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82  z  julho DE 2012

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história da ciência y

Ainda assim
o som se move
Músico, pai de Galileu
influenciou filho na busca pela
verdade experimental

“A
ciência descreve as coisas como são; a
arte, como são sentidas, como se sente
que são”, escreveu Fernando Pessoa. A
certeza do poeta foi motivo de debates
e de uma profusão de tratados filosóficos na pas-
sagem do século XVI, com sua crença platônico-
-pitagórica na matemática como fundamento da
ciência e da arte, para o século XVII, quando
se percebeu que nem tudo podia ser reduzido a
números. Em especial as coisas sentidas.
Um pioneiro dessa visão crítica foi o músico
Vincenzo Galilei (1520-1590), pai de Galileu Ga-
lilei, que antes do advento da revolução científica
já percebia os limites da “matematização”, capaz
de gerar mudanças positivas na classificação de
algumas ciências, mas ineficaz em outras. “Não
somente porque a busca da natureza dos objetos
de algumas ciências estava sendo posto em dúvi- música
da, mas porque as diferentes formas de interação
entre os conhecimentos práticos, teóricos e dos
artesãos se deram de maneiras diversas”, afirma,
a historiadora Carla Bromberg, que trabalha os
vários tratados teóricos de Vincenzo, a maioria
inéditos, na sua pesquisa de pós-doutorado Do
número ao som: a transformação do conceito qui-
Retrato de um
nhentista de música defendida por Vincenzo Galilei.
cavalheiro que
se presume seja “Ele demonstrou que a música era um fenô-
o compositor meno natural sonoro, contradizendo a tradição
Vincenzo Galilei, vigente que a entendia apenas como número e
pintado por
proporção”, explica. “Em seus escritos, fruto de
Alessando Allori
e datado do experimentações práticas e observações mate-
século XVI máticas, Vincenzo proporcionou esclarecimentos

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gada apenas por causa da autoridade

fotos  1 DEA / G. DAGLI ORTI /De Agostini /Getty Images  2 Art Images Archive / Glow Images
do seu criador.
O alvo de Vincenzo era justamente os
adeptos dos conceitos pitagóricos, como
Gioseffo Zarlino (1517-1590), mestre-
-capela da catedral de São Marcos, em
Veneza. Embora tenha sido mestre de
Galilei por algum tempo, Zarlino tinha
uma leitura tradicional da natureza ma-
temática da música, tentando encaixar
na velha moldura pitagórico-platônica
legitimada na tradição textual as “novi-
dades sonoras” advindas dos excessos da
polifonia. Galilei, a partir de seus experi-
mentos, concluiu que muitas das razões
propostas teoricamente não existiam
na prática. Vincenzo também percebeu
que muitos dos intervalos musicais que
o sistema vigente negava existiam e eram
matematicamente representáveis.

incompatibilidade
Segundo a pesquisadora, ao experimen-
tar, na prática, as variações nos compor-
tamentos dos corpos, ou seja, da matéria,
e perceber que isso gerava diferenças
sonoras, Vincenzo viu que havia fatores
que as ciências matemáticas não davam
conta de explicar. Foi essa evidência da
incompatibilidade do mundo matemáti-
co, com seus objetos abstratos, e o mundo
físico, de objetos reais, que levou Galilei
a concluir que, se a natureza do material
estudado, o som, era sensorial, a evidên-
1 cia da experimentação era o caminho in-
A tocadora de alaúde, dicado para a investigação. Não se devia
pintura de Andrea privilegiar o estudo da música especulati-
Solario, datada do
século XVI, em Roma
vam a música. “Foi o choque das formas va ao estudo das sonoridades, campo das
de conhecimento prático e técnico com coisas “como se sente que são”.
o teórico que mostrou a necessidade de Mas, como faria o filho, a briga do pai
sobre o descompasso que havia entre a uma mudança e método. Defender ideias mexia com conceitos já estabelecidos há
teoria e práticas musicais de sua época que contradiziam autoridades e estru- muito tempo. A argumentação de Zarlino
e propôs ideias que se tornaram funda- turas do pensamento ocidental foi algo baseava-se na teoria de razões de núme-
mentos da acústica, da música barroca e que Vincenzo já fazia antes de Galileu.” ros inteiros, transmitida pelo filósofo Se-
do sistema tonal que perdurou por mais Em seus tratados musicais, o toca- vério N. Boécio e baseada nos gregos. Era
de 150 anos”, observa a pesquisadora. dor de alaúde e teórico musical esbo- ilustrada historicamente através da lenda
Embora mais conhecido como o pai de çou um método investigativo inovador. da invenção das consonâncias atribuída a
Galileu, Vincenzo influenciou filósofos “Na contramão da sua época, Vincenzo Pitágoras e seu monocórdio, instrumento
naturais contemporâneos a ele e pos- preconizou a supremacia da observação descrito como composto por uma única
teriores como Marin Mersenne, Simon e dos experimentos”, nota a pesquisado- corda estendida entre dois cavaletes fi-
Stevin e o próprio filho astrônomo. ra. Vincenzo não hesitava em questionar xos. Segundo se acreditava, o filósofo in-
Se, hoje, é mera fonte de prazer, a músi- doutrinas tradicionais. “Como ninguém vestigara a relação entre o comprimento
ca, desde a Idade Média, era considerada havia explicado os problemas de forma a de uma corda vibrante e o tom musical
como uma ciência que tinha por funda- satisfazer o intelecto, foram necessárias produzido por ela. Pitágoras observou
mento a aritmética e, consequentemente, uma averiguação e a arguição dos fatos que pressionando um ponto situado a
seu objeto não era o som, mas o número. teóricos”, escreveu. Para ele, qualquer 3/4 do comprimento da corda em rela-
Nas universidades, só se aceitava que se que fosse o autor, antigo ou moderno, ção a sua extremidade – o que equivale a
teorizasse sobre o mundo sonoro. Dentre era preciso contestar alegações falsas, reduzi-la a 3/4 de seu tamanho original
os autores desses tratados poucos pratica- pois uma ideia não deveria ser propa- – e tocando-a a seguir, ouvia-se uma

