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DANIEL

SEGREDOS DA PROFECIA

Descubra como a PROFECIA


nos habilita a enfrentar o
FUTURO com confiança

ARILTON OLIVEIRA
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Projeto Gráfico
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Ilustração da Capa
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impressão: 8 mil exemplares


Tiragem acumulada: 18 milheiros

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Daniel: segredos da profecia / Arilton


Oliveira. - Jacareí, SP: Ed. do Autor, 2013

13-12740 CDD-224.506

índices para catálogo sistemático:


1. Daniel: Livros proféticos: Bíblia :
Interpretação 224.506
SUMÁRIO

Palavras do autor 7
Introdução 9

Capítulos
Daniel, um homem amado pelo Céu 15
Daniel, um livro selado 25

Seção histórica
Desafios culturais 35
Uma estátua assustadora - primeira visão 49
A fornalha de fogo ardente 69
Do palácio ao pasto 79
A queda de Babilónia 89
Daniel na cova dos leões 99

Seção profética
Quatro animais estranhos - segunda visão 109
A visão do carneiro e do bode-terceira visão 141
A purificação do santuário terrestre 149
2.300 tardes e manhãs e a purificação do santuário celestial.... 159
Daniel no RioTigre - quarta visão 173
Reis em guerra 179
Um tempo de angústia sem precedentes 187
O estabelecimento do eterno reino de Cristo 197

Conclusão 204
Referências 206
c-ít^-^^^-^n

DEDICATÓRIA

Dedico esta obra a três pessoas que muito amo:

José e Adelaide, meus queridos pais, que me deram vida

e ensinaram pelo exemplo o amor e respeito ao próximo;

e Juliana, minha amada esposa, que encheu minha vida

de um novo significado e alegria.


PALAVRAS DO AUTOR

O fascínio pelo livro de Daniel chegou muito cedo em minha vida.


Eu tinha apenas 13 anos de idade quando assisti, durante a Semana
Santa do ano de 1985, uma série de palestras apresentadas pelo saudoso
Dr. Emanuel Ruela, cujo tema central ainda hoje me lembro: HÁ VIDA
EM SUA MORTE. Foi naquele momento, após conhecer a linda histó-
ria da cruz, que aceitei a Jesus como meu Salvador pessoal.
Passei em seguida a frequentar a igreja que estava em meu bairro,
Mucuri, no município de Cariacica, ES. Nessa igreja simples, com ir-
mãos queridos e zelosos, tínhamos todos os sábados, às 7h da manhã,
o Culto do Poder. Sob a liderança dos irmãos Agostinho Machado,
Valdomiro, Benedito Tonoli, Neudes Fraga, Edvirges Fraga, Samuel
Ney, Nilton Gonçalves, António Afonso e outros, estudávamos as pro-
fecias de Daniel referentes ao "tempo do fim".
Fascinava-me o fato daqueles irmãos conhecerem tanto da Palavra
de Deus. Eram versos da Bíblia recitados de cor, raciocínios lógicos,
eventos históricos repassados, personagens da Bíblia e da história ana-
lisados. Isto tudo me fascinava.
Nessas reuniões, o livro de Daniel várias vezes era aberto e suas his-
tórias e profecias eram lidas. Uma estátua de vários metais, três jovens
lançados numa fornalha, Daniel na cova dos leões, um animal terrível e
espantoso, um chifre pequeno que falava insolências, um tempo de an-
gústia qual nunca houve, uma ressurreição especial - eram temas que
iam tomando conta de minha mente juvenil e me fazendo crer ainda
mais na inspiração da Bíblia e em sua relevância para nossos dias.
Uma coisa sempre me chamava a atenção nesses estudos: "Jesus vol-
tará em breve para estabelecer Seu reino". Essa era a nota tónica de cada
estudo. Eles ensinavam que a "pedra arrancada sem auxílio de mãos"
que destrói a estátua (Daniel 2:45) seria o estabelecimento final do
eterno reino de Cristo que jamais teria fim. Com essas belas imagens,
minha mente juvenil foi se apaixonando pelo estudo das profecias.
E comecei, assim como aqueles irmãos, a ansiar pela volta de Jesus.
Tornei-me de fato um adventista, alguém que não apenas amava a
DANIEL
8 Segredos da Profecia

volta do Senhor, mas buscava, por meio da própria vida e trabalhos,


apressar esse extraordinário dia (2 Pedro 3:12).
Muitos daqueles queridos irmãos já não vivem mais. Agostinho
Machado, António Afonso, Emanuel Ruela - todos já descansam no
pó, assim como Daniel (Daniel 12:13). Felizmente, segundo o próprio
Cristo, eles apenas dormem (João 11:11), e está chegando o dia de
"acordarem" para receber a recompensa: "uma coroa imarcescível
de glória" (Daniel 12:2; 2 Timóteo 4:8). É isso que acontece quando
estudamos Daniel: Nós nos apaixonamos por Cristo e Sua vinda e nem
mesmo a morte pode arrancar esta esperança de nosso coração.
Como foi dito a Moisés, junto à sarça ardente, devemos tirar "nos-
sas sandálias" pois estudar o livro de Daniel é pisar em solo sagrado
(Êxodo 3:5). Oremos para que o mesmo Espírito Santo que auxiliou o
profeta no registro dessas histórias e profecias nos auxilie no estudo e
compreensão das mesmas. Que, ao longo de cada capítulo, percebamos
que o reino de Cristo se aproxima e busquemos ser cidadãos dele.

Esse é o sincero desejo de seu irmão de jornada.

O autor
INTRODUÇÃO

A profecia é uma visão antecipada da história; já a história é um


repasse retrospectivo da profecia, e em nenhum outro livro da Bíblia
esses aspectos estão mais interligados do que nos livros de Daniel e
Apocalipse. Há profecias que foram proferidas e que se relacionam com
o período da escrita dos livros e outras que foram dadas para o chama-
do "tempo do fim" ou "últimos dias".
Segundo a revelação profética, já estamos vivendo no assim chamado
"tempo do fim". Isso quer dizer que as mensagens de Daniel e Apocalipse
são dirigidas especialmente para nós. Esta é uma das razões pelas quais
devemos estudar atentamente o livro de Daniel. Mas existem outras razões:

a) Porque é inspirado por Deus. Nenhum mortal pode conhe-


cer o futuro, a não ser que Deus o revele. Foi isso que Ele fez
a Daniel. Revelou-lhe, pelo menos, 2.500 anos de história.
Estudar o livro de Daniel é desvendar os eventos que ainda
nos aguardam. Não como os "videntes" da modernidade que,
por meio de "chutes" e predições descabidas tentam adivinhar
o que vai acontecer, mas saber o futuro revelado pelo Senhor
da história, que conhece o fim desde o princípio (Isaías 46:10).
b) Porque é dirigido especialmente às pessoas que vivem nos
derradeiros dias da história. O livro trata de história e profecia.
A parte profética, segundo o anjo Gabriel, foi velada a Daniel e
o conhecimento das mesmas só viria no tempo do fim, ou seja,
em nossos dias, como ainda veremos com mais detalhes.
c) Porque proporciona esperança e otimismo num tempo de cri-
ses sucessivas, violência, e confusão de valores e crenças. Nunca
na história da humanidade vimos tantas pessoas vagarem sem
rumo. Vidas vazias, solitárias, sem sentido. Estudar o livro de
Daniel é receber uma overdose de esperança e fé. É encontrar sen-
tido não apenas na história secular, mas em nossa própria histó-
ria, É descobrir que existe um Deus que, apesar das fornalhas e
dos leões, ama e cuida de forma paternal de Seus filhos.
DANIEL
10 Segredos da Profecia

d) E, além de tudo o que foi mencionado, porque ele foi indi-


cado pelo próprio Deus. No antigo Testamento, falando da
justiça de Seus castigos contra os pecadores, Deus declarou:
"Ainda que estivessem no meio dela (da terra em pecado) estes
três homens, Noé, Daniel e Jó, eles, pela sua justiça, salvariam
apenas a sua própria vida, diz o Senhor Deus" (Ezequiel 14:14).
Jesus, em Seu discurso profético acerca do fim do mundo, dá
destaque especial ao livro do profeta. Mateus 24 é um capítulo
de pura profecia e, ao mesmo tempo, parece ser uma crónica
atualizada dos dias atuais. Então Jesus chama a atenção para o
livro de Daniel e para os eventos ali preditos (Mateus 24:15).

Aqueles que consideram Daniel e Apocalipse como autênticos e


verdadeiros defendem a literatura apocalíptica da Bíblia como uma for-
ma de profecia preditiva. Esta se distingue principalmente por alguns
motivos:

a) Narrativa das visões conforme foram vistas;


b) Uso de símbolos de maneira predominante como veículos da re-
velação interpretados (como no caso do carneiro e do bode de
Daniel 8), ou sem interpretação (como a mulher vestida de sol
em Apocalipse 12).
c) Predição do futuro do povo de Deus (Israel no Antigo Testamento
e a igreja no Novo Testamento) em relação às nações da Terra na
vinda do Messias;
d) Estilo de prosa e não poético, que caracteriza as outras porções
proféticas do Antigo Testamento.

Por excelência, o livro de Daniel é um livro profético, assim como


o Apocalipse. Mas quais são os propósitos da profecia? Podemos desta-
car dois: (a) Habilitar o povo de Deus a se preparar para o futuro e (b)
ao vermos o cumprimento das profecias na história secular, aumentar
nossa confiança na Bíblia como inspirada Palavra de Deus.
A importância do estudo da Bíblia não pode ser exagerada. Como
em nenhum outro período da história, vivemos num mundo com muita
Introdução 11

confusão religiosa e inúmeras vozes propondo apresentar uma direção


segura para a vida espiritual. Entretanto, só a confiável Palavra de
Deus, a Bíblia, pode ser um guia seguro para nossa vida. Mais que
isso, precisamos de um manual ético para uma sociedade tão desti-
tuída de valores morais e justiça. Precisamos de um guia para as cri-
ses existenciais, para os problemas insolúveis da vida moderna, para as
dificuldades e conflitos jamais imaginados. É isso que nos é oferecido
no precioso livro de Daniel.
Logo no primeiro capítulo veremos a importância do cultivo de bons
princípios de saúde e da estreita relação que existe entre aquilo que come-
mos e aquilo que somos. Aprenderemos com Daniel como um estilo de vida
segundo a orientação bíblica pode ser uma poderosa ferramenta de sucesso
em todos os aspectos da vida - física, mental e espiritual.
No segundo capítulo veremos Deus descortinar perante um rei ím-
pio, de uma nação pagã, o futuro da humanidade. Essa primeira visão
do livro, das quatro que serão estudadas, nos mostrará Jesus como o
Senhor da história, como Aquele que coloca e tira os reis, como aquele
que dá sabedoria e força a Seus filhos.
No terceiro capítulo veremos um rei orgulhoso que, a despeito de
todas as revelações que recebeu, desejou assumir o lugar de Deus e re-
ger a própria história. Veremos claramente o conflito entre o bem e o
mal e como as forças satânicas agem para perseguir e destruir os "san-
tos de Deus". Mas no final da história descobrimos um Deus que não
apenas ama, mas entra no fogo para proteger Seus filhos queridos.
No quarto capítulo veremos como Deus trabalha - até onde vai Sua
misericórdia para salvar. E descobriremos que, muitas vezes, o mal que
nos alcança são permissões divinas para nos ensinar lições espirituais
e nos preparar para a vida eterna.
No quinto capítulo veremos o cumprimento histórico das profecias de
Jeremias (capítulo 25) e de Isaías (capítulos 44 e 45) sobre a queda da gran-
de Babilónia. Entenderemos que Deus não tolera para sempre as afron-
tas que Lhe são feitas e, nos surpreenderemos ao descobrir que a queda
do maior império de todos os tempos, Babilónia, é um tipo da vitória de
Cristo sobre as forças do mal (Apocalipse 14:8; 18:2) e da libertação de Seu
povo nos dias que antecederão Sua vinda (Apocalipse 16:12 e 18:4).
DANIEL
12 Segredos da Profecia

No capítulo seis entraremos na cova dos leões acompanhados de


um gigante na fé, Daniel. Este, diante do risco da própria vida, preferiu
manter comunhão com o Céu a obedecer decreto de homens. A oração
foi sua fonte de poder e segredo da vitória.
Já a partir dos capítulos 7 a 12 veremos várias profecias que mostram
a ação de Deus na história para cumprir Seus propósitos e libertar Seu
povo. Quatro animais que sobem do mar; um tribunal que se assenta
para julgar; uma visão de um carneiro e um bode que se digladiam; um
chifre pequeno que profere insolências e blasfémias; setenta semanas de
oportunidades para o povo de Daniel (judeus); reis do Norte e do Sul
que batalham por supremacia; um tempo de angústia qual nunca houve
na história; os 1335 e 1260 dias, etc. São cenas proféticas que abarcam
um largo período da história, desde os dias de Daniel até os nossos.
Daniel - segredos da profecia é um livro para ser estudado com
muita oração. Esse é o desafio para você, querido leitor. Então, se não o
fez ainda, ore agora e suplique a luz do Céu para que, o mesmo Espírito
que auxiliou Daníe^há mais de 2.500 anosjpossa estar ao seu lado e lhe
dar a conhecer todas as verdades que o grande Deus tem para sua vida.
A escritora Ellen G. White fez várias declarações sobre a importân-
cia do estudo do livro de Daniel. Destacamos aqui algumas:
"A luz que Daniel recebeu de Deus foi dada especialmente para es-
tes últimos dias. As visões que ele viu [...] estão agora em processo de
cumprimento, e logo ocorrerão todos os acontecimentos preditos".1
"Quando os livros de Daniel e Apocalipse forem bem compreendi-
dos, terão os crentes uma experiência religiosa inteiramente diferente.
Ser-lhes-ão dados tais vislumbres das portas abertas do Céu que o cora-
ção e a mente se impressionarão com o carater que todos devem desen-
volver a fim de alcançar a bem-aventurança que deve ser a recompensa
dos puros de coração"2
"Grandes verdades que não foram ouvidas e contempladas desde
o dia de Pentecostes resplandecerão da Palavra de Deus em sua pureza
original. Aos que realmente amam a Deus, o Espírito Santo revelará

l WHITÍ:, Ellen G. Testemunhos para ministros e obreiros evangélicos, Tatuí, SP: Casa Publícadora
Brasileira, 1979, p. 112,113.
7. Ibicíem. p. 114.
Introdução 13

verdades que desapareceram da mente, e também lhes revelará verda-


des inteiramente novas. Os que comem a carne e bebem o sangue do
Filho de Deus extrairão dos livros de Daniel e do Apocalipse verdades
inspiradas pelo Espírito Santo".3
"Deixemos que Daniel fale [...] Mas seja qual for o aspecto do as-
sunto apresentado, ele vai a Jesus como o centro de toda a esperança".4

3 WHITE, Ellen G. Fundamentos da educação cristã. Tatu í, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1996, p. 473.
4 WHITE, Ellen G. 1979, p. 118.
O profeta Daniel é um exemplo de verdadeira santificação.

Seus longos anos foram cheios de nobre serviço a seu Mestre.

Foi um homem "muito amado pelo Céu", e foram-lhe

concedidas tais honras que raramente têm sido conferidas

a seres humanos. No entanto, sua pureza de caráter e

inabalável fidelidade só eram igualadas por sua humildade

e contrição (E Recebereis Poder, 97).


DANIEL,
UM HOMEM AMADO
PELO CÉU
Dois homens foram honrados de forma especial na Bíblia: João,
o discípulo amado, que foi o escolhido para receber a revelação do
Apocalipse, e Daniel. Homens a quem Deus escolheu revelar Seus pro-
pósitos com relação aos dias finais da história humana.
Daniel é um nome comum na Bíblia. Significa "Deus é meu juiz".
Davi tinha um filho chamado Daniel (l Crónicas 3:1). Havia outro
Daniel, filho de Itamar (Esdras 8:2), e ainda outro em Neemias 10:6.
Mas de todos estes, Daniel, o príncipe de Judá, sem dúvida foi o perso-
nagem mais importante na história bíblica.
Daniel nasceu em uma família judia de alto nível que vivia na
Palestina,._por_yQlta de 622 a.C. Viveu sua infância na Judeia, ou reino
de Judá, e passou toda a sua vida adulta na Babilónia, para onde foi
levado cativo com apenas 18 anos.1
A historicidade do homem Daniel e do livro que leva seu nome
são confirmados pela própria Bíblia. No Antigo Testamento, o profeta
Ezequiel referiu-se a ele (Ezequiel 14:14, 20), e 110 Novo Testamento,
nada menos que o próprio Cristo, em seu discurso profético, cita o livro
do profeta (Mateus 24:15).

WHITE, Ellen G. Testemunhos para a igreja, v. 4. Ta fui, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2003, p. 570.
DANIEL
16 Segredos da Profecia

Mas quem era Daniel? Que informações a Bíblia apresenta sobre


ele? Em seu livro, vários detalhes nos são oferecidos:

a) Da linhagem real (Daniel 1:3, 4)


b) Teve seu nome mudado para Beltessazar (Daniel 1:7)
c) Era determinado (Daniel 1:8)
d) Era entendido em todas as visões e sonhos (Daniel 1:17)
e) Era um jovem prudente (Daniel 2:14)
f) Confiava em Deus (Daniel 2:16; 6:23)
g) Era um jovem de oração (Daniel 2:18, 9:3)
h) Era grato a Deus (Daniel 2:19, 20)
i) Tornou-se governador e chefe principal de todos os sábios de
Babilónia (Daniel 2:48)
j) Não se esquecia de seus amigos (Daniel 2:49)
k) Possuía um espírito excelente (Daniel 5:12; 6:3)
1) Não era amante dos bens terrestres (Daniel 5:17)
m) Era um jovem fiel (Daniel 6:4)
n) Era um jovem de oração (Daniel 6:10)
o) Era um servo do Deus vivo (Daniel 6:20)
p) Era próspero (Daniel 6:28)
q) Era um estudioso das Escrituras (Daniel 9:2)
r) Era um homem muito amado pelo céu (Daniel 9:23; 10:11, 19).

Umn das características que sobressaem ao personagem é, sem dú-


vida, o fato de ser uma pessoa amada pelo Céu. Por três vezes o Céu fez
essa declaração ÍDaniel 9:23: 10:11. 19). Mas alguém que conhece um
pouquinho da história desse jovem dirá: amado? Como?
* No auge da adolescência e da vitalidade, levado como escravo para
uma terra distante; tentado a usar alimentos que não eram os costumei-
ros e proibidos por sua religião; acusado e condenado simplesmente
por ser uma pessoa de oração; vítima de invejas e falcatruas, lançado
injustamente numa cova de leões; isto é ser amado pelo Céu?
Pois bem, o fato de enfrentarmos adversidades em nossa vida não
quer dizer que Deus não nos ama. Simplesmente enfrentamos problemas
e conflitos porque estamos neste mundo de pecado. Quantas vezes você
Daniel, um Homem Amado pelo Céu 17

já não se perguntou por que certas coisas aconteceram? Por que aquele
namoro terminou? Por que perdi meu filho em um terrível acidente? Por
que uma doença sem cura? Por que a falta de emprego? Por que não con-
sigo fazer feliz a pessoa que amo? Afinal, por que não sou feliz?
O que fazia de Daniel urna pessoa tão amada? Não eram as coiijas
que fa/.ia nem_as circunstâjiçias que, o rodeavam. mas_siniplesmenje
quem ele era: um_sgr humarjo. Um ser humano qyjgjjprendeu. em meio
a provações e dificuldades da vida, a desenvolver traços jje caráter e
hábitos que o
A grande verdade é que Deus ama a todos nós. Podemos não sentir
esse amor, mas essa é a verdade. Você pode ignorar ou até se revoltar
contra Ele, mas Ele o ama. Hvmcav^j deixar de amá-lo. nàQ imporja
o que você faça^Isso mesmo! As pessoas podem nos magoar e ferir,
podem nos abandonar e se_esquecer de ims^^odem^-Qgajiemjmssa
face nossos erros e defeitos, mas Deus nunca fará isso, pois sempre nos
amanL E Daniel sabia disso, jabia que era uma pessoa amada pelo Céu
e foLisso que o ajudou a ficar firme najvhpias de provação__e perigo.

DANIEL, O CATIVO
O grande ancestral do povo de Deus no Antigo Testamento foi
Abraão (Génesis 12:1-3). Este foi pai de Isaque, que foi pai de Jacó. Jacó,
por sua vez, teve 12 filhos, que vieram a formar as 12 tribos de Jacó, ou
Israel, pois o próprio Deus mudou seu nome (Génesis 32:28). Assim, o
povo de Deus no período do Antigo Testamento foi a nação de Israel,
as 12 tribos de Israel (Génesis 49:28).
'Por ódio e inveja, José, um dos 12 filhos de Jacó, foi vendido por
seus irmãos aos ismaelitas e, pela providência divina, foi parar no Egito
(Génesis 37:27, 28). Lá José tornou-se governador, e numa época de fome
e miséria, Deus o usou para ajudar Seu povo, providenciando alimento.
Tempos depois, o próprio faraó, monarca do Egito, convidou os irmãos
de José para habitarem na terra de Gósen, terra próspera às margens do
rio Nilo (Génesis 47:27). Enquanto viveu esse faraó, os Israelitas foram
favorecidos. Mas, subindo ao trono um faraó que não conhecia José e,
temendo a quantidade dos israelitas e uma possível rebelião, logo os es-
cravizou (Êxodo 1:8-141. Esse foi o primeiro rntiveiro do povo de Deus.
DANIEL
18 | Segredos da Profecia

Passaram_-_se_ 43fl_anos até que Deus levantasse um libertador,


Moisés, para tirar Seu povo do Egito e conduzi-lo à terra prometida a
Abraão - Canaã (Génesis 13:14,15; Êxodo 12:40;). Com mão poderosa
e dez pragas, Deus libertou Seu povo Israel do Egito. Este veio a se esta-
belecer em Canaã, e a terra foi repartida entre as tribos (Josué 14 a 19).
Q sistema de governo idealizado ..._p_0'' DP n s pnrn S PI i pnvn çpmpre fni
uma teocracia, ou seja. Deus governa. Entretanto, no desejo He imitar
as nações vizinh.as.iJsrael pediu.um rei (l Samuel 8)..Deiis pprmiHn e
SauLfpi.-ujQgido o primeiro rei de Israel (1 Samuel 10:17), SPM reinado
foi seguido por Davi e depois. Salomão.
''Apenas durante esses três reinados as 12 tribos de Tsrapl estiveram
unidas como um rcjjiQ apenas. Entretanto, depois de 40 anos de reinado,
Salomão morre e surgem dois sucessores ao trono: Roh0ãx>, sen fílhn, e
Jeroboão. um de seus servos. Neste momento da história ocorre a sepa-
ração das tribos. Onas tribos f i n d a e Renjanjirn - l Reis 12:21) seguem a_
Rnhnnn e de? trihns a Jerohoão f 1 Reis l l :31). A partir deste momento,
temos n dinastia do reino do Norte, com capital em Samaria (l Reis 16:29)
p :i dinastia do rpinn do Sul, mm rnpitní em ternsalém (l Reis 14:21).
"•*• Por causa dos ppr.adns cometidos rnnl rn Deus e de .suas rphplines. n
reino do norte ide?, trihns) seria dÍ7,imado p levado rativn Várias profe-
cias advertiram o povo desse perigo. O profeta Oseias havia profetiza-
do: "Samaria levará sobre si a sua culpa, porque se rebelou contra o seu
Deus; cairá à espada, seus filhos serão despedaçados, e as suas mulheres
grávidas serão abertas pelo meio" (Oseias 13:16).
Também Isaías o havia predito: "Pois antes que o menino saiba di-
zer meu pai ou minha mãe, serão levadas as riquezas de Damasco, e os
despojos de Samaria, diante do rei da Assíria" (Isaías 8:4).
Mas as advertências do Céu não f'nr?im ouvidas. Finalmente veio o
Cumprimento da profecia. O reino do Norte,_com sua capital Samaria.
foi escravizado e destruído pelos assírios no ano 722 a.C. (2 Reis \23-7).
Esse foi o segundo cativeiro do povo de Deus.
Mas a profecia não se limitava a n reino do Norte. O profeta Isaías
também havia predito a respeito do reino do Sul: "Porventura, como
fiz a Samaria e aos seus ídolos, não o faria igualmente a Jerusalém e
aos seus ídolos?" Çknms .l.nil.1). O cativeiro também chegaria para
Daniel, um Homem Amado pelo Céu 19

Jerusalém, o reino de Tudá. se este não abandonasse os pprados que ns


separavam de Deus (Jsaías 59:2) *As várias advertências não foram ou-
vidas e o povo se afastou mais e mais de Deus. Quando aJMblia,declara
gne "O Spnhnr entregou" Tudá nas mãos de Rabilónia fpaniel 1:1. 2) era
uma questão de juízo de Deus, e nãoforca.-Ou.estratégiade Babilónia.
•-*. Quando analisamos a história bíblica, descobrimos o "pano de fun-
do" para os acontecimentos do primeiro capítulo de Daniel. A história
remonta a Ezequias, rei de Judá. Ele estava doente e o profeta Isaías re-
comendou que pusesse sua casa em ordem, pois a morte era iminente.
Diante dessa dramática notícia, o rei orou fervorosamente, pedindo que
sua vida fosse poupada e sua oração foi atendida (2 Reis 20:1-6). Deus
lhe restauraria a saúde e lhe acrescentaria ainda mais 15 anos de vida;
Também o livraria das mãos do rei da Assíria. Ezequias pediu então um
sinal a Deus de que aquilo de fato aconteceria. Deus, que criou o Sol e
o comanda (Jó 9:7), disse que este retrocederia 10 graus (2 Reis 20:11).
Não é maravilhoso descobrir um Deus que move os astros do
Universo por__amor a Seus filhos, mesmo guando rehekies-e_desobe-
dientes? Deus interferiu na lei de rotação da Terra, lei que Ele mesmo
havia criado, para mostrar ao rei Ezequias o quanto o amava. Essa alte-
ração no movimento da Terra não passou despercebida aos observado-
res babilónicos, que ficaram sabendo que aquilo que haviam observado
tinha a ver com a cura do rei de Judá. Logo, uma delegação foi enviada
para fazer averiguações.
--*• Quando a embaixada babilónica chegou a Jerusalém, Ezequias
"lhes mostrou toda a casa do seu tesouro, a prata, o ouro, as especia-
rias, os óleos finos, o seu arsenal e tudo quanto se achava nos tesouros"
(2 Reis 20:13), mas nada disse snhre n OPUS qiif mnve os astros; em
favor de Seus filhos. Uma tremenda oportunidade para testemunhar
sobre o Deus verdadeiro, mas ela foi desperdiçada.
Deus então lança uma severa repreensão sobre Exéquias: "Eis que
virão dias em que tudo quanto houver em tua casa [...] será levado para
Babilónia,.[...] dos teus próprios jjjhos. quejty gerares^tQmarão. para que
spjam.-ennnrns no palárin d n rei ria Ra.hllQ.nJa" (2 Reis 20:17, 18). Aqui
vemos uma profecia relativa.aos., príncipes jiidens,_e_pntm pies
Hananias. Misael e Azarias (Daniel 1:3).
DANIEL
20 Segredos da Profecia

Q filho de Ezequias, Manassés. quando completou 12 anos de idade


começou a reinar ao lado de sen pai. Nos 15 anos de vida que foram
prometidos a Ezequias, em 10 deles Manassés foi co-regente. Isso acon-
teceu para dar ao novo rei experiência para o cargo. Nãn sabemos se
Exéquias procurnn influenciar sen filhn, mas este spgnin uma rnnHii-
tji religiosa totalmente diferente d n pá H rã o estah^lficMo _pQr_S.e" pai. A
Bíblia apresenta seu currículo real an Inngo dos 55 anns He reinado:
(a) Edificou os altos que seu pai havia destruído, (b) levantou altares
a Baal, (c) fez um poste-ídolo e o serviu, (d) edificou altares na pró-
pria casa de Deus (o templo construído por Salomão), (e) queimou seu
filho como sacrifício, (f) adivinhava pelas nuvens, (g) era agoureiro,
tratava com médiuns e feiticeiros, (h) fazia o que era mau perante o
Senhor para O provocar à ira, etc. f? Reis_21:2-Z).
Por certo nos faltarão palavras para listar tudo que Manassés fez
de abominável. Além de tudo isso, derramou sangue_inQggnte. de um
lado ao outro de Jerusalém, daqueles que resistiam à sua apostasia.
(2 Reis 21:16). Mas a história não acaba aí e, às vezes, nos causa estra-
nheza e admiração. Este rei ímpio se arrependeu e mudou sen cora-
ção e Deus lhe perdoou tudo que havia feito (2 Cróniras 3.3:12. 13).
Assim é a Bíblia, cheia de histórias que nos fascinam e nos fazerarefle-
tir sobre um Deus que ama, compreende e perdoa (Salmo 130:4). Mas
o mal que Manassés havia causado não pôde ficar sem consequências.
Por intermédio dos profetas, Deus repetiu a predição de que o juízo
se abateria sobre Jerusalém: "Estenderei sobre Jerusalém o cordel de
Samaria e o prumo da casa de Acabe; eliminarei Jerusalém, como quem
elimina a sujeira de um prato" f2 Reis 21:131. Deus estava simplesmente
deixando que o povo sofresse as consequências de sua rebelião.
-* Agora entra em cena outro personagem: Amo m. filho de Manassés.
F^te se demonstrou pior qug seiupai. Nunca deu provas de arrepen-
dimento e foi assassinado depois de um breve reinado de dois anos
(2 Crónicas 33:21-24).
« Quando morre Amom, Josias seu filho, começa a reinar em seu lugar.
Uma das primeiras tarefas de Josias foi reparar o Templo. Enquanto empre-
endia essa obra, encontrou o "livro da lei", dado por Moisés (Deuteronômio
31:24 a 26; 2 Crónicas 34:14), que havia muito tempo estava desaparecido.
Daniel, um Homem Amado pelo Céu 21

Nào-nos espanta tamanha rebelião e miséria dos reis anteriores a Tosias,


quando descobrimos que o livro da lei de Deus estava esquecido. Esse. é. Q
T. ' " "" T- ~ i

resultado natural de deixar de ouvir as orientações divinas.


"Achado o livro, Josias promoveu uma reforma espiritual entre o
povo de Deus. No entanto, seu sucessor, Jeoacaz, não deu continuidade
a obra. Jeoacaz é descrito como alguém que "fez o que era mau perante
o Senhor" (2 Reis 23:32). Ele foi levado como refém para o Egito e lá
morreu (2 Crónicas 36:4). O rei seguinte, Teoaquim, foi igualmente mau
e foi em seus dias que o cativeiro babilónico começou (2 Crónicas 36:6).
A^.Ao delinearmos a história do povo de Deus antes do cativeiro,
chegamos à conclusão de que Deus não é arbitrário no trato com Seus
filhos, mas sim, paciente, compassivo e disposto a aceitar o arrependi-
mento. Mas quando o povo não se arrepende. Ele permite que colha os
frutos de sua desobediência . F, isso que veremos na história do cativeiro
cativeiro do povo de Deus.

PROMESSA DE LIBERTAÇÃO
No entanto, Deus nunca abandona Seu povo. Várias profecias fo-
ram dadas falando sobre o retorno do cativeiro babilónico, com o obje-
tivo de animar e lhes dar esperança. Deus não deixou Seu povo em tre-
vas quanto aos eventos que sucederiam. Todos os detalhes foram postos
diante de seus olhos por meio dos profetas Jeremias e Isaías:

a) O reino de Judá seria escravizado por Babilónia (Jeremias 25:1 1).


Setenta anos seria o tempo de escravidão (Jeremias 25:12).
b) Ciro seria o libertador do cativeiro da Babilónia (Isaías 45:1).
c) Secar os rios seria a estratégia militar que Ciro usaria para li-
bertar os Judeus (Isaías 44:27).
d) A cidade de Jerusalém e o templo seriam novamente restaura-
dos (Isaías 44:28).
e) Neste templo restaurado, o Messias pisaria para salvar Seu povo
(Isaías 9:6; Ageu 2:9).

'-\fc.Os cristãos do século 21 correm o mesmo risco do povo de Judá dos


dias de Daniel. Temos nestes dois livros (Daniel e Apocalipse) todos
DANIEL
22 Segredos da Profecia

os detalhes proféticos de tudo que irá acontecer nos próximos anos, e


corremos o risco de sermos pegos de surpresa (Lucas 12:40). Por isso,
a urgente necessidade do estudo das profecias dos livros de Daniel e
Apocalipse pelas lentes da história.

DANIEL, O PROFETA
Não há profecia sem um profeta. Mas o ofício profético não ocorre
porque alguém o deseja. Ninguém pode fazer de si mesmo um pro-
feta. O profeta é um indivíHnn a qnpm Deus rhama p raparita para o
exgmciQ do ofício. Para ser um profeta, a pessoa, devç ser distinta ç
possuir qualidades qne a habilitem a este tão .sagrado ministério. Deve
ser um servo leal de Dqus. fiel a todos os reclamos de Sua lei, humilde,
despretensioso, zeloso pela honra de Deus, de Sua causa, de Seu povo,
um Fervoroso porta-voz de Deus. Assim era Daniel, o amado de Deus.
Deus usaria esse jovem para escrever um dos mais extraordinários
livros da Bíblia. Vilmar Gonzáles apresenta, em cada capítulo de seu
livro sobre Daniel, uma manifestação de Jesus em Seu aspecto redentor,
protegendo e zelando por Seus filhos:

Capítulo 1: Os nomes de Daniel, Hananias, Misael e Azarias signi-


ficam atributos inerentes a Cristo.
Capítulo 2: Jesus Se revela índiretamente por meio do sonho dado
a Nabuco donos or.
Capítulo 3: Jesus Se revela diretamente a Nabucodonosor, que O
viu na fornalha ardente.
Capítulo 4: Nabucodonosor reconhece o poder de Cristo, que o
humilhou, e reconhece Sua misericórdia ao ser ele restituído ao trono.
Capítulo 5: O nome de Jesus é vindicado após ser profanado. A
destruição de Babilónia foi necessária para que Israel fosse liberto do
cativeiro.
Capítulo 6: O poder de Jesus para libertar Daniel da cova dos leões.
Capítulo 7: O tribunal divino se assenta para intervir nos negócios
da humanidade e salvar os "santos do altíssimo".
Capítulo 8: A purificação do santuário e a intercessão de Cristo
para perdoar os pecados de Seu povo e trazer juízo ao impenitente.
Daniel, um Homem Amado pelo Céu j 23

Capítulo 9: Clímax do amor de Deus ao enviar Seu filho na metade


da septuagésima semana e salvar pecadores.
Capítulo 10: Cristo (Miguel) intervém aã política do mundo para
favorecer e salvar Seu povo.
Capítulo 11: Vitória de Cristo a favor de Seu povo nas guerras dos
reis do Norte e do Sul.
Capítulo 12: Vitória esmagadora e final de Cristo, que conduz Seu
povo através do tempo final de angústia ao descanso e recompensa
eternas. 2

Percebemos um Deus que dirige a história, exalta Suas leis c conduz


os interesses de Seu povo. Também pode ser notado o amoroso trato de
Deus para com o exilado Daniel. Suas experiências na corte babilónica,
recebendo a interpretação de sonhos, livrando seus companheiros da
fornalha de fogo ardente, mantido no poder na transição de impérios,
são cenas de uma história do amor c cuidado paternal de Deus.
^Durante os 70 anos em que esteve cativo em Babilónia, Daniel foi
unia testemunha ocular das ações divinas e alvo do amor e cuidado de
Deus. E maravilhoso é pensar que o lratamentg_dispensadoia _D_aniel
(homem muito amado pelo Cculé o mesmo que Deus deseja conceder s
a todos nós. Assim como Daniel, estamos vivendo agora um cativeiro
espiritual. A grande "Babilónia" {Apocalipse 17 e 18) está ao redor, com
suas sedutoras tentações e armadilhas. Os dias atuais também exigirão
de nós uma fé firme e caráter nobre assim como exigiu de Daniel nos
dias da Babilónia literal.
Estamos nós prontos para essa grande batalha moral c espiritual?
Permitamos que a história de Daniel, um homem amado pelo Céu, nos
encha de esperança e fé!
No Apocalipse todos os livros da Bíblia se encontram e se

cumprem. Ali está o complemento do livro de Daniel. Um é

uma profecia; o outro uma revelação. O livro que foi selado

não é o Apocalipse, mas a porção da profecia de Daniel

relativa aos últimos dias. O anjo ordenou: "E tu, Daniel,

fecha estas palavras e sela este livro, até ao fim do tempo"

(Daniel 12:4) (Atos dos Apóstolos, 585).


DANIEL,
UM LIVRO SELADO

O LIVRO DE DANIEL
O costume de dar ao livro o nome de seu principal herói pode ser
visto em vários exemplos: Josué, Samuel, Ester, Jó, etc. O mesmo acon-
tece com Daniel, pois o príncipe de Judá é seu principal protagonista.
A autoria do livro tem sido muito questionada nos últimos anos.
Entretanto, a opinião tradicional, tanto de judeus como de cristãos, é
que o livro foi escrito jo 6° século a.C., e que Daniel foi seu autor. As
evidências em favor dessa opinião são as seguintes:

a) Expressões no próprio livro. O profeta usa o tempo verbal na


primeira pessoa várias vezes (8:1-7, 13-19, 27; 9:2-22; 10:2-5
etc.); também afirma ter recebido pessoalmente a ordem de
preservar o livro (12:4).
b) O autor conhece bem a história. Somente um homem que vi-
veu no 6° século a.C., conhecedor dos assuntos babilónicos,
poderia ter descrito os eventos históricos registrados no livro.
c) O testemunho do próprio Cristo. Jesus mencionou Daniel
como sendo o autor do livro que leva seu nome (Mateus 24:15).

Quanta a data da composição do livro, certamente foi escrito em


Babilónia, no período em que lá Daniel esteve cativo. Com exceção
DANIEL
26 Segredos da Profecia

do rapííiiln áí rprtampnte escrito pfln próprio NnVnirorlnnnsQr, rei da


Babilónia, todos os outros capítulos foram escritos por Daniel.

DIVISÕES DO LIVRO
O livro de Daniel é dividido em dois segmentos fáceis de distin-
guir: história e proteçja. As profecias tratam dos grandes eventos no
decorrer da história humana e apontam para um período chamado
"tempo do fim" (capítulos 7-12). A pnrte histórica (capítulos 1 -6) ensi-
na como_podemos nos preparar_para o "tempo do Fim". Essas histórias
falam de fé, coragem e esperança. Apesar disso, o livro constitui uma
unidade literária. Um dos argumentos é o fato de que diferentes partes
do livro estão relacionadas entre si. Como, por exemplo:

a) Só se pode compreender o uso dos utensílios do templo na festa


promovida por Belsazar (Daniel 5:3), quando se tem em conta
como esses utensílios chegaram a Babilónia (Daniel 1:1-2).
b) No verso 12 do capítulo 3 se faz referência a uma medida admi-
nistrativa de Nabucodonosor que é descrita primeiro no verso
49 do capítulo 2.
c) No verso 21 do capítulo 9 se faz referência a uma visão prévia
(8:15-16).
d) A parte histórica do livro contém uma profecia (capítulo 2) di-
retamente relacionada com o tema da profecia do capítulo 7. E
na parte profética temos uma história, onde está registrada a
oração de Daniel dentro do contexto de uma profecia: "setenta
semanas" dadas aos judeus (Daniel 9:24).

CONTEXTO HISTÓRICO
O livro de Daniel contém o registro de alguns incidentes históri-
cos da vida do profeta e de seus amigos, Hananias, Misael e Azarias,
judeus deportados e que estavam a serviço do rei de Babilónia.
Também registra quatro visões recebidas por Daniel alusivas aos seus
dias (capítulo 2) e ao tempo do fim (capítulos 7-12). Embora o livro
fosse escrito em Babilónia durante o cativeiro, não tinha o propósito
de proporcionar uma história do exílio dos judeus, e muito menos
Daniel, um Livro Selado 27

uma biografia de Daniel. O livro relata as experiências da vida do


estadista-profeta e sua parte profética foi registrada com fins específi-
cos de orienrnção ao povo de Deus no tempo do fim, motivo pelo qual
o livrojfoi selado até essa data (Daniel 12:4).

TEMA DO LIVRO
O tema rentral HP Daniel trata do grande conflito entre n hem e n
mal, entre a vontade de Deus e a vontade humana, entre as verdades do
Céu e as crendices pagãs, entre-<>-€tCEno-gfiveiTMnre do Universo p os
transitórios governantgs da Terra. O povo de Deus está envolvido no ,
conflito, alvo dos ataques das forças do mal. Por isso, dlema do livro v
nicudsa^p_ejias...a_indkar-0_surgiinento e.queda .d.osimp£rios.jnundiais,
rnas a demorislrar como Deus lançado pó n orgulho dos reis e estabelece
outros em seu lugar: como tem em Suas mãos a história humana e como
gula Seu povo na marcha ascendente e vitoriosajiiiniLàlerra^Qmetida.
Logo em Daniel 1:2 é dito que Deus "entregou" Jeoaquim, rei de
Judá, a Nabucodonosor, rei de Babilónia. QLcativeiro_.do povo de Deus
não tKQire-pox vontade, de Nabucodonosor. mas por direção divina
(Jeremias 25:11L12; 2 Reis 20:17, 18), e Nabucodonosor seria apenas
uiTijn5trAiment_o_u_s_a_do__por Deus para ensinar uma preciosa lição a Seu
povo (Esdras 5:12; Jeremias_25:9). Da mesma forma, a libertação e o re-
gresso do povo de Deus a Jerusalém não seria obra humana, mas Deus
usaria Ciro, assim como usou Nabucodonosor, para trazer de volta os
filhos cativos (Isaías 44:27, 28; 45:1).
Ao dar um relato detalhado do trato de Deus com Babilónia, o livro
nos capacita a compreender o significado do surgimento e da queda
de outras nações, cujas histórias estão esboçadas na porção profética
do livro. Deus é apresentado como alguém controlando os negócios
na Terra. Nada foge a Seu controle. Assim descobrimos a verdadeira
filosofia da hislójãaLrjegis^giiidajiQ^^ eíerno
propósito de salvar n homem, restaurando nele a Sua imagem.
^ A missão de Daniel, nesse contexto, foi conseguir a submissão da
vontade do rei à vontade de Deus para que se realizassem os propósi-
tos divinos. Numa hora crucial da história, Deus fez com que Daniel e
Nabucodonosor estivessem juntos.
DANIEL
28 Segredos da Profecia

VISÕES PROFÉTICAS DO LIVRO


O livro de Daniel registra quatro visões_proféticas. Cada u.EPJLd_e-
Ins alcança sen/rlímavlqnanHn "n DPUS Ho CPII" Ipvanta "nm rpinn qnp
não será destruído". (Daniel 7.;44)r quando n "Filhn rio Hnmpm" rprehe
"domínio eterno" (Daniel 7:13 a 14). quando .n oposirão ao "Príncipe
dos príncipes" será quebrantada "não pnr rnão humana" fDaniel 8:25).
e quando o povo de Deus será liberado para s.emprejJC seus opressores
(Daniel 12:11. Km todos esses momentos vemos a ação de Deus na con-
dução da historia.
Essas visões tratam da luta entre as forças do bem e do mal, desde
os dias de Daniel até o estabelecimento final do reino de Cristo. Nelas
vemos a ação qV -Satanás usando poderes terrestres paralentar frustrar
os planos de Deus e destruir Seu povo.
A primeira visão (capítulo 2) trata principalmente de mudanças
políticas, Seu objetivo era fazer saber a Nabuco dono sor, líder da grande
Babilónia, o que haveria de acontecer no futuro (Daniel 2:29).
Tá a segunda visão (capítulo 7) complementa a primeira e prediz
n vitória final Hns "santos dn Altíssimo" nn julgamento He Deus sobre
seus inimigos (Daniel 7:14, 18, 26 a 27).
A terceira visão (Daniel 8 e 9) complementa a segunda e ressalta os
esforços de Satanás para destruir a religião e n povo de Cristo, tentandç)
impedir sen regresso a Jerusalém, a reconstrução do santuário e n re-
torno dos sacrifícios, expiatórios.
A quarta e última visão (capítulos 10 a 12) apresenta um resumo
das visões anteriores, e oferece uma gama muito maior^de detalhes do
grande conflito envolvendo AS forças do bem e H n mal No entanto, um
novo elemento surge. Essa visão põe especial ênfase no tempo em que a
parte profética de nanie])£sppria1ment.e..relar.innaHa an "tpmpn dn fim"
(Daniel 12:4 9), seria compreendida. Ou seja, o livro de Daniel teria
uma parte selada p qnp nãn pnHpria spr rnmprppndiHn nagiiplps dias
(Daniel 8:27). mas somente no "tempo do fim" (Daniel 12:21.

SELADO ATÉ O "TEMPO DO FIM"


Na quarta e última visão do profeta Daniel foi-lhe dito que ela era
"para os últimos dias [...] dias ainda mui distantes" (Daniel 10:14).
Daniel, um Livro Selado ; 29

Qaniel recebeu instruçoes-de fprJinr c selar aquela p_gr_[£..da proferi n rp-


ferpntp nos tílrirnos dias até que. mpHiiinre um. estmio H i Ijgente dojivro, „
aumentasse o conhecimento de seu conteúdo (Daniel 12:4). Essas pro-
fecias requerem especial atenção, pois se destinam especificamente ao
tempo em que vivemos.
A escritora Ellen G. White nos ajuda na compreensão desse tema.
Falando sobre o selamento do livro de Daniel, ela escreveu: "No
Apocalipse todos os livros da Bíblia se encontram e se cumprem. Ali
está o complemento do livro de Daniel. Um é uma profecia, o outro,
uma revelação. O livro que foi selado não é o Apocalipse, mas a parte
da profecia de Daniel relativa aos últimos dias (Daniel 12:4).' Assim,
entendemos que uma parte das profecias feitas a Daniel não era para
seus dias, pois ele recebeu ordem de "encerrar as palavras" e "selar o
livro" (Daniel 12:4).
O estudo do livro de Apocalipse t rara hr/. espcrinl sobre os mistérios
.r_gvelado_s_a_D_aniel. Embora a parte da profecia de Daniel relacionada
aos últimos dias tivesse sido selada (Daniel 12:4, 9), João recebeu ins-
truções específicas de não selar "as palavras da profecia" de seu livro, o
Apocalipse, "porque o tempo está próximo" (Apocalipse 22:10) v /Assim.
para obter uma compreensão mais clara cie qualquer porção do livro do
Daniel que seja difícil de entender, devemos estudar cuidadosamente o
livro do Apocalipse em busca de mais luz sobre os temas.

A ABERTURA DO LIVRO DE DANIEL


Quando então se daria a abertura cio livro de Daniel? Quando
sua parte profética relativa aos eventos dos "últimos dias" poderia ser
compreendida? O Apocalipse pode ajudar? Olhemos com atenção o
capítulo 10. João assim escreveu:
"E vi outro anjo forte que descia do céu, vestido de uma nuvem; por
cima da sua cabeça estava o arco-íris; o seu rosto era corno o sol, e os
seus pés como colunas de fogo, e tinha na mão um livrinho aberto. Pôs
o seu pé direito sobre o mar, e o esquerdo sobre a terra, e clamou com
grande voz, assim como ruge o leão; e quando clamou, os sete trovões

WHITE, Ellen G Atos dos apóstolos. T.iluí, SP: Cãs J Publicjdora Brasileira, 2006, p. 585
DANIEL
30 Segredos da Profecia

fizeram soar as suas vozes. Quando os sete trovões acabaram de soar


eu já ia escrever, mas ouvi uma voz do céu, que dizia: Sela o que os
sete trovões falaram, e não o escrevas. O anjo que vi em pé sobre o
mar e sobre a terra levantou a mão direita ao céu, e jurou por aquele
que vive pelos séculos dos séculos, o qual criou o céu e o que nele há,
e a terra e o que nela há, e o mar e o que nele há, que não haveria mais
demora" (Apocalipse 10:1-6).
"Fazendo uma comparação da visão desse anjo forte que desce do
Céu com a visão que João teve em Apnralipsp l - n a 16, podemos con-
duir que esse anjo é o próprio Jesus Cristo (verimagens paralelas dessa
visar1 mi Em]nirl l-?-6-2R e ll^niel 10:5, fij^ posição com um pé so-
>re o mar e outro sobre a terra significa a ampla extensão da procla-
mação da Sua mensagem 2, e o livrinho aberto na mão era o livro do
profeta Daniel. >
Uma coisa peculiar nessa visão de Apocalipse 10 é que o livrinho
estava "aberto" na mão do anjo. Em Daniel 12:4 e 9, ordenou-se ao pro-
feta selar o livro "até o tempo do fim". Teria então, nos dias de João,
chegado o tempo de desselar o livro? Chegara o tempo do fim?
Em Daniel 12:6, um dos seres celestiais questiona ao homem ves-
tido de linho sobre "o tempo em que se cumprirão estas maravilhas".
O hnmern vestido de linho revela que seria depois de "um tempo, dois
tempos e metade de um tempo" (Daniel 1 2:7). Na profecia bíblica, "um
tempo" equivale a um ano (ver Daniel 11:13). Logo, três tempos e meio
é igual a três anos e meio, ou 42 meses (12 + 12 + 12 + 6-42 meses) ou
1.260 dias (42 meses x 30 dias - 1.260 dias).'1 Levando em conta outro
princípio de interpretação profética chamado "princípio dia/ano", em
que cada dia literal equivale a um ano em profecia (Números 14:34;
Ezequiel 4:6 e 7), teríamos então 1.260 anos literais até a chegada do
"tempo do fim".
Daniel 7:25, falando sobre o "chifre pequeno", um poder antagónico
a Deus, diz que os servos de Deus, chamados de "santos" em Daniel,

2 WHITE, Ellen G. Mensagens escolhidas, v. 7 Taluí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1998, p. 107.
3 NICHOL, Francis D. Seventh-Day Adventist Bible Commentary. Washington, DC; Review and
Herrflci, 1976-1980, v. 7, p. 797.
4 0,1110 judaico se compunha de 360 dias, o que é menos que 355 dias de um ano solar e mais de 356
dias de? um ano lunar. 350 dias consiituern.) média aproximada entre o ano solar e o ano lunar.
Daniel, um Livro Selado 31

"lhe seriam entregues nas mãos por um tempo, dois tempos e metade
de um tempo", a mesma expressão usada em Daniel 12:7. Esse mes-
mo período de tempo pode ser encontrado no livro do Apocalipse,
capítulo 12, envolvendo perseguição ao povo de Deus. João, falando da
severa perseguição que a igreja de Cristo (simbolizada aqui por uma
mulher vestida de sol), sofreria de Satanás (simbolizado aqui por um
dragão), diz que Deus prepararia um lugar no deserto para sustentar a
mulher durante 1.260 dias (Apocalipse 12:6). Já quando chegamos ao
capítulo 13, descobrimos que a "besta que emerge do mar" receberia
autoridade para agir durante 42 meses (Apocalipse 13:5).
Logo, "um tempo, dois tempos e metade de um tempo", três anos e
meio' (Daniel 12:7), que é igual a "42 meses" (Apocalipse 13:5), que por
sua vez é igual a "1.260 dias" (Apocalipse 12:6), são períodos proféticos
que apontam para um mesmo evento, a saber, a chegada do "tempo do
fim", quando só então a parte profética de Daniel, alusiva aos últimos
dias, seria compreendida.
Esse período profético é localizado na história a partir do ano 538,
quando o poder papal recebe jurisdição temporal, até 1798, quando o
papa Pio VI é preso na capela Sistina, em Roma.3 Assim, os 1.260 anos
nos levam ao ano 1798, data apontada na profecia para a chegada do
"tempo do fim". (Veremos esta profecia em mais detalhes quando estu-
darmos o capítulo 7 de Daniel.)
Mas há em Daniel outra profecia que também trata da chegada do
"tempo do fim", a de Daniel 8:14. Segundo a informação do anjo, quan-
do se passassem "2.300 tardes e manhas" (2.300 anos, segundo a inter-
pretação profética), o santuário seria purificado. A data inicial desse
período de 2.300 anos aparece em Daniel 9:25, a "saída da ordem para
restaurar e edificar Jerusalém". Segundo os estudiosos, essa ordem foi
promulgada no ano 457 a.C., pelo rei persa Artaxerxes/' Viajando 2.300
anos a partir de 457 a.C. chegaremos aos anos 1844 d.C. (Veremos esta
profecia cm mais detalhes quando estudarmos o capítulo 8 de Daniel.)

