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REFORMA, CIDADANIA E EDUCAÇÃO

Márcia Mello Costa De Liberal

Pós-doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP. Doutora em Sociologia pela


Universidade Técnica de Lisboa. Atualmente, coordena o programa de Mestrado em
Ciências da Religião, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo-SP. É
professora e pesquisadora na Escola Superior de Teologia, da Universidade
Presbiteriana Mackenzie, e no curso de Comunicação Social, das Faculdades
Integradas Rio Branco. É membro do SOCIUS – Centro de Investigação em
Sociologia Econômica e das Organizações do ISEG/UTL e dos Conselhos Editoriais
da Revista Videre Futura, da Revista Lusófona de Ciência das Religiões e da
Revista Ciências da Religião – História e Sociedade. Tem vários artigos publicados
nas áreas de ética, religião e trabalho. É organizadora dos livros Um Olhar Sobre
Ética e Cidadania I, Um Olhar Sobre Ética e Cidadania II, Ética – Reflexões
Contemporâneas, Educar para o Trabalho – estudos sobre os novos paradigmas, e
autora do livro O Trabalhador Adolescente no Brasi

Resumo:
O presente trabalho é resultado de pesquisa que propõe estudar a Reforma
Protestante em busca de um significado além do que, comumente se entende, um
movimento religioso. Martinho Lutero embora cresse em um mundo espiritual, um
reino espiritual, também cria na possibilidade de se viver no mundo terreno de forma
mais digna. Qualquer pessoa que sonha com isso e se movimenta em direção a este
ideal, pensando no bem comum, revela ser um cidadão que ama a ética e sua
prática, a cidadania. Nomeadamente neste texto teceremos sua contribuição na
esfera da educação.
Palavras-chave: Reforma, cidadania e educação.

Abstract:
The present work is the result of research with the aim of studying the Protestant
Reform seeking meaning beyond what is commonly understood by religious
movements. Although Martin Luther had believed in a spiritual world, a spiritual
kingdom, he also believed in the possibility of living in a more worthy secular world.
Any person who dream as of this ideal and moves himself in this direction, is
pursuing a common goal for everyone, and reveals himself to be a citizen who loves
ethics and its practice, citizenship. In this paper we intend to present his contribution
to the area of education.
Key words: Martin Luther, citizenship and common goal.

Ao falarmos de educação falamos quase que automaticamente de cidadania.


Educação para a cidadania. A própria cidadania não pode ser entendida como algo
estático ou acabado. Cidadania é um processo que, de forma dinâmica, se
desenvolve individual e coletivamente. Nesse processo a educação é fundamental
para a formação do cidadão, capacitando-o para o exercício da cidadania através de
decisões a serem tomadas na vida.
Tal pensamento não era diferente daquele que incomodava o reformador
Lutero já que era a “liberdade de consciência” a oportunidade para se tomar
decisões e fazer escolhas em todos os níveis; inclusive religiosas, com todas as
implicações decorrentes delas. O saber proporcionaria a liberdade. Estamos assim,
nos referindo diretamente ao ensino, o qual era centrado na questão religiosa,
visava uma forma de manutenção da instituição religiosa e que, conforme Lutero,
era uma forma de dominação do clero.
O reformador se dirigindo aos pais enfatizou que os mesmos deveriam enviar
seus filhos à escola, não apenas para alimentarem o sistema religioso com a
formação de monges e padres, mas, as crianças deveriam aprender outras
disciplinas a fim de ocuparem cargos no mundo secular visando o bem comum. Não
era apenas a igreja que necessitava de pessoas capacitadas mas, também, a
sociedade precisava de homens e mulheres que contribuíssem para o seu
engrandecimento. Segundo o reformador, era necessário que os filhos buscassem
uma formação adequada para governantes. Assim ele expressava:

O mundo precisa de homens e mulheres excelentes e aptos para


manter seu estado secular exteriormente para que então os homens
governem o povo e o país, e as mulheres possam governar bem a casa
e educar bem os filhos e a criadagem. 1

