Você está na página 1de 106

Estudos Históricos

Márcia Regina Berbel

Através desta "còleção, visa-se a dar .maior divulgação às mais A NAÇÃO COMO ARTEFATO
recentes pesquisas realizadas entre nós, nos domínios de Clio,
bem como, através de cuidadosas traduções, pôr ao alcance de DEPUTADOS DO BRASIL NAS
um maior público ledor as mais significativas produções'da CORTES PORTUGUESAS
historiografia mundial. No primeiro caso, já foram publicadas 1821-1822
várias teses universitárias, que vinham circulando em edições
mimeografadas; no segundo, traduções de autores como Pau
Mantoux e Manuel Moreno Fraginals. Entre uns e outros,-isto
é, entre a historiografia brasileira e a estrangeira, a cpleção
também procurará divulgar trabalhos de estrangeiros sobre o
•Brasil, Isto é, de "brasiliánistas", bérn como estudos brasileiros
mais abrangentes, que expressem a nossa visão de mundo. Em
outras etapas, projetam-se coletâneas de textos para o ensino
superior. A metodologia da história deverá ser devidamente
contemplada. Como se vê, o projetp é ambicioso/e se destina
não-apenas aos aprendizes e mestres, do ofício de historiador,
mas ao público cultivado em geral, que cada vez mais vai
sentindo a necessidade e importância dos estudos históricos.'
Nem poderia ser de outra forma: conhecer o passado é a única
maneira de.nos libertarmos dele, isto é, destruir os seus mitos.-

'; HUCITEC
> &-.

—; O
m
O
r,
•—' —9.
-. c
-^r — ^
r., — • —


H

^' Q
CL. P
p §•^y ltrto íns'
O
-:
aq
-^
Q £
O —
q r.
-> rjq
>
r. ^3 ^
Q. C X
r, <~-
^ n — — <"• r. r -
£ 9
- r- a 3. n
r, à &-

m
r, <~., 02
x r-
QC

r., c- — '•"•• n
D-
F:
D B:
C- r- í^
-o x
cH'

C
z
o
o
D-
t
i
ESTUDOS HISTÓRICOS

TÍTULOS UM CATÁLOGO
1'ortitçal c Brasil na Crisr do Antigo Siílema Colonial (1777-1S08), Fernanáo Novais
História c 'Iradiçõa <la Cidade ilc São Paula, limam Silva Bruno. 3 volumes
A C&ntíiçáe Feminina no Rio de Janeiro no Século XIX, Minam Moreira Leite
Metamorfoses da Riqueza — São Paulo. ]8'í_5-l<i95, Zélia Maria Cardoso de Mello
Trabalho, 1'roerfssaf> c a Sociedade Civilizada, Irnci Galvão Sal lês
Vieira c a Visão Trágica do Barroco, Luís Palacin,
A Conquista da Terra no Universo cia 1'ohrcza, I.uiza Rio.s Ricci Vclpato
A Rerolução Industrial no Século XVIll. Paul Mantoux
O €»geníx> (foi !), Manuel Moreno Fraginals
i
Cocheiros e Carroceiros (Homens Livres no Rio de Stttltereí c ha-rai-os), Ana Mana Ha Silva A NAÇÃO COMO ARTEFATO
Moura
Negro na RIM (A Nova Face da Escravidão), Mjrilene Rosa Nogueira da" Silva DEPUTADOS DO BRASIL NAS i
I'r?~Capita!isiHo i' Capitalismo (A Formação do Brasil Colonial). Sedi Hirimo CORTES PORTUGUESAS C
O Engenho (cols. U f III), Manuel Moreno Fraginals (1821-1822)
Raízes da Concentração Industrial cm São Paulo. Wilson Cano ff
Peregrinos,
*^ Monges
^ c Guerreiros: Fcitdo-Clcilcaliíino c Reliçiositliide
*^ em Castela Medieval,
Hilário Franco J ú n i o r
O Abastecimento da Capitania ilas Almas Ger.iii no Sèfaia AT///, Mafalda /.emella
A Borracha na Amazónia: hxf>amito e Decailcncia (1850-1920), líaib.iu \Vcinsrcin f
F.itrofta, !-ra>iça e Ceará: Origem do Capita! EsíMHgfirv no Brasil Henise Monteiro Takcya
A Siidí-fioidênda do Brasil, Carlos Guilherme Moca & Fernando Novais
C
A Espoa* de f),~ntt<if!i'í: u i:\erain, a Guerra ela Paraguai e a Crisi- do I"if:rriir, \X-'ilma Pcrcs
Cosia
A'i/ Bahia, Contra o Império: História dti Lusaio tle Sedição de 179$, István jancsó
1'iHii Cidade na Transição. Santas: I870-19Í3. Ana Lúcia Du.ircv Lana
t
MfnÂífK, Aíoífíjim e Vadios na líalna do Sécitlu XIX, \Vjher Fra«.i I-ilho €
C.olâniii i' Níitiaisnio: a História como "B&graji* il.-i Nação", Rogério Forasrierí da Silva
Portitg.il na Época da RtítatirtfMé, iiduardi! D*Oliveíra França
A Nora Atlântida de íipix c iMartiin: N&tuttt* f Civiuzafáo na Viagem fielo Brasil (1817-
1820), Karen Macknow Lisboi
Barrocas Fainilini (Viiia FtitnHiar cm Minai Gerais no Século XVlll), Luciano Ra pôs» de
Almeida Figueiredo
Uina República de Leitores: História r Memória na RfCfffÃe das Citriiis Chilenas (If!-í5-
19S9), Joaci Pereira Furtado
O Universo do Indistinto: listada c Sociedade nas Minas Sctemiiistas (1735-1808). Marco
Amónio Silveira
Estitelo e Agricultura no Hnisíl: 1'oliíicti Agrícola c Modcrmziiçao hconôniica Brasileira !9(>0-
1980, Wencesbu Gonçalves Neto
A Cit-nci.i ilos Trópicos; 'u Arte Médica no Brasil do Século XVIII, Márcia Moisés Ribeiro
A Mísera Sorte: a Escrr.uitLlo Afriaina no Brasil Holandês e -is Guerr.is do Tráfico no Atlântico
Sul, 1621'16<Í8, Pedro Puntoni
A Nação COMO Ailcfato: Deputados ;/n Brasil /;./! Cones Pertugufits (182J-ÍS22), iviárci;1.
Regina Bcrbel
Administração & Escravidão; Ideias sulm i g>.i!i~:u d:: afncukuta -.scrai^tr, èraíileirj, Rafael de
í t i v n r Marquese
MÁRCIA REGINA BERBEL

A NAÇÃO COMO ARTEFATO


DEPUTADOS DO BRASIL
NAS CORTES PORTUGUESAS
(1821-1822)

SBD-FFLCH-USP

Í404

EDITORA HUCITEC

São Pauto, 1999


f
© Direitos autorais, 1998, de Márcia Regina Bcrhcl. Direitos de publicado reservados pela
i
Editora Hudiec I.ida., Rvia Gil líanes, 713 - 04601-042 São Paulo, Brasil. Telefones: (011) €
240-9318, 542-0421 e 543-0653; vendas: (011)530-4532; fac-símilc: (011) 530-5938.
c-mail: hufítec&niíiidie.cow.br •
f
í-oi feito o Depósito Legal.
Í
Lditorjção elt-trõnica: Ouripedcs Gnllcnc e Rafael Vitzcl Corria. l
Ao Carlos Pugtiesi
em memória

C
f
DEDALUS - Acervo - FFLCH-HI i
c
f
21200043771 €

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (C.IP)


(Sandr.i Regina Virzcl Domineues)
B 427 Bcrbcl, Márcia Regina C
A nação como arccfato: deputados do Brasil nas cortes
portuguesas (1821-1822). / Márcia Regina Bcrbcl. - São Paulo : c
Hucitcc : I:apesp, 1999.
204 p. ; 21 cm. - (Estudos Históricos; 36}
«
Bibliografia: p. 198 i
I S B N 8S-271-0475-X

f•
CDD - 907.2098104
índice para catálogo sistemático:

1. Brasil : Hiiroriognifia (1821-1822) 907.2098104


SUMÁRIO

Agrudecimemos Il

Prefácio, ktvánjancw l3

Iniroduçáo 17

1. CONVOCAÇÃO DAS CORTES: UM APELO NACIONAL 3l

2. ADESÃO DO BRASIL AO APELO CONSTITUCIONAL 57

3. NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS 83

4. MERCADO INTEGRADO E O IMPÉRIO

í
FEDERATIVO DOS PAULISTAS 127

Pontes
Fontes primárias
Bibliografia
AGRADECIMENTOS

•;; teíjde doutorado que o r i g i n o u a preserue puhlicaçár Io: eblxinda ,v-,b


.1 orientação da Pror/Suely R::!;k--; Reis de Queiroz. Acta dv-v^>s.: r* sugestão di1
Lema, o ngor nu realização do trabalho e a generosidade aini n amaduv^c:-
mento da pesquisadora.
Ern Portugal, a Proí.- 1 Maria Helena Carvalho dos Santos orientou o:; cin-
co meses de pesquisa em arnuivns e bibliotecas de Lisboa, Coimbra e P<mu,
. .
além de aço nvpanha r as entrevistas co m n isto nado rcs portugueses.
A banca examinadora para a qualificação, composta pelos professores
isíván ÍLUICSÓ e Maria de Lourdcs Mónaco janotti, avaliou as considerações
bibliográficas que embasaram a pesquisa e incentivou a finalização do projelo.
Os proíessores Fernando António Novais, Maria cie Lourdes Viana L; r ra n
Cecília Helena L. de Salles Oliveira e Leila Mezan Algranti compuseram a 1
banca examinadora da tese. Foram leitores atentos c autores de importantes
sugestões, que esta versão final incorpora parcialmente.
Finulmente, os auxílios financeiros do CNPq e da Fape.jp íoram indispen-
sáveis para :\o d;i pesquisa no exterior e para esta publicação.
A iodos, nu us sinceros agradecimentos.
PREFACIO

JL historiografia brasileira tem tido dificuldade cm lidar com os aconteci-


?nentos que em Portugal se designam por vintismo e, deste lado do Atlântico, como
primórdios da Independência. No caso dos historiadores brasileiros, prevalece um
maldisfarçado estranhamento cm relação ao processo revolucionário que, de seu
epicentro nas punes europeias do Império bragantino, espraiou-se pela América e
resultou, ao fim e ao cabo, no rompimento político instituidor do Estado brasileiro.
Esse mal-estar de nossa historiografia diante de acontecimentos cuja importância é
paradoxalmente indiscutida, pode residir na dificuldade em integrar o caráter
amrraditório dos acontecimentos de então no aquém-mar. A Independência, desen-
lace de uma crise que se adensava desde o século antenor, tinha irrecusável conteúdo
renovador por romper com a velha ordem política do Antigo Regime português, mas
vinha dotada de uma outra face, esta socialmente conservadora. O incontrastado
empenho das elites brasileiras empresemar o escravismo comofwidamento da ordem
social e económica, substrato da instauração do Estado nacional brasileiro, colidia
com a arraigada visão alimentada pelas elites brasileiras de que a Independência foi
a coruamento de um n exemplar marcha da nação brasileira rumo <! liberdade.
A nossa historiografia levou muito tempo para admitir que n irajetória histórica
que resultou nos Estudo e nação brasileiros foi mc.is complexa e contraditória do que n
realização de um roteiro preestabelecido. Como acontece com todas as obras humanas,
a construção desse Estado, e da nação que cm seu interior tomou forma, implicou um
processo social de ensaio e erro, de confrontações e negociações, de acumulação de
experiência política que permitiu a. formulei ç ao de alternativas para r/íjismtu quo
cuja. legitimidade e operacionalidade perdiam vigência. A Independência não foi o
estuário natural de um longo amadurecimento. Fundindo temporalidades distintas.
H PREFÁCIO PREFACIO 15
cm seu interior a permanência residia onde a historiografia forcejava em ver mudan- dificuldade em perceber que sob os discursos do Brasil, em alguns casos dotados de
ça, c esta mudança despontava onde a ênfase centrava-se na permanência. incontestável coerência doutrinária, repousai/a um pragmatismo de senhores de
A Independência foi a resultante de unta crise profunda, cuja abrangência escravos para os quais a dialética das temporalidades era inexoravelmente subordina-
ultrapassava os limites desta América então no seu conjunto convulsionada. O da às exigências de sua sobrevivência como classe. Vem daí que o confronto entre
Império braganúno estava envolvido peias Unhas deforça de transformações que lhe portugueses c americanos acaba por se explicitar JM iiredntibdidade dos fundamentos
tmnsée'nd'!ám"'sob'i'e as quais linha poucas possibilidades de influir, mas às quais constitutivos da nação que se reunira, através de seus representantes, a darfonna ao
reagia de modo especifico, peculiar, e multifaceíado na medula exara de sua diversida- Estado. Para os portugueses da Europa, a nação é resultante de uma trajetória secular.
de interna. Na Europa oit nos diversos quadrantes da América, os homem buscavam Para os da. A méríca, ela constituir-se-á mediante o pacto político a ser celebrado, pelo
alternativas para a crise que cru geral, do Aniígo Regime, mas que impunha solncfiet que o seu tempo é futuro. Qiianto a esse ponto não há acordo possível, nem sequer no
para problemas que estivessem ao s f n -alcance resolver. E em mau aos diversos ensaios de plano da retórica. Mas não é nesse terreno (e todos sabiam disso) que se decidem
soliícão, josscm defeição conservadora, reformista ou revolucionária, a Revolução problemas político dessa magnitude, e o estudo que temos em mãos c revelador quanto
Constititcíonalista, e a-; Cortes que t:n; sun ateint >:' tnsíti&tratn em Lisboa, polariza - a isso. O impasse que se desenhava desfez-se no terreno da confrontação direta, no
/'.'?/;t por i/fi> rfi(ur>t-,i!f> iis miíltifuís alternativas vcnoi^iaemc vestadas are entílo, recurso aos instrumentos deforça e, no que diz respeito ao Brasil, independentemente
conji'rtndo'1'icí /.w/; esitiiido: a de btííes paraa bnscn 'Ia //YJÍV* ;/;?/;.r;- política d-.i do que acontecia nas Cortes de Lisboa. Desde então, para os brasileiros, estas já se
diversidade do Império. tornaram história antes de encerrados seus trabalhos, património efardo de uma
t. irretiuÁivl n hipótese de (pte uma das dificuldades diilintoriogrojiii brasileira memória coma qual é preciso aprendera lidar.
diante dessefaio t-si-j era que, anos o rompimento ar,,i FertugaL as Cones d- !82.i Istvánjancsó
passaram a ser nuas coma expressão da vontade da nação portuguesa, paradigma mi
fjiiril. ande então, n -nação brasileira sfreftfíirta para perceber-se npecíficti, diferente
dela r ae todas ai ouirtu nações, no inei>itãvtl tnovifíieuto reflexo inerente u construção
das iaefttidadn políticas coletunis, e em especial das dí tipo naaomil.
O grande mérito deste estudo d.e Márcia Berbel mide justamente em assitDiir t-m
ponto di-luimda qne procura reduzir a r/iteiferênchi di ssc fiú-conceito historiografia!
(jiie Jez ctnn que u.< estudos relevantes sobre a participarão brasileira nas Cortes
ConstitucJonalistas fossem de lavra de historiadores portugueses, eles também, em
escala diversa, contagiados pelo viés nacional do seu diálogo com o passado. Dcbru-
cando-se sobre o Diário das Cortes, sun fonteprejerencial, n autora busca, para além
de culpados pelo rompimento de um edifício político secular —- o Império, o nexo dos
interesses subjacentes às alteniativas de rc-ordcnamento de um corpopoliticcf dilacera-
do. Acompanhando as laias dos deputados que representavam, no ponto de partida,
fnicões da nação portuguesa que habitavam as províncias do Reino do Brasil, propõe-
se a desvendar a sinuosa e cambiante trajetúrnt dos embates políticos parlamentares
que se percebiam, com o seu avançar, referidas, bem mais que à nação portuguesa no
seu iodo, a particulares realidades americanas, contrastantes com as que injormavam
os objetivos de seus pares europeus. Reconsti-uindo n ptmlMimi percepção das diferenças
e, na esteira destas, de sua hierarquização e ordenamento mediante critérios políticos,
ssu estudo toina a forma de sumário das opções políticas engendradas no âmbito da
diversidade brasileira, cada qual esboçada como resposta para n crise que, esta sim,
reconhecida com geral. Esse ordenamento de perspectivas defutura, tendo Lisboa por
cenário, e revelando-se cm antagonismos, confrontações e deslocamentos de alianças,
encerrava significados quase impenetráveis para os liberais lusitanos, que tinham
Introdução

IN acão,
acã nacionalismo e identidade nacional passaram a ser temas
importantes para historiadores de diversos países. E possível identificar uma
preocupação acentuada com as "questões nacionais", notadamente desde os anos
70. isso não quer dizer, porém, que elas tenham se transformado em problemas
de um passado distante. Os diversos impasses do mundo contemporâneo relati-
vos às definições nacionais e à reestruturação dos Estados impuseram as indaga-

• coes sobre a história das realidades nacionais.


Essas preocupações parecem evidentes para quem se ocupa da história do

fr Leste Europeu, da África, ou da Ásia e lançaram novas pistas para a compreensão


da história da Europa Ocidental. Mas em que medida são importantes para a
compreensão do Brasil, como Estado e como nação? Essa Foi a pergunta que
motivou a leitura dos discursos feitos pelos deputados do Brasil nas Cortes
Constituintes de Lisboa em 1821 e 1822.
¥ Às vésperas da proclamação de um Estado independente no Brasil, quarenta
é cinco parlamentares eleitos nas diversas regiões brasileiras rcuníram-se a outros
cem, eleitos cm Portugal, para "constituíra nação portuguesa". Reunidos em
Corres, os representantes da antiga sede metropolitana e de suas colónias piv.
f curaram juntos as fórmulas para a reorganização do Estado português. Os dis-
cursos registrados no Diário aos Cortes Constituintes expressam os dilemas dessa
empreitada.
A palavra nação foi utilizada com frequência por todos os deputados prescn-
ccs cm Lisboa. Aparece, porém, carregada de significados diferentes confor-
me quem a utiliza. Optamos, então, por analisar os discursos e explorar essas di-
ferenças.
18 INTRODUÇÃO INTRODUÇÃO 19

No entanto, apesar das disparidades notadas, nação aparece, em todos os ao ano de 1884 na Península Ibérica a primeira utilização da palavra no sentido
casos, associada à ideia de soberania. Por isso, será aqui entendida como conceito de "uni Estado ou corpo político que reconhece um centro supremo de governo
político, definidor da soberania de um Estado perante outros Estados e, no seu comum" e do "território constituído por esse Estado e seus habitantes, conside-
âmbito, como delimitador da soberania interna. rados como um todo"1. Até então, a palavra significava, simplesmente, "o
A finalidade da análise aqui apresentada é, então, apreender os sentidos agregado de habitantes de uma província, de um país nu de um reino".
conferidos ao conceito político utilizado pelos participantes das Cortes liberais Para Hobsbawm, ''as ilações nSo-torrnarrr ws-Escudos e os nacionalismos, mas
portuguesas para transferir o poder do listado, fonte de sua soberania, do rei para sim o oposto"í:. Os nacionalismos são, portanto, anteriores à formação dos
a nação. Nesse sentido, foi necessário observar a associação do conceito às diversas Estados nacionais e à nação como corpo político.
propostas que visavam à organização polítíco-administrativa do Estado. Não se Tais considerações nos levam a pensar que, r.o período imediatamente poste-
pretende, portanto, chegar às implicações culturais, antropológicas ou econó- rior à Revolucfio Francesa, :is diversas cjuc-cpçóes du-soberania nacional eram,
micas às quais o termo unção frequentemente remete. ainda, nroietos políticos. Expressões tle nacionalismo são verificáveis nos movi-
E necessário ressaltar, porém, que a proposição da soberania e seu sentido rneníns ao início do século em oposição -\ ruem tio Con^rcsw de Viena, rncsrno
político são apreciados mesmo em estudos culturais sobre as nações. Benedict em Pcmuíiai d'.1 l 820 (comi; n?. E^iijrui ou n;i Grécia), mas aí nacõc,-; aincU
Andcrson, adotando um "espírito antropológico", propõe a seguinte definição
para nação: "uma comunidade política imaginada — e imaginada como implici- As rei v indicações liberais verificadas no inicio do século XIX clamavam
tamente limitada e soberana" 1 . Além disso, o autor condiciona esse tipo de nela soberania nacional como p r i n c í p i o legiliniador dos Estados europeus.
imaginação a determinado período histórico: "é imaginada como soberana, Messe remido, contrapunham-sc o.<; p r i n c í p i o dehnido cm Viena par;, a
porque o conceito nasceu numa época em que o llummismo e a Revolução definição da.s fronteiras: o cb legitimidade d i n ú s ú c n . A nação, u i u e n à i i i a
estavam destruindo a legitimidade do reino dinástico hierárquico, divinamente corno fonte de soberania, aparecia com;; pi\ij=.'ío indefinido qiu:só seconcr.:-
instituído" 2 . i!7.aria comei princípio da relação entre .;.s Escudos nu final do século.
Como base para a soberania dos Estados c corno íonte da soberania interna, o Apoiando-se no trabalho de Gellner , Hobsbawm assoem a realidade nacio-
significado de nação foi potencializado pela Revolução Francesa, segundo os nal às transformações político-socíais e técnicas da Revolução industrial: "As
estudos franceses mais recentes, amalgamando três sentidos: "[...] o sentido nações existem não apenas como funções de um. tipo narucuLir de Estado
social, um corpo de cidadãos iguais diante da lei; o sentido jurídico, o poder territorial ou da aspiração em assim se estabelecer, como também no contexto de
constituinte com relação ao poder constituído; o sentido histórico, uma coletivi- um estágio particular de desenvolvimento económico <j tecnológico"*. Depen-
dade de homens unidos pela continuidade, por um passado e um futuro" 3 . dem da padronização das línguas que emergi, cora a imprensa e a alfabetização
A Revolução procurava transferir o podcrsoberano do rei para a nação, mas em massa, além da uniformização técnica e administrativa resultante da Revolu-
não constituiu a soberania nacional de uma única forma. No interior do processo ção Industrial.
revolucionário conviveram as concepções do constitucionalismo parlamentar e a Pode-se assim pensar em nacionalismo ou Estado centralizado em Portugal
soberania nacional como fonte e limite do poder do monarca, a soberania de 1820; a nação, porém, era projeto político e, como o liberalismo, não era
popular dircta da teoria de Rousseau e a inspirada nas teorias fisiocratas, como unívoca. A industrialização não fora um processo que organizasse a sociedade
racionalização dos interesses sociais'1. portuguesa durante as primeiras décadas do século X!X; agia sobre ela porque
O trabalho de Eric Hobsbawm é fundamental para precisar a utilização do interferia nas relações entre Estados.
terrno no início do século XIX. Ressaltando que a realidade nacional é extrema- Os pró je tos do vmtismo (o pensamento político d u movimento de 1820),
mente recente e dissociando-a de qualquer traço ou sentido não histórico, remete porém, entre outras coisas, propunham a uniformização administrativa a escola-

1 Andcrson, Bcncdicc. Napio c consciência nacional. São Paulo: Ática, 1989, p. 14. Hobsbawm, E. j. Nações r vaciomlisMo dc>dc 1780 - firo^r
1 líicru, ilidem, p. 15. Janeiro: Pn?. e Terra, 1990, p. 27.
} Nora, Picrrc. Nação. In: Furct, François (org.) Dicionário crítico da Revolnç.lo frauccsr. Jilcm, Ihiihii, p. 19.
Paris: Flammarion. 19SS. p. 803. Gclliier, Eniest. Nações f nacionatisuio. Lisboa: Gradiva, 1983, [>. 37-64.
4 Baker, Kcitli Micluel. Sobcranin. In: Furct. Or>. cit., p 887. Hobsbawm. Oji. cit., p. 19.
20 INTRODUÇÃO INTRODUÇÃO 21

rização em massa, ampliaram aatuação cia imprensa, modificaram a língua último, as implicações do vintísmo têm merecido especial atenção dos historiado-
portuguesa. Como projecos liberais e nacionalistas, prcccndiam integrar-se nos res portugueses, vários dos quais o consideram como o momento inicia! do
novos tempos e adiantavam propostas para formação c integração nacionais, já liberalismo em Portugal, sinalizando suas contradições e características específi-
cm território brasileiro, ou na atuação de seus representantes nas Cortes de 1821 cas. Em decorrência dessa perspectiva, diversos trabalhos retomam a ação dos
e 1822, os pró j cios nacionais teriam sentido diverso e não expressariam um deputados lusos nas Cortes para a avaliação do pensamento liberal.
sentimento nacionalista. No Brasil, o processo de mudanças iniciado com a revolução do Porto de
1820 não mereceu abordagem específica, constituindo-se em um capítulo da
Os deputados do Brasil: abordagens portuguesas e brasileiras história da Independência. As repercussões do movimento revolucionário e a
ação dos deputados aparecem como passos na direção da separação dos dois
Poucos trabalhos ocuparam-se da análise dos discursos dos deputados do Brasil reinos. Permanece, assim, a perplexidade diante da adesão da maior parte
em 1821 /22. Por isso, o* texto de Gomes de Carvalho, publicado pela primeira vez. dos representantes do Brasil a um texto constitucional elaborado na sede da
em 1912, no Porto'', continua sendo a referência mais conhecida. antiga metrópole.
No Brasil ern 1972 dois artigos retomaram o assunto 10 e outros poucos Há, portanto, pouca aproximação entre as interpretações feitas em Portugal e
dedicaram-se a análises de bancadas regionais. A Revista do Instituto Histórico e
C*
no Brasil. Pode-se pensar que, partindo de referenciais constituídos no século
Geográfico Brasileiro publicou alguns textos que auxiliam a compreensão dos XIX, logo após a dissociação dos dois reinos da monarquia portuguesa, a separa-
episódios de 1820, mas não há um único que se dedique ao conjunto dos ção das histórias dos dois países fez parte do esforço para a afirmação das duas
deputados do Brasil. Da mesma forma, os diversos dicionários biográficos são nacionalidades e que os acontecimentos do período em questão, por se situarem
parcos em informações sobre os parlamentares. Os que aí figuram, devem-no no limiar do desligamento, adquiriram o significado de divisor de águas.
em geral, às suas atividades no período posterior e a atuação em Lisboa é relaia- Em função dessa hipótese, é cabível separar as considerações sobre as duas
da em poucas linhas. produções, muito embora nos limitemos u analisar apenas algumas das dispa-
Em Portugal, excetuando-se o trabalho de Valem i m Alexandre", datado de ridades notadas.
1993 e a ser analisado mais à frente ncsia introdução, as recentes pesquisas No Brasil, as primeiras e mais importantes abordagens do processo da Inde-
não privilegiam a participação desses deputados, concentrando suas atenções pendência são encontradas ainda no século XIX c início do século XX, nos
nos representantes lusos. trabalhos de João Armitage, Francisco Adolfo Varnhagen e Manuel de Oliveira
Nos dois países, a maior parte das referências aos deputados das Cortes Lima12.
cncontra-se no interior de dois temas mais amplos: a revolução de l 820 em Apesar das enormes diferenças entre esses autores, suas versões cem em
Portugal e a Independência no Brasil. A primeira conclusão importante da comum um aspecto significativo: buscavam ressaltar a importância da Monar-
consulta a esses trabalhos é a constatação do descompasso entre as produções quia e da dinastia de Bragança para a consolidação do império brasileiro. Restrin-
brasileira e portuguesa, quando se trata dos deputados das Cortes inseridos nos giram suas análises às políticas adotadas pelo rei e seus ministros e aos conflitos no
dois temas apontados. seio da família real. Preocupados ern justificara unidade do Estado brasileiro,
Em Portugal, a Revolução constitui-sc em verdadeira área de escudos, tanto expressaram na preferência por D.João VI, D. Pedro ou urn dos ministros, o
para a história económica quanto paraadu pensamento político. Em relação ao modelo adequado à organização do Estado.
Para esses três autores, as Corres formadas a partir da Revolução de 1820
estabeleceram erradamente uma política opressora em relação ao reino do Brasil.
11 Carvalho, M. E. Gomes de. Os deputedot brasileiros ?i.i Cot ta Gemes t L- 182]. Foriu: Esse teria sido o motivo da insatisfação que levou à ruptura, encabeçada por
Uvraria Cliardron-Lello & irmão, 1912.
D. Pedro, segundo Varnhagen e Armimge, ou já semeada por D. João V I , de
11 Thomaz. Fernando. Brasileiros nas Cortes Consrímintes de 1821-1822. Li: MOC.Í,
Carlos Guilherme. !S22 — tfimensStí. São Paulo: Perspectiva 1972; -j f-aoro, Raymun-
do. A revolução consiiciicionalisn de 1820 - a representarão brasileira às cor ECS gerais. 1J Armitagi;, João. Hisióriíi c/y lirasil rleselr u yvivV/f edi chegada éa família de Bragança cm
In: Monccllo, Josué (cm;.}. Hntòria da Indcpcndênria do Brasit Rio de Janeiro: A Casa ÍSOS até r. xbekfaçSo cie D. P^dro l t m 1831. Rio de Janeiro: Eugênio Egas c GarcÍJ
do Livro, 1972, v. 1. Júnior, 1943; Varnhagen, Francisco Adolfo. História da Independência, RIHGtt,
1 Alexandre, Valciidm, Os sentidas tto Império — (jticsttw nndonai t questão caluniai na ciise 1916 e Lima, Manuel de Oliveira. D. Jotw VI no Brasil. Rio iíc Janeiro: José Olímpio,
IÍQ Antigo Regime português. Porto: Edições Acraniamenco, 1993. 1945.
22 INTRODUÇÃO 23

acordo com Oliveira Lima. De qualquer forma, a ação do rei ou do príncipe nas províncias ele atribui caráter de "grandes movimentos de massas". As "for-
teria sido fundamental para a Independência. ças populares", então, seriam agentes do processo analisado e não mais os in-
Referindo-scà política das Cortes quanto ao Brasil, diz, Armitage: "Não se tegrantes da família real ou os seus assessores.
podia negar que se guiavam por intenções patrióticas, mas infelizmente seu No entanto, também para Caio Prado a política colonialista das Cortes foi
patriotismo tomava direcão.muito.exciusiva [...] quando se tratava dos negócios determinante para a Independência. Em sua opinião, as "forças reacionanas" no
do Brasil, assuas disposições eram ião aristocráticas, quanto sobre outros tópicos Brasil, que queriam o retorno ao estatuto colonial, contavam com o apoio do
eram democráticas" 13 . Congresso de Lisboa. Foram vencidas, no entanto, já que não era mais possível
Varnhagen atribui a um dos decreros das Cortes o início do processo de fazer o Brasil voltar "na marcha da história; a isto se opunha o conjunto do
Independência: " l odus as moderadas tendências da parte dos brasileiros país"17. Essa marcha refere-se às transformações ocorridas depois da transferên-
mudaram de repente, com a chegada especialmente do decreto para retirada cia da Corte e da abertura dos portos, e D. João VI, responsável por tais mudan-
do príncipe acompanhado logo do pronto proposto acerca da supressão dos ças, é classificado como "instrumento inconsciente da autonomia nacional"1".
tribunais. De um dia par:1 curro, viu-se exíraoidinariainentc alentada a peque- " O autor inaugura, então, uma outra forma de expressar a reação à política
na minoria dos clubes que ousara acenar r ri o cedo com a Independência" 1 : ; do Congresso de Lisboa, a qual teria ocorrido a partir do "conjunto do país" e
Já Oliveira Lima cr.níeru sentido colonialista '.-. política das Cortes: '"Tornava- levaria à "autonomia nacional". Aparece aí a ideia da Independência como
se preciso vingar a njvdurão liberal para que sv pensasse a sério na reconstru- revolução feita pela nação.
ção do derrubado edifício económico, mvocando-su o princípio de que num Tal vertente talvez encontre em José Honório Rodrigues seu maior reforço.
Para ele, "nenhuma guerra de independência, em toda a América, mesmo a
governo a colónia níir: pr-rl': ser livremente irarada ou se não acha exclusiva-
mente à mercê do sob;-r. vi o, CO:ÍSCÍÍUÍÍKÍO propriedade comum da nação, so- norte-amencana, mobilizou tantos homens quanto a independência do Brasil".
bre a quaí exerce iii;v;r-:r <• po.-;sui vo- ariva: mais ainda, pois, como era c ca- Diante desta "guerra", ele redimensiona o lugar da própria Revolução portugue-
so, as Cortes persomhcrYUvi el.is sós asoberania nacional"'"'. sa iie Í 820 e das Cortes de 1821 e 1822: "O movimento militar vitorioso no
Porto, em 24 de agosto de 1820, não rói uma revolução [...]. Foi um golpe da
Poderíamos enunic-rar vários .seguidores dessa vertente cm períodos mais
burguesia portuguesa, promovido por negociantes fomentados pela maçonaria e
reciriKcs. Autores coir-o i chias Monteiro c Otávio Tarqiiínío de Sousa, por
exemplo, têm as mesmas interpretações quanto aos agentes históricos da pelas ideias liberais. Como toda rebelião liberal, foi contraditória em si mesma,
liberal, antiabsolutista e contra-revolucionária pela feição colonialista em re-
independência, pois ambos atribuem à ação do príncipe regente o sucesso da
monarquia no Brasil e mamem a análise sobre a atuação das Corres. Para o lação ao Brasil .
primeiro, nas Bases da Constituição portuguesa já se observavam intenções Pode-se notar que os autores mencionados divergem quanto aos agentes
recolonizadoras bastante claras e, conforme o segundo, o liberalismo acanhado históricos da Independência, mas todos atribuem ás Cortes de Lisboa papel
das Cortes portuguesas justifica a sua intransigência para com o Brasil"'. semelhante durante o período. Sua política "opressora" ou "colonialista" é o
A primeira crítica mais contundente à ideia de que a independência resultara motor das insatisfações que levaram à separação entre Brasil e Portugal.
Dos trabalhos apontados, somente nos de Varnhagen e José Honório Rodri-
da ação dos quadros da Monarquia íoi feita por Caio Prado Jr., já cm Evolução Polí-
gues encontramos análises mais detidas sobre a atuação dos deputados do Brasil.
tica do Brasil, de 1933. Ern sua visão, como consequência do movimento de 1820
Varnhagen ressalta a insuficiência da representação do Brasil, minoritária dentro
em Portugal, dcscncadcou-se no Brasil uma "insurreição" que fazia vir à tona as
insatisfações da sociedade colonial. Aos movimentos de adesão às Cortes do Congresso, para resistir aos decretos opressores aprovados pela maioria.
Também José Honório rcferc-se à "debilidade e insucesso" da representação
brasileira na defesa da "causa nacional" e classifica os deputados de acordo com a
posição adorada diante dessa suposta causa. São "traidores" os que não a defende-
Armitai;e. Of. clí., p. 61.
Varnhagen. Of. cit., p. 137.
Uma, Op. cit., p. 1056.
17 Prado júnior, C.iio. Evolução política du iirasil. São Paulo: Brasiliensc, 1972, p. <i2-7.
Ver Monteiro, Tobias. História do império; elaboração da Independência. Belo Horizon-
K Idein, ibhtem.
te/São Paulo: Itatiaia/Edusp, 1981, p. 237 c 298; Souza, Ocávio Tarquínio. Historia chi
19 Rodrigues, José Honório. Independência; rcvohtç.w e contra-rcvolitçáo — a jiolitifii
fundadores do Império, v. II, n vida de D. Pedro L RJo tie Janeiro: José Oiympio, 1960,
internacional. São Paulo: Perspectiva, 1972, p. 234-5.
p. 138-47.
INTRODUÇÃO 25
24 INTRODUÇÃO
resultado, o desligamento político de Portugal evidenciaria as redes de interesse
ram e verdadeiros heróis os que saíram cm sua defesa. Embora com preocupa- formadas anteriormente: "este sistema de produção possui duas partes comple-
ções opostas quanto aos agentes da Independência, ambos os autores desta- mentares, submetidas ao controle lusitano: azonasul-amcricanadc produção
cam portanto a existência de uma unidade de interesses no Brasil a ser de- agrícola e as zonas africanas de tráfico de escravos. Em consequência, em vez de
fendida c a fragilidade da representação brasileira nas Cortes para fazê-lo. circunscrever o espaço económico brasileiro às suas fronteiras americanas, a
Vários outros historiadores também trataram desse período e, muito embora independência do Brasil provoca na África poderosos movimentos centrípetos
não se tenham ocupado cios parlamentares do Brasil, referiram-se ao processo de que visam integrar as zonas de exportação de escravos ao Império"2-1.
Independência. Alguns deles levam à interpretação de que é inviável a vincula- Segundo esse último autor, os interesses ligados ao tráfico e à manutenção
çao de tini sentimento nacional aos episódios do início do século XIX, fosse por da escravidão foram fundamentais para a conservação da unidade do Império,
motivos de ordem económica, fosse em razão da organização social e política. E aí impedindo a concorrência entre as regiões para a obtenção da mão-de-obra.
encontramos várias referências importantes para a formulação do nosso objeto. Mais que isso, para as oligarquias regionais o poder central a ser formado
Destacaremos, então, os trabalhos de Sérgio Buarque de Holanda, Maria deveria garantir dois objetivos complementares: "de um lado, [...] concluir
QdiU L. da Silva Dias e Luiz Felipe de Alencastro com o intuito de ressaltara acordos comerciais necessários ao bom funcionamento do comércio lícito, as
diversidade do Brasil, bem como a inexistência de uma oposição entre "brasi- trocas de mercadorias corn os Estados Unidos e a Europa. De outro, [...]
leiros" e "portugueses" durante o período analisado. garantir a continuação do comércio que se tornou ilícito, as importações de
Para Sérgio Buarque de Holanda, "no Brasii, as duas aspirações (a da indepen- escravos africanos" 2 ' 1 . No entanto, essa "vontade de viver juntas" das elites
dência e a da unidade) não nascem juntas e, por longo tempo ainda, não regionais do Brasil teria sido proclamada no período posterior ao aqui ana-
caminham de mãos dadas. As sublevações e as conjuras nativistas são invariavel- lisado, quando a unidade da monarquia portuguesa se mostrou inviável.
mente manifestações desconexas da antipatia que, desde o século XVI, opõe Em Portugal, podemos traçar percurso semelhante percorrido pelos analis-
muitas vezes o português da Europa c o do Novo Mundo" 21 . As indisposições tas do período. Também desde o século XIX, a Revolução de 1820 e a indepen-
entre esses dois tipos de portugueses aparecem como conflitos entre "súditos de dência do Brasil são temas relevantes para os historiadores daquele país.
um mesmo rei, filhos de uma só pátria". As interpretações de José d'Arriaga e de Oliveira Martins formam as
Maria Odila Silva Dias, por sua vez, ressalta a particularidade dos conflitos principais vertentes explicativas do século passado. Porém, estão cm campos
inter-regionais no período, ao se referir à transferência da Corte portuguesa opostos no que diz respeito ao vintismo: o primeiro é seu defensor e o
em l SOS: "Como metrópole interiorizada, a Corte do Rio de Janeiro lançou segundo critica o liberalismo, ressaltando os aspectos negativos dos trabalhos
fundamentos do novo império português chamando a si o controle e a explora- das Cones2'.
ção das outras 'colónias' do continente, como a Bahia e o Nordeste. Não obs- A obra clássica de José d'Arriaga sobre a Revolução de 1820 também
tante a elevação do Reino Unido, o surro de reformas que marca o período atribuí an príncipe regente do Brasil a responsabilidade pela separação dos
joanino visa à reorganização da metrópole na colónia e equivale, de resto, no remos. Refere-se a ele como ''perjuro e traidor da pátria", aquele que, "no
que diz respeito às demais capícanias, apenas a um recrudesci mento dos proces- seu ódio à liberdade e à democracia, resolve derribar as cortes de Lisboa,
sos de colonização portuguesa do século anterior"". para que o absolutismo, cuja bandeira se levantava de novo em Portugal, n
Por fim, Luiz Felipe de Alencastro destaca a inexistência de um contorno auxiliasse nos seus planos líberticidas no Brasil" 26 . O autor rererc-se, então,
brasileiro no período da independência, referindo-se às ligações económicas.
Durante o século anterior, nos domínios portugueses, as diversas regiões bi asílei-
ras teriam soldado vínculos complementares mais sólidos com as áreas africanas
lA K-i !(_:!• no. : uii í-iíiijv- /.. <.-'>in'ii->-f'? .-/:.' "i '.',;wiVí; ti\itic í/XWiíw.r f r "i}ax Lusitatiii' tliíttí
dedicadas ao tráfico de escravos do que entre si ou com a metrópole. Como l'At!,u:iiqiii- iW_ T L-si- iic liomoranicnti-j f i T i Hisiórui sob ,! orientação do Pn>f. FrcJéric
Mauro. Uíiiverslti.' i!c Pní-i/X. Í985-S6. \: III, cap. XII.
"' Itlrm, ilndím.
'' Arriaga, Jc<sO D . HatiitL' ,;./ Rriipiiifií-j Farlttgjifsti >!•: l S 20, v. 3- Potro: Livraria
Holanda, Sérgio Buarque. A herança colonial, sua d es a gradação. In: O Brasil monárqui-
Í'oí;i!un>:.:, l í i K h . ;;. "h.- : M;mijib. Oliveira, 'ríh'.ôr>,a -'.t l't>rt;t».ií, \. II. Lisbox
co. O processo cie emancipação. História geral cia civilização brasileira. São Paulo: Difcl,
1964, v. II, p. 9. Publicações Europj AmJrKs, 19W.
Dias, Maria Odila. A intcriorizaçáo da metrópole (1808-1853). In: Moca, C. G. 1822 •' Arrlaga, Oj>, aí., p '*0i>.
— Dimensões. São Paulo: Perspectiva, 1972.
26 INTRODUÇÃO INTRODUÇÃO 27

aos deputados do Brasil de forma diferenciada. Os do "Sul" são considera- Essa ação unificadora da burguesia — continua ele — chocava-se, no entan-
dos emissários de D. Pedro para a discórdia com os do "Norte", represen- to, com os interesses do Brasil e com os seus representantes em Lisboa. Fora
tantes das juntas liberais e defensores das Cortes. Já Oliveira Martins identi- derrotada durante o processo revolucionário, pois Portugal não conseguiu
fica na incompetência das Cortes, "imbuídas nas quimeras jacobinas que a manter o mercado colonial. Essa perda, na opinião de Piteira Santos e tam-
invasão francesa propagara em Portugal", a responsabilidade pela perda do bém de Soares de Azevedo, teria feito recrudescer a crise do reino europeu c
Império no Brasil. As ideias que moviam os trabalhos parlamentares, segundo ele, provocado a reação antilibcral de 1823-
eram "inteiramente inadequadas ao país". Qualífi-ca, então, as medidas adoçadas Outra vertente contemporânea importante é a representada por J. S. da Silva
em 1821 e 1822 como ridículas: "os quatorze distritos, cm que a colónia estava Dias c Míriam Halpcrn Pereira. Ambos referem-se ao vincismo como expressão
dividida, seriam outras tantas colónias; e esperavam as Cortes que a destruição da de um "amálgama de classes". Diz o primeiro: "Há erro manifesto quando se
unidade e a volta de D. Pedro para o reino, formalmente exigida, permitiriam escreve que o pronunciamento de 24 de agosto de l 820 e as movimentações
restabelecer pouco a pouco o antigo Estado. [...]. Os decretos das Cortes [setem- subsequentes em todo o país íoram uma revolução liberal da burguesia. Na
bro e outubro de 1821] eram arrogantes: os seus atos, porém, eram nenbuns, realidade, foram a expressão da coalizão de descontentamentos generalizados aos
nem força tinham para serem alguma coisa"2 . diversos núcleos sociais da população. Nas cúpulas portuenses [...] os fidalgos
No século XX, surgem autores que lançam críticas sobre os anteriores. formavam lado a lado com os burgueses, as profissões liberais com o a!to
Uma das vertentes de análise a ser destacada é a que define os acontecimen- funcionalismo, a esquerda com a direita"30.
tos de 1820 como parte de uma "revolução burguesa". Nesta linba, escão Partindo do mesmo pressuposto, Míriam Halpern aponta, ainda, as con-
J u l i ã o Soares de Azevedo e Fernando Piteira Santos' 8 , para os quais as tradições entre a burguesia portuguesa e os deputados envolvidos na reorga-
propostas institucionais vistas nas Cortes representavam os interesses da nização do Estado, criticando as concepções de Julião Soares e Piteira Santos:
burguesia, que buscava se afirmar para ''a destruição da ordem feudal" e a "Gerou-se com base naqueles trabalhos uma visão harmoniosa, um tanto
superação da crise económica vivida por Portugal. Como episódios de uma idílica, acerca da relação entre Estado liberal e burguesia comercial. A realida-
revolução burguesa, os acontecimentos que marcaram os anos de 1820 a de foi um pouco diversa. Indiscutivelmente, a burguesia comercial consti-
l 822 expressariam a busca pela união da sociedade portuguesa sob a égide tuiu um dos principais alicerces sociais do poder político vintista, senão o
da burguesia. mais sólido.
Nesse sentido, Piteira Santos explica a atitude dos constituintes de Portugal Essa aliança não foi, porém, o resultado do encontro de opções ideológi-
quanto ao Brasil: "Não é verdade que a Revolução de 1820, que pretende cas inteiramente coincidentes, nem de simples correspondência entre inte-
libertar Portugal de uma situação 'colonial' (a de estar cm risco de se converter resses do Estado liberal e do corpo comercial. Foi gerada a partir de compro-
numa colónia inglesa e de ser já, pela presença do monarca c da corte no Brasil, missos, nem sempre fáceis de estabelecer. E nem todos os pontos de atrito
'colónia de uma colónia'), porfia em reduzir o Brasil à condição de colónia? Não foram absorvidos"31.
há aqui contradição quanto aos objenvos dos revolucionários vintistas: a burgue- Essa interpretação associa-se a diversos outros estudos sobre o pensamento
sia comercial quer dominar o Brasil como mercado, dele fazer uma extensão do político de 1820. Ressaltando a diversidade social do processo revolucionário c as
'mercado nacional'. Todos os privilégios ou condições particulares que impeçam suas contradições corn os depurados das Cortes, procura-se explorar as nuanças
a circulação das mercadorias ou afastem o burguês da dírcção dos negócios do pensamento liberal no período.
públicos serão objeto da sua hostilidade. E a luta pela liberdade económica, pelo Aparecem, então, várias biografias dos depurados de Portugal nas Cortes,
poder político, pela afirmação social da classe burguesa"29. visando identificar suas ideias. Entre elas, as cios constituintes Manuel Fernandes

" Martins. Olivdr.i. O/,, ri!., p. 183. Dias, J. S- da Silva. A Revoluçío Liberal Ponuguesa: amálgama c não substituição de
' •' Azevedo, JuliSo Soares de. CondiçÕeí tro/ir>i>iir<fi il;- Revolução Piírtugnt-sti :!:• ÍS?.0. S .kbon- classes, In: Pereira, Ferreira & Serra (orgs.). O Libcralhino na Península Ibérica na

i; Básiea. 1976; Santos, Fernando Piteira. Geagr.ip.i f Economia il,i Revolução de !S20.
Lisboa: Publicações Europa América, 1980.
prii/ieirti wcliidf do síailo XIX, v. I, Lisbua: Sá da Costa, 1981, n. 21.
Pereira, Míriam Halpern. Negocia n tts, fabricantes e artesãos. In: Pereira, A crise do
"'' Santos, Fernando Piteira. Geografia c Economia tlit Remitirão de IS20. Lisboa: Publica- Antigo Regime c as Cortes Coitstituhitts de 182J-1822, v. II. Lisboa: Sá da Costa, 1992,
ções Europa America, 1980, p. 34. p. 21.
28 INTRODUÇÃO INTRODUÇÃO 29

Tomás32, José Ferreira Borges13, Manuel Borges Carneiro 3 ' 1 e Francisco Soares tuir. Refere-se às propostas do Brasil como federalistas, invariavelmente, mas essa
Franco". designação genérica não permite destacar as diferenças entre elas.
Também surgem estudos sobre a influência de pensadores estrangeiros na Algumas considerações podem, então, ser extraídas do que já íoi referido.
Constituinte, dos quais se podem destacar os de Ana Maria Ferreira Pina, sobre O diminuto contato entre as produções historiográficas brasileira e portugue-
a influênci-i de Rousseau, c de Maria Helena Carvalho dos Santos, sobre a de sa talvez se explique peia necessidade cie afirmação nacional presente em am-
Jeremy Bentharn*. bos os países. Necessidade que só se aguçou após a dissociação dos reinos da
No entanto, como já foi mencionado, o único estudo recente a se ocupar monarquia portuguesa.
dos deputados do Brasil é o feito por Vaientím Alexandre e tem o grande No Brasil, LIS formulações do século XIX, que ressaltavam o papel da Monar-
mérico de redímensionar a "questão brasileira" nas Cortes. Em toda a sua quia como agente da independência e da unidade, deram lugar, em boa parte das
análise destaca-se a tensão entre o nacionalismo português, aguçado após a análises mais recentes, à identificação de um movimento nacional em favor
transferência da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro, e as temativas de da Independência. A oposição entre os deputados, do Brasil e de Portugal, foi
preservação do Império. Diante desse confluo, haveria, segundo o autor, duas vista como conflito entre representantes de nações distintas.
linhas básicas de atuação dos deputados liberais de Portugal. A primeira seria a Em Portugal, as abordagens do século passado foram marcadas pelo senti-
do grupo mais radical, dirigido por Fernandes Tomás — o líder da revolução mento de perda dos vastos domínios de além-mar, cuja causa teria sido a traição
do Porto —, chamado por Valentim Alexandre de "integracionista", pois do príncipe, ou a falta de competência das Cortes. No século XX, boa parte das
concebia a nação como soberana e integrada, se possível dos dois lados do explicações passaram a versar,sobre os conflitos internos da sociedade portuguesa
Atlântico. A segunda, a do grupo composto pelos "conciliadores", liderado e a ação da burguesia como clcmemo-chave dos acontecimentos de I 820; a
pelo p a r l a m e n t a r Borges Carneiro, que se dispunha a negociar cerco grau de "questão brasileira" sei ia rapidamente explicada a partir desses interesses. Em
autonomia às províncias do Brasil para conservar a unidade do Império, desde todos os casos, podemos dizer que em Portugal procura-se desde o século XIX
que se preservasse a integração económica. as explicações para a perda do Império e ns justificativas para a unidade con-
O foco principal da análise de Valentim é a atuaçao dos deputados de temporânea cia nação portuguesa.
Portugal, deixando os do Brasil em segundo plano. Porém, eira discursos dos Diante da necessidade da afirmação nacional, a maior parte dos trabalhos
últimos e ressalta seu não-almbamento com as propostas "inregracionistas" de •' sobre a ação dos deputados nas Cortes procura um conflito entre "brasileiros" e
Portugal. Pontua-lbes a ação de acordo com o desenrolar dos acontecimentos nas "portugueses" já no início do século XIX e, assim, identifica duas nações em
províncias do Brasil e destaca as posições mais incisivas a partir da chegada da c o n f r o n t o durante os debaies constitucionais. Questionando-sc, porém, a exis-
delegação paulista. tência de uma unidade prévia entre os deputados eleitos no Brasil, é possível
O historiador não identifica, porém, as diferenças entre as posições defendi- verificar entre cies algumas divergências importantes que, mais tarde, marca-
das pelas delegações das diferentes regiões do Brasil. Parte de uma reação ram a formação do Estado brasileiro independente.
nacionalista brasileira que, acreditamos, demorou algum tempo para se constí- Explorar as diferenças entre esses parlamentares, vislumbrando em seus
discursos a nação como u m artefato a ser concluído, é o objetivo dos próximos
capítulos.
-'? Tengarrínha, fosó. Miinurl Fcnixiitlns Tomás. A ffevoiuçáe :lc 1820. Lisboa: Sram Nova,
1974.
" Dias, Jdhv.- Henrique Rodrigues. )ow rerrsir.i ihi^ii — foliiifa c ccõK<r,i>i.i. I.isbo.!.
INIC, ll)SS.
;' Outro, Xíli.i Osório ck-. Culiitm <• />y///;V// —- Manuel Rnivc; Carneiro L- <> :-i>i:inn:>.
I.isbon: INIC. 1990. 2 v.
•" Câmara, licncdíts Cardoso. Da fier>trh»:o ,;o libcraiii»ia, í-r.iih-iicn Se.im rriinro — u»:
j>e>isaȒc/ilo critico. Lisboa: INIC, 1939.
' "' Pin.i. Am Maria 1-crrcira. De Rtsnsscuii au /W.'./.;/;.',/;-;'.<; /í,! /tei-ofuçiíc t'f 1R20. Lislion:
1NIC, 19ÍJH; Saneeis, Mana Hck-na de Guv^lho. A in.iior felicidade cio maior núincru
- Bcndi.tni LJ n Constituição Portuguesa ílc; 1822. f n : Pereira, Ferreira í; Scrrn (orqs.).
O/i. cit.
í

l
CONVOCAÇÃO DAS CORTES:
UM APELO NACIONAL

América Portuguesa: definições e redefinições administrativas

. V/ isolamento e as diferenças caracterizam as várias regiões colo-


nizadas pelos portugueses na América. Formados ao longo dos séculos com
finalidades distintas e em diferentes momentos, os núcleos de povoamento
espalhados pela costa atlântica não constituíam uma unidade e seus habitan-
tes não se reconheciam como pertencentes a uma mesma comunidade.
As relações económicas entre essas regiões eram poucas e os vínculos
político-adiiiimsminvos, praticamente, não existiam. Em Portugal parecia
vigorar "uma política deliberadamente voltada para o fortalecimento das
administrações locais, por acreditar que as desvantagens possíveis dessa
espécie de fragmentação do poder na colónia eram obscurecidas pelo temor
de que um regime com o seu centro de força na Bahia ou no Rio de Janeiro,
em vez. de Lisboa, oferecesse meãos segurança contra as perspectivas de
emancipação total do Brasil" 1 .
Algumas dessas áreas haviam passado por iinui lase de diversificação e
expansão de suas ativjdadcs económicas durante a segunda metade do século
XYIli, como resultado das políiicas metropolitanas e das necessidades do
mercado internacional, possibilitando :s emergência de setores e interesses
32 CONVOCAÇÃO DAS CORTFS: UM APELO NACIONAL CONVOCAÇÃO DAS CORTES: UM APELO NACIONAL 33

lit-ados às novas atividades. Na Bahia e cm Pernambuco, pnr exemplo, a de intelectuais e políticos, nascidos em Portugal ou na América, filiados ao
ampliação das zonas dedicadas à lavoura da cana foi acompanhada de pensamento iluminisra. Procuravam, como seus congéneres franceses, a
investimentos na criação de gado e no cultivo de outros géneros. Em São associação entre o saber e o fazer e dedicaram-se aos diversos ramos do
Paulo e Rio de Janeiro, novas áreas projetaram-se como importantes pro- conhecimento com objetivo de modernizar as atividades produtivas e, tam-
dutoras de açúcar, além do cultivo do tabaco, arroz, algodão e anil. Os bém, o Estado português.
pequenos c médios investidores passaram a conviver com a grande proprie- Pensando nas relações económicas entre o Reino e suas colónias, debru-
dade, assim como importante contingente de posseiros, arrendatários e çaram-se sobre o descompasso entre os recursos disponíveis na metrópole e
trabalhadores pobres convivia com a escravidão, tornando mais complexo o em suas possessões. Uma observação feita cm 1797 por D. Rodrigo de Sousa
quadro das relações coloniais 3 . A região Centro-Sul foi uma das mais favore- .ÇoMtinho, q então ministro da Marinha e Ultramar, expoente do reformis-
cidas nesse processo de expansão, aliando a exploração do ouro e diamantes mo ilustrado e de família mineira, indica tais preocupações: "Os domínios de
em Minas Gerais em curso desde o início do século à expansão da produção S. M. na Europa não formam senão a Capital e o Centro de suas vastas
agrícola c ao movimento do porto carioca. A mudança da sede do Vice- possessões. Portuga!, reduzido a si só, seria dentro de um breve período
Reino da Bahia para o Rio de Janeiro, cm 1763, reflete o processo em curso. província de Espanha, enquanto servindo de ponto de reunião e de assento à
Essa alteração, porém, não correspondeu a uma mudança na política monarquia que se estende ao que possui nas ilhas de Europa e África e ao
administrativa das colónias no Brasil. Na prática, apesar dos decretos que Brasil, às costas orientais e ocidentais da África, é sem contradição uma das
pretendiam conferir maiores poderes ao novo Vice-Reinado, este só se potências que tem dentro de si todos os meios de figurar conspícua e
ocupava da rceião Sul. O Norcc, nunca mencionado em nenhum relatório brilhantemente entre as primeiras potências da Europa""'.
do Vice-Reinado, aparecia dividido em três partes: a baiana (de Sergipe ao Produziram, então, um discurso sobre as relações coloniais que ressaltava
Espírito Santo), a pernambucana, que abrangia todo o Nordeste, e a paracn- a comunidade de interesses entre Portugal e suas possessões, buscando a
sc-niaranhense, cujo âmbito era a Amazónia, mas influenciando, também, integração das elites situadas nos dois pólos do sistema.
Mato Grosso c Goiás. Tanto Salvador quanto Recife e Belém comunicavam- O Programa de Reformas elaborado por Sousa Coutinho, em 1798,
se diretarnente com Lisboa, e a capital pernambucana mantinha, ainda, sugeria nova organização administrativa dos domínios portugueses que
vínculos de subordinação com órgãos administrativos da Bahia , atribuía à Metrópole o papel de centro dinamizador do sistema. As posses-
Apesar das modificações internas no finai do século XVIII, os diferentes sões ultramarinas passariam a ser tratadas como "províncias da Monar-
empos sociais permaneciam ligados a interesses locais e pouco se relaciona- quia" e, mantido o "sacrossanto princípio da unidade", todas estariam
vam com as regiões mais distantes, tendo ligações mais intensas com Lisboa ligadas "ao novo sistema administrativo" e "sujeitas aos mesmos usos e
ou regiões africanas dedicadas ao tráfico de escravos. Esta fragmentação, costumes". Tal sistema deveria soldar a união dos interesses económicos
porém, dificultava o controle dos conflitos regionais pela metrópole e, depois mediante o estímulo à cultura, no Brasil, dos produtos que pudessem ser
dos movimentos revolucionários de Minas Gerais (1787-1789) e Bahia consumidos na Europa "por meio da metrópole", naturalizando os que se
(1797-1799), passou a preocupar os assessores da Cone. Como aperfeiçoara "extraem de outros países", e deveria ser acompanhado de algumas medi-
união dos domínios d.i monarquia foi uma das preocupações do reformismo das urgentes: reforma fiscal, melhor administração da justiça, instalação do
ilustrado português dumnte ns últimas décadas de século XVIII. Seminário de Olinda para tratar da integração da Igreja ao Estado e
íorniaçíio de iropas coloniais com LI devia:; consciência de "perteiicímento"
;'; nação portuguesa 1 .
No entanto, o Proerama
«J>
reforçava
i
que
i
;•> relações de cada ptovincin

\e il'»s aiiMi^tiiiisinoJ emrc os diversos .'.L-grairiiEo-: sociais na sociais!;:


!_<j|onÍ:il JuiMtuir (i fm;ii do século XVIII é apontada der-du .1 publicação d s obr;i de C;:is:
!!r.ido Jr.. Ft»-//mfj > d-< BrtsA cyntttnfatànn. datadi de ! L >í-.
Ver Cunli.i, l'..'i.li'i Or:ívio C:'iiieJrr) :h. A íbnd.-.õ.í; d L- u n i mipjrir, iií jrrJ. !>.: Hol-iiida,
SCrsio Bn.irtítif i!:, iíiitiu:.: £cr.;l t Li civilitafáo brasileira, v. I I . S .í o Paulo: D U i i s ã u
l-.uropJin JD Livro, 196^, P. Í-Í3.
34 CONVOCAÇÃO DAS COKTI-S: UM APELO NACIONAL CONVOCAÇÃO DAS CORTES: UM APELO NACIONAL 35

deveriam ser "mais ativas e animadas com a metrópole do que entre si"fl. possibilidade pelo próprio Marquês de Pombal durante a Guerra dos Sete
Reconhecia, porém, a necessidade de uma mudança na organização adminis- Anos"*.
trativa das "províncias da América, que se denominam com o genérico nome Quando em 1801 a França parecia vitoriosa na Europa e pressionava
de Brasil" e avançava uma forma de centralização, propondo "dois grandes Portugal, que tentava a todo custo manter uma posição de neutralidade, D.
centros de força, um ao norte e outro ao sul, dehaixo dos quais se reunam os Rodrigo de Sousa Cominho lançou seus argumentos a favor da transferência
territórios que a natureza dividiu tão prodigamente por grandes rios"'. da Corte: "Quando novos riscos e iminentes perigos se aproximam.para.a..
Reforçava o sentimento de "pertencimento" à nação portuguesa, mas tenta- conservação da independência da Monarquia [...] quando se considera que
va assegurar alguma identidade entre os habitantes do "genérico Brasil". Portugal, por si mesmo muito defensável, não é a melhor parte da Monar-
A divisão do Brasil em duas partes não era novidade. Em 1621 formara-se quia; que depois de devastado por uma longa e sanguinolenta guerra, ainda
o estado do Maranhão (composto das capitanias do Maranhão, Ceará e resta ao soberano, e aos seus povos o irem criar um poderoso império no
Pará), distinto doestado do Brasil. A unidade administrativa do norte passou Brasil, donde se volte a reconquistar o que possa ter perdido na Europa"*.
a incluir toda a região do Rio Negro em 1757 e, apesar de extinta em 1772, A proposta, que naquele momento f o i saudada pelo governo inglês,
mantinha a tradição de ligação autónoma com Portugal. A originalidade da encontrou resistências da nobreza c dos mercadores portugueses e levou o
proposta de Sousa Counnho residia na ideia de "centros de força" que ministro a deslígar-se de seu cargo. Ressalte-se, porém, que o projeto anterior
conferiam alguma unidade ao Brasil, ultrapassando as preocupações mera- de reformas agora tomava corpo na sugestão de "um poderoso império no
mente administrativas. Pensava-se, aqui, nas possibilidades de defesa GO Brasil".
território que duas capitais regionais poderiam desempenhar com maior A transferência só foi concretizada em dezembro de l 807 com a presença
facilidade e, sobretudo, no controle das manifestações contra a metrópole. das tropas napoleõnicas em território português. A solução implementada
No quadro dessas reflexões, a transferência da Corte para o território pelo Regente D. João criava uma situação única no mundo ocidental: pela
brasileiro foi cogitada antes de sua efetivação, ante o crescimento das tensões primeira vez um país europeu via seu rei abandoná-lo pata se instalar em
entre as potências europeias durante as guerras napolcônicasi O reconheci- uma colónia distante. Essa proposta original salvaguardou a soberania da
mento de que a parte mais rica da monarquia lusa estava nas colónias tornava dinastia de Bragança, mas a decisão não foi tranquila e veio a público às
essa opção plausível nas elaborações da elite ilustrada. vésperas da viagem.
A particularidade dessas ideias residia, além da proposta de transferência Tal atitude encerrou a política de neutralidade da monarquia portuguesa
da Corte, no fato de comportarem um projeto que associava o império a uma ante o embate entre a França revolucionária e a Inglaterra. A fragilidade do
organização moderna do Estado e de cantarem com uma elite formada a pequeno reino luso, sempre ameaçado por uma possível invasão franco-
partir desses princípios e bem situada nas políticas governamentais. espanhola, fé?, com que todos tis seus ministros optassem pela contenção na
Cabe lembrar, no entanto, que as propostas de transferência da Corte já participação cio conflito europeu até 1805, apesar dos vínculos de dependên-
haviam ocorrido em outros momentos: "O primeiro plano conhecido de cia económica com a Inglaterra. No entanto, os decretos napolcônicos de
alteração dos centros de decisão do Império em favor do Brasil data de 1580, 1806, que determinavam o Bloqueio Continental aos produtos ingleses,
momento em que Lisboa declina, como entreposto comercial, cm favor cie puseram em confronto duas alas da diplomacia portuguesa: a primeira
Sevilha. O projeto foi então defendido por D. António Prior de Grato, antes, priorizava os interesse;; consolidados nr? Europa e a segunda protegia o trafico
portanto, da anexação castelhana, sendo mais tarde retomado por António colonial, F i n a l m e n t e , em 1807, a decisão oe!a Transferência evidenciou a
Vieira, n u m a rase d i f í c i l da diplomacia da Restauração. Mas tonu a íussurgir viiória du ú l t i m o grupo, repr^eiiianre do antigo projeto de D. Rodrigo de
em pleno século XVJÍ, na época da niaioi dvrrarru do ouro do Brasil, no Suiusa Coutinho. Consolidava-se, assim, ;i opção pela Inglaterra, a pnoriza-
pensamento do estadista D. Luís cia Cunha, ;in longo cias atribuladas nego- ção dos domínios coloniais e - deciíão Je construir um Império na América,
ciações do tratado ile EJtrecht, acabando mesmo por ser admitido como
i
i
36 CONVOCAÇÃO DAS CORTES: UM AH-I.O NACIONAL

