que seja, das energias psíquicas para
a direção que se lhes imprima e, de tal modo os resultados
posteriores tornam-se surpreendentemente mais fáceis,
mais freqüentes, mais estáveis.
Um outro efeito da obtenção da desidentificação é o
desenvolvimento do discernimento, qualidade profunda­
mente esotérica e que é definida como "a capacidade de
distinguir entre o real e o irreal".
é preciso que se tenha bem claro em mente o que se
entende por Real e o que se entende por irreal, para não se
recair no senso de dualismo que, pelo contrário, procura­
mos superar.
Com efeito, tudo quanto existe, em qualquer nível,
do mais alto ao mais baixo, é real, enquanto feito da única
substância, da única vida que invade todo o cosmo. Exis­
te um "continuum" de consciência-vida em vários graus
de manifestação e, assim, vários graus de realidade. Irreal
é, às vezes, nossa interpretação errônea, a visão limitada e
alterada, o erro das funções, e é irreal o não compreender
que os meios com os quais procuramos conhecer a Reali­
dade são ilusórios e relativos.
Por exemplo: o mundo físico não é irreal, mas é irreal
crer que ele seja "tudo", que seja absoluto e que não tenha
outro significado, ou outro escopo atrás da forma daquilo
que experimentamos com os nossos sentidos físicos.

81
é irreal interpretar os acontecimentos sem estabele­
cer-lhes o vínculo com as leis universais e divinas que os
produziram. É irreal ver apenas a aparência e não a energia
que está por trás dela. é irreal dar crédito aos nossos dese­
jos egoísticos e às nossas emoções pessoais, é irreal fechar-
se numa idéia e fazer dela um absoluto, é irreal separar a
parte do Todo, criar divisões, cisões e ser incapaz de unir e
ligar, é irreal ter confiança completa em nossa mente con­
creta e nas suas elocubrações.
O discernimento, portanto, ajuda-nos a compreender
quando estamos dando uma falsa interpretação aos fatos,
quando estamos fazendo absoluto o relativo e nos ajuda a
alargar nossa visão, a conquistar a capacidade de síntese,
além da capacidade de análise, e nos faz reconhecer que os
nossos sentidos e a nossa mente não bastam para que co­
nheçamos a Realidade, mas que devemos desenvolver
outras faculdades e outras potencialidades latentes para al­
cançar a descoberta da verdade.
O discernimento é semelhante à sabedoria e à intuição
ou, melhor, prepara o caminho para o desenvolvimento da
sabedoria e da intuição, pois, à proporção que tentamos
desenvolvê-lo, ele purifica e sublima as energias mentais e
nos leva a passar do intelecto para a intuição.
Não pode haver a postura do Espectador sem discerni­
mento, mesmo porque tal qualidade, de início, baseia-se na
objetividade e na impessoalidade. Na verdade, não pode ha­
ver capacidade de distinguir e discriminar se não se sobe
acima das emoções e do personalismo e se não se afasta o
eu inferior egoístico.

82
Os resultados principais da desidentificação, portanto,
são:
1 — o equilíbrio entre a vida interior e a vida exterior;
2 — o discernimento entre o Real e o Irreal.
Esses resultados são, por assim dizer, conseqüências,
isto é, indiretos. Em outras palavras, eles surgem como
efeito natural e espontâneo da maturidade interior e da ele­
vação da consciência produzida pela desidentificação, qua­
se a demonstrar-nos que a liberação dos vínculos com a fal­
sa identificação faz brotar em nossa consciência a luz, a sa­
bedoria, e a energia do Divino, porque Ele já está em nós,
e é apenas a nossa inconsciência que o sufoca e oculta. Eis
por que se diz que "conhecer é recordar", é tomar cons­
ciência do que já está em nós.
é necessário dizer, porém, que exatamente porque a
Realidade se manifesta em vários níveis de consciência, não
poderíamos reconhecé-la toda no mesmo instante, mas por
graus e por sucessivas iluminações, como se percorrêssemos
um caminho simbólico de despertar gradual, até chegarmos
à iluminação completa e à visão global.
é como se dentro de nós existisse uma escada para su­
bir, um cimo a alcançar, que é o vértice da nossa consciên­
cia individual. Talvez a sensação de "subida" seja apenas
ilusória, porque, com efeito, não existe um "a lto " e um
"b aixo " na dimensão psíquica, mas essa sensação é um
símbolo que ajuda a consciência a elevar-se como vibração.
Eis por que o contato com o Superconsciente, os
átomos de auto-realização e de iluminação chamam-se, na

83
escola psicológica de Maslow1, “ experiências dos cimos"
(peak experiences), exatamente porque a sensação de "su­
bida" é comum a todos os que conseguiram alcançar,
ainda que só esporadicamente, uma consciência mais
completa e mais autêntica do que a comum.
Existem, assim, realmente, diversos planos, ou níveis
de consciência, diversos graus de realidade (como também
afirma Sri Aurobindo) que se revelam sucessivamente aos
que procuram o conhecimento e a realização do seu Eu
Divino.
A desidentificação do corpo físico e dos outros veí­
culos pessoais leva a constatar, por experiência direta, essa
"subida interio r", através dos vários graus de consciência,
subida que conduz ao cimo da montanha de onde nos é re­
velada a "presença" de um centro de conhecimento novo,
sereno, luminoso, imóvel, no qual nos reconhecemos.
Esse encontro do Espectador silencioso e desapegado
que está dentro de nós, não é só um fato psicológico, uma
forma sagaz de encontrar a calma, o autocontrole, a força
interior para enfrentar as provas da vida, mas uma realiza­
ção efetiva, que traz como conseqüência uma maturidade,

1 E m in e n te p s ic a n a lis ta a m e ric a n o , re p re s e n ta n te da escola d e p s ic o lo g ia


c h a m a d a " P s ic o lo g ia d a te rc e ira fo r ç a " , seguida p o r m u ito s estu d io so s
e psic ó lo g o s , c o m o F r a n k l, B a ru k , A l l p o r t e m u ito s o u tro s .

84
senão a sintonia vibratória entre a personalidade e a Alma,
chamada "continuidade de consciência".
A continuidade de consciência é uma obtenção final,
o resultado das graduais e sucessivas ampliações da visão,
mas é a meta para a qual todos nos estamos movendo.
O primeiro passo para a continuidade de consciência
é, portanto, o equilíbrio entre a vida pessoal e a vida espi­
ritual e a conquista da faculdade de discernimento entre o
Real e o irreal, como já dissemos.
As fases sucessivas nos conduzem gradualmente à in­
clusão, em nossa consciência comum, dos outros níveis de
realidade e percebemos, então, que "sem o conhecimento
dos outros graus da realidade, o nosso conhecimento do
mundo humano comum permanece tão incompleto e falso
como o seria o estudo do mundo físico sem o conhecimen­
to das moléculas, dos átomos e partículas. Não se com­
preende nada enquanto não se compreende tudo. (Sat­
prem: L'avventura delia coscienza, p. 127.)
é necessário chegar a essa unificação dos vários níveis
de consciência, e harmonizá-los entre si, criando uma pon­
te interior que os ligue, a fim de que sejam superadas as ci-
sões e a inconsciência que os dividem.
A desidentificação é o primeiro passo para essa u n ifi­
cação, porque nos oferece o ponto de apoio, o centro sóli­
do e firme, do qual podemos operar e efetuar, assim, a sín­
tese e a harmonização.
Devemos aprender a conhecer esses outros níveis de
consciência e há vários métodos que podem ajudar-nos nes­
se conhecimento. Um desses métodos é o sono, isto é,

85
um desenvolvimento da consciência e, sobretudo, a certeza
de que existe uma Realidade que se pode alcançar agora
mesmo, enquanto ainda estamos no corpo físico. Muitos
acreditam, de fato, que só depois da morte é possível ter
experiência das outras dimensões e dos outros planos de
vida. Ao contrário, podemos também em vida constatar a
existência desses outros planos, sem deixarmos o invólucro
material. Assim se manifesta aquela "contemporaneidade"
de conhecimento, aquele perfeito alinhamento, que não é
"fazer do sono um campo de experiência e um período de
vida consciente nos planos interiores da realidade".
Por esse motivo devemos procurar compreender o ver­
dadeiro mecanismo sono-vigília, e dedicaremos portanto a
esse importante assunto o próximo capítulo.

86
QUESTIONÁRIO RELATIVO AO CAPITULO VI

1. Que efeitos puderam notar em si mesmos após a


prática do exercício de desidentificação?
a) Positivos? Quais?
b) Negativos? Quais?
2. Se lhes parece que tal postura interior lhes trou­
xe resultados negativos, saberiam dizer quais fo­
ram, entre os seguintes:
Aridez?
F rieza?
Indiferença?
Insensibilidade?
Incapacidade de agir com prontidão?
3. Os eventuais resultados negativos indicam que o exer­
cício não foi feito de maneira certa e que a verdadeira
postura do Espectador não foi alcançada. Saberiam
explicar por quê?
4. Saberiam, ao contrário, descobrir em si mesmos os re­
sultados positivos?
5. Parece-lhes haverem alcançado maior equilíbrio inte­
rior e maior objetividade?
6. Alcançaram um certo desapego?
7. Parece-lhes que houve o desenvolvimento de um certo
discernimento?
8. Que lhes parece que venha a ser o discernimento?
a) é uma qualidade da mente?
b) é um aspecto da intuição?

87
9. Como efeito da desidentificação conseguem "desper-
sonalizar-se" diante dos seus problemas e dos proble­
mas alheios?
10. Saberiam dizer por que e de que modo a desidentifi­
cação leva, paulatinamente, à continuidade de cons­
ciência?
11. O que é a "continuidade de consciência"?

88
EXERCÍCIO N9 6
A uto-fíeconhecimento

I. Depois de terem conseguido a desidentificação do


corpo físico, do corpo emotivo e do corpo mental,
procurem sentir sua auto-consciência como um "pon­
to " imóvel e firme, como o centro de uma circunfe­
rência.
II. Procurem concentrar-se nesse centro, sentindo-o pro­
fundamente oculto em si mesmos, como a sua mais
íntima e mais verdadeira subjetividade.
III. Identifiquem-se com ele, não o objetivem.
Procurem "viver", "ser" o centro, retirando todas as
suas energias da periferia da circunferência, que per­
manece externa.
IV. Depois, digam silenciosamente, com força e intensida­
de
"Eu sou o centro da circunferência,
Eu sou o fulcro da consciência,
Eu sou a nascente da vida, da luz,
do amor, da energia, da vontade.
EU me reconheço nesse centro.
Eu sou o centro.
Eu sou".

N.B. Repitam esse exercício a cada dia, depois de ter feito


a desidentificação dos três veículos pessoais.

89
Capítulo VII

CONTINUIDADE DE CONSCIÊNCIA

"Com muita freqüência nós nos


perguntamos em que momento
realmente se sonha, se durante
o dia entre as contínuas ilusões,
ou à noite, quando o reino do
sono nos transmite doce e con­
tinuamente a verdade, a reali­
dade." (Ania Teillard.)

Por que dormimos? Por que, com um ritmo cíclico,


a nossa consciência desaparece naquele estado de obscuri­
dade e inconsciência a que chamamos "sono"?
Esta, e muitas outras perguntas semelhantes, o ho­
mem faz a si mesmo, e a ciência tem tentado, e tenta, res­
ponder-lhe, sem, todavia, ter chegado até hoje a conclu­
sões definitivas, parecendo, assim, que o problema se tenha
antes deslocado para a questão do "p or que estamos acor­
dados".
Na verdade, afirma-se que o sono é um estado primá­
rio, isto é, natural, enquanto a vigília é um estado secundá­

91
rio, isto é, adquirido. Basta observar os organismos infe­
riores e a vida infantil e pré-natal do homem, para perceber
que o estado de sono prevalece diante do estado de vigília.
Quase seria possível dizer que o homem deva aprender a
estar acordado, e que o estado de vigília representa uma
conquista, devida à passagem gradual da inconsciência à
consciência, entendida, nesse caso, como conhecimento,
lucidez e capacidade de registrar mentalmente as sensações,
as impressões, os estímulos que vêm do mundo subjetivo, e
como faculdade de distinguir entre o eu e o não-eu. ê
justamente com a emersão da autoconsciência que os pe­
ríodos de vigília se vão fazendo sempre mais longos e che­
ga-se ao equilíbrio entre o sono e a vigília.
é preciso, assim, considerar sono e vigília como duas
fases da vida que se vêm diferenciando e afastando, desde
um primitivo estado indiferenciado, no qual, por exemplo,
estão imersos alguns organismos inferiores, dos quais seria
impossível dizer se estão acordados ou adormecidos.
O estado de vigília é, portanto, muito importante,
embora, como veremos, nos limite, nos constrinja no res­
trito espaço de conhecimento consentido pelo nosso cére­
bro físico, fechando-nos o contato da consciência com os
outros graus da realidade, é importante porque, não obs­
tante tudo quanto foi dito, é exatamente no período de
vigília que nasce, forma-se e cresce a capacidade de ser
consciente e, pouco a pouco, se chega à realização do Eu.
é o contato com a realidade externa, é a limitação,
que produzem o desenvolvimento da consciência. Isso não
devemos esquecer.

