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Termodinâmica I

Prof. Germano Schamann Bortolotto

2018
Copyright © UNIASSELVI 2018

Elaboração:
Prof. Germano Schamann Bortolotto

Revisão, Diagramação e Produção:


Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI

Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri


UNIASSELVI – Indaial.

B739t

Bortolotto, Germano Schamann


Termodinâmica I. / Germano Schamann Bortolotto – Indaial:
UNIASSELVI, 2018.

184 p.; il.


ISBN 978-85-515-0191-7

1.Termodinâmica – Brasil. II. Centro Universitário Leonardo Da


Vinci.

CDD 621.402

Impresso por:
Apresentação
Saudações, acadêmico! Muito bem-vindo à disciplina de
Termodinâmica I. Ao longo dos próximos meses, exploraremos esta área tão
importante da Física. A Termodinâmica tem sido estudada há muitos séculos
e é a base do funcionamento de diversas máquinas e indispensáveis à nossa
sociedade atual.

Neste livro, vamos aprender sobre os conceitos de temperatura e


calor, criar nossas próprias escalas termométricas e entender o que acontece
quando aquecemos ou esfriamos diferentes substâncias. Nossas discussões
serão norteadas pelos desenvolvimentos históricos e pela demonstração de
aplicações práticas no nosso dia a dia.

Dividimos este livro em três unidades, que apresentarão alguns dos


conceitos mais importantes da Termodinâmica como fundamentação para
estudos ainda mais avançados em Física.

Na Unidade 1, entenderemos o conceito de temperatura. Também


vamos discutir as escalas termométricas. Aprenderemos sobre suas origens,
seus diferentes usos e como converter uma medida de temperatura de
uma escala à outra. Você ainda aprenderá a criar a sua própria escala de
temperatura! Ao final da unidade, veremos alguns dos efeitos causados pela
mudança de temperatura em diferentes substâncias e qual a importância
desse conhecimento no mundo atual.

Na Unidade 2, vamos discutir o conceito de calor e ver como os


corpos podem mudar de estado. Veremos as diferentes formas com que o
calor pode se propagar e apresentaremos a Primeira Lei da Termodinâmica,
um dos grandes triunfos da história da Ciência.

Por fim, na Unidade 3, utilizaremos todo o conhecimento das unidades


anteriores para estudar o modelo para o gás ideal, quais são seus sucessos
e limitações. Veremos como este modelo pode ser usado para entender
diversos fenômenos envolvendo variação de temperatura, volume e pressão.

Ao final deste livro, você terá um bom conhecimento sobre os


principais conceitos e a importância da Termodinâmica. Entretanto, é
importante ressaltar que este é apenas o início de nosso aprendizado, que
será continuado na disciplina de Termodinâmica II.

Para que seu aprendizado seja significativo, não se esqueça de que


você deve aprofundar seus estudos com leituras complementares, exercícios

III
de outros livros, vídeos e experiências. Para isso, serão necessários disciplina
e comprometimento com sua formação acadêmica.

Bons estudos e até a próxima!

Prof. Germano Schamann Bortolotto

NOTA

Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto


para você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há
novidades em nosso material.

Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é


o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um
formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura.

O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova
diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também
contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo.

Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente,


apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade
de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador.
 
Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para
apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto
em questão.

Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas
institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa
continuar seus estudos com um material de qualidade.

Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de


Desempenho de Estudantes – ENADE.
 
Bons estudos!

IV
V
VI
Sumário
UNIDADE 1 – EQUILÍBRIO TÉRMICO E LEI ZERO DA TERMODINÂMICA........................ 1

TÓPICO 1 – TEMPERATURA E LEI ZERO DA TERMODINÂMICA.......................................... 3


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 3
2 TEMPERATURA.................................................................................................................................... 3
3 LEI ZERO DA TERMODINÂMICA.................................................................................................. 4
RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 8
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 9

TÓPICO 2 – ESCALAS TERMOMÉTRICAS...................................................................................... 11


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 11
2 TERMÔMETROS.................................................................................................................................. 11
3 ESCALAS TERMOMÉTRICAS.......................................................................................................... 13
3.1 A ESCALA FAHRENHEIT.............................................................................................................. 13
3.2 A ESCALA CELSIUS........................................................................................................................ 14
3.3 A ESCALA KELVIN......................................................................................................................... 21
RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 28
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 30

TÓPICO 3 – DILATAÇÃO TÉRMICA.................................................................................................. 33


