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COLETÂNEA DE ARTIGOS PARA A DEFENSORIA PÚBLICA

Defensoria Pública

Sumário
A Defensoria Pública e o resguardo da legalidade na dosimetria da pena...............3

Prerrogativas da Defensoria Pública no Código de Processo Civil...........................7

A relação entre a atuação da defensoria pública e a


defesa do estado democrático de direito.....................................................................10

O direito ao esquecimento e a atual diretriz jurisprudencial do STJ.........................13

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A DEFENSORIA PÚBLICA E O RESGUARDO DA LEGALIDADE NA DOSIMETRIA


DA PENA

Túlio Mendes
Defensor Público e professor de Direito Penal

Guerreiras e guerreiros!
Vamos conversar hoje sobre o papel essencial desempenhado pela Defensoria Pública
para fins de ser observada a legalidade quando o magistrado fixa a pena.
De acordo com o art. 134, caput, da Constituição Federal, a Defensoria Pública é insti-
tuição permanente a quem cabe a promoção dos direitos humanos e a defesa, em todos os
graus, judicial e extrajudicial, dos direitos individuais e coletivos, de forma integral e gratuita,
aos necessitados.

Vejamos:

Art. 134. A Defensoria Pública é instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Esta-
do, incumbindo-lhe, como expressão e instrumento do regime democrático, fundamentalmente,
a orientação jurídica, a promoção dos direitos humanos e a defesa, em todos os graus, judicial e
extrajudicial, dos direitos individuais e coletivos, de forma integral e gratuita, aos necessitados, na
forma do inciso LXXIV do art. 5º desta Constituição Federal.

A individualização da pena revela-se como garantia fundamental prevista no art. 5º, XLVI,
da CF, de modo que cabe à Defensoria Pública tutelar a preservação da garantia da indivi-
dualização da pena.
A garantia da individualização da pena encontra-se presente na fase da COMINAÇÃO DA
PENA (quando da seleção dos bens que serão tutelados pela norma penal), da APLICAÇÃO
DA PENA (quando da fixação da pena privativa de liberdade pelo sistema trifásico ou da pena
pecuniária/multa pelo sistema bifásico) e da EXECUÇÃO DA PENA (quando da aplicação da
pena fixado em concreto e da análise de eventuais benefícios próprios da execução penal
para os quais as características pessoais do sentenciado/reeducando são analisadas).
Importante acentuar que, em uma primeira fase (FASE DE COMINAÇÃO DA PENA),
a pena é cominada em abstrato, cabendo ao LEGISLATIVO. Em um segundo momento, a
pena é fixada em concreto (FASE DA APLICAÇÃO ou DOSIMETRIA DA PENA), sendo tal
momento próprio do JUDICIÁRIO. E, por fim, em uma terceira fase, a individualização da
pena vem plasmada na FASE DA EXECUÇÃO DA PENA que cabe ao EXECUTIVO sob
supervisão do JUDICIÁRIO (juízo da execução penal).

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A participação da Defensoria Pública é essencial, enquanto instituição permanente e


essencial ao regime democrático, em relação às três fases, tendo papel relevante, por exem-
plo, na participação em audiências públicas realizadas no âmbito do Legislativo quando do
trâmite de determinação do projeto de natureza penal. Igualmente, na fase da execução da
pena, a Defensoria Pública implementa trabalho de suma relevância no acompanhamento do
cumprimento da pena, no resguardo dos benefícios, assim como na participação em mutirões
em todo o Brasil envolvendo a situação de encarceramento qualificado pelo Supremo Tribu-
nal Federal como estado de coisas inconstitucional (Súmula Vinculante 56 e RE 641.320/RS).
Hoje, falaremos com mais detalhes do momento da aplicação ou da dosimetria da pena.
Para além do fundamento constitucional da individualização de que já conversamos, vale
lembrar o parâmetro legal da aplicação ou dosimetria da pena, qual seja, o disposto no art. 68
do Código Penal, segundo o qual “a pena-base será fixada atendendo-se ao critério do art. 59
deste Código; em seguida serão consideradas as circunstâncias atenuantes e agravantes;
por último, as causas de diminuição e de aumento”.
No caso de penas privativas de liberdade, a dosimetria da pena opera-se pelo sistema
trifásico, no qual, em uma primeira fase, a partir da pena mínima em abstrato cominada para
o crime, é fixada a PENA-BASE, mediante a análise das circunstâncias judiciais, não se
admitindo pena-base aquém do mínimo ou além do máximo previstos em abstrato (no pre-
ceito secundário da norma incriminadora). Na segunda fase, a partir do quantum fixado a
título de pena-base, o juízo, considerando eventuais circunstâncias atenuantes e agravan-
tes, fixa a PENA INTERMEDIÁRIA, sendo que, aqui, igualmente, não é possível a fixação
da pena abaixo do mínimo ou acima do máximo da pena prevista em abstrato (Súmula 231
– STJ e Repercussão Geral no RE 597270). E, por fim, na terceira fase, partindo da pena
intermediária, o juízo, examinando a presença de eventuais circunstâncias que componham
causa de aumento (majorante) ou de diminuição (minorante), fixará a PENA DEFINITIVA, a
qual, agora sim, poderá ser fixada em quantum inferior ao mínimo em abstrato ou superior ao
máximo cominado àquele crime.
Na primeira fase, cabe à Defensoria Pública zelar pela necessária fundamentação em
relação às circunstâncias judiciais as quais consubstanciam vetores da prevenção e da
repressão examinados concretamente, ou seja, sob discricionariedade juridicamente vincu-
lada (caso concreto). Ou seja, não se admite como idônea para fins de exasperação da pena
na primeira fase a opinião do julgador sobre a gravidade em abstrato do delito. É dizer: não
se admite a exasperação da pena a título da circunstância judicial da culpabilidade o fato de
o sujeito ter praticado o delito de roubo sob o intento de ganhar a vida de forma fácil.
Nesse turno, cabe à Defensoria Pública, entre outros pontos, zelar pela não utilização
de inquéritos policiais e ações penais em curso para agravar a pena-base (Sum. 444-STJ e
Repercussão Geral no RE 591054); coibir a utilização de condenações criminais transitadas
em julgado não utilizadas como reincidência para fins de valorar negativamente a circunstân-

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cia judicial da conduta social ou da personalidade (EAREsp 1.311.636-MS, Terceira Seção,


DJe 26/04/2019 – Informativo 647 STJ); assegurar a não apreciação desfavorável do agente
a partir do comportamento da vítima o qual pode revelar circunstância neutra ou, caso a
vítima tenha contribuído para o fato, análise favorável ao agente etc.
A Defensoria Pública implementa papel fundamental quando evita a prática do bis in idem
na primeira fase da dosimetria, uma vez que as circunstâncias judiciais devem sempre ser
analisadas de forma residual. Assim, somente podem as circunstâncias judiciais ser valora-
das acaso não constituam elemento do tipo penal, ou seja, não pode configurar elementar/
essencial do tipo penal (tipo básico), circunstância que qualifica o crime (tipo derivado), cir-
cunstância que caracteriza causa de aumento de pena/majorante (terceira fase da dosimetria
da pena), tampouco circunstância agravante (segunda fase da dosimetria da pena).
Em relação à segunda fase da dosimetria da pena, merece destaque o trabalho da Defen-
soria Pública na análise sobre se persistem os efeitos de reincidência quanto a uma conde-
nação criminal transitada em julgada anterior ao fato em relação ao qual se está a fixar a
pena. Para tanto, é analisado o período depurador previsto no art. 64, I, do Código Penal, de
modo que, acaso transcorrido, a condenação transitada em julgado anterior não poderá ser
utilizada como agravante da reincidência, mas poderá ser utilizada como maus antecedentes
(Repercussão Geral no RE 593818, julgamento concluído em agosto de 2020). Indico a lei-
tura de artigo nosso publicado aqui no blog a respeito desse ponto!
No que tange às atenuantes, a Defensoria Pública exerce papel ímpar ao aferir acerca da
observância do entendimento sedimentado no enunciado 545 da Súmula da Jurisprudência
do STJ, segundo o qual “quando a confissão for utilizada para a formação do convencimento
do julgador, o réu fará jus à atenuante prevista no artigo 65, III, 'd', do Código Penal”. Muitas
vezes, não é reconhecida a referida atenuante nas hipóteses de confissão parcial (não com-
preende a totalidade) ou qualificada (o réu admite a autoria, mas alega causa excludente de
ilicitude ou culpabilidade). Contudo, o parâmetro adotado pelo entendimento do mencionado
enunciado não excepciona, cabendo apenas a análise se a confissão foi utilizada na funda-
mentação pelo julgador.
Ademais, a Defensoria Pública, instituição atenta e sensível à realidade social, pode, com
base no art. 66 do Código Penal, sustentar a presença da coculpabilidade como atenuante
genérica inominada. Trata-se de teoria concebida para apontar e evidenciar a parcela de res-
ponsabilidade que deve ser atribuída à sociedade quando da prática de determinadas infra-
ções penais pelos seus cidadãos (Eugenio Raúl Zaffaroni). Não vemos muito na prática, mas
já caiu em prova! Na oportunidade, foi julgado verdadeiro o seguinte item: o agente que não
teve acesso às mesmas oportunidades e direitos conferidos a outros indivíduos da sociedade
possui limitado âmbito de autodeterminação, o que enseja a redução do seu grau de culpa-
bilidade (FCC/2019/DPE-SP/DEFENSOR PÚBLICO).

