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CANTO IV
Narração – Viagem (preparativos e início)

História História História História História História História História


PLANOS

de Portugal de Portugal de Portugal de Portugal de Portugal de Portugal de Portugal de Portugal

Crise de 1383- Batalha de D. Duarte Preparativos da


D. João I (51-53)
-1385 Aljubarrota D. Manuel I armada
(12-50) Conquista de O velho do
(1-5) (28-44) D. Afonso V (66-106) (76-83)
Discurso de Ceuta Restelo
Invasão de Outras lutas com (54-59) Sonho profético Despedidas de
Nun’Álvares (48-50) (94-104)
Castela Castela D. João II (67-75) Belém
(14-19)
(6-11) (45-47) (60-65) (84-93)

Narrador de 1ª pessoa: Vasco da Gama

Resumo
Vasco da Gama prossegue a narrativa da História de Portugal. Conta agora ao
rei de Melinde os acontecimentos mais relevantes que marcaram o período da 2ª
dinastia, desde a revolução de 1383-85, até ao momento, no reinado de D. Manuel,
em que as naus partem para a Índia.

Após a narrativa da Revolução de 1383-85, que incide fundamentalmente na


figura de Nuno Álvares Pereira e na Batalha de Aljubarrota, seguem-se os acon-
tecimentos dos reinados de D. João II, sobretudo os relacionados com a expansão
africana.

Assim, surge a narração dos preparativos da viagem à Índia, desejo que iria ser
realizado no reinado de D. Manuel, a quem os rios Indo e Ganges aparecem em so-
nhos, profetizando futuras glórias no Oriente. O Canto termina com a partida das
naus, cujos navegantes são surpreendidos pelas palavras pessimistas de um velho
que estava na praia, entre a multidão. É o Velho do Restelo, que condena a «glória
de mandar» e a «vã cobiça», que faz os Portugueses partirem para o Oriente.

Despedidas de Belém
1 2 3 4

A armada pronta para partir. Marinheiros e soldados Lamentos dos familiares dos Embarque.
rezam, em Belém, pelo sucesso marinheiros e dos soldados.
da viagem e dirigem-se em
procissão aos navios.

Estâncias:
84-85 86-88 89-92 93

189
4 Os Lusíadas de Luís de Camões

A armada pronta para partir.

A partida de Vasco da Gama para a


Índia em 1497, aguarela de Roque
Gameiro (1864-1935)
84 85
E já no porto da ínclita Ulisseia , 1
Pelas praias vestidos os soldados
Cum alvoroço nobre e cum desejo De várias cores vem e várias artes9,
(Onde o licor2 mestura e branca areia E não menos de esforço aparelhados10
Co salgado Neptuno3 o doce Tejo4) Pera buscar do mundo novas partes.
As naus prestes estão; e não refreia5 Nas fortes naus os ventos sossegados
Temor nenhum o juvenil despejo6, Ondeiam os aéreos estandartes.
Porque a gente marítima7 e a de Marte8 Elas prometem, vendo os mares largos,
Estão pera seguir-me a toda a parte. De ser no Olimpo estrelas, como a de Argos11.

Vocabulário
1
Lisboa; 2 água (do Tejo); 3 o mar; 4 estes versos, na ordem direta: «Onde o doce Tejo mistura o licor e branca areia co salgado
Neptuno»; 5 não tem, não apresenta; 6 coragem; 7 os marinheiros; 8 os soldados; 9 vários modos; 10 preparados; 11 os nautas
Portugueses querem ser tão famosos como os antigos Argonautas gregos

GUIA DO PROFESSOR
Leitura Leitura
1. Vv. 2, 5 e 6 da est. 84.
1. Identifica os versos nos quais se caracterizam psicologicamente os Portugueses
prestes a partir.

190
CANTO IV · Despedidas de Belém 4

Marinheiros e soldados rezam,


em Belém, pelo sucesso da viagem
e dirigem-se em procissão
aos navios.

86
Despois de aparelhados12, desta sorte13,
De quanto tal viagem pede e manda,
Aparelhámos a alma pera a morte 14,
Que15 sempre aos nautas ante os olhos anda.
Pera o sumo Poder, que a etérea Corte
Sustenta só co a vista veneranda,
Implorámos favor que nos guiasse,
E que nossos começos aspirasse16.

87
Partimo-nos assi do santo templo17
Que nas praias do mar está assentado18,
Que o nome tem da terra19, pera exemplo,
Donde Deus foi em carne ao mundo dado.
Certifico-te, ó Rei20, que, se contemplo21
Como fui destas praias apartado,
Cheio dentro de dúvida e receio,
Que apenas nos meus olhos ponho o freio22.
Os argonautas (século XVI), pintura de Lorenzo Costa
88 (1460-1535)
A gente da cidade, aquele dia
(Uns por amigos, outros por parentes,
Outros por ver somente) concorria,
Saudosos na vista e descontentes. Vocabulário
12
E nós, co a virtuosa companhia preparados; 13 deste modo; 14 ouviram
De mil religiosos diligentes, missa, confessaram-se e comungaram.
15
porque; 16 pediram a Deus que favo-
Em procissão solene, a Deus orando, recesse o início da viagem; 17 ermida de
Pera os batéis viemos caminhando. Santa Maria de Belém; 18 construído; GUIA DO PROFESSOR
19
Belém; 20 o rei de Melinde; 21 se me Leitura
lembro; 22 quase me apetece chorar 1. Antes de partirem, os ma-
rinheiros prepararam-se es-
piritualmente, ouvindo missa,
confessando-se e comungan-
Leitura do. Os marinheiros pedem,
ainda, que Deus os auxilie
nesta viagem.
1. Descreve os comportamentos religiosos dos marinheiros antes de partirem. 1.1 Vv. 3, 7 e 8.
1.1 Identifica os versos nos quais se registam esses comportamentos. 2.
2.1 Houve quem viesse por
motivos familiares (v. 2), por
2. A estância 88 refere a «gente da cidade», v. 1, que veio ver a partida das naus. motivos de amizade (v. 2), por
simples curiosidade (v. 3).
2.1 Indica que razões trouxeram essas pessoas a Belém.

