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SOCIOLOGIA APLICADA

À SAÚDE

Fazemos parte do Claretiano - Rede de Educação


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Olá! Meu nome é Fernando de Figueiredo Balieiro. Sou bacharel e


licenciado em Ciências Sociais pela Unesp, mestre e doutorando em
Sociologia pela UFSCar, tendo sido bolsista CAPES e CNPq.
Atualmente, estou em fase de finalização do Doutorado, com estágio
sanduíche na University of California, em Santa Cruz. Tenho
experiência em Educação a Distância em várias instituições da região
e desenvolvo pesquisa na área de identidades, gênero, “raça” e
sexualidade em uma perspectiva sociológica.
E-mail: fernandofbalieiro@gmail.com
Fernando de Figueiredo Balieiro

SOCIOLOGIA APLICADA
À SAÚDE

Batatais
Claretiano
2015
© Ação Educacional Claretiana, 2015 – Batatais (SP)
Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução, a transmissão total ou parcial por qualquer forma
e/ou qualquer meio (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação e distribuição na web), ou o
arquivamento em qualquer sistema de banco de dados sem a permissão por escrito do autor e da Ação
Educacional Claretiana.

CORPO TÉCNICO EDITORIAL DO MATERIAL DIDÁTICO MEDIACIONAL


Coordenador de Material Didático Mediacional: J. Alves
Preparação: Aline de Fátima Guedes • Camila Maria Nardi Matos • Carolina de Andrade Baviera • Cátia
Aparecida Ribeiro • Dandara Louise Vieira Matavelli • Elaine Aparecida de Lima Moraes • Josiane Marchiori
Martins • Lidiane Maria Magalini • Luciana A. Mani Adami • Luciana dos Santos Sançana de Melo • Patrícia
Alves Veronez Montera • Raquel Baptista Meneses Frata • Rosemeire Cristina Astolphi Buzzelli • Simone
Rodrigues de Oliveira
Revisão: Cecília Beatriz Alves Teixeira • Eduardo Henrique Marinheiro • Felipe Aleixo • Filipi Andrade de Deus
Silveira • Juliana Biggi • Paulo Roberto F. M. Sposati Ortiz • Rafael Antonio Morotti • Rodrigo Ferreira Daverni
• Sônia Galindo Melo • Talita Cristina Bartolomeu • Vanessa Vergani Machado
Projeto gráfico, diagramação e capa: Eduardo de Oliveira Azevedo • Joice Cristina Micai • Lúcia Maria de
Sousa Ferrão • Luis Antônio Guimarães Toloi • Raphael Fantacini de Oliveira • Tamires Botta Murakami de
Souza • Wagner Segato dos Santos
Videoaula: José Lucas Viccari de Oliveira • Marilene Baviera • Renan de Omote Cardoso
Bibliotecária: Ana Carolina Guimarães – CRB7: 64/11

DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

362.1042 B154s

Balieiro, Fernando de Figueiredo


Sociologia aplicada à saúde / Fernando de Figueiredo Balieiro – Batatais, SP:
Claretiano, 2015.
120 p.

ISBN: 978-85-8377-378-8

1. Formações sociais. 2. Patologia social. 3. Estigma. 4. Modelos de cultura médica.


5. Processos socioeconômicos. I. Sociologia aplicada à saúde.

CDD 362.1042

INFORMAÇÕES GERAIS
Cursos: Graduação
Título: Sociologia Aplicada à Saúde
Versão: dez./2015
Formato: 15x21 cm
Páginas: 120 páginas
SUMÁRIO

CONTEÚDO INTRODUTÓRIO
1. INTRODUÇÃO.................................................................................................... 9
2. GLOSSÁRIO DE CONCEITOS............................................................................. 12
3. ESQUEMA DOS CONCEITOS-CHAVE................................................................ 14
4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...................................................................... 16

Unidade 1 – SAÚDE E SOCIEDADE: DESIGUALDADES E DIFERENÇAS


1. INTRODUÇÃO ................................................................................................... 19
2. CONTEÚDO BÁSICO DE REFERÊNCIA.............................................................. 19
2.1. UMA INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA........................................................ 19
2.2. SAÚDE, DESIGUALDADES E DIFERENÇAS............................................... 28
3. CONTEÚDO DIGITAL INTEGRADOR................................................................. 38
3.1. DIFERENÇAS E DESIGUALDADES............................................................. 38
3.2. SAÚDE E SOCIEDADE................................................................................ 39
4. QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS........................................................................ 40
5. CONSIDERAÇÕES.............................................................................................. 42
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...................................................................... 42

Unidade 2 – CORPO, SABER MÉDICO E BIOPOLÍTICA


1. INTRODUÇÃO ................................................................................................... 47
2. CONTEÚDO BÁSICO DE REFERÊNCIA.............................................................. 48
2.1. CORPO, MODERNIDADE E PODER.......................................................... 48
3. CONTEÚDO DIGITAL INTEGRADOR................................................................. 67
3.1. CORPO, BIOPOLÍTICA E MEDICINA......................................................... 67
3.2. GÊNERO E SABER MÉDICO...................................................................... 68
4. QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS........................................................................ 69
5. CONSIDERAÇÕES.............................................................................................. 71
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...................................................................... 72
Unidade 3 – SAÚDE E DOENÇA E A CRÍTICA AO “MODELO
BIOMÉDICO”
1. INTRODUÇÃO ................................................................................................... 77
2. CONTEÚDO BÁSICO DE REFERÊNCIA.............................................................. 77
2.1. O NORMAL E O PATOLÓGICO.................................................................. 78
2.2. A NOÇÃO HISTÓRICA DE PATOLOGIA SOCIAL........................................ 82
2.3. A CRÍTICA AO MODELO BIOMÉDICO...................................................... 86
3. CONTEÚDO DIGITAL INTEGRADOR................................................................. 90
3.1. O NORMAL E O PATOLÓGICO.................................................................. 90
3.2. O MODELO BIOMÉDICO.......................................................................... 91
4. QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS........................................................................ 92
5. CONSIDERAÇÕES.............................................................................................. 94
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...................................................................... 95

Unidade 4 – POLÍTICA, CULTURA E SAÚDE


1. INTRODUÇÃO ................................................................................................... 99
2. CONTEÚDO BÁSICO DE REFERÊNCIA.............................................................. 99
2.1. AS DISPUTAS POLÍTICAS EM TORNO DA DEFINIÇÃO DE SAÚDE.......... 100
2.2. OS CUIDADOS E O PACIENTE COMO SER “INTEGRAL” ......................... 110
3. CONTEÚDO DIGITAL INTEGRADOR................................................................. 114
3.1. POLÍTICA E SAÚDE: OS CONDICIONANTES SOCIAIS E A IDEIA DE
“PROMOÇÃO À SAÚDE” ........................................................................... 115
3.2. A PERSPECTIVA BIOPSICOSSOCIAL......................................................... 116
4. QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS........................................................................ 117
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................. 119
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...................................................................... 120
CONTEÚDO INTRODUTÓRIO

Conteúdo
Estudo das formações sociais em seus processos socioeconômicos e políti-
cos como novo paradigma para análises etiológicas e compreensão da saúde
como forma de organização social. Patologia social. Estigma. Modelos de cul-
tura médica. Percepção cultural e suas implicações no campo da saúde. O am-
biente urbano. A determinação social da saúde e da doença. A construção da
práxis social na área de saúde: o profissional da saúde – prática profissional e
processo de mudança social. A relação entre profissional de saúde e paciente
na perspectiva do ser humano como ser social.

Bibliografia Básica
FORACCHI, M. M.; MARTINS, J. S. Sociologia e sociedade. Rio de Janeiro: LTC, 2000.
GOFFMAN, E. Manicômios, prisões e conventos. São Paulo: Perspectiva, 1974.
NUNES, E. D. Sobre a Sociologia da saúde: origens e desenvolvimento. São Paulo:
Hucitec, 1999.

Bibliografia Complementar
BERGER, P.; LUCKMANN, T. A construção social da realidade. São Paulo: Vozes, 1986.
BOTTOMORE, T. B. Introdução à Sociologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1973.
CAPRA, F. A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. São
Paulo: Cultrix, 1997.
COSTA, C. Sociologia: uma introdução à ciência da sociedade. 2. ed. São Paulo:
Moderna, 2002.
DAMATTA, R. Relativizando: uma introdução à Antropologia Social. Rio de Janeiro:
Rocco, 1987.