92
0 despertar é exatamente o obstáculo criado pelo
nosso corpo físico, a identificação com ele e o contraste
com as outras formas que, pouco a pouco, nos leva a emer­
gir de um estado de identidade inconsciente com todas as
coisas, e que determinam o fechamento no invólucro do
nosso “ eu", que será a matriz para a evolução da consciên­
cia.
Durante o sono o eu se ofusca, tomba na inconsciên­
cia e nós nos libertamos da identificação com o corpo físi­
co e podemos entrar em contato com os outros níveis de
vida que existem nas dimensões hiperf ísicas.
Portanto, as duas fases da nossa vida, a vigília e o so­
no, têm duas funções diversas, mas igualmente importan­
tes: uma nos leva a fazer a experiência do mundo objetivo
e nos dá a oportunidade de nos tornarmos sempre mais
"conscientes"; a outra nos permite voltar a um estado de
liberdade, de desinibição e de nos sobrepormos às nascen­
tes da nossa natureza primigênia.
No grau evolutivo em que a maior parte dos homens
se encontra, portanto, a queda na aparente inconsciência
do sono não só é inevitável masé necessária, porque repre­
senta o retiro para o outro pólo da nossa natureza e o atin­
gir energias no fundo vital e autêntico do nosso ser pro­
fundo.
Estamos ainda imersos na dualidade que, apesar de
ilusória e temporária, é necessária ao nosso desenvolvimen­
to. Assim, oscilamos continuamente de um pólo a outro,
rítmica e ciclicamente: vigília e sono, extroversão e intro­
versão, consciência e inconsciência. .. Para chegar à conti­

93
nuidade de consciência, isto é, a nos libertarmos da necessi­
dade dessa oscilação, dessa polaridade, deveremos estar
sempre conscientes do elemento transcendente que está em
nós, o Eu, que é a síntese dos contrários e a perfeita totali­
dade. No nível em que se encontra a maior parte dentre
nós, é indispensável a imersão do sono, ciclicamente alter­
nando-se à emersão na vigília, pois que no sono o outro
aspecto da nossa natureza liberta-se da presença condicio-
nante e inibidora do eu consciente, da mente racional e se
expande e regenera. Tomamos contato e vivemos nas cama­
das incônscias do nosso ser quando dormimos, e já que
essas camadas incluem também o Supraconsciente onde se
equilibra a "consciência incônscia" do Eu, é possível tam­
bém atingir a sua luz, a sua força, a sua Sabedoria, que du­
rante o dia, enquanto estamos limitados pelo nosso cérebro
físico, não podemos perceber.
Quando está acordado, "o homem é prisioneiro das di­
mensões do seu corpo, constrangido na dimensão da sua
psique, mas na dimensão do seu "noos" (onde se encontra
quando dorme) ele é livre" (Joseph Fabry: Introduzione
alia logoterapia, p. 27.)
Também Sri Aurobindo afirma que a verdadeira e
mais profunda razão do sono é a de consentir que tenha­
mos contato com a nascente interior, e é por isso que o so­
no, quando é profundo e calmo, retempera e restitui força
e vitalidade ao homem.
é de fato surpreendente a propriedade regeneradora
do sono normal, não sendo comparável a nenhuma outra
forma de repouso. Constatamos continuamente esse poder

94
reparador do sono, mesmo quando dormimos por um bre­
ve período. Poucos minutos de "sono verdadeiro" restau­
ram m uito mais do que um longo repouso em vigília. E isso
acontece exatamente porque o sono nos permite uma imer­
são em dimensão diferente de consciência, que é aquela,
vivificante e energética, da nossa natureza mais profunda e
real, onde residem as fontes da própria vida. Também Jung
diz que quem sabe pôr-se em contato com o incônscio,
atinge uma nascente de juventude e vitalidade perenes, en­
quanto aqueles que se fecham a ele, produzem para si pró­
prios, uma contratura psíquica que suscita muitos distúr­
bios e mal-estares, entre os quais astenia profunda e sensa­
ção de desvitalização.
O sono, todavia, não é apenas um período de repou­
so e de retiro para o outro pólo da nossa natureza; é algo
de muito mais importante e complexo. Ele é uma verdadei­
ra e apropriada fase em nossa vida, que se repete ciclica­
mente e que pode dar-nos a prova da existência dos outros
planos da realidade, que não podemos perceber durante o
estado de vigília. Quando estamos acordados, realmente, o
nosso campo de consciência é m uito limitado, é apenas
uma parte da consciência total. Existem, como já dissemos,
muitos outros níveis de conhecimento que não penetram
na nossa consciência comum.
0 que limita a nossa capacidade de consciência?
Quando estamos acordados, a nossa limitação depen­
de, em grande parte, da identificação da consciência com
o cérebro físico, que está em situação de responder apenas
a vibrações de um determinado nível, pelo próprio fato de

95
ser composto de matéria física ainda não refinada. Sabe­
mos, realmente, que também a matéria evolui e se purifica
à proporção que o homem progride no caminho espiritual.
Quanto mais evoluída é uma pessoa, portanto, tanto mais
sfeu cérebro físico se torna puro, refinado e receptivo às vi­
brações mais altas. Todavia, há sempre um desnível entre a
vibração da matéria física e as vibrações não só do Eu, mas
também dos veículos sutis e isso depende, em parte, da
própria natureza da matéria, que tem um ritmo vibratório
mais lento, e em parte da inércia ínsita que retarda e delon­
ga a sua evolução em relação à daqueles outros corpos su­
tis. Em outras palavras, o progresso, a evolução da matéria
física tem um ritmo mais lento e retardado do que o da
evolução interior da consciência e, por issso, essa consciên­
cia, embora sendo "espírito em sua mais baixa vibração",
constitui um obstáculo e uma limitação.
é o cérebro físico, pois, que na maior parte dos casos
limita o campo do conhecimento, e impede o homem de
conhecer a extensão real da sua consciência. Pode aconte­
cer, às vezes, que um indivíduo já tenha alcançado um grau
evolutivo bastante avançado, e assim um certo grau de
consciência relativamente elevado, nos planos sutis, mas
não pode "registrar" e perceber, em sua consciência da vi­
gília (isto é, a que se expressa por intermédio do cérebro
físico), as experiências e os estados em que vive durante o
sono, quando se retira para seus veículos hiperfísicos. Em
outras palavras, há uma cisão dentro dele no campo da
consciência. Não há, portanto, aquilo que se chama "con­
tinuidade de consciência".
Durante o sono é a vida onírica que se revela e faz
surgir o grau de consciência alcançado pelos veículos sutis.
Eis por que é importante saber compreender e saber anali-
sar os sonhos.
Infelizmente, porém, acontece com freqüência que
não conseguimos trazer a lembrança dos sonhos tidos para
a consciência da vigília e também nesse caso é o peso da
matéria de que é composto o cérebro físico que, quase
sempre, cria o obstáculo. Há muitas pessoas convencidas de
que jamais sonham, porque a cisão entre a consciência du­
rante o sono e os sonhos e a da vigília, é constante nelas. É
observado, como também a ciência assinalou, que todos
indistintamente sonhamos, ao menos durante duas horas a
cada noite.
Como, pois, podemos superar essa cisão e tornar nos­
so cérebro físico mais capaz de registrar a consciência dos
outros planos da realidade?
Como podemos conseguir a "continuidade de cons­
ciência", seja durante o período de vigília, seja durante o
sono?
Antes de mais nada é preciso ter a convicção de que
existem "outros graus de realidade" e, portanto, outros es*
tados de consciência, e admitir que o nosso "eu" conscien­
te é limitado e muitas vezes falso e inautêntico. Além dis­
so, devemos procurar, com todos os métodos e meios,
constatar com a experiência direta a realidade dos outros
níveis de vida e consciência. A possibilidade dessa constata­
ção direta nos é oferecida, em primeiro lugar, pela vida que
desenvolvemos durante o sono,e que é registrada nossonhos.

97
A questão é, portanto, conseguir recordar os sonhos.
O primeiro passo para a superação da cisão que nos
impede de levar à memória da vigília a recordação da vida
onírica, é aprender a adormecer de maneira justa, e saber
entrar na dimensão hiperfísica do modo mais apropriado.
Adormecer de maneira justa significa, antes de tudo,
"preparar-se" para o sono, procurando elevar as vibrações
da nossa consciência antes de nos deixarmos levar para o
estado de repouso e inconsciência que precede o sono,
cuidando de que em nós se estabeleça uma condição de cal­
ma, de paz, de relaxamento e de desapego interno das emo­
ções e das preocupações tidas durante o dia.
é indispensável eliminar todos os estados emotivos
desagradáveis, desarmônicos, todas as tensões e as imagens
associadas a estados de agitação, de cólera, de hostilidade,
etc.
Para isso podemos ajudar-nos lendo algum trecho de
assunto elevado, antes de predispor-nos a dormir ou fazer
um breve recolhimento meditativo, concentrando todas as
energias na cabeça e imaginar que "saímos do corpo" atra­
vés do alto da cabeça para entrar numa dimensão diferente,
que se pode figurar pela imagem de um túnel que vai para
cima.
Muitos instrutores espirituais aconselham mesmo que
se retire as energias do corpo, começando pelos pés e de­
pois subindo sempre, até a cabeça, e a seguir pensar que se
entra pela porta do sono através do alto da cabeça, como
já dissemos.
Tudo isso poderá parecer difícil e não-natural mas,

98
com o exercício e o treinamento, nós chegaremos a com­
preender que esse modo de preparar-se para o sono é, ao
invés, mais natural, mais fácil, mais espontâneo, é como
um "resvalar para fora", um deixar-se arrastar pelas ener­
gias como por uma corrente que tem "naturalmente" a
tendência de ir para cima.
é também muito útil a prática do exame noturno que
aconselhamos em um dos capítulos precedentes, como pre­
paração ao sono, porque isso nos ajuda a focalizar-nos na
postura do Espectador e, assim, a elevar as vibrações da
personalidade.
Também o momento do acordar deve ser cuidado,
deve tornar-se um meio para favorecer a continuidade de
consciência. E esse é o segundo passo.
A reentrada na consciência de vigília deve ser lenta e
doce e, sobretudo, gradual. Se for possível, portanto não é
necessário, apenas acordado, mover-se rapidamente, mas
permanecer tranqüilos e relaxados ainda por alguns minu­
tos, deixando que a mente, vazia e imóvel, contemple, por
assim dizer, as imagens e as sensações do sono que ainda
esvoaçam na consciência.
Esse treinamento é aconselhado também por Sri
Aurobindo que diz que se quisermos construir ao menos a
primeira "ponte" entre a consciência tida durante o sono
e a consciência de vigília, não há outro método senão "a
imobilidade total e o silêncio completo do despertar". Um
silêncio não só da palavra mas também da mente, é neces­
sário procurar não pensar em nada, mas "ficar debruçados
sobre grande lago tranqüilo, como em uma contemplação

99
sem o b je tiv o ..." (Satprem: Uavventura delia coscienza, '
p. 134.)
De uma certa forma tudo é questão de "atenção",
de estar sempre vigilante, na escuta e na espera dos outros
níveis de consciência que estão em nós e que não percebe­
mos exatamente porque estamos "distraídos", ofuscados
por mil pensamentos e sensações, que criam em torno de j
nós uma espécie de névoa.
Às vezes acontece que seja suficiente apenas o dese­
jo, o interesse de recordar os sonhos, a maior focalização
para o mundo onírico, uma atenção portanto mais concen­
trada, que os leva a aflorar com maior freqüência e com
maior vivacidade à memória. De fato, que vem a ser, na
realidade, aquilo que chamamos com a expressão genérica
"incônscio", senão aquilo que o eu consciente não quer
recordar, aquilo que exclui e remove do próprio conheci­
mento?
Na realidade, ainda antes de obter a continuidade de
consciência entre a vigília e o sono, deveremos procurar
obtê-la no período de vigília. Como podemos pretender
alcançar um estado de pleno e contínuo conhecimento,
que nos faça sempre lúcidos, presentes a nós mesmos e
capazes de reunir os dois pólos na vigília e no sono em nos­
sa consciência, sem cisão e sem lacunas de obscuridade e j
inconsciência, se não somos cientes de maneira contínua j
e constante nem ao menos quando acordados?
Enquanto estamos acordados, com efeito, estamos
também nessa ocasião imersos numa espécie de "sono" e
de inconsciência, porque estamos passivos, mecânicos,

100
condicionados e não-autênticos. Vivemos numa espécie de
névoa, e só de vez em quando um lampejo de lucidez atra­
vessa nosso "sono na vigília" e nos leva a perceber a dife­
rença entre o estado de verdadeira consciência desperta e
autodeterminadora e o estado de confusão e semiconsciên­
cia no qual estamos habitualmente imersos.
Eis, portanto, a necessidade de evocar o "regedor" in­
terior, a Testemunha, o centro de consciência que fique co­
mo fulcro em torno do qual possamos reunir as energias
dos três veículos pessoais e circular harmonicamente, ilu­
minados pelo verdadeiro conhecimento.
O sono, pois, com a sua vida onírica, pode oferecer-
nos a prova de que existem outros graus de realidade e,
uma vez que consigamos recordar, ao menos uma parte dos
nossos sonhos, podemos ter a revelação de qual é a nossa
verdadeira situação interior, que grau de sensibilidade e co­
nhecimento alcançamos nos outros veículos, e assim irá
revelar-se, em certo sentido, nosso grau evolutivo.
O estado de vigília, ao invés, oferece-nos o campo e a
ocasião de fazer experiências, e para desenvolver a capaci­
dade e a qualidade em relação ao mundo externo, e exata­
mente por meio do atrito com a matéria física e a limita­
ção que nos aprisiona, pouco a pouco oferece os estímulos
apropriados para a consciência adormecida despertar, até
que chegue a alcançar a completa lucidez.

