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ISSN eletrônico 2526-1487 Trabalho (En) Cena, 2017, 2(1) pp.

50-64
DOI: https://doi.org/10.20873/2526-1487V2N150

CLÍNICAS DO TRABALHO: CONCEPÇÃO HISTÓRICA E


DESENVOLVIMENTO DE UMA PROPOSTA
HETEROGÊNEA
Clínicas Del Trabajo: Concepción Histórica Y Desarrollo De Una Propuesta Heterogénea

Work Clinics: Historical Conception And Development Of A Heterogenic Proposal

Cliniques Du Travail: Conception Historique Et Developpement D’une Proposition


Héterogène

Lucas Martins Soldera1


Doutor em Psicologia (área de Conhecimento: Psicologia e Sociedade) pelo Programa de Pós -graduação em
Psicologia da Faculdade de Ciências e Letras (UNESP/Assis). Professor do Departamento de Psicologia - DPI
(área: Psicologia do Trabalho) da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Pesquisador vinculado aos grupo s
de pesquisa - Figuras e modos de Subjetivação no Contemporâneo; e Psicologia e Trabalho: dimensões sociais e
subjetividade - ambos reconhecidos e certificados pelo CNPq. Membro do Laboratório Interinstitucional de
Subjetividade e Trabalho - LIST

RESUMO

O objetivo desse artigo foi realizar um resgate histórico sobre a formação das Clínicas do Trabalho, a fim de
compreender como essa proposta se desenvolveu e se inseriu no território nacional. Para isso, foi utilizado um
estudo teórico embasado na leitura, na pesquisa e na análise textual e conceitual do tema em obras referências para
área. Foi empregado uma proposta internacional, denominada SIOP (Society for Industrial and Organizational
Psychology) para, em seguida, definir a proposta da POT (Psicologia Organizacional e do Trabalho) no Brasil.
Dentro da POT são encontrados três eixos temáticos sobre os quais ela foi construída: comportamento,
subjetividade e clínico. É neste último eixo, o clínico, recentemente denominado de Clínicas do Trabalho que é
encontrada a possibilidade de trabalhar com o caráter multi e interdisciplinar. Dessa forma, pretendeu -se contribuir
com a expansão dos conhecimentos teóricos e metodológicos sobre as Clínicas do Trabalho e no entendimento de
como essa proposta encontrou um contexto preparado para sua expansão, desenvolvimento e consolidação no
Brasil. Assim, foi elaborada uma organização teórica da história dessa proposta, o que, por sua vez, possibilita a
catalisação na produção de conhecimentos sobre a área. Pretendeu -se contribuir, ainda, para o desenvolvimento
da atuação do profissional em psicologia do trabalho.

Palavras-chaves: Psicologia do Trabalho; Clínicas do Trabalho; Psicologia Organizacional do Trabalho .

ABSTRACT

The objective of this article was to carry out a historical review on the formation of Work Clinics aiming at
understanding how this proposal has developed, as well as has been inserted in the national territory. For this, it
was used a theoretical study whilst the methodology was based on the bibliographical data, reading, research, and
conceptual and textual analysis of theme. Initially, it was applied an international proposal called Society for
Industrial and Organizational Psychology (SIOP) for then, afterwards, define the proposal of Work Organizational
Psychology (WOP) in Brazil. Within WOP there are three thematic axes on which it was built: behavior,

1 E-mail: solderamartins@yahoo.com.br
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subjectivity and clinic. On this last axis, the clinic, recently named Work Clinics it was found the possibility of
working with the multi and interdisciplinary character. This way it was intended to contribute with the expansion
of methodological and theoretical knowledge on Work Clinics, and in understanding how this proposal found a
context, prepare for its expansion and consolidation in Brazil. Thus, a theoretical organization of the history of this
proposal was performed, which for its turn, made the speeding up of knowledge production on the area possible,
contributing for the growth of Work Psychology professional’s action.

Keywords: Work Psychology; Work Clinics; Work Organization Psychology .

RÉSUMÉ

Le but de cet article a été mené un répertoire historique des formations des Cliniques du Travail, à fin de
comprendre comment cette proposition s ’est développée et s’est insérée dans le territoire national. Pour ce faire,
une étude théorique a été utilisée, alors que la méthodologie s’est basée sur la recherche bibliographique, la lecture,
la recherche et l’analyse textuelle et conceptuelle de la thématique. Premièrement, une proposition internationale,
nommée SIOP (Society for Industrial and Organizational Psychology), a été employée, pour, ensuite, définir la
proposition de la Psychologie Organisationnelle et du Travail (nommée POT, en Portugais) au Brésil. Dans la POT
existent trois axes thématiques sur lesquels elle a été construite: comportement, subjectivité et clinique. C’est dans
ce dernier axe, le clinique, récemment nommé Cliniques du Travail, que l’on trouve la possibilité de travailler av ec
le caractère multi et interdisciplinaire. De cette manière, on a cherché à contribuer avec l’expansion des
connaissances théoriques et méthodologiques à propos des Cliniques du Travail et avec la compréhension de
comment cette proposition a trouvé un contexte préparé pour son expansion, développement et consolidation au
Brésil. Ainsi, une organisation théorique de l’histoire de cette proposition a été faite, ce que, par conséquent,
permet le déclenchement de la production de connaissances dans le domaine . On a cherché à contribuer, en plus,
à la croissance de l’action du professionnel de la psychologie du travail.

Mots-clés: Psychologie du Travail; Cliniques du Travail; Psychologie Organisationnelle et du Travail (POT).

RESUMEN

El objetivo de ese artículo fue realizar un rescate histórico sobre la formación de las Clínicas del Trabajo, a fin de
comprender cómo esa propuesta se desarrolló y se introdujo en territorio nacional. Para eso, se utilizó un estudio
teórico, y la metodología se basó en el levantamiento bibliográfico, en la lectura, en la investigación y en el análisis
textual y conceptual del tema. Inicialmente, se empleó una propuesta internacional, denominada Society for
Industrial and Organizational Psychology (SIOP) para, después, defin ir la propuesta de la Psicología
Organizacional y del Trabajo (POT) en Brasil. Dentro de la POT se encontró tres ejes temáticos sobre los cuales
ella se construyó: comportamiento, subjetividad y clínico. Es en este último eje, el clínico, recientemente
denominado de Clínicas del Trabajo que es encontrada la posibilidad de trabajar con el carácter multi e
interdisciplinar. De esa forma, se pretendió contribuir con la expansión de los conocimientos teóricos y
metodológicos acerca de las Clínicas del Trabajo y en el entendimiento de cómo esa propuesta encontró un
contexto preparado para su expansión, desarrollo y consolidación en Brasil. Así, se elaboró una organización
teórica de la historia de esa propuesta, lo que, por su vez, posibilita acelerar la producción de conocimientos sobre
el área y contribuir para el crecimiento de la actuación del profesional en Psicología del Trabajo.