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Após a fixação da pena, o magistrado passa sucessivamente às seguintes atividades:


fixação do regime inicial de cumprimento de pena; análise da possibilidade de substituição
da pena privativa de liberdade por restritiva de direitos e/ou multa; acaso não caiba a subs-
tituição por restritiva de direitos, é feita a análise do cabimento de suspensão condicional da
pena; e a aferição da manutenção, ou não, da prisão preventiva.
Considerada a dimensão e os desdobramentos acerca da fixação do regime inicial de
cumprimento de pena, cabe, por fim, pontuar a missão da Defensoria Pública de analisar se
houve fundamentação idônea para tanto, pois “a opinião do julgador sobre a gravidade em
abstrato do crime não constitui motivação idônea para a imposição de regime mais severo
do que o permitido segundo a pena aplicada” (Sum. 718 STF). Em outros termos, “fixada a
pena-base no mínimo legal, é vedado o estabelecimento de regime prisional mais gravoso
do que o cabível em razão da sanção imposta, com base apenas na gravidade abstrata do
delito” (Súmula 440 STJ), de modo que “a imposição do regime de cumprimento mais severo
do que a pena aplicada permitir exige motivação idônea” (Sum. 719 STF).
Em relação a cada um desses passos, como vimos, é indispensável o papel desempe-
nhado pela Defensoria Publica de zelar pela legal e proporcional fixação da pena, como con-
cretização do primado constitucional da individualização da pena.
É isso, pessoal! Nos encontramos por aqui em uma próxima ou no nosso curso de penal!
E, claro, lembrem-se: desistir jamais!

Forte abraço!

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PRERROGATIVAS DA DEFENSORIA PÚBLICA NO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL

Fábio Levino de Oliveira


Defensor Público do Distrito Federal

A Constituição de 1988, denominada como “cidadã”, deu vida à isonomia estabelecida


no art. 5º, caput e seu inciso LXXIV, ao reconhecer a Defensoria Pública como “essencial à
função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe a orientação jurídica e a defesa, em todos os
graus, dos necessitados” (art. 134).
Em sintonia ao disposto na Lei Fundamental, o Código de Processo Civil, nos artigos 7º e
185, conferiu paridade de tratamento substancial em relação aos ônus e deveres processuais
e assegurou a garantia da prestação jurisdicional, sem qualquer discriminação, e reduziu as
dificuldades do acesso à justiça.
Deveras, sem a Defensoria Pública, o direito de defesa de uma gama extensa de neces-
sitados ficaria comprometido. Entrementes, para que se tenha a possibilidade de uma atua-
ção justa, combativa e qualificada da Defensoria, necessário se faz a previsão das prerroga-
tivas previstas no Código de Processo Civil.
Cuida-se da aplicação concreta do princípio da igualdade, cuja ratio essendi pressupõe
que as pessoas colocadas em situações diferentes sejam tratadas de forma desigual: dar
tratamento isonômico às partes significa tratar igualmente os iguais e desigualmente os desi-
guais, na exata medida de suas desigualdades.
A diferenciação justifica-se pela estrutura precária da nobre instituição, que está desti-
nada a atender milhões de pessoas necessitadas – econômica e juridicamente – mas com
um número muito reduzido de defensores, geralmente concentrados nas grandes capitais.
Decerto, o ideal seria aparelhar todas as Defensorias Públicas estaduais e da União, para
que não houvesse a necessidade das diversas prerrogativas. Todavia, enquanto essa reali-
dade continuar a ser um sonho distante, necessário se faz a atual distinção.
Desta forma, quanto ao prazo para se manifestar nos autos, o artigo 186 no CPC traz a
regra da contagem em dobro dos prazos processuais para a Defensoria Pública, inclusive
para recorrer. A importante prerrogativa processual já era prevista na Lei n. 1.060/1950 e na
LC n. 80/1994.
Destaque-se, ainda, que a contagem do prazo se iniciará com a intimação pessoal do
Defensor Público através da entrega dos autos na sede da Instituição (art. 186, § 1º). Ou
seja, o Defensor Público não é intimado por meio do Diário Oficial, como ocorre com os advo-
gados, mas por meio da “carga” dos autos – se físicos – ou de forma eletrônica.
O defensor público pode, ainda, solicitar ao juiz que a intimação seja realizada pessoal-
mente à parte, quando depender de providência ou informação que somente por ela possa
ser realizada ou prestada (CPC, art. 186, § 2º). Na advocacia essa prerrogativa não existe,
de modo que a intimação para esclarecimentos será sempre direcionada ao advogado.

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As despesas e as custas processuais são outro ponto de destaque, porquanto serão


pagas somente ao final do processo (CPC, art. 91) ou terão sua cobrança suspensa na hipó-
tese de ser beneficiário da justiça gratuita (CPC, art. 98, §§ 1º a 8º). Assim, por exemplo,
caso exista a necessidade de realização de perícia, essa despesa será adiantada pelo Poder
Público e não pelo assistido.
A dispensa de juntada de procuração nos autos, caso a parte seja representada pela
Defensoria Pública (CPC, art. 287), é outro fator relevante, assim como a prerrogativa de ter
as suas testemunhas intimadas pessoalmente (CPC, art. 455, IV). Esse último ponto é extre-
mamente importante, porque retira da responsabilidade do defensor público de intimar todas
as testemunhas arroladas pelo seu assistido, como ocorre na advocacia, porquanto “cabe
ao advogado da parte informar ou intimar a testemunha por ele arrolada do dia, da hora e do
local da audiência designada, dispensando-se a intimação do juízo” (CPC, art. 455).
No cumprimento de sentença, a parte executada, representada pela Defensoria Pública,
será intimada por carta com aviso de recebimento para cumprir a obrigação a que foi conde-
nada (CPC, art. 513, § 2º, II). Já na execução, o instrumento de transação (acordo, contrato
etc.) referendado pela Defensoria Pública constitui título executivo extrajudicial (CPC, art.
784, IV). Reconhece-se, assim, não só o papel que tem a Defensoria no desenvolvimento
da autocomposição (art. 3º do NCPC), mas também a importância que a instituição tem para
pacificação social.
Novidade no CPC/2015 é a função expressa de custus vulnerabilis ou “Guardião dos Vul-
neráveis” da Defensoria Pública. Em outros termos, isso significa que assim como o Ministé-
rio Público está para custus legis (fiscal ou guardião da ordem jurídica), a Defensoria Pública
está para os vulneráveis.
Tem-se, assim, a possibilidade de intervenção da Defensoria Pública nas demandas que
envolver o interesse de muitas pessoas vulneráveis, como o STJ já admitiu na questão envol-
vendo o fornecimento de medicamentos (STJ. 2ª Seção. EDcl no REsp 1.712.163-SP, Rel.
Min. Moura Ribeiro, julgado em 25/09/2019 (Info 657) e o STF na intervenção das defenso-
rias públicas no Habeas Corpus coletivo 143.641/SP, Rel. Min. Ricardo Lewandowski, DJ.
09/10/2018, que tratava da possibilidade de substituição da prisão preventiva pela domiciliar,
para mulheres ou adolescentes gestantes, puérperas ou com filhos até 12 anos de idade ou
deficiente.
O art. 554, § 1º, do CPC, dispõe sobre a necessidade de atuação da Defensoria Pública
sempre que o litígio envolver ação possessória em que figure grande número de pessoas
hipossuficientes (conflitos coletivos pela posse da terra). Na busca da harmonização do pro-
cesso com os direitos fundamentais, a intervenção da Defensoria nestas demandas tem por
fim tutelar o direito social à moradia e a função social da propriedade, garantias assegura-
das na Constituição Federal brasileira. Cuida-se, portanto, da disposição expressa do custus
vulnerabilis.

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Legitima-se a Defensoria Pública para a propositura do incidente de resolução de deman-


das repetitivas (IRDR) (art. 977, II, do NCPC). Na perspectiva de que a instituição deve servir
à justiça, busca-se permitir que a Defensoria Pública contribuía para a racionalização dos
serviços judiciários e para a preservação da harmonização das decisões judiciais, na medida
em que o novel instituto objetiva preservar estes dois valores.
Finalmente, e não menos importante, é a função típica da Defensoria Pública no exercício
da Curadoria Especial (CPC, art. 72) ao “incapaz, se não tiver representante legal ou se os
interesses deste colidirem com os daquele, enquanto durar a incapacidade”; “réu preso revel,
bem como ao réu revel citado por edital ou com hora certa, enquanto não for constituído
advogado”; “ao ausência” (CPC, art. 671, I).
Dessa forma, o Curador Especial será um representante da parte, naquelas hipóteses
previstas na lei, para a proteção dos seus interesses, com vistas à regularização processual,
paridade de armas e equilíbrio ao contraditório.
Na qualidade de Curador Especial, o STJ entendeu o recurso interposto pela Defensoria
Pública está dispensado de preparo (Resp. 1.515.701/RS, DJ. 31/10/2018) e a sua legitimi-
dade para propor reconvenção em favor do réu revel citado por edital (Resp. 1.088.068/MG,
DJ. 29/08/2017).
Assim, não por acaso, todas as diretrizes da instauração da Defensoria Pública apontam
para essa primazia, suas prerrogativas, no intuito de cumprir os seus objetivos e as suas
funções institucionais, possibilitando aos membros a tutela legal para sua atuação e con-
cretização.

