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Investigação, 14(1):83-90, 2015

REVISÃO DE LITERATURA | Clínica e Cirurgia de


Grandes Animais

Revista INTERVENÇÕES OBSTÉTRICAS


INVESTIGAÇÃO EM EQUINOS
Obstetric intervention in equine
medicina veterinária

1. UESP-Univ Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – UNESP, Jaboticabal, São Paulo, Brasil.
1 1 1
Mariana G. Kako Rodriguez , Vanessa B. Paula , Marcela Ambrogi , Fabíola S. Facco , 2 2. Universidade Estadual do Centro-Oeste - UNICENTRO, Guarapuava, Paraná, Brasil.
Naidiel R. Galon2, Diogo José Cardilli3, Luisa Pucci Bueno Borges4, Izabela Puerchi Ribeiro4, 3. Universidade Federal do Pará (UFPA).
Denis Vinícius Bonato4, Wilter Ricardo Russiano Vicente1, Pedro Paulo Maia Teixeira4
4. Pós-graduação em Ciência Animal pela Universidade de Franca - UNIFRAN, Franca, São Paulo, Brasil. Av. Dr Armando Sales
Oliveira, 201, CEP: 14.404-600, Pq. Universitário, Franca – SP. E-mail: p_paulomt@yahoo.com.br

RESUMO ABSTRACT
O objetivo deste trabalho é fazer uma revisão de literatura sobre intervenções obstétricas em equinos, The aim this study is to review the literature on obstetric interventions in horses, since Brazil is the country
visto que o Brasil é o país com o maior rebanho de eqüinos na América Latina, tendo assim inúmeros with the largest herd of horses in Latin America, thus numerous cases of reproductive problems such as
casos de problemas reprodutivos, como distocias ao parto, sendo estas de origem fetal e/ou maternal, dystocia at birth, and these sources fetal and / or maternal, due to various factors involved. In many of
devido a vários fatores envolvidos. Em muitos destes casos, a intervenção obstétrica e a realização de these cases, the obstetric intervention and special maneuvers is enough to ensure successful parturition,
manobras especiais é o suficiente para garantir o sucesso ao parto, porém, em casos que o feto já se however, in cases where the fetus is already dead and the female no longer has the initial capacity to
encontra morto e a fêmea não tem mais a capacidade inicial de expulsá-lo do útero, pode-se optar por expel from the womb, you can choose to practice more radical, as fetotomia, so to ensure the health
práticas mais radicais, como a fetotomia, para que se garanta assim a saúde da fêmea, por outro lado, se of the female, on the other hand, if the fetus is still alive present, and removed via the vaginal canal is
o feto ainda apresentar-se vivo, e a retirada via canal vaginal não seja possível, opta-se pela intervenção not possible, opts for surgical intervention, performing a cesarean. In cases where the parturition was
cirúrgica, realizando a cesariana. Em casos no qual o parto foi distócico, pode ainda por algum motivo dystocic, to can still occur for some reason, some kind of fistula or even perineal lacerations, in this case
ocorrer algum tipo de fístulas, ou até mesmo lacerações perineais, nesse caso necessitando também de also requiring surgical intervention.
intervenção cirúrgica.
Keywords: Mares, obstetric emergencies, parturition difficulty, obstetric maneuvers, surgical procedure.
Palavras-chave: Éguas, emergências obstétricas, dificuldade de parto, manobras obstétricas, procedimento cirúrgico.
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INTRODUÇÃO muita rápida quando comparada com a mesma fase das vacas, em éguas) são três as opções de conduta: manobras obstétricas
que pode levar até 6 horas, outra particularidade importante é de correção, fetotomia e cesariana, as quais serão descritas a
O termo distocia significa dificuldade em expulsar o feto do que o potro geralmente nasce envolto pela membrana amniótica; seguir (Prestes e Landim-Alvarenga, 2006).