Palabras Clave: Psicología del Trabajo; Clínicas del Trabajo; POT

INTRODUÇÃO renomados que tem buscado uma proposta


clínica pautada no paradigma estético e
As Clínicas do Trabalho reúnem quatro possui como principal referência a
abordagens diferentes epistemológica, esquizoanálise de Deleuze e Guattari. Esses
ontológica e metodologicamente. São elas: autores adotam o trabalho enquanto uma
Ergologia, Clínica da Atividade, atividade ético-estético-político e reforçam
Psicossociologia e Psicodinâmica do a importância da diferença quando se
Trabalho. As quatro abordagens citadas são
as mais indicadas por diversos autores,
contudo devemos ressaltar os esforços de
um grupo de pesquisadores brasileiros
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aborda as relações de trabalho2 . sendo desenvolvida desde os anos 1980,


Sabemos que existem diversos com a obra A loucura no trabalho, desse
pesquisadores brasileiros que têm se próprio autor.
empenhado para o desenvolvimento das Todas elas conferem “novas”
clínicas no Brasil e que não foram citados leituras e análises do contexto do trabalho,
nesse artigo. Não foi nossa intenção bem como abertura de “novas” perspectivas
desmerecer seus trabalhos – muito pelo para a Psicologia do Trabalho em nosso
contrário – esperamos que esse artigo país. Além do fato de considerarem, em
mobilize o leitor a buscar mais sobre o primeiro lugar, as demandas do trabalhador,
assunto deparando-se, assim, com o seja em relação à questão da saúde coletiva
trabalho de outros autores. O que ou à da mobilização da subjetividade.
expusemos, aqui, foi uma das Encontramos no período após a
possibilidades de construção e Revolução Industrial o desenvolvime nto
desenvolvimento das Clínicas do Trabalho. das premissas capitalistas e das mudanças
Provavelmente, se adotássemos um outro no mundo do trabalho, principalme nte
referencial, essa construção também seria aquelas pautadas pela ideologia do
possível a partir de outros autores. taylorismo e, consequentemente, da
Após essa breve ressalva e, exploração do trabalhador. Paulatiname nte
consequentemente, retomando nosso e paralelamente a esse domínio tecnicista do
raciocínio, para tais clínicas não se visa ambiente do trabalho, foram sendo
formular uma disciplina lapidada no que se desenvolvidas algumas formas para se
refere ao trabalho; ao invés disso, para ela a trabalhar com uma vertente mais voltada às
construção teórica deve acontecer Ciências Humanas e Sociais. Essas
concomitantemente e a partir da prática, vertentes do conhecimento possibilitara m
para que, na discussão e no diálogo ao profissional psicólogo, no decorrer da
estabelecido entre elas – e suscitado por história, adotar uma conduta mais reflexiva
suas diferenças – cada uma se desenvolva sobre o papel do homem no processo
ao seu modo. produtivo e sobre o significado do trabalho
De forma sucinta: a Ergologia tem para o sujeito e para o coletivo.
em Yves Schwartz seu fundador, foi ele Para entendermos como as Clínica s
quem desenvolveu o método da do Trabalho se desenvolveram, construímos
autoconfrontação. Yves Clot é considerado o caminho que essa proposta percorreu na
o fundador Clínica da Atividade e do história até chegar ao Brasil e se instaurar
método da autoconfrontação cruzada. como uma possibilidade de avanço da
Existem muitos nomes importantes para a Psicologia para o mundo do trabalho.
Psicossociologia, de forma simbólica, Caminho esse que passa pelo
destacamos os nomes de Eugène Enriquez e desenvolvimento da proposta da Sociedade
Max Pagès como representantes. Enrique z Brasileira de Psicologia, Organizações e
esteve envolvido em todos momentos de Trabalho (SBPOT).
transformações da Psicossociologia e Pagès Portanto, nosso objetivo foi realizar
foi quem primeiro empregou a um resgate histórico sobre a formação das
denominação intervenção Clínicas do Trabalho, a fim de compreender
psicossociológica para um método como essa proposta se desenvolveu e se
específico. Christophe Dejours é inseriu no território nacional apresentando
considerado fundador. Clínica seu desenvolvimento o qual passou e ainda
Psicodinâmica do Trabalho (CPDI ou vem passando por diversas transformações.
Clínica do Trabalho) corresponde à Para tal, utilizamo-nos de um estudo
intervenção específica dessa teoria e vem teórico, embasado na leitura, na pesquisa e
2 Mais sobre a temática consultar: Amador, F.; do trabalho e paradigma estético. Porto Alegre:
Barros, M.E. B. e Fonseca, T.M.G. (2016). Clínicas Editora UFRGS.
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na análise textual e conceitual do tema em premissa experimental. Volta-se para


