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SOFOCLES
ANTiGONA
Introdugfio, versfio do grego e notas de

Maria Helena da Rocha Pereira

5.‘ cdigfio

FUNDACAO CALOUSTE GULBENKJAN


JUNTA NACIONAL DE INVESTIGACKO CIENTFFICA E TECNOLOGICA
PESSOAS DO DRAMA

AN'riGON.\
Ismmu
Com nos Auclios ma Tans
CREONTE
GUARDA
Htmou
Tmésms
Msusmmao
Euxlmca
SEGUNDO MENSAGEIRO (Mensageiro
dc dentro dc casa)

A cena represenra a frqntaria do paldcio real de Tebas.

37
(Antigone e Ismena saem do paldcio. E noire ainda.)

ANTic;0NA
Ismena, minha irmi, minha querida irmfi, p01’ vcntura
conheces na linhagcm dc Edipo algwn mal quc Zeus ainda nfio
fizesse cair sobre nés duas, sobte as nossas vidas 1? N50 hé
dor, nfio hi: desgraga 1, n50 hé. vergonha, nio hfi dcsonra quc cu
n50 tenha visto no mimero das minhas c tuas penas. E agora,
quc nova é essa que toda a cidade afirma, dcsse édito que 0 general
acaba de promulgar? Tu sabcs? Tu jé ouviste‘? Ou acaso
ign01'aS que a maldade dos nossos inimigos avanqa sobre aqueles 1
que nos sfio caros?

Ismsm.
Sobre os que nos sio caros, Antigona, ncm uma palavra
me chegou, nem doce nem dolorosa, desde que fomos privadas
dos nossos dois irmiios, que, num s6 dia, pereccram As mios
um do outro. Depois que, esta noite, 0 exército dos Argivos l
se p6s cm marcha, nada mais soube, nem dc bom, ncrn dc man.

ANTiGONA
Mas sci-0 cu, e pot isso tc mandei vir para fora do palécio,
a fim dc que s6 tu o ouvisscs.

Isusm
Que é? Pareces perturbada p01‘ alguma noticia. 20

39
Aurloom Amicows
Pois “E0 disfinguiu Crcomc, Ila Sfipllllllffl, um dos nossos Sim, a esse irmfio qua é men e ten, ainda que 0 nfio quciras.
iFm505. e dcsonrou o outro? A Etéocles, scgundo se diz I gm- N50 me acusarfio de 0 ter atraiooado 4.
tando-0 dc aoordo com a ]ll.Sll(}a e a lcz 3, ocultou-0 sob a tcrra,
dc uma manelra honrosa aos olhos dos mortos do além Quanta
no cadaver dc Polinioes, perecido miseravelmente, diz-sc que [swam
[01 Pfofilflmfldo aos cadadfios quc ninguém 0 recolhcsse num O desvairada, que to profbe Crcontc!
3¢P11|¢1'0, nem 0 lamentasse, mas sim quc o deixassc sem gcmidos,
por cnterrar, tesouro bem-vindo para as avcs dc rapina, quando
Aurioom
lé do alto esprcitam, em busca da alegria dc um rcpasto. Assim
8° °_°m3 ‘I11? 0 bom do Crconte mandou anunciar a ti c a mirn A clc niio Ihc é dado separar-me dos meus.
'_§""- 3 m"'“= dig‘) "1"-3 qufl hé-dc vir aqui proclamar cstas
dcczsocs claramente aos quc as nfio conhccerem c a prética Ismzru
S
dcssc acto nao a tcré por colsa dc pouca monta, mas qucm quer-
que 0 comcta mcorrc cm crime dc Iapidagzio pflblica ngsta ¢;idad¢_ Ai dc mim! Pensa, 6 minha irmfi, no nosso pai, como elc
pcreceu odioso c scnrgloria, ferindo os olhos por suas préprias
T315 55-° °5 factos, c cm breve mostrarés se tens cm-§¢g¢; Q“ mics, assim que descobriu os seus crimes 5. Depois, a mic
Sc da ma nobrcza fizestc vileza_
c csposa dcle—-qua dc arnbas tinha 0 nomc--destroi a sua
vida no Iago dc ulna corda 6. Em tcrceiro lugar, os nossos dois
ISM]-INA
irmios, num so dia, morreram is rnfios um do outro, cumprindo,
E que adianto cu, ncstas circunstfmcias, minha pobrc irmi, desgragados, urn destino fatal 7. E agora, qua s6 restamos nos
em atar ou dcsatar estc no? as duas, vé 1:51 dc qua mancira ainda pior acabaremos, se, contra
a lei, vamos transgrcdir 0 édito dos soberanos ou 0 seu poder.
Au-rioom Pclo contrério, é preciso vlembrarmo-nos dc quc nascemos para
scr rnulhcres, e nfio para combatcr com os homens; e, cm seguida,
Vé sc qucres coopcrar e actuar comigo. quc somos governadas pelos mais podcrosos, de modo que nos
submctemos a isso, e a coisas ainda mais dolorosas. Por isso
ISMENA cu rogo aos que cstfio dcbaixo da tcrra qua tcnham mcrcé, visto
qua sou constrangida, e obedeqo aos quc caminham na senda
Em que espécie do risco? Que estés a prcmeditar?
do poder. Acmar em vio é coisa que nfio faz sentido.
Aurioom (erguendo a mdo)
Amicom
Se junto com esta mfio vais lcvantar o cadévcr.
Nfio screi cu quem to ordcne, nem, ainda que 0 quiscsses
Isumur fazer, colaborarias comigo dc bom grade meu. Procede como
entendcres. A elc, en Ihc darei sepultura. Para mim, é bclo
Acaso pensas cm dar-lhe sepultura, quando isso esté interdito rnorrcr por cxecutar essc acto. Jazerei ao pé dele, sendo—lhe
A cidade? cara, COIIIO ele a mim, depois dc prevaricar, cumprindo um dcver

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sagrado--ja quc 6 mais longo 0 tempo em qhc ’ 1 agradar lsmsm.
aos que cstao no além do qua aos qua estfio aqua. E la quc Se ao mcnos tivcres essc podcr; mas desejas o impossivcl. 90
ficarei para semprc; e tu, se assim te parece, desonra aquilo quc
para os dcuscs é honroso.
Aurioom
Ismm. Pois bem: quando nio tiver forca, ccssarei.
Eu nao fapo nada quc nao scja honroso, mas sou incapaz
de actuar contra o poder da cidade. Ismam
Convém principiar por niio andar atras do irnpossivel.
ANTiGoNA
Podcs aprcsentar cssas desculpas, qua cu por mim vou erguer A Nrioom
mn tlimulo ao mcu irmfio tio querido. Se assim falarcs, seras ocliada por mim, e com razao scras
odiada pelo que morreu. Mas deixa-me, a mim e a minha
Ismzm loucura, a sofrcr cstc mal terrivcl. Eu, por mirn, nfio crew que
haja outro tfio grandc como morrcr sem honra.
Ai, dcsgraqada, como cu receio por ti!

lsmsm
Awrioom
Vai, sc assim te parcce. Mas fica sabendo qua, cmbora
N50 tcmas por mim. Assegura a tua vida.
sejas uma inscnsata cm ir, com razao scras amada pclos que te
afio caros 5.
Isumm.
Mas ao rnenos nio rcvclcs a ninguém esta accio; guarda-a (Antigona sai pela esquerda; Ismena entra no paicicio.
em segrcdo, que outro tanto farei cu. Emretamo, amanhece. O Caro, formada por quinze
ancifios dc Tebas, aparece na orquesrra.)
Aurioom
CORO estrofe I.’
Ail Dcmmcia-a! Scr~mc-as rnuito mais odjosa, se te
calarcs, do que sc a proclamares djante do todos. O raios do Sol, 6 luz mars bela 100
cm Tcbas das sate portas 9
Imam a rcsplandccer,
brilhastc enfim, o farol dourado
Conscrvas um animo esqucntado perante a fria realidade.
do dia, avancando
p'la corrcnte dirccia 1°, 105
ANTIGONA sobrc 0 Argivo 11, dc cscudo branco.
Mas sci quc agrado aquelcs a quem mais dcvo dar prazcr. com 0 frcio mordentc 11,

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prec'pmn?do'se Pam 8 fuga lo e Porn baquica f1'1ria" respira
cm carrmm ‘M02’ VL ovais do odio.
“MP9-"05 Porém, outra foi a sorte.
E16 a qucm Ponnices Aos mans dnstrrbulu seu destmo 15
' ' POT amargas ¢l11°$15¢$, =~ 0 forte e fogoso Ares. 14-0
sobre a uossa terra fez cair13,
soltando um grito estridente anapestos
*—taI aguia que se abate no solo
coberta com as asas brancas de ueve -, Contra as sete portas 0s sete sitiantes 19
carregado de armas c de elmos, deixaram a Zeus,
que crinas de cavalos enfeitaram. ; senhor dos troféus,
seus bronzeos tributes;
so aqnelcs dois malditos,
antistrofie I .° . .
Pousando sob" 0 H0580 palécio de um so par nascldos
abriu as goelas hiantes ’ ° dc “ma 56 mfie’ 145
para as sew bocas_ enrrstando as lanoas poderosas,
Pm-tin, Sam quc enchfisc, partilharam urna sorta fatal 1°.
com as I ancas sedentas de morte, andstrofe 2 G
de sangue nosso as fauces, '
ncm que as chamas dc Hefestos 1* arrasassem Mas desde que chegou sorridente
nossa coroa de torres. para a belicosa Tebas
Tal o fragor de Ares 15 indomito, ‘a Vitoria gloriosa, as guerras 150
na luta do dragao. de ha pouco esquecamos;
anapestos cm danqas nocturnas, vamos
dos deuses a todos 0s templos, e Baco 11
P055 Z°115. 0 que abominava a vaidade trementc dornine em Tebas.
dc urna lingua soberba,
ao vé-los atacar em torrents 1 anapeslos
. r _
“Om 5°bl'11"°¢11'0 dcsprezo Mas ai vem o rel desta terra, 155
no estridor do ouro, Creonte 32, filho dc Mencceu.
brandindo 0 raio dos deuses, por nova decisfio,
atira-o aquele "5 que ja ia, '- o soberano dc agora.
la do alto da meta, I Algum piano ele divisa,
proclamar a vitoria. ' pois dos anciios convocou a assemblcia, I60
pela voz do arauto a todos chamando.
estrofe 2.“
Com 3 tocha "3 11150 PT°°iPitfl-$¢ (Entra Creonte, em rraje real, acompanhado
sobre a terra que ressoa, de gua,.d,,_,._)

