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DEMO, Pedro. Introdução à Metodologia da Ciência. 2ª edição.

São Paulo: Atlas,


1987.

6.2. PRESSUPOSTOS INICIAIS


“(...). Na realidade histórica não há somente mudança; há também elementos que
sobrevivem às fases históricas, aos quais damos o nome, em geral, de estrutura.
p. 86: “(...) a dialética privilegia o fenômeno da transição histórica, que significa
a superação de uma fase por outra, predominando na outra mais o novo do que
repetições possíveis da fase anterior. Essa colocação é importante também porque aceita
a dialética como um forma de privilegiar certos fenômenos sobre outros (...).
A dialética está ligada ao fenômeno da contradição ou, em outros termos, do
conflito. Aceita que predomina na realidade o conflito sobre harmonias e consensos. E
mais: acha que as contradições não precisam provir de fora, exogenamente, mas de
dentro, como característica endógena. Contradição exógena é aquela imposta ou
superveniente de fora (...) uma inundação sobre uma cidade (...)”. (DEMO, 1987: 86).
p. 87: “A dialética acredita que a contradição mora dentro da realidade. Não é
defeito. É marca registrada. É isto que a faz um constante vir-a-ser, um processo
interminável, criativo e irrequieto. Ou seja, que a faz histórica.
Ser histórico é aquele que sofre história, ou seja, a mudança histórica como
processo natural: nasce, cresce, vive e morre. O exemplo do homem pode ser ilustrativo
(...).
(...) não existem somente contradições leves, superficiais, passageiras [na
realidade], mas também aquelas que não conseguimos solucionar, ou seja, de
profundidade tal que levam a formação social a se superar (...) porquanto é diverso
admitir conflitos sociais como elemento importante da realidade, como faz o sistemismo
também, mas considera-los solucionáveis e admiti-los igualmente como não
solucionáveis (...) há as metodologias que procuram ser dinâmicas dentro do sistema,
colocando como horizonte de superação o interior do sistema; de outro, a dialética que
aceita esse tipo de dinâmica, mas não dispensa aquela que explode o horizonte do
sistema, na transição para outro.
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Do ponto de vista da concepção da realidade, a alma da dialética é o conceito de
antítese. Tradicionalmente, apontam-se para os termos: tese, antítese e síntese. Na
verdade, a dialética baseia-se em dois termos – tese e antítese –, sendo a síntese
simplesmente a nova tese.
Tese significa qualquer formação social, vigente na história. Dizemos que toda
tese elabora sua antítese, porque possui endogenamente suas formas de contradição
histórica. Nesse sentido, antítese significa a convivência, dentro da tese, de
componentes conflituosos e que são ao mesmo tempo a face da dinâmica histórica. A
realidade é histórica porque é antitética. A dinâmica nutre-se dos conflitos que nela se
geram e acabam explodindo, ocasionando superação”. (DEMO, 1987: 87).
p. 88: “Existe uma forma de antítese menos radical, que expressa conflitos
menores, internos ao sistema, e por isso também solucionáveis dentro do sistema (...)
aceita como contornável e compatível com a institucionalização (...) para existir
persistência histórica, manutenção das instituições, possibilidade da socialização e da
convivência relativamente consensual, os problemas não podem ultrapassar certo limite,
a saber, não podem colocar em xeque a razão de ser do respectivo sistema.
Não é que a dialética não consiga captar a persistência temporal, por exemplo,
do capitalismo. As realidades não só mudam, persistem também. Não se há de negar
que o capitalismo, como qualquer fase histórica, contenha suas contradições. Nem
todas, porém, agem na direção da superação imediata. Embora seja uma história
problemática, como toda história, tem-se mantido até hoje, porque suas antíteses
apareceram sob forma menos radical.
A outra forma de antítese é a radical, aquela que determina a superação do
sistema, já que expressa um conflito tão profundo que não se soluciona sem superar o
sistema (...). Revolução significa a superação de um sistema e a entrada em outro, onde
predominem qualidades novas”. (DEMO, 1987: 88).
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p. 89: “(...) Unidade de contrários, pois, significa convivência numa mesma
totalidade, não exclusão pura e simples.
Um exemplo pode ilustrar. Dizemos que desenvolvimento e subdesenvolvimento
formam uma unidade de contrários, porque, em primeiro lugar, formam um todo só, ou
seja, não são dois pedaços contíguos ou duas coisas justapostas. Em segundo lugar, um
necessita do outro, ao mesmo tempo em que se repelem. Um necessita do outro, porque
faz parte de sua dinâmica própria histórica a exploração do subdesenvolvimento por
parte do desenvolvido; assim, não haveria desenvolvimento sem o subdesenvolvimento,
que é a base dos privilégios do outro. Mas se repelem, porque há entre eles conflito,
visto aqui sob a ótica da exploração.
Outro exemplo interessante é o fenômeno do poder. Visto em sua totalidade
dialética, não pode ser deduzido à postura dos dominantes. Poder de cima para baixo é
uma parte do fenômeno. A outra é dos dominados – no que é moeda de duas faces.
Entre os dois lados estabelece-se uma convivência de necessitação e repulsa. Que
caracteriza historicamente sua dinâmica própria. Há necessitação, porque não poder
existir quem mande, sem alguém que é mandado. Há repulsa, porque não se pode
camuflar a desigualdade entre um lado e outro.
Assim, o poder funda tanto a possibilidade histórica de manutenção da ordem,
quando visto sobretudo de cima para baixo, quanto a possiblidade de desestabilização
da ordem, quando visto de baixo para cima. São as duas faves da história: mantém-se,
enquanto se muda, e muda-se, enquanto se mantém” (DEMO, 1987: 89).
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6.3. DIALÉTICA E ESTRUTURA
p. 90: “Um dos problemas modernos da dialética é sua convivência com
estruturas na história, uma pedra colocada em seu caminho pelo estruturalismo. Trata-se
de uma objeção importante que pede reflexão por parte da dialética, mas é superável
com certa facilidade”.
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p. 91: “O que a dialética faz de diferente é captar as estruturas da dinâmica
social, não da estática. Não é, pois, um instrumental de resfriamento da história,
tornando-a mera repetição estanque de esquemas rígidos e já não reconhecendo
conteúdos variados e novos, mas um instrumental que exalta o dinamismo dos
conteúdos novos, mesmo que se reconheça não haver o novo total.
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(...). A dialética aqui proposta procura ser aberta, no sentido de que, partindo do
reconhecimento da tendência ocidental a certo determinismo científico, dispõe-se a
reduzi-lo ao mínimo possível (...)”.
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p. 92: “É constante fermentação, vir-a-ser, inquietação e criatividade. Não há
somente repetição, mas sobretudo inovação social. Toda persistência histórica é
periclitante e sempre inacabada. Não há formação final, porque já não estaria em
formação. Está em permanente gravidez. Embora parece contraditório imaginarmos
uma gravidez permanente, assim é constituída a realidade social, que, mesmo repetindo
estruturas indeléveis, o que mais repete é a constância da inovação”.
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O estruturalismo, como veremos, apaga a criatividade histórica e realça o
aspecto repetitivo. A dialética ressalta estruturas da criatividade histórica, o que
significa que a criatividade existe, mas que não se dá ao léu”.
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(...) o que a dialética pode fazer é explicar usos históricos de formas
matemáticas, ou seja, expressões fásicas de seu desenvolvimento como ciência,
possíveis ideologias coaguladas em suas estruturas de modo externo, tendências de usos
preferenciais dela, por exemplo, para fins bélicos e destrutivos.

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6.4. DIALÉTICA MARXISTA