útero e pode ter origem materna e fetal. As distocias de origem (Prestes e Landim-Alvarenga, 2006; Vicente e Toniollo, 1995).
materna são aquelas que ocorrem por anomalias pélvicas, O conhecimento das principais características do parto eutócico
vulvares, vaginais e também por atonia uterina; são pouco A abordagem do animal com distocia baseia-se primeiramente (normal) das éguas é de grande importância para a detecção de
comuns nas éguas, pois estas apresentam via fetal óssea de na obtenção de um histórico completo, seguido de exame clínico uma distocia. O parto eutócico pode ser dividido em três fases:
base plana com pelve do tipo mesatipélvica (forma circular), e a geral e, por último, o exame ginecológico específico, o qual é preparação, dilatação e expulsão. Nas éguas a fase de preparação
via fetal mole apresenta grande capacidade distensiva. Aquelas realizado por palpação vaginal, com braço limpo, enluvado e é caracterizada pelo desenvolvimento das glândulas mamárias
de origem fetal são mais frequentes nesta espécie e têm como lubrificado, após desinfecção de períneo e vulva (Ferreira, 2009). e extravasamento do colostro, vale ressaltar que o relaxamento
causa problemas de estática e malformações fetais. (Prestes e dos ligamentos sacroisquiáticos são pouco observados nesta
No exame específico são verificadas as condições do canal do
Landim-Alvarenga, 2006; Vicente e Toniollo, 1995). espécie. A fase de dilatação caracteriza-se por inquietação, com
parto, dos anexos fetais e do feto. O canal do parto, composto
sinais semelhantes aos de cólica, e rompimento do alantocório.
O objetivo desta revisão de literatura foi abordar as principais pelas vias fetais óssea e mole, deve estar dilatado, lubrificado e
A fase de expulsão geralmente ocorre à noite, com o animal em
intervenções obstétricas que devem ser realizadas diante de com as mucosas integras. Os anexos fetais podem estar íntegros
decúbito lateral e geralmente tem duração de 15 a 30 minutos,
uma distocia de origem fetal, como as monobras obstétricas e a ou rompidos, sendo o liquido alantóide de coloração amarelada,
muita rápida quando comparada com a mesma fase das vacas,
cesariana e também aquelas resultantes de um parto distócico, por conter urina fetal, e o liquido amniótico claro e mucoso. O
que pode levar até 6 horas, outra particularidade importante
como as lacerações de períneo. feto é avaliado quanto ao tamanho, estática, malformações e
é que o potro geralmente nasce envolto pela membrana
viabilidade, sendo que os principais sinais de viabilidade são:
amniótica 20,22.
movimentação espontânea à palpação, pulso dos vasos do
PARTOS DISTÓCICOS DE ORIGEM FETAL cordão umbilical e presença dos reflexos de sucção, ocular e A abordagem do animal com distocia baseia-se primeiramente
anal. (Ferreira, 2009; Prestes e Landim-Alvarenga, 2006; Vicente na obtenção de um histórico completo, seguido de exame clínico
O conhecimento das principais características do parto eutócico
e Toniollo, 1995). geral e, por último, o exame ginecológico específico, o qual é
(normal) das éguas é de grande importância para a detecção de
realizado por palpação vaginal, com braço limpo, enluvado e
uma distocia. O parto eutócico pode ser dividido em três fases: A estática fetal é definida na palpação vaginal através de critérios
lubrificado, após desinfecção de períneo e vulva 7.
preparação, dilatação e expulsão. Nas éguas a fase de preparação de apresentação, posição e atitude. Sendo que a apresentação é
é caracterizada pelo desenvolvimento das glândulas mamárias a relação entre os eixos longitudinal da mãe e do feto, a posição No exame específico são verificadas as condições do canal do
e extravasamento do colostro, vale ressaltar que o relaxamento é a relação entre a porção dorsal do feto comparado ao dorso parto, dos anexos fetais e do feto. O canal do parto, composto
dos ligamentos sacroisquiáticos são pouco observados nesta materno e a atitude é a relação das partes do feto com seu pelas vias fetais óssea e mole, deve estar dilatado, lubrificado e
espécie. A fase de dilatação caracteriza-se por inquietação, com próprio corpo (Locatelli, 2009). No parto eutócico o feto tem com as mucosas integras. Os anexos fetais podem estar íntegros
sinais semelhantes aos de cólica, e rompimento do alantocório. . apresentação longitudinal anterior, posição superior e atitude ou rompidos, sendo o liquido alantóide de coloração amarelada,
A fase de expulsão geralmente ocorre à noite, com o animal em estendida com membros e cabeça insinuados no quadrante por conter urina fetal, e o liquido amniótico claro e mucoso. O
decúbito lateral e geralmente tem duração de 15 a 30 minutos, pélvico. Diante de partos distócicos de causa fetal (mais comuns feto é avaliado quanto ao tamanho, estática, malformações e

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viabilidade, sendo que os principais sinais de viabilidade são: feto (transversal dorsal ou ventral para longitudinal anterior ou
movimentação espontânea à palpação, pulso dos vasos do posterior) (Prestes e Landim-Alvarenga, 2006).