5 GONZALEZ, 1994, p. 149. Ver mais detalhes cm. Alberto R Timin, "A importância das datas de 508
e 538 A.D. no processo do estabelecimento da supremacia papal" Revista Teológica, SALI IAENL Janeiro a
junho de 1999, p. 40 5-1.
6 Para um estudo detalhado sobre o decreto de Artaxcrxcs cm 457 ri.C, V(jt Juarez Rodrigues de
Oliveira, Chronologkal Studies Related to Daniel 8:14 and 9:21-27, p. 9-20.
DANIEL
32 Segredos da Profecia

Assim, as datas de 1798 e 1844 marcam, respectivamente, a chegada


do tempo do fim. A partir desses anos as profecias de Daniel, alusivas
ao "tempo do fim" poderiam ser compreendidas. João, em sua visão,
vê o livrinho aberto, pois sua mente fora levada àqueles anos, quando
o "tempo do fim" já havia chegado. Entendemos que com essa apresen-
tação feita a João do livrinho aberto, revelam-se as partes seladas da
profecia de Daniel, especialmente o cômputo cronológico que assinala
o fim da profecia das "2.300 tardes e manhãs" (Daniel 8:14).
Outro motivo para se crer nesses anos para a chegada do "tempo
do fim" aparece na mesma visão de João em Apocalipse 10. João já ia
escrever o que viu, mas recebeu do Céu uma ordem dizendo: "Guarda
em segredo as coisas que os sete trovões falaram e não as escrevas"
(Apocalipse 10:4). Entendemos com isso que as revelações da parte
profética de Daniel também não eram para os dias de João. Então, o
ser celestial continuou: "Mas nos dias da voz do sétimo anjo, quando
ele estiver para tocar a trombeta, cumprir-se-á, então, o mistério de
Deus, segundo Ele anunciou a Seus servos, os profetas" (Apocalipse
10:7). Logo, quando a sétima trombeta estivesse pronta para ser tocada,
os mistérios de Daniel seriam revelados e compreendidos.
Isso quer dizer que essas revelações estão abertas para nós hoje.
Não temos tempo a perder. Precisamos concentrar nossas energias
mentais para entender os mistérios do livro de Daniel. Somente essa
compreensão nos preparará para os últimos e extraordinários eventos
que terão lugar em nosso planeta. Por isso, o vidente de Patmos, quan-
do o livro foi aberto, ouviu do próprio Cristo a proclamação: "Já não
haverá demora" (Apocalipse 10:6). O livro de Daniel está agora aberto,
e a revelação feita por Cristo deve ser levada a todos os habitantes da
Terra, e sem demora.
Entre os filhos de Israel que foram levados cativos para

Babilónia no início dos setenta anos do cativeiro havia

cristãos patriotas, homens que eram tão fiéis ao principio

como o aço, e que se não deixariam corromper pelo egoísmo,

mas honrariam a Deus com prejuízo de tudo para si. Na

terra de seu cativeiro esses homens deviam levar avante

o propósito de Deus de dar às nações pagãs as bênçãos

que vêm pelo conhecimento de Jeová. Deviam eles ser

Seus representantes. Jamais deviam comprometer-se com

idólatras; sua fé e seu nome como adoradores do Deus vivo

deveriam ser levados como alta honra. E isto eles fizeram.

Na prosperidade e na adversidade honraram a Deus;

e Deus os honrou a eles (Profetas e Reis, 479).


DESAFIOS
CULTURAIS

Uma vez que estamos vivendo no "tempo do fim", quando as profe-


cias de Daniel poderiam ser plenamente compreendidas, nos compete
dedicar tempo e energia ao estudo desse maravilhoso livro da Bíblia.
Daniel contém 12 capítulos. O capítulo l funciona como uma intro-
dução apropriada ao livro como um todo. Fala da primeira invasão de
Babilónia a Jerusalém, do aprisionamento e cativeiro de Daniel e seus
amigos e do teste que enfrentaram para ocupar uma posição junto à
corte real. Também é fundamental para a compreensão dos eventos do
capítulo 2, quando Nabucodonosor, rei de Babilónia, tem um sonho
misterioso com uma assombrosa estátua. Explica também a procedência
dos vasos de ouro e prata que estavam em Jerusalém e foram levados para
o templo de Marduque, principal deus em Babilónia, os quais são profana-
dos momentos antes de sua queda, segundo o relato do capítulo 5. Assim,
o primeiro capítulo fornece detalhes para a compreensão dos eventos
registrados em todo o livro.
A lição ensinada no capítulo l é o interesse de Deus pelas nações
e pelos indivíduos. Segundo C. A. Auberlen e S. P. Tregelles, a própria
divisão do livro em duas línguas atesta esse fato. Segundo sabemos, o
livro de Daniel foi escrito originalmente em dois idiomas:
DANIEL
36 Segredos da Profecia

a) 1:1 a 2:4a: Hebraico


b) 2:4b a 7:28: Aramaico
c) 8:1 a 12:13: hebraico

Esses autores sustentam que essa mudança de línguas é a chave para


se compreender os propósitos de Deus no livro. Na medida em que
existe uma estrutura, observa-se que o livro de Daniel transmite uma
mensagem de julgamento e derrota para o mundo gentio, do qual os
principais representantes no tempo do profeta eram Nabucodonosor,
Belsazar, Dario e Ciro. A linguagem apropriada nessa parte que se re-
fere aos gentios é o aramaico, língua diplomática e comercial da época.
O livro transmite ainda outra mensagem, uma mensagem de esperança
e livramento para o povo de Deus, os hebreus. Para a parte que trata dos
hebreus, a língua é, naturalmente, o hebraico.1

O GRANDE CONFLITO COMO PANO DE FUNDO


Desde o início do livro vemos em marcha o grande conflito entre
o bem e o mal, entre o culto pagão e a adoração ao verdadeiro Deus.
Logo no primeiro verso, duas cidades se destacam. Jerusalém, capital
do povo de Deus, e Babilónia, capital idólatra, representando a sede do
poder que se opõe a Deus. De fato, essas duas cidades são citadas em
toda a Bíblia, do Génesis ao Apocalipse, e podemos ver a intensa luta
entre a luz e as trevas, a verdade e o erro, em cada momento da história.
Logo no primeiro livro da Bíblia, Génesis, no verso 18 do capítulo 4,
lemos: "Ora, Melquisedeque, rei de Salem, trouxe pão e vinho; pois
era sacerdote do Deus Altíssimo" A expressão "Salem" deu origem ao
nome "Jerusalém", cidade da paz (Salmo 122; 135:21).
Onde está Babilónia no Génesis? O capítulo 10 fala sobre um famo-
so caçador chamado Ninrode e que o princípio de seu reino foi Babel
(Génesis 10:10). No verso 9 do capítulo 11, falando sobre uma torre
que os homens estavam construindo, lemos: "Por isso se chamou o seu
nome Babel, porquanto ali confundiu o Senhor a linguagem de toda

l fULVER, Robert D. Daniel: comentário bíblico Moody: Isalas a Malaquias. São Paulo: Imprensa
BatÍ5ta Regular, 1990, p. 210.
Desafios Culturais 37

a terra, e dali o Senhor os espalhou sobre a face de toda a terra". De


"Babel" vem a palavra "Babilónia", confusão.
Já o livro de Apocalipse apresenta a Nova Jerusalém como sendo a
morada do Altíssimo com os salvos por toda a eternidade (Apocalipse
21:2, 3), evento este que ocorrerá somente após a queda de Babilónia,
descrita nos capítulos 14 e 18. Vemos assim essas duas cidades existin-
do durante todo o decorrer da história. No livro de Daniel, elas se en-
contram e a primeira impressão que temos é que Babilónia sai vitoriosa
sobre a cidade de Deus, Jerusalém. Entretanto, somente a conclusão
da história pelas lentes da profecia nos permitirá avaliar a questão de
forma correta.

O CATIVEIRO DO POVO DE DEUS


Vimos no capítulo l que o povo de Deus enfrentou três cativei-
ros ao longo de sua história. O livro de Daniel inicia com a descri-
ção do terceiro - o cativeiro babilónico. "No ano terceiro do reinado
de Jeoaquim, rei de Judá, veio Nabucodonosor, rei da Babilónia, a
Jerusalém e a sitiou" {Daniel 1:1). Nesse período da história quatro
principais nações dominavam o Oriente Médio: Egito, Lídia, Média
e Babilónia.
O Império Assírio, terrivelmente cruel, havia dominado o crescente
fértil2 por cerca de 300 anos. Esse mesmo império havia destruído as
10 tribos de Israel em 722 a.C, mas agora estava chegando ao seu ocaso
e despontava um novo poder: Babilónia.
Por volta de 612 a.C., Nabopolassar conseguiu vencer a Assíria
e tornou-se o fundador do Império Neobabilônico. Seu filho,
Nabucodonosor II (o mesmo do livro de Daniel), conseguiu elevar
Babilónia à sua época de ouro. Seu nome NABU-KUDURRI-USUR
significava em caldeu "prece dirigida ao deus Nabu por proteção".3

2 "Crescente fértil"é a região do planeta onde surgiram as primeiras civilizações. Região que englo-
bava a Mesopotàmia, uma faixa de terra junto ao Mar Mediterrâneo e o nordeste da África. Ficou conhe-
cida por esse nome porque seu traçado forma um semicírculo que lembra a Lua no quarto crescente e
também pela presença de grandes rios (Tigre e Eufrates), cujos vales apresentavam solos férteis propícios
para a prática da agricultura. Fonte: <httpy/www.historiarnais.com/crescente_fertil.htm>. Acessado em
30 junho 201 3.
3 NICHOL, Francis D.Comentário bíblico adventista.TattJÍ,SP:Casa Publicadora Brasileira, 2013. V.4, p. 831.
DANIEL
38 Segredos da Profecia

Por vezes, os judeus buscaram o apoio do Egito para não caírem nas
mãos de Babilónia, mas por meio do profeta Jeremias e Isaías, Deus orien-
tou que não buscassem essa aliança, mas cedessem ao domínio de Babilónia.
Finalmente, no dia 1° de junho de 605 a.C, Nabucodonosor derrotou o
posto militar avançado do Egito, localizado em Carquêmis. Com a morte de
seu pai, Nabopolassar, no dia 15 de agosto do mesmo ano, Nabucodonosor
viaja às pressas para Babilónia, antes que um impostor usurpe o trono. No
dia 7 de setembro de 605 a.C. ele chega a Babilónia e é coroado rei.4
Judeia, cidade de Daniel e seus amigos, estava localizada ao longo da
costa oriental do mar Mediterrâneo, território hoje ocupado por Israel.
Babilónia se localizava junto ao rio Eufrates, próximo à atual localiza-
ção de Bagdá, capital do Iraque. Os rios Tigre e Eufrates irrigavam um
vale bastante plano, limitado a Leste por uma cadeia de montanhas e a
Oeste pelo deserto. O vale era chamado de "Mesopotâmia", ou "terra que
fica entre rios". A rota regular de Jerusalém para Babilónia extendia-se
por mais de 1.500 km. Caminhando cerca de 25 km por dia, seria uma
viagem de aproximadamente dois meses.5 Foi esse longo percurso que
Daniel, seus amigos e outros príncipes judeus fizeram como escravos.
Mas por que Deus "entregou" (Daniel 1:2) Jeoaquim, rei de Judá,
e os utensílios do templo nas mãos do rei de Babilónia? Por que Deus
permitiu o cativeiro de Seu povo?
Ellen G. White, falando dos propósitos divinos ao permitir o cati-
veiro do povo de Israel, escreveu: "A religião deles centralizava-s e nas
cerimónias do sistema sacrificai. Haviam feito da forma exterior algo da
máxima importância enquanto tinham perdido o espírito do verdadeiro
culto [...] O Senhor agiu ao permitir que o povo fosse levado ao cativei-
ro e ao interromper os serviços do templo, a fim de que as cerimónias
exteriores não se tornassem a essência da sua religião [...] A glória
exterior foi removida, para que o espiritual pudesse ser revelado"6
A primeira invasão da Judeia é o evento que assinala a data do início
do cativeiro babilónico que, segundo o profeta Jeremias, seria de 70 anos

4 MAXWELL, C. Mervyn. Uma nova era segundo as profecias de Daniel. Tatuí, SP: Casa Publicadora
Brasileira, 1996. p. 32.
5 Ibidem. p. 18.
6 WHITE, Ellen G. Meditação Matinal: Olhando para o alto. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1983.
p. 155.
Desafios Culturais 39

(Jeremias 25:11, 12). Ao todo, foram três as invasões babilónicas a


Jerusalém. A primeira ocorreu no ano 605 a.C. Nabucodonosor fez
Joaquim se ajoelhar diante dele e levou reféns, entre eles, Daniel e seus
companheiros (Daniel 1:1-6). Mais tarde, em 597 a.C., em outra expe-
dição à Palestina, depois de certas atitudes rebeldes da parte dos reis
judeus, Joaquim e Jeoaquim, Nabucodonosor viu a necessidade de pu-
nir essa rebeldia, e tornou a subjugar Jerusalém. Desta vez, ele levou
cativo 10.000 prisioneiros, entre os quais estava o rei Jeoaquim e o jo-
vem profeta Ezequiel {Ezequiel 1:1-3; 2 Crónicas 36:10; 2 Reis 24:8-20).
Finalmente, em 597 a.C., depois de um longo cerco, Nabucodonosor
destruiu a cidade e o templo, bem como toda a comunidade judaica
(2 Reis 25:1-7; Jeremias 34:1-7; 39:1-7; 52:2-11).
A Bíblia relata que Nabucodonosor profanou o santuário do Altíssimo,
tomando parte dos utensílios sagrados do Templo, que somavam mais de
5.000 objetos,7 e os levou para Babilónia colocando-os na casa do seu deus,
Marduque. Esses saques dos tesouros sagrados pelos babilónios cumpri-
ram as profecias de Isaías e Jeremias. Os profetas haviam declarado:
"Eis que virão dias em que tudo quanto houver em tua casa, junta-
mente com o que entesouraram teus pais até o dia de hoje, será levado
para Babilónia; não ficará coisa alguma, disse o Senhor" (Isaías 39:6).
"E voltarão os caldeus, e pelejarão contra esta cidade, e a tomarão, e a
queimarão a fogo" (Jeremias 37: 8). O livro de lamentações de Jeremias
(1:1-5; 2:1-4, 13) fala da tristeza que se abateu sobre o profeta ao teste-
munhar seu povo levado cativo.
Marduque era o principal deus de Babilónia que, no tempo da
primeira dinastia, mais de mil anos antes, tinha sido chamado usual-
mente Bei, "senhor". Seu templo principal chamado Esagila, em cujo
pátio estava a grande torre chamada Etemenanki, ficava no coração de
Babilónia.8 O fato dos utensílios sagrados usados no serviço do santuá-
rio estarem agora no templo de Marduque era um símbolo da vitória
desse deus sobre o Deus dos judeus. Parecia que a situação havia fugi-
do ao controle. Entretanto, como veremos mais à frente, Deus estava
DANIEL
Segredos da Profecia

conduzindo todas as coisas para beneficiar Seu povo, e dar ao mundo


da época uma mensagem que jamais poderia ser esquecida, sendo per-
tinente ainda para nossos dias.

PORTA-VOZES DE DEUS NO CATIVEIRO


Ellen G. White afirma que "Daniel tinha apenas dezoito anos quan-
do foi levado a uma corte pagã a serviço do rei de Babilónia".9 Junto
com seus amigos, Hananias, Misael e Azarias, seria testado em todos os
aspectos. As provas os preparariam para posições mais elevadas, onde
teriam a oportunidade de testemunhar a respeito do Deus verdadeiro.
Esses jovens se tornaram um exemplo para os jovens modernos, e em
Babilónia passaram por quatro testes difíceis que foram verdadeiras
provas de fé. Vamos analisá-las:

PRIMEIRA PROVA DE FÉ: DE NOBRE A ESCRAVO


O primeiro teste aos exilados hebreus foi a mudança de seu status
social - de príncipes do reino de Judá a escravos em terra estrangeira.
Os conquistadores da antiguidade tinham o costume de levar os nobres
como reféns para assegurar a lealdade dos inimigos vencidos. Assim,
seguindo o costume da época, Nabucodonosor ordenou que jovens
sem nenhum defeito e de boa aparência, instruídos em toda sabedoria,
doutos em ciência e versados em conhecimento, deveriam ser prepara-
dos para ajudarem no palácio do rei. Esse período preparatório duraria
três anos (Daniel 1:3-5), e, ao final, um teste seria feito para saber quem
estaria apto para ajudar no palácio real.
Diante de circunstâncias tão terríveis, a fé desses jovens poderia
ter vacilado. As circunstâncias não eram nada boas. Escravizados em
terra estranha, com sua cidade querida em ruínas, o glorioso templo
que Salomão erguera e onde se ofereciam os sacrifícios estava agora
destruído, seu rei feito escravo, o que poderia ser pior? Nessas condi-
ções, eles poderiam ter abandonado suas crenças e reconhecido que
Marduque era o deus mais poderoso. No entanto, não fizeram isso. Em
momento algum sua fé vacilou. Apegaram-se às promessas divinas e
Desafios Culturais 41

creram que Deus agiria para libertar Seu povo como os profetas haviam
anunciado (Isaías 44:27, 28; 45:1; Jeremias 25:11,12).

SEGUNDA PROVA DE FÉ: MUDANÇA DOS NOMES


Um segundo teste enfrentado pelos jovens hebreus foi sua mudan-
ça de nomes. Mudar nomes era uma prática comum na história bí-
blica. José recebeu um nome egípcio ao ingressar na vida cortesã egíp-
cia (Génesis 41:45), e o nome de Hadassa foi trocado por (Ester 2:7).
A mudança de seus nomes significava que esses jovens hebreus estavam
sendo adotados pela corte babilónica. Seus novos nomes representa-
vam divindades caldeias.
Daniel agora é Beltessazar: levando em conta o comentário de
Nabucodonosor (Daniel 4:8), que o nome babilónico de Daniel se re-
lacionava com o deus dele, "Bei", fica evidente que a primeira sílaba,
"Bei", refere-se a Marduk, o principal deus babilónico. Assim, a melhor
tradução seria "Bei proteja sua vida [a do rei]"."1
Hananias agora é Sadraque: Hananias significa "o Senhor é bondo-
so comigo". Sadraque: "Inspiração ao deus sol". Seria o deus sol que pas-
saria a brilhar bondosamente sobre ele e não o senhor Deus de Israel.
Misael agora é Mesaque: Misael significa "semelhante a Deus".
Mesaque: "servo da deusa Sheba!
Azarias agora é Abede-Nego: Azarias: "o Senhor é meu ajudador".
Abede-Nego: "o servo de Nebo". Geralmente se aceita que esse nome
corresponde ao Abede-Nebo, "servo de [o deus] Nabu", nome que se
encontra em um papiro aramaico achado no Egito."
Nabucodonosor não obrigou os jovens hebreus a renunciarem sua fé e
adorarem os deuses de Babilónia, mas com essas mudanças de nomes es-
perava alcançar isso gradualmente. Também mediante as práticas e costu-
mes idólatras da nação esperava induzi-los a renunciar à religião hebraica
e unir-se aos deuses de Babilónia. Mas isso não funcionou com Daniel e
seus amigos. Mesmo alterando seus nomes, sua reverência e lealdade para

10 O Dr. 5. J. Schwante^ alega que a origem mais provável do nome dado a Daniel, Be lies s aza r, é do ba-
bilónico Belet-sar-usur, "Que a madona (Ishtar] proteja o rei". Belet é feminino de bei, "Senhor" título dado ao
deus Marduque, chefe do panieáo babilónico, (Ver SCHWANTES, S I. Daniel, o profeta do juízo. Engenheiro
Coelho, SP: Gráfica Alfa, 2003, p. 75}.
11 FINLEY, Mark. Revelando os mistérios de Daniel. São Paulo: Tdilora Tempos l..tda., 1999, p. 14.
DANIEL
42 | Segredos da Profecia __

com o Deus verdadeiro não foram afetadas. Seus princípios religiosos,


aprendidos desde a infância, se mostraram uma fortaleza nos momentos
de prova c produziram um caráter nobre e forte. Ellen G. White escreveu:
"Entre os filhos de Israel que foram levados cativos para Babilónia
no início dos setenta anos do cativeiro havia cristãos patriotas, homens
que eram tão fiéis ao princípio como o aço, e que se não deixariam
corromper pelo egoísmo, mas honrariam a Deus com prejuízo de tudo
para si [...] Jamais deviam comprometer-se com idólatras; sua fé e seu
nome como adoradores do Deus vivo deveriam ser levados como alta
honra. E isso eles fizeram. Na prosperidade e na adversidade honraram
a Deus; e Deus os honrou a eles".12

TERCEIRA PROVA DE FÉ: REGIME ALIMENTAR


O terceiro teste enfrentado pelos jovens em Babilónia estava rela-
cionado ao seu regime alimentar. Nessa mesma área, Adão e Cristo ha-
viam sido tentados. O primeiro falhou, mas Cristo saiu vencedor sobre
a terrível prova e sua declaração ecoa como símbolo de vitória sobre o
inimigo: "Nem só de pão viverá o homem" (Mateus 4:4).
A clara ordem do rei havia sido para que todos participassem dos
manjares e vinho da mesa real. Nabucodonosor pensava estar fazendo
um grande favor e concedendo um grande privilégio aos jovens cati-
vos. Daniel precisava tomar uma decisão agora: Deveria ele apegar-se
aos ensinamentos de seus pais sobre comidas e bebidas, e desagradar
o rei, com a provável perda não apenas de sua posição, mas da própria
vida; ou desconsiderar os mandamentos do Senhor e conservar o favor
do rei, garantindo dessa forma vantagens intelectuais e temporais? Não
houve um momento de hesitação. Daniel e seus amigos eram regidos
pelos princípios da Palavra de Deus. A Bíblia declara: "Resolveu Daniel
firmemente não contaminar-se" (Daniel 1:8). Havia várias razões pelas
quais um judeu piedoso evitaria comer da comida real:

1. Os babilónios, como outras nações pagãs, comiam carnes


imundas (Levítico 11).
Desafios Culturais 43

2. Os animais não tinham sido mortos de acordo com a lei levíti-


ca(Levítico 17:14-15).
3. Uma parte dos animais destinados ao alimento era oferecida,
primeiro como sacrifício aos deuses pagãos (Atos 15:29).
4. O consumo de mantimentos e bebidas alcoólicas era contra os
princípios de estrita temperança como apresentado no Antigo
Testamento, a Bíblia desses jovens (Provérbios 20: l; 23:20; 31:4).

Daniel e seus amigos "estavam familiarizados com a história de


Nadabe e Abiú, de cuja intemperança e seus resultados foi conservado
o registro nos pergaminhos do Pentateuco; e sabiam que suas próprias
faculdades físicas e mentais seriam danosamente afetadas pelo uso do
vinho" (Levítico 10:1-3).13
Esse teste ao qual Daniel foi submetido ilustra a verdadeira tempe-
rança e as bênçãos que se seguem aos que a praticam. Se desejarmos
manter nossas faculdades puras para o serviço de Deus, precisamos
observar estrita temperança no uso dos alimentos. Devemos praticar a
regra básica: usar com moderação as coisas que nos são benéficas e nos
abster completamente das que nos são prejudiciais.
Como Daniel e seus amigos, devemos buscar desenvolver hábitos
correios que promovem a saúde plena. Faculdade intelectual, força fí-
sica e longevidade dependem de leis imutáveis criadas por Deus. Nessa
questão o acaso não existe. Iremos colher aquilo que semearmos. "O
Deus da natureza não interferirá para preservar os homens das conse-
quências da violação das leis da natureza".1'
Pense, por exemplo, em uma pessoa que não bebe a quantidade de
água suficiente ao longo do dia. Ela pode ser diagnosticada com pedras
nos rins e sofrer muitas dores. Males que poderiam ter sido evitados,
se ela houvesse ingerido água na quantidade ideal. Mas muitos não dão
a devida importância a essa questão do comer e beber. Ellen G. White
pondera: "Hoje há entre os professos cristãos muitos que haveriam de
julgar que Daniel era demasiado escrupuloso, e o sentenciariam como

l j WHITE, 1995,p.<182.
14 WHITE, Ellen G. Conselhos sobre regime alimentar. Ta l LIÍ, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1993, p. 29.
DANIEL
Segredos da Profecia

mesquinho e fanático. Eles consideram a questão do comer e beber como


de muito pequena importância para exigir tão decidida resistência - tal
que poderia envolver o sacrifício de todas as vantagens terrenas. Mas
os que assim raciocinam, notarão no dia do juízo que se desviaram das
expressas reivindicações de Deus e se apoiaram em sua própria opinião
como norma para o que é certo e para o que é errado. Descobrirão que
aquilo que lhes parecera sem importância não fora assim considerado por
Deus. Suas reivindicações deveriam ter sido sagradamente obedecidas".15

DANIEL PROPÕE UM TESTE


Para resolver o problema de participar da mesa real, Daniel pro-
pôs um teste de dez dias. Ao fim desses dias os resultados se provaram
exatamente o oposto do que o cozinheiro-chefe esperava. Não somen-
te na aparência pessoal, mas também no vigor mental, os que haviam
sido temperantes em seus hábitos exibiam uma evidente superioridade
sobre os seus companheiros, que haviam sido condescendentes com o
apetite. Como resultado dessa prova, permitiu-se a Daniel e seus com-
panheiros continuarem com o regime simples durante todo o curso de
seu treinamento para os deveres do reino.
Terminado o prazo dado pelo rei, que foi de três anos, quando sua
capacidade e erudição foram testadas, veio o resultado: "entre todos eles
não foram achados outros como Daniel, Hananias, Misael e Azarias;
por isso, passaram a servir perante o rei. Em toda matéria de sabedoria
e de inteligência, sobre que o rei lhes fez perguntas, ele os achou dez
vezes mais doutos do que todos os magos e encantadores que havia em
todo o seu reino" (Daniel 1:19 e 20).
"Aqui está uma lição para todos, mas especialmente para os jovens
[...] Na experiência de Daniel e seus companheiros, temos um exemplo
da vitória do princípio sobre a tentação para condescender com o apeti-
te, uma demonstração de que mediante o princípio religioso, podem os
jovens triunfar sobre a concupiscência da carne, e permanecer fieis aos
reclamos de Deus, mesmo que isso custe grande sacrifício".16
Desafios Culturais 45

QUARTA PROVA DE FÉ: INSTRUÇÃO


Um último teste que podemos ver no capítulo l trata da educação
que os jovens hebreus deveriam receber em Babilónia. Nabucodonosor
havia determinado que lhes ensinasse a "língua e a cultura dos caldeus"
(Daniel 1:4). Essa era uma estratégia usada por nações opressoras,
mas que podem ainda ser vistas em nossos dias. Mark Finley escre-
veu: "Quando os russos invadiram o Afeganistão, jovens afegãos fo-
ram levados e colocados em escolas de ensino especial na Rússia, onde
aprenderam a filosofia marxista-leninista. Em seguida, foram enviados
pelo Kremlin como novos governantes do Afeganistão. Hitler fez tam-
bém isso com muitas nações que invadiu durante a Segunda Guerra
Mundial. Ele trazia os jovens desses países para a Alemanha e lhes en-
sinava a filosofia nazista. Depois de 'formados' voltavam como gover-
nantes de seu povo difundindo a filosofia nazista entre as massas".17
Essa era a intenção de Nabucodonosor.
Segundo Maxwell, a "língua caldaica", a qual os jovens exilados de-
veriam aprender, incluía o acádio, idioma nacional de Babilónia, o su-
meriano, que era o idioma da religião tradicional e o aramaico, idioma
do comércio e da diplomacia internacionais.ia Já a "cultura" babilónica
estava intimamente relacionada à idolatria e práticas pagãs; mesclava
bruxaria com ciência e sabedoria com superstição. As práticas de magia,
astrologia, adivinhação e exorcismo eram comuns entre os povos antigos,
mas Deus havia alertado severamente Seu povo contra tais práticas (ver
Deuteronômio 18:10-12). No entanto, os caldeus eram também erudi-
tos no verdadeiro sentido da palavra. Possuíam um vasto conhecimento
astronómico. Podiam até mesmo predizer eclipses lunares. Sua capaci-
dade matemática também era bastante desenvolvida. Usavam fórmulas
cujo descobrimento geral se atribui erradamente aos matemáticos gregos.
Além disso, eram bons arquitetos, construtores e médicos que tinham en-
contrado, por meios empíricos, a maneira de curar muitas enfermidades.19
Supõe-se que estes são os aspectos da sabedoria em que Daniel e
seus três amigos ultrapassaram os sábios de Babilónia. Aprenderam a

17 FINLEY, p. 12.
18 MAXWELL, 1996, p. 29.
19 Comentário bíblico adventista v. 4, p. 789.
DANIEL
Segredos da Profecia

perícia e as ciências dos caldeus, mas sem adotar os elementos pagãos


mesclados em sua cultura. Isso fica evidente através de sua dependên-
cia do poder de Deus nas experiências que se seguiram, registradas nos
capítulos seguintes do livro.

FIDELIDADE RECOMPENSADA
Deus recompensou a firmeza e fidelidade dos jovens hebreus.
A Bíblia declara: "No fim dos dez dias, a sua aparência era melhor; es-
tavam eles mais robustos do que todos os jovens que comiam das finas
iguarias do rei" (Daniel 1:15). Logicamente, apenas dez dias não seriam
suficientes para uma grande diferença fisionómica, mas o resultado vis-
to foi devido a um estilo de vida que não começou em Babilónia, mas já
era seguido desde muito tempo.
Deus deu aos quatro jovens "conhecimento e a inteligência em
toda cultura e sabedoria", mas a Daniel concedeu ainda "inteligência
de todas as visões e sonhos" (Daniel 1:17). Essa habilidade espiritual se
mostraria oportuna no decorrer dos eventos do capítulo 2. Ao fim dos
três anos, os jovens foram testados pelo próprio Nabucodonosor. E o
testemunho do rei foi: "Em toda matéria de sabedoria e de inteligência
[...] os achou dez vezes mais doutos do que todos os magos e encanta-
dores que havia em todo o seu reino" (Daniel 1:20). Deus cumpriu Sua
promessa: "Aos que Me honram, honrarei" (l Samuel 2:30).
Nos dias desses jovens nem todos os livros do Antigo Testamento
haviam sido escritos, muito menos qualquer um do Novo. Mas estes
jovens dispunham de vários livros. Foi a partir desses estudos que
aprenderam a distinguir entre o Deus verdadeiro e os falsos deuses de
Babilónia. Fundamentados em Levítico 11 e Deuteronômio 14 foram
capazes de fazer separação entre os animais limpos e imundos. Também
perceberam o perigo de beber vinho (Levítico 10:1-11; Provérbios 20:l,
23:31-35), e conheciam a importância de serem fieis e honestos em to-
das as suas ações.
O capítulo l termina com a expressão: "Daniel continuou até ao
primeiro ano" (Daniel 1:21). Depois de severamente provados, Deus
os recompensou. Daniel, por mais de 70 anos, foi um instrumento
de Deus para levar avante Seus desígnios junto à corte de Babilónia
Desafios Culturais 47

e da Média-Pérsia. Através de sua influência, veremos a conversão do


grande rei Nabucodonosor e a assinatura de um decreto, por Ciro,
o grande líder da Média-Pérsia, autorizando os judeus cativos a voltar
para Jerusalém e a reconstruir a cidade e o templo. O quanto a huma-
nidade deve a estes jovens, pelo seu exemplo de fé e perseverança, só a
eternidade o revelará.
Do surgimento e queda das nações conforme expostos nos

livros de Daniel e Apocalipse, precisamos aprender quão sem

valor é a glória meramente terrena e externa. Babilónia,

com todo o seu poder e magnificência, como nosso mundo

jamais contemplou igual [...] completamente passou

[...] Assim pereceu o reino da Média-Pérsia, e os reinos da

Grécia e de Roma. E assim perece tudo o que não tem a

Deus por fundamento. Apenas o que está vinculado ao Seu

propósito, e expressa Seu caráter, pode perdurar

(Profetas e Reis, 548).


UMA ESTATUA
ASSUSTADORA
(PRIMEIRA VISÃO PROFÉTICA)

Estacionei meu carro, comprei o ingresso e só precisava aguardar o


momento. Estava ansioso, pois muitos amigos me haviam dito que aque-
le seria um grande musical. Passeava pelo local, enquanto aguardava o
início da programação. Minutos antes, me dirigi ao estacionamento para
buscar algo no carro e então veio a grande surpresa - ele havia sido rou-
bado. Entrei em desespero. Busquei o responsável pelo estacionamento
e o meu desespero aumentou: percebi que ele estava envolvido no roubo.
Enquanto reclamava da falta de segurança do estacionamento e cla-
mava por justiça, uma viatura da polícia chega ao local - não sei por que,
mas dentro dela havia uma mulher ensanguentada. Disse para os poli-
ciais meu problema, meu carro havia sido roubado, eles não deram muita
atenção, mas disseram que a alguns quilómetros dali havia outra delega-
cia que poderia me ajudar. Comecei a caminhar aqueles longos quilóme-
tros, inconformado, quando uma chuva forte começou a cair sobre mim.
Comecei a chorar. Minhas lágrimas se misturavam com as gotas de chu-
va. Clamei de todos os meus pulmões: Por que Deus estava permitindo
aquilo? Meu único carro ser roubado? Por que essa injustiça?
Foi num desses clamores que acordei. Voltei à consciência depois
de algumas horas de sono e percebi que tudo não passava de um sonho,
um angustiante sonho. O desespero deu lugar ao alívio e minha rotina
DANIEL
50 Segredos da Profecia

estava de volta. Abri a janela de casa e lá estava meu carro, são e salvo.
Fora apenas um sonho.
Você já experimentou uma sensação assim? Quando o despertar
lhe trouxe um tremendo alívio, ao perceber que tudo não passava de
um sonho? Com o rei Nabucodonosor ocorreu o inverso. Quando des-
pertou do sono a angústia ficou maior.
O capítulo 2 de Daniel registra um sonho extraordinário e assustador.
Mas quando o sonhador acordou não se sentiu aliviado. Pelo contrário, per-
cebeu que algo muito sério estava em jogo e ele não se lembrava de nada. Um
rei com insónia - esse é o assunto do capítulo 2 do livro do profeta Daniel.
Pedro escreveu que a profecia é uma luz que alumia no escuro
{2 Pedro 1:19). Somente a palavra profética poderia trazer luz e espan-
tar a escuridão da vida do maior monarca do mundo, o grande rei de
Babilónia, Nabucodonosor.
Já vimos que o livro de Daniel relata quatro visões proféticas. A pri-
meira visão, apresentada no capítulo 2, trata principalmente de mudan-
ças políticas. Seu propósito inicial era revelar ao rei Nabucodonosor seu
papel corno rei de Babilónia e lhe fazer saber "a respeito do que há de ser
depois disto" (Daniel 2:29). Esse sonho do rei é uma profecia dos eventos
que teriam lugar nos 2.500 anos seguintes da história de nosso mundo.
Ela ensina que os movimentos dos grandes impérios e nações da terra
são controlados por Deus e revelados a Seu povo escolhido, enquanto
este, em meio às mutações da história, prossegue em direção ao Céu.
A profecia, segundo Arturo T. Pierson, "representa uma fechadu-
ra, para qual só uma história subsequente pode proporcionar a chave"1
Assim, ao ser estudado o sonho do rei com uma estátua assustadora,
devemos permitir que a história atue como intérprete da profecia e nos
revele o significado dos simbolismos.

O SONHO DO REI
Transcorria o 2° ano do reinado de Nabucodonosor, provavelmente
o ano 603 a.C., quando ele teve um sonho. A Bíblia declara que ele ficou

J MELLO, Araceli S. Testemunhos históricos das profecias de Daniel. Rio de Janeiro: Gráfica e
Editora Laemmert, 1968, p. 1l
Uma Estátua Assustadora 51

profundamente perturbado e lhe passou o sono (Daniel 2: l). Os antigos


consideravam os sonhos com temor; pensavam que eram revelações de
suas deidades e procuravam descobrir sua verdadeira interpretação.'
Por isso, Deus escolheu esse método, porque evidentemente era o meio
mais efetivo para impressioná-lo com a importância da mensagem e
para ganhar sua confiança e assegurar sua cooperação.
Esse sonho não ocorrera por acaso. Deus em Sua providência o deu a
Nabucodonosor porque tinha uma mensagem para ele. Como Deus não
faz acepção de pessoas, era seu propósito salvar o rei, bem como sua nação,
a grande Babilónia. O sonho tinha o propósito de revelar a Nabucodonosor
o que haveria de ser nos últimos dias (Daniel 2:28) e mostrar o papel que o
rei poderia desempenhar nessa história. Não é em vão que por várias vezes
Deus chama Nabucodonosor de "meu servo" (Jeremias 25:9; 27:6; 43:10).
Assim como a Babilónia, a cada nação da antiguidade Deus havia
atribuído especial lugar em Seu plano, mas os governantes não apro-
veitaram as oportunidades, e sua glória foi abatida. As lições de histó-
ria dadas a Nabucodonosor teriam que instruir as nações até o fim do
tempo. Por cima das flutuantes cenas da diplomacia internacional, o
grande Deus do Céu está em Seu trono "a executar, silenciosamente,
pacientemente, os conselhos de Sua própria vontade"3. Ao fim, a estabi-
lidade e a imutabilidade virão quando Deus mesmo, ao terminar o tem-
po, estabelecer "um reino que não será jamais destruído" (Daniel 2:44).
Nabucodonosor começou a viver um grande dilema: pensava ser o so-
nho uma mensagem de grande importância dos deuses, mas não se lembra-
va de nada que havia sonhado. Então mandou chamai" aqueles que, na corte,
eram os responsáveis pela interpretação dos sonhos, a sabei': os magos, os en-
cantadores, os feiticeiros e os caldeus (Daniel 2:2). Quando estes chegaram,
o saudaram em aramaico, língua falada pela família real. A partir daquele
momento, o livro de Daniel troca o hebraico pelo aramaico até o capítulo 7.

UMA AMEAÇA REAL


Quando os sábios chegaram á presença do rei, pediram que ele con-
tasse o sonho. Mas, para sua surpresa, o rei não se lembrava de mais nada.
DANIEL
52 Segredos da Profecia

Eles se viram numa situação delicada, pois tudo que inventassem acerca
do sonho seria imediatamente detectado como mentira. Eles tentaram
ganhar tempo, e isso provocou a ira do rei: "Uma coisa é certa: se não
me fizerdes saber o sonho e a sua interpretação, sereis despedaçados,
e as vossas casas serão feitas monturo" (Daniel 2:5). Então veio o reco-
nhecimento dos sábios: "Não há mortal sobre a terra que possa revelar
o que o rei exige; pois jamais houve rei, por grande e poderoso que
tivesse sido, que exigisse semelhante coisa de algum mago, encantador
ou caldeu. A coisa que o rei exige é difícil, e ninguém há que possa
revelar diante do rei, senão os deuses, e estes não moram com os ho-
mens" (Daniel 2:10,11). Foi essa confissão de fracasso que proporcio-
nou a Daniel uma excelente oportunidade para revelar algo do poder
do Deus a quem ele servia e adorava.
Então irado, Nabucodonosor assinou um decreto ordenando a mor-
te de todos os sábios de Babilónia, o que incluía Daniel e seus amigos.
Arioque, chefe da guarda de Nabucodonosor saiu para executar a ordem. A
prisão surpreendeu a Daniel, pois este não sabia do ocorrido. Certamente
isso se deu porque Daniel e seus amigos eram recém chegados à corte,
haviam acabado de ser aprovados pelo rei e certamente não participaram
do diálogo entre o rei e os magos. Daniel então pede uma audiência com o
rei e diz que este designasse um tempo e ele traria a interpretação.

FIDELIDADE RECOMPENSADA
Foi um ato de fé. Daniel era um jovem dependente de Deus e con-
fiava na oração. Fez saber o caso a seus amigos e todos buscaram a Deus
por misericórdia e livramento. O Céu recompensou a fé dos jovens he-
breus. "Então foi revelado o mistério a Daniel numa visão de noite"
(Daniel 2:19). Daniel louva e exalta ao Deus do Céu como Aquele que
"muda os tempos e as estações, remove reis e estabelece reis; Ele dá
sabedoria aos sábios e entendimento aos inteligentes. Ele revela o pro-
fundo e o escondido" (Daniel 2:21).

O SONHO E SUA INTERPRETAÇÃO


Imediatamente Daniel foi levado à presença do rei e disse: "O mis-
tério que o rei exige, nem encantadores, nem magos nem astrólogos o
Uma Estátua Assustadora 53

podem revelar ao rei; mas há um Deus no céu, O qual revela os misté-


rios, pois fez saber ao rei Nabucodonosor o que há de ser nos últimos
dias" (Daniel 2:27,28). Daniel desejava que Nabucodonosor compreen-
desse a futilidade de confiar em seus sábios quando necessitava de con-
selho e ajuda do Deus verdadeiro a quem servia. Esperava com isso que
o rei voltasse os olhos para o grande Deus verdadeiro, cujo povo tinha
sido vencido pelo rei.
Daniel então passa a descrever o sonho: "Tu, ó rei, estavas vendo, e
eis aqui uma grande estátua; esta, que era imensa e de extraordinário es-
plendor, estava em pé diante de ti; e a sua aparência era terrível. A cabeça
era de fino ouro; o peito e os braços de prata, o ventre e os quadris, de
bronze; as pernas, de ferro, os pés, em parte, de ferro, em parte, de barro.
Quando estavas olhando, uma pedra foi cortada sem auxílio de mãos,
feriu a estátua nos pés de ferro e de barro e os esmiuçou. Então, foi jun-
tamente esmiuçado o ferro, o barro, o bronze, a prata e o ouro, os quais
se fizeram como a palha das eiras no estio, e o vento os levou, e deles
não se viram mais vestígios. Mas a pedra que feriu a estátua se tornou em
grande montanha, que encheu toda a terra" (Daniel 2:31-35).
O rei ficou extasiado com a revelação de Daniel. Cada detalhe tra-
zia à sua memória as recordações do sonho. "É isso mesmo Daniel, foi
isso que sonhei" O rei está surpreso e ansioso para saber o significado
de tudo aquilo. Então continuou Daniel: "Este é o sonho; e também a
sua interpretação diremos ao rei" (Daniel 2:36). O gráfico a seguir mos-
tra os elementos do sonho e sua interpretação:

ELEMENTOS DA ESTÁTUA E SUA INTERPRETAÇÃO

Elementos da estátua Interpretação \a


Cabeça de ouro 2:32 2:37,38; 7:4
Peito e braços de prata 2:32 Média-Pérsia 2:39; 5:26-28
Quadris de bronze 2:32 Grécia 2:39; 8:3-7, 20, 21
•^•1 B^^H^^H
Pernas de ferro 2:33 Roma 2:40; 7:7, 8, 17,23-25
Pés de ferro e barro 2:33 Reino dividido 2:41-43:7:7,8,23,24
Pedra lançada contra estátua 2:34, 35 Volta de Jesus 2:44, 45; 7:13, 14,26,27
DANIEL
Segredos da Profecia

A mensagem do sonho era para a instrução de Nabucodonosor, as-


sim como a dos governantes e povos até o fim do tempo e a segunda
vinda de Cristo (Daniel 2:44, 45). Nabucodonosor desejava conhecer
o futuro e pressentia algo tenebroso. No entanto, Deus lhe revelou, não
para satisfazer sua curiosidade, mas para despertar em sua mente um
sentido de responsabilidade pessoal para com o plano celestial.
No sonho do rei está revelada a verdadeira filosofia da história hu-
mana. Em última análise, os reis e governantes estão sob a direção e
o controle de um Soberano todo-poderoso. Ellen G. White escreveu:
"Nos anais da história humana o crescimento das nações, o levanta-
mento e queda de impérios, aparecem como dependendo da vontade
e façanhas do homem. O desenvolver dos acontecimentos em grande
parte parece determinar-se por seu poder, ambição ou capricho. Na
Palavra de Deus, porém, afasta-se a cortina, e contemplamos ao fundo,
em cima, e em toda a marcha e contramarcha dos interesses, poderio
e paixões humanas, a força de um Ser todo misericordioso, a executar,
silenciosamente, pacientemente, os conselhos de Sua própria vontade".3
Por meio desse extraordinário sonho, Deus estava revelando ao rei
e aos leitores do livro de Daniel as preciosas cenas que terão lugar até
que a "pedra seja cortada" (Daniel 2:45), ou seja estabelecido o reino
de Deus na Terra. Os quatro metais da estátua representam então os
quatro impérios que dominariam o mundo desde Nabucodonosor até
o quinto século de nossa era.1

BABILÓNIA - A CABEÇA DE OURO


Daniel disse ao rei: "Tu és a cabeça de ouro" (Daniel 2:38). Babilónia
era também conhecida como Akkad (Terra dos Caldeus). Foi fundada
por Ninrode, que foi um valente caçador diante do Senhor (Génesis
10:8-10), e em tempos mais antigos representa o local em que se ergue-
ra a torre de Babel (Génesis 11:1-9). Ela atingiu considerável destaque
por volta de l .800 a.C, sob a liderança do grande legislador Hamurabi,

3 WHII li, Ellen G. Educação. Tatuí, SP: Casa Publícadora Brasileira, 1997, p. 173.
4 Ibidem, p. 173. Qualquer bom livro de história confirmará a sequência que será apiesentada aqui,
Vcp por exemplo: ÊASTON, Stewarl C. The Heritage of the Ancient World: From lhe Earliesr Times to the Fali
of Home. New York: Rínehartand Gimparty, 1960.
Uma Estátua Assustadora 55

cerca de 300 anos antes de Moisés.5 Após a morte de Hamurabi,


Babilónia foi ofuscada por outros povos da Mesopotâmia. Finalmente o
Império Assírio dominou toda a região, e por volta de 722 a.C. destruiu
as dez tribos de Israel, cuja capital estava em Samaria.
Entre os anos de 626 a 612 a.C., período em que Daniel nasceu,
Nabopolassar, pai de Nabucodonosor, esmagou o que restava do Império
Assírio c tornou-se o fundador do Império Neobabilônico. Após sua
morte em 605 a.C., Nabucodonosor assume o trono de Babilónia.
Nabucodonosor era a personificação do Império Neobabilônico.
As conquistas militares e o esplendor arquitetônico de Babilónia se de-
viam, em grande medida, a suas proezas. Desde sua ascensão ao trono
(605 a.Cl), até sua morte (562 a.C.), elevou Babilónia a uma glória incom-
parável. Ele é o responsável pela construção de uma das Sete Maravilhas do
Mundo Antigo: os jardins suspensos da Babilónia. Na região não cresciam
muitas árvores, mas o rei trouxe várias espécies, de várias partes da Terra,
para embelezar seus jardins. A cidade cie Babilónia também abundava em
ouro. Heródoto, considerado o "Pai da história", descreve o resplendor
do ouro nos templos sagrados da cidade. "Na parte inferior do templo de
Babilónia há outra capela, onde se vê uma grande estátua de ouro repre-
sentando Júpiter sentado. Ao lado, uma grande mesa de ouro. O trono
e o escabelo são do mesmo metal [...] Vê-se também, fora da capela, um
altar de ouro [...] havia naquele templo, no recinto sagrado, uma estátua
de ouro maciço de 12 côvados de altura"/1 O profeta Jeremias compara
Babilónia com um copo de ouro nas mãos do Senhor (Jeremias 51:7).
José Carlos Ramos assim descreve a trajetória dos monarcas de
Babilónia: "Nabucodonosor morre no ano 562 a.C. após ter reinado 43
anos sobre Babilónia. Depois de sua morte, Evil-Merodaque (também co-
nhecido como Amel-Marduquc), seu filho, reina em seu lugar. Três anos
depois, em 560 a.C., Evil-Merodaque morre e sobe ao trono Neriglissar
(Nergal-Sharuzur), genro de Nabucodonosor. Em 556 a.C., morre
Neriglissar e sobe ao trono Laboroso-Archod (Labashi-Marduque), seu
filho. Este tem um curto reinado c morre no mesmo ano. Chega então
DANIEL
56 ; Segredos da Profecia

ao trono Nabonido (Labineto), também genro de Nabucodonosor. No


ano 552 a.C., Belsazar torna-se co-regente da Babilónia ao lado de seu
pai Nabonido. No ano 539 a.C., Babilónia é conquistada por Ciro, rei da
Pérsia e Dario, o Medo, passa a reinar em Babilónia".7
No idioma caldaico, o nome Nabucodonosor (NABU-KUDURRI-
USUR) é um termo que representa uma prece dirigida ao deus Nabu,
em favor de proteção." Mas de nada valeu esse deus quando chegou a
hora de se cumprir a profecia e entrar em cena outro império mundial.
Babilónia dominou o mundo dos anos 605 a.C. até 539 a.C., quando cai
diante da coaíisão dos Medos e Persas. Veremos mais detalhes sobre a
queda de Babilónia no capítulo 7 deste livro.