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 33
2 EXPANSÃO E CONTRAÇÃO............................................................................................................. 33
3 DILATAÇÃO LINEAR.......................................................................................................................... 34
4 DILATAÇÃO SUPERFICIAL.............................................................................................................. 38
5 DILATAÇÃO VOLUMÉTRICA.......................................................................................................... 43
6 DILATAÇÃO VOLUMÉTRICA DOS LÍQUIDOS.......................................................................... 49
7 DILATAÇÃO ANÔMALA DA ÁGUA.............................................................................................. 54
RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................ 58
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 61

UNIDADE 2 – CALOR E A PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA.......................................... 63

TÓPICO 1 – NATUREZA E QUANTIDADE DE CALOR................................................................ 65


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 65
2 A NATUREZA DO CALOR................................................................................................................. 65
3 QUANTIDADE DE CALOR................................................................................................................ 68
LEITURA COMPLEMENTAR................................................................................................................ 78
RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 83
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 85

TÓPICO 2 – FORMAS DE PROPAGAÇÃO DE CALOR.................................................................. 87


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 87
2 CONVECÇÃO........................................................................................................................................ 87
3 RADIAÇÃO............................................................................................................................................ 88

VII
4 CONDUÇÃO.......................................................................................................................................... 91
RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 98
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 100

TÓPICO 3 – PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA.................................................................... 103


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 103
2 TRABALHO EM TRANSFORMAÇÕES GASOSAS..................................................................... 103
3 PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA E PROCESSOS TERMODINÂMICOS.................. 107
4 PROCESSO ISOTÉRMICO................................................................................................................. 109
5 PROCESSO ISOBÁRICO..................................................................................................................... 111
6 PROCESSO ISOVOLUMÉTRICO..................................................................................................... 112
7 PROCESSO ADIABÁTICO................................................................................................................. 113
8 EXPANSÃO LIVRE................................................................................................................................ 115
9 PROCESSOS CÍCLICOS...................................................................................................................... 116
RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................ 122
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 124

UNIDADE 3 – PROPRIEDADES DOS GASES IDEAIS................................................................... 127

TÓPICO 1 – EQUAÇÃO DE ESTADO................................................................................................. 129


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 129
2 EQUAÇÃO DE ESTADO..................................................................................................................... 129
2.1 LEI DE BOYLE.................................................................................................................................. 129
2.2 LEI DE CHARLES............................................................................................................................. 132
2.3 A LEI DOS GASES IDEAIS.............................................................................................................. 135
LEITURA COMPLEMENTAR................................................................................................................ 144
RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 146
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 148

TÓPICO 2 – ENERGIA INTERNA E CAPACIDADE TÉRMICA................................................... 151


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 151
2 ENERGIA INTERNA............................................................................................................................ 151
3 CALOR ESPECÍFICO MOLAR A VOLUME CONSTANTE......................................................... 154
RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 162
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 163

TÓPICO 3 – PROCESSOS ADIABÁTICOS PARA GASES IDEAIS.............................................. 165


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 165
2 EXPANSÃO ADIABÁTICA................................................................................................................. 165
3 TRABALHO EM EXPANSÃO ADIABÁTICA................................................................................. 172
RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................ 180
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 182
REFERÊNCIAS.......................................................................................................................................... 183

VIII
UNIDADE 1

EQUILÍBRIO TÉRMICO E LEI


ZERO DA TERMODINÂMICA

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir do estudo dessa unidade, você deverá ser capaz de:

• reconhecer situações que envolvam equilíbrio termodinâmico;

• expressar e entender a Lei Zero da Termodinâmica;

• descrever o funcionamento de um termômetro;

• distinguir diferentes escalas termométricas;

• transformar temperaturas entre as principais escalas termométricas utili-


zadas atualmente;

• entender o fenômeno da dilatação térmica dos materiais;

• analisar diferentes formas de dilatação para objetos considerados unidi-


mensionais, bidimensionais e tridimensionais;

• avaliar a dilatação real e aparente de líquidos;

• apontar a importância de juntas de dilatação em estruturas e construções;

• entender o comportamento anômalo para a dilatação de algumas substân-


cias (como a água).

PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade você
encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.

TÓPICO 1 – TEMPERATURA E LEI ZERO DA TERMODINÂMICA

TÓPICO 2 – ESCALAS TERMOMÉTRICAS

TÓPICO 3 – DILATAÇÃO TÉRMICA

1
2
UNIDADE 1
TÓPICO 1

TEMPERATURA E LEI ZERO DA TERMODINÂMICA

1 INTRODUÇÃO
A Física é um dos ramos mais abrangentes da Ciência. Seus objetos de
estudo vão desde os maiores corpos do Universo (como estrelas, aglomerados
de estrelas e galáxias) até as menores partículas (como elétrons e quarks). As
mais diversas áreas da Física se desenvolveram para tentar explicar uma grande
variedade de fenômenos, como movimentos, colisões, gravitação, a dinâmica
dos fluidos e o eletromagnetismo. Para isso foi necessário o desenvolvimento de
conceitos como força e energia.

