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PARA O ENSINO MÉDIO

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Kazuhito Yamamoto
Licenciado em Física pela Universidade de São Paulo
Professor de Física na rede particular de ensino

Luiz Felipe Fuke


Licenciado em Física pela Universidade de São Paulo
Professor de Física na rede particular de ensino

OR
COMPONENTE
CURRICULAR
FÍSICA
2ºANO
ENSINO MÉDIO

4-ª- edição - 2016


São Paulo

n,.Editor~
~ Saraiva
Física para o Ensino Médio 2
© Luiz Felipe Fuke, Kazuhito Yamamoto, 2016
Direitos desta edição:
Saraiva Educação Ltda., São Paulo, 2016
Todos os direitos reservados

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Yamamoto, Kazuhi to
Física para o ensino médio, vol. 2 : termologia,
óptica, ondulatória / Kazuhi to Yamamoto, Luiz Felipe
Fuke. -- 4. ed. -- São Paulo : Saraiva, 2016.

Suplementado pelo manual do professor.


Bibliografia.
ISBN 978-85-472-0575-l (aluno)
ISBN 978-85-472-0576-8 (professor)

1. Física ( Ensino médio) I. Fuke, Luiz Felipe.


II. Título.

16-02599 CDD-530.07

Índices para catálogo sistemático:

1. Física : Ensino médio 530. 07

Física para o Ensino Médio


Volume2

Astronautas realizam tarefas


no exterior da Estação
Espacial Internacional, ao
lado do braço robótico
Canadarm2.

Diretora editorial Lidiane Vivaldini Ola


Gerente editorial Luiz Tonolli
Editor responsável Viviane Carpegiani
Editor Marcela Maris
Consultor para o Manual do Professor Bruna Graziela Garcia Potenza
Gerente de produção editorial Ricardo de Gan Braga
Gerente de revisão Hélia de Jesus Gonsaga
Coordenador de revisão Camila Christi Gazzani
Revisores Cesar G. Sacramento, Luciana Azevedo, Ricardo Koichi Miyake,
Raquel Alves Taveira
Produtor editorial Roseli Said
Supervisor de iconografia Sílvio Kligin
Coordenador de iconografia Cristina Akisino
Pesquisa iconográfica Fernando Cambetas
Coordenador de artes José Maria de Oliveira
Design e capa Alexandre Romão com imagens de Eduardo Zappia/Pulsar Imagens
Diagramação Felipe Frade/Francisco A. da Costa Filho/Mareia Sasso
Assistente Bárbara de Souza
Ilustrações Alberto De Stefano, Alex Argozino, Conceitograf, Fernando Monteiro,
Luis Moura, Luiz Fernando Rubio, Marcos Aurélio Neves Gomes,
Maria Yoshida, Paulo César Pereira, Rafael Herrera, TPG
Tratamento de imagens Emerson de Lima
Protótipos Magali Prado
077.911.004.001 Impressão e acabamento
O material de publicidade e propaganda reproduzido nesta obra está sendo utilizado apenas para fins didáticos,
não representando qualquer tipo de recomendação de produtos ou empresas por parte do(s) autortes) e da editora.
Nos livros desta coleção são sugeridos vários experimentos. Foram selecionados experimentos seguros, que não oferecem riscos ao estudante.
Ainda assim, recomendamos que professores, pais ou responsáveis acompanhem sua realização atentamente.

( \ , . Editor~ 0800-0117875
~ Saraiva SA( 1De2•a@,das8hàs18h
www.editorasaraiva.eom.br/contato
Avenida das Nações Unidas, 7221 - 1~ andar- Setor C - Pinheiros - CEP 05425-902

2
Apresentação
A Física é uma ciência que trata da interação entre matéria e energia. É um cons-
tructo humano cujo objetivo é levar à compreensão do mundo. Como outras ciências
ditas "exatas", a Física contribui para o avanço de tecnologias e se desenvolve seguin-
do as premissas do método científico. Física é ciência experimental, pois envolve ob-
servação, organização de dados, pesquisa, capacidade de abstração e formulação de
hipóteses e trabalho colaborativo.
As ciências estão em constante desenvolvimento: não existem teorias ou modelos
definitivos. Por esse motivo, em alguns momentos, você pode ter a impressão de que a
Física está "pronta", como um conjunto completo e linear de fatos conhecidos, mas isso
não é verdade. Em muitos pontos desta obra, você terá oportunidade de perceber que
a Ciência é um processo cumulativo de saberes nem sempre concordantes, e que avança
à custa de construção e desconstrução de consensos e pressupostos metodológicos. Os
conceitos que você deve assimilar estão apresentados segundo essas premissas e articulados
em estratégias de trabalho centradas na solução de problemas para aproximá-lo do trabalho
de investigação científica e da rotina dos processos produtivos.
A Física tem uma linguagem própria, auxiliada pela Matemática, que é o instrumen-
to formal de expressão e comunicação para diversas ciências. Assim, você deve encarar
as situações em que vai usar fórmulas, equações e gráficos como momentos privilegiados
em que é possível "ver" os fenômenos físicos se manifestando por intermédio da linguagem
matemática.
O estudo das ciências no Ensino Médio também tem como objetivo prepará-lo para
o mundo do trabalho e o exercício da cidadania, da ética, da prática da autonomia inte-
lectual e do pensamento crítico; isso quer dizer que esta fase de escolaridade tem a
função, entre outras, de torná-lo apto a planejar, executar e avaliar ações de interven-
ção em sua realidade, que é a escola, o trabalho ou outras circunstâncias relevantes de
sua vida.
A tecnologia e as Ciências Naturais realimentam-se mutuamente. Tanto o avanço das
ciências tem reflexos no desenvolvimento tecnológico como o inverso também acontece,
e você terá oportunidade de constatar isso na vida pessoal, nos processos de produção,
na evolução do conhecimento e na vida social. Afinal, não é estimulante saber que na
produção de um simples computador doméstico há mais tecnologia reunida do que
toda a tecnologia necessária para colocar o ser humano pela primeira vez na Lua?
Bem-vindo a esta importante etapa da jornada. Esperamos que ela lhe seja prazerosa
e proveitosa.

Os Autores

3
Conheça este livro
Entre os instrumentos de que você pode dispor para seu aprendizado, o livro didático
é um dos que lhe dará maior oportunidade de autonomia.
Conheça este aliado, suas seções e as possibilidades de trabalho para aproveitá-lo da
melhor maneira.
As aberturas de unidade
mostram a essência do
tema e sua importância,
sua gênese, aplicações e
relações com outras áreas do
conhecimento, das Ciências
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• CAPtnH.o 9 As leis da rellexio e os espelhos esft!ricos

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• CAPtnH.O 'li» RefraÇio da luz

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•CAPtnH.o 'li Lentes esft!ricas
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do trabalho. -----• .~--,.......,_.. . ,_._ ,..,,. ...H.,. ...... •CAPtnH.O'B Õplicadavisãio

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Ondas sonoras (Acústica)


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Outras palavras
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Ondas sonoras
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revê-los como ampliá-los,
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Atividade prática
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Organizando as Ideias do texto


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A Física é uma ferramenta para se
entender a natureza. Pelo seu caráter
experimental, você deve pôr a mão
na massa! Aproveite a seção Na seção Outras palavras você tem
Atividade prática para comprovar a oportunidade de verificar como o
alguns fatos fundamentais, com assunto que está sendo estudado é
experimentos muito simples e tratado por outros autores, em outros
seguros, utilizando materiais e contextos e mídias.
recursos fáceis de obter.
Siga sempre as orientações de seu
professor para a realização eficaz
e segura de cada atividade.

4
A Física A Física na História
no cotidiano Ot,o,o,.. napãgimanterior<lmnjurrtódé Í'Mgensdo"""""'r<lSl<l:
Murnairnagerndiõtirtapara<adatirx,deóbjok,.~A. U C.odairna-
ll<''" "' forrna"°'reflol<\O;rnau: ernD,HHOr<l<ló •sthlrá<dovilró,
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A FÍSICA NO COODIANO
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A FÍSICA NA HIS'TÕltlA
Sobre as primeiras lentes
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Muitas vezes optamos por
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:~ do~,.~~a:::~= :-.::rkooudo~:=: : : ~
""'"''·~·· .... ,~- ... uma sequência diferente dos
fatos históricos. Na seção
A Física na História, vamos
contar as circunstâncias que
cercaram algumas descobertas,
os cientistas envolvidos,
as teorias paralelas, as
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controvérsias, a evolução de
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l<mum.,qo,ocl,<j,}m., clo vàa<S, uma.o,quo<Jk1ti""'poo-,;;>cclom.:,i,f.:,1em • m modelos e o contexto político
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da época.
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<1o,,,m;,c~>,=><>>d>i€,<e>laooclo.:,gLçlo d;a; paO~• lit>cloum>Ol.<.'fll.1.

Muitas decisões que tomamos em


situações corriqueiras são justificadas
pelos mesmos conceitos que regem
os movimentos dos planetas e o
comportamento dos átomos e das ondas Exercícios
eletromagnéticas. Na seção A Física no
cotidiano você perceberá que a Física
está em todo lugar!
propostos

Exercícios
Para saber mais resolvidos
Organizando as Ideias do taxto

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Você leu os textos, as seções e atividade pode
verificou seu conhecimento. Se ser realizada em Seleção de exercícios escolhidos
você deseja saber mais, aproveite dupla ou grupo. cuidadosamente para verificar como
as sugestões para conhecer outros a Física funciona, para ampliar seus
livros, revistas, mostras, museus, conhecimentos e relacioná-los com os
filmes, aplicativos e sites da assuntos mais atuais.
internet.

5
Sumário
UNIDADE 1 CAPÍTULO 5 - Estudo dos gases 72
Variáveis de estado 73
TERMOLOGIA 8 Transformações gasosas 74
A Hipótese de Avogadro e o conceito de mol 78
CAPÍTULO 1 -Termometria 10 Teoria cinética dos gases 80
Temperatura 10
Mistura de gases 82
A Física no cotidiano - Variações de
Atividade prática - Examinando os
temperatura 11
modelos cinéticos dos gases 83
Termômetros e escalas termométricas 13
A Física na História - Sobre as escalas
termométricas e seus criadores 15 CAPÍTULO 6 - Termodinâmica 85
A Física no cotidiano - Outras temperaturas Trabalho envolvido na transformação do gás 88
encontradas no Universo 17 Primeira Lei da Termodinâmica 91
Outras palavras - Micro-ondas 17 A Primeira Lei e as transformações gasosas 93
A Física no cotidiano - Observe as cores A Física na História -Julius Robert von Mayer 97
de uma chama 18
A Segunda Lei da Termodinâmica 102
Máquinas térmicas 105
CAPÍTULO 2 - Dilatação de sólidos
A Física no cotidiano - Motor de explosão
e líquidos 20
de veículos automotivos 107
Dilatação térmica dos sólidos 20
Ciclo de Carnot 107
Outras palavras - Concreto armado 27
Outras palavras - O preço da ordem 109
Outras dilatações térmicas 28
Atividade prática - Observando a
dilatação anômala da água 30
UNIDADE 2
CAPÍTULO 3 - Calorimetria 32
O calor 32 ÓPTICA GEOMÉTRICA 114
A Física no cotidiano - Mais unidades
CAPÍTULO 7 - Princípios da óptica
de energia 33
geométrica 116
A propagação do calor 34
Luz 117
Condução térmica 35
Convecção térmica 36 Princípios da óptica geométrica 121
Irradiação 37 Aplicações da propagação retilínea da luz 121
Fluxo de calor por condução 39 Outras palavras - As constelações
Radiações térmicas e a lei de Stefan-Boltzmann 41 indígenas brasileiras 124
Efeitos do calor 42 Cores e velocidades da luz 128
Calor sensível e calor latente 43 Atividade prática - Simulando o disco
Atividade prática -Analisando a curva de de Newton 128
aquecimento e a equação fundamental
da calorimetria 44 CAPÍTULO 8 - As leis da reflexão e
Quantidade de calor latente 46 os espelhos planos 132
Troca de calor entre corpos e sua lei geral 47 Leis da reflexão 133
Atividade prática - Examinando o banho-maria 50 Imagem de um ponto objeto 134
Outras palavras - Furacões 51 Imagem de um corpo extenso 135
A Física no cotidiano - A imagem e
CAPÍTULO 4 - Mudanças de estado 56 o carimbo 135
Vaporização e condensação 58 Deslocamento e velocidade da imagem 135
A Física no cotidiano - Panelas de pressão 60 Campo visual de um espelho plano 138
Fusão e solidificação 61 Associação de dois espelhos planos 138
lsotermas de Andrews 64 Rotação de um espelho plano 139
Diagrama de fases 65 Atividade prática - Observando imagens
Atividade prática - Analisando a pressão e em uma associação de espelhos 141
a temperatura 66 Outras palavras - A luz é uma onda ou
Higrometria 68 é uma partícula? 142

6
CAPÍTULO 9 - As leis da reflexão e os CAPÍTULO 13 - Óptica da visão 213
espelhos esféricos 145 Estrutura do globo ocular 214
Elementos de um espelho esférico 146 Comportamento óptico do globo ocular 214
Leis da reflexão 146 Acomodação visual 216
Condições de nitidez de Gauss 147 Defeitos da visão 217
Focos de um espelho esférico 148 Outras palavras - Medicina preventiva 220
Propriedades de um espelho esférico 149
Estudo geométrico - construção geométrica UNIDADE 3
de imagens 151
A Física no cotidiano - O ponto cego dos ONDUIATÓRIA 224
espelhos retrovisores 154
Outras palavras - O Princípio da Ação Mínima: CAPÍTULO 14 - Oscilações 226
a natureza é econômica 155 Oscilações 227
Estudo analítico - descrição matemática das A Física na História - O pêndulo
imagens 155 de Foucault 228
Atividade prática - Construindo um banco Oscilações em sistemas mola-partícula 229
óptico 158 Descrição das grandezas do MHS 232
Período de oscilação do sistema massa-mola 233
CAPÍTULO 1O - Refração da luz 160 Outras palavras - Queda livre pelo centro
A refração da luz e a sua medida 161 da Terra 235
Leis da refração luminosa 164
Atividade prática - Examinando a refração 165 CAPÍTULO 15 - Ondas 237
Ângulo limite e reflexão total 166 Natureza das ondas 238
A Física no cotidiano - Fibra óptica 167 Tipos e classificações das ondas 239
Dioptro plano 168 Velocidade e comprimento de onda (A) 240
Lâminas de faces paralelas - desvio lateral 170 Função de onda 242
Prisma óptico 171 Fenômenos ondulatórios 244
Decomposição ou dispersão da luz branca 174 Ondas unidimensionais 244
Efeitos produzidos pela refração 175 Ondas estacionárias 247
Outras palavras -A curvatura da luz na Ondas bidimensionais 249
atmosfera 177 Atividade prática - Observando a
propagação das ondas 255
CAPÍTULO 11 - Lentes esféricas 181 Outras palavras - Ondas: alterações em
A Física na História - Sobre as águas rasas 257
primeiras lentes 182 Ondas tridimensionais 258
Atividade prática - Observando objetos
com uma lupa 183 CAPÍTULO 16 - Ondas sonoras (Acústica) 263
Entendendo as lentes esféricas 184 Ondas sonoras 263
Propriedades das lentes esféricas 190 Velocidade do som 265
Construção geométrica de imagens 191 A Física no cotidiano - Escala Richter 265
A Física no cotidiano - O olho mágico e Qualidades do som 267
seu reversar 191 A Física no cotidiano - Teclas de um piano 267
Estudo analítico das imagens das Outras palavras - Poluição sonora 269
lentes esféricas 194 Fenômenos ondulatórios do som 270
Associação de lentes esféricas justapostas 198 Outras palavras - O timbre 272
Frequências naturais e ressonância 274
CAPÍTULO 12 - Instrumentos ópticos 201
Cordas vibrantes 275
A lupa 203
Tubos sonoros 278
O microscópio composto 203
Efeito Doppler 281
A luneta 204
O telescópio 206 RESPOSTAS DOS EXERCÍCIOS PROPOSTOS 285
Outras palavras - Telescópios refratares 207
A Física na História - Os telescópios espaciais 207 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 288
A máquina fotográfica 208
O projetor 209
Manual do Professor - Orientações
Atividade prática - Construindo um periscópio 21 O Didáticas 289

7
LU
o
<(
o
z
::::)

Nesta unidade vamos entrar em contato com a Termologia, um ramo rico da


Física Clássica.
As grandezas centrais da Termologia são o calor e a temperatura, ambas
relacionadas com a quantidade de energia dos corpos, aqui interpretados como
sistemas de muitas partículas. A temperatura dos corpos e o calor trocado en-
tre eles altera suas dimensões e também a forma de agregação das partículas
que os compõem. Considerar a constituição interna da matéria representa uma
novidade em relação à descrição de suas características mecânicas: quando dize-
mos que um objeto se move com certa velocidade ou tem determinada energia
potencial gravitacional, nada sabemos sobre como se comportam as partículas
microscópicas que o compõem. Por esse motivo, em muitas oportunidades pu-
demos considerar objetos extensos como pontos materiais. E, ao contemplar as
variáveis que regem as transformações internas da matéria, a Termologia com-
partilha vários conceitos com a Química.
De fato, os gases representam o primeiro estado físico da matéria a ter um
modelo microscópico. Esse modelo é a extensão de três leis empí-
ricas que relacionaram a temperatura a seu volume, pressão e
quantidade de partículas. Tais investigações, mais a consta-
tação de que o comportamento de sistemas formados por
grande número de elementos é probabilístico, culminaram
com a Teoria Cinética dos Gases, a Mecânica Estatística
e a Termodinâmica. Começando pela temperatura e as
diversas escalas, investigaremos as diferenças entre calor
e temperatura, o fenômeno da dilatação, a transmissão
de calor e o balanço energético do planeta, as mudanças
de fase e as grandes questões da Termodinâmica.

No mesmo balão volumétrico,


vemos o bromo {Br2) nos estados
sólido, líquido e gasoso; a fase
líquida ocupa a maior fração
do volume do balão, enquanto
a gasosa é a que tem o menor
número de partículas.
o
.....J
=>
l::
a..
<(
Termometria
u

Hoje vai fazer calor? Para encontrar a resposta poderíamos consultar a previsão do
tempo, que indica as temperaturas máxima e mínima esperadas no decorrer do dia. No
entanto, será que calor e temperatura são a mesma coisa? O fato é que, assim como a
massa, o comprimento e o tempo, calor e temperatura são grandezas físicas (distintas).
No Brasil, usamos a escala Celsius para medir temperaturas que vão desde -11 ºC
(lê-se "menos onze graus Celsius"), já registradas no inverno da região Sul, até pró-
ximas de 45 ºC, no interior da região Nordeste.
Considerando esses extremos, diríamos que uma temperatura em torno de 23 ºC
é bastante agradável, como a de um dia típico de primavera na capital paulista.
Mas, quando nos mostram que a temperatura em Detroit, Estados Unidos, é de
46 ºF (lê-se "quarenta e seis graus Fahrenheit"), está frio ou quente por lá?
Na abertura de um jogo de futebol americano realizado em Detroit e transmitido
por uma lV brasileira, o narrador fez a seguinte observação: "A temperatura, am-
biente de 46 ºF, mostrada pela geradora das imagens, corresponde a aproximada-
mente 8 ºC".
Além de conhecer a escala termométrica que está sendo adotada, precisamos
saber o que estamos medindo quando tomamos a temperatura de um objeto ou
ambiente.
Intuitivamente estabelecemos uma relação entre a temperatura de um corpo ou
objeto e a sensação de "calor" ou "frio" que ele proporciona. Claro que, para ter-
mos a certeza de que a impressão está correta, devemos medir a sua temperatura.
Nesta unidade estamos iniciando o estudo da Termologia, um ramo da Física que
estuda o calor, suas manifestações e implicações, e que se estenderá até o capítulo 6.
Neste capítulo, propriamente, veremos uma de suas divisões: a Termometria. Assim,
vamos conhecer as grandezas físicas temperatura e calor, estudar as leis que regem
a medição da temperatura, ver as escalas termométricas consagradas e aprender a
realizar conversões entre as medidas tomadas a partir delas.

Temperatura
Agitação das partículas, energia térmica e temperatura
A temperatura do nosso corpo varia de acordo com nosso estado de saúde e
t1 Termômetros
em função das atividades que realizamos. Ainda assim, ela não sofre oscilações clínicos medem
temperaturas de
muito grandes: o metabolismo humano mantém a temperatura do corpo entre seres humanos
35 ºC e 42 ºC. (que podem variar
entre 35 ºC e
O metabolismo é o conjunto de reações químicas responsáveis pelas atividades 42 ºC). Há um
celulares que garantem o funcionamento dos processos vitais e sofre influências, estrangulamento
no capilar interno
entre outros fatores, da temperatura. que evita que
Sabemos, experimentalmente, que um conjunto mais agitado de partículas (áto- o líquido desça
repentinamente
mos, moléculas ou grupos iônicos) sofre reações químicas mais rapidamente do que
enquanto fazemos
outro menos agitado. a leitura.

10 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
••••
A FfSICA NO COTIDIANO

Variações de temperatura
Observam-se no Universo marcas de temperatura que apresentam variações da ordem de milhões de graus
Celsius; em contrapartida, a homeostase dos seres vivos (processo de regulação que mantém o organismo em
equilíbrio) só é garantida em um intervalo de temperaturas relativamente estreito.
Um dos motivos de o ser humano ter se estabelecido como espécie dominante na Terra foi o fato de ele ter
se adaptado a ambientes em que a mudança de temperatura era significativa.
Alterações de alguns graus na temperatura são suficientes para provocar desde indisposições físicas nos seres
humanos até grandes alterações climáticas que afetam todos os ciclos biogeoquímicos.
O derretimento mais acentuado das geleiras, por exemplo, é uma das consequências do aquecimento global.

A Antártida, situada no
extremo sul do planeta, é o
local mais frio do mundo,
apresentando temperaturas
entre O ºC e -65 ºC. Apesar
das condições inóspitas,
ela tem uma fauna nativa
relativamente diversificada
e recebe anualmente
milhares de pesquisadores
que se fixam em bases
internacionais. Fotografia de
outubro de 2015.

w
-~
X
"'e
-~
8

Estando a céu aberto e sujeitos a O assentamento de Dallol, na região de deserto da Etiópia, é um dos
intempéries, os termômetros de rua lugares mais quentes do mundo. A temperatura média anual lá é de
fornecem temperaturas apenas aproximadamente 34 ºC e alcança facilmente os 60 ºC em um dia de
aproximadas. verão. Fotografia de dezembro de 2014.

As partículas nos estados líquido e gasoso estão em constante movimentação;


nos sólidos, esse movimento se caracteriza por pequenos deslocamentos em torno
de uma posição de equilíbrio. Qualquer que seja o estado das partículas, é de se
esperar que suas velocidades (delas próprias ou umas em relação às outras) apresen-
tem uma grande gama de valores, uma vez que qualquer porção de matéria tem um
número muito grande delas.
O estado de agitação do material está associado à energia cinética média das
partículas (que são em grande número), e a temperatura mede esse estado de agi-
tação. Por isso, dizemos que o estado de agitação é uma grandeza estatística (isto é,
associado a um conjunto numeroso de elementos) e macroscópica, que depende de
medições indiretas para se determinar o seu valor: a temperatura é, então, a gran-
deza macroscópica associada ao estado de agitação das partículas de um sistema.

CAPÍTULO 1 • TERMOMETRIA 11
É nesse sentido que a natureza da grandeza temperatura difere da natureza da
massa ou da velocidade: podemos atribuir uma massa tanto a uma partícula quanto
a um corpo, mas não há sentido em dizer que a partícula tem uma temperatura,
ainda que o senso comum assim o entenda.
Sabemos que a sensação de calor ou de frio é subjetiva (por exemplo, uns
sentem mais frio que outros, na mesma temperatura ambiente), e isso pode ser morna

mostrado facilmente com um experimento muito simples. Mergulhe uma das mãos
em água morna, retirada do chuveiro, e a outra em água fria com cubinhos de gelo,
durante alguns instantes. Depois, coloque-as simultaneamente em um mesmo reci-
piente contendo água morna. A sensação térmica que se tem é a de que as duas
mãos estão imersas em água com temperaturas distintas, pois em uma delas "sen-
te-se mais frio" e na outra, "mais calor". Por essa razão, a sensação física de calor
ou frio não serve para definir o que é temperatura.
Apesar de os sentidos não serem bons indicadores de temperatura, esse experimen-
to indica que há uma relação (pelo menos qualitativa) entre o estado de agitação e a
sensação térmica: à medida que aumentamos a temperatura da água, suas partículas
sensação de sensação de
ficam em estados de agitação mais intensos, que produzem sensações térmicas mais
"mais frio" "mais quente"
pronunciadas. Dizemos então que a agitação das partículas é uma agitação térmica.
Mãos mergulhadas em água
Dito isso, podemos apresentar os conceitos de energia térmica e temperatura. a temperaturas diferentes
registrarão sensações térmicas
distintas, para cada mão, ao
Energia térmica (do grego thermós, "quente, ardente") é a soma das energias entrar em contato simultâneo
cinéticas decorrentes da agitação das partículas que constituem a matéria. com um mesmo material.

Temperatura é a medida associada ao grau de agitação das partículas de um corpo


ou sistema físico. Portanto, ela indica o nível de energia térmica média das partículas.

o
:.ã
::,
"'o
"O
e:
"'e:
~
N
3

menor agitação térmica maior agitação térmica

Calor: aquecimento e resfriamento


Se deixarmos uma taça de sorvete bem gelado em um ambiente quente, com o
tempo ele se transformará em um creme derretido. Isso acontece porque o sorvete
entra em contato com o ar quente ao seu redor, o que provoca a elevação da sua
temperatura e, consequentemente, seu derretimento.
Mas por que será que o sorvete não continua a se aquecer até atingir tem-
peraturas mais altas? Ou, ainda, por que será que o sorvete não resfria o ar até
congelá-lo?
A água quente contida em uma panela em um ambiente com temperatura infe-
rior à do líquido tende a esfriar.
Esses e outros fatos corriqueiros parecem indicar que o calor flui naturalmente da
matéria mais quente para a mais fria (ou menos quente), até que seja alcançada
uma temperatura de equilíbrio - o ambiente quente derrete o sorvete e o ambiente
O ar ambiente fornece calor para
frio esfria a água quente. o sorvete.

12 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
O contrário, no entanto, não acontece. De fato, se desejarmos que a água es-
quente novamente, será preciso levá-la ao fogo para promover seu reaquecimento.
Observa-se experimentalmente que, quando corpos com temperaturas distintas
são colocados próximos, todos eles tendem a adquirir a mesma temperatura final.
Pensando na maneira como interpretamos o aquecimento e o resfriamento dos
corpos, podemos entender que o fluxo de calor, indo do mais quente para o mais
frio, encerra-se quando a temperatura deles se iguala.
Se a temperatura aponta o nível médio de energia térmica das partículas de um
corpo, então o aquecimento e o resfriamento a que elas são submetidas devem estar
relacionados com a variação de algum tipo de energia.
Baseando-nos no Princípio de Conservação de Energia, é razoável dizer que
essas partículas, ao movimentarem-se, trocam uma forma de energia que cha-
maremos de calor.

Calor é a energia térmica em trânsito que está sendo transferida de um corpo a


outro devido à diferença de temperatura existente entre eles - sempre do corpo de
temperatura mais elevada para o de menor temperatura.

Observe que, do modo como foi definido (isto é, do ponto de vista da Física), não
há sentido em dizer "o calor de uma partícula, corpo, substância, objeto ou siste-
ma", pois ele não está contido na matéria. Nesse caso, o correto é falar da energia
térmica de um corpo ou objeto e do calor cedido ou recebido por ele.
Quando a passagem de calor de um corpo para o outro se encerra, eles atingem
um equilíbrio térmico.

Fluxos de calor: pelo sentido Equilíbrio térmico é o estado em que a temperatura compartilhada pelos corpos,
das setas, é possível prever depois de cessada a transferência de calor entre eles, é idêntica.
qual é a ordem crescente das
temperaturas do ar, da água e
do gelo? Vale salientar que dois corpos em equilíbrio térmico podem possuir quantidades
diferentes de energia térmica. Um copo com 200 ml de água a 80 ºC tem muito
mais energia térmica do que uma colher de chá de água à mesma temperatura.
Assim a energia térmica que um corpo possui está vinculada à quantidade de
calor que ele é capaz de ceder ou receber.

O Princípio Zero da Termodinâmica


Sabemos que quando dois corpos estão em equilíbrio térmico, eles têm a mesma
temperatura e não trocam calor. Como decorrência, se um deles estiver em equilíbrio
Usaremos nesta obra a variável térmico com um terceiro corpo, o outro também estará.
0 (teta) para representar
temperaturas, a fim de evitar
confusões com a variável t,
0, = 02 e 02 =03 • 0, =03
que representa normalmente Assim, os três corpos terão a mesma temperatura. Esse fato é conhecido pelo
o tempo. Apenas usaremos T nome de Princípio Zero da Termodinâmica. O princípio tem esse nome por ser a base
para temperaturas absolutas,
em Kelvin. dos outros dois princípios da Termodinâmica, que estudaremos brevemente.

Termômetros e escalas termométricas


É em função do Princípio Zero da Termodinâmica que podemos mensurar a tem-
peratura de um objeto utilizando um termômetro.

Termômetros são dispositivos que contêm um material (a substância termomé-


trica) que sofre variação regular de alguma característica quando submetido a dife-
rentes temperaturas.

CAPÍTULO 1 • TERMOMETRIA 13
Essa característica pode ser a capacidade da substância de dilatar-se, de
emitir elétrons, de resistir à passagem de corrente elétrica etc.
®
O termômetro funciona do seguinte modo: colocando-o em contato
com o objeto cuja temperatura se pretende obter, quando o equilíbrio
térmico é alcançado, a marca verificada nele corresponde à temperatura
""O
do objeto, de acordo com o Princípio Zero da Termodinâmica. -~
o
Os termômetros mais comuns são os de vidro, compostos de um bulbo e
um tubo capilar (de diâmetro comparável ao do fio de cabelo) que encerra a
substância termométrica, em geral uma solução colorida de álcool. ®
O volume desses materiais sofre variações proporcionais à variação de
temperatura, fazendo a coluna do líquido subir ou descer no interior do
tubo capilar.
O tubo capilar é montado sobre uma escala estabelecida, e o nível da
coluna do líquido sobre ela determina a temperatura que desejamos saber.
A maneira como se gradua uma escala termométrica é arbitrária, mas
nela sempre são indicados dois pontos fixos de estados térmicos bem defi-
nidos, sob uma pressão atmosférica normal. São eles:
• o ponto de gelo (1 2 ponto fixo): é o ponto de fusão do gelo;
• o ponto de vapor (22 ponto fixo): é o ponto de ebulição da água.
Entre esses pontos, define-se arbitrariamente um número qualquer de
graduações, sendo que o intervalo considerado entre duas marcações
Há dispositivos, como o termopar (A), o
consecutivas constitui a unidade de medida da temperatura na escala termômetro digital (B) e o termômetro de
considerada. fita (C), que informam a temperatura por
meio de propriedades elétricas, eletrônicas
ou químicas.
Escalas e conversões
No começo deste capítulo, mencionamos duas escalas: a Celsius e a Fahrenheit.
Além dessas duas, há uma terceira que é usada com frequência na pesquisa cien-
tífica: a escala Kelvin, também denominada escala absoluta, cuja unidade de
medida é o Kelvin (símbolo K) e é a medida de temperatura adotada no SI (Sistema
Internacional de Unidades).
Cada uma dessas escalas foi construída com referenciais distintos, mas, para que
seja possível comparar as temperaturas aferidas entre si, foram definidos os pontos
fixos aos quais nos referimos anteriormente:
• no ponto de gelo, os valores nas três escalas são: O ºC (na escala Celsius) = 32 ºF
(na escala Fahrenheit) = 273 K (na escala Kelvin);
• no ponto de vapor, os valores correspondentes são: 100 ºC (na escala Celsius) =
= 212 ºF (na escala Fahrenheit) = 373 K (na escala Kelvin).
Em cada escala termométrica, o intervalo entre os dois pontos fixos é assim
dividido:
• Celsius: 100 partes; • Fahrenheit: 180 partes; • Kelvin: 100 partes.
Disso conclui-se que a variação de 1 ºC corresponde à variação de 1 K, apesar de
os valores das temperaturas serem diferentes.
Agora, vamos aprender a fazer as conversões que devem ser efetuadas para que
possamos identificar as medidas correspondentes entre as escalas termométricas.
Utilizamos as proporções entre os intervalos de temperatura, cruzando-as
com os referenciais dos pontos fixos, e empregamos uma regra de três.

14 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
Veja o esquema a seguir:

100 ºC ----------- 212 ºF -----------· 373 K -- ponto de vapor ----------- ----

-- temperatura a ______ _
--------------- 0r ---------------· T
ser comparada [ y

O ºC ------------· 32 ºF ----------- 273 K -- ponto de gelo ___ J______ ----


Em cada escala é determinada a razão correspondente a ..25.._
y
As igualdades entre essas razões estabelecem as correspondências na conversão
dos valores, entre escalas distintas, de uma mesma temperatura:
X 0c - 0 0c , .
y = 100 _ 0 = 100 , em que 0c e a temperatura na escala Cels1us.

x eF - 32 eF - 32
Y = 212 _ 32 = 180 , em que 0F é a temperatura na escala Fahrenheit.
; = 3; ; !i~ 3 = T~ JZ 3 , em que T é a temperatura na escala Kelvin.

Comparando essas razões, duas a duas, em relação à escala Celsius, temos:

0F- 32
180 •

~
100
= T -100
273 • 0
e
=T - 273 ou T = 0c + 273

Por exemplo, a temperatura de 46 ºF, em Detroit, corresponde a:

0c = 46 - 32 • 0 = 7 8 ºC
5 9 e '
Essa mesma temperatura na escala absoluta vale aproximadamente 280,8 K.

••••
A FfSICA NA HISTÓRIA
Sobre as escalas termométricas e seus criadores
Na verdade, apenas a escala criada pelo astrônomo sueco Anders Celsius (1701-1744) partiu dos pontos
fixos de gelo e de vapor de água - e, mesmo assim, ela inicialmente atribuía o O para o ponto de vapor e 100
para o do gelo. Como havia cem intervalos consecutivos entre os pontos fixos, a escala Celsius foi chamada
de escala centígrada.
A partir de relatos de muitos experimentos, o físico e inventor alemão Daniel Fahrenheit parece ter se base-
ado em três pontos fixos para criar um termômetro de álcool e também um de mercúrio: a temperatura de uma
mistura de água, gelo, álcool e amônia provia o ponto zero; uma mistura de água e gelo, o valor 32 e a tem-
peratura de uma pessoa saudável, o ponto 96. O valor de 212 para o ponto de vapor foi obtido mais tarde,
como referência para a comparação com as outras escalas.
William Thomson (1824-1907), conhecido como Lorde Kelvin, partiu de premissas diferentes. Trabalhando com
a transformação de gases, ele percebeu que, resfriando um gás de 1 ºC a O ºC, sob pressão constante, seu volume
diminuía em 2; 3 do valor inicial. Como a pressão também decorre da agitação térmica das partículas de gás,
Kelvin concluiu que, se sua temperatura diminuísse até -273 ºC, seria atingido o estado de agitação nula. Assim,
ele adotou o valor -273 ºC como o ponto de origem dessa escala, não havendo temperaturas abaixo dele no
mundo físico, que é o domínio da ciência experimental, empírica. Na prática, o zero absoluto é inatingível. Mas
hoje sabe-se que seu valor está bem próximo de -273, 15 ºC. É por esse motivo que a escala Kelvin também é
chamada de escala absoluta.
Outras escalas foram criadas, como a Rankine e a Réaumur, mas acabaram entrando em desuso.

CAPÍTULO 1 • TERMOMETRIA 15
• • Exercícios resolvidos
••
ER1. Calcule a temperatura, em uma escala X, que cor- Observação:
responda a 20 ºC, de modo que fique de acordo com o Como a variação de cada grau Celsius corresponde a
esquema mostrado. 1 K, a modificação de 20 ºC é equivalente a 20 K.
e
·i 100 ºC
~
200 ºX b)
o
"O
e:
100 ºC --------------- 212 ºF
~
"'e:
ifj
20 ºC --------------- X 0c 2 t20-----------t
°c ~er
0F2
'S. O ºC --------------- -50 ºX 0c 1 ------------- 0r1
~
] O ºC --------------- 32 ºF
Resolução: Agora, as proporções são:
Utilizando a proporção entre os intervalos de tempe-
A0F A0c A0F
ratura, combinando-as com os referenciais dados pe- ----• -=-•
212- 32 5 9
los pontos fixos da figura, temos:
20 A0F
100 ºC • -=-•
5 9

20 ºC ER3. Uma escala termométrica X é relacionada com a


Celsius conforme mostra o gráfico.
O ºC
a) Qual é o valor de x na escala X em função da tem-
peratura 0 na escala Celsius?
a _ 20 - 0 = X - (-50) • 1._ = X + 50 • X = 0 ºX
b 100 - O 200 - (-50) 5 250
b) Calcule a temperatura em ºC quando x = 3 ºX.
Observação: X (ºX)

No lugar da escala X, poderíamos usar outra com a 10


graduação feita incorretamente. O modo de encontrar
a temperatura certa, mesmo utilizando uma escala
mal graduada, segue o mesmo método de cálculo, em- o----------~----
pregando a proporção entre os intervalos de tempera- -5 e (ºC)
tura nas duas escalas (uma correta e outra incorreta).

ER2. Se na escala Celsius houver uma variação de tem- Resolução:


peratura de 20 ºC, então qual será a variação corres- a) Vamos visualizar os valores correspondentes utili-
pondente na escala: zando o esquema usual:
a) Kelvin?
b) Fahrenheit?
Resolução:
18 ºC
------- } .
10 ºX

a) e ----Ja---- --- X

100 ºC --------------- 373 K O ºC ---- ------ --- -5 ºX


C2 f 20·-----------f T2
ºC ~T
e, ------------- T, a 0c - 0 X - (-5) 0c X + 5
-=--=-~~ • -=-- •
O ºC --------------- 273 K b 18-0 10-(-5) 18 15

• 0c = X +5 • X = 50c _ 5
Aplicando as proporções devidas: 6 5 6
A0c AT A0c AT b) Atribuindo x = 3 a essa expressão, obtemos:
----• --=- •
100 - O 373 - 273 100 100
50c 50c
• A0c=AT • AT= 20 K 3 = 6 -5 • 8 = 6 • 0c=9,6 ºC

16 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
••••
••••
A FfSICA NO COTIDIANO

Outras temperaturas encontradas no Universo


Você sabia que a cor dos objetos aquecidos dá uma ideia da sua temperatura? Quanto mais eles forem
esquentados, tanto mais sua cor se aproximará da tonalidade azul. Essa associação entre cor e temperatura é
mostrada na figura a seguir:

2800K 3800 K 5000 K 7000 K


3200 K 4500 K 6000 K

Veja algumas temperaturas que encontramos no Universo:


• superfície solar: 6000 K;
• núcleo do Sol: 15 000000 K;
• interior de um vulcão: 1 000 a 2 000 ºC;
• temperatura máxima na superfície da Terra: cerca de 60 ºC;
• temperatura mínima na superfície da Terra: cerca de -90 ºC;
• a menor temperatura que se encontra no Universo é de 3 K. Ela é chamada de radiação de fundo, en-
tendida como um resquício da energia liberada no big bang e tomada como comprovação da ocorrência
desse evento.
Sabe-se também que pela cor e pelo tamanho das estrelas é possível conhecer sua composição e idade.

OUTRAS PALAVRAS

Micro-ondas
Como o aparelho de micro-ondas pode aquecer o alimento sem usar fogo?

A temperatura está ligada ao movimento alea- cuias da comida, principalmente as de água, os-
tório dos átomos ou moléculas de uma substância cilem invertendo a sua orientação de um sentido
(por brevidade, falaremos simplesmente em molé- para outro, com uma energia cinética rotacional
culas para nos referirmos a átomos e moléculas). considerável. Porém, as moléculas que oscilam
Mais especificamente, a temperatura é propor- não cozinham de fato a comida. O que eleva a
cional à energia cinética média "translacional" do temperatura e cozinha efetivamente a comida é
movimento molecular (pelo qual as moléculas se a energia cinética translacional comunicada às
movimentam de um lugar a outro). As moléculas moléculas vizinhas, que ricocheteiam nas mo-
podem também rodar e vibrar, com energia ciné- léculas oscilantes de água. Para visualizar isso,
tica rotacional e vibracional correspondentemente imagine um punhado de bolas de gude que são
associadas - mas esses movimentos não afetam espalhadas, em todas as direções, após colidi-
diretamente a temperatura. rem com as lâminas girantes de um ventilador.
Se as moléculas vizinhas não interagissem com
O efeito da energia cinética translacional ver- as moléculas girantes da água, a temperatura da
sus a energia cinética rotacional ou vibracional é comida não seria diferente do que era antes de o
verificado dramaticamente em um forno de mi- forno ser ligado.
cro-ondas. As micro-ondas que bombardeiam a HEWITT, Paul. Física conceituai. 9. ed. Porto Alegre:
sua comida fazem com que determinadas molé- Bookman, 2002. p. 269.

Organizando as ideias do texto


1. Tome um pedaço de arame em torno de 30 cm e segure-o com as mãos pelas extremidades. Dobre o
arame repetidas vezes; você verá que, após certo número de flexões, o arame exibe um grande aque-
cimento na região da dobra e chega a se partir. Explique o que ocorre, usando os mesmos argumentos
do texto. Professor, veja Orientações Didáticas.

CAPÍTULO 1 • TERMOMETRIA 17
••••
A FfSICA NO COTIDIANO
Observe as cores de uma chama
Observe a chama acesa da boca do fogão ou a chama de uma
vela. Verifique se ela tem cores e tonalidades diferentes.
As cores da chama estão relacionadas às respectivas temperaturas
dessas regiões. De que maneira você pode inferir qual região é a mais
quente? Atenção: nunca encoste em uma chama.

A coloração da chama é uma característica


do material que está sendo queimado ou
aquecido. A explicação para esse fato está
no modelo atômico de Bohr.

• • Exercícios propostos
••
EP1. Quando um corpo está mais quente que outro, EP4. Retomando a questão que abriu o capítulo:
,, Na abertura de um jogo de futebol americano realizado
~ em Detroit e transmitido por uma TV brasileira, o narrador
"' fez a seguinte observação: "A temperatura ambiente de
E
-::
] 46 ºF, mostrada pela geradora das imagens, corresponde
~ a aproximadamente 8 ºC".
.e
f-
~ Qual foi a diferença, em percentual, entre o valor in-
J formado pelo narrador e aquele obtido pela conver-
são de escala? Cerca de 3%.
EP5. Por que nosso corpo, às vezes, chega a tremer em
Como as temperaturas de mudança de fase da água são próximas das dias de baixas temperaturas? o corpo treme para
temperaturas ambientes, podemos conhecê-la nos três estados. tentar aumentar a agitação térmica, liberando energia química
acumulada no organismo, sob a forma de calor.
certamente: EP6. Determine a temperatura na escala E que corres-
a) há diferença na quantidade de energia térmica. ponda a 30 ºC, conforme o esquema apresentado.
b) as temperaturas são iguais. e
a) e= 26 ºE x 100 ºC --------------- 11 O ºE
"ijj
g
e) as partículas do corpo mais quente estão mais agitadas. x
b) e= 36 ºE ~
d) as partículas do corpo mais frio estão mais agitadas.
e) e= 20 ºE
e) as partículas do corpo mais quente têm menos energia 30 ºC --------------- e
cinética. d) e= 16 ºE
O ºC -10 ºE
EP2. A energia térmica de um corpo é: e) e= -6 ºE
a) sinônimo de calor.
EP7. Efetue as conversões solicitadas:
b) uma energia que não tem qualquer relação com a a) 68 ºF em ºC; 20 ºC
energia cinética.
b) -40 ºC em ºF; -40 ºF
e) uma grandeza idêntica à temperatura.
e) 227 ºC na escala absoluta. 500 K
d) independente da quantidade de partículas que esse
corpo tem. EPB. A variação de 45º na escala Celsius corresponde a
e) a soma das energias cinéticas de agitação das partí- que mudança de temperatura na escala:
culas que compõem o corpo. x a) Kelvin? AT = 45 K
EP3. Para a Termologia, o calor é: b) Fahrenheit? A0F = 81 ºF
a) uma palavra que indica um ambiente quente.
b) sinônimo de alta temperatura. EP9. Um termômetro de vidro está calibrado de manei-
e) a própria energia térmica de um corpo. ra que o ponto de fusão do gelo corresponde a 4 cm
d) a transferência de energia térmica do corpo mais de altura na coluna do líquido e o ponto de ebulição da
quente para outro menos quente. x água, a 20 cm. Determine a função termométrica da
e) o fluxo de energia térmica do corpo menos quente temperatura 0, em Celsius, em função da altura h, em
para outro mais quente. centímetros. e= 25 h - 25
4

18 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
EP10. Uma escala termométrica E tem seus valores da-
madeira e plástico incendiaram-se também. A tem-
dos em ºE, em função da temperatura na escala Celsius,
peratura chegou aos 1 000 graus. O aço não se ftm-
de acordo com o gráfico apresentado.
eE (ºE) de nesse ponto, mas perde dureza. [...]"
Atentado terrorista nos Estados Unidos. Portal Brasil.
Disponível em: <http:/ /portalbrasil.net/reportagem_atenta-
do_wtc.htm>. Acesso em: 19 out. 2015.
"[ ...] Aqueles que apoiam a versão oficial, como
Thomas Eagar, professor de engenharia de mate-
riais e sistemas de engineering no MIT, argumentam
habitualmente que o colapso deve ser explicado
pelo calor dos fogos porque a perda de capacida-
Então:
de de suportar cargas provocada pelos buracos nas
a) relacione o valor de eE na escala E em função da torres era demasiado pequena. A transferência de
temperatura 0c na escala Celsius; eE = 4 :e -
8 carga teria estado dentro da capacidade das torres.
b) determine a temperatura em ºC quando 0E = 6 ºE. Uma vez que o aço utilizado nos edifícios deve ser
17,5 ºC capaz de suportar cinco vezes a sua carga normal,
EP11. A água contida em uma panela estava inicialmente Eagar conclui que o aço das torres só podia ter en-
a 21 ºC. Após o aquecimento, sua temperatura sofreu trado em colapso se aquecido ao ponto de 'perder
uma elevação de 36 ºF. Determine a temperatura final 80 por cento da sua força', em torno de 1 300 ºF
da água na escala Kelvin. (704,4 ºC). Eagar acredita que foi isto que aconteceu,
a) 41 K e) 314 K X e) 330 K embora os fogos não parecessem ser suficientemen-
b) 232 K d) ==275,2 K te extensos e intensos, desprendendo rapidamente
fumo e negro e relativamente poucas chamas. [...]"
EP12. (EsPCEx-SP) Um termômetro digital, localizado em 11 de setembro de 2001. Gpopai (Grupo de Pesquisa em
uma praça da Inglaterra, marca a temperatura de 10,4 ºF. Políticas Públicas para o Acesso à Informação). Disponível em:
<www.gpopai.usp.br/wiki/index.php/ 11 _de_setembro_
Essa temperatura, na escala Celsius, corresponde a de_2001 >Acesso em: 19 out. 2015.
a) -5 ºC e) -12 ºC X e) -39 ºC
b) -10 ºC d) -27 ºC De acordo com os textos, qual foi aproximadamente a
temperatura absoluta atingida quando se deu início o
EP13. Teoricamente, na temperatura de zero absoluto desabamento das torres?
(-273, 15 ºC), o que seria nulo? a) 723 K e) 977 K X e) 4000 K
a) A quantidade de partículas de um gás. b) 1 273 K d) 1 300 K
b) O volume de um corpo.
EP15. (UFMS) Através de experimentos, biólogos obser-
c) A agitação térmica das partículas. x varam que a taxa de canto de grilos de uma determina-
d) A altura da coluna de mercúrio. da espécie estava relacionada com a temperatura am-
e) O volume da substância termométrica. biente de uma maneira que poderia ser considerada
linear. Experiências mostraram que, a uma temperatura
EP14. O ataque terrorista contra o World Trade Center, de 21 ºC, os grilos cantavam, em média, 120 vezes por
ocorrido em 11 de setembro de 2001, na cidade de minuto; e, a uma tempe- T
Nova York, EUA, foi um divisor de águas no modo como ratura de 26 ºC, os grilos
entendemos o terrorismo e a invulnerabilidade das cantavam, em média, 26
grandes potências. O World Trade Center era um com- 180 vezes por minuto. 21
plexo de 7 torres e ocupava 64 750 m 2 na ilha de Considerando Ta tempe-
Manhattan. As duas torres principais tinham 11 O anda- ratura em graus Celsius e
n o número de vezes que
res cada uma e foram atingidas por aviões.
os grilos cantavam por
"[ ...] Foram os incêndios, combinados com uma minuto, podemos repre-
sentar a relação entre Te
característica tecnológica dos arranha-céus, que os 120 180 n
n pelo gráfico ao lado.
puseram abaixo. No impacto, cada área atingida al-
Supondo que os grilos estivessem cantando, em mé-
cançou imediatamente a temperatura de 450 graus
dia, 156 vezes por minuto, de acordo com o modelo
Celsius, o ponto de combustão do querosene de
sugerido nesta questão, estima-se que a temperatura
aviação. Cada Boeing levava combustível suficien- deveria ser igual a:
te para voar por mais 4 000 quilômetros - ou para
a) 21,5 ºC e) 23 ºC e) 25,5 ºC
queimar por algumas horas. Divisórias e móveis de
b) 22 ºC d) 24 ºC

••••
X

CAPÍTULO 1 • TERMOMETRIA 19
o
.....J
=>
l::
a..
Dilatação de sólidos
<(
u e líquidos

Você já viu alguém tentando abrir um pote de vidro com tampa metálica, desses
de palmito, compotas ou conservas, sem conseguir o intento? Talvez você mesmo já
tenha passado por isso.
A parte constrangedora da situação é a luta prolongada que travamos com a
tampa. Colocamos o pote debaixo do braço ou entre as pernas a fim de obter um
apoio maior para poder torcer a tampa com mais força, mas em vão. Muitas vezes
ela continua bem presa na boca do vidro.
Aqui, a Física pode dar uma ajuda bastante simples: se aquecida, a tampa se
desenroscaria mais facilmente.
Você já observou isso em outras situações do seu dia a dia: variações de tempe-
ratura causam alteração nas dimensões de objetos sólidos e fluidos. Conhecer bem
esse fenômeno é crucial, por exemplo, para a engenharia civil, que lida com equi-
pamentos e estruturas de edificações, utilizando os mais variados tipos de material, O fechamento de potes de
submetidos a esforços e variações de temperatura. conserva visa manter o produto
íntegro e pode ser feito
mediante baixas pressões ou

Dilatação térmica dos sólidos materiais selantes.

A variação de temperatura é um fator que pode modificar determinadas proprie-


dades físicas dos corpos.
No caso dos sólidos, podemos citar:
• a dureza: é a resistência do sólido a sofrer cortes ou ser penetrado;
• a ductilidade: é a capacidade do sólido de sofrer deformação sem se romper.
No caso dos fluidos:
• a viscosidade: é a propriedade que está associada à facilidade de escoamento do
fluido;
• a densidade: é a relação entre a massa e o volume ocupado pelo fluido, que
também vale para os sólidos.
Todas essas propriedades estão relaciona-
das à maneira como se arranjam as partículas
que compõem a matéria. Lembrando que a
temperatura mede o estado de agitação mé-
dia dessas partículas, podemos dizer que sua
variação (da temperatura) afeta a disposição
relativa delas e é dessa maneira que relacio- Estradas de ferro e viadutos
namos a dilatação dos corpos à variação de apresentam vãos entre trechos
consecutivos de trilhos,
temperatura. plataformas ou blocos de
concreto, para permitir sua
dilatação em dias mais quentes e
O aumento da temperatura diminui a dureza assim evitar seu retorcimento ou
do asfalto e aumenta a sua viscosidade. - colapso.

20 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
Podemos dizer, como regra geral, que todos os corpos apresentam variação nas
suas dimensões quando se aquecem ou se resfriam, e é a essa variação de dimen-
sões que chamamos dilatação.
Menor agitação térmica Maior agitação térmica

aumento
de temperatura I'
1
1
1
,, 1 ,, 1
1
1
1
1 e:
1 <o
1 E
1 1 1 .:f_
1 1
comprimento inicial comprimento inicial : dilatação:
' do '
comprimento
A explicação microscópica para a variação nas dimensões está na agitação térmica
das partículas. Em geral, com a elevação de temperatura, a agitação das partículas
torna-se mais intensa, aumentando a distância relativa entre elas. Como conse-
quência, o comprimento, a largura e/ou a altura (ou espessura) dos materiais
acabam aumentando. Inversamente, com a redução da temperatura, as agitações,
e consequentemente as dimensões, diminuem.