191
4 Os Lusíadas de Luís de Camões

Des
pedida
s de Belém
3

Lamentos dos familiares dos


marinheiros e dos soldados.

89 91
Em tão longo caminho e duvidoso Qual em cabelo28: «Ó doce e amado esposo,
Por perdidos as gentes nos julgavam, Sem quem não quis Amor que viver possa,
As mulheres cum choro piadoso, Porque is29 aventurar ao mar iroso30
Os homens com suspiros que arrancavam. Essa vida que é minha e não é vossa?
Mães, Esposas, Irmãs, que o temeroso Como, por um caminho duvidoso,
Amor mais desconfia23, acrecentavam Vos esquece a afeição tão doce nossa?
A desesperação e frio medo Nosso amor, nosso vão contentamento,
De já nos não tornar a ver tão cedo. Quereis que com as velas leve o vento?»

90 92
GUIA DO PROFESSOR
Leitura
Qual vai dizendo: «Ó filho, a quem eu tinha Nestas e outras palavras que diziam,
1. Só pera refrigério24 e doce emparo De amor e de piadosa humanidade,
a. «As mulheres», v. 3, «Os Desta cansada já velhice minha, Os velhos e os mininos os seguiam,
homens», v. 4, «Mães», «Es-
posas» e «Irmãs», v. 5; Que em choro acabará, penoso e amaro25, Em quem menos esforço põe a idade31.
b. O estado de espírito de to- Porque me deixas, mísera e mesquinha? Os montes de mais perto respondiam,
das estas pessoas, principal-
mente das mulheres cujos
Porque de mi te vas, ó filho caro26, Quase movidos de alta piedade;
familiares partem, é de triste- A fazer o funéreo27 enterramento A branca areia as lágrimas banhavam,
za, desespero e medo.
2.
Onde sejas de pexes mantimento?» Que em multidão co elas se igualavam.
2.1 Na estância 90 fala uma
mãe; na 91, uma esposa. Vocabulário
23
2.2 A mãe – primeiro argu- teme; 24 consolo, apoio; 25 amargo; 26 querido; 27 fúnebre; 28 as mulheres andavam normalmente com a cabeça coberta;
mento: o filho vai deixar a descobrir os cabelos é, neste caso, sinal de desespero; 29 ides; 30 zangado; 31 nos velhos e nas crianças a emoção é maior
mãe desamparada na velhice
(vv. 1 a 4); segundo: vai mor-
rer no mar (vv. 5 a 8); a esposa
– primeiro argumento: o mari-
do partindo, coloca em causa
a sua relação conjugal (vv. 3 e
Leitura
4); segundo: troca o amor pe-
la incerteza do mar; terceiro: 1. A estância 89 apresenta as pessoas, «as gentes», v. 2, que assistiam à partida. Identifica:
vai destruir a relação amoro-
sa (vv. 7 e 8). a. essas pessoas; b. o seu estado de espírito.
3.
3.1 A hipérbole está presente 2. Nas estâncias 90 e 91 falam duas pessoas.
no último verso quando o nar-
rador diz que «as lágrimas» 2.1 Identifica-as.
eram tantas («se igualavam»)
como as areias. 2.2 Explica quais os argumentos (acusações) usados por cada uma delas nos seus discursos.
3.2 A hipérbole é expressiva,
pois através do exagero suge-
re-se o sofrimento de quem
3. A hipérbole está presente no final da estância 92.
se separava. 3.1 Identifica-a.
3.2 Explica a sua expressividade literária.

192
CANTO IV · Despedidas de Belém 4
Gramática Pratica
Funções sintáticas
1. Identifica: GUIA DO PROFESSOR
a. na estância 89, entre os versos 5 e 8, um pronome pessoal com função sintática Gramática
1. a. «nos», v. 8; b. «me», v. 5.
de complemento direto;
b. na estância 90, entre os versos 1 e 5, um pronome pessoal com função sintática Leitura
de complemento direto. 1.
1.1. Vasco da Gama decidiu
(«determinei»), v. 5, o embar-
que sem fazer as habituais
despedidas.
1.2 Decidiu deste modo por-
93 que («que»), v. 7, embora re-
conhecendo ser uma boa
4 Nós outros, sem a vista alevantarmos prática (v. 7), entendeu que as
Nem a Mãe, nem a Esposa, neste estado, despedidas poderiam magoar
Embarque. quem partia ou quem ficava.
Por nos não magoarmos, ou mudarmos
Do propósito firme começado, Visão geral do episódio
Determinei de assi nos embarcarmos, Despedidas de Belém
1.
Sem o despedimento costumado32,
1.1 – b..; 1.2 c.; 1.3 a.
Que33, posto que é de amor usança boa,
A quem se aparta, ou fica, mais magoa34.

Vocabulário
32
Sem as despedidas habituais; 33 Porque; 34 Se sofre mais
fazendo essas despedidas

Leitura

1. A estância 93 refere uma decisão de Vasco da Gama.


1.1 Explicita-a.
1.2 Explica que razão ou razões teve Vasco da Gama
Embarque da armada de Vasco da Gama
para tomar essa decisão.

VISÃO GERAL DO EPISÓDIO

Despedidas de Belém
1. Faz corresponder os elementos de ambas as colunas de modo a obteres afirmações comprovadas no episódio.