cordão umbilical e presença dos reflexos de sucção, ocular e
Segundo Locatelli (2009), o sucesso da manipulação obstétrica
anal 7,20,22.
depende do tempo de evolução do parto, viabilidade fetal,
A estática fetal é definida na palpação vaginal através de grau de dilatação das vias fetais, óssea e mole, equipamento
critérios de apresentação, posição e atitude. Sendo que a disponível, do local de execução do procedimento, bem como
apresentação é a relação entre os eixos longitudinal da mãe da experiência do Médico Veterinário e do preparo do pessoal
e do feto, a posição é a relação entre a porção dorsal do feto de apoio.
comparado ao dorso materno e a atitude é a relação das partes
do feto com seu próprio corpo 14.
No parto eutócico o feto tem apresentação longitudinal FETOTOMIA
anterior, posição superior e atitude estendida com membros
e cabeça insinuados no quadrante pélvico. Diante de partos Caracteriza-se pela técnica de fragmentação do feto em partes
distócicos de causa fetal (mais comuns em éguas) são três menores, tornando possível sua remoção pelo canal vaginal
as opções de conduta: manobras obstétricas de correção, (Pinto, 2006; Ferreira, 2009). Prestes e Landim-Alvarenga
fetotomia e cesariana, as quais serão descritas a seguir 20. (2006) citam que a técnica aplicada a animais de grande porte
é de difícil execução em pequenos ruminantes e impraticável
Figura 1: Imagem de uma égua com distocia de origem fetal. Foto ce-
dida pelo Serviço de Reprodução e Obstetrícia da FCAV/UNESP. em suínos e carnívoros. Podem ser utilizadas duas técnicas, a
transcutânea tradicional (percutânea) ou subcutânea (com uso
MANOBRAS OBSTÉTRICAS DE CORREÇÃO A retropulsão é o ato de empurrar o feto insinuado, em direção da espátula de Keller).
ao útero, ela pode ser realizada com o próprio braço ou muleta Tal técnica é indicada em casos do feto estar morto ou muito
São realizadas quando a estática fetal apresenta-se incorreta obstétrica, respeitando sempre as contrações uterinas. . A debilitado (indicado neste caso sacrifício pela ruptura manual
e sua correção pode ser feita por meio das manobras de extensão é o ato de estender partes flexionadas, tomando os do cordão umbilical), na vigência de fetos absolutos ou
retropulsão, extensão, tração, rotação e versão (Ferreira, 2009; devidos cuidados para não ocasionar nenhum tipo de laceração relativamente grandes, fetos enfisematosos e monstruosidades
Locatelli, 2009; Jackson, 2009; Prestes e Landim-Alvarenga, principalmente pelo casco. Por sua vez, a tração consiste em fetais, fetos que sofreram graves mutilações durante as
2006; Vicente e Toniollo, 1995). tracionar o feto pelas partes insinuadas, a fêmea não deve ser tentativas de tração, distocias de impossível correção e casos
fixada, sendo a fixação somente do potro (nos membros acima da adiantados de putrefação. Sendo contraindicada em casos de
articulação metacarpo e na cabeça em região do osso occipital). estreitamento de via fetal, ruptura uterina, graves lacerações
A rotação nada mais é que o ato de giro do potro sobre seu eixo vaginais, hemorragias profusas, se o feto estiver vivo e nas
longitudinal, mais bem sucedida com a égua em decúbito e o doenças graves da parturiente (Pinto, 2006; Prestes e Landim-
potro em posição lateral (menor sucesso em posição inferior) Alvarenga, 2006).