MÉDIA-PÉRSIA - PEITO E BRAÇOS DE PRATA


Daniel continuou sua interpretação do sonho ao rei: "Depois de
ti, se levantará outro reino, inferior ao teu" (Daniel 2:39). O próprio
Daniel, pouco mais de 60 anos no futuro, revelaria ao então rei de
Babilónia, Belsazar, neto de Nabucodonosor, quem seria esse segundo
reino (ver Daniel 5:26-28). Como a prata é inferior ao ouro, o Império
Medo-Persa seria inferior ao babilónico. Em cumprimento às pre-
dições proféticas de Isaías e Jeremias (Isaías 45:1; 44:27, 28; Jeremias
25:11,12), Babilónia perdeu sua hegemonia mundial. Ciro, o grande, foi
quem conquistou Babilónia. Ciro reconheceu que o Senhor lhe tinha
dado todos esses reinos (2 Crónicas 36:23; Esdras 1:2).
A história da queda de Babilónia está registrada no Cilindro de Ciro,
de propriedade do Museu Britânico. O arqueólogo britânico Hormuzd
Rassam descobriu esse cilindro em março de 1879. Ele data do 6° século a.C,
e foi descoberto nas ruínas da Babilónia na Mesopotâmia (atual
Iraque). Estava nas fundações de Esagila, o templo principal da cidade
de Babilónia, consagrado ao deus Marduque. E é do templo do princi-
pal deus babilónico que nos vem a comprovação histórica da queda de
Babilónia e da ascensão do Império Medo-Persa.

7 RAMOS, José Carlos. Profecia bíblica. Apostila SALT, Pós-graduação - IAE-Q, 1998, p. 54. Ver tam-
bém: ALOMÍA, Merling. Daniel: Su vida, sus tiempos y su mensaje. Limn, l'cru: Universidad Union Incaica,
1991, p. l M.
li Comentário bíblico adventista, v. 4, p. 831.
Uma Estátua Assustadora 57

Esse cilindro é dividido em vários fragmentos e registra uma de-


claração em escrita cuneifonne acadiana, em nome do rei Aquemênida
da Pérsia, Ciro, o Grande. O artefato conta a história da queda de
Babilónia sob Ciro, o Grande. Nas linhas 15 a 21 do cilindro aparecem
trechos dando a genealogia de Ciro, o Grande, e relatando a captura de
Babilónia em 539 a.C. Revela a queda de Nabonido, rei da Babilónia, e
exalta os esforços de Ciro para repatriar os povos deslocados e restaurar
templos e santuários religiosos na Mesopotâmia e em outros lugares da
região. Segundo alguns estudiosos, essa é uma evidência da política de
Ciro de repatriação dos hebreus após o cativeiro na Babilónia - um ato
que o livro de Hsdras atribui a Ciro (Esdras 1:1, 2).g
Outro a relatar detalhes da queda da grande Babilónia foi Heródoto.
Ele afirma: "Finalmente, ou porque concluísse por si mesmo sobre o
que deveria fazer, ou porque alguém, vendo-o em dificuldades, o acon-
selhasse, o príncipe (Ciro) tomou a seguinte resolução: Colocou o exér-
cito, parte no ponto onde o Eufrates passa dentro de Babilónia, parte
no local onde o rio deixa o país, com ordem de invadir a cidade pelo
leito do mesmo, logo que se tornasse vadeável. Com o exército assim
distribuído, dirigiu-se para o lago [...] A exemplo do que fizera a rainha
Nitócris, desviou as águas do rio para o lago pelo canal de comunicação.
As águas se escoaram, e o leito do rio facilitou a passagem [...] os persas
entraram na cidade com as águas do rio dando apenas pelas coxas".10
Vencida Babilónia, Dario, da Média reinou por permissão do verda-
deiro conquistador, Ciro, fato que Daniel certamente sabia. O livro do
Daniel se refere várias vezes à nação que conquistou Babilónia, a qual
Dario representava, como "os medos e os persas" (Daniel 5:28; 6:8, 28),
e em outras partes representa a esse império dual como uma só besta
(ver Daniel 8:3, 4).
Assim, Dario foi o primeiro a reinar após a queda de Babilónia. Isso
explica os acontecimentos do capítulo 6 de Daniel, quando este é lança-
do na cova dos leões por ordem de Dario. Depois de Dario, reinou Ciro,
que assina o primeiro decreto para o retorno dos judeus à Palestina
DANIEL
58 Segredos da Profecia

(ano 536 a.C.; ver Esdras 1:1-4), assinalando o fim do cativeiro de 70


anos (Jeremias 25:11,12). No ano 525, Cambises (filho de Ciro), torna-se
rei da Pérsia e conquista o Egito. Depois do reinado de Cambises, chega
ao trono Dano I, que vai assinar o segundo decreto (possivelmente no
ano 519 a.C.) para o início da reconstrução do templo em Jerusalém. 11
Outro nome importante dos reis da Média-Pérsia foi Artaxerxes.
No 7° ano do seu reinado, ele assinou um novo decreto para o retorno
dos judeus à Palestina. Esse é o terceiro decreto e marca o início das 70
semanas de Daniel 9:24 a 27 e as 2.300 tardes e manhãs de Daniel 8:14.
Mas este é assunto para nossos próximos capítulos.
A profecia apontava para o surgimento de um terceiro reino que
viria assumir o lugar da Média-Pérsia. Daniel 8:20 exibe uma mu-
dança de símbolismo de um metal, o bronze, para um bode peludo.
E revela o nome da nação que derrotaria a Média-Pérsia: "Mas o bode
peludo é o rei da Grécia" (Daniel 8:21).

GRÉCIA - OS QUADRIS DE BRONZE


Na interpretação de Daniel ao rei Nabucodonosor foi dito: "[...] e
um terceiro reino, de bronze, o qual terá domínio sobre toda a terra"
(Daniel 2:39). Este terceiro poder estava representado pelos quadris
de bronze da estatua. 1 ' A profecia aponta de forma inequívoca para a
Grécia (Daniel 8:21). Os soldados gregos se distinguiam por sua arma-
dura de bronze. Seus cascos, escudos e tochas de batalha eram todos de
bronze. Mas como a Grécia poderia vencer a Média-Pérsia?
O Império Medo-Persa continuou estendendo seu domínio, mas,
à semelhança de Babilónia, também entrou em declínio. Até esse mo-
mento, a Grécia estava dividida em pequenas cidades-estados que ti-
nham um idioma comum, mas pouca ação unificada. Ao pensar na
Grécia antiga, pensamos principalmente na idade de ouro da civiliza-
ção grega sob a liderança de Atenas, no 5" século a.C., e em todos os
seus filósofos, Platão, Aristóteles, Sócrates. Mas a profecia refere-se a
um período posterior da Grécia.
Uma Estátua Assustadora 59

Em Daniel, 8:21, a "Grécia" refere-se ao Império Greco-Macedônico.


A Macedônia, uma nação consanguínea situada ao norte da Grécia, con-
quistou as cidades gregas e as incorporou pela primeira vez a um Estado for-
te e unificado. No ano 336 a.C, morre Felipe II, pai de Alexandre, e este her-
da o trono da Macedônia e lança-se em marcha para estender seu domínio.
Alexandre travaria três batalhas até vencer Dario III, rei da Média-
Pérsia. A primeira foi a batalha de Grânico, no ano 334; a segunda foi
a de Issos, no ano 333 a.C., e a última, no ano 331 a.C., foi a batalha de
Arbelas ou Gaugameía. Assim, o ano 331 a.C. assinala o fim do Império
Medo-Persa e o início do domínio de Alexandre, o Grande. Assim nar-
rou o historiador: "O poder de Dario estava abatido para sempre. Uma
nova fase do mundo antigo havia começado".13
A história registra que o domínio de Alexandre foi o império
mais extenso do mundo antigo até aquela época. Estendeu-se sobre a
Macedônia, Grécia e o Império Persa. Incluiu o Egito e se expandiu
pelo Oriente até a índia. Daniel declara que seu domínio seria "sobre
toda a terra" (Daniel 2:39), mas no sentido de que nenhum outro poder
foi igual a ele, e não porque cobrisse o mundo todo, nem mesmo toda
a terra conhecida nesse tempo. Um "poder mundial" pode ser definido
como aquele que está por cima de todos outros, invencível; não neces-
sariamente porque governe o mundo todo.
Alexandre reinou menos de 10 anos e morreu ainda jovem, com
33 anos de idade, no dia 13 de junho de 323 a.C.14 Após sua morte
seu irmão natural, Felipe Aridau, foi declarado rei. Ele e os filhos de
Alexandre, Egus e Hércules, mantiveram por algum tempo o Império
Greco-Macedônio. Porém, não muito tempo depois, os filhos de
Alexandre e toda a sua família foram assassinados, os generais se tor-
naram governadores das províncias, e o reino foi fragmentado.15
Logo se instaurou entre esses governadores uma tremenda guerra
civil que durou cerca de 20 anos. Ela só teve fim na batalha de Ipsos,
na Frigia (301 a.C.), quando o reino foi finalmente dividido entre os
quatro mais famosos generais de Alexandre:

13 CASTRO, Paulo de. Alexandre, o Grande. Biblioteca de história. Rio de Janeiro: Editora Três, 1973. v. 4, p. 124.
14 Ibidern, p. 192.
15 MELLO, p. 466.
DANIEL
60 Segredos da Profecia

Lisímaco: Trácia e Betínia


Cassandro: Grécia, Macedônia e Épiro
Seleuco: Síria
Ptolomeu: Egito, Líbia, Arábia e Celosíria16

Essa divisão do reino grego já estava também profetizada (compare


com as quatro cabeças do leopardo; Daniel 7:6). Essa divisão provocou
o enfraquecimento do império e, já por volta de 168 a.C., Roma domi-
nava a região do Mediterrâneo, assumindo a posição de quarto império
mundial da estátua profética.

ROMA - AS PERNAS DE FERRO


Daniel continuou sua interpretação do sonho ao rei: "O quarto rei-
no será forte como ferro; pois o ferro a tudo quebra e esmiuça; como
o ferro quebra todas as coisas, assim ele fará em pedaços e esmiuça-
rá" (Daniel 2:40). Esse quarto reino na profecia representa o férreo
Império Romano. Roma foi fundada, segundo a tradição, por dois ir-
mãos, Rômulo e Remo, por volta de 753 a.C. Com o passar dos anos,
expandiu seu território e foi ganhando força. O Comentário Bíblico
Adventista declara:
"Roma conquistou seu território pela força ou pelo medo que ins-
pirava seu poder armado. A princípio, interveio em questões interna-
cionais numa luta por sua sobrevivência contra seu rival, Cartago, e se
viu envolvida em guerra após guerra. Depois, esmagando um oponente
após outro, finalmente, tornou-se um conquistador agressivo e inven-
cível do mundo mediterrâneo e da Europa Ocidental. No início da era
cristã e pouco depois, o poder de ferro das legiões romanas respaldava a
Pax Romana (paz romana). Roma era o maior e mais forte império que
o mundo havia conhecido até então".17
O ano 168 a.C. foi quando o império assumiu o poder mundial. A
batalha de Pidna nesse ano foi decisiva no processo de decadência do
Império Grego e ascensão de Roma ao poder.

16 NEWTON, Isaac. As profecias de Daniel e Apocalipse. São Paulo: Editora Édipo, 1950, p. 42.
17 Comentário bíblico adventista, v. 4, p. 852.
Uma Estátua Assustadora 61

Daniel 2:41 declara: "Quanto ao que viste dos pés e dos artelhos,
em parte, de barro de oleiro e, em parte, de ferro, será esse um reino
dividido". Na metade do 4° século d.C., tribos bárbaras começaram a
ganhar terreno e minar o poder e força de Roma. Dos anos 351 a 476
d.C., essas tribos ganharam força e se estabeleceram no território roma-
no provocando sua queda.

OS DEDOS DA ESTÁTUA
O férreo império de Roma manteve seu poder até o ano 476 d.C.,
quando finalmente foi dividido e caiu seu último imperador, Rômulo
Augusto. Assim como os pés possuem dez artelhos, Roma perdeu seu
poder para dez tribos bárbaras que, ao longo de décadas, foram minan-
do sua autoridade. Esses dez artelhos correspondem aos dez chifres do
quarto animal do capítulo 7 (ver Daniel 7:7).
A seguir, temos uma lista das tribos que se estabeleceram no ter-
ritório de Roma entre os anos de 351 a 476 d.C., e as nações que estas
chegariam a formar:18

351 d.C. Alamanos Germânia/ Alemanha


351dC Francos França
406 d.C. Burg undos Suíça
406 d.C. Suevos Portugal
408 d.C. Visigodos Espanha
409 d.C. Anglo-saxões Bretanha /Inglaterra
453 d.C. Lom bardos Itália
406 d.C. Vândalos Extintos
453 d.C. Ostrogodos Extintos
476 d.C. Hérulos Extintos

O historiador Gibbon, discutindo o período compreendido entre


os anos 400 e 500 d.C. menciona não menos que oito dessas tribos num
DANIEL
62 Segredos da Profecia

só parágrafo: "Os poderosos Visigodos adotaram universalmente a re-


ligião dos Romanos, com quem mantinham um intercâmbio perpétuo,
de guerra, de amizade, ou de conquista. Durante o mesmo período, o
cristianismo foi abraçado por quase todos os bárbaros, que estabelece-
ram seus reinos sob as ruínas do Império Ocidental; Os Burgundos na
Gália, os Suevos na Espanha, os Vândalos na África, os Ostrogodos
na Polónia, e vários bandos de mercenários (Hérulos, etc) que levaram
Odoacro ao trono da Itália. Os Francos e os Saxões ainda perseveraram
nos erros do paganismo; entretanto, os Francos obtiveram a monarquia
da Gália por sua submissão ao exemplo de Clóvis".1'5 O desenvolvimen-
to dessas tribos bárbaras resultou nas modernas nações europeias.

UM REINO DIVIDIDO
Mas a profecia não para por aí. O profeta continuou: "Quanto ao que
viste do ferro misturado com barro de lodo, misturar-se-ão mediante
casamento, mas não se ligarão um ao outro, assim como o ferro não se
mistura com o barro". Várias tentativas foram feitas para se tentar man-
ter a unidade deste poder. Mas a profecia decretava: "mas não se ligarão
um ao outro". O historiador George H. Merrit, falando sobre as ligações
familiares da Europa, na tentativa de se manter unida, assim escreveu:
"William II da Alemanha é primo em primeiro grau de Jorge V, e a sua
mãe Vitória, era irmã do pai de Jorge, Eduardo VII da Inglaterra. Além
disto, Nicolau casou-se com outra prima em primeiro grau de Jorge e
William; a mãe da czarina era outra irmã de Eduardo VII. Finalmente,
Jorge, William e Nicolau, são por seus pais, netos de Carlos, duque
de Mecklenburg-Stretlitz, que morreu em 1752, e William e Nicolau
são descendentes do rei Frederico William III da Prússia. Outros pri-
mos do rei Jorge e do Czar Nicolau, também netos de Cristiano IX da
Dinamarca, são: Cristiano X da Dinamarca, Constantino I da Grécia e
Ernesto Augusto, duque de Brunswick, que é também genro do impe-
rador William II".2"

19 GIBBON,Fdward. The Decline and Fali oftheRoman Empire. v. 3. New York; The Modern Library,
1995, p. 543.
20 MERRIT, George H. "The Royal relativesof Europe" The World 's Work, outubro de 1914, p, 594, apud
GONZALtZ, 1994, p. l 1.
Uma Estátua Assustadora 63

Não só através de casamentos reais se buscou a unificação do rei-


no dividido, mas também muitas alianças políticas entre as nações.
Estadistas de ampla visão por diversos meios trataram de realizar uma
federação de nações que se desempenhasse eficazmente, mas todas es-
sas tentativas falharam. Podemos mencionar Carlos Magno, Carlos V,
Luiz XIV, Napoleão Bonaparte, Hitler, etc. A profecia ratificava: "Não
se ligarão um ao outro" (Daniel 2:43). Nenhum poder humano pode
mudar o rumo da profecia. O que Deus revelou vai cumprir-se inequi-
vocamente. Como reconheceu Jó: "nenhum dos Teus planos podem ser
frustrados" (Jó 42:2).

UMA PEDRA CORTADA SEM AUXILIO DE MÃOS


Depois de relatar os quatro poderes que dominariam o mundo,
Daniel revela: "Mas nos dias destes reis" (Daniel 2:44), referindo-se aos
dez reinos que assumiriam o controle de Roma, "o Deus do céu suscita-
rá um reino que não será jamais destruído [...] como viste que do monte
foi cortada uma pedra, sem auxilio de mãos, e ela esmiuçou o ferro, o
bronze, o barro, a prata e o ouro" (Daniel 2:44, 45).
Quem ou o que essa pedra representa? Desde o segundo século da
era cristã, essa pedra tem sido interpretada como sendo Cristo, que irá
devastar os reinos do mundo após as divisões do Império Romano.21
Martinho Lutero, o grande reformador do século 16, também susten-
tava a visão de que Roma estava representada na estátua pelas pernas,
pés e artelhos. Que fora dividida nas modernas nações da Europa e
que a pedra representava o reino de Cristo a ser estabelecido em Sua
segunda vinda.22
Não resta dúvida de que a pedra é Jesus Cristo e a implantação de
Seu reino eterno. Isaías 28:16 declara: "Portanto, assim diz o Senhor
Deus: Eis que Eu assentei em Sião uma pedra, pedra já provada, pedra

21 Enire os escritores cristãos primitivos que defendiam essa interpretação estava Irineu. Ver FROOM,
LeRoy Edwín. TheProphetk Faith of Our Fathers. 4 volumes. Washington, DC: Reviewand Herald, 1946-
1954, p. 245.
22 Ibidem, p. 267-268. Um dos primeiros queslionadores dessa inierpreiaçíio profética foi Agostinho,
bispo de Hipona. Em sua obra "Cidade de Deus" começou a alegorizar c espiritualizar a profecia e ensinar
que a pedra era a Igreja que triunfaria sobre os reinos terrestres. Ver mais detalhes em: HOLBROOK, Frank B,
Symposium on Daniel. Hagerstown, Ml: Review and Hcrjld, ' 986, p. 337.
DANIEL
Segredos da Profecia ._

preciosa, angular, solidamente assentada; aquele que crer nau foge".


Isaías fala de Cristo como sendo uma variedade especial de pedra, a
"preciosa pedra angular1'. O próprio Cristo entendia esses simbolismos
usados no Antigo Testamento. Em Lucas 20:17 e 18, Ele disse a Seu
próprio respeito: "Que quer dizer, pois, o que está escrito: A pedra que
os construtores rejeitaram, esta veio a ser a principal pedra, angular?"
Aqui Ele Se refere a Si próprio como sendo a pedra angular de Isaías.
Ele prossegue: "Todo o que cair sobre esta pedra ficará em pedaços; e
aquele sobre quem ela cair ficará reduzido a pó".
O apóstolo Pedro, escrevendo sob inspiração do Espírito Santo, re-
vela essa rnesma verdade: "Chegando-vos para Ele, a pedra que vive,
rejeitada, sim, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa [...]
Pois isso está na Escritura : Eis que ponho em Sião uma pedra angular,
eleita e preciosa; e quem nela crer não será, de modo algum, envergo-
nhado" (l Pedro 2:4, 6).
Chegamos então a uma pergunta crucial: quando esse reino de
Cristo será estabelecido? O que Daniel queria dizer quando disse "nos
dias destes reis"? (Daniel 2:44). Alguns têm interpretado esses reis
como sendo os quatro impérios desde Babilónia até Roma. Entretanto,
o elemento tempo na profecia nos assegura que a pedra simbolizando o
reino de Cristo será estabelecida nos dias dos reis representados pelos
pés e dedos da estátua (Daniel 2:41 a 44). Esses reinos não vieram à
existência historicamente senão depois do ministério terrestre de Jesus,
e finalmente com a queda de Roma Ocidental, em 476 d.C.
Uma evidência adicional a essa visão pode ser encontrada no pa-
ralelo entre os capítulos 2 e 7 de Daniel. O quarto animal de Daniel 7:7
(terrível e espantoso), representa o mesmo império das pernas de ferro
da estátua, ou seja, Roma. Assim como os pés possuem dez artelhos, esse
quarto poder possui dez chifres. No capítulo 7, somente após o surgi-
mento dos dez reinos é que surge uma nova cena - o estabelecimento do
juízo e o reino sendo entregue aos santos do Altíssimo (Daniel 7:26,27).
O mesmo se dá na visão do capítulo 2 com a pedra atirada sem auxilio
de mãos. Isso significa que o reino eterno de Cristo será estabelecido
nos dias da moderna Europa, que se formou a partir das tribos bárbaras
que minaram Roma.
Uma Estátua Assustadora 65

Assim, na história universal das nações podemos contemplar o


cumprimento literal da profecia divina dada no capítulo 2 de Daniel até
a divisão do quarto reino em dez. Agora esperamos com expectativa o
surgimento daquela pedra, cortada sem auxilio de mãos, que represen-
ta a segunda vinda de Cristo e o estabelecimento do Seu reino eterno
(Daniel 2:44, 45; 7:13,14, 26, 27). É isso que mantém o povo de Deus
esperançoso nos dias finais da história humana.

ATITUDE DE NABUCODONOSOR
O rei estava convencido da verdade da interpretação, e em humildade
e temor "se inclinou, e se prostrou rosto em terra [...] e disse: Certamente,
o vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos reis, e o revelador de
mistérios, pois pudeste revelar este mistério" (Daniel 2:46, 47).
Nabucodonosor engrandeceu a Daniel e lhe deu muitas e grandes dá-
divas e o pôs por governador sobre toda a província de Babilónia. Nesse
momento, Daniel não se esqueceu de seus amigos, Hananias, Misael e
Azarias e, conforme seu pedido, eles foram colocados como superinten-
dentes "sobre os negócios da província da Babilónia" (Daniel 2:49).
Séculos antes desses eventos históricos, o Revelador de Mistérios
lançou um olhar para o futuro e predisse as cenas do surgimento e que-
da destes quatro impérios universais. Deus fez saber a Nabucodonosor,
a quem chama de "Meu servo", que seu reino devia cair, e um segundo
reino surgiria, o qual também teria o seu período de prova. Deixando
de exaltar o verdadeiro Deus, sua glória também seria abatida, e um
terceiro reino lhe ocuparia o lugar. Este também passaria; e um quarto,
forte como ferro, submeteria as nações do inundo.
Em cada uma dessas revelações Deus tencionava usar estas nações
para Seus propósitos. Se tivessem elas conservado sempre diante de si o
temor de Deus, seriam mantidas em sabedoria e força. Mas menospre-
zaram as oportunidades, e seu período de glória passou.
Hoje, a cada governante da terra são dirigidas as mesmas palavras
que foram ditas a Nabucodonosor: "Põe termo, pela justiça, em teus pe-
cados e em tuas iniquidades, usando de misericórdia para com os pobres;
e talvez se prolongue a tua tranquilidade" (Daniel 4:27). Compreender
essas coisas, isto é, que "a justiça exalta as nações" (Provérbios 14:34), que
DANIEL
66 Segredos da Profecia

"com justiça se estabelece o trono" (Provérbios 16:12), e "com benigni-


dade sustém ele o seu trono" (Provérbios 20:28), reconhecer a operação
desses princípios na manifestação de Seu poder que "remove os reis, e
estabelece os reis" (Daniel 2:21) é compreender a filosofia da História.
Com a história do capítulo dois aprendemos que a força, tanto das
nações como dos indivíduos, não se encontra nas oportunidades ou
facilidades que possuímos, nem em aparente grandeza, mas é medida
pela fidelidade com que se cumpre o propósito de Deus em nossa vida.
A maior necessidade do mundo é a de homens - homens

que se não comprem nem se vendam; homens que no íntimo

da alma sejam verdadeiros e honestos; homens que não

temam chamar o pecado pelo seu nome exato; homens, cuja

consciência seja tão fiel ao dever como a bússola o é ao pólo;

homens que permaneçam firmes pelo que é reto, ainda que

caiam os céus (Educação, 57).


A FORNALHADE
FOGO ARDENTE

O capítulo 3 de Daniel descreve uma história surpreendente dos


dias de Daniel, que tem seu paralelo nos últimos dias, como é mostrado
no livro do Apocalipse.
O rei Nabucodonosor ficou por um tempo impressionado com a in-
terpretação do sonho da estátua, que abriu perante ele acontecimentos
que chegariam até o "tempo do fim", e foi instruído sobre a parte que lhe
cabia desempenhar na história até o estabelecimento do eterno reino de
Deus. Mas essa impressão não durou muito tempo. Seu coração não es-
tava purificado da ambição mundana e do desejo de exaltação. A prospe-
ridade que acompanhou o seu reinado o encheu de orgulho e presunção.
Acredita-se que tenham se passado nove anos desde o,sonho_com
.a estátua e o episódiojjescritcLHO capítulo 3. Foi por causa do conselho
dos sábios de Babilónia que Nabucodonosor decidiu construir a imagem^
Mas diferente da divisão dos metais, ele decidiu ir além. Daniel relata: "O
rei Nabucodonosor fez uma imagem de ouro que tinha sessenta côvados
de altura e seis de largura; levantou-a no campo de Dura, na província da
Babilónia" (Daniel 3:1). Esse evento indica claramente que ele cessou de
honrar a Deus, e retomou seu culto idólatra com maior zelo e fanatismo.1
DANIEL
70 Segredos da Profecia

A LUTA PELA ADORAÇÃO


A mesma imagem usada por Deus para revelar aos homens Seus
eternos propósitos, ao desdobrar perante eles importantes eventos do
futuro, seria agora usada para glorificação do poder humano. A inter-
pretação dada por Daniel seria esquecida, e a verdades seriam mistifi-
cadas. Nisso vemos a ação satânica tentando frustrar os planos divinos.
Ellen G. White diz que "Satanás estava procurando frustrar o propósito
divino em favor da raça humana. O inimigo da humanidade sabia que a
verdade isenta de erro é uma força poderosa para salvar; mas que quan-
do usada para exaltar o eu e favorecer os projetos dos homens, torna-se
um poder para o mal".2
Se na estátua do sonho seu império, Babilónia, era simbolizado pela
cabeça de ouro, essa outra estátua, erigida na planície de Dura, era toda
em ouro, simbolizando assim a perpetuidade de seu reino. O tamanho
da estátua também é digno de nota, 60 cevados de altura e 6 cevados de
largura. Isso reflete o uso do sistema sexagésima! (sistema que depende
do número 60) em Babilónia. O sistema sexagésima! foi inventado pe-
los próprios babilónicos. Esse sistema ainda é muito usado em nossos
dias, como se vê na contagem dos segundos, minutos e horas.
O côvado podia variar de 44,7 a 52,4 cm.3 Tomando como média
50 cm para cada côvado, isso nos daria uma imagem de 30 metros de
altura, por 3 de largura. Dimensões que certamente incluíam algum
tipo de pedestal, onde a imagem pudesse estar firmada. Ela poderia ser
comparada a um edifício com cerca de dez andares.
Mas qual foi o motivo da cons_tru_çãQ_.da estátua? Como já foi dito,
sua intenção era perpetuar o poder de Babilónia, e para isso foi convo-
cada uma assembleia geral, onde deveriam comparecer todos os políti-
cos e administradores de Babilónia para adorar a imagem de ouro que o
rei levantara. Daniel 3:5 declara: "No momento em que ouvirdes o som
da trombeta, do pífaro, da harpa, da cítara, do saltério, da gaita de foles
e de toda sorte de música, vos prostrareis e adorareis a imagem de ouro
que o rei Nabucodonosor levantou". O render comemoração à estátua
._ A Fornalha de Fogo Ardente 71

fiaria, evidência 4e...subrnissãO-_ao poder do rei, e ao_mesmo tempo, de -


monstraria reconhecer que os deuses de Babilónia eram superiores a
todos os outros deuses dos povos.
Havia ainda mais um detalhe: a adoração era obrigatória; e qual-
quer que não adorasse a estátua seria, no mesmo instante, lançado na
fornalha de fogo ardente (Daniel 3:6).
Se fizermos uma pausa em nossa história e sistematizarmos seus
elementos, poderemos facilmente defini-los:

Um soberano poderoso
Uma imagem falsa
Uma adoração forçada
União do poder civil ao religioso
Pena de morte aos desobedientes

Existe alguma aplicação dessa experiência para os últimos dias da


história ou só foi registrada para ensino dos povos há 2.500 anos? Uma
rápida olhada no capítulo 13 de Apocalipse responde a essa pergunta.

"í Apocalipse
3:1
3:2
3:5
3:2
3:6

^ Como visto na relação dos textos acima, o Apocalipse aponta para


um acontecimento idêntico envolvendo o povo de Deus justamente em
nossos dias. O poder representado por Apocalipse 13:11 fará um de-
creto obrigando todos os habitantes da terra a adorar a primeira besta
(Apocalipse 13:1-10), com uma terrível ameaça de morte para todos
aqueles que não se renderem a essa adoração {Apocalipse 13:15). E cer-
tamente nesse tempo, como Hananias, Misael e Azarias, muitos sin-
ceros filhos e filhas de Deus se oporão, com o risco da própria vida,
DANIEL
72 Segredos da Profecia

a este ato idólatra, escolhendo adorar somente ao Deus Criador dos


Céus e da Terra (Apocalipse 14:6, 7; 12:11).

TRÊS JOVENS CORAJOSOS


Chegado o dia da grande convocação, milhares se ajuntaram na pla-
nície de Dura diante da imagem de ouro que o rei construíra. Segundo
a orientação do arauto, quando os instrumentos musicais foram toca-
dos, todos se prostraram em reverência e adoraram a imagem de ouro
e ao poder que ela simbolizava (Daniel 3:4, 5). Os poderes das trevas
pareciam haver obtido notável triunfo e a idolatria parecia prestes a
se perpetuar em Babilónia. Satanás esperava assim frustrar os planos
de Deus de usar Seus filhos cativos em Babilónia como uma forma de
abençoar todas as nações. Mas a história tomaria outro rumo, e Deus
mais uma vez seria honrado.
Não é fácil ficar em pé quando todos se prostram. Mas foi isso que
fizeram os amigos de Daniel, Hananias, Misael e Azarias (Daniel 3:12).
Desde a infância, eles haviam aprendido a adorar e reverenciar somente
ao verdadeiro Deus. Estava claro o mandamento em suas mentes: "Não
terás outros deuses diante de mim; Não farás para ti imagem de escultura;
Não as adorarás nem lhes darás culto" (Êxodo 20:3-5). "Não vos volteis
para os ídolos, nem façais para vós deuses de fundição (Levítico 19:4).
"E vistes as suas abominações, os seus ídolos de pau e de pedra, de prata
e de ouro" (Deuteronômio 29:17). Eles eram servos do Deus vivo, e não
se curvariam diante dos falsos deuses de Babilónia.
O reí logo soube da rebeldia e deu a eles uma segunda chance. "É
verdade, ó Sadraque, Mesaque e Abede-Nego [nomes babilónicos dos
jovens], que vós não servis a meus deuses, nem adorais a imagem de
ouro que levantei? Agora, pois, estai dispostos e, quando ouvirdes o som
da trombeta, do pífaro, da cítara, da harpa, do saltério, da gaita de foles,
prostrai-vos e adorai a imagem que fiz; porém, se não a adorardes, se-
reis, no mesmo instante, lançados na fornalha de fogo ardente. E quem
é o deus que vos poderá livrar das minhas mãos? (Daniel 3:14, 15).
Essa pergunta não poderia ficar sem resposta, pois o Deus de Israel, o
Deus Criador dos Céus e da Terra, iria ser glorificado na fidelidade desses
três jovens. Com confiança e coragem que só podem brotar de um íntimo
A Fornalha de Fogo Ardente 73

relacionamento com o Senhor, esses jovens responderam: "Ó Nabucodonosor,


quanto a isto não necessitamos de te responder. Se o nosso Deus, a quem ser-
vimos, quer livrar-nos, ele nos livrará da fornalha de fogo ardente e das tuas
mãos, ó rei. Se não, fica sabendo, ó rei, que não serviremos a teus deuses, nem
adoraremos a imagem de ouro que levantaste" (Daniel 3:16-18).
Falando sobre a necessidade de homens assim na atualidade, Ellen
G. White escreveu: "A maior necessidade do mundo é a de homens -
homens que se não comprem nem se vendam; homens que no íntimo
da alma sejam verdadeiros e honestos; homens que não temam chamar
o pecado pelo seu nome exato; homens, cuja consciência seja tão fiel ao
dever como a bússola o é ao pólo; homens que permaneçam firmes pelo
que é reto, ainda que caiam os céus".'1
Os três jovens hebreus não temeram nem mesmo a queda do céu
sobre suas cabeças. Apegaram-se à promessa divina: "quando passares
pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti" (Isaías 43:2).
Você pode estar se perguntando: onde estava Daniel nesse mo-
mento? Porque não aparece na história? Não temos resposta para essa
pergunta, mas há algumas possibilidades. Uma delas é que ele poderia
estar em algum tipo de viagem, cuidando dos interesses do próprio rei-
no. É possível que o próprio rei, em virtude de conhecer bem Daniel,
e saber que ele não se prostraria em reverência à imagem, de alguma
forma, trabalhou para que ele não estivesse em Babilónia no dia da con-
sagração da mesma. Esse detalhe permanece ainda um mistério.

UMA FORNALHA ARDENTE


A fornalha descrita no texto certamente era um lugar onde se quei-
mavam tijolos, visto que boa parte dos edifícios de Babilónia era cons-
truída com esse tipo de material. Heródoto, o "Pai da história", falando
das reformas que a filha de Nabucodonosor, Nitócris, provavelmente
esposa de Nabonido e mãe de Belsazar, empreendeu em Babilónia,
pouco antes da invasão medo-persa, menciona o uso de tijolos na cons-
trução de muralhas e da ponte que ligava as duas partes da cidade.5
DANIEL
Segredos da Profecia

Por ordem do rei uma dessas fornalhas foi esquentada sete vezes
mais (Daniel 3:19). O calor era tão intenso que mesmo os valentes ho-
mens responsáveis por lançar os jovens na fornalha perderam suas vidas
(Daniel 3:22). O que se vê em seguida é um Deus poderoso agindo para
salvar seus filhos da morte. O texto bíblico menciona a surpresa do rei
Nabucodonosor, ao perguntar a seus conselheiros: "Não lançamos nós
três homens atados dentro do fogo? [... Eu, porém, vejo quatro homens
soltos, que andam passeando dentro do fogo, sem nenhum dano; e o
aspecto do quarto é semelhante a um filho dos deuses" (Daniel 3:24,25).
Aqui vemos o aspecto redentor de Jesus no terceiro capítulo.
Ninguém menos que o próprio Cristo veio para estar com Seus filhos
no meio da provação. Jesus andou com os jovens entre o fogo, que per-
deu totalmente seu efeito diante do Senhor Deus, Criador de todos os
elementos existentes. Nabucodonosor teve uma visão do filho de Deus.
Naquele dia compreenderia mais uma vez a superioridade do Deus dos
jovens hebreus sobre os deuses de Babilónia. Um Deus tão zeloso que
nada se queimou na fornalha, exceto as cordas que os prendiam.
Um detalhe nos chama a atenção: Como sabia o rei pagão a que era
semelhante o Filho de Deus? Ellen G. White apresenta urna resposta:
"Os cativos hebreus que ocupavam posição de confiança em Babilónia
tinham representado a verdade diante dele na vida e no caráter. Quando
perguntados pela razão de sua fé, tinham-na dado sem hesitação. Clara
e singelamente tinham apresentado os princípios da justiça, ensinando
assim aos que lhes estavam ao redor a respeito do Deus a quem adora-
vam. Eles tinham falado de Cristo, o Redentor vindouro; e na aparência
do quarto no meio do fogo, o rei reconheceu o Filho de Deus"/'
É maravilhoso pensar no poder do testemunho. Nossa vida fala
muito mais do que nossas palavras. O melhor sermão que pode ser pre-
gado é uma vida de consagração a Deus e serviço em favor do próximo.
O mundo ainda espera ver esse tipo de fé nos cristãos modernos.
Talvez sofrendo o calor do intenso fogo, o rei se aproximou o má-
ximo que pôde para fazer ouvir sua voz e chamar os jovens para fora
da fornalha. Interessante pensar na cena. Ao receberem a visita de Jesus
A Fornalha de Fogo Ardente 75

e testemunharem o milagre do fogo que não queimava, os jovens não


saíram da fornalha, mas ficaram lá e, segundo as palavras do próprio
rei, estavam passeando dentro da fornalha. Isso nos leva à conclusão de
que com Jesus, mesmo o fogo da provação se torna um lugar agradável.
Nesse exato momento você pode estar enfrentando uma verdadeira
prova de fogo, mas preste atenção. Além das nuvens negras que se formam
no horizonte, além das lágrimas que rolam no rosto por coisas que só seu
coração sabe, existe um Deus de amor. Um Deus tão maravilhoso que vem
para estar com Seus filhos nos momentos das mais duras provas. Apegue-se
às Suas promessas agora: "Não vos sobreveio tentação que não fosse huma-
na; mas Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além das vossas for-
ças; pelo contrário, juntamente com a tentação, vos proverá livramento, de
sorte que a possais suportar" (l Coríntios 10:13). E ainda mais: "Sabemos
que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, da-
queles que são chamados segundo o Seu propósito (Romanos 8:28). Você
muitas vezes "subiu" ao Céu em oração em momentos de lutas, mas na
hora do fogo Ele descerá até sua fornalha. O próprio Filho de Deus vai
estar ao Seu lado nas horas mais difíceis de sua vida. Somente creia!

FIDELIDADE RECOMPENSADA
Todos se ajuntaram para testemunhar que nem cheiro de alguma
coisa queimada havia por perto. Esse acontecimento extraordinário le-
vou o rei a reconhecer: "Bendito seja o Deus de Sadraque, Mesaque e
Abcde-Nego, que enviou o Seu anjo e livrou os Seus servos, que con-
fiaram nEle, pois não quiseram cumprir a palavra do rei, preferindo
entregar o seu corpo, a servirem e adorarem a qualquer outro deus,
senão ao seu Deus" (Daniel 3:28).
Impressionado com a fidelidade dos jovens e o maravilhoso poder
deste Deus dos hebreus, o rei baixou então um decreto advertindo a
todas as nações que qualquer blasfémia contra esse Deus seria punida
com morte. E o decreto terminava com um reconhecimento: "Porque
não há outro deus que possa livrar como este" (Daniel 3:29).
O capítulo 3 termina dizendo que "o rei fez prosperar a Sadraque,
Mesaque e Abede-Nego na província da Babilónia" (Daniel 3:30). Esses
mesmos três jovens que ao fim do capítulo 2 foram colocados sobre os
DANIEL
76 Segredos da Profecia

negócios da província de Babilónia, novamente foram promovidos pelo


próprio rei. Sua fidelidade foi recompensada e eles deram um poderoso
testemunho, que ecoa ainda hoje, sobre o poder e cuidado de Deus para
com Seus filhos.
Manuscritos das mais antigas traduções, como a Septuaginta (LXX)7
e a tradução de Teodócio, logo em seguida ao verso 23 do capítulo 3, in-
seriram um texto apócrifo chamado o "Cântico dos Três Jovens Santos".
Esse cântico contém 68 versos e na Bíblia de Jerusalém aparece com as
seguintes divisões: (1) Cântico de Azarias (Abede-Nego) na fornalha,
composta tanto de uma confissão como de uma súplica (versos 24-45);
(2) um interlúdio em prosa, que descreve o aquecimento do forno e a
descida do anjo do Senhor para esfriar as chamas (versos 46-50); e (3)
o cântico dos três jovens (versos 51-90).
Embora o próprio Jerônimo8 tenha reconhecido esse texto como
espúrio, essa adição apócrifa foi mantida em várias versões católicas.
Os eruditos debatem se a origem do canto é judeu ou cristão. Vários
deles acreditam que essa obra foi criada ao redor do ano 100 a.C.9
Independentemente da data de sua composição, o cântico tem valor
histórico, assim como os sete livros apócrifos, inseridos em algumas
versões da Bíblia. Esse aspecto histórico, e não de inspiração divina
como os outros livros do Cânon, tem seu valor, pois quem escreveu o
cântico buscou imaginar a gratidão dos jovens hebreus após testemu-
nharem tamanho livramento.
O verso 31, parte do cântico de Azarias, menciona que a prova foi
um julgamento que Deus fez a eles. O verso 40 declara: "Tal como se
viéssemos com holocaustos de carneiros e de touros, e com miríades
de cordeiros gordos. Tal se torne o nosso sacrifício hoje diante de Ti,
porque não serão confundidos os que confiam em Ti". O cântico está
fazendo uma comparação entre os sacrifícios oferecidos e queimados

7 Septuaginta, identificada também pelo número romano 70 (LXX], é uma tradução do Amigo
Testamento, originalmente escrito em hebraico e aramaico, para o grego. Esta versão foi feild por setenta e
dois rabinos (seis de cada uma das doze tribos) que trabalharam nela e, segundo a história, leriam completa-
do a tradução em setenta e dois dias.
8 Jerõnimo é conhecido como tradutor da Bíblia do grego antigo e do hebraico para o latim. A edição
de São Jerõnimo, a Vulgata, é ainda o texto bíblico oficial da Igreja Católica Romana.
9 Comentário bíblico adventista, V. 1, p. 863.
A Fornalha de Fogo Ardente 77

no santuário com a situação que os jovens estavam vivendo. Como se


estivessem oferecendo seus corpos como sacrifício vivo a Deus.
Durante os anos da Idade Média, os filhos de Deus também foram
severamente perseguidos e provados. No raiar do século 15, havia três
papas reinando simultaneamente.10 Para solucionar esse problema, foi
convocado um concílio geral em Constança, no ano de 1414, pelo im-
perador Sigismundo e o papa João XXIII. Esse concílio durou três anos
e cinco meses. Duas decisões nesse concílio chamaram minha atenção.
Primeira: depuseram os três papas reinantes e elegeram Martinho V
como o papa legítimo; segunda, condenaram à fogueira João Huss e
cerca de um ano depois, Jerônimo de Praga.
No dia 6 de julho de 1415, Huss foi despido e depois amarrado com
cordas molhadas. Seu pescoço foi preso à estaca por uma corrente. Antes
de a fogueira ser acesa, Louis, Duque da Baviera exortou Huss pedindo
que pensasse em sua salvação e renunciasse a seus erros. Sua resposta foi:
"A que erros devo renunciar, se não me sinto culpado de nada? [...] Com a
mente serena e cheia de fé estou pronto para enfrentar a morte".11 O fogo
foi aceso e enquanto as chamas crepitavam se pôs a cantar: "Jesus Cristo!
Filho do Deus vivo! Tem piedade de mim". Silenciou-se assim, nesta vida,
a voz do grande mestre John Huss. Cerca de um ano depois, de igual ma-
neira e no mesmo lugar foi morto seu grande amigo, Jerônimo de Praga.
Três jovens hebreus e dois heróis mártires da Idade Média. Dois
destinos completamente diferentes! Em momentos assim me pergunto:
Por que Deus não livrou Huss e Jerônimo como fez com os jovens he-
breus? Não encontro resposta para minha pergunta, mas fica uma úni-
ca certeza: "As coisas encobertas pertencem ao Senhor nosso Deus, po-
rém as reveladas nos pertencem, a nós" (Deuteronómio 29:29).
Um dia na eternidade, Hananias, Misael e Azarias vão se encon-
trar com Huss e Jerônimo. Eles poderão partilhar todas as cenas que
viveram na Terra e de como Deus cuidou de cada um deles. Não seria
maravilhoso poder participar dessa reunião? Prepare-se então e não
perca a confiança mesmo que uma fornalha faça parte de sua jornada.
A cada nação, a cada indivíduo de hoje, tem Deus

designado um lugar no Seu grande plano. Homens e nações

estão sendo hoje medidos pelo prumo que se acha na mão

dAquele que não comete erro. Todos estão pela sua própria

escolha decidindo o seu destino, e Deus está governando

acima de tudo para o cumprimento de Seu propósito

(Educação, 178).
DO PALÁCIO
AO PASTO

De todos os capítulos registrados em Daniel, o capítulo 4 é o único


que não foi escrito por ele. O autor é o próprio rei Nabucodonosor, e
registra uma proclamação real. Ele escreveu: "O rei Nabucodonosor a
todos os povos, nações e homens de todas as línguas, que habitam em
toda a terra: Paz vos seja multiplicada!" (Daniel 4:1).
Este capítulo é o desfecho da história do grande rei do período neo-
babilônico. Registra seu último relato. E está impregnado de lições espi-
rituais e da misericórdia de Deus manifestada a um rei pagão e idólatra.
A mudança nesse capítulo, da primeira pessoa para a terceira e
de novo à primeira (ver Daniel 4:2-27; cf. 28-33; 34-37) ocorre por-
que Daniel certamente escreveu o decreto por ordem do rei, ou como
principal conselheiro, acrescentou certas partes ao decreto. O decreto
refletia os sentimentos do rei quando tinham sido completamente res-
tabelecidas suas faculdades mentais. "O outrora orgulhoso monarca,
tinha-se tornado um humilde filho de Deus".1

UM DECRETO REAL
Assim dizia o decreto: "Pareceu-me bem fazer conhecidos os sinais
DANIEL
80 Segredos da Profecia __

e maravilhas que Deus, o Altíssimo, tem feito para comigo. Quão gran-
des são os Seus sinais, e quão poderosas, as Suas maravilhas! O Seu
reino é reino sempiterno, e o Seu domínio, de geração em geração"
(Daniel 4:2, 3).
Nabucodonosor reinou 43 anos em Babilónia. Esse sonho ocorreu
na segunda parte de seu reinado. O rei declarou: "Eu, Nabucodonosor,
estava tranquilo em minha casa e feliz no meu palácio" (Daniel 4:4).
De súbito, muda-se a cena e o rei se espanta: "Tive um sonho, que me
espantou; e, quando estava no meu leito, os pensamentos e as visões da
minha cabeça me turbaram" (Daniel 5:5).
Neste caso, diferente do capítulo 2, o rei não havia esquecido o con-
teúdo do sonho, mas também não sabia qual o significado do mesmo.
Assim, mais uma vez foram chamados os sábios (os magos, encanta-
dores, os caldeus e os feiticeiros) para darem ao rei a interpretação do
sonho. Mas Daniel 4:7 declara que eles não puderam dar ao rei a in-
terpretação. Mais uma vez ficou provada a incapacidade de qualquer
homem de revelar os mistérios que o Altíssimo reservou para Si.

NABUCODONOSOR NARRA O SONHO


Os habitantes da Babilónia costumavam ver um significado em
cada sonho. Possivelmente por essa razão Deus empregou mais uma
vez um sonho como um instrumento para expor Seus intuitos. Deus
sempre usa parábolas e figuras para transmitir Suas verdades. Os sím-
bolos ajudam a recordar tanto a mensagem como sua importância, por
mais tempo do que se a mensagem tivesse sido comunicada de outra
maneira. Veja como exemplo a advertência da Nata a Davi, depois do
adultério com Bate-Seba (2 Samuel 12:1-15).
Já na presença de Daniel, em quem o rei reconheceu haver "o espí-
rito dos deuses santos" (Daniel 4:8, 18), o rei narra seu sonho:
"Eu estava olhando e vi uma árvore no meio da terra, cuja altu-
ra era grande; crescia a árvore e se tornava forte, de maneira que
a sua altura chegava até ao céu; e era vista até aos confins da terra.
A sua folhagem era formosa, e o seu fruto, abundante, e havia nela sus-
tento para todos; debaixo dela os animais do campo achavam sombra, e
as aves do céu faziam morada nos seus ramos, e todos os seres viventes
Do Palácio ao Pasto 81

se mantinham dela. No meu sonho, quando eu estava no meu leito,


vi um vigilante, um santo, que descia do céu, clamando fortemente e
dizendo: Derribai a árvore, cortai-lhe os ramos, derríçai-lhe as folhas,
espalhai o seu fruto; afugentem-se os animais de debaixo dela e as aves,
dos seus ramos. Mas a cepa, com as raízes, deixai na terra, atada com
cadeias de ferro e de bronze, na erva do campo. Seja ela molhada do
orvalho do céu, e a sua porção seja, com os animais, a erva da terra.
Mude-se-lhe o coração, para que não seja mais coração de homem, e
lhe seja dado coração de animal; e passem sobre ela sete tempos. Esta
sentença é por decreto dos vigilantes, e esta ordem, por mandado dos
santos; a fim de que conheçam os viventes que o Altíssimo tem domí-
nio sobre o reino dos homens; e o dá a quem quer e até ao mais humilde
dos homens constitui sobre eles" (Daniel 4:10-17).