A B

1.1 Na estância 84 deparamo-nos com a. ao embarcar sem se despedir dos seus familiares.
1.2 Contudo, nas estâncias 89 a 92, b. um ambiente de festa e de despreocupação, apro-
1.3 Mas Vasco da Gama, que narra es- priado ao início de uma aventura.
tes acontecimentos ao rei de Me- c. este ambiente de festa é ensombrado e as reali-
linde, na estância 93 revela-se um dades do perigo e da morte impõem-se a todos.
capitão decidido

193
4 Os Lusíadas de Luís de Camões

Escrita

GUIA DO PROFESSOR
Escrever para expressar opiniões fundamentadas
Oralidade Escreve um texto, com um mínimo de 80 palavras e um máximo de 120, no qual apresen-
(Compreensão) tes a tua opinião sobre a seguinte afirmação:
1.
1.1 Fazer turismo, ensinar os Quando o adolescente parte sozinho ou com os amigos para uma viagem deixa
cadetes; promover o país, etc. a família, mas a viagem é sempre um fator de crescimento como pessoa.
A resposta deve ser orientada
para o tema da viagem.
Quer concordes, quer discordes, deves apresentar pelo menos dois argumentos para justi-
2. Tema: terceira viagem de
circum-navegação do veleiro ficar a tua posição. Podes dar exemplos de situações pessoais.
Sagres.
Assunto: 1. Na introdução, apresenta brevemente a tua opinião sobre este assunto.
Tópico 1 – número de tripu-
lantes: 150. 2. No desenvolvimento, defende-a com argumentos válidos.
Tópico 2 – A limpeza diária;
servir as refeições; conviver 3. Na conclusão, retoma a tua posição inicial, mostrando que a defendeste adequadamente.
com os visitantes.
Tópico 3 – custo: cerca de
quatro milhões de euros.
Tópico 4 – dificuldades: Os Oralidade
mares difíceis e os piratas do COMPREENSÃO
golfo de Áden.
Tópico 5 – número de para-
gens: 27.
Pré-escuta / visionamento
Tópico 6 – data de regresso: 1. O vídeo que vais ver e ouvir aborda a partida de Lisboa do veleiro “Sagres” – um dos navios
três de dezembro.
mais emblemáticos da marinha portuguesa.
3. b.; d.; e.
4. Resposta possível: A Sagres 1.1 Indica os objetivos que, no teu entender, esta viagem pretende atingir.
fará uma volta ao mundo para
promover o país participando
em diversas comemorações Escuta / visionamento
em vários pontos do mundo.
Primeira audição – apreender sentidos globais
2. Procede à audição / visionamento do vídeo indicando o tema, o assunto de acordo com os
Link Internet seguintes tópicos:
Vídeo “Circum-navegação
do navio-escola Sagres” Tema
(consultado em 06.02.2013)
Assunto
Teste de compreensão 1. número de tripulantes; 2. funções da guarnição; 3. custo;
LPP

oral, Tópicos
pp. 46-47 4. dificuldades; 5. número de paragens; 6. data de regresso.

3. Seleciona os objetivos enunciados para esta viagem:


a. Participar em ações militares contra os piratas do golfo de Áden.
b. Promover produtos e serviços Portugueses.
c. Vender produtos Portugueses nos portos de acostagem.
d. Participar em regatas comemorativas das independências sul-americanas.
e. Participar nas comemorações dos 150 anos do tratado de amizade com o Japão.
f. Repetir a viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães.

Pós-escuta / visionamento
4. Recupera a informação essencial deste vídeo através de uma síntese escrita (máximo de
25 palavras).

194
4
CANTO V
Narração – Viagem
PLANOS

Viagem Viagem Viagem Viagem Viagem Viagem Viagem

Considerações
do Poeta

Partida de Lisboa Fogo de O escorbuto


(1-3) Viagem até ao (81-83) Palavras finais
Santelmo Episódio de Episódio do
Rio dos Bons de Vasco da Considerações
Viagem até ao e tromba Fernão Veloso Adamastor Viagem até
Sinais Gama do Poeta sobre o
Zaire marítima (30-36) (37-60) Melinde
(61-80) (86-91) desprezo das letras
(4-13) (18-23) (84-85) e das artes
(92-100)

Narrador de 1ª pessoa: Vasco da Gama

Resumo
Vasco da Gama prossegue a sua narrativa ao rei de Melinde, contando agora a
viagem da Armada, de Lisboa até Melinde.

Vasco da Gama narra a grande aventura marítima em que os marinheiros obser-


varam, maravilhados ou inquietos, fenómenos naturais como o Fogo de Santelmo ou
a Tromba Marítima e enfrentaram inúmeros perigos e obstáculos como a hostilidade
dos nativos, no episódio de «Fernão Veloso», o terror provocado pela figura «medo-
nha e má» do Gigante Adamastor, a doença e a morte provocadas pelo escorbuto.

O Canto termina com a censura do Poeta aos seus contemporâneos que despre-
zam a poesia.

Adamastor

1 2 3 4 5 6

Introdução Desenvolvimento Conclusão

Indícios de Aparição de Discurso profético dessa figura sobre as Vasco da Gama O Gigante Adamastor
que algo de uma figura dificuldades e desgraças dos Portugueses nas suas pede à figura que Adamastor desaparece.
extraordinário gigantesca; sua navegações futuras. se identifique. identifica-se
vai suceder. descrição. contando a triste
A. Caracterização dos B. O preço da ousadia: história da sua
Portugueses: um desgraças, mortes, vida.
povo ousado. naufrágios…

Estâncias:
37-38 39-40 41-42 43 a 48 49 50 a 59 60

195
4 Os Lusíadas de Luís de Camões

GUIA DO PROFESSOR Indícios de que algo de extraordinário vai suceder.


