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Revista de Psicologia

A TRANSIÇÃO DO ENSINO MÉDIO PARA A UNIVERSIDADE: UM ESTUDO QUALITATIVO


SOBRE OS FATORES QUE INFLUENCIAM ESTE PROCESSO E SUAS
POSSÍVEIS CONSEQUÊNCIAS COMPORTAMENTAIS
THE TRANSITION FROM HIGH SCHOOL TO COLLEGE: A QUALITATIVE
Revista STUDY OF THE FACTORS THAT INFLUENCE THIS PROCESS
de Psicologia AND THEIR POSSIBLE BEHAVIORAL CONSEQUENCES

Ana Paula Moreno Pinho 1 Laís Carvalho Dourado 2 Rebeca Martins Aurélio 3
Antonio Virgílio Bittencourt Bastos 4

Resumo
A entrada na Universidade para muitos jovens é marcada por uma fase de transição caracterizada por diversas mudanças que
interferem em seu desenvolvimento psicossocial, além do profissional. O presente trabalho teve como objetivo a análise dos fatores
que influenciaram na adaptação do aluno, egresso do ensino médio, à vida universitária, bem como a identificação das mudanças
comportamentais ocorridas em função desse processo de transição acadêmica. O estudo foi realizado através de entrevistas semi-
estrutadas com 8 estudantes pertencentes a diferentes cursos. Os dados foram analisados através da análise de conteúdo e categorizados
em dois segmentos: Fatores que Influenciaram na Adaptação e Mudanças Comportamentais. Os resultados indicaram o destaque de
sete categorias para o primeiro bloco – Infraestrutura; Informação sobre a Universidade e o curso; Fatores Externo à Universidade;
Aspectos Organizacionais; Material de Estudo; Vínculos e Professores – e quatro categorias para o segundo bloco - Aspectos pessoais;
Organização pessoal para o estudo; Tempo e Sintomas. O estudo contribui para pontuar as dificuldades encontradas pelos alunos
ingressantes no contexto da universidade e proporcionou melhor compreensão sobre a transição acadêmica.

Palavras-chave: Transição acadêmica; ensino médio, vida universitária, mudanças comportamentais, fatores de evasão

Abstract
For many young people, joining the university is marked by a transition process characterized by several changes that both affect and
influence their psychosocial - as well as their professional - development. This work aims to analyze the factors that have ultimately
been influencing the student’s acclimation from high school up to his or her university life. Besides that, looked for identification of
behavioral changes occurred because of this process of academic transition. The study was conducted through eight semi-structered
interviews with students ranging from different courses. The collected data was analyzed using the approach of content analysis and
categorized into two segments: a) Factors that have influenced the student’s adaptation on campus; b) Behavioral changes. The results
highlighted seven (7) categories concentrated on a first block: Infrastructure; Information about the university and course; Factors
external to the university; Organizational Aspects; Material of Study; Attachment and Professors — and four (4) categories concentrated
on a second block: a) Personal aspects; b) Personal Planinng to the Studies; c) Time and d) Symptom. This work contributes to
punctuate difficulties encountered by freshmen on campus and provide better understanding of the academic transition.

Keywords: academic transition; high school; university life; behavioral changes; academic evasion factors

1
Doutora em Administração, UFBA, 2009. Pesquisadora da Superintendência de Avaliação e Desenvolvimento Institucional e do Instituto de Psicologia da
Universidade Federal da Bahia através do Programa de Pós doutorado (PPGPsi/UFBA). Endereço para correspondência: SUPAD/UFBA. Av. Ademar de
Barros, s/n - Pavilhão 04, Campus Universitário de Ondina. Salvador-BA. CEP: 40170-110. E-mail: anamorenopinho@gmail.com , anabrito@ufba.br.
2
Psicóloga formada pela Universidade Federal da Bahia, 2014. Rua Elxcesior, 50. Subaé, Feira de Santana, BA. E-mail: lai_cdourado@hotmail.com.
3
Psicóloga formada pela Universidade Federal da Bahia, 2013. CRAS. R. Gabriel Rodrigues Júnior, 76, Centro • Ipaporanga, CE. CEP: 62215-000. E-mail:
rebecaurelio@gmail.com.
4
Doutor em Psicologia, UnB, 1994. Professor Titular do Instituto de Psicologia - UFBA. Professor do Programa de Pós-Graduação em Psicologia - PPGPsi/
UFBA Endereço para correspondência: SUPAD/UFBA. Av. Ademar de Barros, s/n - Pavilhão 04, Campus Universitário de Ondina. Salvador-BA. CEP: 40170-
110. E-mail: virgilio@ufba.br antoniovirgiliobastos@gmail.com.

