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Notas sobre o Desenraizamento humano: o problema ecológico e bioético de base

Marcelo L. Pelizzoli1

P8
Introdução

O foco deste texto é a compreensão de algumas causas fundamentais dos


desvios/desequilíbrios do humano, ligadas aos processos históricos, culturais e ambientais que
levaram ao que chamamos de processo de desenraizamento humano. Por si, a palavra humano
vem de humus, e evoca o enraizamento fundamental do animal que somos. Nós somos o
ambiente, mesmo que culturalizado e até voltado em parte contra si mesmo. Desde modo,
faremos inicialmente um relato suscinto da questão histórica do desenraizamento, com alguma
reflexão comparativa com a sociedade industrial moderna. Isto nos ajudará a compreender a base
histórica primeira do que se pode chamar de cultura da insustentabilidade. No segundo momento,
apresentamos exemplos concretos do que são alguns processos de desenraizamento presentes e
perturbadores na vida social contemporânea. Trata-se, assim, de remeter aos fundamentos da
questão bioética no seu termo e sentido maior, como considerava por exemplo V.R. Potter (1988)
no aspecto global e de ecosfera ou Bioética como paradigma ecológico. Ecológico inclui aqui
certamente a sustentabilidade e saúde humana, o ambiente como um todo.

I - Self e (des)enraizamentos: da revolução Neolítica à revolução Moderna

O processo histórico encetado após o Neolítico (em torno de 10 mil anos atrás) com o
surgimento da agricultura, diminuição do nomadismo, aparecimento do cultivo dos 5 grãos
principais no mundo, e assim o desenvolvimento de cidades, portanto, de administração, poder e
o que daí se segue, tal processo gera o que alguns autores (Capra, 1982) chamam de primeiro
grande paradigma do ocidente. O Neolítico é considerado uma Revolução, e para alguns (Wells,
2010) a maior na história do homo sapiens; o real início da antroposfera ou domínio antrópico do
planeta. No entanto, é importante notar, como aponta Riane Eisler (2008), que a mudança mais
drástica da cultura se dá apenas nas invasões kurgans e/ou bárbaras em especial na Europa, em
três levas, de 3.500 a.C. até 1.500 a.C., tendo como ícone final a tomada de Creta (junto à
Grécia), onde os hititas dominam e destroem os minóicos - civilização notável e sofisticadamente
sustentável. Tais invasões, acopladas ao modelo de vida das cidades que se complexificam,
trouxeram a necessidade de desenvolver armas, muralhas, e o papel do masculino sobressalente.
Um dos maiores fatos do desenraizamento humano pode ser dito como a perda do papel do
feminino na sociedade, com a perda da paridade dos papéis sociais. Vai-se, portanto, do “Cálice à
Espada”, o cálice representando o feminino e o modelo de sociedade mais pacífica e integrada
com a natureza e as deidades femininas, e a espada como o masculino dominador, o deus
homem violento e guerreiro, típico das tribos que buscavam se sobrepor/sobreviver, como os
hebreus relatados no Antigo Testamento, e a Era dos Impérios. Não pode haver uma
compreensão eficaz do desenraizamento sem a compreensão do processo de ruptura do papel do
feminino na sociedade, como um aspecto fundamental de relação com a Natureza.
Para uma maior e mais concreta compreensão do que trazemos, devemos perguntar: onde
encontramos, ainda hoje, modelos de comunidades que remontam aos modelos vividos no
Neolítico, de alto grau de enraizamento na vida, com uma cultura altamente sustentável? Nas
tradições indígenas, em suas várias possibilidades, notadamente. Na verdade, nestas
comunidades tem-se uma visão/vivência mais direta do enraizamento do homem no ambiente
(corpo, saúde, comunidade, sexualidade, ritmos, paisagem, clima, habitação, alimentação etc.).
Não obstante, se olharmos para alguns lugares ainda hoje, em comunidades nativas, ou mesmo
para nossos antepassados recentes, muito do modelo de vida adotado por eles revela um grau
notável de enraizamento, expressos nas suas narrativas e modos de ser diante dos desafios da
vida, na boa adaptação à realidade/ambiente vivido.
Por conseguinte, o desenraizamento deve ser visto inicialmente em uma dimensão

1 PhD. Pós-doutor em Bioética; coord. do Espaço de Diálogo e Reparação – UFPE. Formado em Terapia
Sistêmica Fenomenológica; em Orgonomia; em TSFI. www.ufpe.br/edr
histórica, mas num crescendum, e junto ao modelo cultural, político, econômico, bélico e religioso
que foi se impondo. O desenraizamento é igualmente uma perda de contato saudável/equilibrado
com a realidade. Mesmo as religiões acabam também sendo moldadas pelo momento cultural e
político dos tempos; não obstante, a vivência do sagrado no palco cosmobiológico é algo
fundamental/ontológico das culturas humanas em sua inserção na vida natural.