Leitura
1. Sensações visuais («Uma
nuvem que os ares escure-
ce», v. 7, est. 37) e visuais e Lisboa
auditivas («Bramindo o ne- (Belém)
gro mar de longe brada», v. 3,
est. 38).
2. Canárias
2.1 Pergunta a Deus que tipo ÍNDIA
de fenómeno invulgar é aque- Cabo Verde
le que se lhe apresenta. Esta
pergunta revela sentimentos S. Tiago de
de surpresa, admiração, medo. pes t a
ÁFRICA Te m IV Calicut
nto
Ca
Melide
S. Tomé

n to I e II
Ilha dos
BRASIL Amores
Canto IX e X
Moçambique Ca
Mapa da rota da
viagem de Vasco da
Gama até à Índia Ca Baía de Santa Helena
nt
oV
Rota de Vasco da Gama
Adamastor Intervenções dos Deuses

37 38
Porém já cinco Sóis eram passados
1
Tão temerosa vinha e carregada4
Que2 dali3 nos partíramos, cortando Que pôs nos corações um grande medo;
Os mares nunca de outrem navegados, Bramindo, o negro mar de longe brada,
Prosperamente os ventos assoprando, Como se desse em vão nalgum rochedo.
Quando hũa noite, estando descuidados «Ó Potestade (disse) sublimada5:
Na cortadora proa vigiando, Que ameaço divino ou que segredo
Hũa nuvem que os ares escurece, Este clima6 e este mar nos apresenta,
Sobre nossas cabeças aparece. Que mor7 cousa parece que tormenta?»
Vocabulário
1
Dias; 2 desde que; 3 Baía de Santa Helena, na atual costa ocidental da África do Sul, relativamente perto do Cabo da Boa
Esperança ou das Tormentas; 4 escura; 5 «Potestade sublimada» – Deus; 6 esta região; 7 maior

Leitura

3. «Que pôs nos corações um 1. Identifica as diferentes sensações percebidas pelos marinheiros que alertam para a possibili-
grande medo», estância 38, dade de que algo de assustador possa suceder.
v. 2. (Esta oração subordina-
da adverbial consecutiva indi-
ca a consequência do aspeto 2. Vasco da Gama dirige-se a Deus, perante os sinais extraordinários que surgem.
da nuvem; este aspeto, além
de constar da estância 37, vv. 2.1 Explicita a pergunta que ele faz e os sentimentos que revela.
7 e 8, está referido ainda no v.
1 da estância 38).
3. Indica a consequência que teve junto dos marinheiros o aspeto da «nuvem» referida na estân-
cia 37, v. 7.

196
CANTO V · Adamastor 4

Aparição de uma figura gigantesca; sua descrição.

39 40
Não acabava8, quando hũa figura Tão grande era de membros, que bem posso
Se nos mostra no ar, robusta e válida9, Certificar-te que este era o segundo
De disforme e grandíssima estatura; De Rodes estranhíssimo Colosso,
O rosto carregado, a barba esquálida10, Que um dos sete milagres13 foi do mundo.
Os olhos encovados, e a postura11 Cum tom de voz nos fala, horrendo e grosso,
Medonha e má, e a cor terrena e pálida; Que pareceu sair do mar profundo.
Cheios de terra e crespos12 os cabelos, Arrepiam-se as carnes e o cabelo,
A boca negra, os dentes amarelos. A mi e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo!
Vocabulário
8
ainda [Vasco da Gama] não tinha acabado (de falar); 9 cheia de força, vigorosa; 10 suja; 11 aspeto; 12 revoltos, desordenados;
13
referência, por comparação, ao Colosso de Rodes, uma das sete maravilhas (= «milagres») da Antiguidade; a «figura»
(39, v. 1), seria o segundo Colosso de Rodes, dado o seu tamanho

GUIA DO PROFESSOR
PROFE
Leitura
Leitura 1. Estância 39: «disforme»
e «grandíssima», v. 3, «car-
regado», v. 4, «esquálida»,
1. Faz o levantamento de todos os adjetivos que contribuem para realçar o aspeto disfor- v. 4, «encovados», v. 5, «me-
donha» e «má», v. 6, «ter-
me da figura que surgiu ante os nautas. rena» e «pálida», v. 6,
«crespos», v. 7, «negra» e
2. Na estância 40 Vasco da Gama dirige-se a uma determinada pessoa: «bem posso / cer- «amarelos», v. 8; estância 40:
«grande», v. 1, «horrendo» e
tificar-te», vv. 1 e 2. «grosso», v. 5.
2.1 Identifica essa pessoa. 2.
2.1 O rei de Melinde.
2.2 Justifica. 2.2 No Canto V, Vasco da Ga-
ma, através de uma analepse,
está a narrar ao rei de Melin-
3. Atenta nos vv. 5 e 6 da estância 40. de episódios da viagem des-
3.1 Explicita a relação entre o «tom de voz» e o «mar profundo» neles presente. de Lisboa.
3.
3.1 A relação é de identidade:
4. Atenta agora nos dois últimos versos desta estância. do mesmo modo que o «mar
4.1 Explicita a reação de Vasco da Gama e dos seus marinheiros perante profundo» tem um ruído ca-
racterístico, forte e surdo, as-
a figura que lhes apareceu. sim era a voz do Adamastor.
4.
4.2 Escolhe a opção correta. Esta reação é transmitida ao leitor
4.1 Tanto Vasco da Gama co-
através de sensações mo os seus marinheiros fi-
caram transidos de medo
a. auditivas e cromáticas. perante o que viram e ouvi-
ram.
b. cromáticas e táteis.
4.2 d.
c. visuais e táteis.
d. auditivas e visuais.

O Gigante Adamastor

197
4 Os Lusíadas de Luís de Camões

Discurso profético dessa figura sobre os Portugueses e suas navegações futuras.


A Caracterização dos Portugueses: um povo ousado.