obras referências para área. Essa proposta uma intervenção focal, visando ao
de construção histórica seguida de análise, controle do indivíduo inserido no
segundo Severino (2007), pode funcionar contexto organizacional. Estuda-se
como uma forma de sintetizar saberes e como o indivíduo, o grupo ou a
favorecer a produção de outros própria estrutura organizacio na l
conhecimentos de uma área específica, interfere no comportamento dentro
contribuindo com o seu desenvolvimento. desse ambiente, identificando como
Segue, então, o caminho pelo qual sua configuração atinge o rendime nto
percorremos. das pessoas, com o objetivo de
promover o aumento da eficácia da
Da Psicologia Organizacional e do produção. Aqui são trabalhados temas
Trabalho (POT) às Clínicas do Trabalho como desenho organizacio na l,
no Brasil segurança no trabalho, liderança,
empreendedorismo, entre outros.
Para o entendimento de como essa
proposta clínica adentrou o Brasil, 2. Já a segunda vertente (gestão
utilizamos uma proposta internacional, a de recursos humanos) objetiva
SIOP (Society for Industrial and alinhar as práticas e a política do
Organizational Psychology), para definição gerenciamento de pessoas às
da SBPOT (Associação Brasileira de estratégias organizaciona is.
Psicologia Organizacional e do Trabalho) Apesar de significar um grande
no Brasil. A partir da consolidação desse avanço e conquista para a área de
órgão, foi visualizado como a área evoluiu RH (Recursos Humanos) dentro
para um campo propício a receber e das organizações, essa vertente
desenvolver a proposta das Clínicas do ainda limita a atuação do
Trabalho em nosso país. psicólogo dentro da organiza ção
A SIOP é um órgão reconhecido em algumas atividades técnicas,
pela APA (American Psychology como recrutamento, seleção,
Association) que, a partir de sua criação – treinamento e atividades
em 1996 –, ofereceu maior credibilidade à relacionadas à administração de
atuação do profissional nessa área, além de recursos humanos (avaliação de
possibilitar sua expansão de atuação. Essa desempenho, coaching,
proposta embasou a regularização da desenvolvimento profissio na l,
atuação do profissional psicólogo no campo entre outros).
do trabalho em vários outros países.
Segundo a Siop, a prática do 3. A terceira vertente (relações
psicólogo no contexto do trabalho está de trabalho) trabalha com
dividida, hoje, em três vertentes: questões envolvendo
comportamento organizacional, gestão de motivação, inter-
recursos humanos e relações de trabalho relacionamentos, socialização,
(Gondim; Borges-Andrade; Bastos, 2010). comunicação, bem-estar e
Essas três vertentes da SIOP assédio, além de expandir a
delineiam a prática do psicólogo no campo perspectiva de intervenção ou
do trabalho. análise, dentro ou fora do
ambiente de trabalho, visando
1. A primeira vertente promover uma interface com a
(comportamento organizacio na l) sociedade.
fundamenta-se na análise do É nessa terceira proposta que se
comportamento a partir de uma insere uma nova possibilidade de atuação da
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Psicologia, baseada na Psicologia Social mais um espaço dentro do mundo do


voltada para estudo de fenômenos como trabalho. Vale ressaltar que esse espaço
identidade, interação social, subjetividade, deve ser construído pelo profissional em
geralmente direcionada para públicos questão, já que não está posto de forma
menos privilegiados e para a Saúde sistematizada; ao contrário, ele é antes de
Coletiva, com vista à saúde do trabalhador tudo dinâmico e constitui uma conquista
e às consequências do trabalho ou da falta dos atores envolvidos no contexto do
dele. trabalho.
Apesar das várias possibilidades que Nessa nova perspectiva em
o psicólogo tem para trabalhar, segundo a construção, o trabalho configura-se como
proposta da SIOP, já se tem estabelecido um importante conferidor de identidade, da
uma expansão e releitura dessas propostas. vida psíquica, social, cultural, política e
Considera-se que as novas formas de se econômica do indivíduo. Podemos, então, a
pensar o mundo do trabalho são relevantes, partir do trabalho, segundo Enrique z
além de corroborar na visualização do que (2000), constituir uma possibilidade de
se está construindo. autonomia, ou seja, um sujeito “criador da
As novas possibilidades de trabalhar história”.
com a Psicologia dentro das organizações, Não se busca apagar as diferenças
opondo-se ao neopositivismo, tornaram o entre as propostas, já que esse campo está
cenário mais diversificado. Entretanto, não em constante debate. Contudo, surge aqui,
é fácil escolher entre tanta diversidade. além da proposta de expansão desses
Bendassolli, Borges-Andrade e Malvezzi conhecimentos, a expansão da atuação do
(2010) corroboram expondo que, no Brasil, profissional da área, que, ao mesmo tempo,
essa diversidade corresponde ao rompe os “muros” das organizações e
amadurecimento da Psicologia do Trabalho, adentra seus níveis estratégicos.
ao mesmo tempo que traz preocupações: Com o objetivo de contemplar essa
expansão e a diversidade teórico-prática
Isso porque tal cenário coloca sobre o consequente, surge no Brasil a
pesquisador e profissional em questão denominação Psicologia Organizacional e
a contínua necessidade de confrontar do Trabalho (POT), empregada desde o fim
suas atividades com os referencia is da década de 1990. Recentemente, essa
que legitimam sua atuação. Por esse proposta teve seu nome alterado para
motivo, a reflexão crítica sobre as Psicologia, Organizações e Trabalho
bases epistemológicas, ontológicas e (mantendo a sigla POT). Existe, ainda, uma
metodológicas que orientam e forte discussão dentro da Associação
fundamentam seu trabalho surge Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em
como condição essencial de sua Psicologia (ANPEPP) em utilizar a
competência profissio na l denominação Psicologia do Trabalho e
(Bendassolli, Borges-Andrade e Organizacional (apesar de alterada a ordem
Malvezzi, 2010, p.287). a sigla POT se mantém), a fim de
contemplar exatamente a diversidade que
Tal proposta possibilita a expansão vem surgindo na área. Porém, é a partir de
do objeto de estudo, não ficando mais 2001, com a fundação de uma associação,
restrito à estrutura da organização e às visando fortalecer politicamente a POT no
funções, desde que os trabalhos tenham cenário nacional, que surge a SBPOT
como preocupação principal a relação (Sociedade – ou Associação – Brasileira de
Homem/Trabalho. Ao assumir essas Psicologia Organizacional e do Trabalho).
“orientações”, o psicólogo passa a ocupar A associação se consolidou e se fez
uma posição de promotor de saúde, fazendo presente em congressos e em debates sobre
com que a Psicologia do Trabalho conquiste questões políticas que envolviam o papel da
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Psicologia e da POT perante a sociedade, o conhecimento em relação à sua área de