A área da Física que lida com transferências de energia e seus efeitos nos
mais variados sistemas é a Termodinâmica. É por meio dela que se pode entender
conceitos como temperatura, entropia e mudanças de fase.

A Termodinâmica lida com os fenômenos que envolvem aquecimento e


resfriamento. Também tenta explicar a dilatação dos materiais e o comportamento
dos gases.

Neste tópico será feita uma apresentação dos conceitos mais importantes
da Termodinâmica, mostraremos diversas aplicações para o melhor entendimento
dos fenômenos que envolvem mudanças de temperatura e seus efeitos na matéria.

2 TEMPERATURA
Em nosso dia a dia encontramos diversas situações em que utilizamos
uma ideia intuitiva de temperatura. É possível reconhecer quando um objeto está
mais frio ou mais quente que outro. Entretanto, como definir realmente o que
é temperatura, e como percebemos as diferenças entre corpos mais quentes ou
mais frios?

Essa não é uma questão simples. Tome como exemplo a experiência das
bacias, conforme descrita por Michelena e Mors (2008):

• Pegue três bacias, uma com água morna, outra com água à temperatura
ambiente, e outra com uma mistura de gelo e água.
• Mergulhe uma das mãos na bacia com a mistura de água e gelo, e a outra mão
na bacia com água morna.

3
UNIDADE 1 | EQUILÍBRIO TÉRMICO E LEI ZERO DA TERMODINÂMICA

• Depois de algum tempo, retire as mãos de ambas as bacias e as coloque dentro


da bacia com água à temperatura ambiente.
• Você irá perceber que as duas mãos terão sensações diferentes. A mão que
estava dentro da bacia de água com gelo irá sentir a água mais quente, e a mão
que estava em contato com a água morna irá ter a sensação de que a água dessa
terceira bacia está mais fria.

Com essa experiência podemos perceber que medir temperaturas não é


algo trivial. Não podemos nos basear somente em nossa sensação térmica, pois
seria impossível comparar as temperaturas.

Portanto, foi necessário desenvolver outros métodos para avaliar a


temperatura de um corpo. Para entender como podemos fazer isso, precisamos
conhecer a Lei Zero da Termodinâmica.

3 LEI ZERO DA TERMODINÂMICA


Imagine que você está tomando uma deliciosa xícara de café quente
enquanto tenta adiantar algumas tarefas importantes. Entretanto, você fica tão
concentrado nas suas atividades que acaba esquecendo da xícara de café. Após
algum tempo você se dá conta de que a xícara está lhe esperando e toma um novo
gole. Péssima ideia! O café, que antes estava quente, esfriou e a experiência não é
mais tão agradável.

Nesta situação o café não está isolado termicamente, isto é, ele está em
contato com o ar e pode trocar energia com o meio ao seu redor. O café, que
antes estava quente, foi perdendo energia até atingir a mesma temperatura do
ambiente. Isso significa que a xícara de café está em equilíbrio térmico com o ar à
sua volta. Ao atingir o equilíbrio, cessaram as trocas de energia entre o café e o ar.

Vamos imaginar que possuímos um instrumento que seja capaz de avaliar


a mudança de temperatura de um dado corpo ou substância. A esse instrumento
damos o nome de termômetro.

O funcionamento de um termômetro é baseado na constatação de que


algumas substâncias têm propriedades físicas, como o volume, alteradas por
mudança de temperatura. Sendo assim, é possível quantificar essa mudança na
temperatura com base na avaliação das alterações físicas dessa substância.

Imagine que temos dois objetos, A e B, que não estão em contato térmico, ou
seja, não trocam energia. Utilizamos o termômetro para medir suas temperaturas,
conforme ilustrado na Figura 1. Para isso, colocamos o termômetro em contato
com o corpo A e depois com o corpo B, e medimos as temperaturas. Se os valores
anotados forem iguais, podemos dizer que os corpos A e B estão em equilíbrio
térmico entre si, ou seja, estão com a mesma temperatura.

4
TÓPICO 1 | TEMPERATURA E LEI ZERO DA TERMODINÂMICA

Essa situação sempre é verificada experimentalmente. Dada sua


importância para a conceituação de temperatura, esta ideia foi denominada de
Lei Zero da Termodinâmica, que é enunciada a seguir:

Se os corpos A e C estão em equilíbrio térmico com o corpo B, então o


corpo A está em equilíbrio térmico com C.

Na realidade, a Lei Zero surgiu depois da Primeira e da Segunda Lei


da Termodinâmica, mas, por ajudar a definir a temperatura, que é um conceito
extremamente importante para essas duas leis, foi escolhido o termo “zero”,
precedendo as demais.