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Cmzoura ria, mas 5" 'eixaria insepulto, e que 0 seu corpo, dado a comer 205
-»v,-1= -= -
aos caes . .-s aves do rapina, se havia de tomar um espectaculo
Varoes, de novo os deuses restabeleceram a seguranca da vergonhoso.
nossa cidade, depois de a terem abalado com vagas alterosas 23. Tal é 0 meu pensamento, e, por mim, jamais os maus hfio-dc
Mandei-vos convocar para aqui, longe de todos, pclos meus ultrapassar os bons em honrarias. Porém, quem for propicio
emissarios, ciente dc que sempre honrastes 0 poderio do trono a esta cidade, morto ou vivo, recebera da minha parte honras 2
do Laio, e depois, quando Edipo dirigia a cidade 14, e em seguida iguais.
pcreceu, permanecestes leais aos filhos dc cada um deles, com um
-4_Z. ,.
animo constants. Mas ja que esses, por um duplo fado, aca- C0110
baram num so dia, batendo-se e ferindo-se, poluindo as suas
maos no proprio sangue, sou cu agora 0 detentor de todos os A ti apraz-te, Creonte, filho de Mcneccu, proccder desse
podcres do trono, devido a proximidade de parentesco com aqueles modo para com quem é desfavoravel e para com quem é pro-
que se finaram. picio a esta cidade. Em tuas maos esta a faculdadc de usar
E impossivel conheccr 0 espirito, pensamento e determi- das leis, quaisquer que sejam, quer para os mortos, quer para
naeao 25 de qualquer homem, antes de ole se ter exeroitado no
poder e nas leis 26. Eu, por mim, entendo que todo aquele
que, sendo supremo senhor de um Estado, nio se mantiver firme
l os que estamos vivos.

CREONTE
nas melhorcs decisocs, mas por medo entravar a sua lingua, é
e foi sempre um grande celerado. E quem qucr que tenha mais Sede vos os guardiocs destas ordens. 215
amor a outrem do que a sua propria patria, por essc nio tenho
a menor consideracfio. Pela minha parte -— saiba-0 Zeus, C0110
que sernpre vigia tudo — nio me calaria, se visse a ruina, em vez
da salvacao, a avanear sobrc os cidadaos, nem teria por amigo Encarrega disso alguém mais jovcm do que nos.
proprio um varao que quisesse mal a nossa terra. Sei bem
que é ela que nos mantém salvos e que, se navegarmos nela corn Caaours
direito rumo, podemos contrair amizades. Tais sfio as leis com
Os vigias do cadaver ja estio prontos.
que cu criarei a prosperidade deste Estado.
E agora acabo do proclamar aos cidadios um édito gémeo
destes principios, que diz respeito aos filhos dc Edipo: a Etéoclcs, Cono
que pereceu a combater por esta cidadc, praticando toda a espocie Que mais qucrias entfio recomendamros?
dc actos valorosos com a sua langa, dar-se-a sepultura num
tomulo e executar-sc-do todos aqueles ritos sagrados que chegam
Cmzormz
ao além, até aos mortos mais nobres; porém, quanto ao que era
do mesmo sangue que ele -—- rcfiro-me a Polinioes — ao que, Que nao vos junteis aos que desobedecem as minhas ordens.
de regresso do exflio, quis destruir pelo fogo, dc lés a lés, a terra
de sens pais e Os deuses da sua linhagem, quis saciar-se do sangue Cono
dos seus e leva-los cativos, -—- quanto a esse, proclamou-se nesta
cidade que nem seria sepultado, nem pessoa alguma 0 lamenta- Nao ha ninguém tao louco que deseje a morte. 220

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CRBONTE GUARDA
Pois sera esse o salario; mas muitas vezcs a esperanea do O perigo é a causa de tanta hesitacio.
ganho aniquila os homens.

F Entra 0 Guarda. J CREDNTE

GUARDA Acabaras finalmente por dizer, e por te ires embora, depois?

Mcu senhor, nae dirci que foi por causa da velocidade que
cheguei aqui sem folego, depois que pus em movimento os mcus
GUARDA
5 pés ligeiros. Na verdade, muitas foram as paragens que fiz Enfim, vou dizer-to. Ha pouoo ainda, alguém deu sepultura 245
para pensar, as voltas no caminho, quase a tornar atras. 0 meu ao cadaver e se retirou; espalhou sobre 0 corpo 0 po seco e fez-lhe
espirito dizia-me muitas coisas, falando-me assim: -—- Desgracado, as oferendas que sic devidas.
para que vais com tanta pressa onde a tua chegada seras cas-
tigado? Miseravel, entao tu paras outra vez? E se Creonte o
Z30 souber por outro, como deixaras de softer?--— Corn estas hesi- Caaowrs
1ޢ56s, frz carninho sem grande pressa, e assim uma pequena Que dizes? Quem dentre os hornens ousou cometer tal fcito?
disténcia se volveu cm grande. Por oltimo, enfim, prevaleceu
vir ter oontigo. E, se o que eu te contar nao valet nada 17,
GUARDA
235 mesmo assim vou dizer-to. Porque cu venho agarrado a esta
esperanca, de que nada mais sofrerei senao 0 que me estiver N50 sei. N50 havia la sinais de machado nem terra que a 250
destinado. enxada amontoasse. O solo, duro e seco, nao estava sulcado
pelo peso dc rodas; quem quer que tivesse sido o autor da obra,
nao deixara vestigios. Quando a primeira sentinela no-lo mostra,
CREONTE ja la cstava aquele prodigio embaracoso para todos nos. O cada-
ver estava invisivel, niio enterrado contudo, mas tinha por cima 255
Que m0tiv0 tens para essa inquietacao? uma camada fina de ipo, como de alguém que a pusesse para
fugir a uma maldic;ao19. Nfio havia vestigios da passagem de
qualquer animal selvagem ou de caes, nem tinha aspccto de ter
GUARDA
sido dilacerado. Entrech0cavam~se palavras desagradéveis entre
Primeiro quero falar-te do que me diz respeito: nao fui eu nos; cada guarda acusava 0 outro. E teria havido pancada, 260
240 quem praticou essa accao, nem sci quem fosse. E nao ha razfio se nao aparecesse quem 0 impedisse. Cada um dc nos podia
para eu cair em desgraca. ser 0 autor, mas nenhum o era manifestamente, antes se esqui-
vava a reconhecé-lo. Estavamos prontos a Ievantar ferros em
brasa com as mios, e a atravessar as charnas 3°, a jurar pelos 265
Cnrosrra deuses que nem tlnhamos praticado aquela aocao, nem foramos
cfimplices de quem a dcliberara e a executara. Por fim, como
Nio ha dfivida que atiras bem e fazes boa defesa em volta nao havia vantagem alguma em indagar, fala um qualqucr, que
do caso 13. Mas é manifesto que tens algo dc novo para contar. a todos forca a baixar a eabeca, de medo, pois nfio sablamos que 270

48 49
4
haviamos dc the rcplicar, nem que fazcr para sermos hem succ- para V65, a.v'¢:s que, suspensos com vidfl, 3°1a1'°i5 est‘: ‘mm-1°’
3
didos. O que ele dissc foi que era precise revel: 0 facto, para que 1 .1tu1-0 fiqucis a saber cxtrair 0 ganhp dcindc ct];
c 1150 manté-lo oculto. Prevalcceu esta opinifio, e cu sou 0 - ~ ar ucro
dcvc obtcr~8¢, ¢ 3Pl'¢"da1$ q\1° "30 5° dc” qua“ Ur uh
dcsvcnturado que a sortc escolheu para receber ta] bcneficio. ~ ' ' osas
toda e qualqucr ongem. Por causa_ dc aql1l51€5°5 "M30 _
Aqui cstou eu contra vontadc, perante quem a nz-'10 tem boa para é que sc vécm muitos mais na desgriwfl d° Q11‘? 113 PY°5P°“dad°‘
mim, bem 0 sci, pois ninguém gosta dc qucm anuncia mas noticias.
GUARDA
C0110
- ' ' hora 3
Concedes-me que drga alguma C0153, on devo II’ cm
Senhor, ha muito que 0 meu espirito pondera, se acaso este sem mais?
feito n50 seré obra dos deuses.
Caaorfln
CREONTE
N50 sabcs como ainda 3801'“ as was Palawas mg mcomodam?
Cpssa, antes que as tuas palavras me cncham dc célera,
para que nio sejas ao mcsmo tempo insensato e vclho. Pois GUARDA
nio sc pode suportar que tu digas que as divindadcs possam ter
S50 Us mus ouvidos on a tua alma que elas afectam?
cuidados com cssc cadaver. Acaso 0 cobriram por havercm
especialmentc como seu benfeitor aquclc que vinha para lancar
fogo aos templos rodcados dc colunas, as ofcrcndas votivas c ao Cnsounz
ten-itério que doles era, e para dcrrubar as leis? Ou jé vista - 0. coi-
Para que quercs dcfimr bcm dondc vem 0 rnw ab If
05 deuses a prcstar honrarias aos maus? N50! Mas é que
jzi antes havia homens deste pais que, tolerando mal as minhas mento?
ordcns, se agitavam contra mim, meneando a cabega, e nfio
conscrvavam a cerviz sob 0 jugo, como dcviam, respeitando-me. GUARDA
Sci bem que cstcs foram subomados pelos salérios daquelcs,
O feito afligc-te 0 cspirito, os ouvidos sou cu que os perturb0-
para praticar cstc acto. Entre os mortais néio germinou ainda
instituigfio tio perversa como 0 dinheiro. E ele quem destréi
Cneormz
cidades, ele que arranca os homens do seu lar; ele que ensina c
alicia um carzicter honesto a cometcr ac<;6es vergonhosas. Mos- Oh! Que trcmendo 32 falador tu mc saistc!
trou aos humanos como praticar vilczas c dcu-lhes oonhecimento
dc toda a espécie dc impicdadc. Porém todos os que se vendem
Gumm
acabam por conseguir esta vantagem —cedo ou tarde terao dc
pagar a sua pena. Sgja como for,, o certo é que nio sou en 0 autor desse feito.
Mas jé que Zeus é ainda senhor da minha veneragao, fica
sabendo bem, 6 sob juramento que to afirmo: se nao enoontrardes >
CREONTE
0 préprio homem cuja mfio fez essa scpultura, c nfio mo apro-
scntardes diante dos meus olhos, 0 Hades 31 nio scré suficicntc E 0 que é mais, arriscando a tua vida por dmhclro.
51
$0
GUARDA a 4' Q marinha, apanha-as e p1-ends-as 35
_ _ _ I o ungenho do homem. V
A1! Trcmendo é que quando alguém acalenta suspcltas, 1 DOS animais do mome, que no mato .
alas scjam falsas! ‘ habitam' com 31-te 5|; apodcra;
domina 0 cavalo
Cnsourz dc longas crinas, 0 jugo lhe P59,
* vencc 0 touro indomével das aituras.
Anda, enfeita as tuas sentengas. Mas, sc nfio me mostrardes
os que praticaram aquela acgzziio, concluireis que os lucros sor- estrofe 2.“
didos so causam desgraqas. A fala e 0 alado pensamento.
as normas que reglllam as cidades
(Creonte enrra no paldcio.) sozinho aprcndeu;
GUARDA da geada do céu, da chuva inclcmflnlfl
e sem reffigio, os dardos evita,
Bern, antes de mais nada, que ele aparcqa! Quer ele scja ‘\ dc tudo capaz.
apanhado ou n50 — e isso é a sorte que ha-dc decidi-lo —nao A0 Hades somcnte
teras maneira dc me vcrcs aqui outra vez. Pois ainda agora é niio podc escapar 36.
hem contra a minha cxpcctativa c as minhas suposiqdcs que saio De doengas invcnciveis os meios
daqui a salvo, pclo que dou aos deuses muitas graqas. dc escapar ja com outros medlt0\1-