Sobre modelos: simplificando a realidade


Em ocasiões anteriores, na tentativa de explicar determinados fenômenos físicos, lançamos mão do recurso de
enxergá-los através de uma representação simplificada, geralmente mais limitada e mais concreta. Levamos essa
simplificação de encontro à situação considerada e verificamos quão razoavelmente a explicação se adapta a de-
terminados fatos colaterais, dentro de algumas limitações: se isso for verdade, dizemos que a descrição simplificada
corresponde de fato ao que ocorre na situação real. Essa representação simplificada recebe o nome de modelo.
A essa altura, você já deve ter lidado com vários modelos de átomo e matéria: desde a concepção dos elementos
formadores do Universo propostos por filósofos pré-socráticos e o modelo de partícula de Dalton, passando pelo
modelo planetário de Rutherford e Bohr, até chegar ao modelo quântico.
Qual deles é o melhor ou está mais correto? Isso depende do que você deseja enfatizar. Se a intenção é explicar
a emissão de luz de uma substância quando a aquecemos, temos de lançar mão do modelo de Bohr, mas, se
desejamos explicar a agitação térmica, o modelo de Dalton é suficiente. Não existem modelos definitivos.
Você pode perguntar: por que motivo temos de trabalhar com modelos, em vez de abordar a realidade dire-
tamente? A resposta é simples: a realidade é inatingível. Houve um tempo em que as investigações filosóficas e
experimentais objetivavam chegar à verdade absoluta ou ao conhecimento definitivo e irrefutável. Na época de
Isaac Newton, imaginava-se que a Ciência poderia explicar a realidade completamente. Acreditava-se que, conhe-
cendo as condições iniciais de um fenômeno e utilizando a Matemática, seria possível conhecer todos os seus
desdobramentos. Sabemos hoje que isso é impossível: pequenas variações em uma situação inicial podem acar-
retar enormes perturbações na condição final. Só podemos abarcar alguns aspectos da realidade, recorrendo a
modelos simplificadores. Nas palavras do filósofo alemão lmmanuel Kant:
O que os objetos são, em si mesmos, fora da maneira como nossa sensibilidade os recebe, permanece totalmente
desconhecido para nós. Não conhecemos coisa alguma a não ser o nosso modo de conhecer tais objetos - um modo
que nos é peculiar e não necessariamente compartilhado por todos os seres ...
ln: ALVES, Rubem. Filosofia da Ciênda. 12. ed. São Paulo: Loyola, 2007. p. 59.

Lembre-se, então, de que o modelo de matéria que usamos aqui (e que explica razoavelmente bem os estados
físicos e a agitação térmica) é o de um grande conjunto de partículas, separadas por distâncias variáveis e em
diversos estados de agitação. Mais tarde, retomaremos esse modelo para explicar o comportamento dos gases.

Pelo visto até aqui, é razoável aceitar que a dilatação de um corpo depende:
• das características do material de que é constituído, pois as substâncias se dilatam
com intensidades diferentes;
• de seu tamanho inicial (comprimento, área e/ou volume), pois, quanto maior for
o corpo, maior será sua dilatação - que pode até ser proporcional, se ele for
homogêneo;

CAPÍTULO 2 • DILATAÇÃO DE SÓLIDOS E LÍQUIDOS 21


• da variação de temperatura dentro de um limite que não afete sua natureza
(por exemplo, dentro de um intervalo que mantenha o material no estado
sólido), pois, quanto maior for o aumento dela, maior também será a dilatação
térmica do corpo.
Experimentalmente, constata-se que a dilatação térmica é diretamente propor-
cional aos três fatores citados.

Dilatação térmica unidimensional ou linear dos sólidos


Na realidade, quando um corpo se dilata, ele sofre variações
nas três dimensões: no comprimento, na largura e na altura (ou
espessura); no entanto, dependendo da situação, basta enfocar
apenas uma delas.
Por exemplo, os trilhos da estrada de ferro dilatam-se nas
três dimensões, mas é o comprimento (dimensão linear) que
deve ser levado em conta.
Outro exemplo observável em dias quentes é que os cabos
de eletricidade aéreos, colocados sobre as calçadas, ficam
com uma curvatura maior do que em dias frios; decerto a di-
A curvatura do cabo elétrico é maior em dias de
latação também ocorre na seção reta dos fios, mas ela não é temperaturas mais altas.
perceptível.
Quando consideramos apenas a alteração no comprimento
dos objetos, decorrente da variação de temperatura, estamos
lidando com uma dilatação térmica linear.
De acordo com os três fatores que afetam a dilatação térmica,
temos:
• o coeficiente de dilatação linear do material (simbolizado por a.),
que indica a variação do comprimento do objeto; por exem-
plo: se o ouro no estado sólido tem a.= 0,000015 ºC-1, então,
a cada 1 ºC de variação na temperatura, a dilatação constatada
no comprimento de um objeto feito desse material é de
15 milionésimos, para mais (se houver aumento de temperatu-
ra) ou para menos (caso haja redução de temperatura);
• o comprimento inicial (L 0) do material, a uma certa tempera- A distãncia entre as torres do arco principal da ponte
Golden Gate, perto de São Francisco (Califórnia, Estados
tura 00; Unidos), é de 1 280 m. Quando a temperatura é 1O ºC,
• a variação de temperatura Li0 = efinal - ªº" no ponto médio entre as duas torres o cabo está 150 m
abaixo do topo das torres. (Dados da Sociedade
Mediremos a grandeza dilatação térmica linear (LiL) pela dife- Brasileira de Física. Disponível em: <http://pion.sbfisica.
rença entre os comprimentos L e L0, sendo Lo comprimento final org. br/pdc/i ndex. phdpor/Desafios/Fisica-Termica>.
Acesso em: 19 out. 2015.) Fotografia de 2014.
do material; portanto, a expressão matemática que permite seu Fotografia de abril de 2014.
cálculo é: É conveniente insistir com os estudantes que, com a leitura
dos valores, seja feita também a das unidades, porque sua
compreensão já dá uma boa ideia do que elas representam.
= =
LiL L - L0 a. · L0 • Li0 O coeficiente de dilatação do ouro, que é "quinze milionésimos
por grau Celsius", indica que haverá a variação de quinze
milionésimos do comprimento do material a cada grau Celsius
é> L
-~ . - - - - - - - - - - - - º- - - - - - - - - - , de variação da temperatura.
:o : e ~ - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - < , ~L : Podemos remeter a discussão
à estrutura cristalina que os
-g :+------+:
2'.--------------------~------< metais apresentam. Adiante
-1' voltaremos a esse assunto,
L para lembrar que, em geral
e pelo mesmo motivo, bons
Observe na tabela da página seguinte que os metais têm coeficientes de dilata- condutores de eletricidade
também são bons condutores
ção maiores que os vidros. O que isso nos sugere a respeito de sua constituição? térmicos.

22 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
Alguns valores de coeficientes de dilatação linear
Material a. (°C-1)
Chumbo 0,000027 =2, 7 · 1o-s
Alumínio 0,000022 = 2,2 · 1o-s
Latão 0,000020 = 2,0 · 1o-s
Prata 0,000019 = 1,9 • 10-5
Cobre 0,000017 = 1,7 • 10-5
Ferro 0,000012 = 1,2 • 10-5
Aço 0,000011 = 1, 1 • 10-5
Vidro comum 0,000008 =8 · 1O-ó
Vidro pirex 0,000003 = 3 · 1O---õ
Fonte: LIDE, David R. (editor-chefe). CRC Handbook of Chemístry and
Physícs. 90. ed. Flórida: CRC Press LCC, 2009.

Façamos uso agora dessa expressão matemática. Para que um fio de ferro tenha
uma dilatação de 6 mm em seu comprimento, devido a um aquecimento de 50 ºC,
qual deve ser o seu comprimento inicial?
Consultando a tabela com os valores de coeficientes lineares, encontramos
a= 0,000012 °c-1 para o ferro; substituindo os dados que temos:

AL =a. · L0 • A.0 • 6 =O, 000012 · L0 • 50 • L0 = 1O000 mm = 1O m


Quanto maiores forem os comprimentos iniciais, mais visíveis e relevantes serão
as dilatações; observamos isso nas estruturas de grandes construções.
Algebricamente, podemos indicar o comprimento final desta forma:

L = L0 + AL = L0 + a. · L0 • A.0 ou L = L0 • (1 + a. · A.0)

O gráfico de dilatação térmica linear de sólidos


Se construirmos o diagrama L x 0, do comprimento L em função da temperatura 0,
e e correspondendo a:
Neste diagrama, a inclinação q> L = L0 + a. · L0 • (0 - 0J,
está relacionada com o produto
a.. ¼r obteremos uma reta, que é uma função afim, como podemos ver na figura ao lado.

• • Exercícios resolvidos
••
ER1. Com a finalidade de compensar a dilatação que A variação de temperatura é: A.0 = 50 ºC - 20 ºC = 30 ºC.
ocorre nos trilhos de uma estrada de ferro, é deixado
Então, AL = a. · L0 • A.0 • 3,6 · to--4 ~ = a.~· 30
um vão ou folga de 0,036% do comprimento de
cada barra, à temperatura de 20 ºC. Calcule o coefi- :. a= 1,2 · 10-s ºC
ciente de dilatação linear do ferro, se aos 50 ºC as
ER2. Considere duas barras metálicas distintas. Seus
extremidades dos trilhos se tocam.
comprimentos iniciais, a certa temperatura, são L01 = 6 m
Resolução: e la2 = 15 m. Essa diferença de 9 m deve permanecer
Os dados são: constante à medida que a temperatura for aumen-
tando. Para que isso aconteça, qual deve ser a razão
AL = O036% de L 0,0 36 · L = 3 6 · to--4 · L ·
=
' 0 100 ° ' º' entre os coeficientes de dilatação térmica linear das
00 = 20 ºC e 0 = 50 ºC duas barras?

CAPÍTULO 2 • DILATAÇÃO DE SÓLIDOS E LÍQUIDOS 23


Resolução:
A diferença entre os comprimentos permanecerá constante se ambas as barras se dilatarem igualmente, AL1 = AL2,
na mesma variação de temperatura, A0 1 = A0r

Assim ' AL1 = AL2 • a. 1 • Lo •;-n'1


Aí2t" = a. • L • A LY'•
1 2 Oz !,,""z
~
a. = ~
1 ~
= 165 = 0,4
1

••••
Dilatação térmica bidimensional ou superficial dos sólidos
A análise da dilatação em duas dimensões segue o mesmo raciocínio da dilatação
linear, com a diferença de que além do comprimento passamos a pensar também na
dilatação da largura. Desta forma, com duas dimensões, a grandeza física a ser ob-
servada é a área (A) de certa superfície.
Assim, a dilatação térmica superficial se refere à variação da área, que é a medida
da superfície em um corpo.
Novamente, de acordo com os três fatores que afetam a dilatação térmica, temos: E'
~o
• o coeficiente de dilatação superficial do material (simbolizado por ~), que indica a ~
o
variação da área por unidade de temperatura; por exemplo: se o ouro tem coe- ~
"'e
ficiente de dilatação superficial ~ = 0,000030 ºC-1, então a cada 1 ºC de alteração 1-------~M ~
na temperatura a dilatação superficial constatada será de 30 milionésimos, para mais
A
ou para menos;
• a área inicial A 0 , que é a medida da área a certa temperatura 00;
• a variação de temperatura A0 = efinal - ªº·
A expressão matemática da variação superficial (AA) é:

AA = A - A o = ,.,
A • A o · A0

O valor de ~ é aproximadamente o dobro do valor de a.:


~ = 2a.
Quando o material que constitui o corpo é homogêneo e isotrópico (que tem todas
as propriedades constantes, independentemente da direção que se tome sobre sua
extensão), podemos considerar ~ = 2a..
Nessas condições, o coeficiente a. tem o mesmo valor para o comprimento e a
largura de um corpo.
Sendo a e b as dimensões de uma superfície retangular, após a variação A0 de
temperatura teremos:
a = a0 (1 + a. · A0) e b = b0 (1 + a. · A0)
A área A, então, é dada por:
A = a · b = a0 • (1 + a. · A0) · b 0 • (1 + a. · A0) =
= a0 • b0 • (1 + a. · A0) 2 ou A = A 0 • (1 + 2a. · A0 + a.2 • A0 2)
Nessa igualdade, como o termo a.2 • A0 2 tem um valor muito pequeno em relação
às demais parcelas, podemos desprezá-lo sem que se modifique significativamente
a área final; assim, teremos apenas:

A = A 0 • (1 + 2a. · A0) • A= A 0 • (1 + ~ · A0)

pois 2a. corresponde ao coeficiente ~, ou seja, 2a. = ~-


Assim, para o ouro teremos a.= 0,000015 °c-1 e~= 0,000030 °c-1 .
Agora, vamos retomar o exemplo citado no texto de abertura deste capítulo, a
tampa metálica presa no pote de vidro.

24 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
Como a tampa é de metal, esse material se dilata mais do que o vidro, quando
submetidos à mesma variação de temperatura. Assim, um aquecimento suficiente
da tampa cria uma folga entre os materiais e diminui a força de atrito existente entre
eles, facilitando a abertura do pote.
tampa do pote
...........
•------------------------
~ ~

o"'
po~q~i;~:~iri~~:2!!]_____________ ~------------ ~ E
"'o
~ <.9

diâmetro maior iJ:i ~


afastam mais umas 'º"'
das outras. aumento de temperatura ~~
ti==
..:!~
-- --- ---------------------------------------- - ::,
<(

A dilatação do metal aumenta o diâmetro da tampa (mais que o do gargalo do pote) porque a elevação
da agitação térmica das partículas, determinada pelo aumento de temperatura, faz com que elas se afastem.

Uma chapa metálica dilata-se ou contrai-se de tal


forma que, havendo ou não furos em sua extensão, ela
assume as mesmas dimensões.

• • Exercícios resolvidos
••
ER3. Uma placa retangular de vidro comum, de 50 cm do chumbo a = 2,7. 10-s 0 c- 1 ,
de comprimento e 20 cm de largura, tem a temperatura calcule:
elevada de 1O ºC até 30 ºC. Então, qual será a área final a) a área do furo a 60 ºC;
da superfície dessa placa? b) a circunferência externa da
chapa a 60 ºC.

Resolução:
a) De acordo com os dados, a variação da tempera-
tura da chapa é Li0 = 60 ºC - 10 ºC = 50 ºC,
o coeficiente de dilatação superficial é ~ = 2a =
Resolução: = 5,4 • 10-5 ºC-1, e a área inicial do furo é~= 1t • r/ =
Consultando a tabela de coeficientes lineares, encon- = 1t • 102, portantoA0 = 100n cm 2•
tramos a = 0,000008 ºC- 1 para o vidro comum; então Vamos, então, calcular a área do furo a 60 ºC:
~ = 2a = 0,000016 ºC-1, a área inicial da placa é
A= A0 + M = A0 + ~ · A0 • Li0
~ =50 • 20 • A0 = 1 000 cm 2, e a variação de tempe-
A= 100n + 5,4 • 10-5 • 100n • 50
ratura é Li0 =30 - 10 • Li0 =20 ºC.
Substituindo os valores na expressão M = ~ · A0 • Li0, :. A= 100,27n cm 2 = 314,85 cm 2
obtemos:
M = 0,000016 • 1 000 • 20 • M = 0,32 cm 2 O cálculo foi realizado como se ao furo correspon-
Portanto, a área final será de: desse uma chapa circular do mesmo chumbo, pois
essa seria a superfície ocupada por ela, se não exis-
A= A0 + M = 1 000 + 0,32 • A= 1 000,32 cm 2
tisse o orifício. Uma maneira de justificar isso é
Isso representa apenas 0,032% de dilatação superfi- considerando o seguinte: imagine que uma chapa
cial, uma variação imperceptível a olho nu. Tais varia- é a justaposição de duas áreas que se ajustam per-
ções são notadas quando os objetos encontram-se feitamente, conforme mostra a figura.
encaixados, quando eventuais folgas diminuem.
.
, ..... - ,
ER4. Uma chapa circular, com raio de 30 cm, é feita de
chumbo. Em seu centro, há um furo também circular de
. .
,
'
'
' , . __ ,,,'
1O cm de diâmetro. Essas medidas são obtidas à tempe-
ratura de 1O ºC. Dado o coeficiente de dilatação linear

CAPÍTULO 2 • DILATAÇÃO DE SÓLIDOS E LÍQUIDOS 25


A dilatação acontece em cada uma das áreas, como Outra forma de calcular essa mesma área é deter-
se elas fossem partes independentes, e ao cabo dela minar o raio final do furo da chapa dilatada e a
as duas partes continuarão tão bem encaixadas como partir dele quantificar a superfície do furo.
antes; assim, mesmo que não haja uma região vizi- O raio é uma medida linear:
nha, como no caso de furos ou recortes, toda por- r = r0 + Lir = r0 +a.· r0 • Li0
ção do material se comporta como região isolada, r = 10 + 2,7 • 10-5 • 10 • 50 = 10,0135
não interferindo na vizinhança. É por esse motivo
A= 1t · r2 = 1t • 10,0135 2 :. A= 100,27n cm 2
que podemos imaginar o furo como se fosse cons-
tituído do mesmo material que a peça. b) o raio da chapa a 60 ºC é:
R = ~ + LiR = ~ + a. · ~ · Li0
R = 30 + 2,7 · 10-5 • 30 • 50 • R = 30,0405 cm
Então, a circunferência Cem questão é:
C = 21t · R = 21t · 30,0405
:. C = 60,0817t cm== 188,65 cm

••••
Dilatação térmica tridimensional ou volumétrica
dos sólidos
Na dilatação térmica em três dimensões, consideramos o comprimento, a largura
e a altura (ou a espessura) do corpo sólido. Logo, a grandeza física a ser observada é
o volume V.
é'
·w comprimento
l
1
lacgoca~
f-i- - - - - - - - - - - - - - - - - 1 1 •,
j~altoca (o" espes,,oca)

Assim, a dilatação térmica tridimensional refere-se à variação de volume, que é a


medida do espaço ocupado pelo corpo.
Os fatores considerados na dilatação volumétrica são análogos aos de antes:
• o coeficiente de dilatação volumétrica (simbolizado por y) do material quantifica
a alteração de volume, por unidade de temperatura;
• o volume inicial (V0), que é medido a certa temperatura 00 ;

• a variação de temperatura, Li0 = efinal - ªº·


A expressão matemática da variação volumétrica LiV fica:

O valor de y é igual ao triplo do valor de a. para determinado material:


'Y = 3a.

desde que respeitada a ressalva efetuada anteriormente, quando tratamos da


dilatação superficial.
Considerando os coeficientes de dilatação térmica do ouro, temos:
• dilatação linear: a.= 0,000015 C-1;
• dilatação superficial: ~ = 2a. = 0,000030 ºC-1;
• dilatação volumétrica: y = 3a. = 0,000045 °c-1 .
26 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
Das fachadas de museus às fundações de platafor- • Trabalho conjunto do concreto e do aço, assegura-
mas petrolíferas, o concreto é de longe o material de do pela aderência entre os dois materiais:
construção mais utilizado no Brasil. Dependendo das Na região tracionada, onde o concreto possui re-
características desejadas e das finalidades, há uma sistência praticamente nula, ele sofre fissuração,
grande variedade de concretos à disposição. Em linhas tendendo a se deformar, o que, graças à aderência,
gerais, o concreto armado é um material de construção arrasta consigo as barras de aço forçando-as a tra-
resultante da associação de concreto simples e barras balhar e, consequentemente, a absorver os esfor-
de aço. As barras de aço envolvidas pelo concreto, e ços de tração.
com perfeita aderência entre os dois materiais, formam Nas regiões comprimidas, uma parcela de com-
um material que resiste melhor a esforços do que os pressão poderá ser absorvida pela armadura, no
dois componentes isolados.
caso de o concreto, isoladamente, não ser capaz
Leia agora um trecho das notas de aula do prof.
de absorver a totalidade dos esforços de com-
Tarley Ferreira de Souza Junior, do Departamento de
pressão.
Engenharia da Universidade Federal de Lavras (MG), so-
bre o mais importante material estrutural da constru- • Os coeficientes de dilatação térmica do aço e do
ção civil brasileira do século XX. concreto são praticamente iguais:
Concreto é um material de construção resultan- concreto: 0,9 a 1,4 • 10-5 ºC- 1
te da mistura de um aglomerante (cimento), com aço: 1,2 • 10-5 ºC- 1
agregado miúdo (areia), agregado graúdo (brita) e
[...]
água, em proporções exatas e bem definidas. Atual-
mente, é comum a utilização de [...] "aditivos", des- • O concreto protege de oxidação o aço da armadura,
tinados a melhorar ou conferir propriedades espe- garantindo a durabilidade da estrutura:
ciais ao concreto.
proteção física: através do cobrimento das bar-
A pasta formada pelo cimento e água atua en-
ras protegendo-as do meio exterior;
volvendo os grãos dos agregados, enchendo os va-
zios entre eles e unindo esses grãos, formando uma proteção química: em ambiente alcalino que se
massa compacta e trabalhável. A função dos agrega- forma durante a pega do concreto, surge uma
dos é dar ao conjunto condições de resistência aos camada quimicamente inibidora em torno da
esforços e ao desgaste, além de redução no custo e armadura.
redução na contração.
Após a mistura, obtém-se o concreto fresco, ma-
terial de consistência mais ou menos plástica que per-
mite a sua moldagem em formas. Ao longo do tempo,
o concreto endurece em virtude de reações químicas
entre o cimento e a água (hidratação do cimento).
A resistência do concreto aumenta com o tempo,
propriedade esta que o distingue dos demais mate-
riais de construção.
A propriedade marcante do concreto é sua ele-
vada resistência aos esforços de compressão aliada a
uma baixa resistência à tração. A resistência à tração é
da ordem de 1~ da resistência à compressão.
A ideia básica de misturar materiais, ou agregar substâncias
[...] específicas a uma dada substância, é produzir um material
com melhores qualidades que os originais, isoladamente. Foi
Devido à baixa resistência à tração, procurou-se
essa ideia que orientou a criação do aço e do concreto.
adicionar ao concreto outros materiais mais resistentes
à tração, melhorando suas qualidades de resistência. SouZA JUNIOR, Tarley Ferreira de. Estruturas de concreto armado.
Departamento de Engenharia da UFLA. Disponível em: <https://
A utilização de barras de aço juntamente com o docente.ifrn.edu.br/valtencirgomes/disciplinas/ construcao--de-
concreto só é possível devido às seguintes razões: edificios/apostila-concreto>. Acesso em: 20 out 2015.

CAPÍTULO 2 • DILATAÇÃO DE SÓLIDOS E LÍQUIDOS 27


Organizando as ideias do texto
1. Estime um valor para o coeficiente de dilatação do concreto armado, analisando os coeficientes de dila-
tação linear de seus dois principais componentes.
2. Suponha que você precise saber mais sobre concreto armado. Onde você considera possível encontrar
informações confiáveis sobre o tema?
3. Agora, pesquise e responda:
a) Quais são as principais vantagens e desvantagens do uso do concreto armado como material de
construção?
b) Que outros materiais de construção são utilizados na engenharia civil?
Professor, veja Orientações Didáticas.

Exercícios resolvidos
••••
ERS. Um bloco cúbico de vidro comum, de 5 cm de ER6. Um objeto tem uma cavidade cuja capacidade é de
aresta, tem sua temperatura elevada de 27 ºC até 8 ml, a 20 ºC. Ele é aquecido até 120 ºC. O material
57 ºC. Calcule o volume final desse cubo. homogêneo e isótropo desse objeto tem coeficiente de

Resolução: c-
dilatação linear igual a 2 • 10-s 0 1 . Qual é, nessas condi-
ções, a variação da capacidade volumétrica da cavidade?
Para o vidro comum, a.= 0,000008 ºC- 1; então:
y = 3a. = 0,000024 °c- 1 Resolução:
O volume inicial do cubo é V0 = 53 cm 3 = 125 cm 3, e De acordo com os dados, a variação da temperatura é
a variação de temperatura é A.0 = 57 - 27 • A.0 = 30 ºC. A.0 = 120 - 20 • A.0 = 100 ºC, e o coeficiente de dila-
Substituindo os valores na expressão AV = y · VO• A.0, tação volumétrica é y = 3a. = 6 • 10-5 ºC-1.
obteremos: Calculando a modificação da capacidade volumétrica
A.V= 0,000024 • 125 • 30 • A.V= 0,09 cm 3 da cavidade, como se ela fosse composta do mesmo
Logo, o volume final será de: material do objeto, obtemos:
V= V0 +A.V= 125 + 0,09 • V= 125,09 cm3 AV = y · VO • A.0
Isso representa apenas 0,072% de dilatação volumétrica. A.V= 6 · 10-5 • 8 · 100 • A.V= 0,048 mL

••••
Outras dilatações térmicas
Dilatação térmica dos líquidos
Os líquidos também sofrem dilatação, que, em geral, é maior do que a dos reci-
pientes onde estão contidos. Assim, o que acontece quando um recipiente cheio de
um líquido sofre aquecimento?
A dilatação volumétrica do líquido precisa ser comparada com a do recipiente
que o encerra. A diferença entre as duas dilatações será chamada de dilatação
aparente do líquido:

(dilatação aparente do líquido)= (dilatação real do líquido)- (dilatação do recipiente)

Se o líquido tiver coeficiente de dilata-


ção maior que o do recipiente, a dilatação '"E
Aquecendo-se o conjunto o
aparente corresponderá ao volume do lí- recipiente-líquido~ "'
quido extravasado. extravasa l'"
80< 81 porque ele ~
Pode ocorrer também de o líquido ter se dilata ~
coeficiente de dilatação menor que o do mais que §
- - o recipiente.~
recipiente. O que acontecerá, nesse caso?

28 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
• • Exercício resolvido
••
ER7. Um recipiente, de vidro pirex, com 2 000 ml de Vamos calcular as dilatações do álcool e do recipiente,
capacidade, está cheio de álcool etílico, a 15 ºC. Se a com Li0 = 25 ºC - 15 ºC = 10 ºC:
temperatura for elevada até 25 ºC, que quantidade de dilatação real do álcool:
álcool irá extravasar do recipiente?
LiVálcool = 0,0011 • 2000 • 10 :. LiVálcool = 22 mL;
Resolução: dilatação real do recipiente:
Dados:
LiVpirex = 0,000009 • 2000 • 10 :. LiVpirex = 0,18 mL;
o coeficiente de dilatação volumétrica do álcool etílico é
assim, a quantidade de líquido extravasado é a dilata-
'Yá1cooI = 0,0011 ºC-1, segundo a tabela de coeficientes
lineares, para o vidro pirex, temos a= 0,000003 ºC-1, ção aparente do álcool:
logo: 'V. = 3a = O 000009 ºC- 1• ,'.ÍVaparente = ,'.ÍVálcool - ,'.ÍVpirex = 22 - 0,18 = 21,82
•r1rex 1

A dilatação do álcool é pouco mais de 120 vezes maior


que a do recipiente. :. vextravasado = 21 , 82 mL

••••
PARA SABER MAIS

Sites
Experimentos com dilatação e contração de materiais
• Temperatura e calor: Disponível em: <http://objetoseducacionais2.mec.gov.br/handle/mec/10218>.

• Dilatação volumétrica do ar: Disponível em: <http://objetoseducacionais2.mec.gov.br/handle/mec/3205>.

• Dilatação volumétrica de líquidos: Disponível em: <http://objetoseducacionais2.mec.gov.br/handle/mec/7928>.


Acessos em: 20 out. 2015.

O Ministério da Educação mantém um Banco Internacional de Objetos Educacionais. Lá você encontrará muitas
ferramentas para complementar os seus estudos. São vídeos, simulações e experimentos com materiais de fácil
aquisição. No tema Dilatação, há experimentos para você verificar a variação do volume do ar, determinar o coe-
ficiente de dilatação volumétrica do álcool etílico ou ainda determinar o coeficiente de dilatação de vários metais.
Não perca!

Contração por aquecimento térmico


Nos casos que estudamos, vimos que a elevação da temperatura de um material
causa dilatação térmica, aumentando suas dimensões. No entanto, na natureza exis-
tem algumas substâncias que, em certos intervalos de temperatura, constituem ex-
ceções à regra.
Um caso típico de anomalia é o da água.
Os átomos da molécula de água apresentam grande diferença de eletronegati-
vidade (propriedade química que indica a avidez do átomo em reter o elétron da
ligação). Por esse motivo, além de atrair os átomos de hidrogênio da própria molé-
cula, os átomos de oxigênio também atraem hidrogênios de outras, criando víncu-
los intermoleculares chamados pontes de hidrogênio. À medida que a tempera-
tura diminui, o estado de agitação das moléculas decresce e aumenta a intensidade
desses vínculos, chegando ao ponto máximo nos 4 ºC. A consequência disso é a
formação de "grandes vazios", aumentando o volume em seu aspecto macroscó-
pico (visto externamente).

CAPÍTULO 2 • DILATAÇÃO DE SÓLIDOS E LÍQUIDOS 29


No intervalo de aquecimento entre O ºC e 4 ºC, a intensidade das pontes de hi-
drogênio diminui, um grande número dessas ligações se rompe e as moléculas vol-
tam a ocupar os espaços vazios existentes anteriormente. Em termos macroscópicos,
isso provoca uma diminuição de volume.
Portanto, apenas no referido intervalo de temperatura, o aquecimento provoca
uma contração do volume da água em estado líquido.
Graficamente, podemos visualizar a variação de volume em volume v
função da temperatura, para a água líquida, no diagrama ao lado.
Sabendo que a densidade é inversamente proporcional ao
volume, podemos afirmar que a da água é máxima à tempera- V mínimo

tura de 4 ºC, sendo, portanto, menor no estado sólido do que


no líquido. É o que permite ao gelo flutuar na água líquida.
O ºC 4 ºC Temperatura 0
Assim, as pontes de hidrogênio explicam grande parte das
características peculiares da água.

ATIVIDADE PRÁTICA
mn NÃo
na ESCREVA
NOUVRO

Observando a dilatação anômala da água


Material
• dois copos transparentes de mesma medida, um de plástico e outro de vidro
• água
• uma caneta hidrocor "'
õ
o
Procedimento
1. Coloque a mesma quantidade de água até a metade da capacidade de cada
copo. Com a caneta hidrocor, marque o nível da água na parte externa de
---- ·º"'
~

ambos os copos.
li. Coloque os copos com a água no congelador. Após algumas horas, com o
gelo formado, retire o copo de plástico e meça o desnível de água.
~
Discussão z"'
1. De que maneira esse desnível representa a dilatação da água? "'
_,::

Retire agora o copo de vidro e meça o desnível da água. Compare o desnível ~


flo
do gelo nesse copo com o observado no copo de plástico. o
o
2. Observando os desníveis nos dois copos, é possível dizer qual dos dois mate- "ê1
}
-<1J
V,

riais apresenta o maior coeficiente de dilatação?

Se a água enchesse totalmente um recipiente de vidro, certamente ele teria


sido quebrado pela força exercida pela água, de dentro para fora.
Professor, veja Orientações Didáticas.

Exercícios propostos
EP1. Com o resfriamento da garrafa no congelador, o vidro da embalagem se contrai um pouco. Ao mesmo tempo, a água se
dilata ao congelar; logo, a força exercida pela água de dentro da garrafa para fora provoca a rachadura no vidro.
EP1. Um rapaz comprou água mineral envasada em uma tinha congelado e a garrafa estava rachada. Explique o
garrafa de vidro de 500 ml. Chegando em casa, ele pen- motivo de a garrafa de vidro ter rachado.
sou em resfriar a água mais rapidamente para tomá-la.
EP2. Calcule o coeficiente de dilatação linear do mate-
Colocou a garrafa no congelador para tal. Porém, ele se rial que constitui uma barra cujo comprimento L é re-
distraiu e se esqueceu do seu intento: a garrafa ficou por presentado em função da temperatura 0, no diagrama
lá a noite toda. Na manhã seguinte, ele viu que a água a seguir. 4 · 10-s c-1
0

30 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
EP3. Os metais têm coeficientes de dilatação diferentes. Nesse caso, o chumbo tem um coeficiente maior que o do bronze, razão pela
qual a parte de chumbo dilata-se mais. Isso força a lâmina a se curvar para cima, pois o bronze, na parte superior, dilata-se menos.
L (m) EP8. Um pedaço de tungstênio tem 500 mm 3 de volu-
me, a 20 ºC.
Dado o coeficiente de dilatação linear Clw = 9 • 10-6 ºC-1,
calcule seu volume a 520 ºC. 506,75 mm 3

3000 EP9. Quando uma porca está


bem apertada em um parafuso,
o e (ºC)
EP3. Lâmina bimetálica é o nome que se dá a uma lâmi-
na composta de duas camadas de metais diferentes.
o que podemos fazer para
afrouxá-la e girá-la com mais fa-
cilidade?
O
~

o"'
~
a) Aquecer ou resfriar o parafuso.
bronze ~ E
"'o
~ <.9 b) Aquecer ou resfriar a porca.
~ ~ c) Aquecer o parafuso.
'º"'
:,rz
~~ d) Resfriar a porca.
.=!~
- .;}_ e) Aquecer a porca ou resfriar o parafuso. x
Quando uma lâmina bimetálica é fixada na parede, à
temperatura de 25 ºC, ela fica conforme a seguinte figura: EP10. Um recipiente, com capacidade de 1O L, é comple-
tamente preenchido com álcool, em um dia frio, a 1O ºC.
No dia seguinte, a temperatura máxima é de 20 ºC.
O coeficiente de dilatação do álcool é yálcool = 0,0011 °c-1 .
Desprezando a dilatação do recipiente e a evaporação
Após aquecimento, a lâmina se curva ligeiramente para do álcool, que volume do líquido terá transbordado do
e1ma. recipiente quando a temperatura máxima for alcançada?
0,11 L = 110 ml

EP11. No exercício anterior, se o recipiente fosse consti-


tuído por um material cujo coeficiente de dilatação vo-
Explique esse fenômeno físico, justificando o porquê dessa c-
lumétrica é 'Y,ecipiente = 2 · 10-s 0 1, qual seria o volume
curvatura ascendente. do álcool transbordado?
EP4. Ainda sobre o exercício anterior, o que aconteceria se 0,108 L = 108 ml

a lâmina bimetálica fosse resfriada, em vez de aquecida? EP12. Um recipiente de ferro tem capacidade de 1 L, a
1O ºC. Que volume de mercúrio deve ser posto no re-
EPS. Quando uma chapa metálica é aquecida, sua área cipiente de forma que a capacidade não preenchida se
mantenha constante, mesmo com a elevação da tem-
aumenta. Se nessa chapa houver um furo circular, o que
peratura até 30 ºC? 0,2 L = 200 mL
acontecerá com o seu raio, à medida que a tempera-
tura for se elevando? Justifique sua resposta. Dados: 'Yterro = 3,6 · 1 o-s c-1 e
0

O raio irá aumentar, pois as partículas que margeiam o furo se


distanciam entre si independentemente de qual seja sua vizinhança. 'Ymercúrio = 1,8 • 10-4 º(-l.
EP6. Uma placa de alumínio, de forma ili
circular, tem raio de 60 cm, à temperatu- ~ EP13. (Ufop-MG) As sentenças seguintes são verdadeiras,
ra de 2 5 ºC. No centro dessa placa, exis- _____..... ~
z exceto:
te um furo circular de raio igual a 20 cm. .2 a) A água misturada à tinta vermelha pode ser utiliza-
~
Dado o coeficiente de dilatação li- .;}. da para construir um termômetro de água colorida
near do alumínio a= 2,2 • 1 o-s
ºC-1, ~ para medir temperaturas de 1 ºC até 60 ºC. x
determine: ~ b) O eixo e as rodas da locomotiva são fabricados com
a) a área do furo a 45 ºC; 400,352it cm 2 = 1257,11 cm 2 aço. O eixo e as rodas são montados com mais faci-
lidade se o eixo for resfriado e a roda mantida à
b) o perímetro externo da placa a 15 ºC.
119,974it cm = 376,72 cm temperatura ambiente.
e) A área das placas de azulejo empregadas na cons-
EP7. Muitas vezes, quando colocamos x
~ trução civil aumenta com o aumento da temperatu-
dois copos de vidro idênticos um dentro ~ ra. Essa é uma razão pela qual são deixados espaça-
do outro, eles acabam por ficar "pre- ~ mentas entre as placas para compensar a dilatação.
sos", dificultando a separação deles. ;1l d) O volume ocupado por uma massa de gelo a
Pense em um procedimento que per- -§, -1 O ºC é maior que o volume ocupado pela mesma
~
mita separá-los, sem que eles se que- massa de água a 20 ºC. Isso é uma das causas da
brem, utilizando água quente e/ou quebra de embalagens de vidro cheias de água
água fria. Podemos mergulhar o copo externo quando colocadas em congelador.
em água quente ou colocar água fria no copo interno.
EP4. Nesse caso o dispositivo ficaria curvado para baixo, pois, assim como o chumbo se dilata mais do que o bronze, ele
também se contrai mais, se resfriado. CAPÍTULO 2 • DILATAÇÃO DE SÓLIDOS E LÍQUIDOS 31
o
.....J
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l::
a..
<(
Calorimetria
u

Conhecemos, informalmente, muitas manifestações das grandezas térmicas em


nossa vida diária, além da temperatura. Sabemos, por exemplo, que é possível aque-
cer água no fogão convencional, no forno de micro-ondas ou ainda com uma resis-
tência elétrica. Se optarmos pelo aquecimento no fogão convencional, sabemos por
experiência que com uma panela de metal conseguimos aquecer a água mais rapi-
damente do que com uma de pedra.
Uma pessoa que gosta de preparar seu café solúvel esquenta uma xícara de
água no micro-ondas, sempre ajustado na mesma potência, para dissolver o pó.
Em dias frios de inverno, ela talvez tenha que programar um tempo maior do
que o normal. Isso acontece também no aquecimento feito no fogão: indepen-
A chaleira é, talvez, o mais antigo
dentemente do processo, sabemos que a água ferve um pouco mais rapidamen- utensílio de cozinha. Ao longo
te no verão do que no inverno. Mas por que será? de sua história, seu formato não
mudou muito. Ela foi projetada para
Outro dispositivo relacionado com o calor e suas manifestações é a garrafa aquecer água sobre uma chama.
térmica. Sabemos que ela não funciona fornecendo ou retirando calor. O que
então faz com que a garrafa térmica conserve por algum tempo a temperatura
do líquido guardado em seu interior?
Neste capítulo, estudaremos os tipos de transferência de calor e investigare-
mos a relação entre as quantidades de energia trocadas pelos sistemas físicos,
suas temperaturas e suas características particulares. Veremos também como
são calculadas as quantidades de calor transferidas, de acordo com as variações
ocorridas na temperatura ou no estado físico.

O calor
A garrafa térmica foi projetada
para impedir trocas de calor e
No capítulo 1, vimos que o calor é a energia térmica em trânsito devido à diferen-
manter a temperatura no seu
ça de temperatura existente, fluindo espontaneamente do sistema de maior para o de interior.
menor temperatura.
Para medir as quantidades de calor distribuídas entre os sistemas, utilizaremos o
joule (J), que é a unidade de energia no SI, ou outra de uso bastante comum em Ter-
mologia, que é a caloria (cal). Uma caloria é a quantidade de calor trocada por 1 g de
água no estado líquido quando sofre variação de 1 ºC em sua temperatura.
A relação entre essas unidades é: 1 cal = 4, 186 J. Esse valor resulta de um expe-
rimento em que James Prescott Joule (1818-1889) descreve como o trabalho mecâ-
nico pode ser convertido em calor.
O conjunto representado na página a seguir consta basicamente de uma câmara
contendo água, com duas pás presas a um eixo, o qual, por sua vez, está acoplado a
um peso que, quando em movimento, desce com velocidade constante, fazendo o
eixo movimentar-se.

32 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
A medida que desce, o peso perde energia potencial e
faz as pás girarem no interior da câmara, agitando a água
e promovendo o seu aquecimento. Joule concluiu que a
diminuição de energia potencial é proporcional à variação
de temperatura da água. Mais precisamente, ele demons-
trou que o calor necessário para elevar em 1 ºF a tempera-
tura de 1 lb (libra) de água (453,59 g) é equivalente ao
trabalho realizado na queda de um objeto de 772 lb, a
partir de uma altura de 1 pé (30,48 cm). É importante
notar que essa correspondência foi possível tomando-se o
cuidado para que as trocas de calor se dessem apenas no
interior da câmara: transformações em que não há perdas
de calor têm o nome de adiabáticas.
Fala-se muito sobre calorias, porém sob um enfoque nu-
Estampa com a descrição do experimento de Joule, publicada no tricional. A energia que vem dos alimentos está relacionada
Harper's New Monthly Magazine, n. 3, agosto de 1869. com as ligações químicas das moléculas que compõem os
"'~------------------~ nutrientes (carboidratos, gorduras, proteínas).
·w As calorias
;p_ Depois que ingerimos alimentos - para obter as
"contidas" em ...
"' substâncias necessárias ao nosso organismo - , eles são
""
u
_Q filtrar digeridos (" queimados") e transformados em glicose e
""'
"-- uma jarra outros compostos.
de café
2,2 kg de macarrão A energia química das moléculas digeridas não é
usada imediatamente; ela fica armazenada nas células
em forma de trifosfato de adenosina (ATP: Adenosine
triphosphate), que é o mediador de todas as atividades
acender uma
lâmpada de
biológicas que requerem energia. É desta maneira que
60W por devemos compreender as calorias que os alimentos
um pedaço de torta 90 minutos propiciam: a quantidade de energia que é armazenada
de cereja
em ATP. Veja a quantidade de energia liberada por al-
guns nutrientes:
mover
um • 1 g de proteína oferece até 5,65 kcal;
veículo • 1 g de gordura oferece até 9,45 kcal;
por
217 lanches duplos 141 km
• 1 g de carboidrato oferece até 4, 1O kcal;
• 1 g de álcool oferece até 7,0 kcal.
Imagens fora de proporção entre si.
Perceba que, nessa lista, todas as energias são dadas em kcal (10 3 cal); no
entanto, as "calorias" contadas nos rótulos dos alimentos são, na verdade, quilo-
calorias. Uma lata de refrigerante que exibe a informação nutricional "200 calo-
rias" oferece 200 quilocalorias em glicose e outras substâncias.

••••
A FfSICA NO COTIDIANO

Mais unidades de energia E


Modelo: 42MQB007515LS '"rn
Além do joule, da caloria e do quilowatt-hora, há outras uni- ThinkstockfG
etty lrnages ~
dades de energia, cada qual adequada a determinado contexto. Tensão/Frequência: 220 V "'

Os aparelhos de ar condicionado costumam trabalhar com


Capacidade ~
Refrigeração: 7.000 Btu/h ~
a unidade BTU (British Termal Unit), correspondente ao calor >
Aquecimento: 6.500 Btu/h .'/'
que aquece 1 lb de água, variando sua temperatura em 1 ºF. o

1 BTU == 252 cal


Corrente

Refrigeração: 3.60 A
1
~

Para escolher um aparelho de ar condicionado adequado, é preciso


determinar a área e o número de pessoas no ambiente, a presença de
aparelhos que irradiam calor e paredes com isolamento.

CAPÍTULO 3 • CALORIMETRIA 33
A propagação do calor
No cotidiano, observamos diversos fenômenos que ocor-
rem de forma espontânea. Se pusermos um mesmo líquido
nas colunas de um sistema de vasos comunicantes abertos na
parte superior, elas tendem a ficar sempre no mesmo nível,
após atingir-se o equilíbrio hidrostático. A coluna inicialmen-
te mais alta tende a baixar, empurrando o excesso de líquido
para as demais.
É possível explorar um pouco mais esta imagem. Pergunte aos
estudantes: se as alturas alcançadas pelo líquido nos diferentes tubos
puderem ser comparadas à temperatura, a qual grandeza seria razoável
comparar os volumes em cada tubo e a água que migra entre os
tubos? Devemos esperar respostas do tipo "energia térmica" e "calor",
respectivamente.

As colunas de líquido estarão em equilíbrio


quando todas tiverem a mesma altura.

É importante lembrar que o líquido, ao atingir o mesmo nível em todas as colunas,


não conterá, nelas, necessariamente o mesmo volume; é apenas a pressão hidrostática
que se iguala em todos os pontos do líquido que estiverem nivelados.
Essa situação é análoga àquela que ocorre em sistemas que trocam calor. O calor
flui espontaneamente do sistema físico mais quente para o menos quente; ou seja,
do sistema de temperatura maior para o de menor. Esse fluxo se encerra quando o
equilíbrio térmico (condição em que as temperaturas se igualam) é alcançado.

temperat~ra
maior
11
I temperatura
menor
as temp~raturas
se igualam
11~
O calor flui do sistema físico mais quente Cessando o fluxo não há mais transferência de
para o menos quente. energia térmica.

Aqui, o que se iguala é a temperatura (medida do grau de agitação das partículas).


Não quer dizer, necessariamente, que os sistemas, ao atingirem o equilíbrio térmico,
terminem com a mesma quantidade de energia térmica, pois ela depende de outros
fatores, como a massa e o material constituinte de cada um.
Devemos agora investigar de que modos pode ocorrer esse fluxo de calor. Há três
processos de propagação de calor:
• condução; • convecção; • irradiação.
Observe uma lâmpada incandescente acesa. A energia elétrica que a alimenta se
transforma em outras formas de energia - como a luminosa e a térmica - e não é
preciso encostar a mão nela para saber que está quente. De modo predominante
nesse caso, a energia térmica é propagada irradiando calor e aquecendo os objetos
na sua vizinhança, do mesmo modo que o calor do Sol chega até nós. É assim que Lãmpadas incandescentes
irradiam a maior parte da
as nossas mãos recebem a energia térmica e se aquecem quando as aproximamos
energia elétrica recebida em
do bulbo da lâmpada. forma de calor.

34 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
Outro modo de um corpo receber o calor da lâmpada é entrando em contato
direto com o bulbo. Por exemplo, um tecido encostado em uma lâmpada fica quente
e pode até queimar se o contato for prolongado. Neste caso, é o vidro que conduz o
calor para o tecido em contato.
Há ainda um terceiro tipo de propagação de calor, a convecção, quando a pró-
pria matéria se movimenta de um local para outro, levando consigo a energia térmica,
como acontece com as massas de ar quente que se deslocam na atmosfera terrestre
ou com as correntes marinhas.
A seguir, estudaremos as características de cada um desses tipos de propagação
do calor.

Condução térmica
A condução térmica é a propagação de calor na qual a energia (térmica) se
transmite de partícula para partícula.
Nessa forma de propagação, ocorrem colisões entre as partículas (como átomos
e moléculas), alterando sua agitação térmica.

é'
·-' -- ............ Observe que, na condução, não há
-~
sentido do fluxo de calor '> transporte de partículas através do corpo
......
•-----------------------------------~,,, _... -
o .,,,
::;; sólido, apenas interações entre partículas
o
-o
vizinhas. A condução térmica é muito redu-
! extremidade ,,,,- ... '\ extremidade
zida nos meios líquidos e gasosos, e natu-
~ mais quente: / \ mais fria:
agitação : ralmente não ocorre no vácuo.
agitação
térmica maior \ , ... _______________________________________ , / térmica menor
Cada material tem uma capacidade
própria de conduzir o calor, que está direta-
mente relacionada com o tipo de substância e a natureza
o
õ
.,:;;
e..
das ligações que o compõem. Aquele que conduz o calor
·:;
O)
O)
com facilidade é chamado de bom condutor e o que o
.3
transmite com dificuldade, de mau condutor. Se a condu-
ção for nula ou muito reduzida, o material é denominado
isolante térmico:
• bons condutores: metais em geral, como prata, ouro,
alumínio, latão e aço;
• maus condutores: gelo, água líquida, madeira, lã, papel,
vidro, isopor, borracha, couro, ar seco, concreto etc.
A diferença entre os condutores térmicos está no
modo como as ligações internas se dão nas estruturas atô-
Refrigeradores com gelo acumulado têm seu funcionamento
comprometido, pois o gelo impede o fluxo do calor no seu micas ou moleculares. Os metais são excelentes conduto-
interior. res porque os elétrons livres das camadas periféricas po-
dem propagar energia através de colisões. Em
contrapartida, nos maus condutores, os elétrons periféri-
cos dos átomos estão comprometidos em ligações que
não permitem essa característica.
A distância entre as partículas vizinhas também é um
indicativo da condutibilidade do material: geralmente, sóli-
dos são melhores condutores que líquidos e gases, tanto
que o ar é um ótimo isolante térmico.
Outros exemplos de isolantes térmicos são a neve e o
gelo - os flocos de neve acumulam-se em camadas fofas,
Os iglus têm paredes de gelo que isolam termicamente o ar
interno frio do ambiente externo gelado. aprisionando o ar e dificultando a transmissão do calor.

CAPÍTULO 3 • CALORIMETRIA 35
A lâmpada de Davy
Um instrumento utilizado na detecção de gás acumulado no interior das mi-
nas de carvão, cuja presença poderia causar explosões acidentais, é a lâmpada
de Davy, inventada em 1815 por Humphry Davy.
Uma das várias versões dessa lâmpada apresenta uma tela metálica, boa con-
dutora térmica, envolvendo a chama acesa. Se houver penetração de gás meta-
no dentro da tela, ele entra em combustão e o fogo se apaga depois de uma
pequena detonação. Fora da lâmpada nada acontece, visto que o ambiente ex-
terno não atinge uma temperatura que possa provocar explosão, porque antes
disso a tela metálica terá distribuído o calor da detonação interna através dela.
Portanto, quando a chama se apaga dá-se o alerta de que a concentração de
A lâmpada de Davy é um
metano alcançou um nível alto, com perigo de explosão da mina de carvão. dispositivo de segurança no
trabalho em minas.

Convecção térmica
O que acontece no interior da água que é aquecida em uma panela, sendo a cha-
ma do fogão a fonte do calor? Ao medir a temperatura em várias profundidades,
enquanto a água esquenta, notamos que ela aumenta à medida que chegamos mais
próximos do fundo da panela. Mas como é que toda a massa de água adquire, ao fi-
nal, a mesma temperatura?
Uma boa pista é dada pelo movimento de pequenas folhas de chá jogadas na
água, que sobem e descem durante o aquecimento e funcionam como indicadores
do comportamento das moléculas.
A porção de água junto ao fundo da panela aquece-se primeiro por condução e
tem a sua densidade diminuída por dilatação; em decorrência, a porção inferior
(mais quente) sobe, ao mesmo tempo que a porção superior (menos quente) desce,
formando movimentos de água denominados correntes de convecção.
Esse processo recebe o nome de convecção e é a propagação de calor na qual a
energia térmica se transmite mediante o transporte de matéria. Logo, nessa forma de
propagação, acontece o deslocamento de partículas de uma posição para outra, por-
tanto observável somente em meios fluidos, ou seja, em meios líquidos e gasosos.
Outro exemplo no qual podemos observar a convecção térmica é o sentido de
propagação das brisas costeiras. Nas regiões próximas ao litoral, em dias normais,
sopram brisas marítimas em direção ao continente durante o dia, e brisas terrestres
da costa para o oceano, no decorrer da noite. Por que será que é assim?
De dia, o ar fica mais quente sobre a terra, pois ela se aquece mais rapidamente
do que a água do mar no mesmo intervalo de tempo; quando esse ar quente sobe,
por convecção, o ar menos quente que está sobre o mar movimenta-se para ocupar
o lugar do ar ascendente, formando a brisa marítima.
À noite, o sentido se inverte porque a terra se resfria mais rapidamente do que o
mar, ficando o ar mais quente, por sua vez, sobre o mar.
Durante o dia, a brisa sopra do
mar para a terra, e à noite o
A inversão térmica sentido é invertido.

O fenômeno natural da inversão térmica é uma alteração do sentido de movi-


mentação das correntes atmosféricas, por convecção. Quando isso ocorre sobre as
grandes cidades, temos um problema sério, porque é pela convecção que são espa-
lhados os poluentes. Veja, a seguir, um texto extraído do site da Cetesb (Companhia
Ambiental do Estado de São Paulo), que ilustra o que acontece nesse fenômeno.

36 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
Nos primeiros 10 quilômetros da atmosfera, normalmente, o ar vai-se resfriando à medida que nos distanciamos
da superfície da Terra.
Assim, o ar mais próximo à superfície, que é mais quente, e portanto mais leve, pode ascender, favorecendo a
dispersão dos poluentes emitidos pelas fontes, conforme se verifica na figura 1.
~
~
10 :;;
I

,-.. 8
E
.:,/.
.......
...
lll 6
....::,
"iii 4

Quando as camadas mais altas da atmosfera são mais frias que as camadas mais baixas, a convecção é favorecida, assim como a
dispersão dos poluentes.

A inversão térmica é uma condição meteorológica que ocorre quando uma camada de ar quente se sobrepõe a
uma camada de ar frio, impedindo o movimento ascendente do ar, uma vez que o ar abaixo dessa camada fica mais
frio, e portanto mais pesado, fazendo com que os poluentes se mantenham próximos da superfície, como pode ser
observado na figura 2.

A inversão térmica dificulta a dispersão dos poluentes, porque a convecção não ocorre.

As inversões térmicas são um fenômeno meteorológico que ocorre durante todo o ano, sendo que no inverno elas
são mais baixas, principalmente no período noturno.
Em um ambiente com um grande número de indústrias e de circulação de veículos, como o das cidades, a inversão
térmica pode levar a altas concentrações de poluentes, podendo ocasionar problemas de saúde. [...]
Cetesb. Disponível em: <http://sistemasinter.cetesb.sp.gov.br/Ar/anexo/inversao.htm>. Acesso em: 21 out. 2015.

Irradiação
A irradiação ou radiação térmica é a propagação de calor na qual a energia
(térmica) se transmite através de ondas eletromagnéticas. Nessa forma de propa-
gação, a velocidade das ondas é extremamente elevada em vários meios materiais,
como o ar, o vidro, a água. No vácuo, onde ela também ocorre (ao contrário da
condução e da convecção), a velocidade de propagação é de quase 300 000 km/s
(a mesma velocidade da luz e de todas as ondas eletromagnéticas).
A energia radiante emitida por um corpo é propagada principalmente por
raios infravermelhos; esse fato é útil no mapeamento de vegetações, sensores de
presença etc.

