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Ronald j. Raminelli

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TEMPO DE VISITAÇÕES
#
Cultura e Sociedade em Pernambuco e Bahia: 1591-1620
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HÉ:'.

M*.
Dissertação de Mestrado apresentada
P
P' ao Departamento de História, da Fa­
P culdade de Filosofia, Letras e Ci ê n ­
P .
P cias Humanas da Universidade de São
P Paulo sob a orientação, da Prof®. Dr®
P
P L a u r a d e Mello e Souza.;
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p
São Paulo
p
p. 1990

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DEDALUS - Acervo - FFLCH

20900109883

"Nunca vi o tempo
arrumando as malas.
Nunca vi o tempo
a fazer visitas.
0 tempo nâo viaja.

Nós é que locomovemos

0 tempo nâo passa


ele apenas olha o que passa"

Luis Sérgio dos Santos


\
Beatriz e Nina
INDICE

Abreviaturas

Introdução

1- D Visitador e o colono

1.1. a ri tual ....... 1


1.2. o monitório .... 18
Notas ................ 41

2- Denúncias e Confissbes

2.1. os caminhos do Visitador ..........'.


2.2. as transgressBss .................... 69
2.3. o delatados, delatores e confitentes 78
Notas .................................... 102

3- Relaçbes conflituosas

3.1. ameaças externas ................................... 1 12


3.2. conflitos e representaçbes do p o d e r ..... ;........ 123
3.3. casamentos m i s t o s .... .................. .......... 141
3.4. mercadores pragmáticos e debochados ......... . ... . 151
3.5. perpetuação de estruturas s a c i a i s ...... ,i. ....... 156
Mut as ............................................ .......... 166

4- Fronteiras da Cristandade

4.1. de cristãos a demoníacos 132


4.2. da vila ao sertão ..... 206
Notas ........................ 220

Conclusão 209
«

Fontes e Bibliografia

\
*** tid' ^

Abreviaturas
^
^

ABNRJ - Anais dá Bi bli ataca Nacional do Rio de Janeiro


^

AMR - Anais do Museu Paulista


^

cb — Confissão da Bahia (1591-92)


w **•*»» '«y» <u* w '«•* ^

db - Denunciações da Bahia (1591-93)

cp - ConfissBes de Pernambuco (1593-95)

dp - Denunciações de Pernambuco (1593-95)

CB — Confissões da Bahia (161S-20)


w

DB — Denunciações da Bahia (lólS-20)

( indicaçãb bibliógráfica completa dos autos das Visita


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ções do Santo Oficio se encontra nas Fontes e Bibliografias


pp 233-244 )
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INTRODUÇÃO

□ s autos da Visitação da Santo Oficia reunem depoimentos

de boa parte dos segmentos sociais residentes na Colônia, em

seu primeiro século de colonisaçâo. As narrativas compõem um

quadro disforme da sociedade, cujos traços acentuam determina­

dos aspectos enquanto outros nâo são ao menos pontilhados. Uma

pesquisa dedicada a pensar esta grande quantidade de informa­

ções enfrenta alguns impasses. Em um primeiro momento, ela se

depara com dados nem sempre passíveis de serem padronizados.

Contudo, o estudo quantitativo constitui o primeiro passo rumo

à compreensão do documento, fornecendo uma linha mestra capaz

de guiar todos os outros enfoques. Este tipo de análise também

é prejudicado pela falta de referências: as denúncias e con­

fissões, muitas vezes, omitem pormenores fundamentais; outras

centenas de registros da visita do século XVI estão perdidas

na Torre do Tombo ou desaparecera, m para sempre. Além disso, a

análise dos mesmos tornou—se, mais uma vez, deficitária e ca­

penga devido à precariedade das fontes contemporâneas às visi­

tas: os registros das Câmaras e igrejas se perderam ao longo

dos séculos. Assim, o estaque reduzido de dados e relatos so­

bre o final do século XVI prejudicou a leitura das porcenta­

gens. Para contornar os entraves mencionados, tentei relacio­

nar ou cruzar um bom número de informações. A tentativa, creio

eu, às vezes foi bem sucedida, mas deixou o capítulo II com

excesso de quantificações.

Os outros capítulos buscam interpretar os registras con­

servados pelos inquisidores. Esta etapa não poderia ter um

única enfoque, por isto, no capitulo I, procurei ressaltar


II

a simbolcgia dos ritos inaugurais de uma visita do Santo Ü-Fi —

I cio, destacando igualménte as diversas maneiras da população

compreender os procedimentos e comunicadas do Visitador. □ ca­


pitulo III s e g u i u u m a o u t r a l i n h a , privilegiando os conflitos

sociais presentes nos depoimentos. Finalmente, o capitulo IV

aborda o aspecto cultural, sempre preocupado com as transfar—

tnaçôes religiosas provocadas pela Inquisição ou induzidas pe­

las particularidades da Colônia. Apesar da presente disserta­

ção ter obtido alguns avanços nos estudos sobre a presença da

Inquisição no Brasil, devo can-fessar que o trabalho -foi, mui­

tas vezes, árduo devido à especificidade da fonte documental.


I
Em primeiro lugar, devo ressaltar o caráter superficial

da grande maioria dos relatos registrados pelos notários. Os


a depoentes economizavam nos detalhes e não eram estimulados pe­

los Visitadores a aprofundar nas matérias delatadas. Heitor

Furtado de Mendoça, poucas vezes, exigiu dos confidentes e de-


I
I nunciadores pormenores fundamentais para incriminação ou não
i
dos desviantes. Marcos Teixeira, por sua vez, indagava aos c o ­
I
I lonos sobre a origem das informações e o significado dos ri ­

tuais heréticos. Porém, ambos os inquisidores deixaram de lado


I
indícios reveladores, perdendo oportunidades de entender» com

mais precisão, as heresias presentes na Colônia.


4
V
Qs depoimentos ainda carecem de originalidade. Uma mesma
> denúncia era atribuída a um indivíduo mais de uma vez. A repe­
I
tição, portanto, reduz bastante o campo de ação do historia­
I
■x
dor , apesar da recorrência, por vezes, confirmar as evidên­
I
cias. Além disso, nota-se que os relatos são padronizados, os
I
4
! mesmos termos e concepções são recorrentes, demonstrando que
> os inquisidores interferiram na redação ou transcrição das fa-
i
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I
>.
?
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las. Neste sentido, vale lembrar a existência de "-filtros cul­

turais", presentes em qualquer documentação dedicada a perpe­

tuar a "visão de mundo" dos segmentos poulares. A primeira

possível alteração dos conteúdos delatados ou confessados era

realizada pelos inquisidores, que ouviam práticas muitas vezes

desconhecidas e as registravam, talvez, de maneira nebulosa.

Quantos relatos seriam mais ricos, caso os visitadores conhe­

cessem em pro-fuhdidade a tradição indígena e judaica? Um outro

■filtro se coloca a partir das peculiaridades do próprio depo-

ente que, -frequentemente, ignorava o signi-fiçado das heresias

levadas ao conhecimento da Inquisição. Um discernimento mais


I
apurado das mesmas evitaria delaçóes destituídas de fundamen­

tos. Outros denunciadores não haviam presenciado os atos des-

viantes, mas “ouviram dizer" que determinada pessoa tinha cos­

tumes estranhos. 0 conhecimento indireto das heresias também

exerceu interferências nos depoimentos, tornando muitos deles

incompreensíveis, pelo menos para nós homens do século XX.

0 estuda dos autòs das Visitaç&es deve ainda se debruçar

sobre as possíveis omiss&es, mentiras incriminadoras e inven-

çÊles descabidas, distorç&es capazes de inviabilizar ou difi­

cultar a comprovação de hipóteses e mesmo reduzir o espectro

da análise. Todos os entraves mencionados não impediram a ela­

boração desta dissertação, contudo os resultados certamente

seriam mais satisfatórios caso se pudesse consultar uma docu­

mentação mais extensa e diversificada.

Sou grato à Fapesp pelo financiamento da pesquisa durante

os anos de 1988 e 1990. Agradeço a valiosa orientação da pro­

fessora Laura de Mello e Souza e a contribuição dos amigos Ro­

naldo Vainfas e Renato Pinto Venâncio. Devo ainda ressaltar a


IV

i mportânci a das inf ornaç&ss sobre cultura judaica "fornecidas

pela Rabino Oren Boljover e por Susane Worcman do Museu Judai­

co do Rio de Janeira.
Capi t u l d I 0 Visitador e o Colono

1.1 - 0 Ritual

A cidade do Salvador se edificou em uma encosta, de rosto

para o poente e a uma.légua da barra (1). Do alto da colina,

os habitantes controlavam, de longe, marinheiros e navios que

iam e vinham, aportando ou zarpando rumo ao . grande mar. Na

praia, o movimento de pessoas e mercadorias era, por vezes,

intenso. Pois, na parte baixa desse povoado, se armazenava o

açúcar proveniente dos engenhas; esse produto permanecia no

local até o momento de partir em direção à Europa.

A nau do gavernador-geral D. Francisco de Sousa também

desembarcou nessa paragem, trazendo consigo o Visitador Heitor

Furtado de Mendoça. Era dia nove de junho de 1591 (2), em um

Domingo da Santíssima Trindade, quando o representante do San­

to Oficio chegou adoentado á sede administrativa da Colônia

(3). Por isso, talvez, não haja registros de qualquer soleni­

dade, comemoração ou procedimentos do Inquisidor nesta data,

sendo realizados somente no dia 28 de junho a procissão, a

missa e o início efetivo da visita. Anos depois, ao término da

incumbência na Bahia, Heitor Furtado de Mendoça se deslocou

para Pernambuco, alcançando o "Arrecife" em 21 de setembro de

1593, localidade a uma légua da vila de Olinda. Imediatamente,

o Visitador enviou, pelo meirinho do Santo Oficio, a carta de


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Sua Magestade à Câmara, e aos 24 dias do dito mês lhe foi ce­
^

dido um bergantim, para que pudesse se dirigir à sede da capi­


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tania de Pernambuco. Para chegar ao seu destino, ele velejou +

rio acima até encontrar o varadouro que constituia o porto de


*
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□ 1inda (4).
W

A chegada de autoridades a regibes tão remotas, certamen­


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te provocava rumores e burburinhos, quebrando a rotina dos ha­


w

bitantes da Colônia. Por um lado, o enviado do Tribunal, logo *


** W W W * *

#
ao se estabelecer, ocupava o posto mais alto da hierarquia

eclesiástica (5) . Por outro, a presença de D. Francisco de

Sousa marcou o término de um longo período sem autoridade cen­


w

tral efetiva. Pois, desde a morte de Manuel Teles Barreto, em


** **

lí de abril de 1587, não havia governo geral. Francisco Giral-

des, nomeado no ano seguinte, embarcou em Lisboa com destino


W

ao Brasil, mas se aproximou mais cedo do que convinha da costa


W

paraibana, ocasionando o desvio da embarcação para as Anti-


W
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lhas, devido aos ventos e ás correntes marítimas desfavoráveis

nesse período do ano. De volta a Lisboa, Giraldes não conse­


w

f
guiu retornar à Colônia, falecendo em 1589 (6). Na mesma nau

do governador, vinha "a casa da relação" (7), que era uma no­

vidade e destinava-se a incrementar as atividades jurídicas no


9
Brasil. Por conseguinte, parte dos desembargadores retornaram #
9
a Lisboa e a Relação teve seu estabelecimento adiado. Assim,

durante quatro anos, a América Portuguesa foi gerenciada pelo <9


governo interina da bispo D. Antônio Barreiros, caracterizando
#
a fraqueza política do domínio espanhol. A fim de contornar

essas dificuldades, a administração colonial, desde o inicio *


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W

da unificação das Coroas, procurou, sem muito sucesso, utili­


w

zar mecanismos repressores para fazer valer as leis nesta ter-


V
ra. □ empreendimento, portanto, destinava-se a controlar os

populares e os funcionários do governo indiferentes aos an­

seios e direitos do Estado (8).

G deslocamento de um representante do Santo Oficio e as

reformas empreendidas por Madrid cumpriram, então, o papel de

reverter a quase completa ausência dos representantes da Coroa

e de implementar a tarefa de submeter as almas e os corpos (9)

dos habitantes da Colônia. Deste modo, o Estado e o Santo Ofi­

cio pretendiam, por um lado, reprimir os abusos, as falcatruas

e os desvios morais. Por outro, a submissão das almas buscava

combater as heresias e crendices, destinando-se a enquadrar

uma população que, apesar de cristã, continuava sincrética e

mantenedora de alguns traços da tradição judaica. Dando inicio

ao ritual que precede a Visitação, o inquisidor, logo após o

desembarque, entrou em contato com as autoridades locais para

tornar pública a provisão de Sua Majestade

"em que dá comissão para que em seu nome visite


pelo Santo Gfício este Bispado e estado do Bra­
sil." (10)

Em seguida, se dirigiram aos aposentos do Visitador o ouvidor

da vara eclesiástica, o governador, os representantes da Câma­

ra e o ouvidor geral. Todos se apresentaram, leram a provisão

e comissão e

" depois de lida a beijaram e puseram na cabeça


e responderam que estão aparelhadas com toda a
vontade para sempre dar toda ajuda e favor ao
Santo Ofício e a ele senhor Visitador e para
cumprir em tudo a dita Provisão como nela se
contém e assinaram este termo." (11)

0 regimento de 1640 fornece, neste sentido, informações

mais detalhadas sobre os primeiros contatos entre a Inquisição

e os poderes locais. 0 titulo IV, denominado "dos visitado-

res", por exemplo, menciona que esse enviado deveria levar


consigo, além das provisões e ordens do Santo Oficio, cartas

de Sua Magestade destinadas exclusivamente ao Bispo, Julgado­

res e Oficiais da Câmara. Nas mensagens, o rei ordenava que se

concedesse todo o -favor e ajuda necessários á boa execução da

visita, -fornecendo agasalhos, mantimentos, e tudo que -fosse

indispensável à permanência do Visitador no local (12). 0 Re­

gimento se prende, igualmente, a pormenores sobre o começo da

Visitação, dizendo que se deveria encetá-la pela sede do Bis­

pada e procurar diretamente o Bispo, antes de travar, contata

com as demais autoridades. Esse Regimento, entretanto, -foi o

resultado de um século de experiência inquisitorial e, .,certa-

mente, diverge em parte das instruções recebidas pelo primeiro

Visitador do Brasil, na década de 1590. Apesar de ser muito

anterior ao Regimento mencionado, o Regimento de 1552 revela,

porém, a mesma preocupação com o relacionamento entre o Inqui­

sidor e as autoridades locais, mesmo se expressando de maneira

vaga. No capitulo 6o . , esse documento diz o seguinte:

“Tanto que os Inquisidores ou Inquisidor chegar


à cidade ou lugar da comarca onde de novo há de
começar a entender no oficio da Santa Inquisi­
ção depois de ter apresentado seus poderes ao
prelado fará ajuntar as justiças seculares..."
(13)

Depois de apresentar as cartas e provisoes, em 28 de ju­

lho de 1591, no oitavo Domingo após Pentecostes, Heitor Furta­

do de Mendoça deu início à Visitação na cidade de Salvador e a

uma légua em redor, publicando sol enemente a patente de Vi si —

tador e concedendo trinta dias "de graça" (14) ao povo da re­

gião. Na oportunidade, realizou-se uma procissão com a presen­

ça do Bispo Dom Antônio Barreiros, o seu cabido, os principais

da governança e justiça, vigários, curas, capelães, confrarias

e o povo da Capitania (15). A cerimônia partiu da Igreja de


Nossa Senhora da Ajuda, localizada (16) próxima ao prédio da

Câmara e dentro das -fortificaçOes construídas por Tomé de Sou­

za. Segunda Gabriel Soares de Sousa, o templo se situava pró­

ximo à ermida de santa Luzia, no topo de uma rua e possuia

"uma capela de abóbada; no qual sitio, nò principio desta ci­

dade esteve a Sé" (17). 0 cortejo destinava— se a percorrer as

ruas da cidade até chegar à Catedral da Sé, construída do lado


I
de -Fora das antigas muralhas de taipa e vizinha ao colégio dos

Padres da Companhia de Jesus (18y. Essa xgreja possuia três

naves de bom tamanho, "alta e bem assombrada qual tem cinco

capelas muito bem feitas e ornamentadas, e dois altares nas

ombreiras da capela—mor. Esta Sé em redondo cercada de terrei­

ro, mas nâo está acabada da torre dos sinos e do relógio..."

(19)

A procissão caminhava rumo ao norte, o Visitâdor a seguia

debaixo de um pálio de tela dourada (20) rodeado dos princi­

pais da terra. Assim, em praça pública, as autoridades locais

e os religiosos exaltavam a grandeza e consolidavam a legiti­

midade deste homem designado pela Inquisição lisboeta. □ cor­

teja fornecia ao público uma imagem idealizada, repetindo com

fidelidade as hierarquias e os espaços ocupados por cada indi­

víduo em uma sociedade cristã. A procissão, enfim, tornava-se

uma representação da comunidade perfeita, harmônica e livre

das heresias. Todos participavam deste acontecimento: os reli­

giosos, os representantes do Estado, o povo, todos presentes,

mas todos em seus devidos lugares. A solenidade, ao reproduzir

a ordenação divina, incutia nos espectadores e participantes o

desejo de lutar pela imutabilidade dessa construção etérea e

de apontar o elemento estranho e pervertedor, capaz de arra-


#

nhar a placidez da cerimônia e instaurar a desordem na Cris—


£
tandade. Esse, talvez, seria o intuito do Visitador ao promo­ m
m
I ver o cortejo. Destarte, converteria sua tarefa de submeter
I corpos e almas em dever de cada cristão. Pois a cerimônia, que
> è
induzia os citadinos _ã__y.isua.Li_z.ar_a-tvar-monia- proporcionada pe­

I los representantes do governo colonial e enviados de Deus,


)
conclamava-os, do mesmo modo, a defender os ideais propalados

pelo inquisidor.
■f
A eficácia desse evento não poderia ser abalada. -Portan­

to, a simples ausência ou a recusa de um mero funcionário da

Coroa em comparecer a qualquer ato promovido pelo Santo Oficia

seria interpretada como desrespeito ou considerada heresia. Os

eventos teriam, então, a participação maciça das autoridades

locais; do contrário, a simbologia das cerimônias estaria com­

prometida, ou mesmo inviabi1izada. Na Colônia, o vereador Ber­

nardo Pimentel respondeu ao processo, por não comparecer a uma

solenidade promovida por Heitor Furtado (21).

Ao término desse cortejo, já nn interior da Catedral da

Sé, o Inquisidor, para dar inicio á missa, se assentou em uma

cadeira de veludo carmesim guarnecida de ouro e localizada

"debaixo de um dossel de damasco carmesim na capela maior aci­

ma dos degraus junto ao altar" (22). Na Bahia, após o sermão e

no fim da missa, o Arcediago da Sé Baltazar Lopes, vestido com

uma capa de asperges de damasco branco, tela de ouro e ca­

beça descoberta, leu em voz alta e inteligivel voz os éditos e

monitórios, acompanhados do alvará de Sua Magestade. Pelo Re­

gimento de 1640 essa cerimônia se repeti ri a todos os anos, no

primeiro Domingo da Quaresma, havendo missa e proclamação do

à
S' édito da Fé em todos os conventos e paróquias dos distritos
7
(23). Porém, no caso excepcional de uma visita no Ultramar, a

solenidade seria anunciada com antecedência, para que não hou­

vesse outras pregações na data do cortejo e do ato de publica­

ção da mensagem inquisitorial (24).

Após a leitura do alvará de Sua Magestade, Heitor Furtado

de Mendoça cumpriu o protocolo e sentou-se em uma cadeira na

capela maior, de frente para o altar, onde se encontravam uma

cruz e dois livros missais abertos, sobre os quais estavam

duas outras cruzes (25). Realizaram—s e , então, os juramentos.

Inicialmente, o governador se apresentou e cumpriu as instru­

ções do Santo Oficio; em seguida vieram o ouvi dor—gerai, os

representantes da junta da Câmara, o alcaide-mor, os almota-

céis, as meirinhos, os alcaides e o povo. Todos se ajoelharam

e colocaram

" as mãos sobre os livros e cruzes que estavam


em um altar no meio da capela maior (fizeram)
perante o senhor Visitador do Santo Oficio Hei­
tor Furtado de Mendoça o - .juramento da fé na
forma declarada no regimento..." (26)

Portanto, o momento compreendido entre a chegada do Inquisidor

e o inicia da Visitação era dividido em três partes: 1 - Pri­

meiramente, o Visitador, antes de chegar à comarca, pedia per­

missão às autoridades locais para entrar na vila ou cidade -

fato mais evidente na documentação da Visitação de Pernambuco.

Esse procedimento ocorria, talvez, devido ao cargo ocupado por

Heitor Furtado de Mendoça no Tribunal de Lisboa, que dada a

sua importância, não permitia que chegasse a uma localidade

sem que fossem cumpridas as determinações do protocolo (27).

O membro da Inquisição era estranho à comunidade, e deve­

ria ser apresentado em grande estilo à elite e ao povo. Na

verdade, a primeira etapa era de reconhecimento, por parte do


a
clero e dos principais da terra, dos poderes do Inquisidor e
#
da amplitude da visita. Por outro lado, o Tribunal de Lisboa
%
solicitava às elites coloniais autorização e ajuda para viabi­

lizar as tare-fas programadas (28). Recebendo a comunicação de

Sua Majestade e da Inquisição, o Bispo e os dignitários ex­

pressavam a intenção de auxiliar e promover as cerimônias ne­

cessária à visita. Assim, beijavam e punham na cabeça a comis­

são e provisão, em sinal de respeito e obediência a Felipe II,

rei de Espanha, ao Tribunal e ao seu representante. 2.- A eta­

pa consecutiva era a realização de um cortejo. Nele o Inquisi­

dor teria lugar de destaque e se apresentaria junto ao prelado

e principais da terra. A procissão destinava-se a percorrer

boa parte da cidade, cumprindo a -função de demonstrar, publi —

camente, a al ianca entre o Santo O-ffcio e os poderes da comar­

ca visitada. 3 - Finalmente, após a missa na Catedral, os ho­

mens da governança e o povo prestavam juramento de joelhos,

com as mãos sobre os livros missais e cruzes, se submetendo e

jurando fide l idade ao Visitâdor, como em uma homenagem vassá-

1 ica. A partir desse momento, os poderes seculares cediam es­

paço para a atuação do Inquisidor, sendo ele a maior autorida­

de eclesiástica da região, durante o tempo da visita.

No entanto, esses ritos não eram apenas cerimônias ou me­

ros rituais. Eles, como diria Le Goff (29), constituiam um


#
sistema, ou melhor dizendo, um conjunto de ritos integrados e

indispensáveis ao bom andamento da Visitação. Deste modo, o

empreendimento de Heitor Furtado somente teria sucesso, caso

as etapas do ritual -fossem executadas de maneira exemplar; do

contrário, a eficácia simbólica do conjunto estaria comprome­

tida. Neste sentido, se não houvesse procissão, por exemplo, o

í
contato entre o Visitador e os populares seria prejudicado, e
4
a mensagem do monitório não teria a difusão necessária para

suscitar denúncias e confissbes; se não se realizassem o en­


#
% contro e o entendimento do Inquisidor com os poderes locais,
*
talvez ocorressem atritos, ao longo da visita. □ juramento,

por sua vez, era a consolidação dos laços de fidelidade cons­


m truídos desde a chegada do representante do Tribunal. A partir

da cerimônia, a decisão de punir ou perdoar, castigar ou ino­


o
centar os crimes da alçada da Inquisição seria tomada.pelo In­

quisidor. Os poderes secular e eclesiástico se colocavam em

segundo plano; o Visitador seria o "novo suserano". Contudo,

ao contrário do que ocorria no feudalismo europeu, os juramen­

tos prestados ao Visitador não eram executados, unicamente,

pela elite. Nas Visitaç&es, a comunidade inteira compactuava

com o Inquisidor. Foi o que narrou Manuel Francisco, notário

do Santo Oficio:

" E logo depois de todas.as sobreditas pessoas


terem feito o dito juramento eu notário cheguei
ao Cruzeiro e em alta e inteligível voz li para
a mais gente e povo a forma do dito juramento
como se contem no Regimento estando todos de
joelhos com os olhos na cruz e nos missais que
estavam levantados e acabando de lhe ler per­
guntei se o juravam e prometiam assim ao que
responderam que assim o juravam e prometiam em
fé e certeza" (30)

Os juramentos eram marcados por uma forte tendência hie­

rárquica, separando governantes e governados e tratando-os de

maneira diferente. Os primeiros juravam individualmente e com


m
a presença do Inquisidor; enquanto o povo participava do even­
H
to coletivamente e com a intermediação do notário. Esse proto­
%
colo, procurava assegurar e reproduzir a imagem' ordenada da

sociedade. Deste modo, exaltava a hierarquia criada por Deus e


m combatia, ao mesmo tempo, a desordem propalada pela heresia.
m
%
I

#
M r t 'k 'f c 'f c

10
0 Visitador, contudo, não se satisfez com esse aparata

cênico e realizou Autos—de-Fé na Colônia (31). Sobre o assunto

não existem informações pormenorizadas. Há, entretanto, noti­

cias vagas nas correspondências entre o Tribunal do Santa 0fi—

cio e seu representante no Brasil (32). No documento, os in­

quisidores declararam ter recebido a lista de pessoas saídas

nesse Auto e agradeceram ao Visitador por ter realizado uma

cerimônia com tanta solenidade (33). Do outro lado do Atlânti­

co, igualmente, os funcionários do Tribunal nâo mediam esfoi—

ços para promover, com fausto e ostentação, eventos desta na­

tureza. Poucos foram os Autos-de-Fé realizados a portas fecha­

das. Quando isto ocorria, o cenário do acontecimento era o Pa­

lácio da Inquisição ou um convento. Nestes casos havia o inte­

resse da Instituição em esconder os condenados, por se trata­

rem, quiçá, de pessoas afamadas. A execução de Dami ão de Gois

obedeceu a essa premissa (34). Porém, habitualmente, os corte­

jos conduzindo os transgressores ao cadafalso eram públicos e

destinavam-se a impressionar os populares. Com esse intuito, o

Santo Oficio criou uma encenação capaz de provocar nos espec­

tadores devoção e a certeza de que os hereges tinham tido to­

das as chances de se redimir.

Para demonstrar integridade e harmonia, os eventos promo­

vidos pela Inquisição seguiam um protocolo pormenorizado, ca­

paz de substituir a sociedade real pela idealização e produ­

zir, na rua, uma cerimônia hierarquizada e dividida entre o

bem e o mal, entre a verdade e o erro. Hierarquizado porque os

participantes eram previamente classificados e localizados no

cortejo. Esse ordenamento baseava—se nos seguintes itens: se o

indivíduo era religioso ou não; transgressor ou não. Entre os


pecadores e hereges, havia igualmente uma separação: no inicia

do cortejo vinham os penitentes, em seguida, os relaxados ao

%sf braço secular, as estátuas, efígies ou caix&es destinadas á



punição simbólica; primeiro os homens, depois as mulheres. Uma

f parte dos "representantes do bem" vinham na -frente dos conde­


;t
:.
c
I nados, abrindo o cortejo. Eram
"
yf4
" a comunidade dos -frades de São Domingos e de­
% pois a cruz da Irmandade de são Jorge, com os
seus irmãos barbeiros, a quem a qualidade de
defensor do reino, lograda pelo seu santo pa- 1
3 droeiro. . ." (35)

%
No fim da procissão, se encontravam os familiares a cavalo, os
*
a
P altos dignitários e o Inquisidor Geral, escoltado de nobres.
3?
Em Lisboa, no ano de 1682, montado em um cavalo branco e co­

berto por um chapéu preto com fita verde, o Inquisidor era

acompanhado de inquisidores e deputados, todos munidos de to­

chas ace sas (36). Assim, os nobres e os inquisidores se mis­

turavam no término da procissão, em sinal da identidade entre

o Estado e o Tribunal do Santo Oficio.

As cerimônias promovidas pela Inquisidor repercutiram,

profundamente, entre os habitantes da América Portuguesa, in­

duzindo—os a denunciar e confessar. Centenas de pessoas, du­

rante anos, compareceram frente a Heitor Furtado de Mendoça e

Marcos Teixeira decididos a relatar a que sabiam sòbre here­

sias e desrespeitos aos dogmas e à fé. O padre Francisco Pinto

Doutel, por exemplo, se deslocou de sua igreja em Camaragibe,

para denunciãr, na Bahia, cerca de 25 pessoas. Esse religioso

não esperou a chegada do Inquisidor em terras pernanbucanas e


•I
resolveu delatar, o mais rápido possível, os descalabros ocor­

ridos naquelas paragens (37). A outras pessoas, o ritual trou­

xera à memória conversas e detalhes incr imi nadores, como con-


tou Ilena Fonseca, em 29 de outubro de 1591:

"...no domingo antes do auto da publicação da


Santa Inquisição lhe contou na Sé desta cidade
Dona Maria de Vasconcelos mulher de Baltazar
Pereira que disseram que em casa de Francisco
Rqiz Castilho, mercador desta cidade disse uma
pessoa estas palavras, por nosso mal veio cá
esta Inquisição, e que outra pessoa respondera
mal o sabeis ainda que há nesta terra homem que
mete o crucifixo debaixo de sua mulher quando
dorme com ela,..." (38)

Comumente, os colonos procuravam na memória passagens in-

criminadoras. 0 cerimonial trazia ao pensamento histórias qua­

se esquecidas ou indícios capazes de levar o rival ao cárcere.

Por isso, muitos indivíduos temiam a permanência vigilante e

ostensiva do enviado do Tribunal. A denúncia de Isabel de Oli­

veira, moradora da ilha de Paripe, por exemplo, relatou a

existência de judias tristes e temerosas com a nova situação

(39). Bento Teixeira, por outro lado, recorreu ao aparelho re­

pressor, e admoestou Maria Peralta por desejar tornar "em lin­

guagem" uns salmos, e perguntou— 1he se .não temia a Deus, a es­

tada da Santa Inquisição na Bahia e o "castigo à porta" (40).


I
Outros não esperaram as repercussbes da visita e decidiram fu­

gir. 0 fato foi denunciado por Isabel Antunes, após afirmar

que Ana Jacome era feiticeira. Ana, mulher "torta de um olho",

entrou na casa de sua delators, proferiu algumas palavras e

cuspiu três vezes, feitiço responsável pela morte do filho de

Isabel Antunes. A acusada, contudo, não permaneceu na fregue­

sia de São Pedro, e "ora se ausentou segundo dizem depois da

vinda do Santo Oficio" (41). Felipa de Freitas, por sua vez,

compareceu á casa do Visitador em 17 de agosto de 1591 e con­

tou uma conversa que havia tido com Lianor da Rosa, cristã-no-

va e mulher de um mercador chamado João Vaz Serrão. Lianor, na

oportunidade, revelou preocupação com os resultados dessa vi-


I

I
&
"vindo a -falar na Santa Inquisição que estava
I novamente na terra, que muitas pessoas haviam
5
S>

- de vir acusar outras com ódio e ela denunciante
lhe respondeu que a mesa do Santo Oficio não se
I podia vir senão com verdade." (42)
5
%. G ódio e a denúncia eram compánheiros inseparáveis nesses
6
I tempos inquisitqriais. 0 medo de ver revelados segredos ínti­
&
s?
mos e de ser mal interpretado levaram muitas colonos a compa­

3Í- recer frente ao Visitador, a fim de relatar possíveis deslizes

ou atos impensados. Por outro lado, alguns denunciados, tinham

"fama pública" devido a seus comportamentos desviantes, que


I
I
suscitavam suspeitas e acusaçfbes. Por vezes, esses mesmos in­

divíduos eram alvo de ameaças e chantagens, como as que foram

delatadas por Tomas Lopes, o Maniquete. Segundo o denunciador,


a.
3
Belchior Mendes de Azevedo lhe procurou dizendo ser primo do

senhor Visitador e que o prenderia em nome do Santo Ofício.

\
Porém o alfaiate Tomas Lopes poderia se livrar deste triste

fado, cedendo a Belchior "uma pipa de vinho e dez cruzados em

dinheiro". Depois de realizada a transação, o denunciado "rom-


&
V
peria logo os papéis sobreditos" (43) e o Maniquete escaparia

das garras da Inquisição.


I
Essa narrativa, entretanto, não pode ser compreendida em
I-
I si mesma, sendo indispensável a consulta de outros relatos
I contra o alfaiate. Neste sentido, há, na Visitação de Pernam­

buco, três denúncias envolvendo esse indivíduo, todas acusan­

do—o de judeu. A denúncia de Frutuoso de Moura, no dia 10 de


I
novembro de 1593, por exempla, nos fornece pistas da fama de

Tomas Lopes na Capitania de Pernambuco. Frutuoso descreveu-a


I
da seguinte maneira:
I
" Tomas Lopes cristão-novo morador no Varadouro
desta vila, de alcunha o Maniquete costuma em

I
I
14
certos dias e tempos atar um pano no dedo do pé
e andar assim por esta vila, servindo este de
sinal para outros cristãos novos irem se ajun-
tar em Camaragibe e -fazerem esnoga porém que
ele denunciante nunca lhe viu -fazer isso." (44)

Esta narrativa possui quatro elementos da maior importân­

cia para o entendimento da atuação do Tribunal do Santo Oficio


è
na Colônia: 1 - Tomas Lopes era um alvo fácil para extorsões

como a que foi proposta por Belquior Azevedo, pois era cris—

tâa-novo e supeito de participar de ajuntamentos em uma sina­

goga; 2 - Camaragibe era um local a quatro léguas de .Olinda,

onde supostamente marramos, principais da terra e pessoas do

povo se encontravam para executar ritos judaicos (45). Sendo

assim, a ameaça de Belchior talvez não se direcionasse exclu­

sivamente ao Maniquete, mas a todos os participantes dessas

festividades, lembrando-se que muitos deles eram pessoas abas­

tadas e capazes de fornecer grandes quantias ao chantageador;

3 - Nas Visitações, freqüentemente, se relatavam procedimentos

ou ações que o denunciador não havia presenciado, mas das

è quais ouvira falar e, por isso, resolvera delatar à Inquisição

(46). Quando informações sobre desvios e transgressões eram

fartamente difundidas na comunidade, dizia-se que era de "fama

pública". Esse fenômeno provocou inúmeras acusações sem que os

delatores tivessem presenciado os fatos. Desta forma, muitas

pessoas foram acusadas na Bahia e em Pernambuco, demonstrando

que a difusão de informações era intensa e que alguns interes­

sados se aproveitavam dos "comentários" para incriminar os

grupas rivais; 4 - A presença do Inquisidor intensificou a

raarginalização de pessoas socialmente reconhecidas como des-

viantes. A Inquisição, dessa forma, legitimava ações discrimi­

natórias e fornecia subsídios para chantagens, como a proposta


15
por Belchior Mendes de Azevedo.

Outras vezes, contudo, a autoridade do Inquisi dor era

usada em procedimentos menos escusos, como relatou Belchior da

Silva. Essa morador da -freguesia de São Pedro declarou, em 16

de novembro de 1593, gue_ estava era .sua casa, às des horas da

noite, quando Gaspar Figueira, acompanhado de negros, bateu a

sua porta e ordenou-lhe que abrisse em nome da Santa Inquisi­

ção. Na verdade, Gaspar recorreu ao poder dessa Instituição


I
para obrigar seu filho, que havia fugido e se escondido em ca­

sa de Belchior da Silva, a voltar consigo (47). Esse exemplo,

apesar da simplicidade da narrativa, reforça hipótese da fa­

lência da autoridade pública colonial. Pois, do contrário,

qual seria a razão para Gaspar Figueira não ter evocado o nome
©
do governador locotenente ou de qualquer outra autoridade se­

cular ou religiosa? Esse detalhe, então, assegura a legitimi­

dade e força política do enviado da Inquisição e revela sua

hegemonia sobre os poderes locais.

Em contrapartida, Maria de Gois, moradora emTapuâ, acusou

um cristâo-novo, não denominado, de reclamar da chegada da

Santa Inquisição, dizendo que havia sido o Diabo que trouxe

essa gente para Bahia (48). Do mesmo modo, João Batista, tam­

bém cristão novo, declarava, segundo denúncia, que esta Insti­


© tuição tinha parte com o Maligno e dizia: "lá vem os diabos da

Inquisição"(49). Os depoimentos contrários ao Inquisidor são

numericamente inexpressivos, além de serem relatados sempre em

denúncias, fato que pãe em dúvida a veracidade dos depoimentos

— talvez o pequena número de relatas deste tipo se deve ao me­

do dos colonos de se contraporem aos inquisidores publicamen—

te.
16
No tocante ao prestigio do Tribunal entre as comunidades,

Henry Kamen comentou que o apoio popular era a principal base

para a manutenção de um empreendimento desse tipo. As perse­

guições representavam os interesses de uma considerável parce­

la da sociedade:"a agitação popular, fomentada pelas classes

superiores, tornou-se a base do poder da Inquisição" (50).

Kamen, entretanto, divergiu de Llorente sobre a questão, pois

o último ressaltava o sentimento ambíguo de amor e ódio nutri­

do pela massa quando se tratava dos procedimentos dp Santo

Oficio. Por outro lado, a pesquisa de Gustav Henningsen sobre

a feitiçaria basca explora a influência dos sermões proferidos

pelos inquisidores e a reaçào violenta dos populares contra os

acusados de bruxaria. No País B a s c o , a perseguição empreendida

pelos visitadores provocou o ódio da comunidade, a multiplica­

ção de suspeitos e casos de bruxaria. Demonstrou-se assim a

propensão dos habitantes em assimilar o discurso inquisito­

rial. Consequentemente, surgiram inúmeros persegui dores, dis­

cípulos de Satã, endemoniados e vitimas de malefícios. Enfim,

a Inquisição, ao invés de extinguir as práticas mágicas, con­

tribuiu para a sua difusão entre as populações bascas (51).

No entanto, a política de hemogeneidade cultural, empre­

endida pela Inquisição ou pelo Estado Absoluto, nem sempre ob­

teve sucesso. Houve regiões onde a comunidade resistiu à jus­

tiça inquisitorial , eclesiástica ou estatal. Nestes lugares, o

fenômeno de caça aos hereges fracassou, não ocorreram denún-

cias e o equilíbrio interno local se manteve inabalável. Refe­

rindo-se à ação do Estado Absoluto, Muchembled (52) acredita

que as perseguições necessitavam de fatores capazes de incre-


I
mentar o desequilíbrio e a competitividade entre os indivi-
duos. Os responsáveis por esses conflitos seriam, segundo a

historiador, o crescimento demográfica, a transformação econô­

mica, as grandes diferenças sociais e o empobrecimento.

Os elementos m e n c i o n a d o s p o r Robert Muchembled são os

responsáveis pela destruição das comunidades tradicionais e

pelo surgimento de sociedades diversificadas e regidas sobre­

tudo por lsis econômicas. Os fatores supracitados estavam pre­

sentes no cotidiano colonial e pesaram decisivamente para su—


I
cesso da visita. A América Portuguesa, nesse período, vivia

grandes transformaçbes provocadas pela expansão das conquistas

e das áreas agrícolas, aumento da produção açucareira, migra-

çfâes em massa de mercadores, cr i stãos-novos, homens de cabe­

dais, artífices e negros africanas. A situação ainda se agra­

vou com a chegada de inúmeros degredados; com o forte sentido

de provisoriedade e.a falta de laços fraternais entre os colo­

nos (53); o conflito entre senhores de engenho e mercadores

(54); a tensão entre a Colônia e a Metrópole (55); o aumenta

das áreas conquistadas sobre o território indígena e sua es­

cravidão (56); a disputa entre jesuítas e colonos em torno da

escravidão do aborígena (57); conflitos raciais (58); constru­

ção do escravismo colonial (59); diferenças culturais, sobre­

tudo antagonismos religiosos (60); e a falência da autoridade

régia e de seus representantes (61).

o depoimento de Belchior da Rosa, nesse sentido, é um bom

exemplo do grau de di versificação social e desintegração moral

em que se encontravam as comunidades coloniais, no tempo das

Visitações. Belchior contou que:

"...seu filho chamado João da Rosa, casado e


ora morador nesta vila e por quanto nela há ví­
cio que os oficiais da justiça a vendem por di­
nheiro e peitas e rogos dos poderosos, e fazem
erros e -falsidades em seus o-ficios tirando a
justiça às partes em -favor dos que mais podem..
- estando nesta vila veio o dito seu filho com
ele denunciante em prática com o dito João Nu­
nes a queixar do dito vicio e mau costume da
terra dizendo que essa causa queria largar o
oficia de tabelião por nâo encarregar sua cons­
ciência..." (62)

No depoimento acima, torna-se evidente a falência da adminis­

tração colonial a as diferenças sociais, elementos propiciado-

res de denúncias e revolta por parte das vitimas do sistema.

João Nunes, rico mercador de Olinda, ainda foi acusado de ser

onzeiro e de realizar negócios ilícitos; de proferir blasfê­

mias contra o Papa; maltratar crucifixo e retábulo; não res­

peitar feriados ou dias santos; ler o texto originado do Con­

cilio de Trento fazendo reprovações; raptar e se amancebar com

uma mulher casada (63). ,

Em sintese, o conjunto de fatores supracitados se encon­

trava presente na Colônia, agravando a luta de facções, a dis­

puta pelo poder e a necessidade de intervenção de uma autori­

dade. No caso, a ação reguladora seria exercida pelo represen­

tante da Santa Inquisição, já que o Estado não era capaz de

med i ar conflitos e implantar um sistema harmônico ou menos

turbulento — devido ao vazio de poder anteriormenté menciona­

do. A inexistência de um equilíbrio interna também incentivou

os colonos a participar das procissões, missas, dos juramentos

e ouvir com cuidado o que dizia o notário, ao ler o rol de

transgressões passíveis de serem denunciadas ou confessadas.

Enfim, o ritual mostrava seus primeiros resultados.

1.2 O Monitõrio
19
"...ela respondeu que é boa cristã e nunca sou­
be nem teve nada de lei de Moisés que -fez as
ditas coisas sem entender que eram judaicas e
que depois que se publicou a Santa Inquisição
nesta cidade e ouviu contar as coisas que se
declaravam no Edito da -fé entendeu serem judai­
cas que dito tem e n u n c a m a i s a s -fez e que da
culpa que tem em as -fazer exteriarmente sem ter
no coração erro algum de -fé pede perdão e mi se—
r i cór dia". C64)

D depoimento da cristà-nova Ana ftlcoforada revela o contato da

confidente com o monitório e com delimitações precisas entre o

licito e o ilícito, o pecado e o não-pecado. Pois a -função

primordial desse documento era criar, nas comunidades, -fron­

teiras mais rígidas entre a ortodoxia e a heresia. O monitório

cumpria também o papel de examinar consciências, indicar o

elemento nocivo à Cristandade e tornar públicos os caminhos

percorridos pelo pecada e heresia.

Heitor Furtado de Mendoça e Marcas Teixeira talvez empre­

garam, durante as visitas á colônia, o monitório de 1536, es­

crito por Dom Diogo da Silva (65). Esse documento pode ser -di­

vidido em quatro partes: CONVOCAÇÃO, JUSTIFICATIVAS, HERESIAS e

PENALIDADES. Os temas, contudo não se encontram separados e

compartimentados na ordem acima. Eles se misturam e se repetem

ao longo do documento. Deste modo, a CONVOCAÇÃO localiza-se,

sobretudo, na parte inicial e destina-se a conclamar o povo

para denunciar os crimes de heresia e apostasia. Para ampliar

o campo de ação da mensagem, procurou-se construi-la com ora­

ç õ e s , verbos, adjetivos e substantivas capazes de abarcar um

grande número de pessoas e induzi-las a comparecer -frente ao

Visitador. A convocação destina-se, antes de. tudo, a atrair

pessoas para denunciar; o ato de confessar no entanto não é

sequer mencionado (66).

0 Santo O-flcio empregou nesta parte substantivos (pesso—


20

as, homens, mulheres, eclesiástic o s , cléricos seculares, reli­

giosos, religiosas, vizinhos e moradores), no plural, no mas­

culino, no -Feminino, marcando também a d i s t i n ç ã o e n t r e l e i g o s

e religiosos. Os últimos ainda -foram subdivididos hierarquica­

mente e em gêneros. Os adjetivos ou locuçües adjetivas (de

qualquer estado, dignidade, proeminència e condição, isentos,

isentas, não isentos e não isentas) demonstram, igualmente, a

intenção de ampliar a clientela, destacando as diferenças so­

ciais e a relação do denunciador com a heresia. Os verbos en­

contrados nesta parte do monitório são:

vistes ouvistes sabem lerem

viram ouviram sabeis

virem ouvirem

Os principais verbos empregados na convocação eram: ver,

ouvir, saber e ler, no pretérito perfeita, futuro do subjunti-

vo e presente do indicativo. Esses verbos estão na 2a. pessoa

do singular, 2a. e 3a. pessoas do plural. Os verbos de ação

(ver, ouvir e ler) se encontram no pretérito perfeito e futuro

do subjuntivo, enquanto o verbo saber está no presente.

A análise léxica da convocação permite concluir que os

inquisidores ampliaram o campo de ação do monitório através de

diversos adjetivos e substantivos; ou quando empregaram as se­

guintes expressões: "a todos em geral, e a cada um em espe­

cial", ou "todas as pessoas" (67). Os verbos no subjuntivo,

logo no inicio do documento, induzem as pessoas, que a partir

daquele momento entrassem em contato com as ditas transgres­

sões , a denunciá-las; os verbos no pretérita perfeito concla-

I
21
mam as indivíduos, já cientes dos desvias, a delatá-las; a
i
f
l
j
verbo saber na presente a condição sine qua non para a denún­

cia; os verbas na segunda pessoa do singular ou plural persua­

diam diretamente as -futuras d e n u n c i adores; e as autras na -for­

ma de sujeita indeterminado, mais- uma vez, ampliam d espectro

do monitário. As orações "canvdcativas" se encontram, princi-

pal mente, no inicia do documento. Contudo, o ínquisidor, ao

pa r t icularizar algumas transgressões, utilizou, ao longo do

texto, -frases como:

"...se sabeis, vistes ou ouvistes, que algumas


pessoas, ou pessoa, fizeram ou fazem certas in­
vocações dos diabos..." (68)

0 exemplo supracitado menciona o tipo de transgressão,

enquanto as frases "convocativas" iniciais se referem ao peca­

do de maneira genérica.

0 ato de conclamar é seguido de JUSTIFICATIVAS. A exis­

tência de heresia e apostasia em uma determinada comarca jus­

tificava o envio de inquisidores ao local, a fim de ouvir a

comunidade. Deste modo, a perseguição ao transgressor era le­

gitimada em nome da conservação dos costumes e pureza da santa

-fé católica. Pois, como rezava o monitário de Evora, o oficio

do Inquisi dor—mor obriga:

"...para glória, honra e louvor de Nosso Senhor


e Salvador. Jesus Cristo e exaltamento da Santa
Fé Católica, reprimir as ditas heresias e ar­
rancá-las do povo Cristão..." (69)

0 monitório de 1536, deste modo, relacionava heresia a

perseguição. Assim, onde houvesse transgressões deveríam

ocorrer visitas, sendo essa lógica simples e imediata. Em con­

trapartida, o monitório de 1640 utilizava um raciocínio mais

sofisticado e profilático. 0 documento se empenhava na difusão

e no incentivo á educação religiosa. Neste sentido, a insi—


piente difusão da ortodoxia era, talvez, a principal propul-
è sionadora da visita; e não, exclusivamente, o aparecimento
è
4 pontual de práticas heréticas. Enfim, é notável a influência

è do Concilio de Trento nessa nova postura do Tribunal do Santo


è Oficio, revelando, destarte, o interesse da instituição em
4
è educar e construir uma Cristandade harmônica e não exclusiva­
4 mente punir e castigar.Na realidade, tal pretensão do inquisi-
4 I
dores não passava de um sofisma, pois para construir uma Cri s-
è tandade harmônica, a Inquisição puniu e castigou.
4
A ignorância popular sobre as fronteiras entre o bem e o

mal emperrava os mecanismos repressores da Inquisição. Pois o

desconhecimento reduzia as denúncias, empobrecia as confissões


è
4 e favorecia a conservação, consciente ou inconsciente, de cos­
4 tumes pagãos ou a permanência de práticas judaizantes. A de­

núncia de Domingos Fernandes, estudante do colégio da Compa­

nhia de Jesus, é um bom exemplo do despreparo teológico dos


4
colonos. Em 5 de novembro de 1593, o estudante compareceu

4 frente ao Visitador para delatar Bento Teixeira, cristão—n o v o ,

mestre de ler e escrever em Olinda, por não ministrar aulas

aos sábados, alegando que não era de sua vontade exercer a

profissão neste dia da semana. 0 fato ocorreu várias vezes; o

aluno, a principio, desconhecia a intenção do mestre, "mas de­

pois que ouviu o Edito da fé por ele ser cristâo-novo me pare­


4 ceu mal" (70). 0 depoimento revela, então, que nem mesmo um

estudante, e logo alguém próximo ao saber erudito, era capaz

de indicar, com segurança, as condutas suspeitas de judaísmo.

