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IDÉIA DE UMA "FILOSOFIA POPULAR"

François Chatelet

No título destas breves proposições, a expressão filosofia popular figura entre aspas:
ela pertence, com efeito, ao vocabulário de Kant, que assim designava os escritos destinados,
além dos filósofos e sábios, ao público intelectual, àqueles que se interessam pelas coisas do
espírito, e em particular, pelos assuntos morais e políticos. Adotando esta terminologia, Kant
se inscrevia, ampliando-a, na perspectiva dita do Iluminismo: contava com os intelectuais
para desenvolver indefinidamente e pouco a pouco a "sociedade dos espíritos", até construir o
"reino dos fins", onde cada um seja "legislador e sujeito" reino possibilitado pela "autonomia
da vontade". Pois, a seus olhos, o acesso à autonomia do povo - definido não como messias,
como massa, como natureza orgânica, como lugar, mas como cada um e todos - constituía a
força decisiva da luta contra a tirania.
Tal programa pode hoje parecer abstrato, pois o Iluminismo foi parcialmente
desviado, monopolizado, submetido pelo poder dos Estados e dos grupos que nele exercem
seu despotismo. Tem, entretanto, a eminente virtude, parece, de trazer elementos importantes
para a compreensão de para que serve a pesquisa filosófica. O projeto kantiano associa às
investigações longas e minuciosas, bastante especializadas, que são as três Críticas, escritos
breves cujo interesse geral e implicações aparecem imediatamente ao público, escritos
divulgados em publicações largamente abertas - o Berlinische Monatsschrift e o
Allgemeine Literaturzeitung, entre outros. Esta maneira de agir é reveladora do estatuto que
os filósofos - mesmo aqueles que se gosta de qualificar, da parte dos marxistas elementares e
defensores das ciências humanas, como filósofos especulativos - entendam dar à sua empresa.
Seja o que for que pareça querer dizer a infeliz XI Tese sobre Feuerbach, os filósofos
sempre quiseram "transformar" o mundo: que freqüentemente tenha acontecido que alguns
tenham sido conduzidos pela vontade de verdade a legitimar o mundo, logo a reproduzir a
realidade, não impede de nenhum modo que a maioria se tenha dedicado a tarefa de "mudar a
vida", seja pelo conhecimento que lhe quiseram dar (e as propostas de ação que isto implica,
seja (e ao mesmo tempo) por intervenções diretas nos debates éticos e políticos de seu tempo.
É uma concepção bem fraca que se tem do idealismo do pensamento clássico - , em
conseqüência, da contribuição polêmica de Marx neste domínio - que leva a rejeitar seu
realismo natural, básico.
O filósofo intervém. Foi assim, é assim: desde a refutação de Aristóteles do programa
platônico de "funcionarização" dos governantes, às advertências de Pierre Clastres e Claude