CAPÍTULO 3 • CALORIMETRIA 37
De acordo com o meio material, esses raios podem não se propagar integral-
mente. É o que ocorre nas estufas de plantas, por exemplo. A luz do Sol atra-
vessa as paredes de vidro (que é transparente à luz visível) e, chegando ao inte-
rior da estufa, é absorvida pelas plantas e pelo chão, que reemitem a energia na
forma de raios infravermelhos. Como o vidro é opaco à radiação infravermelha,
esses raios não conseguem atravessá-lo e, assim, permanecem em seu interior,
aquecendo o ambiente da estufa.
luz solar raios outros tipos de onda ~
infravermelhos i
õi

O Jardim Botânico
de Curitiba (PR)
foi inaugurado em
1991. A sua estufa
abriga plantas
características da
a luz solar aquece o ar quente sobe
floresta atlântica do
os corpos e o chão no interior da estufa
Brasil. Fotografia de
c............_....__ __.,....... ,...w.:.:...... marçode2014. Representação de uma estufa comum de vidro.

O efeito estufa na Terra


O que acontece em uma estufa de plantas se dá em grande escala no planeta
Terra. Se esse efeito não existisse, as coisas seriam muito diferentes por aqui.
A seguir, destacamos um texto que esclarece detalhes sobre esse fenômeno mui-
to importante.

[...] a remoção de C0 2 do ~
O efeito estufa é a forma que a Terra tem para manter ar pela fotossíntese l
sua temperatura constante. A atmosfera é altamente trans- de plantas e algas %

diminui o efeito ~
parente à luz solar, porém cerca de 35% da radiação que o acúmulo de C0 2
recebemos vai ser refletida de novo para o espaço, ficando no ar aumenta
os outros 65% retidos na Terra. Isso se deve principalmen- o efeito estufa
te ao efeito sobre os raios infravermelhos de gases como o
dióxido de carbono, metano, óxidos de nitrogênio e ozônio
presentes na atmosfera (totalizando menos de 1% desta),
que vão reter esta radiação na Terra, permitindo-nos assis-
tir ao efeito calorífico dos mesmos.
Nos últimos anos, a concentração de dióxido de car-
bono na atmosfera tem aumentado cerca de 0,4% anual-
mente; esse aumento se deve à utilização de petróleo, gás e
carvão e à destruição das florestas tropicais. A concentra-
ção de outros gases que contribuem para o efeito estufa,
tais como o metano e os clorofluorcarbonetos, também
aumentou rapidamente. O efeito conjunto de tais substân-
cias pode vir a causar um aumento da temperatura global
(aquecimento global) estimado entre 2 ºC e 6 ºC nos próxi-
mos 100 anos. Um aquecimento dessa ordem de grandeza
A dinâmica do efeito estufa.
não só irá alterar os climas em nível mundial como tam-
bém irá aumentar o nível médio das águas do mar em, pelo menos, 30 cm, o que poderá interferir na vida de milhões
de pessoas habitando as áreas costeiras mais baixas. Se a Terra não fosse coberta por um manto de ar, a atmosfera,
seria demasiadamente fria para a vida. As condições seriam hostis à vida, a qual, de tão frágil que é, bastaria uma
pequena diferença nas condições iniciais da sua formação, para que nós não pudéssemos estar aqui discutindo-a.
[... ] Disponível em: <www.sobiologia.eom.br/conteudos/bio_ecologia/ecologia29.php>. Acesso em: 21 ouL 2015.

38 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
A garrafa térmica
Os recipientes construídos de modo a dificultar as transmissões de calor (a garrafa térmica é um exemplo)
surgiram, no século XIX, graças ao inglês James Dewar (1842-1923). Tais recipientes tinham a finalidade de con-
servar soluções químicas sob temperatura constante, em laboratório.
No começo do século passado, o alemão Reinhold Burger reduziu o tamanho do recipiente térmico de
Dewar e o deixou no formato semelhante ao da garrafa térmica atual. Ele patenteou a garrafa e passou a
vendê-la para uso doméstico.
Uma garrafa térmica é construída para impedir a troca de calor entre
o conteúdo e o ambiente externo. Veja como isso acontece:
• a condução é evitada pelo ar
rarefeito colocado entre as pa- tampa
redes duplas e pela tampa iso-
lante;

• a convecção também é elimi- paredes


nada pelo ar rarefeito e pela .-+-+--- espelhadas

tampa;

• a irradiação é dificultada pe-


las paredes espelhadas, que Sir James Dewar (1842-1923) foi um físico e
químico escocês. A garrafa térmica foi criada
refletem as radiações, tanto por ele com o objetivo inicial de transportar
internas como externas. gases liquefeitos.

Fluxo de calor por condução


Como aquecer uma quantidade de água no menor tempo possível?
Pode-se escolher o fogão ou o micro-ondas. No caso do fogão, será necessário usar
o fogo alto, porque a intensidade da chama do fogão determina a energia que é trans-
ferida para a panela e, como consequência, o tempo de aquecimento. Além disso, al-
guns fogões a gás apresentam como recurso dois queimadores um pouco maiores que
os demais, e, com eles, podemos obter chamas maiores. A panela utilizada também
deve ser adequada: fina, metálica e de fundo largo, que aproveite melhor o calor da
chama. É necessário centralizar a panela sobre o queimador. Com essas providências, o
tempo de aquecimento no fogão será o menor possível.
Cada uma dessas medidas, que tomamos informalmente, serve para otimizar o
fluxo de calor da chama através da panela. O fluxo de calor é a quantidade de ener-
gia, proveniente da chama, que atravessa o fundo da panela por unidade de tempo.
Ele depende da intensidade da chama e das características da própria panela, tais
Alguns fogões apresentam
queimadores de tamanhos
como o material de que é feita, a área em contato com a chama e a sua espessura.
diferentes para que se possa Para determinar esse fluxo de energia térmica, que mede a propagação do calor
aproveitar melhor o fluxo de calor
segundo determinada forma (condução, convecção ou irradiação), calculamos a
para a panela e evitar o consumo
desnecessário do gás. quantidade de calor Q que atravessa uma dada área A em um intervalo de tempo Lit.

Definimos, então, o fluxo de calor <I> através da razão: <1> =Q


Lit
Seria adequado enfatizar aqui que, apesar de a unidade J/s
(joule por segundo), que pertence ao SI, corresponder à
unidade W (watt), de potência, fluxo de calor não é a mesma
coisa que potência; já vimos anteriormente grandezas que
apresentam unidades equivalentes e são distintas, como o
trabalho e o momento de uma força. No máximo, podemos
dizer que o fluxo de calor através de uma superfície caracteriza
a potência do processo. ~
~-----------~>-
CAPÍTULO 3 • CALORIMETRIA 39
Independentemente do método de transmissão, a unidade do fluxo de calor é e,
sempre uma unidade de calor sobre uma unidade de tempo, por exemplo, cal/min.
Vamos analisar a propagação de calor por condução através de um corpo em -
face 1
-~,face 2
,,
--·
1 \
forma de bloco retangular; por exemplo, uma placa de faces paralelas 1 e 2, como 1 \
\\
\
mostra a figura ao lado. \
\ <.9
Q 'I> I=
O fluxo de calor <I> que atravessa esse corpo é determinado pelos seguintes I
I
I
fatores: --, I
I
O I

• área A da secção atravessada pelo calor: quanto maior ela for, mais calor pode ,,
OI

~'
passar pelo corpo em um intervalo de tempo considerado;
• espessura da placa ou comprimento do trajeto da propagação do calor: quanto
maior for a espessura, menor será o fluxo de calor que atravessa o corpo;
• diferença de temperatura entre as faces 1 e 2 (A.0 = 01 - 02, sendo 0 1 > 02): quan-
e
to maior for a diferença entre as temperaturas das faces, na direção da propaga-
Se 01 > 02 , o calor Q fluirá da
ção, maior será o fluxo; face 1 para a face 2.
• natureza do material, caracterizada pelo coeficiente de condutibilidade térmica k.
Observe na tabela que os melhores condu- Coeficientes de condutibilidade térmica a 25 ºC
tores são, na ordem: sólidos, líquidos e gases.
Como interpretamos esses dados? Analisando Estado do material Substância ( kcal )
k em h. m ·ºC
o caso da água, o coeficiente 9 kcal/(h • m • ºC)
indica que uma coluna de água de 1 m de espes- ouro 257
sura, entre dois ambientes cuja diferença de tem- alumínio 178
peratura é de 1 ºC, transfere 9 kcal por hora, do ferro e aço comum 40-50
ambiente mais quente para o mais frio. porcelana 0,7-0,9
sólidos
Esses valores são importantes quando se de- cimento 0,8
seja escolher materiais para a construção civil. vidro 0,4-0,8
Não é adequado, por exemplo, escolher metais cimento em pó 0,6
como materiais de revestimento de paredes que
amianto 0,2
ficarão muito tempo expostas ao sol.
água 9
Comparando os valores desses coeficientes, líquidos
mercúrio 6,5
vemos que o ouro (que é um bom condutor)
ar seco 0,021
tem uma condutibilidade térmica 12 mil vezes gases
vapor-d'água 0,01
superior à do ar seco (que é um ótimo isolante
térmico). Isso está de acordo com o modelo Fonte: LIDE, David R. (editor-chefe). CRC Handbook of Chemistry and
Physics. 90. ed. Flórida: CRC Press LLC, 2009.
que discutimos anteriormente, que leva em
consideração a proximidade entre partículas; de acordo com esse modelo, mate-
riais mais densos, como o ouro, apresentam maior empacotamento de partículas
por unidade de volume do que o ar, e, como a propagação do calor por condução
se faz por colisão partícula a partícula, é de se esperar então que o ouro conduza
melhor o calor. "'
N
~
0
Mais tarde veremos que, em geral, materiais que apresentam boa condutibili-
dade térmica também apresentam boa condutibilidade elétrica.

Lei de Fourier
O matemático francês Jean Baptiste Joseph Fourier estabeleceu a relação entre
os fatores vistos anteriormente. Em um regime estacionário de condução em que a
propagação de energia térmica é constante através de um material condutor homo-
gêneo, o fluxo de calor é: Retrato de Jean Baptiste
Joseph Fourier (1768-1830).
• diretamente proporcional à área da secção transversal A e à diferença de tempe- Gravura de Louis Leopold
ratura A.0 entre as extremidades; Boilly (cerca de 1800).

40 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
• inversamente proporcional à distância entre as extremidades ou espessura.

O fluxo de calor, expresso em termos dessas variáveis, é: <1> = k. A· Lie


e

Radiações térmicas e a lei de Stefan-Boltzmann


Todos os corpos emitem radiações eletromagnéticas. Podemos entender a ra-
diação eletromagnética como uma forma de energia, constituída por perturba-
ções ou ondas, que se propaga com a velocidade da luz, em várias frequências e
comprimentos de onda. Algumas radiações podemos ver, e outras não, mas todas
elas estão associadas à temperatura dos corpos emissores; em outras palavras, a
distribuição de frequência dessas radiações depende da temperatura dos corpos
e, por esse motivo, são também denominadas radiações térmicas.
À temperatura ambiente, a maioria das radiações está
na faixa do infravermelho, invisível para nós, mas o adven-
to de dispositivos sensíveis a essa frequência tornou possí-
vel a visão noturna.
Cada corpo tem uma capacidade específica de absorver
e emitir calor por radiação, que depende de sua forma e
do material de que é constituído, bem como de sua tempe-
ratura e da temperatura ao redor.
Se a temperatura desse corpo for maior do que a de sua
vizinhança, ele vai emitir mais radiação do que absorver, e,
se for menor, ocorrerá o contrário. É razoável concluir, a
Nesta fotografia em partir disso, que, se a temperatura do corpo estiver em equilíbrio com a da vizi-
infravermelho, as regiões
amarelas e avermelhadas nhança, então a absorção e a emissão de radiação eletromagnética ocorrerão na
representam temperaturas mesma intensidade.
mais altas que as azuladas. As
aplicações mais comuns da visão Um corpo hipotético que possa absorver todas as radiações que incidam sobre
noturna incluem atividades ele é chamado de corpo negro. E, assim como absorve toda a radiação, se ele
militares, policiamento, caça e
observação da vida selvagem, estiver em equilíbrio com a vizinhança, emitirá toda ela igualmente. Foi o físico
vigilãncia, navegação e detecção alemão Gustav Kirchhoff (1824-1887) quem descreveu esse objeto teórico, e a
de objetos ocultos.
busca da determinação de seu comportamento por outros físicos, como Max
Planck (1858-1947) e Niels Bohr (1885-1962), estabeleceu as bases de um ramo
da Física moderna muito importante chamado Mecânica Quântica.
Existe uma grandeza física denominada poder emissor E do corpo negro, que
é a potência irradiada por unidade de área ou a energia radiante emitida por in-
2 = W/m • Naturalmente, o
tervalo de tempo e área, cuja unidade no SI é _J_ 2
s•m
corpo que hipoteticamente apresentaria o melhor poder emissor seria o corpo
negro; portanto, os corpos reais detêm uma fração desse poder emissor.
O poder emissor foi equacionado por dois físicos austríacos, Joseph Stefan
(1835-1893) e Ludwig Eduard Boltzmann (1844-1906).
A lei de Stefan-Boltzmann estabelece que o poder emissor de um corpo negro
em equilíbrio térmico a certa temperatura absoluta Té proporcional a T4 (T elevada
à quarta potência). Ela é expressa pela igualdade:

Ecorpo negro =cr•T4'

em que a é a constante de Stefan-Boltzmann, a == 5,67 · 1Q---ll W K4 .


2

CAPÍTULO 3 • CALORIMETRIA 41
O poder emissor de objetos reais pode ser calculado por meio de uma expressão
adaptada da lei de Stefan-Boltzmann:
Ecorpo real =cr•E•T4
sendo E a emissividade do objeto, O< E< 1.
Observe que a variável relevante aqui é e: para determiná-la, devemos encon-
trar experimentalmente o valor do poder emissor E do objeto real, que é a potên-
cia irradiada por unidade de área, e substituí-lo na expressão adaptada da lei de
Stefan-Boltzmann.
Com esses valores, é possível avaliar o nível de conforto oferecido por coberturas
feitas por determinados materiais, projetados para trabalharem em determinadas
faixas de temperatura.

• • Exercícios resolvidos
••
ER1. Uma garota está agasalhada com uma roupa
de espessura igual a 1 cm e área de 8 000 cm 2 • O
b) Em 1 hora, temos Lit = 3 600 s; então, substituin-
do os valores conhecidos em <I> = -º=., obtemos:
tecido do agasalho tem condutibilidade térmica de Lit
cal 16 = ----º'---- • Q = 57 600 cal
0,00008
s •cm• ºC. A temperatura da pele dessa ga- 3600

rota está a 36,5 ºC e o ambiente externo, a 11,5 ºC.


ER2. Triplicando-se a temperatura absoluta de um cor-
Determine: po negro, o seu poder emissor de energia radiante au-
a) o fluxo de calor perdido através do agasalho; menta quantas vezes?
b) a quantidade de calor conduzida pela roupa em 1 hora.
Resolução: Resolução:
Os dados são: Ecorpo negro = e; • T4 é a expressão da lei de Stefan-
e= 1 cm· A= 8000 cm 2• k = O00008 cal • -Boltzmann, a dada temperatura; então, em uma
' ' ' s ·cm· ºC' temperatura absoluta 3 vezes maior do que a anterior,
egarota= 36,5 ºC e eexterna= 11,5 ºC, então Li0 = 25 ºC podemos escrever:
a) O fluxo de calor perdido é: E'corpo negro =cr•(3T)4 =cr•81T4= 81cr•T4
"' = k . A · Li0 = o00008 • 8 000 • 25
"' e ' 1 Se compararmos os resultados, veremos que o poder
:. <I> = 16 cal/s emissor torna-se 81 vezes maior que o inicial.

••••
Efeitos do calor
As geladeiras também são máquinas térmicas, trabalhando
para retirar calor de um sistema - objetos e alimentos coloca-
dos no seu interior - para outro, o exterior da geladeira, em
geral a parte posterior, que fica aquecida.
Coloque um copo com água no congelador: haverá trans-
ferência do calor do copo para o exterior. Você espera, natu-
ralmente, que a água inicialmente esfrie e depois congele.
Do mesmo modo, retire alguns cubos de gelo do congela-
dor, coloque-os sobre um prato e observe: provavelmente, você
vai esperar algum tempo até que eles comecem a derreter.
Tempestade de neve na Alemanha, em 201 O. Entre -2 ºC e 5 ºC
a neve derrete com facilidade; abaixo desses valores, acumula-se
facilmente. Em ambos os casos pode causar vários acidentes.

42 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
Por que isso acontece? Assim como a água do copo deve esfriar para depois conge-
lar, também o gelo primeiro deve aquecer para depois fundir. Lembrando que o ponto
de fusão do gelo está em torno de O ºC para a maioria dos locais, os cubinhos só come-
çarão a derreter a essa temperatura. Até lá, podemos dizer que eles estão sofrendo
aquecimento (por mais estranho que isso possa parecer!). De fato, se a temperatura
externa for maior que OºC, haverá transferência do calor do ambiente para os cubinhos,
que fará sua temperatura aumentar. Esse também é o motivo pelo qual a neve acumu-
lada no chão, em países frios, não se funde tão logo o Sol apareça para aquecê-la.
Podemos aquecer cubos de
Enquanto não alcançar a temperatura de fusão, toda a energia absorvida pelo
gelo para fazê-los derreter, mas
há outro meio de conseguir o gelo ou pela neve, em temperaturas negativas, será utilizada somente para seu
mesmo efeito. aquecimento. Depois de ser atingido o ponto de fusão, a energia térmica que con-
tinuar a ser assimilada poderá alterar seu estado físico, mantendo a temperatura
constante (em torno de O ºC). A partir daí, a energia recebida será usada para au-
mentar a temperatura. Isso continua até o limite de 100 ºC, o ponto de ebulição da
água, quando haverá essa outra mudança de estado físico. Eventualmente, o vapor
será aquecido além dos 100 ºC se continuar exaurindo mais energia térmica.
Agora, podemos ampliar a afirmação feita no capítulo 2 sobre os efeitos do calor.
Quando um corpo troca calor com sua vizinhança, pode sofrer variações nas dimen-
Representação da estrutura
molecular do gelo. Cada sões, pode variar sua temperatura e/ou ter seu estado físico alterado. Esses são os
molécula seria constituída de efeitos da passagem do calor.
uma esfera vermelha (átomo
de oxigênio) e duas brancas
(átomos de hidrogênio). Repare
que as hastes azuis representam
Calor sensível e calor latente
ligações intermoleculares.
O calor que é transferido para uma substância recebe o nome de calor sensível se
o efeito acarretado for apenas o seu aquecimento (isto é, a elevação da temperatura);
naturalmente, se a substância ceder calor e acabar se resfriando, também utilizaremos
o mesmo nome; portanto:

Calor sensível é o calor trocado que faz com que uma substância sofra variação
somente de temperatura.

Caso a transferência de calor provoque a mudança de estado físico da substância,


mantendo-se constante a temperatura, ele será denominado calor latente:

O calor trocado que altera o estado físico de uma substância, com a temperatura
permanecendo constante, recebe o nome de calor latente.

A essa altura é
conveniente esclarecer
Curva de aquecimento
que as temperaturas Em um gráfico de temperatura 0 em função da quantidade de calor Q absor-
de O ºC para a fusão
do gelo e 100 ºC para
vida, podemos visualizar o fenômeno do aquecimento de uma substância, pas-
a ebulição da água sando do estado sólido até o gasoso.
só acontecem para a
Este gráfico é a curva de aquecimento da substância.
água pura sob pressão
atmosférica de 1 atm, Temperatura (8) mudança fase
ou 101325 Pa; para de fase gasosa
ponto de
aumentos expressivos ebulição
de pressão (-102 atm) mudança
sobre o gelo, pode ponto de de fase mistura
haver fusão sem que fusão de fases
se chegue a O ºC. mistura : fase líquida
Pode também haver de fases : líquida e gasosa
derretimento superficial sólida :
pelo arranjo irregular e líquida :
das moléculas de '--,,-' Calor (Q)
água na superfície,
uma anomalia que se
i
quantidade
i
quantidade de
i
quantidade
i
quantidade de
t
quantidade
intensifica pelo contato de calor calor latente de calor calor latente de calor
com outra superfície. sensível de fusão sensível de ebulição sensível

CAPÍTULO 3 • CALORIMETRIA 43
Os patamares, que são os trechos do gráfico em que os segmentos são horizontais,
indicam que as temperaturas mantêm-se constantes. Isso significa que nelas ocorrem
as mudanças de fase. No primeiro patamar, onde está o ponto de fusão, a substância
passa do estado sólido para o líquido, e (ºC) vapor
e no segundo temos o ponto de ebu-
lição, no qual acontece a passagem 100 -------------------------------------:-,-.--
: ., - - -~
do líquido para o gasoso.
Por exemplo, no caso da água o --+---:::-_ _ _ _-,,,,,::.:,___ _ _ _ _ __,___ _ _ __.___ _.___•
pura, a 1 atm de pressão, veja, ao lado, ~
õº Q 1 Q 5 Calor
o gráfico da curva de aquecimento. to

ATIVIDADE PRÁTICA
mm
nm:l!I
NÃo ESCREVA
NO UVRII

Analisando a curva de aquecimento e a


equação fundamental da calorimetria

Já que estamos estudando os efeitos do calor e as propriedades dos materiais relativas ao calor,
vamos ver como os líquidos se comportam quando aquecidos. O que acontece com a temperatura
de um líquido durante o aquecimento? Sobe sem parar? Para alguma hora? Esperamos realizar
esta experiência para explorar ainda mais o comportamento do calor nas substâncias. Prepare-se.

Material
• água (ou outro líquido como vinagre)
• uma fonte de calor (fogareiro ou um aquecedor elétrico de resistência, uma
chapa para aquecimento)
• béquer (ou algum outro recipiente de vidro que possa ser aquecido)
• termômetro (com calibração superior a 100 ºC)
• luvas térmicas e garras para manusear os equipamentos

Procedimento
1. Com o líquido dentro do erlenmeyer, coloquem o termômetro lá dentro
e façam o registro da temperatura.
li. Mantendo o termômetro dentro do recipiente, com cuidado, liguem a fonte
de calor e comecem a marcar o tempo. A cada 0,5 minuto (30 segundos)
anotem a temperatura marcada até o líquido começar a ferver. Vocês perce-
berão que o registro da temperatura no termômetro irá subir.
Ili. Durante a ebulição do líquido, continuem anotando a temperatura por, pelo menos, um minuto. Depois
desliguem a fonte sem mexer na montagem, deixando-a esfriar naturalmente.
IV. Coloquem os dados na tabela e construam o gráfico da temperatura do líquido em função do tempo de
aquecimento do conjunto.

t (min) 6,0 6,5 7,0 7,4 8,0


e CºC)
O gráfico correspondente ao aquecimento da água é uma função afim, ou seja, da forma y = ax + b.
No nosso caso, y é a temperatura (0), ex é o tempo de aquecimento (t); portanto, nossa função será:
e= at + b
O valor de b corresponde à temperatura inicial 00 , ou seja, o valor da temperatura em t = O.
V. Depois de preenchida a tabela, registrem qual foi a quantidade de líquido usada pelo grupo, a tempera-
tura inicial, a temperatura final e o tempo decorrido entre as duas temperaturas.

44 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
Discussão
1. Os gráficos de todos os grupos são idênticos? Qual grandeza variou? Vocês veem alguma razão para isso?
2. Sabendo as variáveis de que a equação fundamental da calorimetria depende, o que pode representar
fisicamente o coeficiente a?
3. Por que a curva para de crescer em um determinado momento?
4. Comparando com os outros grupos, quando a massa aumenta é preciso dar mais ou menos calor para a
curva parar de crescer?
Ver Orientações Didáticas.

Quantidades de calor sensível Calor específico de


algumas substâncias
Sabemos que a quantidade de calor sensível Os necessá-
Calor específico
ria para alterar a temperatura de um corpo ou de um flui- Substância
(cal/g • ºC)
do depende da substância de que é constituído: para pro-
hidrogênio 3,4
mover a mesma variação de temperatura em objetos de
metal ou de pedra, de mesma massa, precisamos prover água 1,0
quantidades de calor distintas, e sabemos que o metal álcool 0,60
aquece com menos calor. Essas quantidades também de-
gelo 0,50
pendem da massa dos objetos (quanto maior a massa,
mais calor deve ser trocado para que se chegue à mesma vapor-d'água (O ºC) 0,46
variação de temperatura) e da variação de temperatura madeira 0,42
que se deseja promover (quanto maior a variação de tem- benzeno 0,40
peratura, maior será o calor trocado).
nitrogênio 0,25
Então, podemos afirmar que a quantidade de calor sensí-
vel Os que um corpo recebe de uma fonte ou cede para ar 0,24
outro(s) corpo(s) depende de 3 fatores: alumínio 0,22
• uma constante e característica da substância, conhecida oxigênio 0,22
como calor específico, que depende do seu estado de
vidro O, 16
agregação (veja ao lado tabela com o calor específico de
ferro O, 11
algumas substâncias). O calor específico expressa a quan-
tidade de calor que deve ser trocado para que uma massa cobre 0,094
unitária da substância varie sua temperatura em uma uni- latão 0,092
dade;
prata 0,056
• a massa m da substância;
mercúrio 0,033
• a variação de temperatura Li0.
ouro 0,032
Matematicamente, escrevemos: Qs =m•C•L'.10 Fonte: LIDE, David R. (editor-chefe).
CRC Handbook of Chemistry and
Physics. 90. ed. Flórida: CRC Pres.s
Quando estamos trabalhando com objetos formados por vários materiais, não LLC, 2009.
há como determinar um único calor específico. Utilizamos nesses casos uma Esta tabela pode propiciar várias
reflexões. Chame a atenção, por
grandeza auxiliar chamada capacidade térmica C, que indica a quantidade de exemplo, para o fato de que os
calor que o objeto deve trocar para variar sua temperatura em 1 ºC; assim, calores específicos de metais
são igualmente baixos; que o
calor específico do ar é muito
próximo aos do nitrogênio e do
oxigênio, o que reforça o fato de
que a maior concentração de
gases no ar é exatamente dessas
ou, comparando com a expressão Qs = m • c • Li0, também vale C = m • c duas substâncias; e que os
valores para a água são atípicos
O que representa e nesta última expressão? Se o objeto de que estamos tratan- devido à geometria da molécula
de água e de suas interações
do fosse constituído de uma única substância, esse seria seu calor específico. intermoleculares.

CAPÍTULO 3 • CALORIMETRIA 45
A capacidade térmica é expressa em ~~I ou, no SI, em ~ . A fim de preparar as

equações de calor trocado por sistemas isolados em que deve haver a conservação
de energia, convencionaremos os sinais das quantidades de calor da seguinte
forma:
• positivo: Q> O, quando o calor é recebido ou ganho;
• negativo: Q < O, quando o calor é cedido ou perdido.
Os calores específicos das substâncias dão uma ideia de suas necessidades ener-
géticas para aquecimento. O calor específico da água no estado líquido é anormal-
mente grande para moléculas similares, o que nos alerta para as propriedades extra-
ordinárias dessa substância. Podemos dizer que mesmo as características dos
organismos vivos, tais como os conhecemos, seriam muito diferentes se não fos-
sem essas anomalias; como um exemplo, se o valor do calor específico da água
fosse comparável ao das moléculas similares por tamanho ou geometria (como o
H2 S, CH 4 ou ainda o CO), provavelmente seria uma substância gasosa nas condições
ambientes, e sua participação no efeito estufa seria reduzida.

Quantidade de calor latente


Como sabemos, nas mudanças de estado físico a temperatura fica inalterada.
Então, naturalmente, verificamos que a quantidade de calor que é necessária para a
alteração de fase depende somente da massa e do tipo de substância que constitui
o corpo ou o fluido.
A quantidade de calor latente que um corpo ou um fluido recebe ou cede, nas
transições entre fases, depende de dois fatores:
• massa m da substância;
• uma constante de proporcionalidade L característica da substância, denomina-
da calor latente de mudança de fase; essa grandeza indica quanto calor é
necessário para que cada unidade de massa da substância sofra a mudança de
fase considerada; por exemplo, no caso da água, temos:
Ltusão = 80 cal/g
~aporização = 540 cal/g
A expressão matemática do calor latente é o produto:

Qe = m • L

processos endotérmicos (a substância recebe calor)

usão vaporização
; ;
fase fase fase
P.F. P.E.
sólida líquida gasosa
solidificação liquefação

~ /
sublimação

processos exotérmicos (a substância cede calor)

(P.F. e P.E. são, respectivamente, os pontos de fusão e de ebulição)

46 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
• • Exercícios resolvidos
••
ER3. O diagrama temperatura por tempo (0 xt) da figura
a seguir refere-se ao que acontece quando uma barra de
Q s = m · c · Li0 • 1 000 = 100 · c · 40
:. c = 0,25 ~
metal de 100 g de massa recebe calor de uma fonte de g · ºC
potência constante à razão de 200 cal/min.
e (ºC) ER4. Qual é a quantidade de calor necessária para fundir
50 100 g de gelo, inicialmente a -1 O ºC? O calor específico
do gelo é igual a 0,5 ~ª~c e o calor latente de fusão
do gelo é de 80 cal/g. g
10
Resolução:
o 5 t (min)
Inicialmente, o gelo deve ser aquecido até O ºC, tem-
Com base nessas informações, determine: peratura na qual é feita a fusão.
a) a quantidade de calor sensível recebida pela barra nos
Cálculo da quantidade de calor sensível:
5 minutos iniciais;
b) o calor específico do metal. Qs = m · c · Li0 = 100 · 0,5 · (O - (-10))
:. Qs = 500 cal
Resolução:
São dados: Cálculo da quantidade de calor latente:
m = 100g Qe = m · L = 100 · 80 • Qe = 8 000 cal
potência da fonte ou fluxo de calor:
A quantidade total de calor é:
<I> = 200 cal/min
00 = 10 ºC e 01 = 50 ºC, nos 5 minutos iniciais. Q total
= Q s + Q e = 500 + 8 000 • Q tota1
= 8 500 cal
a) O fluxo de calor é: <I> = ~; logo:
Q s = <I> • At = 200 · 5 •
b) A variação de temperatura é:
Q s = 1 000 cal ou 1 kcal

Li0 = 01 - 00 = 50 - 10 • Li0 = 40 ºC; para determi-


O ºC
_ _ _ E _ _ _ _ _ __
fusão

aquecimento do gelo

nar o calor específico, utilizamos a expressão da -10 ºC ------ ---------------------


quantidade de calor sensível:

••••
Troca de calor entre corpos e sua lei geral
Vamos partir de uma situação cotidiana simples: o que acontece quando coloca-
mos cubinhos de gelo dentro de um suco que esteja em um copo à temperatura
Quanto mais ambiente, de 25 ºC, sob pressão de 1 atm? Com o passar do tempo, eles se derretem,
alta for a não é mesmo?
temperatura
do suco, mais Como a temperatura do gelo é de O ºC ou menos, é possível supor que, à medida
rapidamente que o tempo decorre, ele será derretido totalmente e o suco terá sua temperatura
derreterão os
.,__ _.,,, cubos de gelo. reduzida. De fato, o suco (que está mais quente) fornece energia térmica ao gelo (que
está mais frio). Assim, a quantidade de calor perdida pelo suco (Qcedida < O) é, em
módulo, exatamente a mesma quantidade de calor recebida pelo gelo (Qrecebida > O).
Aplicando a convenção de sinais (Qcedida < O, Q,ecebida > O), a expressão
Qcedida + Q,ecebida = O
nada mais faz do que atestar a conservação de energia desse sistema, supondo que
só haja trocas de calor entre ambas as substâncias.
Generalizando, podemos afirmar que existe uma lei geral das trocas de calor que diz:

A soma algébrica das quantidades de calor trocadas entre n corpos em um sistema


termicamente isolado é nula:
Q, + Q2 + Q3 + ... + º" = O
CAPÍTULO 3 • CALORIMETRIA 47
De acordo com a situação analisada, as parcelas dessa soma tanto podem termômetro
ser quantidades de calor sensível como de calor latente.
Em dias frios, quando colocamos uma bebida ou uma sopa quente em um
recipiente, constatamos que a temperatura dela acaba baixando um pouco. Isso recipiente
acontece porque uma parte de sua energia térmica é transferida para o reci- /externo

piente, que se aquece até igualar-se com a temperatura do seu "conteúdo".


Portanto, existe uma parcela de quantidade de calor sensível que deve
ser computada nas trocas de calor envolvendo recipientes e líquidos. Nesses
casos, usamos a capacidade térmica C do recipiente, cujo significado, como
sabemos, é a quantidade de calor necessária para fazer variar sua tempera-
tura em 1 ºC.
Por exemplo, se uma xícara apresentar uma capacidade térmica cujo valor Partes do calorímetro.

é Cxícara = 50 cal/ºC, então para cada grau Celsius de aquecimento ou resfria- :"
=>
o
mento há um ganho ou perda de 50 cal para ela. Assim, a quantidade Q5 de --- - termômetro ~
=>
calor sensível trocada por essa xícara será calculada pela expressão Q5 = C • 110.
~

;,;
'"
Muitas vezes, medimos as quantidades de calor trocadas entre dois ou mais
corpos e fluidos, no interior de um recipiente, e consideramos o conteúdo como
tampa
1
um sistema termicamente isolado do ambiente externo. Tais recipientes rece-
bem o nome de calorímetros.
Assim, em um calorímetro ideal, suas paredes e a tampa são adiabáticas, ou
interior da
seja, não trocam calor com o sistema isolado em seu interior ou com a vizinhan- garrafa
ça externa.
Observe que, para que a capacidade térmica do calorímetro possa ser des-
prezada, ela evidentemente deverá ter um valor baixo, relativamente às demais
capacidades envolvidas. Comente que calorímetro~ ideais são uma abstração. Para A garrafa térmica é um
processos de curta duraçao, pode-se considerar a garrafa calorímetro não ideal.
térmica como calorímetro ideal.

• • Exercício resolvido
••
ERS. Um jovem pai coloca 200 L de água em uma pisci-
na infantil no quintal de sua casa e verifica que a tempe-
então, mquente = 5 kg= 5 000 g e 0maior = 100 ºC
O equilíbrio térmico se realiza quando as temperaturas
ratura é de 20 ºC. Decide, então, esquentar 5 L de água das águas se igualam, encerrada a troca de calor entre
até 100 ºC e misturá-los com a água da piscina. elas. Vamos aplicar a lei geral das trocas de calor, des-
Sua intenção, naturalmente, é que seus filhos possam se prezando as trocas com o ambiente e visualizando em
divertir em uma água E um esquema o que acontece com as temperaturas:
'" O)

um pouco mais quente. "'


.s
Será que o objetivo des-
se pai foi satisfeito a 100 ºC
contento? Qual terá sido Q quantidade de calor cedida
a temperatura de equi-
1+ pela água quente

líbrio da mistura final de


_ -------------------------------~ equilíbrio
Q + quantidade de calor :_!~~'!1J~9_J
i
água na piscina? ___ 2 __ recebida pela água fria_
20 ºC

Resolução:
Lembrando que cada litro de água pesa 1 kg e que o
mquente · c · 110quente + mfna. · c · 110fna. = O
calor específico da água é igual a 1 ~ , temos os
g · ºC 5 000 • 1 • (0final - 100) + 200 000 • 1 • (0final - 20) =O
seguintes dados:
5000 • 0final - 500000 + 200000 • 0final - 4000000 = 0
200 L de água, a 20 ºC
então, mfria = 200 kg = 200 000 g e 0 menor = 20 ºC 205000 • 0final = 4 500000
5 L de água, a 100 ºC .-. 0final == 21,95 ºC
Este problema é bastante interessante para se levar a discussão adiante.
Discuta com a classe se o procedimento foi válido, perguntando se um aumento de 1,95 ºC é
significativo. Pergunte: qual temperatura seria a ideal? De acordo com a resposta, acrescente:
48 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA então, quanta água seria necessário ferver para se chegar a essa temperatura ideal?
Banho de ofurô
A propósito, você sabe qual é a temperatura da
água em banhos de imersão realizados em ofurôs?
Dependendo do efeito que se deseja, pode-se tomar
um bom banho de imersão em ofurôs que vão de 1O ºC
a 40 ºC. As temperaturas mais baixas estimulam o me-
tabolismo, enquanto as mais altas exercem efeito rela-
xante. Uma boa referência para se buscar uma resposta
é a temperatura média do organismo humano, em tor-
no de 36,5 ºC.
Deve-se entrar na água de um ofurô aos poucos,
parte por parte do corpo. É preciso deixar cada parte
do corpo ir se acostumando com a temperatura. Banho de imersão estilo ofurô.

• • Exercício resolvido
••
ERG. Em um experimento, usa-se um calorímetro de QI + Q2 + Q3 + Q4 = 0 •
capacidade térmica igual a 100 cal/ºC, contendo 500 g • m,agua · c · .-10,agua + C · .-10 calonmetro
, +
de água a 20 ºC. Um pedaço de gelo em fusão é colo- + mgelo • Lfusao_ + mgelo fundido
. • c • .-10fna. = O•
cado no calorímetro, obtendo-se o equilíbrio térmico a • 500 • 1 · (5 - 20) + 100 · (5 - 20) + mgeo1 • 80 +
5 ºC. Então, qual era a massa desse gelo? + mgelofundido. l . (5 - O)= O•
O calor latente de fusão do gelo é 80 cal/g e o calor • - 7 500 - 1 500 + 80 • mgelo + 5 • mgelo fundido = 0
1 1 cal Como mgelofundido = mgelo' temos:
espec1'f.1co d a agua
, e, 1gua
· ~e.
a g.
85·m gelo =9000
Resolução: mgelo = 105,9 g
São dados:
C = 100 cal/ºC Portanto, a massa do gelo, inicialmente a O ºC, era de

mágua = 500 g e tágua = 20 ºC quase 106 g.


Se o gelo colocado no calorímetro estivesse a menos
0gelo = o ºC, pois está em estado de fusão
de OºC, teríamos que acrescentar mais uma parcela de
0 final = 5 ºC
quantidade de calor sensível Q 5, pois ele teria que,
Nessa situação, existem quatro parcelas de quantidades primeiramente, elevar sua temperatura até OºC, antes

l
de calor, como podemos ver no esquema: de começar a fundir.

20 ºC

5 ºC
IQ, + quantidade de calor sensível
cedida pela água
02+quantidade de calor sensível
cedida pelo calorímetro

_______________________________________________________________________________ [ equilíbrio
. ,
Q4 + quantidade de calor sens1vel
, term1co :
•----------
i
OºC t - - - - - - - - - - - - - - - - recebida pela água fria
Q3 + quantidade de calor latente (cuja origem é o gelo fundido)
recebida pelo gelo em fusão

••••
CAPÍTULO 3 • CALORIMETRIA 49
FAÇA1111
ATMDADE PRÁTICA CADERNO

Examinando o banho-maria

O banho-maria, uma das operações de laboratório mais antigas de que se tem notícia, é um ••
processo que ainda hoje usamos muito frequentemente, também na cozinha e na indústria.
••••
fl li
O banho-maria consiste no aquecimento lento e uniforme de um material, colocado em um recipiente
cheio de água que vai se aquecendo ou mesmo chega à fervura; consegue-se dessa forma que o material
se aqueça sem que seu recipiente entre em contato direto com a fonte de calor - o que pode ser perigoso
nos casos em que esse material é altamente inflamável.
O processo tem seu nome derivado de uma alquimista que viveu entre os séculos I e Ili d.C e era
chamada de Maria, a Profetisa. Segundo um manuscrito encontrado em Veneza, ela desenvolveu apa-
relhos onde eram aquecidos o mercúrio, o enxofre ou o cobre, em banhos de água, areia ou mesmo
cinzas, para efetuar sua destilação.
Hoje, usamos o banho-maria para fazer pudins e licores, ou mesmo aquecer um cafezinho. Deixando o
bule de café dentro de uma panela maior onde haja água fervendo, podemos contar com um café quente
sem que ele ferva.
Mas por que será que ele não ferve?

Material
• béquer de material refratário (que pode ir ao fogo)
• um tubo de ensaio
• um termômetro que meça pelo menos 100 ºC
• um pregador de madeira grande
• água
• uma tela de amianto pouco maior que a área do fundo do béquer
• um fogão

Procedimento
1. Coloquem água no béquer. Prendam o tubo de ensaio com o pregador, apoiando-o na
borda do béquer. Certifiquem-se de que o tubo de ensaio não encoste no fundo do re-
cipiente.
li. Agora, encham o tubo de ensaio com água até um nível inferior ao da água dentro
do béquer.
Ili. Coloquem a tela de amianto sobre o queimador do fogão e o conjunto sobre ela, cuidadosamente. Acendam
o fogo e aguarde que a água do béquer entre em ebulição. Todo cuidado é pouco, daqui para a frente.
IV. Quando a água do béquer entrar em ebulição, meçam a temperatura da água dentro do tubo de ensaio.
Repitam a medida a intervalos regulares, até que ela pare de subir. Anotem esse valor e meçam, finalmente,
a temperatura da água do banho-maria.

Discussão
1. Qual é a temperatura da água dentro do tubo de ensaio?
2. Qual é a temperatura da água do banho-maria?
3. A água do banho-maria estava fervendo?
4. E a água do tubo de ensaio também estava fervendo?
5. Vocês esperavam que a água do tubo estivesse fervendo? Por quê?
6. Podemos dizer que há equilíbrio térmico entre as duas massas de água? Por quê?
7. Há fluxo de calor entre as massas de água? Por quê?
8. Façam um diagrama de temperatura em função do tempo e outro de temperatura em função do calor forne-
cido para a água do tubo de ensaio. Apenas o primeiro diagrama deve apresentar patamar; o segundo, não.
Vocês sabem o motivo?
9. Qual deve ser a condição para que uma amostra de água em banho-maria entre em ebulição?
10. Finalmente, respondam: por que motivo o café não ferve quando o deixamos em banho-maria?
Ver Orientações Didáticas.

50 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
Você já parou para pensar na quantidade de Ciclones tropicais: definição
energia em jogo nos biornas terrestres envolvidos Trata-se de tempestades que se originam em la-
com o ciclo da água? Vejamos: sabemos que para
titudes tropicais; incluem depressões, tempestades
fundir e vaporizar 1 g de água são necessárias, res-
pectivamente, 80 e 540 cal, sem falar na quantidade
tropicais, furacões, tufões e ciclones. Esses vários
de calor indispensável para fazer variar sua tempera- tipos de tempestades são similares; sua principal
tura. São quantidades muito grandes para uma mo- diferença é ONDE se formam. FURACÕES (em in-
lécula tão pequena, mas é exatamente essa "anoma- glês hurricane) são ciclones tropicais que ocorrem
lia" que faz a vida na Terra ser do modo que é. no Oceano Atlântico e a leste do Oceano Pacífico
Para a água "poder girar" por todos os ambientes ter- Central. CICLONE é o termo mais específico que é
restres, ela troca energia com eles. Veja só a quantida- frequentemente utilizado para descrever ciclones
de de água que passa pelos oceanos, anualmente: tropicais que se formam no Oceano Índico e próxi-
mos da Austrália.[ ...]
Balanço oceânico global de massa
- Volume anual
-
Processo
(x 103 km 3 /ano)

evaporação 440

precipitação 411

descarga por rios 29 Imagem de satélite Goes-West que mostra quatro ciclones
tropicais no Oceano Pacífico em setembro de 2015.
Fonte: O balanço global de calor. Disponível em:
<www.es.flinders.edu.au/nmattom/lntro0dpor/lecture04. O desenvolvimento de um ciclone tropical ocor-
html>. Acesso em: 22 out. 2015. rerá apenas quando condições muito específicas
existirem. Um furacão origina-se como um distúrbio
Esses dados constituem um balanço porque a
tropical com ventos relativamente fracos, uma fraca
quantidade de água que "entra" por precipitação, so-
mada à descarga de rios, é igual à quantidade de água
área de pressão baixa, nebulosidade extensa e algu-
que "sai" por evaporação. Pense agora nas quantida- ma precipitação. Muitos destes distúrbios existem
des de energia necessárias para elevar toda essa água em qualquer dado tempo nos trópicos, mas muito
e fazê-la condensar-se: quantidades enormes são tro- poucos evoluem para furacões, uma vez que as con-
cadas com a atmosfera. dições requeridas para tal são muito específicas [...].
É natural, então, imaginar que acúmulos eventuais A principal fonte de energia é um ar quente e úmido
de energia sobre os oceanos podem causar algum dis- sobre o oceano; portanto, requer oceanos com tem-
túrbio atmosférico, e é exatamente o que acontece: peraturas quentes para se desenvolver. O ar sobre o
são essas quantidades enormes de energia que geram oceano precisa também estar muito quente e úmido.
os furacões. Conforme o ar sobe através da tempestade, o vapor
Um furacão tem uma quantidade incalculável de se condensa em água líquida. Cada gota de água que
energia. Algo como em média cinco vezes o total de
se condensa libera uma certa quantidade de energia,
energia utilizada pela humanidade em um ano inteiro.
conhecida como calor latente, o qual é o principal
Leia agora um texto do Grupo de Estudos em Mul-
tiescalas, um laboratório do Instituto de Astronomia e
combustível de um furacão. Se uma tempestade em
Astrofísica da USP, sobre as condições de formação desenvolvimento encontra águas mais frias ou terra,
desses fenômenos climáticos: esta fonte de energia é perdida e a tempestade irá
enfraquecer. Para um furacão se formar, os ventos
Os satélites meteorológicos fornecem uma gran- em todas as altitudes precisam estar na mesma di-
de quantidade de material de valor único para quem reção. O cisalhamento do vento refere-se à condição
precisa de informações sobre a intensidade, posição na qual a direção do vento e a velocidade mudam
e movimentos dos ciclones tropicais. Essas informa- dentro dos 15 km inferiores da atmosfera. Quando o
ções são utilizadas para previsão e análise e forne- cisalhamento do vento está presente, a tempestade
cem avisos importantes sobre ciclones tropicais em frequentemente não consegue se formar como um
volta do mundo. sistema organizado. Ocasionalmente, quando todas

CAPÍTULO 3 • CALORIMETRIA 51
as condições requeridas estão presentes, um distúr- ter uma rotação pronunciada em torno do centro da
bio tropical se desenvolve em uma depressão tropi- baixa pressão e velocidades dos ventos de pelo me-
cal, um sistema fechado de baixa pressão. Conforme nos 120 km/h. Uma vez que a tempestade se trans-
a pressão cai, os ventos em torno da baixa pressão forma em um furacão, pode durar por vários dias;
aumentam, mas permanecem menores que 60 km/h. contudo, conforme fica mais velha, encontra terra
Para uma depressão atingir um estágio de tempesta- ou águas oceânicas frias e perde sua fonte de ener-
de tropical, uma rotação distinta precisa existir em gia, e começa a enfraquecer. Pode então retornar ao
torno da área central da baixa pressão e os ventos grau de depressão tropical e, eventualmente, morrer,
precisam atingir velocidades entre 60 e 120 km/h. tornando-se uma área de fortes chuvas.
Grupo de Estudos em Multiescalas. Disponível em:
Nesse ponto, uma tempestade tropical recebe um <www.icess.ucsb.edu/ gem/furacoes.htm>.
nome. Para atingir um estágio de furacão precisa Acesso em: 22 out. 2015.

Organizando as ideias do texto


1. Lembrando que a quantidade de calor latente de vaporização da água é de 540 cal/g, determine a quantidade de
calor que é deixada na atmosfera anualmente por efeito da precipitação sobre os oceanos. Compare o valor ob-
tido com a quantidade de energia gerada pela hidrelétrica de ltaipu em 2013, recorde histórico de 9,9 • 101º kWh.
Use 1 cal = 1,2 • 10---6 kWh.

Entenda como se forma um furacão. Portal G1. Disponível em:


<http://gl.globo.com/Noticias/Ciencia/O,,MUL92570-5603,00.html>. Acesso em: 22 out. 2015.
Professor, veja Orientações Didáticas.

PARA SABER MAIS

Site
Tornados
Disponível em: <www.cientec.usp.br/animacoes/tornados/index.html>. Acesso em: 22 out. 2015.
Este site explora, com variados recursos, fenômenos atmosféricos, como tempestades e tornados. Você vai saber
as condições e os locais em que ocorrem. Há informações sobre a nossa atmosfera, simulações e sugestões de
experimentos.

