Você está na página 1de 68

A VIDA MORAL É UMA EDUCAÇÃO PARA O HUMANO,

E NÃO UMA RETÓRICA DE ESQUEMAS.1

Entrevista do Santo Padre Francisco


à Revista Studia Moralia da Academia Afonsiana.

Alfonso V. Amarante, CSsR – diretor.

Publicado em Studia Moralia, 58/2, jul-dez 2020, p. 219-232.

Introdução.
Com a aproximação dos 150 anos da proclamação de Santo
Afonso como Doutor da Igreja (24 de março de 2021), pedimos
ao Santo Padre a possibilidade de uma entrevista sobre alguns
temas morais da atualidade. Os estímulos que o Pontífice
oferece na entrevista adquirem significado muito particular em
vista do jubileu, não apenas para a Academia Afonsiana.
Constituem um convite à reflexão e ao aprofundamento da
proposta teológico-moral do Santo Doutor para o nosso tempo.
Já antes, em 9 de fevereiro de 2019, por ocasião de seus 70 anos
de fundação, a Academia Afonsiana foi recebida em audiência
privada pelo Papa Francisco. Também nessa ocasião, o
Pontífice, no seu discurso, incentivou a Academia a continuar a
fazer teologia moral nas pegadas das grandes intuições
afonsianas, revitalizando-as à luz do Concílio Vaticano II e dos
sinais dos tempos.
Como Academia Afonsiana, Instituto Superior incorporado
à Pontifícia Universidade Lateranense, sempre nos colocamos
lealmente ao serviço da renovação pedida pelo Concílio