101
QUESTIONÁRIO RELATIVO AO CAPITULO VII

1. Pensam que o estado de consciência que têm na vigí-


lia seja a consciência total?
2. Têm a impressão de serem limitados na sua consciên­
cia pelo seu cérebro físico?
3. Sentem, por exemplo, uma sensação de fadiga, de
congestão, ou de dor de cabeça depois de fazerem al­
guns exercícios de meditação ou depois de terem re­
fletido sobre qualquer assunto filosófico ou abs­
trato?
4. Sentem-se sempre completamente lúcidos, despertos,
presentes diante de si mesmos, ou algumas vezes fi­
cam enevoados, incertos e como que na "expectativa
de alguma coisa"?
5. Acontece-lhes, às vezes, no meio-sono, ou quando es­
tão completamente relaxados, sentir aflorar inspira­
ções, idéias novas mais amplas, profundas e lúcidas do
que aquelas que a sua mente formula habitualmente?
6. Como é sua vida onírica? Rica, vivida, clara? Ou antes
nebulosa, confusa?
7. Sonham com freqüência? Ou pouco?
8. Recordam sempre os seus sonhos?
9. Já tiveram sonhos "conscientes"? De que gênero?
10. Podem descrever seu estado de consciência durante o
sonho?
11. Já lhes aconteceu perceber em que momento adorme­
ceram?

102
12. Ao acordar, sentem-se completamente lúcidos e já
prontos para a ação ou ainda semi-inconscientes e con­
fusos?
13. De que modo pensam que se pode ajudar o desenvol­
vimento da continuidade de consciência entre a vigília
e o sono?
14. Pensam que seja indispensável obter primeiro a conti­
nuidade de consciência na vigília?

103
EXERCÍCIO N9 7
Preparação para o Sono

I. Relaxem completamente.
II. Procurem alcançar um estado de calma emotiva, de
quietude, de paz. Apaguem todas as ânsias, todas as
tensões, ajudando com algumas imagens serenas e
com algumas respirações profundas e regulares.
III. Acalmem também a mente e afastem todos os pensa­
mentos que possam preocupá-los ou agitá-los.
Esqueçam o dia passado e voltem toda a sua atenção
para o interior, para a dimensão superior na qual es­
tão para entrar.
IV. Retirem a energia de seu corpo começando pelos pés
e subindo pelas pernas, busto...
V. Cheguem à cabeça, focalizando as energias no centro
entre as sobrancelhas e procurem não sentir seu cor­
po, mas apenas a consciência.
VI. Imaginem, depois, que se encontram diante de um tú­
nel que vai para o alto e que tem início no ponto mais
alto da cabeça.
VII. Imaginem que saem do corpo para entrar nesse túnel
passando através do ponto mais alto da cabeça.

EXERCÍCIO N9 7 (bis)
Treinamento para Recordar os Sonhos

I. No momento do despertar, pela manhã, conservem-se


imóveis e silenciosos, procurando não pensar em nada

104
e sim manter uma atitude interior de espera e escuta.
II. Se em sua mente se apresenta uma imagem ou uma re­
cordação, não se esforcem por captá-las logo ou fo­
calizá-las, mas permaneçam passivos e "contemplem-
nas" com desapego.
III. Deixem que elas eventualmente se façam precisas e se
esclareçam, mas se isso não acontecer não se irritem.
Permaneçam ainda imóveis e calmos, recordando que
"estão construindo" pouco a pouco a ponte entre a
consciência do sono e a da vigília, e que isso requer
tempo e paciência.
IV. Repitam todas as manhãs esse exercício, sem se de­
sencorajarem com os insucessos. A constância e a re­
petição, apenas, trarão resultados.

105
Capítulo V III

LIBERAÇÃO DA "F A LS A " CONSCIÊNCIA

"A consciência do homem mé­


dio é, essencialmente, uma falsa
consciência, consistente em fic-
ções e ilusões, enquanto exata­
mente aquiIo de que ele não
tem ciência constitui a realida­
d e ( D e Psicoanalisi e Buddis-
mo Zen de Erich Fromm e Su­
zuki, p. 115.)

Chegados a este ponto do nosso estudo sobre o desen­


volvimento da consciência, devemos enfrentar um proble­
ma fundamental, diante do qual muitos aspirantes espiri­
tuais sinceros com freqüência esfriam, e que constitui, por
isso mesmo, o ponto crucial no caminho da auto-realiza­
ção.
Esse problema poderia ser sinteticamente exposto
com a seguinte indagação:
"Qual é a razão pela qual, mesmo havendo a aspiração
mais sincera e fervorosa no sentido da realização do
Eu, não conseguimos desapegar-nos da vida da perso­
nalidade e continuamos a desejar, a exigir, a nos afer­
rarmos, e caímos sempre nos mesmos erros?"

107
Esse problema causticante nos leva a compreender
que há em nós um dualismo que não é só o da consciência,
mas o da substância, isto é, que existem efetivamente duas
energias, duas vidas em nós, duas vontades opostas que
combatem entre si, incansavelmente. Uma delas toma a
força da inspiração para a vida do Espírito, e a outra nu­
tre-se do desejo de experiências e sensações no mundo
objetivo. Na luta áspera e contínua, o ponto evolutivo no
qual a maioria dos pesquisadores espirituais se encontra,
vence quase sempre a segunda. Ela é a força da personalida­
de, do eu falso e ilusório, que não quer ceder o seu domí­
nio. é o "nó de obstinação do ego", como o chama Sri
Aurobindo, que resiste, rebela-se e se opõe à luz do Eu.
Procuremos compreender por que a personalidade
que, afinal, é apenas um instrumento e não tem realidade
verdadeira e própria, se opõe tão obstinamente, trazendo
dores, angústias, demoras e desvios para o homem em seu
caminho evolutivo.
Procuremos compreender isso de uma forma "cientí­
fica", por assim dizer, remontando à origem da formação
desse "nó de obstinação", dessa porfiada vontade e, dessa
maneira, tentemos desatá-lo, usando os meios e modos ade­
quados.
Que vem a ser, na verdade, a personalidade?
Que somos nós, no sentido mais exterior e comum?
Que é, realmente, o indivíduo que tem um determina­
do nome, que nasce em uma certa família, que vive em de­
terminado ambiente, que atravessa certas experiências, que
tem um determinado temperamento, que sofre, que espera,

108
que lu ta .. . Que é ele realmente? Como foi formado?
Não basta conhecer teoricamente o que dizem as dou­
trinas esotéricas, isto é, que a personalidade, o eu inferior,
é o conjunto dos três veículos (físico-etéreo, emotivo e
mental). Se fosse só assim, seriamos todos semelhantes co­
mo personalidade. Ao invés disso, somos diferentíssimos
uns dos outros, não só como grau evolutivo, mas como
qualidade, tendências, hábitos, modo de sentir, de pensar,
de reagir, etc.
Na personalidade há uma coisa comum a todos: a
substância e as energias que a compõem. Com o andar do
tempo, porém, tais substâncias e energias são qualificadas,
organizadas, modeladas de maneira muito diversa de indiví­
duo para indivíduo, por causa das experiências particulares
que cada qual atravessa, do ambiente em que determinada
pessoa vem a encontrar-se, do conjunto de circunstâncias e
influxos que encontra nesta vida, ou que encontrou em vi­
das precedentes.
Como já tivemos ocasião de dizer em um dos capítu-
los precedentes, formam-se na personalidade hábitos, auto­
matismos, condicionamentos, dos quais quase sempre não
somos conscientes, mas que são fortes e radicados bastante
para formarem uma estrutura sólida, um organismo com­
plexo ao qual damos o nome de "eu" e que acreditamos
ser nossa verdadeira identidade.
Somos condicionados pelo nosso passado e há infini­
tas causas que formam obstáculos para a verdadeira toma­
da de consciência. Há em torno de nós como que uma né­
voa, aquela que nos livros espirituais é chamada exatamen­

109
te "nevoeiro", ou ilusão, e que impede a verdadeira visão e
o conhecimento real. Cada um dos nossos veículos pessoais
tem o seu nevoeiro especial, por isso é que agimos, senti­
mos e pensamos de uma forma que não corresponde à nos­
sa realidade profunda.
"A nossa personalidade é um invólucro composto de
idéias falsas e das nossas fantasias, isto é, de vários círculos
viciosos.. . " diz Sri Ram em seu livro Verso Ia realtà, e a
seguir continua: "A consciência através da qual podemos
penetrar no reino da Realidade deve ser uma consciência li­
vre da força, da acumulação e da incessante influência do
passado, que poderia chamar-se 'carma psicológico'."
Na verdade, enquanto não aflora em nós a consciência
do Eu real, estamos abertos a todas as influências, a todas
as sugestões que nos venham de fora, do ambiente, das pes­
soas e os nossos veículos sutis, compostos de substância re­
ceptiva e plasmável, permanecem "impressionados" e de­
pois têm o impulso de agir, de sentir e de pensar de acordo
com isso. Em seguida, continuamos a repetir o comporta­
mento inicial por uma espécie de força da inércia que tam­
bém é uma característica ínsita na substância que compõe
os veículos sutis.
Essa é a gênese dos hábitos e dos automatismos que
em todos os níveis, do físico ao mental, nos condicionam,
e que, exatamente porque estão radicados no incônscio,
são muito dificilmente individualizáveis e nós os tomamos
erradamente por impulsos, sentimentos e pensamentos
autênticos, nossos, isto é, provenientes da nossa verdadeira
individualidade.

110
Tal tendência de adquirir hábitos é uma faculdade na­
tural do ser humano, faculdade útil que o ajuda em seu de­
senvolvimento e no desenrolar de sua vida. A capacidade
plásmica, a receptividade, inatas no homem, até a nível da
matéria física, são necessárias à existência. Dessa maneira
aprendemos a caminhar, a falar, a escrever, a realizar ações
e trabalhos habituais, como guiar automóvel, tocar um ins­
trumento, escrever è máquina e tantas outras operações co­
tidianas que desenvolvemos sem intervenção contínua da
mente ou da vontade, mas por um mecanismo automático
que se foi formando pouco a pouco com a repetição de de­
terminado ato.
Todavia, ao lado dos hábitos úteis e que facilitam o
desenvolver da nossa vida, formam-se, muitas vezes, tam­
bém outros que, ao invés disso, a complicam, a dificultam
e constituem um conjunto de superestruturas e condiciona­
mentos que limitam a nossa liberdade, nos tornam escra­
vos e, sobretudo, impedem o desenvolvimento e a realiza­
ção da nossa natureza autêntica, do nosso Ser Real.
Acreditamos, por exemplo, que temos liberdade nas
escolhas, nos afetos, nas nossas idéias e opiniões, e não per­
cebemos que muitas vezes as ações, sentimentos e pensa­
mentos, não provêm de uma nossa fonte interior, livre e
autêntica, mas apenas dos condicionamentos e hábitos in­
conscientes, que nos incitam a nos comportarmos, não de
um modo inidividual, mas coletivo, isto é, um modo que se
conforma com o ambiente, com a sociedade na qual vive­
mos, com a educação que absorvemos e assimilamos passi­
vamente.