A mudança da Corte alteraria profundamente as relações entre as diversas


regiões da monarquia lusa. D. João vinha acompanhado de comitiva com-
CONVOCAÇÃO DAS CORTILS: UM Ara.o NACIONAL

a igualdade política entre o velho reino europeu e o recém-cnado reino do


Brasil, p e r m i t i n d o a fixação da capital em qualquer urna das partes.
Tratava-se de um momento-chave para a redefinição das fronteiras e a
37

posta por quinze mi] pessoas e, embora jamais tenha explicitado seus planos,
a Corte instalava-se para ficar. normalização diplomática entre os Estados europeus. No entanto, todos os
A nova capital passaria a abrigar os tribunais do Reino, ou seja, todos os acordos realizados no Congresso evidenciavam as intenções da família real
órgãos superiores do Estado: o Desembargo do Paço, a Casa da Suplicação, a portuguesa de permanecer no Rio de Janeiro, estabelecendo nesta cidade a
Mesa da Consciência c Ordens, o Conselho da Fazenda, a j u n t a do Comér- capital do Remo Unido. As prioridades da diplomacia portuguesa no Con-
cio, iniciando-se um processo que tendia à centralização administrativa a gresso de Viena, por intermédio do Conde de Palmeia, revelavam a proteção
- partir do Rio de Janeiro. Este passaria a deter, de fato e pela primeira vez, a dos interesses cristalizados na América. Ele visou a conservação daCisplatina
preponderância administrativa em relação às outras capitanias do Brasil. e da Guiana Francesa sob domínio da família de Bragança e a continuidade
Transferia-se para a região Centro-Sul o centro do Estado português, que do tráfico negreiro, duramente contestado pela Inglaterra na ocasião111.
passaria a conviver com toda a complexidade dos conflitos internos c com a Paralelamente, concedeu parte do território europeu para a Espanha, garan-
heterogeneidade dos rcgionalismos. Essa nova situação lançaria os funda- tindo a posse feita por D. João do território espanhol no sul da América.
mentos para a transformação da corte do Rio em "metrópole interiorizada",
buscando controlar e explorar as outras "colónias" do continente. Nacionalismo e Liberalismo cm Portugal
Como se sabe, além da preponderância administrativa, a mudança da
Corte permitiria a migração de parcela significativa de nobres e comercian- Desde 18071 cm Lisboa havia ficado um Conselho de Regência, nomea-
tes de Portugal para o Brasil, levando à formação de novos interesses na do pelo Príncipe D. João antes da partida e constituído apenas por represen-
região Sul, nem sempre em consonância com os antigos; O Rio de Janeiro tantes da nobreza, com severas instruções para manutenção da ordem públi-
passaria a abrigar alcos funcionários e ministros, uma nobrez.3 emigrada ca que, na verdade, sugeriam a colaboração com as tropas invasoras visando
que era favorecida nas políticas de Estado, em relação às concessões de legitimar a ordem estabelecida". Sem resistência, consolido u-se o domínio
terras, e comerciantes que disputariam com os nativos os mercados interno da França sobre Portugal e, em fevereiro de 1808, Junot, o chefe das forças
e externo. invasoras, extinguiu o Conselho e tomou em suas mãos o governo português
Esses setores iriam, aos poucos, estender vínculos às regiões próximas, em nome de Bonaparte. Configurava-se, assim, a anexação do território
podendo-sc divisar um movimento de reajustes de interesses durante as português ao Império Napoleònico. A separação só veio a ocorrer dois anos
primeiras décadas do século XIX. As inevitáveis disputas implicavam, agora, depois sob o comando do general inglês, Beresford.
o acesso a cargos públicos e ligações pessoais com a Corte que permitissem a A opção da monarquia pela Inglaterra foi seguida de várias negociações,
realização de negociações com o monarca. inicialmente secretas, que se arrastaram até 1815- A abertura dos portos do
Essa articulação de complexos interesses no Centro-Sul aprofundava as Brasil cm 1808, decretada corno medida provisória e que visava escoar os
diferenças inter-regionais. A priorízação do Rio de Janeiro, que recebeu produtos estocados em função da situação europeia, foi o primeiro passo
investimentos privilegiados depois de 1808, se fazia com base na cobrança de nesse trajeto. Os tratados de l 810 selaram a preferência aos comerciantes
Impostos de outras áreas que, no entanto, não eram beneficiadas pela política ingleses, que pagariam menos impostos para introduzir seus produtos no
da Corto. A região atraía atenções, contingente populacional c capitais antes Brasil do que seus concorrentes portugueses.
destinados, nimbem, às dentais. Os resultados de u! política foram nefastos em Portuga!. Sem condições
À siuiação seria cristalizada cm 1815- a partir dai determinações do vk- competir com os produtos ingleses no Brasil c perdendo :i tradicional
Congresso de Viena. Napoleíío Bonapartc havia sido derrotado na Europa e
o oíércii-) invasor retirara-se de Portugal. O princípio da legitimidade
dinástica era utilizado para a reorganização das fronteiras do continente e, '• Sobre .is !it.':;ociaçóci ilos rcpre^ntsmtes [iortus;ucs<;s no Coni^!i.":in á<_- v'i>-n:i. ver
Alexandre, Valemim. ()/>. L vi., p. 2ÍÍ7-305 L'Araújo, Ana Crisciiia Ranoloisicu. O,-', r/'.'.,
sísim, a família de Bragança ivassumia suas terras na Europa. Mas o Con-
P. 2-ÍS-5y.
gresso reconhecia, também, a organização da monarquia portuguesa sob a '' Araújo, Anr. Cristina Bar to lume u tk-. U/'. eu., p. 236.
forma de Remo Unido de Portugal, Brasil eAlgarvesc, dessa f o r m a , aceitava
38 CONVOCAÇÃO DAS CORTES: UM APELO NACIONAL
COMVOCAÇÁO DAS CORTIÍS: UM APELO NACIONAL 39

movimento dos principais portos diminuiu bruscamente, o contrabando


As expressões de insatisfação logo apareceram em Portugal de várias
cresceu, desarticuiou-se a manufactura e a balança de pagamentos inverteu-se
formas. Os governadores do reino manifestavam em ama ao Rio de Janeiro
em favor do Brasil. Invertiam-se, também, os papéis a serem desempenhados o descontentamento de segmentos da nobreza, dizendo: "A ideia de que
na economia luso-brasileira, pois o governo do Rio de Janeiro passaria a S. Majestade tem resolvido fixar no Brasil a sede da sua residência é a que
aconselhar o incremento da agricultura na porção europeia, uma vez que o mais fere toda a nação portuguesa e que [a] dispõe, apesar da sua bem pro-
centro comercial se deslocara para a América'~. vada lealdade [...] a poder deixar-se extraviar pelas pérfidas sugestões dos re-
Desde a partida do futuro rei, ocorreram em Portugal manifestações volucionários".
contrárias à situação criada pela transferência da Corte. Algumas propostas Afirmavam também: "Não é possível que uma nação que descobria,
tentaram solucionar a instabilidade decorrente da ausência do regente e das povoou, conquistou um país que considerava até agora como colónia sua, se
invasões, corno a cio juiz do povo, José d'Abreu Campos, por exempia...Ele acomode [...] a figurar como dependente ou subordinada dessa mesma
chegou a apresentar urn "Pró j eco para a Constituição de Portugal" n ser colónia [...]. Sendo a Europa a residência de todos os soberanos não é
enviado a Paris para o beneplácito de Napoleão c que se inspirava no modelo possível que permitam por muito tempo a existência de um estado considerá-
liberal outorgado pelo imperador cm Varsóvia. S c cores importantes da vel colocado na Europa e dependente de um soberano [...] na América"'1'.
nobreza, por outro lado, reivindicavam a reunião das Cortes tradicionais, Assim, definia-se a nação portuguesa como a que vivia em Portugal, ao
que, baseadas nos três Estados — nobreza, clero e povo —•, não eram con- passo que o Brasil seria um "país" que fora colónia até então. Contudo, a
vocadas desde 1698. lealdade ao monarca era princípio que os governadores do reino não ques-
Os governadores do Reino recorreram então às perseguições, prisões e tionavam.
exílios para conter tais manifestações. Em consequência, a oposição, sobretu- Os liberais punham a questão de forma diference. No eixo de sua
do a que se formou com base no ideário liberai, criou importantes publica- campanha estava a nação e não o rei: "A nação entendida como expressão da
ções fora de Portuga!, especialmente em Londres. Jornais como O Investiga- vontade geral e como uma totalidade histórico-cultural, configurando por-
dor Português cm Inglaterra, O Português c O Campeão Português foram tanto um ideal coietivo de lastro histórico e prenunciando o advento de urna
fundamentais para 3 formação do pensamento liberal entre 1808 e 1810,
sociedade de homens livres e iguais em direitos e deveres"'1. A nação definia-
período em que os núcleos oposicionistas acuavam clandestinamente 1 ".
se, pois, fundada na vontade geral, expressão consagrada no período pós-
A situação pôde ser mascarada até ÍS15, enquanto as guerras europeias Revolução Francesa, e ancorava-se na tradição. Contudo, também não
justificavam a aliança com a Inglaterra e a transferência da Corte. Aceitava- incluía os habitantes do Brasil.
se, também, a administração do reino pelo General Beresrord, sob o argu- Os jornais liberais portugueses publicados no exílio, como O P&rtiigUfse
mento de que comandava o exército quando o invasor francês foi expulso de
O Campeão Português, já citados, Fizeram ampla campanha contra o Reino
Portugal. Pró cura vá-se, ainda, fazer prevalecer a ídéia de que a aliança com a Unido, fundamentada nos direitos c na tradição da nação portuguesa. O
Inglaterra era a forma possível para a inserção portuguesa nas relações
rancor inspirado pelas intervenções francesa e inglesa explodia em uma
políticas do continente e, por isso, justificava-se a permanência do governo defesa nacionalista que tinha como pedra angular a contraposição à transfe-
no Rio de Janeiro. rência da Corte. Argumentavam que a tradição e a vontade geral da nação
Após a derroca de Napoleão, a reordenação feita, peio Congresso Cu: Vu.-n:i portuguesa eram contrariadas pela ideia de serem "colónia de uma colónia":
e a definição do Reino Unido, ficou evidente a intenção do regente. Poo ;;-:;<_•
seria anti-histórico. Destacavam a necessidade de ruptura com o Absolutis-
dizer que, só a p a r t i r de então, os descontentamentos tornaram-se incontni- mo e, para atingir css-.: ohjetivo, ressaltavam os direitos tradicionais da nação
portuguesa,
Essa defesa nacionalista, que marai a campanha libera! depois cif 18]},

'- iiícm, ihidem, p. 24o.


'-' V.irgue;, Isabel Maria Guerreiro Nobre. A aprendizagem da citliiilania. Contribuiu !>,ira .;
definição Aã cultura política vintista. Dissertação de doutoramento apresentada i Faculdade
do Letras da Universidade de Coimbra, 1993, p. 39-46.
Araújo, An.; Cristiiin B arrolo me u d.i. Op. cii., p. 2í
40 CONVOCAÇÃO DAS CORTES: UM APELO NACIONAL CONVOCAÇÃO DAS COUTES: UM APELO NACIONAL 41

seria uni traço importante do "vmtismo", o pensamento político da rcvolu- antigos senhores rurais, que dominavam a história do período anterior,
cão de 1820. transmutavam-se numa aristocracia agrária e, nesse sentido, procuravam
Em 1816 os jornais mencionados chegaram a apresentar uma fórmula afirmar-se em 1817. O que se observava, era degradação paulatina nas
alternativa ao Reino Unido. Baseando-se na experiência liberal da Espanha, relações entre a aristocracia nativa e os antigos mercadores que faziam as
defendiam uma união ibérica que se constituiria mediante dois princípios: a "amciriaçõcs do sistema colonial português. Na base de tal degradação,
conservação dos domínios coloniais de ambos os reinos na América c, na colocava-se o problema da propriedade: à propriedade dos 'grandes Filhos do
liase de um governo federativo, a manutenção do equilíbrio europeu. É o que país', contrapunham-se os 'bens dos europeus' cuja maior porção constitui a
atesta este trecho de O Português: "Rcúnam-se arnbas as Espanhas sob um só massa opulenta do comércio"' 1 .
cetro e teremos, dos Pircneus ao Cáucaso, cinco grandes nações, quase iguais A oposição mencionada era antiga. Baseava-se no monopólio dos euro-
cm poder, compensadas as diferenças: eis aqui levantado o edifício do peus portugueses sobre a comercialização do que produziam os "grandes
equilíbrio continental. Como se fará o equilíbrio marítimo? Não há outro filhos do país" c era agravada pelo sistema de impostos mantido pela Coroa
meio, senão reunir a Espanha a Portugal..," 16 . portuguesa sobre a região. Em 1817, porém, tal conflito adquiriu grau mais
Essas formulações nacionalistas excluíam o projcto imperial luso-brasileíro. elevado.
Na verdade, eram contraposições a linha adotada pelo monarca e pelo setor A região polarizada pelo Recife passava por fase de recessão. Os preços do
dominante entre os seus ministros, que privilegiava os domínios coloniais. algodão e do açúcar, principais produtos de exportação da região, caíram
Eram annabsolutistas, liberais e nacionalistas. Para limitar os abusos do mo- sensivelmente a partir de 1812. Boa parte d<i seu consumo, sobretudo do
narca, clamavam pela soberania da nação, portuguesa de Portugal ou ibérica, algodão, eta destinada à Inglaterra e alimentava o processo da revolução
mas, em nenhuma hipótese, a nação luso-brasileíra. Quando se referiam aos industrial. Os Tratados de Comércio de 1810, que beneficiavam a entrada
domínios ultramarinos, estes apareciam como propriedades da nação. das mercadorias desse país nos portos do Brasil, poderiam amenizar a crise,
se o co n taco entre os produtores agrícolas c os comerciantes se realizasse
1817: rebelião em Portuga] e república no Nordeste do Brasil livremente. No entanto, esta possibilidade era impedida pelos mecanismos
de controle metropolitano, que, apesar da transferência da Corte, continua-
Ern 1817 ocorreram os primeiros movimentos efetivos de mudança vam a funcionar, mesmo com alguns agravantes.
política, em um momento de fermentação liberal nos dois países da Penínsu- A antiga Companhia de Comércio de Pernambuco e Paraíba, por exem-
la Ibérica. Tal como as conspirações da Espanha, um levante militar liderado plo, criada em decorrência das reformas pombalinas e que monopolizou o
por Gomes Freire de Andrade ameaçou o governo de Portugal. Não chegou comércio da região durante vinte anos, apesar de formalmente extinta, ainda
no entanto, a ter grande repercussão, pois foi rapidamente controlado pela exercia controle da negociação dos produtos agrícolas nordestinos 1 ''. Francis-
acão de Beresford, associado aos governadores do Reino. Anunciava, porém, co Muniz Tavares, referindo-se à situação, diz, que, após o encerramento do
uma crise prolunda. prazo de funcionamento da citada Companhia, "o monopólio de poucos
Naquele ano, também no Brasil, a partir de Pernambuco, o processo tornou-se o monopólio de muitos, pois que os portugueses eram os únicos
revolucionário contagiou a Paraíba e o Rio Grande do Norte e obteve adesões concorrentes no mercado do Brasil"211.
no Ceará e na Bahia, formando um governo autónomo e republicano. Tais negociantes utilizavam, ainda, o aparato formado pela Companhia
Comentando a revolução, o Desembargador Osório de- Castro diria a de Comércio para fazer chegar os produtos agrícolas até o principal porco da
"l'o más António Vi h Nova Portugal, um dos ministros de D. João VI. em região e, em sentido inverso, encareciam os géneros importados. Por isso,
IS l o, que 'Mós grandes Filhos do país não houve um só nas duas comarcas do uma das grandes reivindicações dos proprietários rurais de Pernambuco era o
Recife e Olindii que não fosse rebelde, cum mais ou menos entusiasmo"'''. rim do "grande excesso do monopólio" do qual a Corte do Rio de Janeiro se
Na verdade, como observou Carlos Guilherme Moía, em Pernambuco ''os

láem, ibidm:, p. 21.


IbiiSem, p. Í-"í-20.
Tavares, Francisco Munii. Historia da Revolução cm Pernambuco. RIHGB, 60, 1897.
42 CONVOCAÇÃO DAS CORTES: UM APELO NACIONAL CONVOCAÇÃO DAS CORTES: UM APELO NACIONAL 43

beneficiava mediante impostos. Percebiam que o livre-comerei o, facilitado generais das capitanias do Norte e Nordesce foram trocados por homens de
pela presença significativa de negociantes ingleses, franceses e americanos na confiança da Corte, com base cm indicações feitas por D. João. Além disso,
região, só seria obtido por meio do rompimemo com o governo do Reino. todo o ministério do monarca foi modificado neste ano, aponcando pata
Esses senhores rurais entendiam que os mecanismos da Corre eram verdadeira reorganização do governo do Brasil.
alheios aos seus interesses e controlavam, por torná-la dependente, a popula- Esses acontecimentos causaram inquietação entre os habitantes de Portu-
ção livre e pobre da região. Todos eram atingidos peia carga tributária que, gal. Boa parte dos prisioneiros foi enviada para Lisboa, medida que recebeu
no momento, incidia sobre 3S exportações e, também, sobre os géneros de O Campeão Português em LotKJres o seguinte comentário: "Em o urro
alimentícios e de consumo generalizado"'. Buscando limitar a atuacao dos tempo mandavam-se degredados e criminosos para o Brasil, hoje mandam-
comerciantes monopolistas e para fazer a revolução, essa aristocracia rural se degredados e criminosos do Brasil para Portuga!" 2 ''.
associou-se aos mercadores locais e a importantes sctores do clero. Novamente, o que importava era o inverso da siuiação colonial. Não se
O movimento de 1817 se definiu, então, em oposição aos portugueses, manifestava solidariedade aos "criminosos" do Brasil, embora eles também
agentes do monopólio beneficiados pela Corte do Rio de Janeiro, na defesa se afirmassem contra o governo do Rio de Janeiro.
da "pátria" c do "país" dos pernambucanos. A utilização do termo patriota Nesse rnomenvo, as manifestações nacionalistas em Portugal ainda não
designava, cambem, a inserção no movimento revolucionário c o engajamen- haviam conseguido definir uma linha de natação quamo no Brasil e ;iu
to na construção da República do Nordeste. Referia-se à tradição das governo de D. João. Por isso: o movimento de Gomes Freire peraiiineccu
melhores famílias da região e, igualmente, aos princípios de liberdade acalen- isolado e foi facilmente controlado. Contudo, evidenciava descontentamen-
tados entre os líderes revolucionários e aprendidos por muitos deles no to que se expressaria com maior clareza na revolução d-j 1820, quando os
Seminário de Olirida". vários setores lusos insatisfeitos chegaram a urna articulação política que, de
A revolução pernambucana também catalisou o descontentamento das fato, pôs em questão o governo do Rio de Janeiro.
outras capitanias do Nordeste e tentou a adesão das demais. Se isso não tosse
possível no Sul, cm função do controle exercido pela sede da monarquia, as do As Cortes Constituintes definem a Nação
Nordeste poderiam emancjpar-se sem maiores danos. E esta a ideia expressa
por um dos integrantes do governo revolucionário no final do primeiro mês da A articulação do Sinédrio, o grupo impulsionador da revolução de l 820,
revolução, ao dizer que Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará iniciou-se no Porco por iniciativa do Desembargador Manuel Fernandes
"deveriam formar uma só República, devendo edificar uma cidade central para Tomás, três meses depois da execução de Gomes Freire de Andrade. Contou,
a capital"21. Na perspectiva da estabilização do novo sistema, chegaram a basicamente, com treze participantes, a maior parte dos quais tinha ligações
buscar o reconhecimento dos governos americano, francês e inglês. com as atividades comerciais da cidade. O único militar, Bernardo de Castro
Como se sabe, o do Rio de Janeiro interveio violentamente derrotando o Sepúlveda, aderiu ao Sinédrio às vésperas da eclosão do movimento.
movimento. Organizou uma expedição militar que, partindo da Bahia, Os integrantes do Sinédrio estavam fortemente influenciados pelo libe-
seguiu para Pernambuco realizando diversas prisões c exílios. Os capitacs- ralismo espanhol e se tornaram bem mais agressivos depois da vitória da
revolução na Espanha entre janeiro c rnarco de 1820. Os estatutos cio grupo
Uma ilas primeiras meilid.f, do governo revolucionário de 1817 foi ;i cxiinçio do alvjrá <ie
português destacavam, ainda, a necessidade de observar a opinião pública e a
20 de outubro de 1812, tjiie "incidia na esfera da tributação, sobretudo dacatne, de loja de marcha das acontecimentos, também na Espanha, pois, ''se rornpcs.se uni
fj2tiui:is e molhados, embarcações crc. '(ornando desigual -.1 fone dos habitantes <io movimento anárquico ou uma revolução, os membros do Sinédrio se combi-
mesmo paíí'". Mota, C. G. Nordeste 1817, â'.., p. 55. nariam para aparecer a conduzi-la para bem do país e da sua liberdade,
Passaram pejo Seminário de Olinda o padre Jo.ío Ribeiro, Francisco Munis Tavares e
guardada sempre a devida fidelidade à Casa de Bragança"'1.
Domingos M:da(]ui,xs tle Aguiar Pires Ferreira, entre tantos outros. Os dois últimos foram
deputados de Pernambuco em Lisboa. O Seminário foi utn dos importantes centros de
divulgação dos princípios da Ilustração e foi fechado com a intervenção que encerrou u :1O Campeio Português, v. I, n." l, 1." jul. 1S19. Apitfl Araújo, Ana Cristina Bariolonieu, p.
revolução pernambucana, voltando a funcionar posteriormente, totalmente modificado.
256.
Sobre :is suns arividades, ver Lyra, Maria de Lourd.cs Viana. Op. cit. " Araújo, José Maria Xavier de. Revelações e memórias frim n história da revolução tle 24 de
Declaração de João Ribeiro, citada por Mota, C. G. Op. cit., p. 55. acosto de 1320 e de 15 de setembro do mesmo ano. Lisboa; Rollandiana, 1846.
44 CONVOCAÇÃO DM COUTEIS: UM APELO NACIONAL CONVOCAÇÃO DAS CORTES: UM APELO NACIONAL 45

Esse pequeno grupo articulou o pronunciamento de 24 de agosto, feito ram então a agir cm consonância com o movimento cio Porto. De lá
pela cuarnição do Porto cm praça pública por meio de seus coronéis, que receberam tropas em setembro de 1820, e, no dia l 5, também por meio de
ressaltavam o sentimento de abandono político, a má situação económica de liderança militar, fizeram com que a multidão aclamasse um novo governo
.Portu (7 al e a interferência inglesa nos assuntos internos. Apontava também a na capital do Remo. Tal como no Porto, formava-se em Lisboa junta
"restauração" das instituições liberais na Espanha, entrevendo a possibilida- interina com representantes de setores regionais importantes. Foram escolhi-
de de tumultos e revoltas em Portugal. dos alguns vogais e secretários sem função específica, de acordo com suas
O pronunciamento do Porto em agosto clamava, então, por uma solução habilidades c compromisso com o ideário liberal, e outros representantes dos
pacífica e propunha a criação de um "órgão da nação", as Cortes, para redigir diversos corpos sociais (magistratura, comércio e agricultura). O presidente
uma Constituição. Como vimos, a convocação das Cortes tradicionais era pertencia à alta hierarquia católica e o vice ligava-se à nobreza pró-libera!2íi.
cogitada por setores da nobreza portuguesa desde a partida da família real. A formação da Junta de Lisboa não levou, no entanto, a um confronto
No entanto, os revolucionários do Sinédrio já apontavam composição dife- com a antiga Regência. Mais uma vez, a liberdade era proclamada de forma
rente para elas, considerando-as a expressão da nação e não das três ordens pacífica e, nos dias e meses seguintes, movimentos semelhantes ocorreram
tradicionais. em outras partes do Reino.
Paralelamente a esses acontecimentos, formou-se no Porto o primeiro O encontro dos governos de Lisboa e Porto foi cuidadosamente acertado
governo liberal, consubstanciado na J u n t a Provisional do Governo Supremo entre representantes das duas Juntas, que trataram de conciliar os diversos
do Reino, cujo modelo inspirava-se no utilizado em 1807 quando a cidade grupos envolvidos e evitar manifestações mais intensas. Foi formalizado no
organizara a resistência à invasão francesa. Em 1820, porém, havia clara acordo de 27 de setembro de 1820, que constituiu o novo governo de
intenção de conciliar os setores tradicionais do Porto com os mais dinâmicos Portugal com cinco elementos do antigo governo de Lisboa e onze do Porto.
envolvidos no processo revolucionário e com as regiões mais lesadas durante Foram esses dirigentes que prepararam as eleições para deputados, elabo-
a crise. Presidente c vice eram militares, os vogais eram representantes do rando as regras necessárias à formação das Cortes Constituintes.
clero, nobreza, magistratura, comércio, universidade e das províncias do As primeiras instruções para as eleições de depurados para as Cortes
Minho, Beira e Trás-os-Montes:íl. portuguesas, datadas de 31 de outubro de 1820, levavam as assinaturas da
A Regência de Lisboa tentou organizar um corpo militar para invalidar o Junta Provisional Preparatória das Cortes. Ta! junta era uma das partes do
governo do Porto e, por fim, com o mesmo objetivo, decidiu convocar as governo criado em 27 de setembro2''. Seus integrantes também expressavam
amigas Cortes. Os revolucionários reagiram com indignação, como demons- as várias tendências políticas envolvidas no movimento revolucionário, in-
tra este trecho de uma proclamação de setembro de l 820: "[.„] eles querem cluindo desde ex-participantes do governo de Lisboa até os mais radicais
convocar as Cortes!... Será para nos darem uma Constituição estável [...] que liberais do Porto.
seja o baluarte inexpugnável da liberdade pública e o sólido fundamento de Como resultado dessa composição, as regras eleitorais de outubro expres-
savam um acordo enrre os integrantes da Comissão. Buscavam conciliar os
um trono justo? .
Essas circunstâncias estimularam os núcleos liberais de Lisboa que passa-

:f!Presidente: Principal Decano Gomes Freire de Andrade. Vice-prcsidcnte: Conde de


~(' Presidente: António da Silveira 1'inio dn Fonseca, vice: Scbasuão Drago Valente de Brito Sampaio. Vognís: Conde de Resende, Conde de Pennílel, Matins José Dias Azedo e
Caldeira. Vogais -— pelo clero: Luís Pedro de Andrade Brederode; pela nobreza: Pedro Hermano José Braamcamp de Sobral. Voyais pela Magistratura: Manuel Vicente Teixeira
Leite Pereira de Melo e Francisco de Sonsa Cirne Maduteíra; pel.i magistratura: Manuel de Carvalho e Joaquim Pedro Gomes de Oliveira. Vojj.iii pelo Comércio: José Nunes da
Fernandes Tomás; pela Universidade: Fr. Francisco S. I.uís; peio Minho: João da Cunha Silveiia e Luís Monteiro. Vogais pela Agricultura: Francisco de Lemos Bcttcncouri c
Soco Maior e José Maria Xavier de Araújo; peia Beira: José de Melo e Castro de Abreu c Bento Pereira do Gamos. Secretários: Barão de Molelos e Filipe Ferreira de Araújo e
Roque Ribeiro Abranches Cascelo Branco; por Trás-os-Montcs: José Joaquim Ferreira de Castro. Cf. Vargues. Aprendizagem tL: ciâtutani*, cti., p. <jííO.
Moura c José Manuel Ferreira de Sousa e Castro; pelo comércio: i : rnncisco José de Barros :" O governo de Portugal passou a ser formado, nessa data, pela J u n t a Provisional do
Lima. Secretários: José Ferreira Borges, José da Silva Carvalho e Francisco Gomes da Silva. Governo Supremo do Reino e pela Junta Provisional Preparatória das Cones, encarregada
Cf. Vargues, Isabel Maria Guerreiro Nobre. Qp. cit., p. 479. de tratar de tudo o que competia à reunião das Cortes. Vargues, Is.ibcl Maria Guerreiro
-' Santos, Clemente José do;, Daattnaitos fiara r. história das Cortei Gerais cia Nafãa Nobre. Ã aprendizagem iln cidadania. Op. cit., 1993, p- 58-63.
Portuguesa, tomo I (1820-1825). Lisboa, 1833, p. -í Io.
46 CONVOCAÇÃO DAS COUTAS: UM APULO NACIONAL CONVOCAÇÃO HÁS COUTES: UM API-I.O NACIONAL 47

que se inspiravam nos critérios das Cortes tradicionais, compostas de repre- princípios liberais adotados na Espanha, agora, entretanto, não se referen-
sentantes das três ordens (clero, nobreza e povo) e os que pretendiam formar ciava nessa Constituição para preparar as eleições.
um Congresso de representantes eleitos com base em uma relação de propor- A divulgação das primeiras instruções provocou, então, diversas manifesta-
cionalidade sobre o total de indivíduos da nação portuguesa-1". ções de descontentamento, levando a uma rcação militar em 11 de novembro
Em 38 artigos, as instruções referiam-se somente ao reino de Portugal e de l 320 e à demissão de dois dos representantes do Porto no governo33. No
definiam o processo eleitoral, que seria realizado em dois níveis: o primeiro entanto, estes últimos (um deles era Manuel Fernandes Tomás, o líder do
escolheria os eleitores por intermédio da "câmara, cabeça do distrito respec- Sinédrio) também se recusavam a assumir os critérios espanhóis. A revolução
tivo", e o segundo elcgena os deputados, reunindo, pata isso, todos os vitoriosa na Espanha havia formado uma Monarquia constitucional desde
eleitores nomeados nas Câmaras- de - determinada comarca. A indicação março, quando Fernando VII, o antigo rei, jurou o texto elaborado em Cádis.
determinava a quantidade de deputados cabíveis a cada comarca nas pro- A adocão dos critérios espanhóis naquele momento, quando D. João não se
víncias do Alentejo, Beira, Coimbra, Minho, Tras-os-Montes, Extrcmadun 1 . pronunciava sobre o movimento revolucionário, poderia significar uma sim-
c Algarve, partindo do totr.í d:1, população no ano de 180-r'1. ples anexação do território português aos domínios da Espanha.
E importante nntar que essas instruções apontavam para uni pi"oc.;;s;; No entanto, as manifestações favoráveis à utilização dos critérios de Cádis
eleitoral muito diferente dos que antecediam as Cortes tradicionais, pois nfu; foram vitoriosas. Em consequência, novas instruções foram publicadas em
se referenciavam nas ordens portuguesas e se dirigiam à população de cada 23 de novembro de l 820, seguindo rigorosamente o método previsto pela
comarca. Mas não atendiam as expectativas dos que esperavam procedo Constituição espanhola de f 81 2. Todos os artigos foram adaptados à reali-
mais ampío para a escolha dos legisladores. dade portuguesa, com exceção dos que se referiam à definição nacional.
Estabelecendo os dois níveis citados, os critérios de outubro não pressu- As novas regras estabeleciam, então, que a base para a eleição dos
punham eleições para freguesias e atribuíam às antigas unidades administra- deputados "é a população composta dos indivíduos que pelas duas linhagens
tivas — as Câmaras •— a função de centralizar as eleições de todo o distrito. são oriundos dos domínios espanhóis; dos que tiverem obtido carta de
Como cada Câmara cominha várias freguesias, evitava-se com tais regras a cidadão das Cortes e dos compreendidos nas disposições do artigo 21". Tal
realização de reuniões muito numerosas e contava-se com a antiga estrutura artigo definia como "cidadãos nas Espanhas" os que, além dos requisitos
administrativa do Reino para controlar o processo eleitoral. acima, tendo nascido nos "domínios espanhóis", "nunca os tiverem detxado
As instruções também não definiam uma reunião de eleitores provinciais, sem licença do governo, e que tendo vinte e um anos completos se domici-
embora discriminassem o número de deputados por província, e impossibi- liarem em qualquer povoação dos ditos domínios, exercendo nela algum
litavam a formação de bancadas com perfis regionais previamente discutidos. emprego, ofício ou ocupação útil"-1'1.
Além disso, o número de deputados estipulado para cada comarca era Provavelmente, a ausência de correçao indique a esperança de unificação
aleatório, obedecendo às necessidades dos acordos políticos e não à propor- com a monarquia constitucional espanhola. Caso os revolucionários perdes-
ção de suas populações. sem os domínios americanos diante de unia recusa da família real em aceitar
Desde a formação do novo governo, porém, diversos se toros da sociedade suas exigências, teriam a possibilidade de integrar o Reino português como
portuguesa já se haviam pronunciado favoravelmente à adocão dos critérios "província da Espanha".
Mas as novas instruções traziam modificações importantes. Definiam que
espanhóis definidos na Constituição de Cádis, em 1K12' 1 ". A [unta Piovisio-
naí portuguesa, que havia feito vários pronunciamentos em defesa dos "a base da representação nacional é a mesma cm ambos os hemisférios" e,
portanto, não se restringia ao continente europeu. A base para a proporcio-
nalidade passava a ser, dnramente, o total de indivíduos que integravam a
Arriagn, JOSL- d'. Op. cit., v. II, ji. 193-234.
Santos, Clemente José dos. Documentos, til., p. 8-Í-94.
somente a Fernando V i i , o rui destituído, o direito Icgíiimo de dirigir o Estado espanhol.
Essa Constituição foi elaborada entre 1810 L- 1812 por Cones reunidas »a cidade de Cádis
Tomou-se, porem, instrumento contra este mesmo tei quando, a parrir de janeiro de
quando quase todo o território espanhol estava ocupado pelos e:;ércitos napolcénicos, O
1820, foi retomada pelos liberais em movimento revolucionário contra o absolutismo.
texto final insistia na soberania da nação espanhola contra o invasor francês a, para. atingir
Vargucs. Áprtiidizagein da cidadania, cit.
este objetivo, tornava-se radicai na limitação dos poderes atribuídos ao monarca, c nos
Santos, Clemente José dos. Op. til., p. 108.
critérios de participação do "povo" na escolha dos representantes constitucionais. Atribuía
48 CONVOCAÇÃO DAS CORTES: UM APELO NACIONAL CONVOCAÇÃO DAS CORTÊS: UM APELO NACIONAL 49

nação portuguesa. Referia-se à população livre c produtiva c, sem fazer No entanto, o eleitor em qualquer nível deveria ser cidadão português
menção à escravidão, excluía os escravos e os homens livres sem ocupação. "em exercício". Isso porque estava definido, rambém, que perderiam os
Adotava-se como referência de cálculo o recenseamento realizado cm direitos da cidadania "os incapacitados físicos e morais", "os devedores
1801 e, com objetivo de alcançar um cotai de cem eleitos, estabelecia-se que falidos" ou os "devedores dos cabedais públicos", "os serventes domésticos",
haveria, "para cada 30.000 almas, uni depurado"1". ModÍficava-se aí o "os crirninososí!""e''OS"quc""não tinham emprego, ofício ou modo de viver
critério de proporcionalidade da Constituinte espanhola, que definia a conhecido"'1". Ou seja, o cidadão deveria ser moral e socialmente reconheci-
proporção de urn deputado para "70.000 almas". do como capaz de sustentar a família por meio de ativídade produtiva.
As novas regras mantinham o sufrágio indircro, mas criavam um processo Esse complexo sistema de eleição foi iielmente seguido durante o mês de
a ser realizado cm três níveis: freguesias, comarcas c províncias. Primeiro dezembro de 1820, chegando à-escolha dos ccrn depurados nas sete provín-
deveriam ser formadas as juntas eleitorais da primeira instância. Estas, cias de Portugal. Os mesmos critérios seriam utilizados na ilha da Madeira,
"compostas de todos os cidadãos domiciliados e residentes no território da nos Açores e no Brasil.
respectiva freguesia"31', elegeriam os comprem issários3*. Sua função seria A adoção das definições de Cádis, além de estender aos domínios
indicar pessoalmente urna lista completa, na qual não poderiam incluir-se, e- ultramarinos as mesmas regras pura as eleições, introduzia a província
escolher os representantes da freguesia para a Junta Eleitoral de comarca, como última instância para a escolha dos deputados. No caso espanhol,
que, por sua vez, designaria os eleitores desta instância para, na capital da essa definição atentava para as diferenças internas, que deitavam raízes no
província, eleger os deputados. Somente o voto do últimos deveria ser dado processo de unificação da monarquia. As províncias espanholas correspon-
por escrito ao presidente da mesa, ao passo que os outros seriam declarados diam a regiões historicamente autónomas que se haviam associado durante
abertamente nas reuniões de eleitores3". os séculos anceriores. A expressão "deputado provincial" aplicava-se aos
Portanto, os analfabetos estavam excluídos do último estagio das eleições. eSeicos nas 35 "províncias ou reinos" chamados a participar das Cortes 41 ,
Por outro lado, nas duas primeiras fases eleitorais as declarações de voto Reconheciam-se com essa designação as diferenças internas entre as regiões
permitiam todo cipo de pressão e de negociação para a composição das da Catalunha e Leão, por exemplo, além das notadas cncre os domínios de
delegações. ultramar.
A nomeação de eleitor de freguesia exigia residência no local e idade No caso porcuguês, os mesmos critérios traçavam as províncias do reino
acima de 25 anos. Também o eleitor de comarca tinha este limite de idade e europeu, instâncias polírico-adminismuivas, como unidades eleitorais que
devia ser "cidadão cm exercício de seus direitos". Finalmente, para ser eleito convergiam
o
nas Cortes. Assim, acenderam a algumas
D
diferenças
j
internas,'
como depurado, também exigia-se o nascimento na província "ou ser domi- entre as regiões do Porto e Lisboa notadamence, menos intensas do que as
ciliado nela com residência de sete anos, pelo rnenos", e "ter um rendimento verificadas na Espanha. Não reconheceram as antigas unidades administrati-
anual proporcionado e proveniente de bens próprios"3'1. Aparecia, porcanto, vas, as Câmaras, como unidades eleitorais e atribuíram às freguesias, tradi-
a condição da propriedade para o exercício da Rincão parlamentar. cionalmente ligadas à esfera cclesiáscica, o grau primário c mais amplo das
eleições.
Quando aplicados ao Brasil, cais cricérios elevariam as tradicionais capita-
nias à condição de unidades provinciais, reconhecendo nelas, também, certo
Adorava-se como referencia o r.no de 1801 um razão da ninior precisão obtida nesse ano,
grau de autonomia na escolha cios deputados. A partir de 7 de março de
quando o censo foi realizado por duas vias; a eclesiástica (registros paroquiais) c a civil
1821, as "novas instruções" acompanhariam o decreto que mandava proce-
(correições), levando à complementaridade dos dados. Cf. Scrrão, joel. Demografia portu-
guesa. Lisboa: Horizonte, 1973, p. 75-8. der no Brasil às eleições de deputados para as Cortes.
Idcin, ibidnn. E interessante notar que o termo paróquia não aparece como designação de Como vimos, o primeiro nível da eleição, nas freguesias, incluía amplo
uma instância eleitoral, embora o texto se refira a "eleitor de paróquia". Tudo conduz a
compreender "paiócjiiia" c "freguesia" como uma mesma instância eleitoral.
"Compromissário" era a designação que identificava o estatuto de quem elegia o depurado
na eleição indireca. Cf, Vargucs. Aprendizagem da cidadania, cit., p. 469. Santos, Clemente José dos. Documentos, cit., cap. III, art. 45-
Santos, Clemente José dos. Documentos, cit., p. 108. Sidera, Pilar Chav.irri. Los elecciones de dipittaâoí a Ias Cortes generales y
Artigos 91 e 92. Documentos, cit., p. 113- (1810-1813)- Mndri: Centro de Esiutlios Consiicucionales, 1988, p. 1-28.
50 CONVOCAÇÃO DAS CORTES: UM APELO NACIONAL CONVOCAÇÃO OAS CORTES: UM APELO NACIONAL 51

setor de homens livres. Excluía escravos e "improdutivos", mas, ao não sentavam o alto clero e em geral resistiam às grandes mudanças. Outros
atrelar a participação à condição de proprietário, poderia envolver os sctores deputados importantes estavam ligados ao magistério, como Soares Franco,
sociais intermediários das diversas regiões brasileiras. Os níveis superiores da Margíochi, Basílio Alberto de Sousa Pinto. Do exército, destacara m-se os
eleição incluiriam, porém, número cada vez menor de participantes e a nomes de Agostinho José Freire, Barreto Feio, Sepúlveda, José Joaquim
última instância, a que escolhia os parlamentares, reuniria um scícto grupo Ferreira Moura. Importantes oradores do Congresso, como Fernandes To-
cm cada província. Como em Portugal, os deputados eleitos deveriam ser rnas, José António Guerreiro, João Vicente Pimcntel Maldonado exerciam a
"cidadãos proprietários" com renda significativa. magistratura. Outros parlamentares de destaque, como Borges Carneiro,
As instruções definiam, também, que "aos deputados de ultramar se lhes Ferreira Borges e Correia Teles, também escavam ligados a órgãos do
abonarão que se julgar necessário, ajuízo de suas respectivas províncias, para Judiciário1'1.
as despesas de viagem, ida e vinda". A todos os eleitos seriam concedidos As pnmeiras providências tomadas visaram dotar o "soberano Congres-
4.800 réis por dia, pagos pelo erário, desde que "se pusessem crn marcha para so" dos meios necessários ao seu funcionamento. Elegeram-se o presidente,
a capital" . Essas definições criaram problemas em certas províncias. vice, secretário:-: -..: um no^o ex-jcutivo que hinciomiu aié o regresso do rei em
Alguns deputados, como os de Santa Catarina c Rio Negro, retardaram a julho cie l o 2 I . Além dtssn, criaram-se algumas comissões específicas c- v
partida em virtude de lalta de recursos locais c pagaram suas despesas de trabalho: a da Constituição, da Guerra, da Saúde Pública, do Comércio, das
viagem. Outros, como Joaquim Clemente da Silva Pombo, do Pará, sem Artes e Man ufa t u rãs c dos Negócios Estrangeiros.
condições de cobrir os seus gastos da viagem, não participaram do Congres- A comissão qu<_ primeiro apresentou seus trabalhos rói a da Constituição,
so. E vários dos presentes em Lisboa tiveram a estada marcada pela espera da esboçando unr.t proposta cie bases para a elaboração do texto constitucional.
remessa de fundos'' 3 .
direitos da nação portuguesa ;LO dizer: ''Senhores, os membros da comissão,
As bases constitucionais e o Brasil bem longe de se encaminharem no labirinto da teorias dos publicistas
modernos, foram buscar as principais bases para a nossa constituição ao
As "Cortes Gerais, Extraordinárias c Constituintes da Nação Portuguesa" nosso antigo direito público, posto acintosamente em desuso pelos ministros
instalaram-sc em 26 de janeiro de 1821 com um total de cem deputados do despóticos, que lisonjeavam os reis à custado povo. Assim, senhores, quando
reino de Portugal, em clima de tranquilidade. A ausência do rei e da Corte proclamaram no art. 18, sessão 2.J, o princípio fundamentai da soberania e
fazia que todo o poder se concentrasse nas mãos do Legislativo e atenuava o independência da nação, nada mais fizeram do que renovar o que já por
conflito entre a veiha e a nova ordem. muitas vezes Se havia proclamado nas épocas mais assinaladas tia nossa
Assim como os governos formados durante o processo revolucionário, os história""'^.
depurados eleitos representaram diferentes posições quanto à relação a ser Os direitos da nação portuguesa, afirmava o deputado, haviam sido
estabelecida com o monarca, quanto aos limites da soberania da nação e proclamados nas Cortes de Lamcgo, que deram a Coroa ao vencedor de
quanto às posições a serem defendidas no tocante ao Brasil. Ouríque, D. Afonso Henriques; reafirmados em Coimbra, quando as Cortes
Todos os deputados manifestavam-se favoráveis à soberania do Congres- conferiram a D. João \, da casa de Bragança, o título de rei; defendidos em
so. No entanto, como veremos, tinham concepções diferentes sobre a forma 1640, quando os portugueses "esmigalharam'' os Hlipes, proclamando no-
como essa soberania deveria ser constituída. Entre os que mais se destacaram, vamente a soberania c a independência da nação lusa; c foram novamente
havia uns poucos representantes da nobre/a, como o Barão de Moielos, c afirmados nas Corres de 1679 e de 1697.
vários do baixo clero, dos quais João Maria Soares Castelo Branco, Rodrigo Continuando nesse tom, afirmava Pereira do Carmo: "Eis aqui, senhores,
de Sousa Machado e Anes de Carvalho são exemplos. Alguns bispos repre- como esce princípio do nosso Evangelho político, que tanto assusta os

>- Are. 102. Santos, Clcmcnrc José dos. Documentos, ai., 115 d t: Podem •—• 1821.
•|! Conforme registros das Aias da Comissão de Verificação de Poderes -— 1821*1822. Lisboa: '•* Arriaga, Josc d'. Op. cii., v. II, p. 556-9.
Assembleia da República. 15 Diário dm Cortts Constituintes, 26 de janeiro de 1821.

' '
52 CONVOCAÇÃO DAS CORTES: UM APB.O NACIONAL CONVOCAÇÃO DAS CORTES: UM APELO NACIONAL 53

monarcas da Europa, era reconhecido e praticado em Portugal, havia bem pnonzavam a preservação da autoridade da dinastia de Bragança. Por isso, as
perto de seiscentos anos. Mas tais doutrinas não serviam nestes últimos sessões destinadas ao tema foram acompanhadas por mulridao que se aglo-
tempos, e em seu lugar se deixou livremente correr, ou, para me explicar merava nas galerias e por todo o corpo diplomático presente em Lisboa.
melhor,-mandaram que se acreditasse que o poder dos reis vinha imediata- As duas grandes alas do Congresso apareceram então de forma mais clara.
mente de Deus, ideia sacrílega e absurda, que marca pontualmente até onde Os conservadores, representados pelos deputados Pinheiro de Azevedo,
havia chegado a nossa degradação" 4 ' 1 . Trigoso e Camelo Fortes, procuraram de diversas formas diminuir os pode-
Portanto, o trabalho do Congresso era de "regeneração" da monarquia e res do Parlamento. Defenderam o direito de veto absoluto do rei, a formação
dos direitos tradicionais.da nação portuguesa, os quais, estipulados desde a de um Conselho de Estado que dividisse com o Congresso c o monarca as
formação do Remo, haviam sido desvirtuados pelo absolutismo, em nome da funções do Legislativo e a formação de duas Câmaras para a composição do
"ideia sacrílega" do poder divino dos reis. O "soberano Congresso" aparecia, Parlamento.
nesse discurso, como legítimo herdeiro das antigas Cortes. A proposta de Na defesa da soberania do Congresso, configurou-se uma coalizão entre
Constituição era a afirmação dos direitos tradicionais e não urna transcrição os diferentes grupos liberais. Fernandes Tomás, do Porto, e Borges Carneiro,
dos publicistas modernos. eleito em Lisboa, defenderam o direito de veto suspensivo do rei e o sistema
No entanto, o texto era cópia quase literal das Bases Constitucionais de de Câmara única para as funções do Legislativo, e foram vitoriosos. O veto
Cádís. Foi discutido durante alguns dias e bravamente defendido pelos suspensivo aparecia como recurso para a negociação com o restante dos
deputados mais radicais. deputados. O rei poderia suspender a aplicação de uma medida aprovada
O primeiro tema a causar polémica seria o da libetdade de imprensa, pelo Congresso, mas, nesse caso, deveria remeter a matéria para nova
tratado nos artigos 8, 9 e 10, e já nesse momento se pôde observar uma discussão e aos deputados caberia a decisão quanto à sua manutenção.
primeira divisão política no Congresso. Esboçou-se uma ala conservadora As posições de Fernandes Tomás sobre a soberania da nação (que mais à
representada pelo Bispo de Beja, por Anes de Carvalho e Fogoso que se frente serão explicitadas quando se tratar da "questão brasileira") apareceram
levantaram para defender a censura prévia. No centro de suas preocupa- claramente nessas definições da Constituição. Foi contrário à formação das
ções estava a questão religiosa, que não poderia ser dcbarida sem censura, duas Câmaras porque considerava a soberania da nação una e indivisível. Em
sob risco de dissidências. Na defesa da liberdade irrestrita pronunciaram-se sua opinião, a segunda Câmara significaria uma forma de interferência do
Castelo Branco, Serpa Machado, Borges Carneiro, Bento Pereira do Car- Executivo, uma vez que, formada com base em critérios diferenciados,
mo e Agostinho José Freire, que não hesitaram em associar a censura à representava as partes superiores da nobreza, assim como nos modelos inglês
inquisição. Ao final, foi rejeitada a censura em assuntos políticos e reli- ou francês. Contrapunha a essa fórmula a ideia de que os interesses da nação
giosos"17. só poderiam ser expressos em uma única Câmara e, a partir dela, seriam
Essa primcita discussão sobre o projero preparou, na verdade, um tema amalgamados com os interesses do monarca. A nação una e indivisível tinha
delicado: o direito de veto a ser atribuído ao rei. De acordo com a proposta sua feição mais completa no Legislativo, que deveria ser formado somente
da Comissão, definia-se que o Poder Legislativo residia nas Cortes, corn por representantes eleitos. Aquele poder caberia, portanto, a última palavra
dependência da sanção do rei, o qual nunca poderia ter direito de veto sobre a aplicação das leis.
absoluto. Em outro momento da discussão, o líder da revolução do Porto csclateceu
A discussão era fundamental, pois as decisões do Congresso poderiam ser novo aspecto da sua concepção sobre a indivisibilidade nacional. O artigo 17
rctardadas caso estivessem subordinadas à aprovação de um rei que se das Bases definia a religião católica como a oficial do Estado, mas previa a
encontrava além-mar c que, ainda, não se comprometia com o trabalho tolerância aos demais cultos. Tal princípio foi aprovado sem discussão, mas
realizados peSas Cortes. Além disso, o princípio da soberania nacional, tão alguns dias depois os deputados conservadores apresentaram dois protestos
caro aos iiberais do Porto c de Lisboa, poderia ser derrotado pelos que contra a votação, c um deles questionava, também, a liberdade de imprensa
ern assuntos religiosos. O protesto apoiava-se, segundo os seus defensores,
ern reaçõcs das províncias do Norte, que estariam descontentes com as
Ibidem. decisões do Congresso.
Ibidem, 22 de fevereiro de 1821
Diante de tais argumentos, Fernandes Tomás esboçou pela primeira vez a
56 CONVOCAÇÃO DAS CORTES: UM APELO NACIONAL

ruptura com a dinastia de Bragança e preferiam negociar a continuidade do


Império Luso-Brasil eiró.
Esse conjunto de pressões levou o nacionalismo vmtisca a definir a nação
como "os portugueses de ambos os hemisférios" e a jurar fidelidade ao
monarca. No entanto, as contradições que embasaram tais definições viriam
à tona durante os trabalhos da Constituinte.
Em março de 1821 especulava-se, na imprensa, sobre a possibilidade de a
Inglaterra apoiar o governo do Rio e D. João decidir-se pelo confronto com o
reino europeu . Os deputados de Portugal procuravam, então, uma concilia-
ção com o rei e não avançavam nenhuma medida que se chocasse com sua 2.
autoridade. Ao mesmo tempo, tentavam estender a revolução ao território do
Brasil. Uma carta das Cortes dirigida a D. João em í 5 de fevereiro de 1821
ADESÃO DO BRASIL
defini t t Ç r y f z t cê denarca como a de "levantar o edifício político de modo AO APELO CONSTITUCIONAL
que possa compreender no seu âmbito todos os filhos da monarquia" e
solicitava que 3 "mão proveniente e benéfica" do rei guiasse "toda a dispersa
família portuguesa até o recinto comum deste mesmo edifício'1''". Esperavam
que as eleições no Brasil ocorressem a partir da adesão de D. João.
O silêncio do governo do Rio de Janeiro até abril acirrou os ânimos, Norte e Nordeste: a unidade da "nação portuguesa"
provocando constantes manifestações. Em 3 de fevereiro, por exemplo, o
constituinte Pereira do Carmo propôs fossem escolhidos deputados substitu- uando os deputados de Portugal iniciaram os trabalhos da Cons-
tos pelo Ultramar, nomeando-se os naturais desses domínios residentes cm tituinte em janeiro de 1821, as primeiras adesões ao novo regime instalado ern
Portugal. A proposta foi duramente rebatida pelo Deputado Casteio Branco, Lisboa já haviam ocorrido fora do território europeu. Na ilha da Madeira e,
cujo argumento era a unidade do Império: "[...] e quando por quaisquer parcialmente, nos Açores, ainda durante o mês de dezembro de 1820.
meios se pudesse conseguir que o Brasil [...] se decidisse livremente por uma O Pará também aderiu ao governo de Lisboa já ern 1." de janeiro de 1821,
Constituição liberai, poderá algum de nós afirmar qual seria seu destino, ou antes mesmo da "instalação da Constituinte no dia 26. O então governador e
que vereda seguiria? Unír-se-ia a Portugal para formar corn ele o mesmo capirão-generai, Conde de Vila Flor, foi deposto e formou-se a primeira
império, ou seguindo o exemplo da América setentrional, estabeleceria uma junta provisional de governo no Brasil, seguindo o padrão das adesões
confederação independente? [...]. Portanto, o meio mais seguro que temos revolucionárias da Espanha e de Portugal desde 1807. A junta do Pará
para fixar o destino do Brasil relativamente a nós é fazer por meios concilia- subordinava-se diretamente ao governo de Portugal e desconhecia a presença
dores que ele dependa de El-rei, o qual, como um centro de união, o dirija" 5 ''. da Corte no Rio de Janeiro. Sem texto elaborado pelos constituintes, adota-
Foram os movimentos de adesão ao regime constitucional nas capitanias va, provisoriamente, a Constituição de Cádis1.
do Brasil, sobretudo na Bahia e no Rio de Janeiro, que apressaram a alteração Quanto à sua deputação cm Lisboa, a província elegeu D. Romualdo
desse quadro, fazendo com que o Rei jurasse a Constituição c retornasse a Seixas Coelho, vigário c a p k u h í - do bispado e presidente da Junta Prnvisó-
Portugal. Até esse momento, porém, lá prevalecia a indefinição.
1 Silva, T . M. i"'cr<.-ira. ítiíiúri.-:;'.: ilunLfJ-j i'» /»//«'.'« llriísilfir,!. Rio de Janeiro: Garnicr, v.
5, livro 9, p. 68-9. O vicí pre.,i(lemc da JI:IH:Í era o juiz de íbr.i da cidade, Joaquim Pereira
de Macedo, e tinii.i Lomo vo;;nis <>s coronel.- João Peiviui Vilaça, Francisco José Rodrigues
BaraE.i e Geraldo José i!;: Abras, -•) tt n c me-f trone í Francisco José de Farias, o negociante
Alexandre, Valcndm. O nacionalismo vintista e a questão brasileira. O liberalismo na
Franciicti Gonçalves í.im;; e o c agricnltorei João da l-onsuc1, Heiias e José Rodrigues de
Península Ibérira. Lisboa: Sá da Costa, 1981, v. I, p. 293.
Castro Gois. Cf. Morras. Aiex ;iidic Josi de Mello. Histiri,; th llrjsit-Rdiii,) •- fio Brasil-
Santos, Clemente José dos. Documentos, v. I, p. 159.
Inipério. S;lr> Pauio-Ln-lo Hori-.:oiH-j: ! 7 .di!-,|i-::r,tiyia, 19tí2, p. 51.
Diário das Cortes Constituintes, 3 de fevereiro de 1821.
58 ADI-SÁO DO BRASIL AO AH-I.O CONSTITUCIONAL
59

A Bahia parece ter sido o único caso em que a eleição dos deputados foi
ria, e o advogado Francisco de Sousa Moreira, formado em Coimbra 2 .
precedida de esclarecimentos da imprensa, como o demonstra uma nota ao
A Bahia foi a segunda capitania do Brasil u aderir e a formar uma junta,
Semanário Cívico em junho de l 82 i: "Temos a notar só uma coisa, c é: na
em 10 de fevereiro. Embora as Cortes já estivessem reunidas, o momento
Espanha, Portugal e na Bahia antes de se proceder às eleições dos comissá-
ainda era de indefinição. Não se conhecia a posição a ser adotada pelo
rios, e às outras, todos os redatores se cansaram em instruir o público sobre
governo de D. João e, em Portugal, os deputados preparavam as Bases da
Constituição. Portanto, a subordinação ao governo de Lisboa expressava as qualidades, que deviam ter os eleitores, e deputados. Deram-se instru-
ções impressas aos vigários, repertórios para os dirigir nas eleições, etc., o
desobediência aos desígnios do monarca.
que se fazia indispensável para as eleições não serem defeituosas, e recaírem
O processo aí verificado causou maiores comoções, repercutindo tanto no
'só nos beneméritos. Ora, no Rio de Janeiro não consta que na Gazctasc im-
Rio de Janeiro quanto nas regiões vizinhas. Tratava-se de capitania funda-
primisse coisa alguma a este respeito, e o mesmo aconteceu em Pernambu-
mental para a composição do Reino do Brasil, em virtude de suas atividad.es
co, onde já se procedeu às eleições". Concluía-se que "os governos do Rio
económicas e de sua importância político-administrativa. Além disso, revo-
de Janeiro e Pernambuco tiveram vistas .sinistras, e quiseram dirigir as elei-
lucionária no final tio século XV111, compunha a delicada área atingida pelo
ções a seu jeito" s .
movimento de 1817.
Embora a Junta da Bahia tenha sido formada em 10 de fevereiro, as
Ern 1821 manifestavam-se, ainda, as sequelas desse processo. A partir de
eleições só ocorreram em 2 de setembro, com participação de 24 eleitores,
fevereiro, após a adesão da Bahia ao governo de Lisboa, o movimento
excetuando-se os representantes da vila de jacobina, que escolheram seu
constitucional espalhou-se pelo Nordeste, reivindicando a formação de jun-
deputado posteriormente r '.
tas de governo que substituíssem as nomeadas pela Corte joanina. As
As características dos deputados eleitos devem ser ressaltadas.
insatisfações regionais expressas em 1817 c controladas pela intervenção real
Todos eram nascidos na Bahia. Francisco Agostinho Gomes havia parti-
adquiriam agora formato do liberalismo de Portugal.
cipado, ao lado de José Cipriano Barata de Almeida, da conspiração dos
A ligação entre 1817 e 1821 evidenciava-se nas próprias atitudes dos
alfaiates de 1798 e, por esse motivo, exilou-se em Lisboa. Barata foi preso por
novos dirigentes baianos, que, rccém-eleitos, libertaram os presos revolucio-
sua participação nesse movimento e em 1817 íoi uni dos principais envolvi-
nários de 1817, entre eles vários dos futuros deputados do Brasil às Cortes
dos nas ramificações da revolução pernambucana na Bahia. Dessa vez em
Portuguesas.
liberdade, atuou na defesa dos que estavam detidos nos cárceres baianos até
O movimento baiano de adesão a elas havia sido planejado por três
1821. Neste ano, participou com o u u o deputado eleito, o médico José Uno
tenentes-coronéis, Francisco José Pereira, Francisco de Paula e Manuel
Coudnho, integrante da Junta Provisória, do movimento constitucional de
Pedro de Freitas Guimarães, que controlavam os regimentos de cavalaria,
fevereiro'.
infantaria c artilharia de guarnição da cidade. Contaram com apoio dos
Diferente foi a trajetória do Marediai Luís Paulino de Oliveira, também
oficiais da Câmara, funcionários c pessoas de projeção na capitania, unindo
deputado peíu Bahia. Em 1823, quando já se havia concretizado a separação
baianos e portugueses ''para quebrar o jugo do absolutismo" 3 . Composição
entre os reinos de Portugal e Brasil, aiuou como emissário de D. João Ví
semelhante se verificava na Junta Provisória formada após a retirada do
antigo governador, Conde de Palma, para o Rio de Janeiro, e também
adorou a Constituição de Ca'dis provisoriamente .
[.is e iusJ .'Vinònir Rodrigues Vhn.i. ^-.iíi , nincrciu; Paulo José de Melo pela agricultura c
í> desembargador í.uís Manuel du Mour . 1'ubial pela cidade. Eram secretários de governo:
o dês L-;;I babador J o s O C;v.:truio de r ' i v... l-Vreir.i ,.: o bachr.rcl \nsi i.ino Coucinho. Cí.
Mor.ics; Alexandre José de iVíciio, O/,. cí< , p. 53.
Neves, Lúcia Maria Bastos Pereira das. Corcunda, cotisiitnciutiitis c pés de chumba — a
/!/Wí/Silva, Maria Beatriz Nizza da. ÍVÍ<JVÍIHHIÍV constitucional e ieparatiimo no Brasil 1821-
adtsint política t/a Independência (!o2fl-ÍS22). Tese de doutoramento apresentada ao
1823- Lisboa: Livros Hon/.ome, I9SIÍ, ;;. 55.
Departamento de História/FFLCH-USi1, mhneo, 1992, v. i, p. 67.
S£»Í.IH,ÍIW Cívico, n." 29, 13 de vjcc-inbro de 1821. ApnJ Silva, Maria Bcatri/. Nizza da.
Silva, J. M. Pereira, Of. cif., p. 97-8.
Movimento constitucional, d'.., p. 79-31.
Formavam ajunta da Balnn: n reverendo Deão José Fernandes tia Silva Freire, pelo clero;
Bulcão Sobrinho, António de Araújo de Aragáo, A Bahia nas Cortes de Lisboa de 1S21-
os tenentes-coronéis Francisco de Paula e Oliveira e Francisco José Pereira, pela milícia,
KIHGB.
além do te n ente-coronel Manuel Pedro de Freitas Guimarães; Francisco Amónio Filguci-
60 ADESÃO DO BRASIL AO Areio CONSTITUCIONAL ADKSÃO DO BRASIL AO AH-I.O CONSTITUCIONAL 6i

junto QS tropas portuguesas, encarregado de interromper os enfrcntanientos cão, ordenou a escolha dos eleitores ern todas as paróquias de Pernambuco,
na Bahia. Foi classificado como inimigo pelo governo da província. Tentou presidiu as eleições das quais saíram os sete representantes da província nas
abrigo no Rio de Janeiro em Í 824 e, sem conseguir, morreu durante viagem Cortes c foi o primeiro a providenciar a partida dos deputados para Lisboa,
de retorno a Lisboa. Em virtude dessa trajctória, é normalmente apontado em excelentes condições de viagem. Como relatou Cipriano Barata às Corres
como traidor e pró-portugueses em todas as análises sobre a participação dos em 10 de janeiro de 1822, enquanto os baianos deixaram sua província
deputados do Brasil. como "degredados para Angola", os pernambucanos receberam corveta de
No entanto, Luís Paulino já estivera em oposição aos outros deputados guerra muito bem preparada.
baianos antes da eleição. Em 1817, integrara as forças enviadas por D. João A adesão pernambucana ocorria, então, de forma diferente das duas
VI para conter os revoltosos do Nordeste, como ajudantc-geral da expedição anteriores. Liderada por um capitão interventor do governo do Rio de
enviada da Bahia sob ordens do Conde dos Arcos8. Janeiro e feita depois do juramento de D.João à Constituição, ela expressava
Compunham, ainda, a bancada baiana: Domingos Borges de Barros, avo de obediência ao Rei português. Além disso. Rego Barreto continuava
depois Visconde de Pedra Branca, que cm 1815 havia participado do Senado corno governador da província e se recusava à formação de uma Junta nos
da Câmara da Bahia; o vigário da freguesia de Vitória. Marcos António de moldes das formadas no Pará e na Bahia.
Sousa, cuja trajetória política iniciou-se com as acividades de deputado; Um novo governo provincial só to i efetívado cm Recite no final de
Alexandre Gomes Ferrão Castelo Branco, agricultor em Nossa Senhora do agosto, sob pressão do movimento da vila pernambucana de Goiana, que,
Monte do Recôncavo, que em 1805 e 1815 havia sido vereador da Câma- formando uma junta rebelde baseada nos princípios de Lisboa, fazia aberta
ra em Salvador, e Pedro Rodrigues Bandeira, comerciante na cidade de Ca- oposição à autoridade do governador" 1 . Antes disso, tentando manccr-se à
choeira, grande proprietário de imóveis em Salvador e um dos principais treme do movimento constitucional, Rego Barreto mandou prender e perse-
acionistas do primeiro banco criado na Bahia'. Os dois últimos não se guir vários dos seus opositores. Foi vítima de atentado no final de julho e
pronunciaram nas Corccs de Lisboa. deporto u 42 prisioneiros para julgamento, e.rn. Lisboa, o que, posteriormente,
A Bahia também elegeu como suplentes: Inácio Francisco Silveira da seria objcto de discussão entre os depurados''.
Mora, Cristóvão Pedro de Morais Sarmento e Francisco Elias Rodrigues da Muni?, Tavares, ex-prisioneiro dos reprcssorcs A 1817 e um dos eleitos
Silveira; no entanto, como todos os titulares assumiram seus cargos crn para as Cortes, onde seria o principal orador da bancada pernambucana,
Lisboa, não chegaram a tomar posse. comenta em suas memórias o processo eleitoral: "Os eleitores, pela maior
Em Pernambuco, o processo foi diferente. Desde 29 de julho de 1817, a parte pernambucanos, [...] depositaram nas urnas os nomes de cidadãos
capitania passou a ser dirigida pelo Capitão-Mor Luís do Rego Barreto, que que não eram nem podiam ser favorecedores do despotismo"12. Para ele,
fora enviado por D. João Ví para debelar a revolução. Rego Barreto foi figura
de destaque no controle da região, talvez só superado pelo Conde dos Arcos,
que, como governador da Bahia, auxiliou na intervenção, invadindo Per- O movimente de Guiana ocorreu por iniciativa de Filipe Mena Calado da Fonseca,
português c amigo escrivão da correição do Ceará, e Manuel Clemente Cavalcanti de
nambuco. A tarefa foi realizada com numerosas prisões nos cárceres baianos,
Albuquerque, ambos ;irisioneiros cm 1817, c contou com o apoio tios senhores de en-
perseguições, mortes e expulsões, o que fez dos dois governadores sinónimo genho da redondeza. Formou uma junta de governo cm 2') t!e agosto de 1821 que se decla-
do despotismo português entre os habitantes das duas capitanias. rava fiel a D. joáo VI. governo cunstitucionaJ [empor.nio e div.i.1 .i^ir de jcordo com a,
A rapidez das eleições, feitas em 26 de março de 1821, ocorreu cm virtude Corte.; Gerai.-, da Nação Poruigu-". -^n1 m r u i r r , de •.epr.ir.iíi. Hr.i formada nor: Di.
da açao de Rego Barreto, que era ainda governador da província. Ante a Francisco de Pr.uía Gomes dos iijmo:;, joav];iim .Vl.tniir. Já om!;1. limito Maio;, Amónio
Múxur.o de .Sousa. M a n u e l Silv^ue r!- Ar.;i!J:i. leio C.mns de Me!,) .' A l n n q n e m u e , Jn^;
formação das juntas de governo nu P.u\ e n;i Bnhia e, notadameme, rlepoN
L.unK'k! 1'c^u.i ò.: M^-lc. Padre M n u i i d du-, Rei'. Cm. ;,[>>, :;c; ; !.ir.lo i Vidra do OUITI ;,
do juramento à Constituição feito por D. João VI em fevereiro, ele aderiu
prontamente ao regime de Lisboa- Proclamou as bases da futura Consduii- Joaquim Cucilio í.o|vs de Castro. Cl'. Liin.i. íVaniicl iL Oliveira. O i>:orinii-ntv <i:
lmL-<:ci^--nciJ. Belo Homníiíe-ÍMo 1'aulo: Iratiaia-EJusp, l 'W.>. ir. :.o-9(v
Lima, X í a i i u c l de Otivcita. O}>. dl., p ívi-^íl.
ravjiti. i-[;i:icisci> Muni:'.. rlistOria da Revolução -.:n, IVinambtKu em i H 17. JlIHCii
6V-.18Q, 1897.
r