(O Guarda sai pela esquerda. ,1 ammrofe 2'“


Da sua arte o engcnho Sublil
COR0 estrafe 1.“ ‘ p’ra além do que se espera, ora 0 16%
- , . ._ .
Murtos pl'0dlg10S ha, porém nenhurn
* ao bem ora ao mal;
Se da téfla pram 3-, as his 6 dos dens“
manor do que 0 homem 33.
. ' sti a faz fé ande é a cidadc;
Essa, c0’0 sopro mvcrnoso do Noto 34, M“ -In ‘F ’ gl-
| mas logo a pcrde '
passando entre as vagas 1 I audécia income no can
fundas como abismos, quem P: I
. - cu at
o cmzcnto mar ultrapassou. E a terra . Longs 0_m for‘
. . . s1 .
lmortal, dos deuses a mans subhme, O que as m, cums
trabalha-a sem fim, E longe 6St€]8, tdos I meus
-me Pemam
erpen-M1
uc a cn -
volvcndo 0 arado, ano apos ano, 0 homcm q p
com a raoa dos cavalos laborando.
(Entra 0 Guarda, acompafl/111170 PW’ /4""'8'°"a')
anlistrofe 1.“ 0 _ anapesms
E das avcs as tribos descuidadas, He sito a0 olhar o Portcnto d:v|n0,
a ra<;a das fcras, mas, sc cu sci, como neg"
cm cfincavas redcs que esta jovem é Antigona?

52
Do desgraeado Edipo, 6 filha, GUARDA
que aconteceu? Ahl N50 te trouxcrar
porque as régias leis infringisses Era cla que estava a scpultar 0 varao. Ficaste 8.30"‘ *1
e por lOuca te prcndessem?
I
saber tudo.

GUARDA CREONTE

Aqui esta a autora do feito. Apanhzimo-la no acto dc dar Acaso estas a oompreender e a exprimir correctamentc 0
sepultura. Mas onde se encontra Creonte? que queres dizer?
2
1'§
(Cre0m‘e sai do palécio com os seus guardas.) GUARDA
?
!

Coao Vi-a, sim, a dar sepultura ao cadaver que tu pr0ib1$1¢- 405


i
i E agora, falei claro e cornpreensivel?
|
Ei-lo que volta a sair de casa. Chega na devida altura.

CREONTE
CREONTE
E como que 6 que foi _vista c apanhada ncsse atto?
Que ha]? Por que motivo é oportlma a minha vinda?

Gumos
Gumzm p
O caso foi assim: quando chegimfis, $01‘! aquela-5 was am°a9as
Senhor, aos mortais nao é licito garantir que seja impossivel terriveis, retiréunos todo o p6 que cobria 0 Cfldiivfif, d¢$I111d3f1d°
ooisa alguma. E que a reflexfio torna falso 0 prévio julgarnento. hem 0 corpo em decomposigio. Sentamo-nos no alto da colma.
Pois eu havia do jurar que levava tempo a que tornassc aqui, contra 0 vento, para evitarmos que o sen odor nos atmglssc;
devido as tuas ameagas, que entfio me atormcntavam. Mas cada homem estava alerta, esporeando os outros com os pengos
surgiu-me esta alegria acima e para além dc toda a esperanea, clamorosos, se algum descurasse aquela tarefa. Assnn estW6-
dc um tamanho que nao se pode meclir com qualqucr outro prazer. mos algum tempo, até que o dlsco fulgente do Sol atmgm o sen
E venho, apcsar dc ter feito solenes juramentos em contrario, ! lugar no meio do céu, e 0 calor escaldava. Entfio, 4° 5"b1t°»
trazer-te esta donzela, que foi detida quando arranjava a sepultura. urn torvelinho levantou do solo uma tempestade <16 pO6il"3, Kg-
Aqui ja nio houvc baralhar dc sortes, porque esta foi uma des» mento da atmosfera, que atulhou a planura, mallrfllfl11(¥0 K0 3
ooberta minha, e de mais ninguém. E agora, 6 principe, toma a folhagem das arvores da fioresta, 6 °"°h¢nd° 0 at Imenso‘
oonta dela tu mesmo, julga-a e interroga-a £1 tua vontade, que cu De olhos fechados, enfrentamos aqtlfilfl 1338619 d°5 d°“s°5'
tenho jus a ficar livrc c forro destes maleficiosr E quando, ao fim de mujto tempo, ele acabou, vé-se a donzela,
que solta um gemido amargurado, um som agudo dc ave que
CREONTE olhasse para o ninho vazio, orffio dos seus filhos. Assim ela-
ao avistar 0 cadaver desnudado, rompeu em gemid0$,_ 1a1'lQ*;nd°
Ondc a aprisio naste, para a trazeres desta maneira? impr¢¢a;;5¢g {gm-[vais sobre quem executara aquele fetto. me-

54 55
430 diatamentc leva nas maos 0 po sedento, e, erguendo 0 vaso dc |
os homens E cu entendi que os_ teus éditos nio tinham tal
b"°"Z° 1a"Yad°, P1'¢$tfl hénras ao cadaver cor-. na triplice podcr, qn. 11 mortal pudesse sobrelcvar os preceitos, nao escri-
Iibagfio 33. A0 ver isto, precipitamo-nos e logo a capturamos, tos, mas imutaveis dos deuses. Porque esses nao sio de agora,
sem que ela so assuste. Acusarno-la das acgoes passadas e nem de ontem, mas vigoram sempre, e ninguém sabe quando
435 prcsentes; nao negou coisa alguma, com prazer e pena minha, 4 surgiram. Por causa das tuas leis, nao queria eu ser castigada
ao mcsmo tempo. P01-que isto de uma pessoa escapar de uma I
=\ perante os deuses, por ter tcmido a. decisio de um homem. Eu
calamielade é 0 mclhor que ha; mas é penoso levar A rulna aqueles
ja sabia que havia de morrcr um dia —- como havia de ignoré-lo ‘I-,
440 que se estlmam. Porém, tudo isto vale menos para mim do que mcsmo que nao tivesses proclamado essc édito. E, se morrer
a minha propria salvaeao.
antes do tempo, direi que isso é uma vantagem. Quem vive
no meio de tantas calamidades, como eu, como nfio ha-de consi-
derar a morte um beneficio? E assim, é dor que nada vale
CREONTB (l’¢"'m-'1d0"-Ye Pam A""'8'0"'-'1, que esrd de cabepa baixa)
tocar-me cste destino. Se cu sofresse que 0 cadaver do filho
E N1, K11 que voltas o rosto para 0 chfio, afirmas on negas 0 morto cla minha mac ficasse insepulto, doer-me-ia 39. Isto,
teu acto? ll
porém, 1150 me causa dor. E se agora te parecer que cometi
I
tun acto dc loucura, talvez louco seja aquele que como tal me
Amioom condena.

Ammo q\1¢ 0 Dfatiqufli, B nfio nego que 0 fizcsse. C0110

CREONTE (v0ltand0—se para 0 Guarda) E hem claro. Indémita é a descendéncia, de indomito pai
nascida 4°. N50 aprendeu a curvar-se perante a desgraqa.
445 Tu ja estas livre de uma pesada acusagfio; podes if para
Ondc ql"$‘=‘1'¢5- (0 Guarda retira-se. Creonte volta-se para CREDNTE
A"'f’80"")- E 118°“ U1 diZ'"1¢, sem demora, em poucas palavras:
“bias Q1"? f°1'a Proclamado um édito que proibia tal aceao? Mas fica sabendo que os esplritos demasiado obstinados
sac os que mais depressa sucumbern, e 0 mais solido ferro, levado
ANTlGONA ao rubro e endurecido pelo fogo, 6 frequents vé-10 partir-se e
reduzir-se a bocados. Sci bern que com um pequeno freio Se
Sabia. Como nao havia de sabé-lo? Era pfiblico. subjugam os cavalos fogosos. E nfio costuma ter pensarnentos
altivos qucm é cscravo daqueles que lhe estao proximos. Esta
CREONTE soubc bem ser insolente, quando tripudiou sobre as leis esta-
belecidas. E depois dc feito isso, oornetc nova insoléncia, van-
E ousaste, entao, tripudiar sobre estas leis? gloriando-se da sua acgio e rindo dc a ter praticado. Porém
6 ela que sera um homem e n50 eu, se Ihe deixo esta vitoria impu-
Aurioom nementc. Pode cla ser nossa sobrinha on mais proxima dc nos
pelo sangue do que qualquer outro dos que vivem no meu lar 41.
450 E que essas nao foi Zeus que as promulgou, nem a Justiea, Ela, e a que 6 da mesma origem 41, nfio escapario A pior das
que coabita com os deuses infernais, estabeleceu tais leis para sortes. Porque tarnbém a essa en acuso dc ter premeditado

$6
S7
I
\
l
igualmente 0 entcrro. (Para um dos seas guard." ' Chamai-a, ANTlGONA
porque eu vi-a ha pouco la dentro em delirio, 5.... dominar a Nfio 6 oprébrio prestar honras aos que nasceram das mesmas
razao. E que a alma daqueles que tramaram 0 ma] na sombra entranhas.
acusa-os do crime antecipadarnente. Mas 0 que mais abomino
é que quem foi apanhado em flagrante delito, ainda por cirna se
vanglorie disso. Caaonra
Com que entfio nao era do mcsmo sangue 0 que morreu
Aurioom no earnpo adverso?