1 Tradução dos três textos desta brochura: Pe. Claudiberto Fagundes.


Vaticano II. Nos nossos 72 anos de vida, procuramos levar
adiante uma reflexão teológico-moral capaz de conjugar as
exigências da pesquisa científica, aberta ao debate, com a
escuta da Palavra de Deus, com o objetivo de ajudar as
consciências no caminho da adesão a Cristo, produzindo frutos
na caridade para a vida do mundo (OT, n. 16).
O nosso fazer teologia, como comunidade acadêmica,
sempre foi guiado por duas instâncias afonsianas: a escuta das
fragilidades humanas, para anunciar a verdade moral como
remédio curativo; e a tensão missionária, para promover
consciências responsáveis pelo bem comum a serviço dos
últimos. As palavras que o Santo Padre nos dirigiu confirmam
nosso fatigante caminho no serviço da Igreja e, ao mesmo
tempo, nos estimulam a continuar nessa estrada para formar
pesquisadores e professores capazes de promover e
acompanhar o amadurecimento das consciências.
Na sequência, apresentamos o texto integral da entrevista, revista e
corrigida pelo Santo Padre.
Santo Padre, a pandemia apresenta novos, urgentes e complexos
desafios morais para a Igreja. A crise sanitária, que provocou uma
crise econômica generalizada e preocupante, está trazendo à tona
a fragilidade de nossos sistemas sociais. Essa situação exige que
nossas comunidades reavivem a criatividade da caridade com
propostas e gestos significativos, chegando às raízes dos
problemas. Na sua opinião, o que a teologia moral pode fazer para
um frutuoso acompanhamento formativo das consciências?
Papa Francisco: A pandemia é uma crise universal. Todos
sabemos que não saímos de uma crise iguais como entramos.
Saímos melhores ou piores, tanto individual, quanto
socialmente. Tudo dependerá de como os Estados planejarão o
pós-covid: se, de um modo humano, ou se, apenas de um modo
técnico, ou seja, se olharão principalmente para o
desenvolvimento econômico e financeiro, ou se escolherão
começar de novo a partir das pessoas que, obviamente, sempre
valem muito mais que um simples lucro ou cifra monetária.
Creio que o ponto seja educar as consciências para pensar
de forma diferente, em descontinuidade com o passado. O que
nos espera é, certamente, um tempo difícil, com aumento da
pobreza e da fome.
Todos devemos agir com responsabilidade se quisermos
uma humanidade mais humana, sem escravos, sem exploração
de homens e mulheres. Precisamos nos perguntar se ainda
queremos que nações explorem outras nações, privando-as,
por exemplo, de suas riquezas naturais, especialmente, nesse
momento, em que há uma necessidade crescente de recursos
específicos para empregar em novas tecnologias que vão se
tornando o novo petróleo, o novo ouro. Não faz sentido que
uma nação, por um lado, se comprometa a levar um sistema
político democrático a uma nação mais pobre e, por outro,
retenha para si o usufruto do subsolo dela. É inaceitável que
esse modo de pensar e de viver continue igual depois da grande
crise da pandemia. É necessário fazer escolhas corajosas que
imponham uma mudança. No entanto, nenhuma mudança é
possível se não mudarem a visão e a percepção da realidade ao
nosso redor.
Acredito que a teologia moral deve ajudar a aumentar a
consciência daqueles “pecados” que o mundo já tornou normais
e não identifica mais como tais.
O senhor pensa em algo em particular?
Papa Francisco: Penso em muitas coisas. Penso na fabricação
de armas, na exploração dos trabalhadores, na discriminação
das mulheres, na educação ideologizada. Nessas situações,
precisamos ser iluminados pela lógica do Evangelho, pois, do
contrário, elas continuarão sendo a “normalidade” doentia do
mundo. A Igreja sente essa responsabilidade e essa
necessidade. O vosso trabalho é ajudar a Igreja, precisamente,
nessa direção. Por exemplo, hoje parece normal produzir armas
atômicas, mas o Magistério da Igreja já disse claramente que o
uso das armas atômicas é imoral, inclusive a simples posse
delas. Devemos ter a possibilidade de dizer claramente tudo
isso, sem medo. Nesse sentido, impressionou-me muito o que
aconteceu recentemente no porto de Gênova: os próprios
trabalhadores impediram, não só que as armas fossem
comercializadas, mas, inclusive, qualquer colaboração com
navios envolvidos nesse tipo de comércio. O que eles fizeram
foi um jeito corajoso, eficaz e humano de colocar em prática o
que é ensinado pelo Evangelho e pela lógica do Amor que Jesus
veio anunciar. A teologia moral deve poder dizer coisas que
iluminem o nosso presente para recolocar no centro a
dignidade da pessoa.
O que mais o impressiona no ensinamento moral de Jesus?
Papa Francisco: Sempre me impressionou o que Jesus diz de si
mesmo em um certo momento, ou seja, que não veio para abolir
a Lei, mas para levá-la ao seu verdadeiro cumprimento (Mt 5,
17). É uma afirmação que nasce como repreensão aos doutores
da Lei. Basta ler o capítulo 23 do Evangelho de Mateus, onde
Jesus os reprova pela mentalidade fechada com que
interpretam o ensinamento da Lei, reduzindo-a apenas às
palavras e casos que, no fim, podem ser manobrados de acordo
com a conveniência.
Em vez disso, ele quer levá-los a uma nova consciência de
que a Lei está a serviço do homem, como narra, com grande
clareza, o capítulo 25 do mesmo Evangelho: “Porque tive fome
e me destes de comer, tive sede e me destes de beber, era
estrangeiro e me acolhestes, nu, e me vestistes, doente e me
visitastes, na prisão e viestes me visitar” (Mt 25,35-36). A vida
moral é uma educação para o humano e não uma retórica de
esquemas.
O senhor fala frequentemente das “periferias existenciais”, por que
a teologia e, especificamente, a teologia moral, devem pensar a
partir da “periferia” da vida?
Papa Francisco: Porque, das periferias, se vê melhor a
realidade. Do centro se tem uma visão adocicada, falseada,
enquanto da periferia se vê a realidade crua, real, sem nenhuma
máscara.
Há uma fotografia na sede da Elemosineria Apostolica, tirada
por um bom fotógrafo. Tem o título de “indiferença”. Mostra
uma senhora saindo depois de ter almoçado em um
restaurante, usa luvas, um casaco de pele, um chapéu. Ao lado
dela está outra mulher, com uma muleta, pobre, magra, velha,
que lhe pede algum dinheiro. Elas estão uma ao lado da outra,
mas a primeira olha para o outro lado. A indiferença: esse é o
grande mal que produz um mundo egocêntrico, fechado em si
mesmo. A globalização da indiferença é uma das palavras que
usei, precisamente, em Lampedusa. A indiferença, hoje, é um
modo de se defender. É uma quarentena que eu escolho para
mim mesmo, para me proteger do vírus da realidade. Por essa
razão, a partir das periferias se pode ver a realidade sem
maquiagem.
Mas também gostaria de dizer que, quando falo de
periferias, não me refiro apenas às coisas ruins. As periferias
são o que as pessoas, o povo, realmente vive. A periferia é o
trabalho, a cultura, a música do povo. Mesmo um show musical
que reúne muitos jovens é uma periferia, e não se pode ignorar
tudo isso.
Em certo sentido, a periferia está se deixando provocar pela
realidade, como o senhor escreveu na Evangelii Gaudium. A
propósito disso, devemos também dizer que nossa realidade é
marcada pelas descobertas da neurociência, da ciência médica, da
inteligência artificial. Em certo sentido, elas mudaram a
antropologia, a forma como nos relacionamos com a realidade.
Para o senhor, como devemos abordar a singularidade irrepetível
do homem que, supostamente, deveria ser substituída pela
inteligência artificial?
Papa Francisco: Precisamos nos perguntar, claramente, o
verdadeiro significado de inteligência, consciência,
emotividade, intencionalidade afetiva e autonomia da ação
moral. Na realidade, os dispositivos artificiais que simulam as
capacidades humanas são desprovidos de qualidade humana.
Nunca devemos esquecer esse fato para poder, assim, orientar
a regulamentação de seu uso e a própria pesquisa, em direção a
uma interação construtiva e justa entre os seres humanos e as
últimas versões das máquinas que, por sua vez, estão se
espalhando por nosso mundo e transformando, radicalmente, o
cenário de nossa existência. Se soubermos fazer valer essas
referências também na prática, o extraordinário potencial das
novas descobertas será capaz de irradiar seus benefícios a cada
pessoa e a toda a humanidade, sem jamais substituir a
verdadeira imagem e semelhança de Deus, que é, precisamente,
a singularidade de cada homem e de cada mulher.
Santo Padre, em seu ensinamento é fácil perceber uma empatia e
uma sintonia pela visão moral e pastoral de Santo Afonso de
Liguori. Várias vezes o senhor confidenciou que leu o livro “As
Glórias de Maria”. Como foi seu encontro com Santo Afonso e como
vê a proposta dele, de uma Igreja sempre em êxodo em direção aos
últimos e aos abandonados?
Papa Francisco: Inicialmente, eu não sabia que Santo Afonso
era o pai da teologia moral. Tomei conhecimento disso mais
tarde. Minha primeira aproximação foi, precisamente, através
da leitura de “As Glórias de Maria”. É um texto escrito com o