A partir da leitura de autores como Wells (2010), podemos inferir acontecimentos cruciais
no processo de mudança do Neolítico em substituição ao Paleolítico, tais como: Até este período
neolítico, as comunidades organizavam-se basicamente em hordas de algumas centenas de
pessoas. Compunham-se como grandes famílias e redes de convivência, o que faz inferir que as
relações sociais entre casais eram bem menos neuróticas e fechadas, bem como o cuidado com
crianças era mais partilhado (coincidentemente, Platão pregava algo assim para a organização
social e política humana, ser uma República livre e evoluída, com uma educação para a vida – Ver
a obra República, de Platão). O modelo de relação social era muito mais enraizado nos tempos e
espacialidades próprias da natureza e nos processos culturais intuitivos do grupo, do sistema
voltado para a manutenção e otimização da vida – simples e direta. O modelo de liderança,
mesmo que surgindo líderes naturais, não se compunha ainda como autoritário (como por
exemplo na Era dos Impérios), porém mais intuitivo, espraiado, partilhado. Até este período, temos
comunidades nômades, em que processos administrativos, poder, comércio, dinheiro, política,
como entendemos enquanto instituição, eram desnecessários. Ou seja, reinava um tipo de
anarquismo e comunismo natural. Inferiu-se que, comunidades que viviam no que hoje é o
continente europeu, alimentavam-se com algo em torno de 300 a 400 ervas/plantas/raízes
diferentes, portanto, altamente saudáveis. Pela pesquisa arqueológica e seus correlatos, como o
uso da tecnologia de reconstituição de moléculas de alimentos, corpos, ossos, ferramentas etc.,
se constatou que estas comunidades do período não conheciam doenças como a cárie; seus
corpos eram extremamente fortes, com período de vida prolongado. Como nômades, caminhavam
muitos milhares de quilômetros em suas vidas. Bebiam água natural e com alcalinidade maior do
que as águas atuais (devido à poluição, excesso de materiais orgânicos e químicos; por exemplo,
em torno de 70 % das águas do Brasil contém hoje glifosato, derivado de agrotóxicos e outros
resíduos orgânicos e inorgânicos). Neste contexto, o cultivo às deidades/religiosidades era menos
presente, sendo que a ideia institucionalizada de um Deus único, masculino, de inferno e céu,
salvação e tudo o mais que vem nos períodos posteriores não se presentifica2. As formas
originárias de religiosidade são todas ligadas intensamente às forças da natureza e ao feminino ou
aos pares complementares masculino e feminino, pois Deus, neste período, metaforicamente, era
feminino, o que vai perdurar por milênios antes do poder patriarcal3. Quando comunidades
humanas se fixam, o fazem no período de uso da agricultura e, assim, surgimento das cidades,
fixando-os e perdendo a riqueza ambiental e alimentar anterior, surgindo então doenças que vão
tomar um crescendum assustador no ocidente. Para compreender isto, basta verificar os estudos
e depoimentos de antropólogos, navegadores, historiadores sobre o modo de vida de indígenas
de diversas partes do mundo, mostrando que o nível de saúde é alto, tanto quanto à integração
com o ambiente natural, a cultura e a natureza apresentam aí grande conexão. Quando se
cultivam pelos continentes preferencialmente os 5 grãos (trigo, milho, arroz, cevada e ervilha),
uma mudança drástica começa a se desenhar4. Outro ponto fundamental é que, psicológica e
corporalmente (mente e corpo são unos), neste período, como afirma Reich (2003), não podemos
inferir neuroses, sejam religiosas, familiares ou culturais, devido não apenas ao estilo de vida
inserido naturalmente e por hordas comunitárias integradas, mas pelo uso natural e energético

2 Sobre isto assista o imperdível documentário sobre os índios Pirahã: Desconvertendo o missionário.
3 Se considerarmos a história do homo sapiens, em 95% dela ele esteve altamente enraizado na vida e
equilibrado. Nos últimos 5 mil anos ocorreu o desvio notável que tem seu ápice da Revolução Científica
até os dias atuais.
4 Os principais cultivos de grãos hoje são, na ordem: trigo (o mais problemático deles), arroz, milho, soja,
cevada, sorgo, algodão. Todos eles não possuem mais a qualidade genética das espécies selvagens, sendo
que grande parte dessa produção tornou-se transgênica e atingida quimicamente, com riscos incalculáveis
para o meio ambiente e para a saúde humana. O excesso de carboidratos simples e portanto glicose/açúcar
é hoje um dos maiores problemas de saúde pública do mundo. È por isto que uma das dietas mais potentes
e importantes para a saúde humana hoje é a Paleolítica (Dieta Paleo). Sobre isto vide o trabalho brilhante
de Dr. Samuel Dalle Laste https://clinicadallelaste.com.br/
livre do corpo, em especial do movimento e sexualidade; somado a isto, uma paridade maior e
nivelação social, entre homens e mulheres em especial. A vivência de rituais, expressões de
competição, fidelidade ao grupo, liberdade, animalidade, instintualidade, emoções como raiva e
outras, oferece indícios significativos que colocava este sujeito paleolítico como expressão
integrada do fluxo energético dos corpos, da natureza, da vida. É por isto que, em tais situações
de equilíbrio natural, faz-se desnecessário filosofia, terapia, direito (a justiça exercia-se no modus
comunitário e de equilíbrio social)5, teologia ou ciência como a entendemos. O desenvolvimento
do pensamento racionalizador e instrumental e seu grande poder de controle tornou-se nossa
glória e nosso desastre, podendo ser como diz Reich e E. Tolle (2007), o grande sugador de
energia vital do humano e que o tira do presente e da vida real.