Intentas algo mais do que prender-me para me matar?


Aurioom
CREONTE Do mcsmo sangue, e filho da mesrna mic e do mcsmo pai.

Eu n50. Com isso me dou por satisfeito.


Cnsoure
Amioom. Nesse easo, como podes prestar-lhe um tributo impio aos
olhos do outro?
Entio porque hesitas? Assim como das mas palavms nao
me vem nenhum deleite, nem podera jamais vir, assim tarnbém
0 meu parecer te 6 desagradavel por naturcza. E, contudo, Aurioom
onde podia eu granjear fama mais ilustre do que dando sepul-
N50 sera esse 0 testemunho do falecido.
tura ao meu proprio irmio? Todos os que aqui estao diriam
l
também como aprovam este acto, se 0 medo lhes nao travasse l
a lingua. Mas é que a realeza, entre muitos outros privilégios, Cmzoma
goza o dc fazer e dizer 0 que lhe apraz.
Mas Sim, ja que o honras do mcsmo rnodo que no impio

CREONTE
Aurioom
Dos ftlhos do Cadmo 43, és a {mica a encarar os factos dessa
N50 foi um escravo que morreu; foi um irmio.
maneira.

Casoura
Anrioom
Que ia assaltar esta tetra; o outro tomou armas por ela
Estes também 44, mas refreiam a boea ua tua presenoa.

CREONTE
Aurioom
Hades descja. contudo, que o ritual seja 0 mesmo.
E tu nao tens vergonha cle pensares de maneira diversa?
59
58
Cneoura terem o me" trono, anda, diz—me la se também afirmas a parte
que tomasts _;St3. sepultura ou se juras niio ter tido conhecimento?
Mas ao honesto nfio compete o mcsmo que ao 1'n3lv3dQ_

Ismma
Aurioom
Eu pratiquei esse acto, tal como ela 45; colaborci e participo
Quem sabe se debaixo da terra isso nao 6 exacto. e aguento a acusaeio.

CREONTE Anrioom
Porém nio to permitira a justiqa, pois nem quiseste, nem cu
O inimigo jamais se tornara amigo, nem mcsmo depois dc
te dei parte nele.
morto.

Isuem V
ANTlGONA
Mas eu nao me envergonho de navegar contigo neste mar de
N50 nasei para odiar, mas sim para amar. calarnidades.

CREONTH Amioom
De quem 6 essa obra, sio testemunhas 0 Hades e os que estflo
Agora que vais la para baixo, ama-os, se amar se devem;
debaixo da terra. E cu nio prezo quem me ama so em palavras.
mas, enquanto eu viver, nae seré uma mulher quem da ordens.

ismsm.
(Ismena aparece d porra do paldcio, acompanhada por
dois escravos.) N50 me impeeas, irmfi, dc morrer contigo e de purificar o
que morreu.

C0110
anapestos Arrrioona
Eis Ismena diante do palacio, N50 queiras partilhar a minha morte nem fagas teu aquilo
irmi querida, em lagrimas banhada;
cm que n50 tocastc. Para morrer, basto cu.
sobre a fronte uma nuvem the escurece
0 rosto em fogo e molha a linda face.
lsuam.
CREONTE E que me importa a vida, se tu me deixares?

E tu, que andavas a envenenar-me sem cu 0 saber, tal como


Arrrioom
uma vibora que se insinuasse na minha casa, sem que eu me
apercebesse dc que estava a alimentar duas maldieoes para subver- Pergunta-o a Creonte, jé que com ele te preocupas.

60 61
lsmam Cnsoms
550 Porquc me torturas assim? De que tc serve 1-.:u\).? Estas unangas, uma jé hé pouco me pareccu insensata, a
outra foi-0 dcsdc que nasceu.
ANTRSONA
Sc escarnego dc ti, é com dor que 0 faqo. ISMENA
Perante as calamidadcs, 6 rci, 0 senso que era inato I150
ISMENA permanece, mas afasta -se.
E agora, ao menos, em que posso ajudar-te?
CREONTE
A .
NTIGONA De ti pelo menos, quando optaste por praticar o mal 565
Salva-tc a ti mesma; néo te invejo a fuga. COD’) OS p05S€$SOS.

Iswam. Ismsm
Desgragada dc mim, entio ser-me-2': negado 0 teu destino? Como posse eu viver sozinha, sem ela?

Auricom CREONTE
5 5 ' .. .
5 Tu escolhcstc ‘mar’ e en’ men“ N50 fales dela, porquc cla }B nfio existe.

I
SMENA ISMENA
MRS 11110 sem que cu tc dlssesse 0 que pensava. Entfio tu vais matar a noiva do teu préprio filho?

Amicom ' C
I REONTE
. l
Para cstes es tu que pcnsas bcm; para aqueles, julgo scr cu. 1
» Hé outros campos para lavrar, dc outras mulheres.
Ismem.
ISMENA
Entio 0 nosso crro 6 equivalents.
' Mas niio com a harmonia em que ele c ela se encontravam. 570
Amioom
CREONTE
Esté tranquila: tu tens vida, ao passe que a mjnha acabou
560 hé muito, para scrvir os que morreram. Aborreqo as mulhcres perversas para os mans filhos.

62 63
Amicom
dr 1 sobre a raw.
Hémon carissimo, como 0 ten pai tc injuria 45! Como quando acontece
que 0 abismo sombrio.
pelo sopro adverso
Cmzours da Tricia irnpclido,
Por dcmais me aborrcccs, tu e as tuas mipcias. passa sobre as vagas,
do pélago marinho,
do fundo rola areia
Cone negra, e gemcm as margcns,
pelo vcnto ululante
Mas entfio tu vais privar dcla 0 teu préprio filho‘?
fustigadas dc frcnte.

antlstrofe I.“
CREONTE
Da casa dos Labdécidas 49
E 0 Hades quem me intcrrompe estes esponsais. as velhas maldiqbes
cu vejo acumular-sc,
C0110 umas sobrc as outras.
Nem uma geragiio
Esté decidido ao que parece, que cla morra. a outra livra, antes
algum dens a derruba,
Cancun; sem remissio. Agora,
uma luz que brilhava
Por ti c por mim. N50 haja detcnga. (Para os dois escro- nas raizes extremas
vos). Levem-nas para dentro, escravos. A partir destc memento, do palécio cle Edipo 5°,
{Em dc scr mulhercs, cm vcz dc andarcm livrcmcntc 47. Até dos deuses infernais
os valcntcs procuram fugir, quando avistam 0 Hades a rondar 0 cutclo sangrcnto,
a sua vida. a dcméncia do vcrbo.
a loucura da Erinia
(Antigona e Ismena emram no paldcio, escoltadas dc novo a cxtinguc 51.
pelos dois escravos.)

C0110 estrafe Z.“

estmfe Lu O tcu podcr, 6 Zeus, n50 hé arrojo humano


Fcliz quem passa a vida que possa transgredi-lo. /
sem provar a dcsgra<;a 45. N50 0 subleva 0 sono, que todos persegue 53,
Aquclcs a qucm os deuses nem dos deuses 0s mcses
as casas abalaram, indefcssos. Es scnhor do brilho fulgente do Olimpo,
nfio hi ma] que lhcs falte; sem que cs anos to impcqam.‘

64 65
5
E doravantc e dc futuro, como outrora, Cruzorrrs
esla Io: prevalcce:
na vida dos mortais nio entra a gtandeza Assim 6, mcu fiiho, que tu dcvcs ter a pcito fazor -—- colocar 640
I
sem trazcr a dcsgraga. a opinifio paterna acima dc tudo. Por isso 0s homens fazem
votos por gcrar c ter em suas casas filhos obcdicntes, que so dcfen-
antisrrofe 2.“ dam dos inimigos com 0 mal c que honrem os amigos do mcsmo
Para multos e vantagem a cspcranoa crrantc, modo que 0 pai, Porém quem cria filhos que 0 nfio ajudam, 645
Para outros desengano que outra coisa poderai dimer-sc dole, senao que arranjou tra-
dc loucos dcsejos. O homcm nada sabe balhos para si e motivos de escairnio para os scus inimigos?
sem queimar os sens pés Por isso, men filho, nfio sacudas 0 jugo da razao por causa do
no fogo ardente. Era szibio qucm dcscobriu prazer oom uma mulher, cicntc dc que so tornam frigidos os amplc- 650
0 famoso provérbio: xos, quando a companheira dc leito que so tem em casa 6 per-
parccer bem 0 que é ma], é so 3 quem versa. E que ferida maior pods havcr que scr pcrvcrsa aqucla
0 dcus lcva s l'1Lina_ a' qucm arnamos? Despréza-a, deixa-a ir desposar alguém no
Pouco seré 0 tempo que ele passarj Hades, como inimiga, que é. Em toda a cidadc, foi a eia so 655
lsento dc dcsgraqa. que cu apanhci em acto dc flagrante dcsobediéncia. N50 me
farei passar por mentiroso pcrante 0 pais. Antes a vou matar.
£l'JIGp€.§"l0J' Sobrc iskto, ela bem podc invocar 0 dens da consanguinidade.
Mas eis que chega Hémon, dos tcus filhos Porquc na vcrdade, se cu cducar os mens parentcs por nasci-
0 flltimo rcbento, mcnto a sercm desordeiros, mais ainda 0 serfio os de fora. E que 660
aflito com a sorte dc Antigona, qucm for firrnc com os da sua casa, parcceré justo tarnbém na
a promctida esposa 53. cidadc 54. De um homcm assim, confio que scra um dia bom 668
0 logro temendo dos CSp0nsai$_ govcrnantc e consentiré. em obedecer, e, colocado no meio dc 669
uma tempcstadc dc lanqas, permaneccré. um oombatentc justo 670-1
F Entra Hémon. ) c corajoso. Mas aquele-que transgredir c violar as ieis ou pense 663
mandar nos qua dctém 0 poder, esse 115.0 aicanqara clogios da 664-5
CREONTE
minha partc. Niio; aquelc a qucrn a cidadc clegcu, for<;a_é que 666
ad. .ELn breve 0 sabcremos, e por forma mans
. scgura do que pcla 0 cscutexn em questoes dc pouca mornta, nas justas como nas 667
IVIII a9_a’° , (Pam Hem“)
' - contrarias. N50 ha calamidadc maior do que a anarquia. E ela
Fllho, 80880 estas aqur- para atacar
F’ $611 PHI; sem prostates ouvidos ao deoreto fixado acerca <13 que pcrde os Estados, que deita por tetra as casas, que romp:
"-3 Il.0lVfl- Ou cstnnas-nos sempre, em [QdQ5 05 1105505 actos-3 as filas das lanoas aliadas. E aquelcs que scguem caminho 675
dircito, 6 a obediéncia que salva a vida a maior parte das vezcs.
Dcste modo se dcvern conservar as dcterminaqocs, c dc forma
HEMON alguma deixa~!as aniquilar por uma mulhcr. Mais vale, quando
é prcciso, scr derrubado por um homcm, do que sermos ap0da- 680
_ P°“°"9°‘t°» 111°" Pai E I11. que tens nobres pensamcntos, dos dc mais fracos que muihcrcs.
rcgulas os mcus para cu os scguir. Na verdade, nfio hé. causa-
mcmo algum Q"? me Pal'¢¢a 5l1P¢rior a ser por ti oricntado.