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INTRODUÇÃO contato com um maior número de pessoas,


de ideologias, atitudes e comportamentos.
A entrada do estudante na universi-
Assim, os momentos iniciais de adaptação
dade é marcada por processos complexos
são delicados já que o sujeito tem que de-
de transição e adaptação, além de conflitos
senvolver vários tipos de habilidades para
e questões novas a nível pessoal, que po-
conseguir se inserir sem vivenciar conflitos
dem ser decorrentes tanto das exigências as
que ultrapassem o nível de seu próprio li-
quais o mesmo está submetido em função
mite, caso contrário, poderá acarretar em
do seu vínculo com a universidade como
decisões como o abandono do curso. A rede
pelos aspectos muito mais amplos e pesso-
externa tem um papel fundamental ao dar
ais que fazem parte das mudanças comuns
suporte nessa etapa de passagem, bem
a esta etapa do desenvolvimento (Almeida,
como a colocação do sujeito em um novo
Soares & Ferreira, 2000). Independente
meio. Sendo assim, amizades mais antigas
dos fatores que geram estes conflitos, eles
e a família podem influenciar na relação do
surgem como barreiras ao aprendizado, ao
estudante com o curso e a universidade.
serem tratados permitem que o indivíduo
se adapte melhor ao ambiente universitá- Um dos aspectos que faz parte da
rio, se integre e tenha sua formação acadê- variável pessoal é a autonomia que é de-
mica com o maior grau de aproveitamento, senvolvida, principalmente, quando se tra-
além de garantir seu desenvolvimento pes- ta da maneira como o estudante lida com
soal. Desta maneira, os primeiros momen- um ambiente menos estruturado do que,
tos dessa fase de transição e adaptação são por exemplo, o que ele encontrava no ensi-
de fundamental importância para garantir no médio, além de ser um aspecto que mar-
a permanência no curso, bem como a for- ca a entrada na vida adulta. Desenvolver
ma como este estudante irá se envolver e outras competências também é um fator
lidar com a sua vida acadêmica, pois, pos- pessoal que se configura na nova conjuntu-
sivelmente aqueles que se adaptam melhor ra em que o indivíduo está inserido (Papa-
terão mais chances de possuir um melhor lia & Olds, 2000). Assim, o tornar-se inde-
desempenho acadêmico (Teixeira, Dias, pendente, conseguir gerir melhor as suas
Wottrich & Oliveira, 2008). emoções, criar laços interpessoais mais
maduros, além de estabelecer e delimitar
Almeida et al. (2000) destacam três
sua identidade são ações que fazem parte
variáveis principais que interferem no pro-
do processo de adaptação e transição para
cesso de adaptação do estudante: pessoal,
a vida acadêmica e são base para outras
acadêmica e contexto. Todas essas variá-
etapas do ciclo de vida do indivíduo (Almei-
veis devem ser pensadas em conjunto. Um
da et al., 2000).
sujeito pode ter uma boa adaptação a es-
trutura física da instituição, mas caso não A variável acadêmica refere-se à rela-
consiga integrar-se socialmente o mesmo ção que o estudante estabelece com a Uni-
tem a sua adaptação afetada e, por conse- versidade e o curso, englobando o processo
guinte, a sua integração com o todo. O am- de aprendizado, a relação com o corpo do-
biente acadêmico vai além de um espaço de cente e a relação do estudante com o estudo
profissionalização por existir todo um de- em si. Por último, o contexto está associado
senvolvimento psicossocial envolvido com o à variável acadêmica e inclui, ainda, aspec-
contexto. A universidade é um meio no qual tos como o papel do campus na aprendi-
o indivíduo consegue delimitar sua identi- zagem, a adaptação à instituição, o envol-
dade, desenvolver habilidades interpesso- vimento em atividades extracurriculares, o
ais, expandir o conhecimento sobre si mes- desenvolvimento psicossocial e os aspectos
mo e sobre sua sexualidade, pois está em financeiros e familiares do estudante.

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Algumas das maiores mudanças que pessoas diferentes e com os professores