estilo de sua época, com uma acentuação devocional e afetiva.
Mas, o que impressiona é a grande solidez teológica que está
subjacente a todo o texto. Santo Afonso sempre parte de uma
reflexão real, histórica, existencial. Lembro que lia os capítulos
depressa, para chegar logo às histórias que ele conta no final.
São histórias reais, da vida real, carregadas de humanidade, de
existência concreta. A teologia moral de Santo Afonso não é
uma teologia moral para os anjos, não é uma teologia moral
pelagiana. Percebe-se que Santo Afonso sabe tomar a fraqueza
na mão e sabe lê-la à luz da Graça de Deus. Nele, não há excesso,
mas sim, harmonia. Ele nunca cai, nem no laxismo, nem no
jansenismo. Seu realismo é um realismo iluminado.
Existe uma harmonia entre o pensamento de Santo Inácio e o de
Santo Afonso? Santo Inácio fala da participação afetiva na vida de
Cristo. O senhor acha que há algo semelhante no pensamento
afonsiano?
Papa Francisco: Eu acho que sim. Para Santo Inácio, por
exemplo, é importante envolver o afeto na meditação, inclusive
na leitura do Evangelho. Isso leva o homem moral, o teólogo, a
ser syn-pathico com a pessoa que tem diante de si. Dessa forma,
nunca pensará na outra pessoa apenas como um pecador, como
uma pessoa perversa a ser condenada. Ele também é um
pecador. O outro, que vem ao seu encontro, é alguém que
procura Deus e vem ao confessionário porque está procurando
Jesus. E Jesus nunca condenou preventivamente o pecador. Sua
dureza era, e é, contra uma mentalidade errada, mas, ao lado da
dureza da condenação do pecado, Ele mostra uma ternura
infinita por cada pessoa, mesmo pela mais pecadora. Jesus
condena o pecado e não o pecador.
O ano de 2021 marcará o 150º aniversário da proclamação de
Santo Afonso como Doutor da Igreja. A Bula da Proclamação
reconhece, em sua proposta moral e espiritual, “a via segura” no
emaranhado de opiniões, muitas vezes, conflitantes. Santo Afonso
fez isso através do confronto e do diálogo, tendo sempre como
ponto de partida e verificação a realidade viva do povo. Qual é a
contribuição que seu ensinamento ainda pode dar hoje?
Papa Francisco: A teologia de Santo Afonso é, ao mesmo tempo,
uma teologia humana e divina. Como Jesus, Santo Afonso
também entrava em relação direta com as pessoas. E assim
também devemos fazer nós com as pessoas que vêm ao nosso
encontro hoje. Por essa razão, quando se quer descrever, em
termos concretos, a reflexão dos casos morais com a teologia de
Santo Afonso, não é possível fazer isso apenas com casuística.
Como dissemos antes, sua atitude é sempre partir da fraqueza;
a revelação de Deus sobre a fraqueza; acolhida e
acompanhamento, sem jamais fechar a porta. Jamais. É a
atitude dos confessores que são pais, que sempre acompanham.
Eu me pergunto: Santo Afonso, Doutor da Igreja, pensou a sua
moral em laboratório? Não, ele a pensou no confessionário, ou
seja, a partir da vida do povo.
Em seu discurso à Academia Afonsiana, em 9 de fevereiro de 2019,
por ocasião de seu 70º aniversário de fundação, o senhor nos pedia
“um compromisso mais convicto e generoso com uma teologia
moral animada pela tensão missionária da Igreja em saída”. Que
aspectos e perspectivas ainda poderiam ser acrescentados para
percorrer mais depressa a estrada que traçou?
Papa Francisco: Nunca me cansarei de repeti-lo: ir direto para
as periferias. Mas em um sentido prático, real. É preciso abrir-
se ao encontro concreto com as periferias existenciais, sem cair
na armadilha de fazer reflexões teóricas que nunca encontram,
realmente, o drama e a beleza da realidade verdadeira. É
preciso abrir-se. Há uma imagem que usei em um discurso no
pré-conclave: no Apocalipse, lemos que Jesus está à porta e
bate (Ap 3, 20). É claro que ele bate à porta para entrar e cear
conosco. Hoje, também, Jesus está à porta e bate, mas ele bate
de dentro da Igreja, porque nós não o deixamos sair. O
fechamento de ideias, de preconceitos, são as raízes onde
nascem ideologias laxistas ou rigoristas. Repito: Santo Afonso
não é laxista, nem rigorista. Ele é um realista, no verdadeiro
sentido cristão.
Em Amoris Laetitia o senhor nos lembrou de evitarmos a
idealização excessiva da vida cristã que não é capaz de revelar
“a fidelidade na graça” (AL, n. 36). A formação moral,
particularmente, dos presbíteros, deve privilegiar quais
elementos para que isso se realize em todo o povo de Deus?
Para Francisco: A primeira palavra que me vem à mente é
proximidade. Proximidade com Deus, proximidade com o
Evangelho, proximidade com Jesus, proximidade com o povo. A
segunda palavra é memória. A memória de Deus, a memória do
Evangelho, de Jesus. E memória do pertencimento ao povo.
Quando alguém é rígido, a tendência é se afastar do povo. Quem
sabe haja um medo da proximidade. Com certeza, perdeu a
memória do pertencimento a um povo. Talvez pertença a uma
linha de pensamento, a uma ideia, a uma doutrina. É ideológico.
Quando se perde o pertencimento a um povo, perdem-se as
raízes. Ao mesmo tempo, uma teologia moral que perdeu as
raízes de pertencimento a um povo, a Jesus, a uma proximidade,
produz frutos estéreis. Quem perde o pertencimento, afasta-se
da realidade. Não sabe ser carinhoso. O padre “clerical” não
sabe ser carinhoso. Quando alguém esquece que é filho, não
pode, nem mesmo, ser pai e, no máximo, vira um patrão.
No entanto, gostaria de acrescentar que essa atitude de
rigidez atinge, não só o âmbito clerical, mas também o civil.
Muitos pensam que eu falo da rigidez como um risco apenas
para aqueles que têm uma sensibilidade tradicional. Conheço
muita gente santa que poderíamos definir como tradicional. A
rigidez se refere tanto a quem se sente afim com uma linguagem
tradicional, quanto a quem professa um certo progressismo. A
rigidez é um risco para todos. Ela sempre tem, por trás de si,
alguma coisa de não resolvido.
Santo Padre, chegando ao final desse diálogo, gostaria de
perguntar ao senhor que palavra gostaria de dizer à Academia
Afonsiana para que continue a levar adiante sua missão para
o bem de toda a Igreja.
Papa Francisco: Duas imagens me vêm à mente: coração e
joelhos. Coração para se aproximar de Deus afetivamente, com
o coração e não só com as ideias. Um diálogo com Jesus,
também afetivo. Isso ajuda a se aproximar do povo com o
coração e a pensar em uma teologia que fale eficazmente a
todos. Os joelhos para a oração. Teologia se faz de joelhos. Mas,
ajoelhar-se também indica a atitude de quem quer aprender,
como Maria de Betânia “que, aos pés do Senhor, escutava a sua
palavra”, escolhendo, assim, “a melhor parte, que não lhe será
jamais tirada” (Lc 10, 39. 42); a atitude de quem reza aos pés do
outro, diante daquelas que chamamos “misérias humanas”. Foi
Jesus quem nos ensinou isso na última ceia. Foi Ele, o Mestre,
que, por primeiro se colocou de joelhos diante dos irmãos e
lavou os seus pés.
Também me vêm à mente dois homens que conheci: um era
o chefe de uma grande empresa agrícola muito poderosa.
Poucos dias antes de morrer, sabendo que iria morrer, decidiu
comprar uma fazenda na Suíça para aumentar o seu patrimônio.
Ao outro homem, sempre muito rico e com um passado de
vida dissoluta, aconteceu de, quase por acaso, estar presente
em uma missa de sétimo dia de um amigo seu. Escutando o
Evangelho e a homilia naquela circunstância, sentiu, dentro de
si, uma experiência muito forte, então foi procurar a viúva do
seu amigo, uma mulher muito sensível e cristã. Disse a ela que
sentiu como se o Senhor lhe tivesse falado e tocado o coração.
Ele imediatamente tinha afastado esse pensamento, dizendo
que só poderia ser o diabo falando, porque tinha levado uma
vida dissoluta, e assim, sem pensar duas vezes, confessou os
pecados diante da viúva. Quando terminou, perguntou
diretamente: “O que eu poderia fazer?” A mulher, então,
respondeu: “Faça o bem”. Nos dois anos que ainda viveu, fez
muitas obras boas com grande generosidade, atendendo, na
medida do possível, os pedidos que chegavam até ele e
gastando a maior parte dos seus bens. A moral destas duas
histórias é simples: todos somos pecadores, todos temos as
nossas doenças, mas, com os pecados podes te enriquecer na
mundanidade, na soberba, ou na humildade, na compreensão
do amor. Nem sempre podemos consertar a nossa vida passada,
mas podemos usar o tempo que ainda temos para amar. Tudo
isso é possível, no entanto, apenas se conservarmos aquela que
chamei de memória deuteronômica (Dt 6, 20-21). A memória
deuteronômica é muito importante para o pertencimento. O
pertencimento à Mãe Igreja te ajuda a ser um bom teólogo
moral. E permanecer em sintonia e em comunhão com a Igreja é
o que sempre dará à Academia Afonsiana a eficácia para
continuar a ser um ponto de referência na reflexão moral, e,
também, a conservar aquela adequada profecia que permitirá
ao anúncio cristão se manter sempre fiel ao Evangelho no hoje.
Obrigado por tudo o que fazeis.
Roma, 1º de agosto de 2020.
+ Francisco.
Uma primeira reflexão sobre
os estímulos oferecidos pelo Pontífice.