7
CONTEÚDO INTRODUTÓRIO

FOUCAULT, M. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1982.


LOPES, M. J. M.; LEAL, S. M. C. A feminização persistente na qualificação profissional
da enfermagem brasileira. Cadernos Pagu, Campinas, n. 24, p. 105-125, jan./jun. 2005.
PEREIRA, J. C. M. Medicina, saúde e sociedade. Ribeirão Preto: Villimpress, 2003.
QUEIROZ, R. S. Não vi e não gostei: o fenômeno do preconceito. São Paulo: Moderna,
1996.
ROSA, R. B et al. A educação em saúde no currículo de um curso de enfermagem: o
aprender para educar. Revista Gaúcha de Enfermagem, Porto Alegre, v. 27, n. 2, p.
185-192, jun. 2006.

É importante saber
Esta obra está dividida, para fins didáticos, em duas partes:
Conteúdo Básico de Referência (CBR): é o referencial teórico e prático que deverá
ser assimilado para aquisição das competências, habilidades e atitudes necessárias
à prática profissional. Portanto, no CBR, estão condensados os principais conceitos,
os princípios, os postulados, as teses, as regras, os procedimentos e o fundamento
ontológico (o que é?) e etiológico (qual sua origem?) referentes a um campo de
saber.
Conteúdo Digital Integrador (CDI): são conteúdos preexistentes, previamente sele-
cionados nas Bibliotecas Virtuais Universitárias conveniadas ou disponibilizados em
sites acadêmicos confiáveis. São chamados "Conteúdos Digitais Integradores" por-
que são imprescindíveis para o aprofundamento do Conteúdo Básico de Referên-
cia. Juntos, não apenas privilegiam a convergência de mídias (vídeos complementa-
res) e a leitura de "navegação" (hipertexto), como também garantem a abrangência,
a densidade e a profundidade dos temas estudados. Portanto, são conteúdos de
estudo obrigatórios, para efeito de avaliação.

8 © SOCIOLOGIA APLICADA À SAÚDE


CONTEÚDO INTRODUTÓRIO

1.  INTRODUÇÃO
Prezado aluno, seja bem-vindo!
Iniciaremos nosso estudo em Sociologia Aplicada à Saúde,
voltado ao questionamento sobre como a área de Saúde, se
relacionam com as dinâmicas, os conflitos e as desigualdades
que caracterizam as sociedades contemporâneas.
Abordaremos, portanto, aspectos fundamentais da forma-
ção do profissional da saúde, subsidiando um olhar crítico em
relação à sua futura atuação profissional, permitindo-lhe pensar
sociologicamente a respeito das políticas, instituições e sujeitos
com que lidará em seu dia a dia de trabalho.

Sociologia aplicada à saúde


A Sociologia é uma ciência relativamente recente, data-
da do século 19. Em termos gerais, parte do princípio de que o
social não se resume a uma miríade de indivíduos que delibe-
radamente constroem determinada ordem social. Ao contrário,
considera a sociedade como uma dimensão própria dotada de
regras, valores e constituída a partir das desigualdades no acesso
a bens materiais e culturais que conformam os indivíduos e sua
esfera de ação na sociedade.
Voltada a compreender as sociedades contemporâneas,
posteriores às revoluções francesa e industrial, a Sociologia traz
como temas centrais os aspectos da sociedade industrial, urbani-
zada e dividida em classes sociais. A exploração do trabalho, sua
divisão social e a desigualdade são temas caros à Sociologia clás-
sica, que aborda diferenças fundamentais das formas de organi-
zação prévias à contemporaneidade. Outros temas apareceriam
como fundamentais à Sociologia, em especial no último terço do

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CONTEÚDO INTRODUTÓRIO

século 20, no qual houve aumento dos estudos centrados nas


diferenças de gênero, “raça” e etnia.
Este material centrará sua discussão em como as desigual-
dades e as diferenças sociais estão presentes e são reproduzidas
na esfera da saúde. Em outros termos, há determinantes sociais
da saúde que explicam o porquê de uma incidência epidemioló-
gica em determinada parcela da população, seja ela caracteriza-
da pela classe social, “raça” ou etnia, ou mesmo gênero.
Críticos a abordagens que culpabilizam o indivíduo pelo
adoecimento, vamos buscar entender a inserção social dos indi-
víduos e os aspectos sociais e culturais que marcam a experiên-
cia dos pacientes. Assim, intenta-se desenvolver um olhar socio-
lógico que traga mais sensibilidade e criticidade ao profissional
da saúde, alargando sua visão sobre o processo de adoecimento
e os sujeitos com os quais lida.

A Medicina e a configuração das sociedades modernas


Em uma perspectiva sócio-histórica, vamos expor como o
desenvolvimento das sociedades modernas esteve marcado pela
influência decisiva da Medicina. Inicialmente, como Medicina
social, foi fundamental na configuração das sociedades urbanas
como as conhecemos e atuou na formação de mecanismos de
regulação das populações em crescimento demográfico.
Além da importância das políticas de saneamento que re-
duziram drasticamente a mortalidade, abordaremos a história
do desenvolvimento de tecnologias de poder conceituadas por
Michel Foucault. Em outros termos, vamos explorar em que me-
dida o saber médico moderno se debruçou sobre os corpos in-

10 © SOCIOLOGIA APLICADA À SAÚDE


CONTEÚDO INTRODUTÓRIO

dividuais e o corpo populacional, reconfigurando as sociedades


que passaram, então, a ser marcadas pela disciplina.
Do contexto europeu ao brasileiro, analisaremos como as
ciências e as políticas de saúde não são neutras e operam com
base em valores culturais, muitas vezes, reforçando as desigual-
dades de classe, mas também aquelas baseadas na “raça” e no
gênero. No entanto, em uma direção mais democratizante, em
especial a partir do último terço do século 20, verificou-se um
processo importante de redefinição das políticas de saúde.

Saúde e doença como construção social


Estudaremos, também, as mudanças históricas e sociais
referentes aos conceitos de saúde e doença, bem como de nor-
malidade e patologia. Veremos que, antes do que definições es-
tritamente objetivas, são transformadas socialmente e são alvo
de disputa política na sociedade. De uma definição ancorada
unicamente no primado biológico, constituiu-se uma visão biop-
sicossocial da saúde e da doença, fruto de inúmeras discussões e
mobilizações internacionais e nacionais.
As transformações são visíveis nos âmbitos macrossocial e
microssocial, abrangendo desde políticas públicas às formas de
relação entre paciente e profissional da saúde. Aspectos como
a inserção sociocultural do paciente e a importância da escuta
do profissional, os aspectos culturais e subjetivos do adoecimen-
to, o estigma da doença serão temas caros também ao nosso
estudo.
Vamos ler, refletir e discutir sobre esses temas, fazendo
uso deste material e, também, do Conteúdo Digital Integrador.
Boa leitura!

© SOCIOLOGIA APLICADA À SAÚDE 11


CONTEÚDO INTRODUTÓRIO

2. GLOSSÁRIO DE CONCEITOS
O Glossário de Conceitos permite uma consulta rápida e
precisa das definições conceituais, possibilitando um bom domí-
nio dos termos técnico-científicos utilizados na área de conheci-
mento dos temas tratados.
1) Anatomoclínica: Medicina moderna caracterizada pela
substituição de uma definição de doença estabelecida
por quadros conceituais e modelos teóricos para outra
que a localiza no corpo a partir da articulação entre ex-
ploração empírica da anatomia e exame clínico. Trata-
-se do estabelecimento de um conceito de doença a
partir do primado do biológico.
2) Biopoder: poder de natureza positiva direcionado ao
corpo populacional. Trata-se da regulamentação de-
mográfica produzida com base em cálculos estatísticos
e políticas intervencionistas urbanas e de saúde carac-
terizadas por produzir a vida e evitar o que se conside-
ra “descaminhos” da coletividade. É característica cen-
tral das sociedades modernas urbanizadas, as quais
demandam um tipo de controle exaustivo.
3) Classes sociais: divisões sociais ancoradas em desi-
gualdades de recursos materiais e culturais que ten-
dem a se reproduzir socialmente.
4) Diversidade cultural: concepção que valoriza as for-
mas de organização social e cultural a partir de diferen-
tes parâmetros, evitando hierarquizá-las e salientando
que não há um único modelo válido de desenvolvi-
mento social e cultural.
5) Estigmas: marcas socialmente atribuídas a determi-
nados sujeitos, reduzindo-os a determinados atribu-