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A RELAÇÃO ENTRE A ATUAÇÃO DA DEFENSORIA PÚBLICA E A DEFESA DO


ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO

Fabrício Rodrigues de Sousa


Defensor Público do Distrito Federal e Professor de Direito Constitucional

Segundo Manoel Gonçalves Ferreira Filho, a expressão Estado Democrático de Direito


foi criada pelo espanhol Elías Dias em seu livro Estado de derecho y sociedad democrática.
Ela está presente no artigo 1º da Constituição Federal de 1988.
De mais a mais, o direito fundamental à assistência jurídica integral e gratuita, previsto no
artigo 5º, LXXIV, da Constituição da República de 1988, é exercido pela Defensoria Pública,
instituição essencial à função jurisdicional do Estado, incumbida da missão de prestar orien-
tação jurídica e a defesa dos necessitados, bem assim instrumento de democratização do
acesso às instâncias jurídicas.
Conforme expressão da Lei Orgânica Nacional da Defensoria Pública (Lei Complementar
n. 80/1994), a Defensoria Pública é instituição permanente, essencial à função jurisdicional
do Estado, incumbindo-lhe, como expressão e instrumento do regime democrático, funda-
mentalmente, a orientação jurídica, a promoção dos direitos humanos e a defesa, em todos
os graus, judicial e extrajudicial, dos direitos individuais e coletivos (artigo 1º), incluindo,
dentre seus objetivos, a primazia da dignidade da pessoa humana, a redução das desigual-
dades sociais e a prevalência e efetividade dos direitos humanos (artigo 3º-A).
A Emenda Constitucional n. 80 de 2014, que abriu seção específica no texto constitucio-
nal (seção IV) para tratar da Defensoria Pública dentro do capítulo das funções essenciais à
justiça, alterou o art. 134 da Constituição da República de 1988 para nele dispor que:

A Defensoria Pública é instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, incum-


bindo-lhe, como expressão e instrumento do regime democrático, fundamentalmente, a orientação
jurídica, a promoção dos direitos humanos e a defesa, em todos os graus, judicial e extrajudicial,
dos direitos individuais e coletivos, de forma integral e gratuita, aos necessitados, na forma do
inciso LXXIV do art. 5º desta Constituição Federal.

Dessa forma, constitucionalizou-se o que já constava na Lei Complementar n. 80/1994


com a redação dada pela Lei Complementar n. 132/2009.
A Constituição Federal de 1988, portanto, evidencia a relevante posição da Defenso-
ria Pública na concretização do acesso à justiça, como instrumento e expressão do regime
democrático.
Conforme lição de Marinoni e Mitidiero, ainda que o texto constitucional não explicitasse,
de forma inconfundível, a relação entre a atuação da Defensoria Pública e a defesa do Estado
Democrático de Direito, essa conclusão defluiria da interpretação sistemático-teleológica
das cláusulas da inafastabilidade da jurisdição e do devido processo legal em sua acepção
substancial.

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Assim sendo, a relação entre a atuação da Defensoria Pública e a defesa do Estado


Democrático de Direito deriva, para além da interpretação sistemático-teleológica das cláu-
sulas da inafastabilidade da jurisdição e do devido processo legal em sua acepção subs-
tancial, do reconhecimento expresso do texto constitucional da Defensoria Pública como
expressão e instrumento do regime democrático. Ademais, por meio da Defensoria Pública,
reafirma-se a centralidade da pessoa humana na ordem jurídico-constitucional contempo-
rânea, deixando-se claro que todo ser humano é digno de obter o amparo do ordenamento
jurídico brasileiro, consoante aduz o Ministro Luiz Fux, em seu voto na Ação Direta por Omis-
são (ADO 2).
Embora a Constituição Federal de 1988 tenha certamente avançado na valorização da
cidadania, colocando a dignidade humana, valor-fonte de todo ordenamento jurídico, em alto-
-relevo, a sensação era de que faltava algo à concretização de todos os direitos consagrados
no texto constitucional, mormente as pessoas menos favorecidas. Era preciso incluir milhões
de pessoas carentes e excluídas com a concretização do direito à moradia digna, à saúde, à
educação e ao acesso à justiça.
Nesse sentido, a Defensoria Pública é o pulso a indicar a vitalidade da democracia, afinal,
todo o poder emana do povo e em seu nome é exercido. Quanto mais acesso à justiça e à
tomada de decisões pelos mais fracos, mais fortalecida será a democracia.
Após sucessivas emendas, a atual redação do artigo 134 da Constituição Federal garante
à Defensoria Pública autonomia funcional e administrativa, bem como a iniciativa de sua pro-
posta orçamentária, ao passo que o artigo 168 da Carta Maior determina que os recursos
correspondentes às dotações orçamentárias, compreendidos os créditos suplementares e
especiais, destinados aos órgãos dos Poderes Legislativo e Judiciário, do Ministério Público
e da Defensoria Pública, ser-lhes-ão entregues até o dia 20 de cada mês, em duodécimos.
Além disso, a Emenda Constitucional n. 80/2014 incluiu o artigo 98 no Ato das Disposi-
ções Constitucionais Transitórias, que dispõe que “o número de defensores públicos na uni-
dade jurisdicional será proporcional à efetiva demanda pelo serviço da Defensoria Pública
e à respectiva população”; que “no prazo de 8 (oito) anos, a União, os Estados e o Distrito
Federal deverão contar com defensores públicos em todas as unidades jurisdicionais (…)”;
e que “durante o decurso do prazo previsto no § 1º deste artigo, a lotação dos defensores
públicos ocorrerá, prioritariamente, atendendo as regiões com maiores índices de exclusão
social e adensamento populacional”.
Além de reafirmar a posição da Defensoria Pública como instituição essencial, atuando
como mecanismo crucial para a construção de um verdadeiro Estado Democrático de Direito,
responsável pela promoção da igualdade substancial e dos direitos humanos, fazendo cum-
prir o objetivo de redução das desigualdades e erradicação da pobreza (art. 3º, III, CF/1988)
a lei, ainda, apresenta um extenso rol exemplificativo, de suas atribuições institucionais, o

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qual enaltece o imprescindível caráter transformador social da Defensoria, por meio da inclu-
são ao espaço público do cidadão hipossuficiente, gozando de aconselhamento, educação,
assistência e defesa técnica, concretizando a pretensão constitucional de igualdade material.
A Defensoria Pública, portanto, reafirma a centralidade da pessoa humana na ordem
jurídico-constitucional contemporânea, porquanto fica claro que todo ser humano é digno de
obter amparo do ordenamento jurídico brasileiro. Sob esse prisma, a instituição tem papel
relevante na proteção do direito ao reconhecimento de grupos vulneráveis em um Estado
Democrático de Direito.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil, 1988. Texto constitucional


de 5 de outubro de 1988, com as alterações adotadas pelas emendas constitucionais. Brasí-
lia: Senado Federal, 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/
constituicao.htm>. Acesso em: 30 agosto. 2020.
BRASIL. Presidência da República. Lei Complementar n. 132, de 7 de outubro de 2009.
Altera dispositivos da Lei Complementar n. 80, de 12 de janeiro de 1994, que organiza a
Defensoria Pública da União, do Distrito Federal e dos Territórios e prescreve normas gerais
para sua organização nos Estados, e da Lei n. 1.060, de 5 de fevereiro de 1950, e dá outras
providências. Diário Oficial da União, Brasília, 8 out. 2009. Disponível em: <http://www.
planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lcp/Lcp132.htm>. Acesso em: 30 agosto. 2020.
BRASIL. Presidência da República. Lei Complementar n. 80, de 12 de janeiro de 1994.
Organiza a Defensoria Pública da União, do Distrito Federal, dos Territórios e prescreve
normas gerais para sua organização nos Estados, e dá outras providências. Presidência da
República, Casa Civil, Subchefia para assuntos jurídicos. Diário Oficial da União, 13 jan.
1994. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lcp/lcp80.htm>. Acesso em:
30 agosto. 2020.
CANOTILHO, J. J. Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. 6. ed.,
Coimbra: Almedina, 2002.
FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves. Estado de Direito e Constituição. 4 ed. São
Paulo: Saraiva, 2007.
SARLET, Ingo Wolfgang; MARINONI, Luiz Guilherme; MITIDIERO, Daniel. Curso de
Direito Constitucional. 2 ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2013.
STF. ADO 2, rel. min. Luiz Fux, j. 15-4-2020, P, DJE de 30-4-2020.

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O DIREITO AO ESQUECIMENTO E A ATUAL DIRETRIZ JURISPRUDENCIAL DO STJ

Considerações iniciais: a importância do estudo da diretriz jurisprudencial dos tri-


bunais na preparação para concursos
A preparação eficaz para provas e concursos públicos inevitavelmente vai levá-lo ao
caminho da necessidade de conhecer qual a diretriz jurisprudencial mais atualizada e apli-
cável a determinado instituto jurídico, a determinado artigo de lei e a determina circunstân-
cia fática, pois os examinadores das bancas, por um imperativo lógico, tendem a embasar
suas questões em elementos objetivos (para tentar impedir qualquer recurso e/ou eventual
anulação).
E você quer algo mais sólido e objetivo do que uma diretriz jurisprudencial fixada por um
determinado tribunal de superposição, que tenha a competência constitucional para julgar
aquela matéria?!
Logo, sendo certo que o Direito Civil integra o “núcleo básico” de qualquer concurso para
as chamadas carreiras jurídicas, você terá que se acostumar a estudar temas como “Direi-
tos da Personalidade” – dentro do qual se insere o assunto deste artigo: “Direito ao esque-
cimento” – sob a perspectiva, p.ex., do Superior Tribunal de Justiça – STJ, órgão de cúpula
do Poder Judiciário quando o assunto é a uniformização da diretriz interpretativa sobre a
“lei federal”.
Isso porque, como um dos direitos da personalidade que é, o direito ao esquecimento
pode ser perfeitamente extraído do artigo 21 do Código Civil de 2002, que tem o seguinte teor:

Art. 21. A vida privada da pessoa natural é inviolável, e o juiz, a requerimento do interessado, ado-
tará as providências necessárias para impedir ou fazer cessar ato contrário a esta norma.