Com a intenção de criar fronteiras mais nítidas entre he­

resia e ortodoxia, o Inquisidor Dom Diogo da Silva destinou um

setor do monitório para a descrição, em detalhes, dos procedi—


4

#
”r » r^ '^ T ,rri:'P>K!Trr~'C.'7"''7
)

)
i mentas considerados delituosas pelo Tribunal. O rol de HERE­
I
X SIAS pretendia, antes de tudo, provocar denúncias e se compüe
t
de três partes: visão geral dos desvios, visão pormenorizada e

situação dos cristãos-novos. A primeira serve como preâmbulo e

se refere às heresias de modo genérico._Lexãcamente,— é muito

semelhante à convocação,, pois utiliza substantivos (pessoas,

pessoa, hereges, herege, difamados, difamadas, suspeitos, sus­

peita) e adjetivos (de qual quer estado, condição, grau ou pro-

eminência, presente ou ausente) diversificados, no plural, no


I
I masculino e feminino. Neste caso, ao invés de se voltar aos
I possíveis denunciadores - como na convocação — pretende abar­ «
i
«i
I car o maior número de transgressores. No uso dos adjetivos,
#
*
por conseguinte, nota-se novamente o desejo do Inquisidor de
r
detectar desvias da fé nos mais diversas tipos de pessoas, em

diferentes estratos sociais, como também, conhecer os hereges


i
moradores no termo visitado e aqueles que por aí passaram. Os
t
I verbos estão no pretérito perfeito (foram, sentiram, aparta­
I ram) e presente do indicativo (são, sentem, apartam), sempre
I
I na 3*. pessoa do plural. Todas eles demonstram uma ação ou es­
í tado de afastamento da ortodoxia ("foram heréticos", "mal sen­

tiram dos Artigos da Santa Fé", "apartam da vida, e costumes

dos fiéis cristãos" (71). ê

Em seguida, há um setor destinado a narrar com precisão


-5
os delitos da alçada inquisitorial, a fim de despertar os ou­

vintes e leitores para os desvios da fé. Essa parte é a mais

importante e ocupa várias páginas do monitório. Nas Visita-


3;
çóes, comumente, encontram-se relatos nos quais os denunciàdo-
&
p
res ou confitente diziam ter tomado ciência de um determinado
I
I desvia através do presente rol de culpas. Antes da chegada do
%
24
Visitador, comentavam eles, concebiam práticas heréticas como

naturais ou sem propósito de ir contra a -fé. Contudo, houve

quem alegasse que a repetição dessas heresias, durante a lei­

tura das monitórios, levava a população a praticá-las, ao in­

vés de combatê-las. O -fenômeno mencionado diz respeito ás prá­

ticas judaizantes, pois esse tipo de transgressão se encontra

excessivamente pormenorizado no monitório C72).

No documento mencionado, nem todas as heresias obtiveram

os mesmos cuidados do Visitador. 0 luteranismo, sob este as­

pecto, não mereceu maiores especi -ficaçües e escl areei mentos.

Em contrapartida, no monitório de 1640, tal crime ocupa boa

parte do documento, superando até mesmo a enumeração das prá­

ticas judaizantes. Constata-se, entáo, que o protestantismo,

em meados do século XVII, tornara—se uma preocupação importan­

te para os inquisidores (73); do contrário, não narrariam com

tanto esmero os desvios da fé propalados."pela seita de Lute-

ro, Cal vino, ou de outro algum heresiarca dos antigos, e dos

modernas, condenados pela Santa Fé Apostólica" (74). Na verda­

de, transgressões tais como negar a virgindade de Maria ou

existência do Purgatório estão classificadas no monitório de


/
Evora simplesmente como heresias, enquanto no monitório de

1640 (75), se apresentam como desvios propalados pelos here-

siarcas protestantes. As práticas judaizanteS)por sua vez, são

descritas por Dom Diogo da Silva nos mínimos detalhes. Essa

exposição minunciosa dos ritos pretende despertar, ou mesmo,

alertar a comunidade para as ditas heresias. Por conseguinte,

a lista de indícios incriminadores é longa, destaca sobretudo

as cerimônias e despreza as concepções filosóficas e teológi­

cas do judaísmo. Deste modo, o monitório de 1536 evoca os se-


25
guintes rituais:

guardar os sábados orações

cerimônias nas sextas-feiras luto

degolar aves jogar água -fora dos potes

proibição alimentar benção

jejuns circuncisão

comemorações anuais negar o batismo oucrisma

ü monitório de 1536 também menciona vários rituais da maldita

seita de Mafamede, descrevendo rezas, cerimônias e procedimen­

tos particulares dos mouros. Neste sentido, en-fatiza o jejum

do Ramadam e os preceitos da Alcorão para as quintas e sex­

tas-feiras; já no monitório de 1640, o maometanismo ocupa ape­

nas algumas linhas (76). 0 mesmo fenômeno acontece com a fei­

tiçaria, pois no primeira rol de transgressões, o Inquisidor

menciona evocações ao Diabo, andanças noturnas acompanhadas de

demônios, encomendas a Belzebut, Satanás e Barrabás, renegação

da fé, doação da alma ao Maligno e adorações. Em contraparti­

da, o monitório de 1640 evoca apenas a Aliança com o Diabo e a

astrologia judiciária. Porém, o grande alvo dessa segunda lis­

ta de heresias são as práticas luteranas.

Encontra-se nela uma listagem enorme de transgressões

próprias dos luteranos. Quase todas essas heresias estão no

monitório de 1536, entretanto, elas não são rotuladas de pro­

testantes ou luteranas. Neste documento, encontram-se as se­

guintes transgressões: opiniões heréticas sobre Purgatório,

Inferno e Paraíso; desrespeito ao Santíssimo Sacramento e aos

“Artigos da Santa Fé Católica"; procedimentos contra os repre-


26
sentantes da Igreja e dúvida em relação à virgindade de Maria.

Dom Diogo da Silva ainda destaca a bigamia, a reincidência de

pecados e a indução a heresias como crimes passíveis de puni­

ção.

I
A seguir, o monitório de Évora comenta a situação dos

cristãos-novos e declara que os recém-convertidos seriam des­

culpados por heresias praticadas até o dia 12 de outubro de

1535. A partir dessa data, os marranos portugueses seriam pu ­

s nidos quando -fossem -flagrados seguindo a lei de Moisés-. Deste

modo, o documento ressalta o caráter desviante dos marranos,


t
pois a tradição que perpetravam constituía reminescência- viva
t
* do judaísmo. Por tudo isso, a Inquisição deveria dedicar uma

atenção especial ao grupo, incitando as comunidades a partici­
f
t par de uma vigilância ostensiva, destinada a preservar a pure­

za dos costumes cristãos. Esse longo parágra-fo dedicado ao pe ­


f
rigo judeu inexiste no monitório do Regimento de 1640. Tal au ­

sência é compreensível devida à data em que Dom Diogo da Silva

elaborou essas primeiras instruções para o Inquisidor Geral.

t Neste sentido, é importante retroceder ao período anterior á

implantação do Santo Oficio em Portugal e aos conflitos étni­

* cos e culturais entre portugueses e judeus. Lembrando que esta

conjuntura determinou o caráter anti-semita do primeiro moni—

tóri o.

A colônia judia sempre vivera sob ameaças de retaliações

e cerceamento de suas atividades em terras cristãs. Os países

ibéricos, porém, haviam se tornado grandes redutos dos judeus

da Diáspora. O grupo se estabelecia sobretudo nas cidades. Em

Portugal, os bairros ou guetos judeus se denominavam judiari a

- locais cercados por muralhas e cujas portas permaneciam fe-

*
a.
0

27
chadas durante a noite. No século XV, em Lisboa, os judeus vi­
->
viam principalmente na Judiaria Grande; nela havia sinagogas,
*
& escalas, hospitais, livrarias e Beth midrash. O reduto era uma

cidade judia dentro da Lisboa cristã (77). Mas a situação do


»
dito povo se agdavou durante o reinado de D. Manuel, o Ventu-
I
! roso. □ rei de Portug al ambicionava ardentemente unificar a
I
Península Ibérica sob o seu comando; nesta perspectiva, teria
I
St que se casar com uma princesa de Castela. No entanto, o matri­
I I
mônio somente se realizaria caso o monarca expulsasse .das ter­
I

I
ras do reino os "malditos" da raça judia. D. Manuel hesitou em

levar adiante tal empresa, mas, no dia 30 de novembro de, 1496,


1?
assinou-se o contrato de casamento. A partir de então, o des­
1
tino dos judeus estava traçado, pois seriam obrigados a deixar

Portugal no prazo de dez meses; do contrário, perderiam seus


I
I bens e seriam condenados á morte. A fim de amenizar as perdas

advindas da decisão, em fevereiro de 1497, cogitou-se em bati­


I
zar os judeus à força. As discussões no Conselho de Estado de

I Estremo: chegaram ao fim sem um veredito. D. Manuel, então,


i
resolveu não esperar pelo apoio das autoridades do Conselho e

ar publicou uma ordem destinada a tirar aos judeus os seus filhos


I
menores de 14 anos. Os pequenos seriam distribuídos entre fa­
I
i mílias cristãs para serem educados na Santa Fé Católica. Ime­

diatamente, o desejo do rei foi cumprido, e no dia do Pessach

iniciou-se o rapto de crianças judias. Sobre o episódio dramá­

tico, Kayserling disse:

" Os gritos das mães, de cujo peito se arranca­


vam os filhos inocentes, os lamentas e queixu—
mes dos pais, os soluços e choras dos recém
nascidos carregados á força em braços estranhos
- isto transformou toda a cidade e vilarejo num
palco no qual se desenrolava um drama diabólico
I e desumano, üs pais, levados ao desespero, va­
gavam como dementes, as mães resistiam como 1e-
I
*3*
#
28
oas. hui tos preferiam matar os -filhos com as
próprias mãos; sufocavam-nos no último abraço
ou atiravam-nos em poços ou rios, suicidando-se
em seguida." (78)

□ s jovens judeus, do mesmo modo, -foram agarrados e arrastadas

ás igrejas, recebendo o mesmo tratamento dispensado às crian­

ças. Com tais medidas, o rei almejava educar crianças e jovens

na ortodoxia cristã. Porém, as demonstrações de poder não aba­

laram a convicção de muitos judeus. A resistência provocou a

ira do soberano que, por conseguinte, ordenou a suspensão da

cota de alimentos destinada ao grupo. Em seguida, os judeus

renitentes -foram arrastadas até uma igreja ê submetidos ao ba­

tismo.

Em 30 de maio de 1497, o rei D. Manuel publicou uma lei

destinada a proteger os recém convertidos. Segundo ela, depois

desta data, os cristàos-novos poderiam permanecer adeptos do

judaísmo durante 20 anos, desde que os cultos se realizassem

dentro dos lares. Pois, o-fi ciai mente, os judeus submetidos ao

batismo -forçado eram bons católicas. Na verdade, 'a lei possi­

bilitou a sobrevivência da tradição judaica e o desenvolvimen­

to posterior do -fenômeno cri stâo-novo: indivíduos aparentemen­

te cristãos, mas que observam em segredo a lei de Moisés. Nas

Visitações, há inúmeros casos de denúncias envolvendo cris-

tãos-novos e práticas heréticas executadas em recintos -fecha­

das. Algumas alunas de Branca Dias a acusaram de se trancar,

em companhia das -filhas, "em uma casa térrea grande, e manda­

vam -fechar as portas da Rua", e lá permaneciam por todo o sá­

bado, até anoitecer (79). Um outro exemplo característico des­

sa dualidade é a expressão que dizia: "ele é cristão às amos­

tras de -fora" (80).

Porém, a lei manuelina protetora dos conversos não apla—

-J . - : *
cou d ódio cego do pavo; pela contrária, agravou a situação.

Em realidade, a legislação destinada a igualar cristãos e con­

versos não teve boa repercussão entre os setores populares,

que relutavam aceitar os conversos como iguais. No entanto, o

conflito somente se agravou no início do século XVI. Na noite

da -festa de Pessach, em 17 de abril de 1506, oito dias depois

da Sexta-feira Santa, descobriu-se um grupo de conversos se

alimentando de carneiro e galinha, e celebrando até altas ho­

ras da noite. A ocorrência provocou um grande massacre de ju­

deus, onde dezenas de pessoas sucumbiram à ira da população de

Lisboa (81). As passagens, enfim, fornecem indícios da situa­

ção dos cr i stãos-novos às vésperas da instalação do Tribunal

do Santo Oficio em Portugal e da elaboração do monitório de


*
Evora.

Um último tema ainda deve ser ressaltado na análise do

monitório de 1536 - as PENALIDADES. Esse documento, inicial—

mente, conclama os fiéis para denunciar "em termo de trinta

dias" (82); do contrário as pessoas cientes de alguma heresia

seriam excomungadas. Contudo, no documento, não fica claro se

o período mencionado é o da graça, tempo na qual os desvios

seriam perdoados, desde que fossem relatados ao Visitador

(83). Existem também as admoestaçòes canônicas, qué se consti­

tuíam em advertências destinadas a conclamar o povo a denun­

ciar. G Visitador admoestaria a comunidade três vezes, em um

período de trinta dias, fazendo-o a cada dez dias. Antes do

último aviso, todos estavam obrigados a dizer, descobrir e no­

tificar as ditas transgressões, sob a pena de serem acusados

de hereges e padecerem nos cárceres da Santa Inquisição. Com

essas ameaças, os inquisidores propagavam o medo e, concomi—


tantemente, induziam os cristãos a vasculharem.a memória, in­

vestigarem a vida alheia e perseguirem os difamados e possí­

veis culpados "no crime de heresia".

CDs acontecimentos posteriores à procissão e leitura do

monitório nem sempre seguiam, exatámente, as instruções dos

inquisidores. Neste sentido, inúmeras confissões e denúncias

relataram procedimentos estranhos à rígida lista de transgres­

sões elaborada pelo Inquisidor D. Diogo da Silva. No entanto,

os eventuais desencontros entre os interesses da Inqui.sição e

os anseias da comunidade não inviabi 1 izaram o sucesso das vi­

sitas. Ao contrário, permitiram o comparecimento de centenas

de pessoas dispostas a colaborar, de alguma maneira, com a

causa do Tribunal. Deste modo, os depoimentos não se restrin­

giam, exclusivamente, aos assuntos da alçada inquisi torial.

Por vezes, as denúncias revelavam interpretações distorcidas

das heresias caracterizadas pelo monitório. Essas discordân-

cias demonstram a impossibilidade de uma Instituição delimi­

tar, com absoluta segurança, as -fronteiras entre a doutrina

cristã e os desvios da fé. A construção desses limites cantou

com a ajuda dos setores populares e da elite laica da Colônia,

que selecionaram ou traduziram as determinações inquisi to r iais

segundo os seus interesses e concepções sobre o licito e o

ilícito. Por outro lado, em certas passagens, a lista de here­

sias se mostrava distante da realidade vivida pelos colonos,

referindo-se a delitos desconhecidos da população.

Neste sentido, I. Silva Révah (84) comenta que esse moni —

tório fora elaborado á partir de uma enquete realizada entre

1497 e 1536. Depois desta data, os marranos portugueses, sub­

metidos à conversão forçada, não mantiveram a circuncisão, a


5
I
31
cerimônia de negação do batismo, a nome judeu, as regras do
I ritual de abate de animais, o uso de -filacteres nas orações, a
&
7
maneira típica de orar, a -festa do primeiro dia do ano, e cer—
I
I tos cultos -funerários. Sendo assim, determinadas ritos exis­
£
tentes no monitório de 1536, certamente, não mais -faziam parte
I
I do cotidiano dos possíveis judaizantes da Colônia. Esta infor­
I
mação, talvez, explique a quase inexistência de denúncias e

confiss&es envolvendo esses rituais esquecidos. En-fim, consta­

ta—se que o monitório não era o único incentivador dos. depoi­

mentos ouvidos pelos visitadores. Caso contrário, os confiten-

tes e denunciadores repetiríam, simplesmente, a lista de here­

sias publicada após a missa e os juramentos. Então, se o moni­

tório não era a único responsável pelo comparecí mento de cen­

tenas de colonos decididos a colaborar com a Inquisição, pode—

ria-se cogitar que as heresias, insistentemente delatadas, -fa­

ziam parte da \'ida colonial?

O problema em torno da veracidade das denúncias é extre­

mamente complexo e envolve informações não preservadas pelo


I
tempo. Por outro lado, a influência do Tribunal e do monitó—
I
» rios para o surgimento de denúncias e confissões deve ser re­
I
avaliada. Neste sentido, vale lembrar que se comparado ao an­
I
terior , o monitário de 1640 descreve um número pequeno de prá­

ticas judaizantes (85). Assim, quando se coteja as heresias

presentes no monitório do século XVII com as transgressões de­


I
latadas ou confessadas durante as Visitações no Brasil, encon­

tra—se perfeita correlaçào entre ambas. A partir disto, seria

I possível pensar que, ao contrário do que disse Capistrano de


I Abreu, o documento elaborado por D. Diogo da Silva em 1536 não
s?
foi empregado por Heitor Furtado e Marco Teixeira (86). Pois
I
I
I
32
no que concerne ás práticas judai 2 antes, o monitório, ou moni-

tórios empregados na Colônia deveriam apresentar tipos de

transgressão mais próximos do rol de pecados elaborado em

1640, apesar de lhe serem anteriores em quase 50 anos. Isto

permite aventar a possibilidade d e q u e as práticas mais pr e ­

sentes nos depoimentos desde a implantação do Tribunal em Por­

tugal permaneceram nos monitórios elaborados posteriormente,

enquanto as práticas menos usuais desapareceram dos mesmos mo­

nitórios .

Na verdade, há indícios que igualmente corroboram a

hipótese mencionada. As cerimônias gentilicas, sob esse aspec—


I
to, são um bom exemplo. Esses rituais não constam do monitório

de Evora (87), mas -foram -fartamente relatadas nas visitas. 0

caso de Fernando Nobre, 0 Tamacaúna sacudiu a Colônia e favo­

receu o surgimento de várias denúncias. Tamacaúna fora acusado

de participar de cerimônias de idolatria. Nesses eventos, ele

se punha de joelhos três vezes diante à santidade e lhe ofer­

tava facas e anzóis: assim contou Paula de Almeida a Heitor

Furtado de Mendoça (88). 0 mameluco ainda trazia consiga con­

tas e cruzes. Esses procedimentos, contudo, não constam dos

monitórios, mas eram reais e amplamente conhecidos pela popu­

lação (89). A solicitação é, por sua vez, um pecado encontrado

somente na Visitação de Marcos Teixeira. Ela inexiste para o

monitório de Evora e, apesar disso, Gaspar Afonso, em 16 de

setembro de 1618, denunciou o padre Antônio Neto, capelão de

Diogo Lopes Ilhoas, por solicitar mulheres no ato da confissão

(90). 0 fato se repetiu com o padre Baltazar Marinho, clérico

da missa e vigário de Jaguaripe (91). Do mesmo modo, o nefando

e abominável pecado da sodomia não faz parte do monitório de


1536, mas se encontram exemplos dessa transgressão nas duas

visitas. Èm 29 de julho de 1591, Frutuoso Alvares, vigário de

Matoim, compareceu diante do Visitâdor e confessou que comete­

ra tocamentos desonestas cam cerca de 40 homens, abraçando—os

e beijando—os. Além disso, confidenciou que tivera relações

sexuais com Cristovão Aguiar, rapas de IS anos s -filho de Pero

Aguiar (92). Em suma, tudo leva a crer que a Inquisição deve

ter elaborado outros monitórios, capazes de abarcar as dife­

renças regionais e temporais e, assim, agir com mais habilida­

de na luta pela defesa da ortodoxia católica (93).

Ainda em relação às heresias judaizantes, devo comentar a

existência de outras tantas práticas ausentes de ambos os mo—

nitórios. Gs ritos, porém, fazem parte da tradição judaica e,

portanto, não constituem meras invenções incrirainadoras. Um


/
exemplo é encontrado na delegação de Alvaro Sanchez, cristão-

novo e escrivão da chancelaria de Salvador. Em 12 de setembro



de 1618, ele denunciou Domingos Alvares de Serpa, mercador e

cri stão—n o v o , por se comportar mal durante a missa e de dizer

"Gayas, Gavas", que segundo o escrivão era palavra de judeu

(94). Guaias, Guaias são suspiros e lamentações, praticados

também no ritual religioso judaico. Para os inquisidores, esse

termo foi empregado como "movimentos rítmicos e inclinações

rituais da corpo durante a oração, sentido esse não registrado

pelos dicionaristas" (95). Dona Lianor Moniz, cristâ-nova e

mulher de Henrique Moniz Telex, por sua vez, foi delatada por

pertencer a uma família possuidora do "Alvará dos Macabsus"

(96). Como indicio judaizante não consta de nenhum monitório,

poderia ser uma calúnia. Contudo, Lipiner comenta que o termo

designa uma célebre família de sacerdotes e militares judeus


do século II a.c. (97). Neste sentido, o depoimento é admirá­

vel e revelador da sobrevivência da tradiçáo judaica, que mes­

mo com todos os massacres perpetrados ao longo dos séculos

continuava na memória de muitos cristãos-novos da América Por­

tuguesa.

A denúncia de Madalena de Calvas, do mesma moda, inexis-

tia nos monitórios. Em 22 de novembro de 1593, ela denunciou

Lianor Martins de levantar as -fraldas e mostrar, na ilharga

esquerda, uma concavidade redonda e do tamanho de um .tostão,

"dentro no vão na mesma carne estava no meio prelada (sic) pa­

ra -fora uma -figura de rosto humano, e isto era a mesma carne,

e quando isto lhe mostrou lhe disse que trazia al i um fami­

liar..." (98). Apesar de não ser mencionada pelos documentos

in qui si tor* i ai s , o familiar está presente em muitas processos

envolvendo a bruxaria européia. Comumente, esses demônios eram

pequenos animais, às vezes invisíveis, que mantinham uma rela-

çáo simbiótica com as bruxas: as criaturas auxiliaVam-nas nos

malefícios e sua senhora os sustentava. Muitas vezes, o fami­

liar sugava em mamas especiais e adequadas para alimentá-los.

A bruxa, assim, cumpria o papel de mãe desses demônios (99).

Entretanto,há nas visitas relatos de cerimônias que não

constam dos monitórios e nem dos ritos judaicos mencionados

por I.S. Révah e E. Lipiner (100). Nestes casos, a falta de


é informação sobre a origem cultural dos delitos induz a conce­
4
4 bê-los como invenções destinadas a incriminar um grupo. Em sua
4 denúncia contra Branca Dias e Diogo Fernandes, Ana Lins comen­
4
tou que na casa deles, todos os sábados, havia sobre a cama

uma cabeça de boi sem cornos, '

"...ou para mais certo não se afirma bem se ti­


nha cornos ou não feita de pau aleonado.escuro,

7255*!
a.
'■5

cor natural do mesmo pau sem ter tinta a qual


era bem afigurado e conhecida ser -figura de ca­
beça de boi de comprimento cte palmo e meio pou­
co mais ou menos a qual cabea de bezerro se pu­
nha muitas vezes sobre a dita cama às sextas-
feiras e sobre a cama -ficava até o
domingo. .. “ (ÍOI)

I Ana Lins, no depoimento, nâo recorreu ao monitório para incri­


K ♦
&
minar Branca Dias e seu marido, pois inexiste, neste documen­
I
to, menção do culto à cabeça de boi ou bezerro como indício de m
I
I judaísmo. Na verdade, neste relato há uma curiosa degradação
I
semântica do vocábulo hebraico Toura. que significa doutrina, m
I
I ensinamento e lei (102). Em Portugal e no Brasil, surgiram vá­
I
rias denúncias deste tipo, relacionando a veneração dos judeus #
I
#
I aos cinco livros de Pentateuco, a Thora, com a adoração de
#
imagens de bezerra ou cabeças de boi. Deste modo, a denuncia—
in
dora certamente nunca se deparou com a dita imagem, mas ouvira
I
dizer que os judeus cultuavam a Toura e, então, vinculou a pa­

lavra ao animal. Essa correlação, porém, não era exclusiva de

I Ana Lins: outras pessoas fizeram a mesma delação. Talvez a as—


•I
similação seja comum à tradição anti-semita lusitana, devido a
I
*
sua intensa difusão entre os portugueses dos dois lados do

Atlântica.

Por outro lado, os marranos da Colônia eram frequentemen­


I
I te acusados de maus cristãos por açoitar crucifixos, ter des­

prezo pelos cultos católicos ou nunca ir à igreja, senão em

raras ocasiões. Entretanto, muitos denunciadores terminavam


I
essa narrativa dizendo que o procedimento lhes parecera estra­
I
I nho e suspeito por ser o denunciado um cristão—novo. Deste mo­
I do, uma acusação envolvendo blasfêmias ou leves desvios da or­
$
todoxia, praticados por um descendente dos conversos podia se
I
I tornar indicio de judaísmo e negação da ortodoxia. Em contra-
<•
I
ê
I
*
a>
s
é
36
partida, quando um cristâo-velho cometia o mesmo delito, nâo
*j

havia por parte do denunciador a mínima insinuação de que o


s O C X X C C

transgressor -fosse judaizante.

Os procedimentos de Ana Aredo, do mesmo modo, sâo desco­

nhecidos e incompreensíveis. Catarina Raiz delatou-a por açoi­

tar cruelmente seus negros todas as segundas-feiras. Segundo a

denunciadora, o hábito lhe pareceu suspeito por ser Ana Aredo

cristâ-nova e mourisca, e por praticar essas atrocidades para

viver, pois "dizem que diz que vive de tanto se lhe dá." (103).

Já Diogo Lopes Ilhoa, mercador e cristâo-novo, em 6 de agosto

de 1591, -fora acusado de casar com sua prima à moda judaica. O

relato de Fernâo Ribeiro de Souza conta que o mercador recebeu

a moça em suas mãos e a levou para cama. Depois da dita prima

estar grávida, casaram na igreja com a dispensa do bispo, "e

que isto -fizera escândalo por serem todos cristâos—novos e da

mesma tribo e parentes e que pareciam guardar ainda o judaís­

mo" (106). A família de Ana Roiz também fora delatada por ma­

tar um porco e, em seguida, se colocar ao redor do animal mor­

to, cantando uma cantiga "em uma linguagem que ele (o denun­

ciador) nâo entendeu e que lhe nâo pareceu aquilo bem" (107).

Em suma, os exmplos de denúncias deste tipo se multiplicam ao

longo da documentação originada das visitas. Assim, é impor­

tante lembrar que essas práticas sâo desconhecidas e, conse­

quentemente, concebo-as,a priori, como invençóes ou distorçòes

incriminadoras. Por outro lado, podem ser práticas cujo o sig­

nificado se perdeu para nós, e mesmo para as contemporâneas.

Outras denúncias, no entanto, fogem por completo da alça­

da inquisitorial e atribuem ao Santo Oficia o dever de julgar

questfbes da justiça secular. Assim, alguns denunc iadores acre-


37
ditaram que o Visitâdor -fosse capaz de resolver suas querelas,
^

já que anteriormente não haviam obtido resultados -favoráveis


>ir'’

com os r e p r e s e n t a n t e s do poder- rágio. M a n u e l Ferreira,

entüa.no dia 2 de agosto de 1591, denunciou Fero Dias por ter


«»' w
W ’

posto -fogo em suas lenhas, nas plantaçftes de milho e

algodão.(108) 0 nome de Felipa Alvarez também consta dos autos


W W ***' W »«*■

da visita baiana. Essa moradora de Perbusu, com ajuda de três

sobrinhos, roubou escravos,e índios pertencentes a Fernão Ri­

beiro de Souza, seu denunciador. ü último ainda reclamou ao

representante da Inquisição do atraso da carta de excomunhão,


W W

que até aquele momento não havia saído (109). Outros, porém,
I confundiram desvios morais com crimes punidos pela justiça ci-
I I
vil. Antônio Raiz Loureiro, assim, procurou Heitor Furtada de
I
I Mendoça e lhe cantou que na guerra em Sergipe, Domingos Ribei­
I
ro trocou uma escrava por uma espingarda. A transação reali­
»
I zou-se com os gentios que, a partir de então, aprenderam a ma­

nejar armas de fogo (110). 0 mestiço André Dias também se


í
I apresentou diante do Visitâdor e confessou ter dado armas de

fogo aos índios (111). Os depoimentos supracitadas reafirmam a


*
ineficiência dos oficiais da justiça civil e demonstram a le­
&
I gitimidade e força política do enviado da Santa Inquisição.
I
□ entrosamento entre a Inquisição e os poderes locais era
t
I condição sine qua non para o estabelecimento das visitas, sem
I
ele a participação popular seria menor e as turbulências polí­
I
I ticas dificultariam a tarefa destinada a examinar as condutas
) dos colonos. 0 protocolo, a procissão e os juramentos cum­
I
priam, portanto, a função de demonstrar ao público os laços
I
I coesos que uniam o Inquisidor aos principais da terra, legiti—
%
í
38
mando, dessa -forma, as palavras proferidas durante a leitura

do édito, provisão e monitório. 0 sucesso da visita dependia,

igualmente, do suporte popular, expresso no c o m p a r e d mento de

confidentes e denunciadores diante dos representantes da In­

quisição. Sem a contribuição do povo amedrontado, certamente

haveria um número menor de heréticos e suspeitos. Por conse­

guinte, a simbologia promovida pelo Visitador é responsável

pela difusão das heresias, perseguições aos difamados .e con­

sentimento ao Santo Oficio do poder de julgar e punir os indi-

viduos conhecidos na comunidade como transgressores. Assim

sendo, talvez a Instituição não fosse capaz de prosseguir com

a execrável tarefa de castigar os transgressores da ortodoxia,

caso não houvesse aceitação e fervorosa sede de vingança con­

tra os homens e mulheres tidos na comunidade como maus exem­

plos e corruptores dos bons costumes. As dimensões deste, cer—

tamente, foram ampliadas pelo Tribunal, a partir do momento

que essa instituição construiu um canal legitimo, para fazer

desembocar os conflitos religiosos e econômicos.

A Inquisição, na verdade, se atrelava a estruturas de ex—

clusão pré-existentes. Jamais os inquisidores criariam heréti

cos e párias sem o suporte de uma massa cristianizada e sem ',

pressupostos culturais responsáveis pelo discernimento entre o

fiel e o infiel, o bom cristão e o herético. 0 passado de Por­

tugal , neste sentido, legitima essa estrutura hierárquica co—


I
mum ao Ocidente cristão e preserva a ordem construída pela di­

vindade. A luta por esses ideais promoveu as perseguições, a

propagação do preconceito e ira contra os judeus, mouros, lu­

teranos e feiticeiros. Na verdade, a Inquisição legalizou es— .


o

-A
CA.
39
ses carvfl itos, tirando a arbítrio do público e conduz i ndo-o
*=V para o interior do Palácio de Estaas, onde os inquisidores ex­
3

citariam e ampliariam as d e s a v e n ç a s , e também delimitariam as

■fronteira entre o bem e o mal - Depois da instalação do Tribu­


n
n nal, não caberia ao povo perseguir e condenar heréticos: seria

desnecessário, então, a ocorrência de massacres como o sucedi­

§ do em Lisboa em 1506. Aos populares, restaria a tarefa de ob­


d
s e r v a r , descobrir e notificar os casos de heresia, enquanto a
ii
Inquisição se ocuparia do veredito, da punição, da vida e mor­

te. O cumprimento dessas instruçòes fortalecería o pacto entre


§
Deus e os homens, pois eliminaria o anti-Cristo e as ameaças á
£V
Cristandade. Em contraparti d a , o medo, a peste, as catástrof es

% e a danação assolariam os cristãos alheios à causa. Deste mo­


fc*
i do, a Santa Inquisição hiperdimensionou os con-flitos étnicos e

culturais existentes entre cristãos e o outro, fazendo deles


<%
*2?
uma arma para o prossegui mento de sua empresa dedicada a li­

vrar a Cristandade dos perturbadores da ordem e criar, conco­

mitantemente, condiçóes para a multiplicação de homens educa­

dos na ortodoxia cristã.

Os monitórios, por sua vez, destinavam-se a edificar o

verdadeiro cristão, a partir daqueles que recusavam a ortodo­

xia. Deste modo, caracterizam os heréticos para valorizarem as


i
atributas do bom católico. As Visitaçòes, contudo, demonstram

os limites desta lista de transgressbes, quando confidentes e

denunci adores se apresentavam ao Visitador, relatando procedi­


is?
5*
V mentos inexistentes nos monitórios. Em outras ocasiòes, usavam

RX o pretigio da Instituição para resolver assuntos particulares


Ê»
ou da alçada da justiça secular ou eclesiástica. As discordán-
40
cias revelam, pois, a impossibilidade da Inquisição determinar

com segurança o que era pecado e heresia. Esses procedimentos

demosntram a manipulação, às vezes inconsciente, por parte do

povo e da elite colonial de tais mecanismos represssores. Por

outro lado, as transgressões narradas nas visitas, mas ausen­

tes do monitório, são indícios da tradição popular. Eles so­

breviveram ao embotamento promovido pelo rol de transgressões

e terminaram por auxiliar o , Visitâdor no empreendimento de

perseguir os desvias da té. Desta maneira, a cultura popular e

suas dei imitações entre o certo e o errado participaram da lu­

ta contra a heresia, ressaltando os preconceitos e valores

próprios da comunidade. Enfim, os depoimentos gravados pelo

notório do Santo Ofício são o resultado do embate entre níveis

de cultura diversos, todos induzidos a contribuir na preserva­

ção da fé e dos bons costumes cristãos.

rrsrrnrcTTU-'-’*
41

1 Notas - cap. I
•I

1- Souza, G._Soares. Tratado.:Qescri-tivo do Brasil. (15S7) SSo


I
Paulo, Cia. Ed. Nacional, 1987. p 133

a
-J 2- Abreu, C. "Introdução" db pp 5-6

$
* 3- Salvador, F. Vicente. Hi stór ia_do Brasi1 . 1500-1627. (1627)
•I
São Paulo, Edusp, 1982. pp 260^-263

I
> 4- dp p 1 A presente análise do cerimonial promovido por Hei­
■5. tor Furtado não obedeceu aos marcos cronológicos, empregando
n?
V
' dados da visita á Bahia e Pernambuco, sem se preocupar com a

perspectiva temporal. A intenção da pesquisa é remontar as


%
I etapas do evento, sem se atentar se elas aconteceram na Bahia
&
2?
ou em Pernambuco. A cronologia das Visitas será explorada no
I
I capítulo II deste trabalho. Ainda sobre o cerimonial, penso
I
que seria importarites cotejar os dados provenientes da Visita
I
de Marcos Teixeira com os da anterior. Contudo, não se tem no­
0 tícias sobre a Visitação do século XVII.
0
I
I 5- Siqueira, 5. A Inquisição Portuguesa e a Sociedade
&
«f
a Colonial. São Paulo, Atica, 197S. p 267
!?
%

I 6- Salvador, F. V. op. cit. p 260



Í?
à
S'
I 7- Idem
5?
ifc
3
%
42

S- Serrão, J. Veríssima. Do Brasil Filipino ao Brasil de 1640.

São Paulo, Cia Ed. Nacional, 1968. p 44 e pp 98-99. Serrâo

afirma que a administração espanhola, a partir do governo de

Teles Barreta, procurou empregar mecanismos coercitivos a fim

de fazer valer as leis na Colônia. Nem a população e nem mesmo

a burocracia local as seguiam. "Na Administração, sucediam-se

as queixas dos funcionários mais zelosos e dos moradores, haja

em vista o comportamento do Provedor da capitania de . Itamara-

cá, que fôra preso “por se achar ter feito da dita terra gran­

des roubos" e que depois conseguiu fugir para o reino" p 44

9- A expressão é de Muchenbled, R. C u lture populaire et cultu­

res des élites dans la France Moderne. Paris, Flammarion,

1978. pp 229 - 285. Vale lembrar que a Visita do Santo Ofício

ao Brasil não foi uma exceção; na época, outros visitadores

vasculharam o território português e o Ultramar. Sobre o as­

sunto ver: Bethencourt, F. "Inquisição e Controle Social".

Lisboa, 1986. ex. mimeograf.

10- dp p 2

11 — i dem p 4

12- "Regimento do Santo Oficio da Inquisição dos reinos de

Portugal" in :Andrade e Silva, J. J. Colleção Chronoloqica da

Legislação Portuqueza- 1634-1640. Lisboa, Imprensa de F. X. de

Souza, 1855. p 267


0
D
13- "Regimento da Santa Inquisiçam-1552" in: Baião, A. (ed.)
CB*
£5
"A Inquisição em Portugal e no Brasil" in: Archivo Histórico

£ Português. Mal . 10, 1906. p 32


1?
5
$ 14- No tempo da graça, as heresias confessadas ao Visitâdor
ll seriam encaradas com mais benevolência; assim diz o texto: o
6
Visitâdor concede "trinta dias de graça e perdão para que os
•I
que neles vierem ele (Visitâdor) confessar sejam recebidos com

benevolência e não lhes dê Penitência Corporal nem Penitência


£
Pública, nem lhes sequestrem seus bens..." dp p 135
ÍV
I
15- cb p 11 #

!>

i’">
è
16- Albernaz, J. T. "Planta da Cidade de Salvador" in: Moreno.
5?
=>.
Ü5 D. Campos. Livro que dá razão do estado do Brasil (1616) Rio
I
de Janeiro, Inst. Nacional do Livro, 1968. p 47
D
£■'
» 17- Sousa, G. S. op. cit. p 137 Cf Caiman, P. História da Fun­
fc,
S'
dação da Bahia. Salvador, Museu do estada,Í949, pp 161-162
i

&c•
i
I
18- Albernaz. op. cit. p 47
I

I 19- Sousa, op. cit. p 135


I
&
s>
I 20- cb p 14
I
*
I 21- Siqueira, op. cit. - pp 267-8

I 22- cb p 11
I
*
44

23— Regimento de 1640 op ■ ci t . p 258

24— dp p 5

25— Idem p 6

26— Idem Ibidem

27— O tempo de espera - dois dias no Arrecife - talvez -fosse o

necessário para a Câmara de Olinda providenciar acomqdaçbes

adequadas ao representante do Tribunal de Lisboa.

28— Evaldo C. de Mello fez observances interessantes sobre a

relação do Visitador com as principais da terra: "Apesar de

representante de uma instituição toda-poderosa, que falava

quase de igual para igual com el— rei e às vezes até -fazia má—

criaçftes ao papa, Furtado de Mendoça demonstrou, no seu tato


I
com os homens principais da capitania, a consideração devida à

posição social desses indivíduos, tenda o cuidado de poupá-los

a qual quer vexame pública que pudesse resultar em dano da sua

autoridade..." Mello, E. Cabral de. 0 Nome e o Sangue. Uma

fraude fraude genealógica no Pernambuco colonial. São Paulo,

Cia das Letras, 1989. p.195. Os comentários acima confirmam a

hipótese que ressalta a importância da participação da elite

colonial para o sucesso da Visita.

29— Le Goff, J. "0 Ritual Simbólico de Vassalagem" in: Para um

Novo conceito de Idade Média. Lisboa, Estampa, 1979. p 340


©
te?

45

m
óO- dp p 9
©

31- A denominação "aparato cênico" provém de Balandier. O Po­


&
der em Ge n a . Brasília. UnE<, 1982. pp 5-21. Nas Visitações, há
m
comentários sobre ocorrências de Autos-de-fé: em 10 de outubro

01 de 1594, Manuel Dias, morador rio pé da ladeira da Misericór­


©
dia, em ülinda, comentou a respeito de um Auto-de-fé realizado

na vila. Sobre o assunto disse: "quando ontem no cadafalso que


&
se fez na matriz ouviu ler as sentenças de alguns que foram...

(dp p 326). José' Antônio Gonsalves de Mello demonstrou em seu


©
mais recente livro que os inquisidores implantaram na Bahia e

em Pernambuco um Tribunal da Inquisição e deliberaram sobre os

desvios da ortodoxia relatados perante a mesa do Santo Ofício.

Gente da Nação. Recife, Massangana, 1939. pp 167-98. Na Visita

de Marcos Teixeira o mesmo ocorreu. Cristovâo Henrique confes­

sou em 14 de maio de 1620 e contou:"que era verdade que no

tempo em que se celebrou o Auto—de—fé nesta cidade que vai em

dois anos..." (Cb p 521)

s
32- Baião, A. "Correspondência Inédita do Inquisidor Geral do

Santo Oficio para o primeiro Visitâdor do Brasil" in:


©
Brasilia, vol . I, 1942. p 544

s?
33- Em contrapartida, na mesma ocasião, o conselho do Santo

Ofício admoestou o Visitâdor pelos excessos por ele cometidos.


s%
54?
A carta dizia o seguinte: "E esperamos que em todo o progresso
a
da visitação e despacho das partes se havera com a prudência e

P consideração que em negócios de tanta importância se requer...

ç?4
Ü?
46
" não é costume do Santo Oficio Receberem os inquisidores pre­

sos sem as culpas porque além de outros inconvenientes que

disso se sugeriam seria estarem muito tempo no cárcere sem se

lhe falar a efeito por se nâo poder correr com eles enquanto

os inquisidores nâo têm particular as noticias de suas culpas.

- . " p 544 In; Baião, A. (org.) "Correspondênciã inédita..."

o p . ci t .

34- Saraiva, J. A. Inquisição e Cristãos-novos. Lisboa., Estam­

pa, 1985. p. 101

I■
35- Mendonça, J. L. e Moreira, A. J. História dos Principais

Actos e Procedimentos da Inquisição em Portugal. Lisboa, Im­

prensa Nacional, 1980. p 135

36- Saraiva. Op. cit. p 105

37- db pp 516-524

38- Idem p 542

39- Idem p 243

40- dp p 164

41- Idem p 2.6

42- db p 359

FT."!i ’•V /jify'JJ-« "*ijí '? *y H


47
43- dp p 61

44- Idem p 54

45- Idem p 75

46- □ monitório do Santo Ofício estimulava esta prática. Ver p

18 deste Capitulo

47- dp pp 82-83

48- db p 412

48- Idem p 267

50- Kamem, H. ft Inquisição na Espanha, (trad.) Rio de Janeiro,

Civ. Brasileira, 1866. p 66

51- Henningsen, G. El ftboqado de las Bruias. (trad.) Madrid,

Alianza, 1883. pp 198-202

52- Muchembled, R. "L'autre cóte du miroir..." in: ftnnales, 2:

288-305, 1885.

53- Siqueira, Op. cit. p 142


I

54- Schwartz, Stuart. Segredos Interno s . (trad.) Sâo Paulo,

Cia das Letras, 1988. pp 57-116


48
55- Navais, F. Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema

Col oni al . Sâto Paulo, Hucitec, 1983. pp 57-116

56- Koshiba, L. A Honra e a Cobiça. Tese de Doutoramento apre­

sentada no departamento de História da FFL.CH da U s p , São Pau­

lo, 1988. vol. 1

57- Prado, J. F. De Almeida. Pernambuco e as Capitanias do

Norte do Brasil. Sâo Paulo, Cia E d . Nacional, 1939. Tojno 2 p

183

58- Abreu, C. Capítulos da História Colonial. Rio de Janeiro,

F. Briguiet e Cia, 1934. pp 78-79

59- Schwarts, op. cit. pp 21-73

6U— Novinsky, A. Crist&os—Novos na Bahia. Sâo Paulo, Perspec­

tiva, 1972. e Wiznitzer, A. Gs__Judeus no Brasil Colônia.

(trad.) SS(o Paulo, Pioneira, 1966.

61- Serrüo op. cit. loc cit.

62- dp p 29

63- Idem pp29-30, 34, 36, 41-44, 68-69, 91-92, 117-119, 124,

199—200 entre outras

64- cb p 29
65- "Monitório do Inquisidor Geral" In: Castro, D. Francisco,

íorg. ! Collectorio.de Bull as e Breves Apostólicos, gartas, Al -

varas et Provisoes Reaes que contem a instituição e progresso

do Santo Of-flcio em Portugal . . .Lisboa, Impressor dei Rey,


1 Í.TÍ
iU-JT.
------ — ——

66- - □ verbo con-fessar não consta do monitório, contudo, posso

interpretar a expressão "denunciar suas culpas" como equiva—


I
lente.

67- "Monitório do Inquisidor... op. cit. 4-f

68- Idem 6-f

69- Idem 6f

70- cp pp 40-41

71- Monitório do Inquisidor... op. cit. p 5

72- Lipiner, E. Santa Inquisição: Terror e Linguagem. Rio de

Janeiro, Documentária, 1977. p 101

73- Havia, certamente, uma disputa entre a Inquisição e a jus­

tiça eclesiástica sobre os desvios que deveriam ser julgados

por uma ou por outra. Na disputa, o Santo 0-ffcio enfatizava o

caráter herética de pecadas que antes pertenciam à alçada

eclesiástica. Um bom exemplo são as proposições contra o Sa­

cramento do Matrimônio: -falar contra o casamento não era, a


50
princípio, uma heresia grave, talvez -fosse pecado, mas nada

capaz de reverter a ordem da Cristandade- Porém, a Inquisição,

a -fim de ampliar seu campo de ação, entendeu que esse tipo de

transgressão deveria ser denominado de luteranismo, pois eram

contrários a um dos principais sacramentos da Igreja; e assim

o -fez no corpo do Monitório Geral de 1640 op. ci t . p 376

74- Idem p 376 .

75- Idem lac. cit.

76- Entre 1601 e 1610, a maometanismo representou 0,8% do to-


*
tal dos processos de Evora; de 1611 a 1620, eram 1,87.; de 1621

a 1630 eram 0,6% e entre 1631 a 1640 constituíam 1,4% de todos

os processos do príodo. En-fim, a recorrência da dita heresia

era desprezível. Os números talvez expliquem a razão piela qual

o maometanismo ocupou uma parte ínfima no Monitório de 1640.


/ /
Dados sobre Evora ver: Coelho, A. B. Inquisição de Evora. Lis­

boa, Caminho, 1987. pp 191-192


7}-Tú\\)u/u/),n- 3. §0 ^juAiu/) iw\ wa V o J /i XvJ. lS/hc<A , Üwí\)- tJovlt'i (A^iH2..
-YOÇ
78- Kayserling, M. História dos Judeus em Portugal. (trad.)

São Paulo, Edusp, 1971. p 114

79- dp p 31

80- db p 271

81- CP. Kayserlíng op. cit. : Wiznitzes op. cit. : Novinsky o p .

cit. entre outros

T --T T
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I
I

82— Monitário db .Inquisidor... op. cit. p 4f


V

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&
/ S3- Li pi ner op. cit. p 130
}
'
ri
84- R é v a h , I- S. "L'Hérésie Marrane dans 1 'Europe Catholique
\
I du 15 au 18 si&cle" In: Le Goff , J. (org. ) Hérésie et Societé.
I
Paris, MoutoBí, 1968. pp 330—331
I
1
I 85- Monitório de 1640 pp 375-376
i 9

}
h 86- Capistrano diz o seguinte: "O monitório de D. Diogo servia
}
* ao duplo -fim de -facilitar o exame de consciência dos confiten-
i
I tes e de indicar ó caminho aos espiòes e delatores. Está im­
I
presso no Colletorio de 1634, prova de que ainda então vigora­
I
b va. Entre el le e os depoimentos da presente visitação nem Sem­
I pre se nota correspondência exata: pode ser que houvesse moni­
>
) tórios parciais que não conhecemos." Abreu, C. Um Visitâdor do

Santo Ofício à Cidade do Salvador e ao Recôncavo.. Rio de Ja­


*
neiro, Jornal do Comércio, 1922. p 17
*
}
I
87- Os monitórios de 1536 e 1640 não -fornecem detalhes sobre
I
Ê as práticas gentilicas; porém, se referem, de maneira vaga, a
í heresias; nesta categoria, vários desvias poderíam ser agrupa­
)
dos, inclusive as condutas próprias dos "negros da terra". A

fim de preencher o espaça vazio deixado pelo Tribunal de Lis­


)
boa, Heitor Furtado, o Bispo e outros dignitários formularam
»
I uma "determinação" capaz de legislar sobre o assunta. A deter­
I
minação de 2 de agosto de 1593 dizia o seguinte: "Depois de
I
I
nesta Mesa serem sentenciados Alguns homens de culpas cometi­

das no Sertão, Aos quais (por se lhes tirar a ocasião de tor­

nar a cometer tais culpas) -foi mandada em suas Sentenças que

não tornem mais ao Sertão. Se assentou nela que somente quando

os governadores gerais deste Estado mandassem ao Sertão des­

truir alguma Abusão da Chamada Santidade, ou dar algum socorro

de guerra, ou descobrir minas de metais, salitre, e enxo-fre,

Poderão ir os tais Condenados com licença desta Mesa, ou em

sua observância, do Bispo dèste Estado. Na Bahia 2 de' agosto

de 1593." Nota-se que as proibições do Inquisidor são poste­

riores às denúncias e confissões e, certamente, não influen­

ciaram os colonos, no momento de relatar as ditas heresias ao

Visitâdor. Na verdade, a sentença se originou dos próprios re­

latos coligidos pelo notário. cb p XXXVIII

88— dp p 384

S1?- Os depoimentos envolvendo Tamacaúna e Fernão Cabral de Ta-

ide somam dezenas de denúncias, quase todas delatando práticas

genti1i cas.

90- Db p 186

91- Idem p 179

92- cb p 20

93- Na Espanha,segundo Dominique Peyre, a Inquisição adaptava

os éditos e monitórios às caracteristicas regionais, assim:


S1
P
5s

53
"ces édits sent souvent adaptés á la situation, dans un pays è
W

/
•forte densitA- mor isque comme e'est le cas de Guadix, tout ou
^
V!*'

presque tout portera sur les pratiques de Ia religion musulma—


'M '

ne".Peyre, D. "L' I n q u i s i t i o n ou la politique defla présencE"


V»»'
■ÍT3?

in: Bennassar, B. (org. ? op. cit. p 59. ____ _ ----


W

94- Db p 123
W
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vatf-

Li pi ner op. cit. p 79


í®-
"«f

96— db pp 243—244
'SSW
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-*3í-

97- Li piner op. cit. p 98


Y it *
’Ofc»

98- dp p 108

99- Demos, Putnan. Entertaining Satan. Ox-ford, Ox-ford Univ,

Press, 1982. p 179

100— Révah op. cit. e Li piner op. cit.