41 42
E disse: «Ó gente ousada, mais que quantas Pois vens ver os segredos escondidos
No mundo cometeram grandes cousas, Da natureza e do húmido elemento18,
Tu, que por guerras cruas, tais e tantas, A nenhum grande humano concedidos
E por trabalhos vãos nunca repousas, De nobre ou de imortal merecimento,
Pois os vedados términos quebrantas14 Ouve os danos19 de mi que apercebidos
E navegar meus longos15 mares ousas, Estão20 a teu sobejo atrevimento,
Que eu tanto tempo há já que guardo e tenho, Por todo o largo mar e pola terra
Nunca arados de16 estranho ou próprio lenho17: Que inda hás-de sojugar com dura guerra.
Vocabulário
14
Ultrapassas os limites proibidos dos mares; 15 longínquos, remotos; 16 por; 17 nunca navegados por qualquer barco – por associação
de «lenho», madeira, aos barcos – feitos de madeira. 18 a Água, uns dos quatro elementos na Grécia antiga; os outros eram a Terra, o
Fogo e o Ar; 19 grandes perigos e desgraças; 20 «de mi que apercebidos / Estão» – que estão preparados por mim

GUIA DO PROFESSOR
Leitura
1. A hipérbole ocorre nos vv. 1
Leitura
e 2: os Portugueses são consi-
derados mais ousados do que 1. Identifica a hipérbole presente na estância 41 referente aos Portugueses. Justifica.
qualquer outro povo.
2. A metáfora ocorre no par-
ticípio passado do verbo arar, 2. Identifica na mesma estância uma metáfora sugestiva do ato de navegar.
«arados» (v. 8), aqui conjuga-
do na forma passiva.
2.1 Explicita-a, começando da seguinte forma: Do mesmo modo que…
2.1 Do mesmo modo que o
arado, ao lavrar a terra a divi-
de, o barco também faz com
que a água se separe.

B O preço da ousadia: desgraças, mortes, naufrágios…

43 44
Sabe que quantas naus esta viagem Aqui espero tomar, se não me engano,
Que tu fazes, fizerem, de atrevidas, De quem me descobriu23 suma vingança.
Inimiga terão esta paragem, E não se acabará só nisto o dano
Com ventos e tormentas desmedidas! De vossa pertinace24 confiança:
E da primeira armada que passagem Antes, em vossas naus vereis, cada ano,
Fizer por estas ondas insofridas21, Se é verdade o que meu juízo alcança,
Eu farei de improviso22 tal castigo, Naufrágios, perdições de toda sorte,
Que seja mor o dano que o perigo! Que o menor mal de todos seja a morte!
Vocabulário
21
revoltadas – por serem navegadas; estes versos referem-se à segunda viagem à Índia, em 1500, numa armada comandada por
Pedro Álvares Cabral; nesta região a armada sofreu grandes perdas devido a tempestades; 22 de repente; 23 Bartolomeu Dias,
descobridor do Cabo em 1488, lá morreria durante uma tempestade, em 1500: essa a «vingança» do Gigante Adamastor; 24 Teimosa;

198
CANTO V · Adamastor 4
45 47
E do primeiro Ilustre25, que a ventura Verão morrer com fome os filhos caros30,
Com fama alta fizer tocar os Céus, Em tanto amor gèrados e nacidos;
Serei eterna e nova sepultura, Verão os Cafres31, ásperos e avaros,
Por juízos incógnitos de Deus. Tirar à linda dama seus vestidos;
Aqui porá da Turca armada dura Os cristalinos membros e perclaros32
Os soberbos e prósperos troféus26; À calma33, ao frio, ao ar, verão despidos,
Comigo de seus danos o ameaça Despois de ter pisada, longamente,
A destruída Quíloa com Mombaça27. Cos delicados pés a areia ardente.

46 48
Outro28 também virá, de honrada fama, E verão mais os olhos que escaparem
Liberal, cavaleiro, enamorado, De tanto mal, de tanta desventura,
E consigo trará a fermosa dama29 Os dous amantes míseros ficarem34
Que Amor por grão mercê lhe terá dado. Na férvida e implacábil espessura35.
Triste ventura e negro fado os chama Ali, despois que as pedras abrandarem
Neste terreno meu, que, duro e irado, Com lágrimas de dor, de mágoa pura,
Os deixará dum cru naufrágio vivos, Abraçados, as almas soltarão
Pera verem trabalhos excessivos. Da fermosa e misérrima prisão36.»

Vocabulário
25
D. Francisco de Almeida, primeiro vice-rei da Índia, fidalgo (= «ilustre»), morreu na região do Cabo das Tormentas numa viagem
de regresso a Portugal, em 1510; lá ficou sepultado; 26 deixará na região, consigo enterrados, os «troféus» das suas vitórias contra
os Turcos; 27 Quíloa e Mombaça, cidades da costa oriental africana conquistadas por D. Francisco de Almeida, vingam-se com o
Adamastor («comigo») da destruição que lhes causou o fidalgo português; 28 outro fidalgo, Manuel de Sousa Sepúlveda, que, com
a família e muitos Portugueses, naufragou em 1552 perto do Cabo, tendo conseguido chegar a terra; este naufrágio famoso – o
«naufrágio de Sepúlveda» – provocou depois a sua morte e a da sua família, bem como a de muitos Portugueses; 29 Dona Leonor,
sua mulher; 30 queridos; 31 designação que os Portugueses davam aos habitantes da costa do sudoeste de África; 32 ilustres; 33 ao
calor; 34 falecerem; 35 na floresta densa e extremamente quente; 36 o corpo