o estudante recém-ingressado sente e que sendo um meio que exige responsabilidade
é necessário para que haja o ajustamento (Almeida et al., 2000).
à universidade está relacionada à tomada
Outro aspecto que está atrelado à
da responsabilidade do processo de apren-
adaptação é o corpo docente. A demons-
dizado que antes era centrado na escola e
tração de competência, uma boa didática
que passou a ser do jovem estudante. Neste
e suporte por parte dos professores podem
momento é ele quem define suas metas de
interferir no sentimento que o estudante
estudo e a maneira como este é feito, passa
possa desenvolver pelo curso e pelas ati-
a ter autonomia em relação a sua aprendi-
vidades. A quantidade e qualidade das in-
zagem e em relação à forma de administrar
formações que o estudante possui sobre
seu tempo de estudo (Almeida et al., 2000).
o seu curso e a instituição que frequenta
Toda essa independência pode fazer com
também são variáveis que interferem na
que o estudante se sinta perdido, desampa-
transição e, portanto na adaptação. O des-
rado, já que ele tem que lidar com diferen-
conhecimento de informações básicas difi-
tes situações que não correspondem com
culta ainda mais a integração, juntamente
o conhecimento aprendido anteriormente.
com expectativas iniciais equivocadas que
O meio acadêmico tem um grau de exigên-
podem causar decepções decorrentes do
cia maior do que aquele com o qual o es-
choque com a realidade que é encontrada
tudante estava acostumado e os conteúdos
na universidade a qual o estudante neces-
das disciplinas são diferenciados e mais
sita se adaptar (Igue, Bariani & Milanese,
densos, assim o mesmo precisa aprender
2008). A socialização com outros estudan-
como conduzir as novas situações que lhe
tes mostra-se como fundamental, não ape-
são impostas, caso contrário estas dificul-
nas pelo caráter afetivo-emocional, mas
dades podem virar frustrações e, por con-
também como uma maneira de estabelecer
seguinte pensamentos que envolvam dese-
a troca destas informações e para que o su-
jos de abandono do curso. Adicionalmente,
jeito sinta-se parte de um grupo no qual
outro fator pode problematizar ainda mais
possa haver identificação.
a situação da transição acadêmica, que é
a carência de orientação por parte da uni- Apesar de tudo, as experiências ad-
versidade no sentido de ajudar os novos versas que os estudantes encontram ao se
universitários a manejar as demandas que inserir no meio acadêmico são percebidas,
aparecem. por uma maioria, de forma positiva, pois,
elas possibilitariam um crescimento pesso-
O contexto acadêmico permite que
al, permitindo o amadurecimento do jovem,
o jovem passe a ter tarefas cotidianas pró-
marcando de forma subjetiva a transição
prias nas quais eles possuem total respon-
de etapas característica do desenvolvimen-
sabilidade pelas consequências. A autono-
to humano (Papalia & Olds, 2000). Sendo
mia citada anteriormente exige que o estu-
estes aspectos psicológicos importantes
dante exerça um papel ativo no processo de
para a análise das experiências e da adap-
aprendizagem e na integração com o todo,
tação acadêmica.
levando o mesmo a buscar outros espaços
além da sala de aula e, com isso, procure No sentido de procurar entender
oportunidades que podem ou não ser ofe- a dinâmica deste processo de transição e
recidas dentro da sua universidade. O en- adaptação acadêmica foi desenvolvida a se-
volvimento do sujeito em atividades acadê- guinte questão de pesquisa: Quais os fato-
micas extraclasses ajuda na integração do res e as possíveis consequências compor-
aluno ao contexto universitário, pois per- tamentais podem ser identificados no pro-
mite que os estudantes se relacionem com cesso de transição do ensino médio para a

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vida universitária, entre estudantes recém- maior compreensão do fenômeno estudado


-saídos do ensino médio? a partir da perspectiva dos agentes envol-
vidos. Dessa forma, foi dada aos sujeitos a
Para tanto, foi desenvolvido como
oportunidade de relatar as características
objetivo geral a análise e descrição dos fa-
de sua experiência pessoal sobre o tema
tores que influenciam no processo de tran-
abordado. A coleta de dados ocorreu atra-
sição do ensino médio para a universidade
vés de entrevistas semiestruturadas com
e suas possíveis mudanças comportamen-
base em um roteiro previamente desenvol-
tais. Os objetivos específicos são:
vido para atender os objetivos da pesquisa
- Identificar, entre estudantes egressos do (Bauer & Caskell, 2000).
ensino médio, os fatores que influenciam
na transição acadêmica do ensino médio
para a universidade;
- Identificar as ameaças, as dificuldades e INSTRUMENTO
os possíveis fatores provocadores da evasão
O instrumento utilizado para a cole-
encontrados pelo aluno do ensino médio ao
ta teve como referência o Questionário de
ingressar na universidade;
Experiência e Transição Acadêmica (QETA)
- Identificar e caracterizar as mudanças no desenvolvido por Azevedo e Faria (2003),
padrão comportamental do estudante ao sendo constituído de 28 itens que se dis-
vivenciar a transição acadêmica do ensino tribuem em 6 dimensões – Professores, Fa-
médio para a universidade; mília, Pares, Organização do Curso, Con-
- Analisar as mudanças comportamentais teúdos Programáticos. Procurando aten-
que interferem na aprendizagem e desen- der aos objetivos propostos na presente
volvimento acadêmico de alunos universi- pesquisa, foram elaboradas 12 perguntas
tários egressos do ensino médio. e foram realizadas entrevistas semiestrutu-
radas, seguindo este roteiro. Assim, abran-
Desta forma, o presente trabalho
geu questões que visavam investigar o pro-
pretende contribuir com dados que abor-
cesso de transição e adaptação a partir do
dem as questões vivenciadas no processo
questionamento acerca das expectativas
de entrada na vida universitária, bem como
visa fornecer subsídios para analisar os fe- criadas sobre o ambiente universitário; as
nômenos do abandono e da evasão nos pri- primeiras impressões tidas após o ingresso
meiros anos de um curso superior. Acredi- na universidade; os fatores que mais inter-
ta-se que há contribuições, também, para feriram ou facilitaram a adaptação; as di-
o contexto do ensino médio na medida em ferenças percebidas entre as realidades do
que serão reveladas as condições de prepa- ensino médio e da universidade; a percep-
ro do aluno para o ingresso na vida univer- ção de condições de crescimento oferecidas
sitária. A transição vivenciada pelo aluno pela universidade; as possíveis mudanças
egresso do ensino médio revela elementos a nível pessoal, decorridas do ingresso na
relacionados à formação profissional que universidade e as perspectivas nutridas
dependem da adaptação e do desenvolvi- para os anos seguintes de formação.
mento intelectual do aluno.