Observação terminológica importante


Mas, antes de avançarmos no assunto, uma observação terminológica importante deve
ser feita: o “direito ao esquecimento” também é chamado no Brasil de "direito de ser deixado
em paz" ou de “direito de estar só" e, no Direito Comparado, de "the right to be let alone" ou
"derecho al olvido".
Nada que venha a alterar, de qualquer forma, as conclusões a que vamos chegar neste
artigo, mas é importante conhecer estas outras nomenclaturas a fim de prepará-lo melhor
para uma coisa tão comum na ciência jurídica, que deve ser a todo custo ser evitada, mas
ainda prevalece: várias denominações para um mesmo fenômeno.
O examinador, inclusive, pode querer saber do candidato exatamente este ponto: se ele
conhece as diversas acepções terminológicas do instituto que está tratando.

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Tema multidisciplinar e sua delimitação para este artigo


O direito ao esquecimento é alvo de análise por diversas áreas do saber jurídico, logo,
podemos dizer que se trata de um tema multidisciplinar na nossa ciência.
Os juscivilistas o estudam na perspectiva civil-constitucional dos direitos da personalidade.
Os constitucionalistas tratam esta categoria jurídica como mais um dos direitos da extensa
tábua de direitos fundamentais da Constituição Federal de 1988.
Os juspenalistas enfocam a matéria sob o ângulo da ressocialização da pena e do princí-
pio da intranscendência da sanção penal.
Neste artigo vamos falar no “right to be let alone" apenas com incursões nos ramos do
Direito Civil e no Direito Constitucional.

A perspectiva constitucional, histórica e sua correlação com o direito penal e a res-


socialização dos egressos do sistema penitenciário
Não é de hoje que se discute a existência de um direito ao esquecimento na Europa
e nos EUA.
Oreste Pollicino and Giovanni De Gregorio, por exemplo, lembram do célebre caso Mme.
M. c. Filipacchi et soc. Cogedipresse, de 1983, julgado pelo Tribunal da última instância de
Paris, no qual esse direito restou assegurado nos seguintes termos (em tradução livre):

“(...) qualquer pessoa que se tenha envolvido em acontecimentos públicos pode, com o passar do
tempo, reivindicar o direito ao esquecimento; a lembrança destes acontecimentos e do papel que
ela possa ter desempenhado é ilegítima se não for fundada nas necessidades da história ou se for
de natureza a ferir sua sensibilidade; visto que o direito ao esquecimento, que se impõe a todos,
inclusive aos jornalistas, deve igualmente beneficiar a todos, inclusive aos condenados que paga-
ram sua dívida para com a sociedade e tentam reinserir-se nela.”

Outro precedente histórico mais longínquo remonta a outro célebre julgado do Tribunal
Constitucional Alemão, de 1973: o “caso Lebach” (Soldatenmord von Lebach):

”Em 1969, quatro soldados foram assassinados e um ficou gravemente ferido durante um roubo
de armas e munições. O caso ficou conhecido como “o assassinato dos soldados de Lebach”, em
referência ao lugarejo localizado a oeste da República Federal da Alemanha onde o crime ocorreu,
tendo ganhado grande notoriedade pela brutalidade com que foi cometido. Os dois principais au-
tores foram condenados à prisão perpétua e um terceiro fora condenado a seis anos de prisão por
ter auxiliado na preparação da ação criminosa.

No ano de 1972, uma emissora de televisão anunciou a produção de um documentário


sobre o delito, no qual reconstituiria o latrocínio, com referência aos nomes e fotos dos envol-
vidos, detalhes da relação entre os condenados – incluindo ligações homossexuais –, além
de particularidades sobre a perseguição e prisão. O programa iria ao ar poucos meses antes

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da data do livramento condicional do partícipe, razão pela qual pleiteou-se medida liminar
para impedir sua exibição, sob o argumento de que a veiculação desses fatos seria prejudi-
cial à sua ressocialização, em afronta ao direito de desenvolvimento da personalidade.
O pleito foi denegado nas instâncias ordinárias, fundamentado na proteção da liberdade
comunicativa e informativa, o que motivou o ajuizamento de reclamação constitucional.
II – O Tribunal Constitucional Federal da Alemanha, tentando harmonizar os direitos em
conflito (direito à informação versus direitos de personalidade), julgou procedente o pedido.
A Corte entendeu que, no caso, a tutela dos direitos da personalidade preponderava sobre
a liberdade de comunicação, o que justificaria a intervenção para proibir a transmissão do
documentário até a decisão final da ação principal pelos tribunais ordinários competentes.
A Corte assinalou que os meios de comunicação de massa têm influência decisiva no
processo de formação da opinião pública ao disponibilizar ao cidadão a informação ampla e
necessária sobre acontecimentos no Estado e na vida social, viabilizando a discussão. Nesse
contexto, observou-se que, em regra, o interesse de informação da população prevalece
sobre o direito de personalidade do autor do crime. No entanto, deve ser considerado, além
do respeito à intimidade e à vida privada, o princípio da proporcionalidade, segundo o qual a
divulgação de retrato, nome, ou qualquer identificação do autor do delito pode ser limitada.
Tendo em vista que a intensidade da intervenção no âmbito da personalidade deve ser
ponderada com o interesse de informação da população, a Corte afirmou que a proteção
constitucional da personalidade não admite que a emissora explore a imagem e a vida pes-
soal do condenado por tempo ilimitado e além da notícia atual.
Assim, considerando que, à época dos fatos a opinião pública fora devidamente infor-
mada e que já transcorreram vários anos desde a data do crime, não permaneceria signifi-
cativo interesse público na informação. Logo, intervenções subsequentes na vida privada do
condenado não poderiam ser toleradas, pois afetariam gravemente a esfera dos seus direitos
de personalidade, provocando prejuízo considerável novo ou adicional ao condenado a título
de sanção social – como estigma, isolamento social, preconceito, entre outros – e, conse-
quentemente, comprometeria a reintegração do prisioneiro à sociedade.”
Logo se vê que, portanto, que historicamente o tema sempre esteve ligado a fatos
ocorridos no campo do direito penal e da ressocialização da pena, surgindo para os casos de
ex-condenados que, após determinado período de tempo, desejavam que seus antecedentes
não mais fossem expostos, o que lhes causava inúmeros prejuízos.

Assim, pois, na lição de um conhecido jusfilósofo francês:

“Uma vez que, personagem pública ou não, fomos lançados diante da cena e colocados sob os
projetores da atualidade – muitas vezes, é preciso dizer, uma atualidade penal –, temos o direito,
depois de determinado tempo, de sermos deixados em paz e a recair no esquecimento e no ano-
nimato, do qual jamais queríamos ter saído.”

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A relevância constitucional atual, para o Direito brasileiro, tem guarida no direito à privaci-
dade (à vida privada), à intimidade e à honra (art. 5º, inc. X, da Constituição Federal de 1988),
na dignidade da pessoa humana (art. 1º, inc. III), na individualização e na intranscendência
da pena (art. 5º, incs. XLV e XLVI) e na vedação às penas de caráter perpétuo e cruéis (art.
5º, inc. XLVII, alíneas "b" e "e").
Segue esta linha a diretriz jurisprudencial do Supremo Tribunal Federal – STF e do
Superior Tribunal de Justiça – STJ (p.ex., STF: HCs 128.080-SP e 126.315-SP; STJ: HC n.
402.752-MS).

O fundamento civil do direito ao esquecimento e a sua ligação com os direitos da


personalidade
Por que, então, esse tema está sendo novamente tão discutido, se já há consenso histó-
rico no direito comparado e nas cortes de superposição do Direito brasileiro?
É que o direito ao esquecimento voltou a ter inegável importância e atualidade em razão
do fenômeno das mudanças de mídia, com a chegada de novos canis: a rede internet, onde
muitos falam para muitos!
A rede mundial de computadores praticamente eternizou as informações sobre as pes-
soas. Com poucos cliques, é possível ler reportagens, assistir vídeos, visualizar fotos e ouvir
notícias sobre fatos ocorridos há muitos anos. Sem a colaboração de outros atores públicos
e privados, pessoas naturais ou jurídicas, é quase impossível apagar o seu rastro digital e
ser esquecido.
A poderosa ferramenta da internet disponibiliza facilmente conteúdo praticamente infi-
nito, com potencial de destruir a reputação e a imagem das pessoas, que, como todos seres
humanos, são passíveis de erros e de mudanças de posições com o passar do tempo…
Assim, no nosso país, o direito ao esquecimento voltou a ser palco de intensos debates
no campo civil, o que resultou em dois enunciados das famosas Jornadas de Direito Civil –
JDC e três importantes casos julgados pelos STJ, como veremos adiante.