DANIEL INTERPRETA O SONHO


Após ouvir atentamente o relato, Daniel ficou "atónito por algum
tempo" (Daniel 4:19). Seu respeito e amizade pelo rei o deixaram per-
turbado diante do significado do sonho. O rei o animou a não ficar
perturbado, mas a revelar o sonho, e Daniel então passa a interpretar os
eventos que teriam lugar na vida do rei.
"A árvore que viste [...] és tu, ó rei, que cresceste e vieste a ser forte"
(Daniel 4:20-22). Quanto ao foto de a árvore ser cortada e destruída e sua
cepa com as raízes ficarem na terra, significava que o rei seria expulso de
entre os homens e passaria a morar com os animais do campo e a comer
erva como eles. Iriam se passar sete tempos, ou seja, sete anos2 (Daniel 4:25.
Conferir com 11:13), até que o rei reconhecesse "que o Altíssimo tem do-
mínio sobre o reino dos homens e o dá a quem quer" (Daniel 4:25). Em
seguida, a esse período de sete anos o rei voltaria à sua condição normal.
Nabucodonosor havia sido exaltado ao máximo da glória munda-
na. Mesmo na profecia de Ezequiel, ele havia sido chamado de "o rei
dos reis" (Ezequiel 26:7). No entanto, ainda que algumas vezes tivesse
atribuído a Deus a glória de seu reino, estava prestes a voltar-se para

) A palavra aramaicaVíJt/an, "tempo", aparece também em 4:23,25, 32; e depois cm 7:25; 12:7, signifi-
cando "ano". O texio da LXX diz"scte anos". Entre os primeiros expositores que se inclinaram por esta opinião
está Fljvio Josefo.Ver História dos hebreus: Obm completa, p. 251
DANIEL
82 Segredos da Profecia

si mais uma vez e esquecer a verdade eterna de que nos assuntos das
nações Deus está sempre executando "silenciosamente, pacientemente,
os conselhos de Sua própria vontade"3
Daniel encerra a interpretação do sonho e dá um conselho ao rei:
"Portanto, ó rei, aceita o meu conselho e põe termo, pela justiça, em
teus pecados e em tuas iniquidades, usando de misericórdia para com
os pobres; e talvez se prolongue a tua tranquilidade" (Daniel 4:27).
Ao rei Nabucodonosor foi ensinado um princípio divino: os julgamen-
tos de Deus contra os homens podem ser evitados pelo arrependimento
e conversão (ver Isaías 38:1-2, 5; Jeremias 18:7-10; Jonas 3:1-10). Durante
os 12 meses seguintes parece que Nabucodonosor atentou ao conselho
de Daniel, mas ao fim, o desejo de exaltação própria e orgulho mundano
ocuparam sua mente. O coração não transformado pela graça de Deus
logo perde as impressões do Espírito Santo. A condescendência própria e
ambição não haviam ainda sido erradicadas do coração do rei. Mais tarde,
esses traços reapareceram, como veremos em seguida.

O CUMPRIMENTO DA PROFECIA
Passado exatamente um ano, disse o rei: "Não é esta a grande
Babilónia que eu edifiquei para a casa real, com o meu grandioso poder
e para glória da minha majestade?" (Daniel 4:30). Uma das inscrições
antigas que foram preservadas dos escombros das ruínas de Babilónia
mostra algo bem semelhante ao texto sagrado. Nela se lê: "Então cons-
truí eu o palácio, o assento de minha realeza, o vínculo da raça humana,
a morada de júbilo e regozijo".4
É claro que a pretensão de Nabucodonosor de ter "edificado" a ci-
dade de Babilónia não deve ser interpretada como uma referência a sua
fundação, que ocorreu pouco depois do dilúvio (Génesis 11: 1-9), mas
refere-se à obra de reconstrução começada por seu pai Nabopolasar,
e completada por Nabucodonosor.5 Nos intervalos de suas guerras,
Nabucodonosor dedicou-se a embelezar e fortificar sua capital, até
que afinal a cidade de Babilónia se tornou a principal glória da terra,

3 WHITL, 1997, p. 173.


A Comentário bíblico aduentista, v 4, p. 877.
5 Ibidem.
Do Palácio ao Pasto 83

chamada na profecia de "senhora de reinos" (Isaías 47:5). Heródoto de-


clara que Babilónia era "a mais célebre e mais importante de todas as
cidades".6 Cortada pelo rio Eufrates, às margens do qual podia se plan-
tar e tirar seu sustento, somando-se a isso suas altas e fortes muralhas,
de fato Babilónia era uma cidade inexpugnável.
Seu tamanho também impressionava. "Babilónia tinha a forma de
um grande quadrado, de 22 km de lado. Essas medidas dariam aos mu-
ros uma extensão total de 88 km, e à cidade em si uma área de quase
490 quilómetros quadrados".7
Não apenas nos aspectos de segurança e grandeza, mas também
suas belezas encantavam. Durante seu longo reinado de 43 anos,
Nabucodonosor construiu três grandes palácios. O primeiro estava na
Cidade Interior. Um segundo, ao qual os escavadores dão agora o nome
de Palácio Central, estava imediatamente fora do muro norte da Cidade
Interior. E um terceiro, o Palácio do Sul, que se localizava no rincão no-
roeste da Cidade Interior, e incluía, além de outros edifícios, os famosos
jardins suspensos." Estes, construídos pelo próprio Nabucodonosor, vi-
riam a se tornar uma das sete maravilhas do mundo antigo. Também
as nove portas que davam acesso à cidade. Cada unia delas dedicada às
principais deidades de Babilónia. Em direção ao Este estavam as portas
de Marduk, principal deus babilónico; e também a de Ninurta, o deus
da caça e da guerra. A Oeste estava a porta de Adad, o deus das tor-
mentas. Ao Sul estavam as portas de Enlil, o deus do céu, a de Shamash,
o deus do sol, e a de Urash. Em direção ao Norte estavam as portas de
Ishtar, a deusa do amor e da guerra; a porta de Sin, o deus lua; e a de
Lugalgirra (ou Nergal), o deus da febre e da pestilência.9
Não é por acaso que Rawlinson afirma: "Dificilmente se poderia
afirmar demasiado, ao dizer que sem Nabucodonosor os babilónios
não teriam tido lugar na história".10
No exato momento em que o rei se orgulhava das maravilhas diante
de seus olhos, veio o juízo do Céu: "Falava ainda o rei quando desceu

6 HFRÚDOTO, p. 89.
7 Comentário bíblico adventista, v. 4, p. 874.
8 tbiclem.
9 ALOMlA,p,19,
10 íbidem.p 11.
DANIEL
Segredos da Profecia

uma voz do céu: A ti se diz, ó rei Nabucodonosor: Já passou de ti o


reino. Serás expulso de entre os homens, e a tua morada será com os
animais do campo; e far-te-ão comer ervas como os bois, e passar-se-ão
sete tempos por cima de ti, até que aprendas que o Altíssimo tem domí-
nio sobre o reino dos homens e o dá a quem quer. No mesmo instante,
se cumpriu a palavra sobre Nabucodonosor; e foi expulso de entre os
homens e passou a comer erva como os bois, o seu corpo foi molhado
do orvalho do céu, até que lhe cresceram os cabelos como as penas da
águia, e as suas unhas, como as das aves" (Daniel 4:31-33).
Num momento, a razão que Deus lhe havia dado foi tirada e
o poderoso governante tornou-se um maníaco. Durante sete anos
Nabucodonosor foi um espanto para todos os seus súditos; por sete
anos foi humilhado perante todo o mundo. Até que finalmente reco-
nhecesse a soberania do Deus que tudo governa.
Não se sabe ao certo a identidade da doença do rei." Em 1975 foi
traduzido um tablete de barro que faz referência à enfermidade de
Nabucodonosor.'' Esse tablete se encontra no Museu Britânico sob o
número B. M. 34.113, sp. 213. O documento está bastante danificado,
mas pode-se ler as seguintes expressões: "Nabucodonosor considerou
que [...] sua vida parecia de nenhum valor [...] ele não demonstrou
amor a filho ou filha [...] família e clã não existem [...] sua atenção não
foi conduzida no sentido de promover o beni-estar de Esagila [...] ele
chora amargamente diante de Marduque".M
As expressões acima muito bem podem ser aplicadas ao período
trágico vivido por Nabucodonosor. Muitos também se perguntaram
por que o rei demente não foi morto, ou por que seus súditos ou mi-
nistros de Estado não puseram algum outro no trono durante esses sete
anos. Deu-se a seguinte explicação: Os supersticiosos da antiguidade
acreditavam que todos os distúrbios mentais eram causados por maus

11 Maxwell, por exemplo, diz ser Licaniropia (Síndrorne do homcm-lobo). Uma nova era segundo
as profecias de Daniel, 62. Já pata Vilrnar Gonzáleií, a doença chama-se Zoantropia, uma espécie de mania
mental em que o doente se julga convertido em LII n animal. Ver GONZÂLÊZ, Daniel e Apocalipse, p. 19.
12 GRAYbON, A. K Babylonian Historical LiteraryTexts: Toronto Semitíc Texts .ind Studies. Toronto:
University ofTororuo Press, 1975, p. 87-92,
13 I-IORN, Siegfrred H. "We>.v Lighi on Nebuchadnezzar's Madness". Ministry, abril 1978, p, 39-40.
Disponível em: <https^/www.ministryrnagazine.org/afchive/1978/04/new-light-on-nebuchadnezzars-mad-
ness> Acessado em 24 novembro 2013.
Do Palácio ao Pasto 85

espíritos que se apoderavam de suas vítimas; que se alguém matava o


demente, esse espírito se apossava do homicida ou instigador do crime;
e que se sua propriedade era confiscada ou seu cargo ocupado por ou-
tro, uma terrível vingança recaía sobre os responsáveis pela injustiça.
Por essa razão, os dementes eram afastados da sociedade, mas em ou-
tros sentidos não eram incomodados (ver l Samuel 21:12 a 22:1).

CONCLUSÃO
A Palavra de Deus declara: "Certamente, o Senhor Deus não fará
coisa alguma, sem primeiro revelar o Seu segredo aos Seus servos, os
profetas" (Amos 3: 7). Deus havia advertido o rei das consequências
de sua atitude. Mas o juízo pronunciado sobre Nabucodonosor produ-
ziu resultados positivos. O texto declara: "Mas ao fim daqueles dias, eu,
Nabucodonosor, levantei os olhos ao céu, tornou-me a vir o entendimen-
to, e eu bendisse o Altíssimo, e louvei, e glorifiquei ao que vive para sem-
pre, cujo domínio é sempiterno, e cujo reino é de geração em geração.
Todos os moradores da terra são por Ele reputados em nada; e, segundo
a Sua vontade, Ele opera com o exército do céu e os moradores da ter-
ra; não há quem Lhe possa deter a mão, nem Lhe dizer: Que fazes? Tão
logo me tornou a vir o entendimento, também, para a dignidade do meu
reino, tornou-me a vir a minha majestade e o meu resplendor; buscaram-
me os meus conselheiros e os meus grandes; fui restabelecido no meu
reino, e a mim se me ajuntou extraordinária grandeza" (Daniel 4:34-36).
Ellen G. White declara: "O outrora orgulhoso monarca tinha-se
tornado um humilde filho de Deus; o governante tirânico e opressor
tornara-se um rei sábio e compassivo. Aquele que tinha desafiado o
Deus do Céu e dEle blasfemado, reconhecia agora o poder do Altíssimo,
e fervorosamente procurou promover o temor de Jeová e a felicidade
dos seus súditos".14
Nabucodonosor tinha afinal aprendido a lição que todos os líde-
res e governantes precisam hoje aprender - de que a verdadeira gran-
deza consiste na verdadeira bondade. Ele declarou: "Agora, pois, eu,
Nabucodonosor, louvo, exalço e glorifico ao Rei do céu, porque todas as
DANIEL
86 Segredos da Profecia

Suas obras são verdadeiras, e os Seus caminhos, justos, e pode humilhar


aos que andam na soberba" (Daniel 4:37). "O propósito de Deus de que
o maior reino do mundo mostrasse o Seu louvor, estava agora cum-
prido. Esta proclamação pública, em que Nabucodonosor reconhecia
a misericórdia, bondade e autoridade de Deus, foi o último ato de sua
vida registrado na história sacra".15
Deus hoje age da mesma maneira com os líderes atuais. "A cada
nação, a cada indivíduo de hoje, tem Deus designado um lugar no Seu
grande plano. Homens e nações estão sendo hoje medidos pelo prumo
que se acha na mão dAquele que não comete erro. Todos estão por sua
própria escolha decidindo o seu destino, e Deus está governando acima
de tudo para o cumprimento de Seu propósito".16
Qual será nossa atitude diante desta verdade eterna? Vamos nos
sujeitar às orientações divinas ou conduziremos nossa vida como se a
ninguém devêssemos responder? Deus nos conceda assumir uma po-
sição humilde e de confiança, sabedores de que Deus fará sempre o
melhor na vida de Seus filhos.
A história que o grande Eu Sou assinalou em Sua Palavra,

unindo-se cada elo aos demais na cadeia profética, desde a

eternidade no passado até a eternidade no futuro, diz-nos

onde nos achamos hoje, no prosseguimento dos séculos, e

o que se poderá esperar no tempo vindouro. Tudo o que a

profecia predisse como devendo acontecer, até a presente

época, tem-se traçado nas páginas da História, e podemos

estar certos de que tudo que ainda deve vir se cumprirá em

sua ordem (Educação, 178).


A QUE DADE
BABILÓNIA

SUCESSORES AO TRONO
Nabucodonosor reinou durante 43 anos em Babilónia1 (605 a.C
até 562 a.C). Esse longo e próspero reinado marcou o apogeu do
Império Neo-Babilônico. Somente 23 anos separam sua morte da que-
da de Babilónia em 539 a.C. Ramos menciona que, após sua morte,
Nabucodonosor foi sucedido por seu filho, Evil-Merodaque (tam-
bém conhecido como Amel-Marduque). Este reinou apenas por três
anos. Após sua morte (560 a.C.)> sobe ao trono Neriglissar (também
conhecido como Labashi-Sharuzur), genro de Nabucodonosor. Este,
após reinar cerca de 5 anos, morre em 556 a.C. e seu filho, Laboroso-
Archod (também conhecido como Labashi-Marduque), começa seu
reinado. No entanto, morre neste mesmo ano e em seu lugar sobe ao
trono Nabonido (também conhecido como Labineto), outro genro de
Nabucodonosor.2 Será durante seu reinado que terão lugar os aconteci-
mentos descritos no capítulo 5 do livro de Daniel.

1 JO5EFO, Fláviu. História dos hebreus: Obra completa, l ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1992, p. 253.
2 RAMOS, 1998, p. 54.
DANIEL
90 Segredos da Profecia

O texto bíblico inicia falando cie um grande banquete. "O rei Belsazar
deu um. grande banquete a mil dos seus grandes e bebeu vinho na pre-
sença dos mil" (Daniel 5:1). Crê-se que Nabonido tenha se casado com
uma filha de Nabucodonosor.3 Neste caso Belsazar, filho de Nabonido,
seria neto de Nabucodonosor por parte de mãe. A rainha-mãe, chama-
do por Heródoto de Nitócris, mencionada em Daniel 5:10, conhecia
muito bem as histórias que haviam se passado com Nabucodonosor,
seu pai, c vai tomar parte nos eventos desse capítulo.
Segundo o Comentário Bíblico Adventista, Nabonido estava no
Líbano convalescendo de uma enfermidade, e pouco antes de iniciar
uma campanha contra Tema no ocidente da Arábia, chamou a seu filho
maior {Belsazar) e "confiou-lhe o reino". Desde esse tempo em diante
Belsazar controlou os assuntos de Babilónia, enquanto Nabonido resi-
diu em Tema, na Arábia.'1

UM BANQUETE REAL
Se assumirmos o ano de 552 a.C., quando Belsazar tornara-se co-re-
gente com seu pai, Nabonido, passaram-se cerca de treze anos até a data
do banquete no salão real. li inexplicável o fato de se dar um banquete
diante das circunstâncias em que Babilónia vivia. Algumas batalhas já
haviam sido travadas entre a Pérsia e Babilónia, mas nada disso inter-
feriu nos planos do rei. Josefo menciona que quando a festa foi dada a
cidade de Jerusalém já estava sofrendo um cerco dos exércitos de Ciro.5
Heródoto também menciona que "no momento em que se deu a
invasão, os babilónios estavam realizando um festim, e, longe de imagi-
nar que um perigo iminente os ameaçava, entregaram-se aos prazeres
e às danças. Quando se inteiraram da situação era demasiado tarde"/'
Ellen G. White menciona os motivos do banquete: "Babilónia foi
sitiada por Ciro, sobrinho de Dario, o Medo, e comandante geral dos
exércitos combinados cia Média e da Pérsia. Mas dentro das fortale-
zas aparentemente inexpugnáveis, com suas muralhas maciças e seus

Heródoto a chama de Nitócris, uma segunda rainha. A primeiro chamava-se Semíramis, Ver

i Comentário bíblico adventrsta. V 4, p. 881

6 Ver HERÓDOTO, p 9í
A Queda de Babilónia 91

portões de bronze, protegida pelo rio Eufrates, e com abundante provi-


são em estoque, o voluptuoso rei sentiu-se seguro, e passava seu tempo
em folguedos e festança. Em seu orgulho e arrogância, com um teme-
rário senso de segurança, Belsazar 'deu um grande banquete a mil dos
seus grandes e bebeu vinho na presença dos mil5 (Daniel 5:l)".7
Não bastassem as orgias e a bebedeiras, Belsazar, para difamar o
Deus verdadeiro, mandou que trouxessem os utensílios sagrados usa-
dos no serviço do templo em Jerusalém para que neles bebessem vinho.
Josefo menciona que "numa sala onde havia um armário riquíssimo em
que se conservavam os preciosos vasos de que os reis costumavam se
servir; a isso ele quis acrescentar uma nova magnificência e ordenou
então que trouxessem os vasos sagrados do templo de Jerusalém".8
Josefo menciona que mesmo Nabucodonosor não se atreveu a servir-
se dos vasos, mas agora seu neto, Belsazar, já dominado pelo vinho, teve a
ousadia de beber nos vasos e blasfemar contra Deus.9 Os utensílios do tem-
plo tinham sido tirados de Jerusalém em três ocasiões: (l) Uma parte deles
quando Nabucodonosor levou cativos de Jerusalém em 605 a.C. {Daniel
1:1-2); (2) a maior parte quando o rei Joaquim foi levado cativo em 597
a.C. (2 Reis 24:12-13); e (3) o resto dos objetos de metal, principalmente
de bronze, quando o templo foi destruído em 586 a.C. (2 Reis 25:13-17).
O texto diz que Belsazar "mandou trazer os utensílios de ouro e de
prata que Nabucodonosor, seu pai, tirara do templo [...] Então, trou-
xeram os utensílios de ouro, que foram tirados do templo da Casa de
Deus que estava em Jerusalém, e beberam neles o rei, os seus grandes e
as suas mulheres e concubinas [...] Beberam o vinho e deram louvores
aos deuses de ouro, de prata, de bronze, de ferro, de madeira e de pedra"
(Daniel 5:2-4). "O rei queria provar que nada era demasiado sagrado
para que suas rnãos tocassem".10
A Bíblia chama Nabucodonosor de pai de Belsazar. Mas já vimos
que ele era avô. A palavra "pai" deve interpretar-se como "avô" ou "an-
tepassado", como em outras passagens da Bíblia (ver l Crónicas 2:7).
DANIEL
92 Segredos da Profecia

UMA MÃO MISTERIOSA


No mesmo instante em que bebiam nos utensílios sagrados do tem-
plo, Deus agiu para punir esse rei idólatra e displicente. Uma mão mis-
teriosa apareceu no palácio e escreveu algumas palavras que encheram
de temor a todos. Não sabendo o significado das mesmas, mais urna vez
o rei mandou chamar os sábios da corte: "O rei ordenou, em voz alta,
que se introduzissem os encantadores, os caldeus e os feiticeiros; falou
o rei e disse aos sábios da Babilónia: Qualquer que ler esta escritura e
me declarar a sua interpretação será vestido de púrpura, trará uma ca-
deia de ouro ao pescoço e será o terceiro no meu reino. Então, entraram
todos os sábios do rei; mas não puderam ler a escritura, nem fazer saber
ao rei a sua interpretação" (Daniel 5:7, 8).
A vergonha vivida pelos sábios foi a mesma exposta a
Nabucodonosor no capítulo 2, quando os sábios nada sabiam sobre os
mistérios de Deus revelados no sonho da estátua. Como diria Cristo
séculos depois: "Graças te dou, ó Pai [...] porque ocultaste estas coisas
aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos" (Lucas 10:21). Os
sábios de Babilónia não possuíam a verdadeira grandeza, uma atitude
de submissão e serviço ao Deus do Universo. Mas nem tudo estava per-
dido. Havia alguém ali na corte que possuía essa grandeza de espírito.
Daniel é descrito pela rainha-mãe, Nitócris, como sendo um homem
"que tem o espírito dos deuses santos [...] se achou nele luz, e inteligên-
cia, e sabedoria como a sabedoria dos deuses [...] porquanto espírito
excelente, conhecimento e inteligência, interpretação de sonhos, decla-
ração de enigmas e solução de casos difíceis se acharam neste Daniel"
(Daniel 5:11,12).
Imediatamente o rei ordena a introdução de Daniel e lhe faz uma
promessa: "Tenho ouvido dizer de ti que podes dar interpretações e
solucionar casos difíceis; agora, se puderes ler esta escritura e fazer-me
saber a sua interpretação, serás vestido de púrpura, terás cadeia de ouro
ao pescoço e serás o terceiro no meu reino" (Daniel 5:16). O fato de ter
prometido o terceiro lugar corrobora o fato de ser ele o segundo em
poder, e seu pai, Nabonido, que estava ern Tema na Arábia, o primeiro.
A resposta de Daniel é ao ponto: "Os teus presentes fiquem contigo,
e dá os teus prémios a outrem; todavia, lerei ao rei a escritura e lhe farei
A Queda de Babilónia l 93

saber a interpretação" (Daniel 5:17). Daniel não tinha ambição de bens


terrenos. Seus olhos estavam fitos cm Deus e aguardava a manifestação
divina na libertação de seu povo. Via nos acontecimentos atuais a mão
de Deus dirigindo a história e o cumprimento da profecia que revelara
a Nabucodonosor cerca de 60 anos antes.
Antes de fazer saber ao rei a interpretação da escritura, deu a este
uma severa repreensão. Falando do seu avô, Nabucodonosor, disse a
Belsazar: "Quando, porém, o seu coração se elevou, e o seu espírito se
tornou soberbo e arrogante, foi derribado do seu trono real, e passou
dele a sua glória. Foi expulso dentre os filhos dos homens, o seu coração
foi feito semelhante ao dos animais, e a sua morada foi com os jumentos
monteses; deram-lhe a comer erva como aos bois, e do orvalho do céu
foi molhado o seu corpo, até que conheceu que Deus, o Altíssimo, tem
domínio sobre o reino dos homens e a quem quer constitui sobre ele. Tu,
Belsazar, que és seu filho, não humilhaste o teu coração, ainda que sabias
tudo isto. E te levantaste contra o Senhor do céu, pois foram trazidos os
utensílios da casa dEle perante ti, e tu, e os teus grandes, e as tuas mulhe-
res, e as tuas concubinas bebestes vinho neles; além disso, deste louvores
aos deuses de prata, de ouro, de bronze, de ferro, de madeira e de pedra,
que não vêem, não ouvem, nem sabem; mas a Deus, em cuja mão está a
tua vida e todos os teus caminhos, a ele não glorificaste. Então, da parte
dele foi enviada aquela mão que traçou esta escritura" (Daniel 5:20-24).
Belsazar foi acusado de vários pecados: falta de humildade, blasfé-
mia, idolatria, glutonaria etc. Tivera uma excelente oportunidade, mas
não aprendera a lição. As histórias de seu avô deveriam ter impressio-
nado seu coração e o levado a adorar o verdadeiro Deus como este fi-
nalmente fizera, mas em vez disso, dando lugar ao pecado e ao orgulho,
preferiu seguir seu próprio caminho. "Profanando os vasos sagrados
do templo, Belsazar havia ultrapassado os limites da paciência divina e
selado sua própria sorte".11
Daniel então passa a interpretar a escritura na parede: "Esta, pois, é
a escritura que se traçou: MENE, MENE, TEQUEL e PARSIM. Esta é a
interpretação daquilo:
DANIEL
Segredos da Profecia .

MENE: Contou Deus o teu reino e deu cabo dele.


TEQUEL: Pesado foste na balança e achado em falta.
PERES: Dividido foi o teu reino e dado aos medos e aos persas
(Daniel 5:25-28).

Flavio Josefo explica cada expressão aramaica com seu signifi-


cado: "Mene - isto é, número, significa que o número que Deus marca-
ra aos anos de seu reinado vai se completar e só lhe resta muito pouco
tempo de vida. Tequel - Isto é, peso, significa que Deus pesou na sua
justa balança a duração de seu reinado e que ele tende ao seu fim. Peres
- quer dizer fragmento e divisão; significa que seu reino será dividido
entre os medos e os persas".12
Uma leitura atenta do texto nos mostra vocábulos diferentes entre
os versos 25 e 28. O Comentário Bíblico Adventista explica que o vocá-
bulo PERES pode ser considerado como substantivo singular que sig-
nifica "parte" ou "porção". A diferença dessa palavra com a que aparece
no verso 25 (PARSIM ou UFARSIM em algumas versões) é que aquela
aparece no plural e com a conjunção, podendo-se traduzir como "peda-
ços". "É interessante que a forma aramaica peres contenha as consoantes
das palavras aramaicas para Pérsia e persas, que estavam naquele mo-
mento às portas de Babilónia."13

O JUÍZO DIVINO
O capítulo termina dizendo: "Naquela mesma noite, foi morto Belsazar,
rei dos caldeus. E Dario, o Medo, com cerca de sessenta e dois anos, se
apoderou cio reino" (Daniel 5:30, 31). Na queda da grande Babilónia, fica
exposta mais uma vez a veracidade da profecia bíblica. Devido à sua idade
avançada (62 anos), Dario reinou por pouco tempo, pois morreu "cerca de
dois anos depois da queda de Babilónia".1'1 Em seguida, Ciro sobe ao trono.
A profecia havia dado todos os detalhes desse evento.
Nos metais da estátua do sonho do capítulo 2 ficou claro que
Babilónia perderia seu poder para um império inferior. Mais de um

12 JOSEFO, p. 255.
1 3 Comentário bíblico adventista, v. 4, p.
M WHIfE, TJ'J\. 556,557.
A Queda de Babilónia 95

século antes os profetas de Deus já haviam previsto esse momento.


Antes mesmo que o povo judeu, incluindo Daniel, fosse levado para o
cativeiro, Deus havia dado todas as informações necessárias.
Jeremias havia predito o cativeiro, a duração do mesmo e a liber-
tação: "Toda esta terra virá a ser um deserto e um espanto; estas na-
ções servirão ao rei da Babilónia setenta anos. Acontecerá, porém, que,
quando se cumprirem os setenta anos, castigarei a iniquidade do rei da
Babilónia e a desta nação, diz o Senhor, como também a da terra dos
caldeus; farei deles ruínas perpétuas" (Jeremias 25:11, 12).
Isaías havia predito o nome do libertador: "Assim diz o Senhor ao
Seu ungido, a Ciro, a quem torno pela mão direita, para abater as nações
ante a sua face, e para descingir os lombos dos reis, e para abrir diante
dele as portas, que não se fecharão" (Isaías 45:1). O profeta também
predisse qual estratégia seria usada por ele: "Que digo à profundeza
das águas: Seca-te, e eu secarei os teus rios; que digo de Ciro: Ele é Meu
pastor e cumprirá tudo o que me apra'/; que digo também de Jerusalém:
Será edificada; e do templo: Será fundado' 1 (Isaías 44:27, 28).
Heródoto escreveu: "Foi contra o filho de Nitócris que Ciro lançou
suas tropas [...] Finalmente, ou porque concluísse por si mesmo sobre
o que devia fazer, ou porque alguém, o vendo em dificuldades, o acon-
selhasse, o príncipe tomou a seguinte resolução: Colocou seu exército,
parte no ponto onde o Eufrates penetra a Babilónia, parte no ponto
onde o rio deixa o país, com ordem de invadir a cidade pelo leito do
mesmo, logo que se tornasse vadeável. Com o exército assim distribuí-
do [...] desviou as águas do rio para o lago pelo canal de comunicação.
As águas se escoaram, e o leito do rio facilitou a passagem. Sem perda
de tempo, os Persas postados nas margens entraram na cidade, com as
águas do rio dando apenas nas coxas [...] No momento em que se deu
a invasão, os Babilónios estavam realizando um festim [...] quando se
inteiraram da situação era demasiado tarde".13
Foi assim que se deu a queda de Babilónia no ano 539 a.C. Através de
multiformes providências, Deus tinha procurado ensinar aos caldeus a
reverência por Sua lei. O profeta escreveu: "Queríamos curar Babilónia,

15 HERÓDOTO, p. 96.
DANIEL
96 Segredos da Profecia

ela, porém, não sarou" (Jeremias 51:9). Em virtude da perversidade do


coração humano, Deus achou necessário passar a irrevogável sentença.
Babilónia deveria cair e outro reino ser colocado em seu lugar. Os profe-
tas de Deus haviam advertido sobre como cairia Babilónia: "Como está
quebrado, feito em pedaços o martelo de toda a terra! Como se tornou a
Babilónia objeto de espanto entre as nações! [...] Ao estrondo da toma-
da de Babilónia, estremeceu a terra; e o grito se ouviu entre as nações"
(Jeremias 50:23, 46).

PARALELO COM APOCALIPSE


Qual a relação desses eventos do capítulo 5 de Daniel com nos-
sos dias? João, assim como Jeremias, também profetizou a queda de
Babilónia: "Então, exclamou com potente voz, dizendo: Caiu! Caiu a
grande Babilónia e se tornou morada de demónios, covil de toda espécie
de espírito imundo e esconderijo de todo género de ave imunda e detes-
tável, pois todas as nações têm bebido do vinho do furor da sua prosti-
tuição. Com ela se prostituíram os reis da terra. Também os mercadores
da terra se enriqueceram à custa da sua luxúria" (Apocalipse 18:2, 3).
De qual Babilónia está João falando? Não pode ser a física, pois esta
havia caído em 539 a.C. e posteriormente foi completamente destruída.
João está falando de uma Babilónia mística ou espiritual. Veja o relacio-
namento tipológico entre a queda da Babilónia antiga e da moderna:"1

ANTIGA BABILÓNIA MODERNA


Daniel 5:27 Cai em decorrência de um ato de Apocalipse 19:2
juízo divino
Jeremias 51:9 O juízo veio quando os pecados Apocalipse 18:5
se completaram
Jeremias 51:13 Faz das águas o seu sustentáculo Apocalipse"! 7:1
Isaías 44:27,28 Secamente do Rio Eufrates Apocalipse 16:12
Isaías45:l Ciro-um tipo de Cristo Apocalipse 19:11,14,16
Jeremias 51:31 Mensageiros anunciam a queda Apocalipse 14:8

Ki Adaptado de RAMOS, José Carlos. Profecia bíblica, p. 'M


A Queda de Babilónia 97

CONCLUSÃO
Assim temos um paralelo entre os eventos dos dias de Daniel e dos
nossos. Aí está Babilónia, embebedando as multidões com suas falsas
doutrinas. As verdades bíblicas foram esquecidas, e em seu lugar impe-
ra a tradição e as heresias. Ciro é um tipo de Cristo e virá para libertar
Seu povo. Mas existe ainda um último paralelo. Quando finalmente o
povo judeu foi liberto e tinha autorização para retornar a Jerusalém,
eles não quiseram. E por que não? Porque haviam prosperado, criado
laços e raízes em Babilónia.
Em nossos dias, a história vai se repetir. No momento de deixar
Babilónia para ir para a Nova Jerusalém, muitos não irão querer ir, pelo
mesmo motivo: prosperidade temporal e laços com Babilónia.
Ellen G. White escreveu: "A Bíblia, e a Bíblia só, permite uma visão
correia dessas coisas. Nela estão reveladas as grandes cenas finais da
história de nosso mundo, acontecimentos que já estão lançando suas
primeiras sombras, o som de cuja aproximação fazendo tremer a Terra,
e o coração dos homens desmaiando de terror".17
O Céu está mais próximo daqueles que sofrem por amor da

justiça. Cristo identifica os Seus interesses com os interesses

do Seu fiel povo; Ele sofre na pessoa dos Seus santos; e seja

o que for que toque em Seus escolhidos, toca nEle. O poder

que está perto para libertar do dano físico e da angústia está

perto também para salvar do mal maior, tornando possível

ao servo de Deus manter sua integridade sob todas as

circunstâncias, e triunfar através da graça divina

(Profetas e Reis, 546).


DAN IE L NA
COVA DOS LEÕES
Um rapaz procurou Sócrates e lhe disse que precisava contar algo
sobre alguém. Sócrates ergueu os olhos do livro que lia e perguntou:
- O que você vai contar já passou pelas três peneiras?
- Três peneiras?
- Sim. A primeira é a verdade. O que você quer contar dos outros
é um fato? Caso tenha apenas ouvido falar, a coisa deve morrer por aí
mesmo. Suponhamos que seja verdade. Deve, antes, passar pela segun-
da peneira: a bondade. O que você vai contar é uma coisa boa? Ajuda
a construir a fama do próximo? Se o que você quer contar é verdade,
e é uma coisa boa, deverá ainda passar pela terceira peneira: a necessi-
dade. Convém contar? Resolve alguma coisa? Ajuda alguém? Melhora
alguma coisa? E finalizou Sócrates: Se passar pelas três peneiras, conte!
Tanto eu quanto você e os outros iremos nos beneficiar. Caso contrário,
esqueça e enterre tudo. Será uma fofoca a menos para envenenar o am-
biente e fomentar a discórdia entre irmãos, amigos e colegas.1
A história tão conhecida até mesmo por crianças não existiria, se os
contemporâneos de Daniel tivessem praticado o conselho de Sócrates.
Uma história cheia de inveja, intrigas e fofocas.
Assim que a Média-Pérsia derrota Babilónia, através do grande lí-
der Ciro, ele não assume o trono, mas seu aliado, Dario. Esse detalhe é
DANIEL
100 Segredos da Profecia

digno de nota e veremos isso mais a frente, quando estudarmos algu-


mas profecias relacionadas ao Império Medo-Persa. O capítulo 6 inicia
com uma decisão do novo rei: "Pareceu bem a Dario constituir sobre o
reino a cento e vinte sátrapas, que estivessem por todo o reino; e sobre
eles, três presidentes, dos quais Daniel era um, aos quais estes sátrapas
dessem conta, para que o rei não sofresse dano" (Daniel 6:1, 2).
Essas satrapias eram as principais divisões do império lideradas por pre-
feitos que estavam subordinados a três presidentes, dos quais Daniel era um.

MOVIDOS PELA INVEJA


Assim que Dario conheceu brevemente a Daniel, um sobrevivente
da idade de ouro da Babilónia, logo se convenceu de que seria uma de-
cisão sábia pôr a Daniel como principal administrador do novo império
e conselheiro do rei. O texto diz: "Então, o mesmo Daniel se distinguiu
destes presidentes e sátrapas, porque nele havia um espírito excelente; e
o rei pensava em estabelecê-lo sobre todo o reino" (Daniel 6:3).
Ao fazer seus planos de colocar a Daniel no mais alto cargo civil
do governo, estava pensando nos benefícios que isso traria ao império.
Entretanto, não considerou o fato de que os outros presidentes, sendo
eles cidadãos do império, sentissem ciúmes de um governante judeu.
Os ciúmes só aumentaram ao perceberem a irrepreensível conduta de
Daniel. Eles mesmos reconheceram isso: "Então, os presidentes e os
sátrapas procuravam ocasião para acusar a Daniel a respeito do reino;
mas não puderam achá-la, nem culpa alguma; porque ele era fiel, e não
se achava nele nenhum erro nem culpa. Disseram, pois, estes homens:
Nunca acharemos ocasião alguma para acusar a este Daniel, se não a
procurarmos contra ele na lei do seu Deus" (Daniel 6:4, 5).
Daniel era um homem íntegro e confiava na infalível orientação
divina. Estava disposto a sacrificar mesmo a vida por amor ao Deus
que servia. Sua observância aos princípios e leis de saúde, como visto
no capítulo l do livro, sem dúvida contribuiu para o vigor intelectual e
físico i n comum aos homens de sua idade.

UM ESTRATAGEMA SATÂNICO
Mesmo depois de uma apurada investigação, os inimigos de Daniel
Daniel na Cova dos Leões 101

não puderam encontrar nenhuma irregularidade em sua vida. De


fato Daniel era um político de ficha limpa. Entretanto, estes homens
nunca haviam visto a Daniel rendendo culto a qualquer um dos deu-
ses de Babilónia, nem tomava partes nas cerimónias religiosas pagãs.
Certamente haviam observado seu respeito pelo sábado, o quarto man-
damento da lei do seu Deus (Êxodo 20:8-11); e de como, três vezes ao
dia, orava a seu Deus.
Em mútuo conselho, esses príncipes e presidentes traçaram um
plano. Pediriam ao rei que assinasse um decreto proibindo qualquer
pessoa no reino, que no espaço de trinta dias, fizesse petições a qual-
quer deus ou a qualquer homem, se não a Dario. E que a violação desse
decreto fosse punida com morte na cova dos leões.
"Agora, pois, ó rei, sanciona o interdito e assina a escritura, para que não
seja mudada, segundo a lei dos medos e dos persas, que se não pode revogai;
Por esta causa, o rei Dario assinou a escritora e o interdito" (Daniel 6:8,9).
Ignorando o sutil propósito dos príncipes, o rei não percebeu a ani-
mosidade deles no edito, e cedendo a sua lisonja assinou-o. Ellen G.
White declara: "Na conspiração assim formada tinha Satanás desempe-
nhado importante parte. O profeta havia sido exaltado em mando no
reino, e os anjos maus temiam que sua influência pudesse enfraquecer-
lhes o controle sobre seus governantes. Foram essas forças satânicas que
impeliram os príncipes a sentir inveja e ciúmes; foram eles que inspi-
raram o plano da destruição de Daniel; e os príncipes, rendendo-se aos
instrumentos do mal, levaram-nos à execução".2
Qual foi a reação de Daniel ante ao decreto? Ele tomou a decisão de
não permitir sequer a aparência de que sua ligação com o Céu estava
interrompida. Em todos os casos onde o rei tivesse o direito de ordenar,
Daniel obedeceria; mas nem o rei nem o seu decreto poderiam fazê-lo
desviar-se de sua obediência a Deus. Sua postura exprimia o conceito:
"Antes importa obedecer a Deus que aos homens" (Atos 5:29).

DANIEL, UM HOMEM DE ORAÇÃO


"Daniel, pois, quando soube que a escritura estava assinada, entrou
DANIEL
102 Segredos da Profecia

em sua casa e, em cima, no seu quarto, onde havia janelas abertas do


lado de Jerusalém, três vezes por dia, se punha de joelhos, e orava, e
dava graças, diante do seu Deus, como costumava fazer" (Daniel 6:10).
Desde o primeiro capítulo de Daniel percebemos ser ele um homem
de oração. No capítulo l Daniel orou para que Deus os ajudasse a
não containinar-se com as finas iguarias do rei. No capítulo 2, o mo-
tivo da oração foi receber sabedoria para interpretar o sonho do rei
Nabucodonosor. A oração era um hábito diário e não seria agora que
agiria de outra forma.
Essas orações também coincidiam com as horas dos sacrifícios
no santuário. Segundo as tradições posteriores, a oração elevada três
vezes ao dia devia oferecer-se à terceira, sexta e às nove horas do dia
(o que equivale hoje às 9h, 12h e 15h). O salmista seguiu a mesma
prática (ver Salmo 55:17). Em tempos posteriores, o orar três vezes
ao dia se converteu em costume fixo para todo judeu ortodoxo que
vivia segundo os regulamentos rabínicos quanto para os membros da
igreja cristã primitiva.3
O plano dos presidentes e sátrapas estava funcionando perfeita-
mente. "Então, aqueles homens foram juntos, e, tendo achado a Daniel
a orar e a suplicar, diante do seu Deus, se apresentaram ao rei, e, a res-
peito do interdito real, lhe disseram: Não assinaste um interdito que,
por espaço de trinta dias, todo homem que fizesse petição a qualquer
deus ou a qualquer homem e não a ti, ó rei, fosse lançado na cova dos
leões? Respondeu o rei e disse: Esta palavra é certa, segundo a lei dos
medos e dos persas, que se não pode revogar. Então, responderam e
disseram ao rei: Esse Daniel, que é dos exilados de Judá, não faz caso de
ti, ó rei, nem do interdito que assinaste; antes, três vezes por dia, faz a
sua oração" (Daniel 6:11-13).
A maneira com a qual se referiram a Daniel revelava o ódio e me-
nosprezo que esses eles sentiam. O descreveram meramente como a
um estrangeiro, um judeu deportado. Sem dúvida assim esperavam que
o rei suspeitasse que sua conduta era um ato de rebelião contra a au-
toridade real, principalmente sendo ele um estrangeiro em Babilónia.

3 Comentário bíblico adventista, v. 4, p. 894.


Daniel na Cova dos Leões 103

Mas Dario logo percebeu a cilada da qual fora envolvido. Havia sido
lisonjeado por ocasião do decreto, mas estes homens ocultaram seus
verdadeiros propósitos. Compreendeu que não fora o zelo pela honra
e glória real, mas a inveja de Daniel, o que os levara a propor o decreto
real. Percebeu todo ódio que estes homens nutriam contra Daniel e se
esforçou ao máximo para livrá-lo.
Os presidentes e sátrapas, percebendo os esforços do rei a favor de
Daniel, voltaram a sua presença e disseram: "Sabe, ó rei, que é lei dos
medos e dos persas que nenhum interdito ou decreto que o rei sancio-
ne se pode mudar" (Daniel 6:1.5). Dario então percebeu que seus esfor-
ços seriam em vão. "Então, o rei ordenou que trouxessem a Daniel e o
lançassem na cova dos leões. Disse o rei a Daniel: O teu Deus, a quem
tu continuamente serves, que ele te livre. Foi trazida uma pedra e pos-
ta sobre a boca da cova; selou-a o rei com o seu próprio anel e com
o dos seus grandes, para que nada se mudasse a respeito de Daniel"
(Daniel 6:16, 17).
Dario nutria um profundo respeito por Daniel. Isto pode muito
bem ser visto na tristeza e angústia que o envolveu durante toda aquela
noite. "Então, o rei se dirigiu para o seu palácio, passou a noite em je-
jum e não deixou trazer à sua presença instrumentos de música; e fugiu
dele o sono" (Daniel 6:18).

FIDELIDADE RECOMPENSADA
Aquela foi uma longa noite para Dario. Havia passado pela terrível pro-
va de ver seu servo mais fiel sendo lançado aos leões. Essa espantosa expe-
riência fez fugir dele o sono. Com inquietação e ansiedade, logo ao raiar do
dia, se dirigiu à cova para ver o desfeche da história. "Pela manhã, ao rom-
per do dia, levantou-se o rei e foi com pressa à cova dos leões. Chegando-se
ele à cova, chamou por Daniel com voz triste; disse o rei a Daniel: Daniel,
servo do Deus vivo! Dar-se-ia o caso que o teu Deus, a quem tu continua-
mente serves, tenha podido livrar-te dos leões?" (Daniel 6:19,20).
As palavras do rei revelam certo grau de conhecimento do Deus e da
religião do Daniel. Isso nos sugere que Daniel o tinha instruído sobre a
natureza e o poder do Deus verdadeiro que ele servia. Ansioso esperava
alguma manifestação de vida vinda do fundo da cova. "Deus não impediu
DANIEL
104 Segredos da Profecia

os inimigos de Daniel de lançarem-no na cova dos leões; Ele permitiu que


anjos maus e homens ímpios chegassem a realizar o seu propósito; mas
isto foi para que pudesse tornar o livramento do Seu servo mais marcante
e mais completa a derrota dos inimigos da verdade e da justiça".11
"Ó rei, vive eternamente!" Estas foram as palavras que soaram com boa
música aos ouvidos de Dario. Daniel estava vivo. O Deus de Daniel o pode li-
vrar mais uma vez. Deus o honrou, pois este era um servo fiel e zeloso. Daniel
completou: "O meu Deus enviou o seu anjo e fechou a boca aos leões, para
que não me fizessem dano, porque foi achada em mim inocência diante
dele; também contra ti, ó rei, não cometi delito algum" (Daniel 6:22).
Foi uma prova de fé para Daniel. O autor de Hebreus menciona
que esse livramento se deu devido a fé de Daniel (Hebreus 11:33). Mais
uma vez foi provado e Deus recompensou sua fidelidade enviando um
anjo para estar corn ele.
Com profunda alegria o rei ouviu a voz de Daniel. Logo ordenou
que ele fosse tirado do fosso e restabelecido em sua posição. Movido
por um senso de justiça e mesmo vingança, também ordenou que fos-
sem trazidos os acusadores de Daniel e que, da mesma forma, fossem
lançados à cova dos leões. Não apenas eles, mas seus filhos e suas mu-
lheres. O texto sagrado declara que eles "ainda não tinham chegado ao
fundo da cova, e já os leões se apoderaram deles, e lhes esmigalharam
todos os ossos" (Daniel 6:24). Seres humanos com histórias bem dife-
rentes, pois serviam a divindades diferentes.
O Deus de Daniel mostrou mais uma vez ser um Deus justo. De
fato o nome do profeta já carregava esse sentido (Daniel - Deus é meu
juiz). Entretanto, os deuses os quais serviam os presidentes e sátrapas,
nada puderam fazer por eles. Essa experiência foi tão marcante, que
motivou o rei Dario a baixar um novo decreto: "Faço um decreto pelo
qual, em todo o domínio do meu reino, os homens tremam e temam
perante o Deus de Daniel, porque ele é o Deus vivo e que permanece
para sempre; o seu reino não será destruído, e o seu domínio não terá
fim. Ele livra, e salva, e faz sinais e maravilhas no céu e na terra; foi ele
quem livrou a Daniel do poder dos leões" (Daniel 6:25-27).
Daniel na Cova dos Leões 105

CONCLUSÃO
Ellen G. White declarou: "O Céu está mais próximo daqueles que
sofrem por amor da justiça. Cristo identifica os Seus interesses com
os interesses do Seu fiel povo; Ele sofre na pessoa dos Seus santos; e
seja o que for que toque em Seus escolhidos, toca nEle. O poder que
está perto para libertar do dano físico e da angústia está perto tam-
bém para salvar do mal maior, tornando possível ao servo de Deus
manter sua integridade sob todas as circunstâncias, e triunfar através
da graça divina".5
Este foi o segredo de Daniel: ele confiava na graça divina e na jus-
tiça de Cristo para o salvar. Por sua fidelidade, Deus o fez prosperar. O
capítulo 6 termina com a sentença: "Daniel, pois, prosperou no reinado
de Dario e no reinado de Ciro, o persa" (Daniel 6:28). Foram cerca de 70
anos como estadista dedicados aos dois impérios mundiais, Babilónia e
a Média-Pérsia. Atuou no período de pelos menos oito reis diferentes.
Ellen G. White declara: "Honrado pelos homens com as responsabili-
dades de Estado e os segredos de reinos que tinham alcance universal,
Daniel foi honrado por Deus como Seu embaixador, sendo-lhe dadas
muitas revelações dos mistérios dos séculos por vir. Suas maravilho-
sas profecias, tais como registradas por ele nos capítulos sete a doze
do livro que traz o seu nome, não foram inteiramente compreendidas
mesmo pelo próprio profeta; mas antes que findassem os labores de sua
vida, foi-lhe dada a abençoada certeza de que 'no fim dos dias', isto é,
na conclusão do período da história deste mundo, ser-lhe-ia permitido
outra vez estar na sua posição e lugar".c'
Daniel não compreendeu tudo que escreveu. Ele recebeu ordem:
"Tu, porém, Daniel, encerra as palavras e sela o livro, até ao tempo do
fim; muitos o esquadrinharão, e o saber se multiplicará" (Daniel 12:4).
Uma vez mais o anjo ordenou ao fiel mensageiro: "Vai, Daniel, porque
estas palavras estão encerradas e seladas até ao tempo do fim [...] Tu,
porém, segue o teu caminho até ao fim; pois descansarás e, ao fim dos
dias, te levantarás para receber a tua herança" (Daniel 12:9, 13).
DANIEL
106 Segredos da Profecia

Nos próximos capítulos iniciaremos uma viagem através da seção


profética de Daniel. As verdades ali contidas são para nossos dias e não
para os dias de Daniel. Mas ele possuiu uma recompensa que o aguarda. O
anjo prometeu que ele se levantaria para receber sua herança. Essa heran-
ça será ver milhares de pessoas salvas no reino de Deus graças às verdades
que ele registrou em seu livro. Que privilégio o nosso vivermos justamente
nesse momento da história. Coloque sua vida nas mãos de Deus e busque
o conhecimento profético que pode tornar sábio para a salvação, sempre
confiados na promessa de Daniel 12:10: "...Mas os sábios entenderão".
Ao nos aproximarmos do fim da história deste mundo, as

profecias registradas por Daniel demandam nossa especial

atenção, visto relacionarem-se com o próprio tempo em

que estamos vivendo. Com elas devem-se ligar os ensinos

do último livro das Escrituras do Novo Testamento.

Satanás tem levado muitos a crer que as porções proféticas

dos escritos de Daniel e João o revelador não podem ser

compreendidas. Mas a promessa é clara de que bênção

especial acompanhará o estudo dessas profecias, 'Os sábios

entenderão' (Daniel 12:10), foi dito com respeito às visões

de Daniel que deviam ser abertas nos últimos dias

(Profetas e Reis, 547).


QUATRO AN I MAIS
ESTRANHOS
(SEGUNDAVISÃO PROFÉTICA)

Terminados os capítulos históricos de Daniel (l ao), onde se estabe-


leceu um firme fundamento para confiarmos em Deus, as cenas agora se
voltam para o futuro, até os dias do estabelecimento do eterno reino de
Cristo (7 a 12). Esses capítulos "são escritos sob o ponto de vista da eter-
nidade, pois delineiam o futuro do ponto de vista do céu, de tal modo que
os acontecimentos-chave na terra são vistos como a repercussão de acon-
tecimentos-chave no céu".1 Como o pano de fundo para a compreensão do
livro de Daniel está o grande conflito entre o bem e o mal, assim como nos
últimos seis capítulos, nos seis primeiros, há uma guerra pela adoração e
esta envolve o santuário e a lei de Deus (ver Daniel 1:2,8; 3:5; 5:2; 6:7).2
De acordo com Daniel 12:4, 9 e 13, as visões proféticas do livro
de Daniel seriam compreendidas apenas com a chegada do "tempo do
fim". Há duas profecias em Daniel que ajudam a identificar de fornia
particular a chegada deste período. São elas: a atuação do chifre peque-
no por um tempo, dois tempos e metade de um tempo (Daniel 7:25) e
DANIEL
110 Segredos da Profecia

as 2.300 tardes c manhãs para a purificação do santuário (Daniel 8:14).