O diálogo com o Santo Padre partiu da atualidade,


entrelaçando a nossa história acadêmica com os estímulos
oferecidos pela constituição apostólica Veritatis Gaudium que
pede construirmos redes entre as Universidades,
caracterizando-nos sempre mais como polo de excelência, para
oferecer uma formação sempre mais correspondente aos
desafios de uma Igreja em saída. Sobre esse pano de fundo e
incentivados pelos últimos eventos da pandemia que
apresentam inumeráveis questões morais, recebemos do Papa
palavras proféticas para a reflexão teológico-moral que ele
deseja nessa mudança de época.
É inútil destacar que as palavras do Papa vêm carregadas de
significado e implicações teológicas e pastorais. A partir de uma
primeira leitura, emergem algumas indicações, necessitadas de
posterior aprofundamento à luz da vida, para uma teologia
moral capaz de oferecer respostas construtivas. O Papa
convida a enfrentar as questões morais deixando-nos guiar pela
lógica do Evangelho a fim de evitar cair na “normalidade”
doentia do mundo. A fidelidade ao Evangelho ilumina as
escolhas para o bem, onde o horizonte é sempre diferente, e
alude à lógica da indiferença, que impede enfrentar a realidade,
e na qual se pode cair. Para o Papa, “A vida moral é educação
para o humano” e refuta qualquer esquematismo onde não
esteja presente a misericórdia.
Na sequência, dando eco à palavra do Papa, gostaria de
destacar três temas que considero necessário continuar
refletindo: a pandemia, a teologia moral animada pela tensão da
Igreja em saída e, por fim, o ensinamento afonsiano.
Primeiramente, o convite do Papa é partir do ser humano
posto diante do desafio da pandemia. Em uma tal situação, que
vê toda a humanidade sucumbir diante de um inimigo invisível
e mortal, há a tentação de confiar as respostas apenas à
engenharia biomédica e às escolhas técnico-políticas. Quando a
pandemia acabar, precisaremos reconstruir o tecido social e
econômico em âmbito mundial. Existe o risco real de que, então,
passem a prevalecer apenas os interesses financeiros dos mais
fortes. Se isso acontecesse, teríamos, então, uma catástrofe
maior que a pandemia porque, uma vez mais, o ser humano seria
sacrificado ao lucro.
O Papa convida a humanidade a unir as forças para ousar,
sonhar e projetar um novo mundo a partir do exercício moral da
responsabilidade pelo bem comum, seguindo os quatro
princípios traçados em sua primeira exortação apostólica
Evangelii Gaudium (cf. n. 217-237). O tempo presente exige,
sobretudo, dinâmicas de discernimento comum para pôr em
prática aqueles processos que são indispensáveis para o futuro
e interpelam as consciências. O Papa nos convida a “educar as
consciências a pensar de maneira diferente, em
descontinuidade com o passado”. Esta descontinuidade
poderemos fazer emergir se, como teólogos morais, ajudarmos
profeticamente as mulheres e os homens a crescerem na
consciência, não apenas dos pecados cometidos contra a
criação, as criaturas e o Criador, mas, sobretudo, das sementes
de esperança presentes em toda a realidade. Para isso, é
necessário sempre partir da realidade, a mesma que foi
redimida por Cristo.
A teologia moral deverá, então, sempre ser proposta como
caminho salutar para curar as feridas da humanidade, fruto do
poder do pecado. Na ótica afonsiana, esse caminho moral de
educação da consciência, que o Papa define como “uma
educação para o humano e não uma retórica de esquemas”,
realiza-se partindo da memória agradecida do encontro com o
Cristo que transforma a vida, abrindo-a à esperança. Não se
trata, portanto, de refugiar-se dentro de esquemas morais que
oferecem seguranças, repetindo, simploriamente, alguns atos,
sem compreender seu valor. Somos chamados, sim, à busca da
vontade divina como remédio liberador e não, certamente,
como obediência passiva. Só quando a consciência compreende
o bem que Deus indica como significativo, ele se torna
vinculante. Nesse caminho de encontro com Deus,
compreende-se a dignidade da pessoa humana, redimida por
Cristo. A dignidade da pessoa humana, criada à imagem e
semelhança de Deus, como ensina o Concílio Vaticano II (GS, n.
12), está em sua capacidade de conhecer e amar o próprio
Criador. Nesse diálogo vivificante, a exigência moral se tornará
impulsionadora, porque se torna reposta liberadora.
O segundo ponto sobre o qual reflito é o convite do Papa ao
fazer teologia moral. No discurso que dirigiu à Academia
Afonsiana, em 9 de fevereiro de 2019, convidava a “um
empenho mais convicto e generoso por uma teologia moral
animada pela tensão missionária da Igreja em saída”. Na
presente entrevista, desenvolveu mais seu pensamento.
Em suas palavras, mais uma vez, ouve-se o eco do que
afirmou na Evangelii Gaudium “A Igreja ‘em saída’ é a
comunidade de discípulos missionários que ‘primeireiam’, que
se envolvem, que acompanham, que frutificam e
festejam. Primeireiam – desculpai o neologismo –, tomam a
iniciativa! A comunidade missionária experimenta que o
Senhor tomou a iniciativa, precedeu-a no amor (cf. 1 Jo 4, 10), e,
por isso, ela sabe ir à frente, sabe tomar a iniciativa sem medo,
ir ao encontro, procurar os afastados e chegar às encruzilhadas
dos caminhos para convidar os excluídos. Vive um desejo
inexaurível de oferecer misericórdia, fruto de ter
experimentado a misericórdia infinita do Pai e a sua força
difusiva. (n. 24). [Paulinas, 2013, p. 21-22].
Nesse convite é possível identificar um verdadeiro e
próprio itinerário teológico moral. A misericórdia de Deus,
acolhida como dom liberador, cura as feridas humanas e habilita
o ser humano para o amor responsável aos outros. O ser
humano é chamado a escutar a realidade e olhá-la com os olhos
de Deus para se envolver no projeto da redenção. Quem
encontra Deus não pode ser mais como era antes. O encontro
salvífico rompe as seguranças e convida a caminhar rumo à
terra prometida. Partindo da consciência de pertencimento a
Deus, o nosso relacionar-se com os outros e a criação será
dirigido pela lógica do serviço e da gratuidade.
Nesse caminho, somos chamados a acompanhar e a deixar-
nos acompanhar pelos outros em reciprocidade de consciência.
Todo verdadeiro acompanhamento, como recorda a Amoris
Laetitia, deve ser feito com respeito, sensível aos tempos do
outro “a Igreja deve acompanhar, com atenção e solicitude, os
seus filhos mais frágeis, marcados pelo amor ferido e
extraviado, dando-lhes de novo confiança e esperança, como a
luz do farol dum porto ou duma tocha acesa no meio do povo
para iluminar aqueles que perderam a rota ou estão no meio da
tempestade” (n. 291).
Esse caminho gera abertura para o frutificar. A teologia
moral deve estimular a comunidade cristã a respeitar e
sustentar os tempos de amadurecimento dos valores do
ensinamento evangélico em cada consciência. É precisamente
com, e por meio da, comunidade que somos chamados a festejar
na celebração dos sacramentos. O percurso que o Papa propõe
quer evitar cair em qualquer forma de rigidez, teórica e prática.
Enfim, o último aspecto que gostaria de destacar,
rapidamente, é a leitura que o Papa oferece da obra de Santo
Afonso. Ele define a proposta moral afonsiana como “uma
teologia, ao mesmo tempo, humana e divina” porque nasce, não
da escrivaninha, mas da vivência pastoral adquirida através do
contato real com o povo de Deus no exercício do sacramento da
Reconciliação. A visão de Afonso que o Papa Francisco propõe
está enraizada na leitura de seus predecessores que, por sua
vez, sempre destacaram como a proposta misericordiosa do
Santo Doutor nasce do contato real com as fragilidades
humanas, iluminadas pela graça divina. O Papa Francisco
evidencia fortemente que a teologia moral deve sempre ser
pensada e formulada – tal como fez Afonso de Liguori – a partir
do encontro e da escuta das exigências dos mais fracos, para
poder acolher e acompanhar “sem, jamais, fechar a porta” da
graça.
Para a Academia Afonsiana é muito significativo ter tido a
oportunidade de dialogar com o Santo Padre sobre alguns
aspectos da teologia moral. Suas palavras devem nos incentivar
a continuar com fidelidade o nosso trabalho, enfrentando os
novos desafios que o rápido desenvolvimento da sociedade
coloca diante de nós.
Em vista do 150º aniversário da proclamação de Santo
Afonso Doctor Ecclesiae, como Academia Afonsiana, levaremos
muito a sério o convite do Papa para pensar a teologia moral a
partir do coração, capaz de acolher a todos, e dos joelhos que se
dirigem a Deus em uma oração contínua e confiante, para que
sempre possamos propor a exigência moral como adesão ao
amor do Pai para formar consciências livres no amor.
BREVE DO PAPA PIO IX
QUI ECCLESIAE SUAE
DECLARANDO
SANTO AFONSO MARIA DE LIGUORI
DOUTOR DA IGREJA
PIO IX PAPA