Outro modo complementar de ver as mudanças ocorridas, é considerar a ideia de uma


destinação humana (Heidegger) em sua trajetória saindo da vida animal-natural integrada para
uma vida cultural antrópica objetificada. Alguns autores apontam que cultura humana, em si, já é
um desenraizamento e, portanto, não somos mais animais e isto implica um custo a pagar/aceitar.
Por outro lado, sabe-se que, numa perspectiva naturalista e biológica básica de compreensão do
animal humano e seu habitat, o enraizamento é o que mantém o ser humano vivo, e o que conta é
a qualidade, intensidade e equilíbrio deste enraizamento, maior ou menor. Sobrevivemos apenas
porque estamos enraizados. Por exemplo: respirar é não só colocar H2O para dentro, mas
misturar-se com ambiente e conectar-se sensoriamente a cada instante. Beber é introjetar (ser) o
ambiente e não apenas ingerir elementos químicos. Comer igualmente; nosso corpo é um com o
clima, umidade do ar, trocas gasosas, processos de absorção e excreção, trocas magnéticas,
trocas afetivas, contato com os animais, vegetais, paisagem e uma série de elementos que
mostram que somos um com o ambiente – e isto não é apenas um enunciado filosófico, mas
biológico básico. A vida só pode ser vivida sistemicamente. O ápice do desenraizamento é - neste
olhar - o comprometimento separativo destes processos que levam às doenças, insustentabilidade
e, por fim, a uma morte prematura e mal vivida.
Portanto, a vida humana compõe-se numa dialética de enraizamento e desenraizamento,
em que precisa lidar com (des)equilíbrios a cada momento, desafiadoramente, dentro de um
modelo civilizatório cada vez mais desenraizado e que, por outro lado, movimenta-se
(movimentos, consciência, luta social, ambiental, entre outros) para recuperar um equilíbrio
sustentável com um maior e melhor enraizamento do humano no ambiente – alimentação
adequada, água, ar, movimento, habitação, coletividade, cidades, paisagens, harmonia social,
saúde mental – tema gravíssimo no desenraizamento vivido em nossas sociedades
traumatizadas, como bem mostra F. Ruppert (2014). Um bom exemplo é a virada ecológica; se por
um lado não temos hoje como ser 100% sustentáveis, devido ao alto grau de comprometimento
insustentável de nossos processos, pautados no modelos de consumo voraz - transporte,
habitação, energia, agricultura - por outro lado em muitos casos podemos diminuir estes impactos
em 50%, 70% ou mais conforme o estilo de vida que levarmos.
Enraizamento e desenraizamento não dizem respeito somente à nossa inserção adequada
e intensa no ambiente natural, mas também no ambiente social, afetivo, relacional, e aí o quadro é
tão ou mais grave e importante – e ao mesmo tempo extremamente conectado ao quadro
chamado ambiental. O estilo de vida social que as sociedades industriais levam, o modelo político-
econômico adotado (genericamente chamado de capitalismo), o comprometimento de dimensões
éticas fundamentais de socialização, faz com que vivamos uma violência contundente e as vezes
crescente de vários tipos, silenciosos em especial. A violência pode ser compreendida em muitos
aspectos como um desenraizamento (exclusão), social, ambiental, econômico, afetivo, vital.
Portanto, não haverá solução efetiva sem olhar para o nosso modelo de sujeito e
intersubjetividade, nosso ego e nosso Self.

Quando nos damos conta da imensa diferença entre os modelos de vida paleolíticos -
espelhados ainda hoje em parte nas comunidades indígenas, ou nativas ou sustentáveis atuais –
é comum uma reação de medo, tamanho é o desafio do grau de afastamento que nossos corpos,

5 Hoje os mecanismos de justiça mais avançados, chamados de justiça ou práticas restaurativas,


recuperam nada menos que modelos antigos indígenas circulares, de responsabilização, reparação e
empoderamento comunitário.
mentes e relações enfrenta diante dos modelos ou tentativas enraizadas. É necessário contudo
dar-se conta que exatamente o desenraizamento – dito por Heidegger como perda do ser, ou
objetificação do ser – é a base da neurose, do sofrimento psíquico imenso que enfrentamos nas
sociedades industriais tomadas pelo progresso material, urbano, tecnológico sem limites. É
chocante perceber - depois de desmistificar o positivismo evolucionista que está na mente de
nossa sociedade industrial – que nos aspectos mais importantes do viver a vida, como a
felicidade, a qual se liga ao prazer, inserção no ambiente e no grupo, liberdade e vida boa,
centramento, estão fortemente ameaçados e degradados nos tempos modernos. Não é à toa que
surge a necessidade iminente, cultural mas muitas vezes neurótica e doentia, de religiões
salvíficas, ideologias idiossincráticas, normose, terapias de toda ordem, e infindáveis mercadorias
como substituto para a dor6.
Na mentalidade dicotômica, o alerta quanto à perda do caráter animal, ecológico, natural
dos sujeitos modernos soa como volta ao passado. Em todo caso, isto é mais uma forma de
defesa e fuga da responsabilidade ecológica e pessoal que a constatação da degradação exige, e
não tanto um medo do arcaísmo ou da vida “selvagem”, do qual estamos muito longe (a não ser
em comunidades alternativas e do gênero). Jamais se pode voltar ao passado; contudo devemos
recuperar a sabedoria, tecnologias, sustentabilidade, corporalidade, ambiência e muito mais do
que herdamos, para o qual nossa genética e psique está adaptada. O presente compõe-se de
uma dialética com a tradição, a história, a cultura dos povos. Podemos mudar de ideia,
alimentação e modo de habitar de modo até rápido, mas a genética e os processos corporais e
psíquicos mais profundos estão enraizados no ambiente, na biologia, na genética e no
inconsciente, onde seja.