e por fim a versão, que consiste em alterar apresentação do

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A anestesia epidural é recomendada tanto por Prestes e Landim- As principais indicações para o uso da técnica em éguas são:
Alvarenga (2006) quanto por Jackson (2009), desde que o torção uterina grave, deformações da via fetal óssea, rupturas
animal esteja agitado, com fortes contrações e seja de fato um uterinas e malformações fetais. Como contraindicações da
procedimento demorado, pois a incoordenação de posteriores cesárea estão as distocias de correção, fetos enfisematosos,
pode ocasionar acidentes. Para dar início a fetotomia a égua atonia uterina reversível por medicamentos e em paciente de
deve estar devidamente contida em posição quadrupedal, estado geral grave a moribundo (Prestes e Landim-Alvarenga,
sedada (quando possível e necessário) e com a região perineal 2006; Toniollo e Vicente, 2003).
devidamente higienizada O médico veterinário deve utilizar
Para realização de cesarianas em éguas, existem vários
lubrificantes e realizar a técnica com assepsia. A manipulação
protocolos anestésicos disponíveis em literatura, todos com o
excessiva pode ocasionar lacerações da mucosa vaginal e do
propósito de minimizar a depressão do feto (Vandeplassche et
anel cervical (Jackson, 2009; Vicente e Toniollo, 1995).
al., 1972). Figura 2: Imagem de uma égua com distocia de origem fetal, em decúbito dorsal
Ao término do procedimento, um rigoroso exame obstétrico em centro cirúrgico para realização de cesariana. Foto cedida pelo Serviço de Re-
É válido lembrar que em todos e quaisquer procedimentos produção e Obstetrícia da FCAV/UNESP.
é fundamental a fim de detectar eventuais lesões. Deve ser
cirúrgicos realizados em eqüinos, um protocolo profilático O início da cirurgia é dado com a abertura da cavidade
realizada lavagem uterina com água morna para completa
antitetânico deve ser obrigatoriamente empregado (Prestes e abdominal, identifica-se o útero gravídico que é exposto ao
remoção de resíduos, duas vezes ao dia, com rigorosa condição
Landim-Alvarenga, 2006). máximo possível, em seguida identifica-se um dos membros
de higiene. Não é indicado uso de bolus de antibiótico
(intrauterino), mas sim uma terapia completa preventiva da Na Europa, tem sido bastante empregada a cirurgia com a do feto, posiciona-se este firmemente contra a parede uterina,
laminite (Prestes e Landim-Alvarenga, 2006). técnica de abordagem baixa pelo flanco, porém na maioria dos servindo de guia e apoio para a incisão uterina. Depois da
demais países a abordagem pela linha mediana ventral é a mais retirada do potro, inspeciona-se o interior do útero e os
utilizada; ambas as técnicas são realizadas sob pré-operatório anexos fetais. Se estes anexos estiverem já separados poderão
CESARIANA EM EQUINOS ser retirados pelo acesso cirúrgico, porém se estiverem ainda
adequado e anestesia geral, considerando sempre o melhor
protocolo disponível (Heath, 1980). A operação cesariana em aderidos ao útero estes devem ser mantidos no local, e deverão
A cesariana tem por objetivo retirar fetos, vivos ou mortos, de
éguas também pode ser realizada com o animal em estação ser expulsos naturalmente via vaginal (Turner e Mcilwraith,
fêmeas, neste caso da espécie eqüina, podendo ser conservativa
com acesso pelo flanco, porém a técnica mais indicada é a 2002).
ou radical, em caso de histerectomia (Toniollo e Vicente, 2003).
incisão pela linha média ventral em centro cirúrgico (Prestes e Para fechamento uterino, caso os anexos fetais permaneçam no
Este procedimento cirúrgico é indicado para o tratamento de Landim-Alvarenga, 2006). órgão, a sutura não deve prender os mesmos, esta é realizada
distocias em éguas, geralmente é realizada após o fracasso
Quando a técnica utilizada é a de incisão pela linha ventral com fios absorvíveis, preferencialmente sintéticos, em duas
das manobras obstétricas e fetotomia, porém não deve ser
média, a égua deve ser colocada em decúbito dorsal, em seguida camadas invaginantes seromusculares (Prestes e Landim-
considerada como ultima opção (Turner e Mcilwraith, 2002).
realiza-se tricotomia e antissepsia da região, a qual é protegida Alvarenga, 2006; Vandeplassche et al., 1972).