62 ADESÃO DO BRASIL AO APELO CONSTITUCIONAL ADESÁO DO BRASIL AO APELO CONSTITUCIONAL 63

Rego Barreto presumia que das informações dos deputados, "quando também foi cx-revolucionário de 1817- Respondeu a processo e, cm 1821,
entrassem no exercício de suas funções, dependeria provavelmente o êxito fez parte do governo provisório contra o capitão-general nomeado por D.
do plano que havia imaginado, isto é, passar por zeloso liberal e [...] João VI1'. Manuel do Nascimento Castro e Silva, secretário do governador
perpetuar-se no governo da província" 13 . No entanto, a acívidade inicial da província; Manuel Inácio de Sarnpaio lli ; José Martmiano de Alencar e
dos deputados pernambucanos foi marcada pelas denúncias ao "despotis- Padre Manuel Filipe Gonçalves — que não se pronunciaram no Congresso
mo" de Rego Barreto e pela defesa da formação de uma junta provisória — completavam a delegação cearense em Lisboa, Além deles, Manuel
para governar a capitania. Pacheco Pimentel foi eleito como substituto e não chegou a assumir suas
Quase todos os eleitos por Pernambuco pertenciam à facção vencida em funções.
1817. Eram eles: João Ferreira da Silva, Manuel Zeferino dos Santos, Inácio Na Paraíba, o governador também guiou-se pelas'atitudes do capitão
Pinto de Almeida c Castro, Félíx José Tavares Lira, que foi o emissário do pernambucano e a província só formou uma junta provisória cm 3 de
governo revolucionário cm Bueiros Aires, Francisco Muniz Tavares, um dos fevereiro de 1822. Nessa data, finalmente, realizaram-se as eleições para as
principais líderes da revolução, preso na Bahia durante três anos e Domingos Cortes1'1, que escolheram quatro deputados. Dois deles não integraram o
Malaquias de Aguiar Pires Ferreira, 'integrante da delegação que foi aos Congresso por motivos desconhecidos: Francisco de Arruda Câmara e Vtrgí-
Estados Unidos negociar a compra de armamentos e que, não podendo nio Rodrigues Campeio, um dos presos na Bahia pelas atívidadcs revolucio-
retornar em virtude do fracasso da revolução, só chegou a Pernambuco às nárias de 1817- José da Costa Orne, eleito substituto, só pôde tomar posse
vésperas das eleições para as Cortes14. A cxceção era Pedro de Araújo Lima, nas Cortes em 15 de julho de 1822, quando se evidenciou a ausência dos
que estudou em Coimbra entre os anos de 1813 e 181911. D. Francisco dois titulares. Francisco Xavier Monteiro da França, que integrou as Cortes
Xavier de Locio c Seiblitz foi eleito como substituto, mas não chegou a tornar em fevereiro de 1822, foi o paraibano que mais se destacou durante os
posse de suas funções, porque todos os titulares da delegação se fizeram debates. Também ele participara da revolução de 1817 como membro do
presentes ern Lísboa. governo revolucionário211.
Aiém desses, a comarca do Sertão de Pernambuco elegeu três deputados: Alagoas ceve junta própria desde junho de 1821 e, com o antigo governa-
os titulares José Tcodoro Cordeiro, que não foi para as Cortes por motivos dor na presidência, fiel às Cortes de Lisboa, procedeu à escolha dos deputa-
desconhecidos, e Serafim de Sousa Pereira, falecido antes do embarque e dos21. Os três eleitos ingressaram nas Cortes ern 17 de dezembro de 1821.
substituído por Manuel Féhx de Veras, suplente, que só ingressou nas Cortes Eram eles: Francisco de Assis Barbosa, Manuel Marques Grangeiro c Fran-
em 16 de agosto de 182216. cisco Manuel Martins Ramos. Sabemos, somente, que o úlcimo era coronel
No Ceará, a exemplo de Rego Barreto, o governador recusou-se à forma- no momento da eleição.
ção de uma junta. Só foi deposto em 3 de novembro de 1821, quando se No Maranhão, que tradicionalmente formava uma mesma unidade ad-
reuniram os eleitores da província, obedecendo ao decreto das Cortes, e ministrativa com o Pará, o processo de adesão às Cortes também se deu por
formou-se um novo governo. iniciativa do governador, Marechal Bernardo da Silveira Pinto da Fonseca,
Nesse momento, foram eleitos seis deputados. No entanto, José Inácio que administrava a capitania desde 1819. Ele organizou a junta provisória
Gomes Parente recusou o mandato, alegando doença, e Pedro José Costa em abril de 1821, reconhecendo somenrc a autoridade de Lisboa. O proces-
Barros também não compareceu às Cortes. Quatro foram para Lisboa e só so de escolha dos deputados às Cortes iníciou-sc cm l." de julho, chegando à
chegaram em maio de 1822. Tiveram, portanto, participação limitada no.s
debates do Congresso e eram os seguintes: António José Moreira que
Suitiart, Guilherme. Dicionário viu bibliográfico ceantise. Fortaleza: Tipo Litografia a
vapor e Tipografia Minerva, de Assis Bezerra, 1910, v. I e lil.
Blake, Augusio Vitorino Alves Sacramento. Dicionário bibliográfico brMileiio. Rio de
Idem, ibidein. Janeiro: i ipografia Nacional de Imprensa e Imprensa Nacional, 1883-1902, v. VÍI, p.
Costa, Francisco Augusto Pereira da. Dicionário i/iográfict' de pernambucanos ciiebrs. 394.
Recife: Tipografia Universal, 1882. Lima, Manuel de Oliveira. O Movimento da Independência, cit., p. 95.
Macedo, Joaquim Manoel de. Of. cit., v. II, p. 163. Blake. Op. cit., \. VII, p. 394.
Carvalho, M. E. Gomus de. Of>. cit., p. 103-38. Lima, Manuel de Oliveira. Op. cii., p. 96.
í 64 ADESÃO DO BRASIL AO APELO CONSTITUCIONAL

indicação dos eleitos em 5 de agosto22. A província indicou dois deputados.


ADESÃO DO BRASIL AO APELO CONSTITUCIONAL

cionalísmo de Lisboa. A da Bahia resultou de processo eleitoral que durou


65

Um deles, Raimundo de Brito Magalhães e Cunha, foi dispensado por meses e possibilitou o envolvimento de setorcs divergentes. Incluía desde um
problemas de saúde que o impediam de fazer a travessia. O outro, Joaquim militar comprometido com o governo joanino até participantes do movi-
António Vieira Belford, assumiu as funções em novembro de 1821. Era mento de 1817. E, apesar do controle do governador, os deputados de
desembargador e teve importante papel nos debates sobre o Judiciário. José Pernambuco eram, quase todos, revolucionários que se haviam envolvido
João Beckman e Caldas foi eleito substituto, mas não seguiu para Lisboa. com a República tfo Nordeste-. .
O Piauí elegeu Domingos da Conceição e Miguel de Sousa Borges Leal, As juntas do Maranhão, em abril de 1821, do Rio Grande do Norte, cm
que ingressaram nas Cortes ern julho e agosto de 1822. Ovídio Saraiva maio, e de Alagoas, em junho, foram formadas por iniciativa dos antigos
Carvalho e Silva era substituto c não precisou ir a Lisboa. Sabemos, somente, governadores. Esses colocaram-se à frente do movimento constitucional e
que o primeiro era advogado e o segundo pertencia ao clero. declaravam reconhecer, somente, a autoridade das-Cortes de Portugal.
A província do Rio Negro escolheu como titular José Cavalcanti de A eleição dos deputados no Maranhão e em Alagoas resultou, portanto,
Albuquerque, que integrou as Cortes em 12 de outubro de 1822, e João da composição entre os governadores do Antigo Regime e o movimento
Lopes da Cunha como substituto, que não foi para Lisboa. constitucional. No caso do Rio Grande do Norte, adiando-se o processo
Em Sergipe, por causa da resistência do governador cm jurar a Constitui- eleitoral até dezembro de 1821, quando o conflito entre os governos de
ção, estendeu-se a autoridade da Junta da Bahia c a província não teve Lisboa e Rio de Janeiro já era intenso, prevaleceu a posição de não-participa-
representação própria. ção nas Cortes Constituintes.
Já no Rio Grande do Norte, o Governador José Inácio Borges, deposto Os governantes do Ceará, Paraíba e Sergipe, por sua vez, resistiram
pela revolução de 1817 e reconduzido ao cargo pela contra-revolução, intransigentemence à formação de juntas governativas. Como resultado,
proclamou a Constituição em 24 de maio. Em dezembro forrnou-se uma Sergipe ficou sob a esfera da junta baiana e não teve representação nas
junta provisória, de acordo com o decreto das Cortes, e procedeu-se à eleição 1 Cortes. Os governos do Ceará e da Paraíba só foram depostos meses mais
dos deputados. No entanto, os três eleitos, António de Albuquerque Monte - tarde, em novembro de 1821 e fevereiro de 1822, respectivamente, quando,

negro, Gonçalo Borges de Andrada Andrés e Afonso de Albuquerque Mara- finalmente, procedeu-se à eleição dos deputados nas duas províncias.
'•
nhão, decidiram não participar das atividades constituintes de Lisboa, decla- As delegações do Ceará c da Paraíba representaram, então, o movimento
rando-se "partidários da separação definitiva de Portugal" 23 . de oposição aos antigos governos e contavam, como na Bahia e em Pernam-
Nas regiões Norte e Nordeste, portanto, o movimento de adesão às buco, com ex-revolucionários de 1817. Porém, só participaram em Lisboa
Cortes contou com reações diferenciadas dos governadores locais, todos da fase final dos debates.
ligados à Corte joanina. Aos processos do Pará, em janeiro de 1821, c da No geral, as eleições do Norte c Nordeste expressaram, portanto, a vitoria-
Bahia, em fevereiro, que implicaram a destituição dos governos do Antigo do movimento constitucional. A maioria dos deputados alinhava-se ao
Regime, seguiu-se o de Pernambuco, que contava com as tentativas de liberalismo das Cortes, fosse em razão das ligações regionais mais intensas
controle do governador, fiel interventor de D. João VI. com Lisboa, como no caso do Pará, fosse em função das reivindicações não
Enquanto as eleições para deputados no Pará e na Bahia foram feitas a satisfeitas em 1817.
partir da constituição de juntas provisórias alinhadas ao governo de Lisboa,
as de Pernambuco ocorreram com a participação Rego Barreto, que se Rio de Janeiro: desalmhameiKos na Corte
recusava a abandonar o governo da província.
A delegação do Pará expressava o alinhamento incondicional ao constitu- No Rio d\ Janeiro, I), João VI c seus ministros começaram a receber
notícias sobre a revolução de agosto de 1820 no Porto, a partir do rnès
seguinte. Em dezembro, a Corte já sabia da formação de um novo governo
-- Silva. Luís Amónio Vieira da. História <Li Independência riu Maranhão. Tip. do Progresso, em Lisboa e da convocação cie eleições para a Constituinte.
í.d. Todas as diferenças entre as políticas pretendidas pelos estrategístas da
: -> Silvcirj, Aiaríco. Euiiclfipcáin brasileira. Edição patrocinai pela fundação Edmundo Corte vieram à tona nesse momento, assim como os projetos e insatisfações
. Bittencourt. Rio de Janeiro, i 958, t. l x Lima, Manuel J^ Oliveira. Op. cit., p. 96-7.
da população livre do Rio de Janeiro.
66 ADESÃO DO BRASIL AO APELO CONSTITUCIONAL ADESÃO DO BRASIL AO APELO CONSTITUCIONAL 67

Dentro do ministério de D. João, como se sabe, algumas posturas conrra- As notícias sobre a adesão da Bahia ao regime constitucional, e as
dítórias retardaram as medidas a serem adotadas. Tomás António Vila Nova primeiras manifestações públicas no Rio de Janeiro, levaram ao rccrudesci-
Portugal, que ocupava a pasta do Reino e era o mais influente dos ministros, mento das tensões no minísrério e à assinarurado dccrero de 18 de fevereiro
aposrava no fracasso da revolução em Portugal, fosse pela falta de adesão de 1821, determinando o retorno de D. Pedro a Porrugal "munido de
interna, fosse pela interferência das potências europeias. Acreditava, portan- autoridade e instruções necessárias para pôr em execução as medidas e
to, que a estrutura política da monarquia poderia ser conservada tal como providências a fim de restabelecer a tranquilidade geral daquele Reino"25.
estava desde que a revolução fosse sufocada à moda antiga. Chegou a instruir O decreto determinava, ainda, a criação de comissão de pessoas residentes
representantes portugueses nas Cortes europeias para articular a intervenção na Corcc c nomeadas pelo rei com o firo de elaborar uma Constituição para
em Portugal e pensou em interferir na Bahia, com a nomeação do Conde de .o.-Brasil. Ou seja, D. João VI permaneceria no Rio de Janeiro e confiava-se
Vila Flor como governador confiável para debelar a possível adesão da no Príncipe para interferir no processo revolucionário de Porrugal. Palmeia
província a Lisboa. Sabe-se que a referida nomeação não chegou a acontecer sugeriu que o mesmo texto reconhecesse as Bases Constitucionais de Portu-
em razão da oposição do Conde dos Arcos, que agora ocupava o Ministério gal, mas a oposição de Tomás António impediu, no momento, que a
da Marinha c Ultramar. proposta fosse adotada.
Tomás António era contrariado, sobretudo, pelo Conde de Palmeia, Em 23 de fevereiro, novo decreto tornava pública a lisra dos participantes
embaixador em Londres, que chegou ao Rio de Janeiro em 20 de dezembro da referida comissão. Além dos minisrros Tomás António, Palmeia e Conde
de 1820. influenciado pelos princípios que organizavam o governo inglês, dos Arcos, os demais eram rodos desembargadores e militares que haviam
Palmeia, "o ministro da nova era", mostrava-se favorável a uma ação ime- migrado com a Corte cm 1808 e acumulado grandes posses a parrir dos
diata do rei que ditasse a nova Constituição. Com essa iniciativa — pensava vínculos com a administração do Reino16.
ele — seria possível articular a formação de um governo aristocrático basea- O clima de insarisfação tomou conta, então, do Rio dcjanciro, refletindo
do em princípios legais que extinguissem as tnsarisfaçÕcs das elites dos dois os inúmeros interesses em jogo. No dia 24, D. João tentava reverter a
reinos, e evitar o processo mais amplo de uma Assembleia Constituinte. situação, solicitando a Palmeia redigisse manifesto com reconhecimento das
Marcado por experiências como diplomara na Europa, desacreditava de Bases Constitucionais, mas era tarde demais. Na madrugada de 26, as ruas
medidas repressivas, as quais, em sua opinião, contrariavam as tendências do Rio de Janeiro forarn tornadas por multidão de soldados, comerciantes,
dos novos tempos. pequenos proprietários e outros segmentos sociais da cidade que exigiam
Antes de chegar ao Rio de Janeiro, passou por Lisboa e Bahia, onde, além suspensão dos decretos. Além do juramento às Bases Constitucionais, reivin-
de perceber grande desejo de um regime constitucional, tentou articular o dicavam mudança do ministério, a parrida da família real para Lisboa e
almejado apoio para uma reforma das instituições dos dois reinos. eleição dos deputados fluminenses para as Cortes.
As linhas de atuação sugeridas por Palmeia c Tomás António conver- E preciso ressalrar que esse movimento era organizado por um dos grupos
giam para o não-reconheci rnenro da Assembleia instalada em Lisboa como alijados pela política joanina: os donos de engenhos c lavouras mercantis do
instância legítima da monarquia. E concordavam com a necessidade do Recôncavo da Guanabara e de Campos de Goitacascs, aliados a negociantes
envio de representantes da família real para negociações em Portugal. atacadistas, burocratas, bacharéis, oficiais militares e comerciantes varejistas.
De Silvestre Pinheiro Ferreira, secretário de Estado, vinha a clara defesa
da opção pelo Brasil, por considerar arriscado um retorno a Lisboa durante o
período revolucionário. A presença da família reat no reino ultramarino, que Itatiaia-Edusp, 1981, p. 23/-9S e Souza, Ot.ívio Tarquinio. História dói jitnd.idores do
também poderia seguir os rumos da revolução como o resto da América, l inferia, v. i í. A Vida de D. Pedro L Rio de Janeiro: josi: Olympio, p. 13<S-'Í7 c Silva, Marta
Beatriz Nizza il:i. A repercussão da revolução de 1S20 no Brasil — eventos e ideologias.
garantiria a posse da região mais rica do Império. Para ele, era preferível
Revista de Historia das Ideias, Upiversidade de Coimbra, v. II. J978-Í979-
encaminhar qualquer negociação a partir do Rio de Janeiro2'1. Decreto de 18 de fevereiro de 1821, Coleção das leis do Bntsil, v. 1321, parte 2.J, [>. 9-10,
citado por Oliveira Cecília H. L. S. A astúcia liberal— urna relaçge ili: mercada c prajetos
políticos no Ria de Janeiro (S820-1S24). Tese de doutoramento, mimeo, USP. l')8(í, p.
Sobre as divergências cri ire os mimscios da Cone joanina ver, especialmente, Monteiro, 145-
Tobias. História do Imfcria: a elaboração àa Independência. Belo Honzonte-Sáo Paulo: Oliveira, Cecília H. L. S. Op. cri., p. 146.
68 ADESÃO DO BRASIL AO APELO CONSTITUCIONAL ADESÃO DO BRASIL AO APELO CONSTITUCIONAL 69

Entre seus principais líderes havia fluminenses, como o comerciante e do governo baiano, que excluísse o príncipe e o Conde dos Arcos. Para o
funcionário Joaquim Gonçalves Ledo, e portugueses recém-imigrados, como grupo predominante da Corte, porém, tratava-se de conferir ao príncipe
o rico negociante José Clemente Pereira. O que os unia era o fato de não todos os poderes antes atribuídos ao rei.
serem favorecidos nas políticas da Monarquia. Contrapunham-se ao grupo Por outro lado, D. João continuava a receber pressões contra o retorno a
predominante da Corte, que, desde 1808, consolidava aliança de interesses Lisboa e adiou a decisão até o mês de abril.
entre nobres rece.rrx7cli.egado.So altos burocratas e as famílias mais poderosas Tais indefinições marcaram o processo de escolha dos deputados do Rio
do Rio de Janeiro, como Carneiro Leão, Fernandes Viana, Nogueira da de Janeiro. Em abril as eleições já haviam ocorrido no âmbito das paróquias
Gama e Carneiro de Campos27. e aguardava-se a reunião dos eleitos pata efetivar a escolha dos eleitores de
Afastados dos mais importantes cargos e privilégios da Corte e afetados comarca. De acordo com os critérios estabelecidos cm novembro de 1820,
pela concotrència comercial dos produtos estrangeiros, mantinham vínculos restaria ainda a fase da eleição, que indicaria, finalmente, os deputados.
mercantis e de parentesco com comerciantes de Portugal. A partir dessa Silvestre Pinheiro Ferreira, tentando conter a agitação que tomava conta
identidade de interesses, envolveram-se com os revolucionários vimistas, da cidade, propôs ao rei a reunião dos eleitores paroquiais para, além de
gerando o agrupamento que tomou "a iniciativa de desencadear no Rio de adiantar o processo, definir as atribuições do governo de D. Pedro no Rio de
Janeiro uni movimento liberal semelhante ao que a burguesia portuguesa Janeiro. A reunião, concretizada em 21 de abril, que Pinheiro queria fechada
articulou nas cidades de Lisboa e do Porto, em 1820"3*. Essa adesão vinha c formal, transformou-se em assembleia na Praça do Comércio, com inter-
sendo organizada desde a eclosão da revolução em Portugal e, diante dos venções do público ern geral.
decretos dos dias IS c 23 de fevereiro, os líderes do movimento passatam a Descaracterizada corno reunião eleitoral, a Assembleia passou a discutir as
acusar seus adversários, bem instalados na Corte do Rio de Janeiro, de atribuições da regência. Além de exigir a partida imediata da família real c
"agentes do despotismo" dispostos a separar os dois reinos. fazer aclamar a Constituição de Cádís, Clemente Pereira e Gonçalves Ledo
Como sabemos, ioi D. Pedro quem se dirigiu às tropas revoltosas no dia .propuseram a formação de uma junta provisória e, para tanto, aliaram-se aos
26 de fevereiro. Jutando a Constituição que viesse a ser feita em Portugal, setores mais pobres da cidade. Seus principais adversários pretendiam conso-
evitou confrontos mais sérios na capital da Monarquia. Acabou forçando o lidar o governo de D. Pedro, apresentando a indicação do ministério feita
juramento do rei e dos ministros, tornando-se assim Figura importante no pelo rei. Outros, no entanto, propunham que a equipe de governo fosse
cenário político. Aliado ao Conde dos Arcos e distanciando-se dos principais determinada na Assembleia, e havia ainda qucrn pretendesse aguardar as
ministros, Tomás António e Palmeia, o príncipe passaria a ser a referência determinações das Cortes de Lisboa2''.
para a articulação dos diversos grupos políticos. A reunião terminou à força. Foi dissolvida em plena madrugada do dia 22
A partir de então, decidiu-se pela partida de D. João para Portugal c pela por intervenção militar, que deixou numerosos mortos e feridos.
indicação de D. Pedro para o governo do Rio de Janeiro, iniciando-se o Como consequência desses episódios, D. João embarcou para Lisboa no
processo de eleição dos deputados. dia 24 de abril, deixando ao príncipe regente "todos os poderes para a
Se o reconhecimento da futura Constituição c a escolha de representantes administração da justiça, fazenda e governo económico", cabendo-lhe
para as Cortes alinhavam a província ao governo de Lisboa, a permanência ainda resolver "todas as consultas relativas à administração pública", além
do príncipe mantinha estatuto especial para a antiga sede da Monarquia e de invalidar a aceitação da Constituição espanhola. D. Pedro deveria
preservava a qualidade de Reino ao Brasil. O movimento de 26 de fevereiro, exercer tais poderes cm conselho, formado por dois ministreis de Estado —-
portanto, não alterou a estrutura política existente. o Conde dos Arcos, com as pastas do Reino e dos Negócios Estrangeiros, e
Tampouco (içavam definidas as í unções que o governo de D. Pedro o Conde de Lousa com a da Fazenda — e mais dois secretários de Estado,
passaria a ter após a partida do rei. O grupo liderado por Gonçalves Ledo e o Marechal Caula para a Guerra e o Major-Gcneral Farinha para a
Clemente Pereira pretendia a formação de uma junta provisória, a exemplo Marinha 3 ' 1 .

27 IdeiH, tiiefftn, p. ^ Ilfidet», p- 176-80.


35 Ibidetn, p. 122-3. Lim.i. Manuel de Oliveira. O movimento tln ímlcpcndcncin, dl., p. 5f>-y.
70 ADESÃO DO BRASIL AO APELO CONSTITUCIONAL ADESÃO DO BRASIL AO APELO CONSTITUCIONAL 71

O rei determinava, também, reajuste nos soldos das tropas do Brasil, Custódio Gonçalves Ledo, irmão de Joaquim Gonçalves Ledo, que era
equíparando-os aos das de Portugal, e ordenava devassa nos episódios de 21 médico formado cm Coimbra e residia no Porto, onde, antes de instalação
de abril, na_c}ual__cram poupados os integrantes do grapo_dc_L_cdo'e_C_lcrnentç das Cortes, envolveu-se com o movimento liberal.
K ','^r Pereira e responsabilizada a "p°PulaÇa"- D. Francisco de Lemos, bispo de Coimbra, ex-reitor da universidade, não
.-.-1 '•'•'• Parece ter-se celebrado um acordo entre os grupos divergentes na Praça aceitou o mandato por sua idade avançada c foi substituído por um fiel
do Comércio que atribuiria maior importância aos liberais, a partir de então. discípulo, Francisco Vilela Barbosa, o futuro Marquês de Paranaguá, tam-
Gemente Pereira presidiria a Câmara da cidade, enquanto outros integran- bém ligado à Universidade de Coimbra. Como militar, fazia parte da
tes do grupo, como Gonçalves Ledo, Cunha Barbosa, Sousa França, Antó- Academia Real da Marinha e era major de engenheiros.
nio José do Amaral c Fonseca de Sá, formariam, com os adversários Noguei- Finalmente, havia Luís Martins Basto, que, nascido no Rio de Janeiro,
ra da Gama, José de Oliveira Barbosa, Mariano José Pereira da Fonseca e tornara-se bacharel cm Cânones por Coimbra cm 1801 e permaneceu cm
António Luís Pereira da Cunha, a reunião dos eleitores para a escolha dos Portugal, dedicando-se ao comércio3íí.
deputados fluminenses, ocorrida durante o mês de maio31. Os deputados do Río de Janeiro residentes em sua cidade de origem eram
Quanto à nomeação desses eleitores de comarca, justamente o objetivo da o bacharel em leis João Soares de Lemos Brandão c o poeta Luís Nicolau
reunião de 21 de abril, há dúvidas sobre a sua realização nos dias 21 c 22, Fagundes Varela.
pois divergem os testemunhos32. Cabe dizer que outro deputado alinhado aos liberais do Rio de Janeiro c
É certo que a reunião para a escolha dos deputados ocorreu após a partida fazendeiro em Campos de Goitacases foi eleito no Espírito Santo: José
do rei, no final de maio, por ordem do príncipe e sob impacto dos aconteci- Bcrnardíno Almeida Sodré. No entanto, ele não tomou posse em Lisboa, e
mentos de abril. participou das negociações políticas no Rio de Janeiro. A representação da
De acordo corn Gomes de Carvalho, os quinze eleitores de comarca não província coube, então, a João Fortunato Ramos dos Santos, que exercia o
expressaram grande entusiasmo na escolha dos representantes fluminenses às magistério na Universidade de Coimbra35.
Cortes. A situação do Rio de Janeiro estava muito indefinida e, prevendo As_Bascs^a_Cons^t_ituÍção portuguesa haviam chegado ao Rio de Janeiro
novos embates políticos, preferiram não se afastar da cidade. no final de maio, e em 5 de junho novas manifestações espalharam-se pela
Segundo esse autor, "ninguém queria ser deputado", mas a lei facultava cidade. A partir de urn levante de tropas, exÍgÍa-se de D. Pedro o juramen-
"o meio de re-mover o embaraço nascido da falta de candidaturas brasileiras" to das Bases, a formação de junta provisória c a demissão do Conde dos
mediante a nomeação de portugueses domiciliados na comarca há mais de Arcos.
sete anos33. Em decorrência dessas reivindicações, a cidade passaria a ter dois gover-
De todas as delegações do Brasil, somente a do Rio de Janeiro contou nos. O primeiro, encabeçado por D. Pedro, que reconhecia as Bases Consti-
s
ç-' com parlamentares residentes cm Portugal. Dos sete eleitos, entre titulares e tucionais e não contava com a presença do '.Conde;, acusadode^trarnar a
''' \, cinco residiam na parte europeia da Monarquia. separação dos reinos e enviado para Lisboa.
Eram eles: D. José Joaquim da Cunha Azevedo Coutinho, bispo de Eivas, O novo ministério então formado mantinha o Conde de Louzã na pasta
faleceu dois dias antes de tomar posse, sendo substituído pelo suplente da Fazenda e Carlos Frederico Caula na da Guerra, substituído o Conde dos
Arcos por Pedro Álvares Dinis, nos Negócios do Reino c Estrangeiros 36 .
O segundo era formado por uma junta provisória escolhida na manifesta-
31 Oliveira, Cecília H. L. S. Of>. cit., p. 182-4. ção do dia 5, que não tinha atribuições claramente definidas e era reconhecí-
3: A documentação da devassa diz que "elementos sediciosos" impediram os eleitores paro-
quiais de escolher os da comarca. Silvestre Pinheiro Ferreira, cm suas Cartas sobre a
Revolução do Brasil, por outro lado, afirma que os eleitores de comarca já estavam
escolhidos c que a reunião do dia 21 não tinha, desde a sua convocação, caritcr eleitora!. Carvolho, M. E. Gomes de. Op. cit., p. 115 e Publicação Comemorativa do Quarto
Silva, Maria Beatriz Nizza (coord.). O Império Luso Brasileiro 1750-1822. Lisboa: Estam- Centenário da Cidade de Salvador, Revista Brasília, Faculdade <lc Letras da Universidade
pa, 1986, p. 415-6. de Coimbra, 1949.
)3 Carvalho, M. E. Gomes de., O p. cit., p. 87. Ver, também, Moraes, Alexandre José de Macedo, Joaquim Manoel de. Op. cit., v. U, p. 79.
Mello. Of.dt., p. 154-5. Moraes, Alexandre J os ti de Mello, op.cir., p. 162.
72 ADESÃO DO BRASIL AO APELO CONSTITUCIONAL ADESÃO DO BRASIL AO APELO CONSTITUCIONAL 73

da por D- Pedro37. Assim como as juncas do Nordeste, esra dcstinava-se ao idêntico ao das outras capitanias e o capitão-gencral sentia-se desmoraliza-
governo da província. Portanto, a formação dos dois governos dissociava a do, na sua impossibilidade de agir como competia a urna autoridade da sua
administração local da do Reino, implicitamente atribuída ao príncipe. categoria"3".
As decisões tomadas no Rio de Janeiro cm junho expressavam, ainda, Em 18 de maio, a Câmara de Itu jurou a Constituição. Tratava-se de
opiniões diferentes sobre a organização política do Reino do Brasil .Ajunta importante região canavicira, formada durante a expansão agrícola do final
Provisória e o juramento das: Bases: permitiam submeter o governo do Rio de do século XVIII. No dia 2 de j unho, um motim de soldados na cidade de São
Janeiro diretamente às Cortes de Lisboa, retÍrando_.da cidade o estatutõ~3e~ Paulo havia desautorizado completamcntc o governador.
capital, e do Brasil, a qualidade, de uma_unidadc político-administrativa._ No entanto, foi só após os episódios de 5 de junho no Rio de Janeiro que
Contudo, a presença de D. Pedro abria a possibilidade de manter A Jin idade novo governo se formou. O juramento das Bases Constitucionais pelo
do Reino sob a dinastia de Bragança. Os encaminhamentos posteriores, príncipe regente, assim corno a formação de junta provisória na capital do
incluindo as negociações com outras províncias e os diversos^pnTíitps. Ipcãlí Reino, fizeram explodir as insatisfações cm São Paulo.
e inter-regíonais, é que levariam à consolidação da suprerriacÍa...doJiÍQ_de_._ Em 23 de junho, um levante geral da tropa exigiu a deposição do
Janeiro. Mas seu governo, em junho de 1821, era frágil, apesar dos poderes Governador Oyenhausen e a formação de junta provisória. Por iniciativa de
conferidos pelo rei. Os liberais, como Clemente Pereira e Gonçalves Ledo, José Bonifácio de Andrada e Silva, "congregados povo e cropa e convidados
haviam conseguido ampliar o seu espaço. Obtiveram a direção da Câmara da ouvidor e senado da Câmara", a reivindicação foi parcialmente atendída39.
cidade, impulsionaram a formação da Junta Provisória e coordenaram a A reunião formou uma junta que manteve Oyenhauscn na presidência
manifestação de 5 de junho. Além disso, contavam com importante repre- cm virtude das articulações do Andrada. Este conseguiu, graças ao seu
sentação para as Cortes. Como já foi mencionado, a delegação fluminense prestígio, apoio c representação dos setorcs mais importantes da província
em Lisboa tinha deputados diretamente envolvidos com esse grupo, como ern torno do antigo governador c foi aclamado vicc-presidcnte do novo
Custódio Gonçalves Ledo e Martins Basto. governo, passando a ter sobre ele o poder de fato °.
Por outro lado, a regência era formada por um ministério que não A "Junta do Conselho do Governo Provisório" de São Paulo associava a
obedecia às indicações de D. Pedro, composto com base nas exigências de 5 atualidade da "junta", termo utilizado para designar os governos revolucio-
de junho. Nesse quadro, a posição de São Paulo foi fundamental para nários, ao tradicional sistema de "Conselho das Câmaras Municipais",
reforçar os poderes do governo do Rio de Janeiro. assentando-se na estrutura administrativa da província. Vale lembrar que as
referidas Câmaras conferiam grandes poderes às elites locais c tornavam
São Paulo: em defesa do Reino do Brasil possível o controle do processo.
As Bases da Constituição foram então juradas e iniciou-se a escolha dos
A partir da formação da Junta Provisória cm São Paulo, uma proposta de deputados segundo os critérios aí estabelecidos.
continuidade do Brasil como Reino Unido foi elaborada e o reconhecimento A iniciativa de José Bonifácio foi saudada por D. Pedro em carta posterior
do governo de D. Pedro adquiriu conteúdo programático, defendido poste- a seu pai, atribuindo ao paulista o "sossego da província". O novo governo
riormente nas Cortes de Lisboa. enfrentou levante de tropas que o príncipe assim comentou: Em Santos a
A capitania era administrada pelo Capítão-General João Carlos Augus-
to de Oyenhauscn, que, desde 23 de março de 1821, mandara tornar
público o advento do regime constitucional. Também aí ocorreram mani- Lima, Manuel Oliveira. Op. cít., p. 99- M Uem, ibidem, p. 99.
festações de apoio ao governo de Lisboa: "o estado de desassossego era A Junta era composta, também, por três secretários: Marntn Francisco de Andrada, o
Coronel Lázaro José Gonçalves c o chefe de esquadra Oliveira Pinto. Contava, ainda, com
representantes do clero, o Arcipreste Gomes Jardim e o Cónego Oliveira Bueno; das
milícias, os coronéis Pereira da Gama c Daniel Pedro Muller; do comércio, o Coronel
A Junta Provisória do Rio de Janeiro era composta por Mariano José Pereira da Fonseca, Francisco Inácio c o Brigadeiro Rodrigues Jordão; das letras, o Tcncnte-Corond Silva
José de Oliveira Barbosa, José Caetano Ferreira de Aguiar, Joaquim de Oliveira Alvares, Gomes c o Reverendo Francisco de Paula e Oliveira e da agricultura, Nicolau de Campos
Joaquim José Pereira de Paro, Sebastião Luís Tinoco, Francisco José Fernandes Barbosa, Vergueiro c o Tenente-Coronel António Maria Quartim. Cf. Lima, Manuel Oliveira. Op.
Monuc! Pedro Gomes. Cf. Moraes. Alexandre José de Mello., Op. f/í., p. 162. cif., p. 100.
74 ADESÃO DO BRASIL AO APELO CONSTITUCIONAL ADESÃO DO BRASIL AO APELO CONSTITUCIONAL 75

cropa Icvamou-se c quis se lhe pagasse o que se lhe devia, e como não havia sem necessários para a nova organização política do Estado. Destacaram-se
com o quê, foi a casa de um rico e pagou-se por suas mãos; depois o as indicações de Itu, Cjuc_apontavam para a emancipação do Reino do Brasil.
governador quis-se opor aos marinheiros, e então houve mortes c venceram Foi amparada nessas sugestões e não nas reuniões dos eleitores que a Junta
os soldados, que roubando meteram a pique dois navios que estavam a sair, elaborou o único programa político que, dividido em três partes, pensava a
um para Lisboa c outro não sei para onde, com prejuízo de 200:000 cruzados organização da União, do Reino do Brasile da Província de São Paulo.
entre ambos"41. O texto era assinado pelo governo de São Paulo, mas tudo indica que sua
Apesar dos elogios do príncipe, o governo paulista não recorreu ao Río de autoria tenha sido de José Bonifácio de Andrada e Silva. Como observou
Janeiro para conter a rebelião, preferindo arcar com o ónus das fugas. Sérgio Buarque de Holanda: "A presença do Andrada, e não só nos atos do
Esse traço de autonomia aparece em outras atitudes. O novo governo era governo provisório como em toda a atividade política da província, faz-se
composto de quinze integrantes representativos da tropa, marinha, clero, logo absorvente. Para urn exemplo icmbre-se com as Lembranças c Aponta-
lavoura, comércio e instrução pública. Continha, porém, os ministérios do mentos aos deputados paulistas às Cortes, que deviam representar trabalho
Interior c Fazenda, Guerra c Marinha. Como faz notar Pereira da Silva, em coletivo, traem constantemente essa presença, às vezes exclusiva, e isso fez
São Paulo "clcgeu-se popularmentc uma Junta Provisória com ministros de pensar que no essencial ela é de sua lavra. Predomina do começo ao fim a
Estado", um "governo independente e completo"112, o qual incluía um ideia de que o Brasil deve permanecer unido e perfeitamente equiparado a
Ministério da Marinha que não contava sequer com um navio de guerra ou Portugal como um todo, com seu centro próprio, ideia que rnesmo entre os
mercante. O aparente absurdo revelava intenções que ultrapassavam as brasileiros mal principia a tomar consistência, havendo muitos, motrnente
preocupações da administração provincial. Diante das d^iyergêncÍas_cxrjrgsS35 nas províncias do Norte, que a julgam inexequível e menos necessária depois
na capital do Reino, a Junta de São Pau[p_apresentava-se_como__altematlya da partida do rei velho"'1"1. f~\s deputados de São Paulo foram escoríCu
política a D. Pedro, que, sujeito.a..dÍversas-prcssÕes, poderia _ser_chamado
para Lisboa a qualquer momento. delegação, que atuou em conjunto na defesa do programa feito pelo governo
Recém-empossado, o governo paulista enviou deputação para cumpri- da província, merece algumas considerações.
mentar o príncipe regente, mas vedou ao gabinete dirigido por Pedro António Carlos de Andrada e Silva, o irmão mais novo de José Bonifácio,
Alvares Dinis a comunicação dircta corn os dirigentes provinciais. Portan- foi o mais importante orador paulista nas Cortes. Como vários deputados do
to, reconheceu a autoridade de D. Pedro mas não o ministério de 5 de Nordeste, participara da revolução de 1817, quando ainda era ouvidor de
junho. Além disso, o novo governo paulista manifestou-se contrário à Olinda, cargo ocupado desde 1815. Ficou preso na Bahia durante quatro
prisão do Conde dos Arcos e ao seu afastamento do ministério sem a anos, sendo libertado para ser eleito deputado por São Paulo, onde seu irmão
realização de julgamento. tinha papel político fundamental.
O apoio de São Paulo estava, ainda, condicionado a algumas outras Várias biografias do "mais novo dos Andrada" destacam-lhe as atividades
determinações que confirmam o carátcr autónomo da Junta da província, ou intelectuais ao lado de Muníz Tavares durante os anos ern que estiveram
seja: "a) livre disposição do governo interior; b) livre gestão da economia presos. As autoridades permitiam a entrada de livros no presídio, o que
província! (negativa à remessa de fundos para o Erário, na Corte); c) direito possibilitou aos prisioneiros formarem verdadeiro "ateneu", onde todos
de representação contra execuções de leis c decretos, contrários às peculiari- trocavam informações sobre leituras. Muniz Tavares ali lecionou lógica c
dades c circunstâncias locais, ajuízo da Junta"43. António Carlos foi professor de inglês, direito natural e direito civilíi5.
Para o processo eleitoral, o referido governo provisório apoiou-se na
estrutura tradicional das Câmaras, solicítando-Ihcs os subsídios que julgas-
Holanda, Sérgio Buarquc de. História geral da civilização brasileira, c. II, O Brasil Monár-
quico, 2. v., Dispersão e unidade. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1964, p. 442.
41 Carta de D. Pedro n." 2. Documentos para a. história das Cortes Gerais — 1820-1825. Melo, Luís Corrca de. Dicionário de autores paulistas. São Paulo: Editora Gráfica Irmãos
Lisboa: Imprensa Nacional, 1883, v. I. Andrcolí, 1954, p. 574-5.; Silva, Inoccncio Francisco da. Dicionário bibliográfico portu-
•" Sílva, J. M. Pereira da. Op. cif., p. 137. guês. Lisboa: Imprensa Nacional, 1858-1923, v. IX, p. 347; e Blake, Augusto Vitorino
*3 Amaral, Brenno Ferraz do. José Bonifácio. São Paulo: Martins, 1961, p. 94-5- Alves. Op. cie., v. III, p. 59-61.
76 ADESÃO DO BRASIL AO APELO CONSTITUCIONAL ADESÃO DO BRASIL AO APELO CONSTITUCIONAL 77

Na defesa do Programa de São Paulo cm Lisboa, António Carlos foi Pedro, no Rio de Janeiro. Vale a pena reproduzir uma observação de Mello
figura de destaque. Suas afinidades com os demais revolucionários de 1817 e Moraes sobre a entrevista ocorrida cm 9 de novembro: "António Carlos
os anos compartilhados na prisão, certamencc colocavam-no como o interlo- apresentou e explicou ao príncipe o projeto que depois a deputação de São
cutor ideal junto às delegações nordestinas para as negociações programáti- Paulo ofereceu ao Congresso de Lisboa para regular os negócios entre Brasil
cas que se desenvolveram nas Cortes. e Portugal. As palavras de António Carlos fizeram tão viva impressão no
Entre os eleitos por São Paulo encontramos ainda mais um integrante da ânimo do príncipe regente que, nesse mesmo dia, escrevendo ao pai para
família Andrada, o Desembargador José Ricardo Costa Aguiar Andrada. referir a conversa que teve com António Carlos, usa já de linguagem bem
Nicolau Pereira Campos Vergueiro foi eleito em Itu. Nascido em Portu- diversa daquela que ele havia empregado até então"'iy.
gal e proprietário de terras nas imediações de Piracicaba, região em que a Nessa carta, D. Pedro pede às Cortes que não se deixem enganar pelas
família Andrada tinha propriedades desde 1815, Vergueiro chegou a fazer notícias sobre as colónias da América e atendam aos interesses destas, pois
parte da Junta Provisória de São Paulo c foi eleito deputado às Cortes contra "apesar de terem sido colónia, diz hoje pelos seus representantes que quer
o voto de José Bonifácio, que preferia contar com sua atuação no governo da mútua reciprocidade; quer dizer (diz António Carlos, como me disse hoje ern

província • A f,
. audiência), igual representação nacional"50.
A delegação paulista incluía, ainda, dois deputados indicados pela Câma- A proposta de São Paulo, a ser analisada mais à frente, já previa a
ra de Itu: o Padre Diogo António Fcijó e Francisco de Paula Sousa e Melo. organização dos dois reinos separadamente e a presença do príncipe herdeiro
Este último, entretanto, não chegou a tomar posse, alegando problemas de no Brasil.
saúde47. Porém, no final de dezembro chegaram ao conhecimento do governo da
António Manuel da Silva Bueno foi eleito em Santos c assumiu suas província as deliberações das Cortes sobre a formação de juntas provinciais,
funções cm Lisboa somente em fevereiro de 1822. De todos os paulistas, foi também no Rio de Janeiro, e que determinavam, o retorno de D. Pedro para
o único a não se manifestar em nenhum debate. Portugal. Os paulistas fizeram então adendo ao programa inicial, concitando
O nome de José Feliciano Fernandes Pinheiro, Visconde de São Leopol- D. Pedro a ficar no Brasil c estabelecendo assim confronto aberto com as
do, completa a bancada de São Paulo. Apesar de ter nascido em Santos como Cortes.
os irmãos Andrada, teve sua trajctória ligada ao Rio Grande do Sul desde Nesse texto, atríbui-sc às decisões vindas de Lisboa "um caráter de
1800, quando para lá foi enviado como juiz das alfândegas. Em 1801 recebia maquiavelismo constitucional", expresso no "indecoroso decreto de 29 de
a patente de audhor-gcral de todos os regimentos da região e cm 1812 setembro", caracterizado pelo "despotismo". Previam-sc, então, insatisfações
acompanhava o exército português na tomada de Montevidéu. De todos os generalizadas, pois os povos do Brasil reagiriam como "tigres raivosos",
parlamentares paulistas, foi cie o único .que atuou com certa independência acordando do "sono amadornado em que o velho despotismo os tinha
nos debates de Lisboa. Apesar de expressar concordância com as teses gerais sepultado". O decrcco tornava D. Pedro "escravo de um pequeno número de
defendidas no programa da província, manteve distância do restante da desorganizado rés", e a Junta rogava-lhe então que ficasse no Brasil, confian-
bancada em algumas atitudes importantes, como, por exemplo, no momen- do "corajosamente no amor e fidelidade dos brasileiros c mormente dos seus
to da assinatura da Constituição'15. paulistas"51.
Por fim, São Paulo elegeu como substituto António Pais de Barros, que Portanto, o processo de São Paulo definia um governo autónomo, que^ se
não chegou a embarcar para Lisboa. alinhava ao príncipe, e nao_ao seu G^t7meie,^q^,_cpm_a_organ_izacão de
António Carlos, Vergueiro c Feijó, munidos do programa paulista, foram ministério próprio, aparecia como alternativa p^ra D. Pedro_, casoj3sj:o_nfli-
os primeiros a embarcar para Lisboa, não sem antes encontrarem-se com D.
O programa político elaborado por José Bonifácio rcfletia as mesmas

*c Macedo, Joaquim Manoel de. Op. cií., v. 3. m


1(7Melo, Luís Corrêa. Op. cií., p. 368 c Silva, Inoccncio Francisco da. Dicionário biobiblio-
gráfico português. Lisboa: Imprensa Nacional, 1858-1922, v. IX, p. 118-9.
49 Moraes, Alexandre José de Mello. Op. cif., p. 213-
'° Carta de D. Pedro n.° 9. Documentos, cií., p. 258. *
51 Andrada e Silva, José Bonifácio. Escritos políticos. São Paulo: Obelisco, 1964, p. 27-
** Macedo, Joaquim Manoel de. Op. dl., v. II, p. 37.
78 ADESÃO DO BRASIL AO APELO CONSTITUCIONAL ADESÃO DO BRASIL AO APELO CONSTITUCIONAL 79

preocupações. No centro de suas propostas estavam a conservação do Brasil Mantinham-se, então, a maioria alinhada ao Rio de Janeiro e a decisão dei
como reino, unido a Portugal, e a presença do príncipe herdeiro em territó- não enviar para Lisboa os deputados mineiros, cuja delegação era a maior do V
rio brasileiro. Após a^Iaboraçãp_desse programa, novos alinhamentos passa- Brasil". i
vriam a ocorrer na região Centro-Sul. Assim, enquanto boa parte das províncias do Norte e Nordeste resistiu à
Quanto a Minas Gerais, o governo provisório também se havia formado de Lisboa, no Sul os
em junho de 1821, na sequência do juramento das Bases Constitucionais no locais passaram a_expressar sua adesão ao goj/emojdo J^Jo_d(íJaneiro.
Rio de Janeiro, a partir de Vila Rica e com a participação do antigo À autoridade do príncipe foi reconhecida na província da Cisplatína
governador nomeado por D. João VI, D. Manuel de Portugal e Castro. Os durante o mês de julho de 1821 c em Sanra Catarina no rnês de agosto.
setores envolvidos nesse governo estavam dispostos a uma aliança com as Essas províncias também elegeram deputados para as Cortes portuguesas,
(i.
Cortes portuguesas. mas o representante da Císplatina, Lucas José Obes, não chegou a tomar
O movimento de Vila Rica, porém, excluía a participação dos dois mais posse, pois ficou retido no Rio de Janeiro em uma fase de conflito aberto
importantes centros produtores c mercantis da capitania, as vilas de São João entre o governo de D. Pedro e a Constituinte e transformou-se em procura-
del-Rei e Barbaccna, que, por sua vez, em razão dos interesses comerciais dor-geral de sua província junto à regência do príncipe^ . (

com o Rio de Janeiro, buscavam entendimento com o príncipe regente. Santa Catarina elegeu Lourenço Rodrigues de Andrade, que integrou as í,
.tf
Até o final de 1821, desenvolveu-se o embate político entre os dois Corres somente em novembro de 1821. Ele é descrito como um "cândido ,\.
grupos mineiros, culminando na formação de um governo de composição varão" por Gomes de Carvalho, pois seguiu para Lisboa sem os documentos
entre eles, cuja maioria expressava os interesses de Barbacena e São João del- necessários à comprovação de sua eleição. A Comissão de Poderes das Cortes
Rci52. aceitou-o, apesar disso, e José da Silva Mafra, eleito substituto, não precisou '
A junta eleita, a exemplo da de São Paulo, enviou delegação ao Rio de tomar posse de suas funções57.
Janeiro para reconhecer a autoridade do príncipe, o que ocorreu somente em O Rio Grande do Sul escolheu João de Santa Bárbara e José Sarurnino da
fevereiro de 1822, em uma fase de confronto entre D. Pedro e as Cortes. O Costa Pereira, que, no entanto, não tomaram posse de seus cargos em Lis-
representante mineiro, Desembargador Teixeira de Vasconcelos, více-presi- boa.
dente do governo de coalizão, relembrou a importância da capitania para a Tais adesões tomariam o significado de ruptura com as Cortes à medida
economia portuguesa c manifestou a oposição do governo provisório ao que a polarização entre os governos de Lisboa e Rio de Janeiro viesse a se \.
decreto das Cortes de 29 setembro sobre a formação de juntas provinciais,
também no Rio de Janeiro, e ao retorno do príncipe a Lisboa. O texto Resta ainda notar a eleição de dois deputados titulares na comarca de Duas
empregava termos tão duros quanto os usados pelos paulistas ao se referir às Barras, em Goiás: Luís António da Silva e Sousa, que residia no Pará, e não
Cortes. Em conclusão, comunicava a resolução de não enviar para Lisboa os seguiu viagem por motivos desconhecidos, e Joaquim Teotônio Segurado, que
treze deputados já eleitos "sem Minas saber a decisão de tudo"53. só tomou posse de suas funções em 8 de abril de 1822. Este último, nascido no
Embora essa fosse a opinião da maioria dos integrantes da Junta Provisó- Alentejo, era desembargador e exercia a judicatura cm Goíás desde 1809,
ria, não representava consenso. Enquanto o vice-p residente mineiro rendia quando foi nomeado ouvidor da nova comarca de São João das Duas Barras.
homenagens a D. Pedro, a outra facção formava na província um governo
dissidente, fiel às Cortes. Foi a interferência do próprio príncipe regente,
decidindo viagem para a capitania em 25 de março, que fez valer as declara- 55 Entre seus componentes: António Teixeira da Costa, Belchior Pinheiro de Oliveira,
Domingos Alves Maciel, Francisco de Paula Pereira Duarte, Jacinto Furtado Mendonça,
ções de Teixeira Vasconcelos, também com a formação de um terceiro
João Gomes da Silveira, José Custódio Dias, Lucas António Monteiro de Barras, Lúcio
governo, que refazia a composição entre as duas alas5'1. José Soares, Manuel José Veloso, Bernardo Carneiro Pinto, José Cesário de Miranda
Ribeiro, José Elói Otôni, José Resende Costa, Manuel Rodrigues Jardim, José Joaquim da
Rocha e Carlos José Pinheiro. Luís António cia Silva c Sousa foi eleito substituto cm Goiás,
" Amaral, Brenno Ferraz do. Op. dt., p. 100-3 c Oliveira, Cecília H. L. S. Op. cit., p. 216-8. mas não chegou a integrar o Congresso.
53 Carta de D. Pedro de 15 de fevereiro de 1822. Documentos, dt., p. 184-7. ^ Silva. J. M. Pereira da. Op. cie., p. 159.
5Í Lima, Manuel Oliveira. Op. cit., p. 184-7. 57 Carvalho, M. E. Gomes de. Op. cit., p. 139-54.
80 ADESÃO DO BRASIL AO APELO CONSTITUCIONAL ADESÃO DO BRASIL AO APELO CONSTITUCIONAL 81

Era um dos protegidos do capitão-general, D. Francisco de Mascarenhas, e desejadas. D£CJa£apdo-s^|iber_aL_e-ant4despótica, a Constituinte portuguesa
com ele participou de várias atividadcs que visavam à implementação da prometia ser um espaço mais acolhedor""
agricultura em Goiás e à integração da região central do Brasil com as capi- No entanto, os pernambucanos pronunciaram-se veementemente em
tanias do Norte, dedicando especial atenção aos contatos com o Pata58. defesa das reivindicações de sua província e não se envolveram cm temas que
remetessem ao conjunto do território brasileiro. Com o fim de derrubar o
A diversidade das bancadas do Brasil governo de Rego Barreto, foram signatários da primeira proposta das Cortes
para a organização política nas províncias do Brasil, que tinha as marcas do
Em resumo, o Brasil escolheu 94 deputados (efctivos e suplentes) para nacionalismo vintista, corno veremos.
irem a Lisboa, mas, em função dos sucessos mencionados ou de outras A participação em 1817 aproximava deputados de Pernambuco, Ceará e
razões, somente 45 ocuparam de fato seus assentos nas Cortes. Paraíba c dividia a delegação baiana. A oposição entre o Marechal Luís
Fosse em consequência da diversidade no processo eleitoral, ou das Paulino de Oliveira França e o restante dos deputados da Bahia verificou-se
diferenças regionais mencionadas, ou, ainda, dos momentos em que ocorreu desde os primeiros debates em que participaram no Congresso.
a escolha, o certo é que as delegações do Brasil apresentaram características No entanto, as afinidades revolucionárias entre a delegação pernambucana
de comportamento e composição bastante diferentes. e a maioria dos representantes da Bahia não impediram que os últimos
/ Os reptescntantes do Pará e do Maranhão atuaram em conformidade apresentassem sérias objeções à proposta "vintista" aprovada para o Brasii. As
\m a maioria dos deputados de Portugal. contraposições dos baianos, feitas sobretudo por Cipríano Barata, chegavam a
Sobre os deputados eleitos nas capitanias do Nordeste, várias distinções uma ideia de organização da nação portuguesa que, mais à frente, chamaremos
devem ser feitas. Resultantes dos conflitos regionais, os processos eleitorais de "federalista". Contestavam diretamente as noções de integração e indivisibi-
representaram, em geral, a vitória dos que se referenciavam na Constituinte lidade da nação, tão seriamente defendidas pelos deputados de Portugal.
portuguesa e expressavam os descontentamentos aplacados em 1817. Nesse contexto, assumiu máximo relevo a apresentação do Programa de
A participação na revolução daquele ano foi o elo comum a vários São Paulo por António Carlos de Andrada e Silva, sustentado por toda a
depurados nordestinos, constituindo aspecto determinante para a compre- bancada paulista. Tratava-se de defender o esboço d<3 "poderoso império"
ensão da atuação dos pernambucanos. Referindo-se a eles, Muniz Tavares luso-brasileíro, ouseja, o ReinoJJnídp_idc_Portugal, Brasil_cAígarvcs, contra
comentou, no estilo característico da época: "Partiam esses para o seu as teses nacionalistas dos deputados de Portugal. Para tanto, fazia-se necessá-
destino, quando o maior número dos pernambucanos, soltos das prisões da rio o diálogo com as delegações do Nordeste, e o "mais novo dos Andrada",
Bahia revia os suspirados lares. [...]. Chegavam com a esperança de repouso ex-revolucionário de 1817, tinha o perfil adequado para a tarefa.
à sombra de um maís reto governo, e dispostos ao trabalho a fim de A defesa do governo do Rio de Janeiro nas Cortes foi feita, então, pelos/
ressarcirem as consideráveis perdas, que as suas casas e famílias haviam deputados de São Paulo.
suportado. Com quanto prazer fossem acolhidos pelos seus compatriotas, é A bancada fluminense não se pautou pelo alinhamento ao príncipe regente
desnecessário dizer, todos sentiam compaixão dos inumeráveis padecimen- ou pela defesa da manutenção do Rio de Janeiro como capital do Reino.
tos; o mérito pessoal dos indivíduos e a uniformidade de pensar eram assaz Martins Bastos destacou-se no início dos trabalhos da Constituinte e atuou ern
conhecidos, para que deixassem de ser apreciados. Pacificamente retirados, consonância com os liberais de Portugal. Fagundes Varela, em alguns pontos
eles confiavam no patriotismo dos representantes do Brasil"55. importantes, seguiu a mesma orientação c foi o único deputado do Brasil que
Os pernambucanos agiram em conjunto durante os trabalhos constituin- chegou a presidir as sessões das Cortes, o que ocorreu durante um mês. E Vilela
tes. Nas votações nominais não houve nomes em lados opostos. Marcados ~ Barbosa, o mais importante orador, distinguiu-se nos momentos de polariza-
pela experiência revolucionária que ma! acabava de se concluir, os represen- ção entre as propostas sobre a organização política dos dois reinos, chegando a
tantes da província buscaram nas Cortes de Lisboa o apoio para as mudanças concordar, pontualmente, com o Programa de São Paulo.
Tributátios da diversidade, os deputados do Brasil foram portadores de
propostas distintas para a organização política da nação portuguesa. O '
5B Idem>ibidem, p. 218-42. objetívo dos próximos capítulos c analisar essas diferenças.
53 Tavares, Francisco Muniz. Op. dt., p. 281.
3
NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS

Manifestações do "patriotismo" pernambucano nas Cortes

depurados de Portugal receberam em 27 de março de 1821 a


notícia oficial da adesão do Pará ao governo de Lisboa, embora cia já
estivesse decidida desde l .° de janeiro, como foi dito. A partir desse momen-
to, a expectativa peia presença dos representantes do Brasil crescia a cada
sessão. Também no mês de março, as Bases da Constituição foram aprovadas
e, como referimos, elas previam que as leis definidas pelo Congresso só se
estenderiam ao Ultramar após a aceitação local das Bases c o ingresso de seus
representantes nas Cortes. Aguardavam-se, então, as repercussões dessas
decisões nas diversas regiões do Brasil.
Urna notícia falsa em início de abril havia antecipado a recepção do
primeiro representante do Brasil nas Cortes. Tratava-se do estudante
paraense em Coimbra, Alberto Patroni. Este presenciara, durante suas
férias em Lisboa, o início da revolução em 1 820. DÍrigÍu-sc ao Pará
levando a notícia e tentou, sem sucesso, ser eleito deputado para as Cortes
ou nomeado membro da Junta Provisória. Obteve carta nomeando-o
representante do governo do Pará junto às Cortes, mas as comissões de
Constituição e de Poderes não o aceitaram como deputado e foi ouvido,
apenas, como delegado do governo paraense. Seu discurso grandiloqiiente
de 4 de abril de 1821 é citado em todos os relatos sobre a participação
"brasileira". Gomes de Carvalho assegura que, com a esperança de conse-
84 NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS 85

guír a condição de deputado, Patroni teria chegado a ameaçar com a sua laboriosa tarefa, c tomar nas deliberações a parte que dcvern ter"2.
separação de sua província 1 . Retomava-se, assim, o conteúdo das Bases c apostava-se na força do apelo
No entanto, cm decorrência da ação do Governador Rego Barreto, os constitucional.
pernambucanos foram os primeiros a ingressar nos trabalhos constituintes, No entanto, os motivos para duvidar do êxito dessa estratégia eram
durante a sessão de 29 de agosto de 1821. Chegaram no momento em que o muitos. No dia anterior à proclamação, ainda rcfletindo as preocupações
governador sofria atentado cm Pernambuco, levando-o a enviar 42 prisio- quanto aos deputados do Brasil, a Comissão de Ultramar fora chamada a se
neiros para julgamento cm Lisboa, o que seria motivo de debate nas Cortes, pronunciar em sessão das Cortes. Apresentou quatro ofícios de Pernambuco,
como veremos. Antes disso, porérn, os depurados de Pernambuco viveram assinados pelo governador, nos quais noticiava adesão ao regime constitucio-
durante alguns dias, como únicos representantes dos domínios coloniais, o nal e o desejo de "alguns" pela instalação de uma junta provisória. A esse
primeiro passo para a definição da nova organização do Estado no Brasil. respeito, como não havia nenhuma orientação das Cortes, o governador não
No momento em que chegaram, agosto de 1821, a expectativa dos pretendia antecipar-se e aguardava instruções. Vislumbrava-se em seu comu-
deputados de Portugal era alimentada por várias notícias sobre o Brasil. A nicado, os conflitos entre os que exigiam a formação de um novo governo e
chegada da Corte e do monarca em julho atualizara as notícias sobre a capital os apoiadores do antigo governador.
fluminense. Conheciam-se os decretos de D. João conferindo ao príncipe A Comissão apresentou também parecer sobre ofício do governo da
todos os poderes sobre o Reino do Brasil c, também, as notícias sobre a Bahia de 13 de maio, no qual "se não encontrava novidade alguma, mais que
adesão do Pará c da Bahia ao governo constitucional. No entanto, a ausência o descontentamento do Rio de Janeiro, e a falta de confiança que tem todo o
de seus representantes em Portugal causava dúvidas sobre a posse desses Brasil na Regência, que ficou no mesmo Rio, diz rnais que se procede à
deputados, pois se temia a interferência do príncipe regente. eleição de Deputados que se preparava a jurar as Bases da Constituição, e
Diante desse quadro, a possibilidade do controle militar do Rio de insta pelo socorro da expedição"3. Infere-se do parecer que o governo da
Janeiro passou a ser discutida abertamente. Já em 6 de julho, Borges Bahia temia interferência de D. Pedro e solicitava às Cortes apoio necessário
Carneiro propôs, pela primeira vez, o cnvío de tropas para essa cidade. Nesse para a resistência.
momento, porém, foi contrariado por Fernandes Tomás, que conseguiu Assíni, apesar da conclamaçao do dia 13, o ministro da Marinha foi
derrotar a proposta, usando argumento de que a força do regime constitu- chamado para relatar a situação do Rio de Janeiro ern 16 de julho. Rcfcríu-
cional seria irresistível aos habitantes do Brasil. A oposição ocorreu entre dois se, então, aos momentos que haviam antecedido a partida do reí e à situação
importantes líderes liberais, cujas diferenças de concepção sobre o Brasil de oposição entre D. Pedro c os contingentes militares presentes no Rio de
seriam expressas muitas outras vezes, como veremos. Janeiro. Para restabelecer a paz naquela cidade, D. João solicitava às Cortes
A maior parte dos deputados optou, então, pela redação de uma procla- que rendessem os batalhões portugueses presentes na capital do Brasil.
mação ao Brasil sobre as posições políticas das Cortes, procurando reforçar A discussão sobre o envio de tropas para o Rio de Janeiro voltava à pauta,
os grupos que, nas diversas regiões, referenciavam-se no regime constitucio- e dessa vez culminou com parecer da Comissão de Ultramar, apresentado no
nal, c tentavam a eleição dos deputados. dia 28, favorável à ida de "2.000 homens para o Rio de Janeiro a pedido de
O texto, datado de 13 de julho, conclamava: "Brasileiros! O Congresso S. Majestade, para assegurar a Constituição".
não duvidava de vossos sentimentos patrióticos c liberais, mas cie respeitava Por motivos diferentes, a Comissão e o rei concordavam com essa medi-
o direito, que só a vós pertencia, de manifestar completamcnte vossos da. O governo de D. João pretendia reforçar a posição do príncipe regente e
desejos. Decretou, por isso, que vós fareis parte da grande família portugue- alegava a necessidade de substituir o destacamento português, que, como
sa, logo que tivésseis declarado vossa adesão ao novo pacto social que ela sabemos, havia sido um dos focos de revolta nas manifestações de fevereiro c
acabava de fazer. [-.]. É preciso, contudo, que vossos deputados venham abril. A Comissão composta pelos deputados das Cortes, por outro lado,
completar o quadro da representação nacional, para auxiliarem as cortes em

Arriaga, J. d'. Op. cit,, v. 3, p. 639.