52 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
~ • EP6. Os átomos de ambos os materiais estão igualmente
Exerc1c1os propostos distribuídos na estrutura cristalina, mas a massa do
ouro é maior ara uma mesma unidade de volume, sendo
consequentemente mais denso que o alumínio. Esse fato está relacionado com a condutividade, pois átomos mais pesados
vibrando em estruturas análogas transferem maior quantidade de energia para a vizinhança.
EP1. A tabela 1, que você vê logo abaixo, fornece alguns EP6. Observe algumas propriedades do alumínio e do
dados nutricionais comparativos entre um isotônico in- ouro:
dustrializado e a água de coco, considerada um isotôni-
Estrutura Raio médio Número
co natural, porque fornece nutrientes e eletrólitos na Metal
cristalina (10-12 m) atômico
mesma proporção existente no organismo humano.
Cúbica de
Tabela 1 - Informações nutricionais AI 125 13
face centrada
em cada 100 ml de bebida
Cúbica de
Au 135 79
Valor energético face centrada
(devido aos Potássio Sódio
Bebida Explique, com base no modelo de estados físicos, se
carboidratos) (mg) (mg)
(kcal) há relação entre densidade e condutividade para es-
ses metais.
Isotônico
102 10 45
industrializado

Água de coco 68 200 60

A tabela 2 mostra o gasto energético por minuto de


algumas atividades.
Tabela 2 - Energia consumida (kcal/min)

Repousar 1,1 EP7. As paredes duplas e espelhadas do interior de uma


garrafa térmica exercem que função para manter a
Atividade Caminhar 3,7
temperatura interna constante durante certo tempo? O
Nadar 10,0 que aconteceria se essa garrafa fosse espelhada só na
Fonte: UFRJ face externa? O espelho dificulta a irradiação; se fosse
espelhada apenas na face externa não manteria bebidas frias.
a) Uma função importante das bebidas isotônicas é a EP8. Os raios infravermelhos ficam retidos dentro de
reposição de potássio após a realização de atividades uma estufa de plantas porque:
físicas de longa duração; a quantidade de água de a) eles não se propagam mais pelo ar quente;
um coco verde (300 ml) repõe o potássio perdido b) a convecção evita que eles sejam irradiados;
em duas horas de corrida. Quanta energia é obtida, c) o vidro dificulta a sua passagem, impedindo que
em contrapartida? 204 kcal saia da estufa; x
b) Calcule o volume, em mililitros, de água de coco d) ocorre inversão térmica dentro da estufa;
necessário para repor a energia gasta após 17 minu- e) não existe vácuo no interior da estufa.
tos de nado. EP9. Uma pequena estufa de plantas tem a tempera-
250ml
EP2. Usando a relação já conhecida entre as tempera- tura interna de 30 ºC, enquanto a externa é de
turas na escala Celsius e Fahrenheit, prove que uma va- 1O ºC. As paredes de vidro têm a condutibilidade
riação de 1 ºF corresponde à variação de 0,556 ºC. térmica de 0,0015 cal , tendo 0,3 cm de espes-
Depois, use a definição de BTU para mostrar que 1 BTU s •cm• ºC
corresponde a 252 calorias, aproximadamente. sura e 1O000 cm 2 de área. Assim, calcule:
5 a) o fluxo de calor através das paredes; 1 ooo cal/s
.Me= g = 0,556 ºC; 1 BTU = 454 · 0,556 = 252 cal
EP3. Por que motivo, quando você coloca sua mão b) a quantidade de calor perdida pela estufa em 1 minuto.
dentro de um forno quente por pouco tempo, não so- 60 000 cal = 60 kcal
EP10. Ao projetar a sala de um laboratório de pesqui-
fre queimaduras, ao contrário do que se tocasse na pa-
rede interna de metal? Porqu~ o ar é isolante térmico, mas o sas com materiais orgânicos, um engenheiro não con-
metal e bom condutor de calor.
seguiu encontrar um que tivesse certo coeficiente k de
EP4. Por que motivo as condutividades térmicas do ci-
condutibilidade térmica para que a espessura da pare-
mento e do cimento ~m DÓ são tão diferentes?
O ar contido entre as part1culat; de cimento em pó diminui de pudesse ter a medida x. Como alternativa, ele en-
drasticamente a sua condutividade.
EPS. Por que o efeito estufa é importante para a manu- controu um material cujo coeficiente era 10% supe-
tenção da vida tal qual a conhecemos na Terra? rior ao requerido inicialmente. Dessa forma, a parede
Porque ele ajuda a manter a temperatura na superfície da Terra
numa faixa adequada à vida.
CAPÍTULO 3 • CALORIMETRIA 53
EP13. O maior calor específico da água exige que uma maior quantidade de calor seja absorvida por ela para que tenha a mesma variação
de temperatura do etanol. Para isso, gasta-se mais tempo.
construída com esse material alternativo ficou com a guro, uma vez que este parece estar frio. Por que isso
espessura igual a: acontece?
a) x e) 1, 1x x e) 2x EP15. Um bloco de cobre, de massa O, 1 kg, é aquecido
b) O, 1x d) 0,9x de 5 ºC para 65 ºC. Dado o seu calor específico igual a
cal
EP11. Duplicando-se a temperatura na escala Kelvin de 0,094 ~C' calcule:
g•
um corpo negro, aumenta-se o seu poder emissor de 564 cal
a) a quantidade de calor sensível que o bloco recebe;
energia radiante. Calcule o fator de aumento da emis-
b) a capacidade térmica desse bloco; 9,4 call°C
são de energia. 16
e) o equivalente em água do bloco. 9,4 g
EP12. Em cada um dos recipientes abaixo há um litro de
EP16. O fluxo de calor refere-se a certa quantidade
água pura a uma temperatura inicial de 80 ºC. Nesses
de calor que flui de um corpo para outro (ou da fonte
recipientes (1 e 2), adicionamos respectivamente dois
para o receptor), por unidade de tempo. Se uma fon-
bloquinhos A e B, de materiais diferentes e de mesma
te térmica fornecer energia, sob um regime constan-
massa, 250 g, ambos à temperatura inicial de 20 ºC.
te, igual a 500 cal/s, então poderá aquecer 1, 5 kg de
Depois que se estabeleceu o equilíbrio térmico, nota- água, de 20 ºC a 21 ºC, em quanto tempo?
mos que no recipiente 1 (onde está o bloquinho do
material A), a temperatura final de equilíbrio foi de É dado o calor específico da água: cágua = 1 g ~ª~c . Des-
60 ºC, enquanto no recipiente 2 (onde está o bloqui- preze as eventuais perdas de calor. 3 s

Q W~
nho do material B), a temperatura final de equilíbrio
EP17. O diagrama a seguir refere-se ao fenômeno que
foi de 40 ºC. Então responda:
ocorre com uma porção líquida de 50 g de massa. Ela
a) 20 000 cal 1 2 b) 40000 cal
(aágua cede energia térmica à razão de 150 cal/min.
(aágua
perde ~ perde
20000cal ·~ 40000 cal t (ºC)
eo bloco 6 eo bloco
A ganha A u Bganha 40
20000cal). 40000 cal).
20
a) Qual foi a quantidade de calor trocada entre o blo-
quinho A e a água? Considere que não há trocas de
calor com o ambiente. o 2 Tempo (min)
b) Qual foi a quantidade de calor trocada entre o blo-
quinho B e a água? Considere que não há trocas de Com base nessas informações, obtenha:
calor com o ambiente. a) a quantidade de calor sensível cedida pela porção
e) Qual dos dois materiais, A ou B, tem o maior calor considerada, nos 2 minutos iniciais; 300 cal
'f' J .f. c
especI Ico.7 ustI Ique sua resposta. 0~ > 8i' .
>c , porque
b) o calor específico do líquido. 0,3 cal/g • ºC
d) É possível responder à questão e sem usar os resul-
tados de a e b. De que modo? EP18. Um fogão a gás tem um queimador que forne-
Professor, veja comentário nas Orientações Didáticas. ce uma quantidade de calor sensível em fluxo cons-
EP13. Por que a água demora mais a esquentar (atin- tante de 1O kcal/min. Em quanto tempo é aquecido o
gindo 50 ºC, por exemplo) do que o etanol, a partir da volume de 0,2 L, de 1O ºC a 80 ºC, se há uma perda
temperatura ambiente? Considere o mesmo volume e a de 30% de calor para o ambiente? Pesquise os dados
mesma fonte de calor para ambos. que forem necessários. 2 min
EP14. Coloque uma x
~ EP19. Uma quantidade de 5,4 kcal de calor faz derre-
pizza brotinho ou s ter 180 g de um corpo sólido constituído por deter-
J!'
um sanduíche de
~ minada substância em ponto de fusão. Qual é o calor
queIJo para esquen- o

tar no forno elétrico, ·ºrn latente de fusão dessa substância, em cal/g? 30 cal/g
~
sobre uma folha de EP20. Que quantidade de calor é necessária para fundir
papel-alumínio, até 70 g de gelo, inicialmente a -20 ºC? O calor específico
que o queijo derreta; você sabe que, a essa altura, o forno
do gelo é igual a 0 , 5 ~ e o calor latente de fusão do
está bem quente e, ao tirar o lanche, pode queimar-se. g. ºC
Porém, puxar o lanche pelo papel-alumínio é mais se- gelo é de 80 cal/g. 6300cal
EP14. Como a folha de papel-alumínio é fina e seu calor específico é baixo, apenas
uma pequena quantidade de calor passa para nossa mão quando a tocamos.
54 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
EP21. O diagrama mostra a variação da temperatura b) a formação de geleiras com água dos oceanos, nos
em função do tempo de um sistema constituído por polos, contrabalança as águas dos rios que deságuam
uma porção de água de 150 g de massa, inicialmente a no mar.
c) as águas dos rios provocam as marés, que as transfe-
40 ºC. O calor específico da água é igual a 1 ca~C e o
g. rem para outras regiões mais rasas, durante a vazante.
calor latente de vaporização é de 540 cal/g. d) o volume de água dos rios é insignificante para os
t (ºC) oceanos e a água doce diminui de volume ao receber
sal marinho.
e) as águas dos rios afundam no mar devido a sua maior
100
densidade, onde são comprimidas pela enorme pres-
são resultante da coluna de água.
40
EP24. (Unesp-SP) A energia contida nos alimentos
O 3 6 Tempo (min)
Para determinar o valor energético de um alimento,
a) Quantas calorias a água recebe entre os instantes podemos queimar certa quantidade desse produto e,
3 minutos e 6 minutos? 81 ooo cal= 81 kcal com o calor liberado, aquecer determinada massa de
b) Identifique o estado físico do sistema logo após água. Em seguida, mede-se a variação de temperatu-
6 minutos. estado gasoso ra sofrida pela água depois que todo o produto foi
c) Qual deve ser a potência média da fonte de calor, queimado, e determina-se a quantidade de energia
desprezando-se as perdas para o ambiente, nos pri- liberada na queima do alimento. Essa é a energia que
meiros 3 minutos de aquecimento, em cal/s? tal alimento nos fornece se for ingerido.
50 cal/s
No rótulo de um pacote de castanha de caju, está
EP22. Nos estudos de Química, você encontra a se-
impressa a tabela a seguir, com informações nutricio-
guinte classificação de um tipo de propriedade que é
nais sobre o produto.
relacionada à quantidade ou extensão de um material:
• propriedade intensiva: é a propriedade que não de- Informação Nutricional (Porção 15 g)
pende da quantidade do material em estudo; por
Quantidade por porção
exemplo: temperatura, cor, massa específica;
• propriedade extensiva: é a propriedade que depende da Valor energético 90 kcal
quantidade do material; exemplos: massa, área, volume. Carboidratos 4,2 g
Proteínas 3g
Gorduras totais 7,3 g
Gorduras saturadas 1,5 g
Gordura trans 0g
Fibra alimentar 1g
A cor é uma
propriedade Sódio 45 g
:iJF.i i"í'a::, intensiva, pois
independe da
extensão do Considere que 150 g de castanha tenham sido quei-
__,_.._ ..___ _ material.
mados e que determinada massa m de água, submeti-
Então, a quantidade de energia térmica que um corpo da à chama dessa combustão, tenha sido aquecida de
possui pode ser classificada como uma propriedade in- 1 5 ºC para 87 ºC.
tensiva ou extensiva? Por quê?
Extensiva, pois a quantidade total de energia térmica de um corpo Sabendo que o calor específico da água líquida é igual
depende da quantidade do material que o compõe.
EP23. (Enem-MEC) Por que o nível dos mares não sobe, a 1 cal/(g • ºC) e que apenas 60% da energia liberada
mesmo recebendo continuamente as águas dos rios? na combustão tenha efetivamente sido utilizada para
Essa questão já foi formulada por sábios da Grécia anti- aquecer a água, é correto afirmar que a massa m, em
ga. Hoje responderíamos que: gramas, de água aquecida era igual a
a) a evaporação da água dos oceanos e o deslocamen- a) 1O000 d) 7 500 x
to do vapor e das nuvens compensam as águas dos b) 5 000 e) 2 500
rios que deságuam no mar. x e) 12 500
••••
CAPÍTULO 3 • CALORIMETRIA 55
o
.....J
=>
l::
a..
<(
Mudanças de estado
u çm todo o capítulo vamos justificar o comportamento da matéria com base no modelo de partículas.
E sempre bom retomar as ideias gerais desse modelo com os estudantes.
A estrutura cristalina é a conformação que resulta da ordenação repetida de átomos e moléculas de
uma substância. Alguns materiais apresentam essa estrutura muito bem definida (como o gelo, por
exemplo), enquanto outros sólidos não: a estrutura microscópica do vidro é amorfa. Dependendo
do grau de interações entre os módulos de repetição, a substância apresentará propriedades
macroscópicas distintas; os átomos de carbono no grafite se organizam em grandes planos paralelos,
e no diamante a organização é tridimensional. Isso faz com que a dureza do diamante seja muito
maior que a do grafite. , - - - - -----:;;:--- - - - - , ili
Em geral, as substâncias apresentam-se em três aspectos ou fases, também cha- Ol

mados de estados físicos da matéria: sólido, líquido e gasoso. .s"'


A matéria é constituída por partículas muito pequenas (átomos, íons ou mo-
léculas). O estado físico é uma condição macroscópica e depende da temperatu-
ra e do estado de agregação dessas partículas. Além disso, ele determina carac-
terísticas como a densidade e a forma de apresentação da substância.
O grau de agregação é devido a fatores intrínsecos à matéria, como a geometria
Fotografia ampliada de um floco
das partículas e as forças de coesão entre elas, e extrínsecos, como a temperatura e
de neve.
a pressão a que é submetida.
• Fase sólida: as partículas da substância estão muito próximas umas das outras e
agrupadas de forma coesa. Corpos no estado sólido apresentam volume fixo,
forma própria e não sofrem compressão. Cada partícula constituinte executa
pequenos movimentos oscilatórios em torno de uma posição fixa.
• Fase líquida: as partículas da substância estão um pouco mais afastadas do
que na fase sólida, pois as forças de coesão já não são tão acentuadas. Líqui-
dos possuem volume constante e adquirem a forma do recipiente que os Estrutura cristalina do gelo.
contém por não apresentarem estrutura cristalina, além de escoarem com Apesar do seu aspecto frágil,
facilidade; são praticamente incompressíveis e, em repouso, apresentam al- os flocos de neve apresentam
uma estrutura cristalina muito
guma tensão superficial (as forças de coesão fazem com que as partículas do bem definida. Observe a
líquido situadas nas proximidades da superfície livre experimentem uma força posição relativa das moléculas
de água no cristal.
resultante dirigida para o interior do líquido).
• Fase gasosa: as partículas da substância estão completamente separadas
o
umas das outras e situadas, relativamente, a grandes distâncias. O volume do :.e::,
""o
gás é variável, ocupando todo o espaço do recipiente que o contém, adqui- "O
e:
"'e:
rindo sua forma, e sofre, facilmente, tanto compressão como expansão. As ~
N

partículas estão livres e em constante movimento aleatório. 3

No estado líquido, as moléculas de água estão sujeitas a forças de coesão intermoleculares de menor
intensidade do que na condição sólida, ficando, portanto, ligeiramente mais afastadas.

<.9 Cl
"-
f-- z"'
conservam-se
as Iigações --,.
_./ covalentes

'
' ''
\

forças intermoleculares moléculas isoladas A massa total média da atmosfera terrestre é da ordem de
de coesão 1018 kg; desse total, 1015 kg são de água em estado de vapor.
(Dados do National Center for Atmospheric Research.)
Note como as forças de coesão entre as moléculas de água, presentes no Fotografado pela tripulação da Expedição 28 a bordo da
estado líquido, não estão presentes no estado gasoso. lnternational Space Station, em julho de 2015.

56 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
CRT é a sigla em inglês para tubo de raios catódicos.
Placa de vidro dianteira_

O quarto estado da A ideia básica


da tela de plasma Camada
isolante
matéria é fazer brilhar pe-
O plasma, que é um gás ionizado, é
quenas e coloridas Camada
luzes fluorescentes MgO
o estado da matéria em 99,9% do Uni-
para formar a ima-
verso observável, tanto nas estrelas gem. Cada pixel é
quanto no espaço feito de três luzes
interestelar. fluorescentes: uma Fósforos.-::::::::::..-~ -;;,----....._
Cl
z"' vermelha, uma ver-
Eletrodo local - 7
O hidrogênio do de e uma azul. Da
Sol, seu principal mesma forma que a Camada protetora local vidro traseira
componente, está sob televisão com CRT,
a forma de plasma. a tela de plasma varia a intensidade das diferentes luzes para produ-
zir toda a gama de cores.
O plasma consiste numa coleção Para ionizar o gás de uma célula em particular, o computador
de elétrons livres e íons (átomos que de uma tela de plasma carrega os eletrodos que se cruzam nessa
perderam elétrons), movendo-se em célula. Isso é feito centenas de vezes em uma pequena fração de
altas temperaturas e baixas densida- segundo, carregando uma célula de cada vez.
Quando os eletrodos que se cruzam são carregados com vol-
des. Para manter os átomos ioniza-
tagem diferente entre eles, uma corrente elétrica percorre o gás
dos, é necessária uma fonte de ener- nas células. A corrente cria um fluxo rápido de partículas carre-
gia. A energia usada pode ser de gadas, que estimula os átomos de gás para liberarem irradiação
vários tipos: térmica (núcleo estelar, de fótons ultravioleta.
por exemplo), elétrica (um relâmpago) Os fótons ultravioleta liberados interagem com o material
ou luminosa (luz visível de um laser). fosfórico que reveste a parede interior da célula. O fósforo é uma
Se a energia for insuficiente, os plas- substância que emite luz quando exposta a outra luz. Quando um
fóton ultravioleta atinge um átomo de fósforo na célula, um dos
mas acabam se recombinando para elétrons do fósforo passa para um nível de energia maior e o áto-
formar um gás neutro. mo esquenta. Quando o elétron volta ao nível normal, ele libera
Os componentes de um plasma po- energia em forma de fóton de luz visível.
dem ser acelerados, e direcionados, por Na tela de plasma, o fósforo emite luz colorida quando é
campos eletromagnéticos. Isso possibili- estimulado. Cada pixel é feito de três células subpixel individu-
ais de cores diferentes. Um subpixel tem luz fosfórica vermelha,
ta sua aplicação em novos processos de
o outro tem luz fosfórica verde e o outro, luz fosfórica azul.
fabricação de produtos, e na busca de Essas cores, quando misturadas, criam toda a gama de cores
formas de energia sustentável e abun- de um pixel.
dante para uso futuro. Pela variação dos pulsos de corrente através das diferentes
Em nosso cotidiano, o plasma está células, o sistema de controle pode aumentar ou diminuir a in-
presente nas lâmpadas a vapor e fluo- tensidade de cor de cada subpixel, criando centenas de combina-
ções diferentes de vermelho, verde e azul. Dessa forma, o sistema
rescentes e nas telas de alguns tipos de
de controle pode produzir todas as cores do espectro.
~ televisão. A principal vantagem da tecnologia da tela de plasma é que você
'"
O)

É"' • P-- 11!!!!1•• composta


Uma tela de plasma é
de milhões de pixeis
pode produzir uma tela muito grande, usando materiais extrema-
mente pequenos. Como cada pixel é iluminado individualmente,
(pontos luminosos do monitor a imagem é muito brilhante e pode ser vista com nitidez de quase
que em conjunto formam as todos os ângulos. [...]
imagens) contendo gás neônio Disponível em:
ou xenônio, que emite luz ao <http:/ /tecnologia.hsw.uol.com.br/tela-de-plasma 1.htm>.
ser ionizado. Acesso em: 22 out. 2015.

Conforme vimos no capítulo anterior, a curva de aquecimento mostra como


as substâncias mudam de fase, desde que recebam ou percam calor, sob deter-
minada pressão. Para acontecer a fusão, a ebulição e a sublimação, a substância
deve receber energia (calor), enquanto a sublimação inversa (ressublimação), a
condensação e a solidificação ocorrem com a perda de energia. A temperatura
em que se verifica cada uma das mudanças de fase denomina-se:
• para o primeiro patamar: ponto de fusão (P.F.), temperatura em que ocorre a pas-
sagem da fase sólida para a líquida, ou, inversamente, ponto de solidificação (P.S.);
• para o segundo patamar: ponto de ebulição (P.E.), temperatura em que há a pas-
sagem da fase líquida para a gasosa, ou, inversamente, ponto de condensação
(P.C .)- temperatura na qual ocorre a passagem da fase gasosa para a fase líquida.

CAPÍTULO 4 • MUDANÇAS DE ESTADO 57


As temperaturas de mudança de fase dependem da pressão a que estão sub-
metidas as substâncias. Os valores nominais encontrados para a água pura
(P.F. é igual a O ºC e P.E. é igual a 100 ºC) foram determinados sob a pressão atmos-
férica medida ao nível do mar, de 1 atm ou 760 mmHg.
Além desses, existem outros estados da matéria, criados em circunstâncias dis-
tintas das condições ambientes, e cuja descrição está além do escopo deste curso.

Vaporização e condensação
A vaporização ocorre quando partículas de uma substância em fase líquida rece-
bem energia suficiente para passar ao estado gasoso.
A vaporização recebe três nomes diferentes, dependendo de como ela acontece:
• Evaporação: a vaporização acontece em qualquer temperatura. Algumas molécu-
las da superfície livre do líquido retiram calor de outras moléculas, adquirem maior
energia cinética e escapam para a fase gasosa: essa é a evaporação. Nesse evento,
a temperatura das moléculas restantes diminui. Uma pessoa pendura as roupas
bem estendidas em um varal, pois, quanto maior for a área de contato com a
atmosfera, mais rápida será a evaporação. Outras condições, como ocorrência de
vento e baixa umidade relativa do ar, podem aumentar a evaporação da água.
• Ebulição: é a vaporização típica, em que a mudança de fase dá-se quando o lí-
quido alcança o ponto de ebulição da substância na pressão dada; na tempera-
tura de ebulição, a maior parte das moléculas tem energia cinética suficiente
para alcançar o estado gasoso. A água entra em ebulição (ferve) na temperatura A vaporização - tanto na situação
de 100 ºC, sob pressão de 1,0 atm: isso significa que, nessas condições de pressão (A), roupa no varal, quanto na
situação (B), água fervendo -
e temperatura, a maior parte das moléculas de água obtém energia suficiente depende da área da superfície
para vaporizar. Quanto maior for a altitude local, menor será a temperatura de do líquido, da temperatura e de
outros fatores, como a presença de
ebulição. Enquanto não acontecer toda a vaporização do líquido, a temperatura vento e a umidade relativa do ar.
se manterá constante, em uma determinada pressão.
• Calefação: é uma vaporização forçada, pois realiza-se em uma temperatura acima
do ponto de ebulição. Como exemplo, podemos citar uma frigideira bem quente
onde caem alguns pingos de água. A vaporização é tão rápida que os pingos
nem chegam a tocar completamente o fundo da frigideira, movimentando-se
sobre uma camada de moléculas vaporizadas, até dissiparem-se completamente.
O vapor-d'água pode fornecer muita energia ao ambiente sob forma de calor, Na frigideira quente, a água
porque seu calor de condensação é muito alto. Nos países de inverno rigoroso, vaporiza por calefação.

usa-se a calefação para tornar agradável o ambiente no interior das residências, :;;
-~
das edificações em geral e mesmo nas passagens entre eles. X
.,,"'
e:
A condensação é o processo inverso da vaporização. Retirando-se calor de uma ·"'u
substância que está sob forma de vapor, ela sofre condensação e muda para o estado
líquido ao atingir seu ponto de condensação. Se não houver outras trocas de calor do
vapor com o ambiente, em dada pressão, a temperatura permanecerá constante.
Assim como a vaporização ocorre em várias temperaturas, também a conden-
sação poderá efetivar-se em outra distinta da do ponto de condensação. Por
exemplo, o ar atmosférico que respiramos possui moléculas de vapor-d'água que,
em um dia de temperatura elevada, se condensam ao tocar as paredes frias de
uma lata de suco recém-tirada da geladeira. A água que escorre pela parede do
copo vem do ar atmosférico!
Na superfície de um recipiente gelado, de vidro
ou metal, é sempre possível ver gotículas de água
condensada. De onde vem essa água?

58 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
A vaporização é um fenômeno estatístico
Retomemos o modelo de partículas da matéria. Como você sabe, a matéria no estado de gás pode ser com-
preendida como um conjunto de muitas partículas isoladas (n > 102º), distanciadas umas das outras, em movi-
mentação constante e caótica, realizada a grandes velocidades. As colisões, quando acontecem, não consomem
energia e são elásticas. Nos gases, cada partícula desloca-se a uma velocidade específica, e a energia cinética
média é que determina a temperatura do gás. Por esse motivo dizemos que a temperatura é uma grandeza
macroscópica (associada à média de energia de um número enorme de partículas) e intensiva (por definição: que
não depende da quantidade de partículas).
A disposição da energia das partículas de um gás e, consequentemente, de sua velocidade, é estabelecida pela
distribuição de Boltzmann.

N" de partículas
N!!de
do gás
moléculas

o 400 800 1 200 1 600


velocidade média Velocidade Velocidades (m/s)
Em uma amostra de gás a determinada temperatura, Observe a distribuição de velocidades de duas amostras
sempre há partículas muito rápidas e também partículas do mesmo gás submetidas a temperaturas distintas: quanto
muito lentas, pois seu movimento é aleatório. maior for a temperatura dele, maiores serão
A temperatura da amostra é proporcional à velocidade a velocidade média e o número de partículas do gás com
média dessa distribuição. velocidades superiores a um dado valor.

Observando as características da distribuição de Boltzmann, é possível encontrar partículas bastante


energéticas em gases a qualquer temperatura; assim, processos pouco prováveis, como a vaporização a bai-
xas temperaturas, podem acontecer, bastando para isso que uma partícula do gás receba a energia mínima
necessária. Por esse motivo, pode-se dizer que a vaporização é um fenômeno probabilístico. A probabilidade
de uma partícula passar ao estado de vapor aumenta à medida que o sistema se aproxima do ponto de ebu-
lição da substância.

Pressão máxima de vapor


e • Coloque um líquido em um recipiente fechado, sob
• •
·2
e:
o
::;
o
• -1 • temperatura constante 0. Você sabe que algumas partícu-
"O
e: las podem eventualmente passar para o estado de vapor,
"'
e:
jÍ • • ••
--- formando uma fase de vapor sobre a superfície do líquido .
Quando houver um número suficiente de partículas na
fase de vapor, é de se esperar que algumas delas colidam com
a superfície do líquido e voltem à massa líquida, condensan-
vaporização condensação
do-se.
Representação esquemática da vaporização na superfície Quando a quantidade de partículas que evaporaram e per-
do líquido.
maneceram nesse estado for igual à das que se volatilizaram
e condensaram, chega-se a um equilíbrio dinâmico. Sob essas
condições, dizemos que no interior do recipiente existe um vapor saturado, cuja
pressão (de vapor) é máxima nessa dada temperatura (0).

CAPÍTULO 4 • MUDANÇAS DE ESTADO 59


Por meio do diagrama ao lado, vemos que, à medida que a tempe- pvapor (mmHg)
ratura aumenta, também cresce a pressão de vapor; o que é de se espe- 1200
rar, pois, com a ampliação da energia térmica, mais partículas em estado 1000
líquido podem receber a energia mínima necessária para evaporar. 800
Pelo diagrama, também podemos determinar o estado em que se 760/
600
encontra uma amostra de água.
400
O que ocorre quando a pressão de vapor do líquido alcança a
pressão atmosférica local? Nessa circunstância, a temperatura do lí- 200
quido é tal que a maior parte de suas partículas já tem a energia
40 60 80 100 120 0 (ºC)
mínima requerida para mudar de fase, ou seja, acontece a ebulição.
Essa é a curva da pressão de
Assim, podemos definir o ponto de ebulição de um líquido em vapor em função da temperatura,
termos da pressão máxima de vapor. para a água.
O diagrama mostra, por exemplo,
que a 60 ºC o vapor-d'água em
O ponto de ebulição é a temperatura na qual a pressão máxima de vapor de equilíbrio com a superfície da
um líquido iguala-se à pressão atmosférica ambiente. água líquida exerce pressão de
400 mmHg.

Segundo essa definição, o ponto de ebulição de um líquido depende necessa-


riamente da pressão atmosférica local. Os alpinistas que se aventuraram em esca-
ladas como as do monte Kilimanjaro, na Tanzânia, sabem que a água ferve em
torno de 80 ºC, em altitudes próximas aos 5 000 m. Dizendo então que a água
entra em ebulição a 100 ºC, referimo-nos à pressão de 760 mmHg, como mostra
o diagrama.
A pressão máxima de vapor também depende da natureza do líquido. Alguns
líquidos voláteis, como o éter, o álcool e a gasolina, têm maior facilidade para eva-
porar, portanto suas pressões máximas de vapor são maiores quando comparadas
com a da água, na mesma temperatura.

pvapor (mmHg) I\
I I Essa maior facilidade depende da massa e da polaridade das
900 I moléculas; molécul as mais leves e menos polares constituem
800
j / substâncias mais voláteis.

700
-- --- -- f - -- --- -- --/ --- -- --- Sob a pressão de 1 atm, os pontos de ebulição do éter e do
álcool etílico são 34 ºC e 78 ºC, respectivamente. O líquido
600 o / / mais volátil é o éter, pois tem o ponto de ebulição menor que os
500 cb
/ 'l
~
.e, / demais, sob qualquer pressão.

400 ~ I ~ 1/ ~/
/
300 / t---..8/ j
Observe e compare a curva da pressão de
/ V V vapor-d'água com a de outros líquidos.
200
__,V /
V Quais são os pontos de ebulição do éter e
100 do álcool etílico sob a pressão atmosférica
i...---- i.-- i.------
o -
., normal de 1 atm? Qual dos três é o
o 20 40 60 80 100 Temperatura (ºC) líquido mais volátil?

••••
A FfSICA NO COTIDIANO

Panelas de pressão
Para cozinhar alimentos rapidamente, devemos colocá-los em ambientes submetidos a altas temperaturas.
Quando mergulhados em água sob pressão de 1 atm, a temperatura máxima alcançada é de 100 ºC.
De acordo com a curva de pressão de vapor, a pressão é diretamente proporcional à temperatura de ebulição do
líquido. O físico francês Denis Papin (1647-1712) construiu uma panela de ferro fundido provida de uma tampa que
a vedava hermeticamente, com uma válvula de segurança que a impedia de explodir (ao permitir o escape do vapor),
caso a pressão no seu interior aumentasse demasiadamente.

60 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
Com a água entrando em ebulição a temperaturas acima de 100 ºC, os alimentos são cozidos em menos tempo
que nas panelas convencionais. Atualmente, as panelas de pressão são feitas de alumínio e as válvulas de segurança
possuem um pino que levanta quando a pressão interna atinge um nível limite. A tabela mostra alguns tempos de
cozimento comparativos entre a panela de pressão e a panela convencional.
A dependência da velocidade das reações químicas com a temperatura é mais bem explorada em cinética química.

Tempo médio de cozimento (min)


Panela de pressão Panela normal
Alimento
(tampa fechada) (tampa aberta)
batata 8 25
cenoura 9 27
ervilha seca 10 30
beterraba 20 60
lula 22 65
feijão-carioca 26 76
feijão-preto 29 90 Para evidenciar melhor as condições sob as
quais os alimentos cozinham mais rapidamente,
Fonte: I.JoE, David R. (editor-chefe). as panelas de pressão deveriam ser chamadas
CRC Handbook of Chemistry and Physics. 90. ed. Flórida: CRC Press LLC, 2009. de panelas de temperatura.

Fusão e solidificação
Sob determinada pressão, a fusão ocorre quando fornecemos energia necessária
a uma substância no estado sólido. O calor que o sólido recebe faz com que aumen-
te a vibração das partículas, quebrando o retículo cristalino e/ou ampliando a distân-
cia entre elas. O sólido então muda para a fase líquida, em que as forças de coesão
são apenas suficientes para manter as partículas próximas umas das outras.
Durante a fusão, a temperatura permanece constante, mas é preciso continuar for-
necendo calor, pois afastar as partículas e diminuir as forças de coesão requer energia.
No processo inverso, quando retiramos energia de um sistema em fase líquida,
Fotografia 1: A parafina sólida as partículas reaproximam-se e ocorre a solidificação. A quantidade de energia ne-
afunda na parafina líquida.
cessária para fundir ou solidificar determinada massa de uma substância é a mesma.
Durante a fusão e a solidificação, ocorrem variações no volume. A maior parte das

~..----

~
-"
e:
substâncias aumenta de volume ao fundir-se; como consequência, elas, em estado
sólido, submergem quando são colocadas em um recipiente contendo o seu próprio
líquido (fotografia 1). Especificamente para o gelo, ao fundir-se, o volume da água
:e
f-
diminui devido à redução das interações intermoleculares (fotografia 2).
O fato de o volume aumentar na fusão sugere que, se intensificarmos a pressão
sobre o sólido, tendemos a diminuir o espaço reservado às partículas no estado líquido.
Com isso, a fusão só acontecerá se houver um estado de agitação maior dessas partí-
culas, isto é, se a temperatura for elevada.
Fotografia 2: A água é uma De fato, tomando a temperatura na fusão de um sólido sob várias pressões, temos
exceção: o gelo flutua na água
a seguinte curva de fusão:
líquida.
Pressão

líquido
Amostras de materiais cujos valores de pressão e temperatura
estejam sobre a curva de fusão apresentam equilíbrio entre as
T
duas fases (sólida e líquida), portanto em fusão ou solidificação.
Se a temperatura estiver abaixo do ponto de ebulição, o material
apresenta-se no estado sólido, e acima dele, no estado líquido. Temperatura

CAPÍTULO 4 • MUDANÇAS DE ESTADO 61


Regelo, uma anomalia
O regelo é um fenômeno segundo o qual algumas substâncias, quan-
do submetidas a determinada pressão, fundem-se e voltam a solidificar-
-se quando a pressão extra é removida. O regelo foi descoberto inicial-
mente por Michael Faraday (1791-1867); pouco depois, o físico e
professor irlandês John Tyndall (1820-1893) investigou o regelo da água
em glaciares e propôs que a pressão causada pelo peso da geleira na sua
base seria um dos motivos de sua ablação (fratura e desmoronamento do
glaciar), ao lado do aumento da temperatura ambiente ou de fraturas de
ordem sísmica.
Sabemos hoje que no caso da água o ponto de fusão diminui de 0,0072 ºC
para cada atmosfera de pressão aplicada sobre a superfície do gelo.
Além da água, o ferro, o bismuto e o antimônio sofrem esse efeito.
Como fica, então, a curva de fusão para esses materiais?
Se o aumento de pressão facilita a fusão, é razoável esperar que o ponto de fusão O regelo é um dos motivos
de ocorrer o deslizamento da
diminua com a intensidade da pressão aplicada. O aspecto da curva de fusão para neve acumulada no alto das
esses materiais é o que se vê no diagrama 1 abaixo. montanhas: o peso aumenta a
pressão na base, provocando a
Diagrama 1 Diagrama 2 fusão da massa de gelo.
p Na fotografia, o Monte Foraker,
Pressão no Alasca.
e Sem data.

água (líquido)
B -
gelo curva de fusão/solidificação
(sólido)
/_.,(separa o estado sólido do
líquido)

Temperatura
e o e (ºC)
Acompanhe, no diagrama 2 acima, a transformação sofrida por uma amostra de
água, a partir do ponto A, onde o gelo está em uma temperatura 0 abaixo de O ºC.
Mantendo 0 constante e aumentando a pressão sobre o gelo, a amostra chega ao pon-
to B, ocorrendo a fusão e a formação de água líquida, representada pelo ponto C. Em
um processo inverso, reduzindo-se a pressão, a água solidifica-se no ponto B e, em
seguida, retorna ao ponto A, voltando ao aspecto de gelo inicial.

Sobrefusão
As vezes acontece de abrirmos uma garrafa ou lata de bebida recém-tirada do
congelador ou do freezer, onde sabemos que a temperatura é bem inferior ao pon-
to de solidificação da água e, no entanto, a bebida encontra-se no estado líquido.
Se esse fato isolado não causa estranheza, é certo que vamos nos surpreender
se, depois de aberta ou agitada antes, uma parte do líquido solidificar-se rapidamen-
te. Isso corresponde ao que se observa nas asas e na carenagem de alguns aviões,
que, após atravessarem nuvens em grande altitude, ficam cobertas de gelo.
O que há de comum nesses eventos? Líquidos resfriados lentamente em ambientes
sem impurezas ou vibrações podem ultrapassar o ponto de solidificação e continuar
no estado líquido, fenômeno conhecido como sobrefusão ou super-resfriamento.
À medida que a temperatura diminui, as partículas do líquido vão se tornando
mais lentas e, eventualmente, podem movimentar-se formando cristais. Se a queda Fotografia de garrafa de
refrigerante recém-tirada do
da temperatura for suficientemente lenta, pode ocorrer de as partículas do líquido congelador. Por que então o
não formarem esses cristais e ficarem "imobilizadas" nas suas posições. líquido não se solidificou?

62 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
Esse é um estado metaestável (instável), pois uma leve pertur-
bação tira as partículas do lugar e força a composição dos cristais,
provocando uma súbita solidificação de parte do líquido, elevando
sua temperatura ao ponto normal de solidificação.
Além da água, também o enxofre pode ser submetido a 15 ºC
de temperatura sem passar para o estado sólido, embora seu pon-
to de fusão seja de 115 ºC. O diagrama ao lado, da temperatura 0
Q em função da quantidade de calor retirada Q, mostra o comporta-
mento de uma pequena quantidade de enxofre na sobrefusão,
sob pressão normal de 1 atm.

e~---,------,---------, • Em A, o enxofre está na fase líquida, pois 0 > 11 5 ºC.


1 ' '

• Em B, o enxofre continua na fase líquida, apesar de ter atingido


o ponto de solidificação, que é de 115 ºC. É o início da sobrefu-
são.

• Em C, tendo ultrapassado a temperatura de sobrefusão 051 < 115 ºC,


A B e D
o enxofre começa a solidificar-se devido a alguma perturbação.
Diagrama 0 x Q para o enxofre. De líquido marrom
avermelhado a sólido de cor amarelada, o enxofre • Em D, passado um tempo suficiente à temperatura de 15 ºC,
pode ser resfriado lentamente e continuar no estado
o enxofre estará completamente solidificado, desde que o
líquido mesmo após ultrapassar a temperatura de
solidificação. processo da retirada de calor tenha continuado.

• • Exercícios resolvidos
••
ER1. Por que motivo as queimaduras com vapor- O calor latente para solidificar a água a O ºC é igual ao
-d'água costumam ser mais graves do que as com calor latente de fusão do gelo, mas com sinal trocado,
água fervendo? pois deve-se perder calor; portanto, L5 = -80 cal/ g.

Resolução: a) Vamos inicialmente calcular a quantidade de ca-


Em qualquer caso, a queimadura resulta do calor ab- lor que a água perdeu para que sua temperatura
sorvido pela pele. No caso do vapor-d'água, há um tenha variado de 00 =OºC até atingir a temperatura
calor adicional em relação à água fervendo, que é o de sobrefusão. Não houve mudança de fase, por-
tanto necessário para determinar sua condensação. tanto a quantidade de calor é sensível.
Q 5 = m · c. · (051 - 00 ) = 60 · 1,0 · (-4 - O) •
• Q = -240 cal
5
ER2. Sabe-se que uma amostra de 60 g de água está
super-resfriada, na temperatura de -4 ºC. Ao ser per- Essa quantidade de calor já deveria ter solidificado
turbada, uma parte da amostra se transforma em gelo. uma massa ms de parte da água. Então:
Dados: calor específico da água cª = 1,0 cal/g • ºC e Q 5 = ms · L5 = -240 • ms · (-80) = -240 •
calor latente de fusão do gelo LF = 80 cal/g, calcule: • ms= 3 g
a) a quantidade de água em sobrefusão que se solidifica;
b) a porcentagem de água congelada. b) Se 3 g de um total de 60 g de água foram solidifi-
cados, temos a seguinte fração:
Resolução:
f = ms = _ 3_ = 0,05, ou, em termos de porcenta-
Dados: m 60
m = 60 g; 051 = -4 ºC; cª = 1,0 cal/g · ºC gem, 5%.

••••
CAPÍTULO 4 • MUDANÇAS DE ESTADO 63
lsotermas de Andrews
A pressão sobre materiais pode alterar seu estado físico, e isso não se dá apenas
em casos de regelo. Se pensarmos no modelo de partículas da matéria, é razoável
acreditar que a aplicação de pressão pode eventualmente fazer variar a posição re-
lativa das partículas - aproximando-as, na compressão, ou, caso contrário, afastan-
do-as - acarretando a mudança de estado da substância.
Em meados do século XIX, os físicos já sabiam que a condensação do vapor
não dependia apenas de sua temperatura, mas também da pressão aplicada. Para
testar essa relação, o químico irlandês Thomas Andrews (1813-1885) realizou um
experimento com uma amostra de gás carbônico (C0 2) à temperatura constante,
modificando as pressões aplicadas e aferindo os respectivos volumes. Através des-
se experimento, ele determinou as condições necessárias para que um líquido
possa coexistir com seu vapor. Esse experimento foi realizado com cilindros de metal.
As pressões aplicadas são muito altas para materiais de vidro.
~ 1 1
f--
Certa quantidade de vapor de C0 2 é colocada em um cilindro provido de um
AI ii
1 1
F vapor (seco) êmbolo móvel, mantida a temperatura constante.
1 1

1 1 1
Com o êmbolo, comprime-se a amostra até que se inicie a condensação do
BI ii
1
1
1
1
É vapor (seco) vapor; nesse momento, a amostra atinge a pressão máxima de vapor naquela
temperatura.
1 1 1

cl 11
1 1
É vapor + líquido (saturante)
Continuando a compressão, passa-se a observar o C0 2 tanto no estado líquido
como no gasoso.
1 1

1 1

DI !É
1
1
líquido
Tendo sido o vapor totalmente condensado, resta apenas o C0 2 líquido; durante
a condensação, a pressão máxima de vapor mantém-se constante.

1
Mesmo tentando comprimir o líquido, o volume da amostra praticamente não
E1 F líquido comprimido sofre alteração.

Andrews colocou essa sequência de transformações p


em um diagrama de pressão em função do volume da
amostra, e a curva resultante ficou conhecida como lso-
terma de Andrews. Pmáx.
c
O experimento foi repetido submetendo-se a amostra D
a várias temperaturas, e para cada uma delas foi elabora-
A
do um diagrama pressão x volume (veja ao lado). Coloca- <.9
1
das as diversas isotermas em um mesmo diagrama, vê-se 1
1
yf:.
1
1
que a amostra subsiste no estado líquido em um intervalo 1

E vapor (seco)
1

menor de variação de volume; isto é, os patamares de con- AI ii


1 1
i i
1 1
densação vão diminuindo de tamanho com a elevação da 1
1
1
1
1
1
1
1

temperatura (0 1 < 02 < ... < 0). BI ii


1 1
i ~
1
vapor (seco)

Esse efeito parecia confirmar a suposição de que, à me- 1


1
1
1
1
1

dida que se eleva a temperatura, torna-se mais e mais difí- cl ii


1
f:= vapor+ líquido (saturante)
cil manter o material no estado líquido, devendo haver 1
1

portanto uma temperatura crítica para a liquefação, acima DI 1


1
E líquido

da qual um gás não poderia ser liquefeito, não importando 1

a intensidade da pressão aplicada. Acima desse valor, a E1 F líquido comprimido

fase líquida não existiria.


De fato, há uma combinação de pressão e temperatura na qual o patamar se
estreita tanto que se pode considerá-lo um ponto: a condensação é instantânea.
Essa temperatura é chamada de temperatura crítica 0c, assim como a pressão corres-
pondente Pc é chamada de pressão crítica.

64 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
Ligando-se os extremos dos patamares, surge uma curva denominada curva de

saturação.
p p

Pc ------- - -J--~
,,
,' '
\
0>0,
ec líquido ,,'
,,
; ~
~·~
''
',,
'
,,
\

,,
\
\ \
\
,' vapor sat. \ vapor
,, \
\ / + líquido \ seco
,, \
\
02
,, \
\
, ~ e, , '
~
~' '~
o curva de saturação V o V
Se a experiência for repetida a temperaturas maiores que a Dados o volume e a pressão de uma amostra de
crítica, a lsoterma de Andrews resulta em uma hipérbole. material, é possível determinar seu estado físico.

Esse diagrama fornece uma informação interessante: de acordo com as condições


de pressão e volume para a amostra de C02 , é possível determinar seu estado físico.
As mesmas informações podem ser obtidas em um diagrama de pressão em
função da temperatura, ao qual dá-se o nome de diagrama de fases.

Diagrama de fases
Maioria das substâncias O diagrama de fases de uma substância pura é o diagrama pressão versus
p
temperatura (p x 0) que indica seu estado físico, conhecendo-se apenas essas
duas grandezas.
Cada um dos diagramas de fases é composto de três curvas. O diagrama
A é válido para quase todas as substâncias, enquanto o diagrama B, para
poucas exceções, como a água, o ferro, o bismuto e o antimônio. Note que
a diferença entre eles está somente na inclinação do trecho 1.
• Trecho 1 - Curva de fusão ou solidificação: é a curva que separa o es-
tado sólido do líquido. Cada ponto da curva corresponde ao estado de
coexistência das fases sólida e líquida. Um material que apresente condi-
ções de pressão e temperatura sobre esse trecho estará em fusão ou
Diagrama A - a inclinação do trecho
solidificação.
1 indica que a temperatura de fusão
aumenta com o aumento da pressão. • Trecho 2 - Curva de vaporização ou condensação: é a curva que separa os
estados líquido e gasoso. Em cada ponto da curva coexistem as fases líqui-
da e gasosa. Sob essa condição de pressão e temperatura a substância esta-
Água e algumas substâncias
p (exceções) rá em vaporização ou condensação.
• Trecho 3 - Curva de sublimação ou ressublimação (sublimação inversa): é
a curva que separa diretamente o estado sólido do gasoso, sem passar pelo
estado líquido, na qual coexistem as fases sólida e gasosa da substância.
Nesse trecho há a sublimação ou a ressublimação.
Os pontos PT e Pu destacados, representam, respectivamente:
• o ponto triplo (PT), que indica a pressão pT e temperatura 0T da substância
em que coexistem os três estados físicos em equilíbrio;
• o ponto crítico (Pc), que indica a temperatura crítica 0c de uma substância
o
além da qual o estado gasoso é chamado de gás e não mais de vapor. A pres-
Diagrama B - a inclinação do
são correspondente à temperatura crítica é a pressão de vapor do ponto críti-
trecho 1 está de acordo com o que
se observa, por exemplo, no regelo. co, também chamada pressão crítica (pJ
CAPÍTULO 4 • MUDANÇAS DE ESTADO 65
Veja os valores de pressão e temperatura para a água nesses pontos: Anteriormente não houve
menção alguma à possibilidade
• No ponto triplo, 0T =0,01 ºC e pT =4,58 atm. Colocando-se certa quantidade de de vapor e gás poderem ser
estados distintos, de modo que
água sob essa temperatura e pressão no interior de um recipiente fechado, tere- aparentemente foram utilizados
mos simultaneamente as três fases: gelo, água líquida e vapor-d'água. como sinônimos. Optamos
por não fazer essa distinção
• No ponto crítico, ec = 374,2 ºC e Pc = 217,5 atm. Abaixo de 374,2 ºC podemos naquele momento.
ter vapor-d'água ou líquido e, acima, a água é um gás. A diferença é que o vapor
condensa com o aumento de pressão, enquanto o gás, não.

ATIVIDADE PRÁTICA
mm
Em:!iJ
NÃo ESCREVA
NOUVRO

Analisando a pressão e a temperatura

Um diagrama de fase mostra a relação entre os valores de temperatura e pressão de um


dado elemento químico e seu respectivo estado (sólido, líquido ou gasoso). Para tornar isso
mais observável vamos realizar uma experiência que envolva esta questão. Ao término dela,
esperamos que você compreenda o papel da temperatura e da pressão na forma como se
apresentam os elementos químicos existentes no mundo.

Material
• água
• uma seringa de 20 ml
• termômetro "' i~
o .... ) (;J
~ ).... 1) 111J !f
Procedimento 11 ) 11/) JJI
1. Meçam a temperatura da água com o termôme-
tro e anotem.
li. Usando o medidor de volume da seringa, colo-
quem na seringa 1 ml de água. Tomem cuidado
para que não tenha ar entre a ponta da seringa
e a marcação.
Neste ponto vocês já sabem qual é a temperatura
da água, qual a pressão e qual o volume do sistema.
Ili. Alguma pessoa do grupo vai tapar a entrada da
seringa com o dedão e segurar no apoio dela com
o indicador e o dedo médio da mão. Com a outra,
puxará a seringa até a marca de 20 ml da seringa.
Vocês perceberão que, ao puxar a seringa, a água
lá dentro fará bolhas.
IV. E agora?

Discussão
1. Qual a pressão, o volume e a temperatura na seringa antes de ser puxada?
2. E depois? Qual o volume e a pressão? Façam as contas utilizando a relação p1 • V, = p2 • V2
3. Coloquem no gráfico de p x T as pressões antes e depois de puxar a seringa. (Dica: usem uma escala
que permita subdivisões de 0,01 atm)
4. Como será a curva entre um ponto e outro? Discutam as hipóteses com a ajuda do professor.

5. Por que a água borbulhou?


Ver Orientações Didáticas.

66 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
• • Exercícios resolvidos
••
ER3. A figura a seguir representa o diagrama de fases, c) A quantidade de calor total necessária é Q = QAB +
fora de escala, da substância água pura. Considere que + Qs + Qsc, onde QAB é a quantidade de calor
100 g de água recebam calor, sofrendo uma transfor- sensível suficiente para elevar a temperatura do
mação, sob a pressão constante de 1 atm. gelo de -20 ºC até OºC, Qs é a quantidade de calor
p (atm) latente requerida para fundir todo gelo e Qsc é a
quantidade de calor demandada para esquentar
a água líquida de O ºC até 30 ºC.
Então:
Q = m · Cg • (0g - 0Og) + m · """T
l + m · C • (0 - 0 )
a a Oa

Q = 100 · 0,5 · (O + 20) + 100 · 80 + 100 · 1,0 · (30 - O)


Q = 1000 + 8000 + 3000 • Q = 12000 cal

ER4. Aquece-se uniformemente um recipiente conten-


do 500 g de gelo a O ºC, derretendo-o completamente.
-20 O 0,01 30 0 (ºC) Supondo que todo calor tenha sido usado apenas para
a fusão do gelo e considerando: densidade do gelo
Sendo dados:
d9 = 0,92 g/cm 3 , densidade da água dª = 1,0 g/cm 3 e
• calor específico do gelo: c9= O, 5 cal/g • ºC; calor latente de fusão do gelo LF = 80 cal/g, calcule:
• calor específico da água: cª = 1,0 cal/g • ºC; e
a) a quantidade de calor necessária para derreter todo
• calor latente de fusão do gelo:
o gelo;
LF = 80 cal/g, determine:
b) a variação de volume que ocorre na fusão.
a) o que ocorre nos pontos A, B, C, D e T;
b) o valor da temperatura 0D; Resolução:
e) a quantidade de calor que a água necessita receber
Dados:
na transformação do ponto A até o ponto C.
m = 500 g; I, = 80 cal/g; dg = 0,92 g/ cm 3; dª = 1,0 g/ cm 3
Resolução:
a) A quantidade de calor latente necessária para
Dado: m = 100 g
possibilitar a mudança de fase é:
a) Situação da água nos diversos pontos:
Ponto A - representa a água na fase sólida (gelo), QL = m • l, • QL = 500 · 80 • QL =40000cal
sob a temperatura de -20 ºC. b) A variação de volume é a diferença entre os volu-
Ponto B - representa o estado em que o gelo está mes do gelo e da água líquida formada:
mudando de fase (fusão), na temperatura cons-
!).V= V - V, como V=.!!!.. • !).V=.!!!.. - .!!!.. =
tante de O ºC. Enquanto todo o gelo não tiver der- gelo agua' d d d
g a
retido, a temperatura não sobe.
Ponto C - representa a água na fase líquida, sob a =m·(-}--})=500·(o,~ 2 - / 0 )=
g a
temperatura de 30 ºC.
Ponto D - representa o estado em que a água lí- = 500 · (º•º
0,92
8) • !).V== 43 48 cm 3
'
quida está mudando de fase (vaporização).
Ponto T - representa o ponto triplo da água, esta- Portanto, ocorre variação de volume de 43,48 cm 3•
do de coexistência das três fases da água (gelo,
água e vapor). ERS. No diagrama de fases da figura a seguir, a linha
b) 00 = 100 ºC , pois é a temperatura de vaporização azul representa a curva de fusão ou solidificação de cer-
da água. ta substância pura.

CAPÍTULO 4 • MUDANÇAS DE ESTADO 67


e) O que deveria acontecer, se a mudança fosse do
ponto D ao ponto A?

Resolução:
a) No ponto A, a substância encontra-se na fase sóli-
da e nos pontos B, C e D, no estado líquido.
b) Todas são mudanças de fase de sólido para líqui-
do; portanto, de A para B, verifica-se uma fusão
com elevação de temperatura sob pressão constan-
e, Temperatura te; de A para C, fusão com temperatura constante
e diminuição de pressão; e, finalmente, de A para D,
a) Em que fase se encontra a substância nos pontos A, fusão com aumento de temperatura e diminuição
B, Ce D? de pressão.
b) Descreva as transformações experimentadas quan- c) Do ponto D para o ponto A, haveria solidificação
do a substância passa do ponto A para os pontos B, com aumento da pressão, diminuição de tempera-
C e D, respectivamente. tura e retirada de calor da substância.

••••
Higrometria
Diariamente os serviços de meteorologia divulgam boletins sobre o tempo, como
este, extraído do jornal O Estado de 5. Paulo, do dia 13/4/2013.

-º=>

TEMPO CALOR E PANCADAS DE CHUVA


A massa de ar seco enfraquece e às 15 horas, de acordo com o instituto
TERÇA
18°/26" •
,,, N4SCENTE: POENTE:
~
"'
a.

<V


Nacional de Meteorologia. Amanhã, uma


instabilidades voltam a ser formar em São 06:19 17:55 "o
17° Paulo. O sol ainda predomina e faz calor.
Há previsão de pancadas de chuva a
frente fria chega ao Estado e deixa as
nuvens ainda mais carregadas. Há risco
QUARTA
,,, cheia ~o
mínima partir da tarde. As praias ainda têm mar de temporal em todas as áreas. Na
18"/24°18 cmcllllt
01/05 09/04

• •
17:-45 11:57

27° agitado, com risco de ressaca. Ontem, a


mínima foi de 17,1'C e a máxima, de
quarta-feira, o tempo fica chuvoso com
temperatura amena na faixa leste. O sol
QUINTA
16°/24°
máxima• 26'C, com umidade relativa do ar de 55%, reaparece no Interior. mmguanlt
17/04
II0'11
25104
1033 00-24

Entre outras informações, na previsão do tempo há dados sobre a umidade relativa do ar. O que isso impacta no nosso cotidiano?

A higrometria (ou psicrometria) é a parte da Física que estuda a quantidade de


vapor-d'água existente na atmosfera, em dado momento. Essa quantidade influen-
cia o metabolismo humano (respiração, transpiração e sensação de conforto), a de-
manda evaporativa do ciclo da água, o clima e os eventos meteorológicos (chuva,
granizo, nevoeiro).
Existem dois tipos de medida da quantidade de vapor-d'água presente no ar
atmosférico de uma localidade, a determinada temperatura: a umidade absoluta
do ar e a umidade relativa do ar.

• Umidade absoluta do ar (Uab,) é a massa de vapor-d'água existente por uni-


dade de volume, em determinado momento. Por exemplo, em 1 m3 de ar exis-

tem 20 g de vapor-d'água. Temos, então: uabs = ~ = 21º • uabs = 20 g/m 3 •


• Umidade relativa do ar (U,e1) é a razão, em dado momento, entre a pressão de
vapor-d'água p do ambiente e a pressão máxima de vapor Pmáx ou de vapor satu-
rado, sob certa temperatura:
urel =-p-
p
máx

com u,el variando entre O e 1 (O ,;;_;; u,el ,; _; 1).

68 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
p Normalmente, a umidade relativa é divulgada em porcen-
tagem. Um ambiente com umidade relativa de até 30% é
água
considerado seco, como regularmente acontece em algumas
Pmáx 1
1
1
1
regiões do Brasil; por outro lado, uma umidade relativa acima
1
1
1
1
de 90% aumenta a sensação de calor, devido à redução da
1
1
transpiração. Uma umidade relativa agradável depende da
p ------------------------ --------É] temperatura do local, da presença de vento e da insolação.
Um ambiente com umidade relativa de 100%, como
vapor-d' água
no interior de uma sauna a vapor, está saturado e não
permite vaporização, pois a pressão de vapor-d'água
atingiu seu máximo sob aquela temperatura. Por esse
o amb e motivo, quando a umidade relativa é alta sentimos des-
A temperatura na qual o ar fica saturado de vapor- conforto, pois, como dissemos, a transpiração fica com-
-d'água é chamada ponto de orvalho.
prometida.

Aparelhos medidores tanto da umidade absoluta como da umidade relativa do ar


são chamados de higrômetros ou psicrômetros e estão presentes nos diversos locais
onde há controle da umidade do ar.

Higrômetro registrador.
Higrômetro tradicional. Higrômetro digital.