“Toda a filosofia ocidental assenta-se em um mal-entendido sobre o corpo”. É muito difícil


dar uma noção suficiente da verdade desta afirmação de Nietzsche. Reconhecer que no momento
em que perdemos as formas vitais com fluxo energético biológico livre e harmonioso com a vida,
ligado ao âmbito cultural e ao psíquico enraizado, o tipo de pensamento que criamos
organizadamente, ou melhor, a sua motivação fundante, cheia de neurose, medo, perda da
felicidade e, no caso de muitas formas religiosas, a perda do chamado céu – daí a necessidade de
doutrinas e teologia para reconduzir ao céu, por outras vias que não a vida real. Segundo autores
da Escola de Frankfurt, a dominação da natureza, o “pensamento da identidade” e o surgimento
do pensamento hegemônico ou modelo cultural dominante no ocidente provém do medo, não
apenas da curiosidade. Medo da mudança, medo da perda, medo da morte, medo do próprio Self
em sua abismal heteronomia7. A perda do corpo refletiu-se bem na filosofia metafísica, e mais
tarde na racionalista, e no período da ciência moderna decaída em positivismo, com a
objetificação grosseira do corpo como objeto, partes isoladas, átomos, vida mecânica e físico-
químico restrita. E agora a vemos também no imaginário, em religiões e na virtualidade do mundo
capitalista contemporâneo.

A armadilha da cultura ocidental objetificada que nos domina é muito bem denunciada por
Reich (2003): de um lado caímos no positivismo, materialismo mecanicismo cartesianismo e tudo
o que objetifica o humano e a potência livre da vida e do inconsciente, de outro está o
espiritualismo, metafísica, dimensões que fogem da realidade ainda mais, perdendo contato com
o ground, com a vida, sexualidade, Natureza, com as formas de energia aí colocadas, portanto,
com o Self. Ou seja, enquanto balançarmos entre defender ideais, teorias ou modos de vida
materialistas, frio e calculistas, concebendo o corpo e a vida como matéria composta de pequenas
partes como objetos manipuláveis, ou de modo racionalista e funcionalista, por um lado, e por
outro lado defender ideias desencarnadas, mistificadoras, abstratas, anticientificismo,
fundamentalismo, descorporificadas e desconectadas da dor e prazer intensos da vida, estaremos
gravitando entre dois polos neurotizantes que perdem o contato real com a pulsação da vida em
nós e na natureza.

Para sermos agora mais pontuais quanto ao que se trata de desenraizamento,

6 Ver “Faces do humano: mascarados, sofredores, consumidores”. Pelizzoli, 2010. In: Sayão, S. Faces do
Humano. EDUFPE: Recife, 2010.
7 Veja a obra Dialética do Esclarecimento, de Adorno e Horkheimer. E Pelizzoli, 2013.
elencaremos aqui alguns pontos fundamentais que são sintomas e ao mesmo tempo reverberam
em mais desenraizamento, o que por sua vez gera mais sofrimento e perda de contato com a
realidade, com a vida.

II - Exemplos fundamentais e concretos do afastamento do Self, ou de degradação


do humanus

1. Cesarianas e violência obstétrica (nascimento cirúrgico): é talvez hoje o maior indicador do


desenraizamento tanto da mulher no papel de criadora natural quando no seu empoderamento
diante do masculino, quanto dos aspectos de animalidade, sexualidade, corporalidade, intuição e
sensibilidade/fragilidade intensas que um nascimento revela. O lugar das mulheres e seus
saberes neste ato foi usurpado com a impetração da medicina positivista/objetificadora e
machista, como representante da “espada” (metáfora da perda da paridade social e da mãe-
natureza, do “cálice” até o neolítico). A profilaxia e intervenção artificalizante e “purificadora” das
cirurgias e hospitalizações para os atos normais da vida e da morte representam bem o
descolamento de tais práticas em relação aos modos enraizados de vida. As tenebrosas e
complexas implicações da hospitalização, instrumentalização e da imensa violência obstétrica na
hora sensível e fundante do vir ao mundo são boa parte da causa do sofrimento psíquico atual,
traumas, neuroses e outros fatores8. Perguntado sobre qual tipo de política profiláxica ou terapia
em nível social poderia resgatar a saúde mental das sociedades neuróticas contemporâneas,
Stolkiner (2008) e Odent (1981) afirma: partos naturais para além do ambiente hospitalar, e com
ligação direta e saudável do bebê com a mãe; bem como o cuidado amoroso e livre na primeira
infância.