PARTICIPANTES
MÉTODO
Participaram do estudo um total de
O estudo foi conduzido com base 8 pessoas entre 18 e 23 anos de diferen-
no método qualitativo, pois se buscou ter tes cursos da universidade pública federal

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(Odontologia, Ciências Sociais, História, RESULTADOS


Enfermagem, Secretariado Executivo, Ci-
Os dados apresentados correspon-
ências Econômicas, Engenharia Química
dem a dois segmentos de análise pré-defini-
e Design), cursando os semestres iniciais
dos para o estudo, a saber, Fatores que mais
de seus respectivos cursos. Os estudantes
interferiram e influenciaram e Mudanças
eram oriundos de escolas tanto particulares
Comportamentais. As falas dos entrevista-
como públicas, sendo 5 do sexo feminino
dos foram agrupadas em categorias semân-
e 3 do sexo masculino. Buscou-se a maior
ticas e, posteriormente, em subcategorias,
variedade possível de cursos, pois partimos
uma vez que um mesmo tema geral foi abor-
do pressuposto de que estes cursos vivem
dado a partir de diferentes perspectivas.
realidades distintas dentro da universidade
tanto em termos de infraestrutura das uni- O primeiro segmento, Fatores que
dades como das próprias especificidades do mais interferiram e influenciaram, está rela-
curso e de sua organização. cionado à todos os aspectos que exerceram
influência no processo de adaptação do alu-
no egresso de ensino médio, além de reve-
lar as dificuldades encontradas na vivência
COLETA DE DADOS deste no contexto da universidade. O se-
gundo bloco, Mudanças Comportamentais,
As entrevistas foram realizadas nas descreve as modificações que ocorreram a
unidades de ensino da própria universida- nível pessoal e que interferem no desempe-
de pública federal, onde os alunos foram nho acadêmico, especialmente nos primei-
abordados e questionados sobre o semestre ros semestres da vida universitária. O ob-
que estavam cursando e o tempo decorrido jetivo destes dois momentos de discussão
entre a saída do ensino médio e a entrada dos resultados é o de mapear as principais
na universidade. Foram incluídos os su- diferenças e/ou semelhanças percebidas
jeitos que consentiram em participar, que entre essas duas realidades – ensino mé-
estavam cursando os semestres iniciais de dio e universidade – e pontuar os impactos
seus respectivos cursos e que ingressaram para a adaptação do aluno. Os dados foram
na universidade em um tempo relativamen- organizados em tabelas que descrevem as
te curto após a conclusão no ensino médio, categorias, subcategorias, frequência por
visando não haver interferência da memó- subcategorias e frequência total, que reúne
ria no relato. As entrevistas foram individu- os dados gerais obtidos na categoria. Assim,
ais e ministradas em uma única sessão que a Tabela 1 mostra sete categorias e 20 sub-
durava, em média, 20 minutos. categorias e suas respectivas frequências.
Após o consentimento dos partici-
pantes, as entrevistas foram gravadas e,
TABELA 1
posteriormente, transcritas, sendo agrupa-
das em categorias semânticas. Sendo, por- (ver no final)
tanto, utilizada para a análise dos dados, a
técnica qualitativa da Análise de Conteúdo. A Infra-estrutura foi a categoria com
Os dados foram agrupados em categorias maior número de citações (10), dentre es-
e subcategorias definidas a partir das fa- tas 5 sujeitos relataram que a consideram
las dos participantes e distribuídos em dois como adequada. Esta ideia esteve relacio-
grandes blocos de análise definidos, à prio- nada ao fato de perceberem que a universi-
ri, nos objetivos da pesquisa (Dellagnelo & dade proporciona um ambiente amplo, com
Silva, 2005). muitas possibilidades.

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Eu gostei da infra-estrutura, (...) tem A segunda categoria mais citada (8)