A freqüência de realização da cesariana em éguas é baixa, devido com panos de campo estéreis. Acessos venosos devem ser O padrão de sutura pode ser contínuo ou interrompido ou
às características do parto, sendo este rápido, geralmente disponibilizados para fluidoterapia (Edwards et al., 1974). ainda pela técnica de Utrech, de qualquer forma, deve sempre
noturno, com deslocamento placentário precoce, além da
ter padrão invaginante (Ball et al., 1979). O fechamento da
anatomia pélvica favorável ao parto.
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cavidade é feita em três camadas, sem necessidade de suturar o PRINCIPAIS ENFERMIDADES ORIUNDAS
peritônio, a parede abdominal é suturada com pontos simples ou DE PARTO DISTÓCICO
em ‘’X’’, com fios sintéticos, absorvíveis, de maneira que garanta
forte resistência na incisão, dessa forma, o subcutâneo e a pele Os traumas encontrados com frequência no pós-parto de éguas
não irão sofrer tensão pelo peso dos órgãos internos, em seguida são laceração perineal, laceração de cérvix, fístulas retovaginais,
o subcutâneo é suturado também com fio absorvível sintético ruptura, hemorragia e prolapso uterino. Segundo Papa et al.
e por fim a sutura da pele é realizada, preferencialmente com (1992) e Nogueira (2004) as lacerações perineais e as fístulas
Nylon e com padrão interrompido, em ‘’X’’ ou “U”, garantindo retovaginais estão entre os principais traumas cirúrgicos
maior resistência (Turner e Mcilwraith, 2002). encontrados em éguas no pós-parto, podendo estes levar a
complicações como pneumovagina, urovagina e até a morte.
No pós-cirúrgico deve ser instituída antibioticoterapia de amplo
espectro e todos os cuidados para a prevenção de laminite. Ao Ocorrem devido à força excessiva realizada pela égua para
fim da cirurgia, pode-se iniciar o tratamento para expulsão expulsão do feto, geralmente em distocias, éguas nervosas,
dos anexos fetais, com uso de hormônios como ocitocina. auxílio inadequado ao parto, éguas primíparas e também fetos Figura 3: Imagem demonstrando uma Laceração de grau III em égua, observando o rompimento
O antibiótico utilizado também auxiliará na profilaxia das grandes (Nogueira, 2004). da parede dorsal da vagina, do assoalho retal, esfíncter anal e corpo perineal. Foto cedida pelo
Serviço de Reprodução e Obstetrícia da FCAV-Unesp-Jaboticabal.
infecções uterinas (Turner e Mcilwraith, 2002). As lacerações perineais são classificadas de acordo com sua
extensão em lacerações de grau I, II e III As de grau I não têm Lacerações de grau I são geralmente autolimitantes, sem
A fertilidade futura da égua possui prognóstico reservado
envolvimento do corpo perineal e ânus, estão lesionadas necessidade de cirurgia, porém pode-se realizar a técnica de
quando anterior à cirurgia houve manipulação vaginal
apenas as mucosas do vestíbulo vaginal e da porção superior Caslik para vulvoplastia. As lacerações de grau II podem ser
prolongada (Frazer, 2001). Retenção placentária na égua pode
da vulva; as de s grau II são as que geram trauma na mucosa e corrigidas por vulvoplastia e reconstrução do corpo perineal.
levar a complicações, dentre elas as metrites, endotoxemia,
submucosa vulvovestibular e ruptura dos músculos do corpo As de grau III necessitam restauração do vestíbulo, reto e corpo
laminite e eventualmente a morte. A involução uterina na
perineal não há envolvimento do reto e do ânus. Por fim, nas perineal (Trotter, 1992; Gheller, 2001).
égua é atrasada mesmo que não desenvolvam estas sequelas
(Angrimani et al., 2011). de grau III ocorre o rompimento da parede dorsal da vagina, Segundo Jackson (2009) em casos cirúrgicos, como em
do assoalho retal, esfíncter anal e corpo perineal . Nas fistulas lacerações de grau III, deve-se levar em consideração o tempo
Nos casos de metrite séptica ou tóxica após distocia e retenção retovaginais ocorre ruptura parcial do assoalho retal e teto decorrido e realizar exame clínico minucioso, assim como
placentária, a parede uterina torna-se mais fina e friável vaginal (Grunert, 2005; Trotter, 1992, Gheller, 2001). debridamento da lesão, uso de soro antitetânico, antibiótico e
ou até mesmo necrótica. Após a perda de integridade do
antinflamatório. Lacerações de grau III com menos de 12 horas
endométrio ocorre, provavelmente, a absorção de bactérias e
podem ser reparadas cirurgicamente, já lesões mais antigas
toxinas bacterianas pela circulação uterina, as quais provocam
devem ser tratadas como ferida aberta, com higienização diária
as alterações vasculares periféricas que originam a laminite
com água e sabão neutro por 30 dias, para posteriormente serem
(Blanchard e Macpherson, 2007).
reparadas por cirurgia (Prestes e Landim-Alvarenga, 2006).