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CONTEÚDO INTRODUTÓRIO

tos que comumente os depreciam. Os estigmas po-


dem designar aspectos fundamentais na vivência do
adoecimento.
6) Etnocentrismo: julgamento de sociedades e culturas
outras a partir dos valores culturais e morais da pró-
pria sociedade, desconsiderando a diversidade nas for-
mas de organização social e cultural.
7) Gênero: conceito que denota a construção social e cul-
tural da masculinidade e feminilidade, recusando o de-
terminismo biológico. Trata-se, portanto, de definições
culturais que se inscrevem sobre os sexos.
8) “Modelo biomédico”: modelo que compreende a saú-
de e a doença a partir do primado biológico, descon-
siderando os aspectos biopsicossociais da doença, a
subjetividade do paciente e os aspectos culturais que
envolvem o adoecimento.
9) Patologia social: conceito sociológico datado do sécu-
lo 19, quando as ciências biológicas e médicas eram
dotadas de alto prestígio e a ideia de patologia era
transferida do reino do biológico para o social. Com-
preendia-se, então, que, tal como a doença poderia
ser encontrada no corpo biológico, ela também deve-
ria ser extirpada do corpo social. No fundo, tal conceito
servia para reiterar as normas e as convenções sociais
referendadas como expressões da normalidade.
10) Poder disciplinar: poder que incide sobre os corpos de
qualidade positiva, a fim de produzir comportamentos
e discipliná-los com uma vigilância contínua. Defini-
do por Michel Foucault em uma variedade de textos,
trata-se de aspecto essencial da modernidade capita-

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CONTEÚDO INTRODUTÓRIO

lista que, em suas instituições, produz corpos dóceis e


produtivos.
11) “Raça”: a definição sociológica de “raça” utilizada é
crítica a uma acepção biológica que a compreende a
partir de distinções inatas entre espécies e subespé-
cies, estabelecendo fronteiras entre os seres humanos.
“Raça”, conforme a Sociologia, é definida como uma
construção social, ou seja, ela é produzida por meio
das relações que hierarquizam grupos a partir de suas
especificidades de origem, traços fisionômicos, dentre
outros aspectos.

3. ESQUEMA DOS CONCEITOS-CHAVE


O Esquema a seguir possibilita uma visão geral dos concei-
tos mais importantes deste estudo.
Partimos dos determinantes sociais da saúde na parte
superior do esquema, ou seja, partimos dos vínculos dos mar-
cadores de classe, “raça” e gênero e suas relações íntimas com
a saúde. Em seguida, citamos as implicações sociais do desen-
volvimento histórico da Medicina e das políticas de saúde que
influenciaram decisivamente a configuração das sociedades con-
temporâneas, com a invenção do modelo anatomoclínico, do
biopoder e do poder disciplinar.
Chegamos, então, ao “modelo biomédico”, que apresen-
ta como ponto de partida o primado biológico na concepção
da doença, muitas vezes, invisibilizando os determinantes so-
ciais que abriram o esquema. Logo após, indicamos as críticas
a esse modelo, levando em conta os aspectos biopsicossociais
e culturais da doença, bem como a experiência do estigma. Em

14 © SOCIOLOGIA APLICADA À SAÚDE


CONTEÚDO INTRODUTÓRIO

oposição a abordagens etnocêntricas, enfatizamos a diversidade


cultural como perspectiva, incluindo a escuta à subjetividade do
paciente.

Figura 1 Esquema de Conceitos-chave de Sociologia Aplicada à Saúde.

© SOCIOLOGIA APLICADA À SAÚDE 15


CONTEÚDO INTRODUTÓRIO

4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BERGER, P.; LUCKMANN, T. A construção social da realidade. São Paulo: Vozes, 1986.
BOTTOMORE, T. B. Introdução à Sociologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1973.
CAPRA, F. A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. São
Paulo: Cultrix, 1997.
GOFFMAN, E. Manicômios, prisões e conventos. São Paulo: Perspectiva, 1974.
NUNES, E. D. Sobre a Sociologia da saúde: origens e desenvolvimento. São Paulo:
Hucitec, 1999.

16 © SOCIOLOGIA APLICADA À SAÚDE


UNIDADE 1
SAÚDE E SOCIEDADE: DESIGUALDADES E
DIFERENÇAS

Objetivos
• Compreender o que é a Sociologia e quais são seus principais autores.
• Identificar alguns conceitos básicos da análise sociológica.
• Entender a aplicação da Sociologia à área da Saúde, em especial no que
concerne à temática das desigualdades e diferenças.
• Analisar aspectos sociais que reproduzem a desigualdade na esfera da
saúde.

Conteúdos
• Introdução à Sociologia.
• Desigualdades socioeconômicas e saúde.
• Diferenças de gênero e “raça” na área da saúde.

Orientações para o Estudo da Unidade


Antes de iniciar o estudo desta unidade, leia as orientações a seguir:

1) Tenha sempre à mão o significado dos conceitos explicitados no Glossário


e suas ligações pelo Esquema de Conceitos-chave para o estudo de todas
as unidades deste material. Isso poderá facilitar sua aprendizagem e seu
desempenho.

2) Perceba, nesta unidade, como os autores de Sociologia procuram inter-


pretar a realidade social com base na sociedade em que se inserem. A

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UNIDADE 1 – SAÚDE E SOCIEDADE: DESIGUALDADES E DIFERENÇAS

maior parte das citações advém de teóricos europeus e, portanto, sua


problemática está ligada às sociedades do Velho Mundo. Busque contex-
tualizar a problemática trabalhada na sociedade em que você se insere.

3) Leia os livros da bibliografia indicada para que você amplie seus horizontes
teóricos. Coteje-os com o material didático e discuta a unidade com seus
colegas e com o tutor.

18 © SOCIOLOGIA APLICADA À SAÚDE


UNIDADE 1 – SAÚDE E SOCIEDADE: DESIGUALDADES E DIFERENÇAS

1. INTRODUÇÃO
O que a Sociologia Aplicada à Saúde pode oferecer ao pro-
fissional da saúde? Quais elementos das teorias e abordagens
sociológicas são fundamentais àqueles que lidam com pessoas
de diversas origens sociais em sua prática profissional? Uma
ciência da sociedade que lida com temas como desigualdade,
classe social, diferenças sociais constitui parte fundamental na
formação de profissionais voltados a questões sobre saúde, do-
ença, assistência e reabilitação? Essas são algumas das questões
que tentaremos responder nesta unidade. Nosso objetivo é sus-
citar um olhar sociológico à realidade você vai encontrar em seu
ofício cotidiano, possibilitando que ele se relacione com seus pa-
cientes e com a realidade mais ampla de forma crítica e levando
em conta sua complexidade.
Vamos começar?

2. CONTEÚDO BÁSICO DE REFERÊNCIA


O Conteúdo Básico de Referência apresenta, de forma su-
cinta, os temas abordados nesta unidade. Para sua compreensão
integral, é necessário o aprofundamento pelo estudo do Conteú-
do Digital Integrador.

2.1. UMA INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA

A Sociologia é um campo de estudo de enorme abrangên-


cia que procura analisar nosso próprio comportamento como se-
res sociais. Isso significa interpretar nossas vidas individuais com
base nos contextos de nossa experiência social.

