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PEIXOTO, Renato Amado. ‘Robert E.

Howard: o suicidado pela sociedade’ in Antônio


Torres Montenegro et al. (Org.) História: cultura e sentimento - Outras histórias do
Brasil. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2008, pp. 419-428.

ROBERT E. HOWARD: O SUICIDADO PELA SOCIEDADE

O suicídio nada mais é que a conquista fabulosa e remota


dos homens bem pensantes, mas o estado propriamente dito do
suicídio me é incompreensível. O suicídio de um neurastênico não tem
qualquer valor de representação, mas sim o estado de espírito de um
homem que efetivamente tiver determinado seu suicídio, suas
1
circunstâncias materiais e o momento de seu desfecho maravilhoso.

Antonin Artaud - „O suicídio é uma solução?‟

I.

Robert Howard suicidou-se em 1936 e, ainda hoje, esse ato não é bem
compreendido por aqueles que estudam ou que admiram sua obra. Por conseguinte,
procuraremos constituir a cena do suicídio enquanto metáfora, visando com isso o duplo
objetivo de resgatar certos aspectos de sua produção e pensamento e de abrir um diálogo
acerca do legado de Antonin Artaud. Nesse sentido, entendemos que o pensamento de
Artaud e certos conceitos por ele criados têm sido utilizados fora de seu sentido e,
portanto, torna-se necessário reafirmar sua linhagem romântica, justamente para que, a
partir daí, seja possível renovar a potência teórica que encerra. Para isto, a remissão ao
conceito de „Corpo sem órgãos‟ torna-se estratégica, uma vez que nos possibilita
abordar questões acerca da cultura e do sentimento que são centrais para a compreensão
da vida e obra de Robert Howard.
A idéia do „Corpo sem órgãos‟, conforme elaborada por Antonin Artaud visava
evidenciar uma experiência intimista ligada tanto a uma ascese quanto a uma revolução
pessoal, no caso, uma transformação do sentido da compreensão do ser no mundo e de
sua relação com o outro, pretendendo com isso constituir uma ação relativa ao estar no
mundo.
Contudo, a aproximação com a idéia de ascese deve ser feita a partir de seu
entendimento na antiga Grécia, quando consistia numa prática da renúncia a
determinadas experiências mundanas, visando-se com este esforço a alcançar certos
objetivos intelectuais ou espirituais. Este conceito diferencia-se do conceito cristão de

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ascese na medida em que este último implica numa separação parcial ou total da
sociedade e de seus costumes, geralmente consistindo em se observar uma abstinência
do consumo de bebidas alcoólicas, do fumo, de práticas sexuais e restrições no
vestuário. O conceito de „Corpo sem órgãos‟ pode ser entendido como um exercício de
abandono de antigas práticas e das representações constituídas em torno destas, um
exercício de auto-conhecimento, a busca de uma “geografia interna”, portanto, um
exercício intimista, pessoal, quase que hermético, que pode ser exemplificado pelo
crescente interesse de Artaud em temas ocultistas no final de sua vida.
O „Corpo sem órgãos‟ derivava, ainda, da compreensão que esse autor fazia de
certas idéias políticas e culturais do final do século XIX e início do século XX. Os
ideais de revolta e transformação embutidos no surrealismo e socialismo foram
interpretados a partir de um ponto de vista hiper-romântico: Artaud recusava toda e
qualquer opressão e controle mental, todo e qualquer movimento que diminuísse ou
amesquinhasse o papel do indivíduo e de sua liberdade de ação no mundo, resultando
disso uma recusa obstinada dos totalitarismos de quaisquer espécies. Daí a importância
atribuída ao sentimento como modo de apreensão do mundo e dos acontecimentos,
instância inseparável da experimentação de seus espaços pelo homem. Conhecer as
geografias poderia ser muito bem a palavra de ordem de Artaud: conhecer a geografia
interna do homem e a geografia do mundo para poder modificá-las, já que o homem
somente se constituía como tal na medida em que finalmente se tornava capaz de
engendrar, participar sua modificação ao mundo e aos outros para, como numa cascata,
engendrar novas transformações. Deste modo, podemos entender a noção artaudiana de
„Atletismo Afetivo‟ ou a experiência do „Teatro da crueldade‟, a saber, como exercícios
da espontaneidade e do sentimento voltados para uma ação relativa ao estar no mundo.
Se buscarmos em certos produtos filosóficos influenciados pela cultura ou
estética romântica como, por exemplo, nas obras de Schopenhauer, veremos que a idéia
de „gênio‟ foi definida por meio de um diferencial em relação à faculdade de
conhecimento, a intuição. O conhecimento do gênio seria como “a flama do corpo que
entra em combustão por completo, como álcool, espírito, cânfora, fósforo.” A intuição
poderia ser entendida como o sentimento purificado da vontade: o gênio, „favorito da
natureza‟, compreenderia e partilharia de uma „espontaneidade inconsciente da
natureza‟, que daria regras à arte e que se oporia ao espírito de imitação. Por outro lado,

