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Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Centro de Tecnologia e Ciências

Escola Superior de Desenho Industrial

Programa de Pós-Graduação em Design

Sociedade & Cultura Contemporânea

Prof: Ricardo Artur

Discente: Pedro Biz

Desenvolvimento, design e meio ambiente:


apontamentos dispersos
Introdução
Se tem alguma coisa que nos une, são as questões ambientais. Você pode morar em qualquer
parte do mundo e de alguma maneira você está sendo afetado nesse momento pelos efeitos
de uma sociedade orientada ao desenvolvimento e ao consumo. Mesmo que esse
desenvolvimento e consumo sejam desequilibrados, pendendo para os países do “primeiro
mundo”, o impacto alcança todos, seja pelas mudanças climáticas globais, seja pela exploração
local de trabalhadores e terras.

O capitalismo global parece carregar a mesma lógica linear de produção, consumo e descarte a
todos os lugares em que se espalhou. A linearidade do sistema é uma herança da cultura
industrialista da modernidade que até hoje se manifesta. Entretanto a pós-modernidade
trouxe novos discursos e percepções, assim como abordagens para a questão. A globalização
trouxe consigo uma percepção em nível planetário dos impactos sobre o meio ambiente pelo
capitalismo desenvolvimentista.

A partir das leituras sobre pós-modernidade e a globalização elaborarei algumas ideias que
possam indicar caminhos reflexivos e apontamentos para futuros aprofundamentos.

Da modernidade à pós-modernidade
A origem do projeto de modernidade, como coloca Habermas, está no século XVIII. Um esforço
intelectual de iluministas para desenvolver “a ciência objetiva, a moralidade e a lei universais e a
arte autônoma nos termos da própria lógica interna destas” (HARVEY, 2004, p. 23). A verdade por
meio da razão traria as qualidades eternas e imutáveis que libertariam a população.

O desenvolvimento de formas racionais de organização social e de modos racionais de


pensamento prometia a libertação das irracionalidades do mito, da religião, da
superstição, liberação do uso arbitrário do poder, bem como do lado sombrio da nossa
própria natureza humana. Somente por meio de tal projeto poderiam as qualidades
universais, eternas e imutáveis de toda a humanidade ser reveladas. (HARVEY, 2004,
p.23)
O moderno está entre a oscilação do transitório, fugidio e contingente e o eterno e imutável.
Ao mesmo tempo, não é uma unidade, mas

trata-se de uma unidade paradoxal, uma unidade da desunidade; ela nos arroja num
redemoinho de perpétua desintegração e renovação, de luta e contradição, de
ambigüidade e angústia. Ser moderno é ser parte de um universo em que, como disse
Marx, "tudo o que é sólido desmancha no ar" (HARVEY, 2004, p. 21)

E essa ruptura não é apenas em relação ao passado, mas uma condição “caracterizada por um
interminável processo de rupturas e fragmentações internas inerentes”. (HARVEY, 2004, p.
22).

A necessidade de destruir o passado para escrever o futuro foi, segundo David Harvey (2004,
p. 19), uma das características do modernismo. O caminho para se criar um novo mundo seria
destruindo o passado. A possibilidade de desenvolvimento estava diretamente ligada
constante reinvenção da vida. A seta do desenvolvimento indicava uma trajetória linear,
irreversível e tendendo a um centro comum.

A imagem da "destruição criativa" é muito importante para a compreensão da


modernidade, precisamente porque derivou dos dilemas práticos enfrentados pela
implementação do projeto modernista. Afinal, como poderia um novo mundo ser
criado sem se destruir boa parte do que viera antes? Simplesmente não se pode fazer
um omelete sem quebrar os ovos, como o observou toda uma linhagem de pensadores
modernistas de Goethe a Mao. (HARVEY, 2004, p. 26)

A partir dessa ideia, a busca pelo desenvolvimento obsessivo e insaciável torna-se o que
Harvey chamou de tragédia, pois “na medida em que transforma o deserto num espaço social
e físico vicejante, recria o deserto no interior do próprio agente de desenvolvimento.”
(HARVEY, 2004, p. 26).

