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Dicionário da Língua de Sinais” exigiu 25 anos de pesquisas

Lançada pela Editora da USP, obra recebeu prêmio da Associação Brasileira das
Editoras Universitárias (Abeu)

Por Claudia Costa


Editorias: Cultura - URL Curta: jornal.usp.br/?p=215849

“O Dicionário da Língua de Sinais do Brasil: A Libras em Suas Mãos propõe o


paradigma das neurociências cognitivas para dicionarização da Libras”, afirma o
professor Fernando César Capovilla, do Instituto de Psicologia da USP, que, ao lado
de Walkiria Duarte Raphael, Janice Gonçalves Temoteo e Antonielle Cantarelli
Martins, assina a autoria da obra, publicada em três volumes pela Editora da USP
(Edusp). O dicionário documenta 14.500 sinais de Libras (Língua Brasileira de
Sinais) em entradas lexicais individuais, trazendo os verbetes correspondentes ao
sinal em português e inglês, a definição do significado do sinal e dos verbetes,
ilustrações e a descrição detalhada da forma do sinal. São sinais do universo surdo
brasileiro de todas as regiões geográficas nas mais variadas áreas, como educação,
artes, cultura, esportes, pessoas, relações humanas, comunicação, religião, corpo,
medicina, sexualidade, natureza, economia, trabalho, leis, política e preocupações
sociais.

Além disso, contém escrita visual direta do sinal em SignWriting, permitindo ao leitor
concentrar-se nos traços distintivos que possibilitam diferenciar sinais semelhantes,
e é possível ainda encontrar a descrição da etimologia do sinal pela análise dos
morfemas que compõem sua estrutura e uma breve análise do parentesco
semântico entre o sinal e outros sinais que compartilham alguns de seus morfemas
moleculares. A obra traz também a soletração digital em Libras por meio da fonte
Capovilla-Raphael (fonte de computador que faz soletração digital, a datilologia),
permitindo à criança surda analisar a composição das palavras escritas e converter
letras e números em formas de mão. Segundo Capovilla, é o mais completo
dicionário do mundo, considerando qualquer língua de sinais.

Alfabeto manual de Libras usado para soletração digital – Imagem: Divulgação


No dia 5 de novembro passado, o dicionário recebeu troféu de primeiro lugar em
Humanidades da Associação Brasileira das Editoras Universitárias (Abeu). “Foi a
coroação de um quarto de século de trabalho amoroso, desvelado e rigoroso”,
afirma Capovilla, que é Ph.D. em Psicologia Experimental pela Temple University of
Philadelphia, nos Estados Unidos, e também foi premiado em 2018 como
Neurocientista do Ano pelo Instituto Nanocell. “A comunidade surda e de
pesquisadores e professores de Libras ficou muito feliz, porque viu sua língua
receber atenção e respeito nas duas esferas: a das ciências humanas e a das
ciências biológicas”, completa. O dicionário conta com a chancela da Coordenação
Nacional de Cursos da Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos
(Feneis) e dos principais órgãos de pesquisa brasileiros. “É um instrumental para
adaptar o currículo escolar para a educação bilíngue”, informa o professor, citando
ainda que a obra já resultou em uma série de outros frutos, como a Cartilha de
Libras em Medicina e Saúde.

Atualmente, a comunidade surda engloba 2,4 milhões de brasileiros, que têm


grande dificuldade de audição ou que não conseguem ouvir, em meio a uma
população total de 208 milhões de brasileiros. Assim, o Dicionário da Língua de
Sinais do Brasil se caracteriza como uma obra de referência para a educação e a
cidadania da comunidade surda brasileira. Segundo Capovilla, sua relevância é
justificada ainda pela complexidade das necessidades comunicativas dessa
população que se expressa em Libras, e que é cada vez mais afluente e influente no
panorama cultural e social do Brasil. “O dicionário é um trabalho de mapeamento da
Libras visual e tátil e do português falado recebido por audição, visão e tato (leitura
orofacial visual e tátil)”, diz o professor.