101— dp p 56

102— Li pi ner op. cit. pp 138-140

103— dp p o>07

104— Idem p 283


105- Idem p 302

106- Idem p 281. A reunião mencionada não -faz parte da tradi­

ção Judaica. Era comum em Portugal a realização de casamentos

sem obedecer os preceitos estabelecidos pelos Concilios de La-

e Trento. Sobre o assunto ver Vain-f'as, R. Trópico dos

Pecados. Rio de Janeiro, Campus, 1989. p 71 '

107- dp p 338 ' •> •

108- Idem p 268 /

109- Idem pp 281-282 . '

110- Idem pp 296-297

111- cb p 193
t- jw j

I Capitula II — Denúncias e Confissbes'

I
2.1 — Os caminhos dó V i s i t â d o r
>
í>
£ Os apelos do Visitâdor se espalhavam par um vasta terri­
I
tório, incitando os fiéis a colaborar com a causa da Santa In­
I
I quisição. Homens e mulheres, velhos ou moços, compareciam

diante do Inquisidor e relatavam as práticas ilícitas mencio­


I
| nadas nos monitórios. ü deslocamento dos representantes do

Santo Oficio era o único meio de abranger todo o espaço fisico

de sua jurisdição (1). As Visitaçdes do Santo Oficio às partes


$
do Brasil contaram com a participação ativa dos colonos. Na
1
presença de Heitor Furtado de Mendoça e Marcos Teixeira, cen­
ÍV tenas de denúncias e confissões foram registradas; o grande
9
%
? número de relatos difamantes demonstra o quanto as populaçòes
*
9
acataram os desígnios inquisi toriais. 0 confitente e o denun —

ciador tornaram-se, então, parte de uma trama forjada pelos

inquisidores a fim de controlar as inúmeras comunidades. Os

tentáculos da Instituição não se compunham unicamente do corpo

burocrático; suas garras se alongavam com as contribuiçfbes

fornecidas por homens comuns. Na verdade, um corpo de funcio­

nários ligados diretamente ao Conselho Geral do Santo Oficio


I
jamais vigiaria um território de grandes proporç&es.
I
I Nos primeiros anos após o estabelecimento da Inquisição
Sj
tr
em Portugal , a política de controle ainda era mais frágil; não
I
* havia visitas. Bispos e vigários locais eram nomeados inquisi­

dores e defendiam, de longe, os interesses do Tribunal do Sa n ­


I
=t to Oficio. A Instituição, por conseguinte, utilizava a malha
*
Sfe
>? administrativa eclesiástica e o conhecimento que os religiosas
I

I
56
dispunham sabre os comportamentos e crenças desviantes (2).

Nos anais da história colonial, hás diversos casos de heréticos

capturados por religiosos representantes do Tribunal de Lisboa

(3). □ processo contra Pero do Campo Tourinho, governador da

Capitania de Porto Seguro, demonstra como os poderes locais

auxiliaram a Inquisição na tarefa de perseguir o infiel. Neste

exemplo, o vigário da vila, Bernardo Aurejac, fidalgos e a Câ­

mara prenderam e-enviaram a Lisboa o governador, acusando-o de

proferir blasfêmias e de ser herético. 0 processo, datado de

1546, enfatiza que a decisão de puní-lo não partiu somente dos

"principais da terra"; a detenção de Campo Tourinho era um de­

sejo de toda a vila, do povo (sic) (4). João Cointa, o senhor

de Boulés, foi preso nas mesmas condiçbes. Em 23 de dezembro

de 1560, o vigáriO' Si 1vestre Lourenço se apresentou a bordo do

navio em que se encontrava o valente aliado de Mem de Sá. 0

vigário geral da Bahia abordou e prendeu o senhor de Boulés,em

nome do Bispo D. Pedro Leitão. A origem francesa do réu havia

suscitado rumores; o Bispo, então, decidiu reunir testemunhas

para averigüar o caso. Meses após a detenção, João Cointa ain­

da se recusava a pedir por misericórdia e clamava pelo sènti-

mento de justiça de seu interlocutor. A relutância do acusado

confirmou as suspeitas de heresia e precipitou o seu envio ao

Tribunal de Lisboa (5). Enfim, as histórias de Campo Tourinho


I
e do senhor de Boulés fazem parte dos primórdios da Inquisição

portuguesa, período em que o processo de detecção e captura de

infiéis era ainda rudimentar.

O domínio do território de aquém e além mar exigiu do

Santo Ofício a criação de tribunais distritais. Os Tribunais


/
de Evora, Lisboa, Tornar^ Coimbra, Lamego e Porto, criados em
1541, surgiram a partir da estrutura administrativa eclesiás­

tica e pretendiam, expandir o controle do Santo O-ficio sobre as

domínios da Coroa portuguesa. Depois da década de 1550, a ma­

lha inquisitorial t o m o u -feições definitivas, permanecendo os


/
Tribunais de Evora, Lisboa e Çoimbraf criou-se também a Tribu­

nal de Goa, responsável pelas regidas de Malaca e Cochim. Nas

primeiras décadas após o seu estabelecimento, a Inquisição lu­

sitana cantou cam o apoio da justiça eclesiástica, que encami­

nhava à Instituição os acusados ríe heresias proveni erites das

visitas pastorais; era igual mente auxiliada pela justiça ci­

vil , quando havia necessidade de prender e transportar os

réus. Entretanto, os inquisidores não podiam executar plena—

mente suas taretap sem empreender visitas pelas comunidades.

Nos anos de 1540, o Alentejo tornou-se o primeiro alvo das Vi­

sitações; entre as décadas de 1560 e 1570, outras localidades

do território português também -foram vasculhadas

Porém, somente nos anos de 1590, o Tribunal de Lisboa decidiu

ampliar seu campo de ação visitando o Ultramar. No ano seguin­

te, Heitor Furtada de Mendoça viajou ao Brasil e Jerônimo Tei­

xeira Cabral aos Açores e Madeira, permanecendo nas ilhas no

período entre 1591 e 1593. Depois, o Padre Jorge Pereira des-

locou-se para Angola, visitando a região de 1596 a 1598. Esse

procedimento se repetiu a partir de 1613, quando novamente se

intensificaram as visitas ao território português e ao além

mar. Na oportunudade, -foram enviadas pelos tribunais represen­

tações aos distritos de Lisboa, Coimbra, às ilhas e ao Brasil.

Na América Portuguesa, o Visitador Marcos Teixeira permaneceu

de 1618 a 1620, inquirindo os moradores da cidade de Salvador

e arredores. Após esta data, as noticias sobre a ação itine-


* 58
V rante dos tribunais tornaram-se escassas (7). '
# Heitor Furtado de liendoça era capelão -fidalgo d'El'Rei e
f de seu Desembargo. Por intermédio de uma comissão, datada de
ar
# 26 de março de 1591 e assinada pelo Cardeal Arquiduque Alber­

to, tornau-se também Visitâdor dos bispados de Cabo Verde, São

¥ Tomé e Brasil. 0 enviado do Santo Oficio chegou a Salvador


t
adoentado, acometido de uma moléstia que havia se disseminado

* por toda a tripulação da nau do governador Francisco de Sousa

¥ (8). Durante os meses de junho e julho, o Inquisidor se resta­


¥
beleceu da doença e cuidou dos preparativos necessários para
¥
¥ dar início à Visitação. Era imprescindível alugar algumas ca—

saS, onde pudesse se estabelecer e receber os confitentes e de—
¥
¥ nunciadores. As "casas da morada do Senhor Visitâdor" custaram

caro aos cofres do Santo Oficio, provocando protesto do Conse­

lho (9). A localização exata desta moradia rião é conhecida; no

entanto, presume-se que o Inquisidor escolheu uma residência

próxima à Sé, ao Colégio da Companhia de Jesus ou no interior

da antiga muralha construída por Tomé de Sousa. A primeira ci­

dade visitada pelo representante da Inquisição contava com 800

vizinhos (10). A população era composta por reinóis, mazombos,

índios catequizados, negros ladinos e boçais que se distri­

buíam entre a cidade alta e baixa; havia ainda os que habita­

vam nos arredores: em Monte Calvário, próximo ao Mosteiro de

São Bento ou das hortas que circundavam o espaço urbano de

Salvador (11). Cardim estimou, nos Tratados da Terra e Gente

do Brasi1 , que a "cidade com seu termo passante" teria três

mil portugueses, oito mil índios e quatro mil escravos da Gui­

né. A proporção supracitada entre brancos, índios e negros não

é a mesma encontrada na documentação originada das visitas. Os


GRAFICO I

d e n u n c ia d o r e s

d e n u n c ia d o s
confitentes

P rim e ira V is ita ç ã o do S a n to O f í c i o às

p a rte s do B r a s i l - V i s i t a ç ã o da B a h ia

1 5 9 1 - 1 593

//
Illllllllllllllllllllllfe

1 2 3

1 - S a lv a d o r - p e río d o da g r a ç a - 2 8 .0 7 / 2 7 .0 8 .1 5 9 1

2 - C a p i t a n i a da Bahia - 0 5 .0 9 .1 5 9 1 /0 8 .0 2 .1 5 9 2

3 - Recôncavo - p eríod o da g r a ç a - 1 1 .0 1 /1 0 .0 2 .1 5 9 2
conf iten t e s , denunci adores e denunciados eram, comumente bran­

cos de origem portuguesa ou mestiços (12).

Em Salvador, primeira etapa da viagem, a I n q u i s i d o r ini­

ciou a Visitação no dia 28 de julho de 1591. Depois da reali­

zação do cortejo, da missa e dos juramentos, fixaram-se, nas

portas da principal igreja, o Edito da -fé e Monitório Geral.

Por intermédio destes manifestos, o Visitâdor conclamou os mo­

radores da cidade e de uma légua ao redor a denunciarem os

"suspeitos na fé", sob pena de excomunhão para os desobedien­

tes. A delação deveria ocorrer em trinta dias contados após 28

de julho; o tempo estipulado pelo Inquisidor era denominado

"período da graça". Na oportunidade, os indivíduos que se acu­

sassem perante o Santo Oficio não perderiam suas fazendas caso

fossem considerados heréticos; ou melhor, não correriam o ris­

co de ter as posses confiscadas pela Inquisição se fossem pre­

sas e condenados.

No tempo da graça, ocorreu a grande maioria das denúncias


I
e confiss&es: a presente pesquisa arrolou cerca de 439 denún­

cias (13). Na verdade, muitas outras delações foram registra­

das pelo notário do Santo Oficio, mas não as levei em conta,

pois não forneciam dados suficientes: muitas vezes nem mesmo o

nome dos denunciados eram mencionados. Este total de denúncias

partiu de 165 denunciadores. Porém, o número real de indivi—

duos-delatores é menor; há pessoas que recorreram ao Inquisi­

dor mais de uma vez. Paula de Almeida, por exemplo, denunciou

Fernão Cabral de Ataíde no dia 17 de agosto de 1591; cinco

dias depois a moradora de Itaparica retornou às casas do Visi-

tador para delatar D. Margarida, mulher de Fernão Cabral, acu­

sando igual mente Domingos Nobre Tamacaúna e Beatriz Correa


6 0

(14). Comparando a quantidade de denuncias às confissOes, no­

ta-se uma desproporção entre os números. Somente 39 pessoas se

confessaram no mesmo período. Ao término da "graça", outros

denunciadores e confitentes compareceram diante do Inquisidor;

desta vez,- os números foram menores: 47 denunciadores e 117

denúncias, registradas entre 5 de setembro de 1591 e 8 de ja­

neiro de 1592. Cerca de 82 confissões datam do período entre

11 de janeiro e -10 de fevereiro de 1592. Estes dias coincidem

com o tempo da graça concedida pelo Visitador às popuTaçÕes do

recôncavo baiano (15). (vide gráfico I)

Os relatos originados da visita de Heitor Furtado de Men —

doça à Bahia encheram páginas e páginas, que reunidas formaram

três livros de denúncias e dois de confissões. 0 primeiro li­

vro de denúncias foi encontrado na Torre da Tombo e publicado

sob a direção de Capistrano de Abreu; o segundo é relativo ao

Recôncavo e permanece extraviado; o terceira reune denúncias

da Bahia e Pernambuco, e este volume também foi publicada. As

confissões foram registradas em dois livros: um deles é conhe­

cido; o outro, contendo igualmente as confissões de ülinda,

está perdido (16). 0 desaparecimento desta documentação invia­

biliza uma análise global da Visitação. Contudo, o fato mais

grave é o de não se ter notícias sobre as denúncias do recôn­

cavo. Na vasta região, residiam três quartos da população da

Capitania, ocupando a beira-mar e o interior. Na verdade, o

recôncavo era a área mais próspera da Colônia no tempo das Vi­

sitações, enquanto Salvador funcionava como um orgão oficial

(17), meio caminho entre os engenhos e a metrópole e local de

comereialização da safra. A magnitude do recôncavo po­

de também ser avaliada pelo número de capelas e igrejas que


ia?
W w
w

deveriam publicar os Editas da -fé e Monitório Geral. □ Visita­


sespi

dor arrolou 16 localidades espalhadas por uma vasta área e or­


w

denou aos vigários e capelãos que afixassem os manifestos do

Santo Ofício nas partas de seus templos durante trinta dias.


w

Deste modo, os apelos do Visitador-chegaram-aos residentes em


v0 w

Sergipe d'El Rei, na norte da Bahia; às populações do rio Pa—


w

raguaçú, a oeste; e aos moradores de Jaguaripe e Itaparica, ao

sul (18) (vide -figura I). Durante o tempo da graça concedido à

I populaçào do. recôncavo, o Visitador ouviu 82 confidentes em

contrapartida, na sede da Colônia somente 39 pessoas se con­

I
fessaram. Estas difras permitem avaliar a importância da visi­

ta e realizar uma projeção das denúncias e dos denunciadores

registrados no período. Na sede administrativa da Colônia, no

período da graça, acorreram 439 denúncias, pertindo de 165 de-

nunciadores, e 39 confissões. Somando denunciadas, denunciado—


4
res e confitentes (19), chega—se ao número de 643; do qual 25,
4
67. eram denunci adores, 68,37. eram denunciados e apenas 6,17. #í
I 4
eram confitentes. Se a mesma proporção se repetisse durante os
4
trinta dias concedidos ao recôncavo, obteriam-se 918 denúncias 4
e 344 denunciadores. Caso estes números fossem confirmados em—
4
» n
piricamente,a visita à região seria a mais profícua em termos

de denúncias e confissões. 4
.4
A permanência do representante do Santo Oficio na baía de
.4 I
> Todos os Santos se prolongou até meados de 1593. Em 21 de se­ 4
4
tembro do mesmo ano,o Visitador aportou no litoral pernambuca­
4
no e esperou uma resposta da Câmara de Olinda para prosseguir ,4
I
viagem até a “cabeça da Capitania". Ela permaneceu no "Arreci-
4
I 4
5 fe" durante três dias; em segui d a ,tomou um bergantim que o con­ 4
I duziu ao porto fluvial de Olinda. Na vila,tal vez tenha alugado 4
i 4
I 4
I
g r a f ic o II
186
è

d e n u n c ia d o r e s

d e n u n c ia d o s
jc ó n fite n te s

P rim e ira V is ita ç ã o do Santo O f í c i o

às p a r t e s do B r a s i l - V i s t a ç ã o de

Pernambuco 1593-1595

84

22

53
49

38
3S,

?
3l

22 2
16

s
*
f 1 - - O l i n d a - pe río d o da g r a ç a - 2 3 . 1 0 / 2 3 . 1 1 . 1 5 9 3

2 - P e rnam b uco- 2 4 . 1 1 . 1 5 9 3 / 2 1 . 0 1 . 1 5 9 4

f 3 - I g a r u ç ú - p e río d o da g r a ç a - 0 9 . 0 1 / 0 8 . 0 2 . 1 5 9 4

4 - P ern a m b u c o - 0 9 . 0 2 / 0 7 . 1 2 . 1 5 9 4
*
5 - I t a m a r a c á - p e río d o da g r a ç a - 0 8 . 1 2 / 2 1 . 1 2 . 1 5 9 4
5
6 - P a r a í b a - p e río d o da g r a ç a - 0 8 . 0 1 / 2 4 . 1 2 . 1 5 9 5
i
H 7 - P e rnam b uco- 2 9 . 0 5 / 2 9 . 0 7 . 1 5 9 5
5
*
3?
Bs
&
rs»
sa 62
uma residência modesta na Rua Nova, obedecendo as ordens do
§ Conselho Geral que clamava pela redução de despesas e da per­

manência do Santo O-ficio na Capitania; na oportuni dade,o Tri­

bunal lhe comunicou o cancelamento das visitas a São Tomé e


55.
Cabo Verde (20> » Durante um mês,o Inquisidor cuidou dos prepa­

rativos da Visitação que iria ouvir os moradores das -fregue­

sias do Salvador,São Pedro Mértir,Corpo Santo e Nossa Senhora

da Várzea da Capibaribe (21). Assim, em 24 de outubro de 1593,

se realizaram as solenidades inaugurais e,no dia seguinte,co­

meçaram a contar os trinta dias concedidos pelo Visitador.

Olinda teria, no -final da década de 15B0, 700 vizinhos ou


I
3.500 habitantes, segundo as estimativas do sertanista Gabriel

& Soares de Sousa. Cardim acreditava que a vila e o termo eram


I constituídos de dois mil vizinhos e muita escravaria da Guiné:
I
cerca de dois mil escravos (22). A capitania de Pernambuco,
i
nos primeiros anos do século XVII, superou a Bahia em número

de habitantes e vi 1arejos;dispunha igualmente do centro comer­

cial mais ativo da Colônia (23). Na sede administrativa de

Pernambuco,compareceram diante do Visitador 82 denunciadores


I
que relataram 186 denúncias entre 23 de outubro e 23 de novem­

bro de 1593.Depois do tempo da graça,outras 10 pessoas delata­


i
ram, originando outras 31 acusações.Este segundo grupo de de­

lações foi registrado entre 24 de novembro de 1593 e 21 de ja­

neiro de 1594 (vide gráfico II).As confissões correspondentes

a ambos os períodos não chegaram aos nossas dias ou se encon­


i tram perdidas na Torre do Tombo.Comparando o tempo da graça

concedido aos moradores de Salvador ao mesmo período em Olinda

I e arredores,nota-se que há um maior número de denúncias e de-

nunciadores na sede administrativa da Colõniaja relação denún-


I
I
I
a.
X
*
FIGURA I I

X
V
V
-5
X
X
X
X
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A
X
X
X
X
X
V
X
X
X
v
y

J
#

f
#
é
+
m

#
è
COSTA NORDESTINA
63
cias por denunci ador ,em Olinda,é de 2,3 por 1; enquanto em

Salvador para cada- denunciante encontram-se 2,6 denúncias.Os

resultados,a principio,sàa per-f ei tamente compreensíveis: Sal­

vador possuía uma população numericamente superior a Olinda.No

entanto, vaie lembrar que Heitor Furtado de Kénüoçã nãfo conce­

deu o período da graça exclusivamente aos residentes nas fre­

guesias do Salvador e São Pedro M á r t i r ^ m b a s partes da dita

vila;os habitantes de Recife,e logo da freguesia de Corpo San-

to,e da Várzea da Capibaribe também foram conclamados para

apontar os "suspeitas na fé".

Assim sendo,os 82 denunciadores mencionados não

m o r a v a m ,somente em Olinda, mas eram,do mesmo m o d o ,provenientes

de Recife e da Várzea do Capibaribe.A primeira localidade era

um mero entreposto,cais onde se ancoravam navios de grande

porte e se armazenâvam os produtos destinados ao comércio.Por­

t a n t o ^ população do "Arrecife" não poderia ser numerosa.. A

Várzea,por sua v e z ,se localizava na região da mata úmida,área

de concentração de grandes engenhos (24). Em cada engenho de

Pernambuco, segundo Gabriel S. Sousa,residi am cerca de 20 a 30

vi zinhos,"fora os que vivem nas roças",afastados dos engenhos,

"que é muita gente" (25).Deste modo,os dados populacionais não

explicariam o desequilíbrio entre os números de delatares de

Salvador (165) e os de Dlinda (82);resta concluir que os habi­

tantes da Capitania de Pernambuco,sobretudo das freguesias

mencionadas,não responderam aos apelos do Visitador com a mes­

ma intensidade empreendida pelos moradores de Salvador e arre­

dores. (vide mapa II)

Em dezembro de 1593,a visita do Santo Ofício às fregue­

sias de 0 1 inda,Recife e Várzea do Capibaribe chegou ao fim.Lo-


I
-v
V
V go nos primeiras dias do ano seguinte,o Visitador se deslocou
■0 até Igaruçú,vila no interior da Capitania dè Pernambuco e pró­

xima da ilha de Itamaracá.A viagem de quatro léguas à dita vi­


V
¥ la certamente se realizou par mar até a foz do "Garuçú"; depois

subiu rio acima,ruma ao sertão, Igaruçú era,nos anos de 1640,e
v
V logo meio século após a visita,a segunda vila em número de ha­
¥ bitantes na Capitania de Pernambuco (26). Qs moradores de
¥
¥ Olinda frequentemente visitavam a 1ocalidade,percorrendo
I•
umas
¥ poucas milhas em busca de milagres dos Santos Cosme e
¥
¥ Dami ã o ,padroei ros da vila.O holandês Verdonck esteve na região

¥ na década de 1620 e reparou que os moradores eram pobres, vi­


V
vendo de seus oficios ou contando com a força de uns poucos
¥
¥ escravos (27).
¥ No ano do "nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil
¥
# e quinhentos e noventa e quatro aos nove dias do mês de janei­
t ro, primeiro dominga depois da festa de,Reis", na vila de I.ga-

ruçú se realizou uma procissão que partiu do Mosteiro dos Fra­
t
¥ des Capuchos de São Francisco até a igreja da Santa Casa da
¥
Misericórdia, prédio que desempenhava as funçòes da igreja ma­
¥
¥ triz, já que a última se encontrava danificada. Após a missa
¥ celebrada pelo Reverendo Padre Miguel Al far, publicou—se o
¥
¥ Edito da graça, concedendo “trinta dias de graça e perdão para
¥ que os que neles vierem perante ele (Visitador) confessar suas
¥
¥ culpas e fazer delas inteira e verdadeira confissão sejam re­

¥ cebidos com benignidade e não lhes dé Penitência Corporal nem


¥
Penitência pública, nem lhes sequestrem seus bens..." (28)
¥
¥ Durante as cerimônias realizadas na igraja da Santa Casa
¥
da Misericórdia de Igaruçú, o Inquisidor se dirigiu aos mora­
¥
¥ dores da frequesia dos Santos Cosme e Damião e às demais fre—
t
t
f
guesias da Capitania de Pernambuco: São Lourenço, Santa Amara,
m
Santa Antônio e São Miguel (vide figura II). A delimitação ge­
>«•5*
ográfica desta etapa da visita, a princípio, parece arbitrá­
3
© ria: Igaruçú e São Lourenço se localizam ao norte de Olinda,
©
enquanto Santo Amaro do Jaboatão, Santo Antônio de Cabo de

& Santo Agostinho e São Miguel do Ipojuca estão ao sul, a léguas


&
da sede da Capitania. Os depoimentos provenientes dos morado­
ê
m res dessas freguesias não seriam registrados em Igaruçú, mas

em Olinda, pois à vila não dispunha de acomodação adequada pa­


<n
íT^ ra abrigar o representante do Tribunal de Lisboa. Os confiten-
r-i
tes e denunci adores deveriam, então, se deslocar até a sede da

Í?N
Capitania para "descarregar suas consciências na mesa da visi­
lí/
tação do Santo Ofício" (29).
rr>
Deste modo, alguns fatores comprometeram o sucesso da vi­
©
sita que percorreu as freguesias do "interior" de Pernambuco.
ra ,

Na ocasi ã o , o Vi si tador reuni u 1ocal id ades di st an t e s : não' é

razoável, por exemplo, promover solenidades em uma vila no

sertão e próxima a Itamaracá e se dirigir aos fiéis residentes

em Ipojuca, na mata úmida pernanbucana (vide figura II). Os

i moradores da mesma região também encontraram dificuldades para

viajar até Olinda. Somente 6,5”


/. dos denunci adores e confiten —

tes eram residentes na freguesia de São Miguel do Ipojuca

(30). 0 mesmo ocorreu com os habitantes de Igaruçú, vila onde

o Inquisidor esteve e deu inicio a Visitação pois apenas 21,3X

© dos denunciadores e confidentes eram provenientes da freguesia


© dos Santos Cosme e Damião. Em contrapartida, os habitantes de

Santo Amaro, localidade a duas léguas da sede da Capitania,

§ representaram 42,67. das pessoas que compareceram diante de

Heitor F. de Mendoça, entre os dias 9 de janeiro e 8 de feve­


reiro de 1594- A população residente próxima ao Cabo de Santo

Agostinho, região onde se concentravam os maiores engenhos de

Pernambuco (31), contribuiu pouco com a Inquisição; somente

11,5X dos con-fitentes e denunciadores moravam nessas terras.

Os resultados supracitados permitem concluir que os apelas do

Visitador se espalharam de maneira desordenada, privi 1egiando

algumas regióes em detrimento de outras. Na verdade, o espaço


I
urbano e seus arredores tornaram—se o principal alvo das in­

vestidas do Inquisidor (32). O homem do campo, a escrãvaria e

os índios permaneceram, portanto, distantes das garras da In­

quisição.

A população rural, muitas vezes, era duplamente margina­

lizada. Por um lados, não so-f-riam influência das cerimônias

organizadas pelo Santo Oficio (vide capítulo I); o contato com

o Visitador era inexistente, pois quando tomavam ciência da

visita era por intermédio do capelão ou vigário locais, na

missa de domingo. Por outro, a distância e a dificuldade de

transporte frequentemente dificultavam o deslocamento até a

sede da Capitania e o cumprimento dos desígnios do senhor Vi­

sitador. Por estas razdes, no tempo da graça, concedido às

freguesias mencionadas, apenas 49 delatores compareceram fren­

te ao Inquisidor, professando 73 denúncias, e apenas 12 pesso­

as se confessaram. Os números se tornam insignificantes quando

se sabe que a região visitada era próspera e abrigava boa par-


A

te dos engenhos e plantçdes de cana de Pernambuco. Na período

entre 9 de fevereiro e 7 de julho de 1594, com o fim do perio

da graça, ocorreram 22 confissóes e 84 denúncias, oriundas de

60 denunciadores (vide gráfica II ) , todas registradas pelo no—

tário do Santo Ofício em Olinda e referentes á Capitania como


'.-5

B
s>»
rã,
67
Wi um todo.
3
$ Uma análise minunciosa dos números supracitados permite
%
a dizer que os moradores do "interior" pernambucano tiveram uma
3
pequena participação na Visitação. Porém, o mesmo nào ocorreu
a
com os habitantes do recôncavo baiano. No tempo d a __graça, os

últimos representaram 82,3% do total dos confitentes, apesar

de residirem longe da sede da Capitania, local onde permanecia

o Visitador. Deste modo, os habitantes dessas localidades con­


I
tribuiram ativamente para o sucesso da visita inquisitorial à
sa>
Bahia, superando os entraves da geografia.
9
Em 6 de dezembro de 1594, Heitor F. de Mendoça se reuniu

com os oficiais da vila da Conceição, na ilha de Itamaracá.

Dois dias depois, se realizou o primeiro auto da Santa Inqui­


.-.'j-
# sição na Capitania de Itamaracá, penúltima parada da Visitação

do Santo Oficia às partes do Brasi 1 . No dia da "Concepção da

Sempre Virgem Maria Nossa Senhora", o Visitador participou de


I
I uma procissão solene que saiu "da ermida do bem aventurado

Santo Antônio" em direção à igreja matriz. Na mesma ocasião, o

Inquisidor concedeu 12 dias de graça e perdão para todos os

moradores (33). Assim, entre 8 e 21 de dezembro de 1594 compa­

receram à casa do senhor Visitador 22 denunci adores e 14 con­

I fitentes, ocorrendo 34 delaç&es (vide o gráfico II). Na Paraí­

ba, o Inquisidor, antes de dar inicio à visita, manteve con­

versações com o capitão e governador Feliciano Coelho de Car­


a
v
valho. 0 "dito Capitão e Governador com os principais e muitos

de a cavalo e de pé saiu fora a recebê-lo e nela foi bem rece­

bido de todos" (34). No dia 8 de janeiro de 1595, um cortejo

partiu da Santa Casa da Misericórdia e seguiu para a igreja

I
matriz. A procissão era composta pelo Visitador, capitão go-
:
GRAFICO I I I
IK I d e n u n c ia d o r e s
P d e n u n c ia d o s

?§] c o n f i t e n t e s
Segunda V i s i t a ç ã o do s a n to o f í c i o às
P p a rte s dó B r a s i l - V i s i t a ç ã o da B a h ia
*
1 6 18 -1 6 20
V
p
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V 106
I#

p
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y
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V
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1 - S a l v a d o r - p e r ío d o da g r a ç a - 1 1 . 0 9 / 1 0 . 1 0 . 1 6 1 8
*
v 2 - S a lv a d o r - 1 2 .1 2 .1 6 1 9 /1 9 .0 5 .1 6 2 0
¥
V
V
t
<1
V
1
&V
5* vernador, principais da terra e o povo. □ período da graça se­

& ria de 15.dias e, neste intervalo de tempo, ocorreram 35 dela­


& ções, partindo de 38 pessoas e apenas nove confissões (vide

s» grá-fico II). A vila de Felipéia, local onde se realizaram as


S n
ES»’ cerimônias, -foi -fundada anos antes da chegada da Inquisição;

se
& calcula-se que este espaça urbano date de 1586 (35). ft região,
Sfc
;-? portanto, era despovoada, mesmo porque a conquista da Paraíba
I
só se consol i dou -nesse -final de século. Contudo, a ação itine­
&
I rante do Santo Oficio não se encerrou na Paraíba; o Visitador

B- retornou a Olinda, onde, entre 29 de maio e 29 de julho de
J5K,
£
1595, ouviu cinco confitentes e 38 delatores, registrando 53

acusações (vide gráfico II). Depois desta breve retomada das


5s
*,#
atividades, voltou a Lisboa.
:•>»
? A Segunda Visitação do Santo Ofício à Colônia vasculhou a

Bahia entre 1618 e 1620. Os depoimentos registrados no período

%
V foram editadas pelos Anais da Biblioteca Nacional do Rio de

Janeiro e Anais do Museu Paulista (36). Porém, as publicações

nâo fornecem informações sobre as cerimônias inaugurais, nem

I mesmo em relação ao local da missa, do cortejo, dos juramen­

tos. Seria importante conhecer o cerimonial preparado por Mar­

cos Teixeira a fim de compará-lo com a Primeira Visitação.

Deste modo, uma análise simbólica do evento torna—se inviável;

resta-nos, então, realizar um estuda quantitativa e cotejé— lo

com os resultados da visita anterior. No período da graça,


i
iniciado em 11 de setembro de 1618, compareceram ao Colégio da
%
*4
Companhia de Jesus, prédio onde se instalou o Visitador, 46
I
delatares e 55 confitentes; na ocasião o Inquisidor ouviu 106
)

í acusações. Entre 12 de dezembro de 1619 e 19 de maio de 1620,


I ocorreram outras confissões (vide gráfico III). A presente vi-
I
%
I
>
sita possui algumas particularidades, ü número de confissftes é

alto quando comparado ao período da graça em Salvador no ano

de 1591. Na época apenas 6,17. do total de pessoas (con-fi ten­

tes, denunciados e denunci adores) se conf essaram; em 1618, a

porcentagem era maior,estava por volta de 26,67.. A porcentagem

de delatores permaneceu quase inalterada, de 25,67, em 1591,

passou para 22,27 na visita do século XVII. Em contrapartida,


M
ocorreu uma queda na quantidade de denúncias: 68,37 na primei­

ra visita e 51,27 na segunda. Uma outra particularidade sãcr as

con-fissües registradas depois do período da graça. Este inter­

# valo de tempo privilegiava os con-fi tentes e, no entanto, ao


V
término dele 10 indivíduos recorreram à mesa do Santo G-flcio

* para relatar seus. próprias desvias. Em contrapartida, ninguém


V delatou após os trinta dias estipulados pelo Visitâdor. Esta

evidência permite concluir que o tempo da graça não -foi com­

preendido, em sua plenitude, pelos colonos da Bahia. Pois na

oportunidade, os indivíduos que confessassem suas culpas,


V
# diante do Visitâdor, não receberíam penitências corporais e
V públicas, e nem haveria o seqüestro de seus bens.

v
V
#
V 2.2 — As transgressões
#
#

* Algumas vezes o Santo Ofício chamava determinados indiví­


#
duos a comparecerem diante de sua mesa, enquanto o cerimonial
V
* promovido pelos inquisidores e principais da terra conclamava
* toda a população a apontar os "suspeitos na fé". Assim, era
v
t comum os confitentes e denunciadores se dirigirem à morada do
*
*
V
V s?

Visitador por iniciativa própria (37). Diante do enviada de

V Lisboa, os colonos juravam sobre os Santos Evangelhos, prome­


©
tendo sempre dizer a verdade. 0 conteúdo dos depoimentos gira­

va em torno de pecados e heresias. Qs mais variados tipos de


m desvios_da actodoxàa cristã-podem-ser -encontrados saa— documen­

tação proveniente das Visitações. Uma análise das práticas he­

réticas deve, então, contar com uma tipologia, caso o estudo

pretenda abordá-las em sua totalidade. Pois a enorme diversi­

dade e quantidade de informações podem, certamente, dificultar

um estudo abrangente.

© Vários hi storiadores mapearam o território da hpresia.


© Todos, no entanto, obedecem a critérios próprias e especificas
£5%.
que não os tornam possíveis de serem utilizados nesta pesqui­

sa. Jean-Pierre Dedieu (38) usou uma padronização detalhada e

eficaz para observar como a perseguição empreendida pelos in­

O quisidores espanhóis se transformou ao longo dos séculos. So­

nia Siqueira (39) inventariou as várias transgressões presen­

tes nos autos das Visitações e, muitas vezes, apenas transcre­

veu as falas dos depoentes. Existem também os estudos temáti­

cos que elegem um determinado grupo de transgressões como ab­

jeto de análise. Dentro desta perspectiva éncontram-se os tra­

balhos de Dedieu, Bennassar e Ronaldo Vainfas (40). Todos en­

«a? focaram os desvios sexuais, empregando uma tipologia capaz de

abranger suas mais variadas formas. Laura de Mello e Souza

(41), em sua pesquisa sobre feitiçaria, construiu uma tipolo­

gia particular, 'que entretanto é mais apropriada para os estu­


S 3
dos dedicados ao tema. A presente pesquisa tentou, por sua

vez, criar uma padronização das heresias, capaz de reunir a

ííi classificação elaborada pelos inquisidores e as narrativas re-

@ '
\

71
gistradas pelos notários do Santo Oficio..

Eis então como se apresenta a tipologia das transgres­

p sões:

1 - Transgressões contra os dogmas, Crista, Nossa senhora e as

santos; contra a Igreja como instituição e contra os pa­

dres. Tais desvios, no entanto, não devem a principio co­


*
p locar em dúvida a ORDEM estabelecida;
# 2 - Contra as ações desempenhadas pelo Santo Oficio e seus re­
V
presentantes;
p
p 3 — Contra a ORDEM em que vive a Cristandade: práticas rela­
# cionadas à feitiçaria, ao protestantismo, à gentilidade e
V
• ao maometanismo, exceto o judaísmo que será considerado à
p parte;
p
p 4 - Desrespeitos às regras impostas pela Igreja e pelas comu­
p nidades á vida mundana: encontram—se ai os desvios se­
p xuais, desobediências das regras do ..casamento e qualquer
p
p pensamento ou fala relacionadas à vida sexual;
p 5 — Relativas às práticas judaizantes, mesmo se as acusações
p
p não tiverem relação com as leis mosai cas;
p
p
p 6 - outras transgressões.

p Vale lembrar que a construções desta tipologia se deu


p através do conhecimento empírico dos desvios narrados pelos
p
p documentos, e portanto incorre em algumas imprecisões teológi­
p cas. Contudo, o empreendimento se mostrou funcional para a
p
41 análise quantitativa. Devo também enfatizar que uma única pes­
P soa delatava várias outras; a cada indivíduo podiam ser impu­
P
tadas diversas acusações de pecados e heresias. Nestes casos,
P
P um denunciados não o incriminava apenas com um delito; às ve-
P
t
*
r j i i i'i
#
72

zes, uma série de .transgress&es demonstrava o quanto um indi­

víduo era "pervertido". A delação de Bartolomeu Vasconcelos,

chantre da Sé de Salvador, permite ilustrar o exemplo supraci­

tada. Em 11 de setembro de 1618. o religiosa compareceu diante

de Marcos Teixeira para denunciar o licenciado Felipe Tomas de

Miranda, cristSo-novo, advogada e residente em Salvador. Era

atribuído ao acusado o assassinato de seu criado, indivíduo

com o qual mantinha relações homossexuais. Com a divulgação do

crime, o licenciado tratou de -fugir para Pernambuco; antes da

viagem, se escondeu em casa de Anrique Manis Teles. Q chantre


t

da Sé também disse que encontraram uma toura no escritório do

denunciado, e assim o acusou de professar o judaísmo (42). m

Neste relato, estão presentes acusações de desvio sexual, prá­

tica judaizante e assassinato — crime que não era da alçada

inquisitorial. Contudo, a denúncia enfatizou a transgressão #

sexual e o crime, a deleção de judaísmo 'sendo mencionada como #

agravante. Deste modo, a pesquisa decidiu contar apenas o des-

regramento sexual e descartou as outras denúncias. Caso con­

trário, ter—se—ia uma infinidade de delações, com prejuízo pa­


#
ra a análise.

QUADRC I - transgressòes

Bahia #
confissões denunci as m

I II I II
#
1 - 45,07. 47,77. 37,07. 47,27. *

2 — 2,57. 7,77. 4,77. 7,57.

3 — 21,07. 10,87. 15,77. -

4 - 22,07. 27,77. 10,07. 12,37.


5 ~ 13,37. 4,67. 27,07. 30,27.

6 - 6,77. . 1,57. 5,67. 2,87.

Pernambuco

con-fissOes denúncias

1 - 60,67. 49,57.

2 — - 3,77.

3 — 16,77. 6,27.

4 - 16,77. 12,37.

5 - 6,07. 26,07.

6 - — O TV

obs: a tipologia das transgressbes se encontra na página ante­

rior e estão numeradas de 1 a 6. 1= Primeira Visita e 11= Se­

gunda Visita

*
t Segundo o quadro I, o primeiro grupo de transgressbes se
t mostrou predominantemente tanto nas confissbes quanto nas de­

♦ núncias, e isto pode indicar a preocupação dos confitentes e

♦ denunciadores com desvios cotidianos da ortodoxia cristã.Tais


t
desregramentos não comprometiam a ordem vivida pela Cristanda-
t
t de, nem a defesa de qualquer outra prática religiosa. Nos do­
#
cumentos, percebe-se, sim, uma atenção permanente em controlar

* as injúrias e as distorçòes da fé. A co.nfissão de Domingas

Gonçalves, mameluca e moradora às margens do rio Extremo, na

* freguesia de Santo Amaro, ilustra bem a preocupação com os

desvias da ortodoxia. Ela declarou ao Visitador t'er arrenegado

#
#

a
#
*

de Deus eííi pensamento quando sentia uma -forte dor, dizendo que m

"Deus não seria Deus se não -fosse capaz de tirar a dor que ela

sentia" (43). O testemunho de Domingas revela sua preocupação *


m
de se reabilitar perante ao Criador, pois o pecado que confes­
m
sava nunca viria a público se permanecesse oculta em sua men­

te. Outros transgressores propalavam em alto e bom som propo­


m
sições contra o celibato e diziam que o estado de casado era
m
igual ou melhor do que o dos religiosos; depois dirigiam-se ao

Visitâdor a fim de atenuar as culpas. As visitas empreendidas


#
pela Inquisição da Galicia, entre os anos de 1590 e 1593, tam­

bém evidenciaram uma perseguição às proposições, pois 72,37.


+
das heresias originadas destas incursãos ofendiam ou desres­
*
peitavam os dogmas cristãos (44).
#
No entanto, o número de blasfêmias, apostasias e proposi­
#
ções referentes às visitas ao Brasil se encontram hiperdimen-

sionados. Inúmeras narrativas registradas pelos notários ' dó

Santo Oficio fornecem informações imprecisas e ambíguas. Há

homens e mulheres acusados de não comparecerem à igreja para

rezar, confessar e tomar sacramento. A principio, essas trans­



gressões significariam um simples desvio dos deveres de um bom
é
cristão. Todavia, em muitos casos, o depoimento é seguido por *
comentários sobre a origem cristã-nova dos delatados - o que

agravava a denúncia. Outras vezes, a acusação somente ocorria

devido ao procedimento suspeito de um cr istão— n o v o , como se o

mesmo desvio, cometido por um cristão-velho, não incorresse em

suspeita. Assim, quando encontrei denúncias com tais ambigüi-

dades, e não estando evidente a acusação de judaísmo, classi-

fiquei-as no primeiro grupo; e logo como basfêmia, desrespeito

aos dogmas...Contudo a leitura dos depoimentos permite "in—

*
75
tuir" que dezenas de denúncias classificadas no primeiro grupo

investiam contra os judaizantes ou cripto-judeus, pois denun­

ciavam -formas d e r e s i s t ê n c i a à aculturação promovida, princi-

palmente, pelo Santo Oficio.

A evidência se fortalece quando se constata que na Bahia,

diante de Heitor Furtado de Mendoça, apenas 32 cristâos-velhos

foram acusados de desrespeitar a ortodoxia. G total de denún­

cias do primeiro grupo é 226, o que equivale a dizer que S5,8%

de tais delações envolveram os cristâos-novos. Um bom exemplo

desta ambigüidade e incriminação dos marranos se encontra na

visita á Bahia. Felicia Lobo se apresentou ao Inquisidor em 19

de agosto de 1591. Na ocasião, delatou Manuel Paredes, cris—

tão-novo, lavrador e residente na freguesia do Passé. 0 dito

Manuel era um conhecido blasfemador, gabando—se de proferir

tantas verdades quanto São João Batista. A denunciante, sempre

que ouvia tais desrespeitos, o recriminava, fazendo-o pensar

na gravidade das palavras que habitualrnepte repetia. 0 escân­

dalo de Felicia aumentava, porém, devido a origem cristã—nova

do acusado (45). □ depoimento mencionado demonstra que de s ­

vias cometidos por eram indícios de judaísmo ou de

resistência à cristianizaçâo: por isso, qualquer transgressão

cometido pelo grupo despertava suspeitas.

Um outro dado curioso da quantificação se refere ao ter­

ceiro grupo de transgressões, onde se encontram, entre outras,

as práticas relacionadas ao maometanismo, gentilidade, feiti­

çaria e protestantismo. Os resultados diferem mui to.dos dados

coligidos por Jean-Pierre Dedieu junto aos processas dos Tri­

bunais de Toledo e Saragosa, entre 1560 e 1614. Nestes lugares

o maometanismo, protestantismo e as mais variadas superstições

IP
#

I
p
*1
eqaivaliara a 42,97. do total das heresias (46). Nota—se, então,
I »

I que estes tipos de desvio, sobretudo os dois primeiras, não

haviam se di-furtdiodo pela Colônia e se restringiam aas países


•p #
da Europa. Nem m e s m o em P o r t u g a l os delitos menCionados eram
i

ir significativos. Em Evora, entre 1591 e 1600, representavam

0,47, da totalidade (47). Contudo, uma outra parti cul aridade

I dos números provenientes das vistas à Bahia e Pernambuco salta


I a nossos olhos: o terceiro tipo de transgressões é mais signi­
I
ficativo entre as confissões do que entre as denúncias; mais

representativo na Bahia do que em Pernambuco; mais importante

entre as delSiçÕes originadas da visita de Heitor Furtado de *


I
£ Mendoça do que a de Marcos Teixeira. Essas especificidades se
I
esclarecem quando se constata a existência de grande quantida­

de de confissões envolvendo práticas gentilicas. Vários mame-

lucos compareceram frente ao Santo Oficio para narrar contatos

culturais entre mestiços e indígenas. A Santidade do Jaguaripe


I
I também contribuiu para elevar o número de confissões e denún­

cias registradas na Bahia, durante a Primeira Visita (48).


I
Gonçalo Fernandes, Manuel Branco, Brás Dias, Domingos Fernan-
1
I des Tamacaúna são alguns dos mamelucos que declaram ter vivido
I
entre os "negros da terra", partilhando com os nativos de suas
I
§> tradições e costumes. Sobre o resultado do quarto grupo de
I
transgressões, infelizmente, nada há a dizer.
I
I 0 quinta grupo, por sua vez, possui suas particularida- I
I t
»
des. As práticas judaizantes foram fartamente denunciadas, mas f
i tiveram uma pequena participação nas confissões. Pois o reco­ é
nhecimento, diante do Visitador, do caráter judaizante de al­

a guns rituais tornava-se perigoso e passível de levar o confi­


'&
y? dente á fogueira. Os números encontrados no Quadro I, sobretu-
5*
t1
i

9
x
# .
%
%
a
9
F
». do aqueles referentes ao quinto grupo de desvios, tornam-se
-

W inteligíveis quando se sabe que 56,57 de todos os denunciados

eram cristâos-novos e que apenas 25, BY. dos con-fi tentes eram

"da raça dos judeus". Neste sentido, havia uma intenção deli­
%
berada de perseguir os conversos; pois é notório que sendo a

minoria na população, este segmento étnico era porém maioria
è
è entre os delatados. Em Evora, durante os anos de 1591 e 1600,
è 90,67. de todos os processos eram referentes aò judaísmo (49).
è
Em contrapartida, em Saragosa e Toledo, entre 1560 e 1614,
6
è ocorreu uma queda quase completa da perseguição aos cristãos-
v
novos e ao judaísmo; a heresia equivalia a 5,97 do total dos
»
è processas (50).
è Vale ainda comentar os números referentes ao última gru­
è
è pa. Nesta categoria, encontra-se relatos cujos delitos não se
è encontravam nos monitórios publicados pelos inquisi dores. As
è
cifras são inexpressivas, mas demonstram que nem sempre a lis­
#
ò ta de transgress&es conduziu o delatar e o confidente a compa­
è recer à mesa do Santo Ofício (vide capítulo I). Por vezes, ha­
è
è via uma certa confusão ou leitura tortuosa do rol de heresias;
* outras vezes, os colonos procuravam o Visitâdor para resolver

problemas que não pertenciam à alçada da Inquisição. Como


è
exemplo, lembro o caso do denunciador que reclamou dos padres
è
por não executarem as ordens contidas em uma carta de excomu­

nhão expedida contra os responsáveis pela queima de sua plan­

tação (51). E evidente que esta impunidade não era de compe­

tência do Inquisidor. Porém, o indivíduo recorreu a ela como

autoridade capaz de impor a lei. Na situação, o representante

do Santo Oficio ocupou, eventual mente, o espaço vazio deixado

pelas autoridades coloniais. A denúncia de Nicolau Faleiros de


*


è

a •
&
&
0
0
M
Vasconcelos é, do mesmo modo, sui generis. □ dito homem era - 1

ft cristão-velho e casado com D. Ana, cuja -família tinha sangue m

3
M

I
judeu. Ele contqu ao Visitador que Baltasar Dias havia espa­ 0
i lhado p e l o recôncavo que os parentes de sua mulher eram judai-

zantes. Disse também que o tal Baltasar era um conhecido men­


m
I
I
tiroso e "aparelhado para levantar" falsos testemunhos. Nico- 0
0
§ 1 au de Vasconcelos termina a delação dizendo que os familiares
I
0
de sua esposa eram bons cristãos, devotos e amigos “de Nosso •
0
Senhor Jesus Cristo e da Virgem Nossa Senhora" (52). O- presen­
a 0
te relato não possui o caráter incriminador próprio das dela- 0
çtdesp torna-se então umà- defesa, um libelo em favor dos verda­ 0
0
i deiros sentimentos cristãos de seus parentes de origem conver­
p
i
sa. 0
§
0
0
0
2.3 - Delatadas, delatares e confitentes 0

Tarcizio do Rêgo Quirino realizou um estudo detalhado so­ 0

bre a população colonial, tendo como base a Primeira Visitação


0
0

I
do Santo Oficio. Os resultados alcançados pela pesquisa são a l ­ 0
I tamente relevantes. No entanto, os números indicados devem ser
0
0
rei a t ivizados, pois se referem somente às pessoas citadas pela 0
documentação inquisitorial e não fornecem uma visão global da 0
I
0
I Colônia. Em Pernambuco, segundo o estudioso, havia um grande
I
número de portugueses, enquanto na Bahia existia um forte con­ 0
&
B
0
I
tingente de homens e mulheres nascidos na Colônia. Na primeira
0
Capitania, os lusitanos eram provenientes do norte enquanto os 0
D
0
i imigrantes vindos da região de Lisboa se concentravam, sobre­
0
tudo, em torno da baía de Todos os Santos. Os cristâos-velhos 0
0
0

1
*
*
79
eram predominantes em ambas as Capitanias; os homens represen­

tavam 63,9/1 dos moradores da Bahia e as mulheres apenas 17,7/1

dos habitantes de Pernambuco. Na última localidade, encontra­

va—se também grande porcentagem de solteiras e de imigrantes,

evidenciando que a região estava em crescimento econômico,

tornando-se um -foco atrativo (53).

Porém, nem sempre os resultados obtidas par Régo Quirina

conferem com a s .est imati vas de Gabriel S. Sousa e Cardim (54).

Segundo qs testemunhos contemporâneas às Visitações, a porcen­

tagem de negros da Guiné e índios era superior à de portugue­

ses. A diferença entre as cifras, no entanto, é perfeitamente

compreensivel. Raras vezes os negros africanos e os indígenas

compareceram diante da mesa do Visitador: Por isto, nâo foram

incluídos na quantificação. A presente pesquisa utilizou o

mesmo corpus documental empregado por Quirina, mas privilegiou

a relação entr e o denunciado e o denunciador; entre delatores

e confitentes; entre os participantes das visitas e a socieda-

de coloni al.
1

QUADRO II: os delatores

Bahi a Pernambuco

I II

cristâo-velho B S ,77. 82,67. 80,27.

cri stâto-novo 7,57. 13,07. 14,47.

raourisco - ■ 77 -

sem inform. 3, B7. r? 97


— 7 5,47.

4
ao
masculi no 64,1% 93,5% 80,2%

femini no 35,9% 6,5% 19,8%

categorias sóci o-profi ssi onai s

1 - 16,0% 10,9% 25,9%


r? _ z a ,a/. 18,37.”

3 — 11,3% 10,9% 4,7%

4 - 4,3% 8,7% 4,3%

5 — - 20,3% 15,2% TCT,O


OJ T-/
”/
.

6 - 0,5% - 2,2% •

sem inform. 23,1% 26,0% 9,3%

obs: 1 - senhores de engenh o e plantadores ; 2 - burDcratas e

clero; 3 - mercadores; 4 — letrados; 5 - assaiariados, arte-

sãos e marinheiras; 6 - escravos.