2. Afastamento do ser humano com o ambiente natural. O enclausuramento dos sujeitos nos
meios urbanos são verdadeiras prisões, das quais muitas pessoas que nasceram assim não se
dão conta. Chama a atenção porém o desespero das pessoas para terem férias, ir à praia, beber
e banhar-se em água pura e boa, nadar, pescar, correr, andar por vegetações abundantes,
resgatar escaladas, rios, montanhas, mares, ares e assim por diante. É evidente que este é um
ponto-chave para o resgate da degradação psíquica e do sofrimento humano. Em muitas
tradições, seja grega antiga, seja dos monastérios, eremitas e similares, o sofrimento psíquico,
como a loucura, era endereçada ao resgate do Self na floresta, no retiro, no reencontro com as
forças provindas da natureza e que compõe o corpo humano. Os mitos de Édipo e Orestes são
exemplos típicos, da “pro-cura” na natureza. Habitar ambientes mais naturais, com integridade,
flora e fauna suficientes, além de terra, não é em absoluto uma questão de “paisagem”, ou
“contato com a natureza”, mas modo de ser no mundo, conformar sua energia corporal, respirar,
encontrar-se com a vida, a tal ponto que um autor do peso de C.G. Jung (1993) afirmar que é
extremamente difícil uma vida psíquica feliz - e mesmo a superação efetiva da neurose - desligada
da vivência com o ambiente natural.

3. Perda do movimento. O movimento do corpo é a base do mesmo, pois é a base da natureza,


da vida. Movimentar-se perfaz o fluxo energético que gera a vida, e gera também a saúde. A
dança não é apenas uma instituição corporal cultural, mas é metáfora do movimento-equilíbrio que
perfaz o sentido da energia da vida. A falta de movimento, ou movimentos inadequados,
compromete o prazer, as células, a eliminação de toxinas, o tônus muscular, enfim, os sistemas do
corpo. Mover-se é retomar a força, é criar, renovar, ser parte ativa do mundo para o qual o animal
mamífero semi-símio que somos foi criado. Pular, correr, andar, nadar, abrir os braços, fazer
exercícios, competir, fazer yoga e tantos outras ações recomendadas hoje pela Saúde não
deveriam ser objeto de saúde-doença, pois são partes integrantes da vida. Á perda do movimento
acompanha a perda da vitalidade e da força física. Hoje, o âmbito da calculabilidade e do que se
chama “segmento do anel ocular”, segundo a orgonoterapia (orgonomia), está hiper carregado,
provocando dores, perda de contato efetivo com os sentimentos, desrealização corpórea,
estresse, tensão, sobrecarga de pensamentos e, assim, transtornos mentais de várias ordens,

8 Sobre isto leia especialmente a obra de M. Odent (1981) e W. Reich (2003), bem como o filme
Renascimento do Parto I e II.
incluindo aí até a esquizofrenia. O descuido e abandono do corpo em seus modos harmoniosos
de exercer-se não é uma questão apenas de enfraquecimento ou atrofia muscular, mas fato
psíquico de efeitos desvitalizadores amplos e complexos. Por outro lado, a muscularização
artificial e neurótica das academias, apesar de ter um lado bom e a evidente busca de
recuperação de vitalidade, pode ser unilateral e até doentia, quando não acompanhada de um
trabalho com as emoções, rigidez deste mesmo sistema muscular nervoso, criando sujeitos
inflados, fortes de um lado e precarizados de outro, ou mesmo pequenos monstros egoicos que
fogem da fraqueza de caráter.

4. Medicalização e doentificação do humano. Se notarmos com atenção, veremos que todos os


procedimentos de resgate da saúde, numa visão de saúde básica e integrativa, e mais ainda das
medicinas antigas, nada mais é do que o resgate do homem natural, que caminha, bebe água,
movimenta-se, come o que vem do ambiente natural e evita coisas artificiais, come menos coisas
cozidas e mais as cruas, massageia seu corpo, coordena respiração e movimento, come
determinadas ervas conforme o que precisa para sentir-se melhor, reequilibra suas emoções para
ter saúde; resgata a natureza e o cuidado com seu corpo, e assim por diante9. As técnicas das
medicinas naturais e integrativas são na sua quase totalidade resgate de dimensões alimentares,
emocionais e energéticas, ou, seja, ambientais, que um ser humano no exercimento de seu
prazer, ambiência, relações, sexualidade, sustentabilidade e nutrição e respiração têm
automaticamente. Mas a vida tornou-se objeto da biomedicina cartesiana, a ser dominada e
artificializada. A perda do humanus (humus, ground, enraizamento) reflete-se agora na
medicalização e no fato de atacarmos fracassadamente o que se chama de doenças. Remedia-se
uma doença, mas a doença do desenraizamento avassala corpo, emoções, alma, surgindo das
mais variadas formas. A doença do corpo é a doença da relação ao ambiente e vice-versa. Sem
esta percepção, segue fracassando a biomedicina ocidental. Acrescente-se que os sujeitos
acostumam-se com a normose (aceitação doentia da falsa normalidade, costume, maioria...), e
não pedem mais mudanças, revitalização, reorganização, mas uma droga (pílula) que os alivie ou
“conserte” aquele problema pessoal, desvinculado de suas raízes, sistema e ambiente.