Os sinais
As entradas lexicais apresentam os sinais descritos sistematicamente em sua forma
e significado, e devidamente ilustrados em sua forma (com estágios e setas de
movimento) e significado. O dicionário também emparelha as ilustrações da forma e
do significado do sinal, sugerindo intuitivamente como a forma do sinal representa o
seu significado; associa a ilustração da forma do sinal e a descrição dessa forma,
permitindo reproduzir fielmente a forma do sinal; associa a ilustração do significado
do sinal e a descrição desse significado, permitindo compreender esse significado
em sua denotação explícita e precisa, e em conotação subjetiva, implícita e intuitiva.
Além disso, arrola os verbetes, sua definição e classificação gramatical, e exemplos
de uso funcional do verbete em frases, permitindo compreender o conceito e fazer
uso do sinal em Libras e do verbete correspondente em contextos linguísticos
apropriados. Há também uma lista de Estados brasileiros onde cada sinal é
empregado usualmente, mostrando a validade regional de cada sinal e sua
representatividade linguística.
Formas de mão traduzem os números em Libras – Imagem: Divulgação
O dicionário também está disponível na plataforma digital. Como explica o
professor, “ao ver um sinal desconhecido, o observador clica em menus que trazem
formas de mão semelhantes àquela do sinal, em locais semelhantes, com
movimentos semelhantes e com expressão facial semelhante. A cada clique, o
observador, que começa com 14.500 sinais competidores, vai afunilando a busca e
reduzindo o número de sinais competidores. O propósito é que, com cinco a oito
cliques, o observador descubra o significado de qualquer sinal desconhecido que
venha a observar”.
A pesquisa
Foram 25 anos de pesquisa e envolveu centenas de colaboradores surdos e
ouvintes nas mais variadas funções, como a de informantes e revisores surdos,
pesquisadores de campo, ilustradores, cinegrafistas, programadores de
computador, entre outros. “O Dicionário da Língua de Sinais do Brasil é fruto de um
vasto programa de pesquisas em lexicografia e lexicologia de Libras que iniciamos
em 1994, no Laboratório de Neuropsicolinguística Cognitiva Experimental do
Instituto de Psicologia da USP”, afirma Capovilla. O projeto contou com apoio do
Observatório da Educação (Consórcio Capes-Inep), do CNPq (Conselho Nacional
de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), da Fapesp (Fundação de Amparo à
Pesquisa do Estado de São Paulo), da Feneis e de outros órgãos de pesquisa.

“Desde 1989 eu e meus alunos temos desenvolvido sistemas de comunicação para


pessoas com paralisia cerebral, afasia e esclerose lateral amiotrófica. Quando nos
apareceu uma aluna surda tetraplégica devido a uma lesão cervical, pensamos em
adaptar o sistema para que ela pudesse se comunicar. Ela se comunicava em
Libras, não articulava a fala, não lia nem escrevia, nem fazia leitura orofacial.
Precisávamos de um dicionário em Libras para adaptar o sistema, mas não havia
nenhum dicionário pronto. Consultamos fonoaudiólogos e linguistas do País todo.
Estes nos pediram que esperássemos alguns anos. Ao cabo de dois anos de
espera, com o paciente em depressão, decidimos arregaçar as mangas. Os
linguistas nos chamaram de insanos”, relembra o professor.

O verbete doença devidamente ilustrado em sua forma (com estágios e setas de


movimento) e significado – Imagem: Divulgação
Mas Capovilla e seus alunos resolveram tentar. Ele seguiram as ideias de Wilhelm
Wundt, “pai da psicologia experimental”, que no livro Psicologia dos Povos
reconheceu as línguas de sinais plenas e os surdos como povos com cultura
própria. “A posição de Wundt era muito mais avançada que a do ‘pai da linguística’,
Ferdinand Saussure. Então nós, psicólogos, teríamos a primazia histórica e, logo, o
direito a uma tentativa honesta.” Em 1996, Capovilla, como diretor do Capítulo
Brasileiro da International Society for Augmentative and Alternative Communication,
trazia do Canadá um exemplar do American Sign Language Dictionary, de Elaine
Costello, como inspiração. Novamente, como relata o professor, os linguistas
disseram que seria loucura, pois criar um dicionário de Libras seria um
empreendimento dificílimo.