A extensão da lesão deve ser determinada e havendo suspeita
de envolvimento do peritônio, uma punção peritoneal deve ser
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feita. Em caso de peritonite o tratamento é feito com antibióticos e a pele é suturada com pontos simples interrompidos. No pós- CORREÇÃO DE LACERAÇÕES DE GRAU II
e antinflamatórios não esteroidais (AINE). Lacerações mínimas operatório deve-se observar e trocar o curativo diariamente. O
envolvendo somente a mucosa vaginal cicatrizam sem uso de antibiótico é opcional (Prestes e Alvarenga, 2006). As lacerações de grau II são corrigidas com perineoplastia. O
tratamento (Jackson, 2009). pré-operatório baseia-se em exame citológico, microbiológico
Vulvoplastia é a cirurgia de reconstrução da comissura dorsal
Cortes na parede vaginal devem ser reparados imediatamente, da vulva que apresenta defeito anatômico ocasionado durante e histológico uterino, jejum, contenção do animal em tronco,
evitando tecidos de granulação ou cicatrização. Uma sutura o parto ou devido à realização de uma episiotomia. Magreza, enfaixamento da cauda, remoção das fezes, lavagem da região
contínua nas camadas mucosa e submucosa é feita usando idade, partos repetidos e lordose também podem alterar a com água e sabão neutro e antissepsia com álcool iodado (AUER
material absorvível. O uso de antibióticos é recomendado posição da vulva. A vulvoplastia é frequentemente indicada e STICK, 2006).
(Jackson, 2009). como forma de tratamento de pneumovagina, enfermidade Depois de adequado protocolo anestésico (sedação e anestesia
que afeta principalmente éguas velhas e multíparas e predispõe epidural) e contenção do animal (em posição quadrupedal em
Segundo Gheller (2001) a fístula retovestibular pode ser tratada
à urovagina (Dias, 2007; Prestes e Alvarenga, 2006). tronco de contensão), são colocados pontos de sustentação
através de sua transformação em uma laceração perineal de
grau III. Segundo Malschitzky et al. (2007), éguas candidatas à laterais nos lábios vulvares próximos a comissura dorsal e um
vulvoplastia apresentaram um índice de prenhes menor do que ponto de sustentação próximo ao ânus para melhor visibilização
aquelas que não necessitavam cirurgia, ou do que aquelas que do campo cirúrgico, em seguida retira-se uma porção da
já haviam sido suturadas anteriormente. mucosa da região em forma de triângulo, a sutura interna é
EPISIOTOMIA E VULVOPLASTIA feita com pontos simples e fio absorvível, a sutura externa é
Existem três técnicas cirúrgicas para vulvoplastia: Caslick, Pouret feita com pontos em U profundos na região perineal externa
e Modino-Mereck, sendo que a mais utilizada é a de Caslick, que é seguida de pontos simples isolados em região mais superficial
A dilatação insuficiente e estenose vulvar e vestibular acontece feita com anestesia local mediante infiltração direta da margem com fio não absorvível (Youngquist e Threlfall, 2007; Prestes e
por uma doença crônica, um distúrbio no crescimento corporal, labial vulvar, e com uma tesoura ou bisturi remove-se uma tira Landim Alvarenga, 2006; Turner e Mcilwraith, 2002; Mckinnon
nutrição deficiente ou por retração cicatricial devido a sequelas de mucosa de aproximadamente 3mm de largura de cada lábio e Voss, 1993).