6‘ 61
mais aquck. homcm que por natureza é_mais dotado de saber
C0110 em ¢ud@- porém, assim nao for —po1s 6 costume a balan<;fl
A nos se nos afigura, so é que a idade nos nao ialude, que te nao se "inclinar para este lado-—é belo aprendcr 410111 aqua“
exprimes sensatamente sobre este assunto.
que falam aoertadamentc.

C0110
Héwlon
Senhor, se ele dissertou corn propriedadfl, 6 Ilflmffll q“° t_“
Meu pai, de quantos bcns os deuses outorgaram aos homens, aprendas com ele, e tu, Hémon, com teu P31» PM "13 V81» P015
0 raciocinio é 0 mais excelente. Ncm eu poderia nem saberia dc ambas as partes se dlsseram palavras sensatas.
afirmar que niio tens razao do falar assim. Contudo, também
podc ocorrer por outra via um pensamento aproveitavei 55. Ora
Cmsowrn
tu nfio estés em condiooes de vigiar quanto dizem ou fazem ou
tém a censurar, porque 0 teu aspecto é terrivcl para 0 homern do Com que entao devo" aprender a ter senso nesla idade, e
povo 56, ante aquele género dc palavras que te 1150 apraz ouvir. com um homem de tao poucos anos?
Mas a mirn é-me dado escutar na sombra como a cidade lamenta
essarapariga, porque, depois dc ter praticado acooes tio gloriosas, Hémow
vai pereoer dc tal maneira, ela, que, dc todas as mulheres, era quem
menos 0 merecia. Ela, que n50 consentiu que 0 sou proprio innao Nada aprcnderias que nae fossc ju510- E, 56 fill 5°‘1j°~"em~
cafdo em combats ficasse insepulto, e fosse destruido pelos cfies nfio sao 05 anos, mas as acobes, que C1-1mPY° exarmnan
vorazes ou por alguma ave de rapina. N50 é ela digna dc reoeber
honras gloriosas? Tais sao os murmfirios obscures que em Cneoms
siléncio se difundem. Para mim, 6 meu pai, nao hé. bem mais <<As aoqoes» consistem entao em honrar os des0rd¢1r0$?
precioso do que a tua feliciclade. Pois que gléria maior pode
haver para os filhos do que a prosperidade do pai, ou para 0
pai do que a dos filhos? N50 tenhas pois um so modo dc ver: I-Iémon ~
nem s6 0 que tu dizes esté certo, e o resto nao. Porque quem Nem aos out:-os eu mandaria ter re8P°lt° P°1°5 P¢“'°1'5°5-
julga que é 0 fmioo que pensa bem, ou que tem uma lingua on
um cspirito como mais ninguém, esse, quando posto a nu, vé-se
CREONTE
que é oco. Mas nao é vergonha que um homem, ainda que
seja sabio, aprenda Inuita coisa, e I150 distenda demasiado a E entfio ela nao foi atacada por es$€ mfll?
corda. Bem vés que, nas ton-entes invernais, quando as érvores
cedem, os ramos se salvam: quem oferece resisténcia, perde~se Hémou
com as proprias raizes. Do mcsmo modo, quem distendcr com
forqa a cordagem da nan e nfio ceder em nada, ha-de ficar vol- N50 é isso que afirma 0 povo unido dc T6bB$-
tado para baixo, e navegar para scmpre com os bancos dos
relnadores virados ao contrario. Mas domina a tua célera, CREONTB
modifica 0 teu animo. Se, portanto, cu posso, apesar de mais . '2
E a cidade é que V211 prescrever-me 0 que dev0 Ordfiflaf
novo, apresentar uma opiniao boa, direi certamente que vale
C9
Hfimm Hfmon

Vés? Falas como se fosses uma crianoa. N50 respeito por ele quando calcas as honras devidas 745
aos deuses.
CREONTE
1
E portanto a outro, e n50 a mim, que compete governar
CREONTE
este pais? O carficter vil! Vales menos que urna mulhef.
\

\
Hémon P
Hfiuon
N50 ha Estado algum que seja pertenoa de um so homem. Bem sabes que nio me acharas ftaco P°""“° ° “"“l'

CREONTE
Cnsoms
Acaso nao se deve entender que 0 Estado é dc quem manda?
Pelo menos a ma argumentaeio era toda a favor £1613 so -
I-{snow
Hfiuon
Mandarias muilo bem sozinho nurna terra que fosse deserta.
E dc ti e de mim, e dos deuses infernais.
Casoms
CREONTE
Este é um aliado da mulher, ao que parece.
A ela, nfio ha possibilidade dc a desposares ainda em vida. 750
Hémou
Hémon
Se acaso tu és mulher, pois contigo me preocupo.
Ela morre, mas ao morrer,- causara a perda de alguém.

Cnsorma
Cnsowrn
Ah! Grands malvado! que entras em questao com 0 teu pai!
Qué? A tua arrogfincia chega até as ameaqas?

HEMQN
HEMON
E que te vejo falhar no cumprimento da justica.
Em que oonsistem as ameacas dc falar contra senteneas ocas 51?
Cnaorms
Caeonra
E crro entao ter rcspcito pelo meu soberano poder? Com lggrimas ganharas scnso, m que és oco de razfio.

70
71
n ALAIIUA1 C1u~:0:~ms
Sc nfio fosses men pai, diria que 1150 estava ser scnsaw Nio .» _,uc nio lhc tocou. Dizes bem, rcafmcntc.

CREONTE
C0110
Tu» ‘Z1116 65 ¢$¢ffi‘/0 dc uma mulhcr, néo estejas com blandicias E dc que maneira delibcras maté-la?

Hémou
Cnsozma
Queres falar, e, depois, nfio ter que 0uvir_
Levi-la-ei para ondc 0 caminho cstivcr deseno dc pcgadas
Cnsoura humanas, e oculté-la-ci viva numa caverna escavada na rocha,
dando-lhe dc alimento s6 0 necessfirio para fugir ao sacrilégio, 775
Sim? Pois, pclo Olimpo, fica sabendo que nio me ultra- a fun dc que a cidade cvite qualquer contaminagfio 55. E ai,
iflfis com as tuas censuras impunemente. (Para as guardas) se ela pedir ao Hades —- fiuico dos deuses que venera -, talvcz
Tfagam essa abjecta criatura, para que morra imcdiatamgnte lhc seja concedido 1150 morrer, on ficaré finalmentc a saber,
chants dos olhos do noivo, c ao Iado dele. embora tarde, que prcstar culto a esse dcus é trabalho cscusado. 780

(Sai Creonre 59. )


HEMQN
N50 dc mim, com certcza, nio o julgues jamais; nem 1:13
C0110
P¢f¢¢¢Té P¢fl0 dfi Imm, nem dc m0d0 algum avistarés o mcu estrofe I ."
rf)sto, vcndo-0 oom os tcus olhos. De forma que serés Iouoo, Eros invencfvel no combatc,
Sim, mas na companhla dos amigos que 0 quei1-am, Eros que as riquezas destrdis,
que estés dc vigilia As faces tenras
(Sai Hémon.)
C0110 da donzcla, _
vagueias sabre 0 mar e nos campos! 735
Senhor, 0 homcm partiu na vertigcm da célcra; naquela N50 tc evitou nenhum dos deuses
1dade 0 finimo é violento, quando sente a dor. nem dos humanos dc curta vida:
quem te possui 790
CREONTE enlouqucce.
Qllfi Vii ¢1'I1bOrfl e que faca on prcmcdite maiorcs enormidadcs antlsrrofe 2.“
d0 que qualquer homem; mas as duas raparigas, 1150 as livyal-3
Tu desvias dos justos o finimo,
do scu dcstino.
fé.-los injustos para 0 scu mal,
tu, que excitaste csta oontenda
C0110 nos parcntes;
Pcnsas entéo cm mandar matar a ambag? vcncc, porém, da formosa noiva 795

'73
72
a luz brilhantc do scu olhar 5°, \ nas por ti 64,
das grandcs leis par no podcr; ri-se 6|, G -. viva entrc os rnortos,
iI1\'¢I1¢iV¢1, ao Hades dcscerés.
Afrodite.