Carvalho, M. E. Gomes de. Op. cit., p. 15-19- Diário das Cones Constituintes, sessão de 12 de julho de 1821.
.

86 NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS 87

pensava em uma forma de controlar a Regência do Rio de Janeiro. Depois militar. Paralelamente, propunha a formação de um governo de armas
das notícias recebidas da Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro, apoiavam-se também submetido diretamentc aos dirigentes do reino. Extinguia a Casa de
no pedido de D. João para repor a proposta feita anteriormente por Borges Suplicação do Rio de Janeiro c todos os tribunais aí criados depois da
Carneiro. chegada do rei. Considerava desnecessária a presença do príncipe no Rio de
Os ânimos se acalmariam com a chegada da notícia de que D. Pedro Janeiro, solicitando-lhe que retornasse à Europa.
havia jurado a Constituição, formado novo governo baseado nesse ato e E importante notar que a Comissão se declarava contrariamente ao envio
rompido com o Conde dos Arcos, que se dirigia a Lisboa acompanhado pela de tropas para o Rio de Janeiro, revelando a forte influência de Fernandes
filha e tutelado por destacamento militar. Em 10 de agosto chegaria a Tomás na elaboração da proposta. Apesar de derrotado quando da votação
acusação ao Conde de suspeita de conspiração para a separação do Reino do da matéria, ele fez constar no parecer da Comissão, na qual contava com
Brasil, que resultou cm sua reclusão na Torre de Belém até que se apurassem apoio da maioria, sua opinião contrária à utilização da força militar para
todos os fatos. impor as decisões das Cortes nas províncias do Brasil.
Seguindo a argumentação de Fernandes Tomás, procurava-se, então, No artigo 5.° do parecer definia-se que todos os magistrados c autoridades
avançar nas medidas constitucionais para acelerar as adesões no Brasil c civis estariam subordinados às juntas, "menos no que tocar ao poder conten-
iniciava-se a discussão sobre a nova organização do Estado em território cioso e judiciário, porque no exercício dele são elas somente responsáveis ao
brasileiro. Antes mesmo da chegada dos pernambucanos, cm 21 de agosto, o Governo do Reino e às Cortes". Submetiam-se, então, os executores das
primeiro parecer sobre a matéria já havia sido apresentado às Cortes. Vinha citadas funções às juntas, mas as suas decisões referentes ao exercício do
assinado pelos principais nomes do vintismo: Borges Carneiro, Fernandes Judiciário e demais autoridades civis estavam subordinadas a Lisboa. Só o
Tomás, Pereira do Carmo, Castelo Branco e Ferreira de Moura, em nome da governo do Reino e as Cortes poderiam avaliar a justeza das medidas
Comissão de Constituição. adotadas por essas autoridades, reservando-se o direito de revogá-las se
A discussão sobre o envio de tropas foi suspensa até o dia 25- Nesse dia, necessário e de punir os juizes em casos de arbitrariedades. Esse princípio
porém, o parecer da Comissão de Ultramar foi retomado c, apesar da sobre o papel do Executivo e do Legislativo no julgamento dos magistrados é
resistência de Fernandes Tomás c de seus argumentos para que se esperassem traço importante do projeto, que foi retomado posteriormente.
os deputados do Brasil antes de qualquer decisão, venceu a proposta do envio O parecer apenas havia sido apresentado, quando chegaram os deputa-
imediato de um batalhão de " l .200 praças" ao Rio de Janeiro, por 40 a 37 dos pernambucanos. Eles manifestaram-se pela primeira vez na sessão de
votos. Decisão tomada, restava ainda saber se o pedido de apoio militar feito 30 de agosto, que tratou de questões polémicas. A inicial foi a da expedição
pela Junta da Bahia também seria atendido''. para o Rio de Janeiro, que estava prestes a partir. O primeiro pernambuca-
De qualquer forma, os deputados de Portugal adotaram medidas impor- no a falar foi Manuel Zefenno dos Santos, que, ante a declaração de um
tantes antes do ingresso dos primeiros deputados do Brasil. Decidiram o comerciante de Lisboa oferecendo navio para levar os soldados, retrucou:
controle militar do governo do Rio de Janeiro e avançaram na elaboração de "essas tropas para o Brasil não é o melhor meio de haver união; e parece-me
um projeto de organização política para os domínios americanos da monar- se deverá esperar para se tratar deste negócio, quando vierem os deputados
quia. dela'5.
As características básicas do projeto, alvo de tantas polémicas, já estavam Manuel Zeferino lançava mão de argumento muitas vezes usado anterior-
presentes no parecer da Comissão de Constituição, emitido em 21 de agosto. mente pelos deputados de Portugal, e também por Fernandes Tomás,
Propunha a formação de juntas em cada capitania, então transformadas cm tratando do mesmo tema: aguardar os deputados do Brasil para deliberar
províncias, o reconhecimento das já formadas e a submissão de seus presi- sobre assuntos referentes às suas províncias. Agora, como pernambucano, ele
dentes às Cortes e ao governo, retirando-lhes toda a autoridade e jurisdição podia compreender a seriedade da medida e avaliar sua repercussão em uma
província de ultramar, mas não se propunha a decidir sobre ela; era necessá-

Na sessão de 23 de agosto o caso baiano começou a ser discutido. O temor de uma rebelião
que pusesse cm questão a escravidão c a cultura da cana é explicitado em várias interven-
ções. 5 Diário dítí Cortes Constituintes, sessão de 30 de agosto de 1821.
88 NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS NAÇÃO INTEGRADA E PODERES RHGIONAIS 89

rio esperar os representantes da província em questão. Não conseguiu, acordo com o projeto de 21 de agosto. Não via motivos para escrúpulos cm
contudo, impedir o envio das tropas. intervir nas províncias onde as autoridades do antigo regime impediam a
A discussão mais importante, porém, foi sobre a situação de Pernambuco. vitória cia revolução.
Muniz Tavares denunciou as arbitrariedades do governo de Rego Barreto. Foram aprovadas, então, também pata essas províncias, as mesmas medi-
Solicitou a revisão dos desterros na África por conca da participação no das adoradas ern relação a Pernambuco quanto à organização dos governos
movimento de 1817 e referiu-se às prisões realizadas no processo para a locais.
formação da junta de governo. Argumentava que os perseguidos pelo gover- Assírn, os pernambucanos, como primeira delegação brasileira a tomar
nador no último período eram todos presos por "motivo da Constituição, posse nas Corccs, participaram nas decisões fundamentais sobre as províncias
desejosos dever um governo, uma junta provincial, adaptado à liberdade do do Brasil.
tempo" 6 - Clamou pela retirada de tropas, oficiais e magistrados nomeados Corno foí mencionado, no momenco em que chegaram, os grupos liberais
no Congresso luso buscavam a política adequada para obter a adesão das
para a província, que estariam acuando a favor do governador c contra os
pernambucanos. províncias ulttamarinas e controlar o governo de D. Pedro. Borges Carneiro
A Comissão de Constituição apresentou, então, parecer sobre os negócios foi vencedor quanto ao envio de tropas ao Rio de Janeiro, ao se decidir pela
intervenção armada para resolver as duas questões. Porém, a proposta para as
de Pernambuco que; constituído de treze itens, destituía Rego Barreto, que
províncias ultramarinas de 21 de agosto era uma elaboração do grupo de
deveria ser rendido por um governador de armas nomeado cm Lisboa. O
Fernandes Tomás e apostava na integração polícica da nação portuguesa.
texco o responsabilizava peias últimas manifestações e prisões na província, já
A bancada pernambucana defendeu a autonomia provincial por intermé-
que não realizara a formação da Junta; transferia para a Câmara de Olinda a
dio de Zeferino dos Santos, que propôs aguardar os fluminenses para decidir
responsabilidade de encaminhar a eleição do novo governo, segundo os
o envio de tropas ao Rio de Janeiro. No entanto, sua atuação fora mais
mesmos critérios estabelecidos para a eleição dos deputados; retirava o
enfática quando as discussões haviam tratado de sua província e das regiões
batalhão de Algarves deslocado a Pernambuco desde 1817 para reforço na
vigilância da região revolucionária; c definia as funções do novo governo de vizinhas.
Os ativistas de 1817, no momento, estavam interessados em derrubar
acordo com os critérios estabelecidos no projeto, ainda em discussão, sobre
Rego Barreto e os governadores do Nordeste que, em nome de D. João VI,
as províncias de ultramar.
haviam controlado o processo revolucionário na região. Eles poderiam,
Satisfeitos em seu principal objctivo, os deputados de Pernambuco ali-
também em 1821, exercer o mesmo poder sobre as manifestações dessas
nharam-se a favor da medida. Contratiando as expectativas de Rego Barreto,
províncias c impedir sua adesão ao governo constitucional de Lisboa.
prontamente denunciaram seu governo nas Cortes e solicítatam seu afasta-
Contudo, a bancada aceitou o modelo de Fernandes Tomás para a
mento, aderindo à convocação de eleições para ajunta.
organização dos governos no Brasil. Permitiu-se, assim, que o projeto de 21
Como não houve nenhuma observação sobre as funções desta junta e suas
de agosto, ainda em discussão, se tornasse fato consumado, antes da chegada
ligações com as Cortes ou com o governo do Reino, consolidava-se a
dos demais deputados do Brasil. Como veremos mais à frente, a proposta,
proposta em discussão, que seria utilizada como modelo para a organização
além de expressar a concepção nacional do víntismo, tinha a clara intenção
dos governos de todas as províncias do Brasil,
de invalidar o governo de D. Pedro sem recorrer às armas.
Em 11 de scccmbro, diante de dois ofícios dos governadores do Ceará e
O projeto voltou a ser discutido no finai de setembro, depois de decretado
do Maranhão, Muniz Tavares chamou a atenção para o "despotismo" nessas
nas províncias já citadas, quando os deputados do Rio de Janeiro já estavam
regiões. Os governadores, sobretudo o do Ceará, perguntava as Cortes se
em Lisboa.
seria aconselhável a utilização de força militar para agilizar a eleição dos
deputados de suas províncias.
Primeiras divergências: pernambucanos vcrsjis fluminenses
O pernambucano solicitou providências iguais às tomadas em sua provín-
cia, ou seja, destituição dos governadores e formação de juntas provinciais de
A posse dos deputados do Rio de Janeiro ocorreu em 10 de setembro de
1821, e a primeira discussão de que participaram, ao lado dos pernambuca-
Ibidein. nos, foi referente ao processo contra o Conde dos Arcos.
. 90 NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS 9l

As duas províncias representadas, no momento, tinham experiências A presença dos deputados de Pernambuco e do Rio de Janeiro não ajudou
anteriores com esse governante. No caso de Pernambuco, como já referimos, a esclarecer a questão. Curiosamente, os pernambucanos não se pronuncia-
ele havia organizado a invasão da província quando da revolução de 1817. ram. Dos eleitos pelo Rio de Janeiro, apenas Varela e Martins Basco opina-
No Rio de Janeiro, fora responsável pela repressão à manifestação de 21 de ram, mas discretamente. O primeiro, ressaltando que as hábeis ardis do
abril. Era partidário de D. Pedro c em 5 de junho se indispôs com a cropa conde não permitiriam encontrar provas contra cie, e o último, reclamando
portuguesa, quando o príncipe fez juramento das Bases da Constituição e se maiores informações da Junta baiana. Ao final, votaram pela libertação do
formou um governo provisório na cidade. Foi preso e enviado para Lisboa. Conde dos Arcos8.
Em seu trajeto, passou pela Bahia, de onde ajunta Provisional enviaria às Diante de questão tão delicada, chama atenção o procedimento adotado
Corces outra acusação de conspiração pela independência, incluindo aí Rego pelos deputados pernambucanos. Sua atuação fora enfática ao acusar Rego
Barreto. O referido conde estaria articulando com o governador de Pernam- Barreto, cujo nome reaparecia agora associado ao do Conde dos Arcos e
buco o apoio ao príncipe regente e, nesse sentido, teria contatado várias ligado à suspeita de conspiração contra o governo de Lisboa. Vários dos
pessoas na Bahia. deputados pernambucanos, como o próprio Muniz Tavares, haviam sido
As acusações já haviam chegado às Cortes crn 10 de agosto c o parecer presos cm 1817 por ação do conde, que merecia as mesmas acusações de
aprovado recomendava a prisão do conde na Torre de Belém, enquanto se "despotismo" antes desferidas contra o capitão-geral de Pernambuco. O ex-
apurassem os fatos. A presença dos deputados do Rio de Janeiro era elemen- governador da Bahia chegava agora a Lisboa prestes a ser encarcerado na
to importante para essa apuração, e a discussão foi retomada cm 17 de Torre de Belém. Invertiam-se os papéis e os revolucionários de 1817 pode-
setembro, após parecer da Comissão de Constituição. O texto analisava riam pôr na prisão o antigo "carrasco". No entanto, não se manifestaram e o
também uma carta do conde em que, além de reclamar das condições da Conde dos Arcos foi libertado.
prisão, alegava não ter contra cie processo de culpa formado. Mais uma vez manifestava-sc de forma peculiar a defesa dos interesses de
De fato, as acusações eram vagas. A Junta da Bahia acusava-o de "hedion- Pernambuco. A denúncia feita pelo governo da Bahia escapava à "questão
do despotismo, que tentava desligar os portugueses dos dois hemisférios", pernambucana", naquai os deputados da província já haviam obtido impor-
derrotado, porém, nos "memoráveis e gloriosos acontecimentos do dia 5 tantes vitórias com a determinação de uma junta provisória e a deposição de
deste mesmo mês naquela antiga corte". Just Í ficavam-se o julgamento e a Rego Barreto. A acusação ao Conde, embora.mais contundente, tornava-se
culpa de forma enigmática: "Havendo muitos dos membros desta junta secundária diante das vitórias obtidas c o silêncio talvez exprimisse cautela
recebido várias cartas de pessoas de íntima confiança, escrupulosa probidade para não comprometer o espaço conquistado.
e decidido amor pela monarquia constitucional, [...] recomenda a mais Este silêncio, porém, foi quebrado no dia 21 de setembro, quando
desvelada segurança sobre a pessoa do diro conde, tido como chefe da mais Pernambuco voltou à pauta do Congresso. Chegava às Cortes um documen-
execranda conspiração contra os interesses da nação e do rei"7. to com sessenta e cinco assinaturas de comerciantes do Recife, no qual se
O texto não citava os nomes das pessoas da Junta que teriam sido procurava preservar o governador e atribuir a um grupo de "malfeitores" o
contatadas, nem os das de "íntima confiança", que poderiam testemunhar atentado sofrido por Rego Barreto, em agosto.
contra o acusado. Os deputados pernambucanos voltaram a se pronunciar com veemência.
Entre os deputados de Portugal, a discussão foi longa. Interrogavam-se Relembrando as velhas divergências com o corpo do comércio instalado na
sobre a pertinência das acusações c sobre os planos aí implícitos. Fernandes capital da província e suas ligações com a contra-revolução, Mumz Tavares
Tomás tendia a ver formação de culpa, apesar da fragilidade das acusações. tentava invalidar o documento: "Os comerciantes são aqueles que deram
Brito defendia o conde. A maioria, porém, inclinava-se à defesa da Consti- falso depoimento em 1817 para apoiar Rego Barreto"9.
tuição, na qual se estabelecia o direito de aguardar em liberdade a formação Manuel Zefcrino dos Santos, por sua vez, reafirmava as posições anterio-
de culpa do acusado. Para os deputados lusos, esse princípio significava res, dizendo que o governador era o único responsável pela falta de tranqui-
ruptura com toda a tradição de perseguições arbitrárias do Antigo Regime.

Ver sessão de 17 de setembro do Diário das Cortes Constituintes,


Diário das Corta Constituinte, sessão <!c IO de agosto de 1821. Diário (Í7í Cortes Constituintes, 21 de setembro de 1821
92 NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS 93

lidade na província, pois recusava-se a formar novo governo e, utilizando-sc Ao apoiar o parecer da Comissão de Comércio, Zeferino procurava
de recursos do "despotismo", continuava a prender e perseguir seus oposito- demonstrar que a administração joanina consumia, por meío daquela insti-
res, que formavam maioria entre os pernambucanos. tuição, parcela muito maior dos lucros sobre os produtos de exportação da
'• Novamente os deputados de Pernambuco atingiram seu objetivo: os província, em comparação com as administrações anteriores. Propunha,
<j comerciantes do Recife não foram atendidos pelas Cortes, que mantiveram então, como se vê em sua fala, a gestão provisória do comércio pernambuca-
, 1 \as decisões anteriores.
no por pessoas não ligadas à Corte até que urna assembleia dos acionistas
No entanto, nesse ponto da discussão foram os deputados fluminenses que decidisse o que fazer com o aparato da Companhia de Comércio.
não se manifestaram, apesar da importância atribuída à questão pela delegação Martins Basto participou da discussão. O fluminense, comerciante em
pernambucana. Foi a maioria de votos entre os deputados de Portugal que Portugal, afirmava que aquela administração viciosa era resultado da gerên-
assegurou o afastamento de Rego Barreto. As denúncias sobre as ligações entre cia feita pelos funcionários de Pernambuco, pois os de Portugal não rece-
os comerciantes monopolistas em Pernambuco c os governos do Antigo biam ordenados. Pouco se recebia da Companhia em Portugal porque seus
: f Regime não pareciam comover os deputados do Rio de Janeiro, em sua fundos estavam sendo enviados para o Rio de Janeiro desde a transferência
^ maioria ligados a setores comerciais ou da administração cm Portugal. da Corre. Desconfiando da reprcsentatividade do requerimento, afirmava
A divergência se manifestaria claramente na sessão de 25 de setembro. que "meia dúzia" de acionistas pernambucanos não podiam responder por
Resolvida a destituição de Rego Barreto, estava pendente, ainda, uma ques- um total de mais de duzentos, cncre os quais se incluíam os residentes na
tão importante para a bancada pernambucana: a extinção da Companhia de parte europeia da Monarquia.
Comércio da Paraíba c Pernambuco, que, corno vimos, viabilizava na região A reação do deputado eleito pelo Rio de Janeiro fez que a discussão fosse
o monopólio comercial da produção agrícola e fora um dos pontos de adiada para 2 de outubro, quando se decidiu peia reforma da Companhia,
insatisfação expressos na revolução de 1817. satisfazendo mais uma das reivindicações dos deputados de Pernambuco.
Durante a referida sessão, Van Zelíer, deputado de Portugal, apresentou O embate entre Zeferino e Martins Basto é significativo. Diante de
parecer da Comissão do Comércio relativo a requerimento dos acionistas da questão fundamental como a do monopólio do comércio para a preservação
Companhia, entregue quando da chegada dos deputados de Pernambuco, das relações coloniais com as províncias do Brasil, a oposição não ocorreu
que pedia restruturação da instituição. Os interessados argumentavam que entre deputados de Pernambuco e de Portugal. Foí um representante flumi-
os gastos despendidos pela companhia com funcionários dedicados ao con- nense quem saiu em defesa dos interesses europeus na Companhia de
trole da atividade comercial eram abusivos. Comércio. Martins Basto provavelmente beneficiava-se dos luctativos vín- ,
O parecer da Comissão das Corres solicitava providências urgentes, pois culos que a Companhia permitia entre os comerciantes de Portugal e os
concordava com as razões dos acionistas, que ficavam com parcela reduzida produtores de Pernambuco.
dos lucros obtidos com o comércio da região. Concluía, então, pela necessi- As modificações da instituição, já solicitadas em 1817, foram estabeleci-
dade de reformas. das contra o voto do deputado do Rio de Janeiro.
O depurado de Portugal pediu a opinião do acionista Zeferino dos Santos, Assim concluía-se essa fase dos trabalhos das Cortes corn a satisfação das
que apoiou o parecer: "[...] a companhia de Pernambuco, parecia que deveria principais reivindicações dos deputados de Pernambuco. Rego Barreto havia
ter acabado com a morte do Marquês de Pombal [...]. São passados víntc anos sido afastado do governo da província, ordenou-se a eleição de junta provisó-
c não se fez repartição nenhuma [...]. Nestes vinte anos, vamos ver o que ela ria para substituí-lo derrotando a petição dos comerciantes do Recife, e
tem lucrado, e o que tem despendido [...]. Até a passagem de El-Rei para o Rio encamÍnharam-sc as reformas da Companhia de Comércio.
de Janeiro, ela lucrou 84 contos de réis e depois que El-Rei está no Rio, tem
despendido 126 contos, total 210 contos [...]. Administração viciosa. [...]. É Oposição entre os poderes: Congresso Nacional e delegações provinciais
necessário que se passe para a administração de outros homens, enquanto se
congrega a assembleia dos acionistas de Pernambuco"10. Como já mencionado, a primeira fase do trabalho constituinte em Lisboa
caracterizou-se pela expectativa quanto à repercussão da revolução no Brasil.
Vários foram os temas referentes ao território brasileiro deixados para deci-
Diário das Cortes Constituintes, 25 de setembro de 1822. são futura, em virtude da ausência dos deputados ultramarinos. A política
NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS 95
94 NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS

Fernandes Tomás c Ferreira de Moura, é identificado pelo autor como


Ç ' i das Cortes para a eleição dos deputados nas províncias brasileiras
defensor intransigente dessa concepção, baseada no conceito integrador da
também, com este argumento: a necessidade de informações e
nação, que não se limita ao território do reino de Portugal. Para eles, os
participação nas decisões dos representantes dessas províncias.
"portugueses cm todas as quatro partes do mundo são membros da mesma
A cheeada dos deputados de Pernambuco e Rio de Janeiro, porém,
família, formam todos a mesma nação, e seguem todos o mesmo exemplo"13.
antecipou questão fundamental para os debates posteriores: a base da repre-
Não se omite aí o papel de destaque da "mãe pátria". Como mãe, é geradora,
sentação Os deputados eram representantes de suas províncias ou da nação?
matriz original, e ocupa o centro da "família portuguesa",
A contradição pode parecer formal mas, como veremos, terá papel central
A soberania da nação, para os íntcgracionistas, era indivisível cm muitos
nas discussões sobre a organização do Estado.
níveis: não era divisível com o rei, pois a ele não atribuiriam nenhum poder
O problema já se enuncia quando das decisões sobre o envio de tropas ao
de veto; não o era em duas Câmaras, já que a Constituição portuguesa
Rio de janeiro. Corno vimos, sem a presença de representantes da província,
definia-se pela câmara única; c não poderia ser dividida na concepção de
os deputados de Lisboa decidiram pelo envio de milícias. Em 20 de setem-
representação por províncias. Essa forma de conceber a soberania nacional
bro Martins Basto pediu a rediscussão da matéria por meio de uma indica-
voltaria a se manifestar ainda em vários outros pontos.
ção- "Proponho que o embarque da tropa destinada ao Rio de Janeiro, posto
Chama atenção, também, o fato de que nesse momento da discussão os
aue já esteia decidido pelo Soberano Congresso, seja novamente discutido;
integracionistas não eram os maiores defensores do envio de tropas para as
visto que a esta decisão não foi presente a deputação daquela província, ela
províncias brasileiras. Contrapuseram-se ao grupo de Borges Carneiro, du-
pode ter conhecimentos muito particulares; e sobre o negócio ocorrem
rante os meses de junho c julho, quanto à utilização da força nas províncias
razões que podem influir na alteração dessa decisão"1'.
brasileiras. Acreditavam que a adesão dessas províncias ocorreria por meio da
A petição causou reaçoes indignadas. Um dos deputados de Portugal,
força dos argumentos, baseados na clara justiça estabelecida na Constituição
Ferreira de Moura, declarou que "este princípio é contra todos os princípios
portuguesa. Assim ocorreria a integração nacional, c não mediante a força
da política" Admitir este pressuposto seria colocar cm xeque todo o trabalho
das armas1'5.
feito até o momento, pois qualquer deputado ausente (e Ferreira Borges, por
O pedido de substituição das tropas no Rio de Janeiro era feito pelo
exemplo se declarará ausente na discussão) poderia pedir revisão das deci-
monarca, como vímos. As Cortes acabaram por render-se a ele porque
sões o que inviabilizaria o trabalho de qualquer sistema de representação.
queriam, medianre a presença de militares, controlar o governo com poderes
Mas o areumento mais sério, também apresentado por Ferreira de Mou-
ilimitados do príncipe regente, que não escolheram, nem autorizaram e
ra foi o de que esse princípio poria em questão a representação da nação: "Eu
tampouco dirigiam. A notícia de que D. Pedro havia jurado a Constituição
sou tanto representante do Rio de Janeiro como os do Brasil são de Portu-
em 5 de junho, forcado pela divisão militar portuguesa no Rio de Janeiro,
gal" Soares Franco complementaria: "Neste augusto congresso não há
reforçava o papel que os militares poderiam ocupar como contrapeso de um
deputados de províncias, senão deputados da nação e tudo que se faz não é
governo independente. Os integracionistas resistiram, mas acabaram ceden-
relativo a uma província, senão à nação inteira"13.
do ao pedido de envio de tropas.
A indicação do deputado do Rio de Janeiro nem sequer entrou em
Esta aceitação talvez possa ser considerada "desvio" na estratégia integra-
discussão, dado que os debates se centraram nos poderes da representação
cionista do grupo de Fernandes Tomás, que apostava na união política da
provincial cm suas relações com a. nação. As posições defendidas por Moura
"família portuguesa". Grupo que, mesmo não sendo um dos principais
expressavam as preocupações que haviam norteado a proposta de organiza-
defensores do envio das forças militares ao Puo de Janeiro, atacou violenta-
ção do Estado português. mente a concepção expressa por Martins Basto sobre a representação provin-
Está enunciada na questão uma parte da concepção da nação e de sua
cial. O princípio da soberania na nação una e indivisível estava ameaçado e
soberania que o historiador português Valentím Alexandre denominou
os integra cio n istas não podiam calar-sc.
"integracionista". O grupo de deputados portugueses, do qual faziam parte

13 Alexandre, Valentim. Os sentidos do Império, cie., p. 574.


Diário dos Cones Constituinte, 20 de setembro de 1821. H Ibiftem, p. 575-6.
Ibidem.
96 NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS 97

Os poderes da representação provincial tornaram-se tão importantes para Apresentado e discutido por itens, o projeto não sofreu nenhuma objeção
os Jntegracionistas porque o projeto de organização dos governos ultramari- dos deputados do Rio de Janeiro ou de Pernambuco. Apenas no final,
nos, de 21 de agosto, havia retornado à pauta do Congresso no dia anterior à Martins Basto se opôs à medida que extinguia a Casa de Suplicação do Rio
proposca feita por Martins Basto. Ele tocava dirctamcntc no princípio em de Janeiro e à que estabelecia o novo funcionamento do Judiciário. Como
questão, ou seja, a relação entre os poderes da província e os poderes da isso implicasse a transferência da última instância de apelo ao julgamento
nação. para Lisboa, Basto ressaltava a inviabilidade e os altos custos de tal medida
para os habitantes do Brasil. Com a objeção, o projeto voltou à Comissão
O decreto das Cortes e a organização dos governos provinciais para que se rcdiscutisscm estes itens.
O artigo 17 do projeto, como já foi referido, propunha o retorno do
Com base no parecer de 21 de agosto, díscutíu-se, entre 19 e 29 de príncipe regente a Portugal e foi discutido cm 20 de setembro de 1821.
setembro, a organização dos governos nas províncias ultramarinas. A forma Considerava-se que, estando regulamentados os governos provinciais, a
mais eficaz de controlar o governo independente de D. Pedro no RJo de medida incluía também o Rio de Janeiro, de modo que a presença de D.
Janeiro, na opinião dos integracionistas, era definir as atribuições de poderes Pedro se tornava desnecessária. A antiga capitai do Reino era, agora, uma
em cada uma das províncias, as relações entre elas e delas corn Portugal. província como outra qualquer, governada por uma junta, e não havia
No dia 19o projeto foi apresentado e decidíu-se basear a discussão no motivos para a permanência de um representante da família real.
decreto expedido para Pernambuco, fazendo-sc as alterações que se julgas- Em 29 de setembro, quando o projeto se transformou em decreto,
sem necessárias. precisaram-se as condições do retorno de D. Pedro: deveria viajar imediata-
As principais características da proposta já foram vistas e podem ser assim mente, incógnito, "às Cortes e reinos de Espanha, França e Inglaterra,
resumidas: o governador de província estava sujeito ao governo do Reino e às acompanhado por pessoas dotadas de luzes, virtudes e adesão ao sistema
Cortes, mas independente da junta e ela dele; ao governo da junta concedia- constitucional""1.
se "toda a autoridade c jurisdição na parte económica, administrativa e de No mesmo dia aprovava-se o projeto de organização dos governos ultra-
polícia", bem como para suspender provisoriamente qualquer magistrado; marinos. Conservando as características iniciais da proposta, o texto final
seus membros eram responsáveis "colctiva e individualmente ao governo do omitia, porém, a extinção dos tribunais do Rio de Janeiro. Essa omissão
Reino e às Cortes por sua administração e conduta"; toda a "autoridade e respondia à objeção feita por Martins Basto c significava recuo da Comissão
jurisdição na parte militar" não pertencia ao governo da junta, mas aos de Constituição. O projeto-foi, então, aprovado, sem nenhum outro pro-
"respectivos governadores na simples qualidade de governadores comandan- nunciamento dos representantes de Pernambuco e do Rio de Janeiro.
tes das armas da província", assim como ocorria nas províncias do reino de A aprovação do projeto consolidou a vitória das posições integracionistas
Portugal e Algarvcs; esses governadores de armas estavam "subordinados ao no Congresso: "Sem surpresa, era a tese que podemos chamar 'intcgracionis-
governo do Reino, e responsáveis a cie, e às Cortes por sua conduta e ta' a que eles consagravam — abolindo implicitamente a regência de D.
administração; devendo-se considerar independentes uns dos outros; e de Pedro, que se mandava regressar à Europa, criando juntas provisórias inde-
cada uma das respectivas juntas provinciais", como elas o eram deles "nos pendentes enrre si e subordinadas às Cortes c ao governo de Lisboa, estabele-
objctos da sua competência"; extinguiam-se a Casa de Suplicação do Rio de cendo governadores de armas controlados diretamente pela metrópole. É
Janeiro e todos os demais tribunais c juízos aí criados depois da chegada do essa a tese que nos meses seguintes prevalecerá na política do Congresso —
rei; "todos os negócios contenciosos, civis ou criminais, causas da Fazenda e embora submetida a uma pressão crescente, dada a evolução dos aconteci-
todas as dependências" voltavam a ser julgados pelos critérios anteriores à mentos do Brasil"17.
formação dessa instância, reinstalando-se a antiga "relação" composta de A proposta, porém, continha uma ambiguidade que retardou os conflitos
trinta membros indicados pela junta 15 . abertos. Começava por reconhecer os governos eleitos nas províncias que

Ver Diárío das Cortes Constituintes, sessões de 19 de setembro de 1821 c de 29 de setem- Diário elas Cortes Constituintes, sessão de 29 de setembro de 1821.
bro, onde se publica o texco definitivo c aprovado. Alexandre, Valcntim. Os sentidos do hnpérío, ctt., p. 589.
NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS 99
98 NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS

haviam aderido ao regime constitucional a partir de movimentos locais e no c às Cortes", ou seja, ao Executivo e ao Legislativo. As forças armadas
recomendava eleições nas outras. Como no caso de Pernambuco, esse reco- eram controladas pelo governo central sediado em Lisboa, expressão máxima
nhecimento possibilitava a deposição dos governadores ligados ao regime da nação portuguesa. No entanco, sua soberania aparecia, nesse ponto,
anterior e provocou rcação positiva de seus opositores. Em outubro de 1821, repartida entre o monarca c os deputados eleitos.
por exemplo, Hipólito da Costa saudava a aprovação da proposta no Correio
Brasiliense, ainda que discordando dos governos militares, tal como ficava "Integracionismo" e "patriotismo" pernambucano
definido no decreto18.
Por outro lado, a introdução dos "governadores de armas", indicados Os deputados de Pernambuco permaneceram calados durante os dez dias
pelo governo e pelas Cortes e a eles submetidos, possibilitava o controle em que foram debatidas as propostas para organização dos governos provin-
dessas instituições locais. Como definiu o deputado português Guerreiro: ciais. Já haviam concordado com elas quando se referiram à sua província e
"Era necessário dar ao governo alguma influência sobre a administração das nada objetaram quando as mesmas medidas foram estendidas às demais,
províncias. As Cortes imaginaram que não havia outro meio se não o de mesmo na ausência dos seus representantes.
conservar a administração da Fazenda c os negócios militares na mão do No entanto, voltaram a se pronunciar quando Pernambuco esteve nova-
mente em questão.
governo"19.
A medida, portanto, ao mesmo tempo que fortalecia os governos provin- Em 13 de outubro chegavam a Lisboa os 42 prisioneiros enviados por
ciais, eleitos a partir de então, trazia para o governo de Lisboa o comando do Rego Barreto. As detenções haviam ocorrido como punição ao atentado
exército, deixando aberta a questão do Judiciário. sofrido pelo governador cm 21 de julho. A acusação aos degredados do
Dessa forma, esvaziavam-se as funções do governo do Rio de Janeiro e Recife era associada ao envolvimento com os participantes na revolução de
todo o sistema de empregos c funcionários ligados a ele. Retirava-se, tam- 1817, agora soltos das prisões baianas e reinstalados na província.
bém, qualquer controle de finanças ou do exército efetívado por essa cidade. A discussão foi apresentada nas Cottes por meio de uma indicação de José
E em consequência chamava-se o príncipe regente de volta a Portugal. Em Ferreira da Silva, que pedia providências sobre as "vítimas dos furores de
síntese, o Brasil deixava de ser reino unido a Portugal e Algarves. Suas Rego Barreto".
províncias deveriam estar diretarnentc ligadas ao governo da Monarquia e às O deputado pernambucano foi imediatamente apoiado pelo conterrâneo
Muniz Tavares, que, depois de acusar o governador de "desmandos jamais
Cortes, tal como as províncias de Portugal.
Una e indivisível, a nação portuguesa reconhecia um único centro de vistos", pediu ao Congresso que enviasse um "ministro" à província para
poder, sediado em Lisboa. Aí instalava-se o Executivo, incorporado no rei c inquirir a conduta civil e política do governador, mostrando ao Brasil o
em seus ministros; não havia lugar para um príncipe regente. Somente a este interesse do Congresso. No seu depoimento, carregado de tom pessoal,

í
• Executivo, submetido às Cortes, caberia o controle das forcas armadas.
Cortes que legislavam de acordo com a vontade da nação, instaladas cm
Lisboa. Coerentemente, Lisboa também deveria sediar a última instância do
defendia os presos como homens honestos, com quem convivera e cujo
único crime teria sido participar da revolução de 1817. Chegando da Bahia,
recém-libertos, foram presos indistintamente por um governador despótico
que merecia ser julgado 20 .
Judiciário.
De início, os integracíonistas recuaram ante essa proposição, mas a
questão seria retomada posteriormente.
O relato feito posteriormente por Muniz Tavares cm Revolução em Pernambuco cm
Outra contradição da proposta dizia respeito às características da Consti-
1817, artigo da RífíGBdc 1897, já citado, é sensivelmente diferente. Neste artigo, ele diz
tuição portuguesa. Os governadores de armas eram vistos como poderes ser o autor da moção favorável aos presos. Após a sua leitura ccria-se seguido longo silencio
paralelos aos governos provinciais. Contudo, estavam submetidos "ao govcr- nas Cortes e, posta a votação, a moção teria sido aprovada por unanimidade. Então, "o
ministro da justiça com solicitude extraordinária transmitiu ao chanceler da Relação a
ordem recebida, c esse nem permitiu que fossem desembarcar livres. Depois de alguns dias
de repouso embarcaram-se, c voltaram sem despesa ao seio de suas famílias, c daí em
18 Correio Brasiliense de outubro de 1821, citado por Carvalho, M. E. Gomes de. Op. cit., p.
diante não deixaram de velar os interesses da Pátria, pela qual tanto haviam padecido" —
127.
p. 287-8.
19 Diário das Caries Constituintes, sessão de 29 de setembro de 1821.
100 NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS 101

Às intervenções dos pernambucanos juntou-sc o pronunciamento de um Contudo, a situação de Pernambuco parecia ser, agora, alarmante. Em
deputado do Rio de Janeiro, Vilela Barbosa, que tomava posse nesse dia em uma boa síntese dos motivos, Valentim Alexandre afirma: "A crise mera-
substituição a D. Francisco de Lemos. Argumentava ele: "Vários juízos se mente virrual semanas antes, tornara-se agora real c insofismável (sabía-se já
têm formado acerca do estado atual do Brasil e, particularmente de Pernam- que cm Goiana se formara uma junta revolucionária, que se opunha pelas
buco, e pela maior parte contrários aos honrados sentimentos daqueles armas ao Governador Rego Barreto), o que levara a burguesia mercantil
povos. Desconfia-se da união corn Portugal, e as tropas decretadas para o Rio lisboeta a exercer pressão aberta sobre o Congresso a fim de que uma força
de Janeiro, [...] sem maior necessidade, e a independência dos Generais das militar seguisse para o Nordeste brasileiro (pressão referida no artigo do
Armas para com as Juntas de Governo daquelas províncias dá lugar a supor Astro da Lusitânia, e também mencionada numa intervenção do deputado
isto que digo". Os povos do Brasil já haviam provado sua adesão enviando os Muniz Tavares)"23.
deputados para as Cortes. "Ligados por antigos hábitos, e costumes, c mais A discussão adquiriu contornos interessantes em 18 de outubro. Foi
que tudo pelos vínculos de sangue [...] só desejam ser regidos por leis justas e iniciada por Borges Carneiro que, mais uma vez, defendeu a intervenção
humanas [...]. Se Rego Barreto foí um bravo general, tem sido mau governa- a-rmada. Propunha envio de destacamento militar de seiscentos homens para
dor [...]. Rcmovam-se do Brasil os déspotas [...] e então a voz da indepen- a província do Nordeste, corn urgência.
Entre os deputados de Portugal surgiram duas linhas diferentes na defesa
dência [...] será crime"21.
Recém-chegado, Vilela Barbosa criticava as últimas decisões do Congres- da medida. A primeira, expressa por Pereira de Melo e Silva Correia,
so em relação às províncias do Brasil: o envio de tropas ao Rio de Janeiro c a justificava a intervenção para reprimir "o partido da independência". Consi-
organização dos governos provisórios. Ressaltava a uniãg_jios "povos" dg_ derava que no Brasil existiam dois partidos, um que reconhecia nas Cortes a
Brasil c_Pgrtugal p^r^omji^ilharern os_mesniQs "hábitos", "costumes^c possibilidade de uma^nação" livre, e outroj^e identificava a liberdade com
"vmculgs _de sangue". E identificava jirnjínico jrinr^j>o:g "despotismo". a índépírícíência. Deixados à própria sorre, os dois partidos levariam as
o ,Contra esse i nl migojdgveria m unir-se os "povos" do Brasil ejieJ1orniga].,jTãp províncias à guerra civil. Assim, as forças militares enviadas a Pernambuco
não deveriam ser "tropas opressoras que protejam o despotismo, mas tropas
havendo necessidade de independência...Eram, portanto, povos independen-
tes, ligados por origem comum c um mesmo inimigo, que desejavam leis constitucionais, que vão apoiar o governo, a opinião dos bons, c reprimir as
facções contrárias"2'1.
justas.
Quanto aos presos de Pernambuco, aprovou-se o envio do assunto para A outra linha de defesa provinha do grupo "intcgracionista", liderado por
avaliação do governo, com a recomendação do Congresso de que se respei- Fernandes Tomás, mas mais bem esclarecida por Ferreira de Moura: "Se me
tasse a "liberdade individual" dos presos "sem contudo se preterirem as constasse que a província de Pernambuco queria a independência, quero
regras absolutas de justiça", retirando-se as "informações judiciais" acerca dizer, que todos os seus habitantes queriam governo separado, eu era o
dos crimes que se imputavam a Rego Barreto, "procedendo depois de tudo primeiro que havia de aplaudir, eu era o primeiro, que havia de pugnar, no
Congresso que era impolítico que se mandasse tropa, em razão de obstar ou
na forma das leis"22.
O tema retornaria, porém, dois dias depois, acrescido de uma questão prevenir sua vontade". Ou seja, se a "vontade" da província fosse pela
difícil: a possibilidade do envio de tropas para Pernambuco. Lembremos independência, essa deveria prevalecer. Mas, conclui Moura, "não creio que
que, quando os deputados dessa província ingressaram nas Cortes, em clara se trata agora disto; [...] mas sim de apoiar a junta provincial para que
sufoque a anarquia, que tem principiado a dedarar-se como os ilustres
postura de desarmamento, tinha-se optado pela retirada do batalhão de
Algarves que havia sido deslocado para Pernambuco desde 1817. Lembre- deputados da província confessam"25. As duas linhas de argumentação, no
mos também que a decisão do envio de tropas para o Rio de Janeiro fora entanto, convergiam para o envio de tropas.
Entre os pernambucanos falaram Ferreira da Silva e Muniz Tavares. Este
tomada com dificuldade por boa parte dos deputados de Portugal, sobretudo
em virtude da oposição feita pelo grupo liderado por Fernandes Tomás.
Alexandre, Valentim. Os sentidos do Império, cit., p. 590.
Silva Correia. Diário das Cortes Constitnintes na sessão de 18 de outubro de 1821.
31 Diário í/rtí Cortes Constituintes, sessão de 16 de outubro de 1821.
Ferreira de Moura. Iilcm, ibidem.
22 Ibidern.
102 NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS 103

último afirmava que seria necessário esperar a posse de novo governador, deputados. Basco interveio decididamente, apoiado por Vilela Barbosa
expressando seu espanto diante "daqueles que em agosto eram contra o envio argumentando que "o deputado é representante da nação c não da comarca"
de tropas" e agora mostravam-se favoráveis a esse recurso, temendo um pouco importando o lugar de seu nascimento para ser eleito, desde que fosse
partido que, na verdade, não existia. A "voz da independência" desaparecera português, conseguindo a adesão da maioria no Congresso. Defendia a
no Brasil com o juramento da Constituição, c como não existiam inimigos "máxima" integracionista c, dessa fornia, alinhava-se com setores importan-
externos a Pernambuco, não se fazia necessário reforço militar. tes dos deputados de Portugal.
No entanto, o pernambucano estabelecia uma comparação prcocupance: Assim, depois de aprovadas essas teses integracíonistas para a organização
"O Brasil, meus senhores, é defendido por si mesmo [...] nos seus vizinhos política da nação portuguesa, com a anuência de pernambucanos e flumi-
nada há que recear, pois são homens livres, c livres são os brasileiros ainda nenses, as primeiras consequências ocorreriam, justamente sobre Pernambu-
mesmo debaixo da dinastia de Bragança, por isso que têm o direito a uma co. Com a intervenção armada na província, comprovavam-se as verdadeiras
Constituição que no seu projeto rivaliza com a custosa obra dos Franklins, intenções de um comandante de armas submetido a Lisboa.
Washíngtons, Madisons, Morris, e outros". A comparação adquiriu sentido Por um lado, a maioria dos deputados de Portugal defendeu os direitos
quando, antes de ser votada a matéria, Muniz Tavares advertiu "que o dos presos em Pernambuco, ao lado de sua bancada e do fluminense Vilela
primeiro choque que causou a desunião dos Estados Unidos, quando estes Barbosa, mas sem apoio da maioria dos deputados do Rio de Janeiro, da
haviam proclamado à face de Deus e do universo adesão à metrópole, não mesma forma que havia defendido os direitos do Conde dos Arcos. Tratava-
foi senão pelo princípio da metrópole mandar-lhes soldados contra a sua se, aqui, de garantir a Constituição c os direitos individuais em processos de
vontade"26. julgamento.
Dois deputados do Rio de Janeiro participaram da discussão: Vilela Barbo- Mas, por outro lado, esclarcciarn-se as pretensões quanto à autonomia
sa c Martins Basto. O primeiro declarou-se contra a intervenção. O segundo, dos governos das armas nas províncias ultramarinas. Submetidos à Corte,
porém, apoiou o envio de tropas a Pernambuco. Contrariou as teses de Moura, estes serviriam como forma de controle do govcrno-geral. A intervenção
favoráveis à independência se isso correspondesse à vontade geral da província: armada em Pernambuco exemplificava o tipo de controle pretendido.
"[...] porque nem nós podemos ter aqui vistas diversas das que tem Pernambu- Note-se que a expedição se dirigiria a Pernambuco como reforço da Junta
co, que são as de constitucional, nem mesmo o número de tropa pode nunca Provincial, recomendada a partir de 21 de agosto e implementada pela vila
dar ocasião a suspeitar que vai conquistar Pernambuco"27. de Goiana. Não se tratava, portanto, de apoio ao governo de Rego Barreto.
Basto votou, então, para que a expedição se reunisse aos corpos que lá No entanto, a bancada de Pernambuco não aceitou o recurso. A província
existiam, não formando um batalhão separado. Isto significaria, na sua não tinha inimigos externos, segundo Muníz Tavares, e não necessitava de
opinião, um apoio ao governo constitucional da província. novas tropas.
Foi aprovado o desmembramento do batalhão enviado ao Rio de Janeiro: A tese integracionista estava contraposta à autonomia provincial, e a
dos l .200 homens aí presentes, quatrocentos deveriam ír para Pernambuco, bancada pernambucana começava a sentir os efeitos dessa oposição.
rendendo o batalhão de Algarves. Em dois momentos dessa discussão, os deputados do Brasil evidenciaram
Uma declaração de voto contrario foi apresentada no dia seguinte, assina- a discordância. Vilela Barbosa falou em "povos" unidos pelos costumes
da por Domingos Maíaquias Pires Ferreira, Inácio Pinto de Almeida e contra o despotismo, e não em um único e indivisível corpo nacional,
Castro, Félix José Tavares Lira, Pedro de Araújo Lima, Manuel Zcferino dos ressaltando a diversidade na união da nação. E Muniz Tavares citou o
Santos, João Ferreira da Silva e Muniz Tavares, eleitos por Pernambuco, e exemplo da república federativa dos Estados Unidos para justificar a incon-
dos eleitos pelo Rio de Janeiro, somente por Vilela Barbosa. veniência do envio de tropas. Ern sua argumentação, o Estado da América do
Interessante notar que nessa mesma sessão discutiu-se o artigo 75 da Norte e as repúblicas da América do Sul apareciam como exemplos de povos
Constituição, que proibia a eleição dos não naturais de uma comarca como livres.
Ressalte-se, porérn, que o princípio da autonomia provincial não unia
todos os deputados do Brasil presentes cm Lisboa no momento. A maioria da
26 Diário dos Cortes Constituintes, sessão de 18 ilc outubro de 1821.
bancada fluminense não se pronunciou a respeito e votou pela intervenção
17 Ibidem.
em Pernambuco. Martins Basto, como virnos, pronunciou-se favoravclmen-
104 NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS 105

te à medida c defendeu, ao lado de Vilela Barbosa, as teses inccgracíonistas estabeleciam instância que pudesse garantir-lhe o carátcr constitucional. O
sobre a base de representação dos deputados. Executivo caberia ao rei, mas a deputação "velaria" pela observância da
As teses integracionistas seriam questionadas, ainda, durante o mês de Constituição.
novembro, quando o Congresso passaria a discutir os critérios para a forma- O attígo causou grande polémica. No entanto, apesar da importância das
ção da deputação permanente. Nesse momento, porém, o debate contaria atribuições conferidas à Deputação, não se discutiram suas funções ou a
com número maior de deputados do Brasil. pertinência de sua formação, mas a paridade proposta entre Portugal e o
Os dois eleitos pela província do Maranhão ingressaram nas Cortes Ultramar.
durante a sessão de 6 de novembro. Cabe lembrar que um deles, Joaquim O íntcgracionismo voltaria a se manifestar por intermédio de Agostinho
António Vieira Belford, era desembargador e ministro da Relação mara- Freire: "Suponho que não é político, nern justo o estabelecer princípios que
nhense, tendo, por isso, participação importante no debate de que tratare- dêem a entender que devern escolher-se deputados de Portugal e do Brasil. E
mos a seguir. Embota o regulamento eleitoral proibisse a eleição de funcio- preciso que esta verdade se estabeleça: não há divisão de Brasil e Portugal"30.
nários públicos, e apesar do parecer contrário da Comissão de Poderes à Mais enfático, Gonçalves de Miranda diria: "O meu voto é que não se
integração do juiz, as Cortes aceitaram seu mandato2". faça distinção alguma entre deputados europeus c deputados ultramarinos; e
No dia 11 entraria em pauta o artigo 98 da Constituição, que previa a que se faça desaparecer das páginas da Constituição tudo o que for princípio
formação de uma "Deputação Permanente das Cortes". O artigo era inspira- de federalismo"31. As eleições para a deputação deveriam ser feitas tal como
do na Constituição de Cádís, que estabelecia: "Da Deputação permanente as dos deputados às Cortes, ou seja, "na proporção da população" represen-
das Cortes: 157, Antes que as Cortes separem, nomearão uma Deputação, tada32.
que se chamará Deputação permanente de Cortes composta de sete indiví- Ao falar em proporção da população, os constituintes não esclareciam se a
duos do seu seio, três das Províncias da Europa, e três das do Ultramar, e o proporcionalidade corresponderia aos habitantes das províncias ou ao coral
sétimo sairá por sorte entre um Deputado da Europa e outro do Ultramar. do território brasileiro. Parecia estar implícita a segunda alternativa, de
158. Ao mesmo tempo nomearão as Cortes dois substitutos (suplentes) para modo que se admitia a existência de uma unidade "ultramarina". Por outro
esta Deputação um da Europa, c outro do Ultramar. 159. A Deputação lado, houve quem lembrasse que esse "ultramar" incluía os portugueses das
permanente durará de umas Cortes ordinárias até outras. 160. As faculdades ilhas, da África e da Ásia.
desta Deputação consistem nas seguintes: Primeira: velar sobre a observância Entre os de Portugal, vários saíram em defesa do artigo, como Castelo
da Constituição, e das Leis para dar conta às próximas Cortes das infraçóes; Branco e Pereira do Carrno, para "dar confiança aos irmãos de Ultramar",
que tem notado. Segunda: convocar as Cortes Extraordinárias nos casos reconhecendo a necessidade de ter na deputação, assim como nas Cortes,
prescritos pela Constituição. Terceira: desempenhar as funções prescritas "representantes da nação portuguesa de todas as partes do mundo".
nos artigos 111 c 112. Quarta: para avisar os Deputados Substitutos para O rccém-chegado deputado maranhense, Belford, entrou no mérito do
que concorram em lugar dos proprietários; c se acontecer o falecimento, ou critério da proporcionalidade proposco pelos integracionístas: "O censo do
impossibilidade absoluta dos proprietários; e substitutos de uma província, Brasil, ainda imperfeito como está, dá seguramente, pelo cálculo mais apro-
comunicar as correspondentes ordens à mesma, para que proceda a nova ximado, ao menos três deputados para a deputação"33. Tal critério, acredita-
eleição"29. va ele, eliminaria as rivalidades c convenceria os habitantes do Brasil das boas
A Carta portuguesa reproduzia integralmente a espanhola com referência intenções das Cortes.
a essa deputação, que, na prática, era uma forma de controle e exercício do Uma indicação de Muniz Tavares adiou a discussão para o dia seguinte:
Executivo por comissão nomeada pelo Legislativo. Ambas as constituições,
espanhola e portuguesa, mantinham a monarquia como forma de governo e
10 Diário das Cortes Constituintes, sessão de 12 de novembro de 1821.
31 Ibidcm.
23Parecer da Comissão de Poderes de 5 de novembro c sessão das Cortes de 6 de novembro 12 Proposta apresentada pelo deputado de Pottugal, Maldonado. Diário das Cortes Consti-
de 1821. tuintes, sessão de 12 de novembro de 1821.
w Constituição de Hfípanha. Lisboa: Impressão Régia, 1820. " Ibidem.
mf'

106 NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS l Q7

"Proponho [...] que as Cortes antes de se dissolverem elejam duas deputações Constituinte seguia o caminho da justiça c aos povos caberia obedecer a ela c
[...] uma residirá na capital de Portugal c será composta de deputados as guiar-se por ela. Para a comissão deveriam ser eleitos os mais hábeis. Se a
províncias da Europa, e a outra residiria em qualquer das províncias do maioria viesse a ser formada por brasileiros, obedecendo a esse critério, cie
Brasil, e será igualmente composta dos deputados das províncias do Ultra- consideraria justo. A nação portuguesa deveria estar representada na Comis-
mar"34. são c o único critério para a eleição deveria ser o das qualidades apresentadas
A discussão foi retomada em tom de discordância declarada. Pela primei- pelos candidatos.
ra vez, um deputado pernambucano manÍfcstava-se nas Cortes sobre tema A tese integracionista foi, desta vez, derrotada, sensibilizando-se a maioria
importante que escapava às reivindicações de sua província. Sintomatica- dos deputados de Portugal com o argumento de que era necessário um
mente, isso acontecia após a decisão do envio de tropas para Pernambuco. compromisso com os povos de ultramar.
Muníz Tavares, provocacivamentc, exagerou a concepção da paridade até a O artigo foi finalmente aprovado, por 69 votos contra 26, incluindo-se
formação de duas deputações em territórios diferentes. Assim, implicitamen- nos últimos os votos dos deputados Lemos Brandão e Gonçalves Ledo, do
te, reconheceu uma unidade política entre as províncias de Ultramar. Con- Rio de Janeiro, que não se pronunciaram durante os debates.
tudo, sua indicação não foi aceita. Corno se viu nas páginas anteriores, durante o período de agosto a
Na defesa da paridade, buscou-se apoio nos princípios de Cádis, os quais, novembro de 1821 prevaleceram nas Cortes as teses aqui chamadas de
nas palavras de Vilela Barbosa, logravam "conciliar a vontade das províncias "intcgracionistas" da nação. Dois desvios dessa posição podem ser registra-
de Ultramar; não escandalizemos as nossas"35. dos nesses meses: o envio de tropas para o Río de Janeiro, decidido contra os
O deputado do Rio de Janeiro discutia a tese intcgracíonista: "Dizem que intcgracionistas, e a paridade entre deputados de Portugal e de ultramar na
somos todos aqui representantes da Nação [...]. Tudo isto é excelente em composição da Deputação Permanente, que reconhecia a diferença entre
tese, mas não em hipótese. Tudo é muito fácil de dizer-se, mas não de sentir- dois tipos de portugueses.
se; e se nós o sentimos, como é justo que o sintamos, talvez o não sintam Nessa fase de predominância do intcgracionísmo, o Congresso já contava
assim os povos, que não são tão filósofos e metafísicos"31'. com os deputados de Pernambuco, Rio de Janeiro e, no último mês, com os
Vilela Barbosa e Belford destacavam a necessidade de adaptação dos do Maranhão, sendo que os deputados fluminenses atuaram, na maior parte
princípios de Cádis à realidade luso-brasíleira, c essa mostrava urn sentimen- dos debates no Congresso, cm conformidade com aquela política geral.
to, nas províncias no Brasil, de discriminação: "Que mais quer Portugal, não O que vale a pena ressaltar é a combinação do "patriotismo" pernambu-
tem cm si o monarca? Não tem as Cortes? Não vêm tomar nelas assento os cano com a ideia da nação portuguesa una c indivisível.
representantes de Ultramar com tantos incómodos e perigos? Não se lhes O nacionalismo vintista defendia, desde 1815, a nação entendida como
manda de cá os bispos, os generais, os magistrados? E ainda se lhes quer vontade geral e ancorava-se na tradição da "família portuguesa", como
disputar palmo a palmo esta pequena igualdade de representação da Deputa- referimos anteriormente. Essa combinação, vontade geral e tradição, parece
ção Permanente!"3' ser a fundamentação das teses integracionistas da nação defendidas nas
Belford chamava atenção para o fato de que inevitavelmente os represen- Cortes. Observa-se a associação entre nação, vontade geral e soberania em
tantes do Brasil seriam perdedores na votação, pois entre os deputados das todos os discursos dos deputados integracionistas.
Cortes estavam em minoria, pouco podendo fazer por suas províncias. A propósito da utilização do termo nação, um estudo sobre as ideias c
A última intervenção foi feita por Fernandes Tomás, que, como de palavras na revolução de 1820 diz o seguinte; "A 'nação' manda, a 'nação'
hábito, apelou para os princípios da formação da nação portuguesa. Para ele, faz, a 'nação' espera, a 'nação' é o centro da soberania. [...]. A nação não se
as medidas não deveriam ser tornadas para "agradar ou não os povos". A confunde, todavia, com um indivíduo ou um grupo de indivíduos. A nação é
uma 'vontade geral', uma totalidade"38.