5. Aumento alarmante de transtornos mentais. O manual DSM é imenso, e cresce, não apenas
devido à insana medicalização e objetificação dos corpos e da psique humana, mas porque o
nível de aumento de transtornos é alarmante. É raro encontrar hoje quem não tenha feito uso de
psicotrópicos, ou mesmo quem o toma com frequência. Psicose, neurose e histeria no sentido
clássico, há muito deixaram de abranger os estados mentais de sofrimento psíquico, para juntar-
se a uma gama de possibilidades, como pânico, ansiedade, transtornos alimentares, fobias, TDH
e muitos outros. Um bom observador nunca tomará isto isoladamente, mas como um fenômeno
social, e lembrará que em sociedades harmoniosas, enraizadas, integradas, tais acontecimentos
são muito menores. O humano é, grandemente, fruto de suas relações ambientais (sociais); não
há como estudar genética hoje sem entrar na epigenética. Quando colocamos a causa de tais
transtornos apenas no indivíduo, culpamos de modo vitimizador e condenador o que na verdade
tem origem em dimensões familiares, políticas, sociais e biológicas alteradas. Segundo autores
como Capra (1982), o aumento de transtornos mentais somado a outros fatores de crise
representa em geral na história período não apenas de sofrimento, mas esgotamento do
paradigma cultural anterior, anunciando um novo momento de reorganização sociocultural.

6. Perda de dimensões da animalidade. Tais como instinto, sensações e intuições que o corpo dá
como orientação, no uso do olfato, tato, visão. Fluxo livre para expressões animais de nossa
corporeidade, em seus gestos, movimentos, gritos, gozo, disputas corpóreas, manifestações
naturais do corpo como flatos, arrotos, uso das mãos e membros não apenas de modo disciplinar,
ou então desleixado, ou de más posturas. A sociedade industrial acompanha a sociedade
vitoriana, e assim a disciplinarização e controle extremo do corpo, que deve seguir etiquetas de
toda ordem, que prendem, seguram, param, engessam, cortam o movimento, a expressão, tais
como rir demais, chorar demais, gritar, espernear, demostrar sexualidade, comer fora das regras.
Hoje, são desestimuladas as formas de descarga neurogênicas básicas no mundo animal para
livrar-se de tensão e traumas, como o tremor. Não se pode ter raiva – a raiva se tornou um

9 Cf. Pelizzoli, www.curadores.com.br


conceito moral, sendo assim um símbolo de pessoas más, mais do que uma manifestação de
expressões de liberação, dor, sofrimento humano, energia, visto que em geral a raiva é conectada
estreitamente ao medo. Por fim, a ideia de civilização buscou matar o animal que somos, e criar
uma normose perigosa, desencarnada do ritmo e dos movimentos e interações com a natureza. A
necessidade de superar esta perda explica algo do conceito de libido em Freud, terapias como a
de Reich, terapia primal, Bioenergética, catarses, entre outras.

7. A perda da sexualidade (que acompanha diretamente a perda da animalidade) enquanto


potência orgástica livre, não neurótica, por um lado, e de outro, o afastamento da sexualidade da
afetividade/capacidade de sensibilidade e amor. Muito do modelo de relação sexual hoje é movido
por dimensões infantis, pois a criança/adolescente está muito dentro dos adultos de hoje. Numa
situação desta, a potência orgástica e tudo o que envolve a mesma no sentido reichiano fica muito
comprometida, observando-se uma relação sexual em que o gozo é contraído, ou doloroso, ou
fraco, ou que não realiza a fusão intensa com a natureza da energia corpórea, e não irradia
energia suficientemente para outras partes do corpo, ou seja, é localizada/genitalizada; ou
mesmo, apresenta casos de desinteresse sexual, insatisfação constante, ou ainda outro aspecto:
a evitação a todo custo da angustia orgástica10. O fluxo energético sexual livre pelo corpo é
sentido como altamente perigoso para muitos sujeitos, pelo fato de estarem altamente
encouraçados no nível muscular-nervoso. Níveis elevados de raiva e medo, ou desânimo e perda
de vitalidade, levam a uma relação sexual incompleta, enfraquecida ou, por outra dimensão, até
violenta. Numa sexualidade assim, tem-se dificuldade em sentir profundamente, em conectar-se
com o outro num sistema, próprio à relação intensa que é, com afetividade do coração. Por vezes,
pode tratar-se quase de uma masturbação.

8. Perda de autonomia do jovem e desmame deste muito tardio. Muitos jovens dependem hoje
sobremaneira de seus pais, para além da idade de explorar o mundo e fazer sua vida. Se nas
comunidades mais arraigadas à terra haviam ou rituais ou o abandono do lar pelo jovem em
direção à maturidade e constituição de sua família, hoje vemos jovens na casa dos 20 a 30 ainda
dependendo financeiramente e emocionalmente dos pais. Os casamentos realizados nesta idade
notadamente são fadados na quase totalidade a serem mais conflitivos, ou de laços frágeis, ou
quando são laços intensos estabelecem aliança neurótica infantil de dependência, como
substitutos dos laços e conflitos com os pais. Algumas separações ocorrem com poucos anos de
união, pois em geral o parceiro “não deu” o que o outro queria. Outras, com violência
desproporcional. O gênero homem recebe hoje críticas infindáveis sobre a falta de maturidade
para um compromisso como casamento, bem como pelo uso objetal da mulher11.