Com relação aos enunciados das Jornadas, eles têm o seguinte teor:

Enunciado n. 531 da VI JDC: "...a tutela da dignidade da pessoa humana na sociedade da informa-
ção inclui o direito ao esquecimento...".
Enunciado n. 576 da VII JDC: "...o direito ao esquecimento pode ser assegurado por tutela jurisdi-
cional inibitória...".

Com base em tudo isto, podemos definir que a grande discussão hoje diz respeito à
amplitude da incidência do direito ao esquecimento, com o fim de não afastar direitos outros,
inclusive de índole constitucional, como os relativos à informação (art. 5º, incs. IX e XIV, e art.
220) e à liberdade de imprensa (art. 220, caput e §§ 1º e 2º).

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Antes, porém, de ingressarmos nesta seara de colisão entre direitos fundamentais, vamos
entrar na raiz civil de sua fundamentação jurídica.
Para o Direito Civil, o direito ao esquecimento é mais um dos direitos da personalidade
que não encontra (ainda) positivação expressa, seja na legislação codificada (não há nada
no rol dos artigos 11 a 21 do Código Civil), seja em leis esparsas.
Porém, pode-se afirmar com certeza que ele está imbricado com os direitos da persona-
lidade, como dito anteriormente.
E o que é um direito da personalidade? É o reconhecimento, pelo Direito, de que a perso-
nalidade humana tem um conteúdo ou dimensão existencial, para além da mera aptidão para
integrar relações jurídicas e, portanto, pode ser, ela mesma, objeto de proteção.
É clássica aqui a lição do renomado professor italiano Adriano de Cupis que, em clássica
monografia sobre o tema, escreveu que todos “os direitos, na medida em que destinados a
dar conteúdo à personalidade, poderiam chamar-se ‘direitos da personalidade’”, mas esta
designação “é reservada àqueles direitos subjetivos cuja função, relativamente à personali-
dade, é especial, constituindo o mínimo necessário e imprescindível ao seu conteúdo”.
A doutrina brasileira trouxe as seguintes definições, dizendo que os direitos da perso-
nalidade são: “(…) os direitos sem os quais não se poderia falar em personalidade, sem os
quais os outros direitos perderiam o interesse para o indivíduo”; "aqueles inerentes à pessoa
e à sua dignidade" ou "aqueles que têm por objeto os atributos físicos, psíquicos e morais da
pessoa em si e em suas projeções sociais”.
Como saber se um direito pode caracterizar-se, ou não, como direito da personalidade?
Basta se perguntar se, sem ele, todos os outros direitos perderiam, ou não o sentido. De que
vale, afinal, o direito à propriedade privada de um bem imóvel se não tenho sequer como
registrá-la em Cartório, pois não tenho um nome civil distinto e distintivo dos demais indiví-
duos? O direito ao nome, portanto, inequivocamente, é um direito da personalidade.
E, assim como o direito ao nome (do artigo 16 do Código Civil de 2002), podemos citar
outros como o pseudônimo (do artigo 19 do Código Civil de 2002), a voz e imagem (do artigo
20 do Código Civil de 2002), a privacidade (do artigo 21 do Código Civil de 2002), a intimi-
dade, vida privada, honra e imagem (do artigo 5º, inc. X, da Constituição Federal de 1988), a
vida, a intelectualidade, dentre tantos outros, em rol não taxativo e mutável.
Assim se caracteriza o direito ao esquecimento na ordem civil: um direito da personali-
dade não taxativo (pois não encontra definição ou previsão legal no Código Civil ou em leis
esparsas).

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Na magistral definição de Anderson Schreiber, o direito ao esquecimento:

"É (…) um direito (a) exercido necessariamente por uma pessoa humana; (b) em face de agentes
públicos ou privados que tenham a aptidão fática de promover representações daquela pessoa
sobre a esfera pública (opinião social); incluindo veículos de imprensa, emissoras de TV, fornece-
dores de serviços de busca na internet etc.; (c) em oposição a uma recordação opressiva dos fatos,
assim entendida a recordação que se caracteriza, a um só tempo, por ser desatual e recair sobre
aspecto sensível da personalidade, comprometendo a plena realização da identidade daquela pes-
soa humana, ao apresentá-la sob falsas luzes à sociedade."

Mas, vez que não taxativo, teria existência e eficácia paralisante das condutas que ten-
deriam a violá-lo?
Definitivamente sim. A julgar pelos enunciados de Jornada anteriormente citados e pela
diretriz jurisprudencial do STJ, que é o tema central deste artigo.

A atual diretriz jurisprudencial do STJ sobre o direito ao esquecimento


Desde o ano de 2013, o STJ, por intermédio de sua 4ª Turma, já vinha dando indícios de
que a sua existência e eficácia viria a ser plenamente reconhecida.
O informativo “Jurisprudência em Teses” do Tribunal da Cidadania, colacionou vários
julgados onde se afirmou que o sistema jurídico brasileiro protege o direito ao esqueci-
mento. É ler:

“10) A tutela da dignidade da pessoa humana na sociedade da informação inclui o direito ao esque-
cimento, ou seja, o direito de não ser lembrado contra sua vontade, especificamente no tocante a
fatos desabonadores à honra.
Julgados: REsp 1660168/RJ, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, Rel. p/ Acórdão Ministro MARCO
AURÉLIO BELLIZZE, TERCEIRA TURMA, julgado em 08/05/2018, DJe 05/06/2018; AgInt no REsp
1599054/RJ, Rel. Ministro MOURA RIBEIRO, TERCEIRA TURMA, julgado em 25/04/2017, DJe
11/05/2017; AgInt no REsp 1593873/SP, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, jul-
gado em 10/11/2016, DJe 17/11/2016; REsp 1369571/PE, Rel. Ministro RICARDO VILLAS BÔAS
CUEVA, Rel. p/ Acórdão Ministro PAULO DE TARSO SANSEVERINO, TERCEIRA TURMA, julga-
do em 22/09/2016, DJe 28/10/2016; REsp 1334097/RJ, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO,
QUARTA TURMA, julgado em 28/05/2013, DJe 10/09/2013. (Vide Informativo de Jurisprudência
N. 628) (Vide Repercussão Geral – TEMA 786) (Vide Enunciado N. 531 da IV Jornada de Direito
Civil do CJF)
11) Quando os registros da folha de antecedentes do réu são muito antigos, admite-se o afasta-
mento de sua análise desfavorável, em aplicação à teoria do direito ao esquecimento.
Julgados: AgRg no HC 503912/SP, Rel. Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, SEXTA TURMA, jul-
gado em 03/09/2019, DJe 09/09/2019; AgRg no AREsp 1463495/PR, Rel. Ministro ANTONIO SAL-
DANHA PALHEIRO, SEXTA TURMA, julgado em 06/08/2019, DJe 13/08/2019; AgRg no HC 493749/
MG, Rel. Ministro NEFI CORDEIRO, SEXTA TURMA, julgado em 06/08/2019, DJe 12/08/2019;
RHC 89948/RS, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, QUINTA TURMA, julgado em 18/06/2019, DJe
25/06/2019; AgRg no REsp 1751708/SP, Rel. Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, SEXTA TUR-
MA, julgado em 05/02/2019, DJe 22/02/2019; HC 391015/MS, Rel. Ministra MARIA THEREZA DE
ASSIS MOURA, SEXTA TURMA, julgado em 16/05/2017, DJe 24/05/2017. (Vide Informativo de
Jurisprudência N. 580)”

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Dentre os citados precedentes, podemos identificar os famosos casos da “Chacina da


Candelária” (REsp 1.334.097-RJ) e “Aída Curi” (1.335.153-RJ), voltados à proteção da priva-
cidade, sob a ótica do esquecimento, na órbita civil.
De maneira bem resumida, no REsp 1.334.097-RJ, a 4ª Turma do STJ deparou-se com
os seguintes fatos: determinado homem foi denunciado por ter, supostamente, participado da
conhecida “Chacina da Candelária” (ocorrida em 1993, na cidade do Rio de Janeiro). Ao final
do processo de índole penal, ele foi absolvido.
A 4ª Turma reconheceu que esse indivíduo possuía o direito ao esquecimento e que o
programa poderia muito bem ser exibido sem que fossem mostrados o nome e a fotografia
desse indivíduo que foi absolvido, em acórdão cuja ementa tem o seguinte teor:

RECURSO ESPECIAL. DIREITO CIVIL-CONSTITUCIONAL. LIBERDADE DE IMPRENSA VS.


DIREITOS DA PERSONALIDADE. LITÍGIO DE SOLUÇÃO TRANSVERSAL. COMPETÊNCIA DO
SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. DOCUMENTÁRIO EXIBIDO EM REDE NACIONAL. LINHA
DIRETA-JUSTIÇA. SEQUÊNCIA DE HOMICÍDIOS CONHECIDA COMO CHACINA DA CANDELÁ-
RIA. REPORTAGEM QUE REACENDE O TEMA TREZE ANOS DEPOIS DO FATO. VEICULAÇÃO
INCONSENTIDA DE NOME E IMAGEM DE INDICIADO NOS CRIMES. ABSOLVIÇÃO POSTERIOR
POR NEGATIVA DE AUTORIA. DIREITO AO ESQUECIMENTO DOS CONDENADOS QUE CUM-
PRIRAM PENA E DOS ABSOLVIDOS. ACOLHIMENTO. DECORRÊNCIA DA PROTEÇÃO LEGAL
E CONSTITUCIONAL DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E DAS LIMITAÇÕES POSITIVADAS
À ATIVIDADE INFORMATIVA. PRESUNÇÃO LEGAL E CONSTITUCIONAL DE RESSOCIALIZA-
ÇÃO DA PESSOA. PONDERAÇÃO DE VALORES. PRECEDENTES DE DIREITO COMPARADO.