Na imagem (1), os corpos A e B estão separados e isolados. Um


termômetro entra em contato com ambos e entra em equilíbrio térmico, marcando
a temperatura, que é a mesma para os dois corpos. Na imagem (2), os corpos A e
B são colocados em contato um com o outro. Vemos que ambos também estarão
em equilíbrio térmico C.

FIGURA 1 – LEI ZERO DA TERMODINÂMICA

FONTE: O autor

5
UNIDADE 1 | EQUILÍBRIO TÉRMICO E LEI ZERO DA TERMODINÂMICA

Exemplo 1:

(UFRJ-RJ) Considere quatro objetos A, B, C e D. Observou-se que A e B


estão em equilíbrio térmico entre si. O mesmo para C e D. Entretanto, A e C não
estão em equilíbrio térmico entre si. Pode-se concluir que:

a) B e D estão à mesma temperatura


b) B e D podem estar em equilíbrio térmico, mas também podem não estar.
c) B e D não podem estar à mesma temperatura.
d) A Lei Zero da Termodinâmica não se aplica a este caso, porque existem mais de
três objetos.
e) A, B, C e D estão à mesma temperatura.

Resolução:

De acordo com a Lei Zero da Termodinâmica, podemos afirmar que, se


A e B estão em equilíbrio térmico, então as temperaturas de A e B são iguais,
ou seja, TA = TB. Da mesma forma, se C e D estão em equilíbrio térmico, então as
temperaturas de C e D também são iguais entre si (TC = TD).

A questão nos informa ainda que A e C não estão em equilíbrio térmico,


o que, pela Lei Zero da Termodinâmica, indica que ambos possuem diferentes
temperaturas, logo TA ≠ TC.

Analisando as alternativas, vemos imediatamente que as alternativas a);


b); e) não podem ser verdadeiras, dado que B e D não estão à mesma temperatura
por não estarem em equilíbrio térmico.

A alternativa d) também está errada, pois a Lei Zero da Termodinâmica


é válida para qualquer sistema, independente de quantos objetos estão sendo
considerados.

Resta, portanto, a alternativa c), que é a única verdadeira. Como TA ≠ TC ,


TA = TB e TC = TD, temos que, obrigatoriamente TE ≠ TD.

É muito importante termos um bom entendimento da Lei Zero da
Termodinâmica, pois é com base nela que podemos entender diversos fenômenos
bastante comuns.

Você já perguntou por que nosso corpo sua quando o dia está quente? Ou
por que os pelos de nosso corpo ficam eriçados quando estamos com frio?

De acordo com a Lei Zero da Termodinâmica, corpos em contato tendem a


entrar em equilíbrio térmico entre si. Assim, se a temperatura ambiente for de 20 oC,
todos os corpos e objetos nesse ambiente também estariam a 20 oC.

6
TÓPICO 1 | TEMPERATURA E LEI ZERO DA TERMODINÂMICA

Entretanto, os seres humanos são animais homeotérmicos, isto é, são


capazes de manter uma temperatura corporal estável apesar das diferenças
térmicas com o ambiente a sua volta.

Suar, contrair os músculos e ter arrepios são formas encontradas pelo


corpo humano de tentar manter sua temperatura estável, em torno de 37 oC, que
é sua temperatura ótima de funcionamento, e não entrar em equilíbrio térmico
com a temperatura em seu exterior.

7
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você aprendeu que:

• Se os corpos A e C estão em equilíbrio térmico com o corpo B, então o corpo


A está em equilíbrio térmico com C. O enunciado dessa lei nos indica que
corpos em equilíbrio térmico estão também à mesma temperatura.

• É com base nessa constatação que podemos desenvolver instrumentos (os


termômetros) para medição de temperatura.

8
AUTOATIVIDADE

1 Assinale a alternativa correta sobre a definição do equilíbrio térmico:

a) ( ) Quando dois corpos que não estão em contato um com o outro estiverem
sob a mesma pressão, dizemos que eles estão em equilíbrio térmico.
b) ( ) Quando dois corpos estão em contato entre si e apresentam diferentes
temperaturas, dizemos que os dois corpos estão em equilíbrio térmico.
c) ( ) Quando dois corpos estão em contato entre si e apresentam mesma
pressão e volume, dizemos que eles estão em equilíbrio térmico.
d) ( ) Quando dois objetos estão em contato um com o outro e estão com a
mesma temperatura, dizemos que os corpos estão em equilíbrio térmico.