Grande parte dos delatores eram cristãos—velhas e do sexo

masculino. Os burocratas e o clero compunham 24,5% e 28,3°/. do

total dos delatores na Primeira e Segunda VisitaçBes à Bahia.,

respecti vamente. Em Pernambuco, Itamaracá e Paraíba, 35,t5%

eram artesãos, assalariados e marinheiras; os senhores de en­

genhos, plantadores, burocratas e o clero constituíam 44,2%

dos denunciadores. Os delatores do sexo feminino eram minoria,

mas devo ressaltar que durante a visita de Marcos Teixeira es­

te segmento tornou-se ainda mais inexpressivo. Em compensação,

na Bahia, entre 1591 e 1593, as mulheres tiveram uma partici­

pação ativa, constituindo 35,9% dos denunciadores. Gs resulta­

dos para a Primeira Visitação são previsíveis, pois havia um

maior número de rçiulheres na Bahia do que nas outras regiBes

(55). fis cifras referentes à Segunda Visitação, por sua vez,

são inexplicáveis.

Os números provenientes das confissões foram semelhantes


sos supracitados (vide QUADRO III): 62,57 dos confitentes eram

cri stâos— velhos, 76,6'/. eram homens, 36,47. e 32,37. eram senho­

res de engenho e plantadores da Bahia e em Pernambuco, durante

a visita de Heitor F. Mendoça. Os cr istScos-vel h a s , lotados na

burocracia .e no clero, participaram ativamente das denúncias e

confissbes registradas na baia de Todos os Santos. Nas outras

Capitanias, -foram os plantadores, os burocratas, o clero, ar­

tesãos e assalariados os grandes colaboradores do Tribunal do

Santo Ofício. .

QUADRO III: os confi tentes

Bahi a Pernambuco

I II

cri stão-velho 63,07. 38,57. 67,77.

cri stão-novQ 2"? 37 56,97. 19,37.

sem inform. 14,77. 4,67. 13,07.

masculi no 66,97. 90,87. 80,67.

femi nino 33,17. 9,27. 19,47.

categorias sóci o-profi ssionai s

1 - 36,47. 17,77. 32,27.


2 — 9,17. 9,77. 24,27.

3 - 5,87. 19,47. 9,77.

4 - 4,97. 6,47. -

5 — 21,57. 12,67. 27,47.

6 - - —

sem inform. 22,37. 14,27. 6,47.

obs: a tipologia das categorias sócio-profissionais se encon-


#

5
5>k
'
2>
j£?
i 82" ■
tra no QUADRO II.
rí- m

í? O confidente da visita do século XVII possui um perfil m

I particular, diferente dos denunciadores e do grupo que confes­


I
sou d i a n t e a Heitor- Furtado de Mendoça. Os , ú l t i m o s eram, em
>
sua maioria, cristãos-velhos; essa informação, contudo, é in­ m
I
aP-
S ' B
correta quando se refere aos confitentes da Segunda Visitação. m
»
I Nela os cristâos-novos somam 56,9X do total de pessoas que re­ B
->
B
lataram seus pec.ados diante do Inquisidor. Um outro lado ainda
I
I
fornece um contorno
I mais nítido a esse confitente: 19..4X deles s
B
s>
$ eram mercadores. Os comerciantes aparecem,entào, como um|seg —
I
mento participante e cumpri dor dos deveres próprios de um bom B
1
■I cristão, dado que, comparado aos demais, é surpreendente. Os

mercadores foram intensamente denunciados na Primeira Visita­


'«£?

ção e pouco participaram das denúncias e confissões. Por que


^
^

razão contribuiriam com Marcos Teixeira? Era comum os colonos


W

apontarem um homem de negócio como descrente, avesso ao senti­


W

mento religioso e indiferente aos dogmas cristãos. Pairava


W

ainda sobre suas cabeças o estigma de possuir sangue judeu que


W

os tornavam alvo fácil das investidas inquisi toriais. Talvez


W
W

essas ameaças sejain um dos motivos que levaram os cristãos-no—


'iiif W

vos e mercadores a cumprir os desígnios do Inquisidor. Mesmo

porque a perseguição aos judaizantes se intensificou no século


W

XVII, tanto em Portugal como na Espanha (56).


W
VKJr ^

Uma carta de El Rei, endereçada ao governador Dom Luís de

Sousa, fornece outras pistas capazes de explicar a presença de


^
W

tantas confitentes mercadores. Neste documento, datado de 20


W

de novembro de 1618, o rei mencionou uma visita inquisitorial


W

realizada na cidade do Porto. Na oportunidade, foram presos


W

BV
W

vários "homens de negócios da nação"; muitos deles mantinham


B
B
W
M w
83
contatos com a Colônia. A Inquisição soube da existência de

outros tantos mercadores que, na ocasião, estavam ausentes da

localidade. El Rei, portanto, nomeou o dito governador respon­

sável por uma investigação dedicada a vasculhar os bens e ob-

servar a permanência dos cristãos-novos Brasi1"

0 monarca ainda solicitou a D. Luis de Sousa que atentasse pa­

ra os contatos mantidos entre esses indivíduos e os estrangei­

ros (57) -

A visita de Marcas Teixeira se iniciou em outubro de

1618- Talvez, os colonos já soubessem, ná ocasião, da captura

de mercadores cristãas-novos residentes na cidade do Porto. A

-fim de amenizar os possíveis castigos, os comerciantes "baia­

nos" resolveram se confessar no tempo da graça, período no

qual , em princípio, as sentenças eram brandas e o perdão con­

cedido com mais freqüê.ncia. Essa conjuntura certamente propi—

ciou a participação dos cristãos—novos e mercadores na visita,

e possibilitou o surgimento de um per-fil particular para os

confitentes de Marcos Teixeira. Pois, na visita anterior, os

cr i stãos— vel hos burocratas e o clero -foram os principais res—

ponsáveis pelo sucesso do empreendimento destinada a vasculhar

as terras baianas.

Em Salvador, local onde os inquisidores colheram os de­

poimentos provenientes de toda a Capitania da Bahia, havia um

vasto corpo burocrático; nesta cidade, -funcionava a sede do

poder colonial. Talvez este -fato explique a presença maciça

deste segmento nas visitas. Os moradores da cidade, portanto,

conviviam diariamente com os donos do poder. 0 governador ge­

ral e sua guarda passavam longos períodos na sede administra­

tiva e nas -fortalezas construídas na entrada da baía de Todos


5
V « ;V
M *»
’i s í " W

os Santos. A administração civil frequentava os prédios da Câ­


M I?

mara ou as casas de Sua Majestade; o ouvidor geral, meirinhos,

juices, vereadores se acotovelavam pelas ruas, como se a cida­


w
W

de fosse uma grande repartição pública. Ao lado do governa se­


W ,
'i n i ’

cular existia o poder eclesiástico. Q único Bispo da — Colônia


W

residia em Salvador; havia também o cabida, cônegos, capelães


V tfr

e curas. Outros religiosos exerciam suas atividades nos Mos­


w
w

teiros de São Bento, Carmo e São Francisco. "Os principais da


*4 #

terra", muitos deles senhores de engenho e plantadores de ca­


W

na, dividiam o tempo entre o campo e a cidade, o recôncavo e


w
V» W

Salvador, os engenhos e os cargos burocráticas. As freguesias


"MtJ '*&/ '&

de Pernambuco, Itamaracá e Paraíba, quando comparadas às de

Salvador, possuíam um número inferior de burocratas e de reli­

giosos. Nas vilas.e engenhos do norte se concentravam os arte­


'W ' W

sãos e os trabalhadores assai ariad o s . Em Igaruçú, segundo Ver—

donck, existiam, na década de 1620, homens pobres dedicados ao


W
w

cultivo de cana de açdcar e mandioca e auxiliados por uns pou­


W

cos escravos (5B). Nas freguesias de Santo Amaro e da Várzes


W

do Capibaribe existiam grandes engenhos e muita opulência. As­


W
W

sim, no campo predominavam os plantadores; os artesãos e assa­


IS P

lariados se dividiam entre as vilas e os engenhas. Estes dados


w

permitem entender melhor o resultado proveniente da quantifi­


«S P

cação realizada junto dos delatores.


W

Muitas denúncias partiram dos cristãos-velhos, grupo ét­


w
W

nico predominante na América portuguesa. Contudo, as acusações

eram direcionadas aos indivíduos cristãos—novos. Na Bahia, 56,


v
V

57. dos delatados eram deste grupo, enquanto somente 21,2/1 eram
W

cristãos-vel hos;. èm Pernambuco, o fenômeno se repete: 50,2 7.


'0 M 8 I

eram de origem conversa e 17,0% eram cristãos—velhos. Os buro—


X0 W
<Ç jJ) s ^ í7
85
cratas e os lavradores, como mencionei, eram ás categorias só-

c i o-pro-f issi onai s mais presentes entre os denunci adores. Entre

1591 e 1593, na Bahia, dos 34 denunci adores burocratas, 31

eram cristãos-velhos e apenas 3 cr i stãos-novos; entre os dela­

tores lavradores, a situação é quase a mesma: 23 cristãos-ve-

lhos, 1 cristão-novo e 1 indeterminada. Na Capitania de Per­

nambuco, o quadro não se altera: burocratas - 27 cristãas-ve-

lhos e 3 cristKqs-novos; lavradores - 42 cristãos-velhos, 11

cristãos-novos e 2 indeterminados. Sobre aparticipáção do cle­

ro na Visitação do século XVI, entendo que não podem ser su­

bestimados seus 36 representantes entre os delatores. Os reli­

giosas, apesar de serem minoria, contribuiram ativamente com

os inquisidores. Ds curas, padres, capelães e regulares, mesmo

sendo uma fração menor da sociedade, forneceram subsídios im­

portantes aos visitadores, pois ninguém melhor do que eles co­

nhecia as comunidades, as práticas profanas e profanadoras. 0

sacerdote Gaspar de Palmas, o jesuíta Luiz de Grã e o vigário

Francisco Pinto Doutel (59) proferiram juntas 44 delaçdes,

prova cabal do auxilio dispensado pelo clero aos inquisidores.

0 estudo da localização geográfica dos denunciantes da

Bahia, entre 1591 e 1593, revelou que 59,47 deles residiam em

Salvador; enquanto as outras localidades possuíam um número

ínfimo. A Visita destinada a vasculhar as freguesias do Salva­

dor, São Pedro Mártir, Corpo Santo e Nossa Senhora da Várzea

do Capibaribe, todas em Pernambuco, mostrou que 70,77 dos de­

nunciantes moravam em Olinda, confirmando, assim, as cifras

referentes á Bahia. Constatbu-se também que 0,87. dos denuncia-

dores não viviam na região, e muitos eram provenientes de Per­

nambuco, Ilhéus e Porto Seguro, e se encontraram,com o Visi-


I
p
fv

1 ES6
is
tador, principalmente, depois de período de graça. Talvez, ao
a
&
saberem da permanência do Inquisidor na sede administrativa,

os moradores de outras capitanias tenham resolvido viajar até

lá para relatar as heresias que grassavam em suas localidades.

A distribuição geográfica dos denunciadores indica que o

& espaça urbana era lugar privilegiado dos contatos. Nas vilas
.js
r
se realizavam as festas e comemoraçóes, além do que o espaço

urbana cumpria função de entreposto, local onde se realizavam ,


I
as trocas comerciais. Portanto, havia um movimento -pendular
1
entre e campo e a cidade. Os senhores de engenhos e plantado­
c
.

res de cana geralmente permaneciam nas áreas agrícolas de


%
3 agosto a abril e no espaço urbano de maio a junho. Na época da
=

*.
safra, requentavam os engenhos e plantaçbes, verificavam as
í?
% etapas de produção e viviam o bucolismo das casas-grandes. No
i*

inicio de maio, se deslocavam com a família e os escravos para


I
a as residências da cidade a fim de participarem de procissões e

festas organizadas pela Câmara e pelos religiosos. Contudo, o

espaço urbano se esvaziava na época da moagem, quando a elite

açucareira debandava para o campo e levava consigo os escra­

vos, capatazes, mestres de açúcar e comissários. Os mascates

I também aproveitavam a ocasião para percorrer o "interior",

oferecendo quinquilharias aos ricos senhores de engenho. Os

meirinhas, almotacéis e juizes de vintena se deslocavam para

as mesmas paragens determinados a executar cobranças e intima—

çbes (60) Na vila, permaneciam a burocracia, pequenos artesãos

e uma malta de degredados e descíassificados. Os grandes mer­

cadores, por sua vez, se dividiam entre a Colônia e a Europa,

a rua Nova e as casas européias especializadas no comércio do


I
açúcar. Os homens de negócio eram, em grande parte, cristãos—

’í
v
novos; o grupo levava uma vida itinerante e pragmática, longe

dos cultos, cortejos e da religiosidade prescrita pela Igreja

do pós-Trento.

Neste sentido, as viagens -favoreciam os contatas, e logo,

a troca de in -format;ties entre habitantes de regióes distantes e

que di-f ici 1mente se encontrariam caso não houvesse o desloca­

mento para o centro urbano. Fernão Cabral de Taide era um rico

senhor de engenho em Jaguaripe, local desabitado ao sul da

ilha de Itaparica. Apesar da distância e dificuldade de comu­

nicação entre Jaguaripe e o resto da Capitania, este homem se

tornou conhecidissimo na sede administrativa e em todo recôn­

cavo, por participar e permitir práticas gentilicas em suas

terras. Devida a essas heresias, Fernão Cabral foi delatado

por 39 pessoas, tornando—se um dos indivíduos mais acusadas

das Visitas. Diogo Lopes de Evora, cristão—novo e dono dos

guindastes de Salvador, também se valeu de uma viagem à Holan­

da para acusar Manuel Homem. O denunciador contou a Marcas

Teixeira que o dito Manuel se encontrava na cidade de "Nostra

Dama", onde "apostara da nossa santa fé católica e se fizera

judeu" (61). Assim,caso o dono dos guindastes não se deslocas­

se até a Europa, provavelmente não teria o que relatar ao In—

qui si dor.

Deste modo, os deslocamentos permitiam aos colonos manter

relaçbes com pessoas diferentes, travar conhecimentos com po­

vos distantes e costumes incomuns. Por outro lado, as imigra—

çbes, idas e vindas corroboravam para o desarranjo das rela—

çbes de parentesco, das rígidas regras de comportamento pró—


i
prias das pequenas comunidades- A carreira da India e a colo­

nização do trópicos promoveram, então, o abandono da terra na—


I
* >X
' " * ,' /

1
88
tal, a esti1haçamento da mentalidade camponesa e da noção de
^

comunidade. O espaça urbano é o testemunho mais -fiel desta he-

tercgeneidade promovida pelas viagens e andanças. Não é sem

razão que as visitas inquisitori ais tiveram no Brasil e na Eu­

ropa um caráter urbano (62). fis cidades e~viias— se tornaram,


^

portanto, o principal alvo dos visitadores, pois.neste espaço


' k^

I
se aglomeravam pessoas provenientes de localidades dispares,
4
' ‘^

que haviam perdido os laços de solidariedade. 0 Santo O-ficio


W

se nutria da diversidade para disseminar descon-fi anças * ,perse­ I


W

guições e obter culpados, heréticas e "suspeitos na fé". Além


<W *r

disso, a cidade induziu a uma convivência mais estreita e a um


4
controle social mais eficiente, executada pelos governantes,
4
W

padres e vizinhas. Enfim, o espaça urbano é o palco privile­


Hffl
'S # > /

giado para os conflitos e conformação de uma mentalidade cris­


:
tã.

i
V ii-y

QUADRD IV: os delatados

i
M if â í'

Bahia Pernambuco
NfeflU*'

4
I II
4
N ü^

cri stão-velho 21,27. 12,37 17,07 •


^
’a^ iS )'

cri stão—novo 56,57 81,17 50,27


>*
V ft .*

sem inform. 22,37 6,67 32,87


'« Ü J * '

I
masculi no 73,47 97,27 77,97
femi nino 26,67 1,87 22,17 v

«i
'
W

categorias sócio -profissi onais


w

1 - 26,17 10,47 24,57.


4
2 - 7,07 14,17 9,67 *
- !

4
4
89
3 22,87. 41,57. 18,17.

4 - 6,57. 6,67. 4,07.

5 - 16,57. 13,27 29,07

6 - 2,27. - 1,67

sem inform. 18,97 14,17. 13,27

0 estudo destinado a encontrar o perfil dos denunciados

foi prejudicado pela carência de informação. Alguns -delatores

eram testemunhas indiretas e narravam os desvios da ortodoxia

sem fornecer dados elementares sobre os acusados. ^s . vezes,

não sabiam relatar ao Visitador o nome do herético ou o local

onde o suposto desviante residia. Mesmo assim, o perfil do de­

nunciado revelou que eram os cristãos-novos o grande alvo das

denúncias. Diante de Heitor Furtado, os senhores de engenho e

mercadores foram fartamente acusados. Na Visitação do século

XVII, os "homens de negócios" eram 41,57 dQS delatadas; mas

esta cifra esta hiperdimensionada ., pois muitos donos de


I
engenha estavam envJvidos em atividades comerciais, desempe­

nhando, concomitantemente, a função de plantadores de cana,

senhores de engenho e mercadores. Sendo assim, preferi classi­

ficá-los como homens de negócios, já que as transações e as

atividades crediticias, muitas vezes, eram a orig em da rique­

za desses "homens da nação" abastados (63).'

Alguns senhores de engenho e seus familiares foram inten­

samente acusados; esta constatação permite dizer que o estuda

quantitativo sofreu um desvio que resultou na grande recorrên­

cia da mencionada categoria sócio-profissional entre os dela­

tados. Os participantes da família Antunes—Roiz-Lopes, morado


res em Matoim, e proprietários de inúmeros engenhos, -foram de­

nunciados 58 vezes. Somente o nome da cristã-nova Ana Roiz,

matriarca da -família, -foi mencionado e 23 ocasiões, sendo acü—

5ada de perpetrar práticas judaizantes e não cumprir as obri­

gações próprias de uma boa cristã. Gs homens e mulheres que

compareceram à mesa do Santo O-ficio para discorrer acusações

contra o grupo -familiar éram cr i stãos—vel hos; apenas 3,4% dos

delatores contra.os membros da clã eram cristâos-novos (64).

Os depoimentos contrários ao senhor-de-engenho Fernão•,Cabral

de Taíde também provocaram distorção no estudo, pois seu nome

-foi denunciado 39 vezes — e no entanto, este indivíduo não era

cr istão—nova. As delações envoi vr^edo os mercadores não se con­

centraram em torno de um ou outro indivíduo. Vários deles -fo­

ram acusados, mas somente um está incluído na lista dos mais

denunciadas (65). A exceção é João Nunes, mercador de Pernam­

buco, preso pelo Santo Oficio na Bahia e. denunciado, no perío­

do entre 1591 e 1593, por 17 pessoas.

Por que, ao contrário dos mercadores, alguns senhores de

engenho e seus familiares foram intensamente denunciados? No

caso dos homens de negócios, as dezenas de acusações seriam

compreensíveis; o grupo era marginalizado no Ocidente cristão

desde a Idade Média, pois representava a usura, exploração e

cobiça (66). tm Portugal, o mercador, além de ser considerado

um avarento, tinha "fama pública" de ter sangue judeu e muitos

comerciantes eram mesmo descendentes dos conversos. Nas denun—

ciações há vários relatos que demonstram o quanta esses indi­

víduos eram considerados heréticos e alheios aos princípios

que regiam a Cristandade. João Batista, poe exempla, era mer—

cador e cr istão-novo. Em 29 de julho de 1591 foi acusado de


"negar a santidade dos santos" e de ■'proferir.' blasfêmias. 0

clérico da igreja de Nossa Senhora de Tasuapina relatou, na

mesma oportunidade, que o dito João, ao ser flagrado roubando

na pesagem das mercadorias, afirmou que somente Deus era justo


/
(67). Francisco Alvares, matalote cristão-velho, comentou com

Gaspar Dias Figueira que costumava jantar, com outros comer­

ciantes, em casa de Francisco da Costa, mercador cristâo-novo.

Nestes encontros, após as refeições, nunca agradeciam a Deus

pelo alimento servido. Ds convivas, além de faltarem com res­

peito a "Nosso Senhor", se recusavam a rezar (68). Manuel Roiz


t 1
Sanches e Luís Alvares sofreram acusações mais graves; ambos

eram mercadores, senhores de engenho e cristãos-novos. No dia

13 de setembro de .1618, foram delatados por Melchior Bragança,

hebreu da nação. Segundo o relato, Manuel e Luis entraram na

sinagoga em Flandres, lá participaram do cerimonial e rezaram

os salmos de Davi em lingua hebraica (69). Na Colônia, os ri­

tos judaicos também eram executados. Os mercadores Duarte Dias

Anrique, Pantalião Vaz , Si mão Vaz,Gemmes Lopes e Manuel Nunes,

todos moradores em Olinda, eram conhecidas judaizantes. Quando

souberam da Visita da Santa Inquisição "logo começaram a não

querer passar letras, presume-se que se aparelhavam para fugi­

rem, eles e outros mais que há na dita Capitania" (70), con­

forme declarou Belchior Mendes de Azevedo. Todos esses relatos

podem perfeitamente ser meras invenções ineriminadoras. Porém,

revelam qual era o espaço ocupada pelos mercadores no imaginá­

rio Ocidente cristão.

Existem ainda outras razões para explicar o grande número

de acusações contra os cristãos-novos mercadores e senhores de

engenho. Certamente, não havia tantos indivíduos de ambas as


categorias sóci o-prof issi onai s que pudessem tornar razoável a

quantidade de delações. Também não seria plausível dizer que o

motiva propalsionador das denúncias seriam os recursos econô­

micos acumulados pelo grupo, uma vez que o dènunciador não

possuía poderes para sequestrar os bens de um itiarrano preso

pelo Santo Oficio (71). Contudo, se por um lado, Uma delação

contra um rico cristão-novo contribuía, com a igreja e a In­

quisição, para o- fortalecimento da Cristandade; por outro,

lançava difamações e aumentava o risco dos mesmos serem presas

pelos inquisidores, ocasionando a perda de prestigio e um ho­

mem poderoso, mas vulnerável devido à sua origem judaica. Em

síntese, o dènunciador poderia utilizar os mecanismos de re­

pressão dos visitadores como meio de controlar ou conter o po­

der político do grupo cristão-novo detentor de terras, enge­

nhos e mercados. Neste sentido, pode—se conjecturar que os se­

nhores de engenho "marranos" representavam uma ameaça ainda

mais terrível: como proprietários de glebas, dividiam com seus

iguais, cristãos—velhas, o poder de comando e os cargos impor­

tantes na burocracia. A posse da terra era, como se sabe, a

fonte de prestígio em uma formação social assentada na econo­

mia açucareira.

Várias narrativas presentes nos livros de denúncias amea­

çavam a elite colonial. As vezes, as acusações atingiam dire—

tamente os principais da terra; em outros casos, as intrigas e

delações envolviam os familiares de pessoas importantes. Pero

de Aguiar Daltero relatou que as filhas de Ana Roiz solicita­

vam à mãe para ter cuidado com as palavras que dizia. As bias—

fêmeas proferidas pela velha cristã— nova poderiam difamar os

fidalgos e principais da terra casadas com suas filhas. Uma



*

delas de chamava Beatriz Antunes e estava casada com Bastiam

de Faria ou Sebastião de Faria (72). Este senhor, cristâo-ve-

Iho, participou do governo de Manuel Teles Barreto, auxiliou a

expulsão dos holandeses do recôncavo e lutou, junto com Al varo

Rodrigues e Rodrigo Martins, pel a c on qui sta-de Sergi-pe- (73>~

□ s feitos heróicos, porém, não impediram que 5 denúncias en­

volvessem sua esposa e 2 delações fossem direcionadas à sua

pessoa; nestes depoimentos, insinuavam que Sebastião partici­

pava das práticas judaizantes perpetradas pelos familiares "de

sua esposa. O mesmo ocorreu com Henrique Monis Teles, cri s —

tão-velho, fidalgo e genro de Ana Roiz (74). Durante a .visita

de Marcos Teixeira, Henrique Teles foi, outra vez, delatado

por Pero Daltero. Na ocasião, o denunciante relatou que Adão

Gonçalves, cr istão-vel ho e soldado, tirara o retrato de Ana

Roiz que se encontrava na porta da igreja da freguesia da Ma­

tai m a mando de Henrique Teles.

"... o retrato de Ana Roiz sogra do dito Henri­


que Monis que fora queimada em Portugal por he—
rege apóstata de nossa Santa Fé, o qual retrato
tirara da porta principal da igreja do dito Ma—
toim onde estava pasto par mandado de Santo
Ofício havera segundo sua lembrança doze ou
treze anos pouco mais ou menos de que houve
grande escândalo nos cristãos-velhos daquela
freguesia." (75)
)
k
Nos primórdios da Colônia, era comum um cristão— novo
1
i abastado casar suas filhas com a aristocracia local. Neste ma­
) trimônio, se unia o prestígio da pequena nobreza com o poder
t
econômico da "gente da nação". partir do momento que se in­
)
) tensificaram as perseguições promovidas pelo Tribunal da Santa
>•
Inquisição, as uniões deste tipo tornaram—se problemáticas. Os
f
| casamentos mistos denegriam as estirpes nobres e traziam abor­

recimentos para as gerações futuras (76). Por outro lado, o

5
>
i
mexerico envolvendo as -familiares de pessoas ilustres repercu­

tiam mal e poderiam arranhar-lhes o prestigio. Neste sentido,


’I•
o ramo cristâo-nova tornou-se o "calcanhar de Aquiles" da eli­

te colonial que havia se envolvido com os marranos. Por mais

que -fizessem para negar o passado judeu, o assunto sempre vi­

nha á baila, sobretudo nos momentos de discórdias e rivalida­

des. Na Dcasiào, os inimigos se valiam do ponto -fraco para ob­

ter vantagens, exacerbando a pecha de hereges que pesava sobre

o grupo. 0 retrato de Ana Raiz pregado na porta dã igreja -de

Matai m era observado todos os domingos e dias santos pelos -fi­

éis que compareciam às missas. Ele alertava a popul ação,-1 para

os perigos da heresia, simbolizava a -fragilidade das -famílias

mistas, da elite meio cristà-nova que havia se apoderado de

boa parte da economia colonial e que , apesar da -fortuna, vi­

via constantemente, ameaçado por denúncias, intrigas e mexeri­

cos. Enfim, o poder alcançado pelos cristSos-novos, seja por

intermédio do casamento ou pelo patrimônio, e que deles fazia

um segmenta da aristocracia açucareira, suscitava invejas, ru­

mores e incriminações capazes de conduzi-los à fogueira de um

Auto-de-fé.

As hipóteses e constatações acima enunciadas se consoli­

dam com o auxílio do estudo quantitativo. Dando continuidade à

pesquisa, relacionei as categorias sócio-profissionais à ori­

gem cristã velha ou nova dos denunciados. Na Bahia, durante a

Primeira Visitação, 206 delações envolviam os senhores de en­

genho, e a metade deles eram cristâos-novos; dos 64 mercadores

acusados, 60 eram cristàos-novos, 3 cristàos-velhos e i não

possuía esta informação. Em Pernambuco, o quadra é mais níti­

do: senhores de engenho — 58 cristàos-novos, 7 cristãos— velhos


c c <

T ,,

m
9
e 4 sem identi-ficação; mercadores — à4 cristâos-novos, 3 cris-

tâos-velhos e 4 sem identificação. Há ainda um outro quadro

relacionando os ofícios dos denunciadores aos dos denunciadas.

Os números referentes à Bahia, durante a Visita do século XVI,

constam do QUADRO V.

QUADRO V: ofícios dos denunciadores e dos denunciados

dei ataram
senhores de e n g e n h o ------------------ 24 cn e 12 c v , do total

12 eram senhores de eng e ­

nho e 11 eram mercadores

mercadores 38 cn e 18 cv, do total

22 mercadores e 9 senho­

res de engenho

clero 55 cn e 19 c v , do total

24 senhores de engenho e

19 mercadores

burocratas 48 cn e 18 cv, do total

25 senhores de engenho e

18 mercadores

obs: cn - cristüas-novos e cv - cristâos-velhos

□s números acima confirmam os resultados até aqui expostos.

Um outro enfoque da pesquisa preocupou-se em verificar

qual era a freqüência com que os grupos cristãos-velhas e no ­

vos se denunciavam interna e externamente. Os resultados são

os seguintes:

QUADRO VI: relação cristãos-velhos e novos nas denúncias

Bahia (século XVI)


i
#
&
&
& 96 ■
& del ataram
Btk denunci ador cn — ------------- 2,87. dos cv denunci ados m
m
• cn — ------------- 3,67. dos cn denunciados
m
cv — ------------ 26,27. dos cv denunciados #
I

cv — ------------ 67,47. dos cn denunciados
•1
Pernambuco— W!

cn — ------------- 3,47. dos cv denunci ados

cn — -------------14,67. dos cn denunciados


& cv — ------------ 21,77. dos cv denunciados

cv — ------------ 60,37. dos cn denunc iados

Bahia (século XVII)

2? N
dos cv denunciados
T—l
0

denunci ador c n --------


1
1
1
1
1
1
1

<T-

c n -------- -------- 23,07. dos cn denunciados

c v -------- -- :----- 10,07. dos cv denunciados

c v -------- -------- 65,67. dos cn denunciados

obs: os delatares e delatados que não dispunham de informaçòes


n sobre a origem cristã-velha (cv) ou cristâ-nova (cn) não foram

contabi1 isados

Ds números do QUADRO VI evidenciam a perseguição aos

cristãos-novos. E interessante notar que poucos descendentes

dos judeus acusaram o outro grupo, revelando que os "da nação"

n=£o recorriam à Inquisição j?ra enfrentar e mesmo revidar as

difamaçhes propaladas pelos cristãas-velhos. A visita de Mar­

cos Teixeira, mais uma vez, se destaca por suas particularida-

I des (quando comparada às incursbes do Santo Ofício realizadas


i
anteriormente). No século XVII, ocorreu, durante a Visitação,
I
I um grande número de acusaçBes entre cristãos—n o v o s , demons­

trando a existência de rivalidades no seio da comunidade cris­

S' tã—nova. A denúncia do Doutor Melchior de Bragança, hebreu da


nação, natural do Marrocos e degredado por matar um homem,

ilustra o resultado da quanti-ficaçâo. Melchior delatou Dinis

Bravo, o Licenciado Francisco Lopes Brandão, Gonçalo Nunes e

Alvares Serpa: todos, segunda o depoimento, eram judaizantes.

0 último porém, foi acusado de negar ajuda ao degredado quando

soube que este havia abandonado e renegado as leis de Moisés.

Marcos Teixeira ficou intrigado com a narrativa de Melchior e

lhe perguntou sobre os motivos pelos quais os denunciados lhe

confessaram as mencionadas heresias. 0 doutor não vacilou e

disse ao Visitador:

"porque tanta que ele denunciante os desenga­


nou, logo o desampararam, e não somente lhe
deixaram de fazer bem e ajudá-lo como se costu­
ma entre agente da nação, mas ainda pretenderam
persegui-lo e desacreditá-lo por sua boa repu­
tação e crédito..." (77)

üs dados originados das visitas ainda contribuem para ob­

servar a relação homem/mulher quando se tratava de acusaçdes.

Foi possível então verificar se os contatos entre grupos mas­

culino e feminino eram intensos ou se havia um certo isolamen­

to. Os resultados são os seguintes:

QUADRO VII: relação homem/mulher nas denúncias

Bah ia

denunciador masculi no --------- 58,07 dos homens denunciados

denunci ador masculi no ---------- 9,07.das mulheres denunciadas

denunci ador femi ni no ---------- 17,77 dos homens denunciados

denunci ador feminina --------- 15,37 das mulheres denunciadas

Pernambuco

denunciador masculino --------- 69,77 dos homens denunciados

denunciador masculi no --------- 9,57 das mulheres denunciadas

denunci ador feminino --------- 8,47 dos homens denunciados

denunciador feminino ---------- 12,47 das mulheres denunciadas


w
5$

§
a m
0 relacionamento homem/mulher nas delações obedece à divisão m
i
$ m
sexual da sociedade. Os homens denunciam entre si, o mesmo
9
5) acorrendo com as mulheres. C e r t a m e n t e , nessas comunidades, os

homens e as mulheres desempenhavam funções diferentes e fre­


I
quentavam lugares distintos, -fatores que dificultavam o conta­
a
to e a convivência entre os sexos. Por outro lado, o conheci­
P mento de particularidades e mesmo intimidades da vida de uma
P ' 9\
pessoa do sexo oposto poderiam revelar formas de relacionairten— • i

to não permitidas pelas regras sociais. Talvez, este fator te­


-I
nha intimidado inúmeras denúncias e contribuído para a divisão
1
ü sexual tão nítida.
p
Os resultados da quantificação confirmam que as confis­ m
£
■Si. sões e denúncias ieram mecanismos eficientes de controle so­ m

cial, desempenhando a função de perseguir os “suspeitos na fé"


m
e manter inalteradas as hi erarquias. Nas Vi sitações, alguns m
#.
setores da sociedade se fizeram representar mais do que ou—
\
m
tros. Os cristãos-velhos recorreram com frequência ao Inquisi­

dor a fim de contribuir com a causa do Santo Oficia e perpe­

tuar a sua condição privilegiada. Apesar dos representantes da

a Instituição conclamarem toda a comunidade, todos que “viram,


s>
ouviram ou sabem" de procedimentos suspeitos de heresias, os

burocratas e o clero tiveram uma participação mais ativa que


#
os demais segmentos sociais. Na manutenção dos privilégios e
m
na luta contra o poder econômico alcançado por uns poucos

cristãos-novos, os cristãos-velhos indicaram tanto o elemento


a m
à pervertedor■(denunciando) quanto os próprios erros (confessan­
m
do) .
m
Deste modo,' as delações registradas pelos notários do
I

P
99
Santo Oficio tornaram-se testemunhas dos conflitos sociais

presentes na sociedade colonial. Na oportunidade, os cris—

tãos-velhos delataram os transgressores e as ameaças à sua he­

gemonia. O ato de denunciar, por conseguinte, envolvia mais de

uma pessoa e, diferentemente das confissões nâo se referia a

sentimentos e culpas, mas a uma gama significativa de interes­

ses que estavam em profundo conflito. As denúncias são revela-

doras das tramas, soei ai s existentes em uma dada comunidade. Os

motivos obscuros de uma delação podem variar. As vezes- , trata­

vam—se de intrigas entre mulheres, invejas, cobiças, retalia­

ções e rivalidades pessoais. Outras eram movidos por convic­

ções pessoais e desejo de contribuir com a Inquisição. Neste

sentido, denunciar significava a purificação do social e indi­

cação das possíveis transgressões nocivas ao corpo da comuni­

dade. A denúncia pretendia estabelecer uma identidade a partir

da exclusão de um grupo, ou seja, é a partir da delação que se

percebem as relações excludentes e includentes. '

As confissões, por sua vez, eram movidas pelo sentimento

de culpa, que impeliam o indivíduo a exteriorizar seus pecados

a fim de ser novamente integrado ao seio da sociedade cristã.

Sob a ótica inquisitorial, é lícita a confissão, ilícito ê

guardar e ocultar os desvios, impossibilitando a ação do Santo

Oficio. A publicidade das transgressões é a razão da existên­

cia de todo o mecanismo repressor da Igreja. Assim, é possível

aniquilar as práticas profanas e profanadoras. A salvação da

alma é um outro dado que não deve ser esquecido. A questão se

refere sobretudo à confissão sacramental, mas que seguramente

está presente nas confissões abordadas. Somente o desejo da

salvação explicariam as inúmeras confissões que relatavam des—


100
vi os praticados em pensamento ou delitos que jamais vi ri am a

público. Outro -fator a ser ainda ressaltado é a ação coletiva

na indução ao ato de confessar. O medo de se tornar suspeito

devido à uma delação ou através dos boatos e mexericas é de

extrema relevância, pois o indivíduo tornava-se sujei to à ação


*
da comunidade que espalhava as culpas, tornando-o duas vezes

transgressor: a primeira pela atitude ilícita e a segunda pelo


#
silêncio e omissão de faltas. Enfim, a confissão era um proce- .

dimento INCLUDENTE, reconciliador, enquanto o ato de - ser de­

nunciado era EXCLUDENTE, criminalizador, pois revelava as he­

resias proposital mente escondidas.


rm
□s resultados das quantificaç&es revelam que os mecanis­

mos coercitivos empregados pelo Santo Oficia serviram, em mui­

tas ocasiães, para assegurar o prestigio da elite colonial, ao

mesmo tempo que aniquilaram o poder econômico do grupo cris— #


tâo-novo. 0 fortalecimento político da aristocracia açucar.eira

consolidava a posse das terras descobertas pelos portugueses,

pois a tornava mais forte frente às ameaças externas. Uma

aliança - aliança esta muitas vezes imaginárias - entre lute­

ranos e cristâos-novos sempre representou a iminente perda do (•

domínio português sobre a Colônia. 0 controle sobre os suspei­ (#


m
tos de heresia judaizante era, por sua vez, uma prioridade do

"Estado lusitano" e das principais autoridades coloniais, pois

os heréticos eram considerados como possíveis comparsas dos

estrangeiros. Deste modo, a luta contra os cristãos-novos pos— m


m
suia uma abrangência muito maior; não se tratava apenas de em­
m
bate religioso, mas de perpetuação de uma Ordem, manutenção •

das fronteiras conquistadas em nome da Cristandade, de combate

contra os estrangeiros e seus possíveis aliados marranos.


No Tempo das Visitaç&es, a l u t a c o n t r a os protestantes do

norte ainda não havia findado; franceses, ingleses e silvlco-

las promoviam, constantemente, escaramuças no sertão e no li­

toral. Os conflitos entre os colonos também se acirravam, dei­

xando suas marcas nos autos das Visitaç&es do Santo Oficia.

Para melhor compreender a dimensão e o alcance dos conflitos

detectados no estudo quantitativo, passarei a recorrer a ou­

tras fontes documentais, cruzando—as com os depoimentos ouvi­

dos pelos visitadores. .,

r: r r .tr :
Natas — cap. II
10:

i
r
3
p

1- Contreras. Jaime. El Santo Ofício de la Inquísición de Ga ­

licia. Madrid, ftkal ,_198Z. p 47.0---_-----

2- Bethencourt, Francisco. Inquisição e controle social. Lis­

boa, 1936. ex. mi.meograf ado


V^ >T

3
'W *

3- Os casos de Antônio Gouveia, Fero do Campo Tourinho e João

Cointa foram abordadas por: Prado, J. F. Almeida. Pernambuco e


3
******
'<íw

as Capitanias do Norte do Brasil. São Paulo, Cia Ed. Nacional,


‘ «íí7

1939. tomo 2 pp 79-30 e a Bahia e as Capitanias do Centro do


\& * f

Brasi 1 . São Paulo, Cia Ed. Nacional, 1945. tomo I pp 264-277;

Abreu, Capistrano. "João Cointa, Senhor de Boulés" in: Ensai os


2
e Estudos 3®. sériel Rio de Janeira, Livr. Briguiet, 1938. pp

13—30. Leite, Solidonio. Os judeus do Brasil. Rio de Janeiro,


\

J. Leite e d . , 1923. pp 81-37


i
4- "Inquyryçam que ha vigário desta vyla de Porto Seguro jun — i

tamente com ho padre Manuel 1 Collaço e Pero Anes Vycente juiz

ordinário sobre heresias e blasfemeas que Pero do Campo Touri—

nho governador desta capytania dyzya e fazya contra Deus noso 3

SnnBr" in: Dias, C. Malheiro. História da Colonização Portu­

guesa do Brasil. Porto, 1924. vol . iii pp 271-283.

%
5- "processo de João de Bolás e justificativa Requerida pelo

mesmo 1560-1564". In: ABNRJ. 25:215-308, 1904. •


0
0
0

#
V
10 ;
6- Bethencourt, F. Qp. cit. pp 2-4
V
V
V 7- Idem p 5-6 As visitas da Tribunal da Galicia possuem três
V
V -fases distintas: 1- Durante os anos de 1567 a 1597, os inqui­

V sidores se. preocuparam com a presença luterana nos núcleos


y maior atividade marítima e comercial; e com os lugares liml-

tro-fes da -fronteira portuguesa, no período da unificação das

Coroas, a -fim de evitar o contrabando de armas e a infiltração


y
de pessoas de ambos os lados; 2- Entre 1579 e 1590, as visitas

vasculharam o interior, combatendo as heterodoxias morais e os


y
y costumes licenciosos; 3- No século XVII, as visitas se torna­

9 ram raras e perseguiam os judeus ou cristãos-novos provenien­


y
tes de Portugal. Deste moc^, as visitas inqui si tori ai s na Gali­
y
cia têm uma cronologia semelhante às viagens empreendidas pe­
V los tribunais portugueses. Contudo, percorrem um território
y
f menor e menos diversificado. Uma comparação mais precisa entre

as visitas portuguesas e galegas somente será viável quando se


,
tiver maiores detalhes das primeiras. Sobre as fases das visi­
y
i tas do Tribunal do Galicia ver Contreras, J. Op. ci t . pp

477-431
y
*
8- Abreu, C. "Introdução" in: db pp 5-6; Salvador,'Frei Vicen­
y
te. História do Brasil 1500— 1627. (1627) ed. Belo Horizon­

y te, Itatiaia; São Paulo, Edusp, 1982. pp 260-261

f 9- Mello, Evaldo Cabral de. O Nome e o Sanoue. Uma fraude ge­


V nealógica no Pernambuco Colonial. São Paulo, Cia das Letras,

1989. p 194
"t

1
S
2
0
-z

104
i 10— Sousa, Gabriel S. de Tratado Descritivo do Brasil em 1587.
2*.
P
P 4s1. ed. São Paulo, Cia Ed. Nacional, 1971. pp 133-134. No pe­
§ ríodo colonial, a população não era contada por unidade, mas

por núcleos -familiares. Cada vizinho (ou chefe de domicilia


í
à residente) compBe-se de cinco indivíduos; deste modo, havia em
i
Salvador em 1587 uma população de 4 mil habitantes. C-f.
I
D Schwartz, Stuart B. Segredos Internos. Engenhos e escravos na
|
Sociedade Colonial, (trad.) São Paulo, Cia das Letras, 1988. p
1
80, Devo ainda acrescentar que na contagem d.os vizinhos, ds es­
i
I cravos eram excluídos.
I

I 11— Albernaz I, J. Teixeira. "Planta da Cidade de Salvador"


£*>
W
in- Moreno, D. Campos. Livro que dá razão do Estado do Brasil
I
$ (1612). Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro, 1968. p
I
47

%
ar
12- Cardim, Fernão. Tratados da Terra e Gente do Brasil. (1584)
I
2~. ed. São Paulo, Cia Ed. Nacional, 1971. p 175
à
»/
»
*
13— Vale ressaltar que a contagem realizada não privilegiou os

i ind iví duos referidos no documento, mas as denúncias; assim,

I uma mesma pessoa será contada cada vez que -for denunciada.
I
Preferi empregar este critério para avaliar a repetição e a
I
intensidade das acusações sobre um mesmo indivíduo.
9
I
I 14- dp pp 352-353 e pp 384-385
I
£
15- cb p 7

I
105
16— Idem pp 8-9, Há ainda as Ratificações, sobre o assunto ver

S. Siqueira. A inquisição Portuguesa e a Sociedade Colonial.

São Paulo, Atica, 1978. p 266

17- Abreu, Capistrano de. "Introdução" In" db p B

IB- A relação das capelas e igrejas foi publicada junto às

confissfâes da Bahia, cb pp B2-B3 1

19- Vale lembrar que uma pessoa pode ser contabilizada

mais de uma vez: os confitentes e denunciadores foram contados

a cada vez que recorreram ao Visitador; um mesmo indivíduo foi

contado a cada vez que uma denúncia envolvesse seu nome.

20- Melo, E. Cabral de. Dp. cit. p 194


l

21- dp p 11

22- Sousa, g. S. Qp. cit. p 5B e Cardim, F. Qp. cit. p 175

23- Diálogos daS Grandezas do Brasil. (1618— trad. ) 2*. e d . in­

tegral , segundo o apógrafo de Leiden, aumentada por José Antô­

nio Gonsalves de Mello. Recife, Imprensa Universitária, 1966.

pp 26-27

24- Mello E. Cabral. Robro Ve i o . Rio de Janeiro. N. Fronteira,

1986. pp 468-469

25- Sousa, G. S. Qp. cit. p 58


W*>&
'*&
SS* W

26- Baleus, Kaspar Von. História dos -feitos recentemente pra­


Saf W

ticados durante oitos anos no BrasiI...(1647—trad.) Rio de Ja­


W . W

neiro, Serviço do. Meo, 1940. p 41


W
W

27- Verdonk, Adriana. "Descrição da Capitanias de Pernambuco,


W

Itamaracá, Paraíba e Rio Grande" in: Revista do Instituto Ar­


W
W

queológico e Geográfico de Pernambuco. 55, 1901. p 224


W
W
W

23- dp p 135
W
"W <89" W

29— Idem p 137


W

30— Devo lembrar que a quantidade de habitantes da região tam­


^gr W

bém deveria ter influenciada a resultado.


'q ? W
W

31— Mello, E. C. Rubro veio Op. cit. pp 468— 469


W
^

32— 0 mesmo ocorreu na Galicia. Ver Contreras. Q p . cit. p 4S8


W
W
'8SJ' SB» W

33— dp pp 357-358
W

34- Idem p 357


W
W

35- Prado, J. F. Pernambuco... Op. cit. p 148


W
W
w

36- Segunda Visitação do Santo Oficio às Partes do Brasil De-


\&> w

nu.nciaçfbes da Bahia (1618—Marcos Teixeira) introd. Rodolfo


<®r w

Garcia. Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, 49,


VliiK w

9
V
107
1927. e “Segunda Visitação do Santo Oficio às partes do Bra­

sil" pelo Inquisidor e Visitador o licenciado Marcos Teixeira.

Livro de Confissóes e RatificaçBss da Bahia- 1618-1620. In-

trod. E. d'Oliveira França e S. Siqueira. Anais do Museu Pau—

1 ista. tomo XVII, 1963.

37- 0 governador Antônio Teles da Silva, em 1646, criou uma

legislação obrigando a população a denunciar. "Ante a resis­

tência oferecida por uma parte da população, coloca a guarda

de sua milícia ao lado de cada cidadão, forçando-a assim a

comparecer à Mesa no Colégio da Companhia" in: Anita Novinsky.

Cri stãos-novos na Bahia. São Paulo, Perspectiva, 1972. pp

72—7o. Mão tenho noticias sobre um procedimento semelhante du­

rante a I®, e II®., Vi si taçÊfes, portanto creio que o episódio

mencionado acima foi uma excessão e que os confitentes e de—

nunciadores procuravam a Inquisição induzidos pelos monitórios

e pelo cerimonial.

38- Dedieu, J. P. "Le quatre temps de L 'Inquisitio n " in: Ben-

nassar, B. (arg.) L 'Inquisi ti on Espaqnole. XVI-XIX siãcle. Pa­

ris, Hachete, 1979. pp 15-41

39- Siqueira, S. Op. cit.

I
40- Vainfas. R. Trópico dos Pecados. Rio de Janeiro, Ed. Cam­

pus, 1989.

41- Sauza, L. de Mello e. □ Diabo e a Terra de Santa Cruz. São

Paulo, Cia da Letras, 1986


108

42- DB p 107 #

I
43- cp p 31—32

44- Contreras, J. Op. c it ■p 497

45- db p 374

46— Dedieu, J. P. Op. cit.p 29

Maometani smo 31,6°/ I


#
Protestantismo 7,5%

Superst içües 3,87.

47- Coelho Ai Borges. Inqui si cão de Évora. Lisboa, Caminho,


<wr w w w w w w w w w w w w "•@r '«»’ w w

1987. p 190

Luteranismo e Calvinismo 0,37.

Fei ti çari a 0, 17.

48— Há 10 casos de can-fissBes envolvendo práticas gentil icas.

Eles representam 10% do total de con-fissòes registradas na I".

Visita à Bahia.

49- Coelho A. B. Op. cit. p 190

50- Didieu, J. P. Op. cit. p 29


■%!& '<&/ Hi$r m p
x h p
51- db pp 268-268

52- db p 244

53- Quirina, T. R. Ps habitantes do Brasil no fim do século

XVI - Reci-fe, Imprensa Uni versi tár ia , 1966. p

18,23,36,38,39,42,44,58,67, entre outras

54- Sousa, G. S. Qp. cit. loc. cit.; Cardim, F. Dp. cit. loc.

cit.

55- Quirino, T. R. Dp, cit. p 67

56- Coelho, A. B. Op. cit. pp 190-193 e Dedieu, J. P. Q p , cit.

p 31

57~ "Livros II do Governo do Brasil" in: Anais do Museu Pau-

1i sta- 3, segunda parte, 1927. p 46

58- Verdonk, A. Dp. cit. loc. cit.

59- db pp 319-322, pp 329-331.,pp 516-523.

60- Azevedo, Tales de. Povoamento da Cidade de Salvador. 2-.

e d . SSo Paulo, Cia Ed.■Nacional, 1955 p 152

61- DB p 114

62- Contreras, J. p 488


HiíF H&P’ IHjP *4?y MU*

110

63— Schwarts, Stuart B. "Free Labor in Slave Economy. The la­


*W
**£* H3V vt&i' '*£&'

vradores, de cana of Colonial Bahia", in: Alden, Dauril (org.)

Colonial Roots of Modern Brasil. Los Angeles, University of

California Press, 1973. p 1S5


**&#»*'

64— Denunciadores da família Roiz—Antunes-Lopes


'W
'Üé#' 'CSüy

cr istSto—vel ho 93,27.
Md? ,*J§ff 'W& XBP 'í ^

cri stSo-novo 3.47.

sem inform. 3.47.

65— Os indivíduos mais acusados da I®. Visita foram:


*3# *
fcíy

Fernâía Cabral Taide 39 vez es


'*'&* 'CÍP’ *$3* ^4^ W '

João Nunes 28 vez es

Ana Roiz 23 vezes

Maria Lopes

Branca Dias
14 vezes

13 vezes
i
•*•*»’ ^lar M i*' 'W

Salvador Mai a :

1
13 vez es

66- Le Goff, J . A Bolsa e a Vid a . Sâo Paulo, Brasiliense, 19S9.