gente que não gosta da correria de ter foi Informação Sobre a Universidade e o
que estudar num campus em uma Curso, que expõe aspectos como a falta de
aula (...) e a outra em outro, porque acesso (3), Recepção aos calouros (1),Cole-
você respira novos ares, sei lá, não giado (2) e Veteranos(2).Na perspectiva dos
fica na mesmice, todo dia no mesmo alunos ingressantes, as informações bási-
lugar. Eu gostei... (Entrevistado 1) cas sobre o funcionamento e a estrutura
tanto do curso quanto da universidade não
são muito divulgadas e o acesso a elas não
Um dos entrevistados sinalizou a é tão fácil:
existência de recursos materiais no seu
curso, como pode ser exemplificado pela E eu senti falta de informações, a
fala:“Sim. Toda a aparelhagem que a gen- gente quer saber como é que faz pra
te necessita, porque engenheiro químico tem participar de bolsas de iniciação, de
que usar muito o computador, simulação, projetos, quem procurar, onde se
vários programas para vários tipos de ma- inscrever, quais são os sites? Que
téria”. são informações que são muito im-
portantes pra boa parte dos alunos
Em contrapartida, 4 entrevistados e você não saber, fica meio perdido,
relataram a perspectiva de que a infraes- eu acho que falta uma certa aten-
trutura está defasada, sem dar condições ção com os alunos. (Entrevistado 4)
básicas que proporcione o mínimo de con-
forto para o estudante. Este duplo sentido
para a mesma categoria revela que as con- Alguns ingressantes pontuaram a
dições da infra estrutura diferem entre as importância da ajuda dos veteranos para
unidades da própria universidade. As falas conhecer o novo meio, bem como a parti-
a seguir revelam esta defasagem: cipação do colegiado no oferecimento de
informações. A exemplo da fala seguinte:
Você tem que comprar água na can- “Tive recepção dos veteranos, o que nos dá
tina porque o bebedouro não funcio- a sensação de que não estamos sozinhos”;
nava. O banheiro não tinha sabão “O colegiado é muito tranquilo, você tem
pra lavar, não tinha papel. Então, acesso...Se não fosse o colegiado eu estaria
eu esperava que pelo menos essas boiando em muita coisa além do que já es-
coisas básicas, não uma universi- tou. É o setor que eu tenho para algumas in-
dade chique e tal, tudo de primeira formações”. A importância dada ao forneci-
qualidade, mas eu esperava que es- mento de informações sobre a universidade
sas coisas básicas, fundamentais, é relacionada com a ajuda que o estudante
pode ter para se integrar mais facilmente, a
uma estrutura que pelo menos fos-
partir do momento em que conhece o meio
se um pouquinho adequada.(Entre-
no qual ingressou e seu funcionamento
vistado2)
(Teixeira et al. , 2008).
Os Fatores Externos à Universidade
Nós não temos ar-condicionado, aparecem como a terceira categoria com
tem poucos ventiladores e os pou- maior número de citações (7). Dentro des-
cos que tem quase todos são que- te agrupamento três entrevistados falaram
brados, a turma é grande, quase sobre a influência dos estudos no proces-
todas as salas são quase 50 alu- so de adaptação na universidade. Dos três
nos, uma sala sem ar-condiciona- entrevistados, dois expressaram ter dificul-
do, cadeira quebrada, é complicado dades para acompanhar o nível de estudos
né?(Entrevistado 3) exigido pela universidade e atribuem este

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fato à base deficitária que tiveram no ensi- A quarta categoria mais representa-
no médio: “A questão da dificuldade, eu não tiva dos fatores que influenciaram a adap-
tive uma boa base, então a dificuldade de tação do aluno foi denominada de Aspectos
acompanhar o ritmo de quem veio de escola Organizacionais. Esta obteve 6 citações di-
particular”. Já o terceiro sujeito pontuou a vididas em quatro subcategorias: Organi-
boa experiência vivenciada no ensino mé- zação do Curso (2) que demonstrou ser um
dio e destacou a boa base de estudos como aspecto com problemas, seja por causa dos
um aspecto que influenciou positivamente horários ou pela forma que é estruturado
na adaptação: “Mas eu acho que não inter- como um todo.
fere não, porque o colégio que eu estudei
Eu achava que a estrutura e orga-
deu uma boa base e eu não sinto dificulda-
nização interna fossem melhores,
de nas provas que são realizadas na uni-
mas não foi o que encontrei. Esses
versidade”. De acordo com Coulon (2008),
dois fatores influenciam e muito no
as novas regras do saber constituem-se
andamento do curso, e prejudicam
como um fator importante para o processo
os alunos. Como, por exemplo, pe-
de transição acadêmica, o que corrobora as
gar uma matéria com pessoas de
menções encontradas no presente traba-
outros cursos faz com que o prof
lho. Pois, o a subcategoria Estudos indicou
não foque em nada e acaba sendo
a influencia das novas exigências para a
desperdício para nossa formação na
adaptação dos alunos ingressantes.
maioria das vezes, ou quando há
A subcategoria Pessoais está atrela- concurso para professor durante o
da as vivências individuais que o entrevis- período letivo. (Entrevistado 6)
tado tinha antes de entrar no contexto uni-
versitário. As experiências que os sujeitos
tiveram antes do ingresso na universidade Ainda nesta categoria, algumas
se revelaram como importante fator para o menções foram denominadas de Burocracia
processo de adaptação, conforme cita um (1) e a Falta de Professores (1). Já o diretó-
dos entrevistados: rio acadêmico foi citado duas vezes, sendo
que em uma fala ele assume um sentido
Eu, pela minha realidade, pela mi-
de ausência, como se não desempenhasse
nha vivência, eu costumo ter mui-
com eficiência o seu papel e na outra fala
to os pés no chão e eu não espero
aparece como algo presente e atuante.
demais, então eu acho que foi do
jeito que foi, eu já acreditava que a Em relação ao Material de Estudo,
instituição federal teria algumas di- com 5 citações, houve uma colocação de
ficuldades e eu teria de me adaptar, opiniões diversas em relação ao acervo (com
já entrei pensando nisso. (Entrevis- 3 citações), sendo elas a falta deste acervo
tado 5) para um e para outro um acervo suficiente,
e a limitação do acesso ao acervo. Seme-
lhante a esta ideia aparece a subcategoria
Ainda dentro desta categoria, iden- acesso na qual é colocado a dificuldade
tificaram-se conteúdos que revelam as di- de adquirir o material necessário. O volu-
ficuldades financeiras e de locomoção no me também é citado uma única vez, sendo
campus da universidade: “A partir do se- considerado grande e por isso gerando a di-
gundo semestre tenho que conseguir algu- ficuldade de saber lidar com a quantidade.
ma coisa, uma bolsa, não sei, um estágio, Já em relação aos Vínculos (3) afeti-
qualquer coisa tem que rolar, entendeu? Se vos dois entrevistados colocam que eles são
não eu não consigo me manter”. importantes e interferem positivamente no