2 Assinale V se a alternativa for verdadeira e F se a alternativa for falsa:

a) ( ) Imediatamente após adicionarmos uma pequena quantidade de leite


gelado a uma xícara de café quente, teremos um sistema em equilíbrio
térmico.
b) ( ) Em um dia de inverno em que a temperatura máxima foi de 15 oC, uma
pessoa e o mar onde ela está nadando representam um sistema em equilíbrio
térmico.
c) ( ) Um termômetro em contato com a pele entra em equilíbrio térmico após
alguns minutos e indicará a temperatura corporal.
d) ( ) É possível encontrarmos dois corpos em temperaturas diferentes mas
que estejam em equilíbrio térmico entre si.

3 (FATEC-SP) Um sistema A está em equilíbrio térmico com outro B e este não


está em equilíbrio térmico com um outro corpo um outro C. Então, podemos
dizer que:

a) ( ) Os sistemas A e C possuem a mesma quantidade de calor.


b) ( ) A temperatura de A é diferente da de B.
c) ( ) Os sistemas A e B possuem a mesma temperatura.
d) ( ) A temperatura de B é diferente da de C, mas C pode ter temperatura igual
à do sistema A.
e) ( ) Nenhuma das anteriores.

4 (Cefet-PR) Quando dois corpos, de materiais diferentes e massas iguais,


estão em equilíbrio térmico podemos afirmar que:

a) ( ) Ambos possuem a mesma capacidade térmica.


b) ( ) Ambos possuem o mesmo calor específico.
c) ( ) Ambos possuem a mesma temperatura.
d) ( ) Ambos possuem a mesma variação térmica.
e) ( ) Ambos possuem a mesma quantidade de calor.

9
10
UNIDADE 1
TÓPICO 2

ESCALAS TERMOMÉTRICAS

1 INTRODUÇÃO
Para utilizarmos algum instrumento para efetuar qualquer tipo de medida
é necessário que este instrumento esteja calibrado, ou seja, que ele apresente
sempre os mesmos valores sob as mesmas condições.

Desta forma, é possível garantir que diferentes profissionais obtenham os


mesmos valores quando utilizam dado instrumento. Experimentos podem então
ser reproduzidos e o conhecimento científico pode avançar.

Nesta unidade estamos interessados em fenômenos térmicos. Um dos


principais instrumentos utilizados para o estudo desse tipo de fenômeno é o
termômetro, que será objeto de estudo deste tópico.

2 TERMÔMETROS
Como mencionamos anteriormente, um termômetro é baseado no
comportamento de certas propriedades físicas de algumas substâncias sob
diferentes temperaturas.

Como exemplo de propriedades físicas que variam com a temperatura


e podem ser facilmente verificadas temos o volume de um fluido, a resistência
elétrica de um fio condutor e a pressão de um gás mantido a volume constante.

A Figura 2 ilustra um termômetro de mercúrio. Esse termômetro é baseado


no fato de que o mercúrio sofre grande dilatação mesmo com variações pequenas
de temperatura. Portanto, se esta substância for colocada dentro de um tubo
capilar que permita sua expansão em apenas uma dimensão, aproximadamente,
então podemos medir a diferença de altura em função do aquecimento ou
resfriamento.

Os termômetros de mercúrio já foram bastante comuns, porém sua


utilização tem sido diminuída em função da possibilidade de intoxicação por
mercúrio quando um desses instrumentos é quebrado ou descartado.

11
UNIDADE 1 | EQUILÍBRIO TÉRMICO E LEI ZERO DA TERMODINÂMICA

FIGURA 2 –TERMÔMETRO DE MERCÚRIO

FONTE: Disponível em: <https://goo.gl/kVD2C2>. Acesso em: 11 abr. 2018.

A Figura 3 mostra um termômetro baseado na dilatação de metais. Como


veremos adiante, diferentes metais sofrem maior ou menor dilatação em função
da variação da temperatura. Assim, se criarmos um fio com duas hastes de metal
conectadas, e o aquecermos, parte do fio dilatará mais. Essa diferença no tamanho
de cada parte de metal resultará na dobra do fio. Podemos colocar uma agulha
na ponta desse fio e criar um papel com marcador para registro. Com o aumento
da temperatura, o fio bimetálico se entorta e a agulha gira, indicando o aumento
da temperatura. O fenômeno da dilatação de diferentes materiais será melhor
discutido no Tópico 3 dessa unidade.

A seguir, note a espiral de metal na base do ponteiro:

FIGURA 3 – TERMÔMETRO BIMETÁLICO

FONTE: Disponível em: <https://www.freeimages.com/photo/


freezing-1250541>. Acesso em: 13 jul. 2018.

12
TÓPICO 2 | ESCALAS TERMOMÉTRICAS

Atualmente é crescente o uso de termômetros digitais, sendo o tipo mais


comum encontrado em farmácias para verificar a temperatura do corpo humano.
Esse tipo de termômetro faz a medida da temperatura com base na variação da
resistência elétrica de um resistor presente em seu circuito interno.