© SOCIOLOGIA APLICADA À SAÚDE 19


UNIDADE 1 – SAÚDE E SOCIEDADE: DESIGUALDADES E DIFERENÇAS

De acordo com Anthony Giddens (2005, p. 24), um olhar


sociológico nos permite ver que “aquilo que encaramos como
natural, inevitável, bom ou verdadeiro, pode não ser bem assim
e que os ‘dados’ de nossa vida são fortemente influenciados por
forças históricas e sociais”.
Os temas de abordagem podem variar de relações no
âmbito microssocial, como o estudo de relações dentro de um
hospital psiquiátrico, a relações no âmbito macrossocial, como o
crescimento da indústria farmacêutica e sua relação com novas
patologias, apenas para citar alguns casos referentes à área da
Saúde.
Em uma perspectiva sociológica, é possível relacionar coi-
sas mais prosaicas àquelas que vivenciamos no nosso dia a dia,
com amplos contextos e processos complexos nos quais se inse-
rem. Para tanto, é necessária uma visão distanciada, que nos per-
mite ver o mundo social além dos nossos preconceitos, o que só
foi conquistado com a consolidação da Sociologia como ciência.
Esboçaremos alguns aspectos dessa ciência, iniciando com
uma rápida introdução à Sociologia e seus principais expoentes,
bem como as questões que nortearam seus temas originais.
Nascida no século 19, a Sociologia carregou em seus tó-
picos principais questões próprias de seu tempo. Os primeiros
sociólogos buscavam interpretar uma sociedade em transforma-
ção radical, sofrendo as consequências da Revolução Industrial,
que, além de transformar as relações de trabalho na sociedade,
fomentou a formação de conglomerados urbanos a partir do de-
senvolvimento do mercado.
A Revolução Francesa expandiu, desde o fim do século 18,
um modelo de organização política baseado na igualdade, ques-

20 © SOCIOLOGIA APLICADA À SAÚDE


UNIDADE 1 – SAÚDE E SOCIEDADE: DESIGUALDADES E DIFERENÇAS

tionando pressupostos religiosos do poder e demolindo privilé-


gios calcados na hereditariedade, antes aceitos como naturais.
Tais mudanças estavam sob o foco de discussão política e
intelectual ao redor do mundo. Mas foi sob a influência da re-
volução científica que os primeiros sociólogos formularam uma
ciência do social. O pensamento filosófico, notadamente negati-
vo, arvorou-se muito antes a refletir sobre a sociedade, mas era
sob uma nova base que as análises se estabeleceriam. O novo
pensamento sociológico então buscava, embasado em uma me-
todologia científica, decifrar a dinâmica própria da sociedade.
Muitos temas nortearam os primeiros sociólogos: a indus-
trialização, a emergência da propriedade industrial e as novas
relações sociais inerentes a ela, a tecnologia e o sistema fabril, a
situação da classe trabalhadora, a questão da secularização e a
democracia (NISBET, 1977).
Auguste Comte (1798-1857) foi o primeiro a utilizar o ter-
mo “sociologia” e propor um estudo positivo da sociedade, ou
seja, baseado em dados empíricos. Em outros termos, Comte
propunha que a sociedade deveria ser estudada sem o objetivo
de indagar o que ela deveria ser, e sim explicar o que ela é por
meio da utilização de métodos próprios (os quais hoje podem
abranger estatísticas, documentos oficiais, leis, entrevistas, et-
nografias etc.). Seus estudos foram, posteriormente, criticados
por elaborarem um arcabouço teórico generalizante que inter-
pretava as sociedades dentro de determinados estágios do “pro-
gresso humano”.
Èmile Durkheim (1858-1917) apoiava-se nos objetivos de
seu predecessor, ao mesmo tempo em que questionava os alcan-
ces de sua teoria calcada na ideia de progresso. Com o projeto
de tornar a Sociologia realmente uma ciência baseada em dados

© SOCIOLOGIA APLICADA À SAÚDE 21


UNIDADE 1 – SAÚDE E SOCIEDADE: DESIGUALDADES E DIFERENÇAS

empíricos, Durkheim (1999) foi o primeiro a delimitar rigorosa-


mente um objeto de pesquisa e uma metodologia.
Partindo de uma crítica aos pioneiros de uma ciência so-
cial, Durkheim (1999) rejeitava a ideia de que a sociedade seria
resultado de uma miríade de ações egoístas, enfatizando a di-
mensão moral que rege a vida social e conforma os indivíduos.
A sociedade era compreendida pelo clássico francês não como
mera somatória dos indivíduos, mas como uma realidade sui ge-
neris com dinâmica própria que se impõe a seus membros.
Ao definir como objetos da Sociologia os fatos sociais, res-
saltava os vínculos entre nossas maneiras de agir, pensar e sentir
e a sociedade em que nos inserimos. O fato social é considerado
exterior (independente dos indivíduos) e coercitivo (se impõe a
eles).
O mote de fundo para a pesquisa desse sociólogo francês
foi a preocupação com a regulação da sociedade, com a cons-
trução de um suporte moral que propiciasse integração social.
Na obra A Divisão do Trabalho Social (1893), a indagação central
é a maneira como se constitui, nas sociedades modernas, uma
coesão social que o autor chama de solidariedade orgânica, em
contraste com a solidariedade mecânica. Enquanto antes a coe-
são era garantida pela homogeneidade social, os controles e os
padrões morais, antes fornecidos pela religião e demais institui-
ções tradicionais, são largamente derrubados, podendo consti-
tuir situações anômicas, de desintegração social.
Durkheim preocupava-se em investigar, com as mudanças
advindas da especialização das tarefas propiciadas pela indus-
trialização, a consolidação de uma solidariedade caracterizada
pela interdependência entre os indivíduos que ocupam funções
distintas ( NISBET, 1977).

22 © SOCIOLOGIA APLICADA À SAÚDE


UNIDADE 1 – SAÚDE E SOCIEDADE: DESIGUALDADES E DIFERENÇAS

O alemão Karl Marx (1818-1883) também teve como seu


objeto de reflexão a divisão de trabalho das sociedades indus-
triais, mas, em seu caso, vinculada à análise da exploração do
trabalho que fundamenta a sociedade capitalista, havia notada-
mente uma sociedade de classes. Centrado nas relações sociais e
econômicas que permeiam a esfera (econômica) da produção de
mercadorias, Marx observou suas relações de interdependência
com outras esferas da sociedade, tais como a política e o merca-
do. Ele procurou analisar as contradições da sociedade capitalis-
ta, bem como os germes de sua possível superação já contidos
nela, apontando no futuro para uma sociedade sem classes, de-
nominada comunista (NISBET, 1977).
As contradições da sociedade capitalista são compreendi-
das a partir dos polos: capitalista/proletariado, que fundam as
formas de relação social predominantes neste modo de produ-
ção. O primeiro polo é marcadamente caracterizado pelo con-
trole dos meios de produção (as fábricas e seus equipamentos),
enquanto o segundo, por não possuir esses meios e pela necessi-
dade de vender sua força de trabalho, como mercadoria.
Estabelece-se um aspecto essencial da obra de Marx so-
bre o capitalismo: a alienação do trabalho. Esta se dá com a se-
paração entre o produto do trabalho e o trabalhador, já que o
produto final realizado pelo trabalhador não lhe pertence. Além
disso, o trabalhador não participa mais do processo global do
fruto de seu trabalho, desempenhando funções não criativas.
Assim, compreende-se que se constituem classes antagônicas e
se atribui à classe trabalhadora o papel de sujeito histórico na
superação das contradições próprias deste modo de produção
capitalista, abrindo espaço para uma sociedade igualitária que
constituiria, no futuro, uma sociedade sem classes, notadamen-
te comunista (NISBET, 1977).

© SOCIOLOGIA APLICADA À SAÚDE 23


UNIDADE 1 – SAÚDE E SOCIEDADE: DESIGUALDADES E DIFERENÇAS

As contradições da sociedade capitalista são compreendi-


das a partir dos polos: capitalista/proletariado, que fundam as
formas de relação social predominantes neste modo de produ-
ção. O primeiro polo é marcadamente caracterizado pelo con-
trole dos meios de produção (as fábricas e seus equipamentos),
enquanto o segundo, por não possuir esses meios e pela necessi-
dade de vender sua força de trabalho, como mercadoria.
Estabelece-se um aspecto essencial da obra de Marx so-
bre o capitalismo: a alienação do trabalho. Esta se dá com a se-
paração entre o produto do trabalho e o trabalhador, já que o
produto final realizado pelo trabalhador não lhe pertence. Além
disso, o trabalhador não participa mais do processo global do
fruto de seu trabalho, desempenhando funções não criativas.
Assim, compreende-se que se constituem classes antagônicas e
se atribui à classe trabalhadora o papel de sujeito histórico na
superação das contradições próprias deste modo de produção
capitalista, abrindo espaço para uma sociedade igualitária que
constituiria, no futuro, uma sociedade sem classes, notadamen-
te comunista (NISBET, 1977).
Considerado um sociólogo da virada do século, Max Weber
(1864-1920) teve contato com enorme adesão e mesmo simpli-
ficação do pensamento de Marx, conformando explicações do
social como determinadas pela esfera econômica. Em diálogo
crítico com esse pensamento, questionava: (1) a ideia de um pro-
cesso histórico em que as relações de produção de uma época
geram a seguinte, na medida em que para Weber a ciência não
tinha condição de prever, mas apenas de reconstituir determi-
nados problemas; (2) a preponderância do econômico que en-
fraquece a importância das significações culturais que também
movem a economia; (3) a perspectiva científica que se constitui