• Avulta a responsabilidade do Superior Tribunal de Justiça em demandas cuja solu-


ção é transversal, interdisciplinar, e que abrange, necessariamente, uma controvérsia
constitucional oblíqua, antecedente, ou inerente apenas à fundamentação do acolhi-
mento ou rejeição de ponto situado no âmbito do contencioso infraconstitucional, ques-
tões essas que, em princípio, não são apreciadas pelo Supremo Tribunal Federal.
• Nos presentes autos, o cerne da controvérsia passa pela ausência de contemporanei-
dade da notícia de fatos passados, que reabriu antigas feridas já superadas pelo autor
e reacendeu a desconfiança da sociedade quanto à sua índole. O autor busca a pro-
clamação do seu direito ao esquecimento, um direito de não ser lembrado contra sua
vontade, especificamente no tocante a fatos desabonadores, de natureza criminal, nos
quais se envolveu, mas que, posteriormente, fora inocentado.
• No caso, o julgamento restringe-se a analisar a adequação do direito ao esqueci-
mento ao ordenamento jurídico brasileiro, especificamente para o caso de publicações
na mídia televisiva, porquanto o mesmo debate ganha contornos bem diferenciados
quando transposto para internet, que desafia soluções de índole técnica, com atenção,
por exemplo, para a possibilidade de compartilhamento de informações e circulação
internacional do conteúdo, o que pode tangenciar temas sensíveis, como a soberania
dos Estados-nações.

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• Um dos danos colaterais da "modernidade líquida" tem sido a progressiva eliminação


da "divisão, antes sacrossanta, entre as esferas do 'privado' e do 'público' no que se
refere à vida humana", de modo que, na atual sociedade da hiperinformação, parecem
evidentes os "riscos terminais à privacidade e à autonomia individual, emanados da
ampla abertura da arena pública aos interesses privados e também o inverso, e sua
gradual mas incessante transformação numa espécie de teatro de variedades dedi-
cado à diversão ligeira" (BAUMAN, Zygmunt. Danos colaterais: desigualdades sociais
numa era global. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2013,
pp. 111-113). Diante dessas preocupantes constatações, o momento é de novas e
necessárias reflexões, das quais podem mesmo advir novos direitos ou novas pers-
pectivas sobre velhos direitos revisitados.
• Há um estreito e indissolúvel vínculo entre a liberdade de imprensa e todo e qualquer
Estado de Direito que pretenda se autoafirmar como Democrático. Uma imprensa livre
galvaniza contínua e diariamente os pilares da democracia, que, em boa verdade, é
projeto para sempre inacabado e que nunca atingirá um ápice de otimização a partir do
qual nada se terá a agregar. Esse processo interminável, do qual não se pode descu-
rar – nem o povo, nem as instituições democráticas –, encontra na imprensa livre um
vital combustível para sua sobrevivência, e bem por isso que a mínima cogitação em
torno de alguma limitação da imprensa traz naturalmente consigo reminiscências de
um passado sombrio de descontinuidade democrática.
• Não obstante o cenário de perseguição e tolhimento pelo qual passou a imprensa brasi-
leira em décadas pretéritas, e a par de sua inegável virtude histórica, a mídia do século
XXI deve fincar a legitimação de sua liberdade em valores atuais, próprios e decor-
rentes diretamente da importância e nobreza da atividade. Os antigos fantasmas da
liberdade de imprensa, embora deles não se possa esquecer jamais, atualmente, não
autorizam a atuação informativa desprendida de regras e princípios a todos impostos.
• Assim, a liberdade de imprensa há de ser analisada a partir de dois paradigmas jurí-
dicos bem distantes um do outro. O primeiro, de completo menosprezo tanto da dig-
nidade da pessoa humana quanto da liberdade de imprensa; e o segundo, o atual, de
dupla tutela constitucional de ambos os valores.
• Nesse passo, a explícita contenção constitucional à liberdade de informação, fundada
na inviolabilidade da vida privada, intimidade, honra, imagem e, de resto, nos valo-
res da pessoa e da família, prevista no art. 220, § 1º, art. 221 e no § 3º do art. 222 da
Carta de 1988, parece sinalizar que, no conflito aparente entre esses bens jurídicos
de especialíssima grandeza, há, de regra, uma inclinação ou predileção constitucional
para soluções protetivas da pessoa humana, embora o melhor equacionamento deva
sempre observar as particularidades do caso concreto. Essa constatação se mostra
consentânea com o fato de que, a despeito de a informação livre de censura ter sido

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inserida no seleto grupo dos direitos fundamentais (art. 5º, inciso IX), a Constituição
Federal mostrou sua vocação antropocêntrica no momento em que gravou, já na porta
de entrada (art. 1º, inciso III), a dignidade da pessoa humana como – mais que um
direito – um fundamento da República, uma lente pela qual devem ser interpretados
os demais direitos posteriormente reconhecidos. Exegese dos arts. 11, 20 e 21 do
Código Civil de 2002. Aplicação da filosofia kantiana, base da teoria da dignidade da
pessoa humana, segundo a qual o ser humano tem um valor em si que supera o das
"coisas humanas".
• Não há dúvida de que a história da sociedade é patrimônio imaterial do povo e nela
se inserem os mais variados acontecimentos e personagens capazes de revelar, para
o futuro, os traços políticos, sociais ou culturais de determinada época. Todavia, a
historicidade da notícia jornalística, em se tratando de jornalismo policial, há de ser
vista com cautela. Há, de fato, crimes históricos e criminosos famosos; mas também
há crimes e criminosos que se tornaram artificialmente históricos e famosos, obra da
exploração midiática exacerbada e de um populismo penal satisfativo dos prazeres
primários das multidões, que simplifica o fenômeno criminal às estigmatizadas figuras
do "bandido" vs. "cidadão de bem".
• É que a historicidade de determinados crimes por vezes é edificada à custa de
vários desvios de legalidade, por isso não deve constituir óbice em si intransponível
ao reconhecimento de direitos como o vindicado nos presentes autos. Na verdade,
a permissão ampla e irrestrita a que um crime e as pessoas nele envolvidas sejam
retratados indefinidamente no tempo – a pretexto da historicidade do fato – pode
significar permissão de um segundo abuso à dignidade humana, simplesmente porque
o primeiro já fora cometido no passado. Por isso, nesses casos, o reconhecimento do
"direito ao esquecimento" pode significar um corretivo – tardio, mas possível – das
vicissitudes do passado, seja de inquéritos policiais ou processos judiciais pirotécnicos
e injustos, seja da exploração populista da mídia.
• É evidente o legítimo interesse público em que seja dada publicidade da resposta esta-
tal ao fenômeno criminal. Não obstante, é imperioso também ressaltar que o interesse
público – além de ser conceito de significação fluida – não coincide com o interesse do
público, que é guiado, no mais das vezes, por sentimento de execração pública, pra-
ceamento da pessoa humana, condenação sumária e vingança continuada.
• Assim como é acolhido no direito estrangeiro, é imperiosa a aplicabilidade do direito
ao esquecimento no cenário interno, com base não só na principiologia decorrente dos
direitos fundamentais e da dignidade da pessoa humana, mas também diretamente do
direito positivo infraconstitucional. A assertiva de que uma notícia lícita não se trans-
forma em ilícita com o simples passar do tempo não tem nenhuma base jurídica. O
ordenamento é repleto de previsões em que a significação conferida pelo Direito à

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passagem do tempo é exatamente o esquecimento e a estabilização do passado,


mostrando-se ilícito sim reagitar o que a lei pretende sepultar. Precedentes de direito
comparado.
• Nesse passo, o Direito estabiliza o passado e confere previsibilidade ao futuro por
institutos bem conhecidos de todos: prescrição, decadência, perdão, anistia, irretroa-
tividade da lei, respeito ao direito adquirido, ato jurídico perfeito, coisa julgada, prazo
máximo para que o nome de inadimplentes figure em cadastros restritivos de crédito,
reabilitação penal e o direito ao sigilo quanto à folha de antecedentes daqueles que já
cumpriram pena (art. 93 do Código Penal, art. 748 do Código de Processo Penal e art.
202 da Lei de Execuções Penais). Doutrina e precedentes.
• Se os condenados que já cumpriram a pena têm direito ao sigilo da folha de anteceden-
tes, assim também a exclusão dos registros da condenação no Instituto de Identifica-
ção, por maiores e melhores razões aqueles que foram absolvidos não podem perma-
necer com esse estigma, conferindo-lhes a lei o mesmo direito de serem esquecidos.
• Ao crime, por si só, subjaz um natural interesse público, caso contrário nem seria
crime, e eventuais violações de direito resolver-se-iam nos domínios da responsabili-
dade civil. E esse interesse público, que é, em alguma medida, satisfeito pela publici-
dade do processo penal, finca raízes essencialmente na fiscalização social da resposta
estatal que será dada ao fato. Se é assim, o interesse público que orbita o fenômeno
criminal tende a desaparecer na medida em que também se esgota a resposta penal
conferida ao fato criminoso, a qual, certamente, encontra seu último suspiro, com a
extinção da pena ou com a absolvição, ambas consumadas irreversivelmente. E é
nesse interregno temporal que se perfaz também a vida útil da informação criminal,
ou seja, enquanto durar a causa que a legitimava. Após essa vida útil da informação
seu uso só pode ambicionar, ou um interesse histórico, ou uma pretensão subalterna,
estigmatizante, tendente a perpetuar no tempo as misérias humanas.
• Com efeito, o reconhecimento do direito ao esquecimento dos condenados que cum-
priram integralmente a pena e, sobretudo, dos que foram absolvidos em processo
criminal, além de sinalizar uma evolução cultural da sociedade, confere concretude a
um ordenamento jurídico que, entre a memória – que é a conexão do presente com o
passado – e a esperança – que é o vínculo do futuro com o presente –, fez clara opção
pela segunda. E é por essa ótica que o direito ao esquecimento revela sua maior
nobreza, pois afirma-se, na verdade, como um direito à esperança, em absoluta sin-
tonia com a presunção legal e constitucional de regenerabilidade da pessoa humana.
• Ressalvam-se do direito ao esquecimento os fatos genuinamente históricos – historici-
dade essa que deve ser analisada em concreto –, cujo interesse público e social deve
sobreviver à passagem do tempo, desde que a narrativa desvinculada dos envolvidos
se fizer impraticável.

