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CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi.

São Paulo: Companhia das Letras, 1987

Edilberto de Sales1

FICHAMENTO

REPÚBLICA E CIDADANIAS – CAPÍTULO II

Com a importação de ideologias como o Liberalismo, o Positivismo, o Socialismo e o


Anarquismo, houve no Brasil durante o contexto do fim do Império, uma enorme confusão e
mistura de ideias, que resultou sobretudo no estado do Rio de Janeiro, no avanço de valores
burgueses. Isto é, na capital republicana, os valores materiais e o acúmulo de riquezas,
dominavam Política e a mentalidade das pessoas.

Na ordem social e política, foram implantados pelo regime imperial, através da


Constituição de 1824, vários princípios: a Lei de Terras de 1850, que resumidamente, garantia
mais poderes à elite; a Lei de Sociedades Anônimas de 1882; a abolição da escravidão; a
liberdade de manifestação de pensamento. De acordo com Carvalho, foram poucas as inovações
republicanas referentes aos direitos civis e políticos, através da Constituição de 1891. O houve,
resumiram-se em eliminar a exigência de renda, e a manutenção a exigência de alfabetização,
sendo esta, algo que barrava o aumento do eleitorado, no que se refere ao ato de votar.

Com base nessas análises, é evidente a distinção que existe neste contexto, entre
sociedade civil e sociedade política, prevalecendo portanto, a visão de que o direito
político/eleitoral não seja um direto natural, uma vez que é concedido pela sociedades, àqueles
que ela julga ser merecedores dele. Tanto no Império quanto na República, diversos grupos
foram excluídos do processo eleitoral: os pobres, os mendigos, as mulheres, os menores de
idade, as praças, e membros de ordens religiosas, ou seja, a grande maioria da população.

Nota-se contudo, que os republicanos fizeram na prática, muito pouco com relação a
expansão de direitos civis e políticos. Segundo o texto, o que estava em vigor, era demandas do
antigo imperialismo, havendo até certos retrocessos referentes à questão sociais, uma vez que
certas medidas, garantiram ainda mais o governo nas mãos das elites rurais e urbanas, que antes
tinham seus poderes limitados pelo Império. Essa prática, estava indo contra as promessas feitas

1 Acadêmico do Curso de Licenciatura Plena em História, VI período. UESPI/OEIRAS


durante as tentativas de implementação do novo regime, que seria um regime democrático em
todas as camadas sociais.

O autor ressalta que a proclamação da República por militares e a instalação dos


governos militares não abalariam as convicções de Raul Pompéia, onde este passou a ver no
exército a única classe organizada do país.

CIDADÃOS INATIVOS: A ABSTENÇÃO ELEITORAL – CAPÍTULO III

Nos primeiros anos da República, os embates ideológicos bem como as divergências


entre as propostas entre os diversos grupos, indicavam uma insatisfação acompanhada de
incerteza, quanto ao futuro republicano no Brasil. Vários observadores, na maior parte,
europeus, defendiam a ideia de que não havia no Brasil assim como na Europa, grupos de
pessoas organizados, que pudessem impor ao governo republicano a direção a ser seguida. E
que pudesse formar essa massa de cidadãos, seria necessário importar pessoas da Europa. Dessa
forma, fazendo essa comparação, alguns europeus diziam que o Brasil era inexistente de povo
político, e que a política era assunto da pequena classe dominante.

Porém, o autor ressalta que não tomar essas observações como descrições exatas da
realidade, uma vez que são várias as concepções de cidadanias vigentes nesse contexto de anos
iniciais da República. O autor considera exagerada, a afirmação de inexistência de um povo
político no Brasil, considerando que esses observadores estrangeiros estavam à procura de
sociedades organizadas politicamente assim como a Europa. E que no Brasil, os fatos históricos
desde a independência sempre teve fortes movimentos populares. Carvalho também é contra a
ideia de que não existia cidadãos políticos, para o mesmo: o problema não seria ausência de um
povo, pois aqui há mais que povo: há povos.

O POVO DOS CENSOS

A pirâmide ocupacional era extremamente ampla na base e muito afunilada no vértice.


No alto havia um pequeno grupo de banqueiros, capitalistas e proprietários. Seguia-se um
precário setor médio, composto de funcionários públicos, comerciários e profissionais liberais.
O setor do operariado incluía artistas, operários do Estado, trabalhadores das novas indústrias
têxteis e empregados de transportes. E por último, estava grande parte da população considerada
ativa, que crescia constantemente pela imigração: os trabalhadores domésticos, jornaleiros, e
pessoas sem profissão entre os anos de 1890 e 1906. A presença estrangeira era ainda muito
forte entre a classe proprietária. Estrangeiros eram em 1890, cerca de 30 % dos proprietários,
banqueiros e capitalistas. De acordo com Assis Brasil, esses estrangeiros era proprietário de
quase toda a cidade, havendo portanto, uma grande relevância que tinha a presença maciça de
estrangeiros, na vida política e financeira da cidade.

De acordo com Carvalho, o novo regime procurou inicialmente resolver a questão de


naturalização desses estrangeiros, porém foi somente cerca de 20% dos estrangeiros que
residiam no Rio de Janeiro, optaram pela cidadania brasileira. Nessa porcentagem incluía-se os
portugueses, que não viram tanta vantagens em se materializar brasileiros. Dessa forma, a maior
parte de naturalização partiu da população africana.

O POVO POLÍTICO

A exclusão de 80% da população do direito político do voto, já é um indicador do pouco


que significou o novo regime em termos de ampliação da participação. Pode-se dizer que a
República conseguiu quase literalmente eliminar o eleitor, e portanto, o direito de participação
política através do voto.

Pelo critério de participação eleitoral, pode-se dizer que de fato não havia povo político
no Rio de Janeiro. O pequeno eleitorado existente era em boa parte composto de funcionários
públicos , sujeitos a pressões da parte do governo. Se a exclusão legal do processo eleitoral é
fácil de entender, a auto-exclusão exige maior esforço de interpretação. Referente ao voto, além
de ser inútil, o ato de votar era bastante perigoso, pois na eleição Imperial, eram contratados
capoeiras com o intuído de garantir os resultados positivos.

Por fim, a ausência de participação eleitoral, encontrava sua contrapartida na ausência


de partidos políticos. O início da República foi marcado pelo esforço de criação de partidos
políticos, principalmente na classe operária, mesmo que os republicanos não fossem tão a favor
dessa ideia.