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o sentimento constituiria a base de um „princípio da razão‟, regendo mesmo certos


domínios da representação, especialmente os que remeteriam aos chamados princípios
da „razão do conhecer‟ e da „razão do agir‟, que impressionam as ações a partir de
„motivos‟. 2
Por conseguinte, a partir das apreensões românticas poder-se-ia mesmo
investigar o sentimento, já que este constituiria uma doutrina da capacidade de julgar ou
de experimentar realidades e valores determinando, inclusive, as motivações. Neste
sentido, exercitaremos esta possibilidade sobre a cena do suicídio de Robert Howard,
remetendo-a primeiramente ao exame de sua produção cultural.

II.

A fama de Conan da Ciméria ultrapassou largamente à de seu criador, Robert E.


Howard. O guerreiro de cabelos escuros e olhos azuis, forte como aço, tornou-se um
ícone da cultura de massas e há quase oitenta anos desfila ante nossos olhos em livros,
filmes, televisão, quadrinhos, traduzido em praticamente todas as línguas existentes.
Suas aventuras inspiraram gerações de músicos, escritores, artistas plásticos e criadores
de jogos on-line e RPG. A força do bárbaro reside justamente na grande capacidade de
inspirar, o que pode ser depreendido pela enorme quantidade de pastiches que gerou.
Livre, completamente livre, Conan não se rendeu a nenhum governo, a nenhuma cultura
ou religião – mesmo Crom, o deus de sua terra natal, era apenas uma entidade a ser
lembrada, mas não cultuada – Conan vivia, amava e odiava com igual fervor. Se Conan
causou escândalo na época em que foi criado, ainda hoje é extremamente moderno.
Contudo, se Conan inspira, a lembrança de Howard desespera aqueles que
procuram relacionar a criatura com o criador. Nesse sentido, avultam lugares-comuns
para definir o processo criativo e a personalidade de Howard, impressões disseminadas
tanto por quem procura discutir sua obra quanto por aqueles que apenas o conheceram
ligeiramente. Howard seria discernido como louco, paranóico, autista, recluso, obcecado
pela figura materna, excêntrico, em suma, um „freak‟, uma aberração. Conan, segundo a
maioria dos críticos, somente poderia ser definido como um alter-ego de Robert
Howard.

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Por conseguinte, podemos perceber que Conan e Howard, criador e criatura,


geram sentimentos intensos e opostos, sentimentos de atração e repulsão que podem ser
investigados tanto por procurar-se estabelecer as condições de produção do Conan
literário quanto no sentido de se buscar relações entre a personagem e o autor.

III.