que levou ao reconhecimento frente ao CFP atuação? Apesar das possibilidades de
(Conselho Federal de Psicologia). Funda- atuação que o termo POT traz para a área,
se, mais adiante, a rPOT (revista Psicologia : ainda temos a preocupação sobre o que
Organizações e Trabalho). A divulgação de realmente está sendo feito na prática.
um periódico especializado na área A orientação dessa proposta é de
possibilitou ainda mais a expansão da que, no contexto do trabalho, cabe ao
proposta. psicólogo:
A ideia da formação de uma
associação é a de construir uma grande rede [...] compreender o comportamento
integrada de estudiosos e interessados, que das pessoas que trabalham, tanto em
até então mantinham sua produção em seus determinantes e suas
núcleos distintos e geograficame nte consequências, como nas
espalhados pelo país, para que, assim, se possibilidades de construção
possa avançar, cada vez mais, em projetos produtiva das ações de trabalho, com
de cooperação em pesquisa, intercâmbio de preservação máxima da natureza, da
conhecimentos, experiências e produção qualidade de vida e do bem-estar
bibliográfica. Tal proposta só foi possível humano (Zanelli; Borges-Andrade e
em decorrência do grande avanço da área, a Bastos, 2007, p.483).
partir das últimas décadas. Segundo dados
encontrados no site da Associação Essa orientação e a expansão da
Brasileira de Psicologia Organizacional e atuação do profissional geram “novas”
do Trabalho,3 atualmente a associação possibilidades de análise e interve nção
reúne 246 membros, entre pesquisadores, sobre o mundo do trabalho. Bendassolli,
profissionais e estudantes. Borges-Andrade e Malvezzi (2010) relatam
Segundo Zanelli, Borges-Andrade e que dentro da POT são encontrados três
Bastos (2007, p. 489), esse movime nto eixos temáticos sobre os quais ela foi
desencadeado e conduzido pela SBPOT construída: comportamento, subjetividade e
pode “contribuir para o fortalecimento da clínico.
identidade dos psicólogos brasileiros nesse
segmento de atuação e resultar em maior 1. O eixo comportamental é
integração, clareza de propósitos e marcado, principalmente, pelo caráter
segurança no exercício profissional”. experimental, no controle das
A expansão da área e a diversidade variáveis e correlação de dados, a
de atuações, muitas vezes, faz com que o partir de uma análise behavioris ta.
profissional se perca em meio às “Há certa convergência nos métodos,
possibilidades de orientação teórica e especificamente no uso da estatística,
epistemológica de sua prática, ou mesmo com inspiração predominanteme nte
não busque essas orientações, caindo no correlacional, visando o diagnóstico e
senso comum e na comodidade da aplicação a gestão” (Bendassolli, Borges-
da “técnica pela técnica” (Zanelli; Borges- Andrade e Malvezzi, 2010, p. 284).
Andrade e Bastos, 2007).
Esse tipo de conduta alheia dos 2. O segundo eixo considera a
profissionais levanta alguns pontos a serem subjetividade e o trabalho; começou a
considerados, como: quais as teorias vêm ganhar força no Brasil a partir de 1990
embasando a prática do profissio na l e refere-se ao indivíduo e ao seu
psicólogo no campo do trabalho? O que o comportamento em relação à sua
profissional tem feito para a atualização de cognição e afeto; o sujeito ocupa
3Disponível em: <http://sbpot.org.br>. Acesso em:
maio 2016.
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lugar de ser pensante e responsável Se no eixo da subjetividad e


por suas ações, exposto, entretanto, às valoriza-se o papel de um trabalhador ativo
influências histórico-sociais. com poder de ação e se considera também
as questões subjetivas, no eixo clínico as
No campo da POT, os estudos questões subjetivas aparecem com algo a
partindo do referencial pós-estruturalis ta mais, como uma forma de resistênc ia
sobre subjetividade e processos de (defesa) de um espaço psíquico muitas
subjetivação dedicam-se à exploração de vezes esquecido ou deixado de lado pelas
amplo leque de temas, cuja síntese seria organizações capitalistas.
impossível de apresentar integralme nte Aqui, encontramos uma discussão
aqui. Contudo, além do que já foi dito, é sobre as formas de construção do objeto de
possível pontuar alguns tópicos comuns de estudo. Para o eixo clínico deve-se possuir
investigação, tais como a crítica a processos um esqueleto metodológico, a fim de
tradicionais de institucionalização do nortear a conduta do pesquisador-
trabalho; a tentativa de empoderar interventor no campo e garantir a
indivíduos e grupos sociais em condições de cientificidade da proposta. Contudo, essas
fragilização no trabalho; a genealogia de orientações não podem engessar a atuação
formas de construção e disseminação de do mesmo, deve-se dar espaços aos
significados sobre o trabalho; o conhecimentos construídos na prática e as
desenvolvimento de políticas públicas que conscientizações e transforma ções
levem em consideração fatores subjetivos; o mobilizadas pela intervenção, ou seja, os
estudo dos impactos subjetivos do próprios grupos devem conduzir seu
desemprego, subemprego e de processos de desenvolvimento. Dessa forma, o objeto de
reestruturação produtiva; a relação entre estudo não é dado pelo pesquisador-
trabalho e questões de gênero (Bendassolli, interventor e sim construído pelos seus
Borges-Andrade e Malvezzi, 2010, p. 285). integrantes na própria prática.
As pesquisas visam a uma Nesse eixo clínico, no bojo das
perspectiva crítica e são elaboradas nesse discussões que envolvem sempre o caráter
eixo em busca da intervenção e da multi e interdisciplinar e a partir das
transformação das condições de trabalho, possibilidades de reflexão, estudo e
atentando para a relação entre homem e atuação, encontra-se – no Brasil, dentro da
trabalho. proposta da Psicologia Organizacional e do
Trabalho (POT) – a possibilidade de se
3. Já o eixo clínico – que trabalhar com as Clínicas do Trabalho.
recentemente recebeu a denominação De fato, o mundo está em constante
de Clínicas do Trabalho – considera transformação, razão pela qual é necessário
que: cada vez mais o desenvolvimento de uma
complexa rede de conhecimento para
[...] mesmo sem focar a questão apreendê-lo. Por sua vez, as Clínicas do
psicoterapêutica, partilha m Trabalho ganham destaque.
características do paradigma clínico, Frente ao desenvolvimento das
tais como o foco em metodologia clínicas destacamos alguns livros que
qualitativa, o recurso à interpretação, caracterizam esse movimento de
a ênfase na profundidade da crescimento dessa proposta no Brasil:
compreensão de casos específicos em Métodos de pesquisa e intervenção em
detrimento de descrições ou psicologia do trabalho: clínicas do
descobertas de leis gerais trabalho (Bendassolli; Soboll, 2014);
(Bendassolli, Borges-Andrade e Clínicas do Trabalho: novas perspectivas
Malvezzi, 2010, p. 285). para compreensão do trabalho na
57

atualidade (Bendassolli; Soboll, 2011a) e Saúde Mental e Psiquiatria. Posteriormente,