O grande prejuízo sócio-político de uma nação seria, conforme Lutero, o não


educar. Mereceu destaque de João Amós Coménio o posicionamento do
reformador:

Lutero, de santa memória, exortando as cidades da Alemanha a erigir


escolas, escreveu com razão: Quando, para edificar cidades,
fortalezas, monumentos e arsenais, se gasta uma só moeda de oito,
devem gastar-se cem para educar bem um só jovem, para que este,
quando homem feito, possa guiar os outros pelos caminhos da
honestidade. Efetivamente, o homem bom e sábio é o mais preciosos
tesouro de todo o Estado, pois nele, mais que nos esplêndidos

1
Lutero escrevendo aos Conselho de Todas as Cidades. Obras Selecionadas, vol. 5, pg. 318.
palácios, mais do que nos montes de ouro e de prata, mais que nas
portas de bronze e nos ferrolhos de ferro, está... 2

Se o trabalho, como vocação, não deveria se limitar mais apenas ao exercício


religioso, igualmente ele considerava a educação. Esta, não apenas para nutrir a
religião mas, para a produção de uma nação mais forte e justa. Lutero via na
educação, o mais rico progresso social, pois, quanto mais homens instruídos, muitos
e melhores cidadãos honestos se verificariam. Conforme o reformador, o exemplo
de Roma deveria ser seguido na Alemanha. Os romanos educavam seus meninos
de tal maneira que dentro de quinze, dezoito ou vinte anos dominavam
perfeitamente o latim, o grego e toda sorte de artes liberais. 3 Daí passavam
diretamente para o serviço militar e para o serviço público.
Desta maneira, homens sensatos, ajuizados e excelentes, munidos de toda
sorte de conhecimentos e experiência surgiram e fizeram diferença em seu meio. A
Alemanha, também, deveria educar não apenas para funções religiosas mas,
também, para governar.
Lutero lançou as bases para um ensino público e obrigatório. Ao escrever aos
Conselhos das cidades da Alemanha, o reformador os responsabilizou pela questão
educacional no país. Poderia se ver grande valor na escola e em outras instituições
de ensino, onde crianças poderiam estudar com prazer.

Ora, a juventude tem que dançar e pular e está sempre à procura de


algo que cause prazer. Nisto não se pode impedi-la e nem seria bom
proibir tudo. Por que então não criar para elas escolas dente tipo e
oferecer-lhe estas disciplinas? Visto que, pela graça de Deus, está tudo
preparado para que as crianças possam estudar línguas, outras
disciplinas e História com prazer e brincando. Pois as escolas de hoje
já não são mais o inferno e purgatório de nossas escolas, nas quais

2
João Amós Coménio, nasceu na Moravia, em 28 de março de 1592, com 24 anos foi ordenado sacerdote. A partir de 1627,
dedicou-se com ardor e entusiasmo à obra de reforma pedagógica João Amós Comênio (1592-1670) pastor e bispo dos
morávios, foi sem dúvida o mais importante pensador educacional do século XVII. Escreveu mais de cem tratados e livros
educacionais, sobre os mais diversos assuntos e sua maior influência ocorreu no campo do ensino de línguas, em que propôs
um método mais cientifico. Em seu livro Porta Aberta das Línguas, Comenius adotou um plano simples e natural: partindo de
palavras simples e familiares da língua latina, organizava-as em sentenças começando das mais simples e chegando
progressivamente às mais complexas. E cada página Comenius colocava a sentença latina e a equivalente em vernáculo, em
colunas paralelas. As principais idéias educacionais de Comenius estão contidas em sua obra DIDACTICA MAGNA,
completada em 1632 em língua tcheca, traduzida para o latim e publicada em 1657. O comentário descrito acima encontra-se
na referida Didáctica Magna, pág. 476.
3
Artes liberais, com essa expressão se designava, na Idade Média, o conjunto das sete disciplinas que constituíam pré-
requisitos para a afirmação específica. Ao lado do estudo das línguas, que compreendia Gramática, Dialégica e Retórica, se
exigiam Aritmética, Música, Geometria e Astronomia. Nota explicativa de número 11, Obras Selecionadas, Sinodal. Pg. 309
éramos torturados com declinações e conjugações, e de tantos açoites,
tremor, pavor e sofrimento não aprendemos simplesmente nada. 4

