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Nesta apresentação buscaremos analisar as causas históricas que concorreram

para chegarmos à situação presente de grandes afrontas aos Direitos Humanos e


constante ameaça de perdermos o pouco que conseguimos manter após tantos
assaltos a eles. Partiremos da análise feita pelo filósofo brasileiro, professor da USP,
Paulo Eduardo Arantes, em seu livro, O novo tempo do Mundo. Nesse livro o autor
faz um resgate da concepção do termo "tempo do mundo", sua significação e como
a partir da problematização feita por ele entendermos como chegamos aqui e buscar
uma compreensão que nos permita uma saída. Depois analisaremos alguns fatos
sociais que nos permita traçar uma linha de comparação entre estado de exceção e
democracia, como os Direitos Humanos atuam nesses espaços e problematizar a
nossa falta de experiência com nossa própria história e, de como essa falta de
experiência pode trazer à tona elementos fascistas dos quais não pudemos nos
livrar. Por fim, uma análise rápida sobre a luta pelos Direitos Humanos no Brasil e
como ela pode exigir um alto preço.

Tempo do mundo

Por tempo do mundo, nosso autor afirma se tratar de um "clima


internacional, suficientemente persuasivo para influenciar escolhas sociais e
decisões políticas em arenas locais mais restritas" (ARANTES, 2014, p. 27). Ou
seja, tempo do mundo é o contexto social e político que define determinada época
histórica, englobando todo o mundo como dispondo do mesmo aparato político e
social determinantes para fazer de uma sociedade aquilo o que ela é. Mais ainda, é
a expressão que permite dizer que todas as partes do mundo usufruem do mesmo
contexto social e político, e por isso, fazem parte da mesma conjuntura, da mesma
ordem política e social, estão inseridas, portanto, no mesmo tempo do mundo.
Essa noção de tempo é muito prejudicial e inteiramente rechaçada por quem
deseja fazer uma leitura mais crítica da história. A história é um processo político do
qual não se pode simplesmente amontoar diversas culturas e tipos de sociedades
num mesmo lugar, e simplesmente atribuir-lhes o mesmo status político-social sem
levar em conta toda a sua história individual, tudo o que concorreu para dar-lhe as
características que a tornaram exatamente o que é, fazer isso é correr o risco de
apagar toda a herança cultural de um povo, limpá-lo de sua própria identidade.
Assim, essa noção de um tempo mundial, "permitiu contornar o absurdo de
comparar incomparáveis", dessa forma, "tratava-se de aproximar ou afastar
industrializações, revoluções, etc. enquanto processos ou acontecimentos histórico-
mundial" (ARANTES, 2014, p. 28). Em outras palavras, ao tentar colocar sob o
mesmo escrutínio diversas formas de organização sociais aquelas que estivessem
mais ou menos na mesma condição socioeconômica e política, estaria assim "dentro
do tempo", por outro lado, as outras que não acompanhassem o mesmo ritmo
daquelas que ditavam a economia e as práticas sociais, estavam "atrasadas" em
relação a elas, portanto, "fora do tempo".
O que mais nos interessa nessa explanação, a princípio, é demonstrar o
risco de se ter uma definição histórica do tempo que o contempla como um bloco
coeso de sociedades que comungam do mesmo tipo de organização social e política
e descartam aquelas outras que não se encaixam nesse modelo. O tempo do
mundo, a nosso ver, ʺnão pode ser a totalidade da história dos homens. Estamos às
voltas com um 'tempo vivido nas dimensões do mundo'. E mais, um 'tempo
excepcional' que governa segundo os lugares e as épocas, certos espaços e certas
realidadesʺ. (ARANTES, 2014, p. 28).
Assim, para entendermos as relações político-sociais que permeiam os
Direitos Humanos no Brasil, precisamos entender como foi que se deu nossa
trajetória histórica até os dias atuais. Não iremos nos detalhar pormenorizadamente
em cada evento histórico que compõe nossa jovem nação, apenas apontaremos o
que consideramos como sendo uma das principais causas de vermos hoje tantos
ataques aos Direitos Humanos e a quem luta por ele.
Sendo assim, acreditamos que a falta de experiência que temos com nossa
própria história, seja esta causa. Vimos nos últimos meses, ou mesmo nos últimos
anos como tem crescido argumentos de pessoas intolerantes que propagam práticas
de violência como sendo uma resposta a própria violência, vemos e ouvimos
discursos que começaram a se manifestar timidamente, mas que por conta de uma
bipolarização muito radical no cenário político, encontrou o combustível que
precisava pra disseminar seu ódio contra tudo aquilo de que discordam. Inclusive
louvar um tipo de regime político que usava de assassinatos, torturas, estupros, etc
como práticas policiais corriqueiras, ou seja, tudo o que alguém pautado sob a
política dos Direitos Humanos combate.
Assim, partimos dessa falta de experiência que temos com nossa própria
história para exemplificar como ainda é comum ver erros graves cometidos no
passado, mas que não foram devidamente combatidos, não foram devidamente
expostos ao povo brasileiro e, a consequência disso, é termos esse erros defendidos
exatamente pela parcela de nossa sociedade mais afetada por eles, dela não
perceber o risco que corre ao corroborar com tais discursos.
Para adentrarmos mesmo em nosso texto, gostaríamos de tratar de um