111
Eis por que não conseguimos resolver o dualismo que
existe em nós, entre aspirações, convicções profundas
para a realização do Eu, e o real comportamento exterior
e as exigências pessoais.
Como, pois, podemos resolver esse problema, como
podemos nos libertar de tais condicionamentos, dessa dra­
mática dicotomia que nos despedaça?
Existe a possibilidade de fazê-lo?
Sim, existe, porque em nós, latente, está a força, a
luz, a realidade do nosso Eu, a centelha divina, viva e pode­
rosa, mesmo que seja apenas de forma potencial, contendo
a verdade, a autenticidade e, assim, a faculdade de discernir
o verdadeiro do falso, o real do ilusório.
Essa luz latente, embora quase sepultada e obscureci-
da pela névoa das ilusões e da falsa consciência, está sem­
pre ali e vive e anseia manifestar-se, e palpita como um co­
ração vigoroso; arde como fogo oculto, e é sua pressão e
seu ardor encerrado que nos causam mal-estar, perturba­
ção e angústia, quando tomamos caminho errado, quando
recaímos nas reações costumeiras, quando, ao invés de ter­
mos a coragem de encarar de frente a verdade preferimos
voltar nossos olhos para as falsas miragens, quando, ao in­
vés de enfrentar os caminhos solitários da verdadeira toma­
da de consciência, escolhemos a usual e fácil trilha batida
pela maioria e nos perdemos em veredas colaterais, ao invés
de subir, em heróica solidão, para o cimo áspero, ignoto,
mas fúlgido, da montanha da Verdade.
Devemos fazer com que apareça essa centelha sepulta­
da, devemos abrir o caminho para liberar a luz oculta e fa­

112
zer arder o fogo da nossa consciência real e, pará fazer o
que desejamos, é preciso a "purificação" entendida no ver­
dadeiro e mais completo sentido da palavra.
O termo purificação vem da raiz sânscrita "pur", que
significa "livre de mistura". Assim, a verdadeira purificação
á um processo alquímico realizado na interioridade, que
pouco a pouco libera os veículos pessoais de tudo quanto é
espúrio, construído, falso e não pertencente à sua verdadei­
ra natureza, fazendo surgir, assim, a energia incontaminada
e pura em sua verdadeira essência.
Realmente, é como se os nossos corpos sutis fossem
poluídos, intoxicados por forças e elementos que não lhes
pertencem, e que não provêm da sua fonte interior.
Assim, o primeiro passo no caminho da libertação da
falsa consciência é aprender a discriminar entre as superes-
truturas, as influências externas que fizemos nossas e a
energia pura e autêntica que provém do centro de nós pró­
prios.
Devemos restituir aos veículos da nossa personalidade
sua "verdadeira função", pois, como diz Sri Aurobindo, a
impureza é apenas "um erro funcional".
Na verdade, nós não usamos as energias dos corpos
sutis de maneira justa, mas como instrumentos que regis­
tram todas as influências que provêm do exterior e as repe­
tem incessantemente, em uma série de reações em cadeia,
como robôs sem alma. é exatamente isso que devemos fa­
zer: introduzir "alma", isto é, consciência, em nossos veí­
culos pessoais. Tranformá-los de máquinas automáticas que
nos transmitem continuamente impulsos já preordenados,

113
em centrais de energia livres e dinâmicas, obedientes à ver­
dadeira consciência, à vontade do Eu.
Como disse acima, podemos chegar a isso saindo do
círculo vicioso do determinismo criado, seja pelo carma
passado, seja pelos condicionamentos atuais, e aprendendo
a reagir e a comportarmo-nos de uma forma livre, nova,
verdadeira.
Há, realmente, uma forma de agir comum, que res­
ponde às exigências, aos sentimentos, às expectativas da
maioria dos homens, um modo de agir que talvez também
seja aparentemente justo e lícito, mas que não está em con­
formidade com a Lei e com a Justiça do Eu.
Vários são os que respondem ao ódio com ódio, à
hostilidade com hostilidade, às privações com abatimento
ou rebelião, à morte com medo e angústia, ao abuso com a
violência, à maldade com a vingança... Há, porém, uma
outra maneira de reagir, de sentir, de comportar-se, que é
diferente, fora do comum, imprevisível e que vemos apare­
cer, de vez em quando, em homens que sabem perdoar as
ofensas, responder ao ódio com amor, afrontar a adversi­
dade com coragem e serenidade, que sabem renunciar e de­
sapegar-se, que à violência opõem a força da sensatez e do
equilíbrio, que não têm medo da morte e que sabem sofrer
em silêncio, tranformando a dor em luz.
Tais indivíduos, sejam conhecidos ou ignorados, são
aqueles que souberam, e sabem, agir de "maneira justa",
de conformidade com a sua natureza autêntica, não mais
obedecendo aos condicionamentos e ao determinismo im­
posto pelos hábitos inconscientes, mas às exigências indi­

114
viduais, verdadeiras, provenientes da sua essência divina, er­
guendo-se assim como solitários picos luminosos sobre o
mar cinzento da chamada "normalidade".
Esse modo de agir, que às pessoas comuns pode pare­
cer fruto de uma loucura heróica é, ao invés disso, o modo
justo, porque nos libera da inconsciência, da limitadora
identificação com o eu egoístico e nos põe em sintonia
com a vibração do Eu, desprendendo um estado de pura e
completa felicidade.
Como é lógico, a essa meta chegamos pouco a pouco,
com uma obra gradual de transformação, de reorientação
e de libertação das energias da personalidade, de modo que
se possa reconstituir a unidade interior, que se manifesta
como ininterrupta continuidade de consciência.
Devemos tornar-nos positivos, ativos, conscientes e
não deixar que influxos, automatismos, hábitos, conti­
nuem a nos condicionar sem que o percebamos e para fazer
isso é preciso, no início, uma "crise de ruptura", uma revi­
ravolta interior, que detenha com um ato de força o movi­
mento incessante do impulso inercial; é preciso um "fim ",
uma "m orte", para que se possa instaurar um novo ritmo,
o "verdadeiro", que está em sintonia com o ritmo da vida
do Eu.
Assim, simultaneamente com a prática de desidentifi­
cação que já descrevemos, há um outro treinamento indis­
pensável para alcançar a libertação da falsa consciência,
que é o de aprender a usar as energias dos veículos pessoais
de modo justo, e descobrir sua verdadeira função.
0 corpo mental, o corpo emotivo e o corpo f ísico-eté-

115
reo não são, na realidade, outra coisa senão os "modos"
em que o Eu se manifesta e através dos quais procura se
pôr em contato com os três planos inferiores da existência,
modos que deveriam espelhar, seja apenas de maneira redu­
zida e a um comprimento de onda mais baixo, os três as­
pectos do Espírito: Vontade, Amor e Atividade Inteligen­
te. Em outras palavras, Pai, Filho e Espírito Santo (Mãe).
"Jamais devemos esquecer que, se bem com a finali­
dade de estudo e de análise fosse necessário separar o ho­
mem dos veículos de que ele se serve, ainda assim, o Eu
é uno, por muito variadas que possam ser as formas sob as
quais se manifesta. A Consciência é unidade e as divisões
que dela fazemos são feitas com a finalidade de estudo.
"O Eu tem três aspectos: de conhecimento, de amor e de
vontade; desses surgem, respectivamente, os pensamentos,
os desejos e as ações". (Powell: // Corpo causa/e, p. 25.)
Assim, na realidade existe só a unidade, a totalidade,
atrás da multiplicidade e já que nós, em nossa inconsciên­
cia, não a percebemos, sentindo-nos, ao invés disso, dividi­
dos, cindidos, devemos, a pouco e pouco, reencontrar essa
unidade, reconstruindo a harmonia, a sintonia, o alinha­
mento entre todos os vários níveis de energia e de cons­
ciência com as quais o Eu se expressa através do prisma da
personalidade.

116
QUESTIONÁRIO RELATIVO AO CAPITULO V III

1. Que vem a ser, segundo sua opinião, a "personali­


dade"?
2. Acreditam ter muitos condicionamentos em sua per­
sonalidade?
3. Os eventuais condicionamentos que descobriram, sa­
beriam dizer de onde provêm?
a) da sua família?
b) da educação que tiveram?
c) da religião?
d) do ambiente em geral?
4. São pessoas inclinadas a possuir hábitos, ou amantes
dos hábitos?
5. São facilmente influenciáveis e sugestionáveis?
6. Como reagem ao "novo", ao "insólito” ou a qualquer
coisa completamente diferente do habitual e com a
qual venham a ter contato?
7. Saberiam qualificar a verdadeira motivação que está
por trás de suas ações, por trás do seu comportamen­
to em geral?
8. Saberiam dizer qual é a verdadeira função dos três
veículos pessoais?
a) do corpo mental?
b) do corpo emotivo?
c) do corpo f ísico-etéreo?
9. São capazes de expressar a sua opinião e as suas idéias,
mesmo que sejam contrárias às da maioria?

117
10. Saberiam agir de maneira anticonvencional, livre,
autêntica, de acordo com aquilo que sentem profun­
damente, se as circunstâncias o exigissem?
11. Em outras palavras: sentem-se verdadeiros, autênticos,
livres, ou têm a impressão, às vezes, de estarem condi­
cionados, de serem inautênticos, limitados?

118
EXERCÍCIO N9 8
Exame Noturno

(para ser feito antes de dormir)

I. Depois de ter conseguido um bom relaxamento físico,


tranqüilizem o emotivo e o mental.
II. Desidentifiquem-se, sucessivamente, do corpo físico,
do corpo emotivo e do corpo mental.
III. Procurem reencontrar o "centro da consciência", co­
mo Espectador imóvel e desapegado.
IV. Voltem com a mente ao dia transcorrido, aos aconte­
cimentos que se deram, aos pensamentos e sentimen­
tos que tiveram sem, porém, revivê-los, mas observan­
do-os com objetividade e desapego, sem julgamento.
V. Procurem "ve r" em que momento foram "vocês mes­
mos", isto é, em que momento agiram de forma
autêntica, espontânea, conforme com a sua verdadei­
ra natureza e em que momento, ao invés, agiram ou
pensaram automaticamente, seguindo impulsos habi­
tuais.
VI. Procurem fazer um balanço aproximativo do qual re­
sulte:
a) em que ocasiões conseguem ser mais autênticos;
b) e em que ocasiões, ao contrário, são "condiciona­
dos".
V II. Com toda a sinceridade procurem chegar a um resul-
tado objetivo, sem se desencorajarem.

119
Capítulo IX

LIBERAÇÃO DA NATUREZA EMOTIVA


DAS IMPUREZAS E DOS CONDICIONAMENTOS

"Cada parte da nossa natureza


não tem como escopo final algo
que seja a ela totalmente estra­
nho e de onde derive a necessi­
dade da sua extinção, mas algo
de Supremo no qual transcende
e reencontra o seu próprio abso­
luto, o seu infinito e a sua har­
monia, para além de todos os li­
mites humanos."
(Sri Aurobindo: La sintesi dello
yoga, vol. II, p. 14.)

Quando nos predispomos a iniciar o trabalho de puri­


ficação dos corpos pessoais, devemos ter presente, como
dissemos no capítulo precedente, que "impureza" significa
confusão funcional, isto é, erro no uso das energias e facul­
dades dos veículos. Todavia, para poder usar com justiça
tais energias, devemos "liberar a consciência da força". Em
outras palavras: conseguir libertar o elemento "consciência"
que está latente na energia.

121
Diz Jinarajadasa em seu livro A evolução da vida e da
forma: " A vida se esforça continuamente para se tornar
mais consciente.. . com o evoluir da vida sempre se libera
uma quantidade maior de consciência."
Para compreender bem esse processo é preciso que
nos reportemos a um conceito básico do esoterismo: o da
Unidade da Vida, da existência de uma Única Essência que
invade todo o universo.
Muitas vezes encontramos esse preceito na Doutrina
Secreta de H. P. Blavatsky, com estas palavras:
"Da Vida Una, sem forma, incriada, provém o univer­
so das vidas". (D.S., 1, p. 240.)
Com base nesse conceito podemos dizer que Espírito
e Matéria não são duas coisas distintas.
"O Espírito e a Matéria são os dois aspectos do Uno,
que não é nem Espírito nem Matéria, ambos sendo a Vida
Absoluta latente.. . " (Comentário oculto do livro de
Dzyan, vol. I da D.S.)
Também nas cartas dos Mahatmas encontramos o
mesmo conceito:
" . . . É uma das doutrinas elementares e fundamentais
do ocultismo o conceito de que a Matéria e o Espírito são
u n o .. (Carta 22 do Mahatma K.H.)
Mes aceitando essa verdade com a mente, ainda que
seja certa "na teoria", somos capazes de compreendê-la na
pratica?
Na verdade, se isso fosse possível, a nossa vida deveria
mudar completamente. Não teríamos mais medo da morte,
não sofreríamos mais, não ficaríamos doentes... Deveria*

122
mos ser capazes de perceber a realidade por trás da forma,
de compreender o significado oculto de tudo quanto acon­
tece, de tudo aquilo que nos circunda. Deveríamos ter o
domínio absoluto da nossa personalidade, das nossas ener­
gias físicas ou psíquicas. Deveríamos estar sempre alegres e
cheios de "poderes". ..
Mas não é assim, porque o saber teoricamente uma
verdade, aceitá-la com a mente não basta para que nos
transformemos, para levar-nos a transcender a dualidade, a
separatividade que se criou em nós e que, embora ilusória,
nos mantêm na obscuridade e na inconsciência.
é preciso criar a ponte entre os dois pólos de Espírito
e Matéria que, sendo uma coisa só, nos parecem separadas,
enquanto não desenvolvermos o poder de ver a Unidade na
dualidade; e esse poder é dado pela consciência.
é a consciência, em realidade, que nos dá a capacida­
de de ver e sentir a relação existente entre os dois aspectos.
Eis por que a consciência também é chamada "o Filho", is­
to é, o produto da união do Espírito (Pai) com a matéria
(Mãe).
A consciência é, assim, o meio para unificar os dois,
mas, ao mesmo tempo, é o produto da unificação dos dois.
Todavia, a consciência tem também uma outra função
muito importante que é a de transformar a energia do pólo
matéria, de elevar a sua vibração. Esse é o processo chama­
do "purificação", que produz sintonia e unificação com o
pólo espiritual.
Assim, transformar as energias (isto é, as substâncias
que compõem os vários veículos da personalidade) significa