W
W *

i
hüc^

67— db pp 240—241
'«tíjy

é
68— db pp 246-247
é
M
69- DB pp 97-102 -!
w
v a i' w

- 1
W
Ill
70- db p 452

71- Acredito, no entanto, que a Inquisição tinha interesse em

can-fiscar os bens dos cri stãos-novos abastadas. Sobre o assun­

to ver Anita Novinsky, Op. cit. e Antônio J. Saraiva Inqui si-

ção e Cristãos-novos. Lisboa, Imprensa Uni versitária e edito­

rial Estampa, 1985

72- db pp 250-251 .

73- Varnhagem, F. A. de Historia Geral do Brasil. 8~. ed. São

Paulo, Heihoramentos, 1975. tomo II pp 30-33

74- db pp 401-402

75- DB pp 183

76- Sobre o assunto ver: Mello E. Cabral de 0 Nome e o Sangue.

. .0 p . ci t .

77- DB p 101
w w

112
,*'/ *»* 'W "W

Capitulo III - Relações conflituosas


w %*!'

3.1 — ameaças externas


W w v*' w w

Um rudimentar sistema de contrapeso unia os setores da

cidade de São Salvador. A engenhoca suspendia os inúmeros cai­

xotes, arcas e baús repletos de especiarias: azeites, pimen­

tas, óleos, peixe seco... Tecidos -fi nos ,jói as ,candel abr os che­
w
w

gavam à Colônia e se dirigiam à cidade alta, onde residiam os


w

principais da terra— quando se ausentavam da Casa—Grande. Ho­


w

mens humildes desciam dos navios e logo tinham de escalar uma


w w w

escarpa íngreme e escorregadia a -fim de encontrar parentes e

amigos residentes nos muitos casebres da cidade alta. Outros

não tinham a mesma sorte, aportavam em Salvador com a roupa- do

corpo e sem conhecidos à espera; vinham para os trópicos em

busca de aventura ou a procura de uma ocupação. A "gente da

governança", por sua vez, não se abalava -frente aos primeiros

obstáculos oferecidos pelas terras da Bahia; os fidalgos e se­

nhores de cabedal usavam cs palanquins, e subiam o morro com a

ajuda da escravaria, indo, muitas vezes, em direção às Casas

de Sua Magestade ou Casas da Câmara (1).

Na orla marítima de Salvador se localizavam a igreja de

Nossa Senhora da Praia, local de devoção de marinheiros e ho­

mens do m a r , sendo o primeiro refúgio de náufragos e sobrevi­

ventes das intempéries comuns às grandes viagens marítimas. A

Parte baixa da cidade mantinha um estreito relacionamento com

o mundo exterior. Pequenas embarcações abarrotadas de açácar

?
113

desciam o Subaé, o Tararipe ou o Paraguaçú e se dirigiam rumo

acts armazéns dispostos an 1nngo dn ■ |.tnrI'.o de Salvador. Maus

portuguesas e espanholas também traziam á essa paragem produ­

tos provenientes da Europa e do Oriente; enquanto outras -fa­

ziam de Salvador local adequado a recompor suprimentos, regu­

lar os reservatórios de água e pousar marinheiros debilitados

(2). Porém, .os contatas com o mundo exterior nem sempre eram |

pacíficos; inúmeras batalhas foram travadas na abertura da ba­

ia de Todos os Santos e ao longo do litoral brasileiro. Os

confrontas, muitas vezes, decidiam a posse das regiòes, coman­

dando a retratação ou expansão do domínio português e da Cri s-

tandade.

No final da década de 1580, logo depois da marte do go­

vernador Manuel Teles Barreto, "duas naus e uma zavra de in­

gleses" entraram na baia de Todos os Santos, tomaram os navios

ancorados no porto e iniciaram um forte bombardeio sobre a ci­

dade de Salvador. Os moradores espantados e cheios de medo fu­

giram para os matos, se escondendo nos arredores. Muitos ho­

mens evitaram as intempéries da luta se vestindo com um "manto

mulheril" e se confundindo com o grupo feminino. Em contrapar­

tida, conta Frei Vicente Salvador, uma mulher montada a cavalo

e provida de uma adaga combatia feruzmente o inimigo. Os pou­

cos varòes que enfrentavam os corsários (3) engrossaram as fi­

leiras da guarda do governo interino do Bispo D. Antônio Bar­

reiros e do provedor-mor da fazenda real CristovSo de Barros.

A pilhagem nSío durou muito tempo, e logo os ingleses foram

afugentados das águas da Bahia (4). A debilidade das fortifi—

caçóes da Colônia levou Gabriel Soares de Sousa a solicitar a


r>
1>
1 1 4
m
m
N-J
El-Rei a proteção do litoral:

m
&
"A primeira coisa que convém para se -fortificar
a Bahia é que tem pedra de alvenaria e canta­
> ria, de que há em todo o seu circuito muita co­
j? modidade, e grande quantidade para se poder fa­
% zer grandes muros, fortalezas e outros edifi— #
cios;... " (5)

5 Contudo, os corsários e piratas que infestavam o litoral t


#
brasileiro nSo se contentavam com ataques às vilas localizadas
*& v

próximas ao mar: investiam ativamente contra os navios, portu­


w

*
gueses e espanhóis que trafegavam no Atlântico. Em 1570, Dom
*í!ir ^

Luis de Vasconcelos, governador do Brasil, saiu da barria de


1
^

Lisboa em direção ao Brasil. No segundo dia de viagem a frota *


W
U» W

se dispersou devido a uma tormenta. Uma das naus transportava

quarenta padres da Companhia de Jesus que, aD se perder na


\&> *& w

tempestade, encontrou com corsários; os religiosos foram mor­

tos pelos "ladròes do mar" e a nau do governador arribou na


w

ilha Espanhola, parte das ilhas de Castela. Dom Luís de Vas­ ♦


w
w

concelos não esperou muito tempo e empreendeu outra viagem em


#
V

direção ao Brasil. Desta ves, a frota foi abordada por "cossá-


w w

#
rios (sic) luteranos", em cujas mãos o futuro governador do
w

Brasil encontrou a morte (6). #


w

0 episódio se repetiu com Gomes de Abreu Soares, porém a


V
w

sua história teve final feliz. Cr i stão-vel ho e filho de um dos


w

governantes de Viana Foz do Lima, Gomes de Abreu foi impelido


w
'üis' w

a participar dos ritos luteranos, quando o navio São Francis­

co, no qual estava, foi abordado por franceses. Os "heréticos"


W
W

tomaram—no e transferiram ^tripulação para outros navios. Sob


w,> vá? w

a custódia dos inimigos, os reféns foram obrigados a partici­

par dos rituais luteranos. Gomes de Abreu relatou ao Visitador


w
Heitor Furtada de' Mendaça que as luteranos realizavam salvas

antes do jantar, aa cair da tarde. Durante as cerimônias, os

-Franceses exigiam que os re-Féns permanecessem "desbarretados"

em sinal de respeito. A -fim dé burlar a exigência e ao mesmo

tempo nâo provocar a ira dos corsários, Francisco de Oliveira,

outro refém português, orientou seus companheiros a permanecer

"■desbarretados" antes e depois das salvas luteranas - cerimô­

nia realizada "sem cruz’, nem imagem, nem retábulo". Nestes

instantes deveríam fazer orações, "encomendando-se a Deus que


f
os livrasse daquele cativeiro".físsim "quando os ditos lutera­

nos viessem á salva vissem que eles estavam desbarretados em

suas orações e quê nâo estavam em respeito de suas cerimônias"


i
(7). A confissão do vianense demonstra o confronto religioso

entre os c atólicose protestantes próprio do século XVI. Inúme-

ras outras confissões relatam com detalhes os hábitos dos "he­

réticas" ,expressando', repúdi o diante de tão "estranhas e perni­

ciosas "_.p r á t ic as.

Outros portugueses não tiveram, entretanto, a mesma astú­

cia de Francisco de Oliveira e enfrentaram os franceses — pelo

menos assim relataram algumas confissões. 0 mercador Cristovão

Luis contou em confissão que aqueles que não cumpriam as or-


I
dens dos "heréticos" eram submetidos a punição física (8). O

castelhano Rodrigo de Varga permaneceu com chapéu na cabeça

durante as salvas luteranas das "franceses arrochaieses". Os

estrangeiras logo penalizaram o castelhano, arrancaram-lhe o

chapéu da cabeça, lhe deram duas bofetadas e disseram: que

"eles luteranos quando iam a Portugal ou á Espanha entravam

nas igrejas e se desbarretavam nelas e que portanto se desbar—


fr.
5?

116 •
(
<’lí

retasse ele também..." (9)


^

Os séculos XVI e XVII se destacaram pelas diferenças en-


^
^

tre facçbes, a religiosidade na Europa tornou-se uma -Forma da


^

classificação dos homens; o bem e o mal passaram a ter limita-


^

- r<eí
^

çbes precisas, demarcadas pelas Igrejas e Religibes. Os autos


i
^

íjt
das Visitaçbes do Santo G-fício são testemunhos da animosidade
^

existente entre os grupos. Contudo, os monitórios lidos diante


^

#
^

dos -fiéis constituem, sem dúvida, a maior prova do temor em #


V

relação aos protestantes. Do outro lado do mundo as distinçbes m


^
^

entre católicas, judeus e islâmicos não eram evidentes; èm sua


W

permanência na China, Mattea Ricci teve inúmeras provas da si­


’SStf' XS? SS? '5®' |8 ? W

militude das Religibes presentes no Ocidente. Assim nos conta

Jonathan Spence:

"0 próprio Ricci entendia... que os traços co­


muns de monoteismo e aceitação dos mesmos anti­
gos pro-fétas davam uma certa afinidade ao cris­
W

tianismo, islamismo e judaismo. Quando publicou


seu primeiro livro detalhado em chinês sobre a
W

doutrina cristã, falando de Cristo como profeta #


W

e mestre... descobriu que muitas cópias foram


compradas por sarracenos que o consideravam com
W

a sua doutrina! " (10)


'© ' W

Mas o traço de união entre as Reiigibes era menosprezado no


®

Ocidente; as semelhanças foram esquecidas e enterradas nas


US?

inúmeras batalhas eBvolvendo grupos religiosos. Depois da Re­


W

forma Católica, a Igreja e a Santa Inquisição proclamaram a


'8 5 ' <BJ* <58? VS> ^

exclusão do "outro", fossem e les luteranos, judeus ou mouros;

os transgressores da ortodoxia deveriam ser vigiados, perse­

guidos e mesmo eii mi nados. 0 espaço social ocupado por estes

elementos está representado no retábulo,ou nos painéis do al­


mjjy ^

tar pertencente á João Brás; era

"um retábulo guarnecido em que estavam os sete


gy «jgy \ $ fl
117

sacramentos da Igreja procedidos do lado da fi­


gura de Cristo e mais os Apóstolos figuras dos
ministros dos sacramentos e por cima estava a
figura da santíssima Trindade e corte celestial
e por baixo estava um mar em que estavam afoga­
Ca
dos muitos hereges, firreo, Calvino, Lutero, e
figur
outros, e junto de cada figura está um letreiro
autor 1
em que se declaramm os nomes e autoridades da
Escritura Sagrada, e no cimo do dito retábulo
retábi
estava letreiro que dizia, Igreja triunfante e
militante, o qual era de estampar em preto as-
sentado sobre a tábua..." (11)

A concepçâto de espaço representada acima, segunda o depoimento

de João Uzeda, explicita as diferenças e as formas de classi­

ficação (12) especificas da sociedade cristã da "Contra-Refoi—

ma". As concepçBes de céu-inferno aí são encontradas: o alto

como o lugar da Santíssima Trindade, dos Sete Sacramentos, dos

Apóstolos e de Cristo; na parte inferior, o mar de lama, a re­

presentação do inferno como lugar dos hereges, do elemento es­

tranho, do pária, da ameaça. 0 bem sempre acima, na sua condi­

ção de superior, límpido, branco e azul; e o mal nas trevas,

na lama borbulhante, negra, escura como o inferno de Dante.

□ luterano e o judeu sempre ocuparam__posição inferior,

como elementos repugnantes, estranhos e perniciosos à harmonia

da Cristandade. Neste sentido, a representação do além to r ­

na—se um espelho da sociedade cristã: o bom cristão reproduz o

azul, o branco, o celeste, está junto a Crista, coma homem

guardião da ORDEM, seguidor dos sete Sacramentas, crente em

Deus e nos seus representantes. Assim, a alegoria céu— inferno

se repete nas relaçBes sociais e na manutenção das formas de

poder. Estar perto do céu ou próximo do inferno significa es­

tar incluído ou excluído da Cristandade, ser cristão ou heré­

tico, bom ou mau. A luta contra o infiel ou herético, intensi—


9

n a ..

•ficada na Reconquista, nas Cruzadas e no Concilio de Trento,

classificou mouro e o judeu e, mais tarde, o luterano como

elementos ameaçadores, perversores e perigosos.


/
a
3T
Os luteranos representavam, então, uma dupla ameaça, pois
h
í? agrediam o sentimento religioso dos cristãos quando liam a

“Bíblia em linguagem" ou desrespeitavam a autoridade do Papa e


à de seus enviados; além disso ameaçavam o domínio português so­
Sk
bre a costa brasileira. Os estrangeiros desafiavam o poder de

comando e expansão do colonialismo lusitano ao se aliarem aos

nativos e tomarem faixas do litoral. Por estes motivos, os

mesmos dever iam ser dupl.amente perseguidos: em nome da expan­

são e da manutenção das conquistas coloniais portuguesas e


*>
¥
cristãs. A mesma desconfiança recaia sobre os grandes mercado­

res marranos, pois o Estado frequentemente vinculava tais ele­

* mentos com os protestantes do norte. Assim sendo, a aliança


9
entre os cristãos-novos e os estrangeiros deveria ser a todo

custo evitada, sob pena dos portugueses perderem suas posses-

sQes no Atlântico Sul.

Em 2 de novembro de 1590, Felipe II, rei de Espanha e

Portugal, assinou uma provisão destinada a afugentar os es­


I
trangeiro da Colônia; doravante estes indivíduos deveriam, no

prazo de um ano, retornar ao seu local de origem, sob pena de

& perderem fazendas e de serem pastos A morte (13>. 0 temor do

Estado em relação aos estrangeiros se agravou nos anos vindou­

ros. Durante a admini stração de D. Luís de Sousa, a legislação

dedicada a expulsar elementos se multiplicou (14) a ponto do

poder central solicitar uma relação de todos os estrangeiros

* residentes na Paraíba, Tamaracá e Pernambuco (15). Talvez es—

*
119

sas medidas tenham dado algum resultado, pois quando se compa­

ra as denunciadores, denunciadas e confitentes da Primeira Vi­

sitação do Santo Oficio <1591-1595) com os da Segunda Visita­

ção (1618— 1620), verifica-se uma redução drástica de estran­

geiros na Bahia - ao menos segundo os registras inquisito­

rial s.

A ameaça externa se tornava mais grave quando ingleses e ;

franceses se aliavam aos nativos,fornecendo-lhes mantimentos e

armas.Nas guerras da Paraiba, reinóis e mazombos lutaram bra­

vamente contra potiguares e franceses, ambos elementos deses-

tabi1izadores da colonização ao norte de Pernambuco. Na verda­

de, a presença indígena constituía ameaça constante à perma­

nência e ao sucesso da colonização. Uma vasta área entre a Ba­

hia e o Rio de Janeiro teve seu desenvolvimento inviabilizado

devida aos índios aimorés. Somente no século XIX foi possível

a existência de vias terrestres ligando as regibes.

Durante as Visitaçbes do Santo O f iri o, os portugueses

combatiam os indígenas em duas frentes: de Pernambuco, em di­

reção ao norte, e em Sergipe. No ano de 1589, Cristovão de

Barros empreendeu uma guerra contra o "Gentia de Gerizipe", a

fim de vingar a morte de seu pai, Antônio Cardoso de Barros,

assassinado e devorado pelos nativos e de expandir as áreas de

cultivo agrícola do recôncavo. Com a finalidade de formar um

exército, Antônio Fernandes tornou-se capitão da vanguarda e

Sebastião de Faria o da retaguarda; ambos comandariam a luta

destinada a expandir as áreas agrícolas em direção ao norte.

Os irmãos Rodrigo Martins e Alvaro Rodrigues, mamelucos e fi­

dalgos descendentes de Caramuru, também participaram do even-


y

, 120

a
to. A campanha era composta de cento e cinquenta homens bran­
£
cos e mamelucos, e mil índios tapuias, levando perto de três

mil flecheiros. Em janeiro de 1590, a vitória dos portugueses

já estava certa, provocando a morte de centenas de índios e a

-fuga de outros tantos. Como botim de guerra, Cristovão de Sar­

ros repartiu "índios cativos" e terras, transformando a região

em criadora de gado, destinada a abastecer engenhos e vilas da '

Bahia e Pernambuco. No mesmo Sergipe, ainda existia uma enorme

reserva de pau-brasi 1 que, anteriormente, era explorada pelos


I -franceses; outros produtos também eram abundantes na localida­
%
de, como o algodão e a pimenta (16).

□ avanço dos colonos sobre as terras do Sergipe represen­

tou a pacificação do eixo Salvador-01inda, integrando territó­

rios anteriormente isolados pela ameaça de ataques do gentio.

0 empreendimento iniciado em 1555 por Mem de Sá seria concluí­

do por Cristovão de Barros quase meio século depois. O elemen­

to nativo, a partir de então, se refugiaria no interior, en­

quanto as regióes litorâneas- seriam ocupadas por plantações de

cana, engenhos e fazendas criadoras de gado vacum. 0 recôncavo

baiano se tornaria uma área pacificada e destinada aos empre­

endimentos do homem branco (17). Os avanços dos pernambucanos

em direção ao norte de Itamaracá tiveram o mesmo objetivo: a

expulsão dos nativos "selvagens" e o fim das ameaças sobre

áreas de cultivo de cana-de—açdcar. A conquista da Paraíba

possibilitou aos portugueses ampliar as regiftes agrícolas, le­

vando as culturas de exportação rumo ao norte da Colônia. □

empreendimento teve seus primeiros sucessos com a chegada de

Frutuoso Barbosa, quando, no início da década de 15B0, enfren-

I
tou -franceses e gèntios com alguns caravelfiâs e muita munição.

A -fim d e consolidar as p o s i çÊJes c o n qui st a d a s por Frutuoso, o

governador Manuel Teles Barreto enviou à região o general da

armada castelhana, Diogo Flores Valdes e o licenciado Martim

Leitão. O apoio partiu da Bahia em Io de março de 1584 com uma

armada de nove naus, sete castelhanas e duas portuguesas. Em

Pernambuco reuniram-se ao grupo o capitão D. Felipe de Moura e

Jorge de Albuquerque. No Tempo das Visitações, a Capitania da

Paraíba já reunia um bom número de senhores de engenho e la­

vradores, além de possuir uma vila denominada Felipéia, em ho­

menagem a Felipe II, onde existia uma Santa Casa de Misericór­

dia (13). ;

Durante a período de pacificação dos indígenas, os enge-


l
nhos tiveram participação ativa na defesa da população branca,

mestiça e dos índios fiéis. Muitos engénhos se localizavam' em

regiües distantes de Salvador e Olinda e não se beneficiavam

das fortificaçbes construídas pelos portugueses. Deste modo,

as unidades produtoras de açúcar eram, muitas vezes, a fron­

teira entre os territórios colonizados e as áreas sob o domí­

nio dos grupas indígenas resistentes à penetração portuguesa.

Fernãa Cabral de Taíde era senhor-de-engenho em Jaguaripe,

parte sul do recôncavo baiano; em sua confissão, relatou um

episódio ilustrativo da função bélica dos engenhos:

"...e estando este gentio assim aleva.ntado ele


confessante mandou gente de armas para o faze­
rem vir do sertão com a qual gente se viu gran­
de parte do gentio se apousentasse em uma al­
deia dentro da dita sua fazenda onde é morador
e nela se apousentou o gentio..." (1?)

Com a ajuda de alguns mamelucos, Fernãa Cabral conseguiu apa-


s>
3

j3
% 122

ziguar a revolta dos indígenas e ainda concentrou em sua pro­


$
priedade um número considerável de braços capazes de aumentar

a -força produtiva do engenho, já que era possível escravizar a


w

população nativa durante os combates - desde l5f.O, a escravi­


w

dão dos indígenas somente era possível se -fossem capturados na


w

guerra (20).
'*»*' w

I
Outra modalidade de se reunir os nativos era enviar ho­
w

mens ao interior a fim de convencé-1os, pacificamente, a trab-


w

lhar para os brancos. Em 11 de fevereiro de 1592, Domingos No­


•íss>' w

bre, o Tamacaúna, confessou que por diversas vezes foi mandado

ao sertão para "fazer descer o gentio para o povoado". As mis­

sões executadas por Tamacaúna eram solicitadas ,-slas autorida­

des coloniais, que transformaram os mamelucos em intermediá­

rios entre os portugueses e os si 1vicolas, .já que eram racial­

mente e culturalmente vinculados aos brancos e aos índios. A

ambiguidade vivida pelos mestiços possibilitava-lhes circular

sem dificuldades entre as aldeias e as vilas. Muitos deles

eram bilingües e possuiam prestigio nas comunidades si I vi co—

Ias- Tamacaúna, por exempla, viveu em várias aldeias e em al-


•»
gumas delas casou com duas ou mais mulheres, concedidas a ele

pela tribo (21). Deste modo, os mamelucos tornavam-se uma peça

importante no suprimento de mão-de—abra para as fazendas e en­

genhos.

A guerra contra os indígenas e sua escravização eram de­

terminadas, a principio, por razões econômicas, além de signi­

ficarem um avanço da Cristandade sobre o território pagão do­

minado pelos nativos. Desde p início da colonização, o gentio

supria as necessidades dos portugueses de alimentação, defesa


e mão-de-obra. nas' plantações e engenhos. Stuart B. Schwarts

acredita que a -força m o t r i z do g e n t i o empregada pelos portu­

gueses era de três modalidades: a primeira, utilizada pelos

colonos, "consistia na coerçâó direta, sob -forma de escravi­

dão"; a segunda, usada pelos jesuítas, e por outras ordens, -foi

a criação de um campesinato indígena, a fim de transformá-lo,

por meio de aculturação e destri bal i zação, segunda as demandas

européias; por último, uma estratégia experimentada por leigos

e religiosos que "consistia em integrar aos poucos os indíge­

nas individualmente como trabalhadores assalariadas a um mer­

cado capitalista auto-regul ável" (22). Nota-se, então, que as

guerras contra o gentio não eram, em principio, defensivas;

mas, pelo contrária, faziam parte de uma política agressiva de

escravizar e aculturar os nativos.

3.2 - conflitos e representações do poder

üs CQ.nf 1 itos detectados nos. autos das Visitações do Santo

Oficio não se restringem à luta contra ameaças externas. Neles

é possível encontrar informações sobre os abusos da adminis­

tração portuguesa, depoimentos contra os governadores e rela­

tos sobre a incapacidade do poder central em mediar os confli­

tos. Os depoimentos também revelam as disputas existentes en­

tre as facções da sociedade colonial, entre elementos que, a

priori. teriam o mesmo credo e etnia.

0 depoimento de João da Rosa é um bom exemplo da venali-

dade da administração colonial. 0 jovem tabelião contou a seu


W VíS- w w w w '!V V ^ S* ^ ^ w

124.. '

pai que era comum na terra os oficiais de justiça se venderem

"por dinheiro e peitas e rogos dos poderosos", cometendo "er­

ros e falsidade em seus ofícios tirando a justiça às partes em

favor dos que mais podem" (23)'. O relato acusa o cristâo-novo

João Nunes, rico mercador e senhor de engenho, de usar o poder

econômico para fraudar a justiça e perpetuar as desigualdades.


W

Na verdade a denúncia se volta também contra a administração


w» w

local, contra os oficiais e todos aqueles participantes do po­

der judiciário da Colônia. O desrespeito às leis era um dos


W «p ** w W

alvos da administraçào espanhola, desde do governo de Teles

Barreto. Várias mecanismos repressores foram criados para re­

verter o quadro. 0 descontrole não era apenas da população, os

membros da burocracia constituíam os grandes burladores das

leis. Os funcionários mais zelosos constantemente se queixavam


W

do comportamento venal de seus companheiros. Contudo, erã à


W

comunidade a maior vitima do desmando dos poderosos e do opor­

> tunismo dos representantes do Estada lusitano. 0 comportamento


i
do Provedor da Capitania de Itamaracá ilustra as denúncias su­
I
I pracitadas: este indivíduo foi preso por cometer grandes rou­
I- bos na dita terra, conseguindo logo depois fugir para o reino
I
e viver como um homem qualquer (24).
I
I A instalação do Tribunal da Relação na Bahia em 1609 foi
I
motivo de grande regozijo para a população. A instituição as­
I
I seguraria a defesa da vida, "fazenda, honra e liberdade de t o ­
»
dos os vassalos" (25). Os juristas provenientes de Portugal
I
I poderiam conter os abusas praticados pelos oficiais aliados
&
aos poderes locais. Alguns anos após a instalação do Tribunal,
I
} Brandônio comentou a morosidade da Relação da Bahia; o despa-
$
a
s?
3,
cho dos processos andava mais rápido quando os mesmos eram en­

viados a Lisboa. Ele nos conta: ... "me aconteceu já (nâü uma

senão muitas vezes) mandar alguns papéis a despachar à Bahia

e, no mesmo tempo que os mandava para lá, mandar outros seme­

lhantes para o Reino, e virem-me os do Reino muito antecipados

dos da Bahia..." (26). Além disso, Brandònio relatou que en­

quanto todos os colonos possuíam algum parente ou conhecido em

Portugal, -Facilitando o contata entre os habitantes do Brasil

e os tribunais lusitanos, uma apelação enviada à Bahia reque­

ria várias viagens e despesas enormes, pois nem todos possuiam

parentes ou amigos residentes na sede administrativa do Colô­

nia. Na verdade, d desempenha da Relação não obteve o esperado

sucesso, pois não se passaram muitas anos e ela teve suas ati­

vidades suspensas. 0 Tribunal da Bahia, -fundada em 1609, per­

maneceu em -funcionamento até 1626 - voltando a -funcionar ape­

nas na década de. 1650 (27). Enfim, a reversão do quadro de

desmando não ocorreu com a chegada dos juristas lusitanas, e

os colonos continuaram sujeitos aos interesses dos "principais

da terra".

Os poderes locais sempre foram um obstáculo à centraliza­

ção promovida por Lisboa. 0 advento do Governo Geral veio con­

tornar este obstáculo sem muito sucesso, pois Salvador repeti­

das vezes recorreu aos ricos senhores de engenha para afugen­

tar corsários ou para expandir a colonização sobre as terras

indígenas. Por outro lado, boa parte desses homens ocupavam

cargas nas Câmaras Municipais e detinham o controle sobre a

produção dos engenhos e o comércio de açúcar. Enfim, o poder

econômico na Colônia estava concentrado nas mãos dos donos de


126

engenha; eram eles que faziam ou não valer as leis na América

Portuguesa. Contudo, nunca existiu um confronto explicito en­

tre o poder central e oligarquias locais, havendo sim uma to­

lerância mútua que objetivava a preservação dos espaços con-

qui stados.

□ monarca, contudo, permaneceu vigilante, desconfiada e

cuidadoso apesar do clima de convivência pacifica existente

entre Colônia e Metropole; o mundo americano não poderia es­

quecer "o cordão umbilical, que lhe transmitia a força de tra­

balho e lhe absorvia a riqueza. O rei estava atento ao seu ne­

gócio." (28) Porém, nem toda atenção do rei era capaz de con­

trolar os procedimentos de seus representantes nos trópicos.

Os interesses do Estado, em muitas ocasiBes, eram suplantadas

pelas ambições locais. Os negócios escusos eram comuns na Co­

lônia, mas nem por isso deixavam de provocar mexericas e in­

trigas; algumas vezes, davam origem a devassas como a que

ocorreu com D. Luís de Sousa, governador e capitão geral do

Estado do Brasil (29).

A aristocracia colonial, vez por outra, demonstrava pu­

blicamente o grau de rivalidade existente em seu seio. Os de­

sentendimentos entre seculares e religiosos constituem um bom

exemplo da luta entre os grupos do poder. D. Diogo de Meneses,

governador do Brasil entre 1609 e 1612, teve sérias problemas

com o Bispo Barradas, logo no inicio do mandato. Em uma carta

ao Rei, datada de 12 de julho de 1609, ele revelou um inciden­

te ocorrido durante a cerimônia de Corpus Christi do ano de

1609, - evento realizado na igreja maior de Olinda. Na data, o

governador se determinou ir à igreja e acompanhar o Santíssimo


127

Sacramento, sabendo que no ano anterior ocorreram desavenças

entre o bispo e a Câmara. □ incidente envolvendo a última

ocorreu devido à disputa em torno de quem levaria o Pálio. Se­

gundo a Relação de Sua Magestàde, a Câmara tinha a posse do

mesmo e o bispo deveria acatar as regras do cerimonial. D.

Diogo, temendo um novo confronto, solicitou à Câmara que veri­

ficasse a posição correta do governador 'no cortejo, para que

não houvesse dúvidas durante o evento.

No dia de Corpus Christi, o governador assistiu a missa


I
na Santa Casa de Misericórdia; ao término do evento dirigiu— se

à igreja de onde sairia o corteja. No caminho choveu e o go­

vernador teve que se recolher na Casa da Câmara até passar a

chuva. Quando chegou à igreja, a missa havia terminada e o

Bispo estava prestes a iniciar a procissão. A cerimônia se re­

alizou no interior do templo, já que a ’ chuva impedia qúe o

cortejo percorresse a vila. □ bispo Barradas, mais uma vez,

não cumpriu as prescriçòes do cerimonial, passando na -frente

das autoridades seculares. D. Diogo Meneses logo manifestou

seu protesto contra a postura do religioso, e -foi atingido, em

um gesto de cólera do Bispo, pelo pano que cobria a Santíssimo

Sacramento. 0 incidente provocou um grande burburinho na igre­

ja, pois o governador havia sido atingida no rosto e desres­

peitado diante da população de Dlinda. Durante o acontecimen­

to, o religiosa ainda propalou em alto e bom som que o melhor

governa na terra não era o do monarca, mas o de Deus (30).

Contudo, não era o Bispo Barradas o único a provocar os pode­

res seculares estabelecidos; os jesuítas lutaram sem cessar

contra os interesses escravistas, contra senhores de engenho e


í28

capitães interessados em -fazer dos nativas um braça escrava.

Os padres da Companhia de Jesus tornaram-se, então, alvo

de duras críticas originadas de diversos segmentos da socieda­

de. □ mais conhecido combatente da Ordem -foi Gabriel Soares de

Sousa que, por volta de 1590, enumerou ao Sr. Cristovam de

Moura dezenas de abusos cometidos pelos religiosos. Durante

sua permanência em Madrid, o sertanista afirmou que o Colégio

da Bahia recebia 4.500 cruzados de renda de El-Rei a cada ano

e possui a

"muitos currais de vacas, muitas propriedades


de que lhes pagam muita renda, uma fazenda onde
lhes iam os mantimentos necessários, e cinco
aldeias de índios forros.,." (31)

As fazendas dos jesuítas cresciam a cada ano, avançando sobre

terras alheias e expulsando os proprietários das herdades. Os

antigos donos não estavam desprovidas de títulos de terra e

poderiam reclamar na justiça pelos direitos, embora os padres

só reconhecessem o juiz de Roma. Além disso, aqueles que ofe­

recessem resistências à Ordem seriam excomungados e assim for­

çados a abandonar as glebas. Casa a excomunhão não bastasse,

os padres fomentavam os índios a atacar os pequenos proprietá­

rios e arrancá-los pela força das terras. Gabriel Soares de

Sousa ainda declarou que muitos fiéis eram induzidos, outras

vezes pressionados, a fazer doações em nome da Companhia; com

estas extorsões os jesuítas conseguiram reunir uma vasta área

territorial, tornando—se um dos maiores proprietárias da Colô­

nia.

□ sertanista deu prosseguimento à denúncia dizendo que os


129

padres jesuítas travavam verdadeiras batalhas contra os gover­

nadores insatisfeitos com os procedimentas da Companhia. Em

certas ocasiCes, o governador Luís de Brito mandou prender Se­

bastião da Ponta, homem facinoroso, segundo Soares de Sousa. O

detido logo se aliou aos jesuítas, prometendo à Ordem parte de

sua fazenda; a partir do que os religiosos empreenderam uma

campanha contra Luls de Brito, ordenando à justiça secular que

o soltasse. Caso não acatassem as ordens dos padres da Compa­

nhia, os representantes da justiça colonial seriam todos exco­

mungados. Os padres também pediram apoio ao bispo; o pedido

porém foi em vão; a autoridade eclesiástica não concordou em

participar do movimenta destinado a soltar o prisioneiro, pois

era amigo do governador. Por conseguinte, os religiosas da

Companhia resolveram promover uma manifestação:

"...queimaram candeias às avessas ao pé do pe­


lourinho e puseram um crucifixo com a cabeça
para baixo e os pés para cima, o que fez tama­
nho terror na terra que os homens fugiam do go­
vernador e das justiças." (32)

Os padres ainda arregimentaram dezenas de índios para um even­

tual confronto com o governador. O incidente foi resolvido

quando o último acatou as exigências dos jesuítas e saltou o

dito presa. A manifestação narrada acima foi desmentida pelos

jesuítas. Seria muito difícil, mesma para nós, homens do sécu­

lo XX, acreditar que os religiosos da Companhia de Jesus fos­

sem capazes de promover inversbes do culto católico aos moldes

do Sabá das Bruxas. Caso as transgressGes tivessem real mente

ocorrida, estes homens seriam condenados por bruxaria e here­

sia grave contra os dogmas cristãos.


I•
0 sertanista também acusou ns pregadores da Companhia: em
130

i
Í.V
seus discursas, disse ele, lançam juízos suspeitas, atingindo

o governador, o bispo,a Câmara e os moradores; além disso, nâo


&
obedecem aos mandamentos dá justiça, sobretudo quando agem,
&
com auxilio dos índios, contrá os brancos que se dirigem ao

sertêto a -fim de resgatar escravos. Em muitas ocasiões, os je­


&
suítas espancavam e metiam no tranco os sertanistas e não eram

punidos pelos orgàos competentes (33). A rivalidade entre se- '

nhores-de-engenho, lavradores, sertanistas e jesuítas nasceu

na disputa pela utilização ou não do indígena como nâo-de-obra


i
escrava. Os padres serviram, inúmeras vezes, de intermediários

entre os índios e o homem branco, impedindo a escravidão dos


V£-f
nativos — -fato que provocava prejuízos aos proprietários, pois
<êk-
w
a -força motriz destinada a dinamizar a agricultura colonial

era escassa.

A intervenção dos padres em f a v o r ‘dos nativos descaracte­

rizou, segundo Soares de Sousa, a função dos religiosos junto

às comunidades silvicolas, pois, a principio, a ação missioná­

ria se restringia a ensinar a doutrina cristã e os obrigar a

"viver e proceder como cristãos". As atitudes anti-escravistas

dos religiosos da Companhia de Jesus inviabilizaram as tarefas

atribuídas aos capitães. Aos últimos cabia olhar

"...por estes índios e os fazerem trabalhar em


suas roças, por eles serem muito amigos de fol­
gar, e que também os mandassem trabalhar nas
fazendas dos Portugueses, pagando—lhes de seu
trabalho um tanto a cada mês..." (34)



% Gaspar Curado, capitão da Capitania de Porto Seguro foi
>
denunciado pelo padre Marçal Beliarte por impedir a entrada de

religiosos no sertão. 0 padre Marçal relatou ao Visitador que

recebera cartas dos padres Pantaliam dos Banhas e Agostinho de


Matos, onde diziam que o capitão não permitiu que eles conti­

nuassem a conversão dos gentios no interior daquela Capitania

(35). Uma outra denúncia envolvendo Gaspar Curado acrescentou

que ele, junto com Duarte Nunés, cristão-novo, lavrador, Pero

Neto, escrivão e Domingos Nunes, mei.rinho, se "alevantaram"

contra o padre Gaspar Dias, ouvidor da Vara em Porto Seguro, e

o quiseram matar (36). Todos os participantes do atentado -fo­

ram excomungados pelo religioso, segundo o depoimento de João

Vicente, considerado inimigo do capitão de Porto Seguro.

Os relatas registrados pelo Santo Oficia confirmam a ri­

validade existente entre seculares e religiosos mencionada por

Gabriel Soares de Sousa. Por outro lado, a existência de uma

delação neste sentida demonstra que os conflitos entre reli­

giosos e capitães não foram mediatizados com sucesso pelo Es­

tada e nem pela Igreja. Por que razão d Visitador ouviria uma

denúncia envolvendo disputas locais? Os procedimentos mencio­

nados pelo padre Marçal Beliarte, provincial da Companhia de

Jesus, não constavam nos monitórios. Marçal recorreu ao Visi­

tador Heitor Furtado para que ele, com seu poder de Inquisi­

dor, pudesse intervir junto a Gaspar Curado em f^vor dos je­

suítas. Não creio que a providencial da Companhia de Jesus le­

vasse ao Inquisidor um problema alheio ao Santo Oficio por

desconhecer o rol de desvios encontradas nos monitórios (37).

0 conflito entre escravistas e anti-escravistas se agra­

vava quando os jesuítas incentivavam a fuga dos índios, duran­

te as horas em que os religiosos transmitiam âos nativos os

ensinamentos da Bíblia. Outras vezes, as fazendas dos jesuítas

se tornavam refúgio para os índios fugitivos, transformando-os

*> y.■
depois em -forras e impedindo que seus "legítimos" senhores os

levam para o cativeiro (38).

As acusações do sertanista Gabriel Soares de Sousa foram

transmitidas aos jesuítas residentes no Brasil, dando oportu­

nidades aos padres de se defender das graves ofensas. As res­

postas ao sertanista foram assinadas por Marçal Beliarte, Ig­

nacio Tholosa, Rodrigo de Freitas, Luís Fonseca, Quirino Caxa

e Fernâo Cardim; todos negaram as história e acusaç&es mani­

festadas por Soares dò Sousa. Dos religiosos presentes apenas

dois compareceram diante de Heitor Furtado de Mendoça; Marçal

Beliarte e Fernâo Cardim. 0 primeira denunciou Gaspar Curado,

no dia 19 de agosto de 1591, relatando, como anteriormente

mencionei, as arbitrariedades do capitão; a denúncia do reli­

gioso é coerente com as respostas dadas ao sertanista. Fernâo

Cardim, no entanto, nâo mencionou, em suas delações ao Santo

Oficio, as arbitrariedades dos capitães, preferindo relatar

suspeitas de judaizantes e outras heresias contidas nos moni —

tórios. Neste sentido, o depoimento de Cardim se adaptou me­

lhor aos desígnios dos inquisidores do que o do padre Marçal.

Luiz de Grâ, Antônio Dias, Simâo Pinto, Baltasar de Miranda,

Antonio da Rocha, Pedro Madeira e João Brás (os dois últimos

eram irmãos da Companhia de Jesus), eram jesuítas e se apresen­

taram ao Visitador do Santo Ofício em agosto de 1591; nenhum

deles acusou capitães, ou indivíduos contrários à catequese do

gentio, ou melhor, nenhum deles respaldou as acusações do Pa­

dre Marçal, preferindo seguir as instruções dos monitórias. A

constatação permite indagar se haveria um consenso entre os

padres da Ordem no que concernia ao problema dos indígenas


w
w
■*Sf
133
t
f
*
(39).

□ projeto jesuíta para o gentio não era respaldado por

religiosos de outras Ordens; a divergência tornou-se evidente

no episódio da guerra da Paraiba. Frutuoso Barbosa, o mais

combatente na luta aos potiguares, conclamou aos jesuítas para

"cristianizar" o contigente indígena existente na região da

Paraiba, muitos deles cativos em consequência dap batalhas. No 1

entanto, os jesuítas discordavam de Barbosa no tocante aos al—

deamentos. Para Frutuoso Barbosa as aldeias -funcionariam como

"fronteiras", ou melhor, seriam comunidades destinadas a pro­

teger as conquistas portuguesas, pois estariam no limite entre

as áreas pacificadas e os territórios hostis. Além disto, os

aldeamentos teriam a finalidade de substituir "a cultura indí­

gena pela cultura colonial baseada em cultivo de cana-de— açó-

car". Os jesuítas, porém, não concordavam com o capitão Fru—

tuoso e consideravam as aldeias como local de cristianizaçâo.

0 capitão substituiu os padres da Companhia de Jesus pelos

franciscanos, pensando que seria mais fácil empreender a do­

mesticação dos indígenas. Na entanto, a experiência não durou

muito tempo e os seculares passaram a organizar as aldeias da

Paraiba. "0 clero secular era decerto muito mais apto a ser

instrumentalizado pelo sistema." (40)

As contendas entre jesuítas e colonos se perpetuaram por

várias décadas. Os Estados português e espanhol nada puderam

fazer para dar um desfecho à disputa. De um lado, por razões

morais e teológicas, não poderiam negligenciar a "humanidade"

dos silvicolas: os padres freqüentemente pressionavam o poder

metropolitano para que tomasse medidas efetivas contra capi—


134

tães e sertanistafe. Em compensação, a economia colonial care­

cia de braços. A mão-de-obra européia não se adequava aos em ­

preendimentos açucareiros: a oferta de trabalhadores era insu­

ficiente e havia carência de recursos destinados a pagar os

possíveis candidatos aos trabalhos no além-mar, como também

era impossível, pelo menos nas primeiras décadas, a importação

de escravos africanos. Deste modo, o governo metropolitana v i ­

veu, por longos anos, um impasse: apoiar os jesuítas e deixar

a economia debilitada; ou permitir a escravidão e desrespeitar

princípios morais e religiosas. Por conseguinte, a Coroa me ­

diou o conflito de modo que os colonos e jesuítas não saissem

tão prejudicados. Neste sentido, criou uma legislação capaz de

contentar a ambos: proibiu, â partir de 1570, a escravidão in­

dígena, deixando contudo uma brecha na legislação que a permi­

tia, quando a índio fosse capturada em '"guerra justa" (41)'. No

entanto, a ambiguidade das leis não as permitiram arrefecer os

ânimos; as delações de Gabriel Soares de Sousa, por exemplo,

demonstram o grau de animosidade existente entre os grupos.

Por outro lado, a denúncia do padre Marçal Beliarte, providen­

cial da Companhia de Jesus, contra Gaspar Curado - depoimento

mencionada anteriormente - revela que a mediação da Coroa, no

que se referia à disputa em torno do futuro dos silvicolas,

era insuficiente, incapaz de punir os abusos perpetrados. Na

verdade. Marçal Beliarte recorreu ao Visitador a fim de que a

Inquisição interferisse na contenda e a solucionasse em favor

dos religiosos.

□s sertanistas e capitães não eram os únicos a suspeitar

da honestidade dos padres e bispos. Ao delatar o comportamento


13

de Salvador- da Maia. Fernâo Ribeira de Sousa, cristSo-velho e

senhoi— de-engenho, lançou dúvidas sobre a lisura do bispo. Se­

gundo ele, o delatado açoitava crucifixo e desrespeitava os

religiosos, pois, solicitado a conceder esmola para uma con­

fraria, o dito cristão-novo lançou â bacia uma figa. Qs comen­

tários em torno das heresias perpetradas por Salvador da liaia

também acrescentaram que ele "se livrara diante o bispo" (42).

Outros delatores ainda comentaram que o dito homem comia cor­

deiro pascal na Semana Santa e que "uma ves doente tinha aos

pés da camá uma imagem na qual de quando em quando dava com os

pés". Todos na vila de Ilhéus conheciam a fama do cri stâo-novo

e diziam que ele "se livrava perante o ordinário de culpas de

judeu" (43). Os depoimentos contra Salvador da Maia quase sem­

pre mencionam as ligaç&es do delatada com as autoridades colo­

niais, dando a entender que o mesmo tinha prestigio junto à

administração eclesiástica e colonial. Caso contrário, não

sairia impune das acusaçBes.

A ineficácia das cartas de excomunhão era um outro motivo

de descontentamento das colonos com os representantes da Igre­

ja. As vitimas de roubo e perdas materiais compareciam diante

do Inquisidor a fim de protestar contra a impunidade vivida


* pelos executares das crimes. Antônio Dias Adorno, falecido em
w \

H
1588, "tirou uma carta de excomunhão" contra Felipa Alvares,
I
viúva de Paios Dias e moradora em Paraguaçú e mais três sobri­

* nhas seus: Rodrigo Martins, Gaspar Roiz e Alvaro Rodrigues. Os

n excomungados foram acusados de roubar "muitas peças de escravo


n
gentio desta terra e outros escravos e índios forras que desa­
*
h pareceram de sua casa". Oito anos se passaram e, apesar da

t
p
Rk 13<b
&
ü
I
Igreja té-los excomungada, "muitos das ditas escravas e in—
/
dias" ainda pertenciam a Felipa Alvares e aos sobrinhas. Este
p
episódio indica que a pena de excomunhão não os afetava, mesmo

sendo7-èlá "publicada nas freguesias e notória a todos" (44).

I As Constituiç&es Extravagantes do Arcebispado de Lisboa co­


d
mentam na constituição XVIII que aqueles que andassem excomun­

gados por mais de um ano incorriam em suspeita de heresia.

a-, "Conformando-nos com as determinaçdes dó Conci­


P lio Tridentino, declaramos, poder se proceder
contra os excomungados, e por tempo de um ano
a» com ânimo e endurecido se deixarem perseverar
na excomunhão. E isto além de outras penas por
1 direito e constituição são contra eles postas"
(45)
&
'3 Assim sendo, a denúncia contra Felipa Alvares e seus so­

brinhos não envolvia apenas roubo de escravos, mas determinava

o caráter herético dos mesmas, pois oito anos se passaram da

proclamação da carta de excomunhão e elês nada fizeram para se

redimir perante a Igreja. D denunciador recorreu, então, ao


I Visitador, a fim de fazer valer as determinaçdes do Concilio
I
de Trento e declará-los hereges passíveis de castigo por parte
I I
da Inquisição- Os excomungados renitentes não passaram desa­

percebidos de Heitor Furtado Mendoça. Em julho de 1593 o Visi­


£
I tador e outras autoridades assinaram uma determinação destina­

da a punir os excomungados que nesta condição permanecessem

3* por mais de um ano (46).


i
I Outros colonos atingiam a autoridade da Igreja desrespei­
I
tando os seus dogmas. .Simâo Pires Tavares confessou em Pernam­
I
I buco que arrenegava a lei de Deus, não acreditava no poder de

salvação das bulas e cantas bentas. Comentou também que se

a
*■ guiava pelos sonhos e jurava peleis tutanos e tripas de Cristo
137

(47). Maria Gonçalves Cajada, de alcunha Arde-lhe o Rabo, não

se contentou, segunda denúncia, em tripudiar sob os dogmas

cristãos e disse "que se o bispo tinha mitra ela tinha mitra e

se o bispo pregava do pulpeto também ela pregava de cadeira...

" (48). As blasfêmias são recorrentes na documentação inquisi­

torial, mas não creio que o prestigio da.Igreja estivesse aba­

lado; o sentimento religioso é repetidas vezes externado na

mesma documentação.

Nem mesmo os conflitos entre colonos e religiosos conse­

guiram abalar o poder moral exercida pelos religiosos sobre a

população; os padres das Ordens gozavam de boa reputação entre

a elite colonial e os populares. Os testamentos demonstram o

quanto os "principais da terra" acreditavam no poder de salva­

ção da alma propalados pelo clero. As Ordens na Colônia rece­

beram fortunas incalculáveis em terras,'prédios e engenhos. 0

engenho Sergipe do Conde, um dos maiores do recôncavo baiano,

•Foi doado aos jesuítas; o mesmo ocorreu com o engenho de San­

tana. O testamento do General Francisco Barreto de Menezes

também atesta a importância da -fé cristã para a elite colo­

nial; em 1663, o ilustre general escreveu seus últimos dese­

jos, estando em "perfeito juízo e entendimento". No testamento

Barreto de Menezes afirmou:

"0 meu corpo será enterrado no Convento de São


Francisco do Capuchos da piedade da vila de
Loulé do Algarves na sepultura de meus pais por
ser padroeiro do dito convento, para o que será
meu corpo embalsamado e amortalhado no hábito
do padre São Francisco a qual peço me queira
conceder o padre guardião do convento que hou­
ver no lugar onde eu morrer" (49)
í38

Os religiosos revitalizavam diariamente o contato entre o


I ,
sagrado e os homens, as encenaçües cristãs -forneciam uma ótima

oportunidade para aproximar Deus dos pobres mortais. A Igreja

Tridentina deu muita importância a esses cultos e estabeleceu

cerimônias próprias para cada fase da vida humana. Os nasci­

mentos, casamentos, enterros e festividades eram elaborados de

tal forma que cada um deles tinha o poder de lembrar aos fiéis

os ensinamentos bíblicos, aproximar a Igreja dos homens e res­

saltar os beneficias alcançados pelos cristãos devotos. As

construções religiosas do período colonial representavam uma

peça fundamental da encenação promovida pela Igreja. Mostei­

ros, conventos, e igrejas dominavam colinas e montanhas, ocu­

pavam enormes áreas do espaço urbano e eram visíveis de longas

distâncias. A cidade de São Salvador se encontrava protegida

pelos mosteiros do Carmo e São Bento; ô primeiro se estabele­

cia no limite norte da cidade e o outro no sul. Bem no centro

do aglomerado urbano se encontravam a igreja de Nossa Senhora

d'Ajuda e o colégio da Companhia de Jesus, que se espalhava

por boa parte da banda norte de Salvador. Em várias épocas do

ano se realizavam eventos religiosas no espaço urbano. Em 4 de

outubro de 1585, comentou Jaboatâo, os franciscanos deixaram a

igreja da Misericórdia e passaram a se estabelecer no convento

Nossa Senhora das Neves, o acontecimento sendo marcado por co­

memorações que convidavam a população de Olinda a confraterni­

zar com a Ordem. Um cortejo composto pelo "clero com o seu re­

verendo vigário geral, o secular o senado e Câmara e mais no­

breza" e povo deixou a Santa Casa de Misericórdia, entoando

cântico de Te Deum Laudamus, em direção ao convento. No cami —


139

nho percorreram ruas cuidadcsamente ornadas com "arcos triun­

fais e verdes palmas", resultado do entrosamento entre os re ­

ligiosos e a população de Olinda (50). Tudos isto atesta, como

diria Lucien Fefavre, a pressão insidiosa da Igreja sobre a vi­

da dos homens (51).