(Antigona mi do paldcio, escolmda por guardas.) ANTMONA’


antisrrofe 2.‘
anapestos Hfi muito cu ouvi que a filha dc Tfintalo 55,
M35 39 V61‘ i510, a frigia estrangeira, no» monte Sipilo, 325
’té cu sou lcvado p'ra fora das leis, teve morte horrivel,
das iégfimfls I150 posso a torrents deter, quando a pedra, crcsccndo, a venceu,
quando vejo do télamo a todos oomum como a hora agarrada; e agora
Antigona nfio a deixa nunca a chuva ou a neve, 830
aproximar-se. 1 —-é fama cntrc os homens -—-,
consome-sc; 0 os olhos, sem cessar,
é 0 peito lhc humedeccm.
ANTRFONA \ Em sorte igual me cnvolve 0 dcstino.
estrofe 2.“ 1
Véde vés, cidadios do meu pais 62, f
como cu pcrconro 0 frltimo caminho, I CORO
como do Sol contemplo 5 “"”P"~""‘
a luz derradeira, para nunca mais. Mas essa era deusa, dc deuses filha;
O Hades, que todos recebe, is margens c nés, mortais, dc mortais dcscendemos. 835
do Aqueronte 63 me lcva com vida, E belo scré que, depois dc morta,
sem que do himencu tu sejas famosa,
ouvisse os cinticos, nem me entoassem porque igualaste dos deuses a sorte 6°.
0 hino nupcial. na vida e na morte.
S6 de Aqueronte serei csposa.

Aurisom
C0110 esrrofe 3."
anapestos Ai dc mim, como me escarneccm!
Bust” C ‘$055113 d° °1°8i°$, Peios deuses da nossa tetra,
te afastas p’ra 0 caminho dos mortos, porque nio me insultas dcpois dc cu partir, 840
5°!“ que a d°¢I1<}fl ifi f¢l'iSS¢, mas na minha presenga?
wnsumindo-re. 011! rninha cidadc!
mm Q11“ 1° cmlbessc das ¢$PBdii5 Oh! da minha cidade varbes p0d¢r0S05I
° salérioi Ai Fontes Dirccias 6"

"'4 15
e dc Tcbas dos belos carros
recinto sagrado! E I .ois dc morto
O vosso testemunho invoco ainda assim, a 1.. _.1 me matastc,
como sem légrimas amigas quando ainda vivial
e sob que leis
vou p'ra cave tumular C0110
dc cstranho scpulcro.
A picdade 6 digna dc respeito,
Ai dc mim, desgragada,
mas 0 poder, p’ra quem o detém,
que nem com os homens \
nz-'10 deve jamais ser transgredido.
1
nem com os cadéveres 1
Dc teu finirno a teimosia tc pcrdeu. S75 |
cu vou habitar 5*!
11

ANTiGONA epodo
C0110
Sem légrimas, sem amigos,
Do arrojo avangando ’té 0 extrcmo limits,
sem himencu, desgraqada,
contra 0 trono excclso da Justiqa,
pelo caminho que me cspera
cmbateram, 6 filha, teus passes 69.
sou levada.
Dos antcpassados algurna falta expias_
Da Iuz o disco sagrado
1150 posso mais, infcliz, 880
oonternplar.
Amfcom
A minha sorte, sem pranto,
anllstrofe 3.“ amigo algum a. Iamenta.
Tocaste no mais doloroso
dc meu desgosto: p’lo rneu pai,
(Creonte, com 05 seus guardas, sai do paldcio.)
por todo 0 dcstino dos ilustres Labdécidas
0 triplice lamcnto 7°.
CREONTE
A1 das maldigocs
do Icito materno c uniiio dc mcu pai Sabeis, sem drivida, que, se houvcsse utilidade em entoar
dc infeliz mic cantos e gemidos antes dc morrcr, ninguém so calaria nunca?
com quem a si mcsmo geraral Porque tardam a levé-la? Enccrrem-na num tfimulo abobadado, 88
De que pais nasci como cu disse, c depois deixem-na so e isolada, quer ela descjc
cu, desgraqada! P’ra junto doles cu vou, morrer on viva emparedada cm tal reduto. Nos estamos puros
inupta, amaldigoada, pelo que toca a esta donzela, pois nfio ficaré. privada da habi- 8
cu que aqui estou, taqzlio dos dc czi dc cima.
ser a sua oompanhcira.
Ail (5 rneu irmiio,
ANT!GONA
umas nfipcias fatais
foste celcbrar 71! Q mcu tdmulo e meu tzilamo nupcial, 6 lar cavado na rocha
que me guardarés prisioneira para sempre! Para ai avanoo
76
1'7
ao cncontro dos meus, de que Perséfone 71 race‘ ‘u jé 0 maior CREONT‘
nfimero entrc os mortos; dentre eles, restava em muito a
mais perversa; a caminho ja vou, antes que se tivesse cumprido Haveré para os que a levam,
0 destino da minha vida. Espero, porém, confiadamente, que, tfio lentos, queixas que sobrem.
ao chegar, serei bem-vinda para 0 meu pai, e querida para ti,
minha mfie, e cara a ti, mcu irmio, pois, quando morrcstes, cu, Aurloonn
peias minhas proprias mics, vos lavci e adornei, e derramei sobre
0 tomulo as libaooes. E agora, Polinioes, por ter dado sepul- Ai dc mim! Que essas palavras
jé tocam na morte.
tura ao teu corpo, obtenho esta recompensa.
[E contudo, eu soube bem honrar-te, aos olhos dos que
pensam hem. Pois nem que cu fosse uma mire com filhos, nem CREONTE.
que tivesse um marido que apodrecesse morto, cu teria empreen-
N50 te exorto a que tenhas confianqa
dido estes trabalhos contra 0 podcr da cidade. Mas em atengfio -
que 0 tcu destino se cumpra doutra feiqao. 1
a que principio 6 que eu digo isto? Se me morresse 0 esposo,
outro haveria, e teria um filho de outro homem, sc houvesse
perdido um. Mas estando pai e mic ocultos no Hades, nao Awfloow A
poderzi germinar outro irmfio. Por eu ter preferido honrar-te, O cidadc patcrna,
devido a este principio, é que eu apareci aos olhos dc Creonte do solo do Tebas,
como culpada e ousada, o meu caro irmfio! E agora ele tem-me o deuses ancestrais,
nas suas mzios, e leva-me, privada dc télarno, privada do himcneu, levam-me, jo 1150 aguardo mais.
sem me terem tocado em sorte os esponsais nem a criagio de Véde, o principes de Tebas,
filhos, mas vai esta infeliz, abandonada pelos amigos, ainda 1 eu, que da casa real
viva, para os sepulcros dos mortos.]73 Qua! foi a lei divina sozinha restava,
que cu transgredi? Porquc hei-dc eu, ai dc mim, oihar ainda 0 que sofro da parte de tais homens,
1
para os deuses? Quem invocarei para me valer, ja que por porque 1 picdade prestara culto.
usar de piedade fiqnei possuida dc impiedade?
Mas se esta pena é beta aos olhos dos deuses, so depois dc (Os guardas Ievam Antlgona 74.)
a termos sofrido poderemos reconhecer que emimos. Se, porém,
sic eles que en-am, que eles nio sofram maiores males do que C0110
aqueles a que me forqaram, fora da lei. estrofe I.“
Também de Danae 75 sofreu 0 corpo
trocar a Iuz do céu por bronzeo aposenlo;
e em talamo sepulcral foi sulijugada.
C0110 Nobre era, porém, sua linhagem,
0110p6I I0.!
ai filha, minha filha!
Dos ventos as mesmas rajadas os rebentos dc Zeus, da chnva de o1.u'0 filhos,
lhc dominam 'inda a alma. deu A luz. Terrivel 6 essa forqa
do destino chamada 76.

78
79
A ela n50 podcm fugir nem a riqueza, .ontava a sua raga,
nem Ares, nem torres ou os negros navk .m cavernas distantes,
batidos pclo mar. em meio das pétrias tempestades
do Boreas 34 se criara, veloz 985
antistrofe 1. ' como um cavalo, nos altos montes,
essa filha dos deuses. Mas as velhas Parcas 35
E dc Driante 0 filho impctuoso '7,
venccram-na, o filha.
0 rei dos Edones, foi também subjugado
por sna fiiria contundentc e metido
por Dioniso em pétrea prisio; (Entra 0 adivinho Tirésias, guiado por um rapaz.)
assim passou a l'1'1ria
TIRESIAS
horrivel e a colera possante. Esse
so conheoeu o deus quando cm dellrio, Principes de Tebas, fizemos camjnho juntos, sendo de nos
com palavras cortantes, dois um so 0 que vé, pois a maneira do andar dos oegos 6 ter 990
0 atacou. Pois a ffiria das mulheres alguém que os guie.
e 0 fogo sagrado buscara impedir,
e as Musas sonoras 79. CRBONTE

esrrofe 2. ‘ Que ha do novo, o velho Tirésias?


E junto das Rochas Negras 79,
nas éguas dos dois mares, Tméstas
ficam as margens do Bosforo, Eu te ensinarei, e tu obedece. ao profeta.
e Salmidessos da Tracia 3°,
onde Ares, seu vizinho 3I,
viu a ferida maldita, CREONTE
por essa esposa selvagem Dos tens conselhosi 1150 me afastei até agora.
de Fineu cegar os filhos ambos 33,
fazendo nas orbitas dos olhos
trevas que so clamam por vinganoa, TIRESIAS
co’as 111505 sangrentas c a ponta da lanoadeira Por isso guiavas por cammho direito a nau do Estado 56.
os dilaoerarido.