Afinal, como podemos ter certeza de que os termômetros estão marcando


realmente a mesma temperatura?

Para compararmos os valores obtidos por diferentes termômetros é


necessário que todos estejam calibrados e utilizem a mesma escala termométrica.
Para garantir que isso ocorra, os termômetros devem marcar a mesma temperatura
para eventos específicos. Entre esses eventos podemos citar os pontos de fusão ou
ebulição da água.

Para podermos avaliar se houve aumento ou diminuição de temperatura


também devemos comparar a variação dentro de uma mesma escala de
temperatura.

3 ESCALAS TERMOMÉTRICAS
Muitas escalas termométricas foram desenvolvidas ao longo dos últimos
séculos. Atualmente as mais utilizadas são as escalas Fahrenheit, Celsius e Kelvin.
Descreveremos brevemente suas origens, utilizações e como transformar os
valores de temperatura de uma para outra escala.

3.1 A ESCALA FAHRENHEIT


Uma das primeiras escalas termométricas a ser bastante difundida é a
escala Fahrenheit. Desenvolvida pelo físico Daniel Gabriel Fahrenheit em 1724,
esta escala sofreu algumas variações até chegar ao padrão utilizado hoje em dia.

Para determinar o zero em sua escala, Fahrenheit utilizou uma mistura de


água, gelo e cloreto de amônio. Seu segundo ponto de calibração era baseado na
temperatura do corpo humano sadio.

A escala Fahrenheit sofreu algumas mudanças ao longo dos anos.


Atualmente seus pontos de calibração são baseados nos pontos de fusão e ebulição
da água, que, nesta escala, ocorrem em 32 oF e 212 oF respectivamente.

Apesar de ter sido bastante utilizada no passado, especialmente em países


de língua inglesa, a escala Fahrenheit é a escala padrão em poucos países, como
Belize, Bahamas e os Estados Unidos. A Figura 4 ilustra os países que utilizam
esta escala atualmente. Os países marcados em verde utilizam a escala Fahrenheit.
Todos os demais utilizam a escala Celsius.

13
UNIDADE 1 | EQUILÍBRIO TÉRMICO E LEI ZERO DA TERMODINÂMICA

FIGURA 4 – UTILIZAÇÃO DAS ESCALAS CELSIUS E FAHRENHEIT NO MUNDO

FONTE: Disponível em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Countries_that_use_


Fahrenheit.svg>. Acesso em: 23 abr. 2018.

3.2 A ESCALA CELSIUS


No restante do mundo, a escala termométrica padrão é a escala Celsius.
Desenvolvida pelo sueco Anders Celsius em 1742, ela foi originalmente
denominada de escala centígrada. O ponto zero desta escala é baseado no ponto
de fusão do gelo (0 oC). Seu outro ponto de calibração é a temperatura de ebulição
da água, que ocorre a 100 oC à pressão de 1 atm.

Entretanto, sabemos que substâncias diferentes se comportam de


maneiras diferentes à uma dada variação de temperatura, podendo apresentar
maior ou menor dilatação, por exemplo. De acordo com Serway (2004, p. 557),
“... as discrepâncias entre os diferentes tipos de termômetros são especialmente
grandes quando as temperaturas a ser medidas estão distantes dos pontos de
calibração”.

Apesar das diferenças entre as escalas Celsius e Fahrenheit, é muito fácil


converter o valor da temperatura de uma escala para outra. A Figura 5 representa
uma temperatura obtida simultaneamente por dois termômetros, um na escala
Celsius e outro na escala Fahrenheit.

14
TÓPICO 2 | ESCALAS TERMOMÉTRICAS

FIGURA 5 – TEMPERATURA MEDIDA COM O USO DE


TERMÔMETRO NAS ESCALAS CELSIUS E FAHRENHEIT

FONTE: Adaptado de: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/


commons/thumb/7/70/Thermometer_CF.svg/170px-Thermometer_
CF.svg.png>. Acesso em: 13 jul. 2018.

Na Figura 5 também estão indicadas as temperaturas para os pontos de


fusão e ebulição da água nas duas escalas.

Podemos obter uma correspondência entre as duas escalas por meio de


uma relação de proporcionalidade muito simples. Observando a Figura 5, vemos
que os pontos de fusão e ebulição ocorrem em diferentes marcações em cada
escala de temperatura, por exemplo, a fusão ocorre na marcação 0 para a escala
Celsius e na marcação 32 para a escala Fahrenheit. Com base nessas diferenças
e nas proporções entre temperaturas de fusão e ebulição, podemos estabelecer a
seguinte equação.