3" Ibidcm.
35 Diário das Cortes Constituintes, sessão de 14 de novembro de 1821.
3É Ibidcm. 38 Vcrdelho, Teimo dos Santos. AÍ palavras e as ideias na Revolução Liberal de 1820.
37 Vitela Barbosa. Idem, ihidem. Coimbra: INIC. 1981, p. 198.
108 NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS 109

Nação, na concepção vintísta, será um conceito absrrato que se define Aí justamente reside a ideia abstrata de totalidade. Tanto quanto seu
pela "vontade geral" e não por um grupo de indivíduos. poder absoluto, a nação é absoluta, una c indivisível. Como comentou
Assim, os habitantes do Brasil fariam parte da nação se isso correspondes- Albert Soboul: "A nação é o corpo inteiro, a massa de cidadãos fundidos
se à "vontade geral", e a separação de Pernambuco seria admitida se obede- num só bloco: desapareceram as ordens c as classes; a nação é composta por
cesse a essa "vontade". Prefere-se a força dos argumentos à força das armas tudo o que é francês"'13.
porque se considera possível interferir na "vontade geral". Essa ideia, presente na Franca durante o final do século XVIII, é um
A expressão nos remete a Rousseau. A análise da historiadora portuguesa componente do ideário vintista.
Ana Maria Ferreira Pina sobre sua influência no vintismo conclui, que esse No vintismo, porém, a nação é, também, tradição. Uma totalidade
pensador despertava grande interesse entre os portugueses na época, o que hístórico-cultural, igualmente abstrata, que tem sua unidade formada cm
justifica a tradução do Contrato Social zm 1821 pela Tipografia Rolandiana. tempo indefinido. A nação é anterior ao Estado c, em termos legais, haveria
No entanto, para a autora, as teorias de Rousseau tiveram impacto proclamado seus direitos nas Cortes de Lamego. A "vontade geral" da nação,
relativamente pequeno sobre o trabalho das Cortes, e "para além de o para os vintístas, é a defesa dessa tradição.
filósofo não ser associado ao período jacobino, as menções a Rousseau são O grupo de Fernandes Tomás era o mais radical defensor dessa concep-
neutras, sem intenção acusadora, ou outra deliberada, enquanto as alusões ção de nação c o projeto por ele elaborado, e aprovado nas Cortes cm
ao último tempo da Revolução Francesa, liderada por Robespierre, são setembro de 1821, buscava a unidade nacional por meio da integração
fortemente críticas"39. irrestrita. Não se referia às províncias de ultramar como colónias. Simples-
A expressão vontade: geral é utilizada constantementc nos trabalhos das mente não permitia a dissociação das partes do que considerava um todo, um
Cortes, mas em nenhum momento é explicitamente associada a Rousseau. corpo nacional. Essa seria a única forma de concretizar o Estado/Nação; ele
E, de resto, a teoria do filósofo sobre a soberania popular direta, por deveria representar a unidade e a integração desse corpo.
exemplo, não é incorporada pelos víntístas' °. Muito diferente era a concepção implícita nas atitudes dos deputados de
A "vontade geral" para eles define a nação. Essa associação, porém, Pernambuco. Como vimos, os revolucionários de 1817 atuaram na defesa da
também não faz parte do pensamento do autor do Contrato Social, para "pátria" e do "país" dos pernambucanos, como está registrado cm seus
quem o termo estava associado a urna comunidade, a Cidadc-Estado, que panfletos, já citados, e na história da revolução feita por Muniz Tavares-i4.
formava um "corpo político". Tal corpo, para o filósofo, tinha personalidade O "patriotismo" pernambucano, essa defesa regional que caracterizou as
corporativa e, por isso, "vontade", verificávcl pela participação direta*1. ações dos habitantes de Pernambuco, c ao qual nos referimos no decorrer C
A associação entre "vontade geral" e "nação" foi feita durante a Revolu- desta exposição, cxprcssou-se nas Cortes mediante a defesa intransigente dos
ção Francesa, justamente pelos jacobinos, e transformou-se em conceito interesses da província feita pelos seus deputados e pelo seu silencio diante *
abstrato. Segundo essa visão, a nação herdaria o poder absoluto c divino do das questões mais gerais. O exemplo mais evidente talvez seja a condenação
soberano. Ela seria a herdeira de sua soberania. de Rego Barreto e o perdão ao Conde dos Arcos quando ambos eram
Os revolucionários criticavam os reis "despóticos" por deterem pessoal- merecedores das mesmas acusações. Depois de conseguirem afastamento do
mente todo o poder político e propunham colctívizá-lo, transferindo-o para governador, cautelosamente, não se envolveram nas denúncias de "despotis-
a nação. Desejavam transferir a soberania da cabeça do Estado para o corpo mo" feitas ao conde.
nacional. Ao poder pessoal contrapunham a "vontade geral"'11. No entanto, "pátria" e "país" parecem ser definições muito maís concre-
tas nesse momento do que "nação".
No mesmo estudo sobre a terminologia de 1820, já citado, encontramos

35 Pína, Ana Maria Ferreira. De Rousseau ao imaginário díi Revolução de 1820. Lisboa: INIC,
1988, p. 62.
*" Idem, ibidem. 43 Soboul, Albcrc. La Révolution Française — problémc natíonal cr réditos sociales. Acta d:i
*' Ver Sabine, Gcorgc H. Rousseau: a r e desço berça da comunidade. História das teorias Colloque Ptítriotisnie e Nattonalisme en Europe à 1'époquc cif Ia Révolution Française et de
políticas. Rio de Janeiro, São Paulo, Lisboa: Ed. Fundo de Cultura, 1961, p. 566-86. Niipotéon, p. 29. Citado por Alexandre, Valcndm. Os sentidas do Império, cit., p. 807.
4! Idcm, ibidem. 44 Ver Mota, C. G. Op. cit., p. 14-21 c Tavares, Francisco Muniz. Op. cit.
110 NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS \o nas mãos das

que: "país, em 1820, significa essencialmente 'terra', 'região', segundo teste-


munho dos dicionários coevos"'55. E mais à frente: "O dicionário de Morais Lisboa poderia interferir cm qualquer decisão local.
de 1831 refcre-sc à pátria como 'a terra donde alguém é natural'"46. Essa contraposição entre a nação integrada defendida pelos deputados de
Não resta dúvida de que a utilização do termo país refere-se a terra. O Portugal e os anseios expressos pelos pernambucanos ficaria mais evidente
significado da palavra p átria, por sua vez, abrange uma noção mais ampla do após o ingresso da delegação baiana nas Cortes,
que a vista no dicionário citado. Mas, de qualquer forma, quando cia não
remete à terra onde se nasceu, significa a comunidade "que nos viu nascer". A Nação Portuguesa no federalismo dos baianos
O "patriotismo", ou a exaltação dos valores c interesses regionais, aparece
como defesa da terra e da comunidade às quais o indivíduo se sente ligado Os deputados da Bahia tomaram assento no Congresso ao final da sessão
pela sua trajetória pessoal. Implica, portanto, defesa de sua região, do seu de 15 de dezembro de 1821. Como vimos, encontravam boa parte das
particular, antes do geral. E refere-se a urna terra c a uma comunidade decisões, quanto à organização do Estado em território brasileiro, já toma-
específicas, concretas e comprováveis. das. Conheciam-se as resoluções das Cortes para a organização dos governos
A pátria não corresponde necessariamente a urn "corpo político". Em provinciais e para a deputação permanente, c já estava decidido o retorno de
1817a "pátria pernambucana" buscou associar-se ao Ceará, à Paraíba c ao D. Pedro a Portugal. Ficava aberta, porém, a discussão sobre a extinção dos
Rio Grande do Norte para formar "uma só república". A defesa do "país" tribunais do Rio de Janeiro.
pode levar à junção com os habitantes de outros países, desde que a autono- O envio de tropas para aquela província c para Pernambuco revelava o
mia das partes seja respeitada. temor das Cortes quanto aos movimentos desencadeados no Brasil e a
Um sentido semelhante é atribuído ao termo povos, utilizado pelo Depu- decisão de utilizar a força para contê-los.
tado Vilela Barbosa na sessão de 16 de outubro. Vejamos o significado de Os debates realizados cm novembro já haviam evidenciado pontos de
expressão pata ele: "[...] 'povos livres' poderá distinguir-se de 'nações livres'. contrastes entre a proposta integracionista do grupo de Fernandes Tomás e a
Esta fórmula significa independência, autonomia em relação a grupos es- dos deputados de Pernambuco, com apoio de Vilela Barbosa. Sc o primeiro
trangeiros; aquela exprime um regime de liberdade e comparticipação geral havia sido vitorioso na proposta de organização dos governos provinciais,
na administração interna"'17. Quando o deputado fluminense se referia a restando ainda decidir o destino dos tribunais do Rio de Janeiro, o segundo
"povos do Brasil", supunha unidade participativa na gestão provincial e não conseguiu manter a paridade na composição da depuração permanente.
dissociação política entre eles. Esboçavam-se as linhas de conflito dos meses seguintes, mas nada estava
Os republicanos de 1817 tornaram-se monarquistas constitucionais em ainda decidido. Tampouco se sabia qual a linha de atuação a ser seguida por
1821. No entanto, agiam, ainda, buscando a associação de partes distintas qualquer uma das partes. Os integracionistas, minoritários entre os deputa-
por meio de definições legais. Continuavam defendendo sua pátria por meio dos de Portugal, necessitavam negociar suas intervenções para obter maioria.
da rcs-pública. A defesa das reivindicações locais era prioritária para os Também entre os do Brasil não havia homogeneidade de propostas.
pernambucanos, mas eles poderiam integrar a nação portuguesa desde que A chegada da delegação baiana alterou significativamente esse quadro.
respeitada a autonomia da província, legalmente. Tratava-se de deputados de uma província fundamental para a economia e a
Até certo ponto, o decreto das Cortes em setembro obedecia a esses política do Reino. Antiga sede do Vice-Reino do Brasil, tradicional como
anseios, pois destituía Rego Barreto c conferia poderes importantes à Junta zona exportadora, foco de insatisfação previsível após a ttansferência da
Provisória. Corte para o Rio de Janeiro, tinha sido uma das primeiras províncias a
No entanto, a base da formulação do projeto integracionista é oposta às reconhecer a autoridade das Cortes, elegendo um governo provisório e os
pretensões pernambucanas, essencialmente localistas. O poder das armas deputados. A chegada desses últimos gerava, então, grande expectativa.
Cipriano Barata, como um de seus integrantes, manifestou-se já em 17 de
dezembro por meio de uma indicação que deixaria claro o sentido de sua
45 Vcrdclho. Op. dt., p. 205. atuação nos meses seguintes. Propunha ele "se suspender o progresso da
** Idfrn, ilidem, p. 200. discussão de Constituição enquanto não se reunirem todos os Deputados do
47 Ibidem, p. 204. Brasil, e pata se discutirem de novo os artigos já aprovados sem audiência dos
l 12 NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS 113

mcsmos"'íf:. A proposta tocava no âmago dos últimos conflitos no Congresso Foi nessa noção que os autores da indicação se apoiaram. A maior parte
e não foi discutida, ficando para segunda leitura. das províncias do Brasil, até o momento, não havia reconhecido as Bases da
Em 19 de dezembro, Icu-se urn texto mais preciso: "[...] devendo ser o Constituição nem enviado deputados para as Cortes. Como consequência,
artigo 21 das bases da Constituição religiosamente observado; sendo incon- tais províncias não faziam, ainda, parte da nação portuguesa e não estavam
testável que o estabelecimento de leis orgânicas exige conhecimentos locais obrigadas a acatar as deliberações de seus representantes.
dos países que eias têm por fim organizar; sendo finalmente certo que alguns A mesma concepção era aplicada aos deputados recém-chegados, eleitos a
dos artigos do projeto de Constituição já discutidos por esta soberana partir do juramento de um texto que não definia, por exemplo, o funciona-
Assembleia, não podem deixar de ser modificados para que possam ser úteis mento dos governos provinciais.
ao Brasil; proponho: que se declare na ata, que nós pelo fato de tomar Interessante notar, ainda, que a indicação dos baianos não utilizava a
assento neste augusto Congresso, não aprovamos alguns dos artigos já palavra "nação", referia-se a "reino" c "país". Notava a ausência de represen-
aprovados; e que toda a matéria da Constituição ate agora vencida, e a que se tantes do reino do Brasil, os quais dariam conhecimento sobre a realidade de
for vencendo daqui em diante, não se julgue definitivamente sancionada seu país. Este podia ser entendido como o próprio reino, c então os deputa-
para obrigar o Brasil, senão depois que se acharem reunidos a esta assembleia dos presentes poderiam cumprir o papel referido acima.
todos os representantes daquele Reino; podendo em consequência subrne- Como o texto não considerava que essa função estivesse satisfeita, ou seja, os
ter-se a nova discussão, alterar-se qualquer artigo, que se conhecer não convir representantes baianos ou pernambucanos não informavam sobre outras rc-
àquele país"*'9. O texto levava as assinaturas de Cipriano José Barata de giÕes, concluía-se que o "país" mencionado podia ser a própria província, o
Almeida e Francisco Agostinho Gomes. lugar onde se juravam as bases da Constituição e se elegiam os deputados.
Buscavam assim fundamentar a indicação nas Bases da Constituição A rcação do plenário à proposta dos dois baianos foi de recusa imediata, e
portuguesa, que, até então, era o documento lega! ante o qual se faziam os Borges Carneiro solicitou que ela fosse retirada para não se atrasarem ainda
juramentos e que servia de base para a eleição dos deputados. O citado artigo mais os trabalhos.
21 dizia que "somencc à nação pertence fazer a sua constituição ou lei A ponderação de Cipriano Barata ao exemplificar discordância com o que
fundamental, por meio de seus representantes legitimamente eleitos. Esta lei já havia sido feito pela Constituinte é sintomática: "O sr. Barata ponderou os
fundamental obrigará por ora somente aos portugueses residentes nos reinos motivos que tinha para sustentar a sua moção, dizendo que era verdade que
de Portugal e Algarves, que estão legalmente representados nas presentes ele não tinha podido ver ainda todos os trabalhos que se têm feito sobre a
Cortes. Quanto aos que residem nas outras três partes do mundo, ela lhes Constituição; porém como tinha visto que, tratando-sc dos direitos dos
tornará comum, logo que pelos seus legítimos representantes declarem ser cidadãos, na Constituição se tinha feito diferença entre portugueses e cida-
esta a sua vontade"50. dãos; por isso tinha assentado que lhe era preciso falar sobre este artigo, assim
As Bases da Constituição, então, faziam diferenciação entre "os portugue- como em outros mais, e que ele não queria dizer que se suspendesse a marcha
ses" residentes nas quatro partes do mundo c a "nação portuguesa", consti- dos trabalhos, etc."51.
tuída politicamente por rncio da representação. Está aí, claramente implícita, Foi seguido por Borges de Barros, para quem "isto não era parar os
a noção de pacto entre as partes, consolidado mediante a representação c trabalhos, mas sim trabalhar a bem da mesma nação", levando-se em conta
formalizado cm texto constitucional, resultante da interferência delas. que uma lei comum não poderia ser aplicada da mesma forma crn províncias
Nação portuguesa, nesse sentido, seria uma construção política e não um diferentes, sendo portanto natural que os recém-chcgados quisessem rever
todo orgânico, existente apriori, onde se procura a legitimação. algumas discussões. E concluía: "A Bahia se julgava credora de alguma
atenção particular à vista de sua decidida adesão pela causa da nossa regene-
ração nacional" 52 .

4S Diário das Cortes Constituintes, sessão de 17 de dezembro de 1821.


" Ibidem, sessão de 19 de dezembro de 1821.
50 Bases da Constituição Política da Monarquia Portuguesa, In; Sancos, Clemente José dos, 51 Síntese feita pelo relator no Diário das Cortes Constituintes, sessão de 19 de dezembro de 1821.
v. I, p. 166. " Idern, ibidem.
114 NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS l l5

A divergência de Baraea não chegou a ser debatida, pois a indicação não residir cm país estrangeiro por mais de cinco anos contínuos [...]; 3) que for
foi aceita. O pronunciamento de outro baiano, Luís Paulino, foi determi- condenado por sentença em pena de prisão ou degredo perpétuo"55. E, como
nante para a negação do princípio enunciado no texto sobre as particularida- já referimos anteriormente, quem não fosse reconhecido, moral c socialmcn-
des das províncias: "Eu como brasileiro, como baiano, c como português rc, capaz de se sustentar mediante uma ativídade produtiva.
daquela parte do Reino Unido, devo também atalhar a questão. Os baianos Nessas definições, a diferenciação entre "português" c "cidadão portu-
assaz têm sempre testemunhado a maior adesão c amor a seus irmãos de guês" não envolvia a opção por um regime político, Exceção feita aos estran-
Portugal". Depois de justificar essa adesão, concluiu: "Qual será o português geiros naturalizados, eram "portugueses" c "cidadãos" os homens livres, nas-
europeu que não preze como seu bom irmão o português da América? Não cidos cm território português e com filiação portuguesa nas duas linhas. Não
mais, não pareça fsic] que pode haver sombra de desconfiança; continuemos havia referência à aceitação do texto constitucional para ser considerado
fervorosamente os trabalhos para a nossa geral regeneração e felicidade [...]. cidadão.
Isco é o que eu creio que o sr. Barata crê; isto é o que eu entendo que ele No enranto, ao se referirem às províncias de ultramar, as Bases Constitu-
deseja, nem outta coisa se pode presumir" 53 . cionais condicionavam a integração na nação ao juramento dos princípios da
Foi Fernandes Tomás, mais uma vez, quem fez a última intervenção, Constituição. Deduz-sc que seus habitantes só se tornariam cidadãos a partir
seguindo a argumentação de Luís Paulino. Novamente negava a diferença desse momento.
entre deputados, pois todos seriam representantes da nação e estariam Talvez o deputado baiano pretendesse explorar essa contradição. Além
trabalhando para seu bem. Diante da necessidade de informações sobre as disso, a referência a "homens livres" supunha a existência de "não Hvres" e
realidades locais, as Cortes sempre procuravam obtê-las e continuariam a evidenciava a permanência da escravidão. Corno tal tema nunca fora aborda-
proceder da mesma forma. do diretamente pelos deputados de Lisboa, talvez Gpriano Barata pretendes-
O artigo referido por CSpriano Barata sobre a cidadania portuguesa se pô-lo cm pauta.
jamais foí discutido ern plenário com as delegações do Brasil. Interessante, De toda forma, o ingresso da bancada baiana acirrou o já conhecido
porém, recuperar as definições que seriam criticadas por ele. debate sobre os poderes das delegações provinciais e os poderes do Congres-
A Constituição definia que: "a nação portuguesa é a união de todos os so. A base desse conflito, como referimos, remetia à oposição entre a auto-
portugueses de ambos os hemisférios"; eram portugueses "todos os homens nomia das províncias e a nação una e indivisível dos íntcgracionistas. Essa
livres nascidos c domiciliados no território português, c os filhos deles"; os discordância de fundo passaria a se expressar com maior clareza a partir da
filhos de pais estrangeiros e mães portuguesas, com bens de raiz em território objcção feita por Cípriano Barata.
português; os nascidos fora que jurassem a Constituição; os filhos ilegítimos Além dessa contestação, as teses integracionisras foram derrotadas cm
de mães portuguesas c os estrangeiros naturalizados pelas Cortes. E definia outra questão. Na mesma sessão de 17 de dezembro aprovava-se nova
que eram cidadãos portugueses: os oriundos de território português, com redação do texto constitucional a respeito do Conselho de Estado. Lançando
filiação portuguesa nas duas linhas, e nele adquirindo domicílio; os estran- mão do mesmo critério para composição da deputação permanente, introdu-
geiros naturalizados, com carta de cidadania dada pelas Cortes e só concedia zia-se a paridade, ficando o Conselho composto por treze membros, "seis
aos que tivessem um capital considerável ou "invenção" útil e serviços tirados das províncias europeias", "seis do ultramar" c o décimo terceiro
prestados à nação; os filhos de estrangeiros, nascidos em território português sorteado entre um europeu e um ultramarino. Sem nenhuma observação dos
e aí residindo durante vinte anos sem interrupção5'1. deputados do Brasil c com resistências dos intcgtacionistas, a nova composi-
Determinava, ainda, que perderia a condição de cidadão aquele: "1) que ção reconhecia, ainda, as diferenças entre dois tipos de portugueses5G.
se naturalizar em país estrangeiro; 2) que sem ordem ou licença do Governo Como veremos, a política geral defendida pelo grupo de Fernandes
Tomás seria, ainda, problematizada durante as úlcimas sessões de 1821.
Em dezembro, o Congresso voltava a discutir a possibilidade de extinção
Ibidtm.
Projeto de Constituição Política em nome da Santíssima e Indivisível Trindade apresentado às
Cortes na sessão de junho de 1821, entrando em discussão cm 9 de julho do mesmo ano. Vl Idem, ibidem.
Foi impresso ao final de janeiro de 1822, antes da sessão do dia 28. 50 Diário das Corta Constituintes, sessão de 17 de dezembro de 1821.
116 NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS 117

dos tribunais do Rio de Janeiro. Como já foi visto, essa era uma parte da das posições adoradas por boa parte dos deputados do Brasil, como neste
proposta inicial feita pela Comissão de Constituição cm 21 de agosto que, exemplo: "Eu assento que nada haverá de mais justo do que pôr em vigor o
em função da discordância expressa por Martins Basto em 19 de setembro, projeto que se acha cm discussão, c nivelar a antiga corte do Rio de Janeiro
havia voltado à Comissão para nova rcdação e não compunha o decreto de com todas as mais províncias do Brasil [...]. Desça do alto grau de corte para
29 de setembro. o de província". E mais adiante: "Nós tratamos de nivelar as províncias do
O polemico projeto para a organização dos governos provinciais fora Brasil com o Rio de Janeiro, e portanto devemos reduzir a Casa de Suplica-
aprovado sem referência aos tribunais do Rio de Janeiro. Por isso, novo ção a uma relação provincial"58.
parecer sobre o assunto foí apresentado na sessão de 11 de outubro. Foi Borges Carneiro quem fez o questionamento mais sério, defendendo
A discussão, na verdade, referia-se à existência de uni centro de poder no a manutenção, no RJo de Janeiro, de alguma instância do Judiciário capaz de
Rio de Janeiro. Com a transferência da Corte, a partir de 1808 críou-sc na julgar os pedidos de revisão de penas. Argumentava que, restringíndo-se este
nova capital do Reino uma série de instâncias de poder que agora se poder ao Supremo Tribunal em Lisboa, só os ricos do Brasil poderiam
propunha extinguir: o Conselho Supremo Militar, as Mesas de Desembargo utilizar-se desse recurso, pois os gastos com a viagem para Portugal eram
do Paço e da Consciência e Ordens e a Casa de Suplicação. Todos, órgãos de enormes.
última instância de julgamento. A instalação de tais órgãos no Rio de Janeiro O maranhense Belford contrapôs à proposta de Carneiro argumentos
estava associada à presença da Corte, uma vez que o rei era o único a quem se semelhantes aos utilizados por Lino Coutinho: "Quanto ao que diz o sr.
podia pedir revisão de uma sentença já definida cm tribunais. Agora, portan- Borges Carneiro a respeito de conceder a revista ao Rio de Janeiro; se nós
to, deveriam retornar a Lisboa. temos de nivelar todas as Relações do Brasil, para que queremos dar_a revista
Além disso, discutia-se a extinção da Junta de Comércio no Rio de ao Rio de Janeiro?"5y.
Janeiro, que visava centralizar toda a ativídadc mercantil do Reino. Aprovaram-se, nessa sessão, a extinção do Supremo Conselho Militar do
Diferentemente da primeira proposta, essa deixava claro que as compe- Rio de Janeiro e a formação, como nas outras províncias, de um Conselho de
tências dos tribunais extintos estariam distribuídas por vários organismos, c Justiça. O projeto tornou-se decreto cm 11 de janeiro de 1822, mas ficava
determinava que as relações provinciais julgariam em última instância, pendente a definição sobre a instância capaz de aplicar os recursos de revista.
"salvo o recurso da revista" nas causas cujo valor excedesse "a dois contos"5'. Em 31 de janeiro voltava-se a discutir a questão. O projeto definia, então,
Os recursos de revista eram os pedidos de revisão das penas aplicadas por que quando as relações provinciais "declararem nulidade ou injustiça" de
algum juiz. O texto definia, portanto, que tal recurso não poderia ser julgado determinado julgamento "farão executar a sentença e darão conta ao Supre-
na província, pelas relações — comissões provinciais de justiça —, quando as mo Tribunal de Justiça"60.
causas excedessem "dois contos". Nesses casos, entendia-se que o pedido de A redíscussão da matéria, porém, evidenciou outro problema, além do
revisão deveria ser submetido ao Supremo Tribunal de Justiça, em Lisboa. esvaziamento dos poderes do Rio de Janeiro: a esfera de autonomia cabível a
Com essa cxceção, o projeto reforçava o poder provincial no que se referia cada província c cm que medida estaria subordinada à capital no que se
ao Judiciário, pois todas as outras decisões de última instância eram desloca- referia ao Poder Judiciário.
das para as províncias. Borges Carneiro mostrava-se, novamente, -favorável a que os casos se
As poucas observações feitas ao conjunto da proposta por parte dos resolvessem em território brasileiro, pois "já não se pretende governar o
deputados do Brasil são bastante expressivas. Brasil como se governava antes!'; os laços de união deveriam ser atados não
Martins Basto, o autor da objcção inicial ao projeto, agora apresentava por meio da integração administrativa, mas mediante "interesses recípro-
reparos secundários ao texto, aprovando-o no conjunto. Ledo c Varela cos". O deputado anunciava seu verdadeiro projeto de união, que explicita-
opuseram-se à extinção da Junta do Comércio do Rio de Janeiro, mas não remos mais à frente: a integração de mercados.
foram apoiados nem mesmo pelos outros representantes fluminenses.
As intervenções do baiano Lino Coutinho, por sua vez, são esclarecedoras
58 Diário das Cortes Constituintes, sessão de 29 de dezembro de 1821.
w tbidem.
57 Proposta apresentada na sessão de 11 de oucubro de 1821. Í0 Ibidem, sessão de 31 de janeiro de 1822.
118 NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS 119

Foi contestado, porém, pelos fluminenses Ledo e Vilela Barbosa, cujo Durante as discussões de janeiro, porém, à exccção do fluminense Gon-
objetivo era urna união que ultrapassasse os vínculos comerciais. O primeiro çalves Ledo, nenhum deputado do Brasil defendeu a existência de um centro
objetou que se mantivesse alguma unidade do Judiciário no território brasi- do Judiciário no Rio de Janeiro.
leiro: "O Brasil deve ter um Supremo Tribunal de Justiça como Portugal e o Curiosamente, essa defesa foi feita por um deputado de Portugal. Como
artigo deve voltar à redação"61. vimos, a proposta de organização dos governos provinciais tinha as marcas
Já Vilela Barbosa concordou com a forma do artigo como estava, afir- do grupo intcgracionista e Borges Carneiro não pertencia a cie. É identifica-
mando que por "comodidade, se fosse possível unir tudo e todos o mais do pelos historiadores portugueses como liberal "moderado". Era, porém,
possível, seria este o meu voto"61. integrante da comissão que elaborou o projeto para os governos ultramarinos
Não era essa, porérn, a posição defendida pelos deputados da Bahia. Eles e, certamente, foi voto vencido nela. Agora, apresentava suas divergências:
tinham por finalidade a total descentralização do Judiciário, c Borges de seria possível conceder maior grau de autonomia política ao Brasil desde que
Barros sugeriu outra redação para o texto: "Nas províncias ultramarinas se soldassem os vínculos e interesses económicos.
tratar-se-á das revistas pela mesma relação do país do modo que a lei Os representantes da Bahia, porém, avançaram uma alternativa à propos-
determinar, ficando responsáveis os juizes ao Supremo Tribunal de Justiça". ta feita pela comissão. Tanto quanto os outros deputados do Brasil presentes
Submetendo-se apenas os juizes e não as causas, considerava que "pode em Lisboa, estavam dispostos a eliminar qualquer supremacia do Río de
II existir em cada província um Poder Judiciário independente"''3. Janeiro sobre as demais províncias. Mais que isso, pretendiam concentrar
Tal proposta recebeu comentário irónico de Fernandes Tomás, que, nas províncias todo o Poder Judiciário.
diferentemente de Borges Carneiro, apelava para a unidade do Judiciário — Contrapunham-se, portanto, a Borges Carneiro c ao projeto integracio-
"Por que não um tribunal em cada freguesia ?" — c concluía que os nista. Esse passaria, então, a receber críticas em dois níveis. Por um lado,
proponentes queriam "províncias confederadas" e não "unidas"64. intensificava-se o conflito entre poderes locais e poder nacional com as
O baiano Lino Coudnho, que sempre insistia na artificialidade do siste- propostas feitas pela delegação baiana. Por outro, Borges Carneiro e seus
ma político — criado e passível de ser modificado pelos homens —, alinhou- apoíadores passariam a apresentar outra alternativa de integração da nação
se com a proposição de seu conterrâneo, buscando reforço nos argumentos portuguesa, por meio de laços económicos.
enunciados por Borges Carneiro. Para ele, os laços de reciprocidade comer- Por fim, Muniz Tavares, que, assim como os outros pernambucanos, não
cial reforçariam a união e o melhor exemplo seria o das colónias inglesas da se manifestou durante os debates, apresentou indicação, ao final da sessão de
África e Ásia, que "tinham a maior liberdade e se uniam à Corte para aprovar 31 de janeiro, que mostrava sua preocupação com o estado de coisas no Rio
as decisões locais". Cipriano Barata completaria dizendo: "Pode-se estar de Janeiro. Sugeria "que se envie ordens para as juntas provinciais para a
unido com trezentos tribunais de justiça"65. realização de concursos para os ofícios ou empregos dados no RJo de
Como resultado do debate, incorporou-se sugestão de Borges Carneiro ao Janeiro", pois "urn dos grandes problemas do Brasil era a escandalosa
Projeto, que dava o recurso de revista às relações rnais numerosas do Brasil c distribuição de ofícios" na cidade66.
mantinha o critério inicial para as demais. O adendo partia do princípio de Alinhava-se, assim, com a maioria dos demais deputados do Brasil,
que as últimas, as províncias menores, teriam poucos recursos financeiros expressando desejo de controlar os poderes conferidos à capital do Reino,
para manter toda a estrutura de um tribunal de justiça. por meio das juntas provinciais.
No entanto, o tema geral, a esfera do Judiciário cabível a cada província, Como se depreende das considerações anteriores, o ano de 1821 havía
voltaria à pauta do Congresso no mês de fevereiro. terminado com alguns acordos, mesmo que precários, entre os representan-
tes das províncias de Portugal e do Brasil. No entanto, a tranquilidade não
foi a tónica dos debates do final do ano.
Os jornais de Lisboa noticiavam com grande alarme alguns acontecimen-
61 Ilidem.
tos do Brasil: "Em finais de novembro, o Astro da Lusitânia publicava
" Ibidem.
63 Ibidem.
H Ibidem.
Ibide
« Ibidem.
120 NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS INTEGRADA E PODERES REGIONAIS 121

notícias de Pernambuco, comentando o conflito entre Rego Batretoeajunta farão essa loucura, mas será depois de eu e todos os portugueses estarem
de Goiana — acontecimentos a que o Campeão Lisboncme deu suficiente feitos em postas; é o que juro a vossa majestade, escrevendo nesta com o meu
peso para fazer sair um suplemento, onde se referia à instalação da junta sangue estas seguintes palavras: 'Juro sempre ser fiel a vossa majestade, à
dirigida por Gervásio Pires Ferreira, que teria ordenado a partida de Rego nação e à Constituição portuguesa"'70.
Barreto e do batalhão do Algarve no prazo de dez dias, provocando com isso Na carta do dia seguinte, escrevia sobre Pernambuco: "Neste momento
a emigração cm massa dos europeus"1''. recebi uma fatal notícia, dada por um brigue americano, de que a vila de
A situação de Pernambuco causava apreensão. As medidas propostas Goiana, em Pernambuco, se tinha sublevado, mas que o governo de Per-
pelas Cortes não acabaram com os conflitos e os ânimos continuavam nambuco já tinha tomado medidas acerca do acontecimento, e que da Bahia
exaltados. Maior apreensão, no entanto, causava a situação do Rio de Ja- já tinham partido trezentos c quarenta homens, entre portugueses e baia-
neiro. Em dezembro, a imprensa portuguesa havia-se ocupado dos aconteci- nos"71.
mentos, a patcir de alguns episódios ocorridos em setembro, identificando Em 9 de novembro, o príncipe referia-se a problemas fora do Rio de
na cidade um movimento pela independência, como manifestou, por exem- Janeiro, dizendo: "Aqui está tudo em perfeito sossego e promete duração; nas
plo, O Astro da Lusitânia: "E por tudo constante que naquela cidade existia outras províncias já não é tanto, e em Pernambuco estão quase em perfeita
um projcto inteiramente oposto ao sistema da União de Portugal com o anarquia, porque já lá não querem portugueses europeus, c o batalhão 2 do
Brasil. Entretanto este projeto não tinha em vista o estabelecimento de uma Algarve estão dentro do quartel pronto a defender-se no caso de ser atacado
república, mas sim de uma Monarquia, dando-se ao seu chefe o pomposo por esses que só por fora são constitucionais"72.
nome de imperador. Os heróis que se dizem figurar nesta peça são todos Lidas e apreciadas pela Comissão de Constituição, as cartas foram apre-
europeus; c se nela não chegou ao último ato, foi isso devido à oposição que sentadas às Cortes, que se limitaram a agradecer ao rei por tê-las enviado e ao
encontrou no espírito público"68. príncipe pela fidelidade expressa. Claramcnrc, esperava-se o desenvolvimen-
Não foi só em Lisboa que a notícia da possível independência foi divuiga- to da situação73.
da. Também no mês de dezembro o Correio Brasiliense, de Hipólíto da Nesse contexto, a chegada de alguns presos da Junta Constitucional da
Costa, tratou do tema, afirmando que no Rio de Janeiro já se havia marcado Bahia serviu para aumentar a tensão. Como no caso dos presos de Pernam-
até mesmo a data de emancipação do Reino, prevista para 12 de outubro69. buco, não havia contra eíes culpa formada, mas acusação, feita pela Junta, de
A situação da ex-sede da monarquia foi discutida nas Cortes em 18 de motim com o fito de derrubar o governo em 3 de novembro de 1821. De
dezembro, a partir da correspondência de D. Pedro com o paí, na qual toda forma, a chegada dos acusados fazia crer em conflitos generalizados nas
identificava tal movimento separatista c se declarava fiel à monarquia e à diversas regiões brasileiras.
Constituição. A Bailia, por sua pronta adesão ao sistema constitucional, era a província
Em sequência de cinco cartas, escritas entre 4 e 10 de outubro, abordava de que se esperava um ponto seguro de apoio e ajunta Provincial expressava
o problema e seu esforço para resolvê-lo. Dizia na primeira, do dia 4: "Meu o elo com as Cortes. Era ela que fazia as acusações aos prisioneiros enviados
pai e senhor: Com bem desgosto pego na pena para comunicar a vossa para Lisboa. A situação diferia, portanto, da referente aos presos de Pernam-
majestade do motim c boatos mui fortes que correm no plano pela cidade. A buco, que recebiam acusações do interventor Rego Barreto.
independência tem-se querido cobrir comigo e com a tropa; com nenhum Assim, a Comissão de Constituição, da qual faziam parte Borges de
conseguiu, nem conseguirá, porque a minha honra e a dela é maior que todo Barros e Fagundes Varela, após ouvir os deputados baianos, emitiu parecer
o Brasil, queriam-me, e dizem que me querem aclamar imperador; protesto a cm que deixava a decisão sobre os presos para os juizes. Estava aí implícito
vossa majestade que nunca serei perjuro, que nunca lhe serei falso, e que eles um voto de confiança na Junta do governo baiano. Por outro lado, a mesma

70 Santos, Clemente José dos. Documentos, cit., p. 257-


Alexandre, Valentim. Os sentidos do Império, cit., p. 600.
71 Idem, ibtdem.
Astro da. Lusitânia, 24 de dezembro, citado por Alexandre, Valeriam. Qr sentidos do Império,
cit., p. 600. 71 Ibidem.
Cò/r«b UfiMíimif, dezembro de 1821, v.27, citado porCarvalho, M. E. Gomes de. Of>.át.,p. 175-
73 Diário das Cortes Constituintes, sessão de 18 de dezembro de 1821,
NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS 123
122 NAÇÃO INTEGRADA E 1'ODERES REGIONAIS

comissão identificava rivalidades entre portugueses da Europa e do Brasil, até Cipriano Barata e Borges de Barros argumentaram que, além de se enviar
mesmo na Junta Provincial7'1. as resoluções da Constituinte para os habitantes do Brasil, se deveria "enviar
Diferentemente das situações anteriores, a constatação de "rivalidades" coisas", ou seja, a extinção de "impostos gravosos que as juntas prometiam
na Bahia não levou à decisão de envio de tropas, como havia acontecido nos extinguir, mas não cumpriam"7'J.
casos de Pernambuco e do Rio de Janeiro. Agora, em um momento cm que A proposta da Comissão foi aprovada e, cm breve, o Congresso pass.r) a
os conflitos pareciam generalizar-se no remo do Brasil, declarava-se "não discutir as relações comerciais entre os reinos.
querer a união pela força"75. As notícias recebidas entre os meses de dezembro de 1821 e janeiro de
Concluía-se, cm janeiro de 1822, pela necessidade de uma série de medidas 1822 haviam acrescentado novos elementos às polémicas das Cortes sobre a
que acelerassem a união entre as diversas partes da nação. Propunha-se, então: organização político-administrativa da nação portuguesa. O movimento
"1) que a comissão nomeada para regular os interesses comerciais entre os dois separatista no Rio de Janeiro, o levante de Goiana em Pernambuco e o
hemisférios comece desde já seus trabalhos"; "2) que se nomeie uma comissão episódio dos presos pela Junta da Bahia configuravam um quadro de confli-
com o título de Fazenda do Reino do Brasil, composta dos Srs. Deputados do tos generalizados no reino do Brasil.
mesmo reino, e do de Portugal, para apresentar ao Congresso o método de Nem a força dos argumentos, concretizada nas propostas íntegracionistas
administração interina das rendas da nação em todas as províncias do reino do para a organização das juntas provisórias, nem a força das armas, efetivada
Brasil, indicando as quantias e o modo por que cias devem contribuir para as com o envio da tropas para o Rio de Janeiro c Pernambuco, haviam sido
despesas e urgências do Estado"; "3) que qualquer sr. deputado do Brasil [...] capazes de evitar a composição desse quadro desanimador.
proponha na comissão de fazenda, quais são os tributos municipais, ou Entre os deputados de Portugal, essa situação levou ao enfraquecimento
quaisquer outros [...], que devem já levantar-se para aliviar o povo que tenha do grupo de Fernandes Tomás, pois ao final do mês de janeiro prevalecia o
motivos já hoje não existente"; 4) "se além desse houver qualquer outro" que se esboço de novo projeto de integração para a nação portuguesa sobre o
indique para a extinção; 5) "que apenas qualquer desses trabalhos estiver defendido por ele.
pronto se proponha logo às Cortes para entrar em discussão com urgência"; 6) Já as propostas de Borges Carneiro, expressas nas medidas "para acelerar
"que as Cortes proclamem aos povos do Brasil mostrando-lhes quais têm sido a união" dos dois reinos, apostavam na "complementaridade" de interesses
económicos entre as partes da Monarquia como forma de soldar-lhes a
os artigos já sancionados na Constituição em seu benefício"76.
Vários deputados do Brasil pronunciaram-se após a exposição do parecer. união.
Destacou-se a intervenção de Vilela Barbosa, que disse "recear uma tempes- Este projeto será rnais bem explicitado nos debates que analisaremos a
seguir. Mas, já se pode inferir que, nele, o papel atribuído ao Estado é o de
tade no Brasil", pois os que "atiçam a desordem não são europeus nem
coordenar a pretendida integração económica.
brasileiros", mas "portugueses degenerados", "membros da santa aliança
Para o grupo "moderado" de Borges Carneiro, a indivisibilidade político-
para manter o despotismo", motivo pelo qual se fazia necessário "remover o
administrativa, essencial para os Íntegracionistas, tornava-se, então, secun-
entulho"'7. O deputado do Rio de Janeiro procurava, ainda, um inimigo
dária. Como vimos, ele chegava a admitir algum nível de centralização
comurn a todos: o Antigo Regime.
política no Reino do Brasil, a partir do Rio de Janeiro. Porém, parecia temer
Lino Coutinho chamou atenção para as diferenças entre as regiões brasi-
a autonomia provincial tal como propunham os baianos.
leiras no que se referia aos interesses comerciais a serem discutidos pela
Destaque-se, também, que essa flexibilização de Borges Carneiro ocorreu
comissão e foi complementado por Marcos António, que dizia ser necessária
no momento em que o governo de D. Pedro começava a ser reconhecido nas
"uma comissão para cada porto do Brasil"78,
províncias meridionais do Brasil. Diferentemente de Fernandes Tomás, o
"moderado" de Portugal talvez reconhecesse a necessidade de negociar com
um governo que tendia a se fortalecer. E talvez procurasse, então, salvaguar-
74 Ibidem, sessão de 10 de janeiro de 1822.
dar o que considerava mais importante para o reino de Portugal: as relações
75 Ibidem.
76 Ibidem.
77 Ibidem.
Ibidei
73 Ibidem.
,

124 NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS 125

comerciais com os domínios ultramarinos. Se fosse esse o caso, o deputado O modelo referido é o do império britânico do início do século XIX.
contava com o apoio dos comerciantes de Lisboa, que, como já referimos, Sabemos que, nesse momento, as relações internas desse império passavam
pressionavam as Cortes para conter as rebeliões no Brasil a qualquer custo. por grandes modificações, justamente cm virtude da independência dos
A atuação da bancada baiana teve dois momentos marcantes que se Estados Unidos.
caracterizaram pela mesma preocupação: o fortalecimento do poder das A crise final entre os colonos americanos c a Inglaterra manifestou-se nas
províncias, fosse diante do governo do Rio de Janeiro, fosse diante do de relações constitucionais. Segundo Jean-Jacques Chevallicr, estas relações
Lisboa. Tal preocupação evidenciou-se na indicação de Cipriano Barata e eram "o fato essencial, porque as colónias americanas [...] recusaram sempre
Agostinho Gomes para que se aguardassem os demais deputados do Brasil o direito do Parlamento inglês de votar leis para os seus problemas locais,
para a continuidade da legislação sobre o Reino, bem como na proposta de principalmente de lhes cobrar impostos. [...]. Nenhum imposto sem repre-
autonomia das províncias no Judiciário. sentação. Elas só tinham relações políticas com o governo inglês como tal"80.
^rcíjOs baianos transformaram a defesa regional que marcava a atuação dos Os ingleses da América julgavam-se herdeiros dos direitos da nação
lí^' pernambucanos em projcto político. A defesa da autonomia provincial, inglesa. Reconheciam a soberania do rei sobre os domínios da América,
f O, contra a nação integrada, tornou-se unia proposta fcderalísta. Dois aspectos mas não a do Parlamento, se ele não contivesse representantes desses
, 0 ,/.- n '- devem ser ressaltados em sua concepção de nação. O primeiro é o da domínios. Quando Franklin enviou a Londres o pedido de eliminação da
"artificialidade" do pacto e da nação como confecção da política. Cipriano Lei do Selo, afirmou: "A soberania da Coroa, eu entendo; mas a soberania
Barata, para defender esse princípio, procurou apoio nas Bases da Constitui- do Parlamento, não entendo". E mais à frente: "A América não faz parte
ção e ressaltou o artigo que definia a necessidade de opção das partes para a das possessões da Inglaterra, mas das possessões do ReÍ" Bl . TJessa forma,
composição nacional. Tal artigo pressupunha não existir nação antes disso; dcfendjajTLAJicj;_e_ss_idadeJ^^s.^ aténxjd^vinculação
cia seria formada a partir da aceitação e da negociação entre os representantes ao Parlamento inglês.
das províncias. Assim como os outros revolucionários da América do Norte, Jefferson,
O mesmo aspecto foi salientado por Lino Coutinho, que utilizou a cm 1775, formulou proposta para o Império que incorporasse as reivindica-
expressão "artificialidade do sistema político", criado e passível de ser modi- ções americanas. Sugeria o funcionamento de duas Assembleias: "Cada
ficado pelos homens. Essa consideração contrariava diretamente a concep- colónia tem duas legislaturas, uma interior e provincial — a Assembleia
ção vintista, segundo a qual as leis portuguesas referendavam-se cm "cinco colonial; outra exterior e imperial: o Parlamento britânico"82.
séculos" de direito público. Sabemos que a independência dos Estados Unidos resultou, entre outros
A "artificialidade" do pacto contrapunha-se à ideia de uma nação-tradi- fatorcs, do conflito esboçado acima. No.entanto, os ingleses seriam, depois
ção, cuja data de origem era impossível detectar. Na expressão de Lino da independência americana, os aprendizes da lição. Introduziriam cm suas
Coutinho, o pacto que formava a nação tinha data, resultava de negociações possessões certas liberdades, antes reivindicadas pelas colónias da América.
e mudanças e, portanto, não se ancorava no passado. Mas a grande lição de 1776 para a Inglaterra foi que a conciliação da
O segundo aspecto importante dessa concepção é seu carátcr federalista. liberdade local com a unidade imperial faria a força do Império. A tendência
Nação aparece como uma coleção de "vontades" provinciais, reunidas nas seria a de reforçar os poderes locais, marcando institucionalmcnte a subordi-
Cortes, que não expressam, portanto, um único e indivisível "corpo nacio- nação à metrópole. As mudanças ocorreriam, portanto, de forma legal e
nal". Nada mais justo que a aplicação das leis fosse de inteira responsabilida- constitucional.
de das províncias. A Constituição seria elaborada por um Legislativo, expres- O modelo fcderalista era um projeto que, durante as primeiras décadas do
são das vontades provinciais. As províncias, então, deveriam ter representa- século XIX, amadurecia sob o trauma da independência dos Estados Unidos.
ções dos outros dois poderes constitucionais. Os governos das juntas respon-
deriam pelo Executivo c, como disse Qpriano Barata, cada província deveria
(f P /-fer um Supremo Tribunal de Justiça. Chevallicr, Jcan-Jacqucs. L'ét'oltition cie 1'empirc brítannique. Paris: Lês Edidons Interna-
'i.^f P1™ a defesa desse ponto de vista, os baianos citaram exemplos significari- rionalcs, 1930, p. 20-].
Idcm, ibidem, p. 26.
.- r/jl'J vos: ^ colónias inglesas da Asía e da África. Estas tinham a "maior liberdade e
Ibidem, p- 27.

I _,^ se uniam à Corte para aprovar decisões locais", como já foi citado.
r

126 NAÇÃO INTEGRADA E PODERES REGIONAIS

Passaria a integrar o império britânico a partir de 1832, inspirando a


Federação do Canadá e o Commonwcalth83.
Foi nesse modelo que os deputados baianos de 1821 se apoiaram. Cita-
ram o Império britânico para lembrar a federação americana e sua indepen-
dência, cm razão da não-incorporação dos poderes locais.
Aquela nação "confederada" era diametralmente oposta à nação integra-
da do grupo de Fernandes Tomas. Poderíamos avançar a seguinte compara-
ção; a primeira era essencialmente americana, ao passo que a segunda era,
por definição, europeia. A primeira ressaltava o acordo político entre poderes 4
locais, formados durante a colonização e cristalizados regionalmente. A
segunda, inspirada na Revolução Francesa, destacava os scculos de tradição MERCADO INTEGRADO
de uma mesma "família" em torno de uma "vontade geral". E O IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS
No entanto, a concepção federalista dos baianos poderia, ainda, ser
conciliada com a proposta de integração de mercados, feita por Borges
Carneiro. Essa será a tónica dos debates a partir de fevereiro de 1822.
Contará, porem, com mais um elemento novo: o programa elaborado pela
Junta de São Paulo, apresentado às Cortes a partir do ingresso dos deputados Os paulistas diante da autonomia provincial no Judiciário
dessa província.
.C/m 11 de fevereiro de 1822, as Cortes de Lisboa recebiam, por
São Paulo, os deputados Diogo António Feíjó, António Carlos de Andrada e
Silva e Nicolau Campos Vergueiro. José Feliciano Fernandes Pinheiro, eleito
como titular na mesma época que os primeiros e residente em Porto Alegre,
só tomaria posse cm 27 de abril, pois sua partida, preparada separadamente
dos outros, demorou alguns meses a se concretizar'.
A delegação paulista receberia, ainda, António Manuel da Silva Bueno,
em 25 de fevereiro, e José Ricardo Costa Aguiar e Andrada, cm 2 de julho,
ambos eleitos como substitutos.
Também em fevereiro, um representante da Paraíba ingressava nos traba-
lhos das Cortes. Era Francisco Xavier Monteiro da França, recém-saído da
prisão por ter participado da revolução de 1817 c integrado o governo
provisório formado nesse ano.
A chegada dos primeiros paulistas, porém, iniciou alteração significativa
no conteúdo das discussões do Congresso. Como foi visto, já haviam sido

José Fciiciano cambem procurou o príncipe regente antes de se dirigir a Lisboa c presen-
ciou a sua declaração de 9 de janeiro pela permanência no Río de Janeiro. Em virtude do
crescimento das icnsõcs, o deputado chegou a duvidar de sua partida c teria sido aconse-
lhado por José Bonifácio a ficar no Brasil. Pinheiro, José Fcliciano Fernandes. Memórias
do Visconde de São Leopoldo, RIHGB, 37. p. 20-1, 1874.
Ibidem, p. 28-30.
128 MERCADO INTEGRADO E o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS MERCADO INTEGRADO E o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS 129

debatidos em 31 de janeiro os direitos de recurso de revista e suas instâncias, desses poderes [...] é o que marca se pode ser ou não delegado o poder. A
evidenciando as diferentes concepções sobre o grau de autonomia do Judi- índole do Poder Legislativo faz com que ele não possa ser delegado. Do
ciário cabível às províncias ultramarinas. Vimos que a tónica das interven- Poder Executivo não procede assim [...] não mudam de natureza, são atos de
ções da maioria dos representantes brasileiros era a defesa da manutenção da homens, passam a outros atos de homens [...]. Hoje direi também que o rei
autonomia provincial, prescindindo-se de um centro de decisão no reino do da Inglaterra delega várias funções, como são as declarações de guerra c os
tratados de paz [...]. Um nobre preopinante [...] disse que Portugal fora
Brasil.
Em 9 de fcvecciro retomava-sc o tema geral por meio do debate sobre a sempre unido e que estes povos eram nações diferentes; não vejo qua! a ilação
esfera de poder que poderia suspender os magistrados. Contrapunham-se, que se tire para se negar a possibilidade que se afirmava. O rei da Noruega c
agora, os que entendiam caber somente ao rei tal prerrogativa c os que da Suécia não é rei? [...]. Hanôver e outras diferentes colónias inglesas nunca
defendiam existirem no Brasil autoridades locais capazes de realizar a suspen- foram separadas e entretanto o rcí da Inglaterra delega os seus poderes aos
são. Os três paulistas entraram no meio da discussão e dela participaram governadores destes povos. [...]. 2) que sendo possível a delegação segundo o
direito, era inútil aos povos do Brasil; mas se ela era inútil, para que se
ativamente.
Os discursos de António Carlos reforçaram as posições já defendidas, mas estabelece cm Portugal; e se é útil a Portugal, para que se nega ao Brasil? 3)
politizaram-nas por meio de comparações significativas. ReferÍndo-se à prer- [...] que havia impossibilidade em se aplicar este remédio ao Brasil. Este
rogativa real, dizia: "Pois então o rei da Suécia não delegava o poder de argumento desaparece cm grande parte, uma vez que seja permitido às junras
sancionar as !eís? Em Escócia e Irlanda não acontece o mesmo? [...] na provinciais [...]. 4) que isto introduziria umaseção entre os dois reinos [...].
America inglesa os governadores rcspeccivos têm o poder de sancionar as leis Todo mundo sabe que a união de uma nação consiste na união de dois
por todas as Assembleias". ,O poder real poderia ser delegado sem ameaçar a poderes [...] pouco importa que uma ou outra fração de um poder seja
unidade da nação. Concluía afirmando que, mantendo-se a proposta como exercitada não pelo mesmo chefe, rnas por delegados"'1.
estava, "os povos apesar de gozarem os mesmos direitos não hão de ter as Mais uma vez, ele defendia a ideia de repartição do Poder Executivo,
mesmas comodidades", o que ameaçaria os próprios dircicos previstos por lembrando o exemplo da Inglaterra. Este poder poderia ser delegado porque
leí, e "que, se isto assim fosse, a nossa união não durava uni mês; os povos do se tratava de "atos de homens", ou seja, era pessoal. Aqui desaparecia o
Brasil são tão portugueses como os povos de Portugal, e por isso hão de ter exemplo americano, e o paulista tentava mostrar que um rei não perdia
majestade quando transferia parte de seu poder. No caso britânico, a justifi-
iguais direitos"2.
António Carlos citava corno exemplo, além da Suécia, o império britâni- cativa da transferência não estava na desigualdade entre "povos" ou "nações"
co mais uma vez, ultrapassando o tema específico do Judiciário. Para exem- da Inglaterra, Escócia e Irlanda, pois o mesmo acontecia com as possessões
plificar a repartição do Executivo, remetia à união da Grã-Bretanha e à colonizadas por ingleses. Na verdade, a repartição do Executivo viabilizava o
federação da América inglesa, relembrando que só essa delegação garantiria a Império, uma vez que colocava os seus "povos" cm condições de igualdade.
igualdade entre os "povos" do Brasil e os de Portugal, pois se tratava de Sem lançar mão de um exemplo republicano, como o dos Estados
Unidos, usado na sessão anterior, ele pretendia provar que seria possível a
portugueses nos dois casos.
Foi contrariado pelo deputado Trigoso de Portugal, que compreendeu o formulação de urn^cordo que. mantivesse a unidade da nação, sob arnonar-
sentido de suas afirmações: "Os países citados tinham pactos antes de serem quia, respeitando as autonomias régio najsjistc era o "milagre" que as Cortes
deveriam fazer. .
unidos; confederaram-se para fazer um Estado"3.
António Carlos reforçava, com csscs__excmplos, a_dcfesa_da.d.ÍYersidad.e
Em outro momento, António Carlos sistematizou seus argumentos, opon-
entre as partes da Monarquia e argumentava Javoravelmcn te à autonomia
do-se aos deputados de Portugal: "1) [...] que o poder de suspender ministros - --- ,. __ ___ r _____ .- — -_ -- _——i ----- —Q ----- — • - • • • —— ------- -—— --- -———•

é indclegável: este princípio é falso, tanto de direito como de fato. De direito delas. Não se distanciava, portanto, dos deputado5_bajanos_gu pcrnambuca-
nos; ao contrário. Já ao encontrp^dgsjirgumcntos utilizadosi por eles, poís
porque quando a sociedade lhe instituí poderes, atende a objcto e índole
defendia a viabilidade da pro pqsta^ reforçando. p.pap_cl_das_ juntas provinciais.

Diário eiis Cortes Constituintes, sessão de 11 de fevereiro de 1822.


Ibidem, sessão de 13 de fevereiro de 1822. '.-.-,•&'
Ibidem.
' 130 MERCADO INTEGRADO E o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS MERCADO INTEGRADO E o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS 131

No entanto, o discurso que causou maior constrangimento foi o de Algumas defesas da proposição, no entanto, merecem ser ressaltadas.
Vergueiro. Pronunciava-se peio adiamento da discussão, pois primeiro de- Borges de Barros argumentava: "O nosso primeiro fim é acertar, e tratando
ver-se-iam estabelecer todas as relações entre Portugal e Brasil c depois entrar de países tão variados por suas localidades, devemos encher-nos de ideias
em minúcias, que eram muitas. Em seguida, numa alusão velada ao temor da locais [...]. (O Brasil não__sc deve olhar como um só_país, são tantos países
desunião dos reinos, afirmava: "O Brasil está pronto a unir-se com Portugal, diferentes quantas asprovíncias do Brasil [...]. As províncias doJirasil podem
mas não segundos marcha deste Congresso"5. chamar-se reinos"7.
Ao pronunciar tais palavras foi interrompido por manifestações nas Mais à frente, LSno Coutinho, também deputado da Bahia, diria: "As
galerias, e o fluminense Varela interveio, solicitando que ele faiasse franca- províncias do Brasil são outros tantos reinos, que não têm ligação uns com os
mente, pois ali "não eram escravos", mas representantes de uma nação livre. outros, não conhecem necessidades gerais, cada uma governa-se por leis
,/)-'-• ' r Vergueiro, então, continuou: "Exprimo a vontade de meus constituintes; particulares de municipalidade".
'jr\y!>}-\s esta união só pode realizar-se debaixo de condições igualmente vantajo- Para ele, essas províncias haviam atendido o chamado de seus irmãos da
ij' p*"',o>rí/sãs para uns e outros, c por •isso voto que a responsabilidade
i - i - j j dos
j ministros
• • Europa, que fizeram "a nação reassumir os seus direitos, direitos de que
cjfv empregados no Brasil se faça efctiva naquele mesmo país"1', gozara no princípio da monarquia" c "lembraram que cm outros continentes
'-^ Pela primeira vez, um deputado do Brasil ameaçava, embora veíadamcn- viviam seus irmãos, que gemiam nos mesmos males, [...] mas os europeus
te, com a possibilidade de separação diante da desigualdade no interior da atenderam a si quando fizeram a regeneração"8.
Monarquia. Os baianos retomavam, assím, sua concepção federalísta. As diferenças
Curiosamente, Fernandes Tomás declarou que considerava a discussão entre os "países" do Brasil crarr^grandcs a_pgnto_de_clcyá-log à qualidade de
sem importância. O líder da revolução do Porto relembrou que sua posição unidades políticp-administrativas. Chegaram a defender a associação de
inicial era contrária a pedir recurso ao Rei. Se no Brasil existisse outro fórum "reinos" autónomos dentro de uma unidade monárquica.
para qualquer pedido de recurso que não fosse o rei, ele retomaria a discussão A participação dos paulistas foi, maís uma vez, significativa. Vergueiro
exigindo os mesmos direitos cm Portugal. discorreu sobre as diferenças entre as províncias brasileiras, ressaltando a
De fato, era favorável a uma restrição ao poder real maior do que a que a importância de Minas Gerais, "a mais populosa e poderosa que temos", e
Constituição estabelecia e via, nesse momento, uma contraposição dos propôs que "sem a pluralidade dos deputados do Brasil", e especialmente
deputados do Brasil que repunha o problema. sem os de Minas Gerais, "não deve tratar-se negócio nenhum que tenha
^ J °'~ j" A discussão assumia importância por ressaltar a questão da autonomia das relação com o Brasil"9. Defendia a indicação de Borges de Barros, citando o
WJ> ,, i juntas provinciais. Não resolvida desde o decreto de setembro, fora retomada exemplo de Minas Gerais.
- 0>-^
x- IS em vários
- - momentos e, agora, com a presença jdos paulistas,
i- u
renovava-se sob Como sabemos, tratava-se de província que tinha importante articulação
-r $•-"•'• J ,.r corn o príncipe regente e nem sequer enviou seus deputados às Cortes.
0..J-^argumentos diferentes.
^,j?_ , , O projeto foi posto cm votação e decidiu-se pela sua manutenção, ou seja, Finalmente, António Carlos teorizou sobre os argumentos já apresenta-
•p-jaO-V1" não haveria em ultramar nenhuma autoridade que pudesse suspender os dos: "São diferentes os princípios que regem um corpo homogéneo, dos que
magistrados. devem reger corpos compostos de partes heterogéneas; mormente quando a
A organização do Judiciário voltaria, ainda, ao debate em 25 de fevereiro. força repulsiva de um corpo que o impele a formar sistema diferente é tão
O baiano Borges de Barros apresentou, nessa data, uma indicação para o superior à força centrípeta que o faz tender para o sistema velho, que é
adiamento — até a chegada de um número maior de delegados do Brasil — preciso um quase milagre de política para conservar esta união"10. Concluía,
da decisão sobre o artigo 6 das Bases da Constituição, que versava sobre o indagando-se sobre a adesão do Brasil ao Congresso, pois aí estavam repre-
julgamento c punição dos juizes. A sugestão reavivava o debate sobre a
representação provincial ou nacional, e a indicação foí reprovada.
7 Ibidem, sessão de 6 de março de 1822.
E Ibidem.
Ibielcm. ' Ibidein.
Ibidem. "' Ibidem,
132 MERCADO INTEGRADO E o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS MERCADO INTEGRADO E o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS 133

, jois ^ços das províncias; do restante não se conhecia a decisão. Os paulistas, que ultrapassavam o âmbito da discussão pontual sobre o Judiciá-
representantes ali instalados, porém, haviam jurado as bases de uma Consti- rio, c suas repercussões nas atuaçõcs de outros deputados do Brasil, levando
tuição que reconhecia um reino do Brasil, e essa condição estava ameaçada. os baianos a se referirem a "reinos" do Brasil, chamavam a atenção dos
A posição do "mais novo dos Andrada" chocava-se diretamente com a deputados de Portugal. Os representantes de São Paulo traziam um progra-
concepção integracionista. Segundo ele, o Congresso deveria realizar um ma elaborado na província e, talvez, suas atitudes no Congresso revelassem
"milagre de política" para conservar a união de partes distintas da nação. os planos aí contidos. Portanto, era necessário conhecer o documento.
Tratava-se de rcgcr_umj^corpo cprnrjosto de partes heterogéneas" que csta- As instruções aprovadas pela Junta de São Paulo partiam de princípios
vam prestes "ã se dissociar. Só a arte da política poderia, uni-las. Não se bastante diferentes do predominantes nas Cortes, embora constituíssem
tratava, portanto, de um "corpo homqgêr^e^Justificado.-eJntegrado por adendo às bases já juradas da Constituição. Em linhas gerais, propunha-se a
séculos de tradição e uma vontade geral. organização política da nação portuguesa, que se estendia aos dois hemisfé-
Ressalte-se que os discursos de António Carlos e Vergueiro tocavam, pela rios, definida a partir da união de "dois reinos" cm uma monarquia constitu-
primeira vez, na possibilidade de desunião dos povos do Brasil. Uniram-se às cional.
intervenções dos representantes das outras províncias e reivindicaram maior Sabemos que a manutenção do estatuto de reino ao Brasil tocava cm um
autonomia para os governos locais. Não defenderam a existência de um dos pontos fundamentais na formação do vintismo. O nacionalismo de
centro decisório no Brasil, embora esta fosse uma.característica já estabeleci- Portugal havia-se constituído contra esse estatuto, sob a crença de que o
da no proicto elaborado cm São Paulo, o qual será analisado adiante. reíno-europeu se havia transformado em "colónia de uma colónia". E, em
Os exemplos de organização política citados por António Carlos indica- sentido oposto, a qualidade de reino para o Brasil era o centro do Programa
vam a possibilidade de união de partes diferentes que conservariam, no de São Paulo, pois expressava a articulação dos setores privilegiados pelo
entanto, a unidade nacional. estabelecimento da Corte portuguesa no Centro-Sul do Brasil.
As intervenções dos baianos tornaram-se mais agressivas na defesa da Os detalhes da proposta dcíxarn claros os pontos de atrito que viriam a se
autonomia provincial, o que, no entanto, ainda não significava concordância manifestar nas Cortes.
com o programa de São Paulo. Afirmava-se que, embora as Bases da Constituição já estabelecessem os
As observações de António Carlos, que a princípio se referiam ao Judi- "artigos que mais importam à Nação", restavam outros a serem considera-
ciário tinham abrangência maior que se esclareceria com a apresentação do dos: "[...] começaremos pelos que dizem respeito à organização de todo o
programa feito em sua província. império lusitano; depois passaremos aos que dizem ao reino do Brasil, e
acabaremos pelos que tocam a esta província cm particular"12.
O Império Federativo da Janta de São Paulo: O Programa era dividido, então, em três capítulos. No primeiro deles,
reaçÕes, alternativas e adesões referente aos "Negócios da União", declarava-se a existência de dois reinos e
propunham-se: 1} defesa da integridade e indivisibilidade do Reino Unido;
Na sessão de 6 março de 1821 — quando se discutiu a proposta de Borges 2} igualdade de direitos políticos e civis, respeitando as diferenças dos
de Barros para que se adiasse a decisão sobre o julgamento e punição dos costumes, território e citcunstâncias; 3) definição quanto à localização da
juizes até a chegada dos demais representantes do Brasil —, Guerreiro, sede da Monarquia, sugerindo a alternância entre os reinos, "pelas séries de
deputado de Portugal, apresentou a seguinte indicação: "Tendo constado reinados em Portugal e no Brasil, ou finalmente no mesmo reinado por certo
que os ilustres deputados de São Paulo trouxeram instruções dadas pela tempo que se determinar"; 4) o estabelecimento de leis orgânicas que
Tunta da dita província [solicitaria que] eles fossem convidados para as regulassem os negócios de paz e guerra, o comércio, "sem tolher a liberdade
"ii de ambos os reinos" e "a fundação de um tcsouro-geral da União diferente
apresentarem •
O convite foi feito pelo presidente da sessão c o programa tornava-sc dos tesouros particulares dos reinos de Portugal e do Brasil"; 5) formação de
núblico ao ser remetido para a Comissão de Constituição. Os discursos dos uma convenção particular de deputados para reformulação ou alteração

Silva, José Bonifácio Andrada e. Op. cit., p. 14.