A ênfase de Lutero à Educação como princípio social satisfatório, é


decorrente de sua formação teológica, assim como aconteceu ao tratar das
questões econômicas, já abordadas em capítulos anteriores. A educação já era vista
como requisito fundamental tanto no reino de Deus como no mundo secular, ou
reino temporal, conforme distinguia Lutero. O senso de cidadania responsável se
verificaria efetivamente no processo educacional de um país. Enfatizava Lutero:

Em minha opinião, porém, também as autoridades têm o dever de


obrigar os súditos a mandarem seus filhos à escola, especialmente
aqueles aos quais me referi acima. Pois na verdade é dever dela
preservar os ofícios e estados supramencionados, para que no futuro
possamos ter pregadores, juristas, pastores, escritores, médicos,
professores e outros, pois não podemos prescindir deles. Se podem
obrigar os súditos capazes de carregar lanças e arcabuzes, escalar os
muros e outras coisas mais que devem ser feitas em caso de guerra,
quanto mais podem e devem obrigar os súditos a mandarem os filhos à
escola. Porque aqui se trata de uma guerra pios, a guerra contra o
enfadonho diabo, cujo propósito é sugar solapadamente cidades e
principados, esvaziando-os das pessoas capacitadas, até retirar o
cerne, deixando apenas uma casca vazia de pessoas inúteis, as quais
pode manipular e suar a seu bel-prazer. 5

Em uma época em que as mudanças sociais eram extremamente lentas e


causadas geralmente por guerras e crises econômicas, Lutero apresentou proposta
de mudanças sociais pelo exercício da liberdade de consciência e crescimento
integral pelo saber. Até então, a liberdade e o poder estavam relacionados
intimamente com o possuir terras. Fator que fazia com que a Religião e o Estado
detivessem, egoisticamente, o poder e a liberdade.
Com respeito à primeira, a Religião, se mostrava poderosa, pois,
paradoxalmente condenava as riquezas sendo ela a detentora da maior parte delas.
Conforme Lutero, a Igreja como instituição religiosa não poderia, por si só, dar
uma qualidade de vida melhor à sociedade. O livre acesso às Escrituras Sagradas
associadas às disciplinas atenderiam de forma muito mais justas as necessidades
humanas e espirituais da população. O conhecimento das Escrituras, neste caso, a

4
Ibidem., p. 319.
5
Uma prédica para que se mandem os filhos à Escola, escrita em 1530. Obras Selecionadas, Vol. 5. pg 362.
educação cristã, deveria ser ministrada não para manipulação mas para libertação.
A liberdade de consciência resultaria em paz social. Como disse:

A paz temporal, que é o maior bem na terra que encerra todos os


demais bens temporais, é, no fundo, um fruto do ministério da
pregação, pois onde esse é exercido, certamente acabam guerra,
conflitos e derramamento de sangue. Onde, porém, não é exercido
corretamente, não é de se admirar que haja guerra ou então
intranqüilidade constante, desejo e disposição para guerrear e
derramar sangue. 6

Além do mais, disse:

Não te deverias sentir lisonjeado e considerar grande honra vendo que


teu filho é um anjo no reino e um apóstolo do imperador, além disso,
uma pedra fundamental e alicerce da paz temporal na terra? E tudo
isso na certeza de que o próprio Deus o vê assim e que assim é de
fato? Se bem que ninguém se torna justo ou bem-aventurado perante
Deus por meio dessas obras, ainda assim é um alegre consolo saber
que tais obras agradam tanto a Deus. Ainda mais quando um homem
assim também é crente e pertence ao reino de Cristo. Pois com isso se
lhe agradece por seu benefício e se oferece o mais belo sacrifício de
gratidão, o supremo culto a Deus. 7