24 © SOCIOLOGIA APLICADA À SAÚDE


UNIDADE 1 – SAÚDE E SOCIEDADE: DESIGUALDADES E DIFERENÇAS

como concepção de mundo, com tendência à pesquisa (WEBER,


2006).
A clássica análise de Weber (2001), A ética protestante e o
espírito do capitalismo, é uma refutação de uma explicação eco-
nômica da origem de um ethos capitalista. Weber busca a origem
de um padrão de conduta que predispõe a vida capitalista na
esfera da cultura, dos valores advindos do ascetismo religioso
protestante. Por meio de pesquisa sócio-histórica, tece as liga-
ções entre a difusão de uma doutrina calvinista da predestinação
e o desenvolvimento de condutas nas quais a acumulação de ri-
queza se tornou um valor em si, separado das intenções de fruir
dessa riqueza.
A pessoa rica era vista como uma das eleitas, enquanto o
luxo era visto com maus olhos, assim, reinvestia-se o que foi acu-
mulado. Dessa forma, produziu-se uma predisposição ao traba-
lho que visava à rentabilidade. Posteriormente, esse ethos capi-
talista se difundiu, perdendo seu caráter religioso e tornando-se
uma “jaula de ferro”, na qual todos os indivíduos deveriam se-
guir, caso contrário, seriam excluídos na competição do merca-
do. Em sua acepção, portanto, do desenvolvimento do ascetismo
religioso a própria religião foi superada para a constituição de
um ethos baseado na rentabilidade capitalista.
Em outros escritos, Weber mostra que essa “jaula de ferro”
caracterizou todo o processo de racionalização do Ocidente, im-
pulsionando ações sociais cada vez menos voltadas à tradição e
à religião para as ligadas à racionalidade e à rentabilidade, crian-
do, de forma surpreendente, uma complexa estrutura social para
tais objetivos. A burocracia é uma de suas expressões-chave, ca-
racterizando as instituições públicas e privadas pela: acentuada

© SOCIOLOGIA APLICADA À SAÚDE 25


UNIDADE 1 – SAÚDE E SOCIEDADE: DESIGUALDADES E DIFERENÇAS

especialização, princípio da autoridade hierárquica, regulamen-


tação dos ofícios, fim dos privilégios etc. (NISBET, 1977).
O burocrata, na grande maioria dos casos, é apenas uma
engrenagem em um mecanismo sempre em movimento. O fun-
cionário recebe tarefas especializadas e, normalmente, o me-
canismo não pode ser posto em movimento ou detido por ele,
tal iniciativa tem que partir do “alto”. Em suma, no pensamento
weberiano, toda presunção iluminista da autonomia do ser hu-
mano, conquistada com o esclarecimento, passa a ser questio-
nada, ressaltando, nas palavras de Stuart Hall, como “o cidadão
tornou-se enredado nas maquinarias burocráticas e administra-
tivas [...]” (HALL, 2005, p. 30).
Marx, Weber e Durkheim são tidos como clássicos da So-
ciologia e suas abordagens ainda são interpretadas como im-
portantes para se compreender o mundo atual. Contudo, suas
reflexões também são produtos de sua época e não dão conta
de novas questões surgidas com as transformações da sociedade
durante o século 20. Muitos sociólogos contemporâneos elabo-
raram novas questões sobre a dinâmica do social na atualida-
de. Dentre esses sociólogos, citamos o francês Pierre Bourdieu
(1930-2002) e o britânico Stuart Hall (1932-), cujas ideias vamos
estudar nesta unidade.
Bourdieu (1983) usa o conceito de capital cultural para
compreender aspectos simbólicos do poder, ou seja, aspectos
não materializados em propriedades ou capital econômico que
reiteram a desigualdade social. Embora a noção de classes so-
ciais seja importante para o sociólogo francês, diferentemente
de Marx, que situa a desigualdade a partir da esfera da produ-
ção na polaridade entre proprietários dos meios de produção e
proletariado, Bourdieu (1983) analisa como a desigualdade se

26 © SOCIOLOGIA APLICADA À SAÚDE


UNIDADE 1 – SAÚDE E SOCIEDADE: DESIGUALDADES E DIFERENÇAS

perpetua a partir da mobilização de vantagens culturais incor-


poradas por indivíduos segundo a classe social a que pertencem
na sociedade.
O sucesso escolar, por exemplo, é intimamente associado à
herança cultural que o aluno traz de sua vivência familiar. Ao in-
vés de a escola ser encarada como uma instituição que transmite
o conhecimento de forma democrática, ela, na verdade, repro-
duz uma série de desigualdades que já estão inscritas na divisão
da sociedade em classes sociais, premiando alunos de origens
sociais privilegiadas.
Stuart Hall (2005) analisa as novas formas de se conceber
as identidades nas sociedades contemporâneas. Em seus textos,
coloca ênfase nas lutas simbólicas, as lutas por definição das
identidades culturais, ou seja, “aqueles aspectos de nossas iden-
tidades que surgem de nosso ‘pertencimento’ a culturas étnicas,
raciais, linguísticas, religiosas e, acima de tudo, nacionais” (HALL,
2005, p. 8).
Considerando a sociedade contemporânea caracterizada
por vários eixos de poder, a questão da classe social deixou de
ser a única que adquire centralidade, concorrendo com outros
tipos de relação, tais como étnico-raciais, de gênero etc.
O sujeito na sociedade contemporânea é constituído em
“uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades
possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar –
ao menos temporariamente” (HALL, 2005, p. 13).
Levando em conta que a sociedade define certos padrões
como dominantes, notadamente o homem branco, ocidental e
heterossexual, a análise sociológica deve apreender como as di-

© SOCIOLOGIA APLICADA À SAÚDE 27


UNIDADE 1 – SAÚDE E SOCIEDADE: DESIGUALDADES E DIFERENÇAS

ferenças culturais – e não apenas as socioeconômicas – emba-


sam relações de desigualdade.

Com as leituras propostas no Tópico 3. 1., você vai acom-


panhar como as diferenças e as desigualdades se interconec-
tam e perpassam as dinâmicas de poder nas sociedades. Antes
de prosseguir para o próximo assunto, realize as leituras indi-
cadas, procurando assimilar o conteúdo estudado.

2.2. SAÚDE, DESIGUALDADES E DIFERENÇAS

Sendo a temática das desigualdades central na abordagem


da Sociologia, podemos nos perguntar: como ela se relaciona
com a questão da saúde? Antes de adentrarmos na análise so-
ciológica, vamos pensar em outra explicação recorrente para as
diferenças no acesso às melhores condições de saúde para, em
seguida, refutá-la. No caso, trata-se da explicação que parte dos
estilos de vida como opção individual:
[...] Classes sociais mais baixas tendem a engajar-se em certas
atividades – tais como tabagismo, dietas pobres e o elevado
consumo alcoólico – que são prejudiciais à saúde. Esse argu-
mento considera os indivíduos como os principais responsáveis
pela saúde precária, uma vez que a escolha por um estilo de
vida é feita livremente [...] (GIDDENS, 2005, p. 133).

Giddens (2005) questiona a validade de tal argumento,


muito embora afirme que ele é importante na atualidade, sendo
presente em abordagens midiáticas das questões de saúde, bem
como de políticas governamentais que priorizam campanhas de
conscientização para mudanças de hábitos de comportamento.
Nas palavras do autor:

28 © SOCIOLOGIA APLICADA À SAÚDE


UNIDADE 1 – SAÚDE E SOCIEDADE: DESIGUALDADES E DIFERENÇAS

[...] Campanhas como essas exortam os indivíduos a assumirem


a responsabilidade pelo próprio bem-estar; elas prestam me-
nos atenção no modo como a posição social pode forçar a esco-
lha das pessoas e as possibilidades [...] (GIDDENS, 2005, p. 133).