cliniques du travail (Lhuillier, 2011a). o caráter clínico se pautou na transformação
Métodos de pesquisa e intervenção efetiva do trabalho diante de situações de
em psicologia do trabalho: clínicas do sofrimento e adoecimento. Na obra, ainda
trabalho, de 2014, é um livro organizado se faz menção às quatro abordagens
por Pedro F. Bendassolli e Lis A. Soboll e clínicas, a partir das referências francesas,
representa um amadurecimento, no Brasil, oferecendo visões particulares sobre o
das teorias voltadas para o estudo das trabalho humano dentro das organizações.
questões do trabalho, em especial para as O final do trabalho retrata, a partir das
Clínicas do Trabalho. Essa obra aborda as referências brasileiras, algumas
metodologias e os métodos das Clínicas do perspectivas e possibilidades que essas
Trabalho, constituindo um guia para as abordagens podem suscitar em território
pesquisas e intervenções, a fim de nacional.
compreender os aspectos humanos e Apesar de o livro Cliniques du
subjetivos relacionados ao trabalho. travail, publicado a França por Dominiq ue
A proposta dessa publicação é Lhuillier, em 2011, ainda não possuir
formalizar as práticas de atuação e os tradução para o português, trata-se de uma
métodos, bem como discutir o das referências da área para quem se
desenvolvimento dos dispositivos interessa por tal proposta clínica.
utilizados para tal, já que a premissa está na Nessa obra, a autora esclarece que a
produção de saber enraizada na prática de proposta das Clínicas do Trabalho é a de
diferentes abordagens. Por isso, fica claro compreender, analisar e transformar as
que a proximidade entre as teorias não situações de trabalho que causam males aos
significa fusão entre elas. A ideia está no trabalhadores. A fim de conferir
reconhecimento da outra e no trabalho esclarecimento ao trabalhador, a autora traz
constante de diálogo e controvérsias. uma apresentação das principa is
Clínicas do Trabalho: novas orientações que tornam possível usar várias
perspectivas para compreensão do trabalho teorias e metodologias.
na atualidade, de 2011, constitui hoje uma O conceito de trabalho é entendido
das principais referências sobre o tema no como possuidor de funções psicológicas e
Brasil. Pedro F. Bendassolli e Lis A. Soboll sociais, por isso se torna parte constituinte
organizam, nessa obra, textos introdutór ios do sujeito. Dessa forma, a investigação
relacionados a cada uma das abordagens proposta pelas clínicas visa entender o
que compõem as clínicas. O livro oferece sofrimento, as manifestações e processos de
um panorama dos fundamentos de tais resistência advindos desse trabalho. Para
abordagens, além das perspectivas tal, é imprescindível a implicação dos
francesas e brasileiras acerca dessa sujeitos nesse processo.
proposta. Para isso, os textos foram escritos A autora defende um espaço
por autores que são referências em suas dinâmico para construção das análises em
respectivas áreas, na França ou no Brasil. Clínicas do Trabalho. Um espaço onde são
Além da apresentação das quatro construídos laços sociais e intersubjetivos,
teorias que compõem as Clínicas do mobilizados pela confrontação com as
Trabalho, a obra possibilita um diálogo realidades materiais e simbólicas.
entre as abordagens. A ideia foi expor os Também existem artigos sendo
pontos de convergência e as limitações de publicados por autores brasileiros e em
cada uma, contemplando, sempre, a relação parcerias com autores franceses que
entre trabalho e subjetividade. demonstram o interesse pela área e o
É possível verificar que a origem da crescimento da mesma. Cada abordagem
proposta clínica no contexto do trabalho teórica encontrou sua forma de
está ligada, diretamente, aos estudos sobre desenvolvimento em nosso território e hoje,
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cada vez mais, todas têm se apoiado na constitutiva do laço social e da vida
heterogeneidade dos diálogos para subjetiva. Elas atribuem grande
continuar essa expansão. importância às situações concretas de
trabalho, valorizando um
O desenvolvimento das Clínicas do questionamento sobre as demandas
Trabalho colocadas pelo mundo do trabalho aos
psicólogos e também sobre o uso dos
Expusemos, nesse momento, como dispositivos propostos quando da
a proposta das Clínicas do Trabalho veio análise, pesquisa e interve nção
sendo pensada no decorrer da história. naquelas situações (Bendassolli;
Tanto na França (seu berço) como no Brasil, Soboll, 2011b, p. 17).
a sua história não se inicia a partir da
intitulação Clínicas do Trabalho, visto que Esse, por sua vez, é um movime nto
ela veio se construindo a partir de um recente no Brasil e demonstra uma
processo dinâmico no decorrer dos anos. preocupação das pesquisas acadêmicas com
Vários esforços de pesquisadores e a crise contemporânea do trabalho, uma vez
profissionais têm sido ressaltados no intuito que exige um engajamento profissional de
de conseguir a sustentação das práticas todos que desejam mudar – na prática – as
dessa proposta, a fim de analisar, situações de trabalho.
compreender e transmitir as experiênc ias Segundo Lima (2011), o embrião
desenvolvidas. Percebe-se, então, a desse movimento se deu na França com
necessidade de pensar o trabalho e sua alguns estudos de Lahy e Pacaud, na época
descaracterização diante das novas formas da Primeira Grande Guerra Mundial, nos
de gestão e organização. quais os referidos autores começaram a
analisar as situações de trabalho mais
No campo da Psicologia especificamente. Para tanto, tornou- se
Organizacional e do Trabalho (POT), necessária a aprendizagem de alguns ofícios
as clínicas do trabalho contrapõem o por parte dos autores/pesquisadores. Isso
modelo dominante da psicologia leva à constatação de que o psicólogo não
organizacional de ênfase congnitivo- deve se contentar somente com a descrição
comportamental, tendo em vista que do cargo, mas deve, também, adentrar o
apresentam finalidades diferenciadas campo da prática. Entretanto, tais estudos
em relação aos objetivos focavam-se na aptidão pessoal de cada
organizacionais e aos objetivos dos trabalhador, abstraindo a importância do
trabalhadores (Bendassolli; Soboll, seu caráter social. Isso fez com que
2011b, p. 16). Faverage estabelecesse uma crítica a essa
concepção nos anos 1950; a partir de então,
A Psicologia Organizacional e a ele foca seus estudos em uma análise
Psicologia do Trabalho estão agrupadas ampliada e participativa do psicólogo no
dentro da mesma perspectiva da POT. ambiente de trabalho.
Algumas áreas se pautam mais pelo caráter No campo da Saúde Mental, mais
tecnicista, enquanto outras contrapõem esse especificamente na Psiquiatria, autores
modelo dominante, como é o caso das como Sivadon e Le Guillant são
Clínicas do Trabalho. considerados precursores dos estudos em
Psicopatologia do Trabalho. Esses autores
Entre seus traços fundamentais, as começaram abrindo o caminho para uma
clínicas do trabalho defendem a clínica (social) das situações de trabalho e,
centralidade psíquica e social do posteriormente, Veil passou a entender a
trabalho, entendido como uma vida mental e seus possíveis distúrbios
atividade material e simbólica
59