123
reuni-las ao aspecto Espírito, eliminando a separação que
se criou na involução e à qual se chega começando com a
tentativa de reencontrar, de especificar o elemento espiri­
tual, a essência fundamental ínsita nos corpos inferiores e,
em conseqüência, redescobrir sua verdadeira função, que
tem estado sufocada, reprimida, impedida pelos hábitos,
pelos automatismos errôneos, que se instauraram no uso
das energias pessoais, por causa da nossa inconsciência e
da nossa identificação com a forma exterior.
Portanto, para liberar os veículos pessoais da impure­
za das confusões funcionais e da falsa consciência, tornan­
do a dar-lhes sua verdadeira finalidade, é preciso, antes de
tudo, liberá-los das superestruturas, dos condicionamentos,
dos hábitos, de reagir de certo modo, que Aurobindo defi­
ne: " . . . a contínua repetição de um círculo vicioso, priva­
do de inteligência e de escopo".
Tentemos, pois, examinar como podemos devolver
aos nossos veículos pessoais suas verdadeiras funções, co­
meçando pela natureza emotiva.
Antes de tudo deveremos procurar compreender que
parte representa em nossa psique o corpo emotivo. A pala­
vra psique indica tudo o que há em nós de não-f ísico, mas
que ainda não é o Espírito, é o Cama-manas, do qual falam
as doutrinas orientais, isto é, o conjunto do desejo-mente
que, pelo critério de clareza, o esoterismo considera como
dois corpos separados mas que, de um ponto de vista niti­
damente psicológico, podem ser considerados uma totali­
dade dual, na qual a mente representa o pólo positivo, e a
emotividade o pólo negativo. Em outras palavras, a emoti­

124
vidade é o aspecto receptivo, sensitivo, feminino, da nossa
personalidade psíquica, que nos dá a capacidade de "sen­
tir ” a qualidade das coisas e que realmente é chamada tam­
bém "corpo senciente".
Portanto, a verdadeira função da natureza emotiva se­
ria a de "colocar em relacionamento", de "u nir", enquan­
to a função da mente seria a de "distinguir", de "discrimi­
nar" e de separar. Se não tivéssemos a mente, de fato não
poderíamos estar conscientes de nós próprios como "eu
separado", mas teríamos uma consciência difusa, não bem
delimitada, é através da natureza emocional, ao contrário,
que poderemos sentir os outros, sentir simpatia e deveras
conseguir identificar-nos com seu estado de ânimo.
Nas doutrinas esotéricas, nas quais a natureza emoti­
va é também chamada "corpo astral", diz-se que tal corpo
não só é altamente sensível e fluido, mas também aberto
a todos os influxos, a todas as vibrações e capaz de am­
pliar-se e expandir-se num ímpeto de simpatia e de afeto
até identificar-se com o corpo astral de uma outra pessoa.
Seu símbolo é, de fato, a água, que toma a forma do reci­
piente que a contém, que se encrepa ao mínimo sopro, que
se expande largamente se é derramada. . . Em outras pala­
vras, não tem uma forma própria, pois é fluida, corrente,
móvel.
Na nossa personalidade tríplice, o corpo emotivo ou
astral é o reflexo do segundo aspecto do Eu, o amor, e de­
veria poder expressá-lo e realizá-lo praticamente na vida.
Citando ainda Aurobindo, vejamos o que ele diz a
propósito da natureza emocional:

125
" . . . a verdadeira alma (astral), o verdadeiro ente psí­
quico. .. é um instrumento de puro amor, de alegria e de
aspirações luminosas à fusão, à unidade com Deus e com o
nosso próximo". (Sintesi dello yoga, vol. II, p. 66.)
E como acontece, então, que façamos desse aspecto
sensitivo e unitivo um instrumento de agitação e de desor­
dem, de sofrimento, de apego?
Como acontece ser o homem um escravo das emo­
ções, das paixões, dos desejos, tanto que o corpo astral é
considerado "o campo de batalha da humanidade" e seu
maior obstáculo para a realização espiritual?
Tudo depende do nosso estado de inconsciência, que
nos levou a construir um "eu" falso, uma "personalidade"
que acreditamos ser a nossa realidade e que, ao invés disso,
é apenas um conjunto de automatismos e de hábitos erra­
dos. Por causa desse "eu" falso, a receptividade da nature­
za emocional, em lugar de ser um auxílio fez-se um obstá­
culo e um perigo, pois tornou-nos abertos às vibrações mais
baixas provenientes do mundo dos instintos e das paixões
inferiores, do plano onde reina o egoísmo e a separativida­
de cega, o desejo de sensações e de prazeres, que ligam o
homem ao mundo das ilusões.
Se conseguirmos nos desidentificar desse "eu" falso
e reencontrar nossa realidade profunda, o nosso verdadei­
ro Eu, automaticamente as energias da natureza emotiva
assumem sua verdadeira função e revelam seu justo esco­
po. Não são as energias em si mesmas que se mostram ne­
gativas ou positivas, mas o uso que nós fazemos delas, abai­
xando assim as suas vibrações.

126
Todavia, simultaneamente com a desidentificação,
que é uma técnica vertical por assim dizer, podemos tam­
bém ter o auxílio de métodos e exercícios que nos servem
para que usemos as energias de maneira justa, também em
sentido horizontal, isto é, em relação com os outros, como
órgão de contato e sensibilidade: isto quer dizer transfor­
mar o desejo em amor.
Compreender a verdadeira natureza do desejo é o se­
gredo dessa transformação. Nós nos sentimos sozinhos, se­
parados de algo que nos pertence, temos nostalgia incons­
ciente de uma Unidade perdida e por isso anelamos a pos­
se, a obtenção de um objeto externo, do qual nos sentimos
"privados". O desejo nasce de um "vazio", de uma falta,
que interpretamos como necessidade de amor humano, co­
mo sede de riqueza, como ambição, etc., mas que, na reali­
dade, é a falta da verdadeira consciência do Eu divino, é a
separação ilusória da nossa realidade espiritual que nos
faz sentir confusos, perdidos, vacilantes e desesperada­
mente sós. ..
Por isso, o homem jamais chega a preencher esse vazio
com os objetos que consegue conquistar e possuir. Rique­
za, sucesso, felicidade humana, dão-lhe apenas uma alegria
temporária e efêmera, que depressa se esvai, deixando-o
mais insatisfeito do que antes.
Só o reencontrar a Unidade, seja em sentido vertical,
seja em sentido horizontal, poderá dar-lhe contentamento
e completá-lo.
Podemos sentir isso na prática, a cada vez que chega­
mos a superar uma barreira de separatividade, a construir

127
um relacionamento autêntico, a identificarmo-nos com
uma outra pessoa, a provar um senso de verdadeira com­
preensão e de ampliação da consciência, ou a sentir um ím­
peto de amor puro pelo Divino, uma aspiração ardente pa­
ra o absoluto, que nos faz entender que o nosso sentimen­
to de separatividade e de solidão é ilusório.
A nossa natureza emocional, purificada do egoísmo,
da poluição dos instintos, revela sua verdadeira função, que
é a de nos dar a possibilidade de "reunir-nos" à Realidade,
seja em sentido ascensional, com aqueles estados interiores
de aspirações e amor para com Deus, que constituem o
misticismo puro, seja em sentido horizontal, com a simpa­
tia, a participação, a sensibilidade para com a vida e os es­
tados de ânimo das outras pessoas.
Se soubermos descobrir as suas verdadeiras faculda­
des, o corpo emotivo torna-se uma ponte, ao invés de um
obstáculo, e reflete perfeitamente o aspecto amor do Eu,
como um espelho límpido, receptivo e luminoso, calmo e
estável.
Realmente, para poder chegar a essa meta, é necessá­
rio antes de mais nada estabilizar as emoções, deter as on­
das agitadas das "águas" emotivas, tornar calmo e sereno
o veículo que as expressa e liberar nossa consciência da
identificação com a natureza emocional.
Obtida essa "calma" interna, será mais fácil usar as
energias de maneira justa, elevar-lhes as vibrações e unificar
todos os nossos desejos em um só desejo: o de nos reunir­
mos com o nosso Eu divino, assim que se forme um poten­
te vórtice aspiracional, capaz de produzir verdadeira e

128
apropriada sublimação das energias e de atrair a luz e o
amor da nossa Realidade Espiritual.
Assim, pouco a pouco, a dualidade será superada para
ser substituída por uma perfeita ligação do inferior com o
superior porque, como diz Aurobindo:
"Eliminando a falsidade dos sentidos e sua submissão
aos simulacros, à dualidade das sensações, um senso maior
se abrirá em nós ao Divino nas coisas, através da nossa sen­
sibilidade material e responderá, divino então ele próprio,
ao divino apelo."

129
QUESTIONÁRIO RELATIVO AO CAPITULO IX

1. Segundo a sua opinião, independentemente do que sa­


bem sobre doutrinas esotéricas e psicológicas, para
que serve o corpo emotivo?
2. Pensam saber usar corretamente o seu aspecto emo­
cional e afetivo?
3. Quais são as "confusões funcionais" que pensam ter
do lado emotivo?
4. Que condicionamentos emotivos têm?
5. Saberiam dizer que relação existe entre o desenvolvi­
mento da verdadeira consciência e o correto uso da
natureza emotiva?
6. Que diferença existe entre Amor espiritual e amor
emotivo?
7. Pensam que sabem sentir de maneira autêntica e viva
o relacionamento com os outros?
8. Sabem identificar-se com os outros?
9. Quais são, segundo sua opinião, os aspectos melhores
e mais altos da sua natureza emotiva?
10. São capazes de sentir:
a) sentimentos místicos?
b) sentimentos de devoção?
c) sentimentos de compaixão?
d) sentimentos de aspiração?
e) sentimentos de entusiasmo?
f) sentimentos de amor pela humanidade?
g) sentimentos de participação nas dores alheias?

130
h) sentimentos de amor pelo Divino?
11. Quais são as coisas que os fazem sofrer mais?
12. Quais são as coisas que os fazem mais felizes?
13. São habitualmente serenos, têm paz, têm calma emo­
tiva, ou sentem-se freqüentemente ansiosos, deprimi­
dos, angustiados?
14. Sentem, às vezes, um senso de vazio e de aridez?

131
EXERCÍCIO N9 9
Exato Funcionamento da Natureza Emotiva

I. Procurem obter um estado de completo relaxamento.


II. Depois, recolham-se ao interior, procurando "sentir"
a qualidade da sua natureza emotiva.
III. Acalmem-na, tranqüilizem-na se necessário, afastando
todos os sentimentos de agitação, de preocupação ou
de depressão. Para chegar a isso tomem o auxílio de
algumas imagens apropriadas (lago límpido e cristali­
no, prado verde, céu azul e sereno, etc.), recordando
que o corpo emotivo é muito sensível às imagens.
IV. Visualizem depois uma luz esplendorosa e dourada
(que simboliza o Amor espiritual proveniente do Eu),
luz que inunde e impregne a sua natureza emotiva,
purificando-a, transformando-a, fazendo-a transparen­
te, límpida e perfeitamente estável.
V. Procurem, depois, "sentir" efetivamente o Amor es­
piritual, expandindo a sua consciência para além do
limite do eu egoístico e separativo, afirmando silen­
ciosamente como auxílio: "Não existe separação en­
tre mim e os outros, entre mim e o Todo. Só existe
unidade."
VI. Fechem esse exercício meditativo dizendo, com força
e convicção:
“A verdadeira função do meu corpo emotivo
é a de unir, de servir de ponte.
De sentir.

132
Eu uso as minhas energias emotivas nesse
Sentido, como instrumento
Do amor do Eu".

133
Capítulo X

LIBERTAÇÃO DA MENTE DAS IMPUREZAS


E DOS CONDICIONAMENTOS

"Quando a tua mente passar pa­


ra além das insídias das ilusões,
irás tornar-te indiferente ao que
ou virás e ao que tens ouvido.
Quando a tua mente, confusa
pelas Escrituras, estiver ajusta­
da e em constante contempla-
ção, então conseguirás a devo­
ç ã o (Bhavagad Gita, II, 52,
53.)

No Tratado de Magia Branca de A. A. Bailey está es­


crito que existem três graus de conhecimento que são pre­
cisamente:
a) conhecimento teórico;
b) conhecimento discriminatório;
c) conhecimento intuitivo.
Esses graus de conhecimento correspondem, em reali­
dade, a três estados evolutivos e revelam o nível de desen*
volvimento da consciência a que o indivíduo chegou.