Os primeiros senhores de engenho não dispunham dos mesmos

recursos empregados pelas Ordens na construção de igrejas e

mosteiros. No Tempo da VisitaçBes, a Casa-Grande descrita por

Gilberto Freire, ainda não havia se difundido, as residências

dos proprietários de engenhos eram mais modestas. Os quadras

pintados por Franz Post, meio século depois da vinda da Inqui­

sição, atestam a rusticidade das habitaçdes dos poderosos se­

nhores de Pernambuco: muitas delas feitas de ripas de madeira

e cobertas de sapé. As construçbes eram suspensas por palafi-

tas e tinham o formato de cubo (52).

Pedro Calmon não descreveu a Casa da ■ Torre, residência


/
dos Garcia D'Avila, da mesma maneira; ela possuía ,
l
"dois pavimentos flanqueados por duas alas em
ângulo reto. A fachada, voltada para o mar, na­
da tinha de opulento. Uma porta acanhada, jane­
las altas, a face lisa, lembraria uma caserna.
Do lado de terra, assemelhava-se às casas no-—
bres dos engenhos, arejada, pesando sobre arca­
ria, com senzalas ao pé, os telhados inumerá­
veis , de fazenda rica, fechando no eirado uma
área familiar que a famulagem enchia, carros,
cavai os, òs homens d 'armas. 11 (53).

Outros pormenores sobre á torre de Garcia D'Avila são enumera­

das pelo historiador baiano: por volta de 1587, a construção

compunha—se "de moradias, muros de defesa, capela e baluarte

vigilante, onde ardiam ... fogos-sinaleiros." (54). Deste modo,

não restam dúvidas de que o rico criador de gado construiu uma


•fortaleza aos moldes dos senhores -feudais, em pleno recôncavo

baiana. Quais seriam as intenções do -fidalgo em erguer uma re­

sidência com tanto -fausto, em um lugar tão remato? Por um la­

do, eram razoáveis as precauções com a segurança, tomadas na

época da construção: havia sempre a iminência de ataques pla­

nejados por corsários ou pelos nativos "levantados". Porém, a

Torre representava o domínio de uma -família sobre uma vasta

área de terra, tendo os donos da região poder absoluta: captu­

rar nativos, expandir as áreas da propriedade em direção ao

sertão e expulsar os índios ai fixados. A longa distância da

Casa da Torre até o centro da administração colonial permitia

á família gozar de uma autonomia semelhante àquela conquistada

pelos senhores feudais. Os administradores da Colônia dificil-


t
mente fiscalizaram os procedimentos da família dos D'Avila.

Outros senhores bem menos poderosos praticaram em suas

propriedades atos abomináveis e permaneceram impunes pelo me­

nos até a chegada do Inquisidor. 0 caso mais conhecido foi d

de Fernâo Cabral de Taide. Em 13 de agosto de 1591, Gaspar de

Palma, sacerdote e cônego da Sé de Salvador, denunciou Fernâo

Cabral por participar de cerimônias gentilicas e mandar quei­

mar uma escrava cristã e, na mesma oportunidade, o sacerdote

delatou as práticas atrozes do mestiça André Fernandes Marga-

lho, "cidadão dos da governança", senhor de engenha e merca­

dor. Margalho mandou assar em um forno um negro cristão (55).

Na visita de 161S o cristào-novo Pero Garcia, senhor de quatro

engenhos na Bahia, foi acusado de praticar sodomia. Marcos

Teixeira, err|princípio, hão acreditou na delação, pois indagou

a Paulo Afonso, o primeiro dos delatores, a razão pela qual o


rico senhor de engenho confiaria nele para relatar tão infame

heresia. Paulo respondeu ao Visitador que Pero Garcia "sabe se

dá muito ao vinho, e -fica tão esquentada dele, que depois de

beber fica di-ferente como era antes de beber como branco a

preto" (56). Diogo Lopes Ilhoa, crisTão-novo, mercador e se­

nhor de engenho, -foi acusado de construir uma "esnoga" em sua

propriedade e perpetrar práticas judaizantes (57).

Os depoimentos encontrados nas visitas demonstram que al­

guns senhores de engenho dominavam os habitantes de suas pro­

priedades e possuíam ampla liberdade de ação que lhes permitia

abusar do poder de comando - tendência que se amenizou a par­

tir do estabelecimento da Relação na Bahia. 0 poder local era

por conseguinte incontestável por amplas setores da sociedade,

apesar das investidas dos jesuítas contra a escravização do

gentio. Por outro lado, as relaçfies entre a elite colonial e a

Coroa eram pacificas, desde que o interesse dos colonos coin­

cidissem com os da Metrópole. G clima de cordialidade também

era favorecido pelo desejo da elite em obter status de nobre­

za, fator que contribuia para amenizar a exploração econômica

perpetrada pela Coroa. Os interesses dos produtores de açúcar

gozaram por muito tempo do apoio de grupos mercantis^ que for­

mulavam a política do Estado lusitano^e a simbiose dos últimos

com os ricos colonos originou, como salientou Schwartz, muitos

mimos e proteção (58) .

3.3 casamentos mi stos


Ao analisar a relação entre estado e sociedade, o mencio­

nado brasi1ianista contestou a visão de Raymundo Faoro, que

concebe os burocratas como um estrato "independente e autopro-

motor" entim, contrário aos interesses do Estado. Schwarts


I
ressalta que muitos íuncionários da Coroa formavam alianças

com os poderes locais, e logo com os setores açucareiros; "as­

piravam ao status, às insígnias e aos direitos da nobreza e à

participação na modo de vida ar i stocráti co. Também eles com­

partilhavam a visão senhorial, e muitas vezes consideravam a

aliança com a classe dos senhores de engenha uma forma de con­

cretizar os seus desejas". (59)

Os burocratas referidas pelo hi stariado^ norte-americano

são os magistrados régios. Contudo, outros representantes do

poder, em períodos anteriores, também desejaram se fixar à

terra ou desfrutar ainda mais das regalias de uma vida senho—

rial. Francisco Frasão era "dos da governança" de Pernambuco e

se casou, pela segunda vez com Gui ornar Fernandes filha da co­

nhecida Branca Dias. Di.ago Fernandes marido da famosa cristã—

velha era vianense e se estabeleceu na Colônia por volta de

1540. Dois anos depois, recebeu uma data de terra de Duarte

Coelho para montar um engenho que não foi a frente. Depois da

morte do marido, Branca Dias se associou ao Cristão-novo Bento

Dias de Santiago para reconstruir o engenho (60). Depois de

conhecer a trajetória da família, considera que Branca Dias

não era nenhuma "troca tintas" e conseguiu casar uma das fi­

lhas com um homem poderoso e representante da Coroa em Pernam­

buco. Quais seriam as razdes para a realização deste matrimô­

nio? Evaldo Cabral de Mello entende que a ligação ocorreu de-


14

vido à carência de mulheres brancas na Colônia. Sem dúvida, a

interpretação do autor do livro 0 Nome e o Sangue é correta

(61). Mas haveria, talvez, outros interesses nesses casamen­

tos. Stuart Schwartz nos deu algumas pistas quando ressaltou o

interesse dos homens "principais da terra", que sem vínculos

com a elite açucareira, tinham interesse em participar do fe­

chado mundo dos engenhas.

As razões dos enlaces se tornam mais concretas quando se

analisa a família de Ana Roiz, outra cristã-nova muito citada

na Visitação da Bahia. Heitor Antunes, marido da mesma, se es­

tabeleceu na Bahia em meados de século XVI, onde construiu um

grande engenho na região de Matoim. Duas.filhas do casal de

cristãos—novos se casaram com fidalgos: Beatriz. Antunes foi

desposada por Sebastião de Faria e Lionor Monis


por Anrique
I
Monis Teles. Há noticias que Sebastião.de Faria era senhor- de

engenho (62), na mesma freguesia onde morava a família de Ana

Roiz. □ casamento com Beatriz Antunes certamente ampliou o

prestigio de Sebastião no recôncavo, pois a partir do enlace,

mantinha estreita relação com uma das famílias mais ricas da

localidade. Matrimônios deste tipo representam a união entre o

prestigio da honra e as regalias do poder econômica. Enfim,

devo ressaltar que os casamentos entre filhas de ricos cris—

tãos-novos e fidalgos ou "gentes da governança" não consti­

tuíam vantagens apenas para os marranos, mas eram de igual

proveito para os fidalgotes que se estabeleciam neste "fim de

I
mundo"; mesmo sendo eles proprietários de engenhos antes do

matrimônio.

A falta de mulheres brancas na Colônia era, sem dúvida,

J
um dos -fatores responsáveis pela realização de matrimônios

mistos. Contudo, não considero razoável relacionar os mesmos à

carência de mulheres quando se trata de enlaces entre fidalgos

e cristãos-novos difamados e conhecidos publicamente por crip—

tos judeus. Certamente existiam mulheres brancas cristãs-ve-

lhas disponíveis, para casarem com o pequeno número de fidal­

gos residentes no Brasil. Caso a opção fosse real mente inviá­

vel, não haveria obstáculos contrárias à união dos nobres com

mulheres européias, mesmo sendo plebéias.

0 casamento misto pode ser encontrado em vários segmentos

da sociedade; ele não é uma característica apenas das uniões

entre cristãos-novos abastados e "principais da terra". Porém,

o mesmo constituía uma importante fonte de rivalidade; os

cristãos-novos mais visados pelas denúncias possuiam parentes

cristãos-velhas. As filhas de Ana Roiz -se casaram com fidal­

gos, a união permitiu que os parentes dos últimos travassem

contatos com a família de marranos e denunciassem, depois da

chegada da Inquisição, o que haviam presenciado durante os

anos de convivia. Custódia de Faria, filha de Sebastião Alva­

res e Inês de Faria, e logo irmã de Sebastião de Faria, denun­

ciou, em 27 de agosto de 1591, Heitor Antunes e Ana Roiz; o

primeiro por nunca nomear o nome de Jesus Cristo e de perpe­

trar práticas judaizantes; a outra por não deixar a ossada do

marido ser transferida para outra sepultura, já que a ermida,

onde seus restos se encontravam, estava em ruína; a velha tam­

bém não aceitava crucifixo, oferecia pão de ázimo na Páscoa e

mantinha hábitos estranhos depois da morte do marido (63). Pê­

ro Aguiar Daltero, cristão-velho, casado com Custódia de Fa—


ria, também acusou a sogra de seu cünhado, Sebastião de Faria.

Segundo Pero, Ana Roiz recusou o retábulo quando se encontrava

doente, procedimento que provocou espanto na família. Contudo,

o delator a considerava uma boa cristã e disse que uma das -Fi­

lhas sempre admoestava a mãe para ter cuidado com o que dizia,

pois "somos casadas com -fidalgos e principais da terra" (64),

dizia ela. Pero Novaes, parente distante de Sebastião de Fa- 1

ria, também delatou os hábitos supeitos da velha cristã-nova.

Novaes, cristao—velho e senhor de engenho relatou ao Inquisi­

dor que Ana Roiz dizia: "pelo mundo que tem a alma de meu ma­

rido"; -frase ouvida por sua sogra, Isabel Serrão que conhecia

a dita moradora de Matoim (65).

Isabel Frasão era -filha de Francisco Frasão "dos da go­

vernança" de Pernambuco e moradora da freguesia da Várzea do

Capibaribe. Quando moça frequentou a escola de Branca Dias,

aprendendo prendas domésticas com a conhecida cristã-nova. Nos

anos que conviveu com a família presenciou costumes estranhos,

que mais tarde pode relatar ao visitador. O contato de Isabel

com a degredada Branca Dias se estreitou depois do segundo ma­

trimônio de seu pai, pois sua madastra, Guiomar Fernandes, era

filha da cristã-nova. Branca e suas filhas, segundo a delato­

rs,

"se fechavam em uma casa térrea grande, e man­


davam fechar as portas da rua que eram em umas
casas nesta vila na rua que vai para Jesus em
todos os sábados daquele tempo que ela denun­
ciante em sua casa esteve e nos ditos sábados
se fechavam a dita Branca Dias com as ditas
suas filhas todo dia pela manhã até a noite, e
não trabalhavam.. . " (66)

Enfim, Isabel Frasão acusou sua madrasta e familia de cumprir


o repousq sabático, prática capas da levá-las à -fagueira.

Cosme Frasão, também -filho de Francisco Frasâo, delatou

sua madrasta repetindo as acusaçOes que já tinham sido exter­

nadas pel a irmã. Cosme contou ao Inquisidor que Guiomar Fer—

nandes, não comia "cação raya e lamprea" nem outro tipo de

peixe "de pele", ou que não tivesse escama (67). Outras acusa-

çbes contra a -família partiram das ex-alunas de Branca Dias,

pessoas que passaram boa parte da adolescência convivendo com

os mencionados cri stâos-novos. Joana Fernandes, Ana Lins, Ma­

ria Lopes, Isabel de Lamás e Maria Alves -foram pupilas de

Branca, todas cristãs-velhas e algumas -filhas de pessoas ilus­

tres em Pernambuco. Na escala, eram "doutrinadas e ensinadas a

coser e lavrar" e presenciaram os hábitos estranhos e suspei­

tos de heréticos (68). Vaie lembrar que todas as histórias

possuem o mesmo conteúdo, apesar dos eventos terem ocorrido

trinta anos antes da chegada da Inquisição e estabelecimento

da Primeira Visitação.

Manuel Paredes é outra vitima dos parentes de sua mulher.

Cristâo-navo, morador em Tasuapina, na época da visita, tinha

plantação de cana-de-açucar, embora tenha sido mercador. Sua

tia, Branca da Costa, tora presa pelo Santo Otlcio, tato que

depunha contra sua integridade religiosa. Mesmo assim se casou

com Paula de Barros, cristã-velha, filha de Catarina Loba, vi­

úva, mas então casada com André Monteiro, "cidadão dos da go­

vernança" de Salvador. Catarina Loba acusou o genro de profe­

rir palavras contra Deus e estar sempre bêbado. André Monteiro

afirmou que Manuel dizia que Nossa Senhora não era virgem an­

tes do parto e que Paula, sua esposa, não deveria rezar para
# 147
#
V
V
Virgem, mas para Deus. Jerônimo de Barros, irmão de Paula, e

V logo cunhado de Manuel, disse que o mesmo comparou a virginda­
V de de sua mulher com a de nossa senhora, acrescentando que
V
Paula não era virgem quando com ele se casou. Manuel de Frei­
y
¥ tas, um outro parente, comentou com o Visitador que o cris­
:T
tão—novo espalhou pela cidade que sua esposa estava grávida
y
v quando se casaram e a comparou com a Nossa Senhora (69).
y Paula de Barros, esposa de Manuel, ao contrário dós seus
y
y parentes, usou a denúncia para defender o marido, desmentindo

y as afirmações -feitas por eles e conhecidas por todo o recônca­


y vo baiana. Segundo Paula, o marido não a impediu de rezar pela
y
y virgem, e nunca viu o mesmo -fazer "causa alguma contra nossa
v
Santa Fé católica e o tem por bom cristão e o vê ser muito de­
¥
¥ voto da Virgem Nossa Senhora e no ano passado lhe fez a sua
y festa na Igreja de Nossa Senhora da Ajuda". Acrescentou ainda
y
¥ que o marido e Jerônimo de Barros, irmão da mesma, andaram "ás
¥ cutiladas e seu marido o feriu em uma perna"; e que seu pa­
t
drasto lhe tinha grande ódio ; por estes motivos procuravam
T

difamá-lo (70). Enfim, o fato de ser cristão—novo e ter um pa­


í rente preso pelo Santo Oficio custou c a r a a Manuel Paredes.

í Caso o depoimento da esposa seja verídico, fica patente que

qualquer pessoa vulnerável era facilmente transformada em he­

rético por seus inimigos, mesmo se os últimos fossem parentes

próximos.

Salvador da Maia não possuia parentes cristãos-velhos ca­

pazes de denunciá-lo ao Santo Oficio; mas o marrano de Ilhéus

teve uma relação conjugal tumultuada com uma cristã velha; há

n°tícia que Salvador proibiu a mulher de rezar à Nossa Senhora

Sfe
148

e que, vez por outra, colocavam crucifixo debaixo dela na hora

da cápula. Por fim, o cristâo-novo matou a esposa devido a um

flagrante de adultério (71). Assim sendo, o casamento misto

mencionado nâo originou délaçEfes por parte dos parentes cris-

tãos-velhos, mas a indignação dos populares que repetidas ve­

zes denunciaram—no, lembrando as atrocidades perpetradas pelo

"herético". 0 mesmo ocorreu com João Nunes, que além de ser '

herético, onzeneiro, raptou uma mulher casada e vivia Com ela

amancebada (72) - nâo se tem noticia se a mesma era ou nâo

cristã-nova, mas caso fosse marrana certamente as delações fa­

lariam da falta de pudor da indigna judia. Enfim, vale lembrar

que os principais nomes delatados nas Visitações do Santo Ofi­

cio mantinham, de uma maneira ou de outra, relações conjugais

ou familiares com cristãos velhos, a única excessão sendo Fer—

não Cabral de Ataide, cristão-velho acusada de genti1idades,

desrespeitos aos dogmas e outras infrações.

Bento Teixeira, cristâa-novo "mestre de escrever", casou

com Felipa Raposa, filha do cristão-velho André Gavião, homem

nobre. Bento esteve em Salvador e depois em Olinda, quando

mandou trazer a esposa de Ilhéus, pois recèbeu subvenção da

Câmara para montar uma escola. Em Pernambuco, a dita cristã—

velha Felipa Raposa "adulterou com muitos homens", fato que

impeliu o esposo a se transferir para o cabo de Santo Agosti­

nho: "vendo a pouca emenda que tinha a dita Felipa", a levou

para as terras dq João Paz, onde ele ensinou para trinta mo­

ços. Porém, "a enfadonha pobreza" os molestava, obrigando— os a

retornar a Olinda, mas antes passando algum tempo em Igaruçú.

O jugo do Matrimônio ainda pesava sobre a vida do mestre pois


a mulher se envolvera com vários amantes: nâo ficava "um am —

mal que nela nâa entrasse como noutra a r c a d e Woé". Bento re ­

latou aos inquisidores em Lisboa que a esposa assim procedia

devido à sua origem cristã-nova, por ele ser um cristSlo-novo

fedorento e ela cristâ-velha e de nobre geração (73). Felipa

Raposa ainda ameaçava o marido prometendo incriminé— lo perante

o Santo Gficio com ajuda de seus amantes.

A fama de "cornudo" de Bento Teixeira era pública em Per­

nambuco. Muitos amigos o alertaram para as infidelidades da

esposa, aconselhando o mestre a dar um fim aos comentários.

Assim o fêz, desfechando uma "ferida" na esposa, que morreu

depois de dois dias. Com a chegada do Visitador do Santo Ofi­

cio ao Brasil, Bento Teixeira foi acusado por várias pessoas

por traduzir em linguagem, passagens do Antigo Testamento e

proferir blasfêmias, sendo, mais tarde, -enviado para o cárcere

do Tribunal da Inquisição em Lisboa. Durante os inquéritos,

Bento Teixeira apontou seus vários inimigos, entre eles estan­

do os amantes da esposa e as amigas da mesma que a haviam in­

centivado ao adultério. Entre os amásios da mulher encontram-

se dois religiosos: Duarte Pereira, clérigo em Pernambuco e o

licenciada Diogo Barbuda, clérigo "beneficiado na igreja de

Salavador em Olinda" (74).

Na verdade, Os casamentos mistos não podem ser entendidas

como exemplos de convivência harmônica entre cristãos-novos e

velhos. A segregação era muito mais branda nos trópicos, disto


.
ninguém duvida; porém não se pode esperar uma relação pacifica
<
entre grupos que durante décadas se rivalizaram na Espanha e
<
T Portugal; ou melhor, não se pode atenuar os resultados nefas—
150

tos advindo da perseguição e morte de centenas de cristãos—no­

vos promovidas pela Inquisição. □ depoimento de cristão-novo

Bento Teixeira, "mestre de ensinar moços a latim e escrever, e

aritmética" , -fornece alguns subsídios para entender as difi­

culdades originadas do convivia entre cristãos-novos e velhos.

Bento Teixeira assim denunciou:

"Depois de terem acabado de jantar a dita Lia- 1


nor Rasa em presença dos sobreditos, tratando-
Se sobre a má vida que o dito Gaspar Almeida
dava a sua sobrinha, lhe perguntou se a dita
sua sobrinha casara com o dito Gaspar d'Almeida
antigamente no.tempo dos judeus, se seriam os
filhos que houvesse deles legítimas, essa per­
gunta lhe fôz sem mais lhe declarar a razão nem
causa dela, mas parecendo-lhe a ele denunciante
que o perguntou em má tenção pela diferença da
nação, de o dito Gaspar d'Almeida ser cristão-
yelho e ela cristã— nova, lhe respondeu que sim
ficariam legitimas os tais filhas, então o dito
Gonçalves Nunes respondeu que como podia ser
por que ele tinha ouvido já pregar e todos os
filhas que os judeus fizeram em Babilônia foram
lançados fora do templof ao que ele denunciante
respondeu que Deus mandava os judeus que indo à
guerra, e contentando lhe algumas gentias cati­
vas que puderam entrar a elas depois de elas
raparem o cabelo e certos dias e noites chora­
rem os pecados dos pais e que se dos tais gen­
tios os filhos que nasciam não eram reprovados
como seriam os outros..." (75)

O autor da Prosopopéi a mencionou, á partir de uma passagem bí­

blica questbes envolvendo o rei aci onamento conjugal entre ju­

deus e não judeus. Há uma clara correlação entre cristãos-ve-

lhos e as inimigos de Israel, entre o cativeiro e a vigilância

promovida pela Inquisição. Neste sentido, a conversão forçada

e o incentiva aos casamentos mistos foram questionados sobre­

tudo quando Gonçalo Nunes declarou serem ilegítimos os reben­

tos originados na Babilônia. Nota—se por parte do denunciado

um certo segregacionismo completamente avesso ás leis que


151

t rans-formar am judeus em cristãos. 0 depoimento ainda evidencia

que o conhecimento da história judaica é um ponto importante

na luta dos marranos contra a aculturação promovida pela Igre­

ja e pela Inquisição, pois cada usurpador de Israel poderia

ser identi-ficado aos cristãos e suas práticas atrozes: guetos,

massacres, penitências, conversão -forçada, torturas, foguei­

ras. . .

3.4 - mercadores pragmáticos e debochados

No entanto, os casamentos mistos eram uma necessidade.

Muitos senhores de engenho estavam em má situação financeira,

apesar das oportunidades de enriquecimento concedidas pela la­

voura canavieira - a lucratividade da mesma era certa, caso

contrário homens como João Nunes Corréia, James Lopes da Costa

e Belchior da Rosa não investiriam vultuosas somas no empreen­


f
dimento (76 > . Na verdade, alguns fatores provocavam gastos ex­
t
V cessivos e descapitalização do setor açucareiro. Primeiramen­
t te, vale lembrar que muitos candidatos à posse de terras e do­

H
nos de futuros engenhos não possuíam recursos e tomavam em­
t préstimos a altos juros. □ número de filhos das famílias aris­
H
tocráticas do nordeste e a grande partilha das propriedades
V
W retiravam do empreendimento parte de sua capacidade produtiva.
V Por outro lado, os prejuízos advindos da conquista da Paraíba
t
e Sergipe não devem ser esquecidos quando se trata da rentabi­

lidade do setor agrícola. A insegurança das propriedades con­


*
H duzia os senhores a gastar recursos destinados à ampliação dos
V

:
15

canaviais qu ã compra de novos equipamentos. Depois da pacifi­

cação do litoral e fuga dos indígenas para o interior, as des­

pesas com segurança passaram a ser menores. Os mercadores eram

o grupo qua- mait lucrava com a instabi Iidade da lavoura cana­

vieira, pois forneciam recursos, a altos juros, garantindo à

aristocracia a continuidade da produção do status senhorial. A

distribuição do açúcar não era realizada pelos produtores, es­

tando entregue aos grandes comerciantes; muitos deles eram

cristãos-novos, grupo que dominava os entrepostos europeus de­

dicadas aos produtos vindos da Colônia. Deste modo, os merca­

dores se aproveitavam da fragilidade dos donos de engenho para

obter vantagens na comereialização do produto.

G grupo, então, se tornou cada vez mais abastado, forman­

do uma classe rica mas desvinculada da terra, fonte de poder

nas sociedades de Antigo Regime. Por intermédia do endivida­

mento crescente dos senhores de engenho muitos comerciantes

passaram a controlar estabelecimentos coma forma de pagamento

das dívidas. A elite colonial tornava-se paul atinamente com­

posta de antigos conquistadores — homens ligadas ao empreendi­

mento colonizador - e de novos proprietários - homens ligados

aos comércio e financiamento da produção açucareira e que se

tornaram donos de engenho depois da falência dos antigos pro­

prietários ou através da montegem de novos estabelecimentos.

Contudo, muitos cristãos-novos, quando adquiriam engenhos não

tencionavam se radicar na Colônia; visavam os bons preços no

mercado, ampliação dos negócios a partir da abertura vertical

das transaçbes e fugir dos olhos atentos dos inquisidores. De­

pois de passada a fase dos lucros, os mercadores deixavam suas


propriedades em mãos de feitores ou vendiam-nas (77). Assim

verificou o historiador pernambucano José Antônio G o n ç a l v e s d e

Mello, quando enumerou dez cristàos-novos proprietários de en­

genho em 1609 e constatou que 14 anos mais tarde, e logo em

1623, apenas dois deles ainda permaneciam como senhores de en­

genha em Pernambuco (78).

Muitos colonos viam o mercador como explorador e capaz de

levar os produtores à ruina. Lopo Soares descreveu um mercador

como sendo um "homem sagaz, sutil e de muito saber" (79). Ou­

tras ainda os consideravam como ardilosas, avarentos, trapa­

ceiros e sobretudo descrentes. 0 protótipo do mercador difun­

dido durante a Idade Média ainda reinava de Tempo da Visita­

ções. A mesma mentalidade ainda era capaz de criar seres per­

versos, monstruosos (80), principalmente se o mercador tiver

origem cristà-nova. Joãto Nunes Correia; ou o conhecido Joâo

Nunes das Visitações, senhor de engenhos na Paraíba e merca­

dor , era descrito como "muito poderoso nesta terra e fazia e

desfazia quando,queria e as justiças e todos da terra faziam

tudo o que ele queria a torto e através" (Bl). Inúmeras denún­

cias relatavam a história de um pedreiro que, trabalhando na

casa do mercador, ouviu lançar escrementos em um crucifixo.

Pero de Aguiar Daltero, durante a visita na Bahia, chegou a

dizer que o mesmo "se assentava no dito servidor à fazer seus

feitos dizia contra o dito crucifixo, tomai lá esses bofidos"

(82). O licenciado e padre Diogo do Couto chegou a prender o

pedreiro a fim de averiguar os fatos por ele propalados. Con­

tudo, o mesmo não confirmou diante da autoridade as acusações

que havia difundido contra o rico mercador. Heitor Furtado de


154

tiendcça se interessou muito pelo caso de João Nunes e intimou

o licenciado a prestar depoimento sobre a prisão do pedreiro.

Diogo do Couto confessou que "não houve autos de sua prisão

nem soltura mas só verbalmente". Enfim, não houve registros da

passagem do pedreiro na prisão, -fato que favoreceu ao recuo da

acusação contra J d Seo Nunes, pois primeiro dia de inquérito o

delator repetiu a história conhecida por todos e no dia se­

guinte a desmentiu. Não era a primeira vez que o licenciada

negl igenci ava ríe suas funçbes em favor do mercador.

João Nunes também fora acusado de raptar uma mulher casa­

da e com ela viver amancebado. O Concilio de Trento prescrevia

duras penas para esta transgressão, sobretudo para aqueles que

reincidiam no pecado, que era o caso de João Nunes. 0 licen­

ciado Diogo do Couto o prendeu várias vezes, por conta da re­

lação ilícita, porém, não registrou a prisão nem a soltura do

réu (S3). A atitude suspeita do licenciado cristão-novo provo­

cou acusaç&es como a que foi lançada por Simão de Proença, vi­

gário de Itamaracá; segundo ele, a dita autoridade devia favo­

res a João Nunes recebendo crédito e amizade (84).

G mercador banqueiro, como diria Hanson (85), também pro­

vocava revolta pelos juros altos cobrados aos senhores de en­

genho;
•I
" . . .é público onzeneiro, e que tão publica e
facilmente faz as onzenas e contratos onzenei—
ros como se fossem lícitos e não fossem proibi­
dos, e ele denunciante lhes viu fazer com algu­
mas pessoas a saber com ele mesmo, e com Felipe
Cavalcante e com Cristovão Lins e outros com os
quais fez onzenas muito cruéis e entende dele
no modo por que lhe vê fazer as ditas onzenas
tão notórias não ter ele por culpa nem pecado a
onzena”...(86)
155

As práticas de onzenas, delatadas par Cristovâo V a z , senhor de

engenha na Cabo de Santa Agostinho, eram proibidas segundo as

Ordenaçòes Manuel inas; poráin, com o passar dos anos e intensi­

ficação do comércio em Portugal , as puniçóes aos onzeneiros

tornaram-se letras mortas (87). João Nunes Correia se aprovei­

tava então das dificuldades ou insipiência administrativa dos

senhores de engenho para aumentar o patrimônio e controlar as ;

autoridades coloniais. 0 endividamento crescente, dos “princi­

pais da terra" desestabi1izava e hegemonia política da elite

cristã—velha: fidalgos, homens da "governança" e bravos guer­

reiros, como Felipe Cavalcante e Cristovâo Lins, eram usurpa­

dos da honra e prestigio - conquistados através de feitas he­

róicos, terras e engenhas -, casa se desfizessem dos bens, en-


I
tregando-os a um ardiloso agiota. Em Pernambuco, durante a

permanência do Visitador, 21 pessoas delataram as práticas do

mencionado mercador: 8 burocratas, 5 plantadores, 4 religiosos

e 2 senhores de engenho. No cômputo geral, notam—se que as de­

núncias partiam, do grupo social preocupada com as investidas

do mercador-banqueiro e do herético em potencial. No entanto,

João Nunes não estava sozinho nos negócios; Henrique Nunes

Carreia, seu irmão, controlava seus passos em Pernambuco. Hen­

rique era um rico e poderosa mercador, radicado em Lisboa e

controlava a maior parte do capital empregado nos engenhos da

Paraíba e nas onzenas realizadas por João Nunes (88).

Muitos mercadores eram apontados como avessos aos senti­

mentos religiosos; debochavam dos rituais, das imagens, faziam

juras indecentes. Outros no entanto, seguiam as leis de Moi­

sés, resistindo às ameaças da Inquisição. Melchior de Bragan-


156

ça, hebreu da nação e natural do Marrocos, delatou ao visita-

dor Marcas Teixeira que os mercadors Manuel Roiz Sanchez e

Gançalü Nunes se mudaram para Flandres e lá proíessavam o ju­


>
daísmo: entravam am Sinagogas,- rezavam os Salmos de David, en ­
I
I fim, viviam segundo as leis antigas (S9) .

Os depoimentos envolvendo mercadores possuem uma particu­


>
laridade interessante: de um lado, eram denunciados por exal­
I tarem o aspecto prático da vida, as transações, o lucró, nego­
w w w W W W Wf w- W w w «Sf w w w w w ^ w V2Í w w w w w W W W W W

ciatas e muitas vezes em detrimento do próximo; outras vezes,

caracterizavam-nos como a oposto do “bom cristão", não seguin—


1
do os mandamentos, zombando da devoção alheia, derrubando as

mitos e quebrando preceitos -fundamentais para a Cri standade;

por último, acusavam-nos de pertencer a um outro grupo reli­

gioso, de seguirem leis mosaicas ou muçulmanas e de simularem

publicamente o papel de cristãos devotas. Os tipos nem sempre

se unem em uma mesma delação, porém outras vezes se combinam:

práticos e debochados, ou debochadas e herético... Na verdade,

os homens do século XVI, de modo geral não conseguem desvincu­

lar o usurário do herético, o pragmático do descrente. Assim,

as rivalidades que, a principio, tiveram uma base econômica ou

política foram expressas em uma linguagem religiosa; a lógica

religiosa perpassa a toda a recri mi nação como se todos os des­

vios representassem uma ofensa a Deus. A mesma observação é

válida para outros segmentos ou grupos desviantes; contudo, é

mais evidente entre os mercadores.

3.5 - perpetuação de estruturas saciais


157.
P
P
P
f
A relação entre senhores de engenha e lavradores parecia
¥
¥ ser menos conflituosa que a travada com os comerei antes, já
¥ que suas contendas não aparecem com frequência na documentação
¥
9 inquisitorial. Muitos lavradores compareceram diante do Visi —
r t a d o r , mas nenhum expressou o desagrado em relação aos donos
¥
¥
de engenho, apeéar do domínio senhorial dos proprietários das ;

9 moendas sobre os plantadores de cana. A aristocracia açucarei—


¥
ra exercia, então, um forte domínio sobre os produtores. Os
v
r 1avradores—de-cana estavam vinculados aos donos de engenho pe­
r la moagem da cana; ou devido ao empréstimo de escravos e tou­

ros que transportavam os talas de cana até o engenho. Metade

í
da colheita e 1/3 ou 1/4 do açúcar proveniente das moendas e

casas de purgar pertencia aos donos do engenho. Os contratos

T dependiam das passes dos lavradores: as melhores fazendas per­


T
tenciam a homens de recursos que entregavam 1/3 do açúcar aos

; senhores, enquanto as terras fracas eram trabalhadas por plan­

tadores pobres que cediam i/4 do produto. Havia ainda os plan—


:
tadores-de-cana—cativa; o grupo possuía vínculos com o dono do
? engenho que os abrigava a vender toda a produção ao antigo do­
«r
no ou locatário das terras. Os 1avradores-de-cana se subdivi­

diam em: lavradores de partido - 1/3 ou 1/4 — , arrendatár i os e


í propr ietári os com obrigaçdes (90).
P
As disputas mais frequentes envolvendo senhores e planta­
í dores giram em torno da cana cativa, os arrendatários eram

obrigador a fornecer toda a produção a um determinado engenho,

3 caso contrário entravam em divergência com o poder local. üs


¥
donos de moendas também praticavam abusos: não cumpriam os

3
158

contratos e dividiam o açúcar ardi1osamente, em proveito pró­

prio; deixavam a cana secar no eito, prejudicando a produtivi­

dade da colheita (91). Porém a relação de dependência não era

sentida apenas a nivel econôníco, mas, sobretudo, na subordi­

nação do colono aos desígnios do senhor. Os grandes proprietá­

rios detinham cargos importantes na Câmara e na Santa Casa de

Misericórdia. Em determinadas ocasiBes, os senhores de engenho I

usavam os lavradores para apoiá-los em disputas prestando -Fal­

sos testemunhas ou praticando atos ilegais (92). Apesar da

submissão, os lavradores de cana eram, predominantemente bran­

cos e alguns possuíam uma certa distinção social. "The culti­

vation o-f sugar was without question a respected and honorable

'occupation'", disse Stuart Schwartz. Vale lembrar que exis­

tiam lavradores e lavradores: uns proprietários de terras e

com status social próximos aos donos de engenho; outros homens

humildes, sem terras e atrelados aos desmandos do poder senho—

rial (93).

Muitos trabalhadores livres residiam no campo, sendo por

vezes assai ar iados. Uma boa parte dos artesãos e técnicas re­

cebiam salários, outros somente casa e comida. Os -ferreiras,

carpinteiras, barbeiros-cirurgities e padres não se -fixavam nos

engenhos, sendo pagos por empreitadas. Havia ainda barqueiros,

vaqueiros e cortadores de árvores que -formavam o grupo dos se—


/
mi-especializados (94). Assim, o poder local exercido pelos

senhores de engenho ditava normas para os mais diversos tipos

de pessoas, desde capatazes, mestres de açúcar, barqueiros até

os escravos. Não era sem razão que se denominavam nobreza do

açúcar. Sedi Hirano, ao caracterizar a estrutura social da Co—


159

lônia coma estamental , comparou o Brasil' a um corpo, cuja ca­

beça era constituída pelos senhores de engenho, fazendeiros e

prelados; os braços eram os -feitores, os mantenedores da ordem

social; "os escravos, e os homens de ofícios, qualificados co­

mo artesãos e mecânicos, além dos arrendatários. agricultores,

incluindo ainda os agentes comerciais e de negócios" eram os

pés do corpo social da Colônia (95).

A distribuição de riquezas na América Portuguesa não al-


I
ter ou em profundidade a estrutura social característica da Pe­

nínsula Ibérica, quando transplantada para o Novo Mundo.Na Pe­

nínsula as glebas pertenciam a um grupo reduzido de nobres e

os jornaleiros ainda cumpriam obrigações próprias da servidão,

embora a instituição não mais existisse (96). Segunda o histo­

riador luso Vitorino Magalhães'Godinho, 95X do solo da Penín­

sula Ibérica se concentrava nas mãos da-nobreza e do clero; no

século XVII.

"Em 1632 o juiz do povo de Lisboa envia à cor­


te, em Madrid, um relatório financeiro, em que
sublinha: não há nos Reinos lavradores que la­
vre em terra própria, por quase toda ser res­
pectivamente das igrejas, reguengos da coroa,
ou foreira a diversos senhores, e os foros e
pensões dela, e imposições e tributos imodera-
dos." (97)

As décimas, direitos, portagens e rendas asseguradas aos

nobres e ao clero através de formas legais de propriedade ou

controle de glebas, deixaram aos agricultores uma pequena fra-

ção dos rendimentos provenientes das colheitas. Porém, entre

os camponeses não havia o desejo de subverter a ordem e dar um

fim á exploração senhorial, preferindo ver na Colônia uma so­

lução para seus problemas (93). □ colonialismo lusitano também


160 •

atraiu nobres, que devido ao morgadio, preteriram abandonar a

terra natal e se lançarem nos empreendimentos açucareiros e m


<m
comerciais. As fortunas reunidas pelos Albuquerques de Per

nambuco e os Sás do Rio de Janeiro sâo os exemplos mais frutí­ m

feros da imigração de nobres para o Brasil (99). Jean Delumeau

defende a idéia que no Renascimento existiu uma enorme migra­ rs

ção e crescimento da número de viagens. Os arquitetos italia—

nos percorrem de Londres a Mascou, os músicos flamengos visi­

tam a França, Inglaterra, Alemanha e Itália, difundindo a arte m

italiana e flamenga em outras partes da Europa. As viagens in­

tercontinentais também se proliferam no período: "Francisco

Xavier morreu em Cantão, Cambes viveu em Macau, Cervantes foi


<m
ferida em Lepanto". As migraçfies em direção á América levaram

portugueses e espanhóis a abandonar a Península Ibérica; em *

1600, já eram 140.000 homens da raça branca residentes no- Novo

Mundo (1O0). A presença de imigrantes no Brasi 1 pode ser ava­

liada pelas quantificações de Rego Quirino: nelas, ele afirma

que 59,6% dos habitantes da Bahia eram provenientes de Portu­ *


gal , enquanto em Pernambuco eram 62,2%. Na última Capitania o

número de imigrantes era considerável: sua população se cons­

tituía de homens em idade de 20 a 45 anos, enquanto o número

de mulheres era bem menor. A corrente imigratória explica a

razão da grande quantidade de indivíduos do sexo masculino

solteiros, nas Capitanias mencionadas (101).

0 estabelecimento de portugueses no território da Colônia

não promovia uma substancial modificação das hierarquias. Os

homens de cabedal e representantes da burocracia permaneciam

exercendo o poder de comando e mantendo os privilégios senho—

m
riais. Muitas vezes, ampliavam-nos, pois o número de nobres e

senhores abastados era reduzido nos trópicos. Uni fenômeno se­

melhante acorria com os imigrantes pobres: por nâo possuírem

capitais, o Estado português nâo lhes concedia sesmarias; ou

quando o fazia cabia à "raia miúda" as piores terras, onde

iriam empregar suas poucas economias.

Cristovão Dias Delgado era natural do Porto, proveniente

de uma família de lavradores, ao se estabelecer na .freguesia

de Sâo Miguel, em Pernambuco, Cristovão tornou-se "lavrador e

em sua casa morador, nas terras de Perc Dias da Fonseca"

(102). Cristovão não possuía glebas, por certo, sendo arrenda­

tário de Pero Dias, reproduzindo talvez o status social de sua

família em Portugal. 0 pai de Manuel Vaz Guantes era fazendei­

ro da região de Braga; Manuel, ao se instalar em Santo Amaro,

tornou— se "lavrador se suas roças e terras" (103). Gomes Ro­

drigues Millâo era natural de Lisboa e filho da grande merca­

dor cristâo-novo, Henrique Dias Millâo. Em Qlinda, Gomes exer­

cia a mesma função do pai, sendo representante em Pernambuco

dos negócios (104). Os exemplos demonstram que nâo ocorreu as­

censão suei al dos indivíduos que deixaram Portugal. Contudo,

vale lembrar que a designação lavrador é ambigüa, sobretudo

quando o depoimento nâo menciona se o indivíduo era ou nâo

proprietário de terras. Os jornaleiro, ou melhor, os lavrado­

res sem terras, eram um dos estratos mais pobres da sociedade

portuguesa na época das Visitações; quando estes indivíduos

destituídas de cabedal mudavam para a Colônia, nâo encontravam

melhores condições de vida.

Há mesmo casos em que o status do imigrante decaiu. João


Uzeda era natural de Lisboa; seu pai, Francisco Uzeda era re-

gedor da cidade de Córdoba. Ao se estabelecer na Colônia,

João se transformou em um mero mercador radicado em Ilhéus,

pequèna viTãTno ITtcfrãl do Brasi 1 (105) . Bastião Pires Abri-

gueiro nasceu em Ponte de Lima, onde o pai era procurador; em

Santo Amaro, Bastião desempenhava a -função de "carreiro de

seus bois e carros no engenho de Antônio de Andrade Caminha"

(106). Outras tiveram melhor sorte. Manoel Paredes era merca­

dor, seu progenitor, contudo, -foi alfaiate (107). 0 pai de

Baltazar André se ocupava da pesca, enquanto o filho era mer­

cador entre Olinda e o Porto (108).

Nota-se então que a mobilidade social era limitada, não

ocorrendo oscilações importantes no status dos portugueses que

deixavam a terra natal e se estabeleciam nos trópicos. As ati­

vidades econômicas desenvolvidas na Colônia não permitiam -que

os aventureiros e degredados desprovidos de cabedal tivessem

oportunidades de acumular riquezas. 0 Estado lusitano coman­

dou, de longe, a. colonização, obedecendo os preceitos da so­

ciedade estamental, onde se perpetuavam normas rígidas desti­

nadas a preservar a hierarquia, os privilégios e, sobretudo,

as diferenças. Deste modo, a travessia do Atlântico não permi­

tiu que os indivíduos desempenhassem papéis diversos dos exer—

cidos pelos seus familiares em Portugal. Enfim, a ascensão so­

cial não era comum no Tempo das Visitações. •

A sociedade colonial brasileira se resumia na união entre

os princípios sociais pré—existentes no continente europeu e a

economia da base escravista. A existência da mão-de-obra es­

crava não alterou o status dos imigrantes; criou sim, uma so-
16

ciedade bipartida entre livres e escravos. As denúncias e con-

fissões demonstram, de -Forma precária, a -formação de um corpo

social heterogênea composto de indivíduos das mais diversas

regiões da Europa. Vianenses, lisboetas, alentejanos, caste­

lhanos, franceses, ingleses, gregos, italianos se encontravam

ao longo do litoral brasileiro, formando comunidades cosmopo­

litas e desprovidas de organização familiar. As relações de

parentesco próprias das sociedades pré-industriais comandavam

precariamente o cotidiano dos homens e mulheres da Colônia. 0

controle social das famílias ainda se encontrava adormecido

nos primeiros anos da colonização. Ma Europa, as comunidades

camponesas eram regidas pelas regras de parentesco que atuavam

na distribuição das atividades econônicas, na escolha dos con­


*
v juges, nos ritos de passagem e tinham a finalidade de padroni­
Y zar os costumes, hábitos e valores. O campo e as vilas da Am é ­
Y
rica Portuguesa, ao contrário, eram organismos em formação on­
r
y de conviviam os mais diversos padrões culturais: o índio, o
y judeu, o luterano, o heréticos...
r
f A diversidade de costumes, hábito?,' valores transtornava
t a vida cotidiana dos colonos, p^incipalmente depois da chegada
f
do Inquisidor. Desde então, a explicitação das diferenças se
í tornou intensa, demarcando com vigor os contrapontos entre o
?
"eu" e n "outro", o cristão e o herético. Na verdade, o Santo
t
? Oficio ressaltou as diferenças, as sensibilidades, a percepção
f
da existência de inúmeras padrões culturais, . artificialmente
r
f antagônicos. Assim sendo, vale lembrar que os conflitos so­
? ciais não comandaram as denúncias e confissões, pois não se

■f pode explicar centenas de depoimentos a partir de um enfoque


*
V
r
164

econômico ou politico. Porém nlo há dúvida de que as contendas

incentivaram, ou mesmo,• ativaram os mencionados antagonismos

culturai s.

As -rivalidades políticas e religiosas até então relacio­

nadas demonstram que a sociedade estamental existia com todo o

seu rigor na Colônia. Os conflitos detectados na documentação

inquisitorial não se travavam entre os estamentos; as denún­

cias envolvem, comumente, pessoas de um mesmo estrato social:

lavradores delatavam lavradores; senhores de engenho acusavam

o seu concorrente cristâ'o-novo; mercadores se acusavam e eram

delatados pelas cristãos—velhos..- (vide o capitulo II) Enfim,

a elite colonial, composta por senhores de engenho, fazendei­

ros, prelados, mercadores, sejam cristãos velhos ou novos, ex—


•I
pressava seus descontentamentos, revelando as fissuras ou fe­

ridas existentes na "cabeça" do corpo social - lembrando a- me­

táfora empregada por Sedi Hirano.

□ caráter religioso dos depoimentos constitui a maneira

particular das sociedades pré-industriais exprimirem os valo­

res da cultura dominante. Desprezar o aspecto religioso dos

conflitos sociais é não compreendê-1os ou explicá-los através

de uma lógica estranha ou externa aos agentes. Conhecer os li­

mites entre o lícito e o ilícito, entre fiel e o herético, en­

fim entre os padrões culturais, se torna requisito básico para

o estudo da estrutura social de uma determinada sociedade. As

relações de poder, as hierarquias são sustentadas por determi­

nados parâmetros, padrões que perpetuam a Ordem. Deste modo,

uma delação contra um rico cristão—n o v o , suspeito de judaizan—

te, não tratava apenas de embate religioso, mas de manutenção


165

das hierarquias e da ideologia dedicada a privilegiar o

s t a t u s , o sangue cristâo-velho e desprezar a origem conversa e

o pragmatismo dos mercadores cr istãos-noyos. En-fim, a valori­

zação dos costumes e hábitos concebidos como ortodoxos -forta­

lece a estrutura social e as relações de poder -favoráveis ao

segmento dominante. Nota-se, então, a existência' de um -feed-

entre a estrutura e a cultura, pois ambos se sustentam e i

se reproduzem.
166

*
?
* Notas — cap. Ill
%
)
í

1- Sobre Salvador nó século XVII v é r : Froger, F. Rei ation d 'un C%

voyage de Ia mer da s u d . . Amsterdam, L'Honoré et Chatelain,


)
1715. pp 140-44; Dampier, G. Nouveau voyage autour du monde.

% Rouen, chez Jean Baptiste Machuel, 1715. v o l . 3 pp 41-55


>
I
% 2- Sousa, G. S. Tratado Descritivo do Brasil em_1587. São P au­
)
la, Cia Ed. Nacional, 1978. p 134

£
I
3— E interessante atentar para a diferença entre corsárias e
1
V piratas. "Do ponto de vista jurídico, as balizas aparecem cla­
9

ras: a pirataria configura uma ação elementar, nâo evocando


*
§ nenhuma justificação nem estando dependente de nenhuma•autori—
*
dade. 0 corso pelo contrário, tem o beneplácito do poder e
m
exerce—se em situaçdes definidas, seja contra os súditos de um
í
I estado inimigo, seja a titula de represálias contra os estran­
I geiros...1' Ferreira, A. Maria P. D essencial sobre □ Corso e A
I
Pi ratari a . Lisboa, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1985. p 4
I.
I
I
4- Salvador, Frei V. História do Brasil 1500-1627. (1627) São
I
I Paulo, E d u s p , 1982. pp 252-3. Sobre a invasão de Lancaster em
I
Pernambuco em 1595 ver Costa, F. A. Pereira da. Anais Pernam­
I
) bucanos ■ Recife, Arquivo Público Estadual, 1951. vol. 11 p 73
)
I
5— Souza, Op. cit. p 342 m
I
I
I
I

N
s
7- cp pp 74-!

a- cp p 70

9- cp p 80

10- Spence, J. □ Palácio da Memória de Matteo Ricci. (trad.)

São Paula, Cia das Letras, 1986. pp 137-8

11- db pp 441-2

12- Sobre as -formas de classificação ou hierarquisaçâo ver:

Durkhein, E. Les formes élémentaires de la vie reliqieuse. Pa­

ris, Alcan, 1925; Evans-Pritchard, E.E. Antrpologia Social,

(trad.) Lisboa, ediçdes 70, 1985. pp 11-27

13- Serrâo, V. Do Brasil Filipino ao Brasil de 1640. São Pau­

lo, Cia Ed. Nacional , 1968. p 75


i
:

14- Livro Primeiro do Boverno do Brasil. 1607-1633. Pref. Ma­


I
ú cedo Soares. Rio de Janeira, Imprensa Nacional, 1958. pp
è 183-85, 201-3 e 208-9. Fernando Navais entende que após a

União Ibérica houve um recrudescimento da proibição do comér­

cio praticada por estrangeiros nas Colônias. In: Portuoal e

Brasil na Crise do Antigo Regime Colonial. (1777-1808) São

é Paulo, Hucitec, 1983. pp 80-1


é
è
i 15- Livro Primeiro... Qp. cit. pp 183-5

m
lá- Salvador Op. cit. pp 253-5

17- Pinho, Wanderley. Aspectos da História Social da Cidade do

Salvador. 1549-1650. Bahia, Ed. Beneditinas, 1968. pp 87-174

18- Salvador. Op. cit. pp 219-31

19- cb p 28

20- Schwartz, Stuart B. Segredos Internos. Engenhos e escravos

na sociedade colonial, (trad.) São Paulo, Cia das Letras,

1988. p 40

21- cb pp 167-72

22- Schwartz Dp- cit. p 45

23- dp p 29

24- Serrão Dp. cit. p 44

25- Idem p 137

26- Diálogos das Grandezas do Brasil. 2®. e d . integral, segun 1

do o apócrifo de Leiden, aumentado por José Antônio Gonsalves

de Mello. Recife, Impresa Universitária, 1966. p 31

27- Schwartz, S. B. Burocracia e Sociedade no Brasil Colonial.