9. Perda da dimensão nutricional natural. A nutrição não é apenas combustível para uma
máquina chamado corpo funcionar, é o próprio movimento básico da vida corpórea e do contato
com o mundo. Não nos nutrimos de oxigênio, mas respiramos, o que é um ato vital que envolve o
sujeito como um todo. Não engolimos apenas, mas junto digerimos uma situação e nos tornamos
um com o ambiente ingerido. A dimensão bioquímica dos alimentos interage diretamente com
nossa saúde e equilíbrio dos sistemas vitais. Tudo o que ingerimos tem um destino metabólico
com várias consequências, positivas ou negativas. Comer e excretar é simbolicamente um ato
vital de afirmação do ser e de liberação, passar por algo de modo encarnado. O modo como
levamos nossa vida corpóreo-emocional é diretamente ligado (influencia e é influenciado) pelo
modo e qualidade do que ingerimos. Beber água pura e com PH equilibrado é muito diferente de
beber refrigerantes, os quais excitam as mucosas, sobrecarregam fígado, rins, aumentam o nível
de açucares e acidez no organismo; grande parte de nossa alimentação é excitante, ou pesada,
ou irritante de mucosas, de difícil digestão, empobrecida em termos de nutracêuticos (fibras,
vitaminas, minerais etc.), e isto reverbera na ordem emocional de um indivíduo, notadamente nas
crianças. Grande parte de nossa alimentação, em especial as bebidas, é viciante, como o trigo,
açucares, cafés, chocolates, gorduras vegetais, todos muito danosos para a saúde humana. Uma
criança com distúrbios, muitas vezes pode tê-lo devido ao modelo nutricional adotado, que

10 Ver Reich 2003, e sua obra A função do orgasmo.


11 No Brasil, 1 em cada 4 jovens de 24 a 34 anos mora com os pais – IBGE, 2012.
compromete sua estabilidade metabólica, corporal e, portanto, psíquica.

10. Higienismo purificacionista, com a perda dos elementos “roots” da vida. Muitas pessoas, em
especial de classe social média ou alta, interagem não mais com os elementos da natureza e do
corpo em sua amplitude; restringem seu corpo a uma moradia e urbanidade toda regrada e
compactada, sem o que se chama de terra, sujeira (nossa cultura considera muitas vezes sujeira
a natureza, mas não considera a maior sujeira como sendo os elementos químicos que invadem
nossa vida pelo ar, alimentos, água, ambiente, produtos de “limpeza”). Inseticidas e aditivos
químicos são usados amplamente e não são considerados pelo que são: poluição, sujeira,
causadores de doenças, desequilíbrio ambiental. Há uma perseguição neurótica e até alucinatória
quanto a insetos, certos animais, chamados de pragas e transmissores de doenças, como se tais
doenças não fossem gestadas no seio do lixo do consumo e desequilibro antrópico e bioético12.
Indivíduos hoje são prejudicados em sua psique e em seus sistemas imunológicos por não mais
terem contato com a terra, barro, folhas, fungos, pólen. Desconsideramos que nosso corpo vem
da terra e precisa de trocas magnéticas, táteis, minerais, energéticas, bioquímicas com a terra. Os
poucos jardins que existem são arremedos trágicos do imenso cabedal de flora e fauna e
geografia que se perdeu. Crianças não podem mais se lambuzar, engatinhar no chão, tocar, mas
devem sentir “nojo”, “tem micróbio”, terra, mas o mesmo não se aplica a seus doces artificiais e
produtos de higiene cada vez mais cancerígenos e alergênicos. Não há chão, há tapetes
sintéticos (e poluentes) e lajes que vedam o contato com a terra. Há roupas de plástico (petróleo)
que impermeabilizam as trocas da pele com o exterior e compõe a poeira tóxica das salas
fechadas, sapatos de plástico que vedam o magnetismo, fraudas de plástico, carros de plástico,
talheres e copos de plástico, brinquedos de plástico, civilização de plástico... O purificacionismo é
tão mistificador e aterrador que convence sujeitos a dedetetizarem seus lares e edifícios, sem a
mínima sensibilidade do que isto significa para seus familiares, ambiente e trabalhadores da área.
Vive-se hoje em “apertamentos” sem natureza, contendo no máximo algumas quixotescas plantas
(as vezes de plástico, índice notável do “fim da natureza”) e um animal que, se não “passear”,
enlouquece. Inserir roupas, laços, aditivos químicos ou escovar dentes de cachorros é
considerado normal. Se algumas pessoas pudessem, impediriam artificialmente os animais e até
as crianças de fazerem cocô e mijar, lamber, cuspir, gritar, latir, rolar na terra, pisar no barro, tocar
em plantas, folhas, pedras, andar descalço. Sabemos hoje que o corpo humano tem mais micro-
organismos associados do que células, ou seja, a epigenética é crucial na vida humana.