produzidos na relação do indivíduo com sua trabalhassem para cuidar da instituição e


atividade (Lima, 2011). que esta, por sua vez, reconhecesse esses
Sivadon, em 1957, publicou um pacientes como seres humanos responsáveis
artigo intitulado Psychiatrie du travail, no pelas suas atividades, ou seja, pela
qual aborda problemas de adaptação construção de um mundo onde tais
individual no trabalho centrados na pacientes tenham liberdade de elaborar
fragilidade dos próprios trabalhadores, experiências do real.
introduzindo a expressão “neurose do Já em 1980, Dejours publica o livro
trabalho” como resultado do desequilíbr io – traduzido no Brasil em 1992 – A Loucura
da pessoa no que tange à adaptação ao do Trabalho, marcando o início da
ambiente de trabalho. Veil, em 1964, consolidação do que seria essa proposta no
publica um livro nomeado Higiène mentale futuro. Devemos ressaltar que o movime nto
du travail, no qual propõe uma ampliação das Clínicas do Trabalho vem sendo
da proposta anterior (de Sivadon), unindo, à construído desde tais datas; contudo, essa
análise individual e psicológica, aspectos da proposta receberá sua nomeação somente
organização do trabalho, considerando dois mais tarde.
aspectos: o trabalho como fonte de Poder-se-ia pensar, ainda, a partir de
sofrimento e como atividade criativa por sua constituição histórica, na possibilidade
meio da sublimação. Contudo, é com Le de nomeá-la como Clínica do Trabalhador,
Guillant, em um livro publicado em 1984,4 mas a proposta é mais abrangente, não se
Quelle psychiatrie pour notre temps, que restringindo às pessoas que desempenha m
percebemos o abrir das portas para a criação ou não uma atividade produtiva (a partir de
de uma clínica social relacionada uma relação contratual). O conceito de
diretamente ao trabalho. Em sua Clínicas do Trabalho está pautado na
publicação, o autor aborda a indivis íve l relação homem/trabalho e na transformação
união entre o sujeito e seu meio, partindo da dessa relação e do meio em que está,
análise concreta das situações vivenciadas independentemente de onde esteja. Assim,
pelo trabalhador, pois nelas estão as podemos abordar questões do trabalhador,
patologias decorrentes (Bendassolli; Soboll, do não trabalho, do ser humano em geral e,
2011a). também, do mundo do trabalho como um
Tosquelles foi outro autor que todo.
também contribuiu para a futura perspectiva Tem-se, então, a definição de
das Clínicas do Trabalho, colaborando com Clínicas do Trabalho como:
o desenvolvimento das terapêuticas do
trabalho e da Saúde Mental no Trabalho. [...] um conjunto de teorias que tem
Ele averiguava o potencial terapêutico da como foco de estudo a relação entre
atividade laboral por meio de uma ação trabalho e subjetividade.
transformadora não só do indivíduo, como Apresentando uma diversidade
do próprio psicólogo. O autor aborda o epistemológica, teórica e
lugar do trabalho como via terapêutica e as metodológica, o objeto comum dessas
atividades de trabalho em si como teorias é a situação do trabalho, que,
possibilidades de cura (Bendassolli; Soboll, em síntese, compreende a relação
2011a). entre o sujeito, de um lado, e o
A ideia de Tosquelles foi fazer com trabalho e o meio, de outro
que pacientes e profissionais (do hospital (Bendassolli; Soboll, 2011a, p. 3).
onde desenvolveu seus estudos)

4
Esta publicação é uma reedição constituída
por uma compilação de textos já publicados
nos anos 1960, independentes entre si.
60

O nome Clínicas do Trabalho é uma transferência e a suspensão da


alusão de que é possível trabalhar com a realidade externa para criar condições
articulação entre o mundo social e o mund o para a emergência da vida
psíquico. Assim, a realidade vivenc iada fantasmática. Quanto às práticas
pelo sujeito se torna o foco de pesquisa e clínicas, elas são diferentes, mas
intervenção desta proposta, mantendo- se sempre inscritas no contexto social
próxima da questão dos sofrimentos, aqui (Lhuillier, 2011b, p.25).
encontrada nas experiências objetivas e
subjetivas do indivíduo nas situações de Ainda pensando essa prática clínic a
trabalho. no âmbito social, Sévigny (2001, p.15)
Para entender melhor a complementa:
denominação dessa proposta, volta-se às
primeiras referências ao termo clínica. Contudo, aqui os “problemas” não
Segundo Sévigny (2001), a palavra clínica recaem apenas sobre o indivíd uo,
está etimologicamente ligada ao ato de como também grupos, organizações,
observar diretamente junto ao leito do instituições, situações sociais
paciente, ou seja, estar perto de e face a face examinadas em suas especificidades
com. Percebe, então, a relação da palavra (individualidades), não se tratando de
com a atuação médica, embora não se refira curar, mas sim de mudar, prevenir ou
à forma como é praticada atualmente. melhorar uma dada situação em
Refere-se, sobretudo, à postura do resposta a problemas.
profissional médico (no início de seus
trabalhos na história) ao se debruçar sobre A ideia da prática clínica levada ao
os problemas do paciente, dispondo apenas campo social dá abertura para as pesquisas
de seus próprios recursos. Nesse sentido, e possibilita trabalhar com o conceito de
quando é aplicado às Ciências Humanas, o clínica, já que o mesmo não se refere
termo clínica volta-se para uma prática exatamente ao caráter clínico praticado
centrada em casos individua is, dentro do setting terapêutico que aborda
problemáticos, que necessitam de solução. questões das problemáticas individua is.
A Psicologia Clínica foi bastante Dessa forma, a abordagem clínica não se
influenciada pela psicanálise (que também restringe a um conceito em Ciências
teve sua origem no modelo médico). Para Humanas, pois ela está voltada para a ação,
buscar compreender o homem como um fazendo parte do campo de intervenção,
todo, essa Psicologia Clínica não visa parte da realidade social. Nesse campo é
apenas ao psicopatológico e não pode se impossível controlar a situação,
restringir apenas às dimensões diferentemente dos casos em abordagens
inconsciente, sexual e infantil. É nesse experimentais. Logo, na abordagem clínica
momento que ela: é necessária a constatação de uma espécie
de impotência por parte do pesquisador em
[...] é necessariamente levada à relação à sua ausência de controle sobre o
interdisciplinaridade. É isso aliás o objeto de estudo.
que faz, ao mesmo tempo, a riqueza e O clínico é levado a interagir com os
o desconforto dessa orientação, atores (sujeitos) da situação, tornando- se
orientação que criou um quadro um deles, constituindo-se parte do grupo.
necessariamente móbil para Além disso, não se deve desconsiderar
responder às exigências das práticas nenhum tipo de conhecimento, seja ele de
clínicas. Essa não se confunde com a ordem prática ou teórica. Refere-se ao
prática analítica, que se apoia sobre caráter clínico quando a intenção é deixar
um dispositivo particular, em evidência a relação entre o trabalho e os
notadamente sobre o trabalho de processos de subjetivação, “de forma que os
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conhecimentos produzidos nesta conhecimento produzido (Bendassolli;