Em síntese, trata-se da culpabilização do indivíduo, já que


sua doença é vista como causada por determinado estilo de vida
imprudente. O acesso a determinada dieta, tempo livre e facili-
dade de transporte para praticar esporte, medicina preventiva
de qualidade, bem como sua relação com a posição que deter-
minado indivíduo ocupa na sociedade são desconsiderados ou
subestimados.
Pierre Bourdieu (1983) demonstra como estilos de vida es-
tão intimamente ligados às posições no espaço social, entendido
como espaço de relações objetivas entre classes sociais. Embo-
ra seus estudos não centralizem a questão da saúde, oferecem-
-nos subsídios para refletir sobre a relação entre estilos de vida
e saúde. O cuidado com o corpo e a saúde é tema que ocupa
programas televisivos, revistas semanais, web sites, tornando-se
um valor social estimado na contemporaneidade.
Não obstante, a sua prática depende de certas condições
anteriores à vontade dos indivíduos: a capacidade de se distan-
ciar de fins práticos, ou daquilo que o sociólogo francês chama
de “distância objetiva com relação à necessidade”, própria do
princípio da experiência das classes privilegiadas do mundo. Dis-
tinta do senso comum, conforme o qual se acredita que os gos-
tos e os estilos de vida se tratam especialmente de algo delimita-
do estritamente pelo indivíduo. Nessa perspectiva, postula-se a
vinculação entre estilo de vida e classe social (BOURDIEU, 1983).
Percebemos, portanto, que, ao considerar a saúde, não
podemos deixar de lado a análise da classe social que confere

© SOCIOLOGIA APLICADA À SAÚDE 29


UNIDADE 1 – SAÚDE E SOCIEDADE: DESIGUALDADES E DIFERENÇAS

privilégios materiais e culturais desiguais que incidem, também,


na esfera da saúde. A classe social é uma classificação que alo-
ca certos indivíduos em certos grupos, conforme a posição na
qual eles se inserem na estrutura de relações socioeconômicas
de uma sociedade.
Em outras palavras, a sociedade capitalista é estratificada,
sendo os indivíduos classificados em determinadas classes se-
gundo seu acesso à riqueza e a certas ocupações profissionais.
Na área da saúde, a classe social influencia taxas de altura, peso,
visão, nutrição e, ligadas a ela, de morbidade e mortalidade.
De acordo com Anthony Giddens (2005, p. 131): “indivídu-
os de altas posições socioeconômicas são, em média, mais sau-
dáveis, altos e fortes, e vivem mais tempo do que os de baixa
escala social”. Com base nessa ideia, notamos que há um ele-
mento eminentemente social – para além do alcance dos indiví-
duos – que define o acesso às melhores condições de saúde para
aqueles alocados nas classes privilegiadas da sociedade.
Giddens (2005) ainda ressalta como em sociedades capita-
listas se constata a lei de “inversão de assistência à saúde”, refor-
çando as desigualdades. Em suas palavras:
[...] Alguns sociólogos notaram que a necessidade de cuidado
com a saúde entre a população nem sempre corresponde aos
recursos disponíveis. Em outras palavras, os grupos cuja saúde
é mais precária vivem frequentemente em regiões de menor
recurso. Essa tendência ao fornecimento assimétrico de saúde
é conhecida como a lei de inversão de assistência à saúde [...]
(GIDDENS, 2005, p. 137).

Vamos pensar em um caso hipotético: uma pessoa de clas-


se alta normalmente possui nível de instrução mais alto e tem
mais acesso a informações, ou seja, acumula capital cultural, o
que permite que essa pessoa obtenha mais informações sobre

30 © SOCIOLOGIA APLICADA À SAÚDE


UNIDADE 1 – SAÚDE E SOCIEDADE: DESIGUALDADES E DIFERENÇAS

sua alimentação e saiba como procurar médicos especialistas


preventivamente. Em geral, as classes populares procuram mais
os médicos, mas, normalmente, procuram-nos quando estão já
com problemas mais avançados. Já as pessoas mais abastadas
procuram menos os médicos, mas de forma preventiva.
Embora estejamos lidando com um elemento econômico
fundamental na desigualdade de acesso à saúde, não se trata de
uma acepção vinculada estritamente ao econômico, mas tam-
bém à reprodução das desigualdades socioeconômicas em desi-
gualdades de acesso à saúde.
Giddens (2005, p. 136), baseando-se em pesquisa de Ri-
chard Wilkinson, afirma que:
as sociedades mais saudáveis no mundo não são os países mais
ricos, mas aquelas nas quais a renda é distribuída de modo mais
uniforme e nas quais os níveis de integração social são mais
elevados.

Há uma relação diretamente proporcional entre taxas de


mortalidade e padrões de distribuição de renda, sendo Japão e
Suécia os países de sociedades consideradas mais igualitárias,
desfrutando de melhores níveis de saúde. Além das questões so-
cioeconômicas, em uma perspectiva também atenta às diferen-
ças culturais, observamos que a classe social se vincula a inúme-
ras variáveis para compor os aspectos sociais da saúde, dentre
elas podemos citar gênero e “raça”.
Tendo como modelo a sociedade inglesa, Giddens (2005)
explora como a incidência de doenças varia entre pacientes ho-
mens e mulheres. Dá como exemplo que “as mulheres vivem
mais do que os homens, mas são mais suscetíveis a contraírem
doenças e a experimentarem mais problemas de deficiência”
(GIDDENS, 2005, p. 133).

© SOCIOLOGIA APLICADA À SAÚDE 31


UNIDADE 1 – SAÚDE E SOCIEDADE: DESIGUALDADES E DIFERENÇAS

De outro lado, os homens apresentam mais casos de mor-


te por problemas cardíacos, além de apresentarem “maiores ín-
dices de morte por acidentes e violência, sendo mais propensos
a dependência de drogas e álcool” (GIDDENS, 2005, p. 133). A
relação entre a procura por assistência médica também varia,
sendo as mulheres mais propensas a procurarem cuidados mé-
dicos e apresentarem maiores taxas de doenças detectadas por
meio de autoexame do que os homens.
Tais aspectos estão longe de ser explicáveis somente com
base na Biologia ou na genética e requerem explicações sociais.
Essas questões nos levam a uma das correntes mais impactantes
da Sociologia na atualidade: os estudos de gênero.
Para a historiadora Joan Scott (1990, p. 12), “o gênero é
um elemento constitutivo de relações sociais fundadas sobre as
diferenças percebidas entre os sexos, e o gênero é um primeiro
modo de dar significado às relações de poder”.
A elaboração do conceito de gênero significou uma recu-
sa ao determinismo biológico e permite refletir sobre as formas
como ser mulher e ser homem variam de sociedade para socie-
dade e de época para época. Esse conceito foi criado entre 1960
e 1970, notadamente quando as mulheres passaram a ocupar
decisivamente os bancos universitários. O gênero embasa uma
forma de compreender o mundo social partindo da dominação
masculina, a qual deve ser compreendida como histórica e, por-
tanto, passível de ser transformada.
O gênero é uma construção relacional, ou seja, baseado
em noções, como masculino e feminino, que estão sempre em
relação. O masculino só se define em oposição ao feminino e vi-
ce-versa. Tais oposições são internalizadas no processo de socia-
lização, ou seja, quando, desde crianças, tomamos contato com

32 © SOCIOLOGIA APLICADA À SAÚDE


UNIDADE 1 – SAÚDE E SOCIEDADE: DESIGUALDADES E DIFERENÇAS

um repertório cultural que define possibilidades e limites do que


significa ser homem e ser mulher, encorajando certas escolhas
tidas como apropriadas e outras como inadequadas.
Historicamente, o masculino definiu-se em sua relação
com o público, enquanto o feminino com o privado. Nesse as-
pecto, compreende-se por que certas profissões ligadas ao cui-
dado (como o magistério e a Enfermagem) estão entre as mais
procuradas pelas mulheres.
Embora seja inegável a posição privilegiada dos homens
na sociedade – ocupando os espaços decisórios na sociedade,
de chefia no mercado profissional e posições mais remuneradas
mesmo quando exercem as mesmas funções –, a masculinidade
também se define por uma série de exigências, já que se consti-
tui como:
uma noção eminentemente relacional, construída diante dos
outros homens, para os outros homens e contra a feminilidade,
por uma espécie de medo do feminino, e construído, primeira-
mente, dentro de si mesmo [...] (BOURDIEU, 2002, p. 67).