A partir da metade do século XIX “a fixidez categórica do pensamento iluminista foi


crescentemente contestada” e a fé no progresso começou a se desfazer “à medida que o
século passava e as disparidades de classe produzidas no âmbito do capitalismo se tornavam
cada vez mais evidentes” (HARVEY, 2004). A partir daí, os modelos de representação
começaram a se fragmentar em diversos caminhos e um brecha criou espaço para outros
planos se apoderassem do projeto modernista. O resultado foi um período de duas grandes
guerras mundiais.

O problema do modernismo "heróico" foi, para resumir, o fato de que, uma vez
abandonado o mito da máquina, qualquer mito podia alojar-se na posição central da
"verdade eterna" pressuposta no projeto modernista. (HARVEY, 2004, p. 39)

O pós guerra é marcado por uma reabsorção do valores da máquina, de modo superficial a
serviço dos Estados Unidos, como a nação que saiu vitoriosa da guerra, e da reconstrução e
modernização da Europa. Uma racionalidade técnico científica foi sendo absorvida pelo
capitalismo representados pelo expressionismo abstrato. Para Harvey (2004), a “despolitização
do modernismo, que ocorreu com a ascensão do expressionismo abstrato, e pressagiou
ironicamente sua assimilação pelo establishment político cultural como arma ideológica na
Guerra Fria”. Nas palavras de Gottlieb e Rothko em 1943:
"chegou o momento de aceitarmos valores culturais num plano verdadeiramente
global." Ao fazê-lo, eles procuravam um mito que fosse "trágico e in temporal". O que
esse apelo ao mito permitia na prática era uma rápida passagem do "nacionalismo
para o internacionalismo e, deste, para o universalismo" (HARVEY, 2004, p. 43).

A partir da década de 1960 apareceram diversos movimentos contraculturais e


antimodernistas não mais suportavam o discurso universalizante. Segundo Harvey, o “pós-
modernismo é a fuga/percepção que não há mais grandes narrativas universais que colocam
todos os humanos no mesmo caminho. A percepção de múltiplas narrativas que engendram a
vida.” (HARVEY, 2004, p. 23)

Antagônicas às qualidades opressivas da racionalidade técnico-burocrática de base


científica manifesta nas formas corporativas e estatais monolíticas e em outras formas
de poder institucionalizado (incluindo as dos partidos políticos e sindicatos
burocratizados), as contraculturas exploram os domínios da auto-realização
individualizada por meio de uma política distintivamente "neo-esquerdista" da
incorporação de gestos antiautoritários e de hábitos iconoclastas (na música, no
vestuário, na linguagem e no estilo de vida) e da crítica da vida cotidiana.

Parte do senso comum que o moderno trouxe a individualização do sujeito. As transformações


da modernidade libertaram o indivíduo de seus apoios estáveis nas tradições e nas estruturas.
Com o desenvolvimento o da modernidade o indivíduo passou a se estabelecer dentro das
condições sociais da máquina estatal. Passou a existir condições sociais do sujeito inserido
dentro desse sistema. Essa relação do interior com o exterior, entre sujeito e sociedade, aos
poucos foi ruindo até chegar no sujeito fragmentado a partir do século XX, que levou ao
descentramento do sujeito cartesiano (HALL, 2004, p. 34).

O "sujeito" do Iluminismo, afirma Hall, visto como tendo uma identidade fixa e estável foi
descentrado, resultando nas identidades abertas, contraditórias, inacabadas, fragmentadas, do
sujeito pós-moderno.

O pós-modernismo contrapõe a monotonia do modernismo. Enquanto o modernismo


é percebido como positivista, tecnocêntrico, racionalista, que acredita no progresso
linear, nas verdades absolutas, no planejamento racional das ordens sociais e a
padronização do conhecimento e da produção. O pós-moderno privilegia a
heterogeneidade e a diferença, a fragmentação, a indeterminação e a desconfiança
nos discursos universais (HALL, 2004 p. 19).