assunto já muito discutido e de diversas formas, mas que hoje se configura muito
próxima de nossa realidade, estado de exceção.
Durante as manifestações em oposição ao golpe em curso que atendia pelo
nome de Impeachment, as falas de alguns líderes comunitários das favelas cariocas
afirmaram que em suas comunidades não havia nenhum registro da passagem da
democracia. Não havia nenhum aparato do governo que tivesse a função de formar
um bom cidadão, de dar oportunidade de se forma bons cidadãos dentro daquela
estrutura, não havia escola, posto de saúde, uma praça onde as famílias pudessem
se reunir, nada disso, apenas uma única organização governamental estava
presente, a polícia. Sabemos que essa realidade, infelizmente não é privilégio das
favelas cariocas, as periferias brasileiras estão todas nesse mesmo estado.
Então, se o único registro da atuação do Estado dentro das periferias
brasileiras é através da repressão, se um parte grande e muito importante da
população brasileira não conhece democracia, é possível falar em democracia no
Estado brasileiro?
Segundo o filósofo alemão Walter Benjamin que viveu uns dos momentos
mais sombrios da história mundial, o período entre 1ª e 2ª guerra, nós (a
humanidade) vivemos sob um estado de exceção, na verdade segundo ele, ʺo
estado de exceção em que vivemos é a regraʺ 1. O que desde as jornadas de junho
já se descortinava diante de nós, mas que só ultimamente principalmente no pós
impeachment vimos em seu estado latente, o crescimento do discurso fascista.
Então, se estivermos certos em nossa linha de raciocínio, se vivemos em um
estado de exceção, se ele é regra, como fica os Direitos Humanos no meio disso
tudo? Num estado de exceção, os Direitos Humanos se configura quase como um
artigo de luxo. Nesse estado tem-se uma relação com a vida humana muito peculiar.
Outro filósofo, agora o italiano, Giorgio Agamben criou um conceito que designa bem
1
Tese VII, das Teses sobre o Conceito de História, 1940.
a relação que tem o estado de exceção com aqueles que considera como não-
importantes, como descartáveis, o Homo sacer2.
As pacificações nas favelas cariocas é um ótimo exemplo para
demonstrarmos a figura do Homo sacer, como esquecer de Amarildo? E de tantos
outros que tiveram o mesmo destino que ele. As pacificações foram pensadas para
formar um cinturão de segurança para os grandes eventos que o Rio iria sediar, a
saber, Copa do mundo e Olimpíadas. Era mais uma vez o Estado atuando nas
favelas de forma repressora para garantir o mínimo de segurança que podia oferecer
para a realização desses eventos.
Durante essa fase, destacamos uma fala da advogada e defensora dos
Direitos Humanos, Gabriela Azevedo sobre a pacificação. De acordo com ela essa
nova ordenação das favelas cariocas, é uma territorialização desse espaço, ou seja,
é colocar de uma vez esse espaço sob a tutela repressora do estado. Assim, ela
afirma que esse território ʺno qual se pode suspender o ordenamento, invisibilizar,
incluir, excluir e matar (lato sensu) de várias formas ao sabor da vontade públicaʺ 3,
se configura exatamente como disse os líderes comunitários que citamos
anteriormente, como um espaço de exceção.
Assim, para voltarmos ao tema que iniciou esse trabalho, a saber, a falta de
experiência do povo brasileiro com sua própria história, remontamos àquele outro
período de nossa história recente em que a exceção podia-se ver mais claramente,
a ditatura. Somos os únicos no continente sul-americano a não fazer uma varredura
nos documentos oficiais desse período, a não permitir que a verdade sobre os atos
de terror cometidos naquela época sejam divulgados, a não punir ninguém pelo
crime de tortura, o que, aliás, é um dos artigos que trata a Declaração Universal dos
Direitos Humanos, redigida pela ONU em 1948.
Por não termos a oportunidade de conhecer nossa própria história em seus
detalhes mais sombrios, é que hoje é possível vermos a retomada do discurso
fascista, louvando o período do regime militar. É claro que se sente também em
outros lugares do mundo esse bafejar do fascismo, não se trata de uma
exclusividade brasileira, mas o que diferencia o nosso caso é o fato de que
discursos de ódio, de intolerância estão sendo realizados em espaços em que a
2
Homo sacer é uma figura obscura da lei romana: uma pessoa que é excluída de todos os direitos
civis, enquanto a sua vida é considerada "santa" em um sentido negativo. O indivíduo pode também
ser matável por qualquer um.
3
Citado In ARANTES, Paulo. O novo tempo do mundo, 2014, p. 362.
simples menção desses discursos deveria ser punida, o que dizer então de
estimulada?
Assim chegamos aos crimes mais recentes cometidos contra aqueles que se
destacaram na luta contra as injustiças sociais que permeia nossa sociedade, que é
na verdade, a base de onde ela tira seu alimento. Daqueles que lutaram em nome
dos Direito Humanos. Líderes comunitários, líderes quilombolas, líderes indígenas
que enfrentam uma guerra para ter um mínimo de atuação, para defender os direitos
de pessoa que estiveram sempre à margem na história da construção social desse
país.
De acordo com o historiador da Universidade de Brasília, Fernando Horta, o
índice de assassinato contra lideranças comunitárias, quilombolas e indígenas no
Brasil é assustador. Segue a lista:

Paulo Sérgio Santos, líder quilombola na Bahia - 6.jul. 2014

Simeão Vilhalva Cristiano Navarro, líder indígena do Mato Grosso – 1.ago. 2015

Nilce de Souza Magalhães, a “Nicinha”, líder comunitária e membro do


Movimento dos Atingidos por Barragem (MAB) em Rondônia – 7.jan.2016

Edmilson Alves da Silva, líder comunitário em Alagoas – 22.fev.2016

José Conceição Pereira, líder comunitário no Maranhão – 14.abr.2016

José Bernardo da Silva, líder do MST em Pernambuco – 26.abr.2016

Almir Silva dos Santos, líder comunitário no Maranhão – 8.jul.2016

João Natalício Xukuru-Kariri, líder indígena em Alagoas – 11.out.2016

Waldomiro Costa Pereira, líder do MST no Pará – 20.mar.2017

Luís César Santiago da Silva, o “Cabeça do Povo”, líder sindical do Ceará –


15.abr.2017

Valdenir Juventino Izidoro, o “Lobó”, líder camponês de Rondônia – 4.jun.2017

Eraldo Lima Costa e Silva, líder do MST no Recife – 20.jun.2017

Rosenildo Pereira de Almeida, o “Negão”, líder comunitário da ocupação na


Fazenda Santa Lúcia, no Pará – 8.jul.2017
José Raimundo da Mota de Souza Júnior, líder do Movimento dos Pequenos
Agricultures (MPA) na Bahia – 13.jul.2017 
Fabio Gabriel Pacifico dos Santos, o “Binho dos Palmares”, líder quilombola
na Bahia – 18.set.2017

Jair Cleber dos Santos, líder de acampamento no Pará – 22.set.2017

Clodoaldo do Santos, líder sindical em Sergipe – 14.dez.2017

Jefferson Marcelo do Nascimento, líder comunitário no Rio – 04.jan.2018

Valdemir Resplandes, líder do MST no Pará – 9.jan.2018

Márcio Oliveira Matos, liderança do MST na Bahia – 24.jan.2018

Leandro Altenir Ribeiro Ribas, líder comunitário em Porto Alegre – 28.jan.2018

Carlos Antônio dos Santos, o “Carlão”, líder comunitário no Mato Grosso –


07.fev.2018

George de Andrade Lima Rodrigues, líder comunitário em Recife – 23.fev.2018

Paulo Sérgio Almeida Nascimento, líder comunitário no Pará – 12.mar.2018

Marielle Franco, vereadora no Rio de Janeiro pelo PSOL – 15.mar.2018.

Essa lista não abrange a totalidade dos crimes que possam ser vinculados a
assassinatos a líderes comunitários, o autor adotou alguns critérios para realização
dessa lista de forma a objetivá-la o máximo possível. Dessa forma, o levantamento
não inclui mortes suspeitas de lideranças nem trabalhadores que não tinham, pelo
menos de forma evidente, papel político de destaque. Usando esses dois critérios
adicionais, a lista chegaria a centenas de nomes.
Nossas questões são muito complexas, nosso passado de abandono a
população é algo que ainda nos cobra uma capitulação. Os negros que em sua
maioria se encontram nas periferias das grandes cidades, que outrora foram
largados a própria sorte depois de séculos de escravidão, e ainda se encontram da
mesma forma, entregues à própria sorte; os índios que foram dizimados pelos
colonizadores, e ainda lutam para manter o mínimo de que precisam para não serem
extintos de uma vez, como desejam os grandes latifundiários e pecuaristas do país;
os trabalhadores rurais que sonham com uma demarcação de terras improdutivas
para terem o direito de viver daquilo que plantam e criam; etc. a lista de excluídos
não é pequena, tampouco sua reivindicação.
A discussão sobre o papel dos Direitos Humanos dentro de uma sociedade
desigual, injusta como a nossa é infinita, não temos a menor esperança de esgotá-
la, principalmente em tão pouco tempo, mas ficaríamos honrados de ao menos ter
contribuído um pouco para demonstrar sua importância dentro de nosso cenário
político-social atual. Desejamos muito que avancemos na luta pela garantia dos
Direitos Humanos, principalmente para aqueles que nunca foram sequer
reconhecidos assim, como humanos.