Ibieleni.
134 MERCADO INTEGRADO E o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS MERCADO INTEGRADO E o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS 135

futura dos artigos da Constituição; 6) formação de um corpo de censores e da África, que durante os debates posteriores seriam abordados. Até aí, a
para "vigiar" os três poderes (Executivo, Legislativo c Judiciário), sendo que paridade proposta cm todas as comissões e nas Cortes não estabelecia
"esses conselheiros serão nomeados cm número igual pelo reino de Portugal diferença entre o reino do Brasil e as outras possessões ultramarinas. Ao se
c Estados ultramarinos, seja qual for a povoação atual ou futura dos Estados referir, porém, à sede da Monarquia, o documento propunha o revezamento
entre Portugal e Brasil.
da união"; 7) que os deputados de Portugal e ultramar "sejam sempre em
número igual, qualquer que seja para o futuro a população dos Estados da Note-se, ainda, que falava cm "Estados" formados no ultramar, não
união", a fim de que "haja justiça e igualdade nas decisões das Cortes gerais e utilizando os termos habituais nas discussões do Congresso, como "povos",
"nações" ou "países". Assim, destacava a existência de unidades político-
ordinárias da nação portuguesa"13.
No segundo capítulo, sobre o reino do Brasil, destacam-se os seguintes administrativas já formadas fora da Europa e não a particularidade de seus
pontos: 1) a definição de atribuições e poderes no que competisse à categoria habitantes ou de seus territórios.
de reino e das relações para com o império português; 2) o estabelecimento As relações entre os dois reinos eram estabelecidas, nesse programa, com
de "um governo-gera! executivo para o reino do Brasil, a cujo governo base em estruturas de governo autónomas c interligadas por meio de dois
central estejam sujeitos os governos provinciais"; 3) a formação desse gover- vínculos de natureza distinta: a dinastia de Bragança e as Cortes eleitas
no por "emanação e delegação dos eleitores do povo e do Poder supremo parítariamcnte pela nação, ressaltando-se a unidade do Império. A estrutura
Executivo" a ser presidido pelo príncipe herdeiro quando a sede da Monar- de governo do reino do Brasil pressupunha pois autonomia no estabeleci-
quia não estivesse no Brasil; 4) o respeito no Código Civil às diferenças de mento de relações comerciais, na Fazenda, no Judiciário e do Executivo.
circunstâncias e de população, "composta no Brasil de classes de diversas Uma longa parte do texto, citado aqui parcialmente, se referia à necessi-
cores e pessoas, urnas livres e outras escravas", exigindo legislação particular; dade de ampliação da educação no reino do Brasil e ao ttatamento proposto
5) providências imediatas para catequízação dos índios e melhoramento da aos escravos c índios, prevendo sua integração gradativa à sociedade. Nessa
sorre dos escravos; 6) "maior instrução e moralidade do povo" para a parte, cita-se o pensador inglês Bentham, que já havia enviado cartas às
manutenção de um governo constitucional, devendo-se formar "em cada Cortes e, sabidamente, era favorável à extinção dos vínculos coloniais dos
província do Brasil urn ginásio ou colégio em que se ensinem as ciências úteis séculos anteriores.
para que nunca faltem enrre as classes mais abastadas homens [...] capazes de A proposição faz pensar em um plano para a ampliação da participação
espalhar pelo povo os conhecimentos"; 7) definição de urna cidade para política, indispensável a "um governo constitucional" c, portanto, em am-
assento da corte ou regência, "que poderá ser na latitude, pouco mais ou pliação das bases nacionais da soberania no Brasil.
menos, de 15 graus", cm lugar afastado, sadio e fértil, que permitisse a Em nenhum momento, porérn, os portugueses da Europa e do Brasil
tranquilidade c a defesa. Aí ficariam localizados um Tribunal Supremo de eram tratados diferentemente. O que se reivindicava era um tratamento legal
Justiça, um Conselho de Fazenda e uma Direção-Geral de Economia Públi- que atentasse para as específicidades sociais existentes nos dois reinos.
ca; 8) elaboração de uma nova legislação sobre as sesmarias1'1. A diferenciação só aparece no adendo feito ao Programa no final de
Quanto aos "Negócios da Província de São Paulo", o documento remetia dezembro de 1821, após o conhecimento do decteto de setembro sobre os
ás contribuições feitas pelas Câmaras e sugeria que os deputados fossem governos provinciais, cm que se limitavam os poderes das juntas nas províncias
e invalidava-se a regência de D. Pedro. Os governantes de São Paulo qualifica-
consultados para o seu conhecimento.
Ainda que ligeiramente, cabe ressaltar alguns aspectos do texto. Elabora- vam, então, com termos bastante agressivos os deputados das Cortes, tais como
do antes do decreto de setembro sobre os governos provinciais, punha em "déspotas" ou "pequeno número de desorganizado rés", repudiando as medi-
questão várias decisões já tomadas, mas defendia, à sua maneira, a unidade das propostas e visando justificar as possíveis reações no Brasil.
da nação portuguesa. Reconhecia a existência de dois reinos que compu- O texto chamava o príncipe a confiar nos "brasileiros" c "nos seus
nham o "império lusitano" e não se referia aos domínios portugueses da Ásia paulistas", declatando a impossibilidade de que "os habitantes do Brasil [...]
possam jamais consentir em tais absurdos e despotismo", e não mencionava
o termo "nação". Como se tratava, porém, de um adendo, supõe-se que os
13 filem, ibiciem, p. 14-17. "habitantes do Brasil" e os "seus paulistas" se consideravam, ainda, integran-
« Ibidem, p. 17-21. tes da nação portuguesa.
136 MERCADO INTEGRADO E. o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS MERCADO INTEGRADO E o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS 137

Cabe destacar, finalmente, que o Programa de São Paulo não tocava em Vilela Barbosa, porem, apresentou uma objeção, notando novamente a
um aspecto fundamental das discussões nas Cortes: a autonomia dos gover- ausência dos deputados de províncias importantes, o que levou Uno Comi-
nos provinciais. A ênfase da proposta recaía sobre a preservação do reino do nho afazer um pronunciamento contrário à formação da comissão: "Tcm-se
Brasil e sua unidade, sugerindo a criação de uma série de novos organismos dito que o Poder Executivo não podia ser delegado, nem dividido; o rncsmo
para tal. Em nenhum momento, porém, mencionava os governos provin- se tem dito sobre o Poder Judicial. Eu quando falei nisso referi vários
ciais, as relações entre cies e deles com as novas instituições propostas para o exemplos, citei mesmo que a Inglaterra, tendo colónias, quis assim mesmo
Reino e para a Monarquia. dar uma espécie de Constituição àqueles povos". O baiano afirmava ter a
Deixava em aberto, portanto, a forma peia qual se efetivaria a unidade consciência tranquila, pois havia feito as propostas necessárias para a pax nas
interna do Reino. A questão era delicada para os deputados do Brasil cm províncias brasileiras. No entanto, "diziam que o Brasil queria um rcizinho".
Lisboa e para as províncias do Norte e Nordeste, principalmente onde a Agora, não' apoiava a comissão proposta por Guerreiro, pois queria "uma
rivalidade com o Rio de Janeiro havia-se aguçado nos anos anteriores. Por comissão muito grande [...]. O sr. Ribeiro de Andrada diz que não podia
isso, ao não explicitar a resolução desse problema, o Programa permitia aos tratar aqui há dias de um negócio particular porque faltava a maior parte dos
deputados de São Paulo negociar com os das outras províncias as soluções deputados do Brasil! Ora, faltarem deputados para se resolver uni negócio
que pudessem conternplá-los. particular c não faltarem deputados para resolver um negócio geral [...]. Não
Ao conhecimento das "instruções" de São Paulo vieram somar-se novas entendo [...]"11 Lino Coutinho notava, pois, provocativamentc, as contradi-
notícias sobre a situação do Rio de Janeiro. Em 8 e 12 de março, os ções de António Carlos.
deputados das Cortes recebiam três cartas do príncipe regente, redigidas cm O discurso provocou várias declarações. Em primeiro lugar a de António
10, 14 c 15 de dezembro, referindo-se à situação das províncias do Sul. Carlos, justificando a urgência do assunto. Tratava-se de evitar a separação
Na primeira delas, D. Pedro acusava o recebimento do decreto de setembro dos dois reinos, pois "o Brasil quer ter um centro de governo entre si; porém
e da ordem para o seu regresso, tornando, então, as providências para a eleição a questão deve versar onde deve ser este centro; quero dizer, se nas províncias
de uma junra no Rio de Janeiro, à qual passaria o poder. Na carta do dia 14, do Sul, ou do Norte"17.
informava que a divulgação dos decretos "fez um choque muito grande nos Na resposta ao deputado da Bailia, o paulista trazia à tona o verdadeiro
brasileiros e em muitos europeus aqui estabelecidos". No dia 15, dizia: "Hoje problema: a rivalidade das províncias do Norte e Nordeste com o Rio de
soube que por ora não fazem representação, sem que venham as procurações Janeiro e regiões vizinhas. A pressão destas últimas sobre o príncipe regente
de Minas, São Paulo c outras, e que a representação é deste modo, segundo poderia colocar o Norte em posição de desvantagem, caso se consolidasse a
ouço: 'ou vai, nós nos declaramos independentes, ou fica, e então continuamos unidade do reino. António Carlos apontava para uma negociação, que
a estar unidos e seremos responsáveis pela falta de execução das ordens do poderia ser feita dentro da comissão proposta por Guerreiro, uma vez que ela
congresso; e demais, tanto os ingleses europeus como os americanos ingleses teria representantes de todas as províncias do Brasil.
nos protegem na nossa independência no caso de ir Sua Alteza'"15. Vilela Barbosa, por sua vez, retomou a palavra para dízer que não pretendia
Na sessão das Cortes de 12 de março, o deputado de Portugal Pereira do ser contrário à comissão, mas pensava em acelerar a vinda dos deputados
Carmo propôs a criação de uma comissão especial para "tratar dos negócios ausentes, pois: "Como é que se pode estabelecer essa divisão de que se fala, de
daquela província", pois "já não podemos mais obscurecer o estado a que províncias do Sul, e do Norte, c tratar desse modo os interesses cm geral do
estão reduzidos os Brasis". Guerreiro, também de Portugal, precisou a Brasil? [...]. Diz-se que muitos querem uma única autoridade central no Brasil.
proposta, sugerindo que a comissão fosse composta por quinze membros, Por outra parte, o mesmo príncipe real, em outras cartas, tem dito que as
com deputados de todas as províncias do Brasil, para preparar todos os províncias do Sul e do Norte, o tinham abandonado, e não queriam reconhe-
artigos referentes à "especial união" e projetos de leis voltados à administra- cer sua autoridade [...] e agora querem! Eu não entendo isto"18.
ção pública. António Carlos concordou com o encaminhamento imediata-
mente, solicitando rapidez.
16 Diário fias Cortes Constituintes, sessão de 12 de março de 1822.
17 Ibiâem.
}í Cartas D. Pedro n." 10, 11 c 12, Santos, Gemente José dos, In: Documentou, cit., p. 272-3. 18 Ibidem.
138 MERCADO INTEGRADO E o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS MERCADO INTEGRADO E o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS 139

O baiano Luís Paulino, tomando posição a favor da comissão, argumen- aí uma junta provincial; que se fizesse executar, porém, a extinção dos
tou: "As províncias que estão ao sul de Porto Seguro estão em relação entre tribunais, sobretudo a Junta do Comércio; que as juntas da Fazenda do Rei-
si. Os deputados que nos faltam [...] têm os interesses ligados às outras no do Brasil se subordinassem às juntas provinciais; que se subordinasse o
províncias, de cujas já cá estão os depurados. Conseguintcrncnte só nos falta comandante da força armada cm cada província às juntas provinciais; que se
ligar o Norte com o Sul; c não tem a comissão senão fazer ver ao Brasil como discutisse e se remetesse ao Brasil o projeto sobre relações comerciais; que se
ele separando-se marchava para a ruína"19. especificassem os laços da Fazenda que unificariam os dois reinos; que a
A ausência sugerida pelo baiano rcferia-sc, seguramente, à da bancada de dívida passada do Brasil fosse declarada nacional; que a dívida contraída pelo
Minas Gerais, cujos interesses, em sua opinião, estariam representados por Banco do Brasil fosse declarada pública; que se indicasse às províncias do
intermédio dos deputados de São Paulo e Rio de Janeiro. A Comissão foi Brasil que o Congresso não tinha dúvida cm conceder àquele reino um ou
aprovada e composta por António Carlos, Luís Paulino, Gonçalves Ledo, dois centros de delegação do Poder Executivo23.
Belford, Grangeiro e Almeida e Castro, das províncias do Brasil, e Pereira do Ausentes os intcgracionistas, dispostos a lutar intransigentemente pela
Carmo, Anes de Carvalho, Ferreira Moura, Guerreiro, Borges Carneiro e indivisibilidade da nação portuguesa, a comissão elaborou uma proposta que
Trigoso, de Portugal. Notam-se as ausências dos deputados mais radicais da expressava vários acordos. Em primeiro lugar, entre o grupo moderado de
Bahia e dos inregracionistas de Portugal. Portugal, liderado por Borges Carneiro, c os deputados do Brasil. E cm
O parecer foi apresentado em 18 de março, depois de ouvidas as deputa- segundo, entre os diversos representantes das regiões brasileiras.
ções das províncias brasileiras c os ministros dos Negócios Estrangeiros e da O texto admitia a presença do príncipe no Rio de Janeiro até o final dos
Marinha20. Começava avaliando as cartas do príncipe e da Junta de Pernam- trabalhos constituintes, na tentativa de aquietar as províncias do Sul e
buco, concluindo que a situação do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo contemplar os seus deputados, mas extinguia os tribunais instalados na
era "difícil" e que em Pernambuco havia urn "desgosto surdo". cidade, como queriam os do Norte.
Além da delicada situação nas províncias do Cenrro-Sul, a comissão O reino tería "um ou dois" centros do Executivo, ou seja, se necessário,
trabalhara com as recentes informações sobre Pernambuco. Uma carta da um no Norte c outro no Sul. Além disso, a autonomia das províncias estava
Junta daquela província informava que, em 24 de dezembro, as tropas assegurada nesse projeto.
portuguesas haviam chegado e "José Xavier Brcssane Leite, comandante da Atendendo aos apelos da maior parte dos deputados do Brasil, a nova
flotilha, que trazia ordens de Lisboa, ignoradas da Junta, abriu conflito com proposta eliminava o poder paralelo do comandante das armas em cada
esta, ciosa de suas funções"21. O comandante das armas indicado por Lisboa, província, submetendo-o às juntas. Com esta medida, concilíava-se o princi-
o brigadeiro José Maria de Moura, "mandou prender indivíduos sujeitos à pal ponto de divergência contido no projeto de setembro de 1821 para o
justiça civil c não militar c arvorou-se em informante das coisas políticas da ultramar, motivo de insatisfações nas províncias do Norte e do Sul.
capitania perante as Cortes"22. A Junta de Pernambuco solicitava, então, a E, por fim, como queriam os moderados de Portugal, o texto apontava
retirada das tropas da província. uma série de medidas económicas, apostando na complementaridade de
A Comissão enumerava, no mesmo parecer, uma série de medidas que interesses entre os reinos como forma de integração da nação portuguesa.
caracterizavam um verdadeiro recuo diante das posições já aprovadas. Resu- Como prova de conciliação, na prática, a Comissão deixava em aberto a
midamente, os pontos eram os seguintes: que o príncipe ficasse no Rio de definição do estatuto de reino para o Brasil, uma decisão que seria adiada até
Janeiro até a finalização da organização geral do Brasil; que não se instalasse o retorno de D. Pedro, quando o quadro nas províncias do Brasil estaria mais
claro e a Constituinte já teria concluído seus trabalhos.
A negociação no interior da Comissão, expressa nessa proposta concilia-
dora, mostrava um novo quadro de tensão entre os deputados do Brasil. As
liidem.
notícias de D. Pedro mostravam que as propostas da Junta de São Paulo,
Silvestre Pinheiro Ferreira, ministro das Relações Exteriores, fez seu depoimento por escrito,
no qual defendeu a quaíidade de Reino pira o Brasil. Ver Ferreira, Silvestre Pinheiro. Cartas expressas no Programa defendido pelos paulistas nas Cortes, adquiriam
sobre a Revolução do Brasil. Ideias Políticas. Rio de Janeiro: Documentário, 1976.
Carvalho, M. E. Gomes de. Op. cit., p. 218.
Ibidem, p. 219- 23 Diário das Cortei Constituintes, sessão de 18 de março de 1822.
140 MERCADO INTEGRADO E o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS MERCADO INTEGRADO E o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS 141

^ espaço junto ao príncipe c transformavam o governo do Rio de Janeiro em quiser. O que eu sei é que quando isto acontecer há de haver males; [...] para
' - i uma alternativa viável dentro da Monarquia. Os deputados do Nordeste cá [...] e para lá também. Porém, uma nação recupera, ou pode recuperar os
passaram, então, a demonstrar desconfiança quanto aos de São Paulo, que males desta espécie; mas não os que nascem dela subscrever à sua infâmia". E
estariam defendendo a região do Rio de Janeiro c articulando apoiadorcs ao rnais à frente: "Ou o Brasil quer estar ligado a Portugal, ou não quer. Se quer
governo de D. Pedro cm detrimento das outras regiões do Brasil. Estariam, há de estar sujeito às leis'que as Cortes fizerem, senão desligue-se. Eu quero
assim, cristalizando a situação de diferenciação criada após a transferência da declarar assim francamente os meus princípios para mostrar que eles não são
Corte em 1808. Desse modo, a negociação entre as partes no Congresso princípios de opressão; para que não venham me argumentar que aqueles
tornava-se obrigatória. homens têm uma força muito grande. Se esta força é para sustentar as suas
Entre os deputados de Portugal, o recuo implícito no parecer representou ideias, então é porque não querem estar unidos com Portugal; e se não
uma derrota do grupo intcgracionista de Fernandes Tomás e o fortalecimen- querem desliguem-sc; este é o direito de todos os brasileiros, e de todas as
to das propostas de Borges Carneiro. No entanto, a discussão da proposta nações. [...]. É indecoroso às Cortes [...] deixar de decidir nesta matéria com
estava agcndada para o dia 23 de março, quando, porém, o julgamento da o receio desta separação"25.
Junta de São Paulo, de que trataremos a seguir, desviou as atenções do tema. Embota não se encontre registro no Diário das Cortes, várias versões
As medidas jamais chegaram a ser implementadas, pois o acirramento dos historiográficas sobre este episódio atribuem a Fernandes Tomás uma frase
ânimos não deixou espaço para propostas conciliadoras. final: "Adeus Sr. Brasil!". Ela foi dita, com certeza, mais à frente, quando os
Obedecendo a solicitação feita por Guerreiro no dia 6 de março, a deputados do Brasil passaram a criticar o discurso do líder da revolução do
Comissão de Constituição pronunciou-se sobre as instruções dãjunta dc~Sao~— Porto.
Paulo no dia 22. O Congresso "estava, ainda,'sob o impacto"das n"qtíaas~dÕ ~ Borges Carneiro respondeu a Tomás dizendo que todos na Comissão
Rio de Janeiro que registravam os pedidos para que D. Pedro permanecesse consideravam a proclamação "insolente, subversiva, anárquica, caluniosa e
no Brasil. incitadora à desconfiança", mas preferiam esperar para oferecer "remédios"
Do conjunto do texto paulista, foi o adendo final qu.e_gajyanizou as que sanassem as insatisfações. Depois de aplicados os "medicamentos",
atenções^4p_Cor^gresso. Cautelosamente, a _Comissão_p_cdia_um_adiamento_ então se trataria de julgar os autores do texto. No dia seguinte, daria uma
para emitÍr_seu._parec_e_r_ejrrvirtude da situação prcocupantc no sul do Brasil^ versão provocativa às reaçÕes no sul do Brasil: "A chegada dos decretos das
^ e considerava melhor aguardar a chegada de_mais informações.- — Cortes ao Rio de Janeiro [...] pôs em grande agitação mais de duas mil
Esse pedido não era assinado por alguns integrantes do grupo. Dos 'x autoridades e empregados públicos que se ocupavam, prevaricavam e rouba-
deputados do Brasil, não assinaram António Carlos, alegando os laços de vam naqueles empregos, nadando em poder e riqueza"26.
parentesco com um dos membros da Junta, e Ferreira da Silva, propondo Entre os deputados de Portugal não faltou quem lembrasse que as
"que se deixasse tal representação em abandono, como se ela não tivesse propostas repudiadas por São Paulo haviam sido aprovadas com a presença c
chegado ao conhecimento do Congresso". Dos de Portugal, não assinaram concordância de deputados de algumas províncias do Ultramar.
Ferreira de Moura e Inácio Pinto, que não concordavam com o pedido Os parlamentares do Brasil manifestaram-se, cm geral, favoravelmente ao
porque "nenhuma notícia poderia alterar o parecer"2'1. adiamento. No entanto, vale destacar algumas argumentações. Muníz Tava-
Percebe-se nessas recusas que o adiamento não tinha a anuência do grupo res dizia aprovar o parecer só porque desejava a união sincera de Brasil e
"integradonísta" de Portugal, que interveio exigindo punição para a Junta. ', Portugal, pois caso contrário diria: "Legisladores, levai o ferro e o fogo à
Fernandes Tomás clamava por providências enérgicas e a certa altura da | província de São Paulo"27.
sessão fez o discurso que ficou famoso: "Eu entendo que o Brasil há de vír a / Borges de Barros, discordando do "ferro c fogo" c referindo-se à interven-
se separar de Portugal. Mas cm que tempo isto há de ser? Eu sou fatalista /' ção de Tomás, afirmou: "O adeus Sr. Brasil é o espírito da representação de
tanto quanto pode ser um católico romano; isto há de ser quando Deus

Ibidcm.
IbUan.
Diário das Cortes Constituintes, sessão de 22 de março de 1822. Ibidcm.
142 MERCADO INTEGRADO E o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS MERCADO INTEGRADO E o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS 143

São Paulo", e declarou que vinha para "tratar da união da família portugue- interesse, como Borges Carneiro c Trigoso. Nas palavras deste último: "É
sa, mantidos os seus direitos, e não para desunir"28. preciso que este Congresso quando se dissolver possa dizer à nação portugue-
Vilela Barbosa defendeu a Junta de São Paulo, lembrando que seus sa: nós quando nos reunimos achamos a nação unida, e quando nos separar-
integrantes haviam sido eleitos c que sua punição incendiaria a província. mos a deixamos do mesmo modo"31.
Referindo-sc ao discurso de Fernandes Tornas, afirmou que "perder o Brasil Borges Carneiro apostava na integração económica das partes da monar-
é perder a dignidade nacional"29. quia para garantir a sua unidade, como já citado anteriormente. Vejamos,
Somente Bueno, deputado de São Paulo recém-chegado, defendeu o então, como foram tratadas as relações comerciais entre os dois reinos.
conteúdo do Programa: "No Brasil adotaram-se as mesmas ideias que cm Já virnos que, em 10 de janeiro, as Cortes aprovaram um parecer que
Portugal [...] no governo de São Paulo há erro c má aplicação de princípios, visava imprimir maior rapidez à elaboração dos novos vínculos económicos e
mas não intenção criminosa [...] ele quer que se conserve no Brasil um administrativos a serem estabelecidos entre os dois reinos, considerando que
delegado do Poder Executivo, onde os povos tenham seu recurso [...] e quer esta era a forma acertada de dissipar os conflitos e acelerar a união entre as
o Príncipe, não um usurpador"30. partes da nação. Como resultado do trabalho da Comissão Especial, nomea-
Para ele, as expressões utilizadas no adendo eram indecorosas, mas os da desde o dia 8 de janeiro e composta por Pedro Rodrigues Bandeira, Luís
princípios poderiam ser verdadeiros. A província não estava representada Monteiro, Braamcamp, Alves do Rio c Luís Paulino, aprcsentou-sc em 15 de
quando a citada lei fora aprovada, daí a reivindicação de mudanças. Con- março um projeto de decreto "para fixar as relações comerciais entre Brasil e
cluía, ressaltando que o texto estava endereçado ao príncipe e não era um Portugal".
documento público. Para a elaboração do projeto, a Comissão "principiou pedindo informa-
Aprovou-se, finalmente, cm 26 de março, o pedido de adiamento feito ções e a opinião da Comissão para o Melhoramento do Comércio estabeleci-
pela Comissão por 92 votos contra 22, declarados nominalmente c que da em Lisboa [...] composta de membros muito rcspcirávcis do comércio"32.
registram a discordância do grupo de Fernandes Tomás. Essa Comissão para o Melhoramento do Comércio fora uma das primeiras
O que cabe destacar aqui é que o Programa de São Paulo, associado ao impulsionadas pelas Cortes. Criada ern fevereiro de 1821, já havia elaborado
adendo cujo conteúdo atacava dirctarncnte os deputados de Lisboa, nem um parecer em agosto daquele ano que, evidentemente, criticava as condi-
sequer foi discutido integralmente. As atenções voltaram-se para a defesa das ções de comércio estabelecidas desde 1808, pois teriam "embaraçado o
Cortes e, nesse sentido, os integracionistas receberam aigum apoio dos depu- progresso das fábricas e Marinha nacional". Propunha, então, uma série de
tados do Nordeste. medidas "com o fim de favorecer a indústria arruinada e decadente do Reino
Por outro lado, à exceção do grupo de Fernandes Tomás, ninguém ousou - Unido, c de restaurar a sua perdida navegação".
punir os integrantes da Junta de São Paulo e arcar com os riscos das possíveis Basicamente, pretendia-se proteger os produtos portugueses no mercado
reações no sul do Brasil, especialmente depois do conhecimento da corres- do Brasil da concorrência com os estrangeiros. Propunha-se a abolição dos
pondência de D. Pedro que evidenciava as dificuldades de um acordo com impostos cobrados na saída dos produtos da "indústria mecânica c artes de
essa parte do reino ulrramarino. Portugal" para o Brasil e os que pagavam na entrada dos portos brasileiros,
A resolução de adiar o julgamento da Junta de São Paulo representou, bem como reservar ao comércio e à marinha de Portugal a melhor parte dos
então, mais uma derrota do grupo íntcgracionista de Fernandes Tomás, que tráficos coloniais, recolocando as cidades do Porto e de Lisboa como entre-
vinha se somar àquela, mencionada anteriormente, quando se elaborou uma postos comerciais33.
proposta conciliadora para a organização política das províncias de ultramar. Em resumo, o documento feito pelos comerciantes de Lisboa visava fazer
Nessa fase dos trabalhos das Cortes, venciam as posições daqueles para quem da monarquia lusa um mercado único, integrado c protegido do exterior. E
a conservação da unidade do Império estava acima de qualquer outro

31 Ibidem.
2a Ibidem. 32 Ibidem, sessão de 15 de fevereiro de 1822.
19 Ibiáem. 33 Melhoramento do comércio nesta Cidade de Lisboa, citado por Alexandre, Valerttim. Os
30 Ibidem. sentidos do Império, aí., p. 630-1.
MERCADO INTEGRADO E o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS 145
144 MERCADO INTEGRADO E OJMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS
úteis para todo o Reino Unido", pois aí estaria a "grande base da união"35.
esta foi a base para a confecção do projeto feito pela Comissão Especial das
Ou, como disse Pereira do Carmo, também integrante do grupo moderado
Cortes. de Borges Carneiro, o "pacto social" não seria suficiente para "consolidar a
Apresentado em 25 tópicos, estabelecia que: o comércio entre os remos indissolúvel união dos portugueses de ambos os hemisférios" c, por isso, seria
seria considerado tal como o de províncias do mesmo reino e só permitido a necessário um "pacto comercial" que buscasse a harmonia dos interesses
navios de construção nacional; nestes casos, os produtos agrícolas e indus-
"pela complementaridade de produções"36.
triais seriam isentos de direitos de saída, pagando 1% para fiscalização; ouro Esse grupo, que era maioria na Comissão, estava disposto a negociar a
c prata estavam livres de todos os direitos; dever-se-iam estabelecer o mais questão da autonomia na organização política e via nas relações económicas
rapidamente possível a igualdade e a uniformidade de moedas e do sistema a questão fundamental a ser definida. Os integradonistas, derrotados na
de medidas; proibir-se-ia a entrada, cm Portugal, de açúcar, tabaco, algodão, nova proposta de organização política, também não deram a tónica na
café, cacau, aguardente de cana ou mel, que não fossem do Brasil; inversa-
elaboração da proposta para a organização da economia.
mente, proibir-se-ia a entrada de vinho, vinagre, aguardente de yinho e sal, As primeiras declarações dos deputados de Portugal, favoráveis à propos-
que não fossem de Portugal, em território brasileiro; seria fixado limite de ta, como as de Ferreira Borges e Alves do Rio, destacavam a insuficiência da
preço para a entrada do arroz cm Portugal c azeite no Brasil; os produtos marinha portuguesa para arcar com todo o transporte comercial, embora
industriais de Portugal estariam livres de tributos no Brasil, e se neste fosse necessário fortalecê-la para fazer "florescer a marinha militar". O
existissem congéneres sujeitos a tributos, eles seriam aplicados aos produtos conjunto de medidas aparecia, então, como defesa do mercado português e
de Portugal (e reciprocamente para os produtos industriais brasileiros); os como um passo necessário para a defesa militar. Ressaltava a vulnerabilidade
produtos estrangeiros pagariam iguais direitos em Portugal e no Brasil; estes do reino de Portugal diante do controle dos mares exercido por outros países,
produtos poderiam ser levados de uma província a outra sem nova tributa- que se expressava, também, na falta de defesa do território. Estava aí implíci-
ção; os produtos saídos do Brasil cm navios estrangeiros seriam tributados: o to o exemplo da Inglaterra, de que agora os representantes de Portugal se
algodão em 10%, todo o resto em 6%, e a aguardente permaneceria isenta de serviam como modelo para as novas relações económicas. Os ingleses,
tributação; os mesmos produtos depositados cm Portugal c reexportados cm "apesar de sua Uberdade política c civil, haviam guardado o seu comércio", o
navio português pagariam 1%; a fiscalização seria feita pelas juntas provin- que lhes teria atribuído o papel dominante na economia europeia, além da
ciais; a descarga de produtos só seria admitida nos portos de livre entrada,
preponderância bélica.
onde haveria alfândega: Belém, São Luís, Fortaleza, Natal, Paraíba, Recite, António Carlos recorreu à adaptação de importantes teorias económicas
Maceió, Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Santos, Santa Catarina Rio para justificar seu argumento: "O exemplo da Inglaterra, e outros que se
Grande de São Pedro; o estabelecimento de outros portos só poderia ser feito apontaram, não provam nada, assim como não prova que o corpo forte cure
pelas Cortes34. . cicatrizes. As nações são como os homens [...]. Se acaso lançarmos os olhos
O conjunto de propostas sobre as relações económicas entre as partes da filosóficos sobre o adiantamento do espírito humano [...] viríamos a concluir
nação portuguesa partia de princípios que contrariavam a proposta de o estado cm que se acham as nações, por se desviarem do verdadeiro trilho: e
organização política apresentada pela Junta de São Paulo. As províncias por consequência estes exemplos não provam nada"37.
ultramarinas eram consideradas "províncias do mesmo remo" que as de Propugnava que fosse enfocado o caso concreto, pois as teorias teriam
Portugal e desaparecia a qualificação de reino do Brasil. Por outro lado, sido formuladas em face do estado cm que se encontravam as nações, e a
reforçava-se o papel das juntas provinciais, às quais se atribuía a função de portuguesa "está reduzida ao último estado de marinha, e não pode prospe-
fiscalizar e tributar as atividades comerciais. rar porque tem os ingleses que lhe fazem sombra". Como existissem pro-
Como declarou Borges Carneiro, dever-se-ia conceder "grande liberda- prietários de navio em Portugal e no Brasil, dcvía-sc incentivar o íncremen-
de" ao Brasil na organização política, tendo em vista "estabelecer boas
relações comerciais com os povos ultramarinos, relações reciprocamente
35 Ibidem, sessíío de 31 de janeiro de 1822.
}C Ibidcm, sessão de 4 de janeiro de 1822.
37 Ibiclem, sessão de 2 de abril de 1822.
das Cortes Constituintes, sessão de 23 de março de 1822.
146 MERCADO INTEGRADO E o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS MERCADO INTEGRADO E o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS 14?

to da frota, desde que respeitados os consumidores e os produtores, para Em outro momento, deixava claro que essa preponderância do Estado
que o lucro não viesse a ser somente dos que se responsabilizavam pelo co- também se inspirava em um modelo: "Consideremos quanto medrou o
mércio38. comércio português com as restrições das leis do previdente Marquês de
Seu raciocínio ficaria mais claro posteriormente, quando, depois de citar a Pombal, muito semelhantes às do presente projeto de decreto"'13. Segundo
prosperidade dos Estados Unidos como resultado do comércio sem entraves, ele, o tratado de 1808 havia arruinado o comércio de Portugal e favorecido
completou: "[...] é regra: o comércio livre leva ao progresso [...]. O Brasil é somente algumas regiões brasileiras44. Assim, o liberal Borges Carneiro
exemplo da força destes princípios. Algumas de suas províncias, como a Bahia, mostrava-se pombalino ao falar ern relações comerciais.
que exportavam 25$ de caixas de açúcar, hoje exportam o dobro. Igual sorte Fernandes Tomás atuou de modo secundário na polémica. Argumentou
teve a província de São Paulo [...]. E diminuiu-se o preço da mercadoria [...]. O favoravelmente ao artigo e contra os "pesados impostos" sugeridos por
decreto de 28/01/1808, infeliz para Portugal, foi o avesso para o Brasil"39. António Carlos. Buscando, também aqui, radicalizar a questão, via duas
A teoria deveria guiar a prática, mas António Carlos não desejava a "livre opções: "Ou abrem-se os portos aos estrangeiros ou não". O Brasil deveria
introdução de navios nos portos. A segurança é antes do comércio. Precisa- construir navios, e passaria então a ter negociantes locais. A permissão de
mos de marinha para proteger o corpo lusitano espalhado nos quatro cantos entrada a navios estrangeiros condicionada à cobrança de altos impostos
do mundo e que a inibição da cabotagem crie esta marinha". O que ele levaria ao encarecimento do produto a ser pago pelo consumidor europeu'15.
propunha era a permissão da entrada de navios estrangeiros nos portos, O último argumento de Borges Carneiro foi rebatido por António Car-
desde que pagassem altos impostos''0. Em sua opinião, isso fortaleceria a frota los, sob alegação de que se deveria pensar para além dos interesses dos
portuguesa, a longo prazo, mas não paralisaria o comércio nem a produção, comerciantes: "O aumento dos frutos do comércio de urna região beneficia
de ímediaco. Afetar a produção no Brasil certamente desagradaria muito os toda a nação". Certamente, a prosperidade do comércio nas regiões brasilei-
produtores agrícolas. ras baratearia os produtos a serem consumidos em Portugal.
Essa última referência era uma das grandes preocupações de Andrada, Cipriano Barata aduziu que a produção brasileira era enorme c não
pois o estrangulamento do comércio no Brasil levaria à paralisação da poderia restringír-se ao mercado português. Lino Coutinho, para quem "as
produção agrícola. Fazendo referência aos vínculos da proposta com os nações que fizeram a doutrina do livre comércio não a praticam", tomava
comerciantes de Lisboa, argumentava que "não se poderia confundir o bem assim posição favorável à cobrança de altos impostos dos comerciantes es-
dos negociantes com o bem da nação" e que "todas as classes da sociedade trangeiros e à retirada de encargos cobrados da atividade produtiva. Salienta-
não devem tributar para a mercantil", pois "quando sofre o comércio da va um aspecto fundamental da proposta: os produtos do Brasil seriam
nação há sempre particulares que engordam"41. Não se tratava, portanto, de encontrados nos portos de Portugal por preços iguais c ninguém atravessaria
atender às reivindicações dos comerciantes de Lisboa ern prejuízo da exporta- o Atlântico para procurá-los; seria necessário estabelecer urna forma de
ção e produção do Brasil. ressarcir as províncias de tal prejuízo.
A ênfase de Borges Carneiro era outra: "Nada de teorias vãs", pois as Borges de Barros alinhou-se com António Carlos: "[...] quisera que o
restrições ao comércio existiam cm todas as nações c as que mais haviam projeto em discussão tão recheado de restrições, e exclusivos, fosse antes
florescido, como Franca, Inglaterra e Holanda, protegiam seus mercados. cheio de artigos sobre o melhoramento da nossa marinha. Segundo a minha
Em sua concepção, o "[...] comércio deve servir ao Estado. Hoje os portos do maneira de pensar, e ideias de economia política recebidas, o maior bem que
Brasil abertos ao rnundo vão fazer com que nossas fazendas não possam ao comércio fazer se pode é dar-lhe a maior liberdade, facilitar-lhe os
concorrer com as estrangeiras"42. transportes e defendê-lo do inimigo .
Luís Paulino, que assinava o projeto, pronunciou-se a favor dele e enfati-

38 Ibidem.
35 Ibidem, sessão de 9 de abril de 1822. Ibidem.

4" Ibidem. Ibidem.


Ibidem.
•" Ibidem.
42 Ibidem.
Ibidem, sessão de 2 de abril de 1822.
148 MERCADO INTEGRADO E o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS MERCADO INTEGRADO E o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS 149

zou a necessidade de fortalecimento da frota, visando à defesa nacional. Zeferino dos Santos, Andrada, Bueno, Feijó, Fernandes Pinheiro, Verguei-
Vilela Barbosa o secundou, identificando os comerciantes estrangeiros a ro, Borges de Barros, Gomes Ferrão, Barata, Lino Coutinho, Marcos Antó-
"agentes da especulação". Já o vigário Marcos António, depois de considerar nio e Agostinho Gomes. Ou seja, levavam as assinaturas de cinco deputados
que, conforme o próprio Adam Smith, a concorrência perfeita não existia e de Pernambuco, cinco de São Paulo e seis da Bahia, revelando a aproximação
que os Estados Unidos dispensavam urna grande marinha por estarem das bancadas dessas províncias.
distantes das guerras europeias, ponderava que "o sistema proibitivo seria Em 14 de maio, um outro ponto do projeto foi discutido e também gerou
desfavorável à riqueza nacional", requerendo a revisão dos alvarás que discordâncias: a introdução no Brasil dos produtos industriais de Portugal,
regulavam o comércio no Brasil desde 1808'17. livre de direitos. Lino Coutinho levantou a divergência: "Parece que há aqui
* Nesse aspecto do projeto, portanto, António Carlos c os baianos Cipria- reciprocidade, contudo eu não a acho. Pergunto eu, qual tem mais indústria,
no Barata, Lino Coutinho e Borges de Barros pensaram do mesmo modo. Portugal ou Brasil? Ninguém me dirá se não que é Portugal. Logo, se toda a
Os outros deputados da Bahia, porém, não tiveram a mesma postura. Luís nação que tem mais indústria lucra mais do que a que tem menos, não há
Paulino defendeu a proposta e Marcos António procurou uma situação reciprocidade"51.
intermediária, pedindo a revisão dos tratados de 1808. E, por fim, o flumi- António Carlos, mais uma vez, recorreu a seus conhecimentos de ilustra-
nense Vilela Barbosa concordou com a proposta da Comissão. do: "Ninguém ignora em economia política [...] a dificuldade que tem uma
Outro ponto de divergência nas Cortes residia nos artigos que determina- nação que ficou atrasada cm apanhar as outras que lhe levam a dianteira;
vam a exclusividade de importação, em cada reíno, dos produtos abundantes ninguém ignora que uma nação que é superior a outra em capitais, cm artes
no outro. Borges Carneiro discorreu sobre a necessidade de que o Brasil e indústria trabalha os artcfatos mais baratos e mais perfeitos; c que para
assegurasse consumidores; como não era o único país a oferecer produtos destruir estas vantagens, e esperar a nação atrasada pôr-se ainda em nível das
agrícolas, seria beneficiado pela garantia de consumo no mercado português. outras, lhe é mister embaraçar a indústria estranha por meio de proibições,
O deputado ressaltava que o Brasil estava sendo privilegiado no acordo, pois ao menos temporárias; ou por meio de restrições e direitos pesados. Ora
seu mercado era menor que o de Portugal. Caso os artigos não fossem concedendo-se a Portugal a introdução no Brasil dos produtos de sua
aprovados, porém, Borges Carneiro insinuava uma ameaça de interdição na indústria sem direitos alguns é de fato condenar o Brasil a uma eterna
saída de escravos africanos das possessões portuguesas*48. Na mesma linha de dependência dessa indústria, e abafar no nascedouro toda a futura indústria
raciocínio, Ferreira Borges ameaçava com a instalação de um "porto franco" brasileira"52.
em Lisboa, aproveitando a localidade privilegiada da cidade1*5. António Carlos e Lino Coutinho defenderam o livrc-cornércio nos pon-
António Carlos respondeu que o Brasil sairia ganhando na competição tos anteriores, ou seja, quando se tratava das relações com o exterior do
com outros países produtores de géneros agrícolas, pois "por desgraça da império luso-brasileiro. Agora, ao se abordar as relações interiores, mostra-
humanidade o trabalho escravo é feito no Brasil mais barato que cm nenhu- vam-se protecionistas. Com o intento de resguardar uma possível indústria
ma parte". E concluía: "Limito-me a dizer que os géneros especificados no no Brasil em relação aos produtos de Portugal, distanciavam-se da argumen-
artigo 7 cm retorno do artigo 9 não sejam proibidos nem em um nem em tação livre-cambista usada anteriormente.
outro país e sejam introduzidos livremente, mas que os nacionais sejam Interessante, porém, no discurso de António Carlos, a defesa da "indús-
favorecidos50". tria nacional" no Brasil, autónoma em relação a Portugal. Pela primeira vez,
O artigo foi aprovado, rnas em 29 de abril duas declarações de votos cm 14 de maio, vislumbrava-se no pronunciamento do paulista uma ' nação
registravam a discordância quanto às regras de exclusividade previstas. Eram brasileira". Tanto quanto os portugueses, ele pensava, agora, em proteger a
assinadas por Ferreira da Silva, Muniz Tavares, Araújo Lima, Assis Barbosa, economia nacional; porém, deixava entrever a existência de duas nações
diferentes.
Foi derrotado em sua argumentação, quando se conseguiu provar que,
<7 Ibidem.
48 Ibidem, sessão de 27 de abril de 1822.
*' Ibidem. 51 Ibidem, sessão de 14 de maio de 1822.
» Ibidem.
1 50 MERCADO INTEGRADO E o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS MERCADO INTEGRADO E o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS 151

mantidos os termos do tratado de 1810 c a imposição de direitos sobre os Monarquia perante a outra nas trocas comerciais. António Carlos avenrava
produtos portugueses, a vantagem seria dada, na prática, aos produtos por exemplo, a fixação de taxas maiores para os compradores estrangeiros
britânicos. Em nenhum momento, porém, essas circunstâncias significariam exclusivi-
A discussão sobre o projcto de decreto a que estamos nos referindo foi dade comercial.
interrompida nessa sessão de 14 de maio e retomada somente em 17 de Ajjroteção dg^Estado à economia observava-sc, também, na proposta
julho, quando a situação nas Cortes já era bastante diferente. paulista. Mas ela se referia à protcção interna do Reino, ou seja, de uma das
No entanto, os debates de abril e maio permitem algumas conclusões. Em partes da Monarquia.
primeiro lugar, a ideia de Borges Carneiro, de que a flexibilizaçao na De resto, todas as características de tipo mercantilista apontadas na
organização política associada à "complementaridade de interesses" entre os proposta de Borges Carneiro, tal como a associação do comércio à atívidade
reinos pudesse garantir a unidade da monarquia [usa, mostrou-se inviável. bélica protetora do Estado, eram mantidas nas intervenções de António

5 Ao contrário, os interesses das partes representadas apareciam como opostos Carlos.


e não complementares. Mais uma vez, no entanto, a diferença já apontada em contraposições
A integração de mercados proposta pelos moderados era complementada anteriores pode ser registrada. Borges Carneiro cria cm integrar mercados
pela postulação de uma forte ação protccionista do Estado, obedecendo ao para formar a união nacional. António Carlos associava províncias autóno-
modelo pombalino.. Significava a suspensão dos tratados_de 1 808 no JJrasil, mas, também economicamente, para atingir o mesmo objetivo. Defendia a
a exclusividade portuguesa no transporte dos géneros comerciais, o privilégio unidade do Reino do Brasil, mas não adiantava nenhuma proposta que
/> '-de consumo dos produtos dos reinos da monarquia ca protcçãpdji indústria visasse a sua integração económica. .
àf* , , -portuguesa. Obedecia aos interesses do "corpo comercial" de Lisboa, prcju- Portanto, longe de encerrar as polémicas no Congresso, o projeto sobre as
i;"1 dicado pelo fim do monopólio colonial, e chocava-se com os interesses dos relações comerciais as alimentava. E, na crítica ao seu objetivo fundamental,
j produtores agrícolas no Brasil. No entanto, igualava as partes da Monarquia os paulistas receberam a adesão de boa parte da bancada baiana e da
,e promovia uma unidade comandada pela fiscalização estatal. Visava ao totalidade dos deputados de Pernambuco.
fortalecimento da frota portuguesa voltada para o comércio, associando-o à De toda forma, a discussão foi interrompida em razão das crescentes
defesa militar. tensões, dentro e fora do Congresso.
Nessa concepção, a função primordial das instituições políticas seria a de Na sessão de 15 de abril, enquanto se discutiam as relações comerciais-
comandar a integração económica. Não era fundamental, portanto, que entre Portugal e Brasil, chegaram alguns ofícios do Rio de Janeiro endereça-
essas instituições estivessem fortemente associadas e totalmente subordina- dos ao rei e lidos no Congresso, relatando mudanças importantes.
das a uma autoridade central. A autonomia das partes era aceita desde que a O comandante da divisão auxiliadora enviada ao Rio de Janeiro pelas
integração de mercados fosse obtida. Assírn, na opinião de Borges Carneiro, Cortes, general Jorge Avillez, comunicava na correspondência que, em
seriam soldados os interesses e a nação portuguesa. virtude das manifestações do início de janeiro, criara-se naquela cidade
Nessa proposta, o monopólio era reintroduzído nas relações comerciais. uma situação insustentável. Segundo o general, "desde a partida de Sua
O que_se defendia era o comércio como ativídade ,quase_ béljc^, comandadp_e_ Majestade à antiga sede do Reino formou-se um partido forte para des-
dÍ£Ígido_peIo Estado luso-brasileiro com o objeriyq de Jortalecê_-lo perantcjas membrar esta parte do Brasil da monarquia portuguesa [...]. Esta tendên-
outros. Comércio e marinha apareciam associados na defesa do território c cia se manifestou decididamente à chegada do decreto das Cortes para o
ambos seriam extensões da competência estatal. Tais características fazem regresso de S.A.R. e então se desenvolveram todos os meios de discórdia
lembrar o velho monopólio mcrcantílista. [...] que tomou tal vigor que obrigou a Câmara a dirigir a S.A.R. um
As propostas dos paulistas seguiam urn rurno diferente. A defesa da requerimento precursor da independência intentada para que ficasse aqui;
liberdade de comércio traduzia-se na manutenção das medidas de 1808, ou S.A. anuiu, significando que ficaria até dar parte às Cortes e a seu augusto
—. --- , -p- -- —T~ÍT—r, pai nosso amado rei; esta resposta não pareceu suficiente aos interesses, c
seja, a abertura dos portos do brasil.
' O Estado cumpria, também, um papel fundamental: associar as diferen- pediu se declarasse por um edital a absoluta resolução de ficar [...]. Estas
: -tes parEes do Império, o que poderia significar prioridade de uma parte da circunstâncias reunidas convenceram o general que a sua pessoa era inútil
152 MERCADO INTEGRADO E o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS MERCADO INTEGRADO E o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS 153

ao serviço como general das armas desta província, c pcdíu a S.A.R. o Responderia, cambem, o deputado paulista com palavras duras, pelo que
desonerasse deste emprego"53. foi chamado à ordem várias vezes: "O nobre preopínance calunia as pessoas
Anexava-se ao ofício urna série de documentos que comprovavam o que estão hoje à cesta da administração do Río de Janeiro, c que tiveram parte
relato: os editais da Câmara do Rio de Janeiro, o pedido de exoneração feito nos sucessos daquela cidade, e nos das províncias limítrofes; eles são homens
por Avillez, as ordens de execução do pedido, exemplar da Gazeta do Rio de de toda a probidade, e tão honrados corno os membros deste Congresso.
Janeiro noticiando as manifestações do dia 12 de janeiro c relatório sobre a [...]. Sím, são cão honrados como os membros deste Congresso, contínuo a
situação das tropas54. respeito, apesar dos sussurros, que desprezo. [...]. O que me admira no nobre
As cartas de D. Pedro, notificando sua decisão tomada cm 9 de janeiro de Preopinante é que teime a impucar a facções o que é claramente a opinião
ficar no Brasil só dariam entrada no Congresso crn 9 de maio. Portanto, foi geral das quatro províncias, e que para isto se sirva da representação do
com as informações obtidas por intermédio do general Avillez que a discus- exercito, como se a força armada auxiliar do Rio constituísse parte daquele
são sobre o fato teve início entre os deputados. povo [...]. Quanto a formar juízo sobre os sucessos, sem esperar as cartas de
Borges Carneiro Íniciou-a, dizendo: "As notícias que acabamos de ouvir S.A.R., não aprovo [...]; visto que seria novo julgar de partes sem ouvir senão
juncas as que já tínhamos bastam para fazermos as nossas ideias a respeito do uma"56. Em virtude da insistência de Fernandes Tomás, a discussão sobre a
Rio de Janeiro c das duas províncias [...] bem se vê com que enganos os matéria foi adiada. No entanto, ainda na mesma sessão, António Carlos
querem adormecer para ir lavrando uma revolução, para se separarem de nós solicitou seu afastamento da Comissão Especial dos Negócios Políticos do
[...]. Pois se aquilo é um partido e um partido de homens depravados e Brasil, no que foi atendido.
ladrões que roubaram sempre a nação, e agora abusam dos poucos anos e Quando se discutia um dos itens sobre as relações comerciais dos dois
pouca experiência do príncipe real, porque agora já vemos que isto não é reinos, pediu novamente a palavra para dizer: "Sr. presidente, ainda há
mais que um partido de homens maus; e não a vontade daquele povo, que pouco até das galerias tiveram a ousadia de chamar-me à ordern. Eu não me
com tanta alegria jurou as Bases da Constituição"55. conto mais membro deste Congresso, pois que me querem prender a minha
Em seguida, fez duas solicitações: urgência nas informações sobre as liberdade; para que o mundo saiba isto digo, que não sou mais deputado",
tropas de Montevidéu, para que ficassem à disposição do governo, e um complemencando em seguida: "Quando eu fui nomeado deputado foi com a
parecer imediato sobre o julgamento da Junta de São Paulo. condição implícita da conservação da minha liberdade"57.
O moderado de outros momentos defendia, assim, a intervenção armada António Carlos manteve a decisão c enviou uma carta ao Diário do
e a formação de culpa aos paulistas. Enquanto isso, Fernandes Tomás, que Governo, dois dias depois, expressando sua versão dos fatos: "E verdade que
fora favorável à punição imediata dos integrantes do governo de São Paulo, fui chamado à ordem por um partido dominante no Congresso contra toda
agora pedia o adiamento da discussão até que o príncipe regente enviasse a razão c justiça [...]. É porém falsidade, que admira aparecesse no Diário,
notícias. que nas galerias houvesse somente algum rumor, que apenas começou, por si
Com seu discurso, Borges Carneiro atacava José Bonifácio duas vezes: mesmo sossegou; houve não só rumor, mas alarido de comando, e até se
primeiro, por ter sido integrante da Junta de São Paulo, que iria a julgamen- vomitaram contra mim insultos e ameaças, atacando-se a dignidade de
to, c também porque o mais velho dos Andradas compunha, agora, o minha pessoa e da minha província"58. Afirmava que fora praticamente
conselho da regência, ocupando-se da Fazenda. Certamente faria parte do forçado a se retirar da Comissão sobre o Brasil, uma vez que Borges Carnei-
"partido de depravados e ladroes" mencionado por Borges Carneiro. ro, "com criminosa ingerência", solicitara esta providência ao conjunto dos
Por isso, na sessão de 15 de abril, a intervenção de António Carlos deputados, e sustentara sua auto-exclusão do Congresso cm razão de falta de
Andrada foi a que mais chamou as atenções do Congresso e das galerias, que, liberdade.
segundo vários parlamentares, estavam lotadas neste dia.

56 Ibidcm.
Ibidcm. 57 Ibldem.
ÍB Diário do Governo, n." 89, 17 de abril de 1822, p. 618, citado por Alexandre, Valcmim. Os
Ibidcm,
Ibidcm. sentidos elo Império, cit., p. 641.
154 MERCADO INTEGRADO E o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS MERCADO INTEGRADO E o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS 15 5

Importante notar que o conflito ocorria entre os dois principais protago- homem; um povo não tem direito algum a obrigar outro povo a sujeitar-se às
nistas das divergências sobre as relações comerciais entre os reinos. Borges suas instituições sociais. O despotismo tem podido atropelar estas verdades,
Carneiro não se mostrava disposto a concessões nesta matéria, como vimos, c mas o sentimento delas ainda não pode ser de uma vez sufocado no coração
enfrentava as teses sobre a liberdade de comércio defendidas por António dos homens. É, porém, da natureza das instituições políticas que durem
Carlos. Para o deputado de Portugal, este era o ponto central da unificação dos enquanto convém à felicidade de todos. Este princípios de eterna justiça
dois reinos, que, da forma corno se conduziram os debates durante o mês de aterram os ambiciosos, enquanto povos livres não têm duvidado inseri-lo cm
abril, parecia difícil de se concretizar. Ele, que em outros momentos fora suas constituições porque o não terncm". Esses princípios, dizia Feijó, ha-
cuidadoso no julgamento da Junta de São Paulo, príorizando a unidade do viam justificado a revolução do Porto e feito com que os brasileiros invejas-
Império, verificava agora que ela estava ameaçada por interesses opostos. sem a iniciativa dos portugueses europeus. As províncias brasileiras haviam,
Na sessão de 18 de abril, outros deputados do Brasil manífescatam-sc isoladamente, construído novos governos sobre as ruínas dos antigos, expres-
sobre o fato. Silva Bueno e Feijó apresentaram uma declaração em que sando sua adesão à mesma causa de Portugal. Eram governos legítimos como
anunciavam também não mais participar do Congresso. Os deputados de o que se instalara em Lisboa no 15 de setembro. Sabiam, porém, que a
São Paulo estariam sofrendo intimidações e ameaças, por meio de cartas Constituição deveria reconhecer estes governos.
anónimas, e sentiam que suas vidas estavam em risco. Nesse momento do pronunciamento, o deputado paulista estabelecia o
Vilela Barbosa fez um longo discurso, reconhecendo que houvera alarido que nos parece o centro de suas posições: "Soberano Congresso, o Brasil já
nas galerias rnas não vendo "motivo para tanto azedume". Solicitava que sabe que a Constituição é o estabelecimento da ordem [...]. E portanto de
"por delicadeza não se dê a dispensa" para não piorar a situação. Declarando necessidade ou que se assinais às nossas requisições, ou que rejeitais a nossa
que também sofrera agressões, anunciou: "Serei rocha inabalável no centro associação. Nós ainda não somos deputados da nação, a qual cessou de existir
desta augusta assembleia, pois ser-me-á mais fácil morrer do que deixar de desde o momento que rompeu o antigo pacto social. Não somos deputados
advogar os interesses da minha pátria"59. do Brasil, de quem cm outro tempo fazíamos uma parte imediata; porque
Borges de Barras interveio no mesmo sentido, conclamando os deputa- cada província se governa hoje independente. Cada um é hoje deputado da
dos paulistas a se reintegrarem ao Congresso e declarando: "Hei de fazer província que o elegeu c que o enviou. É portanto necessária a pluralidade
todo c qualquer sacrifício contido nos raios do honesto e da honra, a bem da dos votos, não coletivamente de todos os deputados, mas de cada província,
minha pátria, glória c liberdade nacional, e união da família portuguesa"60. pela qual lhe possa obrigar o que por eles for sancionado. Se concordarmos,
Foi, então, nomeado membro da Comissão sobre o Brasil, com desculpas do se a Constituição se nos tornar comum, desde esse dia sornos um só Estado,
presidente da sessão, pois o lugar deveria ser ocupado por urn deputado de urna só nação, e cada deputado lhe pertencerá com igual direito ao da
uma das províncias do Sul. província que o elegeu"62.
Outros dois deputados baianos, Cipriano Barata c Agostinho Gomes, Feijó estabelecia, assim, uma concepção de nação muito diferente da
pediam "autorização para não mais comparecer no Congresso" até que expressa na "família portuguesa espalhada pelos quatro cantos do mundo".
"sossegue o espírito público"61. Para ele, a nação era constituída por um pacto. A revolução de 1820 havia
Ern 24 de abril, as Cortes se pronunciaram sobre a atitude de António destruído o pacto anterior c um novo ainda não se havia concluído. Não
Carlos, não lhe concedendo o afastamento solicitado. existia, portanto, uma nação portuguesa, nem tampouco um Brasil. Insistia
No dia seguinte, Diogo António Fcijó, o deputado por São Paulo que até na existência de corpos políticos provinciais que passariam a formar um
aquele momento permanecera calado, se manifestou não propriamente a único Estado e uma única, nação se assinassem um novo pacto social, por
respeito de António Carlos, mas tratando dos problemas do Brasil. Em sua meio da Constituição. Estado e nação seriam formados no mesmo momento.
fala, referia-se a princípios básicos: "Urn homem não pode impor leis a outro Na continuação de sua fala, ele próprio fazia o contraponto com a visão
contrária: "Mas suponhamos por um momento que a nação existe, e que
todos nós indistintamente somos deputados dela, e ainda assim poder-se-ia
Diário das Cortes Constituintes, sessão de 19 de abril de 1822.
Ibidem.
Ibidcm. 62 Diário das Corta Constituintes, sessão de 25 de abnl de 1822.
156 MERCADO INTEGRADO E o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS MERCADO INTEGRADO E o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS 157

avançar que a voncadc de uma metade pode obrigar outra metade? A nação já Sua proposta foi enviada à Comissão sobre o Brasil com a observação de
o decidiu, e quem mais o pode decidir? A natureza das convenções, os Ferreira de Moura, um dos "integracionistas" de Portugal, de que aquele não
direitos do homem não exigem a unanimidade de consenso entre as partes seria o "dia de discutir tais princípios erróneos c falsos". Definindo tão
que contratam? [...]• Todos nós, ou pelos menos a maioria muito assinalada, claramente uma concepção de nação oposta à que vinha sendo utilizada no
que represente e exprima de um modo muito equívoco a vontade geral da Congresso, o discurso de Feíjó pôde parecer contrário ao programa apresen-
nação, mas nunca somente alguns de nós. Não imitemos os déspotas que [...] tado pela Junta de São Paulo. Em nenhum momento o deputado defendeu a
não podem ouvir as reclamações dos direitos do homem"1*3. unidade do reino do Brasil e não procurou justificar a autoridade do
Portanto, mesmo considerando que a nação exista como um corpo príncipe. Falou em autonomia das províncias, as únicas unidades políticas
anterior ao pacto e ao Estado, ainda é formada por partes diferentes que que reconhecia, para aderir ou não à nação portuguesa mediante o reconhe-
necessitam entrar em acordo; o contrário, a concepção da nação como um cimento de um novo pacto social. No entanto, a defesa dessa autonomia
corpo homogéneo, c sinal de despotismo, pois ignora as vontades particula- possibilitava, implicitamente, o reconhecimento de um outro pacto c, por-
res dos povos c faz prevalecer os interesses de uns sobre outros. tanto, a formação de uma outra nação.
Feijó desqualificava a ídéía da unidade nacional como produto da história A decisão do príncipe de ficar no Brasil, associada ao endurecimento das
e da tradição. Conforme sua visão, a nação seria constantemente refeita por Cortes diante do fato, polarizava as atenções nos dois reinos entre os go-
meio do pacto social que formava o Estado. Seria obra da política e não da vernos do Rio de Janeiro e Lisboa. A autonomia defendida por Feijó abria a
história. possibilidade de escolha. A província transformava-se na única unidade
Em urna frase, também questionava a ideia da nação/vontade geral ao política reconhecida e dela deveria partir a opção por um dos dois governos
dizer que mesmo a totalidade dos deputados só poderia exprimir "de um que, tudo indicava, passariam a disputar o centro de poder no interior da
modo muito equívoco a vontade geral da nação". O sistema de representação monarquia lusa.
evidenciaria a abstrata "vontade geral" aproxímativamentc, nunca de um As últimas discussões no Congresso mostravam que havia espaço para a
modo cxato. negociação dos paulistas com os deputados do Nordeste. A nova proposta
/ O paulista terminava seu discurso com propostas cujo teor não foi sequer conciliadora para a organização política cm ultramar foi resultado de um
/ discutido. No entanto, vale a pena observá-las. Em cinco tópicos, indicava: acordo entre as partes c, durante as discussões sobre as medidas económicas,
a) que, enquanto não se organizasse a Constituição, o Congresso de Portugal os deputados de São Paulo encontraram apoio nos baianos c pernambuca-
deveria reconhecer a independência de cada uma das províncias do Brasil; b) nos. A retirada de António Carlos do Congresso poderia reforçar a solidarie-
que a Constituição obrigaria somente aquelas cujos deputados concordassem dade entre todos os deputados do Brasil. E, agora, Feijó acreditava que seria
pela pluralidade de votos; c) que as Cortes prestariam auxílio às províncias possível avançar propostas com objetivo de medir forcas entre os governos de
ameaçadas por facções, desde que cias o rcquercsscm, com perfeita liberdade Lisboa c do Rio de Janeiro.
de escolha; d) que o governo de Lisboa suspendesse todos os provimentos c No discurso desse representante havia um. recado importante: o governo
qualquer determinação a respeito do Brasil, exceto quando lhe fosse legiti- do Río de Janeiro, apoiado pelos autores do Programa de São Paulo, poderia
mamente requerido por alguma província; c) que os governos do Brasil onde , respeitar a autonomia das províncias, ao passo que o de Lisboa, dirigido pelas
se achassem destacamentos de Portugal pudessem mandar retirá-los desde / Cortes, que procuravam a integração da nação portuguesa, não mostrava a
que assim julgassem conveniente64. ^ mesma disposição.
Finalmente, a parte final de sua proposta tinha por objetivo impedir a
Apelando aos princípios liberais das Cortes portuguesas, Fcijó propunha
a autonomia das províncias, sem intervenção armada ou coação, na decisão utilização da força para manter a unidade com Portugal.
Também Vergueiro desconfiava de ações que visassem pressionar as
de compor ou não a nação portuguesa.
províncias do Brasil. Essa desconfiança aparece cm uma indicação feita por
k ele em 27 de abril, segundo a qual, "tendo-se publicado cm Londres uma
Ibidem. proibição do nosso governo, para não entrarem no Brasil munições navais c
Ibidem. de guerra, o que pode fazer suspeitar o Brasil intentos de bloqueio, requeira
MERCADO INTEGRADO E o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS 159
158 MERCADO INTEGRADO E o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS
comandantes das tropas. No dia 17 foi reconhecido pela Junta como coman-
se pergunte ao governo as circunstâncias c motivos de medidas tão extraordi-
dante das armas da província; porém, uma representação assinada por
nárias
quatrocentas pessoas solicitava a permanência de Manuel Pedro no coman-
Durante o mesmo período, enquanto se discutia o projeto sobre as
do. Decidiu-se, então, para evitar maiores conflitos, pela formação de uma
relações comerciais, outra questão difícil aflorou: os conflitos na Bahia entre
nova junta, composta de sete membros c com a presidência de Madeira, que
seus habitantes c Luís Madeira de Melo, o governador das armas indicado
exerceria o comando militar. Segundo ele: "Alguns cidadãos, entre os quais
por Lisboa.
se compreendem todos os oficiais do exército de Portugal, que estavam
A questão se tornava"importante, pois revelava a generalização de confli-
presentes, combateram esta opinião, demonstrando a ilegabilidade da repre-
tos no Brasil, escapando à zona de influência direta do príncipe ou do
sentação contra a carta régia"67.
suposto "partido da independência" das províncias do Sul. O descontenta-
A partir daí desenhava-se um conflito que tomaria as ruas da capital da
mento, agora, também na Bahia, uma das primeiras províncias a aderir ao
província, envolvendo "milicianos dos regimentos dos pardos e pretos, e até
regime constitucional e a formar o governo provisório.
paisanos". Madeira comunicava, então, a sua disposição para obedecer às
Como virnos, estava pendente, desde janeiro, o julgamento dos presos
ordens do rei c que, se o governo de Lisboa quisesse "conservar esta parte da
acusados de se amotinarem na Bahia para derrubar o governo. Virnos
monarquia", ele, general, necessitava de um reforço de tropas.
também que, naquele momento, optou-se por deixar aos juizes a decisão
Nas Cortes, a discussão sobre o fato se iniciou com uma intervenção do
sobre o destino deles, concedendo voto de confiança ao governo local, c deputado Guerreiro, de Portugal, identificando também na Bahia um "par-
acelerar as providências que concretizassem os laços de união entre Portugal
tido de facciosos" que incitava o povo da província; os conflitos se generaliza-
e Brasil. Agora, em 27 de abril, concedia-se anistia a estes prisioneiros.
vam e seriam necessárias medidas "para sufocar este mal". Propunha que se
No dia 30, porém, a Bahia retornava à pauta do Congresso, mediante um
devolvesse o ofício ao governo para providenciá-las, pois a esfera da decisão
oficio de Madeira, datado de 23 de fevereiro: "Logo que no dia 11 do
competia ao Executivo, que havia nomeado o comandante das armas em
corrente se divulgou aqui a notícia de que V.M. houvera por bem nomear-
questão.
me para governador das armas desta província, principiou o partido revolu-
Lino Coutínho apresentou um diagnóstico diferente: "Mil e uma vezes
cionário a laborar contra a Real vontade de V. Majestade, e conseguiu fazer
tenho dito os meus sentimentos acerca da nomeação do brigadeiro Madeira
na opinião pública um abalo tão grande, que abertamente se dizia que o
para o governo das armas na Bahia [...]. Como poderiam os povos querer um
governo das armas não me seria entregue; que o brigadeiro Manuel Pedro de homem que foi contrário à Constituição no dia 10 de fevereiro, que levou o
Freitas Guimarães, que então governava as armas, continuaria no seu exercí- seu batalhão para a parte do despotismo e que se mostrou o mais inconstitu-
cio, e esta desobediência era sempre acompanhada de grandes protestos de cional, vendo-se por fim obrigado a capitular com as tropas que apadrinha-
adesão a V. Majestade, c ao soberano Congresso". vam a causa da liberdade? Este homem é que foi feito brigadeiro, e governa-
Madeira relatava, mais à frente: "Logo que recebi no dia 15a carta régia dor das armas, é que é nomeado para deitar abaixo o brigadeiro Freitas, que
de 9 de dezembro do ano passado a comuniquei ao governo provisório, ao plantou a Constituição na Bahia c que finalmente é o mimo da província" 8.
general interino e à Câmara. O governo mostrou-se indiferente ao princípio António Carlos e Luís Paulino pronunciaram-se no mesmo sentido,
neste negócio; o general disse-mc que duvidava de entregar-me o comando, destacando que, na Comissão sobre o Brasil, da qual faziam parte, já se
porque V. Majestade não lhe havia participado a escolha que de mirn fizera e haviam manifestado contra a nomeação de Madeira. O baiano, porém, dizia:
a Câmara não se reuniu no dia 16 em que lhe mandei a apresentar régia para "Lembrava-me de um homem, de um velho marechal, o marechal Accioli.
a transladar, c registrar nos seus competentes livros, segundo manda o [...]. Desta forma evitava-se a concorrência entre Manuel Pedro e Madeira,
regulamento de 1678"Ú6. cuja graduação era menor, ao menos na antiguidade"1'9. Portanto, Luís
O missivista teria, então, se dirigido ao governo provisório, indagado
sobre o seu reconhecimento como general da província e reunido cm sua casa
Ibidem.
Ibidem.
Jbidem, sessão de 27 de abril de 1822, Ibidem.
Ibidem, sessão de 30 de abril de 1822.
160 MERCADO INTEGRADO E o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS MERCADO INTEGRADO E o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS 161