PARA PERPÉTUA MEMÓRIA DO FATO.

O Cristo Senhor, que prometeu nunca


abandonar sua Igreja, sabendo ser de máxima
utilidade para sua Imaculada Esposa, suscita
homens insignes pela piedade e doutrina que,
repletos do espírito de inteligência, derramam
como as chuvas as palavras de sua sabedoria. Não
foi, portanto, sem a providentíssima disposição
do Deus onipotente
que, quando a doutrina dos jansenistas atraía
para si as atenções dos pretensos reformadores
e seduzia a muitos, desviando-os com seus
erros, se tenha eminentemente levantado
AFONSO MARIA DE LIGUORI, fundador da
Congregação do Santíssimo Redentor e bispo
de Santa Águeda dos Godos, para que,
combatendo o bom combate, abrisse sua boca no
meio da Igreja e, com seus sábios e ponderados
escritos se esforçasse por arrancar pela raiz e
exterminar do campo do Senhor tal peste
suscitada pelo inferno. Mas Afonso não se
limitou a isso,
pois, entregue unicamente ao propósito de
promover a glória de Deus e a salvação
espiritual dos homens, escreveu muitos livros
cheios de sagrada erudição e piedade para
indicar o caminho firme e seguro entre as
complexas sentenças dos teólogos, tanto as
mais laxas quanto as mais rígidas, pelo qual os
diretores das almas dos fiéis cristãos pudessem
avançar com passo seguro; para formar e
instruir o clero; para confirmar a verdade da fé
católica e defendê-la dos hereges de qualquer
tipo ou nome;
para assegurar os direitos desta Sé Apostólica;
e, ainda, para mover à piedade as almas dos
fiéis. Portanto, realmente pode-se afirmar com
toda a verdade que não há nenhum erro dos
nossos tempos que, ao menos em grande parte,
já não tenha sido refutado por Afonso. E o que
mais se poderia dizer, quando o que definimos,
com o aplauso do povo cristão e aprovação de
um grandíssimo número de bispos de todo o
orbe católico, sobre a Imaculada Conceição da
Santa Mãe de Deus e a Infalibilidade do
Romano Pontífice quando ensina ex cathedra, já
se encontra exposto clarissimamente nas obras
de Afonso
e demonstrado com validíssimos argumentos?
Por essa razão, aplica-se belamente a Afonso
aquele nobilíssimo louvor da Escritura Divina:
Não se perderá a sua memória, e o seu nome se
repetirá de geração em geração. As nações
relatarão a sua sabedoria, e a Igreja publicará o seu
louvor (Eclo 39, 13s). Pio VII, nosso predecessor,
de santa memória, admirado com a suma
sabedoria de Afonso, sobre ele pronunciou este
importante testemunho: pela sua palavra e
escritos mostrou o caminho da justiça aos que
erram em meio à noite do mundo para que
pudessem passar,
do poder das trevas, ao reino e à luz de Deus. Da
mesma forma, nosso predecessor, de feliz
memória, Gregório XVI, que fez grandíssimos
louvores a Afonso pela força incrível de sua
palavra e pela abundância e variedade de sua
doutrina, inscreveu-o no catálogo dos santos.
Finalmente, também em nosso tempo,
muitíssimos cardeais da Santa Igreja Romana,
quase todos os bispos do mundo inteiro,
superiores gerais das ordens religiosas, as
insignes associações dos teólogos, ilustres
cabidos de cônegos e homens doutos de todas
as classes, dirigiram-nos pedidos suplicantes
para que honrássemos Santo Afonso Maria de
Liguori com o título de
DOUTOR DA IGREJA. E nós, desejando com
muito gosto atender tais pedidos, como é de
costume, confiamos esse importantíssimo
assunto à apreciação da Congregação dos
veneráveis irmãos eminentíssimos cardeais
encarregados de cuidar dos Ritos da Igreja. Nas
reuniões ordinárias da referida Congregação,
realizadas na cidade do Vaticano no dia 11 de
março do corrente ano, ouvido o relato do
Nosso Venerável Irmão, Cardeal Constantino
Patrizzi, bispo de Óstia e de Velletri, Prefeito da
mesma Congregação e Proponente da causa;
consideradas as ponderações do dileto filho
Pedro
Minetti, presbítero Promotor da Fé; ouvidas as
respostas do defensor da causa, além das
sentenças dos teólogos pela verdade; e
finalmente, ponderando cuidadosa, atenta e
diligentemente todos os argumentos da
questão, com unânime consenso declararam a
resposta: Aconselhar ao Santo Padre a concessão,
a saber, declaração e extensão à toda Igreja do
Título de Doutor em honra de Santo Afonso Maria
de Liguori, com Ofício e Missa já concedidos;
acrescentado o Credo, Antífona “O Doctor” ao
Magnificat em ambas as Vésperas, e também as
leituras: “Sapientiam” no primeiro noturno, e “In
medio Ecclesiae” no VIII responsório; - Nós
consideramos que este rescrito,
promulgado no dia 23 do mesmo mês e ano,
deveria ser aprovado e confirmado por um
decreto geral Urbis et Orbis. Mas, então, o
dileto filho, Nicolau Mauron, Superior Geral e
Reitor-Mor da Congregação do Santíssimo
Redentor, se dirigiu à citada Congregação dos
Ritos para solicitar que, na festa de Santo
Afonso, já incluído entre os Doutores da Igreja
pelo decreto antes mencionado, fosse
acrescentado no Martirológio Romano, depois
das palavras: inscreveu-o no catálogo dos santos,
as seguintes: e Pio IX, Pontífice Máximo,
consultada a Congregação dos Ritos,
declarou-o Doutor da Igreja Universal; e, também,
na leitura sexta, depois da palavra inscreveu,
estas outras: e, por último, Pio IX, Pontífice
Máximo, consultada a Congregação dos Ritos,
declarou-o Doutor da Igreja Universal; bem como,
também pediu que todas as concessões feitas
nesse assunto, fossem confirmadas da nossa
parte com uma Carta Apostólica. A
Congregação dos Cardeais, na reunião
ordinária do dia 22 de abril desse ano,
respondeu: favorável ao pedido. E Nós, no dia
27 do mesmo mês, confirmamos a resposta e
mandamos expedir a Carta Apostólica em
forma de Breve.
E assim, atendendo aos pedidos do, sempre
lembrado, dileto filho Nicolau Mauron, e pelo
manifesto conselho de nossos veneráveis
irmãos da Congregação dos Ritos da Santa
Igreja Romana, pela Nossa Autoridade
Apostólica, através desta Carta, concedemos,
confirmamos e, se for necessário, novamente
atribuímos, o título de DOUTOR em honra de
Santo Afonso Maria de Liguori, fundador da
Congregação do Santíssimo Redentor e bispo
de Santa Águeda dos Godos, para que sempre
seja venerado como doutor em toda a Igreja
Católica e, na celebração anual de sua festa,
tanto pelo clero regular,
quanto pelo secular, seja celebrado o ofício e a
missa segundo o decreto e rescrito da Sagrada
Congregação dos Ritos que antes
mencionamos. Além disso, desejamos e
determinamos que os livros, comentários,
opúsculos e demais obras desse Doutor sejam
citados, referidos e, sempre que necessário,
empregados, não somente de maneira privada,
mas, publicamente, nos ginásios, academias,
escolas, colégios, aulas, debates, teses,
palestras, sermões e em todos os outros
estudos eclesiásticos e exercícios cristãos,
como se faz com os Doutores da Igreja. Por fim,
para que a piedade dos fiéis cristãos celebre
liturgicamente
o dia da festa desse Doutor e dele mais
piedosamente implore a intercessão, pela
misericórdia do Deus Onipotente e pela
autoridade conferida aos Santos Pedro e Paulo
e a seus apóstolos, a todos e a cada um dos fiéis,
de ambos os sexos, no dia da festa do referido
Doutor, ou em um dos sete dias imediatamente
subsequentes, à escolha do fiel cristão, aos que,
verdadeiramente penitentes e feita a confissão
sacramental, receberem a Santíssima
Eucaristia e visitarem devotamente alguma das
Igrejas da Congregação do Santíssimo
Redentor, dirigindo preces piedosas a Deus
pela concórdia dos governantes cristãos,
extirpação dos hereges e exaltação da Santa
Mãe Igreja, fazendo-o num dos dias indicados,
misericordiosamente concedemos, no Senhor,
a indulgência plenária e remissão de todos os
seus pecados, também aplicável, como sufrágio,
às almas dos fiéis que, unidas a Deus pelo amor,
já deixaram a luz deste mundo. Assim sendo,
por meio desta Carta mandamos aos
veneráveis irmãos Patriarcas, Primazes,
Arcebispos, Bispos, e diletos filhos Prelados das
outras Igrejas espalhados pelo mundo inteiro,
que, o acima sancionado, seja solenemente
promulgado em suas províncias, cidades,
igrejas e dioceses. Que seja, inviolavelmente e
perpetuamente, observado por todas as
pessoas eclesiásticas seculares e pelos
religiosos de quaisquer ordens, em todos os
locais e por todas as pessoas. Isto prescrevemos
e ordenamos, não obstante as constituições ou
disposições Apostólicas, universais, provinciais,
sinodais e conciliares, Constituições e
Ordenamentos gerais ou especiais ou
quaisquer outros que existam contrários.
Queremos, ainda,
que a presente Carta, transcrita ou em suas
cópias impressas, assinada por um notário
público, e munida com o selo de pessoa
constituída em dignidade eclesiástica, da
mesma fé esteja imbuída, como a tem a
presente, ao serem mostradas ou
apresentadas. Dado em Roma, junto de São
Pedro, sob o anel do Pescador, no dia 7 de julho
de 1871. Ano vigésimo sexto do Nosso
Pontificado.

Pelo Senhor Cardeal Paracciani Clarelli,


Félix Profili, Substituto.

Lugar  do Anel do Pescador.


21.3 Dois episódios
no processo de “liguorização”
da moral católica no século XIX.

Pe. Marciano Vidal.


[Historia de la Teología Moral. Parte V. Vol. 3. Tomo 2, Seção 21.3, p. 353-361]

Na segunda metade do século XIX, a persistente penetração


da moral afonsiana na vida católica enfrentou vários obstáculos:
críticas de profissionais da Teologia Moral; disputas de prestígio
entre institutos religiosos; anseio dos redentoristas em ter uma
escola ou sistema de moral; e, sobretudo, o exame cuidadoso do
valor científico e ortodoxia doutrinária de Afonso na obtenção do
doutorado.
Diante dessas dificuldades, surgiu o estudo e interpretação da
moral afonsiana com acentuado acento apologético.
São muitos os elementos em que se concretizou a leitura
apologética da moral afonsiana na segunda metade do séc. XIX,
com prolongamentos no séc. XX. Os dois mais relevantes serão
analisados abaixo: a causa do Doutorado de Afonso e o confronto
com Antônio Ballerini.

21.3.1 Promoção de Afonso a Doutor da Igreja.

A proclamação de Afonso como Doutor da Igreja (1871)


conferiu prestígio singular à moral afonsiana. O movimento da
causa do doutorado e, por fim, a proclamação, exigiram o exame
da validade científica e ortodoxia doutrinal da produção moral de
Afonso. No centro das discussões estava a Theologia Moralis.
Para promover a causa do doutorado afonsiano, foi
utilizada a estratégia defensiva e apologética.1 Uma equipe de

1
Sobre a história da promoção de Afonso ao Doutorado: ver a bibliografia
redentoristas, entre os quais se destacaram Rudolf von Smetana,
Michel Ulrich e Adam Pfab, prepararam uma Resposta às objeções
que, então, circulavam nos ambientes universitários romanos
contra a doutrina moral de Afonso.
Essa defesa da moral afonsiana constitui parte
considerável das Acta doctoratus, ou seja, Sacra Rituum
Congregatione... Urbis et Orbis concessionis tituli Doctoris... (Roma,
1870) Pars IV, Responsio ad Animadversiones R. P. D. Promotoris
Fidei, c. IV, “De morali S. Alphonsi doctrina et systemate” (p. 90-113) e
c. V, “De objectionibus particularibus circa quaestiones morales” (p.
114-153); Pars V, Summarium additionale in quo exhibentur, a
quibusdam theologis elaborata, responsa ad difficultates contra
doctrinam moralem S. Alphonsi a clarissimo P. Antonio Ballerino, Soc.
Jesu, objectas, et in animadversionibus R. P. D. Promotoris Fidei
allegatas (p. 6-515).2
Não seria justo desvalorizar a importância dessa defesa da
moral afonsiana, estreitamente ligada à causa do doutorado. A
obtenção do título constituiu o cume do processo de
“oficialização” eclesial da doutrina moral de Afonso. Com o
doutorado, foi vencido o último grande ataque de seus adversários
teólogos que pretendiam reduzir a moral afonsiana apenas a uma
variação, sem particular importância, na produção teológico-
moral do casuísmo probabilista. Por outro lado, com a vitória,
tornou-se definitivamente consagrada a ortodoxia doutrinal da
Theologia Moralis. Outros títulos e honras posteriores, entre as
quais, a proclamação como Padroeiro dos Confessores e
Moralistas (1950), foram consequências do triunfo alcançado com
o doutorado.

apresentada no final do presente capítulo.