Nesse aspecto, compreende-se como o ser homem está


vinculado a exigências culturais de afastar-se do feminino e viri-
lizar-se diante de outros homens. Nas questões de saúde, isso se
reverte na baixa procura dos homens, em relação às mulheres,
por exames médicos preventivos, além de maior exposição a ris-
cos na esfera pública.
As mulheres, em posições socialmente desfavorecidas,
normalmente assumindo múltiplos papéis, como acúmulo de
trabalho doméstico, cuidado com crianças e responsabilidades
profissionais, apresentam mais causas prováveis de estresse. As-
sociados a questões econômicas, tendem a enfrentar mais pro-
blemas de saúde com o envelhecimento, já que “mulheres mais

© SOCIOLOGIA APLICADA À SAÚDE 33


UNIDADE 1 – SAÚDE E SOCIEDADE: DESIGUALDADES E DIFERENÇAS

velhas tendem a ter rendimentos mais baixos que os homens”


(GIDDENS, 2005, p. 133).
Outro retrato da subalternização social das mulheres, mais
propensas a cuidarem de filhos e mesmo tomarem conta de fa-
mílias depois da separação, constata-se: “as mães solteiras, de
modo geral, possuem uma saúde mais precária (que a dos ho-
mens)” (GIDDENS, 2005, p. 133).
Mais um aspecto fundamental na abordagem da saúde é
o “racial”. Usa-se o termo entre aspas para sinalizar que não se
trata de uma noção biológica, mas sociológica. Há muito tempo
deixou-se de acreditar que a humanidade é dividida em raças em
termos biológicos. Especialmente depois do holocausto nazista,
as teorias científicas racialistas foram questionadas (HOFBAUER,
2006).
“Raça”, em um sentido sociológico, diz respeito a como as
pessoas são percebidas e, muitas vezes, discriminadas segundo
algumas características fenotípicas: como cor da pele, formação
do nariz, tipo do cabelo ou pertença a determinado grupo cultu-
ral com ancestralidade específica, por exemplo: os afro-brasilei-
ros, os brancos e os indígenas no Brasil.
Em Sociologia, mencionam-se racializações (BRAH, 2006),
ou seja, formas de classificação e hierarquização de grupos cul-
turais que se materializam de modo diferente em cada contexto.
E cada contexto nacional apresenta sua história racial.
Voltando ao contexto inglês, Anthony Giddens (2005) cons-
tatou a incidência maior de certas doenças, tais como câncer de
fígado, tuberculose e diabete, além de anemia falciforme, en-
tre indivíduos de origem afro-caribenha e asiática. Já as pessoas
oriundas do subcontinente indiano apresentavam doenças car-

34 © SOCIOLOGIA APLICADA À SAÚDE


UNIDADE 1 – SAÚDE E SOCIEDADE: DESIGUALDADES E DIFERENÇAS

díacas e raquitismo entre crianças. Novamente, a genética não


dá conta de explicá-las. Explicações culturais e comportamentais
centradas nos estilos de vida surgiram como um meio de culpa-
bilização das diferenças culturais dos problemas de saúde:
[...] Eles são geralmente considerados como ligados a crenças
religiosas ou culturais, como hábitos dietéticos e culinários ou
consangüinidade (a prática de casamento dentro das famílias
em nível de primos em segundo grau). Pode-se, no entanto,
acusar essas abordagens de assumirem uma visão etnocêntrica
de saúde [...] (GIDDENS, 2005, p. 136).

Etnocentrismo é a prática de julgar negativamente outras


culturas partindo de nossos padrões culturais, considerando-as
atrasadas. Historicamente, tal acepção fundamentou a conquis-
ta colonial e a subjugação de povos à escravidão. Mas como ve-
mos, não é incomum, até nos dias de hoje, remeter-se a culturas
distintas como “primitivas”, “não evoluídas”, “incultas” etc. Tal
visão mascara aspectos sociais fundamentais no que diz respeito
ao acesso a condições básicas de saúde de certos grupos cultu-
rais marginalizados socialmente.
Tais interpretações sofreram críticas e:
os críticos argumentam que as explicações culturais fracassa-
ram em identificar o verdadeiro problema – as desigualdades
estruturais que afetam os grupos étnicos, o racismo e a discri-
minação que encontram no sistema de saúde [...] (GIDDENS,
2005, p. 136).

Afro-caribenhos e asiáticos na sociedade inglesa vivenciam


situações prejudiciais como “condições habitacionais precárias
ou saturadas, as elevadas taxas de desemprego e a exposição ex-
cessiva de ocupações arriscadas e mal remuneradas” (GIDDENS,
2005, p. 136).

© SOCIOLOGIA APLICADA À SAÚDE 35


UNIDADE 1 – SAÚDE E SOCIEDADE: DESIGUALDADES E DIFERENÇAS

No caso brasileiro, pensar na saúde sob a perspectiva das


relações étnico-raciais inclui compreender a desigualdade de
acesso à saúde da população branca, negra e indígena. Não se
trata apenas de questões socioeconômicas e da percepção de
que tais grupos culturais ocupam posições sociais inferiores no
acesso à educação e a bens materiais. Trata-se também de consi-
derar as especificidades do racismo, como forma de discrimina-
ção, no contexto brasileiro, e seus impactos no âmbito da saúde.
Levar em conta a saúde indígena inclui refletir sobre como
as sociedades distintas imaginam a saúde e a doença e dialo-
gar com elas, evitando a visão etnocêntrica. Trata-se de superar
um aspecto recorrente no qual se perpetuam as desigualdades,
quando “as idéias culturais específicas de doenças e tratamento
muitas vezes são desconsideradas por profissionais no interior
do serviço de saúde” (GIDDENS, 2005, p. 137).
Abordamos como as variáveis de classe, gênero e “raça”
impactam as desigualdades de acesso à saúde. No entanto, o fi-
zemos de forma separada, e, na realidade concreta, esses marca-
dores sociais estão intersectados. Para a socióloga inglesa Avtar
Brah (2006, p. 351):
[...] estruturas de classe, racismo, gênero e sexualidade não
podem ser tratadas como ‘variáveis independentes’ porque a
opressão de cada uma está inscrita dentro de outra – é consti-
tuída pela outra e é constitutiva dela [...].

Nesse aspecto, quando lidamos com a realidade concreta,


podemos, por exemplo, nos deparar com um histórico de doen-
ças de uma mulher negra e, sob o olhar sociológico, somos aptos
a compreender suas relações com as diversas dimensões de sua
vida intersectadas. Em uma abordagem sociológica, portanto,

36 © SOCIOLOGIA APLICADA À SAÚDE


UNIDADE 1 – SAÚDE E SOCIEDADE: DESIGUALDADES E DIFERENÇAS

aspectos socioeconômicos e diferenças culturais devem ser ana-


lisados de forma imbricada.
Compreender o aspecto abordado nesta unidade implica
refletir sobre a necessidade de políticas de saúde articuladas
com políticas sociais. Em outros termos, a concretização do di-
reito à saúde está atrelada a direitos sociais e econômicos. Além
disso, está vinculada a políticas de reconhecimento das diferen-
ças em sua igual dignidade. Concluímos que pobreza, racismo
e assimetrias de gênero contribuem decisivamente para montar
um quadro epidemiológico desigual.

As leituras indicadas no Tópico 3. 2. tratam da saúde e da


sociedade no Brasil. Neste momento, você deve realizar essas
leituras para aprofundar o tema abordado.

Vídeo complementar ––––––––––––––––––––––––––––––––


Neste momento, é fundamental que você assista ao vídeo complementar.
• Para assistir ao vídeo, pela Sala de Aula Virtual, clique no ícone Video-
aula, localizado na barra superior. Em seguida, selecione o nível de seu
curso (Graduação), a categoria (Disciplinar) e o tipo de vídeo (Comple-
mentar). Por fim, clique no nome da disciplina para abrir a lista de vídeos.
• Para assistir ao vídeo pelo seu CD, clique no Botão “Vídeos” e selecione:
Sociologia Aplicada à Saúde – Vídeos Complementares – Complementar
1.
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––

© SOCIOLOGIA APLICADA À SAÚDE 37


UNIDADE 1 – SAÚDE E SOCIEDADE: DESIGUALDADES E DIFERENÇAS

3. CONTEÚDO DIGITAL INTEGRADOR


O Conteúdo Digital Integrador representa uma condição
necessária e indispensável para você compreender integralmen-
te os conteúdos apresentados nesta unidade.

