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"A etapa que se estende de meados do século XVII até 1791 pode ser
considerada como o auge da escravidão negra nas Américas. O Quadro 1 mostra
que foi só no século XVIII que o tráfico de africanos para o continente
americano chegou a seu ponto máximo. Isto se liga ao desenvolvimento da
exploração de minas de ouro como braço escravo no Brasil (Minas Gerais,
Goiás, Mato Grosso) e em certas porções da América Espanhola, e a expansão da
economia de plantation também no Brasil (costa do Nordeste principalmente),
como no período anterior, mas a partir de meados do século XVII igualmente no
Caribe britânico, francês e holandês (Guianas e sobretudo Antilhas: Barbados,
Jamaica, Saint-Domingue); e em seguida nas colonias britânicas do Sul, na
América do Norte (em especial a Virgínia). Nesta fase, além do açúcar, a
empresa agrícola escravista interessou-se por diversos outros produtos (tabaco,
anil, cacau, algodão).
O último período da escravidão africana nas Américas estende-se de 1791 a
1888, isto é, da rebelião de escravos e quilombolas do Haiti (a antiga colonia
francesa de Saint-Domingue) até a extinção final do escravismo americano com
a abolição brasileira. Tal periodo aparece marcado pelos longos processos de
abolição do tráfico de africanos e da própria escravidão. Mesmo assim, ainda
conheceu um auge escravista importante: no Sul dos Estados Unidos até 1863
(algodão); no Vale do Paraíba e no oeste paulista, sobretudo entre 1840 e 1870
(café), e em Minas Gerais, no caso do Brasil; em Cuba, principal beneficiária da
falência da plantation em Saint-Domingue, especialmente até 1868 (açúcar)."
(21-22)
(23)

"Embora a escravidão negra não tenha estado ausente de região alguma do


continente americano, convém reservar a denominação de Afroamérica só para
as partes de tal continente onde ela chegou a ser a relação de produção
predominante; onde, portanto, a presença africana teve maior importância.
Assim, a fins do século XVIII, a Afro-América compreendia o Caribe (Antilhas,
Guianas), boa parte do Brasil, porções relativamente reduzidas da América
Espanhola continental (costa do Peru, partes do que são hoje Venezuela e
Colômbia, etc.) e o Sul dos Estados Unidos." (24)

" … na menos de 88,6% dos escravos ativos da Guiana Francesa trabalhavam em


atividades agropecuárias, e 11,4% no artesanato e no que, em linguagem atual,
chamaríamos de 'serviços' (adivinhamos que, entre estes, predominava
amplamente o serviço doméstico)." (26)

" … o mesmo não ocorre com uma colonia maior e mais complexa como o
Brasil onde Kátia de Queirós Mattoso propõe distinguir cinco grandes situações
economico-sociais. A agroindústria de exportação (engenhos, já no século XIX
fazendas de café, etc.) caracterizava-se pela organização em unidades complexas
com um grau considerável de divisão do trabalho, submetidas ao poder de
senhores (…). Aqui, as possibilidades de ascensão eram relativamente reduzidas
para os escravos. Nas minas constatava-se uma presença mais visível do Estado,
o caráter temporário das concessões levando à necessidade de explorá-las com
rapidez e portanto à existência de incentivos à produtividade. Isto abria maior
possibilidade para a acumulação de um pecúlio pelo escravo, e por conseguinte
facilitava a obtenção da alforria. No sertão do gado a situação era ainda
diferente, com menor densidade de escravos, maior pobreza e rusticidade, uma
hierarquia social mais frouxa (as charqueadas do Rio Grande do Sul constituíam
algo bem diverso, porém, quando comparadas à pobre pecuária do sertão do
Nordeste). Os escravos urbanos gozavam, pela força das coisas, de maior
liberdade de movimentos, numa sociedade mais variada que a rural, tendo acesso
a atividades de muitos tipos – artesãos, carregadores, escravos de aluguel,
vendedores, etc. - o que em circunstâncias favoráveis facultava a acumulação de
pecúlio e a compra da liberdade, além de as condições sociais urbanas abrirem
maiores possibilidades aos libertos. Finalmente, os escravos domésticos eram até
certo ponto privilegiados em comparação com os demais; em compensação,
porém, estavam sob vigilância constante dos brancos, dos senhores: humildade,
obediência e fidelidade poderiam abrir-lhes o caminho da alforria, mas qualquer
infração os ameaçava com o envio para a roça, a venda para engenhos e minas."
(26-27)

"Desde os trabalhos de Robert Starobin, sabemos que 200.000 cativos (5% dos
escravos do Sul) trabalhavam em atividades industriais – homens na sua maioria,
mas também mulheres e crianças. Estes escravos-operários fabris eram quase
sempre propriedade dos donos das fábricas, mas estes podiam igualmente alugá-
los por mês ou por ano." (30)

" … a imensa maioria dos escravos negros do Novo Mundo viveu, sem dúvida,
atada às mais duras formas de labor, nas plantations, nas fazendas, nas minas."
(30)

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