2
Sobre o pano de fundo histórico dessa defesa e sobre seus autores: ORLANDI,
G. La causa per il dottorato di S. Alfonso. Preparazione - Svolgimento - Ripercussioni
(1866-1871): SH 19 (1971) 28-30, 52-54.
Juntamente com os aspectos positivos, também é
necessário reconhecer os negativos. A revisão histórica dos
acontecimentos, passados 150 anos, oferece saldo bastante
negativo para a figura de Afonso como moralista. A imagem
teológico-moral de Afonso ficou marcada pela orientação peculiar
do catolicismo do pontificado de Pio IX. Com fervor filial, mesmo
não completamente lúcido, os redentoristas daquele período
quiseram ver a coincidência do pensamento afonsiano com a
orientação doutrinal do catolicismo então imperante. Um sinal
dessa metodologia se encontra na ânsia de demonstrar que os
“erros doutrinais” do século XIX já haviam sido combatidos e
refutados, por Afonso, no século precedente.
O defensor da causa do Doutorado de Afonso apoiou, em
parte, sua argumentação sobre esta asserção, que desenvolveu
longamente: “Sanctus Alphonsus praecipuos errores in Syllabo
proscriptos refutavit, et ideo Doctor nostri aevi merito
compellandus est” – Santo Afonso refutou os principais erros
proscritos pelo Sílabo e, por isso, pode ser chamado, com razão, Doutor
da nossa época (Acta doctoratus, “Responsio ad Animadversiones”,
21-35) (cf. também, p. 46-70). Tal argumentação converteu-se em
“lugar comum” da apologética afonsiana. Foi usada,
frequentemente, nos elogios dos pontífices à figura de Santo
Afonso:
- Leão XIII, em 1879, ao agradecer, com o breve Licet universum, a
edição francesa dos escritos afonsianos, ressalta a intuição de
Afonso em adiantar-se no combate dos erros do século XIX e, de
modo especial, aqueles condenados pelo Sílabo;3
- Pio X, ao aceitar a dedicatória das obras dogmáticas de Afonso,
traduzidas ao latim por A. Walter, considera-as um “poderoso
antídoto contra os erros da época presente”.4

3
ASS 12 (1879) 273.
4
WALTER, A. Opera Dogmatica S. Alphonsi (Roma, 1903), Littera Pii X ad
interpretem.
Desse modo, a imagem de Afonso permaneceu ligada a um
momento histórico do catolicismo que, na verdade, não era o seu.
A tática utilizada pelos defensores de Afonso foi hábil e eficaz em
seu breve período histórico, mas “a longo prazo se revelaria um
cálculo equivocado”.5 Duas consequências justificam a afirmação
precedente: por um lado, quando o catolicismo adotar novas
orientações, de tipo realmente mais progressista, o prestígio de
Afonso sofrerá drástica diminuição; por outro, a imagem do
Afonso real permanecerá bastante escondida por baixo da que lhe
foi sobreposta no final do séc. XIX.6
A causa do Doutorado de Afonso, realizada na Sagrada
Congregação dos Ritos, não foi uma marcha triunfal. Teve seus
momentos de dificuldade. Uma delas foi quando a Congregação
remeteu as objeções do promotor da fé e as respostas do
advogado ao exame de dois teólogos: um deles deu parecer
completamente positivo, mas o outro expressou sérias dúvidas
sobre a conveniência de conceder o Doutorado a Afonso.7 Não são
conhecidos os nomes dos dois teólogos.8 A deliberação final da
Congregação dos Ritos, realizada em 11 de março de 1871,
apresentou resultado positivo. O Papa aprovou e tornou público o
decreto no dia 23 do mesmo mês de março9 (comunicou a decisão
à hierarquia católica do mundo inteiro através da carta apostólica
Qui Ecclesiae, de 7 de julho do mesmo ano10).

5
ORLANDI, G. La causa..., 66.
6
Essa “distorção” da imagem de Afonso foi destacada por: DE MAIO, R. S. Alfonso
e la cultura religiosa dell’Illuminismo: GIANNANTONIO, P. (ed.). Alfonso M. de
Liguori e la società civile del suo tempo (Florença, 1990) I, 106.
7
Tellería, II, 944-945.
8
Em uma crônica manuscrita da província redentorista belga (conservada no
Arquivo Geral da Congregação Redentorista em Roma), posterior aos fatos, há
a anotação de que foi um padre jesuíta o teólogo a emitir o voto negativo. No
entanto, tal afirmação é fruto, mais de especulação, que de informação séria:
ORLANDI, G. La causa..., 57-58.
9
Pius IX, Acta, V (Roma, 1871) 298.
10
Ibid., 336 = ASS 6 (1871) 320.
“Nesse decreto [de 11 de março de 1871] há uma frase que
despertou dúvidas. Parece que um professor de moral perguntou
à Sagrada Penitenciaria se, quando afirma que Afonso ‘inter
implexas theologorum sive laxiores sive rigidiores sententias
tutam stravisse viam’, deveria ser entendido a respeito do
equiprobabilismo, que então estaria sendo recomendado. A
resposta do cônego Ciccolini, substituto do secretário da
Congregação dos Ritos, declarou as dúvidas ‘fora de lugar’, visto
que a Sagrada Congregação não tinha querido entrar em
preferências de sistema”.11
De maior interesse histórico foram as dificuldades
levantadas pelo teólogo consultor. Tais dificuldades vieram,
basicamente, dos círculos teológicos romanos, agitados pela
intervenção do respeitado professor de Teologia Moral da
Universidade Gregoriana, Antônio Ballerini. Portanto, é
necessário conectar a causa do doutorado de Afonso com essas
tensões de natureza acadêmica. É o episódio que comentaremos
em seguida.

21.3.2 As “Reivindicações Afonsianas”.

A causa do Doutorado de Afonso está ligada ao confronto


entre os redentoristas e o moralista jesuíta Antônio Ballerini
(1805-1881), considerado o “princeps moralistarum” do século
XIX.12 Trata-se do “único caso, limitado e circunscrito em ambas as
partes, de divergência entre os discípulos de Santo Afonso e os de
Santo Inácio”.13