Conan foi o último grande personagem inventado por Howard em sua curta vida
e deve ser entendido a partir dessa perspectiva. Desde a adolescência, Howard foi um
historiador diletante, no caso, o interesse pela História lhe foi despertado pelas leituras
empreendidas. Era um leitor ávido, que lia tanto os clássicos quanto a „pulp fiction‟ com
igual desenvoltura, conforme se pode observar pelo exame de sua correspondência e
pelo inventário de seus bens. Embora tivesse uma origem social bastante modesta,
Howard foi beneficiado pela constituição de um mercado literário nos Estados Unidos
que permitiu baratear a edição e a circulação de obras populares e, sobretudo, pela
iniciativa do reformador social E. Haldeman-Julius, que a partir de 1919, passou a
publicar livros clássicos ao preço médio de cinco centavos de dólar por exemplar.
Assim a produção literária de Howard refletiria essa base crítica, ao mesmo tempo em
que revelaria a estética de um mercado que consumia vorazmente narrativas de
aventuras e de exotismo. Nesse sentido, observe-se que a produção de Howard
concentra-se, sobretudo, em poesia e em contos de aventura. A primeira voltada para
questionamentos de ordem existencial, e os últimos, articulados a partir do seu interesse
particular pela história. O exercício da ficção histórica por Howard combinava,
portanto, seus interesses com uma estratégia de inserção num mercado editorial
dominado pelas „pulp magazines‟, revistas periódicas de grande tiragem e baixo preço.
Seus personagens e enredos exemplificam essa opção, permitindo constituir, inclusive,
séries distintas, localizadas em cenários tão diversos como as Cruzadas, o Oeste
americano e a Gália Romana. Antes de inventar Conan, Howard já havia se consagrado
como um dos melhores escritores do gênero conhecido como „Faroeste‟ e como o
inventor de personagens extremamente populares como Krull. Se suas histórias
destacavam-se pela credibilidade das cenas de ação e pela inventividade da narrativa,
seus personagens eram reconhecidos pela originalidade constitutiva. Howard foi um dos

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primeiros autores de „pulp fiction‟ a criar personagens femininos cujo caráter e força
rivalizavam com os masculinos.
Por outro lado, a poesia de Robert Howard é eminentemente existencial,
refletindo sua preocupação com o estar no mundo e com a transitoriedade deste. A
crítica da moral, da sociedade e dos costumes, a descrição do cotidiano e dos interesses
de época eram os materiais com que construiu seus trabalhos poéticos, que, contudo,
não foram destinados ao mercado, permanecendo em foro íntimo ou circulando apenas
entre os correspondentes mais próximos. Contudo, a poesia foi um esforço contínuo
empreendido por Howard até o último dia de vida e compreendido por este como tendo
tanto ou mais importância que a prosa.
Portanto, Conan não foi o primeiro sucesso literário de Robert Howard nem
mesmo era original em meio à produção da época. Guerreiros célticos eram a maioria
dos personagens das mais vendidas „pulp magazines‟, assim como a ficção de aventura
histórica constituía a maioria de suas histórias. A grande originalidade do personagem
Conan consiste justamente na extrema elaboração dos elementos narrativos de suas
histórias. Se a ficção histórica é o elemento que traz coesão às narrativas de Conan, essa
história não se remete a ciclos ou linhagens. O mundo imaginário de Howard, a
'Hybórea' é caótico, é um espaço onde se constituem referências múltiplas que se
interpenetram e se correlacionam. É um espaço imaginário que recolhe material do
mundo real e o reelabora a partir de uma linguagem recorrente e coerente com a história
real. Howard constrói um mundo múltiplo e mutável, inconstante e em permanente
reelaboração. Por sua vez, o personagem a partir do qual se narra esse espaço
experimenta lugares e os reinscreve por meio de sua própria história. Entretanto,
Howard não elaborou uma história linear de Conan, mas preferiu apenas relatar certos
acontecimentos cronologicamente afastados. Portanto, a experimentação desse mundo-
espaço pode ser entendida enquanto uma construção de cenas descontínuas que se
remetem em outras cenas. A experimentação de cada lugar constitui uma determinada
sintaxe que reorganiza a gramática de uma linguagem geral. Conan, o bárbaro é o
falante-ideal dessa linguagem, aquele que constrói dialetos, aquele que constitui a
capacidade de organizar e transformar. O exame da geografia hyboreana nos permite
distinguir uma experimentação do espaço, distinguir apreensões do mundo-espaço, que
Conan restitui por meio de seus sentimentos, de sua intuição. Na verdade, Conan não foi

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o alter-ego de Howard, mas a soma de seus múltiplos personagens, o alter-ego de cada


um destes.