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processo de adaptação e transição. Já outro -se a necessidade de redimensionamento


entrevistado coloca que existe dificuldade das instalações e da localização de lugares
em estabelecer vínculos mais estreitos. Os estratégicos para o desenvolvimento das
professores (3) apareceram como um fator atividades acadêmicas, como as salas de
positivo de influencia devido a forma como aula, a secretaria, a biblioteca, o restau-
estes profissionais desempenham seu pa- rante universitário etc. Para o autor a mu-
pel. Este dado é congruente com o estudo dança mais espetacular reside na relação
de Teixeira et al. (2008) no qual estudantes com as regras e o saber, estes fatores são
relatam que o vínculo com o corpo docente totalmente modificados com a entrada na
, quando acontece de forma positiva, ajuda universidade e tal mudança pode se referir
que o estudante se integre melhor ao meio tanto a amplitude das diferentes aborda-
acadêmico no período inicial. Além, deste gens teóricas como à necessidade de sínte-
fator, existe a percepção de que os pro- se ou, ainda, pela relação do estudo com a
fessores universitários são competentes, atividade profissional futura.
sendo está variável também importante no
O segundo segmento dos resultados
processo de adaptação (Cunha & Carrilho,
reúne as categorias e subcategorias a res-
2005).
peito das Mudanças Comportamentais. Os
Algumas falas representam essa in- dados encontram-se organizados na Tabela
fluência positiva exercida pelos professo- 2, seguindo o mesmo padrão de apresenta-
res: “Só que tem algumas coisas boas, como ção da tabela anterior.
eu falei, alguns profissionais que fazem a
gente sentir prazer em estar, em acreditar
que pode dar certo”; “ (...) tenho professores TABELA 2
que realmente são capacitados, que se im- (ver no final)
portam com o aluno e que estejam o tempo
todo do meu lado, me incentivando”.
Conforme Coulon (2008), o momento A categoria com mais citações em re-
da transição e adaptação à vida universitá- lação às mudanças comportamentais foi a
ria é marcado por modificações importantes de Organização Pessoal para o estudo com
nas relações que o indivíduo mantém com 8 citações. Dentro desta, a subcategoria
Maior Dedicação é a mais citada com 5 falas,
três fatores - o tempo, o espaço e as regras
sendo esta associada a necessidade relata-
do saber. Tais fatores são considerados pelo
da pelos estudantes de ter um maior foco
autor como essenciais para o processo de
nos estudos, se dedicando mais as deman-
desenvolvimento e aprendizagem. Corrobo-
das deste, o que fortalece mais uma vez a
rando o autor, os dados obtidos na presen-
importância da adaptação dos ingressantes
te pesquisa sinalizaram a importância da
infraestrutura, fatores externos como estu- às novas regras do saber como afirma Cou-
dos e aspectos pessoais, bem como aspec- lon (2008). As falas, a seguir, representam
tos organizacionais a exemplo da organiza- este conteúdo: “eu tenho que me dedicar
ção do curso e professores. Coulon (2008) mais aos estudos, saber mesmo organizar
porque senão não dá tempo”; “Esse semes-
sinaliza, ainda, que a relação com tempo se
tre eu abri mão de muitas coisas, vários mo-
modifica, pois a estrutura das aulas, a sua
mentos importantes eu acabei abrindo mão,
duração, a divisão do tempo em semestres
porque eu foquei mesmo nos estudos”.
e a própria administração do tempo com a
finalidade de atender as novas demandas e As outras três subcategorias foram
formas de avaliações exigem adaptações do mencionadas apenas uma vez. A de Maior
aluno. Com relação ao espaço, identifica- Aproveitamento traz a ideia de que a nova