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Lefort no Discurso sobre a servidão voluntária, passando pelo artigo de Kant de dezembro
de 1784, "Resposta à questão: que é o Iluminismo?" e pelas reflexões de Hegel sobre o
Reformbill posto em discussão no Parlamento britânico em 1831. Mas esta intervenção é
específica: é acompanhada de condições que lhe marcam o estilo e o alcance. Ora, eis que
hoje o desconhecimento destas condições - para não dizer sua recusa - conduz a
procedimentos de exposição deploráveis, na medida em que são prejudiciais à filosofia - que
eles reivindicam - e às causas que querem defender. Apoiando-se sobre a pretensa descoberta
moderna da significação ético-política do trabalho teórico e da obrigação de tomar partido
nos dramas do mundo (e isto da maneira mais espetacular e mais urgente), a referência
filosófica e convocada como cobertura e como exaltação. Ser-se-ia tentado, se ainda houvesse
mais brio e informação mínima, a evocar Isócrates ou as partes mais precoces da produção de
Cícero; ou ainda Vitor Cousin e sua arte de juntar citações que, seja qual for seu contexto
efetivo, confirmam só por sua combinação, a conclusão visada; recentemente, Andréi Jdanov
e seu discípulo Garaudy seguiam um método análogo na construção da dogmática marxista.
É provável, entretanto, que o modelo deste gênero de escrita seja mais medíocre: ele
se encontra, sem dúvida, nos manuais escolares onde, fixada a ordem do programa e
definindo as boas respostas, cada capítulo, na ordem cronológica chama os grandes autores a
dizer sua palavra sobre a questão e justificar uma conclusão já escrita. Assim, atravessam-se
alegremente os séculos e transformam-se as idéias!
Não é que os conflitos de idéias não sejam fundamentais e não constituam uma via de
acesso precisa para a inteligência das lutas reais: ainda falta estas idéias serem compreendidas
e estudas no seu estatuto e segundo sua lógica. O juízo de Kant sobre a Aufkärug -
subscreva-se ou não este juízo - só encontra seu sentido enquanto está ligado ao conjunto da
filosofia crítica, a uma reflexão sistematicamente aplicada às praticas que transformaram à
época: a ciência física, de Copérnico a Newton, as mutações políticas que precedem a
Revolução Francesa, e esta enquanto pretende realizar a Liberdade. Do mesmo ponto de
vista, se tem interesse a contestação de Pierre Clastres da idéia demasiado largamente
expandida da necessidade e da perenidade do Estado, é porque ela se apóia em uma análise
pacientemente construída a partir de conhecimentos precisos...
Em suma, a "popularização" da filosofia, e mais geralmente, a colocação à disposição
do que se deve chamar, à falta de melhor, o público dos dados culturais - a fim de que cada
um possa aplicar-se por si mesmo, e aí veja mais de perto, com sua experiência e suas
preocupações singulares - são concomitantes a uma pesquisa aprofundada. Se não, a operação
é só propaganda e, como tal, seus efeitos só duram enquanto se mantem pos poderes privados

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ou públicos que a sustentam. Na realidade, o projeto de uma filosofia popular repousa sobre a
idéia de que a forma Saber, aquela que pretende encerrar a verdade do Ser entre a primeira e
última página de um livro - do Livro - forma herdada da Revelação, e que culmina nos
grandes sistemas do século XIX, é um embuste, que esta forma ameaça sem cessar e alimenta
os dogmatismos morais e políticos, e que só se pode combatê-la com eficácia a golpe de
conhecimentos; isto, em particular, disto contra que lutam, um controle discursivo minucioso
e seu aparelho de provas aprofundado; mas que não são, portanto, essencialmente diferentes
dos conhecimentos que resultam de outras compreensões da realidade que habitualmente
chamam-se "experiência" e que se manifestam, entre outras, por ocasião das mudanças
históricas, pela invenção de uma outra sociedade pela própria sociedade; de tal modo que,
nesta ótica, estabelece-se uma comunicação substancial entre os "lugares de conhecimento"
que as doutrinas do Saber costumam pensar hierarquicamente, a passagem de um ao outro
efetuando-se por contigüidade, de modo que cada um possua seu modo próprio de exposição.
É difícil - quando se é filósofo - desprender-se da forma Saber, da fascinação que ela
exerce e da sujeição que ela induz. Mas não se arranjam as coisas substituindo-a por intuições
fulgurantes, experiências cruciais, e exibindo - como outrora o Bem supremo - o Mal
absoluto (e, de repente, o Recurso último). A sujeição é ainda mais nefasta, a proclamação da
verdade preparando, no melhor dos casos, hábitos lúgubres da lucidez moralizante ou
veemências malcontroladas da "grandescoberta". A filosofia se alimenta de matérias mais
sólidas. Ela não foge das circunstâncias. Mas, precisamente, aplica-se a conhecê-las, a tornar
inteligível sua irredutível singularidade. E, uma vez que se queira popular, quer dizer, quando
se aplica a determinar os acontecimentos como oportunidade, e ajudada por conhecimentos,
que só eles podem permitir-lhe reunir a diversidade e a imensa riqueza da experiência.

CHATELET, François. Idéia de uma filosofia popular. Correio do Povo, Caderno de Sábado.
Porto Alegre: 11 de novembro de 1978.