135
De fato, o primeiro grau, o do conhecimento teórico,
baseando-se apenas nas afirmações dos outros, não produz
no homem a maturidade eficaz, uma modificação de cons­
ciência, antes pode, muitas vezes, limitar e condicionar,
pois permanece puramente exterior e carente de experiên-
cia direta. Além disso, pode contribuir para manter no ho­
mem um estado de passividade intelectual, carregando a
mente com noções, com conhecimento mnemônicos, idéias
e opiniões adquiridas, dos quais será muito diffcil livrar-se.
é inevitável, todavia, passar por esse estágio, porque
falta a necessária preparação e a capacidade de ter a expe­
riência diretamente, por meio da compreensão intuitiva, é
um estágio preparatório, que também pode ter aspectos
positivos para aquele que começa a passar para o estágio
sucessivo do conhecimento discriminatório, ou discerni­
mento, e que nos torna capazes de confrontar, selecionar,
avaliar, escolher e utilizar os conhecimentos teóricos adqui­
ridos no estágio precedente.
A capacidade de discriminação aflora na mente quan­
do conseguimos superar o estágio passivo e inconsciente
e começamos a sentir nosso eu individual. Tal superação
nos permite ser menos influenciáveis, menos sugestionáveis
diante da autoridade das mentes de outras pessoas, diante
da pressão das opiniões da massa, diante das idéias e das
teorias que absorvemos do ambiente, é o momento em que
somos capazes de nos analisar, de avaliar com inteligência
o conhecimento adquirido, de não nos deixarmos arrastar
por entusiasmos fáceis ou por preferências emotivas e, so­
bretudo, é o momento em que começamos a desejar expe­

136
rimentar, verificar, compreender por experiência direta.
é a consciência mental que começa a despertar em
nós e que tenta livrar-se de todos os condicionamentos, dos
automatismos, dos hábitos falsos de pensamento que a su­
focam e entravam.
Em tal estágio têm início a purificação mental e a li­
beração dos condicionamentos ínsitos na mente.
O terceiro grau de conhecimento, o intuitivo, emerge
exatamente quando a mente está completamente livre das
impurezas, livre dos condicionamentos e idéias construídas
e pode manifestar-se o seu aspecto mais alto de órgão de
verdadeiro conhecimento em relação ao mundo do Eu e
das Idéias Divinas.
Esse terceiro tipo de conhecimento supera a racionali­
dade discursiva e o estágio dedutivo da mente analítica,
pois conhece por identificação, por experiência direta, em
um relance de luz sintética e global. Só nessa fase a mente
revela sua função real de "ponte" e de meio de contacto
com "a nuvem das coisas conhecíveis", e mostra a sua pro­
fundidade, a sua luminosidade, o seu poder criativo, que
fazem do homem um verdadeiro Conhecedor.
Antes desse estágio a mente pode ser, muitas vezes,
mais um obstáculo do que um auxílio, tanto que, como es­
tá escrito na Voz do silêncio, é considerada "a destruidora
do Real" exatamente porque pode, com o seu conteúdo
de "falso conhecimento", com o seu incessante movimento
e com a sua lógica sem a visão do mundo real e do verda­
deiro conhecimento, ofuscar-nos e limitar-nos ao invés de
revelar-nos a verdade.

137
é preciso, assim, que desenvolvamos e purifiquemos
a mente, a fim de levá-la a manifestar-se em sua função real
e mais alta, a intuitiva.
O primeiro passo é o de procurar compreender o nos­
so mecanismo mental, de observar e analisar a complexa
natureza da nossa mente.
Dizem os livros esotéricos que o corpo mental tem na­
tureza dual, isto é, como se tivesse duas faces: uma voltada
para o exterior, para o mundo objetivo e outra voltada pa­
ra o interior, para o mundo subjetivo. O símbolo da mente
é, realmente, o Jano bifronte. A mente pode receber im­
pressões, sensações e influências do mundo externo e
voltar sua atenção e seu interesse cognoscivo para a realida­
de subjetiva. Geralmente, quando o homem ainda não está
suficientemente evoluído, usa apenas uma face da mente, a
que está voltada para o externo, e ignora possuir outra pos­
sibilidade de conhecimento por meio da face voltada para
o interno. Chega um momento, porém, na vida do homem,
em que esse aspecto mental mais profundo se revela, de
início de vez em quando e veladamente, depois sempre
mais claramente e com continuidade.
Essa dualidade da mente tem sido observada e estuda­
da por todos os pesquisadores sinceros, pelos estudiosos
e pensadores de todos os tempos. Tanto que se chegou à
conclusão de que existem duas formas de abordagem do
conhecimento: a que deriva do lado mental concreto, cien­
tífico, que observa e estuda o mundo fenomênico, e o
abstrato, intuitivo, filosófico, que se volta para o mundo
dos significados e das causas.

138
0 primeiro modo de conhecer é o suscetível de erros
e de impurezas, pois está facilmente sujeito às ilusões, às
limitações e aos condicionamentos dos sentidos, das emo­
ções e do egoísmo pessoal. O segundo modo de conhecer,
agindo por identificação com o objeto e indo além da for­
ma externa para remontar ao que a produziu, percebendo
as coisas de um modo global e sintético é, ao contrário,
o que nos revela, intuitivamente, a verdade.
Portanto, a purificação mental refere-se ao seu aspec­
to concreto e exterior, e a liberação dos condicionamentos
e dos erros volta-se para a face externa do intelecto, que só
vê o reflexo da Verdade, mas não a própria Verdade.
Como devemos proceder para tornar a mente concre­
ta límpida e pura?
Se recordarmos o verdadeiro sentido etimológico da
palavra "purificação", do qual falamos em um dos capítu­
los precedentes, e que é a "liberação da mistura", irá pare­
cer-nos claro que possa ser o meio para tornar "puro" qual­
quer dos aspectos da personalidade, neste caso a mente.
Purificar significa liberar qualquer coisa de tudo que náo
lhe é próprio e inerente, eliminando as poluições, as mistu­
ras, as substâncias espúrias, os elementos estranhos e des­
cobrir sua verdadeira essência, sua verdadeira qualidade e
sua real função que, em si mesma, é pura, porque deriva
(como tudo que existe) do Divino. Como sempre dissemos,
tudo que existe no homem, mesmo a nível pessoal, é um
reflexo do Eu, é uma projeção do Divino, pois atrás das
formas e de suas múltiplas diferenciações, existe sempre o
Uno que as produziu.

139
Chega-se a liberar a mente das impurezas usando duas
técnicas fundamentais que, na realidade, representam duas
fases sucessivas de um mesmo trabalho interior:
Elas são:
a) a concentração;
b) o silêncio mental.
A primeira representa a faculdade da mente de ser ati­
va, positiva e a segunda a faculdade de ser receptiva, passi­
va. A mente concreta possui essas duas faculdades latentes
e as manifesta quando é liberada das impurezas dos condi­
cionamentos e pode funcionar no modo exato, em seu plano.
Examinemos detalhadamente essas duas técnicas.
A concentração é a faculdade de saber canalizar o
pensamento para a direção desejada, depois de ter escolhi­
do um assunto ou uma idéia sobre os quais concentrar-se,
até chegar a conhecê-los perfeitamente. Se a concentração
for bem feita e o pensamento consegue, efetivamente, fo­
calizar-se com adesão e atenção completas no assunto pré-
escolhido, a mente chega, pouco a pouco, a ir além da for­
ma ou do significado exterior e objetivo e a perceber a
energia e a realidade que estão por trás das aparências.
Diz Sri Aurobindo: " . . . a concentração segue através
das idéias e serve-se do pensamento, da forma e do nome
como chaves que abrirão à mente concentrada as portas da
Verdade oculta atrás de cada pensamento, de cada forma,
de cada nome... A concentração mediante a idéia não é,
portanto, senão um meio, uma chave para abrir os planos
do supraconsciente da nossa existência." (De La síntese
dello yoga, vol. II.)

140
Assim, a concentração da mente é um método, uma
técnica para, antes de mais nada, tornar a mente obediente
aos comandos da vontade e, a seguir, para torná-la pene­
trante e aguda a fim de poder ultrapassar o símbolo repre­
sentado pelo objeto que tomou em exame.
O silêncio mental, ao contrário, se alcança quando
conseguimos liberar a mente de todos os seus conteúdos,
de todas as construções intelectuais, do incessante movi­
mento do pensamento, e quando superamos o apego e a
"preferência" por um certo tipo de conhecimento. 0 silên­
cio mental, a postura de receptividade e de passividade da
mente é, na realidade, um estado de pureza, de transpa­
rência, de "vazio", que pressupõe uma maturidade interior,
um desenvolvimento da consciência que nos torna capazes
de nos desapegar do eu pessoal que usa a mente com finali­
dades egoísticas e limitadas, seguindo uma linha de menor
resistência, movido pelo orgulho, pelo desejo e pelas ilu­
sões dos sentidos.
Portanto, o silêncio mental náo se obtém apenas com
uma técnica meditativa, como muitos acreditam, mas com
uma preparação e um alinhamento contínuos de toda a
personalidade, uma purificação das intenções e um desen­
volvimento da atitude desapegada do Espectador interior.
O desenvolvimento da capacidade de concentração
mental é, na realidade, preparatório para a obtenção do si­
lêncio mental, o qual, por sua vez, é uma atitude que nos
exercita para o desenvolvimento da faculdade de conheci­
mento superior, o conhecimento intuitivo.
Acontece, às vezes, quando começamos a exercitar a

141
concentração, que percebemos que nem mesmo sabemos
"pensar" verdadeiramente, porque o que até então tínha­
mos pensado que fosse pensar era apenas um recordar, um
repetir de conceitos e idéias alheias. Na verdade, na maior
parte dos casos, não temos idéias nossas, opiniões pessoais,
mas opiniões inculcadas por outros, absorvidas inconscien­
temente do ambiente, ou idéias estruturadas em esquemas,
que aceitamos, não por livre e consciente escolha, mas por
obra de sugestão incônscia, por influência de mentes mais
fortes do que a nossa ou por intenção de conformismo, de
medo e de comodismo.
A mente corresponde ao terceiro aspecto da Divinda­
de, o Espírito Santo, chamado também o Fogo da criação
ou Inteligência criadora; na verdade, existe latente nela um
poder criador, uma capacidade de produzir por si mesma
idéias e pensamentos, em um ato de criatividade.
Disso nos compenetramos quando o poder de concen­
tração se torna um instrumento do "verdadeiro" pensa­
mento e libera nossa mente dos hábitos, dos condiciona­
mentos, das imitações e das "preferências", para fazer sur­
gir o verdadeiro fogo solar da mente.
Portanto, o primeiro passo para a purificação da men­
te é aprender a pensar verdadeiramente. Temos auxílio,
nesse sentido, do desenvolvimento da discriminação de
que falamos antes e que, na sua forma mais simples, é a fa­
culdade de comparação, de análise, de escolha e, sobretu­
do, de "eqüanimidade".
Que quer dizer essa palavra?
Quer dizer objetividade, equilíbrio, liberdade em rela­

142
ção às preferências e aos apegos emotivos, absoluta impar­
cialidade. Em outras palavras, á a qualidade fundamental
da mente purificada, que é o órgão do conhecimento lím ­
pido, claro, objetivo, no qual não há sombra sequer de
emotividade e apego.
Esta qualidade pode parecer difícil de adquirir mas,
na realidade, não é assim, pois ela está latente na mente e
exprime a essência mesma do aparato mental.
Como na natureza emotiva já existe latente a capacida­
de da sensibilidade e do amor, assim na mente é ínsita a fa­
culdade de pensar e de conhecer com perfeita eqüanimida-
de, isto é, a capacidade do verdadeiro e reto pensamento.
Não devemos esquecer o postulado fundamental da
Unidade submissa à multiplicidade, para a qual mesmo os
veículos pessoais não passam de "modos" de expressão do
Eu e que, portanto, trata-se de levá-los a manifestar sua ver­
dadeira essência com o desenvolvimento da consciência. Em
nosso estágio inicial de inconsciência nós os alteramos, po­
luímos, desenvolvemos de maneira distorcida, deixando-nos
condicionar por influxos negativos e limitadores. Agora,
trata-se de liberar os veículos dessas influências, desses con­
dicionamentos e de levá-los às suas verdadeiras funções.
Assim devemos fazer também para o corpo mental e
para isso é preciso chegar à forma exata de pensar, passan­
do primeiro por um período de liberação de todas as no­
ções intelectuais precedentes, de todas as concepções li­
mitadoras e ilusórias que tínhamos absorvido inconscien­
temente.
é fácil, pois, compreender que o verdadeiro conheci-

143
menio Drota de uma real compreensão interior, é o efeito
de uma "tomada de consciência" e de um despertar do
Eu, embora parcial.
Todavia, a mente deve ultrapassar a capacidade de
pensar para alcançar a possibilidade de manifestar-se tam­
bém em sua faculdade de "não pensar", de permanecer si­
lenciosa e imóvel, mas perfeitamente consciente e lúcida,
porque só assim ela pode revelar o seu aspecto mais alto:
a intuição e o conhecimento do Eu. Na verdade, a nossa
realidade espiritual, que é exatamente o Eu, não pode ser
conhecida com o pensamento concreto, com o raciocfnio,
ainda o mais profundo e agudo, mas pode ser conhecida
apenas por identificação e por intuição.
Diz Aurobindo:
"Para alcançar o conhecimento do Eu é .. . indispensá­
vel uma completa passividade intelectual, o poder de afas­
tar todos os pensamentos; é necessário que a mente tenha
o poder de não pensar".
Só assim poderemos, pouco a pouco, descobrir tam­
bém a face interior da mente e aprender a usá-la como ór­
gão do verdadeiro conhecimento, pois que tudo quanto
conhecemos antes não foi senão uma preparação para a
descoberta da verdade, que não está no mundo do relativo,
mas no mundo dos significados e das causas, em direção
do qual a mente pode lançar uma ponte. Por isso ela é cha­
mada o órgão da visão e seu símbolo é a luz, porque só
quando a mente está desenvolvida e purificada e livre pela
consciência despertada, podemos "ver" verdadeiramente a
realidade das coisas.