IV.

Conan foi a companhia da fase mais difícil de sua vida, seu ganha-pão e sua
droga, a criação que lhe permitiu arcar com os custos da longa agonia de sua mãe, mas
que também consumiu suas últimas forças. Foram dólares ganhos página a página, cada
uma delas reescrita repetidas vezes. Conan foi o esteio final de sua curta e insignificante
vida, foi o delírio final, a sua despedida. Contudo, morto Howard, Conan ainda vive.
Robert Howard cresceu em Cross Plains, pequena cidade situada nos rincões do
Texas, extremamente conservadora e religiosa. A poesia e a correspondência de Howard
relatam recorrentemente a hipocrisia e a tacanhez dessa sociedade, assim como revelam
as agressões sofridas por Howard desde sua infância. Pacífico, romântico, sensível, era
ridicularizado em cada oportunidade, seus hábitos e crenças eram repudiados,
desprezados e discutidos em público. Por suas opiniões anti-religiosas, anti-dogmáticas
e liberais-socialistas, era demonizado pela cidade em peso. Mesmo estudando e
escrevendo sem parar, Howard era visto como um inútil, incapaz de trabalhar
verdadeiramente. Ainda quando seu trabalho lhe possibilitou sobreviver apenas da
literatura, fato raro naquele tempo, foi considerado um boa-vida. Desgraçadamente, sua
natureza operou contra ele: tendo nascido com uma estatura e porte avantajados para a
época, era caçoado por ser desajeitado e por não saber se defender fisicamente. Era
desprezado pelas mulheres e repudiado pelos homens.
Howard respondeu escrevendo cada vez mais e melhor, correspondendo-se com
os escritores mais importantes e mais inventivos de seu país, aprendendo a lutar Box
como um profissional. Se os habitantes de Cross Plain o julgavam um maluco, ele
passou a lhes mostrar o quanto maluco ele podia ser. Vestia-se como um mexicano para
fazer as compras, isto num lugar onde os mexicanos e os indígenas eram profundamente
estigmatizados – Teatro da Crueldade. Ignorado pelos habitantes de Cross Plain, alheou-
se de todos, até ao ponto de atropelar com seu carro o principal monumento da cidade

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ou ser visto esgrimindo com inimigos imaginários. Andava de costas pelas calçadas;
gesticulava e falava sozinho – Atletismo Afetivo.
A única pessoa que sempre o incentivou era ao mesmo tempo aquela que o
impedia de fugir para bem longe daquela cidade odiada: sua mãe. O senso de dever o
impelia a ficar e cuidar dela em sua longa agonia, e obrigava-o a trabalhar sempre mais
para custear os dispêndios cada vez mais altos de seu tratamento. Os efeitos da Grande
Depressão alcançaram-no na fase mais crítica de sua vida: os pagamentos escasseiam,
as revistas quebram.
O mundo de Conan é tão atual porque se parece em demasia com um retrato
cruel do mundo em que vivemos: a civilização assemelha-se em tudo ao que os antigos
chamavam de barbárie. O caos e a insegurança espreitam a todos. A violência e a
indiferença são onipresentes e implacáveis – Cross Plains era a síntese de uma
sociedade que reunia os elementos e as contradições fundamentais do mundo
contemporâneo. Essa é a força que se empresta a Conan, um herói atual, um herói
descrente de tudo que não seja sua espada, mas que ao mesmo tempo insiste em resistir
e amar, um bruto que é o mais sensível, um bárbaro que é o mais desprovido de
preconceito, Conan é o sentimento puro, é o favorito e a espontaneidade da natureza,
Conan é o agir no mundo. Conan é a interpretação mais radical do ideal romântico, o
corpo sem órgãos de Robert Howard.

V.