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• No caso concreto, a despeito de a Chacina da Candelária ter se tornado – com muita


razão – um fato histórico, que expôs as chagas do País ao mundo, tornando-se sím-
bolo da precária proteção estatal conferida aos direitos humanos da criança e do ado-
lescente em situação de risco, o certo é que a fatídica história seria bem contada e
de forma fidedigna sem que para isso a imagem e o nome do autor precisassem ser
expostos em rede nacional. Nem a liberdade de imprensa seria tolhida, nem a honra
do autor seria maculada, caso se ocultassem o nome e a fisionomia do recorrido, pon-
deração de valores que, no caso, seria a melhor solução ao conflito.
• Muito embora tenham as instâncias ordinárias reconhecido que a reportagem se mos-
trou fidedigna com a realidade, a receptividade do homem médio brasileiro a noticiá-
rios desse jaez é apta a reacender a desconfiança geral acerca da índole do autor, o
qual, certamente, não teve reforçada sua imagem de inocentado, mas sim a de indi-
ciado. No caso, permitir nova veiculação do fato, com a indicação precisa do nome e
imagem do autor, significaria a permissão de uma segunda ofensa à sua dignidade,
só porque a primeira já ocorrera no passado, uma vez que, como bem reconheceu o
acórdão recorrido, além do crime em si, o inquérito policial consubstanciou uma reco-
nhecida "vergonha" nacional à parte.
• Condenação mantida em R$ 50.000,00 (cinquenta mil reais), por não se mostrar
exorbitante.
• Recurso especial não provido.

(REsp 1334097/RJ, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, QUARTA TURMA, julgado em
28/05/2013, DJe 10/09/2013)

Já no REsp 1.335.153-RJ, a moldura fática aponta que Aída Curi foi abusada sexualmente
e morta em 1958, também na cidade do Rio de Janeiro. A história desse crime, famoso no
noticiário policial brasileiro, foi apresentada pela Rede Globo no programa televisivo "Linha
Direta", tendo sido feita a divulgação do nome e de fotos reais da vítima. Segundo seus fami-
liares, a divulgação traria a lembranças do crime e o grande sofrimento que o envolveu.
Na ementa deste acórdão consta que, para o STJ:

“RECURSO ESPECIAL. DIREITO CIVIL-CONSTITUCIONAL. LIBERDADE DE IMPRENSA VS.


DIREITOS DA PERSONALIDADE. LITÍGIO DE SOLUÇÃO TRANSVERSAL. COMPETÊNCIA DO
SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. DOCUMENTÁRIO EXIBIDO EM REDE NACIONAL. LINHA
DIRETA-JUSTIÇA. HOMICÍDIO DE REPERCUSSÃO NACIONAL OCORRIDO NO ANO DE 1958.
CASO "AIDA CURI". VEICULAÇÃO, MEIO SÉCULO DEPOIS DO FATO, DO NOME E IMAGEM
DA VÍTIMA. NÃO CONSENTIMENTO DOS FAMILIARES. DIREITO AO ESQUECIMENTO. ACO-
LHIMENTO. NÃO APLICAÇÃO NO CASO CONCRETO. RECONHECIMENTO DA HISTORICI-
DADE DO FATO PELAS INSTÂNCIAS ORDINÁRIAS. IMPOSSIBILIDADE DE DESVINCULAÇÃO
DO NOME DA VÍTIMA. ADEMAIS, INEXISTÊNCIA, NO CASO CONCRETO, DE DANO MORAL
INDENIZÁVEL. VIOLAÇÃO AO DIREITO DE IMAGEM. SÚMULA N. 403/STJ. NÃO INCIDÊNCIA.

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• Avulta a responsabilidade do Superior Tribunal de Justiça em demandas cuja solu-


ção é transversal, interdisciplinar, e que abrange, necessariamente, uma controvérsia
constitucional oblíqua, antecedente, ou inerente apenas à fundamentação do acolhi-
mento ou rejeição de ponto situado no âmbito do contencioso infraconstitucional, ques-
tões essas que, em princípio, não são apreciadas pelo Supremo Tribunal Federal.
• Nos presentes autos, o cerne da controvérsia passa pela ausência de contempora-
neidade da notícia de fatos passados, a qual, segundo o entendimento dos autores,
reabriu antigas feridas já superadas quanto à morte de sua irmã, Aida Curi, no distante
ano de 1958. Buscam a proclamação do seu direito ao esquecimento, de não ter revi-
vida, contra a vontade deles, a dor antes experimentada por ocasião da morte de Aida
Curi, assim também pela publicidade conferida ao caso décadas passadas.
• Assim como os condenados que cumpriram pena e os absolvidos que se envolveram
em processo-crime (REsp. n. 1.334/097/RJ), as vítimas de crimes e seus familiares têm
direito ao esquecimento – se assim desejarem –, direito esse consistente em não se
submeterem a desnecessárias lembranças de fatos passados que lhes causaram, por
si, inesquecíveis feridas. Caso contrário, chegar-se-ia à antipática e desumana solu-
ção de reconhecer esse direito ao ofensor (que está relacionado com sua ressocializa-
ção) e retirá-lo dos ofendidos, permitindo que os canais de informação se enriqueçam
mediante a indefinida exploração das desgraças privadas pelas quais passaram.
• Não obstante isso, assim como o direito ao esquecimento do ofensor – condenado e já
penalizado – deve ser ponderado pela questão da historicidade do fato narrado, assim
também o direito dos ofendidos deve observar esse mesmo parâmetro. Em um crime
de repercussão nacional, a vítima – por torpeza do destino – frequentemente se torna
elemento indissociável do delito, circunstância que, na generalidade das vezes, invia-
biliza a narrativa do crime caso se pretenda omitir a figura do ofendido.
• Com efeito, o direito ao esquecimento que ora se reconhece para todos, ofensor e
ofendidos, não alcança o caso dos autos, em que se reviveu, décadas depois do crime,
acontecimento que entrou para o domínio público, de modo que se tornaria impra-
ticável a atividade da imprensa para o desiderato de retratar o caso Aida Curi, sem
Aida Curi.
• É evidente ser possível, caso a caso, a ponderação acerca de como o crime tornou-
-se histórico, podendo o julgador reconhecer que, desde sempre, o que houve foi uma
exacerbada exploração midiática, e permitir novamente essa exploração significaria
conformar-se com um segundo abuso só porque o primeiro já ocorrera. Porém, no
caso em exame, não ficou reconhecida essa artificiosidade ou o abuso antecedente na
cobertura do crime, inserindo-se, portanto, nas exceções decorrentes da ampla publi-
cidade a que podem se sujeitar alguns delitos.

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• Não fosse por isso, o reconhecimento, em tese, de um direito de esquecimento não


conduz necessariamente ao dever de indenizar. Em matéria de responsabilidade civil,
a violação de direitos encontra-se na seara da ilicitude, cuja existência não dispensa
também a ocorrência de dano, com nexo causal, para chegar-se, finalmente, ao dever
de indenizar. No caso de familiares de vítimas de crimes passados, que só querem
esquecer a dor pela qual passaram em determinado momento da vida, há uma infe-
liz constatação: na medida em que o tempo passa e vai se adquirindo um "direito ao
esquecimento", na contramão, a dor vai diminuindo, de modo que, relembrar o fato trá-
gico da vida, a depender do tempo transcorrido, embora possa gerar desconforto, não
causa o mesmo abalo de antes.
• A reportagem contra a qual se insurgiram os autores foi ao ar 50 (cinquenta) anos
depois da morte de Aida Curi, circunstância da qual se conclui não ter havido abalo
moral apto a gerar responsabilidade civil. Nesse particular, fazendo-se a indispensável
ponderação de valores, o acolhimento do direito ao esquecimento, no caso, com a con-
sequente indenização, consubstancia desproporcional corte à liberdade de imprensa,
se comparado ao desconforto gerado pela lembrança.
• Por outro lado, mostra-se inaplicável, no caso concreto, a Súmula 403/STJ. As ins-
tâncias ordinárias reconheceram que a imagem da falecida não foi utilizada de forma
degradante ou desrespeitosa. Ademais, segundo a moldura fática traçada nas ins-
tâncias ordinárias – assim também ao que alegam os próprios recorrentes –, não se
vislumbra o uso comercial indevido da imagem da falecida, com os contornos que tem
dado a jurisprudência para franquear a via da indenização.
• Recurso especial não provido.