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organização para realizar os estudos per- melhor situações de pressão... Sou uma pes-
mitiu que o entrevistado se relacionasse soa muito mais tranquila para algumas coi-
melhor com a atividade: sas”; “sim, hoje me sinto muito mais capaz
e segura...”; “eu percebi que eu amadureci
No terceiro ano, eu até que procu-
mais quando eu cheguei aqui. Você se sente
rava falar algumas coisas que eu
um pouco, assim mais independente, enten-
entendia do que eu lia, mas sempre
deu?”; “Anteriormente, antes de entrar na
naquela coisa de reproduzir aqui-
universidade, eu não tinha até mesmo esse
lo que eu li e já na vida acadêmica
desejo de me expressar, falar o que eu acho
não. Tento passar aquela informa-
minhas opiniões”.
ção de um texto de um artigo, mas
sempre tem aquele espaço para A outra subcategoria é Mudança de
falar a opinião, sua posição sobre Percepção, com duas falas, na qual os es-
aquilo, você pode falar o que você tudantes afirmam que a forma de perceber
entendeu mesmo que seja diferente o contexto no qual está inserido e seus as-
do que o autor falou, do que se tra- pectos se modificaram.
tou no texto. (Entrevistado 7)
Não tinha o entendimento de muitas
coisas e a partir do momento que eu
adentrei na universidade isso mu-
Já a subcategoria Sentindo-se De-
dou muito. Diferente de quando eu
sestimulado surgiu como um conteúdo
estava no ensino básico que tudo
relacionado ao estado de baixa motivação
que eu via achava que tava certo,
para estudar em consequência da fase de
tudo que eu lia achava que era da-
adaptação em que o ingressante se encon-
quela forma, não tinha um olhar
tra, onde fatores como a desorganização
crítico das coisas. ..Algumas coisas
dos horários do curso influenciam para que
que eu vejo e assisto com outros
se sinta desta forma. Ao relatar que a Or-
olhos. (Entrevistado 8)
ganização do estudo é dependente da carga
horária, outra subcategoria, o entrevistado
se refere à possibilidade de estudar apenas
Segundo Almeida e Cruz (2010) es-
quando existe espaço de tempo livre entre
tas mudanças são comuns a esta fase de
as atividades que envolvem carga horá-
transição, mesmo que não percebida pe-
ria obrigatória das ligada a universidade:
los estudantes, sendo consequência da
“Então, normalmente, eu costumo estudar
necessidade de desenvolver aspectos coe-
quando tem tempo mesmo... Terça e quinta
rentes com o novo ambiente no qual estão
quando eu consigo, quando tem um espa-
inseridos.
cinho assim.”
A Administração do Tempo é uma
A segunda categoria em número de
subcategoria com 5 falas e reflete a neces-
citações é denominada de Aspectos Pes-
sidade que os estudantes tiveram de rees-
soais (7), na qual a subcategoria Amadu-
recimento (5) está relacionada as falas nas truturar a maneira com a qual adminis-
quais os sujeitos expressam ter percebido tram seu tempo, adequando-o as deman-
que passaram a desenvolver melhor as- das da universidade: “Porque no ensino
pectos do seu comportamento, mudança médio eu estudava menos, agora a carga
esta vista de forma positiva e marcando a horária aumentou, eu tenho que me dedicar
transição da adolescência para a vida adul- mais aos estudos, saber mesmo organizar
ta, conforme é afirmado por Almeida et al. porque senão não dá tempo. Tem que saber
(2000). Algumas falas representam esse administrar bem o tempo pra fazer todas
conteúdo, a exemplo de: “Passei a suportar as coisas”.

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Por fim, a categoria Sintomas, com 2 transição parece ser vivido com diferenças
falas, retrata que estes entrevistados per- na intensidade e na experiência prévia de
ceberam que se sentem mais cansados ou vida de cada um.
com outras expressões físicas que são con-
sequência da relação destes com as ativi-
dades universitárias que devem ser execu- FIGURA 1
tadas: “Você chega em casa e não tem mais (ver no final)
ânimo de estudar, de noite você já tá des-
truído”; “Muitas vezes eu ficava com dores
na cabeça, um mal estar assim pelo fato de Assim, os dados encontrados neste
não ter aquele costume de ler e ter que ler trabalho demonstram os principais fatores
bastante na universidade”. Como é coloca- que influenciam o processo de transição e
do por Cunha e Carrilho (2005), os sinto- adaptação para alunos egressos do ensino
mas físicos negativos, decorrentes dessa médio que ingressaram na universidade
fase em que o indivíduo ainda está se ade- pública federal investigada e que partici-
quando a sua nova rotina pode interferir no param da pesquisa. As grandes diferenças
desempenho acadêmico. apontadas entre o ensino médio e a uni-
Com a finalidade de apresentar os versidade ajudam a entender por que este
principais fatores e mudanças comporta- processo é tão complexo e capaz de mobi-
mentais descritos no presente trabalho e lizar o estudante ingressante. Este passa a
que são relacionados ao processo de tran- frequentar um meio com um tipo de fun-
sição acadêmica e adaptação ao nível uni- cionamento que ele não tem domínio. Exis-
versitário, foi elaborada a Figura 1 que des- te assim a necessidade de mudanças tanto
creve as categorias criadas nesse estudo e pessoais quanto referentes à condução da
as principais subcategorias apontadas com rotina de estudos para que, assim, possa
base no relato dos sujeitos que participa- entender o novo contexto e se integrar a ele
ram da pesquisa. de maneira a obter maior aproveitamento
possível das atividades acadêmicas (Almei-
É possível visualizar, na figura, que da et al. , 2000).
na categoria Infraestrutura a opinião dos
alunos se divide entre Adequada e Defasa-
da, ao mesmo tempo no que se refere à ob-
tenção de Informações a Respeito do Curso
CONSIDERAÇÕES FINAIS
e da Universidade também há divisão de
opiniões indicando que falta acesso para Apesar de não ter sido aprofundado
uns e para outros o colegiado e os vetera- na exposição de dados, as altas expectati-
nos promoveram tal acesso. Os dados das vas interferem na forma como o estudante
entrevistas sugerem que este fato ocorre se relaciona com esta etapa da sua vida.
em função das diferentes condições de ges- Ao comparar as de um entrevistado que ti-
tão e de desenvolvimento estrutural das di- nha muitas expectativas positivas com ou-
ferentes unidades da própria universidade. tra que tinha uma opinião formada sobre a
Quanto às mudanças comporta- Universidade muito atrelada aos problemas
mentais, destacaram-se Maior Dedicação, que esta possui, observa-se que a primeira
Amadurecimento e Administração do Tempo têm falas que demonstram uma frustração,
e Sintomas Físicos. Os relatos dos sujeitos decepção inicial e uma necessidade de se
demonstraram que a experiência da transi- adaptar a realidade. Enquanto a segunda
ção e adaptação ao contexto universitário é já não se impactou com as dificuldades que
sentida por todos, sendo que o impacto da a universidade oferece e já estava mais pre-