Sublimação e ressublimação
Como vimos no diagrama de fases, a curva
de sublimação começa no ponto triplo PT, se-
parando diretamente a fase sólida da gasosa;
portanto, na sublimação, a substância passa
diretamente do estado sólido para o gasoso,
sem transitar pela fase líquida. A transforma-
ção inversa é chamada sublimação inversa ou
ressublimação. Poucas são as substâncias que
se sublimam em condição ambiente, mas há
duas muito conhecidas, a naftalina e o gelo-
-seco - que é C0 2 no estado sólido. Devido
ao seu cheiro característico, a naftalina é utili-
zada para repelir traças e baratas e também o
Naftalina, um derivado do petróleo O gelo-seco pode ser usado na mau cheiro. O gelo-seco é conhecido pelo
que é usado como antitraças, é conservação e no transporte de
efeito visual que provoca, desde que colocado
matéria-prima de um grande número alimentos.
de petroquímicos. em contato com a água.

CAPÍTULO 4 • MUDANÇAS DE ESTADO 69


• • Exercício resolvido
••
ER6. Em determinada temperatura, a pressão parcial de Resolução:
vapor-d'água de um ambiente é de 15,6 mmHg. Saben- Dados: p = 15,6 mmHg e Pmáx = 26 mmHg
do-se que nessa temperatura a pressão máxima de va- De acordo com a expressão da umidade relativa do ar:
p 15,6
por é de 26 mmHg, determine a umidade relativa do ar U = - - • U = - - = O6 Em termos per-
rei pmáx rei 26 ' ·
do ambiente.
centuais, U = 60% .

••••
• • Exercícios propostos
••
EP1. A figura representa o diagrama de fases de 400 g
de uma hipotética substância pura X.
EP3. Uma massa M de água está em sobrefusão sob a
temperatura de -5 ºC. Ao sofrer agitação, 4 g dessa
p (atm) água solidificam. Determine que quantidade M de água
estava inicialmente em sobrefusão.
Dados: calor específico da água cª = 1,0 cal/g • ºC e
1,0 calor latente de fusão do gelo LF = 80 cal/g. M = 64 g

EP4. Considere o diagrama de fases de uma hipotética


substância pura. b) N_as condições do ponto triplo T do
diagrama de fases dados: 0T = 11 ºC e
p (atm) Pr = 0,4 atm.
0,4

O 10 25 40 50 0(ºC)
Dados da substância X: calor específico no estado sóli-
do c,61 = 0,36 cal/g · ºC; calor latente de fusão
LF = 28 cal/g; calor específico no estado líquido :B
1
1
c1rq = 1,62 cal/g • ºC. 1
1
1
1

Com relação à substância X, responda:


o 11 120 135 146 e (ºC)
a) Qual é a temperatura e a pressão do ponto triplo? a) O estado de coexistência das fases líquida e gasosa.
b) Quais são os valores dos pontos de fusão e de vapo- a) Que estado físico representa o ponto X da curva?
rização, sob pressão de 1,0 atmosfera? b) Em que condições acontece a existência simultânea das
três fases da substância 7 c) o ponto de ebulição é de
e) Quantas calorias são necessárias para que a subs- · 135 ºC, a 1 atm.
tância efetue uma transformação do ponto A até o e) Qual é o ponto de ebulição da substância?
ponto e? a) eT = 10 ºC e Pr = 0,4 atm; º
0
d) Descreva as transformações sofridas: de A para B; de
c) Q = 23080 cal b) 91usão = 25 C e 9vapo, = 50 C; A para e e de D para A • A-+ B: vaporização;
A-+ C: vaporização;
EP2. Um estudante colocou em um recipiente 736 g de D -+ A: condensação.
gelo a O ºC e forneceu calor através de um aquecedor, EPS. (Enem-MEC) Ainda hoje, é muito comum as pessoas
para verificar se realmente ocorre uma diminuição no utilizarem vasilhames de barro (moringas ou potes de ce-
seu volume ao fundi-lo completamente. Ele considerou râmica não esmaltada) para conservar água a uma tem-
que não houve dissipação de calor para o ambiente e peratura menor que a do ambiente. Isso ocorre porque:
tampouco para o recipiente. a) o barro isola a água do ambiente, mantendo-a sem-
pre a uma temperatura menor que a dele, como se
Dados: densidade do gelo d 9 = 0,92 g/cm 3 , densidade
fosse isopor.
da água dª= 1,0 g/cm 3 e calor latente de fusão do gelo
b) o barro tem poder de "gelar" a água pela sua com-
LF = 80 cal/g.
posição química. Na reação, a água perde calor.
a) Que quantidade de calor foi necessária para derre-
e) o barro é poroso, permitindo que a água passe atra-
ter todo o gelo? 58880 cal vés dele. Parte dessa água evapora, tomando o calor
b) Que variação de volume foi encontrada pelo estu- da moringa e do restante da água, que são assim
dante, caso ele não tenha cometido nenhum erro? resfriados. x
64cm 3
70 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
d) o barro é poroso, permitindo que a água se deposite Com base nessas informações, pode-se afirmar que
na parte de fora da moringa. A água de fora sempre condições ideais são observadas em:
está a uma temperatura maior que a de dentro. a) Curitiba com vento em março, e Campo Grande,
e) a moringa é uma espécie de geladeira natural, liberando em outubro. x
substâncias higroscópicas que diminuem naturalmen- b) Campo Grande com vento em março, e Curitiba
te a temperatura da água. com sol em maio.
EP6. (Enem-MEC) Se, por economia, abaixarmos o fogo c) Curitiba, em outubro, e Campo Grande com sol em
sob uma panela de pressão logo que se inicia a saída de março.
vapor pela válvula, de forma simplesmente a manter a d) Campo Grande com vento em março, Curitiba com
fervura, o tempo de cozimento: sol em outubro.
a) será maior, porque a panela esfria II 11
• e) Curitiba, em maio, e Campo Grande, em outubro.
b) será menor, pois diminui a perda de água.
EP9. (lesb-DF) O orvalho, o nevoeiro, a geada, a neve e o
c) será maior, pois a pressão diminui. granizo são processos que fazem parte do ciclo da água,
d) será maior, pois a evaporação diminui. mas que só ocorrem sob determinadas condições na at-
e) não será alterado, pois a temperatura não varia. x mosfera.
O ar, o solo e as folhas são aquecidos durante o dia
EP7. O noticiário de um jornal da TV informou que em
pela radiação solar, e são resfriados durante a noite.
determinado local, quando os termômetros marcavam
Por possuírem constituição diversa, esses materiais se
24 ºC, o higrômetro anotava 40% de umidade relativa
aquecem ou se esfriam diferentemente. Isso possibilita
do ar. Se, na temperatura considerada, a pressão má-
ao solo e às folhas aquecerem-se mais que o ar duran-
xima de vapor-d'água é de 22,4 mmHg, calcule a pres- te o dia e, da mesma forma, resfriarem-se mais que o
são do vapor-d'água do local, naquele momento. ar durante a noite.
8,96 mmHg
EP8. (Enem-MEC) Os seres humanos podem tolerar ape- Esses fatores propiciam a formação do orvalho, ou
nas certos intervalos de temperatura e umidade relativa seja, o vapor-d'água contido no ar entra em contato
(UR), e, nessas condições, outras variáveis, como os efei- com superfícies que estejam a temperatura mais baixa
tos do sol e do vento, são necessárias para produzir con- - abaixo do ponto de orvalho - e se condensa. Esse
dições confortáveis, nas quais as pessoas podem viver e processo é análogo à condensação do vapor-d'água
trabalhar. O diagrama mostra esses intervalos: em torno de copos ou garrafas gelados.
040 Geralmente, nas noites de vento não há formação de
~ - orvalho, pois o vento favorece a troca de calor com o
... -
ro 35
ideal com vento r----.. meio, impedindo o ponto de orvalho no solo.
Z
,
1

30
-
"'
!'ll
aie.. 25 r--..... O texto acima cita alguns processos térmicos que
id~al .......
- 1
ocorrem com a água na natureza. Com base nesses
E 20
a.,
1- 15
- fenômenos, julgue a veracidade das afirmações a
- ideal com sol seguir.
10
5
-
-
- (1) O processo de vaporização da água, que é a sua
o passagem da fase líquida para a fase gasosa, ocorre,
- em grande parte, devido à radiação solar. v
-5 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1
O 1O 20 30 40 50 60 70 80 90 100 (2) Os ventos facilitam a evaporação da água, aumen-
Umidade relativa (%)
tando a pressão de vapor sobre o líquido. F
Fonte: Adaptado de The Random House Encyclopedias.
1990. 3. ed. (new rev.) (3) A presença de gravidade na Terra é essencial para
A tabela mostra temperaturas e umidades relativas do que ocorra o ciclo da água. v
ar de duas cidades, registradas em três meses do ano. (4) As folhas, citadas no texto, têm menor calor especí-
fico que o ar atmosférico por isso se aquecem e se
Março Maio Outubro resfriam mais rapidamente. F
Cidade
0 {ºC) UR{%) 0 {ºC) UR{%) 0 {ºC) UR{%) (5) À medida que se sobe na atmosfera, a temperatura
diminui e a pressão aumenta; há fluxo de calor
Campo para cima, que dispersa a fumaça industrial e urba-
25 82 20 60 25 58
Grande na. A inversão térmica impede essa dispersão, per-
mitindo o acúmulo da poluição continuamente
Curitiba 27 72 19 80 18 75
produzida. F

••••
CAPÍTULO 4 • MUDANÇAS DE ESTADO 71
o
.....J
=>
l::
a..
<(
Estudo dos gases
u

Neste capítulo o modelo mecânico ajuda


muito na compreensão do comportamento
Vimos no capítulo anterior que o diagrama de fases de qualquer subs- dos gases quando eles sofrem
transformações de estado. Use-o sempre
tância apresenta um ponto sobre a curva de vaporização/condensação
que for discutir a relação entre as variáveis
denominado ponto crítico. de estado.
Com pressão e temperatura próprias, o ponto crítico de-
termina as condições de separação da substância em vapor
e em gás - como gás, a substância está além do ponto
crítico e não se condensa por compressão.
Vimos também que as partículas dos gases estão livres
e em constante movimento desordenado, porque a distân-
cia estabelecida entre elas faz com que as forças de repul-
são superem as de agregação. Devido a isso, os gases têm
como propriedades principais a compressibilidade e a ex-
pansibilidade.
Lidamos com essas propriedades ao calibrarmos periodi-
camente os pneus do carro. O ar escapa pelo bico ou pelas
paredes dos pneus após certo tempo, assim como eles pa-
recem mais cheios nos dias quentes do que nos frios.
As partículas que constituem um gás deslocam-se sempre A calibragem periódica aumenta a vida útil do pneu, permite
em altas velocidades,· por isso, sua tendência é ocupar todo a economia de combustível e mantém a segurança e a
estabilidade do veículo.
o espaço disponível, propriedade conhecida como difusão. o fabricante recomenda que a calibragem seja feita
Por exemplo, caso ocorra um vazamento de gás de cozi- preferencialmente com os pneus frios. Você sabe o motivo?
Não se deve proceder à calibragem com
nha, em poucos instantes ele se espalha pela casa toda - sabemos disso pneus quentes porque, quando resfriarem,
por causa do seu "cheiro característico" (o gás de cozinha é inodoro; o a pressão no seu interior diminuirá e rodarão
murchos, o que é uma falha de segurança.
cheiro que sentimos é o do mercaptano, um composto orgânico que con- 0
e:
tém enxofre e é misturado nele). j
V,

O estudo sistemático dos gases começou no século XVII, com Robert ~


Boyle (1627-1691), químico e físico britânico. Conhecendo as experiências -~~ai~ ~
..Q

de Otto von Guericke (1602-1686) com o vácuo e seguindo o método cien- <i:
tífico de Francis Bacon (1561-1626), Boyle investigou várias características
dos gases com a bomba de vácuo então recém-inventada por Robert Hooke,
derivando daí a lei que recebeu seu nome.
Nos séculos XVIII e XIX, as investigações sobre o comportamento dos
gases receberam grande incremento com o advento das teorias atomistas
e mais os trabalhos de Jacques Alexandre Cesar Charles (1746-1823) e
Joseph Louis Gay-Lussac (1778-1850), cientistas que estudaram o balo-
nismo, atividade que depende desse conhecimento. Para saber se há algum vazamento de gás, faça
Mais tarde, no século XIX, o sucesso da Revolução Industrial - defla- uma mistura de água com detergente e passe
uma esponja umedecida com o líquido sobre o
grada na Inglaterra e depois disseminada por todo o mundo - foi garan- local suspeito, fazendo bastante espuma.
tido pelo embasamento teórico produzido pelos trabalhos sobre gases e Se houver a formação de bolhas é porque o gás
está vazando. Nesse caso, feche a chave do gás,
máquinas térmicas desses cientistas e precursores da Termodinâmica,
mantenha a casa bem ventilada e chame um
como Sadi Carnot, ratificando a credibilidade da máquina a vapor. especialista para consertar o vazamento.

72 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
O termo "partícula" nesse Neste capítulo, veremos como as variáveis que caracterizam a quantidade de
texto é uma denominação
geral e sempre se referirá ao partículas e sua energia interna - características a que daremos o nome de estado
tipo de objeto microscópico do gás - estão relacionadas com o modelo de partículas da matéria. Além disso,
que compõe o gás, que
dependendo do caso pode ser mostraremos como esse modelo mecânico pode evoluir para um modelo cinético,
átomo, partícula ou íon. envolvendo inúmeras partículas, cujo tratamento é estatístico e não mais mecânico.

Variáveis de estado
Variáveis de estado são as grandezas que servem para caracterizar certa quan-
tidade de gás no que tange à sua quantidade e energia interna. São três as variáveis
de estado: pressão, volume e temperatura.
• Pressão (p): é a grandeza que mede indiretamente a
quantidade de colisões das partículas contra as pa-
Unidades de pressão e volume redes do recipiente que contém o gás. Lembrando
A unidade de pressão no SI, como sabemos, é o que pressão é a relação entre a força aplicada e a
pascal (1 Pa = 1 N/m2). Em algumas oportunidades, área sobre a qual ela é aplicada, as partículas que
usaremos 1 bar = 1os Pa, além de outras unidades colidem com as paredes do recipiente trocam forças
usuais (atm, mmHg). com elas. A grande quantidade de colisões produz
O valor 1 atm (lê-se "uma atmosfera") denota a uma força praticamente constante e, portanto, uma
pressão devida à coluna de ar em certo local. Ao
pressão constante. Quanto maior o número de coli-
nível do mar, 1 atm é da ordem de 1os Pa.
sões, mais intensa é a pressão exercida pelo gás no
A unidade mmHg (lê-se "milímetro de mercúrio")
interior do recipiente.
está relacionada com a pressão exercida por uma
coluna de mercúrio. Ao nível do mar, a pressão at- • Volume (V): é a medida da capacidade oferecida
mosférica é de aproximadamente 760 mmHg. pelo recipiente que contém o gás.
No SI, a unidade de volume é o metro cúbico • Temperatura (T): é a medida indireta da energia ciné-
(m 3), mas também são usados o centímetro cúbi- tica média das partículas, e por isso podemos dizer
co (cm ) e o litro (L).
3 que ela é uma indicação do grau de agitação dessas
As conversões são: 1 m3 = 103 L = 106 cm 3 . partículas. Quanto maior é o grau de agitação, mais
Outro sistema de unidades ainda em uso em ai- elevada é a temperatura do gás. No SI, a unidade de
gumas situações é o sistema britânico, em que a medida na escala absoluta é o Kelvin (K). O zero ab-
pressão é medida em libra-força por polegada qua- soluto é uma temperatura inatingível na prática, pois
drada, ou psi (lê-se "pound per square inch"), e o
caracteriza um estado em que as partículas deixariam
volume é medido em galões, entre outras unidades.
de ter qualquer tipo de agitação. Na escala Celsius,
esse valor corresponde a -273, 15 ºC.
Por que são necessárias três grandezas, e não apenas uma, como no caso dos
líquidos ou sólidos, para caracterizar determinada quantidade de gás? É possível
provar que em um litro de água existe sempre a mesma quantidade de moléculas, o
mesmo ocorrendo com um objeto de 1O cm 3 de ouro ou de cobre, mas o mesmo
não se verifica com um gás.
O que acontece com o ar de um balão de festas se ele for solto em uma sala com
volume de 100 m 3 ? Ele se distribui por todo o volume da sala, 100 m3 . No entanto,
as condições desse ar na sala não serão as mesmas do interior do balão: você pode
constatar, por exemplo, que a pressão do gás sobre a borracha será maior do que
contra as paredes da sala. Então, o volume do gás está relacionado com a pressão.
Uma investigação análoga vai mostrar que o volume do balão pode variar se alterar-
mos a temperatura do ambiente (lembre-se dos pneus do carro).
Portanto, no que tange aos gases, apenas o volume não é suficiente para de-
terminar a quantidade de partículas da amostra - o segredo está na distância
entre suas partículas. Para caracterizar completamente certa quantidade de gás,
devemos especificar as condições de pressão e temperatura sob as quais se toma
esse volume.

CAPÍTULO 5 • ESTUDO DOS GASES 73


Condições Normais de Temperatura e Pressão
As Condições Normais de Temperatura e Pressão (CNTP) foram estabelecidas
pela União Internacional de Química Pura e Aplicada (IUPAC) para padronizar as
circunstâncias em que se investigam os processos químicos, permitindo que sejam
feitas comparações nos mais diversos contextos.
Assim, em 1997, adotaram-se como padrão os seguintes valores:

• temperatura: O ºC = 273, 15 K;
• pressão: 1 atm = 101 325 Pa (pressão atmosférica ao nível do mar).

Condição normal é o mesmo que condição-padrão?


Na verdade, não. As condições-padrão estabelecem pressão de 1os Pa = 1 bar e
temperatura de 273, 15 K. Como os valores da pressão são muito próximos, os textos
didáticos muitas vezes usam as duas condições indiscriminadamente sob a denomi-
nação CNTP. Apenas a IUPAC aconselha descontinuar o uso da unidade "atm".
Para os propósitos desta obra, utilizaremos os seguintes valores aproximados
para as CNTP:

• temperatura: O ºC = 273 K;
• pressão 1 atm = 1os Pa (pressão atmosférica ao nível do mar).

Transformações gasosas
Sabemos que o estado do gás é determinado pela pressão e temperatura a que
é submetido e pelo volume que ocupa. Considerando certa quantidade de gás colo-
cada em um recipiente, denomina-se transformação gasosa qualquer operação
em que pelo menos uma das variáveis de estado sofre alteração.
Em qualquer transformação gasosa, a mudança de uma variável de estado acarreta
sempre mudança de alguma outra. Por exemplo, fazer variar a temperatura implica
também variar sua pressão e/ou seu volume.
O estudo das transformações gasosas começou no século XVII, reunindo resultados
isolados obtidos por Torricelli, Otto von Guericke, Robert Boyle e Edme Mariotte.
Basicamente, a investigação consistiu em variar uma das grandezas e verificar o
comportamento das outras; em outras palavras, uma massa gasosa passa de um
estado inicial 1, com pressão p 1, volume V, e temperatura absoluta T,, para um es-
tado final 2, de pressão p 2 , volume V2 e temperatura absoluta T2 •
Para caracterizar bem a relação entre uma variável de estado e outra, é preciso
fazer com que a terceira não se altere. Dessa maneira, foram feitas investigações de
transformações em três casos particulares: sob temperatura, volume e pressão cons-
tantes. É o que veremos agora.

Transformação isotérmica: Lei de Boyle-Mariotte


Robert Boyle e Edme Mariotte (1620-1684) estudaram, de modo independente, as
transformações gasosas nas quais a temperatura era mantida constante, verificando
que a pressão do gás e seu volume variavam segundo uma proporção inversa: se o
volume aumenta certo percentual, a pressão diminui na mesma razão, e vice-versa.
Nesse caso, a transformação é chamada isotérmica, pois T, = T2 • Matematica-
mente, esse resultado se expressa assim:

P, · V, = P2 · V2 = kisoté,mica

74 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
Estado 1 Estado 2 De que maneira o modelo de partículas justifica o compor-
tamento do gás na transformação isotérmica? Lembrando
que a temperatura está relacionada à velocidade média das
partículas, e a pressão, ao número de colisões delas com as
paredes do recipiente, um aumento do espaço disponível di-
p1, V 1 eT1 P2, V2 e T2 = T, minui o número de colisões, pois isso amplia o percurso e,
visto que a velocidade permanece constante, a p
.
pressão cai.
No diagrama p x V, a curva é uma hipérbole, que
\ .
linha isotérmica: T 1 = T2
P1
chamamos de isoterma. Se a mesma massa de gás
for testada sob temperaturas diferentes, as isotermas
tanto mais se afastarão dos eixos cartesianos quanto
maiores forem as respectivas temperaturas. o v, V
T T
---------- - --

o V, V o P, p
Esses diagramas também representam transformações isotérmicas.

Transformação isométrica: Lei de Charles


A transformação gasosa que acontece sem alteração de volume é chamada de
transformação isométrica, isocórica ou isovolumétrica.
Estado 1 Estado 2 O francês Jacques Alexandre Cesar Charles concluiu que,
em uma transformação de determinada massa gasosa a volu-
me constante, as variações da pressão e da temperatura abso-
luta são diretamente proporcionais:

.!J..=.!l=k
T1
T 2
isométrica
p1, V 1 eT1
Como o recipiente tem paredes rígidas, seu volume é constante. Em termos do
modelo de partículas, é possível justificar a transformação isométrica com o seguin-
te argumento: o aumento do número de colisões das partículas contra as paredes
do recipiente só pode estar relacionado ao aumento de suas velocidades. Assim,
elevando-se a pressão, a temperatura deverá elevar-se.
A curva do diagrama p x T é uma reta p (atm)
com inclinação positiva, pois a pressão varia
P2
linearmente com a modificação da tempe-
ratura absoluta, em proporção direta - e P,
vice-versa. Próximo à origem, o trecho
pontilhado do diagrama evidencia a im- o T, T (K)
possibilidade de se atingir o zero absoluto.
V V
Jacques Alexandre Cesar
Charles foi um grande
praticante de balonismo.
Esse interesse o levou a
estudos que estabeleceram
a relação entre volume e o P, p o T, T (K)
temperatura. Esses diagramas também representam a transformação isométrica. Por quê?
Porque em ambos os diagramas verificamos alterações na temperatura e na pressão sem que haja
modificação de volume. CAPÍTULO 5 • ESTUDO DOS GASES 75
Transformação isobárica: Lei de Charles e Gay-Lussac Queremos que a amostra
de partículas realize, em
dado intervalo de tempo, o
Transformação isobárica é aquela em que a pressão do gás no interior de um mesmo número de colisões
recipiente se mantém constante, alterando-se, portanto, o volume e a temperatu- nas paredes do recipiente,
independentemente das
ra. Cesar Charles (1746-1823) e Joseph Louis Gay-Lussac (1778-1850) enunciaram variações de temperatura ou
a lei dessa transformação, em que o volume ocupado pelo gás e a temperatura volume. Aumentar o volume
significa fazer avançar a
absoluta são diretamente proporcionais: fronteira do gás sobre a
vizinhança, e para manter o
número de colisões constante,
~ =~ =
1
1
2
2
~sobárica
a velocidade das partículas
deve crescer. Em termos
macroscópicos, ampliando o
volume temos uma elevação
Estado 1 Estado 2 na temperatura do gás. Peça
V (L) aos estudantes que justifiquem
a redução do volume por
diminuição da temperatura.
V2 ------;--------:
V 1 --------
;7 ,1
1
, 1 1
,, 1 1
,, 1 1
' 1 1

o T, T (K)
p,, V, eT,

A curva do diagrama V x T acima, é uma reta positivamente inclinada, pois o


volume varia linearmente com a temperatura absoluta, em proporção direta. Da
mesma forma que no diagrama p x T, a curva possui uma parte pontilhada próxi-
ma da temperatura O K.
p p

Joseph Louis Gay-Lussac foi quem


comprovou experimentalmente as
ideias de Charles, possibilitando
o v, V o T, T sua publicação oficial. Dessa
Observe os diagramas e explique como se realiza uma expansão isobárica. forma, a lei de transformação
Levando o gás de (p, V1, T1) para (p, V2 , T2), com V2 > V1 ou com T2 > T1• isobárica recebe o nome dos dois
cientistas.
Gás perfeito e gás real
Um gás que se comporta segundo o que se discutiu nas transformações anterio-
res é chamado de gás perfeito ou ideal, o que, como o próprio nome sugere, não
passa de uma abstração.
O que existe são os gases reais, que em determinadas condições se comportam Pergunte à classe o que deve
ocorrer quando um gás real
como se fossem perfeitos: pressão baixa, temperatura alta e sem sofrer liquefação chega perto do zero absoluto.
com variações de pressão. O gás hélio sob essas condições é o que mais se aproxi- Leve-os a concluir que, nessa
condição, o volume do material
ma do gás ideal. se reduz ao volume real das
Nos casos reais, as partículas em movimento nos gases não são necessariamente moléculas isoladas; portanto,
com um volume não nulo e uma
todas iguais, pois um gás também pode ser constituído de uma mistura; para tem- densidade extrema.
peraturas suficientemente baixas, começa a haver atração entre elas, e, como é de
se esperar, o volume não tende a zero por mais que ela seja diminuída.

Lei geral dos gases perfeitos


Considere certa massa gasosa passando por uma transformação gasosa de um
estado inicial 1, de pressão p 1, volume V, e temperatura absoluta T,, para um estado
final 2, de pressão p 2 , volume V2 e temperatura absoluta T2 .

76 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
Estado inicial Estado final A lei geral dos gases perfeitos resume os resultados das três
transformações gasosas particulares, sendo representada pela
Mostre que essa
p1 •V1 p2 •V2 equação é o caso
expressão: = = k (constante) geral das três
T1 T2
expressões anteriores.

Observe: escrevendo essa expressão de outra maneira,


p1, V 1 eT1 também é verdade que p ~ V = R (constante), formato que
será bastante útil, como veremos mais adiante.

• • Exercícios resolvidos
••
ER1. O diagrama abaixo (fora de escala) mostra duas iso-
térmicas, A e B, de uma mesma massa de um gás perfeito.
Levando-se em conta os dados do diagrama, determine:
p (atm)
VA Vs
T=T,emque V =8L
A B
1~:: ~0~
B

TB=?
K

p __1_ = _8_ • Ts = 1 200 K


300 TB
isotérmica B c) Na transformação isotérmica (temperatura cons-
tante de 1 200 K), indo do estado inicial B para o
1,0 final D, de acordo com a Lei de Boyle-Mariotte,
podemos escrever: { Ps -_ 4 ,0 atm
O2 8 V V (L) V =8L
a) a pressão p; Ps . VB= Po . Vº' em que p0B-- 1, O atm
b) a temperatura absoluta T8 ; VD=V=?
c) o volume V.
4,0 · 8 = 1,0 ·V • V= 32 L
Resolução:
Colocando-se os pontos A e C na linha isotérmica de ER2. Certa massa gasosa, contida em um recipiente rí-
temperatura TA= 300 K e os pontos B e D na linha gido de volume variável, inicialmente nas CNTP, ocupa
isotérmica de temperatura Ts, temos: um volume de 5 L. Fornecendo calor ao gás, sua tem-
p (atm) peratura sobe "isobaricamente" para 409,5 ºC.
p
a) Calcular o novo volume ocupado pelo gás.
b) Traçar o diagrama do volume em função da tempe-
ratura, na escala Celsius.
Resolução:
A pressão se mantém constante durante toda a trans-
1,0
formação: {P1 = 105 Pa } CNTP
O 2 8 V V (L) Estado 1 (inicial) T1 = O ºC = 273 K

a) Na transformação isotérmica (temperatura cons-


v1 =5 L
tante de 300 K), indo do estado inicial A para o P2 = P1 = 105 Pa
final C, de acordo com a Lei de Boyle-Mariotte, Estado 2 (final) { T2 = 409,5 ºC = 682,5 K
podemos escrever: v2 =?
PA = P =? a) Aplicando a Lei de Charles e Gay-Lussac, temos:
pA-VA=pc·Vc,emque
V =2L
A-10 1
Pc- , atm
v1 v2
-=- • --=-- •
TI T2 273 682,5
5 v2 V2 = 12,5L
Vc=8 L b) O diagrama V x 0 pedido será:
p . 2 = 1,0 . 8 • p = 4,0 atm V (L)

b) Na transformação isobárica (pressão constante de


4,0 atm) do estado inicial A até o final B, de acordo
o
••••
com a Lei de Charles e Gay-Lussac, temos: -273 409,s 0 (ºC)

CAPÍTULO 5 • ESTUDO DOS GASES 77


A Hipótese de Avogadro e o conceito de mol
O final do século XVIII e o início do século seguinte presenciaram o esforço da
comunidade científica em determinar a constituição da matéria e explicar sua natu-
reza corpuscular.
Os experimentos de Antoine de Lavoisier (1743-1794), Joseph Louis Proust
(1754-1826) e John Dalton (1766-1844) levaram às teorias atomistas, baseadas em
postulados que explicavam a matéria como sendo constituída de partículas indivisí-
veis, que se conservariam em quantidade e massa, e que se combinariam em pro-
porções de números inteiros.
Essas teorias apoiavam-se nos resultados obtidos em experimentos de combina-
ções de gases. Mas os volumes de gases de algumas dessas reações não estavam de
acordo com o previsto nas transformações gasosas já conhecidas, o que indicava
uma dificuldade na distinção entre átomos e moléculas.
Essa dificuldade foi superada pelo físico italiano Amedeo Avogadro, ao afirmar
que iguais volumes de todos os gases, nas mesmas condições físicas, contêm o mes- Retrato de Amedeo
mo número de partículas (e não necessariamente de átomos). Essa hipótese, mais as Avogadro (1776-1856),
ideias de Stanislao Cannizarro (1826-191 O) sobre massas atômicas e moleculares, de lcilio Guareschi.
O Gold Book da IUPAC
levaram à determinação da constante de Avogadro - constante física fundamental recomenda o uso do termo
que representa o número de entidades elementares (átomos, moléculas, íons, elé- "constante de Avogadro", em
substituição a "número de
trons e outras partículas ou grupos dessas partículas) contidas em um mol.
Avogadro".

NA= 6,023 • 1023 partículas/mal

O mol é a unidade de grandeza da quantidade de matéria. A massa de um mol


de substância tem o nome de massa molar e é expressa em g/mol. Encontramos o
número de mols n pelo quociente entre a massa me a massa molar M da substância.
O número de mols de partículas pode também ser representado pelo quociente
entre o número de partículas N existentes na amostra e o número de Avogadro NA:
n=.!!:!..=li..
M NA
Por exemplo, a massa molecular do gás carbônico (CO) é 44 (considerando as
massas atômicas de C = 12 e O = 16) e a sua massa molar é 44 g/mol. Isso quer dizer
que em 44 g de C0 2 existe 1 mol de moléculas de C02"
Assim, para se obter 0,5 mol, 1 mol ou 2 mol de gás carbônico, devemos ter,
respectivamente, 22 g, 44 g ou 88 g da substância:

n = .!!:!.. = 22 • n = O 5 mol· n = .!!:!.. = 44 • n = 1 mol· n = .!!:!.. = 88 • n = 2 mol


M44 '' M44 ' M44

Volume molar Alguns valores do volume molar


Vimos que em 1 mol de qualquer gás existem 6,023 • 1023 partículas; Volume
Condições de pressão
essa quantidade ocupa um volume denominado volume molar. molar
e temperatura
Como sabemos, o volume depende da pressão e da temperatura, e (L/mol)
o volume molar foi determinado experimentalmente em muitas si- condições-padrão
tuações. Veja a tabela ao lado. 22,7 L/mol
(p = 105 Pa, T = 273, 15 K)

condições normais
Constante universal dos gases ideais 22,4 L/mol
(p = 101 325 Pa, T = 273, 15 K)
Retomemos a equação da lei geral dos gases perfeitos, P ~ V = R condições ambiente
(em São Paulo) 26,7 L/mol
(constante).
(p = 92690 Pa, T = 298 K)
Vamos aplicar essa expressão para verificar variáveis de estado
de 1 mol de um gás perfeito nas três condições descritas (padrão, Fonte: LIDE, David R. (editor-chefe). CRC Handbook of
Chemístry and Physícs. 90. ed. Flórida: CRC Press
normal e ambiente), e apurar o valor da constante a seguir. LLC, 2009.

78 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
• Condições-padrão:
p = 105 Pa }
V= 22,7 L/mol ~= 105 · 22 , 7 = 8310 Pa · L
T = 273 , 15 K T 273,15 mol • K

• Condições normais:
p = 101 325 Pa }
V= 22 ,4 L/mol ~ = 101325 · 22,4 = 8309 Pa · L
T= 273 , 15 K T 273,15 mol•K

• Condições ambiente:
p = 92690 Pa }
V= 26,7 L/mol ~ = 92690. 26,7 = 8304 Pa. L
T = 298 K T 298 mol . K

Observe que são valores muito próximos, o que assegura que, mesmo dentro das
Alguns valores da incertezas da experimentação, esse valor é de fato uma constante. Ele é chamado de
constante universal dos constante universal dos gases ideais, e o representamos por R.
gases (R) ~-~
Transformando o volume para m 3 (unidade do SI), obtemos R = 8,31
.

mo•1 K.
O 082 atm. L Apesar de termos obtido o valor de R em três condições específicas, sabe-se que
' mol · K
ele vale para qualquer condição de pressão e temperatura. Na verdade, o valor de R
independe das variáveis de estado, mas depende das unidades de medida adotadas.
62 4 mmHg • L
' mol · K Por que motivo a terceira unidade de medida de R tem relação com energia (calo-
ria)? O significado de Restá relacionado com a energia do gás, como veremos adiante.
20 cal Por enquanto, podemos deduzir esse vínculo pela análise das unidades de R no SI:
' mol · K l!__ m3
m2 N · m =---
Fonte: LIDE, David R. mol • K
= mol • K mol • K
(editor-chefe). CRC Handbook of
Chemistryand Physics. 90. ed. Mais tarde será útil recordar que o produto da pressão pelo volume tem dimen-
Flórida: CRC Pres.s LLC, 2009. são de trabalho e/ou energia.

A equação de Clapeyron
Como vimos, a expressão P ~ V estabelece uma relação entre as variáveis de

estado pressão, volume e temperatura absoluta.


Para 1 mol de partículas em forma de gás, essa expressão resulta sempre na mesma
constante R: p•V
--=R
T
Estendendo essa igualdade para uma amostra de gás constituída de n mol de
partículas,
n-V
Émile Clapeyron (1799-1864), ....c::........
T
=n · R ou p ·V =n · R • T
engenheiro e físico francês,
trabalhando com os resultados Esse desdobramento da equação geral dos gases perfeitos é comumente chama-
obtidos por Sadi Carnot,
contribuiu para definir as bases do de equação de Clapeyron e relaciona as variáveis de estado do gás com a quan-
da Termodinilmica. tidade de partículas que o compõe.

• • Exercícios resolvidos
••
ER3. Qual é o volume ocupado por 0,5 mol de qualquer
gás perfeito nas condições normais de temperatura e
que constituem um gás perfeito ocupa um volume
de 22,4 L; isso nos permite inferir que metade do nú-
pressão (CNTP)? mero delas ocupará metade do volume, isto é,
Resolução: 11,2 L .
Observe que o volume molar nessas condições é de Esse resultado, confirmado experimentalmente, am-
22,4 L/mol. Isso significa que 1 mo! de partículas plia as hipóteses de Avogadro e Gay-Lussac, de modo

CAPÍTULO 5 • ESTUDO DOS GASES 79


que podemos afirmar que o volume ocupado por dois de gás nitrogênio e 30% de gás oxigênio. Quantas mo-
gases distintos, nas mesmas condições, só depende do léculas por centímetro cúbico há no ar atmosférico nas
seu número de partículas. Reciprocamente, também condições ambiente? Use R = 8,31 Pa ·1 m 3 •
mo•K
podemos dizer que dois gases contendo o mesmo nú-
mero de partículas, sob as mesmas condições de tem- Resolução:
peratura e pressão, ocupam o mesmo volume, inde- Tomando a equação dos gases perfeitos:
pendentemente de qual seja sua composição. p ·V= n • R • T, vamos reescrevê-la em termos da razão
entre número de mo! da amostra e seu volume, .!!.:
ER4. Determine, em graus Celsius, a temperatura de 2 mol V
de um gás perfeito que está no interior de um reci- p · V = n • R • T • _p_ = .!!.
R·T V
piente de 40 L de capacidade, sob pressão de 1,64 atm.
Dado: R = 0,082 atm • Umol • K. Nas condições ambiente (p = 92690 Pa e T = 298 K).

Resolução: .!!. = 92690 = 37 43 mol/m 3 ou


V 8,31 · 298 '
Pela equação de Clapeyron, temos:
p · V = n · R · T • 1,64 · 40 = 2 · 0,082 · T mo!. 6 ,02 . 1023 partículas
37,43 _ _ _ _ _ _ _ _ m_o_l_
T = 1,64 · 40 = 65 ,6 • T = 400 K m3. 106 cm 3

2 · 0,082 0,164 m3
0e = T - 273 = 400 - 273 :. 0c = 127 ºC
2 24 . 1019 partículas
' cm 3 '
ERS. O ar atmosférico é uma mistura de gases que sob
certas condições pode ser considerado um gás ideal. o que está de acordo com o número típico de partículas
Sua composição média pode ser aproximada para 70% em uma amostra macroscópica de um gás ideal.

••••
Teoria cinética dos gases
Vimos que a descrição de um gás real pode ser aproximada para um sistema de
partículas isoladas, em constante movimento e separadas umas das outras por gran-
des distâncias em relação ao seu tamanho. Assim, o comportamento de um gás real
aproxima-se ao de um gás ideal ou perfeito.
Seria possível descrever o comportamento de uma partícula desse gás? Em prin-
cípio, sim. No entanto, ao escrever as equações de movimento para uma partícula,
e considerar todas as interações dela com suas vizinhas, aí começa a dificuldade.
As variáveis são tantas que se torna impraticável descrever o movimento da par-
tícula pela resolução de um sistema de múltiplas equações: observe que, em um gás
que se aproxima do ideal, há em média 102º partículas por cm 3 .
Assim, o estudo das características microscópicas do gás perfeito nos leva à Em um gás considerado ideal,
as partículas chocam-se com as
teoria cinética dos gases, na qual a descrição é feita usando-se argumentos de pro- paredes do recipiente sem perda
babilidade. Nesse novo modelo teórico, que é uma evolução do modelo mecânico, de energia, isto é, em choques
elásticos.
investigamos o que deve acontecer com as partículas do gás, em média.
Os pressupostos da teoria cinética dos gases são os seguintes:
• uma amostra de gás perfeito é composta de um grande número de partículas,
em movimento aleatório;
• essas partículas são consideradas pontos materiais, ou seja, suas dimensões são
desprezíveis em relação à distância entre duas partículas quaisquer;
• colisões entre partículas ou entre uma partícula e a parede são perfeitamente
elásticas e de duração desprezível;
• entre colisões sucessivas, o movimento das partículas é retilíneo;
• as forças intermoleculares entre partículas só se manifestam durante as colisões;
• as colisões obedecem às leis de conservação da mecânica.

80 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
E
"'
O) Pressão exercida pelo gás
.s"'
Aplicando os princípios da Mecânica clássica e da Mecânica estatística, pode-
mos dizer que a pressão exercida por certa massa gasosa m contra as paredes do
recipiente de volume V é diretamente proporcional ao quadrado da velocidade
média v das partículas, resultando na seguinte expressão, cuja demonstração está
sendo desconsiderada:
1 m • v2
p=-·--
3 V
Energia cinética média
A energia cinética média de certa massa m de gás é: Ecm = m; v 2 CD
A partir da expressão anterior, podemos escrever: m • v 2 = 3 • p • V @
- - '~ -61 em CD = 3·p ·V @
Para encher uma bexiga,
Substituindo 1 , temos: Ecm 2
injetamos ar dos pulmões sob
pressão.
Da equação de Clapeyron: p •V= n • R • T ©
Finalmente, substituindo © em @, resulta: Ecm = ; · n · R· T
um resultado que amplia a definição de temperatura, apresentada no capítulo 1:

A energia cinética média é diretamente proporcional à temperatura absoluta do gás.

Energia cinética média por partícula


Considerando que a massa m de gás seja composta de N partículas, para
determinar a energia cinética média de cada uma delas (ecm) basta dividir a energia
cinética média por N.

i. n. R·T
E
ecm = ;t = 2 N
__ 3· ,M ·R·T __ l_._B___,T........
2. M .
)"I
N
A
2 N
A
-----r ecm
---ª-•k•T
2

Lembrando que a quantidade de partículas do gás, expressa por número de mol n,


é dada por n = ~ , em que NA é a constante de Avogadro e Ré a constante universal
A
dos gases, o quociente ~ é a constante de Boltzmann, cujo valor é:
A

k - _B___ - 8,31 • k - 1 38 . 10-23 _l_


- NA - 6' 023 · 1023 - ' K

Como se vê, a energia cinética média por partícula depende apenas da tempera-
tura absoluta do gás, qualquer que seja sua natureza.
Qual é o significado dessa relação? Na expressão ecm = ; • k • T, a constante
de Boltzmann estabelece a energia cinética média por partícula e por unidade de
temperatura, a uma temperatura T, e a constante universal dos gases R estabelece a
energia cinética média do gás, por mol de partículas e por unidade de temperatura,
à mesma temperatura T.
O modelo cinético dos gases tem, entre suas "virtudes", a de estabelecer rela-
ções entre as grandezas microscópicas do gás - tais como as energias cinéticas de
vibração e translação - e as macroscópicas, como a temperatura.
Ele também nos permite ver que o tratamento estatístico dado a um conjunto de
partículas substitui o da Mecânica Newtoniana, de difícil aplicação nesse caso, e
descreve muito bem suas características.
O modelo cinético dos gases é a base da Termodinâmica, que estudaremos
brevemente.

CAPÍTULO 5 • ESTUDO DOS GASES 81


Mistura de gases
Dois ou mais gases distintos misturam-se com muita facilidade, e o sistema resul-
tante também é chamado de gás - o que é uma indicação de que as partículas de
um gás movimentam-se muito rapidamente.
O próprio ar que respiramos é uma mistura de gases, formado primordialmente
pelos gases nitrogênio (78%) e oxigênio (20%), além de outros em menor porcen-
tagem. Esses valores são aproximados, sendo obtidos de uma amostra do ar retirada
de um local bem próximo da superfície da Terra.

Lei de Dalton das pressões parciais


John Dalton (1766-1844), físico e químico inglês, interessou-se pelo estudo das Dalton também descobriu
misturas de gases; especificamente, ele investigava qual era a participação de cada uma deficiência visual em
que certas pessoas, como o
gás na pressão total de uma mistura. Os resultados obtidos por ele são conhecidos caso dele, não conseguem
hoje como a Lei de Dalton das pressões parciais: distinguir determinadas cores.
Essa deficiência leva o nome de
Em uma mistura gasosa, a pressão parcial de cada componente independe da pres- daltonismo.
são dos demais e é proporcional à porcentagem da quantidade de suas partículas em
relação ao total delas.

A pressão parcial de um gás em uma mistura é aquela que ele sozinho exerceria ocu-
pando o mesmo volume e sob a mesma temperatura em que se encontra a composição.
Como consequência dessa lei, conclui-se que a pressão total da mistura de gases
é igual à soma das pressões parciais de seus componentes. Torneira fechada
"'=>
Considere dois recipientes A e B interligados por um fino tubo provido de uma o
~
torneira. Com a torneira fechada, temos nA mol de gás A no primeiro recipiente
e n 8 mol de gás B no segundo, com suas respectivas pressões, temperaturas ab- <V

solutas e volumes, conforme a figura ao lado. P8, V8 e T8 ~
Abrindo-se a torneira, ocorre a mistura desses dois gases, e o número total de mol
Torneira aberta
ª
do sistema nm é a soma dos números de mol de ambos os componentes.

nm = nA + n8 , em que p ·V= n · R · T ou n = ~: ~, que substituído na igualdade é:

Pm•Vm= pA •VA+ pB •Ve • p •V


m m= pA •VA+ p B •VB
R • Tm R • TA R • T8 Tm TA T8
Caso a mistura seja de três ou mais gases, basta estender o somatório para o
número deles.

• • Exercício resolvido
••
ER6. Na figura, o balão A contém certa quantidade de Resolução:
gás perfeito A sob pressão de 2 atm, e o balão B, outra
pA = 2 atm
quantidade de gás perfeito B sob pressão de 3 atm,
GásA { TA =T
ambos na mesma temperatura.
VA=3V
Pm =?
Mistura { T =T
V:=3V+V=4V
Substituindo os dados na expressão:
Sabendo que o balão A possui o triplo da capacidade Pm. vm = PA. VA + Ps. VB •
do balão B, calcule a pressão da mistura pouco depois Tm TA TB
de aberta a torneira que separa os dois gases, supondo Pm · 4)1' 2 · 3)/ 3 · ){
• ~ = ~ +~ • Pm = 2,25 atm
que não houve variação na temperatura.

82 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
••••
fflffl NÃO ESCREVA
ATIVIDADE PRÁTICA ElmD NOUVRO

Examinando os modelos cinéticos dos gases


Enxergar um gás não é uma coisa fácil de ser feita para nossos olhos. Entretanto, podemos per-
ceber alguns de seus efeitos e estudar o comportamento do gás com base neles. Um gás inflamável,
por exemplo, "pega fogo" em contato com uma chama. Aqui, vemos a relação entre a pressão e a
energia cinética das moléculas de gás. As variáveis de estado que aprendemos são efeitos observáveis
dos comportamentos das substâncias. Vamos relacioná-las com os modelos cinéticos dos gases.
_,:;;
e.
Material ~

• erlenmeyer • tela de amianto E'


-~
e
• bexiga de aniversário (de preferência as finas) • folha para anotar u
o

• um fogareiro ou outra fonte de calor, como


um aquecedor elétrico
Procedimento
1. Assopre um pouco a bexiga para deixá-la ligeiramente cheia. Evitando o escape do ar já contido na bexiga
para o ambiente, encaixe a bexiga de aniversário no gargalo do erlenmeyer. Deve haver somente ar dentro do
recipiente e ele deve estar bem vedado.
li. Com a supervisão do professor, coloque com cuidado o erlenmeyer para aquecer no fogareiro.
Ili. Observe o que acontece com a bexiga.
Discussão
1. A mistura dentro do erlenmeyer é homogênea ou heterogênea? Isso interfere no comportamento observado?
2. O que você observou?
3. Por que isso acontece?
4. Suponha que um colega de classe disse que a bexiga expande por conta do ar quente que sobe em uma
corrente de convecção. O que você pode fazer para testar essa hipótese?
5. A pressão dentro da bexiga aumenta ou diminui?
6. Como estimar essa pressão?
7. Após discutir com os seus colegas e com o seu professor, imagine que o mesmo erlenmeyer com a bexiga de
aniversário fosse colocado em uma bacia com água e gelo. O que você acha que ocorrerá com a bexiga? E
com a pressão lá dentro?
Ver Orientações Didáticas.

• • Exercícios propostos
••
EP1. Um mergulhador está no fundo de um lago, onde a
pressão que ele sente é de 2,2 atm. Devido à sua respira-
Determine:
a) a pressão do gás quando a temperatura do sistema
ção, utilizando equipamentos de mergulho, solta uma
atinge 491,4 ºC; 2,8 atm
bolha de ar com volume de 4,0 cm 3 • Essa bolha sobe até
a superfície, onde a pressão atmosférica é de 1 atm, man- b) a temperatura, em graus Celsius, quando a massa
tendo a sua massa e a temperatura constantes. Então: gasosa estiver sob pressão de 0,8 atm. -54,6 ºC
a) que tipo de transformação gasosa acontece na as-
censão da bolha até a tona? Isotérmica EP3. Um gás, inicialmente sob temperatura de 25 ºC e
b) calcule o volume da bolha no fim da subida através pressão atmosférica normal, teve o seu volume triplicado
da água. 8,8 cm 3 "isobaricamente". Determine a temperatura em que
EP2. O diagrama representa uma transformação iso- isso aconteceu. 621 ºC
métrica de certa massa de gás ideal, inicialmente nas
condições normais de temperatura e pressão (CNTP). EP4. Certa quantidade de gás carbônico contido em
um recipiente de 32 L, sob pressão de 1,0 atm e tempe-
ratura de 27 ºC, foi transferido integralmente para ou-
p~ tro recipiente de capacidade 40 L, sem que a pressão
1,0

)
tenha sido alterada. Como ficou a temperatura do gás,
-273 o T (ºC) em ºC, imediatamente após a transferência?
A temperatura aumentou para 102 ºC.
CAPÍTULO 5 • ESTUDO DOS GASES 83
EPS. Um cilindro com êmbolo móvel contém 24 L de a) A massa de um mosquito?
gás nitrogênio, sob pressão de 15 atm e temperatura b) A temperatura de um mosquito?
de 27 ºC. Qual será o novo volume do gás à tempera- Observe a classificação das grandezas, de acordo com a
tura de 127 ºC e pressão de 30 atm? 16 L quantidade ou extensão do material à qual ela se refere:
• grandeza intensiva: é a propriedade ou atributo que
EP6. Em um recipiente de capacidade de 15,5 L são colo- não depende da quantidade do material em estudo;
cados 11 O g de C02 (M = 44 g), à temperatura de 37 ºC. • grandeza extensiva: é a propriedade ou atributo que
Sendo dada a constante universal dos gases perfeitos
depende da quantidade do material.
R = 0,082 • atm • Umol • K, determine: c) De acordo com essa classificação e o método acima,
utilizado para determinar as grandezas, como você
a) o número de mol do gás carbônico; 2,5 mol
classifica a massa? E a temperatura?
b) a pressão do gás no interior do recipiente. 4,1 atm
d) Ainda de acordo com essa classificação, a quantida-
de de energia térmica que um corpo possui pode ser
EP7. Um recipiente indeformável, provido de uma vál- classificada como grandeza intensiva ou extensiva?
vula, contém 300 g de um gás ideal, na temperatura de Por quê?
27 ºC e sob pressão de 1, 5 atm. Pela válvula são injeta-
dos mais 600 g do mesmo gás e o recipiente é aquecido EP11. (UFT-TO) Mário coloca um gás dentro de um cilin-
até a temperatura de 127 ºC. dro que tem um êmbolo livre para se mover.
Nessas condições, determine a nova pressão no interior Inicialmente, esse gás está à temperatura ambiente
do recipiente. 6,0 atm (27 ºC) e ocupa um volume V. Em seguida, ele coloca o
cilindro em contato com água e gelo e espera esse con-
EP8. Determine a energia cinética média de 2 mol de gás junto atingir o equilíbrio térmico a O ºC. Nessa situação,
perfeito que se encontram sob a temperatura de 57 ºC. Mário observa uma redução de, aproximadamente,
Para a constante universal dos gases perfeitos, use 10% no volume ocupado pelo gás.
Nessas condições, o gás pode ser considerado um gás ideal.
R = 8,31 J/mol · K. 8226,9 J
É correto afirmar que, na situação descrita,
a) a pressão do gás diminui, enquanto sua densidade
EP9. Calcule a energia cinética média de uma molécula
aumenta.
de gás ideal que se encontra na temperatura de 87 ºC. b) a pressão e a densidade do gás diminuem.
Dada a constante de Boltzmann k = 1,38 • 10-23 J/K. c) a pressão do gás permanece a mesma, enquanto sua
7,45 · 10-21 J densidade aumenta. x
EP10. Você tem um vidro com 1 000 mosquitos no seu d) a pressão do gás permanece a mesma, enquanto sua
interior. Como você deve proceder para medir: densidade diminui.
EP1 O. a) Sugestão de procedimento: medir a massa total (vidro + mosquitos), subtrair a do vidro vazio e dividir o resultado por 1 000.
b) Sugestão de procedimento: colocar um termômetro dentro do vidro e medir a temperatura. A medida obtida será a medida
da temperatura de qualquer mosquito dentro do vidro. c) A massa é grandeza extensiva e a temperatura é grandeza intensiva.
d) Extensiva, pois a quantidade de energia térmica de um corpo depende da quantidade do
material que o compoe.

PARA SABER MAIS

Revista
O uso da terminologia Normal e Padrão
Química Nova na Escola, n. 25, maio de 2007.
Disponível também em: <http://qnesc.sbq.org.br/on1ine/qnesc25/ccd01.pdf>. Acesso em: 23 out. 2015.

Temperatura, pressão e volume molar


Química Nova na Escola, n. 2, novembro de 1995.
Disponível também em: <http://qnesc.sbq.org.br/online/qnesc02/atual2.pdf>. Acesso em: 23 out. 2015.

Artigos publicados na revista Química Nova na Escola descrevem condições de temperatura e pressão segun-
do critérios distintos, mostrando que as divergências entre os valores da pressão-padrão e mesmo da pressão
atmosférica transcendem o ambiente escolar, e que um sistema depende de escolhas convenientes e da
exata declaração desses critérios.