Lutero escreveu aos Conselhos de todas as cidades da Alemanha, exortando-


os quanto a criarem e manterem escolas cristãs. Embora condenado ao silêncio
desde 25 de junho de 1520, Lutero se levantou usando a poderosa arma, a Palavra
de Deus. Afirma Nestor L.J. Beck:

É considerada um clássico da história da educação. Abriu caminho


para a disseminação do ginásio humanista cristão em toda a Europa. 8

Claros motivos deixariam Lutero preocupado com a educação em seu país.


Primeiro seria o abandono das escolas. Como professor, Lutero sofreu ao ver o
ensino na Alemanha ficar abandonado. O ensino visava tão somente a carreira
religiosa. Com o desencantamento pela religião, ninguém queria mais proporcionar
ensino e estudo aos filhos. Porque haveria de estudar se não poderiam tornar-se

6
Ibdem., pg.339.
7
Ibidem.., pág. 350.
8
Nestor L. J. Beck. Introdução da carta de Lutero escrita aos Conselhos.
padres, monges ou freiras? Para Lutero, a atitude dos pais era condenável. Ao
contrário, segundo escreveu Lutero, os pais deveriam dizer:

Se for verdade que este estado é perigoso para nossos filhos conforme
ensina o Evangelho, por favor, ensinai-nos outra maneira que seja
agradável a Deus e que seja salutar para nossos filhos. Pois, na
verdade não queremos apenas preocupar-nos com o sustento de
nossos filhos, mas também com sua alma. 9

Para o reformador, o prejuízo na obra de educar, era uma ação do próprio


diabo, convencendo os corações mundanos a negligenciarem os filhos e a
juventude. Para o reformador, o diabo em um primeiro momento interveio e lançou
suas redes, constituindo conventos, escolas e estados, de modo que um menino
poderia escapar-lhe somente por um especial milagre de Deus. Agora, o Estado
vendo-se desarmado, tentava fazer com que se caísse em outro extremo, a não
educação. Conforme o pensamento de Lutero, o Estado deveria financiar o estudo
para os jovens pobres e, também, sustentar professores competentes. Dizia:

Cada cidadão deveria pensar o seguinte: Até agora gastou-se


inutilmente tanto dinheiro e bens com indulgências, missas, vigílias,
doações, espólios testamentários, missas anuais pelo falecimento,
ordens mendicantes, fraternidades, peregrinações e toda a confusão
de outras tantas práticas deste tipo; estando agora livre dessa ladroeira
e doações para o futuro, pela graça de Deus, que doravante doe, por
agradecimento e para a glória de Deus, parte disso para a escola para
educar as pobres crianças, onde será empregado tão bem. 10

O segundo motivo de preocupação do reformador seria o recebimento da


graça de Deus em vão. Ou seja, o tempo era aquele. Não se poderia deixar passar
desapercebido o tempo “bem-aventurado”. O tempo de mudança havia chegado. No
pensamento de Lutero, muito tempo já se havia perdido com o ensino ideológico nos
conventos. Ele afirmava veementemente:

Afinal, que se aprendeu até agora nas universidades e conventos a não


ser tornar-se burro, tosco e estúpido? 11

9
Carta de Lutero “Aos Conselhos de Todas as Cidades da Alemanha para que criem e mantenham escolas cristãs”, em 1524.
Obras Selecionadas, Sinodal, pg. 304.
10
Ibdem, pg. 305.
11
Carta de Lutero aos Conselhos de Todas as Cidades da Alemanha, escrito em 1524 – Obras Selecionadas, Sinodal p. 306.
A saída não era abandonar os estudos, mas, mudar os métodos de ensino.
Lutero apelou ao povo alemão que não perdesse “tempo”, o momento ideal para
mudanças havia chegado. Conforme o reformador, Deus estava dando à nação
alemã, a mesma oportunidade que, em outros tempos, foi dada aos judeus, gregos e
romanos. Era chegada a vez da Alemanha. Era preciso saber que, a “Palavra de
Deus e sua graça são como a chuva de verão, que não retorna ao lugar por onde
passou”.
O terceiro motivo de preocupação que ocupava o pensamento de Lutero dizia
respeito aos pais. Eles deveriam entender que era o seu dever educar os filhos. A
tarefa primeira dos pais não poderia ser outra a não ser, educar seus filhos. Com
forte ênfase nos textos bíblicos de Salmo 78.5; Deuteronômio 32.7 e outros, Lutero
“ameaçou os pais” 12 quanto ao enviarem seus filhos para a escola.

Aliás, para que vivemos nós velhos senão para cuidar da juventude,
ensinar e educá-la?. A própria natureza ensina o valor do ensino. Os
animais irracionais cuidam de seus filhotes e não os abandonam. 13

Um pecado seria cometido contra as crianças caso as mesmas não fossem


conduzidas à escola. O não educar as crianças deveria ser visto como algo terrível e
provocativo para o reino de Deus. Tão grave quanto uma agressão sexual.

Negligenciar um estudante não é crime menor do que violentar uma


virgem. 14

Sem isentar os pais, o Conselho e as autoridades deveriam se dedicar com


maior cuidado à juventude. A educação como política social traria progresso e
melhoramento às cidades. Na linguagem atual, se diria que a educação produziria
cidadania. Não é segredo que a educação deve ser vista como a riqueza de um
país, de uma cidade. Muito antes, o melhor e mais rico progresso para uma cidade é
quando possui muitos homens bem instruídos, muitos cidadãos ajuizados, honestos

12
“Que achas? Acaso não cairão sobre ti, de repente, não apenas gotas, mas verdadeiros aguaceiros de pecado, que agora
desprezas e andas muito seguro, como se estivesse agindo corretamente ao não encaminhares teu filho ao estudo? Naquele
dia, porém, hás de confessar que foste condenado ao abismo do inferno com justiça como uma das pessoas mais malvadas e
perniciosas que viveram na terra.” (Prédica Para que se mandem os filhos à escola) Obras Selecionadas, Sinodal, pág. 341.
13
Segundo Lutero a avestruz é uma exceção, pois deixa abandonados seus ovos conforme Jó 31
14
Lutero repete o ditado que, segundo ele, era conhecido em sua mocidade nas escolas. “Non minus est negligere scholarem
quam corrumpere virginem”.
e bem educados. Estes então também podem acumular, preservar e usar
corretamente riqueza e todo tipo de bens.
É significativo para a presente dissertação verificar que, para Lutero, a
educação estava diretamente ligada à vida do cidadão. Todos deveriam ter o direito
do saber.
Lutero defendia uma educação integral. Uma educação não só com o objetivo
religioso, já dito repetidas vezes. O conhecimento das línguas e das ciências da
humanidade formaria pessoas capazes não só para exercerem o ministério da
palavra, mas também, para governarem com mais justiça a nação. A falta de
conhecimento traz descrédito à fé. Lutero insistia no fato de que a fé não deveria ter
medo da ciência. Ela, a fé, seria ainda mais valorizada mediante o aprendizado.
Percebe-se aqui, a forte influência que Lutero recebeu no movimento humanista,
conforme destacamos no segundo capítulo. O conhecimento de outras línguas
dando acesso aos originais bíblicos. Ele enfatizou dizendo:

Não é isso uma vergonha e zombaria para os cristãos entre os


opositores que têm conhecimentos lingüísticos? Eles se endurecem
ainda mais em seu erro e, com uma aparência de direito, consideram
nossa fé um sonho humano. Onde, porém, há conhecimento das
línguas, aí as coisas se desenvolvem com vigor, e a Escritura é
trabalhada; aí, a fé se encontra sempre de forma nova por meio de
outras e mais outras palavras e obras. 15