169
(Trad.)Sêto Paulo, Perspectiva, 1979. pp 153-87

28- Faora, R. Os Donos do Poder. 2*. ed. revista e aumentada.

Porta Alegre, Globo, 1976. vai. 1 p 133. Ver também Schwartz.

Segredos.-. Gp. cit. p 220

29- Livro Primeiro. ..Qp. cit. pp 259-416

30- Correspondência do Governador D. Diogo de Menezes -

1608-1612 ,! In: ABNRJ. 57. 1935. PP 33-36

31- "Capítulos de Gabriel Soares de Sousa contra os Padres da

Companhia de Jesus que residem no Brasil" In: ABNRJ. LXII,

1940. pp 351-5. Spbre a riqueza acumulada pelos jesuítas ver:

Godinho, V. M. Estrutura da Antiga Sociedade Portuguesa. Lis—


\

boa, Arcádia, 1975. p 85 e Hanson, C. A. Economia e Sociedade

no Portugal Barroco, (trad.) Lisboa, Dom Quixote, 1986. pp

42-50

32- "Capi tul os. . . Op. cit. p 359

33- Idem p 375

34- Idi bem p 373

35- db p 371

36- db p 445
Üíii» 1 * « y * *

170
37— Sobre os monitórios ver primeiro capitulo.desta disserta­
<s.> Vy W

ção .

38— "Capítulos.. . Op. cit. pp 375—6

39— db Luis de Grã pp 329-31, Antônio Dias pp 337-8, Simão

Pinto p 339, Baltazar de Miranda pp 349-50, Antônio da Rocha

pp 360-4, Pedro Madeira pp 364-5 e João Brás p 370. Ronaldo


I
Vain-fas, em Ideologia e Escravidão. Petrópolis, Vozes, 1986,

■faz considerações sobre a hesitação dos membros da Copmpanhia

de Jesus no que se referia a escravizaçâo ou não dos indíge­

nas. ver pp 7B-79.

40— Hoornaert, E. "A Evangelização do Brasil durante a Primei—

ra Epoca Colonial" In: Hoornaert, E. (org.) História da Igreja

no Brasil - primeira época. Petrópolis, Vozes, 1977. tomo 2 p

61.
w

41- Schwartz , Segredos Internos. .■ Op. cit. p 46. Sobre "guer­


^

ra justa" ver: Dias, J. S. da Silva. 0s Descobrimentos e A

Problemática Cultural do Século XVI. Lisboa, Presença, 1982.

pp 182-90

/
42- db p 273

43- db pp 282-3

44- db p 2B1

a
17
45- Constituiçbes Extravagantes do Arcebispado de Lisboa. Lis­

boa, Francisco Correa impressor do Sereníssima Cardeal In-fan­

te, 1565. constituição XVIII

46- "Determinaçfies" In: cb pp xxxvii-viii

47- cb pp 23-4

48- db p 287

49- Testamento do General Francisco Barreto de Menezes. . José

Antônio Gonsalves de Mello (ed.) Recife, IPHAN/MEC, 1976. p 28

50- Costa, F. A. Pereira da. Qp . cit. p 544

51- Febvre, L. 0 Problema da Descrença no Século XVI. Lisboa,

Editorial Inicio, s.d. p 391_

I•

52- Pr a d o , J. F. de Almeida Prado. Pernambuco e as Capitanias

do Norte do Brasil. São Paulo, Cia Ed. Nacional, 1939'. tomo 4

pp 21-2. Cf Imagens do Brasil Holandês (1630-1654) org. por

Jan Versteeg et al ii. Rio de Janeiro, MinC, 1987. pp 86, 90 e

97.

5 ò — Calmon, A. História da Casa da Torre. Rio de Janeiro, José

Qlympio, 1939. p 29

54- Idem
«>1' l®' '&
w> víf \&> w

55— db pp 519—50

56- DB pp 112-5
«sp 'sí*'

57- db p 4-20
w

58- Schwartz, Segredos Internos... Op. cit. p 220


w
xhp w

59- Idem p 222


'w w

60- Mello, J. A. Gonsalves de. Gente da Nação. Reci-fe, Massan-


w w

ga.na, 1989. pp 117-66


is»? su> '«*3* w

61- Mello, E. Cabral. □ Nome e o Sangue. Sâo Paula, Cia das

Letras, 1989. pp 105-10


w
w

62- cb p 172
' sp w

63- db pp 480-1
^
'e* ic?

64- db pp 250-1
w

*
w w

65- db p 253
vsa? '«es*' «w w

66- dp p 45
tjjj? «tss? w

67- dp p 456
^

68- dp pp 30, 54, 49-50, 181 e 200


ij;j) çg» tgjy
69- db pp 270-3, 404—5 e 413

70- db pp 41-8

71- db p 286 e 463

72- dp 248

73- Mello, J. A. Gonsalves O p . cit. p 97. Sobre a vida de Ben­

to Teixeira ver pp 89-99

74- Idem pp 103-5

75- dp pp 162-3

76- Mello, J. A. Gonsalves O p . cit. p 51

77— Mello, E. Cabral de. Rubro Veio. Rio de Janeiro, Nova

Fronteira, 1986. pp 416-7

78— Mello, J. A. Gonsalves de. Dp . cit. p 8

79— dp p 118

80— Le Go-f-f , J. A Bolsa e A Vida. Sâo Paulo, Brasil iense,

1989.

81— dp p 69
?
í

174
ê
%
82- db p 556

&
83— dp pp 300—6

i?
84— Mello, J. A. Gonsalves de. D p ■ cit. p 54

85- Hanson O p . cit. à p 62, caracteriza o comereiante-banquei-

ro

I
86- dp p 2 0 0

87- Mello, J. A. Gonsalyes de. Op. cit. p 6 6

88- Idem p 51, 57, 60 e 65

89— DB pp 129-30

90— Schwartz , S. B. "Free Labor in Slave Economy. The lavrado­

res de cana o-f Colonial Bahia" in: Alden, Dauril (ed. ) Colo­

nial Roots of Modern Brazil. Los Angeles. University o-f Cali­

fornia Press, 1973. pp Í54-9

91- Schwartz, Segredos Internos... Op. cit. pp 252-6

92- Sshwartz, "Free... Op. cit. p 182

% 93- Idem p 182 e Mello, E. C. Rubro Veio...0p. cit. pp 429-30


37

*
y
r,
w
#
y 175
v 94- Schwarts,7 "Free... Op. cit. pp 152-3. Ver também trabalha
y
f de Vera Fér1ini.Terra, Trabalho e Poder. São Paulo, Brasilien-

se, 198S. capitulo III.


t
y
f 95— Hirano, Sedi. Pré-Capitalismo e Capitalismo São Paula, Hu-
y citec, 1988. p 198
y
y

96- Hanson, Op. cit. pp 85-6


y

y 97- Gcdi nho , 0 g_. cit. p 94


y
y
OI

98- Hanson, cit. p 36


Q

y
y 99- Idem, p 40
f
y
100- Delumeau, J. ft Civilização do Renascimento. Lisboa, Es­

y tampa, 1983. Vol. I' p 277


y
7
V 101- Quirina, Tarcizia do Rego. Os Habitantes do Brasil no fim
V
do século X V I . Recife, Imprensa Universitária, 1966. p 18 e
y
t 76.
t

102- cp p 50
t
t
t 103- dp p 229
t

104- Mello, J. A. Gonsalves de. O p . cit. p 14 e dp p 116

t

105- db p 438
t
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j>.

108— cp p 71
106- cp p 56

107— db p 304
176-
177

Capitulo IV - Fronteiras da Cristandade

Liberdade de pensamento não difere de liberdade de errar,

a livre escolha sendo, contudo, particularmente desastrosa

quando se refere aos assuntos da fé, dizia Roberto Belarmino

(1). Com esta lógica, a Igreja Tridentina promoveu uma verda­

deira reviravolta no cotidiano da Cristandade, levando a lei

de Deus aos homens e mulheres iletrados. A difusão da "palavra

do Senhor-" se deu a partir do aperfeiçoamento teológico do

clero, proliferação dos bispados, igrejas e capelas. A ortodo­

xia rompeu, então, as fronteiras dos claustros e altares para

regrar os corpos e almas. Os primeiros missionários, dedicadas

a defendê-la, logo constataram a ignorância de seus paroquia-

nos: pobres paroquianos que nada sabiam, nem mesmo ler. Muitos

religiosos percorreram os campos da Europa e depararam com se­

res tão alheios ao cristianismo quanto os ouvintes dos primei­

ros apóstolos. Outras mesclaram a tradição judaicg-cristâ ás

práticas milenares que regiam as semeaduras, as colheitas e as

•festividades pagãs perpetradas pelos camponeses. Deste modo

traziam uma lógica particular aos ensinamentos, às vezes es­

tranhos e incompreensíveis, ministrados pelos portadores da

"palavra divina". A diversidade de interpretações há muito

comprometia a execução dos preceitos propalados pela Igreja;

para contornar a situação, o Concilio Tridentino sistematizou

inúmeros ritos destinados a regrar a vida dos fiéis desde o

nascimento até a morte. Criou um exército de religiosos com a

atribuição de preservar as fronteiras da Cristandade e recupe­

rar o espaço perdido para Lutero e seus seguidores. D novo

avanço do cristianismo se deu sobre os antigas impérios do


• -' 178' ■•' (
oriente e em direção ás povoações da América recém descoberta,

aproveitando a expansão marítima promovida por espanhóis e


£ portugueses (2 ).
n,
0 As Vi si t açfees d a Santo Of leio vi e r a m r e f o r ç a r o trabalha

3 de aculturação iniciado pelos jesuítas e outras ordens que de­


I
sembarcaram ao longo do litoral brasileiro. Qs inquisidores
Ê*
não se caracterizavani como mestres, representando, sim, o pa-
• ’ j
d
pel de juizes e algozes, tentando a eliminação dos procedimen-
I 1
I tos heréticos. As missões jesuítas destinadas a levar q cris­
% tianismo aos nativos não obtiveram bons -frutos; nem mesmo o

'**
c*3 clero português havia conduzido os fiéis segundo os preceitos

tridentinos. Muitos imigrantes presentes na Colônia, no Tempo


%
das Visitações, desconheciam as condutas básicas de um bom

cristão: uns se confundiam nas rezas, outros se benziam de ma ­


&r

3
neira incomúm. o lavrador Jorge Martins, habitante de Porto

Seguro, teimou com vários religiosos que seu modo de se benzer


1
era o correto. Muitos padres tentaram lhe ensinar a benção
I
aceita pela Igreja, mas todas as tentativas -foram em vão. Jor­

ge continuava a defender seu ponto de vista tendo como respal­

do o credo. Os vizinhos dos pertinaz já o conheciam por sua


d
0 teimosia, intransigência que acabou por levar seus desvios ao
9
conhecimento do Visitador (3). Dona Marta Dermondo, moradora
*X
I de Ilhéus e "tida por cristã-velha", também demonstrou que não

havia entendido as palavras repetidas pelos padres no momento


a
&
5k de consagração da hóstia. Em conversa com uma amiga, Dona Mar­
B?
ta assim comentou: "filha, quem toma o Santo Sacramento não

recebe o Senhor senão a graça, por que não fica na pessoa o


?
I Senhor se não a graça". A amiga logo lhe admoestou dizendo que
I o padre quando "dá o Sacramento di z vedes aqui o corpo o corpo
I
I
0
r*
179
do Senhor e o Senhor que tira os pecadas do mundo" (4).

Outros colonos admitiam que o “estada de casado" era me­

lhor do que o estado dos clérigos", sem saber das resoluções

do Concilio de Trento sobre o assunta. A Igreja da Contra-Re-

forma era enfática em aíirmar que a' castidade e a reclusão mo-


1
nacal eram -formas de vida superiores ao casamento (5) . Neste

sentido, os monitórios do Santo Q-flcio causaram grande impacto

entre os moradores de Olinda e Salvador, pois muitas desconhe­

ciam o conteúdo herético das práticas arroladas pela .Inquisi­

ção. A cristã-velha Felipa de Freitas somente entendeu que

Lianor da Rosa era judaizante "depois que ouviu publicar o

édito da -fé” , antes não viu maldade nos procedimentos da sua

conterrânea (6 ). Francisco da Costa Solazar confessou a Marcos

Teixeira que trocava a camisa todos os sábados, mas nem por

isto seguia os preceitos de Moisés. Na verdade, o cristão-novo

pretendia convencer os inquisidores que não sabia do grave

crime de heresia que perpetrava, só "soube senão depois de ser

publicado o Edito da Fé neste Colégio a poucos dias” (7).

O também cristão-novo Estevão Cordeira confessou a Heitor

Furtado que a estado de casado era melhor do que o dos reli­

giosos e admitiu ter dito que em Roma as mulheres andam com os

peitos descobertos e que os padres pagavam indulgências quem

com elas dormissem" (8 ). D aspecto burlesco do depoimento de

Estevão nos lembra um dos maiores críticos da Igreja renascen­

tista. Rabelais, por intermédia de personagens grotescos, ex­

ternou muitas das pilhérias e anedotas populares envolvendo a

Igreja e seus representantes. A irreverência expressa pelo au­

tor se aproxima bastante das blasfêmias delatadas ou confessa­

das durante a permanência do Inquisidor na América Portuguesa.


I
h

y
>*

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•■
□ cristâa-novo Manuel Paredes -foi acusado pela família da
iso
es­
m
I
posa por nâo acreditar na virgindade de Maria. Comparou a vir­ #

gindade de sua mulher com a de Mossa Senhora, ressaltando que


#
sua esposa nâo era virgem quando com ele se casou (9). m
- m
■J Do mesmo modo, Rabelais, por nâo acreditar piamente nas
I Escrituras, criou páginas da mais pura ironia, parodiando pas­
&
> sagens bíblicas. A natividade de Gargántua é tâo espetacular

quanto a de Crista, argumentou o autor, pois se deu pela veia

cava e a orelha esquerda de sua mâe. 0 nascimento do persona­


I
£ gem deve ser considerado tâo real quanto a concepção do Salva­
I
dor por uma mulher virgem. □ autor ainda afirmou que nâo se #
I
deve duvidar. Um homem de bom senso deve sempre acreditar no
*
I que lhe contam ou nos testemunhos escritos, pois a Deus tudo é
[■?
possível. "A fé é a argumento das coisas invisíveis", ja di­
»
I ziam os sorbonistas. De maneira cômica, Guicciardini também
I
comentou a natividade do menino Jesus: "é preciso beber antes,
I
durante e depois da refeição, porque a mâe de Deus foi virgem
I
antes, durante e depois do nascimento do senhor" (1 0 ).

Em várias passagens, Rabelais zombou dos sábios da Sor—

bonne e de seus argumentos exuberantes, atacando igual mente as #


Sagradas Escrituras. Em Gargántua. o herói se dirigiu a um lu­ *

gar reservado para defecar. Seu preceptor, que nâo admitia


I1
perder alguns minutos de estudo, ao ver o pupilo retornar, lhe

perguntou o que havia lido no retiro. Gargántua lhe respondeu

I
que havia se debruçada sobre páginas do livro sagrado (11). Os m
I comentários argutos do escritor nâo se expressam apenas na voz
»
Ü* do grotesca personagem. Em outra obra, Rabelais comentou: "Pa­

ra que dizer mais, quando, qualquer pessoa, de mediana inteli­


+
gência, pode verificar uma quantidade enorme de coisas seme—
%
p
«V »

&
ISi
s© lhantes, que as Escrituras contam como se -Fossem realmente

verdadeiras e que, ao tomá-las textualmente, pouca verdade

contêm” (12). Lucien Febvre, porém, não concebeu as provoca-

çües de Francois Rabelais como prova de sua descrença. Os co­

mentários do escritor nâo passavam de pilhérias sem veneno,

cujo inventor certamente nâo foi Rabelais, pois era comum os

homens da povo se divertirem através de anedotas clericais. Os

mesmo gracejos ganharam malícia após a Reforma, quando os re­

ligiosos se dispuseram a perseguir as tantas graçolas, . trans­

formando— as em sacrilégios (13). Par conseguinte, homens como

Manuel Paredes e tantos outros colonos denunciados durante as


%
TI visitas, cuja fé nâo era cega, tornaram-se alvo de comentários
* e desconfianças que ora os caracterizavam como heréticos per —
't
ti nazes, ora os compunham como pessoas descontroladas, sem do­

mínio sobre os atos e palavras.

A Igreja do século XVI nâo restringiu o seu campo de açâo

às blasfêmias, pilhérias e risas provenientes de anedotas an-


II
ti-clericais. Os judeus, muçulmanos e protestantes residentes

na Peninsula Ibérica e no Império Colonial foram duramente

perseguidos pelos inquisidores. No entanto, a tarefa do Santo


1
Oficio nâo se sagrou vitoriosa de uma hora para outra, foram
5
necessários longos séculos para extirpar as heresias presentes
I
no território da Cristandade. Os descendentes dos judeus e

mouros resistiram de vários modos, a principio recusando os


<
ritos e crenças católicos, ou perpetrando em segredo cerimô­

nias proibidas. Os procedimentos inquisi toriais também promo­


1 veram a adulteração do judaismo e do islamismo, pois ps deten­
2
1 tores do saber forma eliminados ou fugiram pára lugares onde

2 se tolerava a pluralidade religiosa.

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Nas Visitações dD Santo O-ficio realizada em terras colo- .


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n i ai 5 , o islamismo e protestantismo tiveram pouca ou nenhuma í


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recorrência, enquanto o judaisrao e as gentil idades ocupam pá-
va» va» vy vs» w

i
ginas e páginas dos documentos inquisitoriais. Neste sentido,
(.
a presente pesquisa deseja avaliar como os marranõs e os mame-

lucos eram concebidas pelos colonos e que perigas representa­


É*u/ w

vam. As confissões realizadas por mamelucos, por sua vez, des-


y
«» <«*’ «« váir võfl»' w

tacam como as autoridades colonias impeliam os mesmos a viver

segundo os preceitos do gentio, valorizando seu vinculo racial

com os nativos. Assim, de um lado a Inquisição coibiu as prá­

ticas marranas; de outro, a economia baseada no trabalho es­

cravo exigia dos mestiços uma assimilação dos costumes pagãos,


w

a -fim de que se transformassem em intermedi ár ios entre os co­


va?

lonizadores e a mão-de-obra indigena.


w
^
w
w

4. 1 — De cristãos a demoníacos
w
w
w

I A hi stariografia dedicada aos cristãos—novos portugueses


I raramente se volta para a especificidade de uma população que,
I
mesmo sofrendo um processo de transfcrmação cultural paulati­
y
i no, não deixou de ser judia de uma hora para outra. Perder es­
i
ta perspectiva significa desprezar a força da tradição judaica
I
I e desconhecer os mecanismos de aculturação (14). Enfim, não há
I
para os primeiros séculos após a conversão um estudo sistemá­
I
I tico sobre a cultura judaica e seu processo de cristianização.
I Os enfoques repetem, insisténtemente, os casos de heresias, a
)
ação do Santo Oficio e as contribuições do elemento judeu ou
I
I dos cristãos-novos.

I #
#
18
O mais polêmico e controvertido- estudo sobre os cris-

tãos-novos portugueses é o de Antônio Jose Saraiva, que aponta

para a inadequação do termo cripto-judeu ou judeu; a denomina-


I
ção correta seria cristâo-novo. Esse cuidado conceituai faz

sentido quando se analisa sua opinião sobre o problema da con­

versão forçada. Saraiva concebe o batismo em massa e as leis

que objetivavam a eliminação do judeu do território português,

como capazes de .transformar judeus em cristãos. 0 período com­

preendido entre o batismo coletivo e o estabelecimento do Tri­

bunal do Santo Ofício é entendido pelo historiador como tempo

de assimilação dos judeus agora crstãos-novos à Cristandade. O

entrosamento e a crescente igualdade conquistados pelo cris-

tão-novo provocaram uma maior concorrência, e logo, revolta

por parte da sociedade - o que acarretou, junto a outros fato­

res, o aparecimento da Inquisição.

A visão de Saraiva me parece equivocada. Não se pode

aceitar a possibilidade de que um conjunto de leis — e mesmo a

pressão popular, aspecto pouco desenvolvido pelo historiador

português - tenha o poder de transformar, em algumas décadas,

como em um milagre, judeus em cristãos. Um indivíduo não é ju­

deu pelo simples fato de participar de ritos vinculados a tra­

dição judaica. G judaismo deve ser entendido como um conjunto

maior de traços culturais que conformam a visão de mundo de

seus adeptos, seus comportamentos, suas atitudes, pois como

dizia Ruth Benedict: "No man ever looks at the world with

pristine eyes. He sees it edited by a definite set of customs

and institutions and way of thinking" (15). Assim sendo, não

concordo com Saraiva quando restringe a cultura aos ritos re­

ligiosos e não percebe o conceito de cultura como um todo in-


D
«ft
w
p
184
&
tegrado, mas como traços sem conexftes entre si. Pensar em uma
i
assimilação, como -fez o historiador lusitana, é desprezar a
«e^

força da tradição: por outro lado, é considerar, como fizeram


§>
Fa». os inquisitores, judeus somente aqueles que segui em alguns ri —
<£*
rr».
tos judaicos. Portanto, não se deve considerar os judeus con­
9
vertidos como novos cristãos e esquecer, como desejou o Santo
D
© Oficio, a cultura judaica que padronizou as condutas de muitos
D
elementos referidos pelo estudioso português.
© 1
SOI» Em Cristãos-Novos na Bahia, Anita Novinsky trilha, em
9
parte, os caminhos de Antônio José Saraiva e valoriza o enfo­
íKk
9
que econômico como causa das perseguições empreendidas pela
§
Inquisição. Ao avaliar a cristianização imposta pela Igreja,
9
no entanto, a historiadora procura caracterizar o cristão—novo

como homem dividido entre a tradição judaica de seus antepas­

sados e a ortodóxia imposta pela religião dominante. Nesse

sentido, menciona a baixo nível de religiosidade judaica dos


SP
cristãos-novos presos entre 1619 e 1644 e ressalta a recorrên­

cia do atei smo e indiferença em relação aos valores religiosas


»
(16). Deste modo, a professora Anita Novinsky demonstra a di­
1
ficuldade dos cri stãos-novos em assimilar alguns traças da

tradição católica. Esse grupo foi, repetidas vezes, delatado


§ por expressar repulsa pelas imagens de santos e considerar a

religião católica como idolatria. A aversão ao cristianismo se


§
explicaria pela manutenção da essência de sua cultura judaica

original. Assim sendo, o.judaismo inconsciente criava sérias

empecilhos à plena assimilação destes indivíduos (17). Por ou­


a
£$?
tro lado, os cr istãos-novos haviam esquecido o significado de

muitas ritos judaicos. As práticas judaizantes, destarte, não

eram executadas por exigência interior, mas pela necessidade

S
«'O


185
de identificação (13).

Lendo as narrativas -fixadas pelos inquisitores durante a

Primeira e Segunda Visitações do Santo Oficio (19), cheguei a

principio às mesmas conclusões. Há notadamente . inúmeras ele­

mentos cristãos-novos acusadas de desconhecer e/ou desrespei­

tar os dogmas cristãos. Essas delações possuem, comumente,

dois enfoques: expressam a ignorância e a dificuldade do grupo

em admitir o cri.stiani smo e denunciam o não cumprimento das


I
normas ditadas pela ortodoxia católica como resistência, des­

respeito e heresia. 0 distanciamento dos valores religiosos

insistentemente denunciados demonstram que a conversão forçada

impeliu, paulati namente, os cristãos-novos em direção ao mate­

rial ismo e à relativização dos valores e costumes cristãos e

judaicas (2 0 ) .

Em outras ocasiões, porém, os colonos denunciaram, em de­

talhes, ritos judaicos não mencionados pelos monitórios de

.1536 e pelo rol de transgressões encontrado no Regimento de

1640 (21). As práticas supracitadas não constituem meras in­

venções incriminadoras , fazenda parte da tradição judaica. Um

exemplo é encontrado na deleção de Alvaro Sanchez, cristâo-no—

vo e eescrivâo da chancelaria de Salvador. Em 12 de setembro

de 1618, ele denunciou Domingos Alvares de Serpa, mercador e

cristão-novo, por se comportar mal durante a missa e dizer

"Bayas,Gayas", que segundo o escrivão era palavra de judeu

(22). Guaias, Guaias são suspiros e lamentações, praticados

também na ritual religioso judaica. Para os inquisidores, esse

termo foi empregado como "movimentos rítmicos e inclinações

rituais do corpo durante a oração, sentido esse não registrado

pelos dicionaristas" (23). Existem ainda outras delações que

I

m
186
descrevem ritos inexistentes nos monitórios. Há, do mesmo mo­

do, narrativas destinadas a acusar elementos "da raça judia"

m por praticar heresias mencionadas pelos inquisidores. Contudo,

ao relatar as práticas, -Fornecem informações detalhadas que

m não constam do__rol de desvios (24) „ ____________

Estes indicios tendem, a principio, a relativizar a tese

de A. Novinsky que caracteriza os cristãos-novos como alheios

e indiferentes aos sentimentos religiosos. Os relatos supraci­


m
tadas, por não constar dos monitórios, -fugiram ao embotamento

empreendido pela Inquisição, -fato que corrobora a hipótese de

que os ritos judaicos não eram tão estranhos à população colo­

nial. No entanto, o estudo da cristianização e resistência dos

cristãos-novos se torna precária devido ao conteúdo ambíguo


m
das -fontes. Ao -fornecerem pormenores sobre a tradição judaica,

os depoimentos se prestam a interpretações duvidosas e subje­

tivas, dificultando uma análise rigorosa sobre a questão. Es­

ses obstáculos existem devido ao caráter da fonte inquisito­

rial, que se constituía de narrativas originadas, muitas ve­

zes, da coação, do sentimento de vingança ou do desconhecimen­

to do que seria uma prática judaizante. Desta forma, a leitura

, dos depoimentos fixados pelo Santo Ofício se torna uma tarefa

árdua, pois se destina a perceber, de modo precário, omissões,

mentiras incriminadoras e invenções descabidas.

Por outro lado, muitos colonos externaram, na presença do

Visitador, o seu desconhecimento do caráter judaizante de vá­

rios costumes. Um número significativa de cristãos-novos usou

deste estratagema para persuadir os inquisidores de sua ino­

cência. No entanto, alguns dados lançam dúvida sobre tais sub­

terfúgios: 1 - Muitos judeus conviveram com populações cristãs


m

,i<a
187
na Peninsula Ibérica. Desta -forma, a tradição judaica nâo po­

der ia ser estranha aos portugueses do século XVI. Um morador

de Lisboa, Evora ou Porto, certamente, tinha noticias, por

exemplo, do repouso sabatico e do uso de roupas limpas às sex­

tas-feiras; 2 - Os monitórios, por intermédio dos quais as he ­

resias judaizantes eram di-fundidas, existiam desde 1536. Por—

tanto, ao final do século XVI, muitas visitas inquisi toriais

haviam percorrido o território lusitano e o Ultramar, alertan­

do a população para os ritos incriminadores. Essas, viagens

pretendiam delimitar, com certa precisão, quem eram os heréti­

cos, ressaltando, por conseguinte, as diferenças culturais.

Desta forma, as particularidades da tradição judaica nâo pode-

riam estar esquecidas 014 inconscientes. As atitudes heréticas

deveriam estar vivas e incandescentes na memória dos cris-

tâos-velhos e novos; 3 - os conversos puderam, graças a D. Ma ­

nuel , professar o judaísmo a portas fechadas até a década de

1530 (25). Desse moda, alguns cristãos-novos, que compareceram

diante de Heitor Fur.tado de Mendoça, conviveram com os ritos

judaicos durante uma parte de sua infância.Outros talvez tive­

ram contato com o judaismo por intermédio dos seus pais ou pa ­

rentes mais velhos.

No Tempo das Visitaçbes, a cristianizaçâo dos cristãos—

novos ainda nâo permitia o esquecimento e nem mesmo a execução

de ritos heréticas de maneira inconsciente. A perda de sentido

dessas práticas deve ter ocorrida com intensidade em um perío­

do mais recente. Também devo ressaltar que o cristâo-novo nâo

pode ser caracterizado como um t.ipo homogêneo. Havia cris—

tâos-novos mercadores, sapateiros, vagabundos, burocratas,

cristãos devotos e degredados, que nâo respondiam aos apelos


#
©
íaa
do cristianismo de modo semelhante. ■ Por todas essas razões

discordo, em parte, da tese de A. Novinsky, sobretudo quando

enfatiza o baixo índice de religiosidade judaica e a execução

de ritos de modo inconsciente. Sua análise, contudo, torna—se

•fundamental quando se refers aos mercadores — homens muitas

vezes pragmáticos e comumente acusados de. descrentes e blasfe-

madores. Vale também ressaltar que as -fontes empregadas pela

historiadora nâo são as mesmas compulsadas pela presente pes-


m
qui sa.
© Elias Lipiner (2ó> , diferentemente de Saraiva e Anita No­

vinsky, acredita na existência de núcleos judaicos na Colônia.

Outros estudiosos aceitam o mesmo ponto de vista e consideram

os cristâos-novos; como judeus em potencial. Essa tese é defen­

dida comumente por historiadores tradicionais como João Lúcio

de Azevedo, Kayserling, Wiznitzer e Mendes dos Remédio (27).

□ s Judaizantes nas Capitanias de Cima tem, contudo, uma abor­


€>
© dagem muito original do tema. Lipiner realizou a pesquisa jun­

to à documentação proveniente da Primeira e Segunda Visitação

do Santo Ofício e procurou reconstruir as relações de paren­

tesco dos acusados, o clima de perseguição após a chegada do

Visitador e os cultos judaírns denunciados. Neste sf?ntido, o


© estudo se mostrou surpreendentemente inovador. Porém, chega a

conclusões óbvias e lhe -falta conhecimento teórica capaz de

criar perspectivas e possibilitar o melhor aproveitamento das

-fontes. 0 estudo de Lipiner também carece de critica documen­

tal , pois tem como verdadeiras muitas das denúncias e confis­

sões ouvidas pelos inquisidores. Essa "ingenuidade" talvez se


m
explique por intermédio de sua tese de que os cristâos-novos

eram, na verdade, judeus camuflados - cripto-judeus. Assim,


toda denúncia que corrobore esta hipótese, Lipiner a tem como

verídica.

Um estudo com base na documentação inquisitorial e desti­

nado a compreender o movimento de aculturação das conversos

deve partir, dos monitórios do Santo Oficio, pois era por in­

termédio do rol das transgressões que as comunidades lusitanas

e coloniais conheciam a definição institucional ou "verdadei­

ra" de judeu ou judaizante. Capistrano de Abreu afirmou que o

Manitório de Evarà, publicado em 1536, auxiliou os inquisido­

res quando estiveram no Brasil. A mencionada lista de trans­

gressões caracteriza os criptos-judeus como aqueles que promo­

viam reuniões às sextas-feiras, guardavam os sábados, degola­

vam animais de imodo ritual, recusavam determinados alimentos,

faziam jejuns, celebravam a Páscoa dos Judeus, executavam ora­

ções judaicas e salmos sem Gloria Patri et Filio et Spirito

Santo, cumpriam determinados ritos funerárias, davam ' benção

aos filhos aos modos judaicos, se submetiam a circuncisão, ne­

gavam o batismo e o qrisma católicos (28).

I. S. Révah considera que o Manitório de Evara enumerou

práticas judaizantes abandonadas pelos marranos após a conver­

são forçada e perseguições empreendidas pelo Tribunal do Santo

Oficio. A circuncisão, o dever de dar aos filhos nomes judeus,

cerimônias de negação do batismo, as regras de abate, o uso de

filacteres nas orações, a festa do ano novo judeu e certos

costumes funerários foram esquecidas devido à capacidade dos

mesmos de incriminar aqueles que os perpetrassem (29). A ad­

vertência de Révah é válida para os marranos residentes no

Brasil. Os ritos supracitados quase não aparecem entre as de­

núncias e confissões. A constatação corrobora a hipótese de


s3
fex
ar

190
que os rnonitórios nâa eram assim tão -e-ficazes na criação de

judaizantes; do contrária, tais procedimentos seriam denuncia­

dos. Contudo, nâo descarto a idéia de que a divulgação das ri­

tos judaicos promoveu, repetidas vezes, a incriminação de pes­


V

i soas inaceqtes, criando heréticos ande nãa existiam. Deste mo­

do, seria perigoso pensar a aculturação e resistência cultural

& somente por intermédio das várias denúncias cujo conteúdo ha­

via sido propalado pelos visitadores. Assim, a análise em tor­

no da cristianizaçâo e persistência do judaismo será realizada

a partir de indícios estranhos aos monitórios, pois, do con­

trário, os resultados da pesquisa seriam desacreditadqs, a

partir da constatação de que a Inquisição -favorecia o apareci­

mento de judaizantes.

Muitas delações descrevem ritos presentes nos monitórios,

porém -fornecem detalhes nâo mencionados pela Inquisição, evi­

denciando que os mesmos nâo influenciaram os relatos dos de-

% nunciadores. Felipe Cavalcante, senhor de engenho e cristão—


I
velho -florentino, narrou o jejum do Quipur comemorado por Hen­

I# rique Mendes, Antônio Dias, seu cunhado Alma de Burzeguis "o

qual se gabava que -fora batizado em pé" (30). □ monitório de

,1536 comenta que o maior jejum dos judeus é comemorado em se­

tembro; a proibição alimentar dura todo o dia até chegar as

estrelas. No inicio da noite, os judeus comem carnes, tigela-

das e pedem per.dâo uns aos outros (31). Felipe Cavalcante, em

denúncia, relatou que Henrique Antunes era acostumado a todas

as luas de agosto ir para Camaragibe, lá havia uma "esnoga on­

de se a juntavam os judeus desta terra e -faziam suas cerimô­

nias" , celebrando "a -festa do jejum do Quipur" (32). A descri­


igí,
ção do -florentino é pobre em detalhes, mas nâo repete o texto
t A?fesfesaaa^.

191
do manitório, além de datar o Quipur ém agosto, quando os in­

quisidores a-firmavam ser em setembro. Elias Lipiner, comentan­

do o erro de datação, diz que os meses do calendário judaico

nem sempre coincidem com outras -formas de marcar o tempo; o

i sol amento vi vi do pelos colonos também -favorecia a erros deste

tipo (33). Por outro lado, a denominação Quipur não -foi men­

cionada no rol de transgressões: outro indício de que o flo-

rentino não incriminou Henrique Mendes guiado somente pelo co­

municado inquisitorial.

Antônia Oliveira, cristã-nova e residente em Porto Segu­

ro, con-fessou que seu primo Alvaro Pacheco aconselhou-a a pro­

curar Violante Raiz, tia de ambos, para que a última lhe lan­

çasse uma benção "e a dita sua tia pôs a mão na cabeça nomean­

do Abraão" (34). A benção judaica mencionada pelo manitório

di-fere em parte da narrada por Antõnia Oliveira. Na primeira

"os pais deitam a benção aos filhos, pondo-lhes as mãos sobre

a cabeça, baixando-lhe a mão pelo rosto abaixo, sem fazer o

sinal da cruz, à forma e modo judaico" (35). Os depoimentos

até agora arrolados demonstram que a Inquisição não inventou o

judaizantes - o'marranismo era uma realidade na Colônia.

, Nos autos das Visitações do Santo Oficio, encontram-se

igualmente descrições de ritos e cerimônias não arrolados nos

monitórios. Um bom exemplo foi narrada pela cristã-velha Lia-

nor Carvalha que, por volta de 1550 (36) , entrou em uma sina­

goga em Arzila, onde havia uma "canteira com um frontal de pa­

na da índia pintada na qual " se encontravam uns rolos "de

pergaminhos enfronhados em uns sacos de pano de linho", em

frente havia, pendurada na parede, um alampadário aceso. En­

controu também um grupo de judeus sentados em bancas "entoando


192
uma toada" enquanto um moço estava de costas e servia de "es­

tante" para um livro (37). Melchior de Bragança, çristão-novo

marroquino, contou a Marcos Teixeira que Manoel Roiz Sanchez e


I
Luiz Alvares visitaram uma sinagoga em Flandres; ao entrarem

lavaram as mãos, puseram nas na tresta, hei ja r a m nas e levan—

taram-nas. Os cristãos-novos seguiram em direção ao -fundo do

templo "meneando o corpo rezavam os Salmos de David em lingua­

gem hebréia". Depois da reza, veio um rabino vestida com uma

roupa branca sobre um "vestido ordinário" subiu ao púlpito on­

de disse algumas oraçdes e os demais o respondiam: "Amém, dan­

do saltos para cima, dizendo Cadox, Cadox, que queria dizer,

Sanctus, Sanctus, Dominus Sabaoth" (38).

.Oferecer azeite para acender as alâmpadas das sinagogas

também era indicio judaizante, tal acusação sendo rara entre

os documentos provenientes das Visitaçòes. Porém, Tomás Lopes,

de alcunha o Maniquete, era conhecido em Pernambuco por usar

uma "rondilha no pé" que servia como aviso aos marranos, aler-

tando-os para contribuir com esmolas na compra de azeite des­

tinado a manter em funcionamento a alampada (39). 0 cristão-

novo Henrique Vaz teve seu nome denunciado perante Heitor Fur­

tado de Mondoça por rezar salmos de David em linguagem. A

transgressão a ele atribuída se encontra nos monitórios, con­

tudo o delator fornece detalhes precisos: "rezando ajuntava as

palmas e tornava a afastar e tornava a juntá-las e abaixar a


\
cabeça para cima e ás vezes fazia isto à boca da noite junto

de uma grade, olhando para as estrelas" (40).

Os procedimentos supracitados demonstram que o judaísmo

ainda habitava a consciência de muitos colonos, fossem eles

cristãos-velhos ou novos. Assim, seria quase impossível conce—


ber como crivei depoimentos de cr i stãos-novos adultos ou an­

ciãos que juravam desconhecer o conteúdo herética de práticas

elementares da tradição judaica. Alguns depoimentos indicam

que a tradição, mesmo adulterada pelas circunstâncias, era

transmitida nos núcleos -familiares. Os ensinamentos eram di ­

fundi dos aos jovens, depois que os mesmos já tivessem noção

dos perigas envolvendo as práticas judaizantes. A confissão da

cristã-nova Antônia Oliveira revela exatamente como a heresia

marrana era perpetuada através das gerações.

A confitente declarou ao Visitador que jejuava "do car­

nal " às quartas, sextas e sábados, r e v e r e n d ando a Deus Nossa

Senhor, a Virgem Nossa Senhora e aos santos "do paraíso enco­

mendando— 1 hes também ao dito seu marido ausentes e rezando-

lhes pelas cantas as orações da Santa Madre Igreja". Um dia,

seu primo Alvaro Pacheco lhe disse que a mesma pouco sabia so­

bre a salvação e queria lhe ensinar o modo como seus avós se

salvaram. Para tanto, Antônia jejuaria ás segundas e quintas-

feiras, sem comer, beber e dormir até sair as estrela no céu.

Depois do cair da tarde e reinar da escuridão, a mesma poderia

comer à vontade. Os jejuns eram realizados pelos homens e mu­

lheres da família que ao mesmo tempo se confessavam e comunga­

vam como pessoas honradas. O primo lhe aconselhou em seguida a

tomar benção com Violante Roiz: depois de jejuar , "fosse ela a

dita sua tia que lançasse a benção dizendo-lhe também que se a

dita sua avó Branca Roiz" fosse viva lhe ensinaria como havia

de se salvar, "porque fora muito santa mulher e morrera uma

morte santa". Antônia teria, a fim de se salvar, que guardar

os sábados, estes os verdadeiros domingos. Na oportunidade,

deveria vestir camisas lavadas e descansar, sendo o domingo e


194
os demais dias da semana dedicados ao trabalho. A con-fitente

disse "que -fez os ditos dois jejuns parecendo-lhe que neles

-fazia uma grande devoção á Nossa Senhora sem entender serem

judaicos", somente vindo a descobrir seu conteúdo herético de­

pois da chegada da Santa Inqui si c.ão_X4iJu----- --------

As instruções do primo Alvaro revelam que a aculturação

dos cristãos-novos se encontrava em andamento, dando origem

aos ritos marranps: mescla de traços da cultura judaica com

outros tantos da ortodoxia católica. No exemplo citado., nota-

se que os jejuns e a preservação do repouso sabático consti­

tuem uma -fração reduzida dos cultos judaicos, enquanto o co­

mungar e confessar os atrelavam aos devotos cristãos. Na vida

intima, em família, os marranos se ligavam aos antepassados e

à tradição milenar; na vida pública, participavam das manifes­

tações de fé promovidas pelos padres. A mesma dualidade se en­

contrava na maneira de se obter a salvação: de um lado,' os je­

juns e o "shabat" redimiam os marranos da existência como

cristãos e da negação pública das leis de Moisés; por outro

lado, as determinações do culto católico possibilitavam aos

mesmos terem uma "morte santa".

Antônia de Oliveira, em confissão, deixa claro que desco­

nhecia o conteúdo herético dos jejuns e os realizou em devoção

à Nossa Senhora Virgem Maria (42) Na mesma oportunidade, "in­

criminou" toda a família, pois enfatizou a dualidade religiosa

como sendo consciente. Heitor Furtado de Mendoça pouco apro­

veitou do depoimento da confitente, deixando passar contradi­

ções gritantes: por que a mesma executou os jejuns apenas duas

vezes? Isto não está claro no relato; se os homens e mulheres

da família realizavam os jejuns e descançavam no sábado, por


que nunca despertaram a atenção da confitente as diferenças

entre os cultos católicos e judaicos? Seria possivel acreditar

que uma cristã-nova adulta -Antônia tinha 30 anos quando com­

pareceu à mesa do SantD Oficio - desconhecesse por completo a

prática de descansar nos sábados e ter os domingos como dias

normais? A negligência do Visitador torna-se mais grave quando

se sabe que Alvaro Pacheco pertencia a uma das famílias mais

denunciadas na Bahia. Alvaro era filho de Mestre Afonso e Ma­

ria Lopes, a última, por sua vez, era uma das filhas de Ana

Roiz. Alvaro Pacheco teve seu nome denunciado três vezes. A

primeira delação conta que o marrana proferiu palavras contra

a "Santa Fé", afirmando que a "Epístola da missa" nada dizia;

em seguida, foi acusado de casar à moda judaica com uma das

primas também cristã-nova; por último, a delação partiu do es­

poso de Antônia de Oliveira, a cristão—nova Pero Fernandes,

que narrou os jejuns prescritos pelo primo â sua mulher (4 3 ).

Enfim, a família de Antônia era conhecida de "fama pública"


I
por perpetrara o judaísmo.

A dualidade vivida pelos marranos dava margem para comen­

tários maldosas, como foi feita em relação a Bartolomeu Frago­

so. Madeira de Sá delatou o último por teimar que sua conta

estava certa e: que nem Cristo provaria o contrário! Em seguida

o denunciador comentou que o "vê fazer mostras do cristão no

exterior", duvidando da sinceridade devocional do mesmo (44).

Outros cristãos-novos eram determinados a viver como

cristãos "lindos" (45) rezando á Nossa Senhora, "fazendo esmo­

las e obras de quem teme a Deus", assim afirmou Nicolau Falei-

ros de Vasconcelos em relação à sua esposa cristã-nova (46).

Na verdade, se comportar como um cristão era um requisito bá-


-•-I---.:

196
sico para se viver em harmonia em uma sociedade que nSo admi­

tia a pluralidade religiosa. A Inquisição não era a única a

perseguir o desviante. O preconceito, a superstição transfer—

mavam o suspeito em inimigo, capaz de, a todo instante, arrui­

nar ou -prsjud icar- os membros_da._comua i_d.ade_.cristã- jportanto,

manter uma imagem de devoção e respeito aos dogmas significava

a possibilidade de ser assimilada à sociedade; contrair casa­

mento com cr istãos-velhos, se integrar â vida econômia, exer­

cer cargos públicos e pressão econômica sobre determinadas

grupas.

A ambigüidade vivida pelos marranos deve, então, ser vis­

ta em sua complexidade, ressaltando os aspectos econômicos,

sociais e religiosos da .integração dos cristãos—novos à Cris-

tandade. A denúncia de Melchior Bragança, anteriormente cita­

da, revela pontos interessantes da vida dos grandes mercadores

cristãos-novos. Manoel Roiz Sanchez e Gonçalo Nunes, residen­

tes em Salvador, mas tendo vínculos com os partos de Lisboa e

Amsterdam, foram acusados de "viver na lei de Moisés" quando

estavam em Flandres (47). Diogo Lopes de Évora, cristão-novo e

dono de um dos guindastes de Salvador, relatou que Manuel Ha—

i mem "apostara da nossa Santa Fé Católica e se fizera judeu na

cidade de Nostra Dama", em Flandres (48). Vários relatos des­

crevem heresias perpetradas por colonos quando se distanciavam

das garras da Inquisição. A princípio, entendo os procedimen­

tos como indícios de marranismo, ou seja, as ditos cristãos—

novos quando podiam expressar livremente sua crença religiosa

o faziam em pública.

Uma outra leitura poderia ser realizada à partir das mes­

mas denúncias. A dualidade dos marranos, vista sobre uma ótica

;
197
política permite vislumbrar a hipótese de que os delatores se

comportavam segundo os preceitos do meio cultural. Deste modo,

o mercador Manoel Sanchez, por exemplo, se comportaria como

cristão entre os comerciantes de Salvador e Lisboa, como judeu

na comunidade judaica de Amsterdam.' 0 avanço da aculturação

poderia -facilmente -forjar comportamentos hipotéticos como es­

tes, criando homens alhei os aos códigos religiosas. Por autro

lado, os judeus residentes em Flandres talvez mantivessem re­

lacionamentos mais cordiais com mercadores que externassem re­

sistência contra os procedimentos da Inquisição. Um cristão—

novo plenamente assimilado não teria a mesma recepção dedicada

a um marrano. 0 -fervor religioso da comunidade judaica da Ho­

landa, sem dúvida, -favorecia a aproximação do judaismo (4 9 ).

Contudo até que ponto os colonos poderiam se integrar a tradi­

ção judaica, tendo vivido longos anos como cristãos? Até que

ponto, repito, a aculturação promovida pela Igreja e Inquisi­

ção seria irrever sl vel ? Teriam a conversão e aculturação -for­

çadas trans-f crmado parte dos cr istãos-novos em descrentes,

alheios aos apelos da religião?

Cs autos das Visitaçóes não caracterizam os cristãos-no-

ivos como seguidores de uma religião sincrética, ou melhor di­

zendo, as denúncias ressaltavam a dualidade religiosa como se

a mesma -fosse consciente. 0 marrano seria, então, aquele que

em um lugar oculto reverenciava a Moisés e em público atacava

os dogmas e os padres, sem deixar transparecer que era heréti­

co; ou fazia "mostras de bom cristão", mas frequentava a esno-

ga. Os mercadores, por sua vez, quase sempre zombavam da fé,

desrespeitavam os santos e os padres, dedicando-se ao lucro e

ás onzenas. Enfim, a documentação é inadequada para o estudo


#

it
198
© da cristianizaçâa dos conversos, pois privilegia as resistên­

cias ao invés da aceitação da ortodoxia católica.


#
© Muitos cristãos-novos se recusavam a cumprir os
OS rituais

católicos, não iam à missa, a -festas, nem tão p o u c o s e c o n f e s —

savam, exceto nos períodos em que toda a comunidade demonstra­

va devoção. A renitente Ana Raiz nunca ia à igreja "senão mui

raramente", nem se confessava por livre vontade, relatando

m seus pecados ao clérigo somente durante a quaresma (50). Ma­

nuel Faria, seu neto, também foi acusado de não gostar da re­

za, de sair antes da missa terminar e de não possuir o livro

de horas de Mossa Senhora (51). Branca de Leão era falecida no

Tempo das Visitaçóes, contudo seu nome não deixou de ser cita­

do em dezenas de delaçóes. Em uma delas, à defunta era atri-


m
buido um ato de resistência próprio de um judaizante; segundo

m a denúncia, a mesma havia lançada um púcaro de água em um cru­

cifixo, molhando-o. Sua irmã Catarina Fontes se espantou com o


&
procedimento e lhe perguntou o motivo do desrespeito com Cris­

ta. Branca respondeu que aquilo era um papel, que Deus que es­
&i
tava no céu" (52) .
w
B Entre as delaçbes havia testemunhos mais contundentes,

, provas da repulsa dos cristãos-novos á aculturação empreendida

pelo Estado lusitano. Miguel Fernandes, natural do Porto e re ­

sidente em Lisboa, quando esteve na Colônia foi pego sentado

sobre o altar, em cima da pedra d'ara" de modo que estava de

costa para o crucifixo. Além desta ousadia, Miguel fez "comé­


©
dia ao divino" na hora da festa do Santíssimo Sacramento, des­

respeitando todos os fiéis presentes na Sé de Salvador (53). 0

mestre-de-açúcar Fernão Raiz, conhecido pelo alho torto, afir­

mou em público que caso se deparasse com Nossa Senhora, a co-


199
locaria em uma -forma de açúcar. Em outra oportunidade, o mesmo

Raiz, durante uma “procissão das endoenças" , onde havia um ho­

mem representando Cristo a caminho do Calvário e outros como

fariseus, dava "doces da misericórdia" apenas para os últimos

e nada para a figura de Cristo'1, procedimento que escandalizou

o delator (54). A vizinha de Maria Lopes relatou ao Visitador

condutas desviantes da cristã-nova filha de Ana Roiz. Em 13 de

agosto de 1591, Maria Eça declarou que viu no quintal vizinho

uma grande cruz de madeira, "das que se costuma por pelas es­

tradas deitadas no chão". Observou diversas vezes as negras da

dita Maria Lopes andarem por cima dela e lavarem a


louça e
/
pratos sobre o objeta sagrado. A cruz então permanecia na la­

ma, na "sujidade". f.0 acontecimento


»
lhe causou muito escândalo

"por ela ser cristã-nova" (55). Fernão Soares, ensinou a um

negrinho um sinal da cruz muito especial. 0 dito negrinho as-


' \
sim se benzia: "pondo a mão na testa disse, boi, e pondo a mão

no peito disse, corda, e pondo a mão no ombro esquerdo disse,


\

faca, e pondo a mão no ombro direito disse, Amém Jesus" (56).