144
QUESTIONÁRIO RELATIVO AO CAPITULO X

1. Para que tipo de conhecimento pensam ter inclinação,


entre os seguintes:
a) conhecimento teórico?
b) conhecimento discriminativo?
c) conhecimento intuitivo?
2. Pensam saber usar exatamente a sua mente?
3. Até que ponto está desenvolvida a sua mente concreta?
4. São mais dados à análise, à ciência ou antes ao pensa­
mento abstrato, sintético e filosófico?
5. Em que medida desenvolveram a capacidade de con­
centração? Em outras palavras, sabem manter a mente
e o pensamento sobre uma linha preestabelecida por
si mesmos, ou sua mente divaga e é incapaz de ser
controlada?
6. Em sua mente existem "condicionamentos"? Isto é,
sentem-se capazes de "pensar" verdadeiramente, de
saber formular raciocínios, opiniões, conceitos
"seus", independentemente do que captaram ou rece­
beram do ambiente, dos estudos que fizeram, do co­
nhecimento que adquiriram?
7. São muito apegados às suas idéias ou são capazes de
modificá-las e expandi-las e eventualmente até aban­
doná-las?
8. Têm mais presente o pensamento consciente ou o tra­
balho intelectual "incônscio"?
9. Até que ponto a intuição está desenvolvida em si mes­
mos?

145
10. São capazes de usar a mente em direção ao interior?
11. São capazes de observar e analisar o trabalho de sua
mente?
12. São capazes de "silêncio mental"?
13. Que entendem por "silêncio mental"?
a) um estado de passividade mental?
b) um estado de "vazio", semelhante a uma sonolên­
cia?
c) um estado de paz interior, livre de conteúdo?
d) um estado de tensão e espera?
14. Se pensam ter sentido alguma vez o "silêncio men­
tal", descrevam-no.

146
EXERCIiCIO N9 10
Concentração para Aprender a Pensar

I. Relaxem completamente com o auxílio de respiração


calma e regular.
II. Interiorizem-se, abstraindo a atenção do ambiente cir­
cundante e recolham-se à mente.
III. Desidentifiquem-se da mente e procurem observar os
seus movimentos e captar a sua qualidade de "meca-
nicidade", de trabalho automático e passivo, causado,
em geral, pela sensação e estímulos provenientes do
exterior através dos cinco sentidos.
IV. Procurem deter aquele movimento mecânico e pensar
verdadeiramente em um assunto que antes escolhe­
ram; e procurem compreender, fazendo isso, a dife­
rença que existe entre o modo de pensar mecânico,
passivo e o modo que é, ao contrário, determinado,
consciente, lúcido e positivo.
V. Em um segundo tempo, isto é, depois de alguns dias,
tentem também melhorar a "qualidade" do seu pen­
samento consciente, isto é, fazê-lo original, livre de
idéias já feitas, de conhecimentos adquiridos, e evo­
quem idéias verdadeiramente suas, embora as que lhes
aflorem à mente pareçam paradoxais, absurdas ou de­
masiadamente simplistas. Se não o conseguirem, não
desanimem e tentem ainda.

147
E X E R C ÍC IO N 9 10 (bis)
"Silêncio M ental"

I. Relaxem.
II. Interiorizem-se e focalizem-se na mente.
III. Procurem afastar todos os pensamentos e alcançar um
estado de quietude e de calma mental.
IV. Procurem entrar no "silêncio" mental sem perder, en­
tretanto, a consciência de si mesmos.
V. Se não conseguirem completamente, não importa.
Basta que percam o interesse pelos pensamentos, que
eles lhes pareçam "coisas exteriores", que fluem por
fora de um imaginário círculo de paz e silêncio em
que se encontram.
VI. Voltem a atenção para o interior e para o alto, numa
atitude de receptividade e espera.
V II. Para terminar afirmem silenciosamente:
"A minha mente é um perfeito instrumento
de conhecimento, do qual o eu se serve.
Ela é límpida, receptiva, aberta às idéias
que vêm do plano da intuição. A minha mente
é o órgão da visão".

148
Capítulo XI

DA CONSCIÊNCIA IN D IVID U A L
A CONSCIÊNCIA COSMICA

"Eu andaria em peregrinação


até mesmo no deserto da Arábia
a fim de encontrar o homem
que pudesse fazer-me com­
preender como o Uno pode ser
os m uitos." (Coleridge.)

Uma vez tendo alcançado restaurar em nós a unidade,


isto é, a superar o dualismo aparente entre o Eu e os seus
veículos de expressão, e assim sentir-nos perfeitamente
"alinhados", pareceria que a meta estaria alcançada e que
não haveria crescimento ulterior a fazer. 0 ciclo parece
completo. 0 homem despertou da sua inconsciência, os
conflitos cessaram e a harmonia, a paz, a alegria inexprim í­
vel da liberação inundam sua consciência. Contudo, o ca­
minho não terminou. A força evolutiva impele ainda para a
frente e para cima, e diante da alma deslumbrada do ho­
mem abre-se o horizonte sem fronteiras das várias grada­
ções da realidade, já que são infinitos os níveis de cqnsciên-

149
cia que pouco a pouco devem ser conhecidos e compreen­
didos: . . do alto até embaixo. . . este universo não é
senão uma continuação, uma gradação de planos de cons­
ciência, que se escalonam da Matéria pura ao Espírito pu­
ro". (De L'avventura delia coscienza, de Satprem, p. 128.)
Assim, o homem, uma vez realizada a sua consciência
individual autêntica e espiritual, deve expandir-se e evoluir
até tornar-se conhecedor, grau por grau, de todos esses
outros níveis de consciência e chegar, assim, à consciência
universal e à consciência cósmica ou divina.
De fato, as sucessivas iniciações do homem, segundo o
esoterismo, não são mais do que expansão de consciência.
Poderemos tentar fazer o registro, em grandes linhas,
dos vários graus da consciência como são descritos por al­
guns estudiosos, entre os quais A. A. Bailey em seu livro
La coscienza dell'atomo.
Elas são as seguintes:
a) consciência simples;
b) consciência individualizada ou autoconsciência;
c) consciência de grupo ou consciência universal;
d) consciência cósmica ou divina.
Entre cada um desses níveis e o sucessivo, existem,
com o é óbvio, inúmeras gradações e nuanças como, por
exemplo, entre a autoconsciência e a consciência de gru­
po, onde se encontram as várias iniciações que podem ser
comparadas a "degraus" para subir, ou a "p o n te " para
atravessar em direção a horizontes sempre mais amplos
e de inclusões sempre mais luminosas e profundas da cons­
ciência total. Nos reinos inferiores ao humano está o que

150
fo i denominado "consciência simples", uma espécie de
sensibilidade e conhecimento ainda não-individuaiizados e
autoconscientes.
No reino humano essa consciência "simples" e difusa
restringe-se, por assim dizer condensa-se em um "e u ", indi­
vidualiza-se e torna-se consciência de si, auto-reconhecen-
do-se e, desse momento em diante, esse novo aspecto da
consciência não se perde mais, antes aumenta sempre mais
até que todo o universo torna-se "E u ", como diz o zen-bu-
dismo.
Na verdade, o homem auto-realizado alcançou a mais
alta expressão humana, a de adepto. O Eu não tem limites.
Isso não deve ser interpretado como inflação do Eu, como
um desmesurado senso de orgulho que nos faz sentir seme­
lhantes a Deus, mas como expansão das barreiras da cons­
ciência individual, perda do egocentrismo e do fechamento
nos limites da individualidade, até chegar à identificação ao
mesmo tempo jubilosa e humilde, de todo natural, com a
realidade infinita do universo e do divino.
Talvez isso ainda esteja fora da nossa compreensão
porque é d ifíc il conceber a existência contemporânea da
consciência do eu e da consciência do todo. Para nós, no
nível de conhecimento em que estamos, identificarmo-nos
com o universo significa apenas perder nossa individualida­
de e assim nos extraviarmos no "nada" infin ito. Significa
a morte do nosso "e u " humano, cair num abismo sem fun­
do, onde nos anulamos e perdemos nossa consciência.. .
Não é assim, pelo contrário, e há inúmeros testemunhos
disso, porque têm havido homens que, embora permane­

151
cendo humanos e continuando a viver sua vida aparente­
mente inalterada, alcançaram o últim o degrau da cons­
ciência, a consciência cósmica em seu corpo físico, isto é,
permanecendo em encarnação, continuando a viver, a tra­
balhar, a pensar, a criar, como se fossem iguais a todos os
homens. Todavia não são iguais aos outros, porém muito
diferentes. Apenas a mudança é toda interior, subjetiva,
invisível. O que se modificou neles foi o estado de cons­
ciência e as conseqüências dessa mudança não influem so­
bre sua realidade humana, mas apenas sobre o estado subje­
tivo e a "qualidade" de sua vida.
Na verdade, embora aparentemente suas vidas sejam
iguais as dos outros, elas são, com efeito, profundamente
diversas, porque além do estado de infinita alegria, de pro­
funda beatitude, de completação que experimentam, tam­
bém suas intenções, sua orientação, a essência das suas vi­
das são profundamente diferentes. Amor, luz, sabedoria,
conhecimentos infinitos impregnam o seu entendimento,
enquanto toda classe de dúvida, medo, egoísmo, incerteza,
desvaneceu-se completamente. Ademais, deles emana um
silencioso mas enorme poder que é capaz, somente com a
sua irradiação, de curar, reconciliar, despertar os outros da
inconsciência. Mas estas são apenas palavras inadequadas
para descrever o que pode ser o estado de consciência de
quem alcançou a máxima expansão da consciência perma­
necendo no corpo físico.
O estudioso inglês Richard M. Bucke, em seu livro
Cosmic Consciousness, descreve esse estado elevadíssimo
de consciência alcançado por vários indivíduos através das

152
épocas, tomando-os como testemunhos da verdade desse
fato interior, ao qual, mais cedo ou mais tarde, cada um
de nós chegará.
Só podemos intuí-lo e talvez, como um aspergimento,
às vezes senti-lo, embora mínima e limitadamente. O que,
todavia, deve ficar claro, desde o início do nosso caminho
em direção ao desenvolvimento da consciência total, é que
o eu representa apenas o centro de uma esfera amplíssima
e infinita de conhecimentos e que, à proporção em que
prosseguimos na evolução, podemos incluir zonas sempre
mais vastas dos conteúdos conscienciais dessa esfera em
nossa autoconsciência.
A. A. Bailey, em seu livro La coscienza deli'atomo nos
apresenta interessantes e esclarecedoras analogias entre a
consciência do eu humano e a consciência do átomo.
Como dissemos no início deste livro, foi confirmado pela
ciência que também o átomo tem um certo entendimento
e também uma esfera de influência.
"O átomo é uma entidade viva, um mundo vibrante,
e na sua esfera de influência encontram-se outras pequenas
vidas.. (A. A. Bailey: La coscienza dell'atomo.) A autora
continua, dizendo que o átomo tem uma energia sua, inter­
na, mas também uma energia voltada para o exterior e que
é levada a instaurar relacionamento em direção ao mundo
objetivo. De fato, pode encontrar-se no átomo a reprodu­
ção da estrutura de um sistema solar, no qual pode ser re­
conhecido o sol central com os planetas, cada qual percor­
rendo a sua órbita própria em torno dele. Fazendo uma
analogia com o homem, vemos que também cada indivíduo

153
é uma entidade, um núcleo positivo de força e de vida que
compreende, dentro de sua esfera de influência, outras vi­
das menores.
Assim, podemos considerar cada unidade da família
humana como um á to m o hum ano, pois no homem não te­
mos mais do que um átomo de dimensões maiores do que
o átomo químico.
Provavelmente, a meta de evolução do átomo é a de
alcançar o estado da consciência humana.
Dissemos que o átomo tem uma energia interna e uma
energia voltada para o exterior e isto é a sua correlação de
atração e repulsão para com os outros átomos. Também no
homem existem esses dois aspectos: vida interna e vida ex­
terna, que podem constituir, como para o átomo, dois mo­
dos de evolução.
A vida interna para o homem é a busca do centro de
conhecimento, o incitamento à auto-realização.
A vida externa é a correlação com os outros, a expan­
são da consciência em sentido horizontal, até alcançar, pri­
meiro a "consciência de grupo", e, enfim, a consciência
cósmica.
O eu do homem, a sua autoconsciência, uma prerroga­
tiva exclusiva do reino humano, como já assinalamos, é, na
realidade, um mistério, porque embora constituindo uma
limitação, um invólucro de separação, faz-se condição in­
dispensável para o desenvolvimento de uma consciência
mais ampla e real e é a semente que depois irá dar vida à
consciência universal.