Leitura
GUIA DO PROFESSOR
1. Na estância 43 é feita uma profecia de caráter geral e uma de caráter específico. Justi-
Leitura
fica esta afirmação. 1. A profecia de caráter ge-
ral ocorre entre os versos 1 e
2. O conjunto das estâncias 46 a 48 narra uma história que confirma o verso 8 da estância 4: todos os Portugueses que
passarem nesta região te-
44: em certas situações teria sido melhor a morte do que outras consequências dos rão problemas na viagem; a
de caráter específico, ocorre
naufrágios. nos quatro versos seguintes
2.1 Justifica esta afirmação, colocando por ordem os seguintes acontecimentos. – a referência a um aconteci-
mento concreto – ver nota 21
a. A mulher de Manuel de Sepúlveda sofreu com as condições climatéricas. da página anterior.
2.
b. Conseguem chegar a terra. 2.1
c. O casal acabou por falecer na floresta. d. 1 (46, vv. 1, 2, 3, 4 e 7);
b. 2 (46, v. 6); e. 3 (47, v. 1);
d. Manuel de Sepúlveda e sua família naufragam na região do Cabo. f. 4 (47, vv. 3 e 4) ; a. 5 (47, vv.
5 e 6); c. 6 (48, vv. 3 e 4).
e. Os filhos de Manuel de Sepúlveda morrem.
3. a. «ficarem», v. 3; b. «as
f. Os nativos roubaram as roupas à mulher de Manuel de Sepúlveda. pedras abrandarem» (= co-
moverem); c. «os olhos», (si-
nédoque das pessoas que
3. Mostra exemplos, na estância 48, dos seguintes recursos expressivos: viram esta desgraça).

a. um eufemismo; b. uma personificação; c. uma sinédoque.

199
4 Os Lusíadas de Luís de Camões

Oralidade
GUIA DO PROFESSOR COMPREENSÃO
Oralidade (Compreensão)
Nota: fazer a atividade, passar Pré-escuta
o texto sem livro aberto, em-
bora dando os objetivos… Vais escutar um texto relativo aos muitos naufrágios que os Portugueses sofreram na rota da
1. Índia, principalmente na região do Cabo, na África do Sul.
1.1 Resposta livre, a ser con-
firmada ou infirmada aquando 1. Lê o texto sobre o Naufrágio de Sepúlveda, um dos primeiros naufrágios que os Portugueses,
da escuta do documento áu-
dio – pergunta 4. durante séculos, sofreram na mesma região.
2.
1.1 Indica três motivos que te pareçam ser as principais causas desses desastres.
2.1 a.

HISTÓRIA TRÁGICO-MARÍTIMA – O NAUFRÁGIO DE SEPÚLVEDA

Aqui dizem que D. Leonor se não deixava despir, e


que às punhadas e às bofetadas se defendia, porque
era tal que queria antes que a matassem os cafres que
ver-se nua diante da gente, e não há dúvida que logo ali
acabara sua vida se não fora Manuel de Sousa, que lhe
rogou se deixasse despir, que lhe lembrava que nasce-
ram nus, e, pois Deus daquilo era servido, que o fosse
ela. Um dos grandes trabalhos que sentiam era verem
dous meninos pequenos, seus filhos, diante de si cho-
rando, pedindo de comer, sem lhes poderem valer. E Folheto de Cordel do naufrágio trágico de
vendo-se D. Leonor despida, lançou-se logo no chão, e Manuel de Sousa Sepúlveda.
cobriu-se toda com os seus cabelos, que eram muito
compridos, fazendo uma cova na areia, onde se meteu
um pedaço, pela vergonha que houveram de ver as-
até à cintura, sem mais se erguer dali. Manuel de Sousa
sim seu capitão e D. Leonor. Então disse ela a André
foi então a uma velha sua aia, que lhe ficara ainda uma
Vaz, o piloto: “Bem vedes como estamos, e que já não
mantilha rota, e lha pediu para cobrir D. Leonor, e lha
podemos passar daqui e que havemos de acabar por
deu; mas contudo nunca mais se quis erguer daquele
nossos pecados; ide-vos muito embora, fazei por vos
lugar, onde se deixou cair quando se viu nua.
salvar, e encomendai-nos a Deus; e se fordes à Índia e
Em verdade que não sei quem por isto passe sem a Portugal em algum tempo, dizei como nos deixastes
grande lástima e tristeza. Ver uma mulher tão nobre, a Manuel de Sousa e a mim com meus filhos.” E eles
filha e mulher de fidalgos tão honrados, tão maltra- vendo que por sua parte não podiam remediar a fadiga
tada, e com tão pouca cortesia! Os homens que esta- de seu capitão, nem a pobreza e miséria de sua mulher
vam ainda em sua companhia, quando viram a Manuel e filhos, se foram por esses matos, buscando remédio
de Sousa e sua mulher despidos afastaram-se deles de vida.

«Relação da mui notável perda do galeão grande São João, em que se contam os grandes trabalhos e lastimosas cousas que aconteceram ao capitão Manuel de
Sousa Sepúlveda e o lamentável fim que ele e sua mulher e filhos e toda a mais gente houveram na Terra do Natal, onde se perderam a 24 de junho de 1552», in
Bernardo Gomes de Brito, (Org.), História Trágico-Marítima, Rio de Janeiro, Lacerda / Contraponto, 1998

Primeira escuta
2. Vais ouvir o texto pela primeira vez para identificares ideias-chave.
2.1 Indica a única afirmação correta. A função principal do texto que ouviste é
a. informar sobre o que foi a História Trágico-Marítima.
b. convencer a ler a História Trágico-Marítima de Bernardo Gomes de Brito.
c. exemplificar a desorganização típica dos Portugueses nas viagens da Carreira da Índia.