O último passeio de Robert Howard, o Crucificado: é um modelo muito melhor


que o esquizofrênico no jardim. Repleto de ar livre, uma relação com o interior.
Conhecer sua geografia, mergulhar profundamente em sua geografia. Por exemplo, os
cuidados do criador de Conan reconstituídos por seus biógrafos. Isto é muito diferente
dos momentos em que Howard perambula por Cross Plain vestido de chefe apache ou
quando se mostra boxeando com sua sombra. Agora está com seu próprio deus,
construindo seu próprio destino, salvando-se de sua própria salvação, despindo-se de
todas as ilusões. O homem não é um recipiente para os pensamentos? Robert Howard
age, engendra, transforma. 3
Robert Howard cuida em certificar-se de que a agonia de sua mãe era
irreversível e que esta não sobreviveria àquele dia. Organiza seus contos recém-

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acabados e deixa-os prontos para serem enviados ao correio rumo a seus editores – seus
contos devem viver. Compra um lote no cemitério suficiente para três enterros – seu pai
também precisa de cuidados. Manda preparar dois esquifes: um para si, outro para sua
mãe, providenciando que em Cross Plains houvesse pela primeira vez um enterro duplo.
Pede emprestado a um amigo uma arma automática, um Colt .380. Certifica-se com um
médico de que uma ferida na cabeça feita por um tiro dessa arma seria mortal. Arruma-
se e caminha para fora de sua casa. Apoia-se no seu amado carro, comprado com o suor
de sua desprezada literatura. Acomoda-se. Levanta as mãos para o céu admirando a
beleza de sua arma. Salva-se da salvação: puxa o gatilho.
Veloz, a bala liberta, como um beijo, seus pensamentos de seu corpo. A bala que
explode sua cabeça espalha fragmentos cinzentos de sua velha memória, respinga com o
vermelho de sua rebeldia até a roda do carro.
Não, Robert Howard não se suicidou: já o haviam matado fazia tempo. Howard
cuidou de nesse tempo fabricar o verdadeiro corpo sem órgãos: sua escrita. Uma escrita
de ação e emoção, de impacto, intérprete de seus sentimentos, representação de sua
geografia interior. Afinal, Robert Howard foi morto porque conhecia seu espírito,
porque não se rendeu, porque sentia o apetite de ser, a viciosa teimosia de que não o
deixava admitir a derrota, porque desejava, porque amava amar. 4
Mataram-no aos trinta anos e cuidaram de torturá-lo até o fim mantendo-o
prisioneiro de seu antigo corpo por oito longas horas.
Robert Howard cuidou de ser louco, no sentido socialmente aceito, em vez de
trair uma determinada idéia de honra humana. A que considerava ser a única possível.
A sociedade cuidou de ridicularizá-lo, torturá-lo física e espiritualmente, cuidou
de acorrentar cuidadosamente o que chamava de vida junto ao seu antigo corpo.
Robert E. Howard: o suicidado pela sociedade.

1
Artaud, Antonin. „O suicídio é uma solução?‟ in Willer, Cláudio. (Org.) Escritos de Antonin Artaud.
Porto Alegre: L&PM, 1983.
2
Schopenhauer, Arthur. Metafísica do belo. São Paulo: Editora UNESP, 2003, pp. 68-71.
3
Esta seção de texto cuida de um diálogo necessário com Gilles Deleuze e da utilização que faz do legado
de Antonin Artaud. De modo a contestá-la, construímos essa parte do artigo cruzando referências aos
textos „O anti-édipo‟ de Gilles Deleuze e Felix Guattari; e „Van Gogh: o suicidado pela sociedade‟, „O
suicídio é uma solução‟ e „Surrelismo e revolução‟ de Antonin Artaud. Ver Deleuze, Gilles & Guattari,
Felix. O Anti-Édipo. Lisboa: Assírio & Alvim, 1995; Willer, Cláudio. (Org.) Escritos de Antonin Artaud.
Porto Alegre: L&PM, 1983.

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Torres Montenegro et al. (Org.) História: cultura e sentimento - Outras histórias do
Brasil. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2008, pp. 419-428.

4
Roehm, Rob (Edited by) „Correspondência 25 – Robert E. Howard para Tevis Clyde Smith‟. The
collected letters of Robert E. Howard – Volume One: 1923-1929. Cross Plains: The Robert E. Howard
Foundation Press, 2007.

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