Na sequência de nosso estudo veremos essas profecias em detalhes, mas
posso adiantar que elas apontam insofismavelmente para duas datas
específicas, 1798 e 1844. Somente a partir desses anos a seção profética
selada de Daniel seria aberta e o conteúdo revelado.
Por que estas profecias foram ocultadas até o "tempo do fim"? Já
dissemos que as profecias podem ser classificadas como clássicas ou
apocalípticas. À profecia clássica, via de regra, falta a perspectiva de
tempo. Para os profetas clássicos, como Isaías e Joel, não havia um lon-
go período de tempo separando de seus dias os eventos que descre-
viam. Quando Isaías fala do retorno dos judeus de Babilónia, após 70
anos de cativeiro, retrata a restauração de Israel como introduzindo os
novos céus e nova Terra (Isaías 65 e 66). Quando Joel fala do derrama-
mento do Espírito Santo, fala do evento que precede o grande dia do
Senhor (Joel 2:28-30). Assim também nos dias do Novo Testamento,
Paulo, quando escreveu sua primeira carta aos Tessalonicenses, espera-
va a vinda de Cristo para seus dias (l Tessalonicenses 4:13-17).
Por que Deus permitiu essa visão dos profetas? Parece-me que Ele não
queria que Seu povo soubesse do longo período que separava seus dias do
grande dia cio estabelecimento de Seu reino. Isso teria sido doloroso para
eles e poderia comprometer o senso de urgência em sua pregação. Imagine
um membro da igreja de Esmirna, uma das sete igrejas do Apocalipse
(capítulos 2 e 3), cujo período histórico é coberto dos anos 100 a 313, ter
em mente que ainda se passariam mais cinco períodos (Pérgamo, Tiatira,
Sardes, Filadélfia e Laodiceia), até o estabelecimento do reino de Cristo?
Qual seria sua postura diante de um evento tão distante?
Por isso Deus, em Sua sabedoria, permitiu a Daniel e loão, intro-
duzirem uma perspectiva de tempo na visão do futuro. Somente ago-
ra, com a chegada do tempo do fim (1798 e 1844), os acontecimentos
críticos da história da redenção poderiam ser percebidos como sepa-
rados por intervalos de tempos maiores ou menores. Não fosse pelas
profecias de Daniel 7, 8 e 9 e Apocalipse 11, 12 e 13, a igreja não saberia
onde se encontra no curso da história.3 Mas graças a essas profecias,
Quatro Animais Estranhos 111

podemos identificar os dias que vivemos e perceber que estamos no


limiar da eternidade.
Nosso objetivo agora é compreender então os simbolismos proféti-
cos de Daniel. Partiremos do seguinte princípio: "O melhor interprete
da profecia é a própria história secular" Analisaremos o que os estu-
diosos da história e da profecia falaram sobre os simbolismos de Daniel
e nos surpreenderemos com os mistérios guardados em segredo por
milénios e revelados em nossos dias,

A DATA DA VISÃO DE DANIEL 7


"No primeiro ano de Belsazar, rei da Babilónia, teve Daniel um so-
nho e visões ante seus olhos, quando estava no seu leito; escreveu logo o
sonho e relatou a suma de todas as coisas" (Daniel 7:1). O capítulo inicia
identificando a data da visão profética de Daniel como sendo o primeiro
ano de Belsazar, último rei de Babilónia. Logo, a visão do capítulo 7 ocorre
antes da queda de Babilónia (Daniel 5), e antes de Daniel ser lançado aos
leões nos dias de Dario, o Medo (Daniel 6). Isso nos leva a concluir que os
capítulos de Daniel não estão em sequência cronológica e que o capítulo
sete figura, cronologicamente, depois do capítulo quatro e antes do cinco.
Os sonhos e visões deste capítulo foram dados no 1° ano de Belsazar
(cerca de 550 a.C.). Se admitirmos que Daniel tinha 18 anos de idade
quando foi levado cativo para Babilónia em 605 a.C., ele estaria então
com cerca de 73 anos. Como estadista, sem dúvida olhava atentamen-
te os eventos políticos com grande interesse. Era evidente que os dias
áureos de Babilónia haviam passado. Nabucodonosor havia morrido
em 562 a.C. Sucedeu-lhe seu filho, Amel-Marduk, que só reinou dois
anos. Este foi morto por seu cunhado, Neriglissar, que reinou apenas
quatro anos. O filho de Neriglissar, Laboroso-Archod, assume o trono
e passados alguns meses, Nabonido (Labineto), um nobre babilónico e
genro de Nabucodonosor, se apodera do trono. Visto que este preferiu
viver em Tema, na Arábia, ele colocou seu filho, Belsazar, no trono da
Babilónia como seu co-regente.! Logo, a visão ocorre cerca de uma dé-
cada antes da queda de Babilónia.

KEOUGH, G. Arthur. Deus e nosso destino. Lição da Escola Sabatina, l "l rimestrc de 1987, p. 115.
DANIEL
112 Segredos da Profecia

O SONHO COM QUATRO ANIMAIS


Certamente você já ouviu expressões tais como: feroz como um
leão; esperto como uma raposa, fiel como um cachorro, simples como
uma pomba, sujo como um porco, etc. Às vezes se usa animais para
exemplificar algum traço de personalidade. Já no capítulo 7 de Daniel
Deus usou animais como símbolos proféticos para representar nações.
Lendo atentamente os versos 2 a 8, podemos resumir a primeira parte
desta segunda visão do livro de Daniel (a primeira visão ocorre no ca-
pítulo 2) da seguinte maneira:
Versos 2 e 3: "Os quatro ventos do céu agitavam o mar Grande.
Quatro animais [...] subiam."
Verso 4: "O primeiro era como leão e tinha asas de águia; enquanto
eu olhava, foram-lhe arrancadas as asas, foi levantado da terra e posto
em dois pés, como homem; e lhe foi dada mente de homem."
Verso 5: O segundo "semelhante a um urso, o qual se levantou so-
bre um dos seus lados; na boca, entre os dentes, trazia três costelas."
Verso 6: O terceiro "semelhante a um leopardo, e tinha nas costas
quatro asas de ave; tinha também este animal quatro cabeças..."
Verso 7: O quarto "terrível, espantoso e sobremodo forte [...] tinha
grandes dentes de ferro [...] era diferente de todos os animais que apa-
receram antes dele e tinha dez chifres".
Verso 8: "Estando eu a observar os chifres, eis que entre eles subiu
outro pequeno, diante do qual três dos primeiros chifres foram arran-
cados; e eis que neste chifre havia olhos, como os de homem, e uma
boca que falava com insolência."
Um conceito que irá nos acompanhar nesta seção de Daniel é que
a profecia é uma verdade que se amplia. A segunda visão de Daniel
(capítulo 7) está cm íntimo paralelo com a primeira (capítulo 2). Os
mesmos impérios representados pelos metais da estátua do sonho de
Nabucodonosor são agora apresentados nas figuras de quatro animais.
Se um quadro vale por mil palavras Deus resolveu ilustrar os aconteci-
mentos futuros com vívidas representações simbólicas. Vejamos então
a interpretação dos elementos do capítulo 7.
"Quatro ventos do céu agitavam o mar Grande" (Daniel 7:2). O que
simboliza "mar" nas profecias? Vejamos alguns textos bíblicos:
Quatro Animais Estranhos 113

"Porque o Senhor destrói Babilónia, e faz perecer nela a sua grande


voz; bramarão as ondas do inimigo como muitas águas; ouvir-se-á o
tumulto da sua voz" (Jeremias 51:55).
"Assim diz o Senhor Deus: Eis que Eu estou contra ti, ó Tiro, e fa-
rei subir contra ti muitas nações, como faz o mar subir as suas ondas"
(Ezequiel26:3).
"As águas que viste, onde a meretriz está assentada, são povos, mul-
tidões, nações e línguas" (Apocalipse 17:15).
Em todos os textos se vê claramente a relação entre "ondas" e mul-
tidões, pessoas. A expressão "mar de gente" não soa estranha para ne-
nhum de nós. Logo, o "mar" de onde surgem os quatro animais, signi-
fica "povos, multidões e nações".
E os "quatro ventos" que agitavam o mar? Os "quatro ventos" assim
são descritos como provenientes dos quatro pontos cardeais (Norte,
Sul, Leste e Oeste), e representavam, sem dúvida, a atividade política
em diversas partes do mundo (conferir com Jeremias 49:36; Daniel 8:8
e 11:4; Zacarias 2:6 e 6:5).
E o que representam os quatro animais? O próprio capítulo 7 es-
clarece: "Estes grandes animais, que são quatro, são quatro reis que se
levantarão da terra" (Daniel 7:17). O verso 23 declara: "O quarto animal
será um quarto reino na terra". Logo, "animal" em profecias significa
"reis" ou "reinos".
Quais são os reinos representados por estes animais? Como já foi
dito, existe um íntimo paralelo entre a primeira e a segunda visão de
Daniel. Façamos uma correspondência entre eles:

Primeira visão egunua visão


Simbolismo
Daniel 2 Daniel 7
Cabeça de ouro Babilónia Leão alado

Peito e braços de prata Média-Pérsia Urso com 3 costelas na boca


Quadris de bronze Leopardo com 4 cabeças e 4 asas

Pernas de ferro Animal terrível e espantoso

l O dedos dos pés 10 chifres


DANIEL
114 Segredos da Profecia

IDENTIFICANDO OS QUATRO IMPÉRIOS NA HISTÓRIA


A profecia de Daniel 7 cobre essencialmente o mesmo período his-
tórico do capítulo 2, ou seja, dos dias do profeta Daniel até os dias do
estabelecimento do eterno reino de Cristo, representado no capítulo 2
por uma pedra que foi cortada sem auxílio de mãos e destruiu comple-
tamente a estátua (Daniel 2:44,45) e no capítulo 7 pelo estabelecimento
do juízo divino, quando a autoridade das nações será dada "ao povo dos
santos do Altíssimo" (Daniel 7:26, 27).
Daniel 7:17 declara: "Estes grandes animais, que são quatro, são
quatro reis que se levantarão da terra." A contar dos dias de Daniel, so-
mente quatro poderes mundiais dominaram a terra, a saber: Babilónia,
Média-Pérsia, Grécia e Roma.
Assim, o capítulo 7 revela mais detalhes do que os que são apre-
sentados no capítulo 2, pois a profecia é uma verdade que se amplia.
Vamos ao estudo dos quatro animais.

UM LEÃO ALADO (BABILÓNIA)


O primeiro animal que surge do mar é um leão alado. Esse leão com
asas de águia é um símbolo muito adequado para representar o impé-
rio de Babilónia. Ele pode ser visto em várias peças de arte da antiga
Babilónia. É uma das formas de divindades que frequentemente com-
batem junto a Marduk, o deus patrono de Babilónia. 3 As pessoas que
visitam as ruínas de Babilónia podem ainda hoje ver as figuras de leões
em baixo-relevo, nos muros e paredes construídos com tijolos.6 Vários
autores concordam com a interpretação do leão como representando o
império de Babilónia. 7
No entanto, o argumento mais forte para essa aplicação provém do pró-
prio texto bíblico. Vários profetas se referiram ao rei Nabucodonosor por
meio de figuras semelhantes às da visão (conferir com: Jeremias 4:7; 50:17,
44; Lamentações de Jeremias 4:19; Ezequiel 17: 3, 12; Habacuque 1:8).

5 Ver mais detalhes em: l ANGDON, S. H Semitic Mythology ("Thf Myihology of Ali Fia c f s", T. 13),
p. 116-118,777-282; FROOM, l . 1 . Prophetic Faith of Our Fathers.T. l, p. 50, 52.
6 MAXWELL, 1996, p. 109.
7 FINLLY, Mark. Revelando os mistérios de Daniel, p. 86; MAXWLLL, C. Mervyn. Uma nova era
segundo as profecias de Daniel, p. 109; NEWTUN, Isnac. As profecias de Daniel e Apocalipse, p. 41;
SCHWAN [LS, í). J. Daniel, o profeta do juízo, p. 56.
Quatro Animais Estranhos 115

O Comentário Bíblico Adventista assim declara: "O leão como rei


dos animais, e a águia, como rainha das aves, representavam adequa-
damente o Império Babilónico no auge de sua glória. O leão é notável
por sua força, enquanto a águia é famosa pelo poder e alcance de seu
voo. O poder de Nabucodonosor foi sentido não só em Babilónia, mas
do Mediterrâneo até o golfo Pérsico, e da Ásia Menor ao Egito. Assim,
é adequado representar o alcance do poder de Babilónia por um leão
com asas de águia.a
O profeta viu: "Foram-lhe arrancadas as asas, foi levantado da terra
e posto em dois pés, como homem; e lhe foi dada mente de homem"
(Daniel 7:4). Babilónia dominou o mundo dos anos 605 a.C. até 539
a.C. Destes 66 anos de domínio mundial, Nabucodonosor reinou em 43
deles. Perto do fim do seu reinado, foi retirado do convívio humano e
como diz Elávio Josefo, "viveu sete anos à maneira dos animais".11 Mello
vê nessas palavras uma alusão à conversão de Nabucodonosor10 e para
Schwantes, "o arrancar das asas do leão e a perda de seu caráter bestial
parecem apontar para a fraqueza militar de Babilónia durante os últi-
mos vinte anos de sua existência".11 Após a morte de Nabucodonosor o
reino se enfraqueceu e finalmente foi vencido pelo império representa-
do pelo urso com três costelas na boca.

UM URSO COM TRÊS COSTELAS NA BOCA (MÉDIA-PÉRSIA)


Daniel disse a Belsazar, último rei de Babilónia: "Dividido foi o teu
reino e dado aos medos e aos persas" (Daniel 5:28). Os detalhes da que-
da de Babilónia já foram descritos no capítulo 7 desta obra. O segundo
animal era como um urso e representa o Império Medo-Persa. Os traços
de crueldade e fúria do urso são atribuídos aos medos por Isaías (Isaías
13:17). Este segundo animal apresenta duas características interessantes:

a) "Ele se levantou sobre um dos seus lados". O grande nome da


conquista de Babilónia foi Ciro. Isaías havia antecipado seu nome

8 Comentário bíblico adventista.V. 4, p. 903.


9 JOSEFO, p. 255.
10 MELLO, p. 327.
11 SCHWANTES, p. 56.
DANIEL
116 Segredos da Profecia

(Isaías 45:1), e até mesmo a estratégia militar que usaria para derrotar
Babilónia (Isaías 44:27, 28). Mas quando cai Babilónia é Dario que se
assenta no trono. Schwantes afirma que o fato de o urso ter- se levanta-
do sobre um dos seus lados "parece apontar para o fato de que primeiro
os medos, c depois os persas, detiveram a liderança nesta monarquia
dupla. É um fato que os medos foram os primeiros a se organizar em
um reino unido e a manter a Pérsia em vassalagem. Mas com a vitória
de Ciro II em 550 a.C. as mesas se inverteram, e desde então os reis per-
sas ocuparam o trono dos medos e persas".12 Isaac Newton interpreta da
mesma forma: "Esta besta levantou-se e se pôs ao seu lado, pois esta-
vam os persas dominados pelos medos quando da queda de Babilónia,
mas depois levantaram-se e os dominaram".13

b) "Entre os dentes, trazia três costelas". Estas três costelas são in-
terpretadas por Newton como sendo os reinos de Sardes, Babilónia e
Egito,1'1 reinos estes que foram vencidos para que a Média-Pérsia estabe-
lecesse sua hegemonia mundial. Heródoto menciona uma coalisão feita
contra as forças de Ciro, sendo ela Cresso, rei da Lídia (Sardes), Amasis,
faraó do Egito e Labineto (o mesmo Nabonido, pai de Belsazar), rei da
Babilónia.1^ Ciro venceu a Lídia no ano 547 a.C., a Babilónia em 539 a.C,
e o Egito caiu nas mãos de seu filho, Cambises, em 526 a.C.
Assim, a Média-Pérsia inicia seu domínio mundial no ano 539 a.C.,
quando derrota Babilónia e domina até 331 a.C. Nesse ano perderia seu
poder para o império representado pelo leopardo.

UM LEOPARDO COM QUATRO CABEÇAS


E QUATRO ASAS (GRÉCIA)
Quem é representado pelo leopardo na profecia de Daniel 7?
Olhando com os olhos da história só podemos interpretar o leopardo
como sendo a Grécia, reino que finalmente põe fim ao domínio medo-
persa. Isaac Newton declara: "A terceira besta é o reino que sucedeu
Quatro Animais Estranhos 117

aos persas, isto é, o império dos gregos".16 O próprio livro do profeta


Daniel confirma esta informação. No capítulo 8 se vê a figura de dois
animais, um carneiro e um bode peludo. O anjo explica para Daniel
que o carneiro era um símbolo dos reinos da Média e da Pérsia, e estes
seriam vencidos pelo bode peludo, identificado pelo anjo como sendo
a Grécia (Daniel 8:20, 21).
O leopardo é um animal feroz e carnívoro, notável por sua veloci-
dade e agilidade de seus movimentos (ver Habacuque 1: 8). Daniel 7:6
diz que o leopardo "tinha nas costas quatro asas de ave; tinha também
este animal quatro cabeças". Historicamente as quatro asas têm sido in-
terpretadas como representando a velocidade com que Alexandre, o
grande, venceu os exércitos inimigos. Partindo do nada, no curto pra-
zo de 12 anos dominou o mundo. Com a morte de seu pai, Felipe da
Macedõnia, em 336 a.C., Alexandre, com apenas 20 anos de idade, con-
seguiu unificar os estados gregos e lançá-los contra a Pérsia. Travando
as batalhas de Grânico (334 a.C.), Isso (333 a.C.) e Arbela (Gaugamela)
em 331 a.C., tornou-se senhor do mundo.17 Enquanto residia em
Babilónia, morreu no ano 323 a.C. aos 33 anos de idade.18
E quanto às quatro cabeças do leopardo? Após a morte de
Alexandre, a questão a ser decidida era se o império devia permanecer
unido sob Antígono e seu filho Demétrio, ou dividido entre os gene-
rais. Finalmente, na batalha de Ipso, em 301 a.C., a questão foi decidida
quando Antígono perdeu a vida e o Império Greco-Macedônico foi di-
vidido. Essa divisão se deu exatamente em quatro partes como estava
indicada na profecia pelas quatro cabeças do leopardo. Segundo Isaac
Newton assim ficaram distribuídos os territórios:
Cassandro: reinou sobre a Macedõnia, a Grécia e o Épiro.
Lisímaco: ficou com a Trácia e a Bitínia.
Ptolomeu: reinou sobre o Egito, Líbia, Arábia, Celo-Síria e a
Palestina.
Seleuco: reinou sobre a Síria. 19
DANIEL
118 Segredos da Profecia

UM ANIMAL TERRÍVEL E ESPANTOSO (ROMA)


A profecia fala então de um quarto poder, representado por um animal
sem paralelo na zoologia. Daniel escreveu: "Depois disto, eu continuava
olhando nas visões da noite, e eis aqui o quarto animal, terrível, espantoso
e sobremodo forte, o qual tinha grandes dentes de ferro; ele devorava, e
fazia em pedaços, e pisava aos pés o que sobejava; era diferente de todos os
animais que apareceram antes dele c tinha dez chifres. Estando eu a obser-
var os chifres, eis que entre eles subiu outro pequeno, diante do qual três
dos primeiros chifres foram arrancados; e eis que neste chifre havia olhos,
como os de homem, e uma boca que talava com insolência" (Daniel 7:7,8).
A expressão "o qual tinha grandes dentes de ferro; ele devorava, e fazia
em pedaços, e pisava aos pés o que sobejava" está em paralelo com o capí-
tulo 2 de Daniel. Falando do quarto poder, é mencionado: "O quarto reino
será forte como ferro; pois o ferro a tudo quebra e esmiuça; como o ferro
quebra todas as coisas, assim ele fará em pedaços e esmiuçará" (Daniel 2:40).
A história ensina claramente que o poder mundial que se seguiu à
Grécia foi Roma. Entretanto, a transição foi gradual, de maneira que
não é fácil assinalar um acontecimento específico que indique o mo-
mento da mudança. Os escritores não estão de acordo quanto à data
que assinala a hegemonia do Império Romano, entretanto, alguns pro-
curam afirmar que uma boa data seria o ano 168 a.C., quando na bata-
lha de Pidmá, os romanos, sob o comando de Lúcio Emílio, conquistam
a Macedônia vencendo os exércitos de Perseu.20
A expressão "dentes de ferro" refere-se à crueldade com que Roma
tratava seus inimigos. Em suas conquistas, às vezes destruía cidades
inteiras, como no caso de Corinto em 146 a.C.; de outras vezes, reinos,
tais como a Macedônia e os domínios selêucidas, eram divididos e con-
vertidos em províncias.21

DEZ CHIFRES
A profecia também tala de dez chifres que esse animal possuía:
"Era diferente de todos os animais que apareceram antes dele e tinha

20 MELLO, p-373
} l Comentário bíblico advcntista, v 4, p. "JO/.
Quatro Animais Estranhos 119

dez chifres" (Daniel 7:7). O próprio texto explica que estes dez chifres
são dez reinos (Daniel 7:24). Se os "quatro reis" de Daniel 7:17 repre-
sentam quatro reinos (Babilónia, Média-Pérsia, Grécia e Roma), en-
tão os dez chifres também podem ser interpretados como dez "reis" ou
"reinos" e são os mesmos reinos do capítulo 2 de Daniel.
Já vimos que o férreo império de Roma manteve seu poder até o
ano 476 d.C., quando finalmente foi dividido, perdendo seu poder para
dez tribos bárbaras que minaram sua autoridade. Estes dez chifres cor-
respondem então às dez tribos bárbaras que se estabeleceram no terri-
tório de Roma entre os anos de 351 a 476 d.C.

O CHIFRE PEQUENO E SUA IDENTIFICAÇÃO


Mas Daniel continuou: "Estando eu a observar os chifres, eis que en-
tre eles subiu outro pequeno, diante do qual três dos primeiros chifres
foram arrancados; e eis que neste chifre havia olhos, como os de homem,
e uma boca que falava com insolência" (Daniel 7:8). O que representam
esses símbolos? Por certo o mesmo desejo de aprender que você sente
agora foi vivido por Daniel. Nos versos 15 e 16 do capítulo 7 é-nos dito
que Daniel ficou "alarmado" e "perturbado" com as revelações e se apro-
ximou de um ser que estava perto dele e quis saber os mistérios da visão.
Esse ser informou a Daniel parte do que vimos até aqui. Disse que os
quatro animais representavam quatro reis ou reinos, que dominariam na
terra por um período de tempo, mas finalmente o reino seria dado aos
"santos do Altíssimo", e os santos o possuiriam por toda a eternidade.
Mas Daniel estava curioso para saber mais. Ele disse: "Então tive
desejo de conhecer a verdade a respeito do quarto animal, que era di-
ferente de todos os outros, muito terrível, cujos dentes eram de ferro,
cujas unhas eram de bronze, que devorava, fazia em pedaços e pisava
aos pés o que sobejava; e também a respeito dos dez chifres que tinha
na cabeça e do outro que subiu, diante do qual caíram três, daquele
chifre que tinha olhos e uma boca que falava com insolência e parecia
mais robusto do que os seus companheiros. Eu olhava e eis que este
chifre fazia guerra contra os santos e prevalecia contra eles, até que veio
o Ancião de Dias e fez justiça aos santos do Altíssimo; e veio o tempo
em que os santos possuíram o reino" (Daniel 7:19-22).
DANIEL
120 Segredos da Profecia

Já vimos que este quarto poder representa Roma, e que os dez chi-
fres representam as dez tribos bárbaras. Mas o que representa esse chifre
pequeno na profecia bíblica? Sobre esse assunto Isaac Newton escreveu:
"Os reis representam reinos, como já foi dito. Portanto, o pequeno
chifre é um pequeno reino. Era um chifre da quarta besta e arrancou
os três dos primitivos. Por isso devemos procurá-lo entre as nações do
Império Latino, depois do aparecimento dos dez chifres. Mas era um
reino com um rei diferente dos outros, tendo uma vida ou alma que lhe
era peculiar, com olhos e boca. Por seus olhos era um vidente e por sua
boca falando insolências e mudando os tempos e as leis, era ao mesmo
tempo um profeta e rei. Tal vidente, profeta e rei é a igreja de Roma. Um
vidente, Episkopos, é um bispo, no sentido literal do vocábulo; e essa
igreja reivindica o bispado universal. Com a boca dá leis aos reis e na-
ções; assim como um Oráculo; arroga-se a infalibilidade e pretende que
seus decretos obriguem o mundo inteiro; o que quer dizer que é um pro-
feta no mais alto grau."22
Estaria Newton correio em sua interpretação? Seria o chifre peque-
no o papado?
Daniel vislumbrou algumas características do chifre pequeno e o
anjo lhe deu informações adicionais. Vejamos a seguir dez caracterís-
ticas apresentadas no texto bíblico e procuremos identificar esse poder
na história:
1. O chifre pequeno surgiria entre os dez chifres do quarto animal
(verso 8) e depois deles (verso 24).
2. O chifre pequeno arrancaria três chifres para se firmar (versos
8, 20 e 24).
3. O chifre pequeno possuía "olhos como de homem" e uma "boca
que falava com insolência" (versos 8 e 20).
4. Parecia mais robusto que seus companheiros (verso 20).
5. Faria guerra contra os santos e prevaleceria contra eles (verso 21).
6. Proferiria palavras contra o Altíssimo (verso 25).
7. Magoaria os santos do Altíssimo (verso 25).
8. Cuidaria em mudar os tempos e a lei (verso 25).
Quatro Animais Estranhos ;' 121

9. Os santos lhes seriam entregues nas mãos por um tempo, dois


tempos e metade de um tempo (verso 25).
10. Seu domínio seria tirado por um tribunal e ele seria destruído
(verso 26).

Passaremos agora a analisar algumas dessas características:

1. O chifre pequeno surgiria entre os dez chifres do quarto animal


(verso 8) e depois deles (verso 24); logo, seria um poder que se levan-
taria do Império Romano.
Segundo o que o profeta viu na visão, o chifre pequeno não se mani-
festou no primeiro, segundo, ou terceiro animal, mas no quarto (Daniel
7:7,8). Identificamos o primeiro animal, o leão, como representando
o império de Babilónia; O urso representando a Média-Pérsia c o le-
opardo a Grécia. O quarto animal, descrito como terrível e espanto-
so, está em paralelo com o quarto metal da estátua do capítulo 2 de
Daniel, o ferro, e representa Roma. Maxwell informa: "Após a morte
de Alexandre, os seus domínios foram divididos em vários reinos grcco-
helenísticos. linquanto isso, Roma se desenvolvia no ocidente, e a seu
devido tempo começou a influenciar os reinos helenísticos. Por volta
de 168 a.C., Roma dominava a região do Mediterrâneo, assumindo a
posição de quarto império da estátua profética".23
Dos anos 351 até 476 d.C, o Império Romano foi minado pelas dez tri-
bos bárbaras, representadas na profecia cia eslátua pelos dedos dos pés e no
capítulo 7 pelos dez chifres do quarto animal. O chifre pequeno, identifica-
do aqui como o papado, surge entre os dez chifres, no sentido de já existir
num estado embrionário desde os dias de Paulo (2 Tessaloniccnses 2:7)
e depois deles, pois só se estabeleceria depois de destruir três dos chifres,
o que só ocorreu no 6" século, como veremos mais adiante.
Mas como o papado já operava nos dias de Pau!o? A história ensina
que o desenvolvimento da grande apostasia que culminou finalmente
com o papado foi um processo lento e gradual que abrangeu vários
séculos. Paulo escreveu: "E que, dentre vós mesmos, se levantarão
DANIEL
122 Segredos da Profecia

homens falando coisas pervertidas para arrastar os discípulos atrás


deles" (Atos 20:30). Essas palavras advertiam sobre uma apostasia du-
rante a qual se revelaria o "homem do pecado" e o "filho da perdição"
(ver 2 Tessalonicenses 2:3-4). Esse poder já atuava nos dias de Paulo,
mas de forma limitada (conferir com o verso 7).
Antes do fim do primeiro século, João também havia advertido:
"Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os espíritos
se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo
mundo fora" (l João 4:1). E acrescentou: "E todo espírito que não con-
fessa a Jesus não procede de Deus; pelo contrário, este é o espírito do
anticristo, a respeito do qual tendes ouvido que vem e, presentemente,
já está no mundo" {I João 4:3). Essas predições advertiam da presença
de forças sinistras que já operavam na igreja, forças que prenunciavam
uma heresia e apostasia de proporções ainda maiores.
Durante os tempos apostólicos cada congregação local escolhia seus
dirigentes e dirigia-se por si mesma (Atos 6:3). O Espírito Santo distri-
buía dons (l Coríntios 12:] 1) e a igreja, o corpo espiritual de Cristo,
era edificada (l Coríntios 14:12). Entretanto, com o passar do tempo e
o esfriamento do amor genuíno, o "primeiro amor" (Apocalipse 2:4), a
igreja apostólica foi perdendo sua pure/a c simplicidade. O poder pes-
soal começou a determinar a eleição de seus dirigentes que primeiro
assumiram maior autoridade dentro da igreja local e depois tentaram
estender sua autoridade sobre as outras igrejas.
A administração local da igreja sob a direção do Espírito Santo fi-
nalmente deu lugar ao autoritarismo eclesiástico de um único magistra-
do, o bispo, a quem cada membro de igreja estava pessoalmente sujeito,
e unicamente por cujo intermédio o crente tinha acesso à salvação.2'1
Em cada cidade os bispos iam senclo nomeados. Aos poucos, a auto-
ridade do bispo da cidade de Roma foi tendo proeminência sobre os
bispos de outras cidades. Isso se deveu a vários fatores. O Comentário
Bíblico Adventista apresenta alguns:
a) Como capital do império e metrópole do mundo civilizado,
Roma era o lugar natural para a sede de uma igreja mundial.

,>"• Comentário bíblico adventista. v. 4, p. 919, 970.


Quatro Animais Estranhos 123

b) A igreja de Roma era a única no Ocidente que pretendia ter sua


origem apostólica, um fato que, naqueles dias, fazia parecer como na-
tural que o bispo de Roma tivesse prioridade sobre os outros bispos.
Roma ocupava uma posição muito honorável até antes do ano 100 d.C.
c) O traslado da capital política de Roma para Constantinopla reali-
zado por Constantino (330 d.C.) deixou o bispo de Roma relativamente
livre da tutela imperial, e desde esse tempo o imperador quase sempre
apoiou as pretensões do bispo de Roma contra as dos outros bispos.
d) Em parte, o imperador Justiniano apoiou fortemente o bispo de
Roma e fez avançar seus interesses por meio de um edito imperial que
reconhecia sua supremacia sobre as Igrejas do Oriente e do Ocidente.
Esse edito não pôde se tornar plenamente efetivo até o declínio do do-
mínio ostrogodo sobre Roma em 538.

Aliado a esses fatores, soma-se a conversão do imperador Constantino,


que vinculou a igreja ao estado e fez dela um instrumento da política
do Estado. Sua reorganização do sistema administrativo do Império
Romano chegou a ser o modelo da administração eclesiástica da igreja
romana e assim da hierarquia católica romana.25
Assim, o papado se desenvolveu dentro do próprio Império
Romano desde os dias de Paulo e se estabeleceu finalmente a partir do
ano 533, com a promulgação do edito de Justiniano,16 e em 538, quan-
do é expulsa a última tribo bárbara que não se submetia à autoridade
papal. Por isso a explicação do anjo a respeito do chifre pequeno surgir
"entre" e "depois" dos dez chifres.
Eckhardt acrescenta: "Sob a potestade do Império Romano os papas
não tinham poder temporário. Mas quando o Império Romano se de-
sintegrou e seu lugar foi ocupado por vários reinos rudes e bárbaros, a
Igreja Católica Romana não só conseguiu sua independência do Estado
no aspecto religioso, mas dominou também no secular. Às vezes, sob go-
vernantes tais como Carlos Magno (768-814), Oton, o Grande (936-973)
e Enrique III (1039-1056). O poder civil teve certo predomínio sobre a

}25
rn Comentário bíblico adventista. v. 4, p. 920
520.
26 Fsse decreto declarava ser o papa "a cabeça de todas as Santas igrejas'!
DANIEL
124 Segredos da Profecia

igreja; mas em geral, durante o débil sistema político do feudalismo, a


igreja, bem organizada, unificada e centralizada, com o papa à sua ca-
beça, não só era independente nos assuntos eclesiásticos, mas também
controlava os assuntos civis".27

2. O chifre pequeno arranca três chifres para se estabelecer (ver-


sos 8, 20 e 24).
A profecia previu que o chifre pequeno chegaria ao pleno domínio
com a derrubada de três dos dez primeiros chifres. Entre os principais
obstáculos para o surgimento de Roma Papal, como poder político, es-
tavam os hérulos, vândalos e ostrogodos. Os três apoiavam o arianis-
mo, que foi o maior rival do catolicismo na época.2ít
Os hérulos foram os primeiros a governar Roma. Eles depuseram, em
476 d.C, o jovem Rômulo Augusto, último imperador do Ocidente, À
frente deles estava Odoacro, que se declarou rei de Roma. Teodorico, líder
dos ostrogodos, foi o seguinte a invadir a Itália. Ele chegou ali em 489, e
em 493 assegurou a rendição de Odoacro para, logo depois, o matar.2''
Assim diz o registro histórico sobre os Hérulos: "Depois da primeira me-
tade do sexto século, no entanto, seu nome desapareceu completamente".30
Nesse mesmo tempo, os vândalos, liderados por Genserico, tinham-se
estabelecido no norte da África e tomado Cartago, em 493 d.C. Eles eram
intolerantes com os católicos, os quais chamavam de hereges. Em defesa dos
católicos surge o imperador Justiniano, que governava a metade Oriental do
império Romano em Constantinopla. Ele enviou Belisário, o mais hábil de
seus generais, que destruiu os vândalos por completo em 534.31
Restavam agora apenas os ostrogodos no caminho do papado.
Belisário veio contra eles na Itália e a guerra durou cerca de 20 anos.

27 ECKHARDT, Cari Conrad. The Papacy and World Affairs, as Reflected in tne Secularization of
Politks. Chicago:The Universityof Chicago Press, 1937, p. 1.
28 Arianismo é uma heresia que teve oiigem com Ario, um sacefdoie de Alexandria que cria quo os evan-
gelhos apresentam o f lho em subordinação ao Pai, como o primeiro ser criado. A essa subordinação deu ele um
sentido absoluto, o que destruía a igualdade das pessoas da Trindade. Daí passou a negar a divindade do fino e a
considerá-l.o uma criatura di? Deus. O concílio de Niceia, conclamado por ConsUintino ern 325, combate essa heiesia
e condena Ario como um herege, e seus ensinamentos como heresias. (Ver Mello, p 748; Feyerabend, p. 122,123).
29 Ver Thomas Hodcjkin, Itply and Her Invaders, v. 3,180-213, apud Comentário bíblico adventista,
v. 4, 910.
30 Encyclopaedia Brittanka, artigo"Sundfly" vol. 21, Chicago: William Benton, 1972.
.•i l Comentário bíblico adventista, v. 4, p. 910.
Quatro Animais Estranhos 125

Finalmente, depois de severas batalhas, os ostrogodos foram expulsos


de Roma em 538 d.C., e o papado ficou livre para expandir seu domínio.
Em 538, o mesmo ano em que ocorre a expulsão dos ostrogodos,
Virgílio, bispo de Roma se torna o primeiro papa com jurisdição tempo-
ral e aí se inicia o período de completo domínio papal, que, segundo o
próprio Daniel, se estenderia por 1.260 anos como veremos mais à frente.

3.0 chifre pequeno possuía "olhos como de homem" e uma "boca


que falava com insolência" e "proferiria palavras contra o Altíssimo"
(versos 8, 20 e 25).
O chifre pequeno possuía "olhos como de homem". Os olhos, sem
dúvida, denotam inteligência e sagacidade.12 O texto também informa
que o chifre pequeno seria um poder blasfemo. Estas palavras insolen-
tes seriam proferidas "contra o Altíssimo" (verso 25). Como o papado
cumpre essa especificação da profecia? O que é blasfémia à luz da Bíblia?
De acordo com Mateus 26:64, 65 c João 10:33, blasfémia é pretender
ser igual a Deus. Os títulos que Roma pagã e papal tcm-se atribuído ao lon-
go da história são como uma espécie de intermediário entre o céu e a terra,
como se fosse representante de Deus e de Cristo. Vejamos alguns exemplos:
O papa Leão XIII escreveu: "O supremo ensinador da igreja c o
pontífice romano. A união das mentes, portanto, requer [...] completa
submissão e obediência à vontade da igreja e ao pontífice romano, como
se fosse ao próprio Deus".™ Ele ainda declarou: "Nós [ou seja, ele próprio
e os outros papas] ocupamos na terra o lugar do Deus Altíssimo".3'1
No Dicionário Eclesiástico Católico lemos: "O papa é de tão grande
dignidade e exaltado que ele é, não um mero homem, mas como se
fosse Deus e substituto de Deus [...] O papa é de tão grande autoridade
e poder que ele pode modificar, explicar e interpretar as leis divinas,
[...] O que quer que seja que Deus ou o Redentor faça, o vigário pode
fazer sem nada contrariar a fé".35

32 SCHWANTÉS, p. 59,
33 Disponível ern: <hltp//wwv/.vatícan.va/holy_failicr/leo_xJJi/encyclicals/docLtmenls/hf_l-xiii_
enc_10011890_sapientiae-cnristíanae_en.html> Acessado em 21 novembro 2013.
34 Encíclica Papal"A Reunião da Cristandade1; datada de 20 de junho de 1894, apud MAXWELL, 1996, p. 131.
35 FERRARI, P K Lucius Prompta Bibliotheca (Handy Library), v. 5 (Paris: J. li Mignc, 1858), Disponível
em: <http://biblelight.net/1825r.gif> e <http://biblelight.net/1829r.gif>
DANIEL
126 Segredos da Profecia

Outra blasfémia mencionada na Bíblia é a pretensão de perdoar pe-


cados (Marcos 2:7). De acordo com os dogmas católicos para que o per-
dão de Deus seja alcançado, o pecador deve se confessar a um sacerdote
e receber dele absolvição. Vejas as declarações a seguir: "Na confissão,
0 sacerdote tem o poder de confessar todos os crimes cometidos depois
do batismo". E mais: "Quando um criminoso confessa seus pecados ao
sacerdote, todos os crimes não são somente perdoados, mas destruídos
e o criminoso se torna uma nova pessoa, um santo".3'1
O Catecismo Romano, falando sobre a necessidade de confissão de
pecados, assim ensina: "A declaração dos pecados ao sacerdote cons-
titui unia parte essencial do sacramento da penitência. Os penitentes
devem, na confissão, enumerar todos os pecados mortais de que te-
nham consciência depois de examinar-se seriamente, mesmo que esses
pecados sejam muito secretos e tenham sido cometidos somente contra
os dois últimos preceitos do decálogo [...]"" Em seguida declara:
"Como Cristo confiou a Seus apóstolos o ministério da reconciliação,
os bispos, Seus sucessores, e os presbíteros, colaboradores dos bispos,
continuam a exercer esse ministério. De fato, são os bispos e os presbí-
teros que têm, em virtude do sacramento da Ordem, o poder de perdo-
ar todos os pecados "em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo".38
Contrariando todas essas afirmações, a Bíblia declara que só
Deus pode perdoar pecados (ver l João 1:9; Hebreus 4:13-16, 8:1,2;
1 Timóteo 2:5; l João 2:1).

4. Cuidará em mudar os tempos e a lei (verso 25).


O que a profecia quer dizer com "mudar os tempos?" A expressão
aramaica aqui é ZIMNIN, termo que denota tempo fixo (ver Daniel
3:7, 8; 4:36; 6:10, 13), ou um período de tempo (ver Daniel 2:16 e 7:12).
Todavia as prerrogativas de mudar os tempos pertencem somente a
Deus, pois só ele tem o destino das nações sob Seu controle. O exa-
to período de tempo que Nabucodonosor, Dario, Ciro, Alexandre, etc,
Quatro Animais Estranhos ! 127

deveriam governar foi determinado por Deus. Daniel 2:2 L declara que
é Ele quem "remove reis e estabelece reis".
Isso quer dizer que "o esforço do chifre pequeno para mudar os
"tempos" indicaria uma tentativa deliberada de exercer a prerrogativa
de Deus de dirigir o curso da história humana".w
Assim como é Deus quem muda os tempos (Daniel 2:21), somente
Ele pode alterar Sua lei, se ela, de fato, pudesse ser alterada. Mas por
ser um transcrito de Seu caráter, a lei, a exemplo dEle, não muda (ver
Malaquias 3:6; Tiago 1:17). É por isso que Jesus afirmou: "Ê mais fácil
passar o céu e a terra, do que cair um til sequer da lei" (Lucas 16:17).
No entanto, a profecia de Daniel falava de um ataque contra a lei
de Deus. O chifre pequeno cuidaria em mudar não apenas "os tempos",
mas também a "lei". Como isso ocorreu na história?
Vamos destacar agora três mudanças efetuadas na lei dos Dez
Mandamentos pelo papado. A primeira delas foi a exclusão do segundo
mandamento. Em dois locais na Bíblia podemos ler os dez mandamentos
de forma unida (Êxodo 20:3-17; Deuteronômio 5:7-21). O segundo man-
damento diz claramente: "Não farás para ti imagem de escultura [...] não as
adorarás [...] nem lhes darás culto" (Êxodo 20:4, 5; Deuteronômio 5:8,9).
Na segunda seção do Catecismo, vemos a transcrição dos dez man-
damentos, como aparece em Êxodo e Deuteronômio, mas na fórmula
catequética, a proibição de adorar imagens de escultura simplesmente
não aparece. Esse segundo mandamento foi extraído completamente do
Catecismo Romano. Tentando explicar o uso de imagens como objetos
de adoração, o Catecismo diz: "Foi fundamentando-se no mistério do
Verbo encarnado que o sétimo Concílio ecuménico, em Niceia (787),
justificou, contra os iconoclastas, o culto dos ícones: os de Cristo, mas
também os da Mãe de Deus, dos anjos e de todos os santos. Ao Se en-
carnar, o Filho de Deus inaugurou uma nova "economia" das imagens
[...] O culto cristão das imagens não é contrário ao primeiro manda-
mento, que proíbe os ídolos. De fato, "a honra prestada a uma imagem
se dirige ao modelo original"."1

Comentário bíblico odventista, v A, p. 91 b.


Catecismo, p. 500, 561.
DANIEL
128 j Segredos da Profecia

Você percebe a verdadeira confusão que é feita? Primeiro o Catecismo


cita vários textos da Bíblia condenando a adoração de imagens, depois,
sem qualquer base bíblica, afirma que Jesus, após Sua encarnação, inau-
gurou uma nova "economia" onde as orientações anteriormente dadas
podem ser contrariadas. Nessa ideia se insere a veneração a Maria, aos
anjos e aos santos. Não queremos nos deter muito nessa questão, mas
basta lermos alguns textos para percebermos que, mesmo após a morte,
ressurreição e ascensão de Jesus, nem Pedro nem os anjos aceitaram ser
adorados, mas dirigiram essa adoração para Deus (ver Atos 10:25, 26;
Apocalipse 22:8, 9). Jesus foi claro nessa questão de adoração: "Então,
Jesus lhe ordenou: Retira-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor,
teu Deus, adorarás, e só a Ele darás culto" {Mateus 4:10).
Com a exclusão do segundo mandamento, que proíbe adorar ima-
gens foi necessário uma manobra, para que a lei não ficasse apenas com
nove mandamentos. Então, se dividiu o décimo mandamento da lei em
dois. Assim lemos no Catecismo Romano:
9" Mandamento: "Não desejar a mulher do próximo".
10° Mandamento: "Não cobiçar as coisas alheias"."1'

MUDANÇA DO QUARTO MANDAMENTO


Outra mudança arbitrária feita pelo papado envolve o quarto man-
damento da lei de Deus. Génesis informa que Deus criou o mundo em
seis dias e, como memorial de Sua criação, descansou no sétimo (Génesis
2:1-3). O primeiro anjo de Apocalipse, que traz o evangelho eterno para
apresentar ao inundo, declara: "Adorai Aquele que fez o céu, e a terra, e
o mar e as fontes das águas" (Apocalipse 14:7). Somente Deus é digno de
ser adorado e para isso abençoou um dia em especial, o sétimo.
O sábado é um memorial cia criação, um dia separado por Deus para
que Suas criaturas O adorem (Isaías 66:22, 23). É também um sinal da
relação de Deus com Seus filhos (Ezequiel 20:12, 20). O próprio Cristo
santificava esse dia (Lucas 4:16, 31), e Ele mesmo deixou claro que Sua lei
não poderia ser mudada (Mateus 5:17, 18). Após Sua morte os discípulos
continuaram a santificar o sábado (Lucas 23:54-56; Atos 16:13; 17:2; 18:4).
Quatro Animais Estranhos 129

A mudança do quarto mandamento operada pelo papado foi um


processo lento e gradual na história. A igreja romana admite aberta-
mente a responsabilidade de introduzir a adoração no domingo em
lugar do sábado, afirmando que tem o direito de fazer tais mudanças.
Como evidência desse fato podemos mencionar uma tese doutoral que
recebeu o imprimatur do Vaticano. O Dr. Samuele Bacchiocchi, falecido
em 2008, foi o primeiro não católico a se formar na Pontifical Gregorian
University, em Roma, tendo recebido uma medalha de ouro do papa
Paulo VI por conquistar a distinção académica summa cum laude por
sua tese: From Sabbath to Sunday: A Historical Jnvestigation of the Rise
ofSunday Observance in Early Christianity (Do sábado para o domingo:
Uma investigação histórica do surgimento da observância do domingo
no cristianismo primitivo). Bacchiocchi pesquisou durante cinco anos
e mostrou que não há evidência bíblica para mudança ou eliminação do
sábado como dia de guarda. Ele ainda apontou três fatores principais para
essa mudança histórica: (a) o sentimento anti-judaísmo já vivenciado
no segundo século da Era Cristã, (b) o culto pagão ao Sol realizado no
primeiro dia da semana e (c) o papel preponderante da Igreja Católica.'12
Nesse processo histórico um imperador romano vai desempenhar
papel fundamental. Estamos falando de Constantíno.43 Após sua aceita-
ção do cristianismo, ainda que nominal, promulgou o primeiro decreto
dominical da história. Veja o texto a seguir:
"Devem os magistrados e as pessoas residentes nas cidades repou-
sar, e todas as oficinas ser fechadas no venerável dia do sol. Aos que
residem no campo, porém, permita-se o entregarem-se livremente aos
misteres da sua lavoura, porque é muito frequente não haver dia mais
apropriado para se proceder à semeadura de cereais e ao plantio de
vinhas; tememos que, pela negligência do momento apropriado para
tais operações, as bênçãos celestiais sejam perdidas."'14

•12 BACCHIOCCHI, Samuele. From Sabbath to Sunday: A Historical Investigation of the Rise of
Sunday Observance in Early Christianity. líomc;Tho Pontifical Gregorian University Press, 1977, p. 165-259.
Esta tese doutoral foi publicada pela gráfica da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma.
43 Constantino (288-337 d.C.) foi o primeiro imperador a tornar-se cristão e a religião cristã tornou-so
oficial em seu governo.
44 Promulgado em 07 de março de 321. Codex Justiníanus, livro 3, Tu. 12,13;Traduzido por Philip
Schaff, cm History of the Christian Church, v. 3,1902, p, 380.
DANIEL
130 Segredos da Profecia

A legislação iniciada por Constantino é assim comentada por duas


enciclopédias:
"O mais antigo reconhecimento da observância do domingo como
uma legislação legal é a constituição de Constantino, de 321 d.C., de-
cretando que todas as cortes de justiça, habitantes de cidades e oficinas,
repousem no dia do sol (venerabili die solis), exceção feita apenas àque-
les que estivessem ocupados em trabalho de agricultura".45
"Inquestionavelmente, a primeira lei, seja eclesiástica ou civil, pela
qual a observância sabática é conhecida como havendo sido ordenada,
é o edito de Constantino, de 321 d.C."'16
Mas essa legislação não tinha muita relação com o cristianismo.
Porém, mais tarde, a própria igreja romana arrolaria em seu credo
a confissão do domingo como o dia a ser observado pelos cristãos.
O concílio de Laodiceia, em 364 decidiu:
"Os cristãos não devem judaizar e estar ociosos no sábado, mas
devem trabalhar nesse dia; porém, o dia do Senhor devem honrar es-
pecialmente, e, sendo cristãos, não deverão, se possível, fazer nenhum
trabalho nesse dia. Se, contudo, forem achados judaizando, serão sepa-
rados de Cristo".47
O Código de Direito Canónico, promulgado em 1917, conhecido
como código pio-beneditino, passou a formar um corpo único e autêntico
para toda a Igreja Católica de rito latino. Ele assim orienta: "No domingo
e nos outros dias festivos de preceito os fiéis têm obrigação de participai-
na Missa; abstenham-se ainda daqueles trabalhos e negócios que impe-
çam o culto a prestar a Deus, a alegria própria do dia do Senhor, ou o
devido repouso do espírito e do corpo".'lf!
Para se manter diante de todos os católicos a devoção que se deve
ter para com o domingo e principalmente para provocar um reaviva-
mento na guarda do domingo, o papa João Paulo II publicou em 31
de maio de 1998 uma carta apostólica chamada Dies Domini (Dia do
Senhor). Ele escreveu:

45 Encyclopaedia Brittanica, artigo"Sunday", v. 21.


46 Chamber'5 Encyclopaedia, v. VIII, arL."Sabbaih". Philadelphía: J. B. Lippincotl & CO, 1870.
47 Disponível em: <http://www.newadvent.org/fr)ther5/380ó.hUTi>. Acessado em: 28 julho 2013.
'IS Código do Direito Canónico. Cânon 1247. Disponível em- <http://www.vatican.va/archive/cod-
-iijris-canonici/ponu(jiipse/codex-iuris-canonici_po.pdf>
Quatro Animais Estranhos 131

"Os cristãos [...] assumiram como festivo o primeiro dia depois do


sábado, porque nele se deu a ressurreição do Senhor [...j Aquilo que
Deus realizou na criação e o que fez pelo Seu povo no Êxodo, encon-
trou na morte e ressurreição de Cristo o seu cumprimento, embora este
tenha a sua expressão definitiva apenas na parusia, com a vinda glorio-
sa de Cristo. Nele se realiza plenamente o sentido "espiritual" do sábado
[...] Do "sábado" passa-se ao "primeiro dia depois do sábado", do sétimo
dia passa-se ao primeiro dia: o dies Domirii torna-se o dies Christi\".'l<J
Assim percebemos ao longo de milénios como o chifre pequeno
attiou para mudar a santa lei de Deus. Hoje a santidade do domingo é a
crença mais popular compartilhada por católicos e protestantes, ambas
considerando o domingo como "dia do Senhor" em homenagem à res-
surreição de Cristo, mesmo não havendo um único texto na Bíblia que
aprove tal conceito.50

5. Fará guerra contra os santos, magoará os santos do Altíssimo e


os santos lhes serão entregues nas mãos por um tempo, dois tempos
e metade de um tempo (versos 21 e 25).
O poder representado pelo chifre pequeno também investiria con-
tra os fiéis de Deus, chamados "santos do Altíssimo" na profecia (versos
22 e 25). Essa perseguição aos santos foi uma continuidade das cruel-
dades e injustiças que sempre infligiram ao povo de Deus. Os apóstolos
morreram como mártires,51 os cristãos cios três primeiros séculos, até o
Edito de tolerância de Milão, assinado pelo imperador Constantiiio em
313 d.C., também sofreram cruéis perseguições.52
Os séculos da Idade Média ou Idade Escura testemunhariam enormes
perseguições e o povo de Deus teve que se ocultar nas montanhas, cavernas
e ermos da terra. No ano de 1232 foi instituída pelo papa Gregório IX a as-
sim chamada "Santa Inquisição" que vigorou ate 1859, quando o papado

49 Papa João Paulo II, Carta apostólica Dies Domini. São Paulo: Paulinas, 2002, p. 20, 21.
50 Para um estudo detalhado sobre a santidade do sábado na liíblia, ver Alberto R Timm, O sábado
na Bíblia.Taluí, SP: Casa Publicadora Brasilelr;j, 2011.
51 John Foxe relata em sua obra queTomé foi morto na índia por uma flechada; Marcos morreu numa
fogueira no Egito; André foi crucificado por F.géias; Mateus foi traspassado por uma lança; Felipe foi cruci-
ficado e apedrejado até a morlc na Frigia; Tiago foi apedrejado e depois golpeado na cabeça até a morte.
Ver John Foxc, O livro dos mártires. São Paulo: Mundo Cristão, 2003, p. 17-21.
52 GONZÁLEZ, Justo L. Uma história ilustrada do cristianismo. A ora dos mártires, v. l, p. 1 76.
DANIEL
132 Segredos da Profecia

extinguiu definitivamente o Tribunal do Santo Ofício.3-1 Esse papa toma


para si a responsabilidade de perseguir os hereges que começavam a inco-
modar os alicerces da Igreja Católica. Para se obter uma confissão se usava
a tortura que era seguida do julgamento, e a última etapa era o auto-da-fé.
O Dr. Stanger explica: "Os que eram condenados a penas leves - como
cárcere e hábito penitenciai perpétuo, bem como a flagelação - caminha-
vam com uma vela nas mãos. Na frente do cortejo seguiam-se os condena-
dos à morte, entregues à justiça civil para serem queimados vivos. Eis um
aspecto interessante. Por ser um tribunal eclesiástico o Santo Ofício não
podia executar seus condenados, ou seja, aos olhos de Deus não era a igreja
quem matava, pois a esta cabia apenas julgar. A decisão de fazer valer o jul-
gamento cabia à justiça dos homens e esses é que teriam que acertar com o
lodo-Poderoso, caso não fizessem valer a determinação do Santo Ofício."5I
Cerca de 20 anos depois do estabelecimento do tribunal do Santo
Ofício, o papa Inocêncio IV, em sua bula "Ad Extirpando" de 1252 escre-
veu: "Quando os que forem decretados culpados de heresia tenham sido re-
metidos ao poder civil pelo bispo ou seu representante, ou pela Inquisição,
o poder ou magistrado principal da cidade toma-los-á imediatamente, e
dentro de cinco dias no máximo, executará as leis feitas contra eles". Essa
bula "passou a ser desde então um documento fundamental da Inquisição,
renovado ou reforçado por papas, tais como Alexandre IV (1254-1261),
Clemente IV (1265-1268), Nicolau IV (1288-1292), Bonifácio VIII (1294-
1303), e outros. As autoridades civis, portanto, foram intimadas pelos pa-
pas, sob pena de excomunhão, a executar as sentenças legais que conde-
nassem os hereges impenitentes à morte pelo fogo".55
Essa perseguição aos santos perdurou por séculos e foi direcionada
a todos os que ousaram discordar dos ditames de Roma, especialmente
os Vaídenses, Albigenses e Huguenotes, que na noite de São Bartolomeu,
na França (24 de agosto de 1572), foram arrancados de dentro de suas

53 STANGER, Cclio Roberto. Da inquisição à liberdade religiosa no raiar do novo milénio. Vitória,
ES: Gráfica Sodrc, 2001, p. 141.
54 tbidem, p. 145.
55 BLOZER, J, "Inquisition" The Catholic Encyclopedía. Disponível ern: <http:/Avww.no wadvent.
orq/cathen/08026a.him> Acessado ern 24 novembro 2013. A Bula "Ad Extirpando", do papa Inocêncio IV,
est.i disponível em; <http^/rwwvv.documentacotholicaomnia. eu/01 p/1252-05-15,_SSJnnocentiusJV,_
Bulla_%27Ad_Extirpanda%27,_F:N.pdf>
Quatro Animais Estranhos 133

casas e assassinados em praça pública. Segundo Ellen G. White, em cer-


ca de dois meses, 70.000 foram mortos, da legítima flor da nação.56
Mas essas perseguições aos santos do Altíssimo não perdurariam
para sempre. Foi dito a Daniel que o chifre pequeno atuaria por um
tempo, dois tempos e metade de um tempo. Vejamos em qual período da
história essa profecia se encaixa.