perspectiva oportunizam conscientização Soboll, 2011a).
relativa às vivências nas relações de Devemos ressaltar os esforços
trabalho, visando transformação da anteriores de estudiosos e práticos do
realidade” (Bendassolli; Soboll, 2011a, método da pesquisa-ação, que contribuíra m
p.4). para expansão da área, iniciados com os
Busca-se, então, sempre o aumento estudos norte-americanos de Psicologia
do poder de ação dos sujeitos a partir de Social, com Kurt Lewin. Nesse sentido,
metodologias principalmente qualitativas, Thiollent (2011) relata que esse método tem
uma vez que, na proposta das Clínicas do valor porque estabelece discussão de
Trabalho, é relevante não apenas a propostas, exposição de conflitos dentro das
manifestação do sofrimento, como também organizações, que podem levar à resolução
os esforços da vida no palco cotidiano, local das questões. Seu compromisso é
onde o homem é constantemente colocado à proporcionar investigação e levantame nto
prova. Essa realidade é construída pelas de problemas, bem como suas
relações e práxis desses indivíduos, já que é particularidades.
onde estão as dinâmicas sociais essenciais à A pesquisa-ação se torna, então,
atividade produtiva, aspectos tão importante para as práticas das Clínicas do
importantes quanto o patológico, a Trabalho, uma vez que estas propõem um
dimensão inconsciente, o sexual e o infantil, envolvimento do psicólogo, atuando como
para a compreensão desse homem ativo na transformação dos processos
multideterminado. Assim: organizacionais, como visto anteriorme nte
nos estudos que a influenciaram.
Não se pode pensar a questão do Para tanto, é imprescindível a
sujeito sem inscrevê-lo numa dupla conscientização e o empowerment desses
determinação: social e psíquica. Se o sujeitos submetidos ao contexto do trabalho
indivíduo é produto de uma história, (dentro ou fora das organizaçõe s),
esta condensa de um lado, o conjunto estabelecendo um enfrentamento real do
dos fatores sócio-históricos que trabalho, no qual serão confrontados
intervêm no processo de socialização aspectos fantasiosos e dados de realidade.
e, de outro, o conjunto de fatores Assim, a proposta clínica foca-se em
intrapsíquicos que determinam a sua métodos qualitativos de interpretação, em
personalidade (Gaulejac, 2001, p.41). que os próprios trabalhadores são chamados
a refletir sobre suas práticas.
Nesse processo complexo de Segundo Lima (2011), as Clínica s
possibilidades, afirmamos que a proposta do Trabalho propõem estudar os mal-
das Clínicas do Trabalho tem seu foco, estares do trabalho, que podem levar a
principalmente, nos processos várias consequências. Sua causa, no
emancipatórios do trabalhador em vez do entanto, está no aumento do nível de
desempenho produtivo. exigência e demanda da organização sobre
Isso é plausível pela premissa o indivíduo e na redução dos recursos
metodológica que aponta para o papel do pessoais e coletivos, o que conduz ao
pesquisador em duas frentes: a) como enfraquecimento do poder das ações dos
“clínico social”, que visa à transformação indivíduos e ao afrouxamento dos laços do
efetiva do trabalho, pautando-se pela grupo (individuação).
diminuição do sofrimento humano e por Em relação a tais mal-estares, para
melhoras nas condições de trabalho, e b) Bendassolli e Soboll (2011a), quando o
como “pesquisador-clínico”, que visa ao indivíduo fica enfraquecido do seu poder de
questionamento constante do próprio ação sobre suas experiências com o meio ele
62

estará susceptível a quatro diferentes grupos atividade de transformação da realidade e


de patologias advindas do trabalho. de construção de significados pessoais e
O primeiro grupo corresponde às sociais. O terceiro ponto é a defesa de uma
“patologias da sobrecarga”, cujos exemplos teoria do sujeito, visto que o indivíduo não
são: fadiga, burnout estresse e dissociações ocupa o lugar da máquina, mas representa
psicológicas. O bloqueio da atividade um ser ativo dividido por conflitos
desempenhada pelo trabalhador é a intrapsíquicos e desejos, atravessado por
principal característica, pois afeta a forças histórico-sociais, condição que lhe
processo de subjetivação. O modo de permite desenvolver-se no confronto com o
organização taylorista impede o sujeito de real. Por fim, o quarto ponto refere-se a um
exercer o controle sobre sua atividade, e é propósito, o do sofrimento no trabalho, no
esse tipo de impedimento que afeta o qual devemos considerar que o social pode
trabalhador. causar ressonâncias na subjetividade e na
O segundo grupo é o das vida psíquica do indivíduo (Bendassolli;
“patologias da solidão e da indeterminação Soboll, 2011a).
no trabalho”. Nesse caso, o coletivo é Há muitas outras questões
enfraquecido e o indivíduo fica fragilizado envolvidas no trabalho do que apenas as que
pela perda de laços. Alguns modelos de resvalam em seu caráter potencialme nte
gestão de pessoas pautam suas ações nesse psicopatológico. O próprio sofrimento que
sentido, visando apartar o contato no pode levar à patologia tem capacidade de
trabalho para reverter esse tempo em mobilizar, no indivíduo, a criação e a
produtividade. Tem-se, então, a questão da superação das dificuldades postas pela
individuação sendo perseverada a partir de realidade. Assim, essa clínica aparece,
técnicas como desempenho individ ua l, atualmente, em um cenário mais complexo
coaching e gestão de carreiras. Assim, de confrontação de teorias, oferecendo aos
adentra-se na questão da indeterminação no interessados uma rica controvérsia de
trabalho, já que esse trabalhador passa a ter estudos dentro da mesma proposta,
dificuldades em refletir sobre os objetivos sobrevivendo exatamente pelas discussões
finais e os porquês de sua atividade. possibilitadas por essa posição.
Já o terceiro grupo está relacionado
aos maus-tratos e à violência no ambiente
de trabalho, por exemplos: assédio moral e Últimas palavras
exposição a situações de assimetria de
poder. Independentemente das teorias
O quarto grupo de patologias liga- clínicas que adotarmos nesta pesquisa para
se às depressões, suicídios (ou tentativas de) referenciar as Clínicas do Trabalho,
e abalos mentais decorrentes de tais males. destacamos o diálogo estabelecido entre
Apesar do contraste epistemológico, diferentes abordagens teóricas, visando ao
teórico e metodológico das abordagens das desenvolvimento das compreensões do
Clínicas do Trabalho, outros quatro pontos, trabalho real. Contudo, ao fazê- lo,
ainda, são comuns entre elas e devem ser explicitamos de onde vêm os conceitos
ressaltados. O primeiro deles está utilizados, já que cada abordagem se
relacionado ao interesse pela ação no desenvolveu de maneira distinta, a partir de
trabalho, ou seja, o interesse que os sujeitos pressupostos teóricos diferentes. Tal
têm em poder agir nesse contexto, criando postura confere esclarecimentos e
condições para que possam apropriar-se de possibilidades ao leitor para buscar mais
sua atividade. O segundo ponto está informações sobre a diversidade que o texto
relacionado ao entendimento sobre o traz.
trabalho, o qual não está restrito às Apesar de todas as clínica s
instituições, pois ele representa uma dialogarem e terem na fala dos
63