A pós-modernidade, pelo menos na arquitetura, pregava pelo fim dos grandes planejadores
urbanos. Dos projetos abstratos e racionais. “Empregar estratégias pluralistas e orgânicas,
assemelhadas a colagem seriam palavras da pós-modernidade” (HARVEY, 2004, p. 46).

Os planejadores "modernistas" de cidades, por exemplo, tendem de fato a buscar o


"domínio" da metrópole como "totalidade" ao projetar deliberadamente uma "forma
fechada", enquanto os pós-modernistas costumam ver o processo urbano como algo
incontrolável e "caótico", no qual a "anarquia" e o “acaso" podem "jogar" em situações
inteiramente "abertas". (HARVEY, 2004, p. 49)

Não por acaso, em 1968 acontece o fechamento da escola de ULM, que marcou a segunda
geração do modernismo no design. Não existem receitas formais capazes de equalizar os
desafios da atualidade, afirma Rafael Cardoso. Os princípios que ditaram o design moderno, o
principal deles a forma segue a função, não conseguem mais comportar o fazer do designer.

Globalização
O projeto de modernidade implantou uma lógica desenvolvimentista que parte de um projeto
iluminista de romper com o passado e reconstruir a sociedade através da razão. Esse discurso
culmina em duas grandes guerras mundiais que levou ao extermínio de milhares sob pretexto
da ciência e, no pós-guerra, na absorção superficial do discurso da científico e tecnocrático
para a reconstrução do ocidente e desenvolvimento de um capitalismo global liderado pelos
Estados Unidos.

Quando a expectativa que essa promessa do capitalismo traria bem-estar para todos não se
concretizou, diversos movimentos em todo mundo emergiram contra as forças de poder do
estado e do mercado. Rapidamente preocupações que pareciam locais eram compartilhadas
em diversas partes do planeta. Vozes ressoantes gritavam por direitos das mulheres, dos
negros, do fim às guerras, pela liberdade de expressão, pela preservação do meio ambiente
etc.

As tecnologias de comunicação e transporte como a televisão, o rádio, o avião, aproximaram


uma geração colocando em colisão culturas distantes. Hall (2004) afirma que a globalização
está causando uma compressão de espaço e tempo. As distâncias estão ficando menores
dentro do globo. A possibilidade de locomoção com velocidade para todas as partes do
planeta e as tecnologias de comunicação como o telefone, a televisão e a internet conectam
pessoas dos locais mais distantes, gerando uma movimentação cultural intensa.

Hall (2004) aponta o surgimento do pós-modernismo a partir de cinco descentramentos. O


primeiro vem da teoria marxista rompendo com a ideia de uma agência total do sujeito. O
sujeito age de acordo com as condições nas quais está inserido. A segunda é o reconhecimento
pela psicanálise de Freud da ação do inconsciente sobre o sujeito como algo interno e
incontrolável. O terceiro descentramento vem da linguística de Saussure que afirma que o
sujeito não é dono das palavras utiliza para se expressar, logo a língua é um elemento
relacional e social de sentido mutante que está sempre em negociação entre o sujeito e os
outros. O quarto descentramento está nas teorias de Foucault sobre um novo tipo de poder de
vigilância do Estado sobre os sujeitos que vai cerceando e individualizando. O quinto
descentramento vem das teorias feministas que estabeleceram o que viria a ser chamado de
política das identidades, apelando a identidade social de seus sustentadores.

Esses descentramentos indicam uma ruptura com as grandes narrativas que envolviam os
discursos da história. Consequentemente, alguns pesquisadores, afirma Hall, apontam que há
uma tendência que uma maior interdependência global pode levar ao colapso de identidades
culturais fortes produzindo a fragmentação de códigos culturais. A contradição do fenômeno
indica que ao mesmo tempo que identidades nacionais estão enfraquecendo diante de
identidades globais, as identidades comunitárias estão se reforçando. (HALL, 2004, p. 73)

Os fluxos culturais, entre as nações, e o consumismo global criam possibilidades de


"identidades partilhadas" como "consumidores" para os mesmos bens, "clientes" para
os mesmos serviços, "públicos" para as mesmas mensagens e imagens – entre pessoas
que estão bastante distantes umas das outras no espaço e no tempo. (HALL, 2004, p.
74)

Quanto mais a vida fica exposta ao mercado global e aos sistemas de comunicação, mais as
identidades se encontram dispersas, fragmentadas e flutuando, como se pudéssemos escolher
as identidades numa espécie de “supermercado cultural” (HALL, 2004, p. 75).