Paulino era contrário à nomeação de Madeira, mas não apoiava a manuten- honra conduzam estes nossos ilustres colegas a excessos que cumpre de
ção de Manuel Pedro no comando das armas. E deixava claro que nada antemão evitar"71.
justificava a rebelião cm oposição às autoridades constituídas. O deputado paulista referia-se à possibilidade de os dois baianos se
Endossando a opinião dos anteriores quanto à indicação de Madeira, desafiarem cm duelo, apesar da proibição legal.
Borges de Barros propôs que o assunto não fosse remetido ao governo, pois As Cortes concluíram pela não-interferência no assunto, pois as agressões
foi este "quem começou o rnal nomeando o general", c que se resolvesse a c os desafios haviam ocorrido fora das sessões c fora do edifício onde estas
questão no Congresso. eram realizadas. Como diria António Carlos, qualquer ingerência seria
Dos parlamentares de Portugal, o integracionista Ferreira de Moura, "entrar nas razões particulares dos homens".
apesar de condenar a atitude dos revoltosos, concordou que a matéria cabia O episódio merece destaque porque, apesar de todas as sérias discordân-
ao Legislativo e propôs que a Comissão sobre o Brasil cuidasse do assunto, cías ocorridas durante os trabalhos das Cortes, nenhuma outra culminou em
municiando-se de maiores informações. Não obteve, porém, o apoio dos enfrentamento físico. E de se notar ainda que ocorreu entre dois deputados
outros deputados de Portugal. Mediante votação, optou-se por remeter o da mesma província do Brasil e não entre representantes de reinos ou
ofício de Madeira ao governo, aguardando a sua decisão. províncias diferentes. Talvez se possa pensar num envolvimento regional
Cipriano Barata não se manifestou durante a discussão, mas ao final da muito intenso, bem como no "patriotismo" baiano em uma de suas manifes-
sessão descntcndeu-se seriamente com Luís Paulino. O relato do episódio é tações mais exacerbadas.
feito por Fernandes Pinheiro em suas memórias: "Scguiu-sc, na mesma A situação da Bahia ocuparia, ainda, as sessões de 21 e 22 de maio. Os
sessão, renhido debate, motivado pelas participações recebidas de guerra civil baianos apresentaram uma indicação, "depois assinada por muitos do Bra-
e derramamento de sangue na Bahia; cuja discussão ficou assim adiada. Esta sil", propondo "que se mande ao governo sustar o ajuste que tem anunciado
questão trouxe cxaltamcnto de ânimo, e por amor dela dcu-se a lamentável a Junta da Fazenda e Marinha, de afrctamento de vasos para transporte de
ocorrência de correr sangue no mesmo palácio das Cortes. Passando o tropas para aquela província"72.
deputado da Bahia Cipriano Barata de Almeida por um dos corredores, em A decisão do governo estava tomada e atendia aos pedidos de Madeira.
que se achava o marechal Luís Paulino, deputado pela mesma província, Durante aqueles dois dias renovaram-se todos os argumentos para que os
falando cm um círculo contra o brigadeiro que tinha recusado entregar o deputados das Cortes se pronunciassem contra o envio de tropas. Relem-
braram-se os exemplos de Pernambuco e Puo de Janeiro, ciamou-se pela au-
comando ao general Madeira, nomeado pelas cortes; rompeu aquele em
tonomia das províncias e alertou-se: "Para não tct colónias não bastavam
maltratar ao referido marechal com palavras violentas e agressivas, do que
resultou desafiarem-se ambos. Refere o mesmo marechal que Barata atraiçoa- palavras".
damente o empurrara, fazendo-lhe uma brecha sobre a sobrancelha c fcrin- Lino Coutinho, para quem "facciosos" manifestavam-se em diversos
pontos do Brasil, chegou a propor que "o governo seja habilitado para
do-o gravemente. Divulgou-se logo o fato com grande escândalo, o que
mandar toda a força que puder mandar para a América; porém que ela deve
muito me magoou por ter-se sobretudo passado esse triste acontecimento
ser retirada dos diversos pontos, e reunida cm um só, que neste deve juntar-
entre deputados brasileiros, sobre os quais, em razão das rivalidades c
se-lhe alguma força marítima para que se possa acudir onde os facciosos,
exaltação do momento, todos têm a vista atenta"70.
apoiados nos pretos e nos mulatos, pretenderem inquietar os cidadãos
As consequências da briga não parariam aí, sendo gradativãmente regis-
pacíficos, perturbar a ordem c perverter os sentimentos da mais sincera
tradas pelo Diário das Cortes. Inicialmente, ambos pediram afastamento:
união, que é o sentimento geral de todo o Brasil"73.
Cipriano Barata cm 4 de maio, por quinze dias, para "uso de remédios", c
Ao final da sessão do dia 22 de maio, porém, a indicação dos baianos foi
Luís Paulino no dia 6, em razão de uma "moléstia".
recusada, e no dia seguinte 33 deputados do Brasil protestavam pelo voto
Em 10 de maio, Feijó pedia providências do Congresso, pois "nem se
pode já ocultar o fato que a inconsideração produziu entre os deputados Srs.
Luíz Paulino c Cipriano Barata". E afirmava: "Eu temo que falsas ideias de
71 Diário das Cortes Constituintes, sessão de 10 de maio de 1822.
72 Ibidem, sessão de 21 de maio de 1822.
71 Ibidem.
70 Pinheiro, José Fcliciano Fernandes. Memórias, cit., p. 25-6.
1.62 MERCADO INTEGRADO E o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS MERCADO INTEGRADO E o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS 163

contra a decisão. Houve deputados do Brasil que votaram a favor da maioria, passar a ser abordada diretamentc. Em junho, a Junta de Govctno da Bahia
como D. Romualdo, do Pará, Bcckman, do Maranhão c Lemos Brandão, do escrevia às Cortes que "era um monstro em política a criação de dois centros
Rio de Janeiro. À cxceção deste último, os outros, assim como Bclford, do de governo em um só Império; era um desejo mal coberto de semear a cizânia
Maranhão, já não haviam assinado a indicação proposta pelos deputados da e gerar divisões entre portugueses dos dois hemisférios: acostumar os portu-
Bailia. gueses do Brasil a nada ter de comum com os portugueses da Europa, em
A sessão terminou com um depoimento contundente de Borges de calçar a esrrada para uma projctada cm fácíl separação das duas partes do
Barros: "Eu me submeto a esta decisão; mas scja-mc lícito dizer que no Império, desmentir vergonhosamente a união, que cl-rci mesmo fizera dos
estado atual de agitação que existe no Brasil qualquer deliberação arrebatada três reinos, quando ergueu o Brasil a essa categoria"70.
é perigosa; que esta me faz prever males, aos quais não podendo eu obstar, de Na Bahia, portanto, a questão estava longe do consenso. Mas seus
hoje ern diante a minha presença no Congresso é forçoso efeito de obediên- deputados no Congresso penderiam para o lado do programa paulista, como
cia ao que está sancionado; é um sacrifício feito ao triste e muito penoso veremos, nos debates que se seguiram.
cargo" de deputado, que infelizmente nie foi imposto"7'1. A sessão de 23 de maio terminava, porém, com uma deliberação impor-
Esses acontecimentos parecem ter sido fundamentais para a definição da tante. Uma indicação — assinada por vários deputados de Portugal e por
bancada baiana. De seus deputados vieram, crn outros momentos, as defesas João Ferreira da Silva, Araújo Lirna, Zcferino dos Santos, bispo do Pará,
da autonomia das juntas provisórias e da autonomia do Judiciário nas Almeida c Castro e Assis Barbosa, do Brasil — solicitava prazo para o
províncias. Chegaram mesmo a expressar uma desconfiança profunda quan- término da Constituição crn 14 de novembro e nomeação de uma "comissão
to ao governo do Rio de Janeiro. composta dos senhores deputados do Brasil, que sem perda de tempo
Quanto aos deputados paulistas, como vimos, o conjunto das discussões apresente as adições e alterações, que julgar necessárias, para que a Constitui-
sobre as relações comerciais e a decisão de D. Pedro de ficar no Brasil haviam ção portuguesa possa fazer a felicidade de ambos os hemisférios"77.
polarizado as atenções entre os governos de Lisboa e do Rio de Janeiro. A Após a decisão traumática de intervenção na província da Bahia, mais
perspicaz proposta de Feijó procurava abrir espaço para a escolha entre os uma vez formava-se urna comissão com o objetivo de elaborar propostas para
dois pólos, buscando evitar a intervenção armada. A decisão de enviar tropas a organização do reino do Brasil. Estas, agora, deveriam transformar-se em
à Bahia confirmava os prognósticos e empurrava os parlamentares da Bahia um ato adicional à Constituição e seriam discutidas somenre em junho.
para um dos lados.
Nesse mesmo mês de maio, o jornal baiano O Cowf/ftí ao ;w/publ içava uma A integração nacional no Império Federativo
carta dos deputados da Bahia consultando a Câmara da cidade sobre os
seguintes pontos: "1) Se convém à província da Bailia que haja no Brasil uma As modificações importantes observadas nas Cortes, durante o período
delegação do Poder Executivo para facilitar o recurso necessário aos povos em questão, ocorreram cm razão de dois fatores: o ingresso da bancada
desse reino; 2) Sc lhe convém que haja duas delegações em diferentes pontos paulista, cm fevereiro de 1822, e a norícia de que D. Pedro havia decidido
do Brasil para o mesmo fim; 3) Sc llie convém que o Poder Executivo resida só ficar no Brasil, recebida durante o mês de abril. Esses novos elementos
em el-rei, delegando este a cada junta governativa de cada província a parte do alteraram, a relação de forças entre os diversos grupos dentro do Congresso c
mesmo Poder que necessária for para a pronta execução das leis c recurso dos o conteúdo das discussões sobre a organização nacional do Estado português.
povos, como acontecia antigamente com os capitães-gcnerais; 4} Finalmente, O s paulist^s_estrea£arn cm Lisboa defendendo intransigentemente a auto-
não convindo os três precedentes arbítrios, qual seja aquele que julga a nomia das provínciasno Judiciário e cerraram fileiras com os deputados cio
província mais conveniente ou útil ao seu bom regime e administração" 75 . Nordeste, que já realizavam essa defesa desde o ano anterior. Para tanto,
A carta fora expedida depois da chegada dos paulistas e após a questão sustentaram que o poder de suspensão dos magistrados, antes reservado ao
monarca, poderia ser transferido a autoridades locais. E extraíam dessa defesa

74 Ibidem, sessão de 22 de maio de 1822.


75 O Constitucional, n." l1!, 11 de maio de 1822, citado por Nizza, Movimento Constitucio- Citado por Varnhagen, AdoEíb. Op. cit., p. 97.
nal..., cit., p. 84. Diário daí Cortes Constituintes, sessão de 23 de maio de 1822.
164 MERCADO INTEGRADO E o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS MERCADO INTEGRADO E o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS 165

um princípio geral: a união da nação seria possívcí a partir da união de dois São Paulo cm razão dos termos que utilizara no tratamento às decisões das
poderes; o terceiro, ou parte dele, poderia ser exercido por delegados. Estava Cortes. Em ambos os casos, temía-se que a nova proposta fortalecesse o
aí implícita a ideia de que seria viável a transferência do poder real sem príncipe c o governo do Rio de Janeiro.
ameaçar a unidade da nação. O novo projeto constituiu-se, então, em uma tentativa de acordo. Nele
Durante os debates de fevereiro, essa posição dos deputados de São Paulo procurou-se contemplar o Sul e o Norte do Brasil e apontou-sc para a
associou-se ao federalismo dos baianos, que passariam a se referir às provín- integração dos interesses económicos dos dois reinos, tal como propunha o
cias do Brasil como unidades politicamente autónomas, merecendo, ate grupo moderado de Portugal. Os integracionistas estavam excluídos deste
mesmo, o tratamento de "reinos" no âmbito da monarquia lusa. Os paulistas acordo, uma vez que se tratava de rever a proposta de setembro de 1821,
completavam essa ideia ressaltando as diferenças entre os princípios que elaborada segundo os seus princípios.
regem um corpo homogéneo e os que devem unir um corpo composto de No entanto, o novo caminho para a integração da nação, ou seja, a
partes heterogéneas. O Congresso de Lisboa deveria bascar-sc nessa segunda suposta complementaridade dos interesses económicos, mostrou-se também
categoria de princípios, tentando manter a união dos povos de Portugal c do inviável, pois não conseguiu o acordo entre as diversas partes do Congresso.
Brasil, que estava a ponto de se desfazer. A proposra pombalina de Borges Carneiro, na qual o Estado se constituía no
A união da nação portuguesa, então, só poderia ocorrer a partir da ação maior objetivo da economia, conseguiu unir paulistas, baianos e pernambu-
política. Esta liga seria a única possível para aqueles corpos heterogéneos c canos na defesa do lívre-comércio e da abertura dos portos.
evitaria os riscos da desagregação do Império. E, completavam, naquele Ressalte-se, porém, que, apesar de defensores da liberdade de comércio,
momento essa ação se assemelharia a um milagre. António Carlos e Líno Coudnho erarnparii^dD^djLdgfgsiuJC-mjircado para.,/
O programa feito peja Junta de São Paulo, assim como o adendo rejvindU g_dcsenvQlvimento_industrÍal no Brasil. Eles também reservavam um papel
cando a presença de D. Pedro no Rio de Janeiro, foram apresentados ao importante para o Estado, mas sua preocupação era a de_|orrn.ar_as_bas.es_para
plenário quando essãs"ideias"já"havia"m"sido expressas. O Programa comple- o^crcscirnento da produção no reino do BrasiL^AJnda que unido jig_ de
taria os termos já enunciados: o poder real deveria ser transferido ao prínci- Portugal, este reino deveria desenvoíver-se de forma autónoma. Porérn,
pe, que espelharia a unidade do reino do Brasil, c a arte da política o soldaria distanciando-se da concepção integradora de Borges Carneiro, não avança-
ao de Portugal. vam nenhuma medida que pudesse conferir unidade ou complementaridade
O texto de São Paulo esclarecia como se daria a união entre os dois reinos. económica entre as diferentes partes do Brasil.
O Legislativo, composto paritariamente por deputados de ambos os lados, e A decisão de D. Pedro de ficar no Brasil evidenciou o desgaste de mais
o Executivo, exercido pela família de Bragança, manteriam os laços entre as essa tentativa de integração da nação portuguesa. O discurso c as propostas
partes da Monarquia. No entanto, como as diferenças entre as províncias feitas por Feijó apontavam, então, para uma única possibilidade: a nação só
brasileiras já haviam sido reconhecidas, ficava aberto de que modo seria poderia permanecer unida por meio da negociação entre as suas diversas
realizada a unidade no reino do Brasil. partes. As províncias deveriam ser reconhecidas como unidades autónomas
No início de março, o Programa de São Paulo ganharia força com as capazes de optar pela sua inclusão na nação portuguesa. Feijó reiterava as
notícias vindas do Rio de Janeiro. Mais do que propostas para as Cortes, ele ideias já apresentadas por António Carlos: nação c pacto e se faz na política.
expressaria, a partir de então, a articulação de setores importantes nas Nação é Estado.
províncias do Sul do Brasil em torno do príncipe regente, exigindo a sua Contudo, o discurso de Feijó acrescentou ao Programa de São Paulo
presença no Reino. Além do já conhecido apoio da Junta de São Paulo, aquele aspecto que lhe faltava: a definição das relações internas ao reino do
apareciam adesões declaradas cm Minas Gerais c Rio de Janeiro. Brasil. Defendendo a autonomia provincial, ele tornava o governo do Río de
Como resposta a essa articulação, o Congresso formou uma comissão Janeiro mais atraente para as províncias do Nordeste do que o governo de
para elaborar uma nova proposta de organização política para o Brasil. No Lisboa, tal como este se apresentava até o momento. O federalismo baiano
entanto, resistiram à sua formação os deputados da Bahia e os intcgracionis- passaria a se combinar com esta concepção.
tas de Portugal. Os primeiros, expressando as desconfianças quanto à pre- A decisão do envio de tropas para a Bahia separou definitivamente a
ponderância do Sul do Brasil sobre o Norte, a partir da situação criada no bancada dessa província dos deputados de Portugal. Diante da polarização
RJo de Janeiro. E os últimos, por defenderem a imediata punição da Junta de entre os governos de Lisboa e Rio de Janeiro, os representantes baianos
i 66 MERCADO INTEGRADO E o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS MERCADO INTEGRADO E o IMPÉRIO FEDERATIVO DOS PAULISTAS 167

passariam a optar pelo segundo. E a partir do final de maio, como veremos, feriam para o príncipe a capacidade de manter a unidade, e as províncias
a maior parte dos deputados da Bahia atuaria juntamente corn os de São teriam com a capital do Reino as "relações mais animadas" antes reservadas à
Paulo, defendendo também o seu programa. metrópole europeia.
A nação/Estado dos PJ^iljstas, na verdade, poderia comportar todos os De acordo com oJ/Vojcto paulista, o príncipe regente, delegado de parte
'..^'interesses regionais representados em Lisboa. A integração dos "corpos do poder real, deveria comandar um "centro de força" que unisse adminis-
^ ./..heterogéneos" ficaria por conta do próprio Estado. E para realizar essa trativamente as províncias do Reino c pudesse defendê-las. Deveria, tam-
(f^ 'função no reino do Brasil era indispensável a autoridade do príncipe. bém, implementar uma série de medidas que educassem a população do
Retomava-se, aqui, o projeto de D. Rodrigo de Sousa Coutínho. A Brasil em iguais "usos e costumes".
proposta de São Paulo guardava importantes semelhanças com a ideia do O Programa paulista acrescentava uni conceito ao Projeto de D. Rodrigo:
"poderoso império" luso-brasileiro acalentada pela elite ilustrada desde o o de nação. A unidade das províncias da América passaria, então, a ser
final do século XVIII. associada à definição nacional, partindo do pressuposto de que a nação,
Vejamos as semelhanças entre os projetos de D. Rodrigo e da Junta de portuguesa ou brasileira, não existia c era necessário formá-la. Ao Estado
São Paulo. O "poderoso império" do primeiro, elaborado a partir do Progra- estava reservada tal tarefa, protegendo a economia c o território e educando a
ma de Reformas de 1798, como vimos no Capítulo 2, era uma proposta de população, assim como deveria abarcar todos os representantes dos poderes
/v modernizaçãcPcIÕ Estado português e visava privilegiar os domínios da provinciais.
América. As capitanias seriam transformadas cm províncias sujeitas a urn No final do século XVIII pensava-se em "centros de força" no território
mesmo sistema administrativo, a iguais "usos e costumes", e continuariam a brasileiro c na ligação das províncias com a metrópole europeia. Agora, o
ter ligações "mais animadas com a metrópole" do que entre si. Príncipe representaria a unidade. Ligada ao rei e à monarquia lusa, tratava-
Partia-sc da ideia de que o Estado deveria ser o principal agente, e se, ainda, da unidade da nação portuguesa. Mas, como a nação era produto
também o objetivo, das relações económicas, propondo a integração e a da política c não existia independentemente de um pacto social, o mesmo
complementaridade dos interesses económicos. E, nesse aspecto, as ideias de projeto poderia ser usado para a confecção de um império exclusivamente
D. Rodrigo estavam próximas das defendidas nas Cortes por Borges Carnei- brasileiro. Mais importante que saber se a nação era portuguesa ou brasileira
ro, deputado de Portugal. seria assegurar a existência de um representante da Monarquia — a metró-
Mas, assim como António Carlos, o Programa de Reformas de 1798 pole de outros tempos — no interior do território brasileiro._A unidade dos
propunha a formação dê "centros de força" nas possessões da América, que "Ç9IP_P_s_hçterpgêjicos^" ^ó_poder]a acontecer, desta fornia:._so,b__a_vigÍjância do
empreendessem a centralização administrativa e a defesa do território. Para Estado perspnificaclo_no príncipe. , ^ò
que fosse realizada a pretendida unificação, apregoava a necessidade de uma Essas eram as djrctrizes do "império federativo" paulista, gcstadas, na )!)
reforma fiscal, melhor gerência da Justiça, organização de um exército no verdade, desde fins do século XVIII pela elÍte.luso-brasifeir^A^s^rne|liavarn- ^v
Brasil c a transformação das capitanias em unidades provinciais. E, também se às ideias dos "ingleses^da América" c ao império britânico do início do 31'
da mesma forma que os paulistas, a proposta de D. Rodrigo buscava século XIX, quando se referiam à autonomia das partes. Porém, acrescenta-
assegurar, com essas medidas, alguma identidade aos habitantes do "genérico vam-se-lhes a proposta da formação de um reino nas ex-colônías, que
Brasil"78. interiorizava o antigo controle mctropoJitancK Para assegurar esse projeto, L
No Programa^de.Reformas, na verdade, D. Rodrigo já pensava cm porém, era de fundamental importância defender a autonomia provincial ,rr
incorporar os mecanismos metropolitanos às possessões portuguesas da como princípio e dialogar com os poderes locais já constituídos no reino do
América. Um passo importante nesse sentido foi dado em 1808, com a Brasil.
transferência da Corte, rnas a nova estrutura do Estado português, que O federalismo dos baianos fora contemplado nas formulações paulistas
contemplava csce objetivo, foi consagrada com o Reino Unido, cm 1815. sobre o império, que era federativo. Assim, como veremos, durante os
Os paulistas nada mais faziam do que defender o mesmo projeto. Trans- últimos debates em Lisboa as bancadas de São Paulo e Bahia passariam a j
atuar conjuntamcnte.

ApiteJ Lyia, Maria de Lourdes Viana. Op. cie., p. 68-83-


5
O CONTORNO FINAL

Proposta paulista: último projeto para a integração nacional

V_/ mês de rnaio terminava com mais algumas notícias preocu-


pantes sobre o Brasil. No dia 28 regi s cravam-se dois ofícios do ministro e
secretário de Estado dos Negócios da Guerra no Brasil. Neles eram relatados
os acontecimentos de 3 a 15 de fevereiro sobre o embarque e regresso da
divisão auxiliadora para Portugal e a portaria de D. Pedro dirigida à Junta do
governo de Pernambuco, participando-lhe sua firme decisão de impedir o
desembarque da tropa no Rio de Janeiro.
Ainda na mesma sessão, foram lidas novas cartas do príncipe ao pai
redigidas cm março, notificando: a devolução da divisão auxiliadora; o
pronunciamento do representante de Minas Gerais em que solicitava sua
permanência no Rio de Janeiro, exigia a mesma forma de governo que havia
em São Paulo e declarava que "Minas não manda seus deputados às Cortes
sem saber a decisão de tudo, e que seja qual for a decisão sobre minha
retirada, ela sempre se oporá a que eu regresse a Portugal, custe-lhe o que
custar"; a exigência de constituição de um Conselho de Estado feita pelas três
províncias do Sul à qual ele não pode deixar de atender e do qual José
Bonifácio passava a fazer parte1.
Os termos expressos pelo representante do governo de Minas Gerais ao

1 Diário das Cortes Constituintes, sessão de 28 de maio de 1822.


169
"

170 O CONTORNO FINAL O CONTORNO FINAL 171

príncipe regente eram tão fortes quanto os utilizados pela Junta de São neas, e opostas, como são Portugal c Brasil, há necessariamente duas coisas
Paulo. Ele se referia à proposta das Cortes de 29 de setembro como a de "um muito distintas, que merecem consideração, e duas classes de leis que se não
sistema desorganizador", pois, "dividindo-nos, e estabelecendo quatro auto- podern confundir sem o maior abuso, c risco"6.
ridades independentes umas das outras, que de necessidade se devem consi- Estruturados em quinze itens, os artigos adicionais à Constituição Portu-
derar em uma luta, pela independência da sua criação [...] donde resultará guesa tinham a marca da representação de São Paulo, pois definiam, nos seus
uma guerra intestína entre todas elas"2. itens l a 9, respectivamente: que haveria "no reino do Brasil e no de Portugal e
Algarves
/- Ao defender a permanência de D. Pedro no Brasil, reclamava um ccntro\m de união das províncias. A oposiçãodoisdas
Congressos,
Cortes era um emexplicada:
assim cada reino";l "o Congresso brasiiiensc ajun-
tar-se-ia na capital, onde ora reside o regente do reino do Brasil, enquanto não
"Consideram o Brasil recolonizado e por isso indigno de possuir em seu seio se funda no centro daquele uma nova capital, c começará as suas sessões no
o herdeiro do trono". E a isso contestava: "Sc a nação portuguesa é livre c meado de janeiro"; "as províncias da Ásia e África portuguesas declararão a que
^f independente, e se forma dos portugueses de ambos os hemisférios, como • reino se querem incorporar"; os Congressos de cada reino "legislarão sobre o
então podemos nós ser património de Portugal sern ofensa dos artigos 16 e / regimento interior e o que diga sobretudo especialmente às províncias"; "a
20 das Bases da Constituição?" 3 .' sanção das leis feitas nas Cortes especiais do reino do Brasil pertencerá ao
é As cartas foram, então, enviadas à Comissão dos Negócios Políticos do regente do dito reino nos casos em que pela Constituição houver lugar à dita
Brasil para que fossem apreciadas com urgência. sanção"; "sancionada e publicada a lei pelo regente [...] será provisoriamente
i executada"; "em Portugal os projetos de lei, depois de discutidos nas Cortes
Da Bahia também recebiam-se notícias alarmantes. Madeira endereçava
ao Congresso um abaixo-assinado numeroso crn oposição a Manuel Pedro especiais [...] serão revistos pelas Cortes gerais, depois de que, c da devida

f de Freitas Guimarães no cornando das armas da província, configurando


confronto entre duas alas não dispostas à conciliação'1.
sanção real [...] é que terão a validade de leis"; "na capital do império luso-
brasiliano, além das Cortes especiais do respectivo reino, se reunirão as Cortes
Nesse contexto, cm 17 de junho, António Carlos apresentava mais uma gerais de toda a nação, as quais serão compostas de cinquenta deputados
proposta de organização política para o Brasil, elaborada por uma comissão tirados das Cortes especiais dos dois reinos", paritariamcntc; "começarão as
formada unicamente por deputados das províncias brasileiras5 que visava, suas sessões um mês depois de findas as sessões das Cortes especiais" .
como havia sido decidido em 23 de maio, acelerar os trabalhos de finalização No décimo item definiam-se as atribuições das Cortes gerais: regulamen-
do texto constitucional, sistematizando as insatisfações pendentes entre os tar as relações comerciais; definir leis gerais para a defesa do Reino Unido;
deputados de ultramar. rever e discutir as leis passadas pelas Cortes especiais; decretar as responsabi-
Depois de ouvir os "Srs. deputados do Brasil, c ter examinado a represen- lidades de ministros dos dois reinos; fixar despesas c contas, anualmente;
tação da Câmara do Rio de Janeiro, e do vice-presidente do governo de regulamentar moeda; promover a observância da Constituição .
Minas Gerais, e mesmo as cartas da Junta Provisional de Pernambuco, No décimo primeiro item, estipulava-se que haveria "na capital do Brasil
convenceu-se que o sistema de unidade inteira dos dois reinos é quase de [...] uma delegação do Poder Executivo [...] confiada anualmente ao sucessor
absoluta impossibilidade; que a legislatura a respeito de certos negócios deve da coroa, e para o futuro a ele, ou a uma pessoa da casa reinante, c na sua falta
de necessidade ser diversa em cada um dos respectivos reinos; e que o Poder a uma regência"9.
Executivo não pode obrar no Brasil sem uma delegação permanente c ampla; Quanto às atribuições dessa delegação do Poder Executivo, estabelecia-se
e que todas as suas ramificações devem ser independentes imediatamente de nos itens 12 a 15 que: o príncipe herdeiro não seria "responsável pelos atos
Portugal. Na Constituição de um império composto de partes tão heterogê- de sua administração, pelos quais responderão tão-somcnte os ministros"; o
regente do Brasil não poderia: apresentar c nomear para os cargos de

Ibidem.
Ibidtm. Diário das Cortes Constituintes, sessão de 17 de jfinho de 1822.
Ibidetn.
Além de Amónio Carlos, Fernandes Pinheiro, Líno Coucinho, Vilela Barbosa c Araújo Ibidem.
Lima compunham a comissão. Ibidem.
172 O CONTORNO FINAL O CONTORNO FINAL 173

arcebispados e bispados, prover os lagares do Tribunal Supremo de Jusciça, Borges Carneiro não queria entrar na "odiosa discussão sobre quem perde
nomear agentes diplomáticos, conceder títulos em recompensa de serviços, mais" na eventual separação dos dois reinos, mas diria: "Perde o Brasil na
declarar guerra e fazer a paz, fazer rratados de aliança de subsídios ou de parte política, porque ainda está na infância, para viver por sí só precisava ter
comércio; haveria no Brasil um Supremo Tribunal de Justiça com as mesmas já criado c consolidado suas instituições políticas, o que não é obra de um dia
atribuições que o de Portugal; codos os outros magistrados seriam escolhidos [...] é preciso que o Brasil esteja encostado em alguém. [---]- É louca a
segundo as íeis pelo regente"1. pretensão da independência no estado atual. [...]. Não falarei pois agora da
A proposta começou a ser discutida cm 26 de junho e apesar de apresen- imensidade do terreno do Brasil, da desproporção da sua povoação livre com
tada corno consensual entre os deputados do Brasil, foi defendida somente a povoação escrava, nem de outras coisas que insuperavelmente o enfraque-
pelos seus autores. cem, c que somente se remedeiam continuando o Brasil unido a Portugal, c
Os deputados de Portugal, unanimemente, questionavam a legitimidade apoiado na consideração política que tem Portugal em toda a Europa"14.
do projeto, alegando que suas proposições contrariavam as Bases da Consti- Concluiu mostrando-se favorável à fixação de um centro de poder para as
tuição. províncias do Norte do Brasil c suspendia qualquer opinião sobre a existên-
Estavam em questão, nas duas concepções, diferentes formas de conceber cia de outras Cortes legislativas, embora isso lhe parecesse um passo na
a unidade da nação portuguesa. dircção do fracionamento da nação portuguesa.
O integracionista Moura argumentava, sintetizando a opinião dos demais Como já mencionado, dos deputados do Brasil, falaram os membros da
oradores de Portugal: "Nós levantamo-nos, senhores, para reformarmos Comissão. Fernandes Pinheiro foi o primeiro, dizendo: "O Brasil quer
nossas instituições: e nós somos uma nação composta com um grande formar parte de uma monarquia constitucional, e nenhum de nós conceberia
intervalo em meio. Uma parte desta nação disse: queremos reformar nossas a culpável ideia de aurorízar outra instituição, que tendesse a alterar sua f
instituições, e esta reforma comecemo-la por estabelecer a lei fundamental da unidade: mas nossos constituintes têm manifestado desejos de uma Consti- f
divisão dos poderes. Estabelecemos de pronto as bases desta lei fundamental, tuição que afiance a sua liberdade c; propriedade futuras". E, referindo-se à
e dissemos à outra parte da nação, que unha disso conhecimento; nós temos
C
soberania da nação: "Já ninguém duvida que do princípio de que a nação é a
estabelecido estas Bases; se quereis que se vos tornem comuns, jurai-as e soberana decorre uma verdade importantíssima, que o governo é feito para C
adotai-as. E que fez a outra parte da nação? Jurou-as efetívamente, adotou- os governados, e não os governados para o governo"15. «
as. [...]. Isto que ela adotou e jurou são as Bases da união. E que jurou e Para Vilela Barbosa, dessa matéria dependia a união de Brasil e Portugal,
adorou nestas cláusulas? Um só Congresso, uma só representação reunida que estava para "descoser-se". Assinara o projeto após vários debates e C
cm um só lugar, uma só Câmara, um só rei, um só império"11. consultas e estava convencido de que essa era a vontade dos povos do Brasil, c
Mais à frente, diria: "No primeiro dia em que se juntarem oitenta mas dispunha-se a ouvir sugestões.
deputados cm um ponto daquele país, será este dia que acabatá a união com E, como deputado do Rio de Janeiro, referíndo-se à argumentação
Portugal e não quero tomar sobre mim tão grande responsabilidade"'2. anterior feita por Borges Carneiro, ressaltava: "Censurou mais o mesmo
De Girão, outro deputado luso, viriam novos argumentos no mesmo nobre membro da Comissão, dizendo que um centro de Poder Executivo no
sentido: "Ora eis aqui urna bela união! O Brasil é muito grande, e muito rico, Rio de Janeiro prejudicaria os povos do Norte. A Comissão não diz tal
mas ninguém negará que os Estados Unidos ainda são mais, logo se assim se enquanto se não escolhe um ponto central para o assento do governo geral
unem às nações, corno diz o projeto, podemos unir-nos aos Estados Unidos: daquele reino"16.
lá tem um Congresso, cá temos outro, está a união feita. Igualmente nos No pronunciamento de Lino Coutinho, outro membro da comissão
podemos unir à Grã-Bretanha, à Espanha, à França, e até à Turquia"13. proponente, ressaltou sua visível mudança de postura, já que antes defendera
a autonomia completa das províncias e desconfiava do governo do Rio de

10 Ibidem.
1' Ibidem, sessão de 26 de junho de 1822. 14 Ilidem, sessão de 26 de junho de 1822.
12 Ibidem, sessão de 3 de julho de 1822. 15 Ibidem.
o Ibidem. 16 Ibidtm.
174 O CONTORNO FINAL O CONTORNO FINAL 175

Janeiro c das intenções dos deputados do Sul. Representante da Bahia, ele Assembleia legislativa? Não é formar as leis? O que é lei? Não é porventura a
expressava, agora, o alinhamento de sua bancada ao programa paulista: "O expressão da vontade gerai da nação? E como poderá ela conservar esta
Brasil é um reino bem como Portugal; ele é indivisível, c desgraçados circunstância que a distingue de todos os outros atos do governo, uma vez
daqueles que tentam contra a sua categoria c grandeza, desmembrando as que cia não seja feita ou pela nação inteira, ou pelos representantes juntos da
suas províncias paia aniquilar o que tão liberalmente foi concebido pelo mesma nação?"19.
imortal D.João VI"17. Já Fernandes Tomás tomava como pretexto afirmação de Cipriano
Finalmente, de António Carlos veio a resposta ao argumento central da Barata para questionar a identidade nacional dos representantes do Brasil:
oposição: "Isto não c mais que propor urna máquina composta, em vez de "Um dos ilustres preopínantcs disse 'eu hei de morrer pela minha pátria'.
uma máquina simples, cujo andamento não pode continuar [...]. Mas, diz- Eu não sabia que dentro do Congresso, onde estão cento c tantos deputa-
se, cria-sc novo Poder Executivo, cria-se outro Poder Legislativo; não se cria dos, tinha cada um diversa pátria. Assentava que havia uma pátria comum
tal, o Poder Executivo é um só, o Legislativo é um só, aqui, como nas Bases se para todos; uma vez que os ilustres deputados do Brasil considerem o Brasil
diz. O Poder Executivo sim se delega [...] ninguém o disputa, o projeto não sua pátria, corno querem persuadir-nos que desejam a união? Estabelecido
lhe tira este poder. [...]. O mesmo digo a respeito das Cortes, e isto forma urn este princípio, desde logo está estabelecido no seu coração o gérmen c
todo particular. Na Inglaterra também está em três corpos; em um corpo princípio indestrutível da desunião. Os Srs. deputados do Brasil partem de
cletivo, cm urn patriciato hereditário c em um indivíduo chamado rei; as um princípio falso absolutamente, e se não digam onde foram buscar essa
partes que concorrem são três, c as três juntas compõem um Poder Legislati- propriedade do Brasil? Donde lhe vem o dizerem, o Brasil é nosso? Por que
vo. Quanto ao que se acha sancionado a respeito das duas Câmaras, também nasceram lá? Também lá nasceram os índios. Por que descendem de
não vejo que seja oposto ao projeto"!S. portugueses? Lá estão muitos europeus que não nasceram lá e que o
* A "máquina composta" proposta pela comissão unia partes distintas de habitam; será destes também o Brasil? Que direito têm os senhores brasilei-
uma mesma nação. Como já havia dito o próprio António Carios, buscava a ros nascidos no Brasil para dizer aos europeus que se vão embora? O
união de "um corpo composto de partes heterogéneas", procurando viabili- mesmo direito têm os que lá estão. De quem é e de quem foí sempre o
zar, por meio de um centro de poder c de Cortes específicas no Brasil, a união Brasil? Da nação inteira"20.
que estava para "descoser-se". Entraria em discussão, a seguir, outro aspecto do Projeto que, para
O projeto foi rejeitado por partes, entre os dias 26 de junho e 6 de julho. muitos, estaria associado à continuidade do "despotismo": o lugar de regente
Primeiramente, negou-se a possibilidade de estabelecer Cortes específicas atribuído ao príncipe herdeiro. Em sua carta de 14 de março, D. Pedro
no reino do Brasil, prevalecendo a ídéia de que tal proposta contrariava as afirmava: "Os brasileiros c eu somos constitucionais, mas constitucionais
Bases constitucionais que definiam a reunião anual das Cortes gerais em que buscamos honrar o soberano por obrigação de súditos e para nos
Lisboa. honrarmos a nós; portanto, a raiva é só a essas facciosas Cortes, c não ao
Sobre esse aspecto da proposta, as teses integracionistas apareceram com sistema de Cortes deliberativas, que esse sistema nasce com o homem, que
todo o vigor. Castelo Branco afirmou: "Ou os portugueses da América não tem alma de servil e que aborrece o despotismo"21.
formam uma nação separada c distinta dos portugueses das outras partes do Agostinho José Freire, de Portugal, referindo-se a essa passagem, contes-
globo, então é sem dúvida que eles devern ter uma representação nacional taria: "Eis aqui pois, senhores, exarada com toda a clareza uma declaração de
distinta inteiramente da nossa; mas desde o momento que isto se estabeleceu, guerra, e a inimizade decidida ao sistema de Cortes constituintes! Eis aqui
eles vêm a ser realmente uma nação separada e distinta dos outros portugue- neste pequeno parágrafo lançada por terra a soberania do povo, c o sistema
ses. Os autores do projeto não querem tanto [...]. Como se pode pensar por que fomos chamados para representantes de uma nação livre!"22.
então em duas representações nacionais? Pode isto conceber-se por quem
reflctir na natureza das funções desta Assembleia? O que fica a cargo da
19 Ibidem, sessão de 4 cie julho de 1822.
:o Ibidatt, sessão de 1." de julho de 1822.
17 Ibidcm, sessão de 3 de julho de 1822. 31 Santos, Clemente Josc dos. Documentos, cit., p. 308.
18 Ibiíletn, sessão de 26 de junho de 1822.
176 O CONTORNO PINAL O CONTORNO FINAL 177

Sobrt: essa mesma questão, Castelo Branco chegaria a afirmar: "Ainda a príncipe herdeiro; pois que é este, e talvez o único, que na união tem mais
independência poderia íigar-se com a ccndência à liberdade constitucional e interesse"25.
portanto com certas modificações se poderiam combinar os dois partidos, Essa matéria foi votada por partes. Aprovou-sc de forma unânime o
mas unÍr-sc o despotismo com a liberdade é impossível; com o despotismo é estabelecimento de delegação ou delegações do Executivo no reino do Brasil.
que não pode jamais transigir-se"23. Em seguida foi votado se tal delegação caberia ao sucessor da Coroa.
Os defensores da proposta foram poucos. Procuraram demonstrar que a O resultado final contabilizou 87 votos contrários à delegação da regência
permanência da regência do reino do Brasil nas mãos da família real era a ao príncipe herdeiro e 29 favoráveis. Número expressivo de deputados do
melhor forma de preservar a unidade. Nas palavras de Pires Ferreira, de Brasil estava entre aqueles 87 votos, dcstacando-se Feijó, Lemos Brandão,
Pernambuco, o herdeiro "cuidará com rnais desvelo na união entre Portugal Segurado, Fagundes Varela, Luís Paulino c Grangtíro.
e Brasil" e nunca deixará que se separem seus próprios domínios. E curioso que o nome de Feíjó figurasse nessa lista, podcndo-se supor,
Na sessão de 5 de julho, porem, alguns dos deputados de Portugal talvez, que o paulista discordasse da delegação da regência ao príncipe sem a
recordaram propostas feitas anteriormente pelos deputados do Brasil. Borges existência de Cortes específicas para limitar o seu poder.
Carneiro foi o primeiro a fazé-lo, apresentando uma emenda que previa: "1) Aprovava-se, assim, a formação de um ou vários centros do Poder Execu-
em cada uma das províncias do Brasil, que se designar, e da África oriental, e tivo no Brasil e rejeitava-se um projeto que, apesar de alinhado com as
Ásia, havctá uma delegação do Poder Executivo; 2) esta delegação será propostas de São Paulo, era assinado por Líno Coutínho, da Bahia, Vilela
cometida a uma junca composta de cinco vogais, que o rei nomeará sobre Barbosa do Rio de Janeiro, e Araújo Lima, de Pernambuco, além de expres-
proposta ttíplicc do conselho de Estado, dos quais dois serão brasileiros, dois sar a consulta às diversas delegações do Brasil. Portanto, apesar da recusa dos
europeus e o presidente sorteado dentre um brasileiro e um europeu; 3) o reí deputados de Portugal, a proposta do ato adicional reflecia acordo encre
poderá livremente demicir qualquer dos ditos vogais; 4) a dita junta exercita- vários deputados das províncias brasileiras.
rá também o governo ordinário da província, sendo em tudo responsável às Embora afinado com o programa paulista, esse projeto introduzia novi-
Cortes, e ao rci"2li. dades que evidenciavam as articulações no Sul do Brasil. Propunha, por
Soares Franco, na mesma sessão, também lembrando propostas dos exemplo, a exiscêncía de Cortes para legislações específicas. Veremos que,
deputados do Brasíí, propôs dois centros executivos no reino, apontando durante o mesmo período no Brasil, já se encaminhava a partir do Rio de
para as grandes distâncias encre as províncias do Norte c do Sul. Janeiro a convocação de uma Constituinte, que passaria a ser, durante esses
António Carlos, então, pronuncíou-se para defender a proposta da Co- meses, uma reivindicação dos setorcs articulados cm rorno de D. Pedro.
missão: "Visto ter sido um dos autores deste ptojeto, falarei e levantarei a No projeto rejeitado, essas Cortes tratariam dos temas específicos de cada
voz, pela última vez, neste Congresso [...]. Apresentavam-se dois modos de reino, cuidando de suas organizações incernas. Como tais aspectos não foram
união: ou conservar a unidade plena, ou uma unidade mais frouxa. A mais abordados, supõe-se que do trabalho dessas Cortes c da sugerida Legislação
forte, vi que não se sustentava e a mais frouxa foi a que me pareceu possível. específica viria o tratamento das relações entre as províncias do Reino, delas
Ora este projeto é um todo conexo, de maneíta que o artigo 11 já mesmo não com a capital e com o governo de Lisboa.
pode ter lugar destruído o outro; apesar de que quando eu me lembrei que o Essa Constituinte brasileira, inadmissível para os deputados de Portugal,
herdeiro da Coroa era capaz de ser o lugar-ccnentc do pai, supus que ali havia era apresentada pelos integrantes da Comissão como simples divisão do
de haver um Poder Legislativo. Os poderes que se vão dar ao lugar-tenente Legislativo cm duas Câmaras. Para eles não se tratava de fracionar a voncade
são tão fortes, que sem cie ter junto a si um Poder Legislativo que o vigie, será geral e a nação, como alegou Castelo Branco, mas de viabilizar a união
talvez causa de muitas desordens [...]. E quanto ao filho segundo, apesar do nacional, permitindo que as legislações específicas cuidassem dos assuntos
nobre preopinante o elogiar, eu nunca íui deste parecer: a mesma razão que pontuais das partes da Monarquia. Porém as Cortes gerais deveriam sancio-
tenho para isco é a que me impedia a votar que fosse outra pessoa, a não ser o nar as leis aprovadas cm cada Assembleia.
Como se viu, o projeto mantinha o Brasil como reino e propunha a

23 Diário das Cortes Constituintes, sessão de 27 de jutiho de 1822.


34 Ibidetn, sessão de 5 de julho de 1822. Ibi&
178 O CONTORNO FINAL O CONTORNO FINAL 179

permanência do príncipe herdeiro na capital, em cidade a ser definida. últimas cartas, a Comissão notava a mudança de postura, interrogando-sc
Porém, havia nele outra novidade: colocavam-se em pé de igualdade os sobre os possíveis motivos: "Donde provém, pois, uma semelhante mudan-
centros de governo em Portugal e no Brasil diante dos domínios da África e ça? Ah! Não se deve supor ligeiramente que o coração humano faça de
da Ásia, abrindo a possibilidade de escolha na filiação. Configurava-se, repente grandes mudanças. O príncipe real é nestas últimas cartas o eco das
assim, a intenção de disputa entre os dois governos e deixavam-se entrever os expressões dos perversos, que conseguiram seduzir os seus poucos anos e a
r í propósitos de ligações autónomas entre as regiões brasileiras e os centros do sua inexperiência, e iludi-lo com as hipócritas aparências do bem público.
tráfico negreiro. [...]. Suas intenções são puras, e criminosos somente os que abusam de sua
confiança"29.
~ c^-
*Luta por uma nação indivisível: condenação da Junta de São Paulo Assim, procurava-se evitar conflitos com o príncipe, identificando um
grupo de criminosos à sua volta. Dessa forma, não se rompia com o governo
No início de julho, voltou-se finalmente à questão da Junta de São Paulo do Rio de Janeiro e tentava-se, ainda, submetê-lo à Lisboa.
c ao procedimento a tomar em relação a ela. Depois de apreciar as cartas de Nessa Comissão, os deputados do Brasil revelaram posições diferencia-
D. Pedro e a nova situação nas províncias do Sul, a Comissão dava parecer das. Gonçalves Ledo, Luís Paulino c Almeida e Castro assinaram o parecer c
sobre o procedimento da Junta de São Paulo, adiado desde março, propondo concordaram, portanto, com a punição ajunta de São Paulo.
sua condenação. Vergueiro, que também integrava o grupo, não assinou o texto e fez
Por 63 votos contra 47, aprovou-se nas Cortes "que os membros da Junta declaração de voto bastante contundente. Apelando para uma unidade que
de São Paulo que assinaram a representação de 24 de dezembro de 1821 atentasse para as especificidadcs do Brasil, chegou perto de defini-lo como
sejam processados e julgados", igual procedimento era adotado para com os um corpo nacional: "O Brasil conhece e altivamente contempla os elementos
quatro que haviam assinado o discurso do príncipe real cm 26 do mesmo de sua grandeza, conta urna população livre igual à de Portugal c em
mês, mas nos dois casos as sentenças só seriam exequíveis depois de aprova- sucessivo e notável crescimento, aprecia a centralidade de sua posição vendo
das pelas Cortes26. cm frente a África, a um lado a Europa, a outro a Ásia, a extensa linha da sua
Desapareciam pois as dúvidas da Comissão quanto ao tratamento a ser costa, o grande número c capacidade de seus portos, a ramificação de seus
dado aos paulistas e considerava-se que "asimplcs leitura" da representação a grandes e numerosos rios, a extensão e fertilidade de seu terreno, a riqueza de
D. Pedro "bastaria para ajuizar-se das criminosas intenções, meios e fins de seus produtos, a variedade de seus climas e magnitude de seu comércio, e
seus autores". Ou, ainda, que "o discurso dirigido a Sua Alteza Real por José deleita a sua imaginação com o futuro quadro de grandeza que lhe promete o
Bonifácio de Andrada e Silva e assinado por ele e por outros três da desenvolvimento de seus recursos. Nesse elevado conceito de si mesmo não
deputação [...] apresentada ao príncipe em 26 de janeiro passado [...] era pode curvar-se diante de Portugal, quer ser seu igual e tratado a par, como
criminoso na matéria c na forma"27. tem dito por muitas bocas. Nesta consideração de igualdade de que o Brasil
Aprovava-se, ainda, "que continue a estada do príncipe real no Brasil até não cede, a união só pode ser procurada pelo consentimento recíproco e
a publicação do ato adicional; e que entretanto fique S.A. governando, com fundada no interesse recíproco. O Brasil, convidado à união por multas
sujeição às Cortes, e a eí-reí, as províncias que acualmcnte governa; sendo analogias e antigos hábitos, conhece as grandes vantagens que de lá lhe
seus ministros ou secretários de Estado nomeados por el-rei; c todas as resultam para desejá-la cordialmente, contanto que não se degrade de sua
resoluções tomadas em conselho dos mesmos; e assinadas ou referendadas dignidade nem sacrifique seus interesses sem reciprocidade"30.
pelo secretário de Estado da repartição compete todas as decisões, e a A união com Portugal continuava sendo, no pronunciamento de Verguei-
correspondência oficial, ainda a que vier para as Cortes e para el-reí"28. ro, uma opção. O termo nação não aparecia, embora ele fizesse menção às
Quanto a D. Pedro, os termos eram mais complacentes. Ao analisar suas "muitas analogias" e "antigos hábitos" que aproximavam os dois reinos. Esses
vínculos, porém, não justificavam a união política se os "interesses do Brasil ,

Ihidetíi, sessão de 2 de julho de 1822.


Santos, Clemente José dos. Documentos, cit., v. I, p. 312. Somos, Clemente José dos. Documentos, cit., p. 315. „'
Diário das Cortes Constituintes, sessão de 2 cie jullio de 1822. Diário das Cortes Constituintes, sessão de 10 de junho de 1822.
180 O CONTORNO FINAL O CONTORNO FINAL

tomados em conjunto e associados ao seu potencial, não fossem respeitados. conspiração de criminosos, e permitiam que permanecesse no Rio de Janeiro
Ressaltava-se, dessa forma, a possibilidade de formação de um corpo homogé- are a publicação do Ato Adicional, no qual se estabelecia o firn da regência do
neo no Brasil, a despeito de a palavra nação não ter sido mencionada. príncipe no Brasil. Contudo, mesmo durante esse curto prazo que terminaria
Embora derrotada, a bancada paulista defendeu a Junta de sua província. com a publicação dessa leí, seu governo deveria estar totalmente submetido
Lembrou a ausência da representação de São Paulo quando o decreto de às Cortes e ao rei'.
setembro de 1821 fora aprovado, a compatibilidade entre as propostas da Associadas ao Ato Adicional e à derrora da Comissão dos deputados do
Junta e as Bases Constitucionais c, sobretudo, os riscos que as punições Brasil, tais determinações selavam o confronto aberto entre os governos de
aprovadas provocariam no Sul do Brasil. Teve apoio de Muniz Tavares, Luís Lisboa e do Rio de Janeiro. Em consequência, tornavam inócuas todas as
Paulíno c Lino Coutinho. Destacou-se, no entanto, a intervenção de Ci- medidas aprovadas pelas Cortes para as províncias do Sul do Brasil. Da
priano Barata, para quem eram lamentáveis a situação de minoria a que mesma forma, inviabilizavam qualquer defesa da unidade e da indivisibilida-
estavam resignados os deputados do Brasil c a falta de Uberdade dos repre- de da nação portuguesa.
sentantes da Bahia, em razão da intervenção em sua província. Na sessão de 10 de julho, Lisboa recebia novas informações do príncipe
Apelava para a unidade do Reino, pois "o Brasil sente sua influência c seu regente por meio de cartas ao rei, redigidas em 26 c 28 de abril. Na primeira,
poder, e não sofrerá nem leis metidas a força, nem ataques a sua dignidade", D. Pedro relatava sua visira a Minas Gerais c dizia: "Dou parre a Vossa
e, embora não concordasse com as atitudes c os termos utilizados pelos Majestade que tendo-se o governo de Minas Gerais querido se mostrar f
paulistas, chamava atenção para os efeitos que as medidas propostas causa- superior a mim e às Cortes, fui lá, e mandei convocar os eleitores para t
riam: "Esta ordem compromete o governo, que há de ver-se embaraçado por elegerem curro"34. Anexava também a proclamação aos mineiros concla-
todos os lados [...]. Não basta ter direito para fazer uma coisa, é preciso cer a mando-os à união. C
força para sustentar este direito"31. Na segunda carta, porém, expunha as opiniões que aprofundariam a f
Por fim, referia-se ao príncipe regente: "Estou persuadido que S.A. só ruptura com as Cortes: "Peço a V.M. que mande apresentar csra às Cortes
voltará por sua vontade, e não há meios para o forçar; suponhamos que o gerais, para que elas saibam que a opinião dos brasileiros, e a de todo o
mandam vir, ele díz: não quero! Que se lhe há de fazer? Eu não vejo remédio. homem sensato, que deseja a segurança e a integridade da Monarquia, é que
[...]. A S.A., sr. presidente, nada falta, ele tem soldados, tem marujos haja aqui Cortes gerais do Brasil, e particulares relativamente ao Reino
ingleses, franceses, americanos, dinheiro, e socorro de braço forte, e ainda Unido, para fazerem as nossas leis municipais. V.M., quando se ausentou
tem outros meios, que eu de propósito não explico"32. deste rico c fértil país, recomendou-me no seu real decreto de 22 de abril do
Havia aí insinuação sobre possíveis ligações de D. Pedro com o imperador ano próximo passado que tratasse os brasileiros como filhos; eu não só trato
da Áustria, que mais tarde seria explicitada. Essas supostas ligações, porém, como rais, mas também como amigos [...] quaisquer destas duas razoes me
não impediam que Cipriano Barata fosse a favor da entrega ao príncipe da obrigam a fazer-lhes as vontades razoáveis. Esta [de quererem Cortes como
regência do reino do Brasil, pois isso poderia "fazer brilhar o cetro portu- acima fica dito] não só é razoável, mas útil a ambos os hemisférios, e assim,
guês", consolidando a "união, paz c fraternidade dos brasileiros", c eliminan- ou as gerais nos concedem de bom grado as nossas particulares, ou então eu
do "a desconfiança que voga no reino do Brasil, de que o querem dividir [...] as convoco, a fim de me portar, não só como Vossa Majestade me recomen-
a fim de que, ficando sem nexo, possa ser facilmente dominado"33. dou, mas também como cenho buscado e alcançado ser, que é defensor dos
O mais radical dos deputados baianos defendia, pois, o Programa de São direitos natos de povos tão livres como os outros que os querem escravizar"35.
Paulo. Sem discussão, as cartas foram remetidas à Comissão dos Negócios
Apesar de tudo, decidia-se a punição da Junta de São Paulo. Outras Políticos do Brasil. Estava claro, porém, que o conflito com o príncipe
medidas complementares preservavam D. Pedro, considerado vítima da regente e com as províncias do Sul era irremediável e que, ralvcz, só se
resolvesse pela força.

31IbUem, sessão de 1." de julho tíc 1822.