11
Tellería, 945, nota 52, remetendo a: MONDINO, S. Studio sul sistema morale di
Sant’Alfonso (Monza, 1911) 149.
12
HURTER, V, 1793-1794: “Moralistarum fere princeps hoc aeva exstitit
Antonius Ballerini”. Sobre Ballerini, cf. SOMMERVOGEL, I, 843-848.
13
MUCCI, G. In margine al centenario alfonsiano: La Civiltà Cattolica 138 (1987) IV,
141.
A obra principal de Ballerini foi o comentário a Busenbaum,
finalizado e editado por D. Palmieri: Opus theologicum morale in
Busenbaum medullam, 7 vols. (Prato, 1889-1893), obra que “será o
manual de Teologia Moral mais considerável do século XIX”.14
A. Ballerini teve duas intervenções, nas quais, além de
enquadrar o sistema moral de Afonso no probabilismo simples,
apontou algumas sombras (metodológicas e de conteúdo) na
Theologia Moralis. Tais foram: a aula inaugural do ano acadêmico
1863-1864 no Colégio Romano, onde era professor de Teologia
Moral;15 e as Anotações com as quais enriqueceu a 17ª edição do
Compêndio moral de J.-P. Gury.16
Os redentoristas tiveram a impressão de que tais
interpretações queriam privar Afonso de seu merecido prestígio,
levado ao cume desde a metade do século XIX. E, ainda mais,
“atribuíram ao autor o inconfessado propósito de querer reduzir
seu fundador ao papel subalterno de comentador de um jesuíta,
Busenbaum”.17 Da mesma forma, como pensavam que o promotor
da fé na causa do doutorado de Afonso havia utilizado as reservas
e críticas de Ballerini,18 pensando no mesmo autor, compuseram a
Responsio ad Animadversiones e o Summarium additionale.19
Mas o confronto não se resolveu com essa réplica. Os
autores redentoristas publicaram ainda as “Reinvidicações
14
CAFARRA, C. Historia (de la teología moral): VV. AA. Diccionario enciclopédico
de Teología Moral (Madri, 19783) 448.
15
De morali systemate S. Alphonsi Mariae de Ligorio dissertatio habita in Aula Maxima
Collegii Romani in solemni studiorum instauratione an. MDCCCLXIII (Roma, 1864).
A obra é dedicada à Congregação do Santíssimo Redentor.
16
Compendium theologiae moralis. Editio decima septima (Turim, 1866). Nas
primeiras edições (a 1ª é de 1850) Gury declarava explicitamente sua inspiração
e dependência da TM afonsiana. Sobre as edições do Compêndio de Gury, ver:
SOMMERVOGEL, III, 1856-1959.
17
ORLANDI, G. La causa per il dottorato di S. Alfonso. Preparazione-Svolgimento-
Ripercusione (1866-1871). In: SH 19 (1971), p. 29.
18
Acta doctoratus, “Animadversiones R. P. Promotoris Fidei”, 7-20.
19
Acta doctoratus, “Responsio ad Animadversiones”, 90-153; “Summarium
additionale”, 6-515.
Afonsianas” (Vindiciae alphonsianae), acrescentando novos
materiais aos já publicados nas Acta doctoratus.
As Reinvidicações Afonsianas,20 publicadas em meados de
1873, compunham “um magnífico volume de quase mil páginas,
sólido, documentado, esmagador em seu valor intrínseco e não no
recurso a palavras grosseiras, mesmo que, às vezes, partam da
aljava dardos aguçados. Em sua composição, haviam trabalhado,
sob a direção do septuagenário Pe. Smetana, os experientes
moralistas Haringer e Ulrich”.21
O vienense Rudolf von Smetana (1802-1871), após ficar
viúvo e ter resolvido o futuro da filha, entrou na Congregação do
Santíssimo Redentor em 1831. Desempenhou funções
importantes na Congregação. Foi o principal inspirador das
Vindiciae alphonsianae. Faleceu em Gars am Inn (Alemanha) em 2
de setembro de 1871.22
O bávaro Michael Haringer (1817-1887) entrou na
Congregação já como sacerdote, deu aulas aos teólogos
redentoristas e foi eleito consultor geral. Enquanto esteve em
Roma, foi consultor de várias Congregações romanas e nomeado
teólogo do Concílio Vaticano I. Faleceu em Roma, no dia 19 de abril
de 1887.23
O alsaciano Michael Ulrich (1834-1903) passou a maior
parte de sua vida em Roma, no serviço direto ao Padre Geral,
Nicolau Mauron (1818-1893), obtendo grande estima de muitos
membros da Cúria Romana. Faleceu em Attert (Bélgica), em 2 de
agosto de 1903.24
Provavelmente, também colaborou nas Vindiciae: o bávaro
Adam Pfab (1821-1906) que, como provincial da província

20
Vindiciae alphonsianae seu Doctoris Ecclesiae S. Alphonsi M. Ligorio doctrina moralis
vindicata. Roma, 1873.
21
Tellería, II, 947.
22
Boland, 366-367.
23
Boland, 154-155.
24
Boland, 396.
romana, residia na casa geral em Roma;25 e, o também bávaro,
João Batista Eichelsbacher (1820-1889), que serviu na cúria geral
de Roma desde 1864, onde faleceu em 8 de janeiro de 1889,26
depois de ter ajudado o Padre Gaudé na preparação da edição
crítica da Theologia Moralis afonsiana.27
A obra Vindiciae alphonsianae causou grande impacto nos
ambientes teológicos, suscitando comentários animados de
ambos os lados. Tanto que, no ano seguinte de sua publicação, foi
feita outra edição em dois volumes, nos quais foram
acrescentados novos elementos; entre eles, uma resposta à
publicação mencionada abaixo.
De fato, como era de se esperar, houve resposta do partido
balleriano, que chegou a publicar umas Vindiciae ballerinianae
(Bruges, 1873), obra do jesuíta belga Victor de Buck. Essa obra
“tratou principalmente de questões de natureza geral e teceu o
panegírico da pessoa de Ballerini, cujas virtudes religiosas
ninguém havia negado, e houve um esforço para manter seu
crédito como ‘príncipe entre os moralistas de sua época’ (Hurter,
Génicot)”.28
De sua parte, o padre redentorista Leonardo Gaudé, na
edição crítica do TM, não deixou de notar os erros de citação
contidos nas obras de Ballerini,29 justificando tal trabalho: “Cum
enim auctor iste, acris sane ingenii, plus justo proclivis videatur ad
aliorum errores carpendos, lectorem de hac insimulandi
temeritate commonitum volui, ne facile Ballerinio arguenti fidem
praebeat, neve illi affirmati aut neganti statim credat” - “Como esse
autor, de gênio certamente áspero, parece mais inclinado a apontar os
erros dos outros, quis alertar o leitor sobre a temeridade de suas

25
Boland, 288.
26
Boland, 121-122.
27
Tellería, II, 947, nota 58.
28
Tellería, II, 948.
29
Gaudé, I, p. XXX-XXXIX.
acusações. Isso, para que não dê facilmente crédito ao juízo de Ballerini,
e nem acredite imediatamente naquilo que ele afirma ou nega”.30 A
disputa atingiu notáveis graus de virulência, envolvendo autores
estranhos à Companhia de Jesus e à Congregação do Santíssimo
Redentor, e causando uma ruptura momentânea nas relações
amistosas, anteriores e posteriores, entre esses dois Institutos.
Falta um estudo completo sobre a história e o significado
dessa controvérsia. Levando em conta os dados descritivos dos
fatos,31 bem como os estudos sobre o significado teológico desses
fatos,32 é possível afirmar que o grande perdedor do confronto
apaixonado foi o próprio Afonso. Os escritos, tanto de tipo
defensivo, quanto críticos, forneceram escassa contribuição para
a pesquisa histórica e doutrinal da moral afonsiana. Pelo contrário,
a figura de Afonso como moralista saiu distorcida devido aos
exageros típicos de um confronto polêmico.33

21.3.3 Balanço.

Avaliada em seu conjunto, a produção literária sobre a


moral afonsiana, em conexão com os dois fatos comentados neste
capítulo, moveu-se em terrenos excessivamente apaixonados e foi
condicionada por interesses alheios ao exame objetivo da
doutrina. O resultado foi: aprisionamento da moral afonsiana em
um sistema de escola, dissociação das raízes sociobiográficas do

30
Gaudé, I, p. XXXIX.
31
Tellería, II, 943-944. 947-948; ORLANDI, G. La causa per il dottorato di S. Alfonso.
Preparazione-Svolgimento-Ripercusione (1866-1871). In: SH 19 (1971), p. 28-29.
61-63.
32
R. Gallagher examinou a controvérsia desde a perspectiva original e
interessante do “método moral de Afonso”: GALLAGHER, R. The moral method
of St. Alphonsus in the light of the “Vindiciae” Controversy: SH 45 (1997) 331-349.
33
Nesse sentido, ver a revisão da polêmica, feita por MUCCI, Giandomenico. In
margine al centenario alfonsiano. In: La Civiltà cattolica, 138 (1987) IV, p. 140-
148; esse jesuíta concorda com a avaliação realizada anteriormente por
ORLANDI, G. art. cit., 64: a polêmica foi “estéril no final das contas”.
séc. XVIII, certa fossilização como preço para a garantia da
ortodoxia oficial, e alistamento de Afonso nas tendências
conservadoras e restauracionistas.
Olhando com a distância de mais de um século, é possível
aceitar a avaliação de que “essa produção abundante, medíocre
como um todo, essencialmente polêmica e desprovida de
perspectiva histórica, constitui mais uma barreira entre o
pensamento do grande moralista e seus leitores de hoje”.34
Deve-se ter em mente que a disputa com Ballerini avivou a
questão sobre o sistema moral de Afonso. O sistema de Afonso:
era simples probabilismo, como sustentava Ballerini? Ou um
sistema próprio, o equiprobabilismo, como sustentavam os
redentoristas?
O leitor deve estar lembrado de que a questão do sistema
moral afonsiano – a chamada “questão liguoriana” – foi
largamente exposta na precedente 19ª seção.
Também nessa disputa, a ânsia em defender Afonso e o
desejo de ter um sistema próprio (uma “escola própria”), conduziu
a família liguoriana (redentoristas e não redentoristas) a uma
leitura da moral afonsiana que, se não contrária ao genuíno
pensamento do fundador, ao menos, era bastante distante dos
interesses de Afonso ao construir sua Theologia Moralis.
Essa leitura a-histórica e apologética também foi apoiada
por outros fatores não diretamente acadêmicos, como:
- A expansão da Congregação do Santíssimo Redentor. Expansão
ligada ao prestígio do fundador;35