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parada para se adaptar. Apesar de a adap- As relações interpessoais, seja com o corpo
tação ser uma necessidade comum, elas docente e/ou com outros alunos, também
lidaram de forma diferente em consequên- contribui para que o indivíduo crie laços
cia das expectativas criadas. Numa terceira com a universidade e tenha um crescimen-
entrevista, foi identificado que o estudan- to pessoal associado as suas habilidades
te tinha uma representação extremamen- sociais. Este fator foi percebido nas falas
te negativa da Universidade e disse ter se dos participantes que mostraram de forma
surpreendido positivamente com a realida- positiva a construção destas relações. Au-
de que encontrou. É importante salientar tores como Almeida et al. (2000) sinalizam
que os três são de cursos diferentes e fre- a importância das relações interpessoais
quentam campus em diferentes localidades no processo de transição acadêmica.
dentro da universidade.
A ideia de que as mudanças compor-
Um dos fatores mais citados na pes- tamentais se relacionam com a organização
quisa está relacionado com as diferenças e o funcionamento do curso foi observado a
entre o contexto do ensino médio e o con- partir das falas dos entrevistados. A dedi-
texto universitário. As demandas do con- cação às atividades universitárias se torna
texto universitário são relatadas por todos maior já que esta tem um grau de exigên-
e estas são acompanhadas por um maior cia também maior, assim a relação do es-
grau de autonomia que os estudantes de- tudante com o seu tempo e com o estudo
vem ter. Esta autonomia é vista como uma se modificam para que ele consiga acom-
atitude necessária para que o estudante se panhar o ritmo do ambiente universitário.
adeque à realidade da universidade e con- Além destas mudanças, outras de caráter
siga se encaixar no funcionamento desta, comportamental com características mais
exercendo controle sobre as suas ativida- subjetivas também acontecem, a exemplo
des e os seus compromissos. Esta auto- da reestruturação da percepção dos estí-
nomia marcar, também, a transição da mulos que existem no meio, além do pro-
adolescência para a vida adulta (Papalia & cesso de amadurecimento pessoal.
Olds, 2000).
Assim, a presente pesquisa procu-
A interação do ingressante com a rou contribuir com a descrição e análise
universidade e o curso sofre grande in- dos fatores mais relevantes para o processo
fluência da infraestrutura que está sendo de transição e adaptação à vida universi-
oferecida para garantir um meio de cres- tária, permitindo aos ingressantes, recém-
cimento profissional. Desta maneira, obter -saídos do ensino médio, pontuar e expres-
informações tanto da infraestrutura quan- sar aquilo que se destacou nas suas res-
to dos outros aspectos da universidade pro- pectivas vivências e pontos de vista. Vale
move o desenvolvimento de estratégias por ressaltar que a universidade não deve ser
parte do estudante no sentido de facilitar a vista como a única responsável pelo pro-
sua relação com esse ambiente, porém foi cesso de transição, já que existem outros
visto que ainda existe pouca preocupação agentes externos com alto grau de interfe-
em passar esse tipo de informação para os rência, como fatores individuais do sujeito
ingressantes. Dentro desta mesma pers- e a experiência que o mesmo teve na sua
pectiva, foi observado que as matérias te- vida escolar durante o ensino médio. Além
óricas e o material humano (corpo docente disso, a análise proporcionada nesta pes-
e outros profissionais envolvidos no funcio- quisa se baseou numa estratégia metodoló-
namento da universidade) também são de gica qualitativa, sendo necessário o desen-
fundamental importância para que o sujei- volvimento de estudos quantitativos com
to se adapte e se integre ao novo contexto. análises estatísticas capazes de promover

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a identificação da força dos fatores pontu- pectativas de universitários ingressantes


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Tabela 1 –Fatores que interferem na adaptação

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Tabela 2. Mudanças Comportamentais

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Figura 1. Fatores que influenciam a transição acadêmica e


as mudanças comportamentais

Fonte: Elaboração Própria.

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