UM TEMPO, DOIS TEMPOS E METADE DE UM TEMPO


Anteriormente afirmamos que existem duas profecias em Daniel que
indicam a chegada do "tempo do fim": O período de domínio do chifre
pequeno (Daniel 7:25) e a profecia da purificação do santuário, no fim
das 2.300 tardes e manhãs (Daniel 8:14). Vamos agora analisar a primeira.
A profecia estabeleceu que o poder representado pelo chifre peque-
no, o papado, dominaria por um tempo, dois tempos e metade de um
tempo (Daniel 7:25).57 Considerando que na mensagem profética do
livro de Daniel "tempo" corresponde a "ano" (ver Daniel 11:13), temos
aqui três tempos e meio, ou seja, três anos e meio. Considerando ainda
que, de acordo com Apocalipse 11:3; 12:6, 14; e 13:5, o ano profético
contém 360 dias, três tempos e meio seriam o produto de 3,5 X 360,
isto é, 1260 dias.
Considerando ainda que, na profecia de género apocalíptico, um dia
profético equivale a um ano literal (ver Números 14:34 e Ezequiel 4:6,7),
1260 dias (três tempos e meio) são na realidade 1260 anos. Esse período
se situa na história, dos anos 538 d.C. até 1798 d.C. Mas quais são os
eventos que assinalam o início e o fim desse período?
A consolidação de Roma Papal teve início em 533, quando Justiniano
promulgou um edito onde confirmava legalmente o bispo de Roma,
João II, como "cabeça de todas as igrejas" Assim rezava o decreto:
"Com honra à Sé Apostólica, e a vossa Santidade, que é, e sem-
pre tem sido lembrado em nossas orações, agora e anteriormente,

56 WHITE, Ellen G. O grande conflito. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1988, p. 272.
57 Algumas versões da Bíblia trazem Daniel 7:25 assim:",, um tempo, tempos e metade de um tempo".
Doukhan explica que o aramaico entende a forma plural indefinida "tempos" como um plural de dualida-
de (ou seja, "dois tempos"), somando assim um período de três anos e meio, ou seja, 1.260 dias, já que o
ano judaico, igual ao ano babilónico, segue o calendário lunar e consta de 360 dias. Ver mais detalhes em
DOUKHAN, Jacques B. Secretos de Daniel. Buenos Aires: Asociación Casa Editora Sudamericana, 2011, p. 109.
DANIEL
134 Segredos da Profecia

e honrado vossa prosperidade, como é próprio no caso de alguém que


é considerado como pai. Nós nos apressamos em trazer ao conheci-
mento de Vossa Santidade tudo o que se refere à condição da igreja, [...]
Portanto, nós nos temos empenhado em unir todos os sacerdotes do
Oriente, e sujeitá-los à Sé de Vossa Santidade, e, portanto as questões
que até o presente têm-se levantado, embora sejam manifestas e fora de
dúvida, e, de acordo com a doutrina de vossa Sé Apostólica, e constan-
te e firmemente observado e pregado por todos os padres, nós temos
ainda considerado necessário que devessem ser trazidas à atenção de
Vossa Santidade. Porque nós não toleramos nada que tem referência
ao estado da igreja, mesmo embora o que causa dificuldade, talvez seja
claro e fora de dúvida, para ser discutido sem ser trazido à notificação
de Vossa Santidade, porque vós sois a cabeça de todas as Santas igrejas,
porque nós nos empenhamos por todos os meios (como já tem sido
declarado}, aumentar a honra e a autoridade de Vossa Sé".5a
Ainda que esse decreto tenha sido promulgado em 533, a consolida-
ção do papado só foi possível quando ocorreu a expulsão da última tribo
antagónica ao papado, ou seja, os ostrogodos. Isso ocorreu somente em
538 e Virgílio, bispo de Roma é o primeiro papa com jurisdição tempo-
ral. A partir deste ano, 538, inicia-se o período de completo domínio
papal que, segundo o próprio Daniel, se estenderia por 1.260 anos. Se
contarmos 1.260 anos a partir de 538 chegaremos a 1798. O que ocorreu
nesse ano que possa assinalar o fim do domínio temporal do papado?
Em janeiro de 1798, o general Berthier, que substituía José
Bonaparte no comando do exército da Itália, recebeu instruções para
prender o papa. Assim narra o historiador:
"A 10 de fevereiro surgiu com o exército junto à cidade eterna, onde
entrou no dia seguinte com 9.000 homens. A 15 de fevereiro foi plantada
no Capitólio uma árvore da liberdade e o general Berthier, depois de ter
feito redigir por cinco notários um documento em que o povo romano se
declarava livre, compareceu também no Capitólio com todo o seu Estado
Maior [...] foi comunicar brutalmente ao papa, que então contava perto de
80 anos, que o povo romano tinha proclamado a sua independência e já
Quatro Animais Estranhos 135

não o reconhecia como soberano político. Tiram ao pontífice a sua guar-


da suíça e oferecem-lhe o laço tricolor da nova república. Renunciando
espontaneamente ao domínio temporal, o papado poderia conservar a
dignidade espiritual e a república francesa garantir-lhe-ia uma pensão de
300.000 francos. Caso contrário, isto é, se se recusasse a abdicar, privá-lo-
iam de tudo, inclusive da liberdade individual. O papa não quis abdicar,
e a 18 de fevereiro Haller voltou ao Vaticano, Sem se descobrir, entrou
na sala onde o papa estava a almoçar e exigiu-lhe a entrega de suas jóias.
Tirou-lhe do dedo dois anéis preciosos e intimou-o a preparar-se para
deixar o palácio e a cidade de Roma. Como o papa pedisse que o deixas-
sem morrer na capital do mundo cristão, foi-lhe respondido: 'Podeis ir
morrer em qualquer outro sítio. Ou partis espontaneamente ou ireis à
força. Escolhei' Na manhã de 20 de fevereiro foram buscá-lo no Vaticano,
metendo-o à pressa numa carruagem, que o levou a Siena, onde ficou
provisoriamente alojado no convento dos Agostinhos"/'1'
Posteriormente Pio VI foi levado a Florença e no ano seguinte trans-
portaram-no para Grenoble e afinal para a cidade de Valença, França,
onde morreu em 29 de agosto de 1799. Assim terminava a supremacia
de 1260 anos justamente em 1798. Cumpriam-se mais uma vez com
exatidão as palavras do profeta Daniel e chegara ao fim a longa e terrí-
vel Idade Média quando os filhos sinceros de Deus foram perseguidos
e mortos. Dessa forma o ano de 1798 assinala a primeira data para a
chegada do tempo do fim, quando só então a parte profética do livro de
Daniel, que não fora compreendida, seria revelada.

6. Seu domínio seria tirado por um tribunal e seria consumido


até o fim (verso 26),
A profecia agora informa que depois do período de domínio do
chifre pequeno (538 a 1798) seu poder seria tirado por um tribunal.
Assim diz o texto: "Eu olhava e eis que esse chifre fazia guerra contra os
santos e prevalecia contra eles, até que veio o Ancião de Dias e fez justi-
ça aos santos do Altíssimo; e veio o tempo em que os santos possuíram

59 ONCKEN, G. História universal, v. XIX, p. 80<1, 805, apud MELLO, Araceli S. A verdade sobre as
profecias do Apocalipse. Srio Paulo; Gráfica e Editora EDIGRAF, 1959, p. 340, 341.
DANIEL
136 Segredos da Profecia

o reino [...] Mas, depois, se assentará o tribunal para lhe tirar o domí-
nio, para o destruir e o consumir até ao fim. O reino, e o domínio, e a
majestade dos reinos debaixo de todo o céu serão dados ao povo dos
santos do Altíssimo [...]" (Daniel 7:21, 22, 26 e 27).
No final da história o domínio que por séculos estivera nas mãos
do papado (chifre pequeno) será dado ao povo de Deus, aos santos do
Altíssimo. Daniel 7 muda para uma cena de juízo. Já nos versos anterio-
res essa cena havia sido introduzida. Vejamos o texto:
"Continuei olhando, até que foram postos uns tronos, e o Ancião
de Dias Se assentou; Sua veste era branca como a neve, e os cabelos da
cabeça, como a pura lã; o Seu trono eram chamas de fogo, e suas rodas
eram fogo ardente. Um rio de fogo manava e saía de diante dEle; milha-
res de milhares O serviam, e miríades de miríades estavam diante dEle;
assentou-se o tribunal, e se abriram os livros" (Daniel 7:9, 10).
Daniel vê uma cena de juízo, uns tronos sendo postos e o Ancião de
Dias assentado. Em seguida o tribunal se assenta e livros são abertos. O
que significa essa visão? Quando ela ocorre?
As visões dadas aos profetas tinham um fim didático. João, por
exemplo, em uma visão da segunda vinda de Cristo, viu Jesus senta-
do sobre um cavalo branco e Suas vestes estavam cingidas com man-
to tinto de sangue e de Sua boca saía uma espada afiada para ferir as
nações (Apocalipse 19:11-15). Obviamente, quando Jesus voltar não
esperamos vê-Lo vestido assim, e muito menos montado em um cava-
lo. Entretanto, cada um desses elementos tem um valor didático.60 Na
visão de Daniel podemos ver nas "vestimentas brancas" um símbolo de
pureza e perfeição; nos "cabelos brancos" vemos um símbolo de idonei-
dade, autoridade patriarcal e sabedoria.1'1
O texto também informa que "milhares de milhares o serviam".
Esses são os anjos celestiais que ministram diante do Senhor e cum-
prem sempre Sua vontade (Apocalipse 5:11). Os anjos desempenham
uma parte importante no julgamento. Assim, o Ancião de Dias, que é
servido pelos anjos, é uma clara referência a Deus o Pai/'2

60 Comentário bíblico adventista, v. A. p. 912.


6 Í FfiVERABEND, Henry. Daniel verso por verso. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, ?005, p. 124.
6? Comentário bíblico adventista, v. <1, p. 911.
Quatro Animais Estranhos 137

Quanto ao tribunal se assentar, a Daniel foi revelado o julgamento


final em seus dois aspectos: investigativo e executivo. Na fase investi-
gativa do juízo se lança mão dos livros de registros para que, com base
neles, se efetue o juízo. Daniel viu: "assentou-se o tribunal, e se abriram
os livros" (Daniel 7:10). Em Apocalipse 20:12 lemos: "Vi também os
mortos, os grandes e os pequenos, postos em pé diante do trono. Então,
se abriram livros. Ainda outro livro, o Livro da Vida, foi aberto. E os
mortos foram julgados, segundo as suas obras, conforme o que se acha-
va escrito nos livros". Esses livros e também o Livro da Vida são usados
para registrar todas as obras praticadas pelos homens.
O Livro da Vida contém os nomes de todos aqueles que um dia en-
traram para o serviço de Deus. Jesus disse aos discípulos: "Alegrai-vos,
não porque os espíritos se vos submetem, e sim porque o vosso nome
está arrolado nos Céus" (Lucas 10:20). Paulo fala de seus fiéis coope-
radores, "cujos nomes se encontram no Livro da Vida" (Filipenses 4:3).
Daniel, olhando através dos séculos para um "tempo de angústia, qual
nunca houve", escreveu que Deus salvará "todo aquele que for achado
inscrito no livro" (Daniel 12:1). E João, no Apocalipse, diz que apenas
entrarão na cidade de Deus "os inscritos no Livro da Vida do Cordeiro"
(Apocalipse 21:27).
O profeta Malaquias também acrescenta: "Então aqueles que te-
miam ao Senhor falavam uns aos outros; o Senhor atentava e ouvia,
havia um memorial escrito diante dEle, para os que temiam ao Senhor
e para os que se lembram do Seu nome" (Malaquias 3:16). Ellen G.
White escreveu: "No livro memorial de Deus toda ação de justiça se
acha imortalizada. Ali, toda tentação resistida, todo mal vencido, toda
palavra de terna compaixão que se proferir, acham-se fielmente histo-
riados. E todo ato de sacrifício, todo sofrimento e tristeza, suportado
por amor a Cristo, encontra-se registrado"/0
Isso quer dizer que todas as obras praticadas pelos homens um dia
virão a juízo. É isso mesmo que Jesus ensinou quando disse: "Porque
o Filho do Homem há de vir na glória de Seu Pai, com os Seus anjos,
e, então, retribuirá a cada um conforme as suas obras (Mateus 16:27).

61 Wl IITE, Ellen G. Cristo em Seu santuário. Irfluí, SP: Casa Publif.idora Brasileira, 19flR, p.
DANIEL
138 Segredos da Profecia

Jesus também disse que seremos julgados por nossas palavras: "Digo-
vos que de toda palavra frívola que proferirem os homens, dela darão
conta no Dia do Juízo" (Mateus 12:36).
Já na fase executiva do juízo podemos ver que chegou a hora do
chifre pequeno ser julgado por tudo que fez, principalmente contra
os santos do Altíssimo. A visão continua: "Eu estava olhando nas mi-
nhas visões da noite, e eis que vinha com as nuvens do céu um como o
Filho do Homem, e dirigiu-Se ao Ancião de Dias, e O fizeram chegar
até Ele. Foi-Lhe dado domínio, e glória, e o reino, para que os povos,
nações e homens de todas as línguas O servissem; o Seu domínio é
domínio eterno, que não passará, e o Seu reino jamais será destruído
(Daniel 7:13, 14). Quem é este que Se aproxima do Pai, o Ancião de
Dias? E quando esse evento ocorre?
A expressão "um como o Filho do Homem" é uma referência direta
a Jesus. Foi através da encarnação, que o Filho de Deus tomou sobre
Si a forma humana (João 1:1-4, 12, 14; Filipenses 2:7; Hebreus 2:14), e
chegou a ser o Filho do Homem (ver Marcos 2:10), unindo assim a Sua
divindade com a nossa humanidade com um laço que nunca mais se
partirá. Assim os pecadores arrependidos têm como seu representante
ante o Pai a um como eles mesmos, um que foi tentado em tudo como
o são eles e que Se comove por suas fraquezas (Hebreus 4:15).
Onde e quando se dá essa cena de Jesus vindo ao Pai? A julgar pe-
los símbolos e imagens fornecidos pelo texto, o julgamento não ocorre
na Terra, mas no céu.6'1 Quanto à data, se o juízo se assenta para, entre
outras ações, tirar o domínio do chifre pequeno, então deve ser numa
data posterior a 1798, pois aí devia terminar o período de domínio do
chifre pequeno, como já vimos.
No próximo capítulo iremos estudar a profecia das 2.300 tardes e
manhãs (Daniel 8:14), e veremos que no fim desse período ocorreria a
purificação do santuário, que era um dia de juízo em Israel e simbolizava
uma nova fase no ministério de Cristo no santuário celestial. De fato, esse
é o clímax da profecia do capítulo sete. Enquanto o profeta testemunha
animais e chifres, repetidas vezes a cena se volta para um tribunal e é dada
Quatro Animais Estranhos 139

a certeza de que o juízo irá começar, o chifre pequeno será aniquilado e o


reino será dado aos santos do Altíssimo (ver 7:9-14, 18,22,26 e 27).
Esse assunto é de suprema importância para todos nós, pois nosso
caso está sendo julgado neste exato momento e precisamos suplicar que
Jesus interceda em nosso favor. Elleii G. White escreveu:
"O mais profundo interesse manifestado entre os homens nas deci-
sões dos tribunais terrestres não representa senão palidamente o inte-
resse demonstrado nas cortes celestiais quando os nomes insertos nos
livros da vida aparecerem perante o Juiz de toda a Terra. O Intercessor
divino apresenta a petição para que sejam perdoadas as transgressões
de todos os que venceram pela fé em Seu sangue, a fim de que sejam
restabelecidos em seu lar edênico, e coroados com Ele como coerdei-
ros do "primeiro domínio" (Miqueias 4:8). Satanás, em seus esforços
para enganar e tentar a nossa raça, pensara frustrar o plano divino na
criação do homem; mas Cristo pede agora que este plano seja levado a
efeito, como se o homem nunca houvesse caído. Pede, para Seu povo,
não somente perdão e justificação, amplos e completos, mas participa-
ção em Sua glória e assento sobre o Seu trono.65
Qual será nossa atitude diante da verdade de que há um juízo ocor-
rendo? Buscaremos colocar nosso caso nas mãos do Advogado que
nunca perdeu uma causa, Jesus?

CONCLUSÃO
Após uma análise dos fatos históricos percebemos que Isaac Newton
tinha razão em apontar o papado como sendo o poder representado
pelo chifre pequeno de Daniel 7. Esta visão é partilhada mesmo por au-
tores católicos, como Eberhard II (1200-1246), arcebispo de Salzburgo
e o jesuíta português, Blasius Viegas (1554-1559)/'6
Um cuidadoso estudo da operação do propósito de Deus na

história das nações e na revelação das coisas por acontecer,

nos ajudará a estimar no seu verdadeiro valor as coisas

visíveis e as invisíveis, e a aprender o que é o verdadeiro

alvo da vida. Assim, considerando os acontecimentos

do tempo à luz da eternidade, podemos, como Daniel e

seus companheiros, viver pelo que é verdadeiro, nobre e

perdurável E aprendendo nesta vida os princípios do reino

de nosso Senhor e Salvador, esse abençoado reino que deve

durar para todo o sempre, podemos estar preparados em

Sua vinda para com Ele entrar em sua posse

(Profetas e Reis, 548).


A VI SÃO DO
CARNEIRO E DO BODE
(TERCEIRA VISÃO PROFÉTICA)

Passados cerca de dois anos depois da visão do capítulo 7, Daniel


recebeu sua terceira visão conforme registrada no capítulo 8 de seu
livro. Novamente, animais surgem na cena profética e mais uma vez
representam nações que lutavam pelo poder. Daniel declara: "pare-
ceu-me estar eu na cidadela de Susã, que é província de Elão, e vi que
estava junto ao rio Ulai" (Daniel 8:2). É provável que Daniel não esti-
vesse lá fisicamente, mas fora levado ao local em visão. Há na Bíblia
outros exemplos de profetas sendo arrebatados em visão, mas que não
foram transpostos na realidade para tais localidades (ver Ezequiel 8:3;
Apocalipse 17:3).

VISÃO DO CARNEIRO E DO BODE


Dois animais aparecem na visão do capítulo 8, um carneiro e um
bode. Neste ponto do nosso estudo, seria bom compreendermos que o
tema aqui tratado tem como pano de fundo o santuário terrestre, que
foi construído por Moisés quando o povo de Israel foi tirado do Egito.
Uma vez ao ano, no dia da expiação, estes dois animais participavam
do ritual de perdão e purificação do povo de Deus (ver Levítico 16:5).
O primeiro animal visto por Daniel foi um carneiro. O verso 3 in-
forma que o chifre "mais alto subiu por último". Reconhecendo que a
DANIEL
H2 Segredos da Profecia

profecia é uma verdade que se amplia, precisamos destacar o paralelo


que existe entre os capítulos 7 e 8 em nossa interpretação profética.
No capítulo 7 temos um animal semelhante ao urso que "se levan-
tou sobre um de seus lados" (Daniel 7:5), assim como esse chifre do
carneiro. Se no capítulo 7 esse urso representa os Medos e os Persas,
sendo que os Persas assumem o poder por último, com Ciro, o mesmo
se dá aqui com o carneiro.1 O anjo Gabriel foi muito claro em dar essa
interpretação a Daniel. Ele disse; "Aquele carneiro com dois chifres, que
viste, são os reis da Média e da Pérsia" (Daniel 8:20).
O segundo animal visto por Daniel foi um bode. Continuando nos-
so paralelo com o capítulo 7, é lógico supor que o bode representa o
reino da Grécia, que venceu a Média-Pérsia. O fato do bode não tocar
o chão está em paralelo com as quatro asas do leopardo (Daniel 7:6),
significando a velocidade com que os gregos dominariam o mundo.
Quanto ao "chifre notável entre os olhos" só pode ser uma referência
ao principal líder dos gregos, Alexandre, o Grande, e suas notáveis con-
quistas. O anjo Gabriel mais uma vez confirma essa interpretação ao
declarar que "o bode peludo é o rei da Grécia; o chifre grande entre os
olhos é o primeiro rei" (Daniel 8:21).
A profecia revela que uma batalha mortal foi travada entre os dois
animais. A Média-Pérsia (representada pelo carneiro), foi vencida pela
Grécia de Alexandre (representada pelo bode). A história confirma que
Alexandre travou três batalhas até vencer Dario III, rei da Média-Pérsia.
A primeira foi a batalha de Grânico, no ano 334 a.C; a segunda foi a
de Issos, no ano 333 a.C.; e a última, no ano 331 a.C., foi a batalha de
Arbela ou Gaugamela.2 Assim, o ano 331 a.C. assinala o fim do Império
Medo-Persa e o início do domínio de Alexandre, o Grande.
No entanto, a profecia revela que algo aconteceria com o chifre notá-
vel: "O bode se engrandeceu sobremaneira; e, na sua força, quebrou-se-
lhe o grande chifre, e em seu lugar saíram quatro chifres notáveis, para
os quatro ventos do céu" (Daniel 8:8).

1 Os medos eram mais poderosos que os persas e desde o 9° até o 7° século a.C, resistiram fortemente
aos inimigos. Mas foi com Ciro que os persas chegaram a ser mais fortes que os medos. Ver mais detalhes em:
SHEA, William H. Daniel: Una guia para el estudioso. Buenos Aires, Asociación Casa Editora Sudamericana,
2010, p.'74.
2 CASTRO, p. 124
A Visão do Carneira e do Bode 143

O grande chifre representa Alexandre, o Grande, que após sua mor-


te (quebrou-se-lhe o grande chifre), foi sucedido por quatro generais
(quatro chifres notáveis), Ptolomeu, Lisímaco, Selêuco e Cassandro.3
Após o período dos quatro generais, surge mais uma vez na profe-
cia o poder representado pelo chifre pequeno (comparar Daniel 7:8, 20
com 8:9). A mesma expressão de Daniel 7:8 aparece aqui no capítulo
8:9: "chifre pequeno" Precisamos aqui fazer uma observação funda-
mental. No capítulo 2 de Daniel, cada império foi representado por um
metal, com exceção do quarto império. As pernas eram de ferro (Roma
Imperial) e os pés de ferro e barro (Roma Papal). Quando chegamos
ao capítulo 7, aparecem quatro animais ou bestas, uma para cada im-
pério, mas novamente temos dez chifres e um chifre pequeno. Assim,
temos Roma, em duas fases, pagã (Roma Imperial) e religiosa (Roma
Papal) que atuaria contra Deus e Seu povo. De fato, Roma Papal é a
continuidade da Roma Imperial, o que pode ser atestado pelo fato de
que o bispo de Roma se senta na cadeira do Imperador e assume seu
título (pontifex maxitnus), na conservação dos deuses romanos, onde se
tornaram "santos" com nomes cristianizados, na manutenção da língua
latina para versão oficial das Escrituras (Vulgata Latina) e nas celebra-
ções das missas no idioma latino.4
Alguns têm questionado de qual parte do domínio grego, agora di-
vidido pelos quatro generais, teria vindo o chifre pequeno. No entanto,
uma explicação se faz necessária. A expressão "de um dos chifres saiu..."
(Daniel 8:9) não está bem traduzida em algumas versões bíblicas. No ori-
ginal hebraico está escrito assim: "De um deles...", e não aparece a palavra
"chifre". Isso quer dizer que o chifre pequeno se origina de um dos "qua-
tro ventos do céu" (substantivo plural mais próximo - Daniel 8:8), e não
de um dos "chifres" (ver Zacarias 6:5,6). Os ventos simbolizam os pontos
cardeais (Norte, Sul, Leste e Oeste), e de um deles viria o chifre pequeno.5
O texto bíblico informa cinco atividades que o poder do chifre
pequeno faria, que é o mesmo rei de "feroz catadura" de Daniel 8:23.
DANIEL
Segredos da Profecia

Estas ações, segundo Hernández,6 podem ser distinguidas em duas


direções: crescimento horizontal {conquistas políticas) e crescimento
vertical (conquistas religiosas).

CRESCIMENTO HORIZONTAL (ROMA IMPERIAL)

a) Se tornou forte para o Sul, para o Oriente e para a terra gloriosa


(Daniel 8:9).
Roma, uma pequena república fundada em 753 a.C., começou sua
expansão em 334 a.C., crescendo para o Sul, quando conquista toda
a península itálica e todas as ilhas do Mar Mediterrâneo. No ano 202
a.C., conquistou Cartago, na África, ao extremo sul do mundo conhe-
cido. No ano 168 a.C., Roma foi considerada Império ao conquistar
a península grega, a Macedônia, Ásia Menor e Síria, o que representa
seu crescimento em direção ao Oriente. Faltava agora o crescimento
em direção ao Norte, ou "terra gloriosa" (Daniel 8:9). Essa profecia se
cumpre quando Roma imperial conquista a Gália, a Britânia e estende
seus limites por todo o continente.

CRESCIMENTO VERTICAL (ROMA PAPAL)

b) Cresceu até atingir o "exército dos céus" e lançou algumas "es-


trelas" por terra (Daniel 8:10).
O "exército dos céus" e as "estrelas", segundo a explicação do próprio
anjo a Daniel, representam "os poderosos e o povo santo" (Daniel 8:24),
ou seja, o povo de Deus a quem o poder papal perseguiria (ver tam-
bém Daniel 12:1, 3). De acordo com o livro do Apocalipse, foi o Dragão,
Satanás, que enganou a terça parte das estrelas do céu (Apocalipse 12:3,4)
e as lançou para a terra, que neste contexto representam os "anjos celestes"
(Apocalipse 1:20). Entretanto, o representante terrestre do Dragão, o chifre
pequeno, que é o mesmo poder de Apocalipse 13:1-10, recebe do próprio
Dragão o seu poder, o trono e grande autoridade (Apocalipse 13:2), a fim de
atacar as legiões terrestres do exército de Deus, Seus santos (Daniel 8:10
A Visão do Carneira e do Bode 145

e Apocalipse 13:7). Essa guerra entre o bem e o mal começou no céu, mas
se estendeu à terra e pode ser chamada de o "Conflito Cósmico" porque
cada ser humano está intimamente envolvido.

c) Engrandeceu-se até ao príncipe do exército e tirou dEle o sacri-


fício diário e o lugar do Seu santuário foi deitado abaixo (Daniel 8:11).
Quem é este "príncipe do exército"? Essa mesrna expressão aparece
em Josué 5:13-15, no contexto da conquista de Canaã por Josué, após
a morte de Moisés. O texto deixa claro que Josué adorou este príncipe
e este não o repreendeu pelo ato. Logo, não pode ser apenas um anjo,
pois os anjos de Deus não aceitam adoração (ver Apocalipse 19:9, 10;
22:8,9; Mateus 4:10). Outro detalhe que chama a atenção é que o príncipe
disse: "Descalça as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é san-
to". Essa expressão só aparece mais uma vez na Bíblia, justamente quando
Deus chamou Moisés para libertar Seu povo do Egito (Êxodo 3:5). Não
há dúvida de que o título "Príncipe do Exército" ou "príncipe dos prín-
cipes" (Daniel 8:25), é uma referência ao próprio Jesus Cristo.
O chifre pequeno (Roma Papal) tira do príncipe (Jesus) o "sacrifí-
cio diário", que poderia ser melhor traduzido como "contínuo".
A expressão hebraica traduzida como "sacrifício diário" ou "contí-
nuo" em algumas versões da Bíblia é TAMJD, que no Antigo Testamento,
segundo Shea, "é uma palavra que abarca todas as atividades conecta-
das com o santuário".7 (Ver Êxodo 30:8; Levítico 24:4,8; Números 28:3).
Todas essas cerimónias tratavam do perdão dos pecados e da salvação
do povo. Mas como o sistema papal ataca essas práticas?
A Igreja Romana pretende ser o Templo do novo pacto, negando
a realidade de um santuário celestial, do qual o terrestre era um tipo
(Êxodo 25:8,40). Seus líderes espirituais são chamados de sacerdotes, que
escutam confissões, e realizam o sacrifício da missa, diminuindo o sacrifí-
cio único e perfeito de Cristo. Ensina que Cristo não é o único Mediador
ou Sumo-Sacerdote entre Deus e os homens, mas também a Virgem
Maria e os Santos." Resumindo, significa substituir a obra de Cristo no
DANIEL
146 Segredos da Profecia

santuário celestial em favor do pecador (Hebreus 4:16; 8:1; 9:11,12; 12:2,3),


por uma obra de salvação de feitura humana, mediante a qual esse poder
(chifre pequeno) teve êxito em eliminar o conhecimento e a dependência
do ministério contínuo de Cristo no santuário ceíestial.'J
Daniel também afirma que o papado se levantaria contra o "Príncipe
dos Príncipes" (Daniel 8:25). Esse "levantar" indica que ele tentaria
ocupar o lugar de Cristo, o que Paulo também advertiu, quando disse:
"O qual se opõe e se levanta contra tudo que se chama Deus ou é objeto de
culto, a ponto de assentar-se no santuário de Deus, ostentando-se como
se fosse o próprio Deus" (2 Tessalonicenses 2:4). As doutrinas romanas
da Confissão auricular (perdão dos pecados por meio do sacerdote) e
a doutrina da Infalibilidade Papal demonstram bem o cumprimento
dessa profecia.

d) Deitou a verdade por terra e o que fez prosperou (Daniel 8:12).


Estudamos no último capítulo a profecia que falava de um ataque
contra a Lei de Deus. Destacamos naquele estudo três alterações que
o papado fez na Lei de Deus: (a) a exclusão do segundo mandamen-
to, que proíbe adorar imagens de escultura; (b) a divisão do décimo
mandamento em dois, para que a lei voltasse a ter dez mandamentos e,
(c) a mudança do sábado para o domingo.
Além dessas mudanças, vários outros ensinos, baseados apenas na
tradição da igreja e seus dogmas, têm suplantado a verdade da Palavra
de Deus e mantido as pessoas no cativeiro da ignorância com respeito
à vontade de Deus, como por exemplo: orar pelos mortos, penitências,
indulgências, batismo infantil, doutrina da transubstanciação e outros.
Deus não permitiria que Sua lei e Seu povo fossem atacados pelo
chifre pequeno sem que fizesse justiça. Daniel 8:13, 14 informa que
depois de se passarem 2.300 tardes e manhãs o santuário seria puri-
ficado. Como a purificação do santuário terrestre, nos dias do Antigo
Testamento, representava um juízo de vindicação do povo de Deus, o
mesmo se daria ao terminar este período, quando o chifre pequeno se-
ria destruído sem esforço de mãos humanas (Daniel 8:25).

9 PRÕBSTLE, Martin. O Santuário. Lições da Escola Sabatina, 4° trimestre de 2013, p. 121.


A Visão do Carneiro e do Bode 147

A MAIOR PROFECIA DA BÍBLIA


Daniel teve interesse em entender a visão, mas Gabriel lhe respon-
deu: "Eis que te farei saber o que há de acontecer no último tempo da ira,
porque esta visão se refere ao tempo determinado do fim" (Daniel 8:19).
As expressões "tempo do fim" e "tempo determinado do fim", mostram
que certas profecias do livro de Daniel aplicam-se exclusivamente aos
nossos dias. Por isso, é importante estudarmos e compreendermos cada
profecia do livro de Daniel, pois elas se referem aos nossos dias.
Nas cenas seguintes o anjo explicou alguns elementos da visão
a Daniel, como a identidade dos animais, e uma parte da visão que
Daniel não entendeu (Daniel 8:26, 27). A visão da "tarde e da manhã"
nestes versos é uma referência à profecia das 2.300 tardes e manhãs de
Daniel 8:14. Somente quando terminasse esse período de tempo é que
o santuário seria purificado e a ação do chifre pequeno seria freada. Por
isso o interesse de Daniel em compreender o assunto. Em nosso próxi-
mo capítulo veremos com detalhes esta profecia, que é a maior profecia
da Bíblia e descobriremos que no fim o povo de Deus sairá vitorioso.
Do templo celestial, morada do Rei dos reis, onde milhares

de milhares O servem, e milhões de milhões estão diante

dEle (Daniel 7:10), templo repleto da glória do trono

eterno, onde serafins, seus guardas resplandecentes, velam

o rosto em adoração; sim, desse templo, nenhuma estrutura

terrestre poderia representara vastidão e glória. Todavia,

importantes verdades relativas ao santuário celestial e à

grande obra ali prosseguida em prol da redenção do homem,

deveriam ser ensinadas pelo santuário terrestre e seu

cerimonial (Patriarcas e Profetas, 370).


A PURIFICAÇÃO
DO SANTUÁRIO
TERRESTRE
Nos primeiros séculos da história do cristianismo, milhares de cris-
tãos perderam a vida por amor a Cristo. Foram lançados às feras no
Coliseu romano, queimados em praça pública ou mortos em prisões
sombrias. Satanás perseguia todos aqueles que ousassem partilhar o
evangelho de Cristo com outros. Entre estes estavam Estêvão, Paulo,
Pedro e outros. No entanto, algo estava acontecendo. Tertuliano, um
escritor cristão do segundo século, chegou a afirmar: "O sangue dos
mártires é a semente da igreja", ou seja, quanto mais cristãos morriam,
maior era o número dos novos conversos e com isso o cristianismo
avançava e ganhava força.
Satanás então mudou de estratégia. Ao invés de perseguir os que
pregavam o puro evangelho de Cristo, ele se insinuou dentro da igre-
ja cristã e corrompeu a verdadeira fé. A pura doutrina apostólica logo
deu lugar às tradições e dogmas vindos do paganismo, e a igreja cristã
perdeu sua pureza doutrinária. Hoje, quando alguém decide seguir a
Cristo, se vê diante de um dilema: milhares de religiões e todas elas
defendendo a legitimidade de sua fé.
A profecia das 2.300 tardes e manhãs, que hoje estudaremos, fala
de dois acontecimentos chaves: (a) na terra, surgiria a igreja rema-
nescente restaurando a verdade de Deus pisada pelo chifre pequeno
DANIEL
150 Segredos da Profecia

(Isaías 58:12; Daniel 8:12; Apocalipse 10:8-11), (b) no céu, se inicia-


ria o juízo de investigação e quando este terminasse, o chifre peque-
no seria finalmente destruído e o reino dado aos santos do Altíssimo
(Daniel 7:18 e 27).

A MAIOR PROFECIA DA BÍBLIA


Daniel 8:13, 14 registra uma conversa entre seres santos e um res-
ponde ao outro até quando durariam as ações do chifre pequeno. As
ações do chifre pequeno e sua presunção levam ao clamor por um jul-
gamento. Como o carneiro e o bode foram destruídos {Daniel 8:4, 7,8),
igualmente o poder representado pelo chifre se exaltou (Daniel 8:9-11).
Por isso vem a pergunta: "Até quando durará a visão?" (Daniel 8:13).
Essa expressão é um lamento por uma aflição contínua, e o pedido
de mudança nas condições prevalecentes em determinados momen-
tos, é uma súplica por julgamento divino (ver Êxodo 10:3; Números
14:27; l Reis 18:21). Então vem a resposta: "Ele me disse: Até duas
mil e trezentas tardes e manhãs; e o santuário será purificado"
(Daniel 8:14).
A profecia é clara em definir que o alvo de ataque do chifre peque-
no é o santuário celestial e o povo de Deus (Daniel 8:10-12). Sendo que
a resposta do anjo envolvia a purificação do santuário (Daniel 8:14),
fica claro que somente o Dia da Expiação poderia trazer o santuário e o
povo de Deus à sua legítima condição. É no Dia da Expiação que Deus
efetua Seu juízo e restaura todas as coisas ao seu estado original. Daí a
importância de se compreender bem essa profecia.
As "2.300 tardes e manhãs" é a profecia que cobre o maior período
de tempo na Bíblia. A expressão "tarde e manhã" é tomada do livro do
Génesis, onde Deus, após haver criado o mundo e tudo que nele há,
declara: "Houve tarde e manhã, o dia..." (ver Génesis 1:5, 8, 13, 19, 23,
31). Essa expressão significa, então, um dia de 24 horas.
Já aprendemos o princípio de interpretação profética dia/ano.
Esse princípio ensina que um dia profético equivale a um ano literal
(ver Números 14:34 e Ezequiel 4:6, 7). Dessa forma, a purificação do
santuário, da qual fala Daniel, só ocorreria depois que se passassem os
2.300 anos literais.
A Purificação do Santuário Terrestre 151

SANTUÁRIO - PRINCIPAL TEMA DA BÍBLIA


No Pentateuco, os cinco livros de Moisés, 45 capítulos são dedica-
dos ao tema do santuário. Nos livros dos profetas, outros 45 capítulos
também tratam desse tema. Nos demais livros da Bíblia, há cerca de
150 referências ao santuário. Acredita-se que os salmos foram escritos
para servirem de coletânea para os louvores do santuário. O livro do
Apocalipse é estruturado no santuário. Ele possui sete divisões e cada
uma delas se inicia com uma cena no santuário celestial. As epístolas
descrevem Jesus como sacerdote, sumo-sacerdote, propiciatório e ofer-
ta. Ou seja, o santuário é o centro do pensamento dos escritores bíblicos.
Já descobrimos que a profecia de Daniel 8:14 fala de um período de
2.300 anos, depois dos quais o santuário seria purificado. Precisamos
entender agora o que é o santuário e o que significa sua purificação.

O SANTUÁRIO TERRESTRE
Moisés recebeu a ordem divina de construir um santuário (Êxodo 25:8).
Esse santuário ou tabernáculo deveria ser construído conforme um mo-
delo já existente, que lhe foi mostrado no monte (Êxodo 25:9,40; 26:30),
ou seja, o santuário celestial (Hebreus 8:5). A palavra hebraica para "mo-
delo" (tabnit] expressa a ideia de modelo ou cópia. Assim, concluímos
que Moisés viu um modelo em miniatura, que representava o santuário
celestial, e que esse modelo serviu de padrão para a construção do san-
tuário terrestre.
O santuário ou tabernáculo foi construído em um átrio ou pátio,
que media cerca de 30 metros de largura por 60 metros de cumpri-
mento (Êxodo 27:9-19). Ele era cercado com 48 tábuas de madeira de
acácia com cinco metros de comprimento e cerca de 75 cm de largura.
Eram chapeadas com ouro e presas por argolas do mesmo material.
Estavam fixadas em bases de prata e presas por barras forradas de
ouro que as mantinham na posição correta e cercavam todo o átrio
(Êxodo 26:15-30).
Neste átrio, além do santuário, ficavam dois móveis, o altar de holocaus-
to, onde após serem mortos os animais eram queimados (Êxodo 27:1-8),
e uma bacia de bronze com água, na qual o sacerdote se lavava antes de
iniciar os serviços dentro do santuário (Êxodo 30:17-21).
DANIEL
152 Segredos da Profecia

O santuário em si era uma tenda com paredes de madeira for-


rada por quatro camadas de materiais: a primeira era de peles finas
ou teixugo (Êxodo 26:14), a segunda de peles de carneiro tingidas
de vermelho (Êxodo 26:14), a terceira era coberta de pelos de cabra
branca (Êxodo 26:7); por fim, uma quarta camada que revestia o in-
terior cia tenda, vista apenas pelos sacerdotes e o sumo sacerdote, e
era feita de linho branco retorcido nas cores azul, púrpura e carme-
sim (Êxodo 26:1).
O tabernáculo media aproximadamente seis metros de altura por
18 de cumprimento e era dividido em dois compartimentos, o Santo
e o Santíssimo, separados apenas por um véu (Êxodo 26:33). No pri-
meiro compartimento ou Lugar Santo se encontravam três móveis:
(a) a mesa com os doze pães da proposição, (b) o altar de incenso e (c)
um candelabro com sete lâmpadas (Êxodo 25:17-40 e 26:35). Já no se-
gundo compartimento, chamado Lugar Santíssimo ou Santo dos Santos,
havia apenas um móvel, a arca da aliança e dentro dela as duas tábuas
da lei, dadas a Moisés no monte Sinai (Êxodo 25:10-16). Andreasen
destaca que "o tabernáculo era um edifício portátil, de maneira que
podia ser desmontado e facilmente transportado. Destinava-se a servir
somente até ao tempo em que Israel se estabelecesse na terra prometida
e um edifício de natureza mais estável pudesse ser erigido".1
O santuário tinha três propósitos básicos:
a) Ser a morada de Yahweh (Êxodo 25:8).
b) Ser depositário da lei de Deus (Êxodo 25:16; 31:18).
c) Perpetuar e ampliar a dimensão tipológica dos sacrifícios como
meio de perdão e salvação.2

OS SIMBOLISMOS DOS MÓVEIS DO SANTUÁRIO


Todos os móveis do santuário tipificavam o Messias e a obra que
viria realizar para salvação de Seu povo. Dessa forma, se ampliava a
dimensão tipológica e apresentava-se ao povo de Israel um evangelho
em símbolos.

1 ANDREASEN, M, l. O ritual do santuário. Santo André, SP: Casj Publicado rã Brasileira, 1983, p. 23.
2 WIIITE, EllenCi. Review and Herald, b de março de 1901.
A Purificação do Santuário Terrestre 153

Móvel ou objeto Simbolismo Texto prova


Tabernáculo Jesus e o ser humano João 1:14; 1 Corintios6:19,20
Altar de holocausto Jesus, nossa oferta Hebreus 10:10-12
Bacia cornágua Batismo/purificação Mateus 3:16; l Coríntiosó:! 1
Mesa com 12 pães Jesus, o pão da vida João 6:35
Candelabro com 7 Jesus, a luz do João 9:5
lâmpadas mundo
Altar de incenso Orações dos santos Apocalipse 8:3,4
Tampa da arca Jesus, o propiciatório Romanos 3:25
(propiciatório) (tampa)
•••^^•IMHl
Arca do testemunho Presença de Jesus Mateus 1:23

OS SERVIÇOS DO SANTUÁRIO
No santuário trabalhavam 38.000 Levitas (l Crónicas 23:3), sendo 288
cantores (l Crónicas 25:7), 4.000 músicos, 4.000 porteiros (l Crónicas 23:5),
6.000 oficiais e juizes e ainda os sacerdotes que se dividiam em vinte e
quatro turnos (l Crónicas 24:1). Todos esses trabalhavam para tornar
possível a mediação e perdão dos pecados do povo de Israel.
Dois serviços básicos realizados no santuário serão descritos aqui:
serviço diário e serviço anual.

Serviço diário - Ofertas pelos pecados (Êxodo 29:38, 39).


Os sacrifícios da manhã e da tarde eram oferecidos diariamente -
mesmo na festa da Páscoa, no Pentecostes, no Dia da Expiação ou em
qualquer outra festa especial. Por isso, chamavam-se sacrifício "contínuo",
que não cessam (Êxodo 29:42), e prefiguravam de forma especial o sacri-
fício de Cristo na cruz do Calvário. Esse sacrifício não era providenciado
por qualquer pessoa. Era oferecido em favor do povo como um todo. Não
era um sacrifício que o pecador oferecia a Deus, mas sim um sacrifício
que Deus oferecia em favor de Seu povo. Isso beneficiava especialmente
os pobres, que não possuíam animais para sacrificar, e os israelitas que
porventura estivessem distantes do santuário, como no caso de Daniel,
que fazia suas orações com o rosto voltado para o santuário (Daniel 6:10).
DANIEL
154 Segredos da Profecia

Havia outro tipo de oferta no santuário - ofertas pelos pecados


cometidos. Quando um israelita cometesse um pecado deveria levar
um animal até o santuário. Havia um animal para cada tipo de pecado.
O animal mais comum era o cordeiro. O pecador impunha as mãos
sobre a cabeça do animal, confessava seu pecado e em seguida o imo-
lava. O sacerdote tomava o sangue da oferta e o levava para dentro do
primeiro compartimento do santuário, chamado Lugar Santo. Em al-
guns casos, o sangue das ofertas deveria ser aspergido na cortina que
separava os compartimentos Santo e Santíssimo, e ainda colocado so-
bre os chifres do altar de incenso (Levítico 4:5-7). Esse era o princípio
de transferência do pecado para dentro do santuário, através do sangue
ou através da carne da oferta que o sacerdote comia antes de entrar no
santuário. Assim o santuário recebia os pecados diários e, dessa forma,
era contaminado e precisava passar por uma purificação.

Serviço anual - Dia da Expiação ou purificação (Levítico 16:29,30).


O Dia da Expiação ocorria sempre no décimo dia do sétimo mês,
chamado de Tishri. Essa festa anual era a purificação do Santuário. Era
o maior dia em Israel e envolvia uma cerimónia sofisticada.
Durante o ano, o santuário era contaminado através dos pecados
que eram simbolicamente transferidos para ele através do sangue dos
sacrifícios. Assim, o pecado era perdoado, o pecador considerado lim-
po, mas seus registros ficavam gravados no santuário e o contamina-
vam. Por isso, se fazia necessário uma purificação.