Nesse ponto, Lutero retoma as duas esferas atuantes sobre a vida dos
homens. Uma sendo o “mundo secular” e a outra o “mundo espiritual”. A educação
não pode ser apenas para se exercer a função clerical. O “mundo secular” precisa
de homens e mulheres excelentes e aptos. A educação deve ser para todos,
inclusive para a criadagem. Para tanto, na formação educacional do indivíduo
devem existir disciplinas de diferentes categorias sociais. Pessoas estudadas são
necessárias na medicina e em outras áreas das ciências. O grande valor da
educação é que pregadores, advogados, médicos e outros poderão prestar um
agradável serviço a Deus, à família e à sociedade em geral. 16

15
Lutero critica os valdenses que, apesar de vida piedosa, demonstravam desprezo pela erudição das pesquisas lingüísticas no
campo da Sagrada Escritura.
16
Na época Lutero tinha um filho chamado João (nasc.1526), que tornou-se jurista. Outro filho foi Martin
(nasc.1531) estudou teologia, mas não ocupou púlpito e Paulo (nasc.1533) que veio a ser um destacado médico.
Bibliotecas de qualidade, mestres competentes mesmo que não sendo
religiosos, apoio dos pregadores junto às famílias, cidadãos que exerçam a pressão
junto aos líderes no visando instalações de escolas e contribuição financeira da
sociedade fariam com que a educação se concretizasse como a verdadeira
expressão de cidadania e forte esperança e instrumento nas mudanças sociais. A
ênfase reformista repousaria no fato de que a falta de educação traria prejuízos em
todos os sentidos a um povo que já padecia tanto. Como era característica de Lutero
abordar assuntos diversos com enfoque teológico, também com respeito à educação
ela não foi exceção. Ele atribuiu a ação contra a educação como sendo uma
artimanha do diabo contra seu povo. Nas palavras de Lutero, a educação seria a
base para o reino secular e também para o espiritual, mantendo assim, a visão
dicotômica ao abordar assuntos teológicos e sociais.

No reino secular, os juristas e eruditos são as pessoas que preservam


o direito e, através dele, o reino secular. E do mesmo modo como no
reino de Cristo um teólogo piedoso e um pregador honesto é chamado
de anjo de Deus, salvador, profeta, servidor e mestre, assim também
se pode, no reino secular do imperador, perfeitamente chamar um
jurista piedoso e um erudito honesto de profeta, sacerdote, anjo e
salvador. Por outro lado, assim como no reino de cristo um herege ou
falso pregador é um diabo, ladrão, assassino e blasfemador, assim, um
jurista falso e desonesto na casa do imperador é um ladrão, velhaco,
traidor, malvado e um diabo de todo o reino. 17

Se o não educar era visto como uma ação estratégica do diabo, com respeito
ao mundo espiritual, o não investirem nos filhos com respeito à educação seria, por
parte dos pais, um crime contra a nação. Eles estariam se submetendo ao diabo e,
ao mesmo tempo, prejudicando o país. Seriam considerados culpados pela perda
da proteção e paz nacional.