História
Em 1998, foi lançado o primeiro manual de Libras, juntamente com o sistema de
comunicação que o empregava. “Isso mostrou que era possível. Foi o primeiro
incentivo de que precisávamos”, conta Capovilla. O segundo incentivo veio do
sofrimento dos professores de ensino fundamental que tinham alunos surdos em
suas turmas. “Eles se cotizavam, generosamente, dividindo seus modestos salários
para pagar aulas particulares de professores surdos para ensinar sinais suficientes
para que pudessem dar aulas aos seus alunos.” Mas, segundo Capovilla, o
problema era que, com esse pequeno pagamento, os professores surdos logo
encontravam algo mais rentável e abandonavam o posto. “O substituto que assumia
a posição desdizia metade dos sinais do colega anterior e ensinava sinais novos”,
explica, acrescentando que essa história se repetia em inúmeros grupos de
professores. “Eles reclamavam que estavam ‘patinando no barro’, dando alguns
passos para trás e outros para o lado a cada pequeno avanço para frente.”

Para evitar cair nessa “cilada”, o professor diz que procurou a Coordenação
Nacional de Cursos de Libras da Federação Nacional de Educação e Integração de
Surdos (Feneis). “Em reuniões com informantes surdos de todo o País na Feneis,
coletávamos os sinais, filmando-os em diversas sessões. Então íamos ao
laboratório, ilustrávamos os sinais e os descrevíamos minuciosamente. Nas
reuniões seguintes, mostrávamos os sinais ilustrados aos mesmos informantes
surdos, e aqueles que tivessem sido aprovados recebiam a chancela da Feneis; os
demais eram refeitos.” Esse trabalho “hérculeo”, como descreve Capovilla, se
prolongou de 1998 a 2001, resultando no DEIT-Libras: Dicionário Enciclopédico
Ilustrado Trilíngue da Língua de Sinais Brasileira, que, em 2002, recebeu prêmio da
Gallaudet University e menção honrosa da Câmara Brasileira do Livro, ficando em
segundo lugar no Prêmo Jabuti daquele mesmo ano. “O trabalho ficou tão bonito
que o famoso Oliver Sacks veio conhecê-lo e escreveu a apresentação do
dicionário.”

O Dicionário da Língua de Sinais do Brasil – A Libras em Suas Mãos: resultado de


pesquisas realizadas ao longo de um quarto de século – Imagem: Divulgação
Logo o DEIT-Libras se tornou best-seller da Edusp e, ao documentar um corpus de
quase 4 mil sinais da Libras, deu status científico à Língua Brasileira de Sinais e
levou a Presidência da República a regulamentar a Lei de Libras, que reconhece a
Libras como um sistema de comunicação da população surda brasileira. Assim, em
2006 o dicionário foi distribuído a dezenas de milhares de alunos surdos em todos
os municípios do Brasil pelo Ministério da Educação (MEC), via Programa Nacional
do Livro Didático. “Ficamos tão animados com os resultados que começamos, já em
2001, a expandir o léxico documentado.” Em 2009, foi lançado o Novo DEIT-Libras,
com um vasto corpus de 9.500 sinais, que, assim como o anterior, teve diversas
edições, com aprimoramentos sucessivos, até chegar, em 2017, ao Dicionário da
Língua de Sinais do Brasil: A Libras em suas Mãos, com três volumes e 14.500
sinais.

Dicionário da Língua de Sinais do Brasil: A Libras em Suas Mãos, 3 volumes, de


Fernando César Capovilla, Walkiria Duarte Raphael, Janice Gonçalves Temoteo e
Antonielle Cantarelli Martins, Editora da USP. Mais informações estão disponíveis
neste link.