200
CANTO V · Adamastor 4
3. O autor do texto exprime opiniões sobre a Carreira da Índia. Escolhe a opção incorreta. Elas
são, relativamente aos Portugueses:
GUIA DO PROFESSOR
a. neutras; b. desfavoráveis; c. justas; d. incómodas. Oralidade (Compreensão)
(cont.)
3. a.
Segunda escuta
4. Sem solução.
4. Verifica o grau de correção das hipóteses que apresentaste como resposta à pergunta 1.1. 5. «A história trágico-maríti-
ma constitui ainda hoje uma
5. Reproduz a afirmação que funciona como conclusão do texto ouvido. lição para todos nós, Portu-
gueses.».
6.
Pós-escuta a. Resposta livre;
b. A História Trágico-Marítima
6. Escolhe uma das seguintes atividades: relata naufrágios Portugue-
ses na Carreira da Índia. Ori-
ginaram narrativas coligidas
A. Escreve um texto, com o mínimo de 20 palavras e o máximo de 40, no qual comentes no livro História Trágico-Marí-
essa afirmação, dizendo se concordas ou não com ela e porquê. tima. Como elas mostram os
nossos defeitos de sempre, a
B. Escreve uma síntese do texto que tenha entre 20 e 40 palavras. obra ainda hoje constitui uma
lição. (Outras respostas são
possíveis).

4 Áudio
“A História Trágico-
Vasco da Gama pede à figura que se identifique. -Marítima”

Leitura
1. Predizendo, profetizando o
49 nosso destino, o destino dos
Portugueses.
Mais ia por diante o monstro horrendo,
Dizendo nossos Fados, quando, alçado37, Gramática
1. V. 1 – «horrendo»; v. 3 –
Lhe disse eu: «Quem és tu? Que esse estupendo38 «estupendo»; v. 5 – «negros»;
Corpo, certo,39 me tem maravilhado!» v. 6 «espantoso e grande».
2. O verbo responder selecio-
A boca e os olhos negros retorcendo na completo direto (neste ca-
E, dando um espantoso e grande brado, so, o discurso que se inicia na
estância seguinte) e comple-
Me respondeu, com voz pesada e amara40, mento indireto: quem respon-
Como quem da pergunta lhe pesara41: de, responde alguma coisa
a alguém; o destinatário da
resposta é Vasco da Gama
Vocabulário – «me» – o narrador do epi-
37
levantado (em direção ao Gigante); 38 enorme; 39 na verdade, por Aparição do Gigante Adamastor, sódio: este pronome pesso-
ilustração de Fragonard al tem a função sintática de
certo; 40 amarga; 41 como se lhe tivesse custado, psicologicamente,
complemento indireto.
a ouvir a pergunta
3. Modificador [de GV].

Leitura

1. Explica o sentido da expressão «Dizendo nossos Fados», est. 49, v. 2.

Gramática Pratica
Funções sintáticas
1. Identifica, entre os vv. 1 e 6, quatro grupos adjetivais com fun-
ção sintática de modificador de nome.
2. Indica, justificando, qual a função sintática do pronome pessoal presente no v. 7. Funções
sintáticas
3. Identifica a função sintática do grupo preposicional «com voz pesada e amara», v. 7. Págs. 277-279

201
4 Os Lusíadas de Luís de Camões

O Gigante Adamastor revela-se


contando a triste história da sua vida.

50 53
«Eu sou aquele oculto e grande Caboabo Como fosse impossíbill alcançá-la
alcançá la52,
A quem chamais vós outros Tormentório, Pola grandeza feia de meu gesto53,
Que nunca a Ptolomeu, Pompónio, Estrabo, Determinei por armas de tomá-la54
Plínio42, e quantos passaram, fui notório43. E a Dóris55 este caso56 eu manifesto57.
Aqui toda a Africana costa acabo De medo a Deusa58 então por mi lhe59 fala;
Neste meu nunca visto Promontório, Mas ela60, cum fermoso riso honesto,
Que pera o Pólo Antárctico se estende, Respondeu: «Qual será o amor bastante
A quem vossa ousadia tanto ofende! De Ninfa, que sustente o dum Gigante?

51 54
Fui dos filhos aspérrimos44 da Terra, Contudo, por livrarmos o Oceano
Qual45 Encélado, Egeu e o Centimano46; De tanta guerra, eu buscarei maneira
Chamei-me Adamastor, e fui na guerra Com que, com minha honra, escuse o dano61.»
Contra o que vibra os raios de Vulcano47; Tal resposta me torna a mensageira62.
Não que pusesse serra sobre serra48, Eu, que cair não pude neste engano
Mas, conquistando as ondas do Oceano, (Que é grande dos amantes a cegueira),
Fui capitão do mar49, por onde andava Encheram-me, com grandes abondanças,
A armada de Neptuno, que eu buscava. O peito de desejos e esperanças.

52 55
Amores da alta esposa de Peleu50 Já néscio, já da guerra desistindo,
Me fizeram tomar tamanha empresa. Hũa noite, de63 Dóris prometida,
Todas as Deusas desprezei do Céu, Me aparece de longe o gesto64 lindo
Só por amar das Águas a Princesa. Da branca Thetis, única, despida.
Um dia a vi, co as filhas de Nereu51, Como doudo corri, de longe abrindo
Sair nua na praia: e logo presa Os braços pera aquela que era vida
A vontade sinti de tal maneira, Deste corpo, e começo os olhos belos
Que inda não sinto cousa que mais queira. A lhe beijar, as faces e os cabelos.
Vocabulário
42
nomes de quatro geógrafos da Antiguidade Greco-Romana; 43 fui conhecido; 44 superlativo absoluto sintético de áspero =
rude, ríspido; 45 como; 46 nomes de três gigantes irmãos do Adamastor; revoltaram-se contra os Deuses e acabaram por perder
a guerra; 47 Júpiter; conferir nota 13 do Consílio dos Deuses, Secção 1; 48 na guerra contra os Deuses, os Gigantes tentaram
chegar ao Céu colocando montes uns em cima dos outros; 49 Adamastor lutou contra os Deuses como marinheiro; 50 amor do
Gigante por Thetis, filha de Nereu, a principal das Nereidas, ninfas do Oceano; 51 as Nereidas; 52 fazer com que me amasse; 53
de meu rosto; 54 raptá-la numa guerra marítima (= «por armas»); 55 mãe de Thetis, junto de quem o Gigante procurou ajuda; 56
esta intenção; 57 revelo; 58 Dóris; 59 a Thetis; 60 Thetis; 61 Thetis encontrará um modo de resolver o assunto sem haver guerra e
sem perder a honra; 62 Dóris. 63 por; 64 rosto, face