Em que:

tc − 0 t f − 32
=
100 − 0 212 − 32

15
UNIDADE 1 | EQUILÍBRIO TÉRMICO E LEI ZERO DA TERMODINÂMICA

Podemos simplificar os termos até obter uma equação mais simples:

tc t − 32
= f
100 180
tc t f − 32
=
5 9
9tc
tf
= + 32
5

Assim, para obtermos a temperatura na escala Fahrenheit, basta


multiplicarmos a temperatura em Celsius por um fator 9 5 e deslocar mais 32
unidades para compensar a diferença no valor da temperatura de fusão.

Exemplo 2:

Três amigos viajam aos Estados Unidos para visitar alguns pontos
turísticos. Um deles, Gabriel, fica doente no primeiro dia. Para verificar a
gravidade da situação, seus amigos compraram um termômetro e mediram a
temperatura de Gabriel. O termômetro indicou o valor 102,2 oF.

a) Com base nessa medição, os amigos de Gabriel devem ficar preocupados?


Considere uma temperatura normal para o corpo humano saudável sendo
algo entre 36,5-37,5 oC.

b) Dentro de qual intervalo o termômetro deveria marcar caso Gabriel estivesse


com a temperatura corporal normal?

Resolução:

a) Podemos utilizar as equações obtidas anteriormente para converter os valores


de temperatura entre as escalas Celsius e Fahrenheit.

Isolando tc para obter a temperatura equivalente na escala Celsius,


teremos:

tc t − 32
= f
100 180
tc t f − 32
=
5 9
5(t f − 32)
tc =
9

16
TÓPICO 2 | ESCALAS TERMOMÉTRICAS

Agora basta substituirmos o valor da temperatura marcado pelo


termômetro (tf = 102,2 oF):

5 (102, 2 − 32 )
tc =
9
5 ( 70, 2 )
tc =
9
5 ( 70, 2 )
tc =
9
tc = 39 oC

Com base nesses cálculos, verificamos que Gabriel está com febre alta,
pois a temperatura medida está bem acima daquela considerada normal para o
ser humano. Seus amigos devem considerar a possibilidade de levá-lo logo a um
médico.

b) Para calcularmos qual o intervalo de temperatura de uma pessoa saudável utilizando


um termômetro na escala Fahrenheit, devemos fazer uma nova conversão de
temperatura. Considere, primeiramente, o limite inferior (tc = 36,5 oC).

Utilizando as fórmulas descritas no texto, teremos:

9tc
tf
= + 32
5
9 × 36,5
=tf + 32
5
328,5
=tf + 32
5
t f 65, 7 + 32
=

t f = 97, 7 ℉

Essa é a temperatura mínima dentro do intervalo considerado. Vamos


agora calcular o valor do limite superior do intervalo de temperatura normal
(tc = 37,5 oC).

17
UNIDADE 1 | EQUILÍBRIO TÉRMICO E LEI ZERO DA TERMODINÂMICA

ATENCAO

Note que o tamanho do grau nas escalas Celsius e Fahrenheit não é o mesmo.
Enquanto que no intervalo entre o ponto de fusão e ebulição da água existem 100 graus
Celsius (0 a 100 oC), para o mesmo intervalo teremos 180 graus Fahrenheit (32 a 212 oF). Desta
forma, não basta adicionar a diferença de 1 grau (entre 36,5-37,5 oC) para obtermos a nova
temperatura em Fahrenheit.

É necessário efetuar todos os cálculos para fazer a conversão corretamente.


Substituindo na equação de conversão de temperatura entre as escalas Celsius e
Fahrenheit, teremos:

9tc
tf
= + 32
5
9 × 37,5
=tf + 32
5
337,5
=tf + 32
5
t f 67,5 + 32
=

t f = 99,5 ℉

Assim, caso tivessem apenas um termômetro na escala Fahrenheit para


medirmos a temperatura de alguém (assim como os amigos de Gabriel), teríamos
que obter um valor entre 97,7 – 99,5 oF para termos certeza de que esta pessoa não
estivesse com febre.

Exemplo 3:

(FIA-SP) Um termômetro foi graduado segundo uma escala arbitrária X,


de tal forma que as temperaturas 10 oX e 80 oX correspondem a 0 oC e 100 oC,
respectivamente. A temperatura em X que corresponde a 50 oC é:

a) 40 oX
b) 45 oX
c) 50 oX
d) 55 oX
e) 60 oX

18
TÓPICO 2 | ESCALAS TERMOMÉTRICAS

Resolução:

O problema nos forneceu dois pontos de calibração para a escala X. Esses


pontos correspondem aos pontos de fusão e ebulição da água, conforme podemos
verificar pela temperatura equivalente na escala Celsius.