trabalhadores a base para atuações e trabalho na atualidade. São Paulo:


análises, em relação à prática é inexequíve l Atas.
utilizar dois métodos de abordagens Bendassolli, P. F. & Soboll, L.A.P.
distintas em uma mesma intervenção, haja (2011b). Clínicas do trabalho:
vista as diferenças epistemológicas, teóricas filiações, premissas e desafios. In:
e metodológicas de cada uma. Cadernos de Psicologia Social do
Por fim, aqueles profissionais que se Trabalho, vol. 14, n.1, p. 59-72.
dispuserem avançar na atuação do Dejours, C. (1992). A loucura no trabalho:
psicólogo do trabalho, encontrarão nas estudo de psicopatologia do trabalho.
clínicas possibilidades de compreensão do (5.ed.). Trad. Ana Isabel Paraguay e
trabalho real. Portanto, se uma teoria Lúcia Leal Ferreira. São Paulo:
pretende estudar questões sobre o homem, o Cortez; Oboré.
trabalho, a subjetividade e a saúde, ela deve, Enriquez, E. (2000). O indivíduo preso na
necessariamente, estar em contato direto armadilha da estrutura estratégica. In:
com o contexto laboral, renovando-se o Motta, F. C. P. & Freitas, M. E. Vida
tempo todo. Todas as Clínicas do Trabalho psíquica e organização. Rio de
estão buscando se desenvolver no diálogo e Janeiro: Ed. FGV.
nos conflitos estabelecidos entre suas Gaulejac, V. (2001). Psicossociologia e
diferenças e aproximações teóricas. sociologia clínica. In: Araújo, J. N. G.
Diversas dificuldades serão & Carreteiro, T. C. (Orgs.). Cenários
encontradas, não cabe enumerá-las aqui, sociais e abordagem clínica. São
quem está em contato com o campo já deve Paulo: Escuta; Belo Horizonte :
ter levantado várias delas em sua cabeça. Fumec, p. 35-47.
Porém, compete ao psicólogo do trabalho Gondim, S. M. G., Borges-Andrade, J. E. &
conquistar, no cotidiano, esse novo campo Bastos, A. V. B. (2010). Psicologia do
para sua atuação. Cada caso, cada contrato, trabalho e das organizações: produção
cada organização terá sua peculiaridade. científica e desafios metodológicos.
Aqui está o desafio! In: Psicologia em Pesquisa (UFRJ),
vol. 4, n. 2, julh-dez, p. 84-99.
Le Guillant, L. (1984). Quelle psychiatrie
Referências pour notre temps. Toulouse: Érès.
Lhuillier, D. (2011a). Cliniques du travail.
Amador, F.; Barros, M.E. B. e Fonseca, Toulouse: Éditions Érès.
T.M.G. (2016). Clínicas do trabalho Lhuillier, D. (2011b). Filiações teóricas das
e paradigma estético. Porto Alegre: clínicas do trabalho. In: Bendassolli,
Editora UFRGS. P. F. & Soboll, L. A. P. (Orgs.).
Bendassolli, P. F., Borges-Andrade, J. E. & Clínicas do trabalho: nova
Malvezzi, S. (2010). Paradigmas, perspectiva para compreensão do
eixos temáticos e tensões na PTO no trabalho na atualidade. São Paulo:
Brasil. In: Estudos de Psicologia, Atlas, p. 22-58.
15(3), setembro-dezembro, p. 281- Lima, M. E. A. (2011). Abordagens clínicas
289. e saúde mental no trabalho. In:
Bendassolli, P. F. & Soboll, L.A.P. (Orgs.). Bendassolli, P. F. & Soboll, L. A. P.
(2014). Métodos de pesquisa e (Orgs.). Clínicas do trabalho: nova
intervenção em psicologia do perspectiva para compreensão do
trabalho: clínicas do trabalho. São trabalho na atualidade. São Paulo:
Paulo: Atas. Atlas, p. 227-257.
Bendassolli, P. F. & Soboll, L.A.P. (Orgs.). Sévigny, R. (2001). Abordagens clínicas
(2011a). Clínicas do trabalho: novas nas ciências humanas. In: Araújo, J.
perspectivas para compreensão do N. G. & Carreteiro, T.C. (Orgs.).
64

Cenários Sociais e abordagem


clínica. São Paulo: Escuta, p. 35-47.
Sivadon, P. (1957). Psychiatrie du travail.
In H. Desaille (Org.). Cours de
médicine du travail. Paris: Le
François, p. 405-420.
Severino, A. J. (2007). Metodologia do
Trabalho Científico. (23ª ed.). São
Paulo: Cortez.
Thiollent, M. (2011). Metodologia da
pesquisa-ação. São Paulo: Cortez.
Veil, C. (1964). Hygiène mentale du travail.
Paris: Le François.
Zanelli, J. C., Borges-Andrade, J. E. &
Bastos, A. V. B. (Orgs.). (2007).
Psicologia, organizações e trabalho
no Brasil. Porto Alegre: Artmed.

Data de submissão: 16/08/2017


Data de aceite: 31/08/2017