34
GUERBER, J. Le ralliement du clergé français à la morale liguorienne (Roma, 1973)
9. Essa opinião é compartilhada por: ESCUDERO, J. La manualística ligoriana de
Teología Moral desde la canonización de San Alfonso hasta la proclamación como
Doctor de la Iglesia (1836-1871) (Roma, 1990) 94: “quem sabe, as disputas em
torno dos diversos ‘sistemas morais’ e, em particular, a controvérsia sobre o
‘sistema’ de Santo Afonso, tenham obscurecido o valor específico de sua
Teologia Moral”.
35
FERRERO, F. El primer centenario de la muerte de San Alfonso Maria de Ligorio
- A consolidação dos redentoristas como cultores da Teologia
Moral;36
- A vinculação entre a defesa da moral afonsiana e a defesa da
moral católica diante das injúrias e ataques provenientes de
ambientes não católicos.37
De tudo o que foi dito sobre as leituras da moral afonsiana
durante o século XIX, podem ser deduzidas algumas conclusões
importantes. A TM de Afonso penetrou, de tal modo, na
consciência eclesial, que alcançou a máxima aceitação a que um
texto teológico poderia aspirar. Tal aceitação foi efeito da atuação
fervorosa de pessoas e grupos identificados com o espírito de
Afonso: na primeira metade do século XIX, prevaleceu a
metodologia do trabalho fervoroso; na segunda metade, se firmou
a metodologia do trabalho apologético.
Sem a figura de Afonso, seria impossível explicar uma
importante página da história da Igreja, pois a vida eclesial foi
configurada em grande parte pela sua influência. Entretanto,
semelhante aceitação do espírito afonsiano condicionou
notavelmente a interpretação histórica de Afonso. Bastaria
recordar os aspectos conservadores que sua figura assumiu em
seguida, bem como a justificação extrínseca de seu valor científico

(1787-1887) en la Congregación del Santísimo Redentor. In: SH 32 (1984) 249-


314, destaca a “mentalidade apologética” na CSsR daquele momento: “Portanto,
não há nada de estranho na tendência de apresentar o Santo Doutor como
impugnador, por excelência, dos erros modernos... Santo Afonso era muito mais
apresentado como oposto ao moderno. A partir disso, passou-se facilmente à
apropriação de sua doutrina por parte de todos os que tendiam a se considerar
defensores exclusivos da tradição, da verdade e do passado. O dano que tudo
isso causou à figura do Santo é suficientemente conhecido para que insistamos
a respeito dele aqui” (p. 276-277).
36
Sobre o primeiro grupo de moralistas redentoristas, cf. De Meulemeester, III,
426-428; Tellería, II, 981-982; ORLANDI, G. La causa per il dottorato di S.
Alfonso. Preparazione - Svolgimento - Ripercusione (1866-1871). In: SH 19
(1971), p. 64, nota 212.
37
Cf. De Meulemeester, I, 42-45; III, 203-204 (publicações antiafonsianas);
Tellería, II, 991, nota 92.
e de sua ortodoxia doutrinal (pela santidade de vida e pelos
pronunciamentos oficiais da Igreja: beatificação, canonização,
doutorado).38
Mas, por outro lado, é preciso reconhecer que toda
glorificação tem sempre o seu preço e Afonso também teve que
pagar pela sua. Esse preço consistiu, fundamentalmente, no
obscurecimento de sua genuína imagem: em parte, o Afonso real,
do século XVIII, foi suplantado pelo Afonso do século XIX. Por isso,
compreende-se a insistência atual no redescobrimento da moral
afonsiana em seu próprio contexto.

21.3.4 Complemento bibliográfico.

Sobre a causa do doutorado afonsiano.

Estudos históricos.
- SAMPERS, A. Bestreben und erste Ansätze des hl. Alfons zum Kirchenlehrer
zu erklären kurz nach seiner Heiligsprechung, 1839-1844: SH 19 (1971)
5-24.
- Id., Le vicende della Causa di Dottorato di S. Alfonso M. de Liguori, 1830-
1871: R. Bellvederi (ed.), Miscellanea Card. Giuseppe Siri (Gênova,
1973) 215-231.
- ORLANDI, G. La causa per il dottorato di S. Alfonso. Preparazione –
Svolgimento – Ripercussioni (1866-1871): SH 19 (1971) 25-240.
- MAJORANO, S. Fattori e linee della diffusione della teologia morale di S.
Alfonso fino a la sua proclamazione a Dottore della Chiesa: ÁLVAREZ
VERDES, L.; MAJORANO, S. (ed.), Morale e Redenzione (Roma, 1983)
235-253.

Interpretações.

38
Em grande medida, Lanteri e Gousset apoiaram sobre o valor extrínseco sua
argumentação a favor da TM (cf. GUERBER, J. Le ralliement du clergé français a la
morale liguorienne. L’abbé Gousset et ses précurseurs (1785-1832). Roma, 1977, p.
119-122. 213-234).
- Studia Moralia 9 (1971): “S. Alfonsus Maria de Ligorio Doctor Ecclesiae
1871 – 1971”. Levar em conta, especialmente:
GARRONE, G. M. Card. “Saint Alphonse Docteur, mais quel docteur?”
p. 9-23.
- VEREECKE, L. Sens du doctorat de saint Alphonse de Liguori dans l’histoire
de la théologie morale: Id., De Guillaume d’Ockham à saint Alphonse de
Liguori (Roma, 1986) 567-594 = Studia Moralia 9 (1971) 25-57.
- DE ROSA, G. S. Alfonso e il secolo del Lumi: Rassegna di Teologia 28
(1987) 13-31.

Resumos informativos.
- SARABIA, R. [San Alfonso] El Doctor de la Iglesia: El Perpetuo Socorro 10
(1908) 372-377.
- GAMARRA, V. P. de. San Alfonso, Doctor de la Iglesia (1871-1921): El Per-
petuo Socorro 23 (1921) 93-95.
- ZABALZA, C. P. El Doctor moralista: Ibid., 330-337.
- ÁLVAREZ, A. El Doctor ascético: Ibid., 360-369.
- ESPRIT, J. Avances del doctor celosísimo: El Perpetuo Socorro 28 (1926)
327- 332.
- Id., Un tríptico de Doctores en la Santa Iglesia de Dios: El Perpetuo Socorro
29 (1927) 313-316.

Sobre a controvérsia das Vindiciae.

Dados históricos.
- Tellería, II, 943-944, 947-948.
- ORLANDI, G. La causa per il dottorato di S. Alfonso. Preparazione –
Svolgimento – Ripercussioni (1866-1871): SH 19 (1971) 28-30, 52-54.

Reflexão.
- MUCCI, G. In margine al centenario alfonsiano: La Civiltà Cattolica 138
(1987) IV, 140-148.
- GALLAGHER, R. The moral method of St. Alphonsus in the light of the
“Vindiciae” Controversy: SH 45 (1997) 331-349.
Os 36 Doutores da Igreja por ordem de proclamação.

1. São Gregório Magno


2. Santo Agostinho
3. Santo Ambrósio
4. São Jerónimo
5. São Tomás de Aquino
6. Santo Atanásio
7. São Basílio Magno
8. São Gregório Nazianzeno
9. São João Crisóstomo
10. São Boaventura
11. Santo Anselmo
12. Santo Isidoro de Sevilha
13. São Pedro Crisólogo
14. São Leão Magno
15. São Pedro Damião
16. São Bernardo de Claraval
17. Santo Hilário de Poitiers
18. Santo Afonso Maria de Liguori
19. São Francisco de Sales
20. São Cirilo de Alexandria
21. São Cirilo de Jerusalém
22. São João Damasceno
23. São Beda, o venerável
24. Santo Efrém, o sírio
25. São Pedro Canísio
26. São João da Cruz
27. São Roberto Belarmino
28. Santo Alberto Magno
29. Santo Antônio
30. São Lourenço de Bríndisi
31. Santa Teresa de Jesus (Ávila)
32. Santa Catarina da Sena
33. Santa Teresa do Menino Jesus (Lisieux)
34. São João de Ávila
35. Santa Hildegarda de Bingen
36. São Gregório de Narek.