Existe uma tendência a homogeneização e, ao mesmo tempo, temos a diferenciação a partir


da valorização das culturas locais, uma “fascinação com a diferença e com a mercantilização da
etnia e da “alteridade”” (HALL, 2004, p. 77). A identidade torna-se uma moeda cultural na
medida que o consumo sempre busca coisas novas e exóticas para vender.

O que vem sendo chamado de globalização pode ser definido como “processos, atuantes
numa escala global, que atravessam fronteiras nacionais, integrando e conectando
comunidades e organizações em novas combinações de espaço-tempo, tornando o mundo, em
realidade e em experiência, mais interconectado”. (HALL, 2004, p. 67)

Hall (2004) aponta que a globalização não é um fenômeno uniforme. Os fluxos acontecem em
tempos e espaços diversos. Os efeitos mais fortes puderam ser notados nos países do
“primeiro mundo” do ocidente. As periferias seriam menos afetadas pela globalização. Mesmo
que hoje talvez não seja mais possível afirmar isso com tanta certeza, será que ainda seria na
época que o livro foi publicado?

Se em New York, Londres e Paris era possível ir em restaurantes com culinárias do mundo
todo, ou consumir um celular fabricado na China feito com materiais extraído de minas de
países africanos, quais tipos de impactos eram causados nos países que eram “consumidos”?
Na China temos exploração de mão de obra barata em níveis de quase escravidão, em países
da África subsaariana pedras raras são extraídas com base de sangue de trabalhadores em
meio a guerras civis. Esse mesmo celular, quando era substituído por uma nova versão, ia para
um lixo, despachado para algum país da periferia do mundo 1.

O oriente médio é marcado por guerras na década de 1970 e 1980, tendo um dos principais
motivos disputadas pela exploração de petróleo. O Brasil é um dos maiores produtores de
commodities do mundo. Um dos maiores exportadores de soja e carne. A consequência do
mercado global é o desmatamento, envenenamento do solo, roubo de terras indígenas, etc.
Estes são apenas alguns exemplos de como poderíamos ver os dois lados da globalização. Sem
dúvida, os efeitos são completamente diferentes e desiguais em diferentes lugares. Entretanto
talvez, seja o impacto positivo ou negativo, exista uma proporcionalidade nessas conexões.

Design, desenvolvimento e meio ambiente.


Por um longo período acreditou-se que a natureza era uma fonte de recurso inesgotável a
serviço do ser humano. Até a década de 1970 não havia preocupação ambiental, até que
mudanças climáticas começaram a apontar para os primeiros indícios de aquecimento do
planeta. Em 1972, a ONU realiza a primeira conferência para alertar o mundo dos sérios
impactos ambientais que o desenvolvimento desenfreado estava causando. Da conferência
resultou a declaração de Estocolmo atentando “à necessidade de um critério e de princípios

1
https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/01/160109_lixao_eletronicos_ab
comuns que ofereçam aos povos do mundo inspiração e guia para preservar e melhorar o
meio ambiente humano” (ONU, 1972).

Uma das propostas para conter a destruição era desacelerar as ações desenvolvimentistas no
mundo todo. A proposta não foi bem vista pelos chamados países em subdesenvolvimento.
Depois que os grandes países desenvolvidos haviam explorado e produzido o suficiente para
acumular riquezas, a ordem era parar as fábricas no mundo inteiro. Não pareceu uma
proposta justa. Embora o sonho do progresso pela vida do desenvolvimento e do capitalismo
ainda permeava o imaginário dos países da periferia, discursos universais e homogêneos não
mais espaço.