Procedimentos preliminares
A preparação para as festividades desse dia começava dez dias an-
tes. Esses dias eram de arrependimento, destinados a operar uma per-
feita mudança de coração. O sumo sacerdote, que dirigia a cerimónia,
tinha uma preparação especial:
1. Uma semana antes do Dia da Expiação ele se mudava para os
recintos do templo, para oração e meditação.
2. Não dormia no dia anterior para que não lhe viesse qualquer
contaminação.
3. Banhava-se e vestia vestes santas.
_ A Purificação do Santuário Terrestre 155

4. Ele usava um cinto branco e uma mitra de linho sem ostentação


para estar diante de Deus.
Antes de começar a expiação pelo povo, o Sumo sacerdote devia
fazer expiação por seus próprios pecados; assim estava limpo para ser
um mediador entre Deus e o povo (Levítico 16:3,11-14).

OS RITOS DE PURIFICAÇÃO
No Dia da Expiação ou purificação do santuário dois bodes entravam
em cena (Levítico 16:5-10). Eles eram separados no 10° dia do 7° mês.
A sorte era lançada sobre ambos, uma para o Senhor e outra para o bode
emissário (Hebraico Azazel). Após lançar sorte sobre os bodes, o sumo
sacerdote tomava um novilho e o matava, e um sacerdote colocava parte
do sangue numa tigela, mexendo-o de modo a não coagular. Enquanto
isso, o sumo sacerdote tomava brasas do altar onde as ofertas eram quei-
madas, e colocava-as num incensário. Enchia também as mãos de suave
incenso e levava ambos para dentro do santuário, no Lugar Santíssimo.
Colocava o incensário no propiciatório, o qual era coberto por uma nu-
vem, para que ele não morresse (Levítico 16:13).
Concluída essa parte, o sumo sacerdote saía para receber do sacer-
dote o sangue do novilho, e então ele levava este sangue para o Lugar
Santíssimo, onde o aspergia sete vezes com o dedo sobre o propiciató-
rio, em direção à banda do Oriente.
Ao voltar do Lugar Santíssimo, o sumo sacerdote matava o bode da
expiação pelos pecados do povo. Tornava a entrar no Santíssimo, onde
aspergia o sangue do bode sobre o propiciatório, como fizera com o
sangue do novilho (Levítico 16:15).
Depois disso, o sumo sacerdote voltava ao pátio e abençoava o
povo. ''Havendo, pois, acabado de fazer expiação pelo santuário, pela
tenda da congregação epelo altar" (Levítico 16:20), fazia chegar o bode
vivo, para Azazel, e o enviava ao deserto, onde morria.

Simbolismos dos animais mortos no santuário


O bode para o Senhor que morria no Dia da Expiação é um símbolo
de Cristo, que viria ao mundo para morrer pelos pecados da humanida-
de (Isaías 53:7; João 1:29; Apocalipse 13:8). A purificação do santuário
DANIEL
156 Segredos da Profecia

ilustrava, então, três fases do ministério de Cristo: (a) sacrifício substi-


tutivo, (b) mediação sacerdotal e (c) julgamento final,
O bode emissário, ou Azazel, que era levado para o deserto e aban-
donado para ser morto é uma representação de Satanás que, após a volta
de Cristo, será aprisionado por 1.000 anos (Jeremias 4:23-26; Apocalipse
20:1, 2). Depois disso, será solto e destruído (Apocalipse 20:7-9).
Uma vez que o bode emissário só entrava em cena "terminada a
expiação" (Levítico 16:20), é evidente que Satanás não participa na ex-
piação dos pecados, mas é destruído por seus próprios pecados e pelos
pecados que levou outros a cometer.
Todos os sacrifícios do santuário constituíam o caminho da salva-
ção pela fé e instruíam o povo de Deus sobre o terrível caráter do peca-
do e apontavam o meio escolhido por Deus para acabar com o pecado,
ou seja, o sacrifício do Filho de Deus (João 1:29). Quando Jesus morreu
na cruz, o véu do templo, que separava o Lugar Santo do Santíssimo,
rasgou-se de alto a baixo, indicando o fim de todo o sistema sacrificai
de animais que, por milénios, apontava para a morte do filho de Deus
(Mateus 27:50, 51; Lucas 24:44-47).

A TRAJETÓRIA DO SANTUÁRIO TERRESTRE


O santuário terrestre foi o centro de adoração para o povo de Deus ao
longo de séculos. A primeira tenda foi construída por Moisés por ordem
divina (Êxodo 25:8). Esse tabernáculo, ou tenda móvel, mudava de local
à medida que o povo viajava pelo deserto em direção a Canaã. Alguns
calculam que nesse período de 40 anos de peregrinação no deserto, o
tabernáculo tenha sido mudado 41 vezes. Quando finalmente chegaram
a Canaã, o tabernáculo foi fixado definitivamente em Silo (Josué 18:1).
Quando Davi se tornou rei, após Deus ter-lhe concedido vitória so-
bre todos os seus inimigos, ele sentiu o desejo de construir uma habita-
ção mais digna para morada do Altíssimo (2 Samuel 7:1, 2). Entretanto,
pelo fato de ele ter sido um homem sanguinário, Deus não lhe permitiu
edificar o templo, e disse que seu filho, Salomão, o construiria (l Reis 6).
Salomão edificou o templo, trouxe a arca da aliança e a colocou no
Lugar Santíssimo do templo (l Reis 8:6) e foi sentida a presença de Deus.
Esse templo foi o centro de adoração por séculos, até que foi destruído
A Purificação do Santuário Terrestre 157

por Nabucodonosor, na terceira invasão babilónica a Jerusalém, no ano


586 a.C. (2 Reis 25:9). Depois do cativeiro babilónico, que durou 70
anos (Jeremias 25:11), o povo de Deus voltou para Jerusalém, e Esdras e
Neemias se encarregaram da reconstrução da cidade e do templo (Esdras 1;
Neemias 3). Este templo, agora reformado, recebe o nome de Templo de
Zorobabel, que era então o governador da Judeia (Esdras 6:16; Ageu 1:1).
Esse mesmo templo foi reformado por Herodes, e passou a se chamar
templo de Herodes. Foi este que Jesus visitou e sobre o qual fez a profética
declaração: "Não ficará aqui pedra sobre pedra" (Mateus 24:1,2). Esta pro-
fecia de Cristo se cumpriu no ano 70 d.C, quando a cidade de Jerusalém e
o templo foram destruídos por ordem de Tito, o imperador romano.

A REALIDADE DO SANTUÁRIO CELESTIAL


Se a profecia das 2.300 tardes e manhãs foi feita nos dias de Daniel, e
este viveu cerca de 600 anos antes de Cristo, então não pode estar se re-
ferindo ao santuário terrestre. A profecia apontava para uma purificação
no fim do período de 2.300 anos, o que excede a história do santuário ter-
restre, destruído no ano 70 d.C. De fato, o santuário a ser purificado no
fim das 2.300 tardes e manhãs era o santuário celestial (Hebreus 9:23,24).
Assim corno a purificação do santuário terrestre, nos dias do Antigo
Testamento, representava um juízo de vindicação do povo de Deus, o
mesmo ocorrerá ao término da purificação do santuário celestial. O
povo de Deus será vindicado, a lei de Deus que fora pisada pelo chifre
pequeno, será restaurada, e a igreja remanescente que estivera oculta
no deserto por anos (Apocalipse 12:6, 16), será revelada.
Estamos agora prontos para compreender a profecia das 2.300 tar-
des e manhãs, quando então o santuário seria purificado. Em que ano
ocorreu esse evento? Quais as implicações para os cristãos modernos?
Essas perguntas serão respondidas em nosso próximo capítulo.
Por hoje, vamos nos apegar à promessa da Bíblia: "Porque não te-
mos sumo sacerdote que não possa compadecer-Se das nossas fraque-
zas; antes, foi Ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas
sem pecado. Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono
da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para so-
corro em ocasião oportuna" (Hebreus 4:15, 16).
Temos a preciosa promessa de que todo o pecado, do qual

houve sincero arrependimento, será perdoado. Voltar para

Deus com a alma em contrição, clamando os méritos

do sangue de Cristo, nos trará luz-, perdão e paz. mas

precisamos nos voltar para o Senhor com inteireza de

propósito no coração, com a decisão de sermos praticantes

das palavras de Cristo. Algumas vezes nossos pecados virão

à mente e lançarão uma sombra sobre nossa fé; deforma

que não possamos ver nada além de uma merecida punição

acumulada para nós. Mas em tais ocasiões, enquanto

sentimos tristeza pelo pecado, devemos olhar para Jesus,

e crer que Ele perdoou nossas transgressões

(Tleview and Herald, 13 de janeiro de 1891J.


2.300 TARDES
E MANHÃS E A
PURIFICAÇÃO DO
SANTUÁRIO CELESTIAL
Deus declarou por meio do profeta Amos que não faria coisa algu-
ma sem "primeiro revelar o Seu segredo, aos Seus servos, os profetas"
(Amos 3:7). Todas as profecias na Bíblia foram dadas ao povo de Deus
com o objetivo de prepará-lo para os eventos que ainda aconteceriam e
envolvê-los no cumprimento dos desígnios divinos.
A profecia das "2.300 tardes e manhãs" é a profecia mais longa da
Bíblia, chegando até os nossos dias. Como já vimos, ela fala de dois
acontecimentos chaves: (a) na terra, surgiria a igreja remanescente res-
taurando a verdade de Deus pisada pelo chifre pequeno (Isaías 58:12;
Daniel 8:12; Apocalipse 10:8-11), (b) no céu, se iniciaria o juízo de in-
vestigação e quando este terminasse, o chifre pequeno seria finalmente
destruído e o reino dado aos santos do Altíssimo (Daniel 7:18 e 27).
Agora aprenderemos com mais detalhes.

COMPREENDENDO A PROFECIA
O texto central para o estudo da purificação do santuário é Daniel 8:14.
Já vimos que este santuário a ser purificado era o celestial, e isto acon-
teceria apenas ao término do período profético. Logo, para sabermos
DANIEL
160 Segredos da Profecia

quando terminam os 2.300 anos, precisamos descobrir quando eles co-


meçam. Para isso, voltemos nossa atenção ao capítulo 9 de Daniel.

A ORAÇÃO DE DANIEL (DANIEL 9:1-3,17, 18)


Segundo os versos acima, Daniel orava por uma restauração do
povo, da cidade e do templo, que estava em ruínas. Nabucodonosor, rei
de Babilónia, invadiu Jerusalém três vezes. Na primeira invasão, em 605
a.C., os príncipes foram feitos escravos e levados para Babilónia, e entre
estes estava Daniel (2 Reis 24:14; Daniel 1:3-6). A cidade de Jerusalém
e o templo de Salomão foram destruídos somente na terceira invasão
babilónica, que ocorreu no ano 586 a.C. (ver 2 Reis 25:8, 9).
Por meio do profeta Jeremias, Deus predisse que o cativeiro babiló-
nico duraria 70 anos (Jeremias 25:11), e que depois deste tempo Deus
levantaria o libertador, Ciro, para trazer Seu povo de volta a Jerusalém
(Isaías 45:1). A queda de Babilónia no ano 539 a.C. levou Daniel a estu-
dar as profecias, especificamente a de Jeremias, que fala do período de 70
anos que duraria o cativeiro (Jeremias 25:11,12; Daniel 9:2). Transcorria
o primeiro ano de Dario, filho de Assuero, ou seja, cerca de 538 a.C.
O Império Medo-Persa acabara de derrotar Babilónia e faltava agora
apenas a autorização para que o povo judeu voltasse para sua terra natal.
Já haviam se passado 68 anos desde que Daniel fora levado cativo
para Babilónia, o que significa que faltavam apenas dois anos para se
completar os 70 anos de cativeiro predito pelo profeta. Então Daniel se
pôs a orar para que Deus cumprisse Sua promessa e libertasse Seu povo.
Um detalhe não pode ser olvidado aqui: Daniel pensava que a profecia
da purificação do santuário de Daniel 8:14, se referia à restauração do
templo e da cidade de Jerusalém, ora em ruínas.
Enquanto Daniel orava o anjo Gabriel foi enviado para lhe explicar
a "visão" (Daniel 9:23). Que visão? A das 2.300 tardes e manhãs (Daniel
8:14), visão esta que Daniel não havia compreendido (Daniel 8:26, 27).
Contudo, ao invés de falar dos 2.300 anos proféticos, que alcançariam o
tempo do fim e a purificação do santuário, ele introduz o tema da pro-
fecia das 70 semanas. Daniel havia orado por seu povo e pelo santuário
terrestre que estava desolado, por isso o anjo se limita a um período me-
nor relacionado apenas com o povo de Daniel e sua cidade, Jerusalém.
2.3DO Tardes e Manhas e a Purificação... 161

A PROFECIA DAS 70 SEMANAS


O anjo disse a Daniel: "Setenta semanas estão determinadas sobre
o teu povo e sobre a tua santa cidade, para fazer cessar a transgres-
são, para dar fim aos pecados, para expiar a iniquidade, para trazer a
justiça eterna, para selar a visão e a profecia e para ungir o Santo dos
Santos" (Daniel 9:24).
A expressão "determinadas" (Hatak) pode ser traduzida literalmen-
te como "cortadas\ ou seja, as 70 semanas ou 490 anos seriam cortados
do período maior de 2.300 anos. Esse período de tempo seria destinado
ao povo judeu para: (a) fazer cessar a transgressão, (b) dar fim aos peca-
dos, (c) expiar a iniquidade, (d) trazer a justiça eterna, (e) selar a visão e
a profecia e (f) ungir o Santo dos Santos (Daniel 9:24). Em outras pala-
vras, o Céu esperava arrependimento por parte do povo de Daniel e, se
isso não acontecesse, o povo perderia o privilégio de nação escolhida.
Então o anjo declara quando deveria se iniciar o período das
70 semanas e os 2.300 anos: "Sabe e entende: desde a saída da ordem
para restaurar e para edificar Jerusalém, até ao Ungido, ao Príncipe,
sete semanas e sessenta e duas semanas; as praças e as circunvalações se
reedificarão, mas em tempos angustiosos" (Daniel 9:25).
O evento foi destacado: "a ordem para restaurar e para edificar
Jerusalém". O livro de Esdras registra três decretos referentes à repa-
triação dos judeus: o primeiro foi promulgado no primeiro ano de
Ciro, ao redor de 538/537 a.C. (Esdras 1:1-4); o segundo, durante o
reinado de Dario I, cerca do ano 520 (Esdras 6:1-12); o terceiro, no
sétimo ano de Artaxerxes, 457 a.C. (Esdras 7:1-26).2
Entretanto, apenas o decreto de Artaxerxes em 457 a.C. cumpre os
requisitos da profecia de Daniel 9:25, e marca o início do período pro-
fético das 70 semanas e das 2300 tardes e manhãs (dias). Neste decreto,
além de permitir a repatriação dos judeus, Artaxerxes também concedeu
a eles o status de autonomia governamental (ver Esdras 6:14; 7:25-26).

1 Este verbo hatak ocorre uma única vez em todo o Antigo Tesumento, justamente aqui cm Daniel.
Pot isso não é tão fácil determinar seu sentido original. Entretanto, olhando para outras literaturas judias pós-
blblicas, vemos depenas de vezes seu uso corno^ortar", P apenas uma vez como "decreta r" ou "determinar". Por
isso esta é a melhor tradução. Mais detalhes cru: Si IRA, William H. Daniel: Una guia para el estudioso, p. 184.
2 Ver mais detalhes ern: HOLBROOK, t-rank B. Setenta semanas: levítico e a natureza da profecia.
Engenheiro Coelho, SP: UNASPRESS, 2010, p. 39-17.
DANIEL
162 Segredos da Profecia

O anjo Gabriel dividiu a profecia das setenta semanas em períodos:

7 semanas + 62 semanas - 69 semanas

Se cada semana possui 7 dias e estamos falando em dias proféticos,


ou seja, cada dia representando um ano, temos o seguinte cálculo:

69 semanas X 7 dias - 483 dias proféticos /anos literais

Se partirmos do ano 457 a.C, data do decreto de Artaxerxes, e via-


jarmos no tempo 483 anos, chegaremos ao ano 27 d.C. Segundo o anjo,
este seria o ano do aparecimento do "Ungido", o "Príncipe" (Daniel 9:25).
O que aconteceu no ano 27 d.C., ao fim das 69 semanas da profecia?
Tibério Cláudio Nero César foi o segundo imperador romano perten-
cente à dinastia júlio-claudiana. O 15° ano de Tibério César é justamente
o ano 27 da Era Cristã.3 Esse foi o ano do batismo de Cristo quando Ele
recebe a unção do Espírito Santo (Mateus 3:16). Jesus estava então com
cerca de 30 anos ao iniciar Seu ministério terrestre (Lucas 3:1-3; 21-23).
Assim, podemos representar a profecia até aqui com o seguinte gráfico:

69 SEMANAS OU 483 ANOS


[457a.C- 408a.C— — 27dc]
^ 7 SEMANAS ^ K SEMANAS—'

O anjo continua falando sobre a obra do Messias, o Ungido: "Ele


fará firme aliança com muitos, por uma semana; na metade da semana,
fará cessar o sacrifício e a oferta de manjares..." (Daniel 9:27).
Jesus foi batizado no ano 27 da Era Cristã. Conforme a profecia, Ele
faria uma "firme aliança com muitos, por uma semana", ou seja, sete anos,
alcançando assim o ano 34 d.C. Que acontecimento assinala o fim desse
período de aliança? Estudando o livro de Atos, encontramos o último dis-
curso de Estêvão, um dos sete diáconos da igreja primitiva (Atos 7:1-53).
Após sua pregação ele foi apedrejado até a morte (Atos 7:54-58). Antes
de morrer ele contemplou Jesus em pé à direita do Pai (Atos 7:55, 56),

3 Comentário bíblico adventista, v. 5, p 232-237.


_ 2.300 Tardes e Manhas e a Purificação... 163

numa atitude de reprovação e julgamento à nação judaica. Isso ocorreu


no ano 34 e assinala o fim dos 490 anos de oportunidade ao povo judeu
como povo escolhido. Após isto Deus levantou Sua igreja para que atra-
vés dela o evangelho fosse pregado a todas as nações. Saulo, que estava
presente no apedrejamento de Estêvão (Atos 7:58) tornou-se Paulo, o
apóstolo dos gentios, e pregou o evangelho aos pagãos, gregos e roma-
nos (Atos 9:1-9; Romanos 1:1).
A profecia informa que na metade da septuagésima semana Jesus
faria cessar "o sacrifício contínuo e a oterta de manjares". Como Jesus fez
isso? Ele próprio deu fim ao sistema de sacrifícios do Antigo Testamento,
tornando-se a própria oferta (João 1:29; l Coríntios 5:7). No exato mo-
mento de Sua morte, o véu do templo, que separava o local Santo do
Santíssimo, se rasgou de alto a baixo, indicando assim o fim daquele
sistema tipológico de salvação (Mateus 27:50, 51; Hebreus 9:11-15 e 28).

70 SEMANAS OU 490 ANOS


457 a.C. -j 408 a.C. MH 27 d-c 31 d'C
' 34 d-c
*- 7 SEMANAS —' * 62 SEMANAS ' *• 1 SEMANA '

A PROFECIA DAS 2.300 TARDES E MANHÃS


A ordem para "restaurar e edificar Jerusalém" foi promulgada no
ano 457 a.C. Viajando os 490 anos, dados aos judeus, chegamos ao ano
34 d.C, quando Estêvão foi apedrejado. Restam ainda 1.810 anos do
período maior de 2.300 anos. Basta agora adicionar os 1.810 anos res-
tantes, e a profecia alcança o tempo exato em que se iniciaria a purifica-
ção do santuário, ou seja, 1844.

2.300 ANOS
"Até duas mil e trezentas tardes e manhãs e o santuário será purificado."

( ——70 SEMANAS OU 490 ANOS ^


457 a.C—j 408 a.C.—— — .;27d.C. ;31d.C. 34d.C. 1844
*—7 SEMANAS—^ ^ 62 SEMANAS J ^ 1 SEMANA * ^ 1.81QANOS
(ou 49 «no») (ou+34 anos) (ou 7 anos)

Fazendo agora um paralelo entre o 10° dia do 7" mês do calendário


judaico, dia em que acontecia a expiação em Israel (Levítico 16:29), com
o nosso calendário atual, o Gregoriano, chegamos ao dia 22 de outubro
DANIEL
164 Segredos da Profecia

de 1844. Dois acontecimentos especiais ocorreram nessa data: (a) na ter-


ra, surgiria a Igreja Remanescente restaurando a verdade de Deus pisa-
da pelo chifre pequeno (Isaías 58:12; Daniel 8:12; Apocalipse 10:8-11),
(b) no céu, se iniciaria o juízo de investigação e quando este terminasse,
o chifre pequeno seria finalmente destruído e o reino dado aos santos do
Altíssimo (Daniel 7:18 e 27).

a) Na terra: surgiria a Igreja Remanescente erguendo as verdades


deitadas por terra pelo chifre pequeno.
Segundo a profecia de Daniel 8:10, o chifre pequeno cresceria até
atingir o exército dos Céus; a alguns do exército e das estrelas lançaria
por terra e os pisaria. Estas são as legiões terrestres do exército de Deus,
Seus santos (Daniel 8:10 e Apocalipse 13:7). Já a profecia de Daniel
7:25 afirma que estes mesmos santos seriam entregues nas mãos do
chifre pequeno por um período de 1.260 anos. Quando terminasse este
período, a igreja deveria surgir como organização. O mesmo revela o
livro de Apocalipse no capítulo 12.

UMA IGREJA NO DESERTO


Apocalipse 12 é nossa base para o estudo da igreja de Deus no pe-
ríodo do deserto. Neste capítulo temos os seguintes elementos:
a) Uma mulher vestida de Sol simbolizando a igreja verdadeira
(Efésios 5:23 ).
b) Um Dragão que representa o próprio Satanás (Apocalipse 12:9)
e Roma pagã e papal como agentes de Satanás em infligir perseguições
ao povo de Deus.
c) Um Filho Varão que seria arrebatado para Deus até Seu trono.
Aqui há uma referência ao próprio Cristo (Mateus 19:28; Hebreus 8:1;
12:2; Apocalipse 3:21).

Satanás tentou destruir a Cristo, através de Herodes, na matança dos


inocentes {Mateus 2:16-18), e depois crucificando-O, através dos roma-
nos (Marcos 15:24). Como não pôde destruir a Cristo, sua ira voltou-se
contra a igreja de Cristo. "Quando, pois, o dragão se viu atirado para a
terra, perseguiu a mulher que dera à luz o filho varão" (Apocalipse 12:13).
__ 2.300 Tardes e Manhas e a Purificação... | 165

Essa perseguição é a mesma da qual falara o profeta Daniel (7:25),


e seria mantida por 1.260 anos (Apocalipse 12:6, 14). Esse período da
igreja oculta no deserto confere exatamente com o período de supre-
macia papal, ou seja, dos anos 538 a 1798.
Quem eram os representantes da igreja de Deus no período do deserto?
Enquanto a igreja cristã primitiva resistiu vitoriosamente às perse-
guições do Império Romano, os crentes se multiplicaram em toda parte.
Todavia, terminados os dez anos de perseguição aos cristãos, movidos
pelos imperadores Diocleciano e seu sucessor, Galério (303 a 313 d.C.),
profetizados em Apocalipse 2:10, o imperador Constantino firmou o
edito de tolerância de Milão. Nesse edito (313 d.C.), a religião cristã se
tornou a religião oficial do império e os bens, outrora confiscados, fo-
ram devolvidos e os cristãos viveram um tempo de paz e prosperidade.
Muitos nesse período se tornaram cristãos por interesse, e segun-
do alguns historiadores, "a conversão em massa dos pagãos, teve como
consequência a introdução de falsas doutrinas e erros dentro da igreja".1
Ellen G. White afirma: "Quase imperceptível mente os costumes do pa-
ganismo tiveram ingresso na igreja cristã".5 E isso se deu em grande
parte por causa da falsa conversão de Constantino. "Constantino foi
imperador de Roma de 306 a 337 d.C. Foi ele adorador do Sol durante
os primeiros anos de seu império. Mais tarde, afirmou haver se con-
vertido ao cristianismo; mas, de coração continuou venerando o Sol"/'
Nesse período se desenvolveu a doutrina do papa como sendo a
cabeça visível da igreja universal de Cristo; a santidade do primeiro
dia da semana; o papa como mediador terrestre e que ninguém podia
se aproximar de Deus se não por seu intermédio; a infalibilidade papal
e a exigência de que o papa recebesse adoração de todos os homens.
"As trevas pareciam tornar-se mais densas. Generalizou-se a adora-
ção das imagens. Acendiam-se velas perante imagens e orações se lhes
dirigiam. Prevaleciam os costumes mais absurdos e supersticiosos".7
Esse entrave espiritual afetou mesmo outros aspectos da sociedade e

A NAENNI, Eduardo Historia dos valdenses dei Piemonte


Publicadora Interamericana, s.d., p. 10.
5 WHITE, 1988b,p.49.
6 HAYNES, Carlyle B. Do sábado para o domingo. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1994, p.
7 WHITE, 1988a, p. 57,
DANIEL
166 Segredos da Profecia

"durante séculos a Europa não fez progresso no saber, nas artes ou na


civilização. Uma paralisia moral e intelectual caíra sobre a cristandade"."
Os verdadeiros crentes não poderiam se coadunar com essas
doutrinas, e por isso, separaram-se da igreja. Por este motivo foram
alvo das mais terríveis perseguições. Temos neste mesmo período a
criação das indulgências (completa remissão dos pecados passados,
presentes e futuros) e, no 8° século, foi instituído o mais terrível de
todos os estratagemas do papado: a "Santa Inquisição". Milhares foram
entregues à morte por causa de seu amor a Cristo. Mas mesmo diante
de tantas perseguições, Deus tinha Seu povo fiel. Em todas as eras, Ele
sempre teve Suas testemunhas. Quando veio o dilúvio, Deus tinha Noé.
Quando vSodoma e Gomorra foram destruídas, Deus tinha Ló; Quando
o povo judeu foi cativo para Babilónia por causa do pecado da idolatria,
Deus tinha Daniel, Misael, Ananias e Azarias. O quanto devemos a es-
ses homens por seu exemplo de fidelidade é difícil calcular.
Neste momento caótico do cristianismo, nada estava fugindo aos
planos de Deus. O Apocalipse diz que a terra ajudaria a mulher (12:16).
Em terras que ficavam além da jurisdição de Roma, existiam fiéis que
permaneceram quase inteiramente livres da corrupção papal. Podemos
citar, entre outros, os Valdenses, os Albigenses e os Huguenotes. Por
causa de sua fidelidade a Deus, os Valdenses foram excomungados em
1183. "O concílio de Verona, convocado e presidido pelo papa Lúcio II
[...] excomungou os Valdenses, assim como outros grupos cristãos que
se haviam separado de Roma".9
Assim, podemos definir o período da igreja no deserto como sendo
de 538 até 1798. Entre os crentes fiéis desse período podemos ainda
citar: Martinho Lutero, John Huss, Jerônimo de Praga, Ulrich Zwínglio,
William Tyndale, )ohn Wycliffe, entre outros.
No fim dos 1.260 anos de perseguição vários acontecimentos geraram
uma grande expectativa em torno das profecias bíblicas, particularmen-
te do livro de Daniel. No dia 1° de novembro de 1755 ocorreu o gran-
de terremoto de Lisboa. Vinte e cinco anos depois, no dia 19 de maio de

8 WHITE. 1988a, p. .'57.


9 JAI.LA, Jeati. Histoire populaire dês Vaudois dês Alpes et de leurs colonies. Torre Pellice:
Imprirnerie A. Besson, 1904, p. 12.
2.300 Tardes e Manhas e a Purificação... 167

1780, o Sol escureceu trazendo temor e expectativa a todos e, na noite


imediata, a Lua apareceu no céu vermelha como sangue (ver Apocalipse
6:12-17). Finalmente, no dia 20 de fevereiro de 1798, por ordem de
Napoleão Bonaparte, o papa Pio VI foi preso. De fato, o tempo do fim
havia chegado, especificamente com as datas de 1798, fim dos 1.260 anos
de supremacia papal e 1844, fim do período das 2.300 tardes e manhãs.

A IGREJA REMANESCENTE SAI DO DESERTO


O profeta Isaías nos diz: "Os teus filhos edificarão as antigas ruí-
nas; levantarás os fundamentos de muitas gerações e serás chamado
reparador de brechas e restaurador de veredas para que o país se torne
habitável" (Isaías 58:12). Esse verso nos fala da função da igreja rema-
nescente: "reparador de brechas" e "restaurador de veredas antigas". Já
o profeta Jeremias diz: "Assim diz o Senhor: Ponde-vos à maragem no
caminho e vede, perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom cami-
nho; andai por ele e achareis descanso para a vossa alma; mas eles di-
zem: Não andaremos (Jeremias 6:16). Perguntar pelas veredas antigas
[...] um regresso às verdades da palavra de Deus era o grande desafio
da igreja remanescente.
O surgimento do povo remanescente também estava profetizado
em Apocalipse 10:8-11. Na experiência de João ao comer o livrinho, a
princípio sendo doce e depois amargo, ilustrava a experiência pela qual
passaria o povo de Deus por ocasião do tempo do fim. O livrinho na
mão do anjo em Apocalipse 10 não é outro senão o livro de Daniel, e o
anjo é o próprio Jesus Cristo.
No mês de setembro de 1816, um batista chamado Guilherme Miller,
estava lendo na igreja uma homilia de Alexander Proudfit, intitulada
"O dever dos pais para com os filhos" (Practical Godliness in Thirteen
Discourses), quando foi tomado de emoção e não conseguiu completá-
la. Em desespero por causa de seus pecados, percebeu que carecia de
um Salvador. Recorreu à Bíblia e em suas páginas encontrou o Salvador.
Posteriormente, declarou: "As escrituras tornaram-se meu deleite, e
em Jesus encontrei um amigo".10 A partir desse evento, dedicou vários

l O MAXWELL, C. Mervyn. História do adventismo. Santo Andrp. ÍP: Casa Pitblk ddora Brasileira, 1982, p. 12.
DANIEL
168 Segredos da Profecia

anos de estudo à Bíblia. Usando apenas a Bíblia e uma concordância,


começou pelo primeiro verso de Génesis e não passava a outro texto até
que todas as dúvidas fossem esclarecidas. Assim, prosseguiu por vários
anos, até se deparar com Daniel 8:14, "Ele me disse: até duas mil e tre-
zentas tardes e manhãs; e o santuário será purificado".
Empregando Ezequiel 4:6,7 e outros textos, cria que "a purificação
do santuário consistia na purificação da terra e da Igreja, que ocorreria
na segunda vinda de Cristo, no final dos 2300 anos".11 Em 1818, Miller
chegou à conclusão de que Cristo voltaria por volta de 1843, ou seja, o
fim vem em 25 anos.12 Vários anos da vida de Miller foram passados
em estudos e só em 8 de dezembro de 1839 é que Miller apresenta sua
primeira série em uma cidade importante. Os estudos de Miller se
espalharam e havia milhares de pessoas esperando que Jesus voltasse
em algum ponto de março/abril de 1843/1844. Esse foi o primeiro
desapontamento. Depois veio o movimento do sétimo mês, ou seja,
Jesus voltaria não em abril ou março, mas em setembro ou outubro,
sete meses à frente. Assim, depois dos estudos de Samuel Snow e ou-
tros, foi fixada a data para o dia 22 de outubro de 1844.
O dia chegou, passou e Jesus não voltou. Tremendo foi o desapon-
tamento. Tiago White escreveu depois: "Quando o irmão Himes visitou
Portland, Maine, poucos dias após a passagem da data, e declarou que
os irmãos deveriam se preparar para outro duro inverno, meus senti-
mentos foram quase incontroláveis. Deixei o local de reunião e chorei
como uma criança".13
O sentimento de decepção e confusão só passou depois que Hiram
Edson recebeu uma visão. Ele era um fazendeiro do norte do Estado de
Nova York; enquanto atravessava o milharal, parou no meio do campo.
"O céu parecia abrir-se-me à vista e vi distinta e claramente que em
lugar de nosso Sumo Sacerdote sair do Lugar Santíssimo do santuário
celestial para vir à Terra (em 22 de outubro) [...] Ele pela primeira vez
entrava nesse dia no segundo compartimento desse santuário; e que

11 TIMM, Alberto (í. O santuário e as três mensagens angélicas. Engenheiro Coelho, SP: Imprensa
Universitária Advenlista, 1999, p. 35.
n MAXWELL, 1982, p. 13.
13 Disponível em: <ht!p://temcat.com/L-!-adv-pioneer-lib/JWHITE/LIFP.pdí>
2.300 Tardes e Manhas e a Purificação... 169

Ele tinha uma obra para realizar no Santíssimo antes de vir à Terra".11
Após a profecia do desapontamento de Apocalipse 10, o texto termi-
na dizendo: "É necessário que ainda profetizes" (Apocalipse 10:11), ou
seja, os períodos proféticos ainda deveriam ser pregados, agora com
uma visão correta da obra que Cristo realiza no Céu em nosso favor.
Como resultado do desapontamento do dia 22 de outubro de 1844,
o movimento milerita foi dividido em três grupos: a) o primeiro aban-
donou a fé e nunca mais quis saber de religião; b) o segundo continuou
a marcar datas até que desapareceu e, c) o terceiro deu origem à Igreja
Adventista do Sétimo Dia (Apocalipse 12:17; 14:12; 19:10).
Assim, estava aberto o tempo do fim. O poder papal havia caído em
1798 e em 1844, no tempo profético aprazado, Deus tirou Sua igreja do
deserto porque tinha para ela uma sagrada missão (Apocalipse 10:11;
Mateus 28:19, 20).
Hoje, a Igreja Adventista do Sétimo Dia reúne em seu bojo doutri-
nário 28 crenças fundamentais,15 todas elas fortemente alicerçadas na
Palavra de Deus. Algumas doutrinas são distintivas do adventismo,11'
outras são partilhadas pela maioria das igrejas protestantes históricas.
Através do ensino dessas doutrinas, a Igreja Adventista cumpre seu pa-
pel profético, como igreja remanescente, de restaurar as verdades deita-
das por terra pelo chifre pequeno (Daniel 8:12; Isaías 58:12).

b) No Céu: se iniciaria o juízo de investigação e quando este ter-


minasse, o chifre pequeno seria finalmente destruído e o reino dado
aos santos do Altíssimo.
Assim como o santuário terrestre tinha dois compartimentos, o
Santo e o Santíssimo, e neles ministravam os sacerdotes, diariamente, e
o Sumo Sacerdote, uma vez ao ano, chegaria o dia em que Cristo assumi-
ria Seu ministério como Sumo Sacerdote no Céu e purificaria o santuário.

14 MAXWELL 1982, p. 50.


15 Para um estudo destas 28 troncas, ver a obra: Nisto cremos: As 28 crenças fundamentais da Igreja
Adventista do Sétimo Dia.Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2008.
16 Por "distintivas", queremos nos referir às doutrinas ccnirais, desenvolvidas nos primeiros anos do
adventismo: o sábado do sétimo dia, o segundo advento de Cristo, o ministério bifásico de Cristo no san-
tuário celestial, a imortalidade condicional e a perpetuidade dos dons espirituais. Essas verdades definem o
adventismo do sétimo dia ern contraste com outros grupos de cristãos. Para maiores detalhes, ver Knight, Em
busca de identidade, Schw;irz e Greenleaf, Portadores de luz.
DANIEL
170 Segredos da Profecia

Quando Jesus ascendeu aos céus (Atos 1:9), Ele foi para o san-
tuário celestial e deu início ao ministério sacerdotal de intercessão,
assim como o sacerdote fazia ao longo do ano. Assim como o santuá-
rio terrestre passava por uma purificação anual, o mesmo aconteceria
com o celestial. Essa obra de purificação, segundo Daniel 8:14, ocor-
reria depois de 2.300 anos, ou seja, no ano de 1.844. No dia 22 de
outubro desse ano Jesus dá início ao Seu ministério sumo sacerdotal.
Isso indica que estamos vivendo, desde 1844, no grande dia profético
da expiação.
Recapitulando: a primeira fase do ministério de Cristo durou de
Sua ascensão (ano 31) até 1844 (Hebreus 8:1,2,6), em que Ele cumpriu
o papel de Sacerdote. A segunda fase (como Sumo Sacerdote) vai de
1844 até a Sua segunda vinda, data esta não revelada na Bíblia (Mateus
24:36). Assim como o Dia da Expiação era de juízo para o povo de
Israel, também o será para o povo de Deus do tempo do fim. Vejamos
o que acontece nesse dia da expiação escatológico:
a) O juízo começa no santuário (Apocalipse 14:7; Atos 17:31).
b) Os mortos são julgados pelas coisas escritas nos livros de regis-
tros (Apocalipse 20:12; 2 Coríntios 5:10; Eclesiastes 12:14).
c) Jesus assume o papel de advogado neste juízo (l João 2:1).
d) Os pecados dos justos são apagados (Atos 3:19-21).
e) O nome do vencedor permanece no livro da vida de Deus
(Apocalipse 3:5).
f) Aquele que não abandonou o pecado é apagado do livro de Deus
(Êxodo 32:33).
g) Os sentenciados são aqueles cujos nomes não estão no livro da
vida (Apocalipse 20:15).
h) Os casos de todos são eternamente selados (Apocalipse 22:11).
i) Após o julgamento a obra sacerdotal de Cristo termina (Hebreus
9:27,28; Apocalipse 15:5,8; Daniel 7:13, 14, 26 e 27).

Assim, o juízo de Deus pode ser dividido em três fases. Essas fases
são chamadas de: (a) Pré-advento (porque acontece antes da volta de
Cristo); (b) Comprobatório (só para esclarecer o porquê da perdição
dos ímpios) e (c) Executivo (aplicação da sentença).
2.300 Tardes e Manhãs e a Purificação... 171

O JUÍZO PRÉ-ADVENTO (INVESTIGATIVO)


Essa fase do juízo diz respeito ao povo de Deus. Tem início pelos
primeiros habitantes da terra e alcança até os que estiverem vivos quan-
do o Senhor vier. Aqueles que não aceitaram a Cristo como Salvador
não são julgados nessa fase. Isso está de acordo com as palavras de
Cristo: "Quem não crê [no Filho] já está julgado" (João 3:18), ou seja,
já está condenado. Os salvos são julgados antes que Jesus volte. Em
Apocalipse 20:4, João viu tronos e neles se assentaram aqueles a quem
fora dada autoridade para julgar. Quem é julgado nesse momento?
O mesmo verso apresenta aqueles que foram mortos por causa da
Palavra de Deus e também os que não adoraram a Besta nem a sua
imagem. Essa é uma visão dos fiéis filhos de Deus.

JUÍZO COMPROBATÓRIO
A segunda fase é chamada de juízo comprobatório. Essa fase do juízo
acontece após a volta de Cristo, durante o milénio (ver Apocalipse 20:6).
Não quer dizer com isso que ainda há esperança de salvação. Esse julga-
mento, na realidade, irá demonstrar a justiça e misericórdia de Deus em
salvar os que aceitaram a salvação e condenar os que a rejeitaram.
Em Apocalipse 20:11, João vê outra cena de juízo. Dessa vez, refere-
se ao julgamento daqueles que não têm seus nomes no livro da vida
(ver 20:15). Logo, é esse o juízo dos perdidos. Essa fase do juízo aconte-
cerá durante os mil anos após a volta de Cristo (Apocalipse 20:5).

JUÍZO EXECUTIVO
Como última fase do juízo de Deus, teremos a pronunciação da sen-
tença. Chamamos essa terceira fase de juízo executivo (ver Apocalipse
20:9). O fogo destruirá todo o pecado. O mal nunca mais se levantará
(Malaquias 4:1). O mesmo fogo que destruirá os ímpios purificará este
planeta. Aqui será a eterna morada dos remidos (Apocalipse 21:1-3).
Quando a primeira fase do juízo terminar (juízo pré-advento), Jesus
voltará à Terra como "Rei dos reis e Senhor dos senhores" (Apocalipse
19:16), para dar a recompensa a cada um (Mateus 25:31-46) e destruir
o chifre pequeno. Finalmente o reino será dado aos santos do Altíssimo
e eles reinarão por toda a eternidade (Daniel 7:11, 18 e 27).
Portanto, as profecias de Daniel antecipam uma sequência

histórica conduzida por Deus, desde o precipício do tempo

até o fim dos dias, um vislumbre do tempo que permite

àqueles que, como Daniel, se determinam a amar e servir

a Deus, saindo da incerteza e da angústia presente

para a paz e a segurança da vida eterna

(Comentário Bíblico Adventista, v. 4, p. 826).


DANIEL
NO RIO TIGRE
(QUARTA VISÃO PROFÉTICA)

O livro do profeta Daniel registra quatro visões. A primeira ocorre


no capítulo 2, a segunda no capítulo 7 e a terceira nos capítulos 8 e 9.
Chegamos agora à quarta visão de Daniel registrada nos capítulos 10 a
12. Levando em conta que Babilónia foi vencida no ano 539 a.C., essa
visão deve ter ocorrido por volta dos anos 536/535 a.C, pois transcor-
ria o terceiro ano de Ciro.1 Nesta última seção, o capítulo 10 funciona
como uma introdução ou prólogo, do capítulo 11 como sendo o corpo
da profecia e, o capítulo 12 é a conclusão ou epílogo.2
Já haviam se passado setenta anos desde que Daniel e seus amigos
foram levados cativos para Babilónia. Daniel agora estava bem ido-
so, com quase 90 anos de idade, e ainda cumpria seus deveres como
estadista naquela terra estrangeira, agora sob o domínio dos persas.
Ciro havia emitido um decreto que permitia aos judeus voltarem para
Jerusalém e reconstruírem os muros e o templo da cidade (Esdras 1:1-4),
mas Satanás temia essa situação e faria de tudo para impedir a obra.
O motivo da aflição e jejum de Daniel possivelmente tenha sido a
oposição feita pelos samaritanos aos judeus que haviam voltado do exílio

1 Comentário bíblico adventista, v. 4, p.


2 SHEA,2010,p. ?28.
DANIEL
174 Segredos da Profecia

sob as ordens de Zorobabel (Esdras 4:1-5), e trabalhavam na reconstru-


ção da cidade e do templo. Os samaritanos ofereceram ajuda para esta re-
construção, mas a oferta foi negada, pois os samaritanos eram politeístas
e idólatras.3 Como vingança, eles levantaram falsas acusações contra os
judeus e tentaram influenciar o rei da Pérsia a retirar a sua ajuda e revogar
sua ordem para reconstruir Jerusalém (Esdras 4:5). O palco do conflito estava
armado e estas interferências duraram até que Dado I chegasse ao trono.
Nesta história teremos um vislumbre do "grande conflito" (Daniel 10:1)
que existe nos bastidores da História e, mais uma vez, encontraremos
Daniel, que desde a juventude sempre confiou em Deus, de joelhos
em oração.

A VISÃO DO GRANDE CONFLITO


Daniel e seus assistentes caminhavam pelas margens do rio Tigre
quando ele recebeu uma "grande visão". Aqueles que o acompanha-
vam foram tomados de "grande temor", "fugiram e se esconderam". Só
Daniel viu a visão e ao final, ele ficou muito enfraquecido (Daniel 10:7, 8).
O mesmo se deu na conversão de Saulo (ver Atos 9:3-7; 22:6-9).
Daniel "viu" um "grande conflito" envolvendo o povo de Deus e
seus inimigos. Satanás levou os samaritanos a tentar influenciar o rei
da Pérsia a proibir que os judeus continuassem reconstruindo a cidade
e o templo de Jerusalém. Como resultado da oposição, a obra de re-
construção teve que parar. O idoso profeta ficou angustiado, pois de
acordo com a profecia de Jeremias já tinham se passado os setenta anos
de cativeiro, e o santuário precisava ser reerguido e a cidade restaurada
(Jeremias 25:11, 12; Daniel 9:2; Esdras 4:4, 5).
Por que era tão importante a reconstrução do templo? O santuá-
rio era o centro da verdadeira adoração estabelecida por Deus. Ele
havia ordenado a Moisés construir um tabernáculo para que pudesse
"habitar" entre o Seu povo (Êxodo 25:8). Depois que Israel se estabeleceu
como nação em Canaà, Davi desejou no coração edificar uma "casa" para
o Senhor, porém, foi Salomão que a construiu. Esse templo era magní-
fico em esplendor, mas agora nos dias de Daniel ele estava em ruínas.
Daniel no Rio Tigre 175

O propósito de Deus era que através dos ensinamentos do templo to-


das as nações tivessem a oportunidade de conhecer o Deus verdadeiro
(l Reis 8:39). O profeta Ageu profetizou que o Messias, aquele para
quem os símbolos do santuário apontavam, encheria de glória a casa
do Senhor (Ageu 2:7; Lucas 2:49). Satanás, representado na visão pelo
príncipe do reino da Pérsia (Daniel 10:13), estava temeroso de que o
templo fosse restaurado, pois se isso ocorresse, no tempo determinado
viria o Messias (Gaiatas 4:4), e isso seria sua eterna derrota.
Aqui Daniel nos ensina outra preciosa lição. Quando soube da ação
dos inimigos contra os planos de Deus se pôs a orar (Daniel 10:2,3,12).
A maneira de Daniel resolver os problemas era confiar em Deus. Desde
a sua juventude, quando foi levado cativo à Babilónia, até os últimos
anos de sua vida, Daniel teve uma vida de oração. Além de orar, o idoso
profeta eliminou da sua dieta todas as iguarias. Alimentava-se da comi-
da mais simples, e apenas o suficiente para manter-se vivo até que suas
orações fossem respondidas.

UMA VISÃO DE CRISTO


Quando Daniel se pôs a orar ele teve uma visão de um ser divino
(Daniel 10:5-7). Quando comparamos esta visão com a que João teve na
ilha de Patmos (Apocalipse 1:12-18), concluímos que o Ser que Daniel
viu não era outro senão Jesus, o Filho de Deus. Quão confortante foi para
Daniel contemplar Jesus com Sua gloriosa veste. Vejamos os simbolismos:
a) Vestido de linho (Daniel 10:5). A veste sacerdotal, feita de linho
representa a pureza de Cristo e Sua obra mediadora como nosso Sumo
Sacerdote.
b) Ombros cingidos de ouro (Daniel 10:5). Representa a prontidão
de Cristo para fazer o que fosse necessário por Seu povo e Sua igreja.
c) Olhos como tochas de fogo (Daniel 10:6). Revela a firmeza de Seu
semblante, que aterroriza os inimigos, que não conseguem encará-Lo.
d) Pés como de bronze (Daniel 10:6). Representa Seu poder glo-
rioso, dedicado a defender e apoiar Seu povo e a derrotar os inimigos.
e) Voz como o estrondo de muita gente (Daniel 10:6). Sua voz res-
soa como a majestade de muitas águas. A Palavra de Deus é eficaz para
salvar ou destruir.
DANIEL
176 Segredos da Profecia

Daniel chamou o que viu de uma "visão" (Daniel 10:7), entretanto,


usou uma palavra hebraica em particular que se refere especialmente
à manifestação de um ser pessoal, em contraste com uma visão simbó-
lica como a que teve nos capítulos 7 e 8. Essa palavra poderia ser tra-
duzida como "teofania", ou seja, uma manifestação do próprio Deus.
É maravilhoso perceber que, no fim de seu ministério como profeta
de Deus, Daniel se encontra pessoalmente com o Senhor a quem esta-
va servindo durante todos os anos de sua vida. Essa presença pessoal
trouxe segurança ao profeta.'1

INTERVENÇÃO DIVINA NOS ASSUNTOS HUMANOS


Na cena vista por Daniel vemos "príncipes" em combate (Daniel
10:5-7, 13, 21). Quando comparamos esta passagem com Apocalipse
1:13-16;!2:7-9; Ezequiel 28:13-18 e Isaías 14:12-14, percebemos se tra-
tar de um conflito entre Cristo e Satanás.
A palavra hebraica 'sar (traduzida por príncipe) é empregada fre-
quentemente por Daniel com referência a seres sobrenaturais (Daniel
8:11, 25; 10:13, 21; 12:1). O texto bíblico deixa claro que por detrás do
rei da Pérsia estava o príncipe do mal, Satanás, que desejava interferir
nos planos de Deus. Neste "grande conflito", Daniel "viu" (Daniel 10:1)
uma luta muito intensa. De um lado estava um "anjo mau" agindo para
frustrar os desígnios divinos, e do outro lado, possivelmente o anjo
Gabriel, o mesmo que o havia auxiliado em ocasiões anteriores.
A luta durava já 21 dias e continuava empatada. Duas criaturas tra-
vavam uma batalha extraordinária. Então Miguel veio ajudar o anjo no
conflito contra o príncipe do reino da Pérsia. De acordo com a Bíblia,
Miguel é o próprio Cristo (Daniel 10:13; 21; 12:1; Judas 9; Apocalipse
12:7), e com Sua chegada os poderes das trevas foram derrotados e os
planos de Deus poderiam seguir adiante.
O nome Miguel significa "Quem é como Deus?" Jesus é descrito no
Novo Testamento como a "imagem do Deus invisível" (Colossenses 1:15).
"Miguel, o Arcanjo" (Judas 9) é um título de Cristo como o dirigente
dos exércitos angelicais.
Daniel no Rio Tigre 177

Jesus veio pessoalmente batalhar em resposta à oração de Daniel.


Satanás, representado na profecia pelo príncipe do reino da Pérsia,
foi expulso e a obra de construção do santuário pôde seguir avante.
Terminada a obra os sacrifícios voltaram a acontecer e, no tempo
determinado, Jesus veio cumprir os simbolismos e trazer salvação para
Seu povo (ver Gaiatas 4:4, 5; Hebreus 9:13, 14).
Os principados e potestades da Terra encontram-se em

amarga revolta contra o Deus do Céu. Estão cheios de ódio

contra todos os que O servem, e logo, muito em breve, deve

ser travada a última grande batalha entre o bem e o mal.

A Terra deve ser o campo de batalha - a cena do combate

final e da final vitória. Aqui, onde por tanto tempo Satanás

guiou o povo contra Deus, a rebelião deve ser para sempre

suprimida (Cristo Triunfante, 409).