202
CANTO V · Adamastor 4

56 58
Oh! Que não sei de nojo como o conte!
65
Eram já neste tempo meus Irmãos
Que66, crendo ter nos braços quem amava, Vencidos e em miséria extrema postos,
Abraçado me achei cum duro monte E, por mais segurar-se os Deuses vãos70,
De áspero mato e de espessura brava. Alguns a vários montes sotopostos71.
Estando cum penedo fronte a fronte, E, como contra o Céu não valem mãos,
Que eu polo rosto angélico apertava, Eu, que chorando andava meus desgostos,
Não fiquei homem, não, mas mudo e quedo Comecei a sentir do Fado immigo72,
E, junto dum penedo, outro penedo! Por meus atrevimentos, o castigo.

57 59
Ó Ninfa, a mais fermosa do Oceano , 67
Converte-se-me a carne em terra dura;
Já que minha presença não te agrada, Em penedos os ossos se fizeram;
Que te custava ter-me neste engano, Estes membros, que vês, e esta figura
Ou fosse monte, nuvem, sonho ou nada? Por estas longas águas se estenderam.
Daqui me parto, irado68 e quasi insano69 Enfim, minha grandíssima estatura
Da mágoa e da desonra ali passada, Neste remoto Cabo converteram
A buscar outro mundo, onde não visse Os Deuses; e, por mais dobradas mágoas,
Quem de meu pranto e de meu mal se risse. Me anda Thetis73 cercando destas águas.»
Vocabulário
65
vergonha; 66 porque; 67 Thetis; 68 zangado; 69 louco; 70 vaidosos, vencedores. 71 soterrados; 72 inimigo; 73 o mar, por associação
com a Ninfa marítima, Thetis

Leitura

1. Identifica os pares de estâncias que referem os seguintes acontecimentos da história


contada por Adamastor. Observa o modelo:

Sínteses Estâncias

a. A mãe da Deusa promete ajudá-lo. Desinteressando-se da guerra por estar tão apaixo-
nado, consegue um dia abraçar a Deusa amada por influência da mãe desta.
b. Um dia viu uma Deusa marítima e apaixonou-se para sempre. Como era muito feio pen-
sou que não a poderia seduzir e pediu ajuda à mãe dessa Deusa.
c. Adamastor e os outros Gigantes perderam a guerra contra os Deuses e vão ser castiga-
dos. O castigo dos irmãos de Adamastor foi serem soterrados debaixo de montanhas.
O castigo de Adamastor foi diferente – foi transformado em promontório. Mas, pior
ainda, a Deusa marítima que ele amou e sempre amará e que não pode ter passa con-
tinuamente junto a ele.
d. Compreendeu de repente que tinha caído numa armadilha, pois em vez de abraçar a
Deusa que amava, verificou estar abraçado e preso a um penedo. Adamastor queixa-se GUIA DO PROFESSOR
por ter sido enganado, dizendo que preferia continuar na ilusão do amor pela Deusa em Leitura
vez de sofrer tão grande desgraça e vergonha. 1. e. 50 e 51; b. 52 e 53; a. 54
e 55; d. 56 e 57; c. 58 e 59.
e. Adamastor participou numa guerra como marinheiro numa armada. Os seus adversá- 50 e 51
rios eram Júpiter e Neptuno.

203
4 Os Lusíadas de Luís de Camões

Adamastor desaparece.

60
Assi contava; e, cum medonho choro,
Súbito de ante os olhos se apartou.
Desfez-se a nuvem negra, e cum sonoro
Bramido muito longe o mar soou.
Eu, levantando as mãos ao santo coro
Dos Anjos, que tão longe nos guiou,
A Deus pedi que removesse74 os duros
Casos, que Adamastor contou futuros.
Adamastor, azulejo, no Palácio do Buçaco,
de autoria de Jorge Colaço
Vocabulário
74
Impedisse

Leitura

1. Coloca na ordem direta os dois últimos versos.

2. Nestes versos, Vasco da Gama faz um pedido.


2.1 Identifica o seu destinatário.
2.2 Explicita-o.

GUIA DO PROFESSOR
VISÃO GERAL DO EPISÓDIO
Leitura
1. Pedi a Deus que removes- Adamastor
se os futuros duros casos que
Adamastor contou.
2. 1. Identifica as afirmações verdadeiras (V) e as falsas (F). Corrige as falsas.
2.1 Deus. 1.1 Vasco da Gama narra este episódio ao rei de Melinde.
2.2 Vasco da Gama pede a
Deus que impeça as desgra- 1.2 Este episódio é um episódio histórico.
A B
ças futuras projetadas pelo
Adamastor. 1.3 Pode dizer-se que o aspeto do Gigante é um prenúncio dos perigos do mar.
Visão geral do episódio 1.4 O Gigante profetiza desgraças de vária natureza que sucederão aos Portugueses
Adamastor depois de descoberto o caminho marítimo para a Índia.
1. Verdadeiras: 1.1; 1.3; 1.4;
1.6. 1.5 O Gigante não apresenta exemplos concretos de acontecimentos históricos
Falsas: 1.2 (o episódio é relativos a essas desgraças.
simbólico); 1.5 (são apresen-
tados vários exemplos nas 1.6 O Gigante, a pedido de Vasco da Gama, conta a história da sua vida e revela-se,
estâncias 45 a 48).
afinal, vítima dos perigos do Amor.

204

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