A identidade cultural nacional que era a grande força discursiva da modernidade, como afirma
Hall, é pulverizada por um cruzamento de culturas em outro planos e direções. Movimentos
ambientais começaram a crescer no mundo todo pressionando governos a tomarem atitudes.
A figura do defensor do meio ambiente não se constituía em uma identidade nacional, mas por
uma identidade global preocupada com a defesa do meio ambiente. Organizações não
governamentais em defesa da natureza surgiam na mesma época (como o Greenpeace
fundado em 1971), hoje contam com milhares de voluntários e atuam e todas as partes do
planeta. Ainda que as ações venham que uma consciência global, as ações acontecem em
ambientes locais ameaçados, defendidos por agentes locais e voluntários de outros lugares
que defendem a causa.

Os designers, que sempre foram uma peça importante na engrenagem da máquina moderna
também foram cruzados pelos discursos ambientalistas. Em 1971, Victor Papanek publica o
livro Design para o mundo real, colocando o design dentro dos movimentos ambientalistas da
contracultura.

Esse livro tinha por intenção conclamar os designers a sair do ar condicionado de seus
escritórios envidraçados e olhar à sua volta, projetando soluções para o mundo real,
que se desintegrava em fome e miséria, conflitos raciais e protestos políticos, guerras
civis e lutas de independência, guerras quentes e Guerra Fria, uma corrida
armamentista nuclear que ameaçava destruir a todos, e uma crise ambiental que se
anunciava pela primeira vez por dados oficiais da ONU. (CARDOSO, 2011, 2-3)

Um dos primeiros livros de design a falar dos impactos ecológicos e sociais do design para o
mundo. Apresenta uma visão antropológica do design colocando as pessoas em seus contextos
e modos de produzir suas vidas como ações de design, contrariando o discurso modernista do
especialista que domina a técnica, detém o conhecimento e leva a verdade das coisas a partir
dos materiais que projeta.

Ainda assim, alguma coisa precisava ser feita em relação ao desenvolvimentismo. A Comissão
Mundial para o Ambiente e Desenvolvimento, organizada pela ONU, publica em 1987 o
relatório “Nosso futuro comum” (Our Common Future), coordenado por Gro Harlem
Brundland. (Manzini, 2008, p. 21). Nesse documento constava pela primeira vez o conceito de
desenvolvimetno sustentável. O princípio de responsabilidade em relação ao futuro “declara
que devemos garantir às gerações futuras pelo menos o mesmo espaço ambiental que
atualmente temos à nossa disposição’ (MANZINI, 2008, p. 23).
Na Conferência das Nações Unidas sobre Ambiente e Desenvolvimento, em 1992, no Rio de
Janeiro, a expressão foi palavra-chave. A importância dos documentos elaborados é o
reconhecimento que o modelo de desenvolvimento vigente é insustentável, principalmente
quando replicado para países em desenvolvimento. Como ponto negativo, esse conceito na
época não indicava como um modelo sustentável deveria ser. (Manzini, 2008, p. 22)

O designer, que sempre possuiu um papel estratégico na sociedade desenvolvimentista,


começaram a se engajar em causas sociais e ambientais a desenvolver teorias em torno da
sustentabilidade. Hoje, segundo Vezzoli e Manzini, o designer orientado à sustentabilidade
pode propor desde o “redesign ambiental do existente”, até a “proposta de novos cenários
que correspondam ao estilo de vida sustentável” (Manzini e Vezzoli, 2002). Em todas essas
abordagens, a responsabilidade do designer na sociedade pós-industrial prevalece e até
aumenta quando se trata de propostas circulares e sustentáveis, estendendo-se do projeto do
sistema de modo amplo ao comportamento das pessoas.

Novos caminhos
Não existem mais receitas formais capazes de equacionar os desafios da atualidade, afirma
Rafael Cardoso (2011, p. 17). Ainda que falemos em pós-modernidade como uma ruptura com
discursos centralizadores e desenvolvimentistas, a pós-modernidade não rompeu
completamente com essas ideias, mas os desenvolveu de forma flexível em escala global de
modo ainda mais intenso.