REIS
EM GUERRA

Existe um jogo de tabuleiro chamado War, em que os participantes


representam as nações que estão em guerra. Ninguém sabe ao certo
quem vencerá. É um jogo de estratégia e sorte. Diferentemente deste
jogo, o capítulo 11 de Daniel não deixa espaço para sorte. Na descrição
de eventos que ainda deveriam ocorrer, o profeta descreve inúmeros
conflitos envolvendo o povo de Deus e seus perseguidores. De manei-
ra precisa Deus revela o futuro das nações e o estabelecimento de Seu
reino eterno.
Todo o capítulo 11 é narrado pelo anjo Gabriel, logo, Daniel não está
vendo os reis do Norte e do Sul, mas ouvindo sobre eles. Por isso, esse
capítulo é descrito mais como uma "audição" do que uma "visão". Temos
aprendido que a profecia é uma verdade que se amplia, por isso novas ima-
gens lançam mais luz sobre as anteriores e a história vai sendo desenhada
até que Miguel Se levante e o reino eterno seja estabelecido (Daniel 12:1).
Outro detalhe que deve ser lembrado é que os capítulos 10 a 12 registram
uma mesma visão, não uma chazon {visão simbólica), mas uma mareh
(visão de um ser ou aparição),1 o que nos leva a optar por literalidade na
interpretação de vários simbolismos. Mas como fazer a distinção do que é
simbólico ou literal no capítulo?

1 HFRNÁNDtZ, p. 339.
DANIEL
180 Segredos da Profecia

Segundo Hernández, devemos interpretar todos os elementos como


literais até o evento da cruz, mas "passando a cruz, quando Cristo rea-
liza um novo pacto com Seu novo povo, o Israel espiritual, devemos
entender o Norte, o Sul, reis, os tempos (12:7, 11, 12), tudo em forma
espiritual ou simbólica. A frase "Teu povo" já não é mais Israel literal, e
sim espiritual, "rei do Norte" já não é Babilónia, nem a Síria, senão uma
Babilónia espiritual; tampouco o "rei do Sul" é o Egito literal senão o espi-
ritual (Apocalipse 11:7)".2 Essa lógica pode ser confirmada ao se estudar o
Apocalipse, quando a Babilónia literal já não mais existia nos dias de João
e continua a aparecer no livro como sendo os inimigos do povo de Deus.
Vamos então entender alguns elementos do capítulo.

REIS DA PÉRSIA
"Agora, eu te declararei a verdade: eis que ainda três reis se levan-
tarão na Pérsia, e o quarto será cumulado de grandes riquezas mais do
que todos; e, tornado forte por suas riquezas, empregará tudo contra o
reino da Grécia" (Daniel 11:2).
Daniel 11:2 fala sobre quatro reis que se levantarão da Pérsia. Quem
são eles? Há algumas interpretações. Visto que Daniel teve essa visão no
terceiro ano de Ciro (ver Daniel 10: l), os três reis que o sucederam no tro-
no da Pérsia foram Cambises II (530-522 a.C.)> um usurpador chamado
Falso Smerdis ou Gaumata (522 a.C.), que ficou poucos meses no trono e
Dario I (522-486 a.C.).3 O quarto rei é Xerxes (486-465 a.C), muito mais
rico do que todos os outros. Ele é identificado como o rei Assuero, marido
da rainha Ester (Ester 1:1).
Daniel díz que o quarto rei, identificado como Xerxes, empregaria
toda a sua riqueza "contra o reino da Grécia". A península grega era
a única área no Mediterrâneo oriental que não estava sob o domínio
persa. Em 490 a.C., Dario, o Grande, predecessor de Xerxes, fora de-
tido em sua tentativa de subjugar os gregos. A fim de controlar essa
importante área do Mediterrâneo, Xerxes ajuntou o maior exército da
História. Alguns historiadores falam em 300.000 soldados, e Heródoto

2 Ibiclvm, p. 3-10.
3 Comentário bíblico adventista, v. 4, p, 951,
Reis em Guerra 181

enumera mais de 40 nações que forneceram tropas para o exército per-


sa, e a quantidade de soldados chegava a um milhão e setecentos mil.'1
Todo este contingente para as batalhas de Salamina (480 a.C.) e Plateia
(479 a.C.). Assim como descrito na profecia, Xerxes empreendeu "tudo
contra o reino da Grécia", mas foi vergonhosamente derrotado.
Héctor Hernández menciona que outros autores preferem interpre-
tar os quatro reis como sendo Cambises, Dario, Xerxes e Artaxerxes,
uma vez que estes reis têm uma importância maior na profecia de Daniel.
Cambises foi quem conquistou o Egito, terceira costela na boca do urso
(Daniel 7:5). Dario I foi tolerante com a religião dos povos conquista-
dos e promulgou o segundo decreto para a reconstrução do templo em
Jerusalém (Esdras 6); é também em seu reinado que finalmente o templo
é reinaugurado (516/515). Xerxes foi o esposo de Ester e nomeou como
primeiro-ministro de seu império o judeu Mordecai, que junto com
sua prima Ester evitaram o morticínio do povo de Deus. E finalmente,
Artaxerxes, o quatro rei cumulado de grandes riquezas, é quem vai emi-
tir o decreto para restauração e edificação de Jerusalém, em 457 a.C.5

REIS DA GRÉCIA
"Depois, se levantará um rei poderoso, que reinará com grande do-
mínio e fará o que lhe aprouver. Mas, no auge, o seu reino será quebrado
e repartido para os quatro ventos do céu; mas não para a sua posteridade,
nem tampouco segundo o poder com que reinou, porque o seu reino será
arrancado e passará a outros fora de seus descendentes" (Daniel 11:3,4).
O "rei poderoso" de Daniel 11:3,4 é Alexandre o Grande, cujo exército
conquistou em tempo relâmpago o vasto território do Império Persa. A des-
crição nos lembra de Daniel 8:7, onde é dito que o carneiro (Média-Pérsia)
sofreu uma derrota vergonhosa diante do bode (Grécia). Contudo, no auge
do seu poder o reino de Alexandre foi quebrado e dividido entre seus gene-
rais. A profecia especificava que seu reino não seria para a sua posteridade.
Alexandre, o Grande, alcançou o auge de sua carreira com a idade de
32 anos, mas depois de passar dias bebendo sem limites, foi acometido

4 MERÓDOTD. História, v. 2, p. 161 -l 67.


5 HERNANDEZ, p. 344.
DANIEL
182 Segredos da Profecia

por uma febre e morreu em 323 a.C. Alexandre foi sucedido por seu filho,
nascido logo após sua morte, e seu meio-irmão Filipe. Ninguém de sua
família imediata era capaz de manter unidos os territórios que ele havia
conquistado. Os generais de Alexandre assassinaram seu filho e o irmão,
dividindo o reino entre si. Conforme Daniel 10:4, o Império Grego foi
dividido em quatro partes (quatro ventos), por seus generais e não por
um descendente, pois sua família já tinha sido exterminada. O reino de
Alexandre foi dividido da seguinte forma:
Lisímaco: Trácia e Betínia
Cassandro: Grécia, Macedônia e Épiro
Seleuco: Síria
Ptolomeu: Egito, Líbia, Arábia e Celosíria6

REIS DO SUL E DO NORTE


Não demorou muito para que esses quatro reinos fossem reduzidos a
dois. As expressões "Rei do Sul1' e "Rei do Norte" aparecem com frequência
neste capítulo de Daniel e não há dúvida de que "o reino do Sul" é o Egito,
governado pelos Ptolomeus, ao passo que "reino do Norte" é a Síria, gover-
nada pelos Selêucidas. Qual seria a razão da profecia dedicar uma atenção
especial a essas duas divisões do império de Alexandre? Pela simples razão
de que um e depois o outro controlaram o território de Israel. Do ponto de
vista da História da redenção, os acontecimentos políticos adquirem signi-
ficado no momento em que têm relação com o povo de Deus.

TENTATIVA DE PAZ
"Mas, ao cabo de anos, eles se aliarão um com o outro; a filha do rei
do Sul casará com o rei do Norte, para estabelecer a concórdia; ela, po-
rém, não conservará a força do seu braço, e ele não permanecerá, nem
o seu braço, porque ela será entregue, e bem assim os que a trouxeram,
e seu pai, e o que a tomou por sua naqueles tempos" (Daniel 11:6).
O rei do Egito, Ptolomeu II, e o rei Antíoco II, da Síria, tentaram
estabelecer paz entre seus respectivos países, através de um casamento.
Antíoco II deveria se casar com Berenice, filha de Ptolomeu II, mas teve
_ Reis em Guerra 183

que se divorciar de sua esposa Laodice. Essa tentativa de cimentar as re-


lações entre o Egito e a Síria não teve êxito. Depois que seu sogro (o rei
Ptolomeu) morreu, ele se divorciou de Berenice e retomou Laodice como
sua esposa. Ela conseguiu fazer envenenar Berenice e seu filho, garantin-
do, desse modo, que seu próprio filho Seleuco II, subisse ao trono da Síria.
Há algo extraordinário nisso tudo: a Bíblia predisse esses acontecimentos
com detalhes, 300 anos antes de ocorrerem! Isso nos diz algo sobre Deus.
Ele conhece todas as coisas e conduz o rumo da história em direção ao
evento mais esperado - Seu retorno glorioso.
Vimos até aqui que a profecia do capítulo 11 começa com a descri-
ção dos reis persas e continua com Alexandre, o Grande. Em seguida o
esboço profético muda para os selêucidas e os ptolomeus, generais de
Alexandre, que se desenvolvem a partir da desintegração do seu im-
pério. Daniel 10-12 apresenta um alargamento progressivo dos temas
tratados nas profecias anteriores, não mais a partir de Babilónia, mas
passa rapidamente pelo declínio e queda do Império Medo-Persa, e as-
censão e queda do Império Grego. Em seguida, focaliza sua atenção
sobre Roma pagã e papal, representados pelas pernas e pés da estátua
do capítulo 2, pelo "animal terrível e espantoso" do capítulo 7 e o "chifre
pequeno" dos capítulos 7 e 8.

ROMA IMPERIAL
"O que, pois, vier contra ele fará o que bem quiser, e ninguém po-
derá resistir a ele; estará na terra gloriosa, e tudo estará em suas mãos"
(Daniel 11:16).
Quem veio ao Egito foi Roma, na pessoa de Júlio César. As mesmas
expressões usadas no verso 3 para introduzir o Império Grego agora
são usadas para introduzir o quarto império da profecia, Roma. De
Roma Imperial se pode afirmar que "estará na terra gloriosa". Pompeu
tomou Judá no ano 63 a.C. e a anexou como província do Império, o
que nunca deixou de ser até a destruição de Jerusalém no ano 70 d.C.,
por mãos de Tito, general romano.
"Resolverá vir com a força de todo o seu reino, e entrará em acordo
com ele, e lhe dará uma jovem em casamento, para destruir o seu reino;
isto, porém, não vingará, nem será para a sua vantagem" (Daniel 11:17).
DANIEL
184 Segredos da Profecia

Essas palavras podem ser aplicadas à filha de Ptolomeu XII, Cleópatra,


que sendo ainda uma adolescente, foi para Roma com Júlio César e teve
um filho com ele, mas isso não evitou a ruína do Egito.

ROMA PAPAL
"Depois, se levantará em seu lugar um homem vil, ao qual não ti-
nham dado a dignidade real; mas ele virá caladamente e tomará o reino,
com intrigas" (Daniel 11:21).
As mesmas ações do chifre pequeno registradas nos capítulos 7 e
8 são reproduzidas com maiores detalhes no capítulo 11, identifica-
do aqui como um homem vil. Segundo Daniel 11:22 "o rei do Norte"
deveria quebrantar "o príncipe da aliança". O termo hebraico usado
para "príncipe" nesse versículo é nagid e esta mesma palavra ocorre
apenas mais uma vez no livro de Daniel (9:25-27). Como já estudado,
essa passagem de Daniel 9, que explica a visão do capítulo 8, mencio-
na um nagid-principe que faria uma firme aliança com muitos. Este
nagid-príncipe seria morto. Portanto, o nagid que seria "quebrantado"
no capítulo 11 deve ser identificado com o mesmo nagiW-príncipe do
capítulo 9, ou seja, Jesus. Tanto a morte de Cristo como a destruição de
Jerusalém ocorreram durante o domínio do Império Romano na fase
pagã. Assim, podemos interpretar com segurança que o "poder" refe-
rido a partir de Daniel 11:21 se refere tanto a Roma Pagã como Papal.

ATAQUE AO SANTUÁRIO
"Dele sairão forças que profanarão o santuário, a fortaleza nossa,
e tirarão o sacrifício diário, estabelecendo a abominação desoladora"
(Daniel 11:31).
Conforme já estudamos, o "chifre pequeno" profanaria o santuário,
retirando o tamid ou "o diário, contínuo" (Daniel 8:11). Os serviços di-
ários e o serviço anual do santuário tipificavam, correspondentemen-
te, o sacrifício todo suficiente de Jesus Cristo e Seu ministério Sumo
Sacerdotal no Santuário Celestial. O "chifre pequeno" estabeleceu um
sistema sacerdotal paralelo ao de Cristo, como a confissão auricular
e o sacrifício da missa em lugar da obra mediadora de Cristo como
nosso Sumo-Sacerdote nas cortes celestiais.
Reis ern Guerra 185

Mas a história termina com um final feliz. Finalmente o povo de Deus


será liberto e triunfará com Cristo. Deus é justo. Ele conhece todas as
coisas, vê o futuro e sabe o que você está sentindo. Ele conhece sua dor,
quando tem que se despedir de um ente querido ao lado de sua sepultu-
ra. Ele conhece sua solidão quando você se sente rejeitado ou abando-
nado. Mas, se você permitir, Ele o confortará e lhe dará a certeza de que
tudo culminará no grande e mais esperado de todos os acontecimentos -
a volta gloriosa de nosso Senhor Jesus Cristo.
Terríveis provas e aflições aguardam ao povo de Deus,

O espírito de guerra está incitando as nações de uma a

outra extremidade da Terra. Mas em meio do tempo de

angústia que está para vir - tempo de angústia, qual nunca

houve, desde que houve nação - o povo escolhido de Deus

ficará inabalável. Satanás e seus anjos não poderão destruí-

los; pois anjos magníficos em poder protegê-los-ão

(O Cuidado de Deus, 252).


UM TEMPO DE
ANGÚSTIA SEM
PRECEDENTES
Antes do retorno de Jesus ao mundo, haverá um tempo de gran-
de prova para o povo de Deus. As provações são permitidas por Deus
como fornia de aperfeiçoar nosso caráter (l Pedro 4:12-14) e nos tornar
idóneos para o Céu. A boa notícia do livro de Daniel é que nesse tempo
de prova Se levantará Miguel, que é o próprio Cristo, e Ele salvará Seus
filhos fiéis (Daniel 12:1).

A CHEGADA DO TEMPO DO FIM


Daniel escreveu: "Nesse tempo, Se levantará Miguel" (Daniel 12:1).
De que tempo o profeta está falando? Parece que essa expressão está
interligada à expressão "no tempo do fim" de Daniel 11:40. Isso quer
dizer que ele situa os acontecimentos do capítulo 12 depois dos anos
1798 e 1844, datas já vistas como sendo o ponto inicial do período de
tempo chamado ''''Tempo do Fim", o tempo que antecede o fim dos rei-
nos humanos e o estabelecimento do eterno reino de Cristo.

UM TEMPO DE ANGÚSTIA NO "TEMPO DO FIM"


Antes que Jesus volte para estabelecer Seu reino eterno, Seus fi-
lhos sinceros passarão por um tempo de provação jamais visto na his-
tória. Daniel enfatiza: "[...] um tempo de angústia, qual nunca houve,
DANIEL
188 Segredos da Profecia

desde que houve nação até àquele tempo" (Daniel 12:1). O profe-
ta Jeremias faz uma dramática descrição desse momento: "Assim
diz o Senhor: Ouvimos uma voz de tremor e de temor e não de paz.
Perguntai, pois, e vede se, acaso, um homem tem dores de parto. Por
que vejo, pois, a cada homem com as mãos na cintura, como a que está
dando à luz? E por que se tornaram pálidos todos os rostos? Ah! Que
grande é aquele dia, e não há outro semelhante! É tempo de angústia
para }acó; ele, porém, será livre dela" (Jeremias 30:5-7).
Jeremias faz uma comparação entre essa angústia final do povo de
Deus e a angústia vivenciada pelo patriarca Jacó, enquanto fugia de seu
irmão Esaú. Em Génesis, capítulo 32, lemos a história da angústia de
Jacó ao saber que seu irmão, Esaú, a quem havia enganado, vinha mar-
chando contra ele com 400 homens (Génesis 32:6). Ellen G. White es-
creveu: "A experiência de Jacó durante aquela noite de luta e angústia,
representa a prova pela qual o povo de Deus deverá passar precisamen-
te antes da segunda vinda de Cristo."1

PARALELO ENTRE JACÓ E O REMANESCENTE NO TEMPO DO FIM

Remanescente
Jacó foi ameaçado de Os remanescentes serão ameaçados de
morte por Esaú. morte por um decreto (Apocalipse 13:15).
Jacó lutou para conseguir Os remanescentes clamarão a Deus de dia
o ivramento. e de noite (Salmo 118:5),
Satanás levou Esaú a Os ímpios marcharão contra os
marchar contra Jacó. remanescentes (Apocalipse 13:15-17).
Satanás se esforçou Satanás se esforçará para fazê-los pensar
para impor sobre Jacó a que seu caso é sem esperança (Apocalipse
intuição da culpa. 12:10).
Jacó se apegou ao anjo e O remanescente se apegará a Deus em
insistiu até prevalecer. oração (Salmo 120:1).
Deus poupou a Jacó O remanescente será salvo (Sá mo 91:7-12).

WHITE, Ellen G. Patriarcas e profetas. Ta t u í, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1990, p. 201.
Um Tempo de Angústia sem Precedentes 189

Uma pergunta deve ter surgido em sua mente: Por que Deus, em
Sua Palavra, já profetizou um tempo de prova para Seus filhos, mes-
mo depois de estarem salvos? Isso mesmo, pois a angústia de Jacó se
situa depois da queda da primeira praga e, quando isso acontecer, o
caso de todos já estará decidido, ou para salvação ou para perdição,
pois o tempo de graça já terá terminado. Então, qual é o objetivo da
angústia do povo de Deus neste momento da história?
Só encontro uma resposta para essa pergunta. Ao longo de toda
a história da humanidade, desde o jardim do Éden, Satanás sempre
tem acusado o governo de Deus e atacado Sua lei. Em Génesis 2:16,17,
lemos: "E o Senhor Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jar-
dim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e
do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente
morrerás". Deus criou Adão e Eva e deu-lhes uma lei e, caso não obe-
decessem, o resultado seria a morte. Mas Satanás se apresenta, usando
uma serpente, e contraria a clara ordem de Deus, dizendo: "É certo que
não morrereis" (Génesis 3:4). Nossos primeiros pais, duvidando da or-
dem de Deus e ouvindo a sugestão da serpente, participaram do fruto
proibido e perderam sua inocência original, o jardim, e pior de tudo,
a comunhão com o Criador. Essa tem sido uma estratégia de Satanás
ao longo da história, levar os filhos de Deus a quebrar Sua Lei e assim,
torná-los "livres" Satanás acusa Deus de que Sua lei é injusta e que não
pode ser observada em sua integridade.
Então surge no cenário profético os 144.000 selados (Apocalipse
7:1-8; 14:1-5). No tempo da angústia de Jacó, os fiéis filhos de Deus,
representados pelo simbólico número (144.000), serão uma prova ine-
quívoca da justiça divina e da falsidade das acusações de Satanás. Estes,
mesmo estando já selados e salvos, não terão um Mediador no santuário
celestial (Apocalipse 15:8), também não possuem a certeza de sua sal-
vação, pois não sabem que seus casos já foram decididos no santuário
celestial,2 no entanto, não pecarão, mesmo havendo a possibilidade,
pois a natureza pecaminosa só será tirada dos salvos na volta de Jesus
(l Coríntios 15:51-53). Eles viverão esses dias pelo poder do Espírito
DANIEL
190 Segredos da Profecia

Santo, em perfeita obediência à lei divina. Por isso, uma vez já na eter-
nidade, se cumprirá a promessa de Jesus: "[...] e andarão de branco jun-
to comigo" (Apocalipse 3:4), e "São eles os seguidores do Cordeiro por
onde quer que vá" (Apocalipse 14:4). Os 144.000 serão uma comitiva
especial de Cristo, pois são uma prova viva de que a lei de Deus, fun-
damento de Seu governo, é perfeita, justa e boa (Romanos 7:12), e são
falsas todas as acusações de Satanás (João 8:44).

FECHAMENTO DA PORTA DA GRAÇA


Com base ern Apocalipse 15:8; 22:11, entendemos que será após
Jesus deixar o santuário celestial, quando não haverá mais oportunida-
de de arrependimento e salvação, que os salvos viverão essa experiên-
cia. Isso quer dizer que quem estiver salvo não poderá mais se perder, e
quem estiver perdido não poderá mais se salvar. Todos os casos estarão
eternamente decididos.
Este momento é também conhecido como "Fechamento da Porta
da Graça". Essa expressão não está na Bíblia, mas o conceito por ela
ensinado pode ser encontrado em diversos textos (ver Mateus 25:10;
Lucas 13:25; Apocalipse 3:7, 22:11). Por isso, precisamos estar atentos
aos acontecimentos que ocorrerão antes desse evento.

EVENTOS ANTES DO FECHAMENTO DA PORTA DA GRAÇA


Antes do fechamento da porta da graça, ocorrerão os seguintes
eventos:
Derramamento da chuva serôdia (Joel 2:23, 28). Será uma dota-
ção especial do poder do Espírito Santo para capacitar os fiéis filhos de
Deus a pregarem ao mundo o último convite da misericórdia divina,
como apresentado em Apocalipse 14:6-12 e 18:4, também chamado de
Evangelho Eterno (Apocalipse 14:6). Será um grande movimento mun-
dial que concluirá a ordem de Cristo (Mateus 24:14), preparando assim
o caminho para a volta de Jesus (Apocalipse 18:1).
Pregação do evangelho a todo o mundo (Mateus 24:14). Todos os
habitantes da terra terão a oportunidade de conhecer o Evangelho Eterno
e tomar sua decisão. O ponto chave neste momento será a aceitação ou
não da marca da besta e do número do seu nome (Apocalipse 13:12-17).
Um Tempo de Angústia sem Precedentes 191

Decreto dominical (Apocalipse 13:14-17). Sendo o sábado um sinal


entre Deus e Seu povo (Êxodo 20:8-1 IjEzequiel 20:12,20), Satanás usará
de agentes humanas e instituições políticas e religiosas para combater o
verdadeiro sábado, o quarto mandamento da santa lei de Deus, pondo
em seu lugar o domingo, como um dia santo. Todos os que se recusarem
a prestar reverência ao domingo serão proibidos de comercializar, com-
prar ou vender qualquer artigo (Apocalipse 13:16, 17). A humanidade
estará dividida em dois grupos apenas: os que reverenciam a Lei de Deus
e aqueles que a rejeitam. Será um tempo de dura prova para o povo de
Deus, mas a vitória final já está garantida (Apocalipse 15:2).
O Selamento dos 144.000 (Apocalipse 7:1-4). Este número é simbó-
lico e representa todos os salvos que passarão pela angústia de Jacó, mas
não passarão pela morte. Eles recebem o selo de Deus que é dado aos que
obedecem a Sua lei (Atos 5:32; Isaías 8:16; Tiago 2:10). Ellen G. White
escreveu: "Nenhum de nós jamais receberá o selo de Deus, enquanto o
caráter tiver uma nódoa ou mácula sequer. Cumpre-nos remediar os de-
feitos de caráter, purificar de toda a contaminação o templo da alma".3
A personificação da volta de Jesus (2 Coríntios 11:14 e 2
Tessalonicenses 2:8-10). Como ato supremo de engano, Satanás irá
personificar a volta de Jesus, fazendo o mundo pensar ser ele o Cristo
tão longamente esperado. Somente aqueles que estiverem com sua fé
alicerçada na Palavra de Deus e com os olhos fitos em Jesus, poderão
resistir a este sutil engodo. A advertência de Cristo foi clara: "Porque
surgirão falsos cristos e falsos profetas operando grandes sinais e pro-
dígios para enganar, se possível, os próprios eleitos" (Mateus 24:24).

FECHAMENTO DA PORTA DA GRAÇA - JESUS SAI


DO SANTUÁRIO
No capítulo 7 de Daniel vemos "um como o filho do homem",
Jesus, vindo sobre as nuvens até a presença do Pai no santuário celestial
(Daniel 7:13, 14). Essa cena aponta para a entrada de Jesus no santuário,
para dar início a Sua obra de juízo, no ano de 1844. Já em Daniel 12:1
vemos Miguel, o mesmo Jesus, Se levantar. Isso indica o fim do juízo

3 WHITE, Ellen G. Testemunhos seletos. v. 2, Santo André, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1985, p. 69.
DANIEL
192 Segredos da Profecia

pré-advento, quando então Jesus deixará o santuário celestial. O primei-


ro evento após a saída de Jesus do santuário será o derramamento das
sete pragas (Apocalipse 16). A ira de Deus se manifestará através delas.
A Bíblia nos diz que isto acontece "porque os seus pecados se acumu-
laram até ao céu, e Deus Se lembrou dos atos iníquos que ela praticou"
(Apocalipse 18:5). A queda das sete últimas pragas são a prova visível de
que Jesus não está mais no santuário e que o caso de todos os habitantes
da Terra já foi decidido, ou para salvação ou para perdição eterna.

EVENTOS APÓS O FECHAMENTO DA PORTA DA GRAÇA


Fechada aporta da graça terão lugar os seguintes eventos:
Queda das sete pragas (Apocalipse 16:1-21). Essas pragas atin-
girão apenas os ímpios, pois o povo de Deus estará selado e seguro
(Salmo 91:9-12; Isaías 33:16),
Angústia de Jacó (Daniel 12:1). O principal ingrediente dessa an-
gústia é o fato de os salvos não terem a certeza de que todos os seus pe-
cados foram perdoados antes do fechamento da porta da graça. O povo
de Deus imergirá numa terrível angústia e clamará por livramento dia
e noite, mas ao fim, eles sairão vitoriosos (Jeremias 30:7).
Ressurreição especial (Daniel 12:2). Chamamos especial por não se
tratar nem da primeira (só salvos), nem da segunda (só perdidos), mas
uma especial, com representantes de ambas as classes. Quem são os ímpios
que ressuscitarão nela? Jesus declarou ao sumo sacerdote e a outros que
participavam de Seu julgamento: "Eu vos declaro que, desde agora, vereis
o Filho do Homem assentado à direita do Todo-Poderoso e vindo sobre
as nuvens do céu (Mateus 26:64). João, o vidente de Patmos escreveu: "Eis
que vem com as nuvens, e todo olho O verá, até quantos o traspassaram."
(Apocalipse 1:7). Com isso concluímos se tratar dos líderes e soldados que
participaram do julgamento e da crucifixão de Jesus. Por outro lado, quem
serão os salvos? Ellen G. White escreveu: "Abrem-se sepulturas, e 'muitos
dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e
outros para vergonha e desprezo eterno (Daniel 12:2). Todos os que morre-
ram na fé da mensagem do terceiro anjo saem do túmulo glorificados para
ouvirem o concerto de paz, estabelecido por Deus com os que guardaram
Um Tempo de Angústia sem Precedentes [ 193

a Sua lei".4 Com isso concluímos se tratar de todos aqueles que viveram
entre os anos do movimento milerita, quando a mensagem do terceiro
anjo começou a ser pregada, até antes do fechamento da porta da graça.
Primeira ressurreição - dos salvos (l Tessalonicenses 4:16). Todos
os salvos mortos desde o justo Abel (Hebreus 11:4) até o movimento
milerita, ressuscitam incorruptíveis.
Glorificação dos justos vivos (l Coríntios 15:51-53). Todos os
salvos vivos (chamados no Apocalipse os 144.000} são transformados
para assumirem um corpo incorruptível.
Volta de Jesus (Apocalipse 1:7). Jesus aparece nas nuvens dos céus e
dá a recompensa a cada um, segundo as suas obras (Apocalipse 22:12).
Observação: Os eventos acima referidos, tanto antes quanto depois
do fechamento da porta da graça, não estão numa sequência cronológi-
ca exata, pois muitos deles ocorrerão de forma simultânea.

O FIM DA ANGÚSTIA DE JACÓ


A angústia terminará com o maior evento da história humana - a
gloriosa volta de Jesus com poder e majestade. O livro do Apocalipse,
falando deste evento, descreve que haverá silêncio no céu por meia
hora, quando for aberto o sétimo e último selo (Apocalipse 8:1). Se
aplicarmos mais uma vez o princípio dia/ano de interpretação proféti-
ca, teremos o seguinte resultado:

1 dia profético (24 horas) l ano literal (360 dias)


12 horas 6 meses (180 dias)
õ horas 3 meses (90 dias)
2 horas 1 mês (30 dias)
1 hora 2 semanas (14 dias)
30 minutos 1 semana (7 dias)

Por que o céu estará em silêncio por uma semana? A resposta


está nas palavras de Cristo: "Quando vier o Filho do Homem na Sua
DANIEL
194 Segredos da Profecia

majestade e todos os anjos com Ele, então, Se assentará no trono da


Sua glória; e todas as nações serão reunidas em Sua presença, e Ele se-
parará uns dos outros, como o pastor separa dos cabritos as ovelhas"
(Mateus 25:31, 32). O ambiente do céu é a música (Apocalipse 4:8);
constantemente os seres que nunca pecaram louvam a Deus diante de
Seu trono (Apocalipse 5:8-14). No entanto, quando for aberto o sétimo
selo, Jesus descerá à Terra e todos os anjos virão com Ele. O céu ficará
em silêncio porque estará vazio. Em seguida os salvos serão reunidos,
dos quatro cantos da Terra (Mateus 24:31), e juntos subirão para o en-
contro de Jesus nos ares (l Tessalonicenses 4:17), e assim estarão para
sempre com o Senhor.
Que gloriosa oportunidade Deus rios dá hoje de conhecermos os
eventos que ainda terão lugar em nosso planeta! O que você fará com essa
informação? Qual será sua decisão diante das revelações de Deus a você?
O Espírito Santo lhe declara hoje: "Os céus e a terra tomo, hoje,
por testemunhas contra ti, que te propus a vida e a morte, a bênção e a
maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência"
(Deuteronômio 30:19).
Lembre-se do convite de Jesus: "Vinde a Mim, todos os que estais
cansados e sobrecarregados, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o Meu
jugo e aprendei de Mim, porque sou manso e humilde de coração; e
achareis descanso para a vossa alma. Porque o Meu jugo é suave, e o
Meu fardo é leve" (Mateus 11:28-30). Abra o seu coração e permita que
Deus seja o PRIMEIRO e o ÚNICO em sua vida!
Leiam o livro de Daniel. Relembrem, ponto por ponto,

a história dos reinos ali representados. Contemplem

estadistas, concílios, exércitos poderosos, e vejam como

Deus atuou para abater o orgulho e lançar ao pó a glória

humana. Somente Deus é representado como grande. Na

visão do profeta, Ele é visto derribando um poderoso rei e

suscitando outro. É revelado como Monarca do Universo,

prestes a estabelecer Seu reino eterno - o Ancião de dias,

o Deus vivo, a Fonte de toda sabedoria, o Dominador do

presente e o Revelador do futuro. Leiam e entendam quão

pobres, quão frágeis, quão efémeros, quão errantes, quão

culpados são os mortais (Cristo Triunfante, 334).


O ESTABELECIMENTO
DO ETERNO
REINO DE CRISTO
Certa vez um pai surpreendeu-se ao ver por entre a porta entre-
aberta do quarto do seu filho, a expressão preocupada do menino ao
ler a história do seu herói predileto. Enquanto roía as unhas, ele an-
gustiava-se diante das páginas coloridas daquele pequeno livro. Após
esquivar-se por alguns instantes daquela cena, o pai retornou ao quarto
do garoto e percebeu que agora ele estava com o semblante sereno, des-
preocupado e esboçava um largo sorriso no rosto. O pai, agora rnais
curioso ainda, perguntou:
- Filho, há poucos instantes eu olhei por entre a porta do seu quar-
to e vi que você estava angustiado com a história. Mas agora você está
sorrindo. O que aconteceu na história?
O menino, sorrindo, respondeu:
- É o seguinte, pai. Quando o senhor me viu pela primeira vez, eu
estava lendo a parte da história que mostrava a prisão do meu herói
e das torturas que ele sofreu. Eu fiquei muito preocupado e tive uma
ideia. Fui até ao final da história para ver o que aconteceria com ele.
Quando li a última página, percebi que o meu herói saiu da prisão, der-
rotou o inimigo e saiu vencedor! Por isso estou feliz agora!
Quando lemos algumas páginas da nossa história, percebemos que
o mal tem dominado e o reino das trevas tem alcançado a supremacia
neste mundo. É bom lembrar que o final da história ainda está por vir.
DANIEL
198 Segredos da Profecia

O nosso Herói sairá vencedor. Afinal, Ele venceu na cruz do Calvário e já


nos garantiu o reino! Neste último capítulo relembraremos a nossa maior
esperança, quando o sonho de reinarmos com Deus será uma realidade.

IMAGENS DO REINO
No livro de Daniel se encontram várias imagens que falam do esta-
belecimento do eterno reino de Cristo. De fato, todos os relatos são cons-
truídos em direção ao estabelecimento dele. Nas visões registradas, cada
uma alcança seu clímax quando "o Deus do céu" levanta "um reino que
não será destruído" (Daniel 2:44), quando o "Filho do Homem" recebe
"domínio eterno" (Daniel 7:13 a 14), quando a oposição ao "Príncipe
dos príncipes" será quebrada "sem esforço de mãos humanas" (Daniel
8:25) e quando o povo de Deus será liberado para sempre de seus opres-
sores (Daniel 12:1). Vamos agora analisar algumas dessas imagens.

A PEDRA
Em Daniel, capítulo 2, no sonho do rei Nabucodonosor, apren-
demos sobre uma estátua com quatro metais. A cabeça de ouro sim-
bolizando o império da Babilónia (Daniel 2:38), o peito e braços de
prata representando a Média-Pérsia (Daniel 2:39), o quadril de bronze
a Grécia (Daniel 2:39) e as pernas de ferro simbolizando o férreo im-
pério de Roma (Daniel 2:40). Depois de contemplar essa assustadora
estátua, Daniel disse ao rei que uma pedra, sem auxilio de mãos, foi
cortada e lançada contra a estátua, destruindo todos os reinos, e ela
cresceu e encheu toda a terra (Daniel 2:44, 45). Essa pedra simboliza o
eterno reino de Cristo, que em breve Ele virá estabelecer (Isaías 28:16;
Lucas 20:17, 18; Mateus 24:30; Apocalipse 1:7). A Volta de Jesus é a
"bendita esperança" (Tito 2:13) que motiva e impulsiona a nossa vida
(2 Pedro 3:12).
Quando chegará esse reino eterno? Jesus advertiu: "Mas a respeito
daquele dia e hora ninguém sabe..." (Mateus 24:36). No entanto, Daniel
foi muito claro em suas palavras: "nos dias destes reis, o Deus do céu
suscitará um reino que não será jamais destruído" (Daniel 2:44). De que
reis Daniel está falando? Dos dez reis representados pelos artelhos dos
pés da estátua e pelos dez chifres do quarto animal (Daniel 7:24), ou seja,
O Estabelecimento do Eterno Reino de Cristo 199

as modernas nações da Europa. Logo, será em nossos dias que chegará


o eterno reino de Cristo. Na cadeia profética não existe um quinto reino
terrestre, mas um reino celestial que será implantado trazendo justiça e
paz a todos os seus cidadãos (Isaías 65:17-25; Apocalipse 22:3,4,12,17).

A QUEDA DE BABILÓNIA
A queda da antiga Babilónia é outra imagem, com paralelo em
Apocalipse, do estabelecimento do reino de Cristo. Assim como a
grande Babilónia "caiu" em 539 a.C. pelo rei persa Ciro, a Babilónia
espiritual também cairá e receberá o juízo de Deus nos últimos dias
(Apocalipse 16:12). Há na Bíblia dois salmos que contam um pouco
dessa história. Um funciona como contraponto do outro.
O povo de Israel esteve unido como doze tribos apenas durante os
reinados de Saul, Davi e Salomão. Quando este morre, o reino é dividi-
do, ficando dez tribos ao Norte, lideradas por Jeroboão, com capital em
Samaria, e duas tribos ao Sul, lideradas pelo filho de Salomão, Roboão,
com capital em Jerusalém.
No ano 722 a.C., as dez tribos do Norte foram escravizadas e destru-
ídas pelo Império Assirio. Isso deveria ter servido de advertência para
Judá, o que não aconteceu, Devido aos pecados e recusa em ouvir a voz
dos profetas, o cativeiro chegou também para Judá. Em 605 a.C., o rei-
no de Judá foi invadido por Nabucodonosor e os filhos de Deus foram
levados para Babilónia. No entanto, Deus não abandonaria Seu povo.
Mesmo antes da chegada de Nabucodonosor, a voz profética se levan-
tou e trouxe esperança para os futuros cativos. Deus antecipou o nome
do libertador, Ciro (Isaías 45:1;13), a estratégia militar que ele usaria
(Isaías 44:27, 28), e mesmo quantos anos eles ficariam escravos em
Babilónia (Jeremias 25:11,12). Esses textos nos impressionam pelo amor,
cuidado e preocupação de Deus com Israel, a despeito dos pecados de-
les. Deus não deixou que fossem para o cativeiro sem uma esperança.
O Salmo 137 registra o lamento dos judeus agora cativos em Babilónia.
Mas eles se apegavam a uma esperança: o libertador virá. No século 19,
várias escavações arqueológicas começaram a revelar algo extraordinário
sobre Babilónia. Era uma tremenda cidade, com grandes universidades,
protegida com muros enormes, com um sistema de canais de irrigação
DANIEL
200 Segredos da Profecia

avançados, templos magníficos, e ainda, uma das maravilhas do mundo


antigo - os jardins suspensos construídos por Nabucodonosor.
Diante de tantas maravilhas, o que aconteceu ao povo de Deus?
Diferente de Daniel e seus amigos, as novas gerações começaram a
contemplar a beleza, a felicidade, o progresso e a pensar: Isto sim que
é vida; isto que é cidade! Os judeus fundaram em Babilónia, casas de
comércio, e foram os precursores dos bancos modernos. O Salmo 137
ficou no passado, apenas como palavras de pais idosos.
Os 70 anos se cumpriram assim como o profeta havia dito. Ciro
surge no cenário político e derrota a grande Babilónia, secando o rio
Eufrates (Isaías 44:27, 28). Depois de uma batalha cósmica, registrada
no capítulo 10 de Daniel, o decreto é assinado por Ciro e o povo de
Deus pode voltar para casa, Jerusalém. No entanto, não foi isso que
aconteceu. Entre as centenas de famílias judias cativas em Babilónia,
apenas alguns milhares voltaram para Jerusalém. Estes que voltaram
também compuseram um cântico (Salmo 126), que falava da alegria
do retorno e das bênçãos de Deus sobre o povo. Em tempos difíceis eles
reconstruíram a cidade e o templo e, no dia da reinauguração, se ouviu
mais uma vez a voz profética: "A glória desta última casa será maior
do que a da primeira [...] e, neste lugar, darei a paz, diz o Senhor dos
Exércitos" (Ageu 2:9). Os sacrifícios voltaram a acontecer, as festas vol-
taram a ser celebradas e, como a profecia não falha, no tempo aprazado
o Messias veio (Gaiatas 4:4). Quantas lições podem ser tiradas dessa
história hoje?
Ciro é um tipo de Cristo. A Babilónia antiga torna-se símbolo da
atual Babilónia mística (Apocalipse 17:5). O secamento do rio Eufrates
voltará a acontecer (Apocalipse 16:12) e os reis do Oriente, Cristo e
Seus anjos, voltarão para libertar Seu povo do cativeiro espiritual de
Babilónia. Temos uma festa a celebrar na Nova Jerusalém, mas a triste
notícia é que a história vai se repetir e muitos não desejarão ir para o
céu, pois criaram laços, raízes com Babilónia.
Por isso o último convite de Deus: "Retirai-vos dela, povo Meu"
(Apocalipse 18:4). Muitos estão contemplando Babilónia e não
Jerusalém. Estamos dando rnuita atenção às coisas do mundo e qua-
se nada às coisas de Deus. Estamos esquecendo o conselho de Cristo:
O Estabelecimento do Eterno Reino de Cristo 201

"Buscai, pois, em primeiro lugar, o Seu reino e a Sua justiça, e todas


estas coisas vos serão acrescentadas" (Mateus 6:33).
No silêncio dessa leitura, pergunte ao seu coração: há em minha
vida hábitos, práticas, costumes, vícios que desagradam o céu e me rou-
bam a paz? Neste mesmo silencio da alma, abra o coração a Jesus, pois
o nosso Salvador é o Deus que nunca rejeita, mesmo o maior dos peca-
dores. Só Ele pode oferecer o perdão e a paz de que tanto precisamos!

OS 1290 E 1335 DIAS


O livro de Daniel apresenta dois últimos períodos proféticos.
"Depois do tempo em que o sacrifício diário for tirado, e posta a abo-
minação desoladora, haverá ainda mil duzentos e noventa dias" (Daniel
12:11) e, "b em-aventurado o que espera e chega até mil trezentos e trin-
ta e cinco dias" (Daniel 12:12).
O evento chave para a compreensão dessa profecia é a retirada do
"sacrifício diário" e a implantação da "abominação desoladora". De que
evento a profecia está falando? Alberto Timm elucida: "A expressão
"sacrifício diário" é a tradução do termo hebraico tamid, que significa
"diário" ou "contínuo", ao qual foi acrescentada a palavra "sacrifício",
que não se encontra no texto original de Daniel 8:13 e 12:11. Esse termo
(tamid} é usado nas Escrituras em relação não apenas com o sacrifí-
cio diário do santuário terrestre (ver Êxodo 29:38, 42), mas também
com vários outros aspectos da ministraçào contínua daquele santuá-
rio (ver Êxodo 25:30; 27:20; 28:29, 38; 30:8; l Crónicas 16:6). No livro
de Daniel, o termo se refere, obviamente, ao contínuo ministério sa-
cerdotal de Cristo no santuário / templo celestial (ver Daniel 8:9-14).
Já a expressão "transgressão assoladora" ou "abominação desoladora"
subentende o amplo sistema de contrafação a esse ministério, constru-
ído sobre as teorias anti-bíblicas da imortalidade natural da alma, da
mediação dos santos, do confessionário, do sacrifício da missa, etc".1
Esse "amplo sistema de contrafação" nada mais é do que a pretensão
papal de ser um mediador entre Deus e os homens. Na passagem acima,
DANIEL
202 Segredos da Profecia

é declarado que depois de ser tirado o contínuo, ou "sacrifício costuma-


do, haverá mil e duzentos e noventa dias". A substituição de Cristo por
um sistema falso foi sendo introduzida aos poucos, até que nos anos
503-508 tomou forma mais definida. As prerrogativas e atribuições
inerentes a Cristo foram cada vez mais sendo reclamadas pelo bispo de
Roma. No ano 508 a igreja medieval reforçou seu prestigio político com
a ajuda de Clodoveu, rei dos francos (481-511), e desde então "o papado
podia proceder sem obstáculos para assegurar sua influência política".2
Partindo então do ano 508, e viajando na história 1.290 dias/anos,
chegamos a 1798, ano da prisão do papa Pio VI e do fim dos 1260 anos de
supremacia papal. Se viajarmos a partir da mesma data 1335 anos, che-
garemos ao ano 1843/1844, quando terminara as 2300 tardes e manhãs
e Jesus dá início ao Grande Dia da Expiação, que irá terminar somente
quando Ele sair do santuário para vir à Terra.

508 1.290 1798


508 1335 1843/1844

UMA PROMESSA A DANIEL


O anjo Gabriel ordenou que Daniel selasse o livro "até ao tempo do
fim" (Daniel 12:4), quando muitos o estudariam e a ciência, ou seja, o
conhecimento deste livro, se multiplicaria. Só a eternidade vai revelar
quantas pessoas foram beneficiadas pelas profecias e admoestações do
livro de Daniel.
Daniel recebeu o selo da aprovação divina e sua vida estava prote-
gida em Deus. Ele havia passado por provas e sofrimentos, mas nunca
deixara de confiar em Cristo. Próximo ao fim de sua vida, com cerca de
90 anos de idade, ele ouve as palavras de consolo: "Tu, porém, segue o
teu caminho até ao fim; pois descansarás." Essa é uma referência a sua
morte, que não estava muito distante. O anjo lhe garante a vida eterna
ao dizer que "ao fim dos dias (período que ele vira tantas vezes em vi-
são), te levantarás para receber a tua herança" (Daniel 12:13). Para os

2 ULLMANN,Walter. A Short History of the Papacy in the Middle Ages. Londres: Routledge, 1972,
p. 37. apud DOUKHAN, p. 189.
O Estabelecimento do Eterno Reino de Cristo 203

salvos, a morte é apenas um breve sono, pois aquele que rnorre salvo, "ao
fim dos dias", ressuscitará e receberá a herança eterna (João 11:24, 25).
Que grande oportunidade existe hoje para todos nós! Se formos
fiéis como foi Daniel, um dia poderemos conhecê-lo, e mais, poderemos
ouvir de sua própria boca as experiências e maravilhas que viveu em sua
experiência terrestre narradas em seu livro. No entanto, nada se iguala
ao privilégio de estarmos face a face com o Senhor Jesus e ouvirmos de
seus lábios: "Vinde, benditos de Meu Pai! Entrai na posse do reino que
vos está preparado desde a fundação do mundo" (Mateus 25:34).
Gostaria você de ser um cidadão desse reino eterno?
CONCLUSÃO
O livro de Daniel é uma revelação dos mistérios ocultos de Deus.
Isso fica claro na oração de Daniel logo após receber sua primeira reve-
lação - o esclarecimento do sonho da estátua de metais. Daniel escreveu:
"Ele revela o profundo e o Escondido; conhece o que está nas trevas, e
com Ele mora a luz"(Daniel 2:22). Ao longo das histórias e profecias do
livro Deus foi revelando Seus propósitos para cada indivíduo e o des-
tino das nações. Todo este maravilhoso conhecimento ficou como um
depósito para os dias finais da história, o assim chamado Tempo do Fim.
Estamos vivendo precisamente neste período. Temos o privilégio de co-
nhecer o cumprimento exato das profecias passadas e a oportunidade de
nos prepararmos para o maior de todos os eventos da história ainda no
futuro: a Segunda Vinda de Cristo em glória e majestade para o estabe-
lecimento daquele reino que "não será jamais destruído" (Daniel 2:44).
Contudo, as lições deste extraordinário livro não se limitam apenas
ao PASSADO de suas histórias ou FUTURO de suas profecias. Acima
de tudo ele fala do PRESENTE. Nos ensina sobre a estreita relação entre
a saúde física, mental e espiritual e como nosso estilo determina nos-
so destino. Nos revelou um Deus atuante na história que no levantar
e depor de reis trabalha intencionalmente para salvação de Seu povo.
Mostrou que Ele se importa com cada pessoa, e que assim como fez
com Nabucodonosor, está hoje disposto a ensinar o caminho da real
felicidade a todos os humildes de coração. Também aprendemos que
os filhos leais de Deus passarão por fornalhas e covas de leões, que não
estamos imunes aos ataques do inimigo de nossas almas, mas Deus
NUNCA nos desamparará e SEMPRE estará ao lado de Seus filhos,
especialmente nas provas.
Conclusão 205

Finalmente descobrimos que há um santuário no céu, do qual o ter-


restre era uma cópia, e que Jesus, neste exato momento, intercede em
favor de todos aqueles que O buscam de todo coração (Jeremias 29:13).
Jesus entrou nele após Sua ascensão, no ano 31, e desde 22 de outubro
de 1844 está julgando Seu povo. Este juízo é a nosso favor, pois temos
um advogado infalível que nos ama e pagou, com Seu próprio sangue,
no dia marcado na profecia de Daniel (metade da septugéssima sema-
na; Daniel 9:27), o preço de nossa eterna redenção. Por isso, o mara-
vilhoso convite: "Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao
trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça
para socorro em ocasião oportuna" (Hebreus 4:16).
Tudo, tudo, tudo que precisava ser feito para nossa redenção já foi
feito. O resgate foi pago. A justiça divina satisfeita. Logo, não faz sentido
se pagar o resgate e não reaver a pessoa amada. Por isso, a história ainda
não terminou. O céu aguarda com fremente desejo, o momento em que
Miguel se levantará (Daniel 12:1) e virá a terra buscar Seus filhos amados.
Está você pronto para este encontro? É este o maior alvo de sua vida?
Moisés declarou que nossos dias nesta terra são de 70 anos, e os mais
vigorosos, chegam a oitenta, mas neste caso, o melhor deles é canseira e en-
fado, porque tudo passa rapidamente e nós voamos (Salmo 90:10). Daniel
compreendeu muito bem essa verdade e desde sua juventude se dedicou a
amar e servir ao Deus verdadeiro, Deus este que era seu amigo e juiz.
Um dia, não sabemos com que idade, Daniel descansou e foi sepul-
tado em algum lugar em Babilónia. Fico me perguntando por que Daniel
não retornou a Jerusalém, sua cidade natal, quando outros voltaram
após o decreto de Ciro. E um pensamento enche meu coração de alegria.
Daniel não queria mais voltar para Jerusalém terrestre, ele almejava ago-
ra a Jerusalém celestial. Ele estava cansado das injustiças, dos sofrimen-
tos, das ambições mundanas, da luta pelo poder. Ele sonhava com um
lugar de paz, uma cidade onde não mais haverá choro, nem pranto, nem
luto nem dor. Um lugar onde nunca mais fosse separado de sua família.
Ele fechou seus olhos em Babilónia para abri-los na Nova Jerusalém.
Houve um homem que foi em visão até esta mágica cidade. Outro
que, como Daniel, era amado pelo céu (João 13:23; 21:20). Ele viu coi-
sas que nenhum de nós jamais sonhou. Mas esta já é outra história.
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