84 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
o
.....J
=>
l::
a..
<(
Termodinâmica
u

A Física está fundamentada em princípios de conservação. Até aqui,


você conheceu as leis de conservação da massa, da quantidade de movi-
mento, da energia, e alguns de nossos atos são em parte justificados por
esse conhecimento, muitas vezes obtido de modo informal.
Nossos antepassados já obtinham fogo atritando dois pedaços de madei-
ra seca; hoje sabemos que o trabalho executado pela força dos braços move
os gravetos, e parte dessa energia se converte em calor por atrito, que eleva
a temperatura até o ponto de ignição da madeira. A energia mecânica é
transformada em calor, e até aqui nossa explicação atende ao princípio de
conservação da energia.
Da mesma forma, se lançarmos um bloco, fazendo-o deslizar sobre um
piso horizontal, ele para após ter cumprido certo deslocamento, por efeito
do atrito; nesse caso, toda a energia cinética do lançamento foi convertida
em calor - uma investigação cuidadosa deixa evidente que o bloco, o piso
Para o ser humano, produzir e dominar o e o ar se aquecem. Observe que, em nenhum desses processos, entrou em
fogo era um fato tão importante que se
transformou no mito de Prometeu. discussão o que ocorreu com a fração da energia que se converteu em calor.
Por outro lado, o calor também se converte em energia mecânica,
como trabalho. Você já notou que o vapor-d'água de dentro da panela de
pressão faz levantar seu pino de segurança?
Qual é a diferença entre os dois primeiros processos e este último?
Uma delas é o sentido da transformação - a primeira converte energia
mecânica em calor, e a segunda faz o processo inverso. A outra diferença,
não tão evidente mas muito importante, é o fato de que sempre podemos
converter toda a energia mecânica de um processo em calor, mas o con-
trário nunca é possível.
Esse fato chamou a atenção de estudiosos como Benjamin Thompson,
Sadi Carnot, Robert Mayer, Rudolph Clausius e James Joule, envolvidos
com o estudo das características dos gases, nos séculos XVIII e XIX, e inte-
ressados em melhorar o desempenho das máquinas a vapor, como as cal-
deiras de uma locomotiva.
Para a completa descrição desses fenômenos, eles relacionaram as
variáveis macroscópicas dos gases já conhecidas: pressão, volume e tem-
peratura. A constatação de que havia um sentido preferencial das trans-
formações (tanto no fluxo do calor como na forma de energia transfor-
mada) e a necessidade de explicar esse comportamento levaram ao
reconhecimento de outra grandeza, a entropia, que será estudada ainda
neste capítulo, e a uma interpretação estatística do comportamento das
partículas que compõem os sistemas macroscópicos, opondo-se à tradi-
ção de descrever um sistema pelas equações de movimento da Mecânica
Newtoniana.

CAPÍTULO 6 • TERMODINÂMICA 85
Com essas inovações, cientistas como Stephan Boltzmann e Max Planck contri-
buíram para o estabelecimento de um novo ramo da Física, a Termodinâmica, e
mais tarde, a Mecânica Quântica.
O objetivo inicial da Termodinâmica era estabelecer as relações entre calor e
trabalho, além de estudar transformações gasosas particulares sob o ponto de vista
energético, assim como o funcionamento das então denominadas máquinas térmi-
cas.
Hoje, a Termodinâmica se ocupa com quaisquer transformações de energia em
sistemas macroscópicos. Usam-se conceitos da Termodinâmica na Engenharia, na
Química, na Biologia etc. Alguns fenômenos ligados à Economia apresentam justifi-
cativas bastante interessantes, baseadas em argumentos termodinâmicos .

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O artista gráfico holandês Maurits Cornelis
o
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Escher especializou-se em representar
estruturas impossíveis em gravuras
bidimensionais. Nesta litografia (Waterfa/1,
~ 1961), ele reúne planos que, em conjunto,
representam uma quantidade de água em
aparente movimento espontãneo, que na
realidade não ocorre. A espontaneidade dos
processos é um dos objetos de estudo da
Termodinãmica.

Termos-chave em Termodinâmica
Sistema
Para o entendimento da Termodinâmica, precisamos definir aquilo que se vai
estudar e o que fica de fora desse processo. Denomina-se sistema toda a região do
espaço que é objeto de estudo; ela é separada do restante do universo por uma
superfície fechada, real ou imaginária, chamada fronteira.
Os sistemas termodinâmicos são chamados de macroscópicos porque são for-
mados por um número enorme de partículas (em torno de 1019), para as quais es-
crever (e resolver) as equações de movimento seria uma tarefa impossível. A parte
restante do universo que não entra no estudo é chamada de meio externo, exterior
ou vizinhança.
Do ponto de vista das trocas com a vizinhança, um sistema pode ser classificado em:
• Sistema isolado: é aquele que não troca energia nem matéria com o meio
externo. Não existe um sistema isolado perfeito, mas podemos citar a garrafa
térmica como um bom exemplo de sistema que fica isolado por um curto
período de tempo;

86 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
• Sistema fechado: é aquele que troca energia, mas não matéria com o meio ex-
terno; uma latinha de refrigerante que não foi aberta pode funcionar como um
sistema fechado, pode ser resfriada (perder calor) ou aquecida (ganhar calor)
sem que seja alterada a quantidade de refrigerante em seu interior;
• Sistema aberto: é aquele que troca energia e/ou matéria com o meio externo.
Um exemplo é a mesma latinha de refrigerante, mas aberta;
• Sistema termicamente isolado: é o sistema que não troca calor com a vizinhança,
ainda que nele possa ocorrer alguma modificação. As paredes de um recipiente
termicamente isolado são chamadas de adiabáticas (do grego adiábatos, que
quer dizer intransponível). As paredes da garrafa térmica, por um período de
tempo, são adiabáticas.

Processo termodinâmico
Vimos que o estado de um gás perfeito fica caracterizado por suas variáveis de
estado - pressão, volume, temperatura. Para caracterizar uma transformação,
basta verificar a alteração de uma delas. Essas três grandezas, mais a quantidade
de partículas, em número de mol, relacionam-se pela equação de estado dos gases
perfeitos p •V= n • R • T, de modo que basta conhecer três delas para determinar
univocamente as características do sistema gasoso.
Na Termodinâmica, essas grandezas
Estado 1 (inicial) Estado 2 (final)
permitem calcular a energia trocada nas
Pressão p, Pressão p 2 transformações, sendo, por esse motivo,
Volume V, Processo Volume V 2
denominadas propriedades ou funções
termodinâmicas do sistema. Quando uma
Temperatura T, termodinâmico Temperatura T2
dessas grandezas termodinâmicas sofre
Densidade d, Densidade d 2
alguma alteração, dizemos que ocorreu
etc. etc. uma transformação ou um processo ter-
Cada estado é caracterizado por um conjunto de grandezas denominadas variáveis modinâmico.
de estado.

Energia interna do gás


Há várias características de um sistema que contribuem para a determinação de
sua energia: interações com campos - gravitacional, elétrico ou magnético - ,
movimentos em relação a referenciais inerciais, ou a própria configuração interna de
seus componentes, tais como os deslocamentos das partículas que o compõem e as
interações entre elas. Se quisermos apenas caracterizar a energia associada aos ele-
mentos de que o sistema é constituído, estaremos falando de sua energia interna.
No caso de um gás real, a energia interna é determinada pelas energias cinéticas
de translação, rotação e vibração das moléculas, energia potencial intermolecular,
energia potencial armazenada nas ligações dos elétrons etc. Mas, se quisermos tra-
tar de gases ideais, devemos descrever o sistema em termos do modelo cinético,
segundo o qual o gás é composto de pequenas partículas em um sistema fechado.
Sabemos que a energia interna do gás real depende de sua pressão ou do seu volu-
me, assim como da sua temperatura. No entanto, se limitarmos a discussão aos gases
ideais, as premissas do modelo cinético nos permitem concluir que a dependência da
energia com a pressão ou o volume é desprezível, se comparada com a temperatura.
Vimos no capítulo anterior que a única variável de estado que altera a energia
cinética de uma massa de gás perfeito é a temperatura absoluta, desde que não
haja mudança de fase. Assim, a energia interna U de um gás ideal reduz-se à sua
energia cinética fc:
3
U = E =-n · R • T
e 2

em que n é o número de mol do gás, R é a constante universal dos gases perfeitos e T,


a temperatura absoluta do gás.

CAPÍTULO 6 • TERMODINÂMICA 87
A energia interna pode ser considerada uma variá-
vel de estado do gás.
Saiba mais sobre o modelo
Se o gás passar por uma transformação, é mais ade-
quado medir a variação da energia interna de um siste- cinético:
ma (AU) em dada temperatura: Como definição geral, o modelo cinético con-
siste em uma amostra composta de grande núme-
• no estado 1 (inicial): U1 = ; n • R • T,; ro de partículas, em movimento aleatório, as quais
têm dimensões desprezíveis em relação à distância
• no estado 2 (final): U2 = ; n · R • T2 . entre si. As colisões entre partículas ou entre uma
partícula e a parede são elásticas e de duração des-
A variação da energia interna associada à transfor- prezível, e entre colisões sucessivas o movimento
mação será: das partículas é retilíneo.
As forças intermoleculares entre partículas só
3
AU = U2 - U1 = -2 n · R · (T2 - T1) ou se manifestam durante as colisões, e estas ocorrem
com conservação de energia.
3
AU =-n · R·AT
2

A energia interna de certa massa de gás perfeito é função exclusiva


de sua temperatura.

De acordo com a expressão da variação da energia interna, são possí-


veis as seguintes conclusões:
• se a temperatura do gás aumenta, sua energia interna aumenta:
T2 > T1 • AT >O • AU > O;
• se a temperatura do gás diminui, sua energia interna diminui:
T2 < T1 • AT <O • AU < O; O ar que injetamos no pneu de uma bicicleta
por meio de uma bomba sofre variação de
• se a temperatura do gás é a mesma nos estados inicial e final, não varia energia interna?

sua energia interna: Somente se a temperatura do ar sofrer


variação então o ar que entra no pneu terá
T2 = T1• AT = O • AU = O. variação de energia interna.

Trabalho envolvido na transformação do gás


Sabemos que todo trabalho é realizado por uma força. Fornecendo calor a uma
massa gasosa, confinada em um recipiente cilíndrico provido de êmbolo móvel
(como uma bomba manual de encher pneu de bicicleta), o gás se expande e as
forças exercidas contra as paredes do recipiente movimentam o êmbolo, deslocan-
do-o e realizando, então, trabalho.
Vamos descrever esse trabalho em termos das variáveis de estado do gás, con-
siderando uma quantidade de gás contida em um recipiente cilíndrico cuja área de
seção reta mede A, provido de um êmbolo móvel que desliza sem atrito com velo-
cidade constante em seu interior, e sobre o qual é colocado um peso para que a
transformação seja isobárica, isto é, ocorra sob mesma pressão. Fornecendo-se ao
gás uma quantidade de calor Q, ocorre a expansão do gás e o êmbolo desloca-se
uma distância d, conforme ilustram as figuras.

êmbolo
móvel
d = deslocamento
do êmbolo

_ _ _ fonte
térmica

Estado inicial: p 1 , V, e T,. Na expansão, as variáveis de Estado final: p 2 , V2 e T,.


estado sofrem alteração.

88 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
O trabalho realizado pelo gás para deslocar o êmbolo é: 't = F • d CD
Lembrando que pressão é a relação entre força aplicada e área de aplicação,

p =: ou F = p • A; substituindo esse resultado em (D, obtemos: 't =p • A • d ®


Das figuras, podemos concluir que a variação no volume é:
AV =V2 - V, =A · d @
Finalmente, substituindo@ em @, chegamos a: 't = p · AV
que é a expressão do trabalho sob pressão constante.
Observe que a igualdade 't = p • AV pode ser interpretada como a área abaixo da
curva do diagrama p x V, ou seja: A :1:i: 't.
p p
Justifique a afirmação
aproximando a área sob a curva
a pequenos retângulos com -------
~
p
0
1 1
1 1 1
bases apoiadas no eixo x; 1
1 11 11
quanto menores forem os
retângulos, mais próximos
serão os valores dessa área e
1
1
1
1
1
0 :
1
1
1
A :
1
1
1

do trabalho. o v, V2 V O V
A expressão anterior pode ser generalizada para
t:N qualquer transformação: o trabalho envolvido
A área A da figura representa o trabalho na transformação do gás é a área sob a curva
realizado a uma pressão constante. do diagrama p x V.

O sinal da grandeza trabalho possui significado. Os diagramas a seguir referem-


-se a um gás que sofre transformação desde o volume inicial V, até o volume final
V2 , sendo a área da figura marcada correspondente ao trabalho realizado.
• Trabalho positivo: 't > O, ocorre quando o volume final é maior que o inicial - é
uma expansão gasosa em que o sistema realiza trabalho.
p p

P2 p,
p, ----~ P2 ----~

0
1 1 1 1
1
1
1
1
1
1
1
1
1
1
1
1

o
1
1
1
1
1
1
0 1
1
1
1
1
1

o v, V2 V v, V2 V
Expansão gasosa com aumento de pressão. Expansão gasosa com diminuição de pressão.

• Trabalho negativo: 't < O, ocorre quando o volume final é menor que o inicial -
trata-se de uma compressão gasosa em que o trabalho é realizado sobre o sistema.
p p

P,
P2 ---~
: 1
1
A :1
1
P2
P, :::~ :
1
1
A :
1
1

o V2 v, V o V2 v, V
Compressão gasosa com diminuição de pressão. Compressão gasosa com aumento de pressão.

• Trabalho nulo: 't = O, ocorre na transformação isocórica, quando o volume não


se altera (AV = O).

1
p p
P2 ------· A= O P, -------1 A= O

p, P2
o V o V
Trabalho nulo com aumento de pressão. Trabalho nulo com diminuição de pressão.

CAPÍTULO 6 • TERMODINÂMICA 89
• • Exercícios resolvidos
••
ER1. Determine a variação de energia interna sofrida d) No processo isobárico, vale a relação: 't = p • LiV.
por 1O mol de um gás considerado ideal, sabendo-se LiV= V8 - VA = 0,3 - 1,3 • LiV= -1,0 m 3
que sua temperatura passou de 27 ºC para 127 ºC. 't=4,15·104 ·(-1,0) • 't=-4,15·104 J
Dado: R = 8,31 J/mol · K.
O sinal negativo significa que o trabalho foi realizado
Resolução: sobre o gás. Esse valor também poderia ser obtido
n = 10 mo! calculando-se a área sob a curva, no intervalo entre
{
Temos: T 1 = 27 ºC = 300 K } LiT = T -T = os volumes considerados.
T2 = 127 ºC = 400 K 2 1
ER3. Certa massa gasosa de gás perfeito sofre uma ex-
= 400 K - 300 K = 100 K pansão, indo do estado A para o estado B, como mos-
Substituindo os dados na expressão de variação de tra o diagrama. No estado A, a temperatura é de 200 K.
energia interna, resulta: p (103 N/m 2 )
LiU = 2n · R • LiT = 2 · 10 · 8' 31 · 100
2 2
3 A
:. LiU = 12465 J

ER2. Em um recipiente encontram-se 140 g de gás de


, ~ ,
massa molar M = 28 g/mol, inicialmente no estado A, con-
forme mostra o diagrama. Ocorre um processo de com-
pressão isobárica, com o gás passando para o estado B, no o 0,5 1,2 V (m 3 )

qual a temperatura é de 300 K. Dado: R = 8,3 J/mol • K. a) Determine a temperatura no estado B.


p (N/m 2) b) Calcule o trabalho realizado no processo.
B A
p
Resolução:
Temos os seguintes dados:
TA= 200 K; pA = 3 · 103 N/m 2;VA = 0,5 m 3;
p8 = 2 · 103 N/m 2; V8 = 1,2 m 3
o 0,3 1,3 V (m 3)
a) Para determinar a temperatura no estado B, apli-
Determine: camos a equação de estado dos gases perfeitos:
a) o número de mol de gás contido no recipiente;
pA-vA
- - =pB-vB
--• 3·103 ·05
, = 2·10 3·12
,
b) a pressão em que ocorre o processo; TA TB 200 TB
e) a temperatura inicial do gás no estado A;
:. TB = 320 K
d) o trabalho realizado na transformação.
b) O trabalho realizado no processo é numericamen-
Resolução: te igual à área A da figura:
a) O número de mo! é calculado por: p (10 3 N/m 2)
3 A
n = .!!!.. = l40 • n = 5 mo!
M 28
b) Pelo diagrama, T8 = 300 K, V8 = 0,3 m 3e¼_= 1,3 m 3.
Substituindo os dados do estado B na equação do
2 : : : : ~0----
:
1
1
A :
1
1
B

estado de gases perfeitos, temos:


p · V8 = n · R · T8 • p · 0,3 = 5 · 8,3 · 300 • O 0,5 1,2 V (m3)

• p = 4,15 · 104 N/m 2 't~A=(B;b)·h=


c) Como a transformação é isobárica, aplicamos a
Lei de Charles e Gay-Lussac: 3 . 103 + 2 103 . (12
2 . , - o,5) = 1,75. 103
VA = VB • _!d_= 0,3 • TA= 1 300 K Portanto, 1,75 · 103 J .
TA TB TA 300

90 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
••••
Primeira Lei da Termodinâmica
Quando um sistema passa por um processo termodinâmico, sua energia total é
composta de duas partes:
• Energia externa: é a energia trocada pelo sistema com o meio exterior na forma
de calor e trabalho, não fazendo parte dele.
• Energia interna: é a energia que está no interior do sistema, ou seja, é intrínseca a ele.
Assim, todo balanço energético deve contemplar essas parcelas.
Voltemos ao exemplo da bomba de encher pneu de bicicleta. Se fornecermos
calor ao ar contido no seu interior, o que acontecerá? Esperamos que o ar se aqueça,
mas pode ser que ocorra algo mais.
Um acréscimo de energia pode contribuir para o aumento do estado de agitação
das moléculas, o que implicaria um aumento de temperatura; porém, o eventual
aumento de pressão pode fazer com que o ar sofra expansão e empurre o êmbolo
para fora da câmara, e isso representa trabalho contra o meio externo.
Assim, podemos esperar que o acréscimo de energia, que neste caso é o calor, con-
verta-se em energia interna e trabalho. As quantidades de cada modalidade de energia
"'~---------------~ podem variar, mas é certo que a soma de ambas deve ser igual ao
"o
::;;
acréscimo de energia fornecido. Não há novidade aqui: este é o
Princípio da Conservação da Energia.
Vamos pensar em um caso mais geral. Seja o processo termo-
dinâmico exemplificado na figura ao lado, em que um sistema
gasoso recebe do meio exterior uma quantidade de calor Q. Essa
energia pode ser dividida em duas parcelas: uma utilizada para
Estado inicial: As variáveis do estado
conhecemos as variáveis final (p2 , V2 , T,) permitem fazer variar sua energia interna segundo a fórmula AU = U2 - U,,
de estado (p 1 , V,, T,) e a identificar as transformações e a outra usada para interagir com o exterior através de sua fron-
energia interna u,. energéticas ocorridas.
teira, por meio de um trabalho 't.
É fácil escrever a relação entre Q, AU e 't, que é conhecida
como a Primeira Lei da Termodinâmica:

Q = LlU + 't

Esse balanço energético nada mais é do que uma confirmação do Princípio da


Conservação da Energia, pois, do total da energia recebida pelo gás, parte serve
para aumentar sua temperatura e o que eventualmente sobra realiza trabalho ao
deslocar a fronteira.
Reescrevendo esse balanço em termos da energia interna do gás, temos:

LlU = Q-'t

Observe o sinal negativo do termo que representa o trabalho. Isso nos remete ao
fato de que esta é uma expressão algébrica, isto é, o sinal desses termos está atrela-
do a um significado para o gás. Assim, quando:
• > O (positivo): significa que o gás recebeu calor do exterior;
Q
• Q < O (negativo): significa que o gás cedeu calor ao exterior;
• Q = O (nulo): significa que o gás não trocou calor com o exterior (transforma-
ção adiabática); todo o trabalho trocado se converteu em variação de energia
interna;
• > O (positivo): significa que a temperatura do gás aumentou;
AU
• < O (negativo): significa que a temperatura do gás diminuiu;
AU
• AU = O (nulo): significa que o processo é isotérmico; qualquer que tenha sido a
troca com o exterior, a temperatura se manteve constante;

CAPÍTULO 6 • TERMODINÂMICA 91
• 't > O (positivo): significa que o gás sofreu expansão; o volume aumentou, por-
tanto o gás realizou trabalho sobre o exterior;

• 't < O (negativo): significa que o gás sofreu compressão; o volume diminuiu,
portanto o trabalho foi realizado sobre o gás;

• 't = O (nulo): significa que não houve variação no volume; qualquer que tenha
sido a troca com o exterior, não houve realização de trabalho do gás ou do
exterior.

Experimentos de Joule e Primeira Lei da Termodinâmica


Vimos no capítulo 3 como James Joule determinou o equivalente mecânico do calor, convertendo o trabalho
da força peso em calor, fazendo variar a temperatura da água contida em um recipiente termicamente isolado;
isto é, sem que houvesse outras trocas de calor (nessas condições, o processo é adiabático).
Vamos repetir a experiência, "'
trocando o líquido do recipiente _.g"'
~
por um gás na temperatura T1. O F F u
o

trabalho sobre o gás pode ser rea-


lizado por meio de uma força que
provoque o deslocamento da
• v,

fronteira, como na figura ao lado. O trabalho realizado sobre um sistema termicamente isolado é chamado trabalho
Se essa força for aplicada tão adiabático.

rapidamente que não permita a troca de calor com o exterior, veremos


que o gás sofrerá aquecimento e sua temperatura se elevará a Tr
Então, o que é feito do trabalho sobre o gás? Se há aumento de
temperatura, então a energia interna do gás aumenta (é o que aconte-
ce, por exemplo, quando enchemos uma bola bombeando ar rapida-
mente para o seu interior). Se não pudermos garantir, a priori, que as
paredes do recipiente sejam adiabáticas, mas se o gás sofrer uma expan-
são tão rápida que possamos desprezar o calor trocado com o exterior,
o que veremos é um resfriamento do gás.
Joule repetiu esse experimento para outras situações, variando os
tipos de transformação e a maneira como o trabalho era inserido no
sistema, e os resultados levaram sempre à mesma conclusão: a varia-
ção da energia interna dependia exclusivamente da variação de tem-
peratura do sistema.
Agora, suponhamos que se deseja provocar a mesma variação
de temperatura por outros meios, por exemplo, levando o gás a
um recipiente em que as paredes permitam trocas de calor com o
exterior.
Partindo da temperatura T1, fazemos com que o gás chegue à
temperatura final T2 . Se é verdade que a variação de energia interna Em vazamentos de botijões de gás, pode
acontecer de a válvula ficar congelada na região
depende apenas da variação de temperatura, então certamente a
de escape: é o efeito da expansão adiabática
variação de energia interna nos dois processos será a mesma. Se não do gás. A energia necessária para realizar o
houver variação de volume, o incremento de energia interna se de- trabalho durante a expansão é retirada de sua
própria energia interna.
verá ao calor absorvido, unicamente. Se houver variação de volume,
então haverá trabalho realizado pelo gás, mas constata-se experimentalmente que ele é menor que o trabalho
adiabático.
A que se deve, então, essa diferença entre os trabalhos realizados em ambos os casos? Esse incremento da
energia interna que não se deve ao trabalho realizado é o calor trocado entre o gás e o exterior. Assim, a expres-
são ~U =Q - 't exprime corretamente o Princípio da Conservação da Energia.

92 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
• • Exercícios resolvidos
••
ER4. Certa massa de gás perfeito recebeu 300 J de c) o trabalho realizado pelo gás na transformação do
energia do meio exterior e realizou um trabalho estado 1 para o 2;
de 500 J. Nessas condições, responda: d) a quantidade de calor recebida pelo gás do meio
a) qual foi a variação de energia interna sofrida pelo gás? ambiente.
b) a temperatura do sistema aumentou ou diminuiu
Resolução:
nesse processo?
Dados:
Resolução: n = 5 mo!; R = 8,3 J/mol · K;
Do enunciado, temos: Q = 300 Je 't = 500 J. p 1 = 2 · 103 N/m 2; V1 = 1,66 m 3; p 2 = 5 • 103 N/m 2 e
v2 =4,98 m 3
a) Da expressão da Primeira Lei da Termodinâmica,
a) As temperaturas podem ser obtidas aplicando-se a
resulta:
equação de estado em cada caso:
AU = Q - 't • AU = 300 - 500 • AU = -200 J
b) Como a variação da energia interna do gás resul- p·V=n·R•T • T=H
tou num valor negativo, a temperatura diminuiu.

ERS. No interior de um recipiente provido de um êmbolo


T _ P1 · V1 _ 2 · 10 3 • 1,66 }
1- n . R - 5 . 8,3
T = P2. V2 = 5. 103. 4,98
• l T 1 = 80 K
T2 = 600 K
móvel, encontram-se 5 mol de certo gás monoatômico, 2 n·R 5 · 8,3
inicialmente no estado 1. Ao sofrer o processo termodi- b) Para gases monoatômicos, vale:
nâmico, mostrado no diagrama, a massa gasosa passa
para o estado 2. Considere a constante universal dos AU=ln·R·AT
2 ,
gases perfeitos R = 8,3 J/mol • K. em que AT = T2 - T1 = 600 K- 80 K = 520 K.
AU = l2 . 5 · 8,3 · 520 • AU = 32 370 J
p (103 N/m 2)
2 c) A área sob a curva do diagrama é numericamente
5
igual ao trabalho realizado na transformação de
1 para 2.
2 't ~A= (B; b) · h =
= ( 5 . 103 ; 2 . 103 ) · (4,98 - 1,66) = 11620
o 1,66 4,98 V (m 3)
Portanto, 't = 11 620 J .
Determine: d) Aplicando a Primeira Lei da Termodinâmica na
a) as temperaturas do gás nos estados 1 e 2; transformação, temos:
b) a variação da energia interna do gás no processo AU = Q-'t ou Q=AU +'t = 32370 + 11620
:. Q=43990 J

••••
descrito;

A Primeira Lei e as transformações gasosas


Vamos estudar as três transformações gasosas particulares, vistas no capítulo 5,
sob o ponto de vista da Primeira Lei da Termodinâmica, e conhecer outra ainda não
estudada, na qual o sistema não troca calor com o meio externo.
Consideraremos, nessas transformações, o estado inicial 1 com pressão p 1, volu-
me V, e temperatura absoluta T, e o estado final 2 com p 2 , V2 e T2 , variáveis que se
relacionam na equação de estado dos gases perfeitos:

P, · V, _ P2 · V2
-T-,-- T2

CAPÍTULO 6 • TERMODINÂMICA 93
Transformação isotérmica
Na transformação isotérmica temos: T1 = T2 ou LiT = O, e a equação de estado dos
gases perfeitos se reduz à Lei de Boyle, p 1 ·V,= p2 • V2 • Note que essa sentença é do
tipo y = ~, que relaciona grandezas inversamente proporcionais. Essa fun- P

ção é decrescente e o seu gráfico é uma hipérbole equilátera (veja ao lado).


Vamos analisar essa transformação de acordo com a Primeira Lei da curva isotérmica
Termodinâmica, t:.U = Q - 't. Sabemos que a área A sob o gráfico p x V P, 1
1
1
representa o trabalho do sistema trocado com o exterior. 1
1
1
Se LiT = O, não há variação da energia interna (LiU = O), e a equação da 1

Primeira Lei da Termodinâmica, LiU = Q - 't, resulta O = Q - 't, ou seja, Q = 't. P2 -----~--0-----,
1
1
1
1
1
1
Na transformação isotérmica, a quantidade de calor trocada pelo sis-
tema com o exterior converte-se integralmente em trabalho; essa conclu-
o v, V

são é coerente com a regra de sinais adotada:


• se o sistema recebe calor (Q > O), então essa energia se converte em trabalho útil
('t > O);
• se o sistema cede calor (Q < O), então ocorre uma compressão isotérmica e o
trabalho é negativo ('t < O).

• • Exercícios resolvidos
••
ERG. Certa massa gasosa contida em um sistema sofreu a) o volume V8 ;
uma compressão isotérmica ao ceder 500 J de calor b) a temperatura em que a transformação ocorre;
para o ambiente. Qual foi o trabalho realizado? e) a variação da energia interna do gás;
Resolução: d) a quantidade de calor trocada pelo gás.
Se o sistema sofreu uma compressão isotérmica, seu vo-
Resolução:
lume diminuiu, tendo a temperatura permanecido cons-
tante. Portanto, não houve variação da energia interna: A área A do diagrama vale 2 000 e representa o traba-
LiU =O, e, se o sistema perdeu calor, temos Q = -500 J. lho realizado pelo gás, conforme as unidades de me-
dida apresentadas. Portanto, temos 't = 2 000 J
Na transformação isotérmica, a equação da Primeira
(positivo porque houve expansão).
Lei da Termodinâmica se toma:
Do diagrama: pA = 4 · 10 5 N/m 2 ;
LiU = Q - 't • O = Q - 't • 't = Q • 't = -500 J
VA = 0,01 m 3 = 10-2 m 3; Ps = 1 • 10 5 N/m 2 •
O sinal negativo significa que o trabalho foi realizado
a) Na transformação isotérmica, pA • VA = Ps • VB:
sobre o sistema.
4. 105 • 10-2 = 1 • 105 • VB •
ER7. Uma massa de gás ideal sofre a transformação • Vs = 4 · 10-2 m 3 = 0,04 m 3
isotérmica AB, como indica o diagrama. Sabe-se que a
b) Aplicando a equação de estado dos gases perfeitos
área A marcada no diagrama vale, numericamente,
no estado A: pA· VA = n • R • TA
2 000. Sendo a constante universal dos gases perfeitos
R = 8,3 J/mol • K, calcule: 4 . 10 5 • 10-2 = 0,8 . 8,3 . TA • TA = 602,4 K
Como a transformação é isotérmica,
p (10 5 N/m 2)
A TA = T s = 602,4 K
4
c) Dado que não há mudança na temperatura, a
variação da energia interna é nula: LiU =O
d) Aplicando a Primeira Lei da Termodinâmica:
LiU = Q-'t
o 0,01 O = Q - 2 000 • Q = 2 000 J

94 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
••••
Transformação isocórica (ou isométrica ou isovolumétrica)
Na transformação isocórica, V,= V2 ou !iV = O, e a equação de estado dos gases
~ p reta paralela ao . , . p1 p2
------------~~yº das pressões perfeitos se reduz a Lei de Charles e Gay-Lussac, T, = T 2

No diagrama p x V representa-se uma reta paralela ao eixo das pressões, como mos-
P, --------------, trado ao lado.
1
1
1
1
Se !iV = O, o sistema não realiza nem sofre trabalho ('t = O), e a equação da Pri-
v meira Lei da Termodinâmica se torna:

Pela regra de sinais, se o sistema !iU = Q - 't • !iU = Q - O • !iU = Q


recebe calor (Q >O), a temperatura
aumenta e a variação da energia
Portanto, na transformação isocórica a variação da energia interna do sistema é igual
interna é positiva (LlU > O); e, se
o sistema perde calor, Q e LlU à quantidade de calor trocada por ele com o meio externo; é um bom exercício verificar
são negativos.
que esse fato é coerente com a regra de sinais adotada para os termos da expressão.
A quantidade de calor recebida ou cedida pelo sistema que contém certa massa
de gás é calculada usando-se a expressão Ov = m · cv · liT, em que cv é o calor espe-
cífico do gás a volume constante. Se /iT > O, o sistema recebe calor aumentando a
pressão, e, se /iT < O, o sistema perde calor e a pressão diminui, como mostram os
diagramas.
p p

V V
Nas duas transformações, a variação de energia interna se deve unicamente à troca
de calor do sistema com o exterior.

• • Exercício resolvido
••
ER8. Em uma transformação a volume constante, 1 cal= 4,2 J
200 g de gás ideal sofrem uma variação de tempera- Tl = 200 K
tura de 200 K para 600 K. Considerando o calor espe- T2 = 600 K
cífico do gás a volume constante cv = 1,25 cal/g • K e a) A quantidade de calor na transformação isocórica
1 cal = 4,2 J, determine: é calculada usando-se a expressão:
a) a quantidade de calor trocada pelo gás na trans- Q = m · cv · (T2 - T 1)
formação; Q = 200 · 1,25 · (600 - 200)
b) o trabalho realizado no processo; Q = 2 · 102 • 1,25 · (400) = 2,5 · 4 · 104 •
c) a variação da energia interna sofrida pelo gás. • Q = 105 cal = 105 • 4,2 J• Q = 4,2 · 105 J
b) Em uma transformação com volume constante,
Resolução: não há realização de trabalho. Portanto, 't = O
Temos os seguintes dados: c) Aplicando a Primeira Lei da Termodinâmica no
m = 200 g processo, temos: /iU = Q - 't = Q - O = Q
cv = 1,25 cal/g · K Assim, !iU = 4,2 · 105 J .

CAPÍTULO 6 • TERMODINÂMICA
••••95
Transformação isobárica
Na transformação isobárica, p1 =p2 ou Lip =O, e a equação geral dos gases perfeitos

se reduz à Lei de Charles e Gay-Lussac, ~ 1 = ~ 2 • No diagrama p x V, a curva é uma reta


1 2
paralela ao eixo dos volumes e a área A representa numericamente o trabalho.
No caso da transformação isobárica, o trabalho também pode ser calculado
usando-se a expressão: 't = p · LiV, em que p = p 1 = p 2 • Veja ao lado.
A Primeira Lei da Termodinâmica para essa transformação exibe todos os termos:
LiU = Q - 't, em que nenhum dos seus termos é nulo. No entanto, algebricamente
pode ocorrer uma das duas situações: a expansão ou a compressão isobárica, con-
o
0
forme indicam os diagramas seguintes. V
p p
compressão expansão
isobárica isobárica

T,

T,
v, V v, V

Na expansão, aumentam o volume (LiV > O) e a temperatura (LiT > O); isto é,
segundo a Primeira Lei da Termodinâmica, o trabalho realizado e a variação da
energia interna são valores positivos. Daí, podemos concluir que o calor Q trocado
pelo sistema deve ser maior que o trabalho efetuado 't.
Na compressão isobárica, diminuem o volume (LiV < O) e a temperatura (LiT < O);
daí se conclui que o calor cedido Q pelo sistema é menor (algebricamente) que o
trabalho realizado sobre o sistema.
A quantidade de calor trocada nessa transformação é: QP = m · cP · LiT, em
que cP é o calor específico do gás sob pressão constante.

Para cada caso, um calor específico próprio


Você deve ter notado que, para a realização do cálculo do p
calor trocado nas transformações isobárica e isocórica, foram
introduzidas duas grandezas, cP e cv, calores específicos do
gás, respectivamente, a pressão e a volume constantes. Por
que motivo devemos usar calores específicos diferentes para
cada tipo de transformação?
Determinar a variação de energia entre dois estados termo- PB = Pc
dinâmicos é o mesmo que estabelecer a diferença de energia
entre dois estados quaisquer representados sobre duas isoter-
mas. Observe o gráfico ao lado:
Como TA= Te a variação de energia interna entre os estados V
A e B e entre os estados C e B é a mesma.
Sejam Ov e QP as quantidades de calor trocadas a volume e a pressão constantes, respectivamente. A trans-
formação A-+ B é isocórica, então 't = O e .ó.UA8 = Ov; a transformação C---+ B é isobárica, então 't = p •.ó.V* O
e .ó.Uc 8 = QP - 't. Já sabemos que .ó.UA8 = .ó.Uc 8, então Ov = QP - 't ou QP > Ov
Por esse motivo, QP = m • cP • .ó.T e Ov = .ó.U = m • cv • .ó.T. Uma decorrência importante desse resultado é que cP > ~

Calor molar - Relação de Mayer


Uma amostra de gás de massa m, formada por partículas de massa molar M,
encerra um número n de mol igual a n =~ ou m = n • M; substituindo essa ex-
pressão em Q = m • c • LiT, temos Q = n • M • c • LiT.
96 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
O calor molar C de uma substância é a quantidade de calor que devemos trocar
com 1 mol de partículas dela para que sua temperatura varie em uma unidade; para
calculá-lo, basta fazer o produto da massa molar do gás pelo valor do seu calor es-
pecífico e, ou seja: C = M • e. Mede-se o calor molar de um gás em cal/mol • K ou
J/mol • K.
Assim, o calor trocado por n mol de gás perfeito pode ser escrito da seguinte
forma:
Q = n · C · LiT
p Considerando dois processos termodinâmicos para n mol de gás per-
feito, um isobárico e outro isocórico, representados, respectivamente, por
Pc AB e AC, no diagrama ao lado, podemos escrever, de acordo com a Primei-
ra Lei da Termodinâmica, que: LiU = QP - 't CD
sendo QP = n · CP· LiT, em que CP é o calor molar do gás sob pressão constante.
B LiU = Qv @
sendo Qv = n · Cv · LiT, em que Cv é o calor molar do gás com volume cons-
tante. Igualando CD e@:
QP - 't= Qv, então QP - Qv = 't. Sendo 't = p · LiV = n · R · LiT
v0 v ~ . c p . $ - ~ . c . $ =~ . R. $ •
V
cp - c = R V

A equação acima é conhecida como Relação de Mayer. Outra maneira de escrever


a mesma relação é: CP - Cv = n · R, aplicada a uma amostra de n mol de gás ideal.
Como a constante universal dos gases perfeitos, R = 8,31 J/mol • K, é um valor
positivo, a Relação de Mayer ratifica a condição CP > Cv

••••
A FÍSICA NA HISTÓRIA

Julius Robert von Mayer


O interesse do médico alemão Julius Robert von Mayer pelas ciências exatas
produziu muitas contribuições à então nascente Termodinâmica.
·ª

,::,
e..
o
Como médico a serviço da marinha holandesa e cientista amador, Mayer relacio- :.sE
o
nou a coloração do sangue mais escuro nos pacientes dos trópicos à maior presença o
ês
de oxigênio e à menor necessidade de produção de calor metabólico, concluindo daí ""O
·o
que a energia dos alimentos era a fonte da energia necessária à realização do traba- "'e:
.,::

8
lho muscular. ijJ
""O

Tendo essas relações em mente, fazendo uso da Matemática, conciliando-as com


o trabalho experimental, Mayer construiu a equivalência entre calor, energia e traba-
lho e identificou o princípio de conservação em sistemas biológicos, fenômenos elé- Retrato de Julius Robert von
tricos e reações químicas. Mayer (1814-1878), pioneiro
na formulação do princípio da
A contribuição de Mayer para o estabelecimento do equivalente mecânico do calor equivalência entre trabalho
só foi reconhecida após James Joule ter trabalhado no mesmo tema. mecãnico e calor.

PARA SABER MAIS

Revistas e sites
Os experimentos de Joule e a Primeira Lei da Termodinâmica
Revista Brasileira de Ensino de Física, v. 31, n. 3, artigo 3603, 2009. Disponível também em: <www.sbfisica.org.br/rbef/
pdf/313603.pdf>. Acesso em: 26 out. 2015.

Um passeio pela história da consolidação do princípio de conservação de energia, com ênfase nos resultados de
Joule e de Mayer para o equivalente mecânico do calor. Conheça detalhes do experimento, realizado por vários
cientistas, e as novas formulações desse princípio.

CAPÍTULO 6 • TERMODINÂMICA 97
Entrevista com o Conde Rumford: da teoria do
calórico ao calor como uma forma de movimento
A Física na Escola, v. 10, n. 1, 2009.
Disponível também em: <www.sbfisica.org.br/fne/Vol10/Num1/a02.pdf>. Acesso em: 26 out. 2015.
"Conde Rumford" é o nome pelo qual ficou conhecido Benjamin Thompson (1753-1814). Nasceu nos Esta-
dos Unidos e optou por uma bem-sucedida carreira militar, vivendo sob o panorama da Revolução America-
na, época em que o conceito de calor estava sendo construído segundo as teorias do flogístico e do calórico.
Este é o personagem que será "entrevistado" por um grupo de professores, em um clima de total descontra-
ção, inquirindo-o sobre pontos importantes de sua vida e de sua obra.

• • Exercícios resolvidos
••
ER9. O diagrama representa uma transformação isobá- 1O m3 para 18 m3 , enquanto a temperatura passou de
rica do estado 1 para o estado 2, em que o gás perdeu 300 K para 500 K, ao longo do processo. Sabendo-se
200 J de energia para o meio externo. que o calor molar desse gás, mantida a pressão cons-
"' p (N/m 2) tante, valeu CP = 5 cal/mal · K e adotando R = 8 J/mol · K
,=
;,;
e 1 cal = 4 J, determine:
-~ 2 a) a pressão durante a expansão;
:.r10 ---- - - - - - -
j 1
b) a quantidade de calor trocada pelo gás;
c) o trabalho realizado na expansão;
o 5 12 V (m3) d) a variação da energia interna ocorrida no processo;
e) o valor do calor molar do gás se a transformação
a) Que trabalho foi realizado na compressão? tivesse sido isocórica.
b) Qual foi a variação de energia interna do gás?
Resolução:
Resolução: Para n = 5 mo! desse gás,
Se o gás perdeu 200 J de energia, podemos afirmar V1=10m 3 }AV=V -V =18m 3 -10m 3 =8m 3
que Q = -200 J. Do diagrama temos os seguintes da- V2 = 18 m 3 2 1

dos: p = 10 N/m 2 (constante); V1 = 12 m 3 (inicial) e T1= 300K}AT=T -T =500K-300K=200K


T2 = 500 K 2 1
V2 = 5 m 3 (final).
CP= 5 cal/mo!· K = 20 J/mol • K (pois 1 cal= 4 J)
a) Como sabemos, a área A da figura nos dá o valor
R = 8 J/mol • K
do trabalho:
a) Como a pressão é constante, p, escrevendo a equa-
p (N/m 2) ção de estado para gases perfeitos no estado 1,
2 1 temos: P1 • vi = n " R" TI •
10 1
1 • p • 10 = 5 • 8 • 300 • p = 1,2 · 103 N/m 2 •
0 1

: h
1
1
1
b) Calculando a quantidade de calor trocada pelo gás
a pressão constante:
o 5 B 12 V (m 3) Q = n ·CP· AT • Q = 5 • 20 • 200 • Q = 2 · 104 J
A= B • h = 7 • 10 = 70 c) O trabalho na transformação isobárica é:
Portanto, 't = -70 J (houve uma compressão). 't = p · AV • 't = 1,2 · 10 3 • 8 • 't = 9,6 · 103 J
d) No processo isobárico a equação da Primeira Lei
b) A variação da energia interna é dada pela Primeira da Termodinâmica é:
Lei da Termodinâmica: AU = Q - 't • AU = 2 · 104 - 9,6 · 103 •
AU = Q-'t = -200-(-70) = -200 + 70 • AU = (2 - 0,96) · 104 • AU = 1,04 · 104 J
AU = -130 J , em que o sinal negativo indica que a e) O calor molar a volume constante é determinado
temperatura diminuiu no processo termodinâmico. através da Relação de Mayer:
ER10. Uma amostra de 5 mal de gás perfeito sofreu
cp - cV = R • cV = cp - R = 20 - s •

••••
uma expansão isobárica, tendo seu volume variado de Cv = 12 J/mol · K

98 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA
Transformação adiabática - Lei de Poisson
O físico e matemático francês Siméon Denis Poisson (1781-1840) descreveu a
relação entre a pressão p e o volume V do gás durante a transformação adiabática:

Lei de Poisson: p • vr = constante

O quociente y = ~ é chamado de expoente de Poisson, sendo CP e Cv, respecti-


v
vamente, os calores molares do gás com pressão e volume constantes.
Observe: a expressão da Lei de Poisson mostra que as curvas envolven-
p
do p e V são funções exponenciais decrescentes. Podemos representar a
transformação adiabática no diagrama p x V com uma curva exponencial
(ou simplesmente exponencial) que corta duas isotermas, levando o gás do
estado p,, V, e T, ao estado p 2 , V2 e Tr A área A sob a curva corresponde
ao trabalho realizado.
Como já vimos, 11U = O - 't ou 11U = -'t.
Na expansão, o volume aumenta, o trabalho é positivo e, portanto, a
o v, V variação da energia interna é negativa, isto é, o gás sofre resfriamento. Na
compressão adiabática, o volume diminui, o trabalho é negativo, mas a
variação da energia interna é positiva, ou seja, o gás sofre aquecimento.
E
'"
"'
E'

Esse momento é propício para


atividades colaborativas com
Matemática. É possível (re)tomar
os conceitos que relacionam o
traçado da exponencial e o sinal
do expoente de Poisson.
Expansão adiabática do gás: pela rapidez Compressão adiabática do gás: impelido
do processo, a temperatura do gás diminui rapidamente, o ar que está no interior de uma
dentro de um frasco de desodorante (em bomba manual para encher bolas aumenta de
aerossol), o que provoca seu jato gelado. temperatura, esquentando a bomba.

Quando y = 1, a Lei de Poisson do processo adiabático reduz-se à Lei de Boyle para


gases perfeitos (p 1 • V, = constante), uma vez que é um processo isotérmico, conforme
ilustram as curvas no diagrama abaixo.

pV = cte. (r= 1)
curva isotérmica (hipérbole)

pvr = cte.
curva adiabática (exponencial)

o V

Trabalho na transformação adiabática p


É resultado geral o fato de que o trabalho em qualquer transforma-
ção pode ser calculado pela área sob a curva do diagrama p x V cor-
respondente, mas seu cálculo pode ser difícil se a figura não for redu-
tível a quadriláteros notáveis ou triângulos. É o caso do trabalho na
transformação adiabática: de que modo poderemos calcular a área
sob a curva exponencial? V

CAPÍTULO 6 • TERMODINÂMICA 99
Como anteriormente, podemos descobrir a variação de energia interna entre dois estados das duas isotermas cortadas
pela exponencial correspondente à transformação adiabática. Ambas as transformações sofrem a mesma variação da
energia interna, pois ocorrem com a mesma variação de temperatura: LlT = T8 - TA= Te - TA. Portanto, LlUAB = LlUAc
De acordo com a Primeira Lei da Termodinâmica, temos na transformação isocórica:
LlUAB = QAB - 'tAB = QAB - o
:. QA8 = Ov = n • Cv • LlT
E na transformação adiabática:
LlUAC = QAC -'tAC = O- 'tAC • -'tAC = LlUAB
'tAc = -m • ~ • LlT :. 'tAc = -n • Cv • LlT
Desse modo, os calores molares podem auxiliar na determinação das energias que compõem a variação de
energia interna do gás nessas transformações.

• • Exercício resolvido
••
ER11. Dois mal de gás ideal sofrem uma compressão mação adiabática é igual à da energia interna com
volume constante, pois trata-se da mesma varia-
adiabática na qual sua temperatura passa de 300 K
para 500 K. Sabe-se que o calor molar do gás, com o ção de temperatura:
volume mantido constante, vale 1O J/mol • K, e ado- LlT = T 2 - T 1 = 500 K - 300 K = 200 K
ta-se como a constante universal dos gases perfeitos
Portanto, LlU = n · Cv • LlT • LlU = 2 · 10 • 200 •
R = 8 J/mol • K. Assim, determine:
• LlU = 4 · 103 J .
a) a quantidade de calor trocada no processo;
b) a variação da energia interna do gás; c) No processo adiabático, a Primeira Lei da Termo-
c) o trabalho realizado sobre o gás; dinâmica reduz-se a LlU = -'t. Portanto, 't = -LlU •
d) o valor do expoente de Poisson desse gás. • 't = -4 . 103 J .

Resolução: d) O expoente de Poisson é expresso pela relação:


São dados: n = 2 mo!; T1 = 300 K; T2 = 500 K;
y= ~P , em que CP é o calor molar com a pressão
Cv = 10 J/mol • K; R = 8 J/mol • K V

mantida constante, determinado pela Relação de


a) Sendo um processo adiabático, não ocorre troca
Mayer- C - C = R • C - 10 = 8 •
de calor com o exterior. Portanto, Q = O . • p V p 18
b) A variação da energia interna do gás na transfor- • C =18J·mol·K.Assim,y=- • "(=1,8. 10

••••
p

Transformação cíclica
Estudamos, até aqui, transformações gasosas isoladas. Agora, vamos analisar uma
sequência de pelo menos três delas, com a condição de que a transformação deva
terminar sempre no mesmo estado termodinâmico em que começou.
Denomina-se transformação cíclica aquela em que certa massa de gás ideal so-
fre uma série de transformações após as quais volta ao estado inicial de pressão,
volume e temperatura.
Sabemos que a variação da energia interna do gás depende apenas dos seus
estados inicial e final, independentemente dos processos pelos quais ele passa;
então, na transformação cíclica, a variação da energia interna é nula, ou seja,
LlU = O.
Dessa forma, a Primeira Lei da Termodinâmica, no caso da transformação cíclica,
expressa-se como O = Q - 't ou Q ='t. Isso é o mesmo que dizer que todo o calor troca-
do pelo sistema é utilizado para realizar trabalho de expansão ou de compressão.

100 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA


~p Considere a sequência de transformações ABC DA ilustrada no diagrama ao lado,
f-
A B
ifj
• com o ciclo iniciado e terminado em A.
'ºu,
~
t:
ª
o
~t
1
1
. L
1
1

V
Esse ciclo é constituído pelas seguintes etapas de transformação:

• A-+ B: expansão isobárica: 'tA8


p li\
> O; • B -+ C: transformação isocórica: 't8c = O;
p li\
A notação ABC DA indica A B
a ordem em que as
B

L
1 1
1
transformações ocorrem: 1
1
1
A--+ B, B--+e, e--+ D, D--+ A.
1
1
1 @ 1
1
1
1 1
1 1
1 1 ~
, ,'
o V o V

• C -+ D: compressão isobárica: 'tco <O • D -+ A: transformação isocórica: 't0 A= O

p I~ p,

o
D
1
-
(Pv. 1
1
e
V
,'
o
:t ~

O trabalho realizado no ciclo é a soma algébrica dos trabalhos de cada transfor-


mação, assim como o calor trocado pelo sistema:
't = '[AB + Q +'[CD+ Q • 't = '[AB + '[CD e Q = QAB + QBC + QCD + QDA
Como anteriormente, o trabalho em cada etapa do ciclo de transformação é
correspondente à respectiva área sob a curva do diagrama p x V; o trabalho no ciclo
será a soma algébrica das parcelas.
Observe: na transformação ABCDA, o trabalho 'tA 8 é positivo e o trabalho 'tco
I I,
é negativo; como l'tA 8 > l'tc 0 a soma algébrica é um valor positivo, significando
que o trabalho realizado nesse ciclo é positivo; se a transformação tivesse seguido
I
a ordem ADCBA, teríamos l'tA 8 < l'tcol e o trabalho realizado seria negativo. Fazer
variar o volume de um gás a uma temperatura mais alta envolve mais trabalho.
A ordem em que ocorrem as etapas do ciclo corresponde a um "sentido de per-
curso", sendo que o trabalho em todo ele é positivo quando percorrido no sentido
horário e negativo no sentido contrário.
p p

o
t~'
D C

Trabalho positivo (sentido horário):


V o
Trabalho negativo (sentido anti-horário):
V

o calor é convertido em trabalho. o trabalho é convertido em calor.


O que se ganha tirando um gás de um estado e fazendo-o voltar à condição
anterior, se a variação de energia interna é nula? O objeto de nosso interesse são as
formas e as quantidades de energia parciais, intercambiadas entre o gás e o exterior,
especialmente o trabalho, verificadas durante a mudança de estado. Em outras pa-
lavras, queremos obter trabalho útil durante as transformações.
Uma transformação útil é aquela na qual o gás absorve calor e executa trabalho
sobre o exterior: grosso modo, uma máquina a vapor trabalha segundo um ciclo em
sentido horário, pois o calor fornecido ao vapor transforma-se em trabalho.
De modo geral, dispositivos que transformam calor em trabalho recebem o nome
de máquinas térmicas.