(REsp 1335153/RJ, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, QUARTA TURMA, julgado em
28/05/2013, DJe 10/09/2013)

Agora a questão do direito ao esquecimento surgiu novamente vívida no Informativo de


Jurisprudência n. 670/STJ, que noticiou o julgamento do REsp 1.736.803-RJ.
Como background fático, temos o famoso assassinato da atriz da Rede Globo Daniela
Perez que, em 28 de dezembro de 1992, foi encontrada morta, em uma floresta na Barra da
Tijuca, bairro da cidade do Rio de Janeiro, com brutais 18 golpes de punhal.
As investigações apontaram que o crime foi cometido pelo também ator Guilherme de
Pádua, que contracenava com ela na novela “De Corpo e Alma”, e também por sua esposa
(na época) Paula Thomaz.
A comoção de todos os brasileiros, ainda mais naqueles tempos onde a mídia televisiva
era dominante, foi gigantesca!

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Ocorre que no ano de 2012, a revista “ISTO É” decidiu publicar uma reportagem sobre a
vida de Paula Thomaz após a prisão, na qual foram exibidas diversas informações privadas
a seu respeito, como a sua vida cotidiana e de seus familiares.
A revista divulgou até mesmo a imagem de Paula (sem o seu consentimento), e, segundo
foi decidido, expôs o atual marido e os filhos desta relação, então menores (crianças).
No primeiro grau de jurisdição, a demanda foi julgada parcialmente procedente, conde-
nando a revista ré: a) a retirar a referida matéria do seu sítio na internet; e b) a pagar à pri-
meira autora (Paula Thomaz) a quantia de R$ 30 mil e, aos demais autores (esposo atual e
filhos), cada um, o valor de R$ 20 mil.
Porém, o pedido para que não fossem mais publicadas reportagens no futuro, divulgando
o caso e seus nomes, foi rejeitado.
Em sede de apelação, o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro manteve inte-
gralmente a sentença, tal qual especificado anteriormente.
Do acordão, a editora não recorreu e os autores interpuseram recurso especial, insistindo
no pedido que não fossem mais publicadas reportagens no futuro, com a divulgação do caso
e de seus nomes.
O STJ, reafirmando toda a sua linha jurisprudencial anterior, negou mais uma vez este
pedido, porque isto representaria uma espécie de censura prévia, o que não seria admitido
pelo ordenamento jurídico.
Prevaleceu a tese de que, nestes casos – de antinomia entre o direito à privacidade e o
direito à informação e à liberdade de imprensa –, os ilícitos deveriam ser reprimidos posterior-
mente, na esteira do que decidiu o Excelso STF na ADIn 4.815-DF, por analogia.
Em segundo lugar, porque este seria um crime histórico, de repercussão nacional, não só
pela notoriedade das pessoas envolvidas, mas também pelas peculiaridades do fato crimi-
noso, prevalecendo a liberdade de informação e de imprensa.

Vejamos a íntegra da ementa, já publicada no Dário de Justiça eletrônico:

RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS CUMULADA COM


OBRIGAÇÃO DE FAZER E NÃO FAZER. MATÉRIA JORNALÍSTICA. REVISTA DE GRANDE
CIRCULAÇÃO. CRIME HISTÓRICO. REPORTAGEM. REPERCUSSÃO NACIONAL. DIREITO À
PRIVACIDADE. PENA PERPÉTUA. PROIBIÇÃO. DIREITO À RESSOCIALIZAÇÃO DE PESSOA
EGRESSA. OFENSA. CONFIGURAÇÃO. DIREITO AO ESQUECIMENTO. CENSURA PRÉVIA.
IMPOSSIBILIDADE. MEMÓRIA COLETIVA. DIREITO À INFORMAÇÃO. LIBERDADE DE
EXPRESSÃO. ESPOSO E FILHOS MENORES. EXTENSÃO DOS EFEITOS DA CONDENAÇÃO.
PRINCÍPIO DA PESSOALIDADE DA PENA. DIREITO AO DESENVOLVIMENTO INTEGRAL.
ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE. DANO MORAL. VALOR DA INDENIZAÇÃO.
REEXAME FÁTICO. VEDAÇÃO.

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• Recurso especial interposto contra acórdão publicado na vigência do Código de Pro-


cesso Civil de 1973 (Enunciados Administrativos n.s 2 e 3/STJ).
• A controvérsia a ser dirimida no recurso especial reside em (I) analisar os limites do
direito ao esquecimento de pessoa condenada por crime notório, cuja pena se encon-
tra extinta, e (II) aferir o eventual cabimento de majoração dos danos morais fixados
em virtude da divulgação não autorizada de imagem e de informações pessoais da
autora do crime e de seus familiares em matéria jornalística publicada mais de vinte
anos após ocorrido o ato criminoso.
• Enquanto projeção da liberdade de manifestação de pensamento, a liberdade de
imprensa não se restringe aos direitos de informar e de buscar informação, mas abarca
outros que lhes são correlatos, tais como os direitos à crítica e à opinião. Por não pos-
suir caráter absoluto, encontra limitação no interesse público e nos direitos da perso-
nalidade, notadamente, à imagem e à honra das pessoas sobre as quais se noticia.
• O interesse público deve preponderar quando as informações divulgadas a respeito
de fato criminoso notório forem marcadas pela historicidade, permanecendo atual e
relevante à memória coletiva, situação não configurada na hipótese dos autos em que
houve exposição da vida íntima de pessoa condenada por delito, cuja pena se encon-
tra extinta, e sua família.
• A publicação de reportagem com conteúdo exclusivamente voltado à divulgação de
fatos privados da vida contemporânea de pessoa previamente condenada por crime
e de seus familiares revela abuso do direito de informar, previsto pelo artigo 220, § 1º
da Constituição Federal, e viola o direito à privacidade, consolidado pelo artigo 21 do
Código Civil, por representar indevida interferência sobre a vida particular dos perso-
nagens retratados, dando ensejo ao pagamento de indenização.
• No caso concreto, o Tribunal de origem fixou o entendimento de que a reportagem
se limitou a descrever hábitos rotineiros da autora do crime, de seu esposo e de seus
filhos, utilizando o delito como subterfúgio para expor o cotidiano da família, inclusive
crianças e adolescentes, premissas fáticas cujo reexame é vedado nos termos da
Súmula 7/STJ.
• A exploração midiática de dados pessoais de egresso do sistema criminal configura
violação do princípio constitucional da proibição de penas perpétuas, do direito à rea-
bilitação e do direito de retorno ao convívio social, garantidos pela legislação infracons-
titucional nos artigos 41, VIII e 202 da Lei n. 7.210/1984 e 93 do Código Penal.
• Diante de evidente interesse social no cultivo à memória histórica e coletiva de delito
notório, incabível o acolhimento da tese do direito ao esquecimento para o fim de proi-
bir qualquer veiculação futura de matérias jornalísticas relacionadas ao fato criminoso,
sob pena de configuração de censura prévia, vedada pelo ordenamento jurídico pátrio.

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• A extensão dos efeitos da condenação a terceiros não relacionados com o delito confi-
gura transgressão ao princípio da intranscendência ou da pessoalidade da pena, con-
sagrado pelo artigo 5º, XLV, da Constituição Federal, sendo especialmente gravosa
quando afetar crianças ou adolescentes, os quais se encontram protegidos pela Lei
n. 8.069/1990 (ECA), que assegura o direito à proteção integral e o pleno desenvolvi-
mento de forma sadia.
• Na hipótese, a revisão da conclusão do aresto impugnado acerca do valor da indeni-
zação arbitrada a título de danos morais encontra óbice no disposto na Súmula 7 do
Superior Tribunal de Justiça.
• Recurso especial conhecido e não provido.

(REsp 1736803/RJ, Rel. Ministro RICARDO VILLAS BÔAS CUEVA, TERCEIRA TURMA, julgado
em 28/04/2020, DJe 04/05/2020)

Conclusão
Como, então, conciliar o direito ao esquecimento com o direito à informação e à liberdade
de imprensa, na opinião da diretriz jurisprudencial do STJ?
Para o Tribunal da Cidadania, de maneira muito acertada, no meu entender, deve-se ana-
lisar se existe um interesse público atual na divulgação daquela informação.
Se a resposta for positiva, ou seja, se o interesse público atual ainda persistir, não
há que se falar em direito ao esquecimento, sendo totalmente lícita a publicação deste tipo
de notícia.
Seria o caso, por exemplo, dos “crimes genuinamente históricos, quando a narrativa des-
vinculada dos envolvidos se fizer impraticável”, na palavras do Ministro Luis Felipe Salomão.
Porém, se não houver o interesse público atual, a pessoa que se sentir ofendida poderá,
sim, exercer seu direito ao esquecimento, com a possibilidade de o Poder Judiciário impedir,
até mesmo, a publicação de notícias sobre um fato que já ficou no definitivamente enterrado
no passado.
Aqui podemos fechar este artigo com as sábias palavras de Gilmar Ferreira Mendes,
Inocêncio Mártires Coelho e Paulo Gustavo Gonet Branco:

“Se a pessoa deixou de atrair notoriedade, desaparecendo o interesse público em torno


dela, merece ser deixada de lado, como desejar.”

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