CREONTE
antistrofe 2.‘
Penando choravam, tristes, Apreciei a tua ajuda e disso posso dar tcstemunho. 995
o scu triste sofrimento,
esses filhos de uma mic Tmésms
de funestos esponsais.
Aos anocstrais Erectidas 53 Pensa que estas agora no game da espada do destino.
CREONTE Cnaomn
Que ha? Como eu tremo pcrantc as mas palavras! O anciao, todos vos sois como archeiros que atiram para
este homem como para um alvo, e a vossa arte de adivinhar niio
1035
l me deixou incolume. A IHCI1 (15553 Efime 91 jé "15 Vendeu 6 exp°_r'_
T|111és1As tou ha muito, como uma mercadoria. Tirai lucros, negocial
com o fimbar de Sardes, se quiserdes, c o ouro da India, due a
Sabé-lo-as, escutando as indicacoes da minha arte. Diri- 1040
ele nio o ocultareis num scpulcro, nem mesmo q\1¢ as 5811135 dc
gindo-me eu para 0 lugar vetusto donde se observam os pas-
1000 saros 57, onde eu tinha o porto de abrigo de todos os seres alados,
Zeus quisessem leva-lo como sua presa, arrebatando-o para 0
oiqo um som das aves desconhecido, oieo-as a gritar com ffiria
trono do dens. Nern mcsmo temendo isso como um m<_JiW0
(1,; pQ]ui<;50, eu 0 entregarei £1 sepultura. Porque cu bem sei que
penosa c vozcs barbaras. Percebi que se dilaceravam umas as 1045
nenhum hornem tem o poder de manchar os deuses. E caem
outras com as garras, de uma maneira sangrenta; o barulho das
dc uma maneira vergonhosa, o velho Tirésias, mcsmo aquelcs
asas nao era, na verdade, desprovido dc significado. Imediata-
1005 mente, cheio de temor, cxperimentei os sacrificios do fogo, em
dentre os mortais que sao mais sabios, quando dizem com arte
palavras baixas, com a mira na 8aI151\°i3-
altares todos em chamas 58; e dentre as brasas 1150 brilhou
I-Iefestos 89, mas sobre as cinzas os humores potridos das coxas
das vitirnas exsudaram, fumegaram c crepitaram, o fel espa- TIRESIAS
010 lhava-se nos ares e as coxas gotejantes desnudavam-sc da gor-
Ai! Por ventura ha algum homfim que saiba» 318"?" que
dura que as ocultava. Esvaira-se a minha possibilidade de
pense...
adivinhaoio daqueles ritos que nio davam sinais. Tal foi o
que eu soube por este rapaz, oraculos que falhavam, porque os
rituais nio davam sinal 90, pois ele é 0 meu guia, como eu 0 CRBONTE
I015 sou para os outros. E esta a enfermidade que o teu conselho Q1167 Que verdade é essa oomum a todos os homens?
causa ao Estado: é que os nosso altares e braseiros todos estfio
poluidos pelas aves e cies que comeram do infeliz filho de Edipo,
T111Es1As
020 que jaz no sitio onde caiu. E depois os deuses n50 aceitam da
l 050
nossa parte as soplicas que acompanham os sacrificios, nem a Quanto mais vale prudéncia do que riqueza?
chama das oferendas, nem as aves soltam gritos de bom augiuio,
pois devoraram a gordura do sangue de um homem morto. CREONTE
Reflecte pois nisto, meu filho. Errar é comum a todos os
025 homens. Mas quando errou, nfio é imprudente nem desgraeado Tanto, penso cu, quanto maior for 0 prejuizo da i115¢115fll¢Z-
aquele que, depois de ter caido no mal, lhe do remédio e nao per-
manece obstinado. A teimosia mereoe o nome de estupidez. Anda,
030 cede diante do morto e 1150 batas num cadaver. Qua] é a valen-
l Tinésms
E dessa docnqa que estas afectado.
tia dc matar de novo quem ja morreu? Por pensar no teu bem
é que eu falo. Nada mais agradavel do que atender quem fala
por bem, se é vantajoso 0 que diz.
CREONTE
N50 quero dar uma resposta rude ao adivinho.

82 83
Cnsorm
TI.RéS1hS
Fica a saber que n50 ncgociarés corn as minhas resolucbes.
E, contudo, jé cstés a fazé-lo, quando asscvcras que cu
profetizo falsidades.
TIRESLAS

CREONTB Convence-tc bem que dc jé. nfio verfis curnprirem-sc muitas


revoluqoes sucessivas do Sol, antes dc teres dado alguém, saido 1065
I055 Gananciosa é toda a ra<;a dos adivinhos. das tuas préprias entranhas —- um cadéver em troca de outros —,
cm paga dc teres arrcmessado lé. para baixo quem era ainda cé.
Tlnésus dc cima, c dc com desprezo teres encerrado num tfimulo tuna
v'ida, e dc conservarcs aqui um cadfivcr que é pertenga dos 1070
E, por sua vez, a dos tiranos gosta dos lucros dcsonestos. deuses infernais, sem a sua parte dc oferendas, sem rituais, sem
purificagoes. Nelcs niio tens tn parte, nem os deuses celestcs,
Cnaoura mas a tua conduta é uma violéncia. Por esse motivo, as E1-I-'
nias 93 do Hades e dos deuses, essas poténcias de destrui(;50' I075
Acaso sabcs que eslés a proferir oensuras contra quem csté apds 0 crime, cstfio dc cmboscada, £1 cspcra. dc que sejas apanhado
no poder? pelos mesmos males que eles. Considcra também se cu digo
isto por suborno: nio dcmoraré muito tempo que surjam no
Tmésms teu palécio gcmidos dc homens e do muihcres 94. Todas as I080
cidades se agitam agressivas, as daqueles cujos restos dilacerados
Sci, pois graqas a mim é que salvastc csta cidade. rccebcram os rituais filncbrcs dos cfies on das feras ou dc quais-
quer aves aladas, lcvando 0 cheiro irnpuro para a pétria dos seus
Cruzounz lures 95.
Como um archeiro, atirei com ira, pois me afligiste, cstas 1085
Es um adivinho szibio, mas que gosta da injustiqa. setas firmes da alma, a cujo ardor 1150 podcrés cscapar.
(Para o rapaz.} O filho, leva-nos a casa, a fim dc que eslc
Tmésurs homem abrande a sua exaltagfio contra os mais jovens, c aprenda
a conservar a lingua mais tranquila c 0 cspirito mais alevantado 1090
060 Vais incitar-me a revelar urn segrcdo que devia deixar intacto na sua alma, do que agora traz.
na minha alma.
(Sai Tirérias, guiado pelo rapaz.}
CREONTE
C0110
Toca-Ihc; somente nio falcs com a mira no lucro.
0 homcm partiu, senhor, depois dc ter profctizado coisas
terriveis. E nés sabemos, dcsdc que cste nosso cabelo, dc negro,
'I‘m1'~:s1As so volveu em branco, que jamais ele disse falsidades que acontc-
cessem ao pais.
Com que entéo, pelo tcu lado, é isso que te parece 92'?

84
Cmsorrna Eu, ¢d¢ que o meu parecer sc modificou neste scntido, .
assim c1 ~ a prcndi também irci junto dcla para a Iibertar.
1095 Também cu 0 rcoonhcqo, e a‘minha alma sté agitada. f , ’
, R€CCIO que 0 melhor seja observar as leis cstabclecidas até a0
Cedar é tcrrivel, mas, sc ofcrcgo resisléncia, a minha fmiria pode. _
1 terrno da vida.
cmbater na rcdc da Desgraga 96. 1
(Creonte sai cam as seus guardas.)
C0110 ~
ertrofe I
E preciso usar dc prudéncia, 6 filho dc Mencccu. CORD
O tu que tens muitos nomes 97, 1115
CREONTE gléria da filha. de Caclmo 93,
raga dc Zeus tonitruantc,
Que devo entao fazcr? Explica-tc, que cu obcdcco. ;
tu que a inclita Itélia 99
proteges, e tens cura
C0110 dos vales hospitaleiros
I100 Vai dar ordem para trazer a donzela da mansao subterranca, E de Deméter E1°"$i"ia‘°°’ 1120
ergue um t1in'1lLlO équele que jaz por tcrra. ail *5 deus B3°°!
Tu, que em Tebas habitas,
Caaoms 1 das Bacantes1°1 a metrépolc,
junta da torrcnte hfimida
E é isso que tu aprovas? E oonvcnicnte cedar? = do Ismeno 191 c por cima
. donde esta a scrnente
COP-0 * do dragéo fero 1'13! 1125
Sim, e 0 mais dcprcssa possivei, scnhor, porquc os flagelos antistrofe 1.?
dos deuses, com pés veiozes, vim atalhar 0 caminho aos maldosos.
Sobre a rocha dc dois cumes
CREONTE os fumegantes brandfies 1°‘
te tém visto, onde andam
H05 A1 dc mun! E a custo que 0 faqo, mas abandono 0 mcu as ¢O;i¢ia5, bagantgs
proposito para ccder. N50 se dcvc combatcr contra 0 destino. Nint-as, C 3 Fome Cast3|ia1os_ I130
Das montanhas dc Nisa W6
C0110 os pendores cheios dc hera
Vai entfio fazé~lo, e nao dclcgucs em outrem. S50 mu 0011630’
c as vcrdes margens cobertas
CREONTE dc vinhedos,fl‘quando 0 grito
dc palavras imortais W7 I135
Irei jé, assim como cstou. Ide, ide, servos, os presentes c soltam de—-—Ev0é! l°5—
I110 os ausentcs, tomai nas maos 05 machados e prccipizai-vos para porquc as ruas dc Tcbas
0 lugar que ali védes. vais visitar.