11. Objetificação pelo consumo. A objetificação, segundo grandes filósofos como Heidegger,
Jonas e Gadamer, não é apenas produzir muitos objetos, mas estabelecer uma relação em que os
fins são trocados pelos meios, e somos instrumentalizados e escravizados por aquilo que
passamos a depender demais; a isto acompanha o processo de desumanização, de reificação. O
consumo é uma instituição essencial da vida humana e tem a ver diretamente com a manutenção
da vida e da satisfação das pessoas. Porém, em situações socioculturais em que o
desenraizamento humano é muito grande, e acompanhado de crises da subjetividade, e
sofrimento psíquico maior, mais o consumo se torna válvula de escape para as infelicidades,
insatisfações e frustrações. Daí o mito de Sísifo, a socidade de consumo oferece sempre algo
novo, ou oferece no objeto específico algo que ele não pode dar, como a satisfação, portanto,
estaremos sempre insatisfeitos e girando a roda. A base do modelo urbano e ecológico e suas
degradações passa sempre pelo modelo de consumo. Adotar um consumo sustentável e mais
naturalizado é uma questão não apenas de salvar as cidades, águas, terras e o planeta, como se
diz, mas de conseguir resgatar os valores e modo de vida mais feliz do ser humano. Aprender a
imunizar-se contra a ansiedade e neurose do consumo voraz, é igualmente uma questão de
saúde psíquica de primeira ordem.

12. Perda da qualidade de vida/expressões da vitalidade. O lazer é algo fundamental na vida


humana. A grande parte do (pouco) lazer que se tem hoje é voltado para televisão, shoppings,
lugares com barulhos estressantes, cinemas e comedorias. Ou seja, a fabricação de sujeitos
robotizados, aprisionados, em que muitas vezes o próprio lazer é estressante, amorfo,
desvitalizado. Numa sociedade assim, o descanso em geral é uma pausa na inquietação e

12 Cf. Pelizzoli, 2011 e 2013.


estressamento, em que sujeitos não conseguem dormir de fato (sono superficial, sem qualidade,
com pesadelos, preocupações, barulhos...), ou as horas de sono são deficientes. Muitas pessoas
“descansam” na frente de telas, ou então trocam a noite pelo dia, ou dormem tarde, ou acordam
tarde, contrariando o ciclo circadiano humano. O tempo e encontro da refeição, numa condição
desta, é quase ausente, o que faz aumentar o estresse, problemas digestivos, uso de fast food
(quase tudo é fast: rápido e superficial). Sem este tempo, há menos diálogo, menos encontro,
menos convivência familiar e social. Tudo isto favorece processos depressivos, angustiantes,
tristeza excessiva, uso de drogas e alimentos viciantes, como café, doces, álcool, carboidratos
simples, fumo. O que por sua vez causará doenças e gastos com sistema de saúde com cifras
bilionárias para os países, o que por sua vez faz aumentar impostos, ou arrochos salariais, numa
roda viva. Consume-se mais, cresce o PIB, crescem junto doenças e degradação, cresce gastos
em saúde, sanidade, ambiente; e assim precisa-se trabalhar mais, correr mais atrás da máquina,
e assim girar a roda cada vez mais intensamente. Polui-se os rios e o ar e a terra, e precisa-se
investir em hospitais, remédios e cirurgias pelas doenças causadas. Aumenta-se o consumo
deletério, festejado na economia como crescimento econômico, aumentando também
proporcionalmente tudo aquilo que degrada nossa qualidade de vida. A perda da qualidade de
vida reflete-se também no tempo passado ou não com a família, filhos e amigos, tempo de brincar,
para além de “dar uma voltinha no parque com a criança”. Sem brincar, tornamo-nos pesados,
sisudos, sérios demais, sem flexibilidade e liberdade, sem “criança”.

13. Enquadramento das relações socioinstitucionais por modelos empresariais de


produtividade. Quando uma sociedade fica demasiadamente dependente das relações de
trabalho e consumo, tende a colocar sua autonomia sob controle de instituições que dominam
mercado e economia, bem como refletidas na política. Cartéis, mega-empresas, corporações (vide
o esclarecedor filme The corporation) começam a condicionar a vida privada, determinar e
influenciar vontades, ditar padrões, gerar comportamentos, criar separação social (exclusão),
seduzir ao consumo deletério. Ocorre que tais modelos estratégicos, calculistas, sedutores,
exploradores começam a espraiar-se para as esferas da vida social, tais como família, religião,
educação e cultura em geral; operam por todos os meios para uma intensa sedução e lavagem
cerebral de potenciais clientes. Os comerciais e ações de mídia penetram hoje do telefone à
internet, avassaladoramente, da rua aos banheiros, dos antigos cartazes e cartas ao bombardeio
em todos os programas de TV, cinema, rádio, algoritmos de redes sociais, entre outros.

Bibliografia inicial

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Sementes de Pandora: O custo imprevisto da Civilização)
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http://www.youtube.com/watch?v=4b8Jv3Qut70 (A origem do ego)
http://www.youtube.com/watch?v=oOHZR7pzg5M (O ego e a queda)

http://www.youtube.com/watch?v=FaQQOuQeEEA (Wilhelm Reich – documentário)


https://www.youtube.com/watch?v=lYP-jS6i1YQ (krishnamurti sobre o sujeito e superação de
sofrimento

Textos Pelizzoli: http://www.4shared.com/folder/uHx4BC6g/_online.html

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