CAPÍTULO 6 • TERMODINÂMICA 101


• • Exercício resolvido
••
ER12. Certa massa de gás perfeito sofre uma trans- a) Percorrendo o ciclo no sentido horário (partindo
formação cíclica representada no diagrama. Dado: de qualquer ponto), temos um trabalho positivo,
1 L = 10-3 m3 . determinado numericamente pela área A da figura.
p (105 N/m 2) p (105 N/m 2)
A B A B
------ 3 • <.9

~~~~~o:t
e..
3
0 t} h
f-

-----5: 1
1
lc
1
1
1
• :e
1

o 2 6 V (L)
o 2 6 V (10-3 m3)
'-------------v
B
a) Calcule o trabalho realizado e o calor trocado se o
A= B • h = (6 - 2) • 10-3 • (3 - 1) • 10 5 =
ciclo for percorrido no sentido horário.
= 4 · 10-3 • 2 · 105 = 8 · 102
b) Se o percurso fosse anti-horário, qual seria o trabalho
Portanto: 't = 8 · 102 J
realizado? Haveria conversão de calor em trabalho
ou trabalho em calor? Como na transformação cíclica Q = 't, temos
Q = 8. 102 J.
Resolução: b) Se o sentido de percurso fosse anti-horário, o tra-
Sabendo-se que 1 L = 10- 3 m 3, temos os seguintes balho seria igual ao calculado no item anterior
dados: (a área é a mesma), mas de sinal negativo. Assim:
VA = VD = 2 L = 2 . 10-3 m 3; VB = Ve = 6 L = 6 . 10-3 m 3 't = -8 • 102 J e haveria conversão de trabalho
PA = Ps = 3. 10s N/m2; Pc = Po = 1 • 10s N/m2
••••
em calor.

A Segunda Lei da Termodinâmica


Sabemos que corpos trocam calor quando estão a temperaturas diferentes, até
que atinjam o equilíbrio térmico; colocando duas esferas idênticas no interior de um
calorímetro ideal, uma com a temperatura de 27 ºC e outra a 127 ºC, ambas alcan-
çarão o equilíbrio térmico a 77 ºC.
Será que o processo inverso poderia acontecer? Ou seja, colocando as duas es-
feras no calorímetro a 77 ºC e, espontaneamente, esperar que uma perca calor para
a outra, voltando ambas a ter, respectivamente, 27 ºC e 127 ºC? Sabemos, de forma
experimental, que isso não acontece de maneira espontânea.
De modo análogo, vimos no estudo dos gases uma situação em que um balão
contendo certa massa de gás estava ligado a outro por uma torneira fechada, onde
existia vácuo; sabemos que abrindo a torneira o gás se expande ocupando todo o
espaço oferecido. Será que a transformação inversa poderia ocorrer, isto é, todo o gás
do balão B voltar espontaneamente para o balão A, reconfigurando a situação inicial?

Não esperamos que nenhuma dessas situações inversas ocorra, e por isso chamamos
as transformações originais de irreversíveis ou naturais.
Entretanto, mesmo que essas transformações fossem reversíveis e ocorressem nos dois
sentidos, não contrariariam a Primeira Lei da Termodinâmica, isto é, estariam de acordo
com o Princípio da Conservação da Energia. Em outras palavras, a Primeira Lei não contro-
la o modo como se dão as transformações, apenas dá conta do balanço energético.
Mas há um princípio que rege o sentido dessas transformações: em qualquer intera-
ção em um sistema fechado, o estado final é sempre mais desorganizado que o inicial.

102 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA


Entropia
No início deste capítulo, afirmamos que não é possível transformar
~ todo o calor trocado em um processo em trabalho. Essa não é uma
'"
O) Ir'
É"' z questão de "limitação tecnológica", mas a decorrência do que ocorre
t' com os sistemas termodinâmicos: uma parte da energia sempre termina
s2'"
-" por se transformar em formas menos "úteis" ou "desorganizadas".
u
~ A primeira máquina a vapor foi construída por Thomas Newcomen,
-"
e:
i:
f- em 1712, e aperfeiçoada por James Watt, em 1765; basicamente, ela
transformava uma parte do calor cedido pelo vapor de uma caldeira
em trabalho, com a finalidade de drenar água das minas de carvão na
Inglaterra. Veja ao lado.
A máquina de Watt era mais potente, porque convertia uma maior
fração do calor em trabalho, porém essa eficiência nunca chegaria a
100%. Uma máquina sempre trabalha entre ciclos, em que o estado
final do sistema é o mesmo do inicial; se não houvesse degradação de
energia em algum ponto do ciclo, todo o calor fornecido à caldeira
seria transformado integralmente em trabalho.
O físico e engenheiro francês Sadi Carnot (1796-1832) estudou o
L funcionamento dessas máquinas e concluiu, em 1824, que a perda
Representação esquemática da
máquina de Thomas Newcomen de calor delas era uma consequência natural do uso do calor como
(1663-1729). A água da caldeira fonte de trabalho.
(A) entra em ebulição e o vapor
Essa conclusão, que é a primeira formulação da Segunda Lei da Termodinâmica,
gerado é levado para o interior do
cilindro (B). Isso move o pistão (D) ocorreu antes do estabelecimento da Primeira Lei, que é a da conservação da ener-
para cima. Devido à condensação gia; Carnot não chegou até ela porque, na época, não eram claros o conceito de
do vapor no cilindro, a pressão
interna diminui e o pistão é
energia e o fato de que calor também é uma forma de energia. Ainda estavam em
empurrado para baixo pela debate as teorias do flogístico e do calórico, modelos de "conteúdo energético" das
pressão externa. Ao mesmo reações químicas.
tempo, um contrapeso acoplado
ao extremo da alavanca (E) deve
Anos depois, Rudolph Clausius retomou os estudos de Carnot para os processos ir-
subir, configurando o "tempo reversíveis e ampliou-os para os processos reversíveis, associando-os com a espontanei-
motor" do dispositivo. O tubo (R) dade do fluxo de calor. Assim, foi possível enunciar a Segunda Lei na seguinte forma:
drena a água de condensação.

O calor flui espontaneamente da fonte quente para a fonte fria; para ocorrer o
contrário, é necessário realizar trabalho externo.

Ele descobriu que a razão entre o calor trocado pelo sistema e sua temperatura
absoluta não se alterava em processos reversíveis, mas sempre aumentava nos irre-
versíveis. A esse acréscimo ele deu o nome de entropia, uma medida de quanto o
sistema se desorganiza ao final do processo.
A luz dessa nova grandeza, a Segunda Lei da Termodinâmica pôde ser enunciada
da seguinte maneira:

A entropia permanece constante nos processos reversíveis, mas aumenta nos


processos irreversíveis.

Assim, os sistemas tendem naturalmente a degradar energia.


Nas transformações irreversíveis, a entropia é a medida da parte da energia térmica
que não é convertida em trabalho, sendo desperdiçada sob a forma de calor, que é
uma forma de energia desorganizada. Quanto maior a desordem, maior é a entropia.
Segundo Rudolph Clausius, a variação da entropia AS é a razão entre o calor
trocado O pelo sistema e a temperatura absoluta inicial T, nesse processo:

AS= Q
T
cuja unidade no SI é o joule por Kelvin (J/K).

CAPÍTULO 6 • TERMODINÂMICA 103


O caráter probabilístico da entropia

llfff i
A preferência da natureza por estados mais desorganizados é, na
verdade, uma questão de probabilidade e estatística. Vamos mostrar
isso reduzindo um sistema de muitas partículas a uma caixa conten-
f~lljl:l l j:~j:flll?IllJ~ l~l ~f)[l l l~~l[ll~l~
!: j:!: i: i:i: j: i:i:~: ~: i: j: ~
:~:~: !: !:!: !:!:~:~: !:!:!: !:!~: !:~: !:~:!:!: !:!:\:
do n partículas idênticas, como em um gás ideal.
Suponhamos uma divisão imaginária da caixa em duas partes i:~:·.i:·...~: ~:·.·.·
.·-:~=.... i: !: !:!:~:~:~:
~:i:...i:!·.:~:·~...: ·.·!:~:...~:·.·!.....:i:~! ...~ ·.·.·.·.!=·.·.i:~:·.~:·~
...:i:·.i:·.·~:...~:~:·.~:·.·.~:~:·.·.~:~
:- :-:.:•:-:-:-:.:. :•:. :-:.:-:•:•:-:-:..:-:. :-:•:-:.: •:-:•:•:-: .:•:-:-:•:•:• :•:•
· .("

iguais, tal que haja e moléculas do lado esquerdo e d moléculas do ..


·.....
•· ····•···•···
·:-:-:. •.· .•.·.·..•...·•·•·····
·:•:....:-:-:-:-:-: ·.· ...·····•·...·...,··....·..,.. ·•···•·····•·······
·-·.·.·.·.·.·.·.·....... .·. ·,·,··...,·.··...•·.··.·..·.··.·
•:-:. :-: •: •:•:•:-:. >-:-:.:.:•:-:.:•:·:-:.:. :-: ·: •:•:-:•:. :-:
lado direito, de modo que e+ d= n.
De quantos modos essas moléculas podem estar distribuídas na
caixa?
Embora cada molécula se desloque de acordo
Uma caixa contendo uma única molécula pode ter duas únicas com as leis da Mecãnica, a movimentação
configurações: ela está do lado direito ou do esquerdo e a chance de um grande número de moléculas é
(probabilidade) de encontrá-la em qualquer um deles é a mesma: aparentemente caótica, porque parece ocorrer
ao acaso e de maneira independente. Na
50%. Se houver duas moléculas na caixa, haverá quatro disposições verdade, o movimento de cada uma pode ser
ou configurações possíveis: descrito pelas leis de Newton.
Esse é um momento em que se pode trabalhar colaborativamente com o curso
• as 2 moléculas estão do lado direito; de Matemática. Os dados da tabela são combinações. um tipo de agrupamento
• as 2 moléculas estão do lado esquerdo; estudado em Análise Combinatória.

• uma delas está do lado direito e a outra do outro lado e vice-versa.


Perceba que há uma probalidade maior de se encontrar uma molécula de cada lado, porque há duas maneiras de
essa configuração ocorrer.
Estendendo esse raciocínio para n moléculas, teríamos 2" configurações possíveis para a caixa, porque cada
uma delas pode assumir duas posições possíveis, independentemente das demais. Nessa situação, qual seria a
probabilidade de se encontrarem todas as moléculas de um lado só? A resposta é de uma em 2", que vai ficando
cada vez menor à medida que n aumenta (0,5 para n = 1, 0,25 para n = 2, O, 125 para n = 3 etc.). Para uma cai-
xa com 6 partículas, há 26 = 64 configurações, distribuídas da forma mostrada no quadro a seguir:
Há apenas uma maneira de todas as moléculas es-
Número de configurações
tarem do lado esquerdo; há seis configurações em que e d
nessas condições
uma das moléculas está do lado direito, podendo ser
qualquer uma das seis e as demais do lado esquerdo, e
6 o 1
assim por diante. 5 1 6
Qual é a condição mais provável nessa caixa? É 4 2 15
aquela com o maior número de possibilidades, que 3 3 20
ocorre para e= d= 3. Assim, é de se esperar que, para 2 4 15
valores maiores que n, encontremos o mesmo número
1 5 6
de partículas de ambos os lados da caixa, ou muito
próximos de n/2.
o 6 1
Se todas as moléculas dessa caixa forem colocadas em um dos lados, ao se retirar a divisória, o sistema evo-
luirá de tal modo que logo todo o espaço da caixa estará ocupado, isto é, apresentará a configuração mais pro-
vável, em que e = d = n/2. Isso explica o fato de as colisões se darem de modo a distribuir mais ou menos uni-
formemente as energias entre todas as moléculas da caixa. Macroscopicamente, vemos que o fluxo de calor se dá
da região mais quente para a mais fria.
Agora, precisamos encontrar uma grandeza que esteja relacionada a essa disponibilidade de estados. A entro-
pia é uma grandeza mais ligada à Probabilidade do que à Mecânica, e que estabelece a ligação entre o número de
estados prováveis de um sistema e sua tendência espontânea de evolução: de todas as possíveis configurações fi-
nais de um sistema, a mais provável é a que corresponder ao maior número de configurações correspondentes à
mesma quantidade de energia.
A análise estatística dos estados desse sistema simples nos permite fazer outra interpretação da irreversibili-
dade dos processos: partindo de uma situação particular, o sistema evoluirá preferencialmente para o estado que
exibe o maior número de configurações. A priori, nada impede que ele chegue a uma situação particular como
"todas as moléculas de um lado da caixa": em um tempo suficientemente longo, qualquer configuração do sistema
pode ser alcançada.

104 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA


No processo termodinâmico citado no início, podemos determinar a variação da
entropia de cada uma das duas esferas colocadas no calorímetro, supondo que
a esfera de temperatura maior (T1 = 127 ºC = 400 K) tenha cedido 200 J de calor
(Q = -200 J), e, portanto, a esfera de temperatura menor (T2 = 27 ºC = 300 K) tenha
recebido a mesma quantidade (Q = +200 J), até ambas atingirem o equilíbrio térmico
à temperatura de 77 ºC = 350 K. Portanto:
• esfera mais quente: LiS = ~ = -Jgg • LiS = -0,5 J/K (variação negativa, menor
desordem); 1

• esfera mais fria: LiS = ~ = ~~~ • LiS = 0,67 J/K (variação positiva, maior desordem).
2

Comparando-se os dois resultados, podemos verificar que a esfera mais quente


diminuiu sua entropia, pois sua temperatura (que é a medida do grau de agitação
das moléculas) diminuiu de 127 ºC para 77 ºC.
Por outro lado, a esfera mais fria aumentou sua entropia, pois a medida do
grau de agitação das moléculas aumentou de 27 ºC para 77 ºC. Analisando ava-
riação de entropia das esferas, vemos que a entropia do sistema aumentou, como
era de se esperar.

Máquinas térmicas
Se uma máquina térmica não converte totalmente o calor recebido
em trabalho, para onde vai, a cada ciclo, a parte do calor que não realiza
trabalho?
Uma boa maneira de compreender a dinâmica das quantidades de ener-
gia é imaginar uma máquina térmica como um dispositivo que opera entre
dois reservatórios, um com temperatura alta e outro com temperatura mais
baixa. O reservatório "frio" é o local para onde vai a parte de calor não
convertida em trabalho. A "maria-fumaça", uma antiga locomotiva a vapor,
converte o calor do vapor-d'água (reservatório "quente") em trabalho e o
calor não utilizado é lançado para o ar atmosférico (reservatório "frio").
A locomotiva foi o primeiro No caso mais geral, qualquer máquina térmica (desde o motor de combustão in-
símbolo da Revolução Industrial.
A maria-fumaça, nome dado terna dos automóveis até o ciclo de vida de uma planta) faz o papel de converter
à locomotiva a vapor, tem calor em trabalho, operando em ciclos contínuos, em que a cada um deles o disposi-
hoje exploração turística,
tivo retira calor da fonte quente O,, utiliza parte para realizar o trabalho 't e o resto
como mostra a fotografia, em
Tiradentes (MG), de 2015. do calor 0 2 não utilizado (calor dissipado) é enviado para a fonte fria.
A figura ao lado mostra o esquema de uma máquina térmica, em que vale a relação:
o-----
:.ã
::,
Q, ='t + 02 ou 't =Q, - 02
"'o
"O O trabalho fornecido é igual à diferença entre a quantidade total de calor retirada
e:
"'e: da fonte quente e a parcela dissipada para a fonte fria.
~
3
N
Se tivermos uma máquina térmica que retira Q1 = 100 J da fonte quente e dissipa
Q2 = 20 J em forma de calor para a fonte fria, o trabalho útil fornecido pela máqui-
na será: 't = Q2 - Q1 = 100 - 20 • 't = 80 J.

Rendimento da máquina térmica


fonte fria Qualquer rendimento é sempre representado pelo quociente entre a quantidade
De modo geral, uma máquina útil da grandeza e a quantidade total, e com o das máquinas térmicas não é diferente.
térmica transforma energia A quantidade útil está relacionada com o trabalho realizado, e a quantidade total é
recebida (de uma fonte
"quente") em trabalho, sempre
aquela retirada da fonte quente; portanto: l\ = _!_
com alguma perda de energia
(em forma de calor transferido
Q,
para a fonte "fria").
Assim, o rendimento da máquina do exemplo anterior serial\=~,= 180 0 = 80%. °
CAPÍTULO 6 • TERMODINÂMICA 105
Potência de uma máquina térmica
Por definição, potência é a relação entre o trabalho realizado e o intervalo de

tempo gasto para realizá-lo, ou seja: P = _!_.


Lit
o
fonte quente :.e::,
Para a máquina térmica, calcula-se o rendimento por ciclo. No mesmo exemplo,
""o
caso a duração do ciclo fosse de 0,5 s, teríamos: ""O
e:
"'e:
~
P =_!_ = 80 J • P = 160 W 3
N

Lit 0,5 s máquina,


Refrigerador frigorffica

O refrigerador é um dispositivo que converte trabalho em calor. Em cada ciclo,


transfere o calor retirado 0 2 de uma fonte fria, enviando-o para uma fonte quente O,. ---------f Q 1
Já que esse funcionamento não é espontâneo, os ciclos devem realizar-se à custa de fonte fria
um trabalho externo 't. Vale a relação: Q, = 't + Or
O refrigerador funciona com
No que concerne às máquinas frigoríficas, é mais adequado falarmos na sua a transferência de calor da
eficiência e (em vez de rendimento), definido como o quociente entre o calor retira- fonte fria, que é o congelador,
do 0 2 da fonte fria e o trabalho 't realizado para isso. para a fonte quente, que é
o ar atmosférico. Já que o
processo não é espontãneo, o
Q2
e=-::r trabalho externo é realizado pelo
compressor (motor).

Exercícios resolvidos
••••
ER13. Certa máquina térmica absorve, por segundo, Assim, a área A= B · h = 0,2 · 1 · 105 = 2 • 104 •
1,6 · 105 J de calor de uma fonte quente toda vez que Portanto: 't = 2 • 104 J
completa o ciclo descrito no diagrama. b) A quantidade de calor Q 2 rejeitada para a fonte
p (105 N/m 2) fria sai de: Q 1 = 't + Q 2 ou Q 2 = Q 1 - 't •
3
2 :::::]1
1
1
l
1
1
1
• Q 2 = 1,6 • 105- 2 • 104 • Q 2 = 1,4 · 105J
c) O rendimento percentual é dado por:
1'1% = ....l.. • 100 = 0, 2 • l0 5 • 100 • 1'1% = 12 5%
1 1
1 1

'1 Ql 1,6•105 '1 ,


o O, 1 0,3 V (m 3)
Determine: Então P = ....l.. = 2 • 104 • P = 2 · 104 W
' LiT 1 .
a) o trabalho realizado pela máquina em um ciclo;
b) a quantidade de calor rejeitada (ou que não pôde ser ER14. Uma máquina frigorífica retira de uma fonte fria
aproveitada), para a fonte fria;
180 J de calor por ciclo, realizando um trabalho de 50 J.
c) o rendimento percentual e a potência da máquina.
Calcule:
Resolução: a) a quantidade de calor enviada à fonte quente;
Do enunciado, temos: Llt = 1,0 s; Q 1 = 1,6 • 105J. b) a eficiência dessa máquina.
a) O trabalho realizado por ciclo é numericamente
igual à área A da figura marcada (retângulo), onde Resolução:
as medidas são: Nessa máquina frigorífica, a quantidade de calor reti-
B = (0,3 - 0,1) = 0,2 eh= (3 - 2) · 105 = 1 · 105. rada da fonte fria é Q 2 = 180 J e 't = 50 J.
p (10 5 N/m 2) a) Sendo Q 1 = 't + Q 2 , temos: Q 1 = 50 + 180 •
• Q 1 =230J
b) A eficiência da máquina frigorífica é expressa de
B
forma adimensional (sem unidade de medida):
Q2 180
e = - = - • e=3,6
o O, 1 't 50

••••
0,3 V (m 3)

106 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA


••••
A FfSICA NO COTIDIANO

Motor de explosão de veículos válvula de válvula


auto motivos / de
escape
O motor de explosão ou motor de combustão interna é uma das
mais importantes aplicações da conversão de energia térmica em
energia mecânica. Movidos a partir do trabalho realizado pelo gás
(combustível), esses motores são largamente utilizados para a movi-
mentação de carros, ônibus, caminhões etc.
Nos motores a álcool ou a gasolina, a queima do combustível
inicia-se em um recipiente denominado câmara de combustão. Na
parte superior dessa câmara existem duas válvulas - uma de ad-
missão de combustível e outra de escape do gás resultante da quei-
ma - e uma vela de ignição. Quando o pistão é acionado para
cima e para baixo dentro do cilindro, o virabrequim (que é o eixo
das manivelas) gira e, por meio de um sistema de transmissão, faz
com que esse movimento giratório seja transferido às rodas, fazen-
do o carro se deslocar. Esse tipo de motor é chamado de motor de Figura esquemática de um motor de
quatro tempos porque o processo todo ocorre em quatro etapas. explosão de veículos automotivos.

gases
da

Figura 1 Figura 2 Figura 3 Figura 4


admissão compressão explosão exaustão

1. Na primeira etapa, a mistura "ar+ combustível" é pulverizada (fragmentada em partículas muito pequenas)
na câmara de combustão por meio da válvula de admissão, enquanto o cilindro é puxado para baixo pelo
virabrequim (figura 1).
2. Na segunda etapa, a válvula de admissão é fechada e, quando o pistão está quase chegando ao topo e pres-
tes a iniciar a compressão da mistura gasosa, a vela é acionada, produzindo uma faísca (figura 2).
3. Com a faísca liberada pela vela, a mistura gasosa inflama-se e, ao expandir-se, move o pistão para baixo, fazen-
do o virabrequim girar (figura 3).
4. Na quarta etapa, enquanto se abre a válvula de escape, o gás é expelido pelo pistão que está subindo (figura 4).
Hoje em dia, os motores possuem controles eletrônicos (injeção eletrônica) que regulam a quantidade da
mistura gasosa utilizada e, dessa forma, proporcionam melhores rendimentos.
Para maximizar o resultado, os motores dos automóveis possuem vários desses cilindros. Por exemplo: em um
motor de quatro cilindros, enquanto o primeiro está admitindo o gás, o segundo já cuida da compressão, o
terceiro está na fase da queima e o quarto expele o gás.

Ciclo de Carnot
Já sabemos que ocorre uma transformação cíclica quando uma massa de gás co-
meça uma série de transformações após as quais retorna ao mesmo estado inicial de
pressão, volume e temperatura. Nesses termos, podemos imaginar o funcionamento
de qualquer máquina térmica como uma combinação de ciclos termodinâmicos,
cada um com determinado rendimento.

CAPÍTULO 6 • TERMODINÂMICA 107


Coube a Sadi Carnot estabelecer as condições em que uma má-
p
quina térmica realiza um ciclo de rendimento teórico máximo. Inde-
pendentemente de qual seja a substância gasosa, esse rendimento
ocorre em uma sequência de quatro processos termodinâmicos re-
versíveis: dois isotérmicos e dois adiabáticos, conforme ilustra o
diagrama ao lado.
isoterma T 1
• 12 processo (início do ciclo): expansão isotérmica AB - a máqui-
na adquire uma quantidade de calor O, do reservatório quente,
sob a temperatura T,; - e-- isoterma T 2

• 2 2 processo: expansão adiabática BC - ocorre sem troca de calor


V
(O = O), mas com diminuição de temperatura de T, para T2 • O ciclo de Carnot é o conjunto de quatro processos
• 32 processo: compressão isotérmica CD - a máquina descarta termodinilmicos cujo rendimento teórico é máximo.
uma quantidade de calor 0 2 para o reservatório frio, de tempera- Dispositivos que funcionam segundo o ciclo de
Carnot recebem o nome de máquinas de Carnot.
tura T2 (menor que T1).
• 42 processo (finalização do ciclo): compressão adiabática DA- ocorre sem troca de
calor (O= O), mas com aumento de temperatura de T2 para T,.
O trabalho útil 't realizado pela máquina de Carnot, nesse ciclo, corresponde
à área A.
Pode-se demonstrar que, no ciclo de Carnot, a quantidade de calor O, retirada
do reservatório quente e a parcela descartada para o reservatório frio 0 2 são propor-
cionais, respectivamente, às suas temperaturas absolutas, ou seja:

0, 02 0, T1
-=-OU-=-
T1 T2 02 T2
Como o rendimento de uma máquina térmica é dado por:
_ 't _ . _ 0, - 02 _ 02 _ T2
11 - -0 , em que 't - O, - 0 2, temos. 11 - O - 1 - Q • 11 - 1 - -=r-
1 1 1 1

Podemos notar nessa expressão que a máquina que obedece ao ciclo de Carnot,
além de fornecer o rendimento máximo, depende exclusivamente das temperaturas
absolutas dos reservatórios quente e frio.
Observe também a impossibilidade de se construir uma máquina térmica que
obedeça ao ciclo de Carnot com um rendimento de 100% (11 = 1), pois nesse caso
hipotético deveríamos ter O, = 't (o calor converter-se integralmente em trabalho),
o que contraria a Segunda Lei da Termodinâmica.
Por outro lado, para se obter o rendimento de 100%, a temperatura T, da fonte fria
deveria ser de O K, o que é impossível de se alcançar em um número finito de ciclos.
Esta, aliás, é a formulação da Terceira Lei da Termodinâmica:

É impossível reduzir a temperatura de qualquer sistema ao zero absoluto por


um número finito de operações.

• • Exercícios resolvidos
••
ER15. Uma máquina térmica de Carnot retira de uma e) a quantidade de calor rejeitada para a fonte fria;
fonte quente 2 000 J de calor, por ciclo. Supondo que a d) a potência útil gerada, supondo-se que sejam gastos
relação das temperaturas absolutas entre a fonte quente 5 s para completar 12 ciclos.
" 'ed e 5 , d
e a fna t.
e ermme:
4 Resolução:
a) o rendimento máximo; Dados: Q
i
= 2000 Je -TT21 = -·
5
4
b) o trabalho útil fornecido;

108 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA


a) O rendimento máximo da máquina de Camot é energia dos hidrocarbonetos

função exclusiva das temperaturas absolutas das não ~~~~=~i:d:ne~ct;~~mica 1~~ed


transferida ao ar ambiente ven 1 ªd or,
fontes quente e fria, sendo: 56 8 kW g~ra 9r,
' direçao energia
T2 T 5 bomba hidráulica térmica
11 = 1 - -=r· Como -f = 4, concluímos que 3kW
1 2
T2 4
-=r=s=o,8.
1

Portanto, 11 = 1 - 0,8 • 11 = 0,2 ou 20% 14,2 kW 12 kW


motor de transmissão e
combustão engrenagens
b) Por meio da expressão geral do rendimento, pode-
mos determinar o trabalho: Quais devem ser os rendimentos:
't' 't' a) no motor de combustão?
l) = Ql • 0,2 = 2 OOO • 't' = 400 J b) no funcionamento das engrenagens?
e) da máquina, como um todo?
c) Sabemos que 't' = Q 1 - Q 2, em que Q 2 é a quan-
tidade de calor dissipada para a fonte fria. Logo, Resolução:
podemos afirmar que Q 1 = 't' + Qr Para os três itens, usaremos a definição de trabalho e
de rendimento:
Assim, 2000 = 400 + Q 2 • Q 2 = 1600 J
't' = Q 1 - Q 2, onde Q 1 é o calor fornecido pela fonte
d) Para cada At = 5 s, a máquina efetua 12 ciclos e sa-
e Q 2 é o calor dissipado. Então, 11 = __!___
bemos que a cada ciclo o trabalho fornecido é 400 J. Ql
Portanto, para calcular a potência útil, devemos a) 't' = 71 - 56,8 • 't' = 14,2 kW, assim:
aplicar sua definição, em que o trabalho total for- 11 - 14 2
71• - O,2 , ou seia,
. 20°/70

necido nos 5 segundos é: 't' = 12 · 400 J= 4 800 J. b) 't' = 12 - 3 • 't' = 9 kW, assim:
P=__!__= 43oo • P=960W 11 = ; 2 = 0,75, ou seja, 75%
AT 5
c) 't' = 72 - (1 + 56,8 + 2,2 + 3) • 't' = 72 - 63 = 9,
ER16. O funcionamento de um veículo pode ser com- assim:
preendido como um conjunto de máquinas térmicas
trabalhando em série.
11 = i 2 = 0,125, ou seja, 12,5%

••••

A Termodinâmica é muito mais abrangente do que poderíamos imaginar: seus princípios regem o funcio-
namento de sistemas que parecem muito afastados da Física. Leia o texto do professor Adilson de Oliveira,
do Departamento de Física da Universidade Federal de São Carlos, sobre entropia.

O caos e a ordem que benefícios. Seus habitantes sabem como são


A vida em grandes metrópoles - como São Pau- complicados o trânsito, a segurança pública, a polui-
lo, Tóquio, Nova York e Paris - apresenta uma série ção, os problemas ambientais, a habitação etc. Sem
de vantagens que tornam essas cidades especiais. dúvida, são desafios que exigem muito esforço não
Nelas encontramos muitos dos atributos que consi- só dos governantes, mas também de todas as pessoas
deramos sinônimos de progresso, como facilidades que vivem nesses lugares. Essas cidades convivem ao
de acesso aos bens de consumo, oportunidades de mesmo tempo com a ordem e o caos, com a pobreza
trabalho, lazer, serviços, educação, saúde etc. e a riqueza, com a beleza e a feiura.
Por outro lado, em algumas delas, devido à gran- A tendência das coisas a se desordenarem espon-
diosidade dessas cidades e aos milhões de cidadãos taneamente é uma característica fundamental da na-
que ali moram, existem muito mais problemas do tureza. Para que ocorra a organização, é necessária

CAPÍTULO 6 • TERMODINÂMICA 109


alguma ação que restabeleça a ordem. É o que acon- sentam, então, uma entropia maior do que a das
tece nas grandes cidades: despoluir um rio, melhorar cartas organizadas.
a condição de vida dos seus habitantes e diminuir a A tendência do aumento da entropia está re-
violência, por exemplo, são tarefas que exigem mui- lacionada com uma das mais importantes leis da
to trabalho e não acontecem espontaneamente. Se física: a segunda lei da termodinâmica. Essa lei
não houver qualquer ação nesse sentido, a tendência mostra que, toda vez que realizamos algum traba-
é que prevaleça a desorganização. lho, parte da energia empregada é perdida para o
Em nosso cotidiano percebemos que é mais fá- ambiente, ou seja, não se transforma em trabalho
cil deixarmos as coisas desorganizadas do que em útil. Ao organizarmos as cartas, gastamos energia
ordem. Quando espalhamos objetos pela casa, te- e, consequentemente, liberamos algum calor para
mos muito trabalho para colocarmos as coisas em o meio ambiente. A energia liberada ajudará a de-
ordem. Organizar é sempre mais difícil que bagun- sorganizar as moléculas de ar ao nosso redor, au-
çar. A ordem tem seu preço. mentando a entropia ao nosso redor. Dessa forma,
para diminuir a entropia de um determinado lugar
é necessário aumentar a entropia em outro.
Embate constante
A manutenção da vida é um embate constante
contra a entropia. A luta contra a desorganiza-
ção é travada a cada momento por nós. Desde o
momento da nossa concepção, a partir da fecun-
dação do óvulo pelo espermatozoide, nosso orga-
nismo vai se desenvolvendo e ficando mais com-
Todos os anos, milhões de novos veículos são comprados
plexo. Partimos de uma única célula e chegamos à
em todo o mundo. Se não for feita, pelos governos e pela fase adulta com trilhões delas, especializadas para
sociedade, uma clara opção pelo transporte público, o determinadas funções. A vida é, de fato, um even-
caos no trãnsito das grandes e médias cidades só tende a
to muito especial e, até o momento, sabemos que
aumentar. Fotografia da Rua Vergueiro, São Paulo. Junho
de 2015. ela ocorreu em um único lugar do universo - o
nosso planeta.
Entropia Entretanto, com o passar do tempo, nosso or-
A existência da ordem/desordem está rela- ganismo não consegue mais vencer essa batalha.
cionada com uma característica fundamental da Começamos a sentir os efeitos do tempo e enve-
natureza que denominamos entropia. A entropia lhecer. Nosso corpo já não consegue manter a pele
está relacionada com a quantidade de informação com a mesma elasticidade, os cabelos caem e nos-
necessária para caracterizar um sistema. Dessa sos órgãos não funcionam mais adequadamente.
forma, quanto maior a entropia, mais informações Em um determinado momento, ocorre uma falha
são necessárias para descrevermos um sistema. fatal e morremos.
Para facilitar a compreensão desse conceito, Como a manutenção da vida é uma luta pela
podemos fazer uma analogia com algo bastante organização, quando esta cessa, imediatamente
comum: cartas de baralho. Se inicialmente tiver- o corpo começa a se deteriorar e rapidamente
mos o baralho com as cartas organizadas de acor- perde todas as características que levaram mui-
do com a sua sequência e naipes, o nosso sistema tos anos para se estabelecer. As informações acu-
(baralho) contém um certo grau de informação. muladas ao longo de anos, registradas em nosso
Rapidamente descobrimos qual é a regra que está cérebro a partir de configurações específicas dos
organizando as cartas. neurônios, serão perdidas e não poderão ser no-
Por outro lado, quando embaralhamos as car- vamente recuperadas com a completa deteriora-
tas, bastam apenas alguns movimentos para que ção do nosso cérebro.
a sequência inicial seja desfeita, ou seja, as cartas A entropia nos mostra que a ordem que encon-
ficam mais desorganizadas. Para recolocá-las na tramos na natureza é fruto da ação de forças fun-
ordem inicial, necessitaremos de muito mais in- damentais que, ao interagirem com a matéria, per-
formações a respeito da posição da carta (teremos mitem que esta se organize. Desde a formação do
que descobrir onde está o 5 de copas para colocá-lo nosso planeta, há cerca de cinco bilhões de anos, a
após o 4 de copas). As cartas embaralhadas apre- vida somente conseguiu se desenvolver às custas

110 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA


de transformar a energia recebida pelo Sol em uma O universo também não resistirá ao embate
forma útil, ou seja, capaz de manter a organização. contra o aumento da entropia. Em uma escala ini-
Para tal, pagamos um preço alto: grande parte maginável de tempo de 10100 anos (10 seguido de
dessa energia é perdida, principalmente na forma 100 zeros!), se o universo continuar a sua expan-
de calor. Dessa forma, para que existamos, paga- são, que já dura aproximadamente 15 bilhões de
mos o preço de aumentar a desorganização do anos, tudo o que conhecemos estará absolutamen-
nosso planeta. Quando o Sol não puder mais for- te disperso. A entropia finalmente vencerá. Mas essa
necer essa energia, dentro de mais cinco bilhões história fica para um outro dia.
de anos, não existirá mais vida na Terra. Com cer-
Ciência Hoje Online. Disponível em: <http:/ /cienciahoje.
teza a espécie humana já terá sido extinta muito uol.com.br/colunasfisica-sem-misterio/o-caos-e-a-ordem>.
antes disso. Acesso em: 26 out. 2015.

Organizando as ideias do texto


1. Estima-se em mais de 600 milhões o número de veículos de passageiros no mundo. Que tipo de impactos,
além dos ambientais, traz um aumento de 8% desse valor, medido em 2009?
2. Cite fatos e argumentos que mostrem que esse aumento implica aumento de entropia.
3. Se os carros fossem substituídos por bicicletas, teríamos uma diminuição de entropia?
Professor, veja Orientações Didáticas.

• • Exercícios propostos
••
EP1. Num experimento realizado em laboratório com EP3. Dentro de um recipiente cilíndrico de capacidade
um gás monoatômico, 4 mol desse gás foram resfriados variável, encontra-se 0,5 molde um gás ideal monoatô-
de 87 ºC para 7 ºC. É considerado que o comporta- mico, inicialmente ocupando um volume de 4 L à tem-
mento desse gás se aproxima do ideal. peratura de 27 ºC.
Sendo dado o valor da constante universal dos gases Ao sofrer um processo termodinâmico sob pressão
perfeitos R = 8,31 J/mol - K, responda: constante, seu volume final passa a ser de 1O L. Consi-
a) o que acontece com o volume do gás nessa trans- dere R = 8,3 J/mol • K e 1 L = 10-3 m 3 .
formação, se a variação de volume do recipiente
a) Qual é a temperatura final do gás? 477 ºC
que o contém for desprezível? Mantém-se constante.
b) qual é a variação da energia interna sofrida pelo gás? b) Qual foi a variação da energia interna do gás no
-3988,8J processo? LlU = 2,8 • 103 J
EP2. Uma transformação de 4 mol de gás ideal mono-
e) Qual é o valor da pressão constante no processo?
atômico consiste na expansão do estado A para o B no p = 3,11 • 105 N/m2
processo termodinâmico indicado no diagrama. d) Qual é o trabalho realizado no processo?
't' = 1,87 • 103 J
Sabe-se que a isoterma que passa no ponto A corres- e) No caderno, trace o diagrama p x V do processo.
ponde à temperatura 300 K. Sendo R = 8,3 J/mol • K, Ver resposta nas Orientações Didáticas.

determine: EP4. No diagrama p x V estão representadas duas


p (104 N/m 2)
transformações consecutivas sofridas por um gás
B
10 ---- A~ perfeito.
p (N/m 2)
6 ------. :
1
1
1
1
1
1 200
e
1 1
1 1

O 30 90 V (10-3 m3)
100 A
a) a temperatura do gás no estado B; 1500 K
b) o trabalho realizado no processo AB; 4,8 · 103 J
e) a variação da energia interna sofrida pelo gás na o 0,2 0,5 V (m3)
expansão AB. LlU = 5,98 • 10• J

CAPÍTULO 6 • TERMODINÂMICA 111


a) Que processos termodinâmicos ocorrem nas trans- Considere R = 8,3 J/mol • K o valor da constante
formações de A para B e de B para C? universal dos gases perfeitos.
AB: expansão isobárica; BC: expansão com aumento de pressão.
b) Calcule o trabalho mecânico realizado pelo gás du- a) Que tipo de transformação representa o processo
rante o processo de A até e 65 J AB? Transfomação isocórica.
b) Qual era o valor da pressão no estado A? 1,2 • 105 N/m 2
EPS. Certa massa gasosa perdeu 60 J de calor para o
meio externo ao receber um trabalho de 1O J. Que va- c) Qual foi a variação da energia interna no processo?
996J
riação da energia interna sofreu o gás? - 50 J d) Que quantidade de calor foi trocada na transfor-
mação? 996 J
EP6. Um sistema que contém uma quantidade correspon-
dente a 3 mol de gás perfeito monoatômico sofre uma EP10. Para resfriar um líquido quente, podemos mo-
expansão do estado inicial de pressão 5,4 • 1os N/m2 e vo- ver o ar próximo à sua superfície; desse modo, esta-
lume 16,6 L para o estado final de pressão 1,8 • 1os N/m 2 mos retirando a camada quente de ar sobre o líquido
e volume 33,2 L. e substituindo-a por outra mais fria, facilitando as tro-
Sendo 1 L = 10-3 m 3 e considerando R = 8,3 J/mol • K, cas de calor.
determine: Uma forma de se conseguir isso é assoprando o ar so-
. . . I f. Id T = 360 K
a ) as temperaturas 1n1c1a e ma o gás; T' f
= 240 K bre o líquido quente, fazendo um bico com os lábios;
assim conseguimos uma corrente de ar mais fria que
b) o trabalho realizado pelo gás na expansão; 5976 J
resfria o líquido. Mas de que maneira isso é possível se
c) a variação da energia interna sofrida pelo gás no
o ar que sai de nossos pulmões está em torno de
processo; -4482 J 36 5 ºC 7 Soprando rapidamente o ar dos P.Ulmões,
, · realizamos uma expansão adiabática; desse modo, a
d) a quantidade de calor trocada pelo sistema com o energia necessária para o trabalho de expansão é fornecida pela
própria energia interna do ar, e por esse motivo ele esfria.
meio exterior. 1494 J EP11. Um recipiente contém 2 mol de gás perfeito mo-
EP7. (UFPE) Um mol de um gás ideal, inicialmente à noatômico, inicialmente ocupando um volume de 5 L,
temperatura de 300 K, é submetido ao processo ter- na pressão de 5 • 104 N/m 2 .
modinâmico A • B • C mostrado no diagrama Quando são fornecidos ao sistema 2,4 • 103 J de ener-
V versus T. Determine o trabalho realizado pelo gás, gia, sob pressão constante, o volume ocupado pelo gás
em calorias. Considere R = 2,0 cal/mol • K. passa a ser de 1O L, na temperatura de 480 K. Use
a) 1200 cal x v (m 3) R = 8,3 J/mol • K e 1 L = 10-3 m 3 . Determine:
b) 1300 cal o, 3 a) a temperatura do gás na situação inicial; 240 K
c) 1400 cal ' ' 'r - - - -
- - - - -1- - - - - ---- - -1 b) o calor molar sob pressão constante desse gás;
1 1 1 1

d) 1500 cal A: ----,-----,-----:


: :
1

:
1 1 1
5 J/mpl • .K
0,1 ----- c) o traoalho executado pelo gás; 2,5 · 102 J
e) 1600 cal
'' d) a variação da energia interna do gás. 2150 J
'
O 300 600 900 1200 T (K)
EP8. Certa massa gasosa sofre uma transformação iso- EP12. Em um processo adiabático foi realizado um tra-
córica, cedendo 850 J de calor para o meio exterior. balho de 750 J sobre certa massa de gás perfeito.
a) O que acontece com a pressão e a temperatura no a) Que quantidade de calor foi trocada no processo?
0=0
Processo 7· Se o sistema pe:d~ calor, a pressão e
a temperatura d1m1nuem. b) Qual foi a variação da energia interna do gás?
A temperatura do gás aumentou ou diminuiu?
b) Qual é a variação da energia interna do gás? -850 J
Justifique.
+750 J. A temperatura aumentou, pois AU > O.
EP9. O diagrama mostra a transformação AB ocorrida
EP13. Um gás ideal contido em um recipiente de volume
com 0,4 mol de gás ideal monoatômico.
variável, sob pressão

- -77
p (10 5 N/m 2 ) de 200 N/m2 , sofre
B

2---A ;;71 B uma transformação


isobárica AB, confor-
me mostra o diagra-
v. --
0,5 ----:-Y
A
i
PA ----~~ ,, 1
:
1 ,,'
_,,,, 1
1
1
1
,,' 1 1 ma VxT.
o 300 500
o 160 400 T (K)
T (K)

112 UNIDADE 1 • TERMOLOGIA


Sabendo-se que o sistema recebeu 500 J de energia, EP18. Certo motor de combustão interna, ao queimar
calcule: uma quantidade de combustível, produz 500 J de ca-
a) o volume ocupado pelo gás no estado B; lor para realizar um trabalho de 50 J.
1,25 m3
b) o trabalho realizado na transformação; Sabendo-se que esse motor, que obedece ao ciclo de
150 J
Carnot, funciona à temperatura ambiente de 27 ºC e
c) a variação da energia interna no processo. 350 J
supondo que não haja perdas mecânicas, determine a
EP14. No interior de um recipiente adiabático de volu- quantos graus Celsius se eleva a temperatura durante
me variável, estão confinados 3 mol de um gás ideal a combustão interna. A aproximadamente 60,3 ºC.
cujo calor molar sob pressão constante é de 20 J/mol • K,
EP19. (Enem-MEC) O diagrama mostra a utilização
considerando-se o valor da constante universal dos gases
das diferentes fontes de energia no cenário mundial.
perfeitos R = 8 J/mol • K. Sabendo-se que a temperatura
Embora aproximadamente um terço de toda a ener-
do gás diminuiu 180 K, calcule: gia primária seja orientada à produção de eletricida-
a) o calor molar do gás a volume constante e o valor de, apenas 10% do total são obtidos em forma de
do expoente de Poisson; cv = 12 J/mol · K e y = ¾ energia elétrica útil.
-~------~-----------~
b) a variação da energia interna sofrida pelo gás; f--
-6480J 1
c) o trabalho realizado no processo adiabático. 6480 J l1J
90%
·;::
"O
E 80%
EP15. Certa quantidade de gás perfeito sofre o proces- ·;::
Q_

so termodinâmico cíclico representado no dia-grama. l1J


"6,
70%
<i:i
p (N/m 2) e:
(LI
60%

:~: :•
50%

40%

1 30%
calor perdido
energia
20% na produção
para produção
O 0,1 0,5 V (m3)
de eletricidade 10%
a) Determine o trabalho realizado pela força que o energia elétrica útil
1

gás exerce nas paredes do recipiente, ao completar


um ciclo. 6 J A pouca eficiência do processo de produção de eletrici-
b) Qual é a quantidade de calor trocada no processo? dade deve-se, sobretudo, ao fato de as usinas
Houve conversão de calor em trabalho ou o contrá- a) nucleares utilizarem processos de aquecimento, nos
rio? Explique. 6 J. Co~o o trabalho é positivo, houve
conversao de calor em trabalho. quais as temperaturas atingem milhões de graus
Celsius, favorecendo perdas por fissão nuclear.
EP16. Sabe-se que uma máquina térmica tem rendi-
mento de 20%. Se ela recebe 2 • 104 J de calor da fonte b) termelétricas utilizarem processos de aquecimento a
quente, determine: baixas temperaturas, apenas da ordem de centenas
a) o trabalho realizado; de graus Celsius, o que impede a queima total dos
4. 103 J
b) a quantidade de calor enviada para a fonte fria. combustíveis fósseis.
1,6 · 104 J
c) hidrelétricas terem o aproveitamento energético baixo,
EP17. Uma máquina como esta poderia existir? Justifique
sua resposta. uma vez que parte da água em queda não atinge as
fonte quente, 600 K pás das turbinas que acionam os geradores elétricos.

refrigerador l ~ 00 J d) nucleares e termelétricas utilizarem processos de


transformação de calor em trabalho útil, no qual as
Não: o refrigerador
faz a troca de calor no ~ OJ perdas de calor são sempre bastante elevadas. x
sentido contrário, ou
seja, da fonte fria para
a fonte quente.
1 e) termelétricas e hidrelétricas serem capazes de utili-
zar diretamente o calor obtido do combustível para
fonte fria, 300 K aquecer a água, sem perda para o meio .

CAPÍTULO 6 • TERMODINÂMICA
••••
113
LU
o
<(
o
z
::::)

Óptica é o ramo da Física dedicado ao estudo da luz e de suas propriedades


nos meios em que se propaga.
Desde a Antiguidade cientistas debatem sobre a natureza das emissões
luminosas. Ora se acreditava que os raios de luz eram sinais que viajavam em
ondas, ora prevalecia a ideia de que a luz se comportava como uma corrente
de fótons, minúsculas partículas portadoras de energia.
Hoje, porém, sabemos que essas características não são excludentes, pois
há fenômenos como a polarização e a fotossíntese, mais bem explicados pelo
caráter corpuscular, e outros como a formação de imagens, mais bem explicados
pelo caráter ondulatório.
Nesse último caso, as trajetórias dos raios de luz sempre se dão segundo
o menor intervalo de tempo; esse princípio justifica a formação de imagens
em espelhos e lentes e, por extensão, o funcionamento de instrumentos que
propiciam a visualização de objetos muito grandes, muito pequenos ou muito
distantes, além de esclarecer o mecanismo da visão. Eis a óptica geométrica,
objeto desta Unidade.
Mas o conhecimento vai além: sendo a luz uma onda eletromagnética,
podemos esperar o mesmo comportamento para as demais ondas do espec-
tro eletromagnético. Desse modo, aproveitamos o conhecimento obtido com a
reflexão e a refração para criar desde bisturis a laser e engenhosos aparelhos
para endoscopia, aumentando
assim a precisão de procedi-
mentos cirúrgicos minimamente
invasivos, até grandes e sofisti-
cados telescópios espaciais, que
trazem informações do espaço
de um tempo em que o Universo
estava no início de sua evolução.

O exame de acuidade visual verifica o grau


de aptidão dos nossos olhos para discriminar
detalhes espaciais, forma e contorno dos objetos.
A Organização Mundial da Saúde contempla a
saúde da visão como um dos quesitos para a
determinação da qualidade de vida.
114
~emos nesta fotografia,
olitiéla ~lo telescó1>io
espacial Hubble, o
P.laneta Saturno e dois de
seus satélites em órbita.
O i><>nto claro acima cios
anéis é o satélite Titã,
cuja soml:jra está mais
à clireita, abaixo dos
anéis. O satélite Tétis é
um P.Ontinlio claro, Quase
sol:jre os anéis.~ - -
Há a1>roximadamente
400 anos, Galileu Galilei
clescol:jria os satélites
ele Júpiter com a luneta,
um instrumento óP.tico
QUe permitiu o avanço
clefinitivo da Astronomia.

e de física quântica, e
essa tecnologia está
P.resente em uma grande
variedade de materiais
o
.....J
=>
l::
a..
Princípios da óptica
<(
u geométrica

A percepção que temos do mundo nos é dada através


de nossos sentidos (audição, olfato, gustação, tato e visão).
E, entre todos, a visão tem grande importância: pode-se
dizer que grande parte da percepção humana está funda-
mentada nas experiências visuais. É pela assimilação de
imagens e pela memória visual que apreendemos boa par-
te daquilo que nos cerca.
Nada veríamos, no entanto, se não houvesse luz. Não
seria exagero dizer que nossa capacidade de interagir com
tudo o que está ao nosso redor é fortemente vinculada à
aptidão de percebermos a luz.
O segmento da Física que estuda a luz e os fenômenos
luminosos é a Óptica. A palavra óptica vem do grego optíké e significa "relativo à Nesta vista da Baía de Guanabara
(RJ), vemos os morros e a cidade
visão". Na Antiguidade clássica, filósofos gregos como Platão (428 ou 427-347 a.C.) por causa da iluminação do Sol
e Aristóteles (384-322 a.C.) já se perguntavam: o que é a luz? Por que vemos um e da iluminação da rede elétrica.
objeto? Nessa época, por exemplo, acreditava-se que os olhos emitiam partículas Fotografia de junho de 2015.

que tornavam visíveis os objetos - hoje se sabe que só conseguimos enxergar ob-
jetos se a luz for refletida ou emitida por eles.
Desde então, muitos cientistas se entregaram à tarefa de explicar a natureza e o
comportamento da luz. Conhecemos contribuições dos mais ilustres físicos do mundo
nessa área, desde a Idade Média, quando já se conheciam os espelhos - com os quais
Arquimedes incendiou toda uma esquadra romana na defesa da cidade de Siracusa,
entre os séculos XII e XIII - e as lentes acabavam de ser inventadas. Experimentos de
Leonardo da Vinci com câmaras escuras permitiram ampliar, inverter e mesmo fixar ima-
gens. Galileu e Kepler construíram instrumentos ópticos e transformaram as lunetas,
usadas na navegação, em nada menos que instrumentos para desvendar o céu inteiro,
e nos permitiram compreender nossa posição no Sistema Solar e no Universo. Até aqui,
o conhecimento acumulado permitia explicar todas as características da luz na sua traje-
tória de formação de imagens: esta parte da Óptica tem o nome de óptica geométrica.
Mais tarde, Isaac Newton, Christian Huygens, Augustin Fresnel, Thomas Young e
James C. Maxwell dedicaram-se a estudar a natureza da luz e descobriram assim que,
dependendo da interação com a matéria ou a energia, a luz pode ser interpretada
como um conjunto de partículas ou como ondas eletromagnéticas.
A Óptica divide-se em óptica física - que estuda a natureza e as propriedades da
luz, assim como seu comportamento ao interagir com objetos ou consigo mesma - e
óptica geométrica - em que são vistos os fenômenos luminosos através da geome-
tria, sem se importar com o caráter inato da luz.
Neste volume, veremos os princípios que norteiam tanto o funcionamento de
espelhos, lentes e algumas de suas múltiplas aplicações (máquina fotográfica, mi-
croscópio, luneta) quanto o do bulbo do olho e seus principais defeitos. Veremos
também, em capítulos próximos, uma descrição da luz visível no contexto do espectro
eletromagnético, que é o conjunto de ondas eletromagnéticas.

116 UNIDADE 2 • ÓPTICA GEOMÉTRICA


De acordo com a frequência
A frequência é uma grandeza que informa o número de oscilações por intervalo de tempo, e isso vale para
o movimento circular e para as ondas.
Ondas eletromagnéticas são perturbações compostas de campos elétricos e magnéticos, que se propa-
gam com a velocidade da luz. O que as distingue é a sua frequência: há desde as ondas de rádio, de frequên-
cias da ordem de 102 Hz, até as de raios gama, de altíssima frequência, da ordem de 1024 Hz, passando pelo
infravermelho, pelas micro-ondas e pela luz visível - essa última representando uma fração muito pequena
desse conjunto. A frequência da luz visível é da ordem de 1014 Hz.

Energia de
co rrente
altiernada
Alta Baixa
fre~ência fra-qu fincià

Representação das frações mais significativas do espectro, com elementos sem proporção entre si.

Outra característica das ondas eletromagnéticas é a sua energia, diretamente proporcional às respectivas
frequências.

Luz
xw
z Luz é uma fração do espectro eletromagnético que impressiona os olhos.
J!'
!:::...:
"' Como as ondas eletromagnéticas carregam energia e se propagam por radiação,
õ
o é costume dizer que a luz é uma forma de energia radiante.
No início deste capítulo, dissemos que objetos emitem ou refletem luz. Tomemos
como exemplo uma vela. Tanto da chama como do corpo da vela saem infinitas
ondas eletromagnéticas, que alcançam ou não o observador, dependendo da sua
posição. Nossa experiência cotidiana nos mostra que a luz se propaga em linha reta.
Uma forma de representar as ondas irradiadas dos objetos são os segmentos
orientados, denominados raios de luz, dirigidos do objeto para o observador.
~
-~
Raio de luz é a representação geo-
A menina não consegue ~
enxergar o boné. Mas, se o l métrica retilínea da trajetória da luz, com
garoto fizesse algum barulho, ela ';; a indicação da direção e do sentido de
o escutaria. Isso acontece porque ~ sua propagação.
a luz se propaga em linha reta, e
o som se propaga em ondas.

Feixe de luz é um conjunto de raios


de luz de uma mesma fonte.
Os feixes de luz que entram em cada janelinha
são representados por raios.
Veja os tipos de feixe:
~
6 ----<~ - -----1--
::e
----<~- - -
~

j
=>
"' -~~ - --.-
w
~-
lu_,
z _d_o _S_o _
l _._ 1 V

lente de
aumento
Quando os raios luminosos
Uma lente de aumento, apontando para divergem difusamente, como nos Os raios luminosos que se propagam
os raios do Sol, produz um feixe cõnico faróis dianteiros de um automóvel, paralelamente, como nos holofotes, formam
convergente. formam um feixe cônico divergente. um feixe cilíndrico ou colimado.

CAPÍTULO 7 • PRINCÍPIOS DA ÓPTICA GEOMÉTRICA 117


Fontes de luz
Os corpos que emitem ou refletem luz são fontes de luz. Como você já sabe,
objetos podem irradiar energia em forma de luz por meio de processos físicos,