154
O eu é o centro da nossa consciência, é "o átomo nu­
clear do nosso sistema psíquico" (como o chama Jung),
em torno do qual giram e se organizam todas as energias
que compõem nossa natureza humana. É necessário, por­
tanto, como ponto de apoio e referência para a nossa evo­
lução e para o nosso crescimento interior mas, a um certo
ponto, é sentido como prisão e como limitação. Esse é o
sinal de que a consciência aprisionada está tentando liber­
tar-se e expandir-se e sente-se como que encerrada no eu
como em uma couraça que a sufoca e a impede de se co­
municar com o exterior. Tal senso de incomunicabilidade
é um dos sofrimentos maiores do homem e é o sintoma do
atrito, do trabalho que precede o rompimento do invólu­
cro que encerra a consciência, atrito que na realidade, ain­
da que seja em nível inconsciente, sempre existiu desde o
início do caminho evolutivo.
Os orientais dizem, realmente, que até os cinco senti­
dos e a mente são estados criados pela consciência aprisio­
nada no eu, como tentativa de pôr-se em contato com o
mundo exterior. A esse propósito Satprem escreve, em
La avventura delia coscienza:
". . . inventamos os olhos, as mãos, os sentidos, uma
mente, para podermos reunir àquilo que tínhamos excluí­
do do nosso grande ser." (p. 178.)
Por esse motivo os hindus chamam aos cinco sentidos
"as cinco portas para o não-eu". Ademais, existem contra­
partidas sutis de cada um dos sentidos físicos para cada um
dos veículos do homem, que se desenvolvem pouco a pou­
co como órgãos de sensibilidade e de contato com os pla­

155
nos invisíveis e com as vibrações sutis dos outros indivíduos.
"Um dos primeiros e mais importantes desenvolvi­
mentos será a reação, ou resposta consciente a cada vibra­
ção e a cada contato, isto é, a capacidade de responder ao
não-eu sobre todos os planos." (De La coscienza dell'ato-
mo, de A. A. Bailey, p. 128.)
Podemos dizer, assim, que quanto mais uma pessoa é
evoluída, mais sensível se faz aos contatos e vibrações que
lhe vêm do exterior. Realmente, à proporção que a cons­
ciência desperta, chega a parecer que o invólucro que a
aprisiona e delimita se torna sempre mais permeável, trans­
parente, absorvente, tanto que o indivíduo sente aumentar
a sua sensibilidade, a sua receptividade, a sua capacidade
telepática e a sua faculdade de identificar-se com os outros.
Esse últim o aspecto, no início, nem sempre é agradável e
pode causar sérias dificuldades e mal-estares quando não
fo r regulado e controlado, porque a identificação com os
outros e com o seu estado de ânimo, e a absorção das suas
vibrações que nem sempre são positivas, cria problemas e
sofrimentos. Isso acontece porque a consciência do ind iví­
duo já não é de todo separada e, embora permanecendo
intato o conhecimento do eu, na realidade seus limites
se alargaram e tem início, agora, o trabalho de purifica­
ção, de transformação, de sublimação, não só das energias
psíquicas que pertencem aos veículos daquele dado indi­
víduo, mas também os de uma zona mais vasta de cons­
ciência, com a qual ele está em contato e com a qual se
identifica.
Não há separação na realidade, e não há uma única

156
consciência e quando é chegado o momento: . . começa-
se a sentir que os outros fazem parte de nós mesmos e que
são repetições diferentes nossas, um "n ós" modificado pela
natureza dos outros corpos ou, pelo menos, sentimos que
eles vivem um Eu universal mais vasto, que não é outro se­
não a nossa realidade superior". (De Lettere, de Sri A u ro ­
bindo.)
Esses sintomas assinalam o início da "consciência de
grupo", a manifestação mais evidente da nossa Alma, que
está despertando em nós e tomando posse dos seus veí­
culos, fazendo penetrar neles a sua consciência ampla e in-
clusiva, eliminando a ilusão da separatividade.
Assim, grau a grau, e quase que inadvertidamente, o
campo do nosso conhecimento se expande e sentimos,
sempre com maior freqüência, sempre mais vividamente,
o senso da unidade submissa à aparente divisão, e isso é
fonte de alegria, de júbilo, de paz infinita.
Estas palavras não são somente poéticas para expres­
sarem um estado emotivo ou m ístico, mas são expressões
inadequadas que tentam descrever uma realidade substan­
cial, a da completa alegria dada pela expansão da consciên­
cia e a superação da separatividade. Com efeito, a fonte de
todo o sofrimento, de toda a angústia, mesmo que não nos
apercebamos disso, é o isolamento, a incomunicabilidade,
pelo que, quando as barreiras do eu egoístico que nos apri­
sionam caem, toda a dor desaparece e automaticamente é
substituída por aquilo que é o "m odo de ser" do Eu que,
não por acaso, é definido com três expressões, Sat-Chit-
Ananda, isto é, Existência-Consciência-Alegria, exatamente

157
porque o Espírito contém em si a alegria pura.
"Ser consciente significa ser alegria. Quando a cons­
ciência é liberta das m il vibrações mentais, vitais e físicas,
que a têm prisioneira, a alegria é descoberta.. (de
L 'A w entura delia coscienza, de Satprem, p. 72.)
O homem, na realidade, é feito para a felicidade e,
de fato, a procura continuamente, enganando-se, contudo,
na direção dessa sua busca, porque sua consciência obum-
brada não deixa que ele compreenda e especifique qual
seja a única e verdadeira fonte da harmonia, da paz e da
alegria, e qual é o obstáculo que o impede de alcançá-la.
Tal obstáculo é a inconsciência que, todavia, como
já dissemos, é inevitável, sendo o caminho para superá-la o
desenvolvimento da verdadeira consciência, a auto-realiza­
ção, entendida como busca da própria autenticidade, como
despertar da própria essência profunda e real, como encon­
tro do centro da consciência.
O últim o grau da consciência, pelo menos no que res­
peita ao ciclo humano, é a consciência cósmica.
Quer dizer dessa altíssima conquista?
é um estado tão avançado que só pode ser captado
pela intuição e talvez não haja palavras para descrevê-lo.
Todavia, todos os que o alcançaram, fosse por um
único átimo, afirmaram que o caminho para essa meta é
a auto-realização, porque o Eu individual contém, estra­
nhamente, o universal.
Ele é, ao mesmo tempo, o centro e a circunferência.
Em seu livro // fuoco delia creazione, diz Van der
Leeuw, tentando descrever esse alto estado de consciência:

158
mo tempo na circunferência e no centro. .. Temos a sensa­
ção, não de estarmos perdidos em algo infinitamente maior
mas, por estranho que possa parecer, a sensação é a de que
esse algo infinitamente grande esteja contido em nossa pró­
pria consciência".
Na realidade, portanto, não há separação entre o indi­
vidual e o universal, não há limites para a consciência e
também nós fazemos parte do Divino, que é Uno.
A consciência cósmica, em síntese, expressa a unida­
de e a totalidade reunidas, a fusão do eu com o Todo e o
entendimento do que são a Eternidade e o Infinito.

159
QUESTIONÁRIO RELATIVO AO CAPITULO XI

1. Chegados ao fim deste livro podem dizer se encon­


traram em si mesmos a maturidade interior, dos de­
senvolvimentos de consciência? Quais?
2. Parece-lhes sentir que têm mais conhecimentos, me­
nos condicionamentos, que estão mais livres da "me-
canicidade" e mais capazes de viverem consciente­
mente?
3. Parece-lhes sentirem em si mesmos, com mais fre­
qüência e mais nitidez, o seu centro de conhecimento,
de forma a reconhecê-lo quando ele aflorar?
4. Conseguem sentir, quando se interiorizam e recolhem-
se ao silêncio, a calma e poderosa presença do ser
oposto ao vir a ser? Em outras palavras: conseguem
desidentificar seu centro de autoconsciência dos ins­
trumentos pessoais e das modificações psíquicas?
5. Quando sentem emergir o centro de autoconsciência
isso lhes dá uma sensação de solitude, de incomuni­
cabilidade ou desejo de paz, de força, de lucidez, uni­
do a uma capacidade maior de identificação e de
compreensão para com os outros, bem como de am­
pliação da consciência?
6. Parece-lhes estarem mais receptivos, mais sensíveis,
mais intuitivos com referência ao mundo Supercons-
ciente?
7. Parece-lhes que se tornaram mais permeáveis, mais
sensitivos para o externo, seja ele "os outros", a natu­
reza ou o cosmo?

160
8. Já sentiram momentos de identificação e empatia
com outras pessoas?
9. Alguma vez já se sentiram identificados com o Todo?
10. Se a resposta for afirmativa, poderão dizer em que
ocasiões?
11. Poderiam dizer quais foram os maiores obstáculos e
impedimentos para o seu desenvolvimento da cons­
ciência?
Vinham do inconsciente?
Do ambiente?
De situações emotivas particulares?
Ou outros?

161
EXERCÍCIO N9 11
Meditação para Expandir a Consciência

I. Relaxem.
II. Interiorizem-se.
III. Desidentifiquem-se dos veículos pessoais.
IV. Reconheçam-se no centro da consciência, procurando
sentir de maneira lúcida, calma e plenamente cônscia
de ser um eu, afirmando silenciosamente:
Eu sou um centro de puro conhecimento
Eu sou um centro
Eu sou
V. Depois de alguns minutos de silêncio, com o conheci­
mento mantido no centro, procurem sentir uma ex­
pansão, uma ampliação da consciência em relação a
tudo e a todos, afirmando para si mesmos:
Não existe senão um único "E u " do qual o meu eu
individual é apenas um reflexo.
Não existe senão uma consciência, da qual a minha
consciência é uma testemunha.
Não existe senão uma única vida da qual a minha
vida é canal.
Não existe senão o eu, realidade absoluta que
impregna todo o universo.
Eu sou aquele eu — aquele eu sou eu.

162
Leia também
O DESPERTAR DA CONSCIÊNCIA MÍSTICA

Joel S. Goldsmith

Com freqüência, comenta o leitor que descobre os traba­


lhos de Joel Goldsmith: “Não é como ler um livro, mas como
se o Autor estivesse ao nosso lado conversando conosco”. No
entanto, Goldsmith sempre esteve ao nosso lado, demasiada­
mente ocupado. Consumiu seu tempo atendendo aos chama­
dos de cura que vinham à noite ou durante o dia, do mundo
todo, e ensinando às pessoas que queriam aprender mais so­
bre a cura e o modo de alcançar a consciência mística. Em
1946, o Autor passou por uma iniciação nos mistérios ocultos
da vida — profunda experiência espiritual que o elevou, do
reino metafísico, à união mística da unidade consciente com
a Fonte da vida. Com essa experiência veio a necessidade de
ensinar àqueles que vinham até ele. Daí por diante, Goldsmith
foi fortalecido pelo Espírito, que o instruía e conduzia ao tra­
balho de cada dia — , trabalho que incluiu o atendimento de
grande volume de correspondência daqueles que descobriram
a sua mensagem e que o procuravam. A mensagem desse Au­
tor é sempre nova e pura; ela saiu diretamente da consciência
e foi libertada de maneira natural, simples, direta e poderosa,
com a autoridade de quem demonstrou por suas ações a ver­
dade da mensagem que ensinava.
Joel Goldsmith achava-se qualificado para falar e escre­
ver sobre a consciência mística. Seu conhecimento intelectual
não resultou de leituras de filosofia especulativa sobre o signi­
ficado da vida, mas unica e exclusivamente da experiência. Ele
foi capaz de revestir sua mensagem de tal simplicidade que
só poderia ter advindo da consciência perceptiva da unidade
que não admite a dualidade. Para ele, a vida mística signifi­
cava viver no mundo, mas não pertencer a ele, participar de
muitas atividades da vida normal reservando-se, todavia, uma
área da consciência para descobrir, para além dos limites do
mundo objetivo, a realidade espiritual oculta. Ele viu, além do
visível, a Origem invisível de toda vida e energia.

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