Algumas abordagens contemporâneas apontam para outro caminho cuja base é ética e
demanda de uma mudança de comportamento sistêmica para sanar esses problemas.
Segundo estes, não basta projetar produtos com materiais reciclados ou recicláveis.

Políticos e pesquisadores latino-americanos apontam como um dos caminhos o olhar para os


povos indígenas e campesinos inspirando-se no modo de viver integrado à natureza. O bem
viver é definido como uma visão holística e deseconomizada da vida social, constitui uma
alternativa ao desenvolvimento e representa uma resposta potencial às críticas substanciais do
pós-desenvolvimento (ESCOBAR, 2016, p. 169). É um processo de matriz comunitária de povos
que vivem em harmonia com a natureza. Para alcançar o bem viver é necessário superar esse
modelo de vida desenvolvimentista que coloca a economia e o humano em primeiro lugar e
reconhecer que o meio ambiente – todos os ecossistemas e seres vivos – possui um valor
intrínseco, ontológico, inclusive quando não tem qualquer utilidade para os humanos. (Acosta,
2016, p. 28). O conceito de bem viver foi inserido na última constituição do Equador
reconhecendo o meio ambiente como um ente. O bem conhecer é um movimento de base
participativa com o objetivo de tornar o conhecimento livre e acessível para todos, buscando
romper com a lógica a escassez intelectual e da mercantilização do conhecimento.

Na América Latina, a luta por autonomia não é apenas uma crítica à democracia formal e às
noções de auto-governo dentro do regime de estado, mas um intento de construir uma forma
de governo diferente ancorada na vida das pessoas, uma luta por libertação para além do
capitalismo e por um novo tipo de sociedade em harmonia com outros povos e culturas (p.
197).

No âmbito do design o antropólogo Arturo Escobar analisa como os designers podem


contruibuir para escapar desta armadilha do desenvolvimento a partir das teorias da transição.
O design para a transição é a associação dos discursos para transição com o design. Os
Discursos para a transição vêm ganhando força nos últimos anos e defendem que temos que ir
além dos limites institucionais e epistêmicos existentes se realmente queremos lutar por
mundos e práticas capazes de lograr transformações significativas. Esses discursos partem da
noção de que as crises ecológicas e sociais contemporâneas são inseparáveis do modelo social
dominante dos últimos séculos, categorizado como industrialismo, capitalismo, modernidade,
(neo) liberalismo, antropocentrismo, racionalismo, patriarcado, secularização ou, incluindo, a
civilização judaico-cristã (Escobar, 2016, p. 158-159). Nesse modelo, provavelmente, o
desenvolvimento seja o domínio social e político em que o paradigma do crescimento tenha
sido implantado com mais persistência, sendo um dos principais discursos e aparatos
institucionais que estruturam a insustentabilidade e a desfuturização (Escobar, 2016, p. 168).

Segundo teóricos da transição, vivemos um momento ainda não muito bem compreendido em
que nossa missão é reinventar o ser humano integrando-o com todos os sistemas vivos. Esse
lugar almejado não é algo que se pode chegar, mas que precisa ser criado por nós. Nesse
sentido, é a capacidade de imaginar e criar novos mundos que aproxima teorias e práticas de
design dos discursos de transição. Para se imaginar outros mundos a partir do design e preciso
primeiro imaginar outras formas de fazer design, visto que o design ainda está muito vinculado
ao modelo desenvolvimentista.

Referências
Acosta, A. O bem viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos. São Paulo:
Autonomia Literaria, Elefante, 2016.

CARDOSO, Rafael. Design para um mundo complexo. São Paulo: Cosac Naify, 2011.

ESCOBAR, Arturo. Autonomía y diseño. La realización de lo comunal. Popayán: Universidad del


Cauca. Sello Editorial, 2016.
HARVEY, David. Condição Pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural.
São Paulo: Edições Loyola, 2004.

HALL, Stuart. A Identidade Cultural na Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2004.

Manzini, Ezio. Design para inovação social e sustentabilidade. Rio de Janeiro: E-papers, 2008.

ONU. Declaração da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano.
Estocolmo, 1972.

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