31Ibidtm. 14Ibidmi, sessão de 10 de julho de 1822.
» Jbidem. " Ibidcm.
182 O CONTORNO FINAL O CONTORNO FINAL 183

A essa altura, os trabalhos da Constituinte chegavam ao fim. Noticiava-se levantou o problema da assinatura da Constituição: "Se o parecer ficar
cm 12 de julho que a Constituição estava pronta e que, a partir desse adiado e as desordens continuarem no Brasil, eu já declaro que não assino a
momento, era preciso criar as formas de concretizar sua aplicação. As Constituição c desde agora protesto que enquanto existir na Bahia um
discussões adquiriam, então, tom conclusivo. O tratamento dado às questões homem europeu de farda com baioneta ou espada, não assino a Constituição
do Brasil oscilava entre a minirruzação do conflito, pelos deputados de porque me julgo coacto c cm guerra"31'.
Portugal, c a impotência revelada de diversas formas pelos do Brasil. Todos Na sessão seguinte, a de 22 de julho, o deputado Gírão, de Portugal, fez
sabiam, porém, que não havia mais possibilidade de conciliação. avaliação bastante crítica: "Já disse na última sessão que nos era indecoroso
A tónica dos discursos imcgracionistas nesse período seria considerar o fingir que não sabíamos o que se passava no Rio de Janeiro, onde tudo
Sul do Brasil como perdido c buscar o reforço de adesão nas províncias do mudou até mesmo os uniformes dos soldados, que já não são portugueses,
Norte. Nesse sentido, a Bahia ainda era uma alternativa de manutenção do mas sim austríacos: belo indício da liberdade que há de ter o Brasil! Este
domínio do governo de Lisboa contra o do Rio de Janeiro. artigo é tão perigoso, que eu o comparo a uma mina atacada c pronta a voar
Em 20 de julho a questão foi colocada claramente. Retornava à pauta do debaixo do mais importante baluarte da única praça que possuímos livre de
Congresso o artigo 5 do Projcto 232 de 18 de março de 1822 sobre as contágio da rebeldia c unida a nós; eu vejo mesmo as tropas assediantes
relações com o Brasil, elaborado pela Comissão Especial. Apenas para preparadas ao assalto, empunhando a espada para o saque e para a degoíação.
lembrar, estabelecia que os governadores de armas das províncias ficavam Senhores, eu me explico: a praça é a Bahia, o baluarte o General Madeira, os
sujeitos às juntas provinciais, sendo membros nacos dela e com direito a voto assediantes são os facciosos do Brasil, e a mina bem se sabe o que é. Sancionar
.somente nos assuntos milicarcs. este artigo é o mesmo que cravar no seio da nação traidor punhal, temendo
A discussão sobre esse projeto estava suspensa desde o dia 2 de julho, fazê-!o cara a cara"37.
quando se decidiu pelo exame do Ato Adicional. Naquele momento, os António Carlos retornou à cena, como membro da comissão proponen-
integracionisEas, especialmente Fernandes Tomás, julgaram inútil prosseguir te: "Um manifesto chama um concramanifesto, declararam guerra ao
com o debate, pois desconfiavam de sua eficácia, alegando que as leis Brasil [...] seria covardia não responder ao cartel; mas antes de o fazer
determinadas pelas Cortes transformavam-se cm letra morta quando chega- examinarei o artigo. [...]. Diz o artigo que o governador de armas das
vam às províncias brasileiras. províncias fique sujeito às juntas provinciais, sendo porém membro nato
Por isso, passou-se ao exame da proposta do Ato Adicional elaborada pela das ditas juntas com voto nas matérias militares tão-somente. À Comissão
Comissão de deputados do Brasil. Agora, após a rejeição desse último projeto não escapou o perigo de concentrar em uma só mão todos os poderes, c a
c as medidas relativas à Junta de São Paulo, voltava-se ao Projeto de 18 de tendência que tem todo o poder humano a tiranizar, quando ele é excessi-
março. vo; não podia ignorar o quanto seria dolorosa a sujeição estabelecida no
A retornada da discussão a partir do citado artigo, porém, evidenciava os artigo ao pundonor militar, c ao bem ou mal entendido capricho; sabia
conflitos entre o General Madeira e a Junta da Bahia. Ao se discutir a mesmo que poderia parecer anomalia e até contradição com o governo
submissão dos governadores de armas às juncas, colocava-se a possibilidade representativo reunir poderes"38.
de limitar a ação das tropas enviadas à província e a ação do general. No entanto, segundo ele, a Comissão tranquilizou-se pensando que o
Luís Paulino foi o primeiro a se manifestar, exigindo urgência no trata- poder estaria nas mãos de um grupo e não de um só indivíduo, que a
mento da questão, pois, enquanto não se instalasse no Brasil a já aprovada participação pontual dos militares conteria os impulsos da corporação e que
delegação do Executivo, seriam necessárias algumas providências. Alencar, a divisão dos poderes entre as diversas juntas poria cada uma como vigilante
um dos deputados de Portugal, procurou minimizar a questão, argumentan- da outra.
do que Madeira já se havia desvinculado do seu cargo e a retomada do Finalmente, referiu-se o deputado paulista à situação da Bahia naquele
assunto poderia reavivar o conflito. Sc alguma medida fosse tomada cm
relação à Bailia, na opinião do deputado, todos os governos de armas do
Brasil deveriam ser mudados. Ibidcrn, sessão de 20 de julho de 1822.
Domingos da Conceição, Vilela Barbosa, Araújo Lima c António Carlos Ibidcm, sessão de 22 de julho cie 1822.
Ibidem.
exigiram discussão imediata. Cipriano Barata, porém, pela primeira vez
r
O CONTORNO FINAL 185
184 O CONTORNO FINAL

chega o tempo do cumprimento do contrato, vejo uma faita nas Cortes, que
momento: "Diz-se também, mudaram os tempos, seria desacerto não mudar
decerto nos dispensa dos efeitos do dito contrato4'.
a opinião; o Sul do Brasil quase que desconhece a autoridade do Congresso;
Depois de interrompido por alguns c de apelar para o desejo de união
para que é legislar para um país que não obedece? Pergunto eu, todo o Brasil
com Portugal ainda existente no Brasil, Cipriano Barata ressaltou: "Mas que
está na rncsma dissidência? Não por certo, o Norte está firme, e o Norte
efeito pode ter o meu discurso, quando os ilustres membros são mais de cem,
igualmente se queixa dos males que vai remediar este artigo. Mas este artigo
c os brasileiros trinta ou quarenta, que à exceção de poucos, os mais são tais
faria voar o importante baluarte da Bahia, disse urn ilustre prcopinante, não
c quais, e nada valem [,..]. A nação portuguesa, Sr. presidente, é formada
é mais tempo de brandura, a força, a força só, leões e cães de fila é que
pelos portugueses de ambos os hemisférios, e sendo evidente que o hemisfé-
devemos empregar para conservar o Brasil. De que panegíricos se não fazem
rio brasileiro é maior, rnais povoado c mais rico, é de absoluta necessidade
credores tais conciliadores, tão doces irmãos! Escutai, brasileiros, gratos
que o hemisfério europeu ceda, principalmente porque agora é que se está
reconhecimentos lhes deveis. Horror! Afronta! E somos portugueses todos. E
realizando o pacto social"'12.
o Brasil representado. Sou eu um dos representantes!"39
Apesar da reclamação, decidiu-se pela não-votação de sua emenda e o
Cípriano Barata pronunciou-se ern seguida. Julgava que o artigo 5
Congresso declarava-se, assim, contra qualquer forma de limite aos coman-
deveria ser todo reformado e propunha a seguinte emenda: "Que o coman-
dantes de divisão ou corpo do exército que o governo mandasse formar no
dante da força armada de cada uma das províncias fique inteiramente
Brasil. No dia seguinte, 23 de julho, vários deputados do Brasil declararam
subordinado à junta provincial ou administrativa, da qual porém será
voto favorável ao artigo: Vilela Barbosa, Borges de Barros, Gomes Ferrão,
consultado quando ocorrem negócios militares"40. Sua proposta, portanto,
Bclford, Sousa Moreira, Lourenço Rodrigues de Andrade, Castro e Silva,
excluía completamcnte a participação do comandante das armas nos go-
Ferreira da Silva, Alencar, Costa Cirnc, Grangeiro, Assis Barbosa e Fortuna-
vernos provinciais.
to Ramos43.
Para fundamentar sua opinião, recordou as posições que assumira nas
Na mesma sessão leu-se, ainda, o decreto que previa as providências já
Cortes: "Quando eu tomei assento neste soberano Congresso no dia 17 de
aprovadas para o Brasil, ou seja: permanência do príncipe regente até a
dezembro de 1821, apresentei uma moção em que reclamava os direitos do
publicação da Constituição, anulação dos decretos do Rio de Janeiro de 16
reino do Brasil, pela falta de observância do artigo 21 das bases da Constitui-
de fevereiro, formação do processo que sofreriam os membros da Junta de
ção [...]. Então se levantou uma tormenta de gritarias c argumentos, c de
São Paulo e dos quatro que haviam assinado o discurso de 26 de fevereiro.
ordem, ordern: e depois desta agitação deram alguns ilustres membros razões Emitiu-se, também, uma ordem para solicitar informações sobre a ausên-
para não ser admitida a moção; clamando que os princípios em que se
cia dos deputados de Minas Gerais. Notificou-se, nesse momento, que dois
fundava eram subversivos da essência da Constituição [...]. Desenvolveu-se a
deputados, um do Ceará c outro do Piauí, haviam-se dirigido para o Rio de
questão de que os deputados não eram das províncias, e sim da nação; foi Janeiro depois de eleitos e demoravam a embarcat para Lisboa, DecÍdiu-se,
neste dia que eu ouvi as proposições mais incompreensíveis; isto é, que as então, pela ampliação do pedido de informações sobre outras províncias
deputações de Portugal eram reais, c que as do Brasil poderiam ser virtuais ultramarinas. Os deputados eleitos que não tivessem assumido os seus
[...] que tanto vale uma representação ativa portuguesa, quanto outra passi- lugares no Congresso deveriam justificar a ausência.
va brasileira [...] que na política portuguesa havia também uma espécie de O aprofundamento da oposição entre os governos de Lisboa c do Rio de
mistério teológico que ordenava que os brasileiros deveriam acreditar que janeiro, portanto, levou à revisão de alguns acordos importantes entre os
tanto representam cem deputados europeus como vinte ou trinta brasileiros. deputados de Portugal c do Brasil, a serem comentados em seguida.
A tudo ísto fiz eu oposição [...]. Depois de passados alguns tempos, tratou-se É preciso relembrar a carta de D. Pedro em que ele esclarecia sua
de uma matéria que também pertencia ao Brasil, o ilustre membro o Sr. disposição de permanecer no Rio de Janeiro e convocar as Cortes específicas,
Castelo Branco citou como prova do que dizia aquelas promessas do Con-
gresso feitas ao Brasil no referido dia 19 de dezembro. Agora porém que
Ibldcm.
Ibirlem.
" Ilidem. Diário daí Cones Constituintes, sessão de 23 cie julho de 1822.
<° Ibidtm.
í l 86 O CONTORNO FINAL O CONTORNO FINAL l 8?

mesmo que isso contrariasse as decisões do Congresso de Lisboa. Para os ro, Lino Coutinho c Araújo Lima, indicando que os representantes de São
deputados de Portugal tornava-se fundamental, então, garantir alguma in- Paulo, Bahia e Pernambuco haviam abandonado os trabalhos da Comissão.
fluência sobre as províncias do Nordeste, onde poderiam disputar o apoio Propunha-se então: uma delegação do Poder Executivo no Brasil formada
com o príncipe regente. Buscando atingir esse objetivo, voltaram às posições por uma regência de sete membros escolhidos pelo rei; a indicação de nomes
originais: os comandantes das armas deveriam ser poderes paralelos às juntas para a regência durante o processo de eleição das juntas provinciais, contem-
provinciais c atuar como agentes do governo de Lisboa. Por isso, cm 20 de plando as províncias do Norte e do Sul; nomeação de três secretários de
jullio rcviram os acordos realizados cm 18 de março, nos quais estava contido Estado para os Negócios do Reino, Fazenda, Marinha e Guerra, Justiça c
o artigo referente aos poderes dos comandantes de armas. Eclesiástico, também escolhidos em lista tríplice indicada pelas juntas; cria-
Contudo, a revisão desse artigo evidenciava a intenção de intervenção ção de um Supremo Tribunal de Justiça no Brasil com as mesmas atribuições
armada, com base no controle das milícias nas províncias, e aprofundou o que o de Portugal e Algarves; impedimento aos regentes para apresentar
conflito com boa parte dos deputados do Brasil. Os representantes da Bahia nomes aos arcebispados c bispados, prover lugares do Tribunal Supremo de
c de São Paulo responderam a essa disposição como a uma declaração de Justiça, prover postos de tencnte-gcneral e superiores, nomear embaixadores,
guerra. No entanto, era impossível medir o grau de adesão à regência de D. cônsules e agentes diplomáticos, fazer tratados políticos e comerciais com os
Pedro nas províncias mais distantes do Rio de Janeiro, e a maior parte dos estrangeiros, declarar guerra ofensiva e fazer a paz, conceder títulos em
deputados do Brasil procurou retardar a sua opção entre os dois governos. recompensa de serviços ou alguma outra mercê'".
Identificando tal dilema, os deputados de Portugal passariam a acelerar os Em 7 de agosto discutiu-se a proposta. Girão, deputado de Portugal,
trabalhos constituintes, a fim de comprometer a maioria dos representantes definia a dúvida de seus conterrâneos: "Por que legislar para quem não quer
do Brasil com o texto constitucional. Assinaturas c juramentos ao pacto obedecer? É dar motivo para que a Europa se ria de nós"45. Chegavam
social realizado em Lisboa foram os últimos recursos para manter a união da notícias da adesão de Pernambuco ao governo do Rio de Janeiro, dizia o
"família portuguesa". deputado. Em sua opinião seria, então, mais correto esperar novas informa-
ções do Brasil, pois outra Constituinte já poderia estar lá reunida.
Ato de encerramento: assinatura da Constituição, Seguindo essa ordem de pensamento, Leite Lobo, também de Portugal,
ponderava: "Se houver alguma província que queira estar sujeira ao Poder
A partir do final de julho, as discussões dos deputados no Congresso Executivo propriamente tal, não lhe deve isto ser proibido"'"1.
tornaram-se inócuas. O impasse criado entre as decisões de D. Pedro c as Dos parlamentares do Brasil, falaram António Carlos, Martins Basto,
posições assumidas pela maioria dos constituintes evidenciava a inutilidade Luís Paulíno, Vilela Barbosa e o bispo do Pará. Nenhum deles concordava
de qualquer deliberação. Os debates seguiam formalmente, mas o índice de integralmente corn o projcto, embora alguns o tivessem defendido. António
ausências dos deputados do Brasil era muito grande c os pedidos de licença Carlos era contrário a ele, mantendo sua posição original quanto à atribuição
das atividades nas Cortes avolumavam-se. da regência ao príncipe herdeiro, e por isso não assinou. Enfatizava que a
A situação se definiria completarncnte quando, em 3 de junho, o príncipe descentralização administrativa era uma forma de possibilitar a unidade do
regente expediu o decreto que convocava uma Assembleia Constituinte no governo, pois "dela nascem a unidade nas medidas e a celeridade na execu-
Brasil. A notícia chegou aos parlamentares de Lisboa durante a sessão de 26 ção"'17. A unidade, porém, deveria dar-se no interior do Reino. Não haveria
de agosto. nenhuma contradição entre as eleições em âmbito provincial e a regência do
Em 2 de agosto a Comissão sobre os Negócios do Brasil apresentava nova príncipe, que, em sua opinião, deveria ser controlado por uma Assembleia
proposta de organização política, que precisava os termos do Ato Adicional à Legislativa.
Constituição. Tratava-se de readequação do projeto inicial, inspirado no
Programa de São Paulo e rejeitado na sessão de 6 de julho. Agora, procurava-
se atender à determinação estabelecida naquela data para que se formassem 44 Ibidetn, sessão de 2 de agosto de 1822,
45 Ibidem, sessão de 7 de agosto de 1822,
no Brasil delegações do Executivo não submetidas ao príncipe regente. O
4Í Ibidem.
novo texto era assinado por Martins Basto, Fortunato Ramos, Belford e 47 Ibidem.
Vilela Barbosa. Não havia a chancela de António Carlos, Fernandes Pinhei-
188 O CONTORNO FINAL O CONTORNO FINAL 189

Martins Basco lembrava que defendera a existência de urn governo cm os diversos partidos, e a atividadc da Bahia [...]. Proponho portanto que se
cada província submetido dítetamente à Lisboa, mas estava sacrificando essa excite a atenção do governo para mandar na presente ocasião conhecer dos
opinião em favor da vontade dos povos "manifestada eni todos os periódicos referidos fatos, e dar todas as providências que eles exigirem"'1''.
do Brasil", que cie não poderia "chamar facciosos", c também, cm "muitas Os discursos de Borges Carneiro e Fernandes Tomás apelaram para a
uniformes representações de várias corporações daquele rcino"*is. utilização da força. Aquele último, que cm outros tempos fora a favor do
Luís Pauííno também recordava sua trajetória. Em 18 de março assinara convencimento e chegara a aventar o reconhecimento de possível separação,
parecer que concedia dois ou três centros de poder ao Brasil, rnas fora agora afirmava: "O tempo da ilusão deve passar. Se uma província desobede-
convencido, posteriormente, de que a proposta de uma única regência no ce devc-se usar a força para impor a ordem"50.
Brasil daria unidade ao Reino e favoreceria as províncias não ligadas a O índice de ausências dos deputados do Brasil era, nesse momento, muito
Portugal pelo vínculo comercial dírcto. alto. O único dos presentes a se manifestai foi Borges de Barros, ameaçando
Vilela Barbosa se confessava convencido pela opinião das províncias, retirar-sc caso a discussão prosseguisse naquele tom. Alves do Rio, deputado
expressa em diversas cartas, favorável a um centro do Executivo no Brasil. de Portugal, notando a "pouca assistência dos srs. deputados de Pernambu-
Chegou a dizer que se cias quisessem a tirania deveriam tê-la. co" no Congresso, perguntava: "Onde estão? Quanto tempo há que não
E o bispo do Pará enfatizava a necessidade de um centro administrativo vêm? Qual a razão desta ausência?51".
no antigo "país do Amazonas", composto pelo Pará, Maranhão, Rio Grande A irritação quanto à ausência dos representantes do Brasil, sobretudo dos
do Norte, Mato Grosso e Goiás, pois essa área não seria contemplada por de Minas Gerais, que nunca haviam comparecido, manifestou-se em vários
nenhum centro que se criasse em outra região do Brasil cm virtude das discursos dos deputados de Portugal 52 .
longas distâncias entre as províncias do Reino. Entretanto, também se Ern 22 de agosto, Xavier Monteiro, de Portugal, apresentou emenda com
curvava à vontade expressa no Brasil. António Carlos respondeu-lhe suge- a finalidade de discriminar as províncias que haviam aderido ao chamado de
rindo que, caso aquelas províncias não quisessem subníctcr-se ao Rio de D. Pedro. Propunha que a Deputação Permanente "só tivesse lugar enquan-
Janeiro, melhor seria submeterem-se a Lisboa do que formar um centro de to as províncias ultramarinas se conservarem na sua totalidade fazendo parte
governo autónomo. do Reino Unido, e voluntária e pacificamente obedecerem às leis53".
As votações dos dias 7 e S levaram à aprovação de uma delegação do Em resposta, António Carlos aventou, pela primeira vez, a possibilidade
Executivo no Brasil, confiada à regência e composta por cinco membros de retirada das Cortes. Conforme sua fala, a ideia da Deputação Perma-
nomeados dirctarnente pelo rei, sern indicação das províncias. "Algumas" nente era manter a comunhão de interesses dos portugueses, que, "de
delas, se preferissem, poderiam ficar díretamente subordinadas a Lisboa. serem diversos em países, que a natureza tinha separado, só a arte tem
Dessa forma, procurava-se tolerar as autoridades do Sul c abrir espaço para o unido". Portanto, "se se adora a indicação deve adicionar-se a seguinte
reconhecimento do governo de Lisboa ao menos no Norte. condição: declarando-se vagos os lugares dos deputados das províncias
Em 12 de agosto Borges Carneiro apresentou indicação que, com base no dissidentes"5'1.
diagnóstico da situação no Brasil, solicitava providências enérgicas: "E cons- No entanto, foi no dia 26, quando chegava a Lisboa a nota oficial sobre a
tante que ajunta e o governador das armas da província de Pernambuco, no convocação da Constituinte no Brasil, que os paulistas António Carlos,
1." c 2.° dias de junho passado, juraram obediência ao príncipe real como Feijó, Vergueiro e Silva Bucno solicitaram à Comissão de Constituição a
chefe do governo executivo do Brasil sem restrição alguma [...]. Planos estes
.que mais se reforçaram corn a chegada ali da Real Carolina no seguinte dia 3
Ibidem, sessão de 12 de agosto de 1822.
de junho, vinda do Rio de Janeiro, a qual desembarcou ali oitenta soldados
Ibidem.
artilheiros, e tomando mantimentos para sessenta dias fez vela para o Norte; Ibidem.
havendo-se mandado emissários a todas as províncias brasileiras para se A essa altura chegaram três parlamentares do Brasil: Manuel Féiix de Veras, de Pernambu-
aclamar o príncipe, regente absoluto de todo o Brasil, ao que só têm obstado co, e João Lopes da Cunha, do Rio Negro. Estes ingressaram nas Cortes nos dias 16 e 29,
respectivamente, e Virgínio Rodrigues Campeio da Paraíba jamais tomou posse.
Diário das Caries Constituintes, sessão de 22 de agosto de 1822.
48 Ibidem. Ibidem.
190 O CONTORNO FINAL O CONTORNO FINAL l 9l

anulação de suas representações, pois "as províncias de Minas Gerais, São diria António Carlos: "Soberania é a colcção das vontades dos cidadãos de
Paulo, Rio de Janeiro e algumas outras estão crn dissidência corn Portugal"55. uma nação" e "a representação é a delegação desta soberania"59. As vontades
Com parecer negativo da Comissão, que incluía Fagundes Varela e não dos cidadãos que o elegeram já estavam expressas na adesão a D. Pedro e sua
reconhecia "governos dissidentes" no Brasil, a discussão sobre o pedido foi representação ficava, portanto, invalidada.
feita nas sessões de 29 e 30 de agosto. Alguns representantes de Portugal, O parecer da Comissão, que recusava o afastamento dos deputados, foi
como Peixoto e Trigoso, foram contra o pedido de afastamento, consideran- aprovado em 30 de agosto. No mesmo dia estipulava-se o prazo de quatro
do legítima a adesão de algumas províncias à autoridade do príncipe. Mas meses para o retorno do príncipe a Portugal.
António Carlos, dessa vez, defendeu a separação: "Eu não posso conceber Em 11 de setembro, Lino Coutinho apresentou indicação assinada por
representação, ncrn de povos subjugados, nem de povos dissidentes que já todos os deputados baianos, exceto Luís Paulino, alegando que não pode-
não fazem parte da mesma nação. Estes foram os motivos por que eu propus riam continuar a representar sua província, pois a vontade expressa na Bahia
que as representações daquelas províncias que estavam dissidentes fossem era a da separação, e que, caso a indicação não fosse aprovada, não se
dispensadas da assistência deste Congresso: foram motivos de direito, além julgavam em condições de assinar a Constituição °.
de outros motivos particulares de sensibilidade [...]. Eu digo também que há Na sessão de 14 de setembro, Fernandes Pinheiro, de São Paulo, que não
um não sei quê de inexprimivelmcnte doloroso na sensação que em nós assinara o primeiro texto dos paulistas, e Castro e Silva, do Ceará, também
produz a vista dos deputados do Brasil lurando com a indisposição do povo apresentaram uma indicação. Nela ressaltavam a contradição entre o que as
português; insultados, injuriados e não podendo mesmo à custa de tanto Cortes admitiam quanto ao papel de D. Pedro e a instalação da Constituinte
vilipêndio salvar a aflita pátria. E preciso que estejam mortos a todo o no Brasil. Ante tal contradição, afirmavam hesitar cm prestar juramento à
sentimento de dignidade nacional, de dignidade do país que os víu nascer, Constituição.
para poderem suportar semelhantes choques"5íi. No dia 16, Feijó, então em licença oficial, enviou carta às Cortes, em que
Em seguida, faria referência à unidade nacional: "Eu não quero por isto declarava que sua consciência não lhe permitiria assinar o texto constitucional.
fazer mal à união [...]. A opinião de um representante de uma nação pode ser José Ricardo da Costa Aguiar, António Carlos e Silva Bucno aderiram à
a verdadeira opinião dos povos representados, ou pode ser diversa: pode a indicação de Fernandes Pinheiro.
maior parte dos deputados do Brasil pensar que é utilíssima a união do Brasil A despeito de tais atitudes, a Comissão de Constituição continuava a não
com Portugal, e podem no entretanto ver que as províncias não pensam aceitar a alegada "vontade geral" das províncias em questão e a não autorizar
como eles [...]. Se acaso quiserem ser o espelho do espírito dos povos que nenhum afastamento.
representam, devem dizer, se os povos não quiserem, não queremos esta Em 19 de setembro ainda se decidiria que o decreto de D. Pedro
•\
união, ainda que eles individualmente a queiram [...]. Mas não creio que se convocando a Constituinte era nulo, que estavam dissolvidas as secterarias
faça mal à união com a separação temporária, muito pelo contrário. Juntos de Estado do Rio de Janeiro e que seria considerada criminosa a obediência
aqui, somos como inimigos em linha de batalha"' 7 . voluntária àquele governo. Uma série de medidas que, todos sabiam, não
Referindo-sc a D. Pedro: "Mas, diz-se, ainda lá está a autoridade legítima teriam nenhum valor, mas cujo objetívo era tentar manter a polarização
que é o príncipe. Legítima, nas circunstâncias atuais? Não vê o ilustre entre Lisboa e Rio de Janeiro.
preopinante as últimas cartas de S.A. em que não reconhece este Congresso? Na mesma sessão, muitos deputados do Brasil exprimiam dúvida quanto
Realmente ele é chefe de outro governo"58. à postura das Cortes. Alegavam por meio de uma indicação que, "não'
Respondendo aos deputados de Portugal que exigiam a presença dos do podendo agora assinar a Constituição, se lhes defira este ato para o mesmo
Brasil até que cada província se manifestasse quanto à sua representação, tempo que o soberano Congresso julgou ser aquele de se conhecer a vontade
dos mencionados povos"61.

55 Ibidem, sessão de 27 de agosto de 1822.


55 Ibidem, sessão de 30 de agosto de 1822.
Sú Ibidem, sessão de 29 de agosto de IS22.
00 Ibidem, sessão de 11 de setembro de 1822.
" Widem.
61 Eram signatários do icxto: Almeida e Castro (Pernambuco), Araújo Lima (Pernambuco),
" Ilidem.
192 O CONTORNO FINAL O CONTORNO FINAL 193

As respostas às decisões do dia 19 sobre o governo de D. Pedro c a Os pronunciamentos foram diferenciados. Borges de Barros, como já
convocação da Constituinte ocorreram nas sessões seguintes. António Carlos havia feito Líno Coutinho, alegou não poder compro meter-se com o pacto,
tentaria, ainda, atribuir às decisões das Cortes a consumação da separação pois os partidos na Bahia estavam "de armas na mão". Borges Leal alegava
dos reinos, dizendo: "O parecer é a caixa de Pandora chovendo sobre a que a situação do Piauí era semelhante à da Bahia e que não assinaria a
família portuguesa males c desgraças que talvez não possamos remediar [...]. Constituição. Fernandes Pinheiro solicitou a espera da reação das províncias.
Pretendem os ilustres prcopinantes ir buscar a origem do poder do Príncipe Martins Basto reconhecia ter sido derrotado cm várias votações, mas, como
à vontade dos povos do Brasil, querem ir buscar por conseguinte na mesma fora enviado por seus constituintes para vencer ou perder, considerava-se
nação duas origens de poder, querem que haja já duas soberanias, supondo signatário do texto constitucional. E Segurado declarou-se pronto para
que de fato a nação portuguesa está dividida, c forma duas nações. Porém, subscrever o referido texto c para jurá-lo.
esta última hipótese decerto não se verifica ainda, poderá vir tempo cm que Apesar desses pronunciamentos, as assinaturas à Constituição, feitas cm
se verifique [...]. Por agora, a nação portuguesa é urna"62. 23 e 24 de setembro, contaram com a quase totalidade dos deputados do
O deputado paulista procurava, ainda, demonstrar que a estada do Brasil. Apenas seis não a subscreveram: António Carlos, Feijó, Costa Aguiar
príncipe no Brasil e a convocação da Constituinte não contrariavam as Bases e Vergueiro, de São Paulo, e Agostinho Gomes e Cipriano Barata, da
da Constituição c poderiam significar a única forma de união com Portugal. Bahia".
Desse modo, para ele, "o Brasil nunca faltou àquilo que jurou: nunca negou Do juramento, realizado no dia 30, além dos seis anteriores, também não
por nenhum modo o título de rei ao sr. D. João VI, nem a religião católica participaram Lino Coutinho c Muniz Tavares, apesar de seus nomes consta-
apostólica romana, que são coisas que jurou de presente: no que jurou de rem entre os signatários da Constituição66.
futuro está a questão"63. Em 2 de outubro, António Carlos ainda se dirigiria às Cortes para
Cípriano Barata argumentava no mesmo sentido: "Eu falo como portu- solicitar que considerassem "lícita e permitida a sua retirada" do Reino. Sem
guês, c não quero que se diga nunca que houve urn português que não puniu resposta da comissão pertinente de analisar o pedido, deixou Lisboa, clandes-
pela integridade da nação portuguesa". Mais uma vez, buscaria intimidar os tinamente, em companhia de Feijó, Bucno, Costa Aguiar, Lino Coutinho,
representantes de Portugal: "O que fazemos neste Congresso não tende Barata e Agostinho Gomes. Em 6 de outubro dívulgava-se a fuga dos sete
senão a acelerar uma fatal independência para o Brasil. Considere-se bem a para Falmouth, utilizando-sc de um barco inglês. E, no día 12, lia-se ofício
voragem que nos espera; não atciemos o fogo do príncipe. Talvez suspenda do intendente geral da polícia, informando que "nenhum dos sobreditos
todo o comércio com Portugal, talvez se coligue com o imperador da deputados procurou [...] o seu passaporte, e que se não podia evitar a sua
Áustria"6'1. saída no paquete, por isso que não é sujeito à visita da polícia"67.
Mantiveram-se, porém, as decisões do dia 19, e em 21 de setembro foi
votada e recusada a indicação dos deputados do Brasil, solicitando adiamen- O Império Federativo e a nação brasileira
to para a adesão à Constituição até o conhecimento da vontade das provín-
cias. Juramento e assinatura deveriam ser decididos naquele momento. Vimos que, desde o início de junho de 1822, o Ato Adicional à ConsrituJ-
ção', elaborado por deputados das províncias do Brasil, introduzira uma nova
questão no Congresso de Lisboa: a existência de Cortes c legislação específi-
Ferreira da Silva (Pernambuco), António José Moreira (Ceará), Zcferino dos Santos cas para o Brasil. Tal projeto, ainda que afinado com o Programa de São
(Pernambuco), Martíniano de Alencar (Ceará), Francisco Xavier Monteiro da França Paulo, avançava um grau na concepção de organização autónoma do reino
(Paraíba), Manuel Félíx dt: Veras (Pernambuco), Pires Ferreira (Pernambuco), Muniz
Tavares (Pernambuco), Tavares Lira (Pernambuco), Vilela Barbosa {Rio de Janeiro), José
ultramarino c recebia as adesões dos deputados de Pernambuco e da Bahia.
da Costa Cirne (Paraíba), Assis Barbosa (Alagoas), Lourenço Rodrigues de Andrade (Santa
Catarina) c Borges Leal (Piauí). Diário das Cortes Constituintes, sessão de 19 de scrembro
de 1822. úi Ver texto constitucional e assinaturas publicados no Diário cias Cortes Constituintes, sessão
úl Ibidem.
de 30 de setembro de 1822.
63 Ibidem, sessão de 20 de setembro de 1822. úú Carvalho, M. E. Gomes. Op. cií., p. 423.
M Ibidem. 67 Santos, Clemente José dos. Documentos, cit., p. 456.
194 O CONTORNO FINAL O CONTORNO FINAL 195

Recusada cm 5 de julho, logo após a decisão de punir os integranres da Era mais bem aceira pelos deputados conservadores, como Trigoso, que
Junra de São Paulo, a proposta voltaria ao plenário no dia 10, com a leitura consideravam legítima a adesão das províncias do Brasil ao príncipe herdeiro
de uma carta de D. Pedro que anunciava sua disposição de convocar as da Coroa portuguesa.
Cortes no Brasil, mesmo contra a vontade do Congresso de Portugal. Chocavam-se, aí, as duas concepções básicas sobre a organização do Estado
A partir desse momento, a oposição cncrc os governos do Rio de Janeiro e nacional português. De um lado, os parlamentares lusos pensavam a nação
de Lisboa tornou-se irreconciliável. Os debates c as decisões quanto ao Brasil como um todo orgânico, anterior a qualquer acordo, integrado política e/ou
adquiriam torn dramático, pois se conhecia a disposição do príncipe de não economicamente, que se expressava no Estado por meio das Cortes c da
as obedecer e de angariar apoio nas outras províncias do Reino para que o Constituição. De outro lado, os deputados do Brasil concebiam a integração
seguissem. com base no acordo entre representantes provinciais, capazes de compor a
O Progtama de São Paulo, agora também defendido pelos baianos c nação em um pacto social. A nação/ttadição, formada pela história, chocava-se /S.
apoiado pelos de Pernambuco, tornava-sc fato. O Brasil mantinha-se como com a nação/Estado, formada pela política.
reino, o príncipe recusava-se a voltar para Portugal e a articulação das O grupo de Fernandes Tomás representava a primeira visão da forma
províncias do Centro-Sul estcndía-se para as outras, até mesmo convocando mais radical, ao passo que o Programa de São Paulo, sobretudo por intermé-
uma Constituinte específica. Além disso, o governo do Rio de Janeiro dio de António Carlos Andrada, expressava a segunda de maneira precisa.
colocava-se em pé de igualdade com o de Lisboa diante dos domínios da Embora as intervenções dos paulistas tenham chegado perto de definir
África e da Ásia. um "corpo" nacional no Brasil, jamais se referiram a uma nação brasileira. A
N^cntanto, jjs discursos^dos deputados do Brasil clamaram pela união expressão fora mencionada pela primeira vez, fora das Cortes, no "Manifesto
com Portugal^tj__o3ÍltiiTiQ_^nQjiieatD^JZiatayj:je_d_a^unidade federativa do as Nações Amigas", redigido por José Bonifácio no Rio de Janeiro durante o
imp_érÍo_Juso-_brasileirp_^prpp_qsra pjdos_paulistas e aceita pelos baianos c mês de agosto. Nesse momento, quando o conflito entre as partes do
pernambucanos. Como já mencionado, António Carlos não hesitou em Congresso era já irremediável, a proclamação equivalia a uma declaração de
afirmar na sessão de 20 de setembro: "querem ír buscar na mesma nação independência.
duas origens de poder [...] supondo que de fato a nação portuguesa está O texto visava "conservar as Relações políticas e comerciais com os
dividida, c forma duas nações. Porem, esta .última hipótese decerto não se governos e Nações amigas". Apresentava o príncipe regente como credor do
verifica ainda"68. "caráter brasileiro" e da "vontade geral do Brasil, que proclama à face do
Argumentou exaustivamente que, de seu ponto de vista, a existência de universo a sua independência política, como reino irmão, c como nação
duas Cortes não cindiria a nação portuguesa. Eías expressariam somente a grande e poderosa". Justificava a separação dos dois reinos, recordando os
legislação das partes de um corpo nacional heterogéneo, unido de forma "três séculos" durante os quais os europeus haviam pretendido conservar
mais "frouxa", já que a união total se mostrava inviável. "este rico país na mais dura c triste dependência da Metrópole". Tal sorte
António Carlos e Cípriano Barata atribuíram aos deputados de Lisboa a teria criado urna identidade entre os habitantes do reino, pois "colonos e
responsabilidade pela separação política dos portugueses. Eles teriam contra- indígenas, conquistados c conquistadores, seus filhos e os filhos de seus
riado as "vontades" das províncias do Brasil quando desrespeitaram as filhos, tudo foi confundido, tudo ficou sujeito a um anátema geral"69. Em 0 .^
agosto, então, passava-se a evocar ajústórta como formadora de um corpo
medidas adotadas por D. Pedro.
Para a maioria dos parlamentares de Portugal, no entanto, a organização homogéneo no reino do Brasil, onde também cxistiamLtradicão, c vontade
política do Brasil como reino era inadmissível. Ela contrariava as concepções geral.
integracionistas do radical Fernandes Tomás c do moderado Borges Carnei- Os termos aí utilizados contrastavam com os expressos dois rneses antes,
ro, notadamcnte porque não se referenciava no soberano Congresso. Nele pelo próprio José Bonifácio, no decreto que convocava a Assembleia Consti- ^
estava expressa a vontade geral da nação, e a desobediência a ele significava tuinte no Brasil, considerando "o quanto era necessário e urgente para a Ç&Ji-&->
servilismo ao príncipe c ao Antigo Regime. mantença da integridade da monarquia portuguesa e justo decoro do Brasil a

6'> Ibidem.
ÍS Diário das Cortes Constituintes, sessão de 20 cie setembro cie 1822, já citada.
196 O CONTORNO FINAL O CONTORNO FINAL 197

convocação de uma assembleia luso-brasiliensc, que, investida daquela por- poder de veto sobre os trabalhos do Legislativo. Ambos expressavam, portan-
ção de soberania, que essencialmente reside no povo deste grande e riquíssi- to, o movimento liberal e nacionalista que se ampliava desde l S15 c forjaram
mo continente, constitua as bases sobre que se devam exigir a sua indepen- suas propostas contra a definição do Remo Unido. Contrapunham-se
assim, ao esboço do império federativo I uso-brasileiro.
dência, que a natureza marcara e de que já estava de posse, c a sua união com
O que unia as diferentes alas liberais de Portugal era o nacionalismo. A
codas as outras partes integrantes da grande família portuguesa, que cordial-
defesa da nação portuguesa contra as intervenções francesa c inglesa associa-
mente deseja [ . - . ] . A independência referida no texto é uma imposição da
va-se a um sentimento colonial invertido, em razão do estabelecimento da
natureza que requeria uma porção de soberania dentro da monarquia lusa c
Corte no Rio de Janeiro. A nação pensada pelos vintistas não era, a princípio,
não a afastava da família portuguesa.
luso-brasileira e, ancorada na história e na tradição, deveria ser proprietária í
Somente cm agosto, após o não-reconhecímento da Constituinte no
das possessões ultramarinas.
Brasil pelas Cortes de Lisboa, a articulação que envolvia o príncipe regente
Os habitantes do Brasil passaram a ser considerados parte da nação
passaria a se referir a uma nação brasileira. Começava-se a organizar o
depois de adotadas as Bases Constitucionais de Cádis, mediante diversos
Império independentemente de Portugal e era necessário localizar as bases
acordos que buscavam conservar os domínios coloniais. No entanto, como
sobre as quais seria fundamentado o poder do Estado. Como consequência,
parte de urna única nação, esses habitantes não poderiam ter privilégios
nascia nas reflexões dos assessores de D. Pedro uma nação independente da
sobre o território em que viviam, pois deveriam dividir com portugueses da
portuguesa.
Europa a propriedade de tais domínios.
Por isso, para as diferentes concepções vintistas, a integração era indis-X
jjuantas nações?
pensávcl. Os portugueses do Brasil só poderiam ser aceitos se estivessem
ligados aos de Portugal mediante vínculos político-adrninistratívos ou eco-
As diferences concepções sobre a organização nacional do Estado portu-
nómicos, e impedidos de ter preponderância na Monarquia. Deveriam
guês levaram a utilizações distintas do termo nação nas Cortes portuguesas
referendar as Bases da Constituição e associar-se à tradição da família
de 1821 a 1822.
portuguesa, reconhecendo sua origem em Poreugal e o papel de destaque da
As divergências ocorreram entre os deputados do Brasil c de Portugal,
"Mãe-pátria". í
mas também no interior das representações de cada reino. Entre as últimas,
Fernandes Tomás levou essa concepção ao limite quando afirmou que se
cAíí/1
destacaram-se as propostas de Fernandes Tomás c Borges Carneiro. O
primeiro,.expressão maior do nacionalismo português, 'pensava a nação
os brasileiros não se quisessem submeter à "vontade geral" expressa nas s'*
Cortes, seria preferível o seu desligamento da monarquia lusa. Para o líder da -_ \J~J
integrada com base nas instâncias político-administrativas: como um corpo
revolução do Porto, portanto, se a preservação dos domínios coloniais A-1" y
homogéneo e soberano, ela deveria ser representada no Estado sem fissuras.
chegasse a comprometer a soberania do Congresso, melhor seria perdê-los. es-f
O segundo concebia-a como resultante da integração de mercados e atribuía
Assim, chegava à contradição básica do vintismo: a defesa liberal da sobera-j y
ao Estado a tarefa de coordenar a complementaridade de interesses económi-
nia da nação cm contraposição ao projeto do Império implementado ate j
cos entre as partes da Monarquia: o corpo homogéneo derivado de interesses
aquele momento c aos interesses criados nesse percurso.
comuns se expressaria no Estado a parcír de laços económicos.
Para os liberais de Portugal, tratava-se de defender a nação portuguesa -
Esses depucados cinham, porém, importantes convergências. Eram revo-
como um projeto político. Essa nação não era uma comunidade de indiví- •
lucionários de 1820, embora rcfleeissern facetas divergentes do vintismo e
expressassem o respeito ao soberano Congresso, que era herdeiro das Cortes
duos, mas a vontade geral de preservar uma tradição, expressa no Estado. .-• •
tradicionais c representava a "vontade geral" da nação. Juntos haviam
Tanto na concepção de Fernandes Tomás, quanto na de Borges Carneiro,
ela seria representada por meio da organização política que conferia sobera-

«
derrotado os parlamentares conservadores quando esses quiseram dar ao rei
nia ao Congresso c limitava o poder do monarca, sempre com objetivo de/
preservar essa tradição. A definição dos projetos vintistas como nacionalistas ( •
70 "Decreto do Príncipe D. Pedro convocando uma asscmbléia-gcral constituinte c legislativa reside na sua proposição de defender a nação mediante organização política ''
de depurados das províncias do Brasil" de 3 de junlio de 1822. /H .'Moraes, Alexandre José que lhe garantisse soberania e justificasse a soberania do Estado.
de Mello. Of. c/í., t. 2, p. l H. A questão se põe de outra forma quando se refere aos deputados do Brasil.
198 O CONTORNO FINAL O CONTORNO FINAL 199

Os processos eleirorais para as Cortes expressaram, cm geral, a concordância A marca dos localismos, formados durante os séculos de colonização e t
com o regime constitucional de Lisboa. No entanto, rcfletiram realidades bem assinalados por Sérgio Buarque de Holanda, dava sentido às propostas l
regionais bastante distintas. A adesão do Pará ocorreu de forma incondicio- fcderalistas. A mesma marca moldara o Estado norte-americano e estivera)
nal e exprimiu os vínculos diretos da província com o reino de Portugal. Os presente nos processos de formação das repúblicas sul-americanas. l
processos eleitorais do Nordeste, marcados pela experiência republicana de A forma federativa de organização dos estados, recorrente no continente
1817, manifestaram difcrcnciadamente a oposição ao governo de D. João VI americano, parece, então corresponder aos localismos formados durante a
e seus representantes nas províncias nordestinas. Os deputados de São Paulo colonização. Por vezes foi também utilizada como recurso de organização
apoiavam o príncipe regente e defendiam Programa que visava à manuten- política em vários outros locais c épocas, também na Europa, quando surgiu
ção do Brasil como reino unido a Portugal. a necessidade de reunir poderes locais díspares71.
Os deputados do Pará, Maranhão c Rio de Janeiro agiram, na maior parte Ern todos os casos, no entanto, parece esboçar-se um ponto comum: a
das discussões, de acordo com as propostas de integração feitas pelos repre- nação é entendida como idêntica ao Estado. Elajiada rjjais é dp_que_a.
|Scntantes de Portugal. As bancadas de Pernambuco, Bahia e São Paulo o^^njza_cãg_p^Hj:jcp-adrnm^rTa:tivade_diyersas "pátrias" ou de poderesjocais
j aprcscnraram proposições divergentes. diversos^ A organização federativa das naçÕcíTnão procura íTmdamencação na - -V
O aqui denominado "patriorismo" pernambucano significou, cm um história ou na tradição, mas nas vantagens da associação nacional. No
primeiro momento, o alinhamento dos deputados da Província com o entanto, como todas as outras propostas de organização nacional, no início
projeto integracionista de Fernandes Tomás, porque as reivindicações locais do século XIX, rerira a soberania do monarca, rransferindo-a para a nação.
foram atendidas: o governador de Pernambuco foi desritufdo, aí formou-se No caso do Brasil, a proposta do Império federativo feita pelos paulistas
uma junta de governo e se decidiu rever o funcionamento da companhia revela preocupações semelhantes. Ela foi amadurecida desde o final do século
detentora do monopólio comercial na região. Mas os constituintes pernam- XVIII e Implementada a partir da transferência da Corte portuguesa para o
bucanos passaram, no entanto, a rnanifcsrar discordâncías com a linha geral Brasil. Ressalrou a unidade do rerritório brasileiro e, nas Cortes, a associação
do Congresso quando se decidiu o envio de tropas para sua província. das partes cm torno de um representante da dinastia de Bragança. Referia-se
Essa mudança coincidiu com o ingresso da bancada baiana no Congresso. a uma nação portuguesa e, posteriormente, à nação brasileira. Mas_o_pontp ^
O desejo de limitar os poderes do Rio de Janeiro passou a ser expresso central^da_|3roposta__ej_a a jnanutenção...do..p_r_ínc_ip_e1.jdepois^irnperadox, na.£>
abertamente e, da mesma forma, se buscava impedir o controle do governo Ínstânciaj^_[Mdercentraltzador_dg Bjasil, e como na seguinf^derinição^O
de Lisboa sobre as províncias de ultramar. Propunha-se, então, a total Império foi sendo instrumento para .conciliar realidades polídcas__c_adajy_e7.._
autonomia das províncias, cuja vinculação com a nação portuguesa ocorreria mais conflitantes c divergentes na vida interna do Estado", revelando a
por meio da representação nas Cortes Gerais e da submissão a um mesmo "tendência ao crescimento progressivo do poder do imperador na política .

Executivo, exercido pela família de Bragança. interna e às pressões expansionistas na política externa"72.
O programa apresentado pelos deputados de São Paulo incorporou a Na proposta dos paulistas, o representante da família real deveria expres-
defesa regional dos pernambucanos c baianos. O texto não se referia às sar a unidade das partes, agindo sobre elas, a partir de uma Assembéia
relações entre as províncias do Brasil, centrando-se na definição dos dois Constituinte. A preocupação básica expressa nesse projeto era a unidade das
reinos componentes da Monarquia. Foi no interior das discussões das Cortes províncias do reíno do Brasil. Ela era prioritária fosse diante das reivindica-
que os deputados de São Paulo passaram a esclarecer suas posições sobre a ções de autonomia local, fosse diante dos anseios de transferência do poder
autonomia provincial, completando o Programa redigido por José Bonifácio da cabeça do Estado para o "corpo nacional".
de Andrada e Silva. Assim, a proposta de manutenção do Reino Unido,
assinada pela Junta paulista, passaria a ter carátcr explicitamente federativo,
permitindo a negociação com os deputados da Bahia e Pernambuco. Sobre a Espanha, convém citar o trabalho de Picrrc Vilar, no qual se encontra, ainda, um
estudo sobre a utilização dos termos pátria c nação, na Espanha c na América, no período
, Portanto, apesar das diferenças entre os deputados do Brasil, também é das independências. Ver Vilar, PLerre. Hidalgos, amotinados y gucrrilleros. Barcelona;
| possível verificar um ponto de convergência entre as bancadas de maior Crítica, 1982.
i destaque: a^defcsajja^autonomia^provincial^ Desse modo, opunham-se aos Bobbio, N.; Matteucci, N, & Pasquino, G. Dicionário de política. Brasília: Unb, 1986, p.
integracionismos de Portugal. 621-6.
200 O CONTORNO FINAL

E difícil^ortanto^atribiur sentido nacionalista às propostas aprcscntadas-


nclos deputados do BrastL_ Baianos e pernambucanos defenderam suas
"pátrias", mas não propuseram que cias se transformassem cm "corpos
políticos" autónomos, pois acreditavam que deveriam fazer parte da nação
portuguesa. Os paulistas apresentaram um programa de defesa do Reino
Unido cm que o principal aspecto a ser ressaltado é a autoridade conferida ao
príncipe regente, e não a soberania de qualquer "corpo nacional". E os
deputados do Rio de Janeiro, Pará e Maranhão, entre outros, alinharam-se
com os de Portugal na defesa da nação integrada portuguesa.
FONTES
De diferentes formas, os constituintes do Brasil manifestaram-se favora-
velmente a uma única nação, soberana cm face das outras do mundo, e esta
era a nação portuguesa. Todos a entendiam, porém, como idêntica ao
Estado: reflexo dos acordos que a arte da política poderia realizar.

Fo ntes primárias

Andrada c Silva, José Bonifácio. Escritos políticos. São Paulo: Obelisco, 196-4.
Atas da Comissão de Verificação de Poderes, 1821/1822, Lisboa, Assembleia da República.
Revista Brasília, Suplemento ao v. IV. Coimbra: Faculdade de Letras, Instituto de Estudos
Brasileiros, 1949.
Bittencourt, Liberato. Homem do Brasil, v. H, Parahyba. Río de Janeiro: Gomes Pereira (ed.),
1914.
Blake, Augusto Vitoríno Alves Sacramento, Dicionário bibliográfico brasileiro. Rio de Janeiro:
Tipografia Nacional, 1883/1892.
Carpcaux, Otto Maria. Pequena bibliografia crítica da literatura brasileira. 2.' cd. Rio de
Janeiro; Ministério da Educação c Cultura, 1955.
Constituição Espanhola de Cãdiz. Lisboa: Tipografia Rollandíana, 1S20. Bases de uma Consti-
tuição Livre dos Habitantes da. Virgínia na América Setentrional. Lisboa: Tipografia Moran-
diana, 1820.
Cortes Primeiras que El Reí Dom Afonso Henriques celebrou em Lamego. Lisboa: Tipografia
Rollandiana, 1820.
Costa, Francisco Augusto Pereira da. Diccionarío biographico de pernambucanos célebres,
Recife: Typografia Universal, 1882.
Diário das Cortes Constituintes, 1821/1822. Cópia da Biblioteca Nacional de Lisboa.
Ferreira, Silvestre Pinheiro. Ideias políticas. Rio de janeiro: Documentário, 1976,
Garrctt, Almeida. Portugal na balança da Europa. Lisboa: Horizonte, s.d.
Guimarães, Argeu. Dicionário biobibliográfico brasileiro de diplomacia, política externa e direito
internacional. Rio de Janeiro: Edição do Autor, 1938.
Macedo, Joaquim Manoel de. Armo biographico brasileiro. Rio de Janeiro: Typographia c
Litografia Imperial, 1876.
Melo, Luís Corrêa de. Dicionário de autores paulistas. São Paulo: Editora Gráfica Irmãos
Andrcoli, 1954.
202 FONTES FOHTES 203

Moraes, Alexandre José de Mello. História elo Brasil-Reino c do lírasil-Império. São Paulo-Belo " l Buicáo Sobrinho, António de Aragão. A Bahia nas Cortes de Lisboa de 1821. RIHGB, 226
Horizonte: Edusp-Itatiaia, 1982. 1955.
Neves, Fcrnão. A Academia Brasileira eíc Letras, notas c documentos paru a sua história. P\io de Câmara, Benedita Cardoso. Do agrarismo ao liberalismo. Francisco Soares Franco ttm
Janeiro: Publicações da Academia Brasileira, 19-10. pensamento crítico. Lisboa: Itiíc, 1989
Santos, José Clemente dos. Documentos para a história r/as Corta Gerais da Nação Portuguesa. Carvalho, José Murilo. A construção da ordem. A elite política imperial. Brasília: Editora UNB,
Lisboa, 1883. 1981.
Santos, Lcry, Pantheon fluminense — esboços biograplricos. Rio de Janeiro: Typographia G. Carvalho, M. E. Gomes de. Os deputados brasileiros nas Cortes Geraes de 182!. Porco: Livraria
Lcuzinger c Filhos, 1880. Chardron-Lello & Irmão, 1912.
Serafim Leite, S.J. História da Companhia de Jesus no Brasil. Rio de Janeiro: Instituto Nacio- Castro, Zilia Osório de. Constitucionalismo vintista — antecedentes e pressupostos. Revista
nal do Livro, 1949. do Centro de História da Cultura, Lisboa, 1986.
Silva, Inocéncio Francisco da. Dicionário bibliographico português. Lisboa: Imprensa Nacional, . A Independência do Brasil na imprensa periódica portuguesa. Revista de História das
1858-1923. Ideias, 15, Coimbra, 1993.
Silveira, Alarico. Enciclopédia brasileira. Edição patrocinada peia Fundação Edmundo Bitten- Castro, Zilia Osório de. Cultura e política — Manuel Borges Canteiro c o vintismo. Lisboa:
court. INIC, 1990, 2 vols.
Sobrinho, J. F. Velho. Dicionário bio-bibliográfico brasileiro. RJ o de Janeiro: Ministério da Chevailicr, Jean-Jacque. L'cvolntion de l'empire briíannique. Paris: Lês Editions Intcrnationa-
Educação e Saúde, 1940. les, 1930.
Sousa, J. Galante. O teatro no Brasil. Tomo 11, Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1960. Chiaramontc, José Carlos. El mito de los orígencs en Ia historiografia laiinoamericana.
Studart, Guilherme. Diccionario bto bibliogrãfbico cearense. Fortaleza: Typographia Litogra- Geadcmos dei Instituto Ravignani, 2. Instituto de Historia Argentina y Americana Dr.
phia a Vapor e Typographia Minerva de Assis Bezerra, 1910-1915. Emílio Ravignani, Faculdad de Filosofia y Letras, Univcrsidad de Buenos Aírcs.
Costa, Emília Viotti. Da Monarquia à República. São Pauio: Editora Grijalbo, 1977.
Cunha, Pedro Otávio Carneiro da. A fundação de um Império liberal. In: O Brasil monárqui-
co. O processo de emancipação política. História geral da civilização brasileira. Vol. II. São
Bibliografia Paulo: Difcl, 1964.
Dias, J. S. da Silva. A Revolução Liberal Portuguesa: amálgama e não substituição de classes.
Aja, Elisco & Tura, Jordi Sole. Constitiidoncs y período; constituyentes eu Espana (1808-1936). In: Pereira, Ferreira & Serra (orgs.). O liberalismo na península Ibérica na primeira metade
Madri: Sigio XXI, 1977. do século X}X. vol. L Lisboa: Sá da Costa Editora, 1981, vol. L
AJencastro, Luiz Felipe. Lê commcrce dês vivants: trai te d'esclaves et "Pax Lusitana" dans Dias, José Henrique Rodrigues. José Ferreira Borges — política e economia. Lisboa: INIC,
i'Atlanticjicc Sud. Tese de doutoramento cm História sob a orientação do professor 1988.
Frédéríc Mauro. Paris: Umvcrsité de Paris X, mimeo, I9S5-86. Dias, Maria Odila L. da Silva. Ideologia liberal c construção do Estado do Brasil. Anais do
Alexandre, Valentím. O nacionalismo vintista c a questão brasileira. In: O liberalismo na Museu Paulista. São Paulo: USP, 1980-1981.
Península Ibérica. Lisboa: Sá da Costa, 1981, vol. I. —•—-—. A intcriorização da metrópole (1808-1853). /í(:Mota, Carlos Guilherme. 1822 —
. Os sentidos da Império — questão nacional c questão colonial na crise do Antigo Regime Dimensões. São Paulo: Perspectiva, 1972.
português. Porto: Afrontamento, 1993. Donczar, Javicr. Los revoluciones liberales — Frauda y Espana. Madri: Eudcina, 1992.
Amaral, Brcnno Ferraz do. José Bonifácio. São Paulo: Martins, 1961. Dosse, François. A história em migtt&as.São Paulo: Ensaio, 1992.
Andcrson, Bcncdict. Nação c consciência nacional. São Paulo: Afíca, 19S9. Duvcrgcr, Maurice (coord.). Colloque sur lê concept d'empire. Paris: PUF, 1980.
Araújo, Ana Cristina Bartolomeu de. O Reino Unido de Portugal, Brasil c Algarves — 1815/ Faoro, Raimundo. Existe um pensamento político brasileiro? Revista do Instituto de Estudos
1822. Revista de História das Ideias, Coimbra, 14, 1992. Avançados, nov., 1989. São Paulo; USP.
Armítage, João. História do Brasil desde o período da chegada da Família de Bragança e/n 1808 . Os pródromos da Independência. In: Os donos do poder. Rio de Janeiro: Globo, 1989-
até a abdicação de D. Pedro I cm 1S31- Rio de Janeiro: Eugênio Egase Garcia Júnior, 1943. . A Revolução Constitucionalista de 1820 — a representação brasileira às cortes gerais.
Arríaga, José. História da Revolução de 1820. Porto: Livraria Portuense, 1887. In: Montcllo, Josué (org.}. História da Independência do Brasil, vol. I. Rio de janeiro: A
Azevedo, Julião Soares de. Condições económicas da Revolução Portuguesa de 1820. Lisboa: Casa do Livro, 1972.
Básica, 1976. França, António d'Oliveira Pinro da (org.). Cartas baianas (1821-1824). Lisboa: Imprensa
Bethencourt, Francisco e Curto & Diogo Ramada (org.). A memória da nação. Lisboa: Sá da Nacional, 1984.
Costa, 1991. Furcr, François (org.). Dicionário crítico da Revolução Francesa. Paris: Flammanon, 1988.
Bobbio, Norberto. Dicionário de política. Brasília: Editora da Universidade, 1986. Gellncr, Erncst. Nações e nacionalismo. Lisboa: Gradíva, 1983.
Bochrer, Gcorgc C. A. The Flight of rhe Brazilian Depuries from tiic Cortes Gerais of Lisboa, O Gortazar, G. (org.). Nación y Estado en lã Espana liberal. Madri: Fundación Orrega y G.isset,
1822. In: The Hispanic American Historical Rcvtew, X£{4):nov.( 1960. 1994.
Borges, Vavy Pacheco. História c política: laços permanentes. Revista Brasileira de História, Hobsbawm, Eric. J. Nações e nacionalismo desde 1780 •—programa, mito e realidade. Rio de
23-24:7-18, 1992. Janeiro: Paz e Terra, 1990.
204 FONTES FONTES 205

Holanda, Sérgio Buarque. A herança colonial, sua desagregação. In: O Brasil monárquico. O Piniicíro, José Fciiciano Fernandes. Memórias do Visconde de São Leopoldo. RIHGB 37
processo de emancipação. História geral da civilização brasileira. Vol. II. São Paulo: Difcl, 1904. 1874.
Jancsó, Istvan. A construção dos Estados nacionais na America Latina — apontamentos para o Prado Jr., Caio. Evolução política do Brasil. São Paulo: Brasilicnsc, 1972.
estudo do Império como projeto. Texto apresentado no Encontro da Anpuh, 1995 (mimco). . Formação do Brasil contemporâneo. São Paulo: Brasijiensc, 1979.
. Identidades políticas cotetivas no desdobramento da crise do Antigo Sistema Colonial Proenca, Maria Cândida. A Independência do Brasil — relações externas portuguesas, 1808/
', (1789-1822). Texto apresentado no Encontro da Anpuh, 1995 (mimeo). 1825. Lisboa: Horizonte, 1987.
Laski, H. J. El liberalismo europeo. México: Fondo de Cultura Económica, 1988. Rccaldc, José Ramón. La construcción de Ias naciones. Madri: Siglo XXI, 1982.
Lima, Manuel de Oliveira. D. João VI no Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1945. Rémond, Rcné. Pour une histoirc politique. Paris: Scuit, 1988.
. O movimento da Independência. Belo Horizontc-São Paulo: Itatiaia-Edusp, 1989. Ribeiro, Maria Manuela Tavares. Conflitos ideológicos do século XIX. Revista de História das
.»==*> Lyra, Maria de Lourdes Viana. A utopia do poderoso império, Portugal e Brasil: bastidores da Ideias. Universidade de Coimbra, 1974.
* política, 1798-1822. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1994. Ri vás, Ricardo Alberto. El debate actual sobre /os orígencs dela nacion. Raíces liistoriográficas en
Macedo, Jorge Borges. O bloqueio continental, economia e guerra peninsular. Lisboa: Gradiva, el siglo XIX latinoamcricano. Texto apresentado no simpósio '"América Latina a Fines de!
1990. Siglo XX: Claves Históricas de su Presente". Montcvidcu, 1995.
Magnoli, Demctrío. O corpo da pátria. Tese de doutoramento. Sáo Paulo: Departamento de Rodrigues, José Honório. Independência: revolução e contra-revoluçáo — a política internacio-
Geografia da FFLCH/USP. São Paulo, jun. 1996 {mimeo). nal. São Paulo: Perspectiva, 1972.
Marichal, Carlos. Entrevista con José Carlos Chiararnonre. Anuário dei IEHS, Tandil, 10, . O liberalismo. Revista de História das Ideias. Universidade de Coimbra, 1977.
1995. Sabine, Georgc H. Rousscau: a rcdcscobcrta da comunidade. In: História das teorias políticas.
Maninez, Pedro Soares. História diplomática. Lisboa: Verbo, 1986. Rio de jancíro-São Paulo-Lísboa: Fundo de Cultura, 1961.
Martins, Oliveira. História de Portugal Lisboa: vof. II. Publicações Europa América, 1989- Santos, Fernando Piteira. Geografia e economia dá Revolução de 1820. Lisboa: Publicações
Macios, limar RohloíT & Albuquerque, Luís AíTonso. Indcpetidéncia ou morte. São Paulo: Europa América, 19SO.
Acuai, 1991. Santos, Maria de Lourdes Costa Lima. Intelectuais portugueses na primeira metade de oitocentos.
Merquíor, José. O liberalismo antigo e moderno. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. Lisboa: Presença, 1985-
Monteiro, Tobías. História do Império: a elaboração ela Independência. Belo Horizonte-São Santos, Maria Helena Carvalho dos. A segunda experiência constitucional portuguesa •—• 18261
Paulo: Itatiaia-Edusp, 1981. 1828. \.° v. Tese de doutoramento. Lisboa: Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da
Mota, Carlos Guilherme. 1822 — dimensões. São Paulo: Perspectiva, 1972. Universidade Nova de Lisboa, 1988.
. Nordeste 1817; estruturas c argumentos. São Paulo: Perspectiva, 1972. . A maior felicidade do maíor número. Bcntban e a Constituição Portuguesa de 1822.
Neves, Lúcia Maria Bastos Pereira das. Corcundas, constitucionais e pés de chumbo — a cultura In: Pereira, Ferreira & Serra {orgs.). O liberalismo na península Ibérica na primeira metade
política da Independência (1820-1822). Tese de doutoramento. São Paulo: Departamento do século XIX. Lisboa: Sá da Costa, 1982.
de História/FFLCH-USP, mimco, 1992, vol. I. Serrão, Jocl. Demografia portuguesa. Lisboa: Horizonte, 1973.
Noiricl, Gérard. La 'identidad nacional' y Ia historiografia francesa. Armário dei IEHS. Tandil, Sidera, Pilar Cbavarri. Lãs eleccciones de diputadoí a Ias Cortes Cènerales y Extraordinárias
1995. (1310-1813). Madrid: Centro de Estúdios Constitucíonales, 1988.
Novais, Fernando A. Portugal e Brasil na crísc do Antigo Sistema Colonial (I777-I80S). São Silva, J. M. Pereira. História ela fundação do Império Brasileiro, vol. 5, livro 9. Rio de Janeiro:
Paulo: Hucitcc, 1995. Garnier.
Novais, Fernando A. & Mota, C. G. A Independência política do Brasil. São Paulo: Hucítcc, Silva, Luís António Vieira da. História da Independência do Maranhão. Tip. do Progresso, s.d.
1996. Silva, Maria Beatriz Nizza da. A repercussão da Revolução de 1820 no Brasil — eventos c
. O reformismo ilustrado luso-brasileiro: alguns aspectos. Revista Brasileira de História, ideologias. Revista cie História das Ideias. Coimbra: Universidade de Coimbra, 1978/79,
7, 1984. vol. II.
Nunes, Maria de Fátima. O liberalismo português: ideário c ciências. Lisboa: Iníc, 1988. . {coord.). O Império Luso-Brasileiro 1750-1822. Lisboa: Estampa, 1986.
Oliveira, Co-cília H. L. S. A astúcia liberal— uma relação de mercado eprojetospolíticos no Rio de . Movimento constitucional c separatismo no Brasil 1821-S823. Lisboa: Livros Horizon-
Janeiro (1820-1824). Tese de doutoramento, mimco, USP, 1986. te, 1988.
Píim, António. Evolução política do liberalismo. Belo Horizonte: Itatiaia, 1987. Souza, Otávio Tarquínio. História dos fundadores do Império. Vol. II: A Vida de D. Pedro I.
Pereira, Míriam Halpern (org.) A hí s co rio grafia portuguesa boje. Ler História, 21. Lisboa: Rio de Janeiro: José Olympio, 1960.
Teorema, 1991. Tavares, Francisco Muniz. História da revolução cm Pernambuco cm 1817. RJ, RIHGB, 60,
. . Breve reflexão acerca da historiografia no século XX. Ler História, 21. Lisboa, 1897.
Teorema, 1991. Tavares, Luís Henrique. A Independência tio Brasil na Bahia. Rio de Janeiro: Instituto
— . Negociantes, fabricantes c artesãos. In: Pereira. A crise do Antigo Regime e as Cortes Nacional do Livro, 1982.
Constituintes de 1821-1822. vol. II. Lisboa: Sá da Costa, 1992. Vargues, Isabel Maria Guerreiro Nobre. A aprendizagem tia cidadania. Contributo para a
Pina, Ana Maria Ferreira. De Rousseau ao imaginário da Revolução de 1820. Lisboa: INIC, definição da cultura política vintisia. Tese de doutoramento. Coimbra: Faculdade de Letras
1988. da Universidade de Coimbra, 1993.
206 FONTES

Vargucs, Isabel Nobre. Víntismo c radicalismo liberal. Revista ele História das Ideias, III.
Universidade de Coimbra, 19S1.
Varnhagcn, Francisco Adolfo. História da Independência. RIHCB, 1916.
Vcrdellio, Teimo dos Santos. As palavras f as ideias na Revolução Liberal ilc 1820. Coimbra:
INIC, 1981.
Vílar, Pierrc. Hidalgos, amotinados y gicrrilleros. Barcelona: Crítica, 19S2.
. Liberalismo poliriquc ec liberalismo économicmc dans 1'Espagnc du XIX sièclc. In:
Pctcira, Ferreira c Serra. O liberalismo na Península Ibérica na primeira metade do século
XIX. Vol. II. Lisbon: Sá da Costa, 1982.
Wright, B. F. (introdução c notas). O Federalista. Brasília: Editora da UNB, 1984.

A NOVA ATLÂNTIDA DE SPIX E MARTIUS


Karen Macknow Lisboa
21x21 cm, 222 páginas, ISBN 85-271-0414-8

A autora perscruta o legado científico, literário e artístico que


resulta da fascinante expedição de dois naturalistas bávaros que, a
mando da Real Academia de Ciências de Munique, percorreram
mais de 10.000 quilómetros de terras e águas do Brasil do início do
séculçvXIX. .. . . . . . . ...$.._ -,.... o .-...--'•,_..
SBD/FFLCH/USP

* SEÇÃO DE: HISTÓRIA TOMBO: 223404


• AQUISIÇÃO: DOAÇÃO/ FAPESP
PROÇ.98/02578-8 / N.F.N0 305971E/UNESP

DATA : 05/07/02 PREÇO: RS 25,00

Disponível nas Melhores Livrarias


LIVREIRO: SEU CANAL DE INFORMAÇÃO E CULTURA
Editora Hucitec Ltda.
'
Rua Gil Eanes, 713 — 04601 -042 São Paulo - SP, BRASIL

Tel.: 530-4532 — Fax: 530-5938
E-mail:/Juc/tec@rnand/c.com.br

,
cm Lisboa. Desvenda dilemas de homens
que, vivendo a crise do Império portu-
guês, pensam cm várias possibilidades
pani a nova constituição da nação. Por-
tuguesa ou brasileira, ela deveria contem-
plar a intricada gama de interesses re-
gionais consolidada nos séculos anterio-
res. Do debate entre esses parlamentares
já se pode vislumbrar a proposta do Im-
pério brasileiro e a nação que ele forma-
ria: uma associação de elites regionais,
brancas e civilizadoras, reunida em corno
de um herdeiro do trono português.

A INDEPENDÊNCIA POLÍTICA DO BRASIL


Fernando A. Novais
Carlos Guilherme Mota
14x21 cm, 89 páginas, ISBN 85-271 -0321 -4

Os autores questionam neste livro o sentido e os limites históricos


do processo de ruptura com a dominação colonial, situando-a nos
marcos da Era das Revoluções. Tratam, na perspectiva de uma
história de longa duração, da aceleração histórica que projetou o
Brasil do Antigo Sistema Colonial — um sistema específico —
para os quadros do imperialismo da Inglaterra.

M árcia Regina Berhel é doutora em


História Económica pela Uni-
versidade de São Paulo e professora da
Universidade Estadual Paulista—-Unesp
— câmptis de Marília.
Disponível nas Melhores Livrarias
LIVREIRO: SEU CANAL DE INFORMAÇÃO E CULTURA
Editora Hucitec Ltda.
Rua Gil Eanes, 713 — 04601 -042 São Paulo - SP, BRASIL
TeL: 530-4532 — Fax: 530-5938
E-maíl: hucitec@mandic.com.br
IMPRESSO POR
PROVO GRÁFICA
-. '- TEL: (011)418-0522

Você também pode gostar