3.1. DIFERENÇAS E DESIGUALDADES

Nesta unidade, discutimos questões sociológicas próprias


da temática das diferenças e das desigualdades em suas implica-
ções na saúde. Vamos, agora, por meio de textos complementa-
res, aprofundar nossos conhecimentos sobre como as diferenças
e as desigualdades se interconectam e perpassam as dinâmicas
de poder nas sociedades.
• ARAÚJO, M. F. Diferença e igualdade nas relações de
gênero: revisitando o debate. Revista Psicologia Clínica,
Rio de Janeiro, v. 17, n. 2, p. 41-52, 2005. Disponível em:
<http://www.scielo.br/pdf/pc/v17n2/v17n2a04.pdf>.
Acesso em: 4 set. 2014.
• SANTOS, B. S. A construção multicultural da igualdade
e da diferença. In: VII CONGRESSO BRASILEIRO DE SO-
CIOLOGIA, 1995, Rio de Janeiro. Anais eletrônicos...
Rio de Janeiro: Instituto de Filosofia e Ciência Sociais
da Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1995. Dis-
ponível em: <http://www.ces.uc.pt/publicacoes/ofici-
na/135/135.pdf>. Acesso em: 4 set. 2014.

38 © SOCIOLOGIA APLICADA À SAÚDE


UNIDADE 1 – SAÚDE E SOCIEDADE: DESIGUALDADES E DIFERENÇAS

3.2. SAÚDE E SOCIEDADE

Pensar nos determinantes sociais da saúde significa com-


preender as dimensões sociais e culturais da incidência das do-
enças. A seguir, indicamos textos acadêmicos e governamentais
que nos ajudam a embasar uma reflexão cara à sociedade brasi-
leira. Como refletir sobre a saúde no Brasil levando em conta as
desigualdades e as diferenças?
• BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Gestão Estra-
tégica e Participativa. Departamento de Apoio à Gestão
Participativa. Política nacional de saúde integral da po-
pulação negra: uma política para o SUS. Brasília: Editora
do Ministério da Saúde, 2010. Disponível em: <http://
bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/politica_saude_
integral_populacao_negra.pdf>. Acesso em: 4 set. 2014.
• DUARTE, E. C. et al. Epidemiologia das desigualdades em
saúde no Brasil: um estudo exploratório. Brasília: Orga-
nização Pan-Americana da Saúde, 2002. Disponível em:
<http://repositorio.unb.br/bitstream/10482/12955/1/
LIVRO_EpidemologiaDesigualdades.pdf>. Acesso em: 4
set. 2014.
• FERRAZ, D.; KRAICZYK, J. Gênero e políticas públicas de
saúde: construindo respostas para o enfrentamento
das desigualdades no âmbito do SUS. Revista de Psico-
logia da Unesp, v. 9, n. 1, p. 70--82, 2010. Disponível
em: <http://www2.assis.unesp.br/revpsico/index.php/
revista/article/viewFile/166/215>. Acesso em: 4 set.
2014.

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UNIDADE 1 – SAÚDE E SOCIEDADE: DESIGUALDADES E DIFERENÇAS

4. QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS
A autoavaliação pode ser uma ferramenta importante para
você testar o seu desempenho. Se encontrar dificuldades em
responder às questões a seguir, você deverá revisar os conteú-
dos estudados para sanar as suas dúvidas.
1) Leia as afirmações e assinale a alternativa correta:
I - A Sociologia clássica (de Marx, Weber e Durkheim) lidava com temas
relativos à singularidade da formação de uma sociedade moderna,
desenvolvida a partir das Revoluções Industrial e Francesa.
II - A divisão social do trabalho é objeto de reflexão de Durkheim e Marx.
Enquanto o sociólogo francês buscava analisar as contradições que
advieram com a industrialização e a alienação do trabalho, o alemão
compreendia possíveis novas formas de integração social com a nova
divisão.
III - Max Weber, sociólogo da virada do século, era um crítico de análises
que se baseavam na determinação unívoca do econômico para a com-
preensão do social. Na obra A ética protestante e o espírito do capita-
lismo (2001), o autor analisa como uma formação cultural e religiosa
influenciou na constituição de uma conduta voltada à rentabilidade.
a) As alternativas I e II estão corretas.
b) As alternativas I e III estão corretas.
c) Somente a alternativa I está correta.
d) Somente a alternativa II está correta.
e) Todas as alternativas estão corretas.

2) Leia as afirmações e assinale a alternativa correta:


I - Enquanto Marx interpreta os conflitos de classe social como os mais
importantes da sociedade moderna, Stuart Hall (2005) postula que
nas sociedades contemporâneas os conflitos se baseiam em grande
parte nas lutas simbólicas centradas em identidades culturais, dentre
elas étnicas e “raciais”.

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UNIDADE 1 – SAÚDE E SOCIEDADE: DESIGUALDADES E DIFERENÇAS

II - Pierre Bourdieu interpreta as desigualdades sociais não apenas va-


lendo-se das questões econômicas, mas colocando ênfase na relação
entre classes sociais e seus aspectos culturais.
III - Bourdieu considera que o capital simbólico é algo que o indivíduo acu-
mula independentemente de sua classe social.
a) As alternativas I e II estão corretas.
b) As alternativas I e III estão corretas.
c) Somente a alternativa I está correta.
d) Somente a alternativa II está correta.
e) Todas as alternativas estão corretas.

3) Sobre a relação entre desigualdades socioeconômicas, diferenças cultu-


rais e saúde, é possível afirmar que:
a) As classes sociais mais baixas optam por estilos de vida mais prejudi-
ciais à saúde.
b) Para Giddens, as sociedades que possuem os melhores índices de saú-
de são as mais ricas.
c) As diferenças entre homens e mulheres nos índices de saúde, nas cau-
sas de mortalidade e na busca por assistência médica são determina-
das estritamente por razões biológicas e não sociais.
d) As diferenças de gênero, “raça”, imbricadas com as desigualdades
socioeconômicas, são responsáveis pela desigualdade nos índices de
saúde.
e) É possível explicar as deficiências da saúde de diferenças étnico-raciais,
como os grupos indígenas, pelo seu atraso cultural.

Gabarito
Confira, a seguir, as respostas corretas para as questões autoavaliativas
propostas:

1) b.

2) a.

3) d.

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UNIDADE 1 – SAÚDE E SOCIEDADE: DESIGUALDADES E DIFERENÇAS

5. CONSIDERAÇÕES
Nesta unidade, abordamos uma introdução à Sociologia,
o contexto social em que surgiu, seus principais autores e con-
ceitos. Além disso, apresentamos alguns autores contemporâne-
os fundamentais que atualizaram reflexões importantes caras à
nossa realidade atual. Por fim, analisamos as relações entre as
problemáticas da Sociologia e a área da saúde. Demos destaque
especial às temáticas da desigualdade socioeconômica e das di-
ferenças de gênero e “raça” e suas implicações nos índices de
saúde.
Na próxima unidade, vamos abordar, por meio de uma
análise sócio-histórica, a importância das políticas públicas de
saúde no contexto de modernização da sociedade. Em uma visão
crítica e influenciada pelo teórico Michel Foucault (1926-1984),
estudaremos sobre a importância do saber médico e suas rela-
ções com mecanismos de poder e controle do corpo individual e
populacional.

6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BOURDIEU, P. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.
______. Questões de Sociologia. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1983.
BRAH, A. Diferença, diversidade, diferenciação. Cadernos Pagu, Campinas, Núcleo de
Estudos de Gênero Pagu/Unicamp, n. 26, p. 329-376, 2006.
DURKHEIM, É. As regras do método sociológico. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
GIDDENS, A. Sociologia do corpo: saúde, doença e envelhecimento. In: ______.
Sociologia. Porto Alegre: Artmed, 2005.
________. Modernidade e identidade pessoal. Oeiras/Portugal: Celta Editora, 1997.
HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.

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UNIDADE 1 – SAÚDE E SOCIEDADE: DESIGUALDADES E DIFERENÇAS

HOFBAUER, A. Uma história de branqueamento ou o negro em questão. São Paulo:


Unesp, 2006.
IANNI, O. (Org.). Introdução. In: MARX, K. Sociologia. São Paulo: Ática, 1980 (Coleção
Grandes Cientistas Sociais, 10). p. 7-42.
NISBET, R. La formación del pensamiento sociológico. Buenos Aires: Amorrortu
Editores, 1977.
SCOTT, J. W. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Revista Educação e
Realidade, Porto Alegre, v. 16, n. 2, p. 5-22, jul./dez. 1990.
WEBER, M. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Centauro, 2001.
______. A “objetividade” do conhecimento nas Ciências Sociais. São Paulo: Ática, 2006.

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