químicos ou nucleares; nesse caso, chamamos tais objetos de fonte primária ou
corpo luminoso. Tais fontes são sempre visíveis, já que seus raios luminosos che-
gam diretamente aos nossos olhos.
Uma fonte secundária ou corpo iluminado não possui luz própria. A Lua,
os planetas, o livro de Física, a carteira, a caneta são exemplos de fontes que não
possuem luz própria, pois eles apenas refletem a luz que recebem de algum cor-
po luminoso. Tais fontes só são visíveis se refletirem a luz recebida.
Lámpada incandescente: o
filamento emite luz quando
se aquece a uma temperatura
"' próxima do ponto de fusão do
"o metal.
::sé

fonte
observador
primária

indireta

Que fonte de luz você considera que


está iluminando esta planta?
Imagens fora de proporção entre si.

A menor distância entre dois pontos


Luz de um vaga-lume: exemplo
A representação da luz e da sua trajetória por segmentos de reta é bastante
de bioluminescência, efeito da
adequada a nossas experiências cotidianas, mas não é válida para qualquer situação. emissão de fótons em reações
Com a Teoria da Relatividade Geral, de Albert Einstein, ficamos conhecendo químicas mediadas por proteínas
denominadas luciferinas.
uma nova organização do espaço, não euclidiana, nas regiões próximas a objetos
de massas muito grandes, como estrelas e buracos negros.
-"
u Respostas possíveis: O campo
.,,~e: gravitacional terrestre não é
"' tão intenso, e as distâncias
~
e.. percorridas pelos raios de luz
~O)
que observamos rotineiramente
Os pontos do espaço -~ não são grandes, de modo
o que essa curvatura pode ser
próximos à Terra estão "'e: perfeitamente desprezada.
imersos em um campo "
O)

.'.'.l Para esta situação particular


gravitacional. Desse modo, em que vivemos, a
deveríamos substituir a interpretação do espaço como
representação de raios sendo euclidiano e isotrópico
de luz por arcos sobre funciona muito bem.
superfícies geodésicas. Por
que, então, a representação
por raios retilíneos funciona
tão bem?

Esses objetos criam em sua vizinhança um campo gravitacional tão intenso


que encurvam o espaço próximo a eles. Desse modo, a luz não faz uma trajetória
retilínea, mas segue a geodésica que passa por aquele ponto.
No espaço tridimensional euclidiano, a menor distância entre dois pontos é o
segmento de reta com extremos nesses pontos, enquanto no espaço afetado por
um campo gravitacional intenso a menor distância entre dois pontos é o arco de
geodésica que passa por eles.

118 UNIDADE 2 • ÓPTICA GEOMÉTRICA


Fontes pontuais e extensas
Quanto à sua dimensão, uma fonte de luz pode ser:
• pontual ou puntiforme: quando a fonte tem tamanho desprezível em relação
ao ambiente considerado; todos os raios emitidos têm origem nesse ponto;

Limitando convenientemente
a saída de luz dessa pequena
lâmpada de projetor, podemos
produzir uma fonte "pontual"
de luz.

• extensa: quando é constituída de muitas fontes pontuais; os raios emitidos des-


se objeto têm mais de uma origem.

Na lâmpada fluorescente, a
luz vem de toda a extensão do
corpo da lâmpada.

Meios ópticos
Já vimos que a luz é uma onda eletromagnética. Como você verá em detalhes,
brevemente, todas as ondas eletromagnéticas se propagam no vácuo na mesma velo-
cidade, de aproximadamente 300000 km/s, valor considerado uma das constantes
fundamentais da natureza. Mas na matéria a situação é diferente: quando se propa-
gam em diferentes meios materiais, dependendo de características como espessura,
densidade, composição, as ondas eletromagnéticas encontram alguma dificuldade
para atravessá-los, e com a luz não é diferente.
Chamamos de meios ópticos os meios materiais em que se considera a propa-
gação da luz. As condições em que essa propagação se realiza permitem classificar
os meios ópticos de:
• transparente: é o meio óptico • translúcido: é o meio óptico que • opaco: é o meio óptico que não
que permite a propagação regular permite a propagação irregular da permite a propagação da luz.
da luz. Exemplos: ar, vidro comum, luz. Exemplos: vidro fosco, papel Exemplos: madeira, placa metá-
papel celofane etc. vegetal, tecido fino etc. lica, tijolo etc.

O ar é, na maioria das vezes, um meio O meio material translúcido permite O meio material opaco não permite
material transparente, que permite ao que o observador veja o objeto, mas que o observador veja o objeto.
observador ver o objeto com nitidez. não com nitidez.

Qualquer um desses meios materiais é dito homogêneo quando apresenta as mes-


mas propriedades físicas em toda a sua extensão; caso contrário, é dito heterogêneo.
Quando a propagação da luz em um desses meios independe da direção tomada por
ela, dizemos que o meio é isótropo; caso contrário, dizemos que é anisótropo.

CAPÍTULO 7 • PRINCÍPIOS DA ÓPTICA GEOMÉTRICA 119


Fenômenos ópticos
Para onde segue um raio de luz emitido por um corpo?
Que fenômenos ocorrem durante sua propagação? O que
acontece com a luz que desaparece? Vamos ajudá-lo a res-
ponder a essas indagações.
Um feixe de raios paralelos, ao incidir sobre uma superfície 5,
que separa dois meios ópticos distintos transparentes, translú-
cidos ou opacos, pode atravessá-la ou não, ocorrendo um dos
seguintes fenômenos:
• Reflexão regular: o feixe de raios paralelos incide em 5 e
retorna ao meio de origem, tendo sido refletido regular-
mente, com todos os raios permanecendo paralelos entre
si, a partir dos pontos de incidência; ocorre quando 5 é uma Um feixe de raios paralelos, ao incidir em uma superfície
plana, sofre reflexão e produz um feixe de raios
superfície plana, opaca e bem polida, como um espelho. refletidos paralelos.

• Reflexão difusa: o feixe de raios paralelos incide em 5 e


volta ao meio de origem, tendo sido refletido irregularmen-
te, com os raios refletidos deixando de ser paralelos. Ocorre
quando 5 é uma superfície opaca e rugosa, como a maioria
dos corpos iluminados visíveis.

A reflexão da luz é o retorno de um feixe de luz ao pró-


prio meio de origem, após incidir sobre uma interface que o
separa do outro meio.

• Refração regular: o feixe de raios paralelos atravessa 5 e


continua se propagando no outro meio com velocidade Em superfícies irregulares, a reflexão da luz é difusa, isto é,
diferente. Ocorre quando o meio que recebe o feixe de em mais de uma direção.

luz é transparente ou translúcido.


<.9
e..
f-

s ~
raios incidentes ·s.
~
paralelos ]

meio2 meio 1

raios refratados
paralelos

• Absorção: o feixe de raios paralelos incide em 5 e não se reflete nem se refrata.


A luz é absorvida pela superfície, aquecendo-a. Ocorre, por exemplo, nos corpos
de cor escura.

s raios incidentes
paralelos

meio2 meio 1

A energia luminosa é totalmente absorvida, transformando-se em energia térmica.

É possível a ocorrência de mais de um fenômeno ao mesmo tempo, como num


espelho que esquenta à luz do Sol.

120 UNIDADE 2 • ÓPTICA GEOMÉTRICA


Princípios da óptica geométrica
São três os princípios que regem a óptica geométrica e, consequentemente, o
modo de propagação da luz.
Segundo o Princípio de propagação retilínea dos raios luminosos, nos
meios transparentes, homogêneos e isótropos um raio de luz percorre trajetória
retilínea. É esse princípio que justifica representarmos o raio de luz por meio de
um segmento de reta orientado.
Pelo Princípio de reversibilidade dos raios luminosos, nos meios transparen-
tes, homogêneos e isótropos a trajetória seguida por um raio de luz não se altera
quando o sentido do seu percurso é invertido.
Finalmente, o Princípio de independência dos raios luminosos estabelece
que os raios de luz, ao se cruzarem, seguem independentemente sua trajetória, sem
Vemos nesta gravura uma
demonstração de Isaac Newton que nenhuma de suas características (direção, sentido e cores) seja afetada, isto em
de que a trajetória da luz é qualquer meio.
retilínea, observando raios de
luz que penetram em uma sala ~
z
escura, por um orifício.
Gravura de 1879. s
'"

"'
õ
o
·º"'
~

Devido ao Princípio de
reversibilidade dos raios
luminosos, se você vê a imagem
dos olhos de uma pessoa Devido ao Princípio de independência
em um espelho, essa pessoa dos raios luminosos, os feixes
enxerga sua imagem refletida luminosos, após se cruzarem, seguem
no espelho. normalmente o seu caminho.

Aplicações da propagação retilínea da luz


Fenômenos como a formação de sombra e penumbra, os eclipses e a formação de
imagens em câmaras escuras de orifício são explicados pela propagação retilínea da luz.

]
::,
F Sombra e penumbra
"'o Posicione um corpo opaco Centre uma fonte de luz F e um ante-
"O
e:
"'
e: sombra paro P (que pode ser uma superfície qualquer, como a parede ou a
~ 1 itl"I
N 1 projetada mesa); vemos o corpo iluminado e uma região escura no anteparo,
3
localizada atrás do corpo e que é projetada por ele, uma vez que este
Figura 1 p
intercepta os raios de luz que incidiriam nesse anteparo. Observando
os contornos dessa região, você pode verificar se são bem definidos,
penumbra com uma separação inequívoca entre as regiões iluminada e não
projetada iluminada: essa região escura é a sombra, que não é iluminada por
:somb ra sombra nenhuma parte da fonte. Se são contornos imprecisos, com várias
projetada gradações de escuro, a região é de penumbra; isso vai depender do
F (fonte extensa)---------- /
penumbra~ penumbra tipo de fonte usada. Conforme visto anteriormente, existem dois ti-
projetada
Figura 2 pos de fontes de luz, a pontual e a extensa. A primeira permite a
p
formação de sombra; e a segunda, de sombra e penumbra.
Na figura 1, está o desenho do esquema da formação
de sombra. Na figura 2, o da formação de sombra e
penumbra. Observe que as regiões de penumbra são
Sombra é toda região do espaço que não recebe luz dire-
parcialmente iluminadas por uma região da fonte extensa, ta da fonte, enquanto penumbra é a extensão que recebe
enquanto os raios de outra região da mesma fonte não as apenas parte dela.
alcançam.

CAPÍTULO 7 • PRINCÍPIOS DA ÓPTICA GEOMÉTRICA 121


Eclipses
A palavra eclipse é de origem grega e significa desmaio ou abandono. Damos a
essa palavra, hoje, o significado de ocultação: eclipses são ocultações ou obscureci-
mentos parciais ou totais de astros pela interposição de outros. Dependendo do
ponto de vista, há muitos tipos de eclipses, mas os que nos interessam aqui - pela
facilidade de observação e pela importância do fenômeno para aquisição de dados
- são os eclipses do Sol e da Lua.

Eclipse do Sol
Se, no esquema da figura 2 da página anterior, substituirmos F pelo Sol, C pela
Lua e P pela Terra, teremos a representação de um eclipse solar, que pode ser total
ou parcial. Tal fenômeno só se realiza quando os três astros estão alinhados.
Quando acontece o eclipse solar, ele é total para a região de sombra projetada
pela Lua. Uma pessoa na superfície da Terra situada nessa área não recebe luz al-
guma, apesar de ser dia. Para a região de penumbra projetada pela Lua, o eclipse
solar é parcial. Uma pessoa situada ali recebe apenas parte da luz do Sol, apesar
de ser dia.

"'
·;;;
trajetória da Lua
~
"'
-w
1
u
1 o

'
1
sombra própria
""'
"--
;,;
1 <V

1
1
1 da Terra (noite) ·~t:
ª
' ,
região de ''-~-------'
penumbra da Lua
Imagem com elementos sem proporção entre si e em cores fantasia.

Em raras situações, é possível observar o eclipse anular (em forma de anel),


como mostrado na imagem a seguir. A parte visível do Sol tem o formato de um
anel, e, para poder visualizá-lo, o observador deve se situar na superfície da Terra
exatamente na região do ponto X, que corresponde ao vértice do cone de sombra
da Lua.
o Sol, visto por um observador em X

Vemos nesta montagem como o Sol aparece para um observador situado no vértice X do cone de sombra da
Lua. (Imagem com elementos sem proporção entre si e em cores fantasia.)

122 UNIDADE 2 • ÓPTICA GEOMÉTRICA


Eclipse da Lua
Quando Lua, Terra e Sol se alinham, nessa ordem, a Lua penetra na região de
sombra da Terra, ocorrendo então o eclipse lunar.

Na figura, o Sol
está à esquerda
da Terra e a Lua
à direita, na
sombra projetada
pelo planeta.
(Ilustração com
elementos sem
proporção entre
si eem
cores fantasia.)

As fases da Lua
Durante o processo de formação do Sistema Solar, a interação gravitacional entre a Lua e a Terra e as
forças de maré fizeram com que a primeira sofresse um freamento de sua velocidade orbital, de modo que
o seu período de rotação igualasse a velocidade de translação em torno da Terra. Esse fenômeno tem o
nome de sincronismo. Por esse motivo, durante sua órbita em torno da Terra (que dura um período de cerca
de 27,3 dias, quase um mês), nós vemos sempre a mesma face da Lua. Mas a posição do Sol ilumina frações
distintas dessa face voltada para nós, de modo que vemos nosso satélite mudando de aparência ao longo do
mês, passando pelas chamadas fases da Lua.
Na lua nova, não é possível ver a face da Lua iluminada pelo Sol. A partir daí, a face iluminada da Lua (aquela
voltada para o Sol) vai crescendo aos poucos, até atingir sua metade: é o quarto crescente. Superada essa fase, a
face visível da Lua continua aumentando, até ficar completamente iluminada: é a lua cheia, posição em que o Sol
e a Lua estão em lados opostos da Terra. Finalmente, no seu caminho de volta, a face iluminada vai diminuindo:
ela atinge novamente sua metade no quarto minguante, até desaparecer completamente na lua nova.
quarto ming uante

lua
cheia
, '

lua '
--
quarto crescente
As várias fases da Lua. (Ilustração com elementos sem proporção entre si e em cores fantasia.)

) ) ) ) ) ~

e ~
s~cs,,( i e••• A Terra, a Lua e o Sol devem estar alinhados
e nessa ordem. Essa é uma condição, na
Terra, de eclipse solar. O observador na Lua
deve estar do lado "escuro", que não vemos
daqui da Terra; nesse momento, a Lua projeta
uma sombra sobre a superfície terrestre,
configurando a ocultação.

{ ( ( ( ( ( Quais devem ser as condições para


que um observador na Lua veja um
"eclipse da Terra"?

CAPÍTULO 7 • PRINCÍPIOS DA ÓPTICA GEOMÉTRICA 123


mm
Em::iJ
NÃo ESCREVA
NOUVRO

As constelações indígenas brasileiras

Na Antiguidade, acreditava-se que a abóbada celeste era imutável e perene - perfeita e divina. Os
antigos contemplavam os pontos cintilantes nas profundezas siderais e imaginavam inúmeras figuras deli-
mitadas por linhas invisíveis. Constelações (agrupamentos de estrelas) de divindades, monstros, utensílios,
animais ... cada povo à sua maneira, na sua época.
Conhecemos as constelações zodiacais, um conjunto de treze constelações situadas em uma faixa
do céu próxima à trajetória anual do Sol: Peixes, Aries, Touro, Gêmeos, Câncer, Leão, Virgem, Libra,
Escorpião, Ophiuchus, Sagitário, Capricórnio e Aquário, descrita pelos nossos antepassados gregos e
árabes. Outras como Orion e Cruzeiro do Sul são também nossas conhecidas, pelo menos em um tem-
po em que era fácil observar o céu noturno sem a poluição luminosa.
Mas você já ouviu falar nas constelações da Ema, do Homem Velho ou da Anta do Norte?

A observação do céu esteve na base do co- ções conhecidas pelos índios da ilha. Infelizmente,
nhecimento de todas as sociedades antigas, pois ele identificou apenas algumas delas.
elas foram profundamente influenciadas pela As observações do céu que realizamos com ín-
confiante precisão do desdobramento cíclico de dios de todas as regiões do Brasil permitiram loca-
certos fenômenos celestes, tais como o dia-noi- lizar a maioria das constelações Tupinambá, apenas
te, as fases da Lua e as estações do ano. O índio relatadas por d'Abbeville, e de diversas outras etnias
brasileiro também percebeu que as atividades de indígenas brasileiras.
pesca, caça, coleta e lavoura obedecem a flutua-
[...] o sistema astronômico dos extintos Tupinam-
ções sazonais. Assim, ele procurou entender es-
bá do Maranhão, descrito por d'Abbeville, é muito
sas flutuações cíclicas e utilizou-as, principalmen-
semelhante ao utilizado, atualmente, pelos Guara-
te, para a sua subsistência.
ni do Sul do Brasil, embora separados pelas línguas
Frequentemente, tendemos a julgar a cosmo- (tupi e guarani), pelo espaço (mais de 2 500 km,
logia de outras civilizações através de nossos pró- em linha reta) e pelo tempo (quase 400 anos). Ve-
prios conhecimentos, desenvolvidos predomi- rificamos, também, que algumas das constelações dos
nantemente dentro de um sistema educacional índios brasileiros, utilizadas no cotidiano, são as mes-
ocidental. Esse conhecimento é formal porque mas de outros índios da América do Sul e dos aborígi-
tende a ser suportado por documentos escritos,
nes australianos.
regras, regulamentos e infraestrutura tecnoló-
Os índios brasileiros davam maior importância
gica. No entanto, a visão indígena do Universo
deve ser considerada no contexto dos seus valo- às constelações localizadas na Via Láctea, que po-
res culturais e conhecimentos ambientais. Esse diam ser constituídas de estrelas individuais e de
conhecimento local se refere às práticas e repre- nebulosas, principalmente as escuras. A Via Lác-
sentações que são mantidas e desenvolvidas por tea é chamada de Caminho da Anta (Tapi'i rapé,
povos com longo tempo de interação com o meio em guarani) pela maioria das etnias dos índios
natural. O conjunto de entendimentos, interpre- brasileiros, devido principalmente às constelações
tações e significados faz parte de uma complexi- representando uma Anta (Tapi'i, em guarani) que
dade cultural que envolve linguagem, sistemas nela se localizam.
de nomes e classificação, utilização de recursos A comunidade científica conhece muito pouco
naturais, rituais e espiritualidade. do sistema astronômico indígena brasileiro que
Em 1612, o missionário capuchinho francês pode se perder em uma ou duas gerações. Esse ris-
Claude d'Abbeville passou quatro meses com co ocorre pelo rápido processo de globalização e
os Tupinambá do Maranhão, perto da Linha do pelas dificuldades em documentar, avaliar, validar,
Equador. No seu livro Histoire de la Mission de Peres proteger e disseminar os conhecimentos dos índios
Capucins en /'Is/e de Maragnan et terres circonvoisins, brasileiros. [...]
publicado em Paris, em 1614, considerado uma das AFoNso, Germano Bruno. Observatórios virtuais (UFPR).
Telescópios na escola.
mais importantes fontes da etnografia dos Tupi, ele Disponível em: <www.telescopiosnaescola.pro.br/indigenas.
registrou o nome de cerca de 30 estrelas e constela- pdf>. Acesso em: 26 ouL 2015.

124 UNIDADE 2 • ÓPTICA GEOMÉTRICA


í
/
.


[7\
·1,
A Anta do Norte está sobre a Via Láctea,
Você pode localizar a constelação da Ema procurando próximo às constelações do Cisne, do
a sua cabeça, que fica sob o Cruzeiro do Sul. Touro e Cassiopeia.

A constelação do Homem Velho é formada pelas constelações do Touro e Orion.

Organizando as ideias do texto


O texto relata algumas características da leitura do céu que fizeram os primeiros habitantes sul-americanos e
australianos. Observe que, apesar das diversas circunstâncias que cercam o distanciamento dessas tribos, a orga-
nização cosmológica parece ser a mesma. Outras similaridades ocorrem, não apenas entre indígenas: a faixa da
nossa galáxia, que vemos no céu, foi igualmente interpretada como um caminho pelas mais diversas culturas,
desde os gregos antigos. Mais intrigante ainda é o conhecimento do povo Dogon, antigos habitantes do Mali, na
África Oriental: missões francesas, em visita aos dogons desde 1931, declararam que esse povo cultivava uma
complexa cosmologia e conhecimentos que a comunidade científica só comprovaria recentemente, como o fato
de a estrela Sirius B ser na verdade um sistema binário, em que a estrela oculta é uma anã branca.
1. Uma vez que o conhecimento pode ser transmitido de modo formal ou não, a que você atribui
essas aparentes coincidências? Professor, veja Orientações Didáticas.

• • Exercícios resolvidos
••
ER1. Um estudante, querendo determinar a altura de H BC
-=- • --=-- •
H 20 H=60m
um prédio, mediu durante o dia, simultaneamente, sua h B'C 1,50 0,50
própria sombra e a do prédio, anotando respectivamente
ER2. Um quadrado opaco de madeira, de 1,0 m de
50 cm e 20 m. Qual a altura encontrada, sabendo-se que
lado, está horizontalmente pendurado a 1,2 m do teto
o estudante tem 1, 50 m? Problemas de óptica geométrica de uma sala. Na mesma vertical do centro do quadrado
são, essencialmente, problemas
Resolução: de geometria plana, nos quais se
aplicam as leis da propagação
está fixada, no teto, uma pequena lâmpada acesa. Sendo
A retilínea da luz. Incentivar os de 3,0 m a distância do teto ao piso, determine:
est~dan!es a desenhar com cuid,ado a) 0 comprimento da sombra proi·etada·
a s1tuaçao proposta pode levar a '
resposta muito mais facilmente. b) a área da sombra projetada
Pode ser útil fazer ·
uma ~evisão das Resolução:
propriedades de
triângulos isósceles, Considerando-se a pequena lâmpada uma fonte
relações trigonométricas
em triângulos retângulos puntiforme:
e Teorema de Pitágoras. .e = 1 m; h = 1,2 m; H = 3 m
F (lâmpada) F
B e B' C'

Considerando-se os raios do Sol paralelos, os triângulos


ABC e A'.B'C' são semelhantes (com elementos sem pro-
porção entre si):
BC= 20 m
B'C = 50 cm = 0,50 m; h = 1,50 m

CAPÍTULO 7 • PRINCÍPIOS DA ÓPTICA GEOMÉTRICA 125


a) Os triângulos FCD e FAB são semelhantes:
L H L 3
- = - • - = - • L=25m
C h 1 1,2 '
b) A área da sombra projetada é um quadrado de barra h = 1,20 m
lado L Assim:
A= L2 = (2,5 m) 2 • A= 6,25 m 2 r-----.----',D - pen,mb; 1 H • 3,0 m
ER3. No teto de uma sala, cujo pé-direito (medida do 1,80 m
teto ao piso) é de 3,0 m, está fixada uma lâmpada linear sombra

de 20 cm (fonte extensa). Uma barra opaca de 1,0 m de


comprimento está horizontalmente suspensa a 1,20 m E F--x=?--G H
1
do teto. Sabendo-se que os pontos médios da lâmpada
a) O tamanho de cada uma das penumbras projeta-
e da barra definem uma mesma vertical, determine:
das y pode ser facilmente encontrado a partir da
a) o tamanho de cada uma das penumbras projetadas; semelhança dos triângulos ABC e CEF.
b) o tamanho da sombra projetada.
Supõe-se que a lâmpada e a barra estejam paralelas.
º• º
2 =_y_ • y=0,30m
1,20 1,80
Resolução: b) O tamanho da sombra projetada x é encontrado
pela semelhança dos triângulos BCD e BEG:
Dados: comprimento da lâmpada = 20 cm = 0,20 m;
C = 1 m; h = 1,2 m; H = 3 m /io \+l
,
=
,
+
• 1,20 · (0,30 x) = 0,30 • x = 2,2 m

••••
Ângulo visual (0)
Denomina-se ângulo visual (0) o ângulo através do qual enxergamos o tamanho
das coisas. Ele depende da distância entre o observador e o objeto: os mais afastados
parecem menores porque o ângulo de visão diminui com o seu distanciamento.

O observador vê o lápis sob o ângulo 0. Devido ao ângulo visual, quanto mais O ponto onde parece que os dois
afastados do observador estão os postes, trilhos se encontram é o limite de
menores eles parecem. acuidade visual do observador.

Limite de acuidade visual é o menor ângulo visual pelo qual podemos ver o
tamanho de um objeto.

Estima-se que esse ângulo mede um minuto (0 = 1'). Para ter uma ideia do tamanho
desse ângulo, é preciso dividir o círculo trigonométrico em 360 partes iguais, cada
fração valendo um grau (1 º). O grau, por sua vez, é dividido em outras sessenta
partes iguais; cada uma delas corresponde ao ângulo de um minuto.

126 UNIDADE 2 • ÓPTICA GEOMÉTRICA


Câmara escura de orifício
A câmara escura de orifício é o precursor da máquina fotográfica. Ela é uma caixa
de paredes opacas com um pequeno buraco (orifício O) no centro de uma das faces.
Um objeto luminoso MN, linear, colocado em frente da face com o orifício,
possibilita a formação de uma imagem M'N' (MN de "cabeça para baixo", menor)
na face interna oposta.
No esquema:
• MN = tamanho (altura) do objeto;
• M'N' = tamanho da imagem;
• p = distância do objeto ao orifício (distância do objeto à câmara);
• p' = distância do orifício à imagem (profundidade da caixa).
Devido à semelhança do triângulo MNO com o triângulo M'N'O,
p p'
1
1
pode-se concluir que:
1
MN p
:M M'N' =p'
Essa expressão é conhecida como Equação da câmara escura.
O diâmetro do orifício da câmara escura é importante? O que
aconteceria com a imagem se o orifício fosse aumentado significati-
vamente? Aumentando-se significativamente o diâmetro do orifício, a imagem
perderá a nitidez ou não será visível, pois haverá muita luz no interior
da câmara.

Exercícios resolvidos
••••
ER4. Um observador vê o tamanho de um poste sob ERS. Uma caixa de sapatos é usada para construir
um ângulo visual de 45º. Aproximando-se 5 m do pos- uma câmara escura de orifício. No lugar da tampa,
te, ele passa a vê-lo sob um ângulo de 60º. Conside- é fixado um recorte de folha de papel vegetal e, na
rando o olho do observador e a base do poste no mes-
face oposta a ela (fundo da caixa), faz-se um orifí-
mo nível, calcule:
cio com um prego. A câmara é colocada em pé
a) a distância entre a sua primeira posição e o poste;
b) a altura do poste. sobre uma mesa, em um quarto escuro e, a 40 cm
da face com o orifício, põe-se uma vela acesa de
Resolução:
Chamando-se de x a distância entre sua primeira po- 12 cm de altura. Sendo de 18 cm a profundidade
sição e o poste, e de h a altura do poste: da caixa, determine o tamanho da imagem forma-
A da na "tela" de papel vegetal.

Resolução:
h
1• posição

~ i =?

o, 02 :B
' 5 m---.:.-
:..- ' (x - 5)--...:' ''
'
p _______ p·_____.:''
: ' 1
;+----
' --x---
-
'
No triângulo O 1AB: tg 45º = .!:!.._
h X p = 40 cm; o= 12 cm; p' = 18 cm
1=- • h=xG)
X
Da Equação da Câmara Escura:
No triângulo O2AB: tg 60º = _h__
x-5 o p 12 40
-=- • -=- •
f3 =-h- • 'Í3· (x- 5) = h@ i p' i 18
x-5
Substituindo G) em@, tem-se x = h = 11,83 m . • i = 5,4 cm

CAPÍTULO 7 • PRINCÍPIOS DA ÓPTICA GEOMÉTRICA


••••127
Cores e velocidades da luz
A luz do Sol ou de uma lâmpada incandescente comum é chamada de luz
branca ou luz visível. Isaac Newton constatou que, quando essa luz branca
atravessa um prisma de vidro, ela se decompõe em infinitas cores, que podem
ser agrupadas nas cores vermelha, alaranjada, amarela, verde, azul, anil e vio-
leta (cada uma dessas cores possuindo infinitos matizes), sempre obedecendo
a essa ordem.
A decomposição ou dispersão da luz ocorre devido ao fenômeno da refração,
que é a passagem da luz de um meio para outro com alteração de velocidade;
nesse caso, do meio ar para o meio vidro, que constitui o prisma.
A luz branca só se decompõe em cores
Lembremos que a luz é uma onda eletromagnética. A luz branca é o resulta- ao interagir com um meio material
do de uma grande quantidade dessas ondas, cada uma com uma característica diferente do meio de incidência, como
diferente, como o seu comprimento, mas todas com a mesma velocidade e no o vidro, a água ou o plástico.

vácuo. Cada cor, isoladamente, recebe o nome de luz monocromática (a lâm-


pada de vapor de sódio, por exemplo, emite luz monocromática amarela). Quan-
do a luz é composta de duas ou mais cores (a luz branca do Sol ou da lâmpada
incandescente comum), denomina-se luz policromática.
Na passagem da luz branca de um meio, como o ar, para outro, como o vidro,
muda a velocidade de propagação de cada uma das cores no interior do vidro, o que
faz com que elas se separem.
A velocidade da luz é diferente nos diversos meios existentes. No vácuo, sua velo-
cidade, internacionalmente representada pela letra e, de celerítas (palavra latina que
significa "rapidez") é de aproximadamente 3 • 108 m/s. Considera-se, no ar seco, a
velocidade da luz como igual a e. Em outros meios transparentes, como a água e o
vidro, a velocidade de propagação da luz é sempre menor que esse número.

ATNIDADE PRÁTICA

Simulando o disco de Newton


Já vimos que um prisma tem a capacidade de decompor a luz branca. Nesta atividade, você
vai ver que um disco pintado com as sete cores resultantes da decomposição da luz branca, ao
ser girado em alta velocidade, simula o efeito ótico de recompor essa luz. Como a luz não atra-
vessa meios distintos, esse efeito não decorre da refração.
O dispositivo tem o nome de disco de Newton, mas não há relatos de que o
próprio Newton o tenha inventado.

Material


cartolina branca
um CD já sem uso, para servir de molde e também de base
V~
._
AV, ..

• um palito redondo, de cerca de 20 cm de comprimento e cerca de 3 mm


de diâmetro
Disco pintado na ordem
• um pincel em que as sete cores foram
• tinta nas cores amarelo, azul, azul-claro, alaranjado, verde, vermelho e violeta dissociadas.

Procedimento
1. Façam um círculo na cartolina utilizando como molde o CD.
li. Recortem o círculo e dividam-no em sete setores circulares iguais.
Ili. Pintem cada setor circular com uma das cores listadas: amarelo, verde,
azul, azul-claro, violeta, vermelho e alaranjado.
IV. Colem a cartolina pronta no CD. Um observador, ao ver
o disco girando em alta
V. Coloquem o palito no orifício do disco e girem-no velozmente. velocidade, enxerga um
VI. Um estudante deve observar o disco enquanto o outro o gira. disco com outras cores.

128 UNIDADE 2 • ÓPTICA GEOMÉTRICA


Discussão
1. O que vocês veem?
2. Tentem variar a velocidade de rotação do disco, desde velocidades baixas até prender a cartolina pintada, com
cuidado, em um pequeno ventilador USB. A velocidade em que o disco gira altera a qualidade do resultado?
3. A ordem com que os setores são pintados altera a qualidade do resultado?
4. Tentem realizar o experimento de outras maneiras, combinando apenas duas ou três cores distintas, e verifi-
quem se há variação na qualidade do resultado.
5. Verifiquem se, em vez de pintarmos a cartolina com cores, obtemos o mesmo efeito misturando as tintas,
diretamente.
Ver Orientações Didáticas.

O fenômeno da cor
Mas, afinal, o que é a cor? Podemos dizer que é uma interpretação fisiológica ao
recebimento de uma luz de determinado comprimento de onda. Essa habilidade
depende da existência de alguns dispositivos do olho, os cones. Dependendo do
tipo de cone, é possível enxergar mais ou menos cores ou definir o que chamamos
de "cores primárias". Sabemos que o olho humano tem três tipos de cones, enquan-
to alguns animais apresentam dois ou até quatro tipos de cone; é a ausência ou di-
minuição no número de alguns tipos de cones ou a perda de função parcial ou total
destes que determina problemas como o daltonismo.
Então, a cor é a resposta do olho ao recebimento de uma onda de determinado
comprimento; mas como essa emissão se dá, a partir dos objetos iluminados por luz,
digamos, branca?
Se um corpo visto sob a luz solar (que é feita de muitos comprimentos de onda
e é, portanto, policromática) mostra-se verde, é porque ele absorveu todas as cores
menos a verde, que é refletida difusamente. Portanto, a cor de um corpo resulta de
dois fenômenos ópticos: a absorção e a reflexão difusa. A camélia é branca porque
não absorve nenhuma cor e reflete difusamente todas elas; e um pneu é preto por-
que absorve todas as cores sem refletir nenhuma.
Se dois corpos vistos sob luz solar branca, um vermelho e outro azul, forem coloca-
dos em um ambiente iluminado só com uma luz monocromática vermelha, o vermelho
se mostrará vermelho, pois é a cor que ele reflete difusamente, e o azul aparecerá na cor
preta, pois ele absorve a cor vermelha e não reflete nenhuma.

luz branca--··
incidente

absorção de todas
todas as cores as cores
O observador vê o corpo branco. O observador vê o corpo verde. O observador "vê" o corpo negro.

Filtro de luz
Qualquer dispositivo feito de material transparente que deixa passar a luz de
uma única cor é chamado de filtro de luz. Assim, um filtro vermelho é aquele
que permite a passagem apenas da radiação (luz) vermelha. Observe o esquema
da página a seguir.

CAPÍTULO 7 • PRINCÍPIOS DA ÓPTICA GEOMÉTRICA 129


Anos atrás, era comum a -- -·-r:
- ·-
·-=----, ..
:'1
exposição de carne, nos balcões
dos açougues, sob a iluminação
111 ~ ,:• '' : . . ,. :' ~ '. ' ' '
de luz vermelha, assim como os t ..... -· , ~ ,"' ~. , , 1:· •
vendedores de frutas cobriam as
caixas de morango com papel l • ~ . ,.~ ~~·r:. _-~-~ 'l ;

celofane de cor vermelha. Hoje ,... ~·· .,_ •, , • 1.


em dia, essa prática está proibida. ~ 'Í\\
·, ~ ,, _
\\ 1 ;

Você saberia explicar por quê? . -·~-Li. ,e \ ~

difusamente Essa prática foi proibida porque a cor vermelha mascara a verdadeira cor do
alimento.

• • Exercícios resolvidos
••
ERG. O que diferencia a luz vermelha da cor vermelha ceira, uma blusa vermelha. Uma vez dentro da sala, de
de uma flor como a rosa, por exemplo? que cor é vista:
a) a camisa de Pedro?
Resolução: b) a blusa de Maria?
A diferença fundamental é que a luz vermelha é e) a camisa de Luís?
oriunda da decomposição da luz branca e a rosa
é vermelha porque reflete difusamente apenas Resolução:
essa cor, absorvendo as demais, sob a luz solar. a) A camisa de Pedro fica preta , pois a luz incidente
vermelha não é refletida pela camisa verde.
ER7. Uma sala está iluminada por uma lâmpada que b) A blusa de Maria permanece vermelha , pois a luz
emite luz monocromática vermelha. Entram nessa sala vermelha é a única que ela reflete difusamente.
três jovens: Luís, Pedro e Maria. O primeiro veste uma c) A camisa de Luís fica vermelha, pois é a única luz
camisa branca; o segundo, uma camisa verde; e a ter- incidente refletida difusamente por ela.

••••
• • Exercícios propostos
••
EP1. Em um dia ensolarado, um homem está de pé, EP3. A 1,2 m acima do centro de uma mesa circular, de
parado a certa distância de um poste elétrico. Obser- 1,5 m de diâmetro, está fixada uma lâmpada puntifor-
va-se que ambos têm suas sombras projetadas no me. Utilizando-se desses dados, determine o diâmetro
chão, de superfície horizontal. Dadas essas informa- da sombra da mesa projetada no chão, sabendo que ela
ções, responda: Resposta nas Orientações Didáticas. tem 1 m de altura. 2,75 m
a) Por que podemos dizer que os comprimentos das
EP4. Uma lâmpada linear, de 1Ocm de comprimento, está
respectivas sombras são proporcionais às alturas do
fixada no teto de um quarto, cujo pé-direito é de 2,8 m.
homem e do poste?
Paralela à lâmpada e distante 80 cm do piso, foi coloca-
b) Se o homem se deslocar rapidamente para outro lu-
da uma haste metálica de 1 m de comprimento, confor-
gar, por exemplo, a 1 m de distância de onde está,
me a figura abaixo (ilustração fora de escala). Calcule:
sem entrar na sombra do poste, o comprimento de
sua sombra se altera? Justifique.
I·: 111,1kz A

EP2. (Enem-MEC) A sombra de uma pessoa que tem : lampada


1,80 m de altura mede 60 cm. No mesmo momento, a
seu lado, a sombra projetada de um poste mede 2,00 m.
Se, mais tarde, a sombra do poste diminuiu 50 cm, a som- "'haste
bra da pessoa passou a medir:
a) 30 cm. d) 80 cm. a) o comprimento da sombra projetada no piso; 136 cm
b) 45 cm. x e) 90 cm. b) o comprimento de cada uma das penumbras proje-
e) 50 cm. tadas no piso. 4 cm

130 UNIDADE 2 • ÓPTICA GEOMÉTRICA


EPS. Para que você consiga observar um eclipse solar, é EP12. Uma bandeira nacional brasileira é tingida com
necessário que o Sol, a Terra e a Lua: pigmentos puros. Quais serão as cores nas quais ela
a) estejam nos vértices de um triângulo durante a será vista ao ser iluminada pela luz monocromática
noite. azul? azul e preta
b) estejam alinhados durante o dia, com o Sol entre a EP13. Um feixe de luz branca atravessa um prisma. As
Terra e a Lua. sete principais cores dispersadas são vistas por um ob-
c) estejam alinhados durante a noite, com a Lua entre servador através de um filtro de luz vermelha. Para cada
o Sol e a Terra. uma das sete cores visíveis no prisma, diga aquela que
d) estejam alinhados durante o dia, com a Terra entre O Obse rvador veA vermelha: vermelha; alaranjada: preta;
· amarela: preta; verde: preta; azuf: preta;
o Sol e a Lua. anil: preta; violeta: preta
e) estejam alinhados durante o dia, com a Lua entre a EP14. (UFSC) Leia com atenção os versos a seguir, de
Terra e o Sol. x "Chão de Estrelas", a mais importante criação poética
de Orestes Barbosa, que, com Sílvio Caldas, compôs
EP6. Através da extremidade de um cilindro oco, de uma das mais belas obras da música popular brasileira:
8 cm de diâmetro e 1O cm de comprimento, João vê
Maria, que está a 2 m dele, de corpo inteiro, graças A porta do barraco era sem trinco
ao ângulo visual que o cilindro permite. Que altura Mas a Lua, furando o nosso zinco,
tem Maria? 1,60 m Salpicava de estrelas nosso chão ...
EP7. Um soldado batedor, rastejando em solo horizon- Tu pisavas nos astros distraída
tal, viu em um determinado ponto a torre de transmis- Sem saber que a ventura desta vida
são inimiga, sob um ângulo visual de 45º. Então ele se É a cabrocha, o luar e o violão ...
afastou, rastejando 40 m de costas, em linha reta com
O cenário imaginado, descrito poeticamente, indica
a torre. Nessa posição, deu uma segunda olhada para
que o barraco era coberto de folhas de zinco, apresen-
ela, agora sob um ângulo visual de 30º. De volta à base,
tando furos e, assim, a luz da Lua atingia o chão do
o soldado comunicou ao seu superior a altura da torre
barraco, projetando pontos ou pequenas porções ilumi-
e a distância mínima que ele esteve dela. Quais são es-
nadas - as "estrelas" que a Lua "salpicava" no chão.
ses valores? Ambos valem aproximadamente 54,5 m.
Considerando o cenário descrito pelos versos, indi-
EP8. Um objeto com 20 cm está situado a 50 cm de que a(s) proposição(ões) correta(s) que apresenta(m)
uma câmara escura de orifício. Sabendo-se que a explicação(ões) física(s) possível(is) para o fenômeno.
imagem formada tem 4 cm, determine a profundidade
01. A Lua poderia ser, ao mesmo tempo, fonte lumi-
da caixa. 10 cm
nosa e objeto cuja imagem seria projetada no
EP9. José construiu uma câmara escura de orifício e viu, chão do barraco. x
através dela, a imagem de uma árvore, que media 4 cm. 02. O barraco, com o seu telhado de zinco furado, se
Aproximando-se 1O m da árvore, viu que o tamanho da estivesse na penumbra, ou completamente no es-
imagem aumentou para 6 cm. A que distância da árvore curo, poderia comportar-se como uma câmara es-
estava José, nessa última posição? 20 m cura múltipla, e através de cada furo produzir-
EP10. Sabe-se que o Sol está distante da Terra cerca -se-ia uma imagem da Lua no chão. x
de cento e cinquenta milhões de quilômetros. Sendo 04. A propagação retilínea da luz não explica as ima-
de 3 • 108 m/s a velocidade da luz, determine quantos gens luminosas no chão - porque elas somente
minutos e segundos a luz do Sol demora para chegar ocorreriam em consequência da difração da luz.
à Terra. 8 min 20 s 08. Os furos da cobertura de zinco deveriam ser muito
grandes, permitindo que a luz da Lua iluminasse
EP11. Uma estudante ouviu dizer que determinada es-
todo o chão do barraco.
trela está a 5,4 anos-luz da Terra.
Considerando: 1 ano-luz= 9,46 • 10 12 km e a velocida- 16. Quanto menor fosse a largura dos furos no telha-
de da luz c = 3 • 105 km/h, responda: do, menor seria a difração da luz e maior a nitidez
a) A que distância, em quilômetros, está a estrela da das imagens luminosas no chão do barraco.
Terra? 5,1 • 1013 km 32. Para que as imagens da Lua no chão fossem visí-
b) Quanto tempo, em anos, gasta a luz dessa estrela veis, o barraco deveria ser bem iluminado - com
para chegar à Terra? 5,4 anos lâmpadas, necessariamente.

••••
CAPÍTULO 7 • PRINCÍPIOS DA ÓPTICA GEOMÉTRICA 131
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As leis da reflexão
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u e os espelhos planos

Expedições arqueológicas realizadas no Egito encontraram espelhos de cobre


forjados cerca de 5 mil anos antes da nossa era, pela civilização que lá viveu.
Mas foi somente no final do século XIII que surgiram os primeiros espelhos simila-
res aos de hoje, feitos de vidro e cobertos por uma fina camada metálica refletora,
fabricados por artesãos da cidade italiana de Veneza.
Hoje, a maior parte dos espelhos é fabricada assim: uma das faces de uma
placa de vidro recebe inicialmente uma fina camada de prata ou alumínio, sendo
coberta depois por uma substância protetora; a outra face é a frente do espelho.
Os espelhos que usamos rotineiramente para "ver" imagens ou produzir a sensa-
ção de espaços amplos são planos, mas existem os de superfícies curvas; podemos
vê-los em ação em faróis ou retrovisores de automóveis, algumas antenas ou mesmo
em parques de diversões. Neste último caso, a imagem produzida é bastante diferente
da produzida pelos espelhos planos. Neste capítulo e no próximo, vamos estudar as leis
que regem a formação de imagens em espelhos, começando pelos espelhos planos. A Bíblia faz referências a espelhos
de mão, feitos em bronze, no
livro do Êxodo (aprox. 1447 a.C.).
Espelho plano é aquele cuja superfície, plana e lisa, reflete regularmente a luz inci-
dente; isto é, raios que incidem paralelamente são todos refletidos na mesma direção,
sofrendo portanto uma reflexão regular.

No quadro de Caravaggio, Narciso tem a mão esquerda junto à linha da água no


rio, mas na imagem sobre a superfície do rio é a sua mão direita que vemos na água.
Nessas condições, dizemos que objeto e imagem são figuras enantiomorfas, pois
são simétricas em relação ao eixo que pertence ao plano do espelho.

Não deixe de mencionar que


Qualquer superfície problemas de óptica geométrica
bem lisa e polida, são problemas de geometria
metálica ou não, plana em que se praticam as leis
reflete a luz, sendo de reflexão. Pode ser proveitosa
por isso chamada uma interferência do professor
de Matemática na recordação
de espelho.
das propriedades de triângulos
Nesta pintura de
semelhantes.
Caravaggio (Narciso,
O que torna este segmento
cerca de 1595) bastante atraente é a
vemos o mito de possibilidade de se reproduzirem
Narciso, herói grego com facilidade os resultados
que se apaixona obtidos na teoria: é, portanto,
pela própria uma ótima oportunidade de
imagem. (Óleo serem propostas atividades
sobre tela). experimentais.

132 UNIDADE 2 • ÓPTICA GEOMÉTRICA


Leis da reflexão
Vamos começar com um experimento simples, em que tomamos uma lanterna
na qual a trajetória da luz é parcialmente interrompida por um disco de papel com
uma fenda de 3 cm x 1 cm; o feixe de luz deverá sair por essa fenda. Uma lanterna
laser também serve.
Em uma sala escura, fazemos com que
esse feixe incida sobre um espelho plano dis-
posto na horizontal e próximo de uma pare-
de, de modo a refletir no espelho, em P, e
incidir na parede, em A.
Observando os triângulos LMP e AOP,
concluímos que são semelhantes ( verifique

~~ = ~~),o que implica LPM = APO.


,_ _ r L•- __ _
M _________ _ :P
~ !_______ --_\ •-------

que

Esse fato se verifica em qualquer tipo de es-


pelho, e vamos usá-lo para estabelecer uma
'
das leis da reflexão.
Nessa fotografia, os segmentos
LP e AP formam o mesmo A figura 1 abaixo representa, em perspectiva, a trajetória de um raio de luz (R)
ângulo com a reta N. Esta é uma que incide sobre um espelho plano (superfície 5) e é refletido regularmente (R,). A
das leis da reflexão.
reta N, perpendicular ao plano do espelho no ponto de incidência do raio, deno-
mina-se reta normal. Ri, R, e N estão contidos no plano rc.
A figura 2 é um corte da figura 1 segundo o plano que contém N, Ri e R, Note que
Ri e R, formam com a reta N dois ângulos, 7 e r, chamados respectivamente ângulo de
incidência e ângulo de reflexão, e tais que 1 = f, como vimos no experimento.
A figura 3 mostra um caso particular de reflexão regular com incidência normal,
quando i = r =Oº.
N R;=N=R,

espelho

plano 1t representação do incidência


espelho plano normal
Figura 1 Figura 2 Figura 3

Essas figuras traduzem as duas leis da reflexão regular:

• 1ª lei: O raio incidente, a reta normal e o raio refletido estão contidos em um


mesmo plano.
• 2ª lei: Os ângulos de incidência e de reflexão são congruentes.

Essas leis explicam a formação de todas as imagens por reflexão em espelhos,


planos ou curvos.

CAPÍTULO 8 • AS LEIS DA REFLEXÃO EOS ESPELHOS PLANOS 133


Imagem de um ponto objeto
Quando um ponto objeto A (fonte de luz primária ou secundária) \9
e..
f-
é colocado em frente a um espelho plano, ele forma ou conjuga ~

observador ~
com a fonte uma imagem A' que é vista por um observador através t:
da reflexão dos raios oriundos de A. ª
Na figura 1 o observador vê a imagem A' como se a fonte (A) /77;,..;....----- . , - - - - - - - = - n (S)
/ ~, t:í
estivesse atrás do espelho. Isso ocorre porque o prolongamento /
do raio refletido R, passa por A' na projeção perpendicular de A N. ,i///
(segmento A;,.:.). .,,,/\'-.. Figura 1
Na figura 2, note que, de quaisquer posições (a, b ou e), o observador verá a mes-
ma imagem A'. Os ângulos de incidência e reflexão mudam, mas sempre com T = f.
Pela construção geométrica da figura 3, temos que o triângulo ABI é congruente ao
triângulo ;,.:.si; em decorrência, os segmentos de reta AB e A'B possuem medidas iguais.
Isso quer dizer que o ponto objeto A e o ponto imagem A' são simétricos em relação ao
espelho. Portanto, para obter a imagem de um objeto pontual, basta traçar por ele uma
reta, perpendicularmente ao espelho, e marcar simetricamente o ponto imagem.
A figura 4 mostra três pontos imagem obtidos desse modo.

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A• ''
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'' '1 / I , ,
/'i."' ~
'"°p: ''
''
Figura 2 Figura 3 Figura 4 K'

A natureza dos pontos imagem e objeto


O ponto imagem A' pode ser chamado, quanto à sua natureza, de ponto imagem virtual, ponto imagem real ou
"ponto" imagem imprópria, dependendo do tipo de feixes luminosos incidentes e refletidos, em relação ao espelho.
Na figura 1, abaixo, A' é o ponto imagem virtual, obtido pela interseção dos prolongamentos dos raios re-
fletidos. É o caso das imagens obtidas em espelhos planos. O ponto A é chamado de ponto objeto real.
Na figura 2, A' é o ponto imagem real, obtido pela interseção efetiva dos próprios raios refletidos. Essa imagem
é captável com um anteparo. O ponto A é chamado de ponto objeto virtual.
Na figura 3, A' é o "ponto" imagem imprópria. Ele não é obtido porque a imagem não se forma, visto que os
raios são refletidos paralelamente ou quase com a mesma direção (a imagem forma-se no infinito). O "ponto" A
é chamado de ponto objeto impróprio (que também está situado no infinito ou não existe).

raios refletidos feixe incidente


raios refletidos
divergentes convergente raios refletidos paralelos
feixe ,
incidente :
divergente:
I ,
I ,
I , ,

~-
'
'
A'
,,
I ,

A
/Y.. = imagem virtual /'i. = imagem real
(atrás do espelho) (frente do espelho) /'i. = imagem imprópria
Figura 1 Figura 2 Figura 3

134 UNIDADE 2 • ÓPTICA GEOMÉTRICA


Imagem de um corpo extenso
Um corpo extenso é constituído por infinitos pontos objeto; portanto, a imagem
de cada um deles é simétrica, em relação ao espelho, ao ponto objeto que a originou:
se um ponto objeto estiver a 50 cm do espelho, a sua imagem também estará.
Retomando a figura 4 da página anterior e ligando os pontos objeto A, B e C,
obtemos um corpo extenso triangular, do e
mesmo modo que a sua respectiva imagem
A'B'C', conforme mostra a figura ao lado. A
A imagem vista no espelho é direita (ou di-
reta), pois não há inversão entre o "acima" e o 1m /lll~
>-
"abaixo" (a imagem não fica de cabeça para
baixo).
Assim, podemos dizer que um espelho pla- C'
no conjuga com o objeto uma imagem virtual,
Note, na figura, que a imagem e o objeto
Cada ponto deste vaso com rosa direita e de mesmo tamanho, posicionada si- são simétricos em relação ao espelho e
é uma fonte de luz, que produz
uma imagem virtual através do metricamente a ele em relação ao plano do têm o mesmo tamanho.
espelho plano. espelho.

A FÍSICA NO COTIDIANO

A imagem e o carimbo
r• ••
Muito provavelmente você já viu ou utilizou um carimbo. Os carimbos são peças de metal, madeira ou
borracha que apresentam letras, números e/ou figuras gravadas em relevo, só que invertidas, como se fossem
imagens deles vistas através de um espelho plano. Assim, quando carimbadas, as letras, os números e/ou as
figuras aparecem na sua disposição normal.
Exemplificando: na figura da esquerda, vemos em frente a um espelho plano vertical a letra F e a sua
respectiva imagem; na da direita, como a imagem deverá ser gravada em relevo se quisermos confeccionar
um carimbo dessa letra.

Veículos que precisam


ser identificados pelos
motoristas de outros veículos
pelos retrovisores têm sua
identificação gravada no capô
r 1
de forma invertida; veículos
da polícia, bombeiros e espelho
ambulâncias são identificados plano
desse modo.

Faça um exercício construindo imagens de outras letras, de algumas palavras (seu nome, seu time predileto)
ou de alguma figura. Em que outro contexto esse tipo de construção é adequado?

Deslocamento e velocidade da imagem


Considere na figura a seguir um observador O parado, que tem diante de si um
espelho vertical na posição 1. Suponha que, em um intervalo de tempo Lit, o espelho
se desloque Lixe (afastando-se de O) e passe a ocupar a posição 2, também vertical.
A imagem, simultaneamente, passa de /1 para /2 , deslocando-se Lix;.

CAPÍTULO 8 • AS LEIS DA REFLEXÃO EOS ESPELHOS PLANOS 135


2

o ----ill<;---- o
e:
1, ---------------------- .
i
-v.
V,

o"'
.g
"'
_Q
<(

---a------a---
-----b----------b-----
Observa-se, pela figura, que:
• o deslocamento da imagem é Ax; = 2b - 2a = 2(b - a);
• o deslocamento do espelho é Axe = b - a.
• Portanto, Ax; = 2Axe. O deslocamento da imagem é o dobro do deslocamento do
espelho.
Dividindo-se esta última expressão por At * O, o intervalo de tempo gasto nos
deslocamentos simultâneos do espelho e da imagem, tem-se:
Ax 2Ax Ax Ax
At' = Ate, em que: At' =v;, velocidade da imagem, e At° =ve, velocidade do espelho.
Assim, v; = 2ve: a velocidade média da imagem é duas vezes a do espelho, consi-
derando-se o observador parado.

• • Exercícios resolvidos
••
ER1. Na figura a seguir estão dois pontos objeto Me N Veja a representação da imagem dos pontos:
e um observador O diante de um espelho plano f.
<.9

~
e..
E f--
~
'ºu,
o ~
t:
ª ',,
',,
..............

M•
--- ------------- ,,
',,
.
M'

N•
ER2. Temos um objeto triangular ABC diante de um
espelho plano f.
Construa graficamente as suas respectivas imagens e
trace os raios que partem dos pontos, sofrem reflexão
no espelho e alcançam o observador.

Resolução:
M' e N' são os pontos simétricos de M e N, em relação
ao espelho. Ligando-se M' a O