A resistência dos cristãos-novos não se restringia aos

dogmas e fé católicos, atingindo igualmente aos representantes

da Igreja e à Inquisição. Bartolomeu Garces, obreiro de al­

faiate e morador de Tapagipe, confessou ter dito á seguinte

blasfêmia: "por çlérigos e frades se há de perder o mundo", em

uma alusão aos perigos do poder dos religiosos (57). Diogo

Fernandes, por sua vez, teve seu nome denunciado por valorizar

a resistência dos marran'os frente aos tormentos e torturas em­

preendidos no cárcere do Santo Oficio. Disse ao primo, cujos

pais haviam sido queimados pela Inquisição, para não chorar,

pois ambos haviam morrido pela honra (58). Maria Antunes este­
2 0 0
ve em Evora e presenciou um Auto—de-Fé, onde mestre Roque -foi

castigado com a morte. A delatora conversou sobre o acontecido

com Maria Lopes e a última comentou que o mestre era seu pa­

rente e que havia m o r r i d o d e "morte honrada". Maria Antunes

achou-suspeita-..a defesa, .do. apóstata feita pela cristâo-nova e

resolveu comunicar ao Visitador. Mas deixou claro que se con­

siderava amiga da denunciada (59).

A recusa da gente da naçSo não era expressa apenas por

indivíduos isolados. Há denúncias dedicadas a revelar a exis­

tência de grupos ou indivíduos cristãos-novos cujo objetivo

era auxiliar os irmãos pobres que apartavam na Colônia. A de­

lação de Domingos da Rosa demonstra como funcionavam as "ir —

mandades marranas" em Salvador. 0 último contou ao Visitador

que ao chegar na cidade, Gomes Fernandes o recebeu com muitas

gentilezas, pois pensava que Domingos era "da nação dos cris­

tãos— novos”. Fazia-lhe "festas e dava mostras de amor e amiza­

de dizendo-lhe que quando a esta cidade vinha algum cristão-

n o v o " , procurava amparar e favorecer os pobres descendentes

dos conversos, “estrangeiros que não achavam senão a ele para

os ajudar". Durante um ano, Gomes Fernandes, o desnarigado,

ofereceu ao delatar a sua residência "para tudo que houvesse

mister". Contudo, depois de saber da origem cristã-velha de

Domingas, tudo mudou, o cristão—novo se comportando como se

nunca tivesse conhecido seu protegido (60). Doutor Melchior de

Bragança contou durante a Segunda Visitação uma história muito

semelhante. 0 denunciador era marroquino e hebreu da nação,

tinha por volta de 40 anos e lecionava língua hebréia nas uni­

versidades de Alcalá e Salamanca, ambas na Espanha. Estava na

Colônia como degredada, pois havia matado um homem. Melchior


201
se encontrava em situação dificil quando Chegou, em Salvador,

por isso pediu ajuda a Alvaro de Serpa, cristão—novo e merca­

dor que se mostrou muito solicito. Em conversa, Domingo Serpa

lhe perguntou se ele realmente havia renegada a lei de Moisés

e se tornado um "cristão de vontade". O delator confirmou a

história e provocou protestos por parte de Domingo: "a lei de

Moisés era a lei verdadeira; e por isso não podia ele denun­

ciante deixá-la. E que se tinha necessidade, que se recolhesse

a casa dele denunciado, e se declara-se com ele". 0 rico e po­

deroso senhor da terra Dinis Bravo também atendeu aos pedidas

do degredado, dando-lhe esmolas. Em uma determinada ocasião

Dinis afirmou a Melchior que os judeus de Espanha eram os me­

lhores. 0 Licenciado Francisco Lopes Brandão, advogado da na­

ção, concedeu ao marroquino uma "carta de favor", depois que o

mesmo interpretou um salmo em favor dos judeus. Após ter ouvi­

do o depoimento, Marcos Teixeira resolveu indagar porque razão

os mencionadas marranos haviam confessado sua fé na lei mosai­

ca. □ doutor respondeu dizendo que todos acreditavam que ele

fosse um marrano. Mas uma vez descoberta a verdade, "logo a

desampararam, e não somente lhe deixaram de fazer bem e aju­

dá-la como se costuma entre a gente da nação, mas ainda pre­

tenderam persegui-lo e desacreditá-lo por sua boa reputação...

" (ól>.

Os depoimentos até então mencionados demonstram a difi­

culdade dos descendentes dos conversos em se adaptar à socie­

dade cristã; por um lado, havia diferenças doutrinais, sobre­

tudo em relação à vinda do Messias e nos cultos a santas e

imagens; por outro, a repressão do Santo Oficio e das comuni­

dades que viam nestes indivíduos judeus em potencial. Os sus—


2 0 2
peitos de marranismò provocavam comentários, muitos deles sem

•fundamentos. Contudò, a impossibilidade de se veri-ficar se um

relato é verídica não inviabiliza uma análise sobre a repre­

sentação do judeu n a sociedade c o l o n i a l , pois a existência de

mentiras, e_„invençdes.. é um dado relevante s não -desprezível . A

-falsidade dos testemunhos indica a necessidade de incriminar

um determinado indivíduo. D seu comprometimento, porém, somen­

te era efetivado, caso outras inf armações -fossem somadas à

mentira. Assim, se houvesse respaldo da população a fraude se­

ria aceita como verdade. 0 mesmo ocorria com o Santo Oficio:

uma denúncia não era capaz de levar um réu ao cárcere. Nuitas

heresias, ou possíveis inverdades, eram de "fama pública",

tendo a credibilidade da população. Outras denúncias, nem tan­

to, sendo provenientes de um ou dois indivíduos. A repetição

de um desvio nada diz sobre sua existência real. Esta consta­

tação inviabiliza as tentativas destinadas a se certificar da

veracidade de um relato. Contudo, interessa ao historiador co ­

nhecer as informações tidas como reais pelos colonos. Então, o

número de delações de uma mesma heresia torna-se uma peça fun­

damental para o estudo.

□ marranismò tinha existência real na Colônia, não era

mais uma invenção do Tribunal do Santo Oficio. Do mesmo modo,

é incontestável a dificuldade e resistência dos cristãos— novos

em se adaptar aos parâmetros impostas pela Cristandade: não

foi suave, nem repentina a aculturação dos conversos e seus

descendentes. Por outro lado, a partir da reflexão sobre a

mentira, é possível concluir que a "fama pública" poe em evi­

dência o espaço ocupado pelos heréticos no imaginário popular.

Na verdade, os desviantes desempenhavam um papel importante


, . 203
nas sociedades trad ici onai s , a eles Caben.do -fortalecer os va­

lores vigentes, a partir da sua negação - voltarei mais tarde

ao tema.

Um judaizante, conhecido como tal por toda a comunidade,

não obedecia apenas às leis de Moiéês, a ele sendo atribuídas


\
muitos outras delitos. As vezes chicoteava sem razão os negros

da terra, quebrava mesas e cadeiras quando da morte de um ente

próximo, cobrava juros escorchantes, raptava mulheres casadas,

subornava autoridades ou soltava pombas no nascimento, de um

-filho. □ judaizante era caracteri zado como herética, ameaça à

comunidade, desregrado, sexualmente desequi 1 ibrado. . . enfim

constitui a o MAL, capaz de por em perigo a ORDEM imposta por

Deus e obedecida pelos cristãos devotos. Deste modo, a possí­

vel -fraude dos depoimentos auxilia o historiador a compreender

o quanto era terrível um judaizante, sujeito incapaz de se

comportar segundo os preceitos e padrdes culturais de uma co­

munidade. A função social da mentira, no caso especifico das

denunciaçftes ao Santo Oficio, auxilia o entendimento de deze­

nas de relatos que atribuíam aos marranos práticas alheias à

trad içào judai ca.

Em certa ocasião, a família de Ana Raiz havia matado um

porco; depois da execução do animal, começaram a ' dançar em

torna dele, cantando cantigas em linguagem (62). Em uma sex­

ta-feira, Branca Dias matou um pequeno porco e o comeu na no i ­

te do mesmo dia (63). Salvador da Maia e alguns amigos judai—

zantes comeram um porco na sexta-feira e denominaram-no de

"chaucarona" (64). 0 mesmo Salvador da Maia, era outra denún­

cia, foi acusado de comer o cordeiro pascal com Francisco da

Costa, obedecendo cs preceitos judaicas (sic) para a semana


204

santa (65). Maria de Azevedo em denúncia comentou sobre a

existência "de umã toura de barro com cornos dourada e malhada

de roxo com cornos dourados e as pontas pretas"; o objeto se

encontrava em casa de Fernão Soares, conhecido mercador cris-

tâo-novo de Pernambuco. A delatora ainda -forneceu detalhes

surpreendentes: "vendo o dito seu avô ,a dita toura disse que

era a toura dos judeus a qual toura seria do tamanho de um


l
palmo e estava assentada no chão com as pernas encolhidas a

qual em uma parte não lhe lembra se em uma ilharga se onde,

tinha metido um parafuso...“ (6 6 ).

Todas as denúncias mencionadas vinculam o culto judaico a

animais. Os homens da "raça hebréia" sacrificavam ou adoravam

porcos, cordeiros e toura s . Qs depoimentos caracterizam as ce­

rimônias como parte de judaismo, revelando indícios incrimina­

dores capazes de provar o comprometimento dos acusados com as

leis de Moisés. Porém nada é mais estranho à religião judaica

do que o emprego de animais durante os ritos. As delações, por

conseguinte, não passam de invenções inerimi nadaras, destituí­

das de fundamento teológico.

Dona Mécia, mulher de Francisco Araujo e Dana Isabel, es­

posa do Fidalgo da Casa Real Cristovão de Barros, ambas cris-

tãs-novas, foram encontradas no caminho para Vila Velha "como

feiticeiras" (67). Isabel de Sandales também conhecia histó­

rias extraordinárias atribuídas à Dona Mécia e sua companhei­

ra, pois achara as duas "donas honradas desta cidade em figu­

ras de pata". 0 cura havia presenciado o mesmo evento e disse:

"ali vai Dona patinha aludindo a figura de pata em que fora

achada" (6 8 ). 0 senhor de engenho e homem da nação hebréia

chamado Gaspar Pacheco havia se dado ao Diabo (69), enquanto


na casa de Diogo de Paiva, em Tejucupapo, encontraram dois

castiçais com velas e uma -figura de cera preta, que era a re­

presentação de um homem com dois cornos. Segundo a narrativa,

o altar só poderia ser coisa de judeus. A delação ainda forne­

ce os seguintes detalhes:

"...detrás da porta armado um altar bem conser­


tado com seu frontal e toalhas' pregadas com al­
finetes, com altar de dizer missa na qual esta­
vam dois castiçais de latão com suas velas e no
meio estava em lugar de imagem uma figura feita
de cera preta a qual figura era de homem nú e
na cabeça na testa dois cornos feitos da mesma
cera e em uma mão tinha feito da mesma cera co­
mo vela ou vara..." (70)
A diabolização do cristão-novo não se restringe a acusa­

ções de feitiçaria, sacrifícios e adorações de animais e ri­

tuais satânicos. A caracterização dos marranos se destaca, em

várias ocasiões, pelo seu aspecto monstruoso, deficiente, im­

perfeito: Salvador da Maia era manco de um pé, Gomes Fernandes

tinha aalcunha de "o desnarigado" e Tomas Lopes era denomina­

do "o Maniquete"; dois filhos de Branca Dias eram conhecidos

pelos seus defeitos físicos, Brites, "a Al corcovada", e Manoel

Afonso sem braços; Fernâo F(oiz possuia um olho torto, outros

se destacavam por sinais, verrugas... (71)

Conceber o cristão-novo como adepto de cultos satânicos é

uma forma exemplar de representá-los como antítese do cristão.

Neste sentido, os séculos XVI e XVII se destacaram pela preo­

cupação com os extremos de moral e religiosidade, pelo culto

dos contrárias e par definições atreladas à lógica do bem e do

mal. Stuart Clark demonstrou a existência desse tipo de racio­

cínio em vários setores da Cristandade. Nas universidades, en­

tre os artistas, magistrados, demonólagos, religiosos e nas

■festas populares, se perpetuava a mesma retórica dos contrá­

rios, das antíteses. Havia, então, a necessidade de alocar os


I> (0
maus e os bons segundo os preceitos da ortodoxia católica,

dualidade constituis uma maneira de classi-ficar os. sujei tos e

instrumentos pelos quais Deus se expressava e os homens com­

preendiam a inteligibilidade das coisas. Delimitar as -frontei­

ras entra o cristão e o herético tornou-se veícuia de domina­

ção política, -forma de excluir os imperfeitos ,e exaltar os en­

sinamentos do Senhor. Os tratados de demonologia, muito em vo­

ga na época, di-fundiam o demonismo e a lógica da "inversão da

vida". 0 sabá ou esnoga das bruxas era o reino contrário- à

harmonia concedida por Deus. Satã, sua antítese, continha em

si o ódiD pela humanidade e o desprezo pelo amor mútuo. Assim,

conhecer o culto satânico tornava— se uma -forma de validar a

ortod.oxia, de valorizar os benefícios concedidos aos cristãos

sinceros. A "palavra verdadeira'* concedia meios para se alcan­

çar o Paraíso, enquanto os demoníacos eram agentes do Inferno,

da anarquia (72).
e&M Os desvias e desregramentos perpetrados pelos marranos

serviam como aviso e ,pequena mostra dos maléficios que assola­

riam a Cristandade depois da execução dos planos oriundos da

aliança entre Satã e os judeus. Enfim, as mentiras e invençdes

;eram um dos indícios dos temores próprios da mentalidade cris­

tã, ou saídos do livro do Apocalipse.

I
4.2 — da vila ao sertão.

Os jesuítas desembarcaram na Colônia com a árdua tarefa

de levar a ortodoxia aos habitantes da terra recém descoberta.

Os nativos e portugueses seriam, a partir de então, vigiados e


207
conduzidos pelos religiosas da Companhia de Jesus. Outras Or­

dens também -frequentaram paragens inóspitas do litoral brasi­

leiro, mas nenhum representante do clero -foi tâo afamado quan­

to os jesuítas Anchieta e Nóbrega. A missão destes religiosos

nos trópicos era servir como intermediários entre os brancos

colonizadores e os nativos, levando "a palavra do Senhor" a

seres até então inexistentes no universo mental europeu. Deste

modo, a colonização portuguesa se fazia em dois âmbitos: domí­

nio do território e concomitante exploração econômica; difusão

da ortodoxia e alargamento das fronteiras da Cristandade. Im­

buídos pela fé na conversão do gentio, os padres se uniam as

tribos indígenas, aprendiam a língua nativa e por meio de sím-


I
bolos precários ensinavam a história do Salvador que veio ao

mundo libertar os homens dos assédios diabólicos e da danação.

Em outras oportunidade.s, os mesmos discípulos de Loyola auxi­

liavam os brancos na transferência de cativos de guerra para

áreas pacificadas, criando aldeias cuja função era suprir as

necessidades de mâa-de—obra dos primeiras empreendimentos

agrícolas em terras brasileiras (73).

Nos. aldeamentos, o gentio recebia noções básicas da tra­

dição católica, conheciam passagens bíblicas, os significados

da virgindade de Maria, da paixão e ressurreição de Cristo, da

Trindade, o simbolismo da hóstia e da missa. Nas Visitações do

Santo Ofício, há registros da aculturação empreendida pela Re­

ligião dos brancos. A mesma, no entanto, nem sempre era enten­

dida com fidelidade pelos homens da terra. Na verdade, nem

mesmo o branca europeu se habituara às reflexões teológicas

presentes nos catecismos. Assim sendo, os nativas e mestiços

mesclaram, repetidas vezes, as lições ouvidas durante a cate­


208
quese â tradição silvicola, originando sincretismos religiosos

capazes de -fornecer subsídios para um estudo dçstinado a re­

fletir sobre a relação colonizado e colonizador.

Gs p a d r e s da Companhia, residentes na Terra da Santa

Cruz, davam suas vidas para -fazer do qen.ti.Q_-u m _cristão , en­

quanto os apelos do meio e da tradição conduziam os mesmas pa­

ra além das fronteiras da Cristandade, induzindb-os a costumes

próprias de sua raça. Porém, os curumins criados junto aos al-

deamentos, sob os olhares dos religiosos, dificilmente se tor­

naram homens semelhantes aos seus antepassados. Por mais que a

tradição do seu povo e a selva os tornasse "selvagens",, eles

ainda lembravam de alguns dos ensinamentos ministrados pelos

padres, mesmo que os tivessem memorizado de modo deturpado. Um

índio cristão chamado Antônio viveu anos em Tinharé, na casa

dos jesuítas. Na oportunidade, conheceu parte da tradição ca­

tólica que o auxiliou na condução de um importante movimento

messiânico ocorrida na recôncavo baiano, durante a segunda me­

tade do século XVI. A Santidade do Jaguaripe, "criada" por An­

tônio reunia elementos da cultura indígena e outras tantas do

cristi ani smo.

Os caraíbas, ou profetas da selva eram comuns entre os

índios da América do Sul. Vários relatos demonstram a capaci­

dade destes xamãs em atrair tribos inteiras, guiando-as sob o

signo do messianismo. Depois dos primeiros contatos travados

entre nativas e europeus, um caraíba recorreu, como Antônio,

ao cristianismo. Um deles afirmou aos nativos que era parente

dos padres e havia morrido e ressuscitado. Enquanto um outro

da Capitania do Espirito Santo jurava ser filho de Deus e da

Virgem Maria e que fugira de Portugal para não ser crucificada

i
(74). A Santidade do Jaguaripe, no entanto, segue os preceitos

cristãos em outros aspectos. Cria uma hierarquia celestial,

onde existiam índios denominados Filho de Deus, Mâe de Deus,

ou Santa Maria, santos, santas, Papa, bispos, vigários e sa­

cristãos. Usavam rosários e livras feitos de madeira, contendo

caracteres desconhecidos. Os índios se reuniam em uma casa de­

nominada de igreja; lá existia um ídolo de pau com feiçbes in­

dígenas, "com cabelo ao modo gentia e a ele chamavam" de Deus.

No interior do templo construiram uma pia batismal na qual os

índios "se batizavam uns aos outros e uma pia com água benta

com seu hissope e um altar com castiçais de pau com certas le­

tras escritas por que eles ao seu modo liam". Havia também uma

espécie de confessionário onde nativos proferiam sons ininte­

ligíveis aos brancos (75).

A Abusâo do Jaguaripe nâo era composta apenas de sincre-

tismos, representava, igualmente, a resistência dos silVícolas

frente aos avanços da colonização. Neste sentido, as idéias

messiânicas proferidas pelo "Papa nativo" revelam os conflitos

existentes entre colonizadores e o gentio. Silvestre, índio

cristão, participou da Santidade, cultuou seus ídolos, dizendo

,em público "que eles índias haviam de ficar senhores dos bran­

cos e os brancos seus escravos", conforme contou um denuncia­

dor (76). Luiza Barbosa, em denúncia, narrou que os índios se­

guiam um Deus cuja pregação era contra o trabalho, pois os

mantimentos por si só cresciam (77). O Senhor suprema do gen­

tio também prometia solta—los do cativeiro e em seguida trans­

formaria os cristãos em escravos. "Vinha já o seu Deus a li-

vra-1o do cativeiro em que estavam e faze-los senhores da gen­

te branca e que os brancos haveríam de ficar seus cativos"


210
(78). Enfim, as pregaçBes do indio Antônio se voltavam contra

a escravidão do nativo que impeliam os irmãos a trabalhar mui­

to além do suportável. A contrapartida para o massacre perpe­

trado p e l o s b r a n c o s s e r i a t r a n s - f o r m á - l o s e m e s c r a v o s . A partir

da inversão, os índios seriam livres como os seus antepassa­

dos.

□s caraibas exerciam sobre as tribos um poder considerá­

vel . Thévet, Nóbrega e Anchieta foram testemunho atônitos da

ascensão destes profetas junto aos índios, pois os movimentos

se mostravam eficientes contra a propaganda missionária. Entre

os tupi-guaranis, os xamãs eram depositários


sistema de do
/
crença e valores próprios do grupo, fiéis protetores de seus

deuses e guardiães da lei. Aliás, seus discursos possui am a

função de reforçar a unidade tribal, a tradição e lutar contra

os possíveis agentes contrários à perpetuação das leis divinas

(79). Na Santidade do Jaguaripe o xamã não travou luta contra

um chefe usurpados ou contra a centralização de uma comunidade

destituída de poder único. 0 embate se realizou contra os

brancos e a escravidão implantada após o domínio das terras

indígenas. Por isso, talvez, "o Papa nativo" não tenha recor­

rido aos padrdes culturais indígenas, para enfrentar a branca

e sua religião, empregando sincretismos capazes de alimentar o

movimento messiânico com a força ideológica presente na colo­

nização portuguesa. Enfim, os fundamentos religiosos da expan­

são européia serviam à causa dos colonizados.

Alguns depoimentos registrados pelos inquisidores garan­

tem que a "erronia" do Jaguaripe era transmitida pelos negros

da terra. Luisa Barbosa, branca e cristã-velha, confessou

diante da mesa do Visitador que os "negras brasílicos" da casa


Dona Mécia Pereira e das residências de seu pai lhe cantaram

sobre a existência desta "abusâo" e conseguiram persuadi-la a

crer na mensagem propalada pelo "Papa". Assim, devida à sua

pouca experiência (sic) , acreditou, durante "um, ou dois meses

pouco mais ou menos", na "dita santidade parecendo lhe ser

coisa certa verdadeira. .. " (80). 0 mameluco Gonçalo Fernandes

também relatou, inquirido por Heitor Furtada de Mendoça, que

um "brasil negro da terra foi o primeiro que o induziu pregan­

do lhe pela lingua gentia". Depois deste contato, Gonçalo pas­

sou a defender a origem divina do movimento, e assim disse:

"era verdade aquela santidade e que vinha ser Deus". □ m^melu-

co não resistiu por muito tempo aos apelas messiânicas da "er—

ronia" e logo se dirigiu ao sertão, a -fim de se encontrar "com

os principais mantenedores da dita idolatria" (81)

Os -filhos dos conquistadores com "as negras da terra"

também não acei,tavam a dominação branca sem resistências. Mui­

tos deles viveram boa parte de suas vidas ao lado dos parentes

maternos e pouco conheciam os costumes dos "civilizados". A

dualidade racial e cultural transformou os maraelucos em seres

deslocados, nem índiQ, nem branco. Em várias oportunidades,

exerciam, um papel de intermediários entre os colonizadores e

os nativos, influenciando os últimos a trabalhar ' nas áreas

agrícolas e engenhos. Contudo nem todos os mamelucos estavam

satisfeitas com a cristianização empreendida pelos europeus,

por isto não era raro encontrar mestiços contestando passaqens

bíblicas e lançando proposições contra a fé. Antônio Rodri­

gues, lavrador em Pernambuco, confessou a Heitor Furtado que

não acreditava na existência de um mundo além deste, lançando

dúvidas sobre a veracidade das Escrituras Sagradas (82). 0 ma-


#
0

à meluco Lázaro Aranha era, segundo depoimentos, um dos indiví­

duos mais irreverentes da Colônia. Em certa ocasião, -fugiu um


©
o escravo de propiedade do mestiço; a -fim de recupera-lo prome­

teu rezar uma missa em devoção a Santo Antônio. Depois de rea­

lizar a promessa logo o negro -fugida apareceu. Lázaro então se


0
lamentou de ter recorrido ao santo e disse: "que o velhaquinho

de Santo Antônio era azivieiro que sabia muito que lhe não

© quisera deparar o negro senão depois que lhe prometera a mis­

sa..." 0 mesmo delatar contou que Lázaro propalava a existên­

cia de vários deuses, "Deus dos cristãos e outro Deus dos mou­

ros e outros dos gentios" (83) e diziam ainda que Na-foma era

um dos deuses do mundo (84). O mestiço também zombava de ri­

tuais católicos. Em uma sexta— feira da quaresma se -fez um cor­

tejo no sertão; os penitentes levavam candeias e rezavam com

muita devoção, enquanto o dito mameluco fazia zombarias e es­

candalizava a todos que o viam (85). Qs filhas de brancos com


©
negras da terra não eram os únicos a contrariar os preceitos
a
da ortodoxia.
#
Há casos de indios-cristãos que também lançavam dúvidas
rJO
contra os dogmas, desacreditando das palavras proferidas pelos

sacerdotes. Padre Fernão Cardim relatou em denúncia que o ín­

dio Fernão Ribeiro defendia a proposição de que "na comunhão

não havia senão a Morte", aludindo as palavras dos clérigos

durante a missa que relacionavam a hóstia ao corpo de Cristo

(8 6 ) .
I
□s reveses da cristianização não se restringiam aos sin—

0 cretismos e resistências; muitos mamelucos esqueceram tempora­

riamente os preceitos da sociedade cristã e se embrenharam no

ma sertão, vivendo como índios. 0 mameluco Manuel Branco, filho


1

, 213
do -francês Estevão Branco e da negra brasilica Bárbara Branca,

viveu "per sua indústria de mestiço"; quando esteve no inte­

rior comeu carne na quaresma, deu armas aos índios e cometeu

gentilidades (87). Cristovão de Bulhbes também confessou ter

ido para o sertão com Tamacaúna; o último ordenou—o a viver

tal os índios, não respeitando as proibições da quaresma e

dando armas aos gentios (88). Gonçalo Fernandes, por sua vez,

foi delatado por ter fugido para as terras gentias, e lá pra­

ticado idolatrias. Diante de Heitor Furtado de Mendoça, o mes­

mo confessou ter ingerido uma bebida feita de fumo até cair

embriagada. Naquele liquido, contou o depoente, se encontrava

a "espirito da santidade". (89).

Em uma pesquisa sobre a religião dos tupinambás, Alfred

(“l/traux comentou sobre o costume deste grupo indígena de con­

sumir uma bebida fermentada chamada caui m . As bebedeiras se

realizavam em determinadas ocasiões especiais da vida social e

religiosa, comolto nascimento de uma criança, na primeira mens­

truação de uma moça, na perfuração do lábio inferior do mance-

bo, nas cerimônias de preparação e retorno da guerra, no mas­

sacre ritual de prisioneiros ou nos trabalhos coletivos reali­

zados na roça do chefe. Segundo Yves d'Evreux, a dita bebida

era extraída de diferentes plantas, as mais apreciadas eram a

mandioca doce ou amarga, o milho ou o caju. Não há referências



de que a bebida consumida pelos tupinambás fosse extraída do

fumo, como afirmou o mameluco Gonçalo Fernandes. No entanto,

as propriedades inebriantes do liquido possuiam para os tupi­


*
nambás a mesma significação mística descrita pelo mameluco. Na

verdade, a bebida promovia a coesão da tribo, pois quando se


*
esgotava o cau i m , os índios saiam de cabana em cabana para
*

t
§>
s>
214
a compartilhar a bebida com os vizinhos que ainda a possuíam
m
(90) .

3> Lázaro Cunha, par sua vez, nâo se contentou em beber e se


§ embriagar com os silvicolas. 0 mestiça participou de guerras

travadas entre os gentios. ÍMo campo ds batalha,,_"ifirroL!" mui­


|||
tos inimigos, matou-os e "deu a comer aos gentios de cuja com­

panhia ele andava". Lázaro ainda narrou que os indígenas inge­

riam carne humana em "grandes -festas, bailios e regozijos". O

confitente participava das comemoraçftss, mas nunca acreditou

nos feiticeiros (sic) , apesar de se comportar como se -fosse

crente,

"e assim também ajuntava carne de porco com


carne humana e comendo com os ditos gentios a
humana cui .dando eles que também a de porco que
ele comiâ era humana." (91)

Alferd Mêtraux se preocupou em reunir vários relatos de-


J>\*TÍ Until»!
dicados à antropof agHaY^t-W) tupi nambás. 0 grupo indígena, es­

clareceu o estudioso, procurava capturar prisioneiros durante

as guerras e os conduzia consigo amarrados por cordas que en­

© volviam o corpo da vitima. 0 inimigo era lavado à aldeia, onde

esperava o momento de ser trucidado e ingerido pelos homens,

! mulheres e crianças da tribo. A intenção dos gentios era cap-

'
• turar os adversários vivos, pois o prisioneiro pertencia àque­

le que primeiro lhe tocasse. A -ferocidade do combate nem sem­

pre permitia a identificação daquele que teria a honra de con­

duzir a vitima à aldeia. Assim, resolviam ami gavelmente a con­

tenda, matando e dividindo o corpo da mesmo entre os componen­

tes da expedição. Os feridos também eram esquartejados e con­

sumidos no campo de combate. Os tupinambás apenas se preocupa­

vam em levar os orgâos genitais das mulheres e crianças, mor­


#
tas durante a guerra, para serem preparados ao moquém e servi-

Z2i
215
das nas grandes -festas coma um repasto muita apreciado, sobre­

tudo pelas velhas índias. Os prisioneiros levados para a al­

deia poderíam viver anos entre os inimigos, mas um dia seriam

sacrificadas e oferecidas à tribo. As cerimônias preliminares

à execução do último duravam cinco dias, que eram vividos com

muitas -festas e regados a cauim. Depois de morto por golpes de

tacape, o corpo da vitima era minuciosãmente dividida, cabendo

aos diferentes segmentos da tribo uma parte determinada da

mesma (92) . Assim, os relatas deixados por Thévet, Lery e ou­

tros permitem dizer que dificilmente os mamelucos não partici­

param das cerimônias antrcpafágicas, sobretudo aqueles que co­

mo Lázaro Cunha e Tamacaúna eram considerados bravas guerrei­

ros, pois eram compelidos pelas comunidades indígenas a consu­

mir partes do cdrpo humano.

Os mamelucos não eram os únicos a se converter ao modo de

vida dos nativos, os brancos, por vezes, se misturavam à in-

diada e se transformavam em meio brancos, meio índios. João

Brás, em 17 de agosto de 1591, acusou Pantalião Ribeiro de

praticar genti1idades, mesmo sendo cristão e branco. Pantalião

participava das entradas organizadas por Tamacaúna, pois sabia

bem a "lingua dos gentios mamelucos". Uma vez no interior^ se

"rebatizou" ao modo dos gentios na Abusão da Santidade do Ja-

guaripe (93).

A lenda e história de Caramuru pode bem ser o primeiro

caso de conversão do branco ao modo de vida do indígena. Diogo


/
Alvares, contam alguns historiadores, chegou como náufrago à

costa brasileira. Quando ainda estava na praia inconsciente,

foi encontrado por uma nativa, filha de "um índio principal",

que impediu os homens de sua tribo de matá-lo. Caramuru logo


216
5e enamorou da -filha do chefe que, mais tarde, embarcou com o

*'X'\ náufrago rumo à França. Chegando ao seu destino, a índia foi


f

© batizada e recebeu o nome cristão de Luiza Alvares, segundo

Frei Vicente Salvador, e se c a s o u com o companheiro. D casal

não permaneceu muito tempo na Europa; retornou à Bahia, onde

Caramuru armou uma cilada contra os estrangeiros, capaz de ga­

nhar a confiança dos parentes da esposa. Diogo Alvarez, o Ca­

ramuru, proveniente de Viana, se estabeleceu na Bahia e deu


©
origem a uma vasta prole de mamelucos. □ mesmo também se tor­
n
nou o principal ponto de apoio dos portugueses na região da

baia de Todas os Santos. Francisco Pereira Coutinho, primeiro

donatária da Capitania, contou com os seus serviços, apesar de

pairar dúvidas sobre a lisura do vianense no episódio da morte

do donatário. Os cronistas contam que Pereira Coutinho e Cara­

muru retornavam da região sul da recôncavo, na viagem de volta

à Vila Velha, quando os nativos os atacaram. Mas pouparam Dio­

go devido à sua habilidade em se comunicar na "língua gentili-

ca". O episódio permite desconfiar das intenções do náufrago,

pois ele, como líder de boa parte dos indígenas da região, po­
d dería perfeitamente ter planejado a investida da gentio a fim

de aniquilar o poder do donatário.

Depois da e’hegada de Tomé de Sousa e da fundação da cida­

de de Salvador, Caramuru tornou-se o principal fiador da paz

com os silvicolas, executando serviços para o gòvèrnador-ge-

ral . Os préstimos oferecidas ao Estado e Igreja transformaram

o Caramuru em grande proprietário e detentor do titulo de fi­

dalgo. Enfim, o enlace entre Caramuru e as índias da terra

promoveu o grande prestigio do mesmo entre os nativos, sem


/
# contar com o episódio no qual Diogo Alvares traiu os franceses
a
' v:j>

; •' 217-
e impeliu os parentes da primeira esposa a dominar a embarca­

ção estrangeira. 0 vianense permaneceu grande parte de sua

existência junto aos nativos, compartilhando com as silvicolas

de suas crenças e Costumes. A dualidade cultural lhe possibi­

litou ser útil aos brancos, pacificando tribos hostis e reu­

nindo mão-de-obra para os primeiros engenhos e plantaçbes. Os

serviços de Caramuru foram muito bem recompensados, pais sua

linhagem tornou-se proprietária de muitos acres de terra em

torno da baia de Todos os Santos (94).

Domingos Nobre Tamacaúna não era branco como Diogo Alva­

res mas desempenhou a mesma função de intermediária entre por­

tugueses e indios. Tamacaúna era mameluco, filho da pedreira

Miguel Fernandes e da "negra do gentio" Joana. Declarou, em

confissão, que entre os 1B a 36 anos viveu alheia ao cristia­


«
nismo, confessando na quaresma ape?nas por- obrigação. No "dita

tempo foi mais de gentio que de cristão parem nunca deixou a

fé de Crista e essa teve sempre no seu coração". A confissão

de Domingas Nobre é um testemunho admirável da dualidade, ou

maleabi1idadejcultural dos mamelucos. 0 confitente declarou ao


è Visitador que percorreu várias localidades no sertão a manda

das autoridades coloniais. Em cada tribo visitada, o mestiço


• se adaptou aos costumes locais. No interior da Capitania de
é
è Porto Seguro, se pintou com jenipapo, usou cocar de penas,
è tangeu pandeiros e atabaques, cantou em língua gentilica. No
é

J
sertão do Arabo, permaneceu quatro ou cinco anos, teve duas

ê mulheres ao modo gentilica, riscou as coxas, nádegas e braços


è com dente de paca. Tempos depois, voltou a Arabo, a mando do
ê
ê governador Luís de Brito, a fim de “facer descer o gentio para
è o povoado". Na oportunidade, casou com três índias, bebeu com
218
os nativas "a seu -Fuma"; andava nú, chorava e 1amentava"como

eles ao seu uso gentilico". No sertão de Ilhéus passou quator­

ze meses, tingiu o corpo com urucum, teve sete mulheres, bebeu

e bailou sob os tangeres e cantares do gentio.

sa Tamacaúna também percorreu o interior atrás da Ãbusão do

Jaguaripe, mandado pelo governador Manuel Teles Barreto (95).


u&S

0 mameluco, mais uma vez, participou dos ritos e -fez um pranto

© ao chefe da abusâo. "Adorou o dito chamado Papa, e se ajoelhou


w
diante dele dizendo estas palavras, adoro te bode porque hás

de ser odre" (9ó) . A frase proferida diante do sacerdote da

"erronia" demonstra a ambiguidade caracteristica do mameluco,

pois se por um lado se pôs de joelhos e reverenciou o "Papa",

por outra disse que o mesmo era bode e não tardaria a ser

odre- Assim, de bode o xamã se transformaria em odre, que é um

tipo de bolsa feita de couro caprino. A confissão de Domingos

Nobre Tamacaúna é marcada todo o tempo por essa dualidade. No


m
ê sertão, se comporta como um silvícola, um guerreiro destemido,

homem valente e incapaz de demonstrar o seu temor diante da

tribo. Pelos feitos heróicos, Tamacaúna foi reconhecido como

"principal", podendo se casar com várias mulheres. Quando era

preciso fazia a vez de feiticeiro e derrubava a valentia de

seus opositores. Na vila, no entanto, Domingos Nobre assumia o

seu lado europeu, confessava diante dos inquisidores que nunca

deixara de ter fé em Cristo e se arrependia da vida errante.

□ depoimento de Domingos Nobre também revela o papel

exercido pelos mamelucos na sociedade colonial. Os mestiços

eram considerados cristãos, tendo a obrigação de respeitar os

m dogmas e as condutas próprias de um membro da Cristandade. Po­

m rém, as mesmas autoridades que controlavam os corpos e as al—


219
mas dos mameiucos exigiam deles uma conduta ambígua. Nas ter­

ras colonizadas, devsriam ser cristãos exemplares, caso con­

trário o vigário e mesmo a Santo O-ficio poderiam puni-los; en­

quanto no sertão, no seio da mata, no "habitat" dos indígenas

hostis exerciam a função de intermêdiários, ganhando a con­

fiança do genti,o das mais diversas maneiras. Os mamelucos se

tornaram^então, os elementos mais distantes das fronteiras da

Cristandade, declaradamente pagãos, mas nem por isto o Santo

Oficio castigou-os de modo exemplar. Na verdade, os inquisido­

res perceberam a existência de uma coerção social que os impe*-

lia para uma vida desregrada e alheia ao cr isti ani smo.


220

Notas - c a p ft u .1'o IV

1 Delumeau, J. Un chemin d'histoire. Paris., Fayard J.9.81. p

34

2- Idem pp 80-153

3— db pp 304-5

4- db p 335

5- Vain-fas, R. Trópico dos Pecados. Rio de Janeiro, Campus,

1989. pp 94-5

6— db p 380

7— CB p 3B6

8- cp p 27

9- db pp 272-3

10 Febvre, L. □ problema da descrença no século XVI (trad.)


Lisboa, Editorial Inicio, s. d. pp 182-4

11- Idem p 178


«

221
12- Idem p 187

13- Idem p 191

14- Wacktel , N. "A Aculturação" in: Le Go-ff e Nora. Hi stória:

Novos Problemas. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1979. pp

113-29; Veyne, P. "A Helenização de Roma e a Problemática das

Acul turações" Dióqenes, 3: 105-125, 1983. Bastide, R. As Reli-

q ifies Africanas no Brasil. São Paulo, Pioneira, 1971. pp

523-35

15“ Benedict, R. Patterns of Culture. London, George Routledge

and Sons, 1934. p 2

16- Novinsky, A. Cr istãos-Novos na Bahia. São Paulo, Perspec­

tiva, 1972. pp 161-2

17— Idem p 159

18- Idem pp 120-1

19— ver capitulo 2

20- ver db p 263

21- "Monitório do Inquisidor Geral" in: Castro, D. Francisco.

Colletório de Bullas e Breves Apostólicos, Cartas, Alvarás et

Provisões Reaes que contem a instituição e progresso do Santo


I
0-ficio em Portugal... Li sboa , Impressor del Rey, 1634. -folha 4-f

I
$ a 7, "Regimento do Santo O-fício da Inquisição de Portugal" In:

Andrade e Silva, J. J- Coleção Chronologica da Legislação Por­

tuguesa- 1654-40. Lisboa, Imprensa de F. X. de Souza, 1855. pp

375-77

2 2 — DB p 123

2 3 — Lipiner, E. Santa Inquisição: linquaQ em e terror. Rio de

Janeiro, Documentária, 1977. p 79. Trecho citado no capitulo I

desta dissertação.

/'
2 4 — ver db p 123. Trecho citado no capítula I

2 5 — Kayseri ing, M., História dos Judeus em Portugal. São Paulo,

Pi oneira/Edusp , 1971. p 105—34

2 6 — Lipiner, E. Qs judaizantes nas Capitanias de Cima. São


i \

Paulo, Brasiliense, 1969.

2 7 — Azevedo, J. L. História dos Cristãos-Novos Portugueses.

Lisboa, Clássica, 1922.; Kaiserling, M. op. cit.; Wiznitzer,

A. Os Judeus no Brasil Colonial. São Paulo, Pioneira/Edusp,

1966.; Mendes dos Remédios. Os Judeus em Portugal. Coimbra,

1884 —

28— "Monitório do Inquisidor Geral"... O p . cit. loc. cit.

29 Révah, I. S. 'Hérésie Marrane dans 1 ’Europe Catholique du


i

15 au 18 siécle" In: Le Go-f-f , J. (org. ) Hérésie et Société.

i
223

':-*.wrrflKT7r
Paris, M o u t o n , 1968. pp 330-1

30- dp p 5

~ 31— "Moni-tór i o. . . " Op. Cit. p 5 \

^ 32— dp p 5 ç

w 33- Lipiner, E. Inoui si çgto.. . Op. Cit. p 86 . . í

w 34- cb p 76 1 )

35- "Monitório". . . Op. Cit. p 5-f

36- Caso a data -fornecida pela depoente esteja correta, vale

lembrar que era proibida a existência de sinagogas na Peninsu­

la Ibérica, sobretudo após 1536

H 37- cb p 57

w 38- DB p 129

# 39- Lipiner, E.Santa Inquisição... Op. cit. p 2 1

40— db p 336

41- cb pp 75-6

42- Guardar os sábados em nome a honra de Nossa Senhora, se-


• f —

m
m
224
r
0 gundo Lipiner, era comum entre os cristâos-novos. "Isto em de­

corrência talvez de uma interpretação própria dada pelos ju-


m
m
daizantes brasileiros ao que lhes tora ensinado acerca da con­
K m
fusão da velha lei com a nova, devendo, mesmo, aquela ser con­
m
siderada como representação antecipada desta. Com efeito, nos

sermões dirigidos aos cristãos— nov o s , ainda em Portugal, o ju­

deu converso Eusébio explanava 'como o domingo substituia o

sábado, a Páscoa da Ressurreição ao Pão de Azimo, e essas fes­

tividades e cerimônias dos judeus em prefiguração .da Nova

Lei". Lipiner, E. Santa Inquisição... p. 52

43- db pp 246, 320-1, 515-6

44- db pp 28S-9

45- "cristãos-1indos" é o mesmo que cristãos-velh os

46— cb p 24

47- DB p 129

48- DB p 162-3

49- Mello, J. A. Gonsalves de. Gente da Nação. Recife, Mas-

sangana, 1989. p 257 em diante.

50- db p 258

T&
51- db p 267
226
66- dp p 38

67- db p 412

68- Idem p 540 ----- — -----------— •


------ 7

69- Idem p 34B

70- dp p 13

71- dp p 270, 390; Mello, J. A. G. de. op. cit. pp 129-30; db

p 33

72- Clark, S> "Inversion, Misrule and Meaning o-f Wi tchcraf t "

Past & Present. 87: 98-127, 1980

73- C-f Neves, L. F. Baeta. 0 Combate dos soldados de Cristo na

PP ^ d os P apagai os. Rio de Janeiro, Forense—Uni ver si tárl a ,


1978.

74- Calasans, J. A Santidade de Jaguaripe. Bahia, 1952. pp 7-8

75- db p 2,65 e 473

76- db p 454 •

77- cb p 65

78- Idem p 87
227 —

79- Clastres, P. A Sociedade Contra o Estado (trad.) Rio de

Janeiro, Francisco Alves, 1982. pp 110-14

80- cb p 65

81- Idem pp 88-9

82- cp p 67

83- db pp 350-1

84- db p 283

85- Idem p 284

86- Idem p 3 2 8 i

87- cb p 123

88- Idem p 136


i
t

89- db p 423 e cb. p 87

90- Métraux, Alfred. A Religião dos Tupinambás Trad. , 2®. ed .

Sâa Paula, Edusp/Cia Ed. Nacional, 1979. pp 171-74

91- cb pp 107-9
s
228
92- Métraüx, A. op. cit. pp 114-47
©

93- db p 351
© m
# o ®

94- Caiman, P. História da Fundação da Bahia. Publicações do

Museu do Estado da Bahia, 1949. p 23-32, 47-50, 89-90; Salva­

dor, Frei V. História do Brasil. 1500-1627 (1627). Edusp,

1982. p 114; Pinho, W. Aspectos da História Social da

Salvador. 1549-1650. Bahia, 1968. pp 49-82

95- Calasans, J. op. cit. explora a controvérsia existente so­

bre quem mandou Tamacaúna para o sertão atrás da Abusão da Ja-

guaripe. ver pp 19-24

96- cb pp 167-72

\
229

Conclusão

..."todo o povo, toda a nação q u e d e i x a

eclodir a heresia em seu seio, que a culti­

va, que não a e l i m i n a l o g o , corteja a sub­

versão e pode desaparecer."

Francisco Pefta

A representação dos cristãas-novos como judaizante e de­

moníaco revela a pericul osidade destes indivíduos. No entanto,

o judaísmo por si mesmo não constitui a a ameaça mais aterrado­

ra. As investidas do Santo O-ficio não devem, pois, ser conce­

bidas apenas em seu aspecto religioso. Os muitos desvios pre­

sentes nos manitórios e passíveis de delação comp&em uma parte

não desprezível dos temores que a-fligiam a Cristandade. As

proibiçbes de guardar o sábado, defender o "estado de casado"

ou pintar a corpo com urucum não podem ser entendidas em si

mesmasy- mas-re 1ao i-enad-as— a- tim— mev^men%B— de— efHL-s%ian-i-eação— e-om—

intuitos mais amplo: formar cristãos nos moldes da ortodoxia

era requisito básico para se construir uma grande comunidade

cristã. Somente a partir da formação de homens regidos sob os

mesmas preceitos se poderia chegar a um Estado harmonioso e

coeso.

A Igreja e os Estados ibéricas lançaram mão do Santo Ofi-


a
sis
mi
35?
mi
ts 230
W
cio a -Fim de apressar □ desenvolvimento desta sociedade per —
i
$
-feita» 0 Tribunal de Lisboa enviou ao Brasil dois visitadores m
m
£> encarregados de induzir os colonos a identi-ficar os procedi­

mentos suspeitos de heresia e de punir aqueles apontados como


i
desviantes. Muitas denúncias e confissões se miraram nas pala-
I
vras dos monitórios; muitos depoentes se entregaram de corpo e

alma à causa dos inquisidores, depois de assistir as ritos

inaugurais das Visitações. As cerimônias possuiam a exata me­

u."
dida para despertar o respeita e admiração dos colonos, indu­

zindo—os a contribuir com os intentas da Inquisição, Contudo,

os depoimentos registrados pelos notárics indicam que o con­

trole dos inquisidores sobre a população não era total. Alguns

colonos interpretavam os comunicados de maneira errônea; ou­

tras vezes, desvirtuavam as orientações com propósitos torpes.

Há registros capazes de revelar os limites do controle dos vi—

sitadores sabre as comunidades, pois, em repetidas ocasiões, m


m
os depoentes entenderam as mensagens do enviado do Tribunal de
\

Lisboa "à sua maneira" ou segundo seus interesses.

Deste modo, o aspecto religioso é incapaz de explicar a

complexidade das narrativas presentes nos autos das Visita-

ç&es. Para melhor compreendê-las, o estudioso deve mergulhar

na trama política e nas relações conflituosas da sociedade co­

lonial. Depois de conhecer, em detalhes, as rivalidades e hie­ <t


m
rarquias próprias das comunidades, as perspectivas se abrem e
m
as narrativas se tornam mais coerentes, mais próximas da "nos—

racionalidade". 0 estudo quantitativo desta documentação

também se torna inócuo, caso não seja pensado a partir do en­

foque "político" que determina muito dos relatos ouvidos pelos

visitadores. Tal conhecimento permite entender as razões pelas


e o porquê dos cristãos-novos abastados se tornarem o princi­

pal alvo das denúncias. Na verdade, o Santo □•fiei o forneceu

preciosos subsídios ao grupo dominante, para que ele pudesse

perpetuar o séu status social e afastar os suspeitos de marra-

nismo do comando da economia colonial. Contudo, a luta contra

os descendentes dos conversos nàü deve ser concebida apenas

pelo seu enfoque político ou econômico: os colonos se dedica­

vam, igual mente, à causa da Cristandade, e almejavam q sacie-


l
dade idealizada por Deus e pela Igreja.

Se existia, no imaginária cristão, uma sociedade ideal,

havia igualmente o seu contraponto e antítese. Os protestantes

do norte podem ser indicados como um dos maiores inimigos dos

Estados ibéricos. A existência destes heréticos na costa bra­

sileira representava um perigo iminente aos dominion da Cris­

tandade. Os estrangeiros residentes na Colônia, simbolizavam,

da mesma forma, a pienetração do inimigo em terras cristãs, por


\
isto deveriam ser identificados e vigiados, quando não expul­

sas. Os judaizantes, considerados como elementos traidores,

exerciam na mente dos colonos, e para a Inquisição, o papel de

agentes dos protestantes ingleses, holandeses e franceses. D

fato de não partilharem o mesmo credo dos católicos os torna­

vam capazes de trair a Igreja e possibi 1 itar/a perda de terri­

tórios sob o domínio da ortodoxia. Os nativos hostis, muitas

deles aliados dos estrangeiros, deveriam também ser transfor—

madas em fiéis e defensores da colonização portuguesa; caso

contrária, se uniriam aos protestantes, como ocorreu na guerra

da Paraíba.

Enfim, considero a presença de inquisidores nos domínios


*
m
m
m
coloniais como parte de uma estratégia destinada a padronizar m
m
as condutas e desenvolver u m “Sistema Colonial" capaz de pre­ m
servar as -fronteiras da Cristandade. A elite colonial partici­ •■m

pou ativamente deste empreendimento denunciando ricos mercado­


m
res, senhores de engenho cujo o sSngue era de "origem he- #

bréia". Assim, reafirmavam o prestigio e o status de serem


é
) verdadeiras cavaleiros em luta pela Grdem, em nome do Papa e
)
à da Igreja. Ao mesmo tempo, eliminavam o poder político dos
2> cristãos-novos e preservavam o estatuto colonial atribuído .às
I
terras descobertas pelos portugueses na América do Sul. é:

§>
233

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