36 8'7
1
ly O C0110
Dentre todas as -cidades 8! ofe 2'
é esta a que mais honras, E que ,-sado fardo para os reis é esse, que tu vens ammciar?
com tua mac l'u1minadal°°.
1140 E agora, MBNSAGERO
que uma afeccao violenta
lhe ataca todo 0 povo, Morreram — e os vivos sfio dessa morte culpados.
vem com passo que nos cure
pela encosta do Pamasso C0110
ll 45 on p’lo cstreito marulhante 11°.
E quem é 0 assassino? Quem 6 a vitima? D11.
antistrofe 2.“
0 tu que reges a danca
MENSAGEIRO
dos astros ignispirantes,
senhor das vozes da noite 111! Hémon pereceu. Sangra por obra dc uma mio ¢111° 115° 5 H75
Aparece, estranha.
S0 6 filho de Zeus, meu principe,
com a ma comitiva C0110
do Tiades 113, que em delirio
danqam a noite inteira Do pai ou da sua familia‘!
por Iac0113, 0 seu senhor!
(Entra 0 Mensageiro.) Msnsaorzmo
Mrsusaosmo Ele a si mcsmo, irado com oicrime do Pai-
55 C3 vos que habitais junto do palécio dc Cadmo e de Anfion 114,
nfio ha situaeiio na vida humana que eu de algum modo preze C0110
ou deprecie, como coisa fixa. Pois que a fomma dirige e a
O adivinho, como as tuas palavras se cumpriram exacta-
fortuna faz balangar sempre a felicidade e a infelicidade. E nin-
‘ meme !
60 guém pode ser profeta sobrc a humana condicfio. Outrora,
Creonte era digno dc inveja, a meu ver, pois tinha salvo dos
inimigos este pais dc Cadmo e, depois dc ter assumido 0 poder MENSAGEIRO
finico e total desta tetra, governava-a, prosperando na descen- As coisas sic assim, e sobre clas ha que deliberar.
65 déncia nobre de seus filhos. E agora tudo se lhe foi. Pois,
quando os prazeres do homem 0 abandonaram, acho que ele (Eufldice sai do paldcid.)
ja n50 esta vivo, apenas lraz um cadaver animado. Suponhamos, C0110
se quiserem, que se é muito abastado em casa e se vive a maneira
70 dc um rei: se a isso se retirar a alegria, 0 que resta cu nao 0 com- Eis que vejo perto a desgraoada Euridicc, csposa dc Creonte. 1180
praria a urn homem pclo preco da sombra do fumo, em com- E1-la que sai dc dentro do palécio, ou porque ouviu falar do
paracfio com a fclicidade. filho, ou porque passou por acaso.
Eu111n1c12 apertador '11 volta, lamentava a destruieao da sua noiva do
além, a - '-.o do seu pai e a desgraga das suas nfipcias. O rei, 1225
Cidadaos todos que aqui estais, percebi as \!unSaS palavras, assim que o viu, soltando um grito amargo, corre para dentro,
I185 quando avaneava para a porta, a fim de dirigir preces 21 deusa em direccao a ele, e chama-o com um Alamentoz —- Q desgraeado,
Palas 115. Por acaso, no momento em que levantava a tranca que fizeste? Que pensamentos eram os teus? Que ac0nteci-
do portal para 0 abrir, chegam-me aos ouvidos vozes de des- mento te privou da razfio? Sai dal, filho, é com sfiplicas que to 1230
graga familiar; com 0 terror, caio para tras nos braeos das escra- peeo ——. O filho deita-lhe um répido e fero olhar, cospe-Ihe no
I190 vas e perco os sentidos. Mas vos contai outra vcz a historia; rosto, e, sem nada responder, pmra dos copos da espada, mas
nao sou pessoa incxperiente da desgraca: escutarei. nio atinge o pai, que se precipita na fuga. Em seguida, o des-
venturado, furioso eonsigo mcsmo, tal como estava, coloca-se I235
sobre 0 montante, apoia-0 contra o seu fianco até metade e,
Msrsssoerno : ainda lficido, atrai a donzela aos seus bracos a desfalecer. Arque-
1
Contarei, minha cara ama, pois estava presente, e nfio omi- jante, lanea uma torrente veloz de sangue gotejante nas brancas
tirei uma so palavra da verdade. Pois para que havia eu dc 1 faces. Jaz um cadaver ao pé do outro, depois de ter recebido, 1240
1195 atenuar aquilo que mais tarde nos faria passar por mentirosos? desgraqado, os ritos dos esponsais na mansfio do Hades e de ter
A verdade csta sempre certa. demonstrado que a irreflexfio é o maior de quantos males se
Eu fui com 0 teu esposo, como seu guia, até ao extremo deparam aos humanos.
da planura; ai jazia ainda, sem que ninguém 0 lamentasse 116,
e dilacerado pelos caes, 0 corpo de Polinices. Rogamos 1 deusa (Eurfdice emra no paldcio, em siléncio.)
1200 dos caminhos e a Plut5o117 que, propicios, detivessem suas
Eras, lavamo-lo com pia unqao, envolvemo-lo em ramos colhidos C0110
de fresco, depois queimamos 0 que restava 118. E, apos termos
Que te parece isto? A senhora retirou-se dc novo, antes 1245
erguido um tumulo elevado, dirigimo-nos entao para 0 aposento
que dissesse urna so palavra, para bem ou para ma].
1205 nupcial 11° da donzeia, uma caverna infernal, com chao de Iagedo.
De longe, alguém ouve 0 som de auténticos gemidos junto daquele
quarto nupcial sem ritos funerarios, e, de rcgresso, anuncia-0
MENSAGEIRO
ao rei Crconte. A medida que ele se aproxima cacla vez mais,
1210 passam também em sua volta sinais indistintos de um grito dc 1 Também eu estou estupefacto. Nutro, porém, a esperanqa
desgraga, e, gemendo, despede estas palavras lamentosasi -—- Q des- de que, depois de saber da fatalidade do filho, nfio tera por bem
graeado de mim, estarei eu a adivinhar? Acaso avaneo pelo soltar gritos perantc a cidade, mas antes la dentro, sob 0 seu tecto,
mais malfadado caminho dc quantos tenho percorrido? A voz expora 0 desgosto familiar as suas eseravas, para 0 chorarem.
1215 do men filho acaricia-me. Mas, 6 servos, acercai-vos depressa. Nem ela é tfio desprovida de discernimento que cometa um erro. 1250
Quando la chegardcs, examinai 0 sepulcro, no ponto onde as 1

pedras foram retiradas 12°. Introduzi-vos pela abertura, a ver


se cu reconheeo a voz de Hémon ou se sou iludido pelos deuses —. C0110
1220 Estas foram as palavras do nosso exaltado amo. Vamos ver:
no interior do trimulo avistamo-la suspensa pe1o pescoeo, presa N50 sei. A mim, contudo, este siléncio em demasia parece-me
pelo laeo de um tecido fino. Ele, agarrado a ela com os bracos de mau augurio, tanto quanto um vao alarido.

90 91
Meusnorzmo
C11ao1~mz
1255 Mas vamos dentro dc casa e saberemos se na ve-_ ode encobre ertrofe 2.‘
alguns deslgnios ocultos no seu agitado ooracfio. Dizes bem, Ai de mim!
realmente: de algurna forma, ha um mau augfirio no seu siléneio. Aprendi, desgraeadol
Na minha cabeea 0 deus
(O Menrageiro enrra no paIdci0.} desferiu pesado golpe,
incitou-me aos caminhos cruéis,
derrubando-me, ai de mim!,
C0110 espezinhando a alegria. 1275
anapesros Oh! as penas dolorosas dos mortals!
Mas eis que avanea o proprio rei,
trazendo nas mios a prova evidente (Um Mensageiro sai do paldcio.)
—- sc é licito dizé-10 —
1260 de que 0 erro foi sen, de mais ninguém. Saouuoo MENSAGEIRO
Meu arno, dir-se-ia que vieste aqui como quem jz-1 tem e
(Creonte enrra pela esquerda, acompanhado ainda possui mais, pois trazes uma desgraea nas maos, e em casa
por servos, e com 0 cadaver de Hémon nos irés ver outra brevemente. 1280
brapos 111.)
CREONTE
CREONTE E que mal pior do que estes ha ainda?
estrofe 1.‘
Ai!
Pecados de uma mente dementada, Ssounoo Mansaoarno
fatais, obstinados! A tua mulher, a verdadeira mac desse cadaver, desgraeada,
O vos que védes ser da mesma raqa morreu sob golpes vibrados ha bem pouco.
quem mata e quem morre!
1265 Ai das minhas malditas decisoes!
Ai, filho, com destino prernaturo, CREONTE
ail ail antistrofe I.‘
morreste, partiste, A1!
na juventude, por insensatez, Ai, pporto do Hades insaciavel 111!
nao tua, mas minha! Porque me desgraeas, 1285
porqué? ‘Pu que me trouxeste noticias
dc fatal desgraea.
C0110 Que palavras dizcs? Um morto feres!
1270 Ail Como parece que so tarde v_és 0 que é justo! Que dizes, filho, que contas de novo,
ai! ail 1290
92
93
que da minha esposa Saouwoo 1*~- .;/1051110
jaz também o corpo dilacerado
A tua culpa para com este filho e para com 0 outro denun-
nesta mortandade?
ciou-a a morta que aqui esta.
(As portas do paldcio abrem-re para deixar
passar 0 caddver de Euridice 113.) CREONTE
De que maneira dcixou ela a vida no meio do sangue?
SEGUNDO MENSAGEIRO
Esta it vista; ja nao se encontra no interior. Ssouwno MENSAGEIRO
Com as proprias maos se atingiu no corae:-‘to, quando per- 1315
CREONTE cebeu as nossas lamentaeoes dc agudos gritos pelo seu filho.
. . I’ I 2.“
A1 dc mim! an ls mfg
I295 Infeliz, que ja vejo CREONTE
estrofe 4.“
segunda calamidade!
Ai de mim! nao pode jamais a minha sorte
Que desg-raga, que desgraea
a outro mortal adaptar-se, e a mim
pode ainda aguardar-me? Nas miios,
deixar-me sem culpa!
ha pouco, o filho, coitado!
Fui cu, fui eu que te matei, 6 desgragada,
Ja na frente outro cadaver!
fui eu, esta é a verdade. Ai, 6 meus servos, 1320
I300 Ai, ai, mfie miseranda, ai, meu filho!
ievai-me sem demora, p’ra ionge me levai,
a mim que nfio sou
SEGUNDO MENSAGEIRO mais do que o nada. 1325

A senhora, junto do altar, com a esoada afiada 114, deixa C0110


que as suas palpebras faeam trevas; geme sobre o leito vazio
dc Mcgareu 135, morto outrora, e depois novamente pelo deste Vantajosos sao os teus conselhos, se 6 que na dcsgraea
I305 que aqui esta; depois invoca as mais terriveis desgraeas sobre alguma vantagem pode haver. Quando 0 mal esta imincnte,
ti, assassino de teus filhos. quanto mais depressa, melhor.

CREONTE CREONTE anulitrofe 3."


M! A“ esrrofiz 3.“
Sim! Sim!
Tremo dc horror! Que surja p’ra mim I330
Porque 115.0 me atravessam o peito a sorte mais bela, o dia trazendo
com uma espada afiada? Miseravel derradeiro, e para mim supremo.‘
1310 que cu sou! A miséria e a angustia Que venha, sim, que venha e que en nao veja
confundem-se comigo. 0 dia nunca mais!

94 95
S
C0110
Isso ao futuro pcrtence. Mas com os que aqm jazem algo
1335 ha a fazer. O rcsto importa so aqueles que disso tém euidado 115.

CREONTE
Mas, peios rnenos, todo 0 meu desejo o pus nesta oraeao.

C0110
N50, nao implores ninguém; aos mortais nio 6 dado liber-
tar-se do destino que lhes incumbe.

CREONTB antfstrofe 4.‘

bevai, sim, levai para longe este homem NOTAS


1340 tresloucado, que sem querer te matou, filho,
e a ti também!
Ai dc mim, desgraeado, nao sei para qual
hei-dc olhar, a quem apoiar-me117, pois tudo
I345 que tenho nas maos esté. abalado; sobre mim
impende um futuro
que nio se suporta.

(Crecmte é levado para 0 paldc1'0.)

CORD anapeslos
Para ser feliz, born-senso é mais que tudo.
1350 Com os deuses nio seja impio ninguém.
Dos insolentes palavras infladas
pagam a pena dos grandes castigos;
a ser sensatos os anos lhc ensinaram.

96

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