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quarta acima do tom emitido pela cor- A grande ousadia de Galilei foi tra-
da inteira. Com 2/3 do tamanho original balhar diretamente sobre os corpos so-
da corda, ouvia-se uma quinta acima e noros, experimentando o som usando
com 1/2 obtinha-se a oitava. A música, Vincenzo tratou vasos de metal e outros objetos de tama-
como tudo no Universo, era matemática. nho, largura e volume diferentes, além
Para Vincenzo, porém, números não a música como de cordas feitas de materiais variados,
eram sonoros, mas tinham que ser apli- observando que os sons sofriam altera-
cados a algum corpo sonoro, ou seja, a
se fosse um ções de acordo com o comportamento
música tinha nos números apenas uma fenômeno físico de cada material. “Vincenzo demonstra-
representação dos sons. A matemática va assim, de forma inédita, a relevância
passava a instrumentalizar a música, e e cultural ao da matéria e de seu comportamento”,
não a fundamentá-la. Logo, a música não analisa a pesquisadora.
era um sistema numérico perfeito que mesmo tempo
existia em reinos celestiais, como que- ciência da acústica
riam os pitagóricos, mas composta de Vincenzo, através dos instrumentos
sons emitidos de corpos cujas diferentes musicais, introduziu princípios que se-
composições afetavam a percepção au- riam estudados, no futuro, pela ciência
ditiva das razões teóricas dadas. da acústica, desenvolvida por Joseph
Com seu alaúde, ele demonstrou que natural quanto outro: se ele agradava Saveur no século XVII”, nota Carla. Ao
a altura de uma nota poderia variar não ou não o ouvido não podia ser explica- “desnumeralizar” a música, Vincenzo
apenas em função do comprimento ou do por um sistema numérico, mas pela fez uma investida ousada. “Os teóricos
da tensão da corda, mas também quando própria audição particular e individual. do século XVI enfatizavam as razões pi-
se alterava a sua espessura ou o material A matemática não tinha poder sobre os tagóricas porque estas faziam parte de
do qual era feita. A legitimação dos in- sentidos. Vincenzo libertava a música do uma forma de compreender o mundo.
tervalos musicais de acordo com a teoria domínio dos números ao mostrar que a Segundo o pensamento pitagórico, tudo
pressupunha também que os intervalos realidade empírica não combinava ne- o que existia era representado por nú-
excluídos do sistema não eram naturais. cessariamente com as antigas razões que, meros e suas relações, por razões mate-
Contudo, para Galilei, um som era tão se acreditava, organizavam o Universo. máticas”, lembra a autora. “Ao invalidar,
no campo musical, o conceito das razões
Capa do tratado pitagóricas, Galilei abalava uma ordem
Della musica maior. Mas, talvez por não pertencer a
antica e della
moderna, de
nenhuma corte, entidade religiosa ou
Vincenzo Galilei, universidade, sua obra não causou o im-
datado de 1581 pacto que deveria.”
Vincenzo tratou a música simultanea-
mente como um fenômeno físico e cultu-
ral. Era uma criação humana, baseada em
leis físicas que governavam a produção
do som, bem como um fenômeno sonoro
sujeito a regras culturais definidas. “Pa-
ra ele, a combinação dos sons, descrita
como consonâncias ou dissonâncias, de-
pendia tanto de causas naturais como da
convenção e era isso que explicava por
que a música que agradava aos italianos
não tinha o mesmo efeito sobre outras
O Projeto
nações”, lembra a pesquisadora. Para
Do número ao som muitos, essas visões influenciaram di-
nº 2009/52252-8 retamente o filho, Galileu.
“Os estudos do pai apontavam para o
modalidade que seria a acústica, e os do filho, para
Bolsa de a mecânica. Ambos atacaram pilares da
Pós-doutorado
sabedoria aristotélica, como o funda-
Co­or­de­na­dora mento matemático da música e a per-
Carla Bromberg – feição do mundo celeste e abraçaram
Cesima/PUC-SP
outro pilar, o da relevância da matéria
investimento
R$ 144.869,89 e do comportamento dos materiais para
(FAPESP) o estudo do movimento e da mecânica”,
2 analisa Carla. n Carlos Haag

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