de lesões ocorridas em partos anteriores (Prestes e Landim- vulvar, as margens cruentas são colocadas em aposição com
Alvarenga, 2006). pontos contínuos simples, sendo que grampos de aço também
Episiotomia é a abertura cirúrgica dos lábios vulvares para permitir podem ser utilizados. No pós-operatório geralmente não são CORREÇÃO DE LACERAÇÕES DE GRAU III
a passagem do feto e evitar que a vulva se rasgue irregularmente indicados antibióticos tópicos ou sistêmicos, retira-se os pontos
7 a 10 dias após, e como complicações são incluídas a recorrência As lacerações de grau III são corrigidas por meio da técnica de
durante o parto, podendo envolver o reto. Ela é indicada em AANES e suas muitas variações descritas na literatura. Depois
distocias, por falta de relaxamento ou imaturidade, e geralmente de pneumovagina e deiscência da sutura (Hendrickson, 2010).
de adequado pré-operatório, contensão do animal e protocolo
é necessária em animais submetidos à cirurgia vulvar (Dias, 2007). anestésico (semelhantes aos das lacerações de grau II descritos
Após a higienização e antissepsia do períneo, infiltração anestésica anteriormente), a técnica é feita em duas etapas: primeiro
local, procede-se com a incisão através da pele e mucosa reconstitui-se o teto vaginal e o assoalho retal e 15 dias depois
vestibular em forma de V, permitindo a passagem do feto. Após o o corpo perineal e o esfíncter anal.
parto, se aproxima a mucosa vaginal com fio absorvível sintético
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A cirurgia inicia-se com os pontos de sustentação que Para execução da técnica cirúrgica convencional, o anel cervical GRUNERT, E.; BIRGEL, E.H.; VALE, W.G. Patologia e clínica da reprodução dos animais
mamíferos domésticos. 1ª ed. São Paulo: Varela, 2005. 551p.
possibilitam visão adequada do campo cirúrgico, em seguida é prolapsado por tração com pinça especial até o vestíbulo
faz-se uma incisão ao longo da lesão, separa-se a mucosa retal vaginal, para permitir sua visualização, reavivamento tecidual HEATH, R.B. Personal comunnication, 1980. In: TURNER A.S., MCILWRAITH, C.W.
Técnicas Cirúrgicas em Animais de Grande Porte. São Paulo, Roco, p.177 a 179. 2002.
da vaginal e divulsiona-se a submucosa e mucosa vaginal e sutura. É necessária a disponibilidade de uma pinça longa
formando os flaps retal e vaginal. A reconstituição do teto vaginal traumática, própria para fixar e tracionar o anel. O material HENDRICKSON, D.A. Técnicas Cirúrgicas em Grandes Animais. 3ª Ed. Rio de Janeiro:
Guanabara Koogan, 2010.
e assoalho retal é feita com pontos de Donatti (fio absorvível cirúrgico preferencialmente deve ser mais longo que o usual
1 ou não absorvível - Supramid), somente 15 dias após deve (Mckinnon e Voss, 1993). JACKSON, P.G.G. Obstetrícia Veterinária, 2ª edição. Editora Rocca LTDA, 2009.
ser feita a perineoplastia e a vulvoplastia. O pós-operatório é LOCATELLI, L.; CURY, J.R.L.M.; PEREIRA, D.M. Estática Fetal. Revista Científica Eletrônica
A despeito dos avanços técnicos, os resultados de uma forma
realizado com curativo local diário, antinflamatórios (flunixim de Medicina Veterinária, (12):1-6, 2009.
geral ainda são frustrantes para uma gestação normal, porém
meglumine a cada 12 horas) e antibióticos. Quando o animal MCKINNON, A.O.; VOSS, J.L. Equine Reproduction. 1ª ed. Philadelphia: Lea & Febiger.
já foram obtidos promissores resultados utilizando os animais
retornar à reprodução preconiza-se a inseminação artificial ou 1993, 1137p.
operados como doadores de embriões (Hendrickson, 2010)..
montas controladas. (Youngquist e Threlfall, 2007; Prestes e MALSCHITZKY, E. et al. Vulvoplastia pré ou pós-cobertura e sua influência na
Landim Alvarenga, 2006; Turner e Mcilwraith, 2002; Mckinnon fertilidade. Revista Brasileira de Ciências Veterinária, 14(1):56-58, 2007.
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AUER, J.A.; STICK, J.A. Equine Surgery, W.B. Saunders Co., (3rd Ed), 2006.
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A laceração cervical comumente está associada a um parto ANGRIMANI, D.S.R.; RUI, B.R.; CRUZ, L.V.; ROMANO, R.M.; LOPES, H.C. Retenção de
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