17
Uma Prédica para que se mandem os filhos à escola, 1530 - Obras Selecionadas, Vol. 5, pág. 349
Considerações Finais

Certamente ainda se espera algo mais daquilo que sinalizou o movimento do


século XVI principalmente, em países onde não se efetivou a ideologia reformista.
Nutre-se a expectativa de que os efeitos sociais da reforma protestante, como foi em
sua origem, não se limitem mas, sobretudo, evidenciem os princípios de ética e
cidadania.
Aquela compulsão reformista faz-se necessária nos dias atuais para promover
mudanças sociais sem prejuízo da espiritualidade. Para tanto, como foi no passado,
é preciso protestar com bases seguras da fé associada à razão. Foi essa a tônica de
Lutero que desencadeou mudanças profundas na sociedade.
O ser humano se desloca no tempo, se transforma e constantemente se
constitui. Assim aconteceu com os conceitos de direitos humanos e cidadania, ainda
que, se tratando do primeiro, no mais amplo sentido. Para pensar no humano em
termos sociais, é necessário entender a complexidade das sociedades humanas.
Isto porque, os membros da sociedade se atraem ou se repelem em função de seus
interesses. Para se construir e entender-se, o humano precisa pertencer. Essa
pertinência passa por diversos departamentos como a língua, classe social, cultura e
outros. As sociedades sempre experimentam mudanças e se transformam a partir
de conflitos e contradições.
É preciso encarar o exercício da cidadania e, conseqüentemente, “mudança
social” não apenas como fenômenos sociológicos, mas, também, como um direito
humano a ser conquistado. A busca de tais direitos não implica necessariamente em
conflitos que possam derramar sangue, caracterizando a irracionalidade e a inversão
de valores absolutos da existência humana. Tais conceitos, segundo nossa
perspectiva, podem ser pontuados no período da Reforma Protestante. Os direitos e
as obrigações deveriam caracterizar e legitimar a cidadania daqueles que se viam
oprimidos e discriminados.
Se o exercício de cidadania pode ser mencionado como latente no
pensamento reformista, com ênfase em Martinho Lutero, deve-se atribuir ao
movimento humanista especial ideal. Isto porque, ambos tinham a preocupação
primeira voltada para a Educação. Na segunda metade do século XIV na Itália, até o
século XVI, o seu resplendor humanista se fez sentir e, indubitavelmente, traria
influência para qualquer movimento que sonhasse com liberdade e desejo de
conhecimento. A invenção da imprensa viabilizaria com eficácia a expansão do
pensamento humanista e conseqüentemente o pensamento reformado de Lutero.
Em 1460, a imprensa difundia-se com rapidez alcançando a Alemanha, que já
dispunha de uma Universidade desde 1388. A Reforma Protestante, ainda que
originalmente tenha sido um movimento religioso, recebeu implicações pluralistas.
As mudanças causadas pelo Humanismo Renascentista contribuíram para
que a Reforma achasse guarida na história. Os humanistas cristãos se despertaram
para o retorno às fontes primárias, ou seja, o estudo dos originais da Bíblia. Logo se
percebeu a diferença entre o que ensinavam as Escrituras daquilo defendido pela
Igreja Romana. Pode-se dizer que, em certo sentido, o Humanismo e a Reforma
caminharam até o momento em que as definições filosóficas ou as ideologias
fossem finalmente definidas. Se para o movimento humanista, o “homem era a
medida de todas as coisas”, para os reformadores, ex-humanista, Lutero, Zuinglio e
Calvino a “palavra de Deus” ocupava tal espaço.
Conclui-se que a Reforma não foi um movimento exclusivamente religioso,
não tinha como ser. As circunstâncias sociais, políticas e, também religiosas,
exigiam uma visão mais alargada. Hoje, com o testemunho da história, se pode
afirmar que a Reforma Protestante foi também um movimento de alcance cultural,
social e político. Inicialmente na Europa e depois em todo o mundo ocidental. Lutero
foi líder de uma revolução intelectual que abalaria o mundo todo. Ao traduzir a Bíblia
para a língua alemã 18 , Lutero abriu a oportunidade para o “livre exame”, tendo como
princípio a “liberdade de consciência”. O grande inimigo, o analfabetismo, precisaria
ser combatido. Daí as diversas solicitações de Lutero aos Conselhos que criassem e
mantivessem escolas, investissem no bom preparo dos professores, em bibliotecas
e modernização dos métodos de educação.

18
Lutero concluiu o trabalho de tradução da Bíblia para o alemão em 1534. A tradução é considerada o marco inicial da
literatura alemã. Nas palavras de Lucien Febvre, o trabalho de Lutero consistiu “numa assombrosa ressurreição da Palavra”.
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