Para obtermos a temperatura em X que corresponde a 50 oC é necessário


obtermos uma relação entre as duas escalas para podermos converter os valores.
Conforme vimos no texto, isso pode ser feito por meio de uma relação de
proporcionalidade.

Sabemos que 10 oX correspondem a 0 oC e 80 oX correspondem a 100 oC.


Com isso, podemos escrever a seguinte relação:

tc − 0 t − 10
= X
100 − 0 80 − 10
tc t − 10
= X
100 70
tc t X − 10
=
10 7

Essa é a equação para a conversão de unidades entre a escala X e a escala


Celsius.

O exercício nos pede para obtermos a temperatura equivalente, na escala


X, da temperatura de 50 oC. Para isso, basta substituirmos esse valor na equação
que escrevemos.

tc t X − 10
=
10 7
50 t X − 10
=
10 7
5 × 7 = t X − 10

35
= t X − 10

35 + 10 =
tX

t=
X 45 ° X

19
UNIDADE 1 | EQUILÍBRIO TÉRMICO E LEI ZERO DA TERMODINÂMICA

Com isso, obtemos que a temperatura equivalente a 50 oC é, na escala X,


45 X.
o

A alternativa correta para essa questão é a letra B.

Exemplo 4:

(FATEC-SP) A temperatura em que a indicação da escala Fahrenheit é o


dobro da indicação da escala Celsius é:

a) 160 oC
b) 160 oF
c) 80 oC
d) 40 oF
e) 40 oC

Resolução:

Para resolvermos essa questão, basta utilizarmos a equação de conversão


de temperaturas entre as escalas Celsius e Fahrenheit tomando tf = 2tc.

Em que:

tc t f − 32
=
5 9
tc 2tc − 32
=
5 9
9tc 5 ( 2tc − 32 )
=

9tc 10tc − 160


=

9tc − 10tc =
−160

tc = 160亷
o
C

Assim, temos que a temperatura em que a indicação da escala Fahrenheit


é o dobro da indicação da escala Celsius é tc = 160 oC, e a alternativa correta é a
letra A.

20
TÓPICO 2 | ESCALAS TERMOMÉTRICAS

3.3 A ESCALA KELVIN


Você já se perguntou se existe um valor máximo ou mínimo para a
temperatura de um corpo? Na verdade, não há nenhum limite superior para a
temperatura, mas podemos extrapolar e descobrir qual a temperatura mínima
possível que um corpo ou partícula poderia assumir. Para obter este valor
de temperatura devemos primeiramente entender o funcionamento de um
termômetro a gás.

Em um termômetro desse tipo usamos o fato de que a pressão de um


gás aumenta se aumentarmos a temperatura e mantivermos o volume constante.
Assim, se mantivermos um gás dentro de um recipiente com volume constante,
podemos variar sua temperatura e obter a pressão correspondente.

Para isso, podemos medir a temperatura de um gás partindo de diferentes


pressões iniciais à temperatura de 0 oC. Observando o gráfico da Figura 6,
podemos ver três curvas distintas para a relação temperatura-pressão quando
consideramos um gás com três pressões iniciais diferentes.

Conforme veremos na próxima unidade, a relação temperatura-pressão


é linear, isto é, dado um aumento na pressão há um aumento da temperatura.
Expressando matematicamente teremos:

P − P0= K (T − T0 )

Em que K é uma constante, P0 é a pressão inicial e T0 sua temperatura


inicial. Considerando T0 = 0 oC e reorganizando os termos:

P= P0 + KT

Esta é uma equação de primeiro grau e P0 indica o ponto de intersecção


com o eixo das ordenadas. Note que se partirmos de diferentes valores de P0 , para
um gás confinado, deveremos ter diferentes valores de K para atingirmos uma
mesma temperatura T.

É possível ver que, se extrapolarmos a pressão, as três curvas estarão à


mesma temperatura: o zero absoluto.

21
UNIDADE 1 | EQUILÍBRIO TÉRMICO E LEI ZERO DA TERMODINÂMICA

FIGURA 6 – GRÁFICO DE PRESSÃO EM FUNÇÃO DA TEMPERATURA


PARA TRÊS DIFERENTES PRESSÕES INICIAIS P0

FONTE: O autor

Analisando a Figura 6, podemos extrapolar nossos dados e imaginar qual


seria a temperatura para um gás à pressão zero, isto é, em um vácuo perfeito.
As três curvas desenhadas se encontram em um mesmo ponto que corresponde
à temperatura de -273,15 oC. Esta seria, então, a menor temperatura possível,
também chamada de zero absoluto, mas o que significaria esse valor mínimo de
temperatura?

O zero absoluto é dado pela temperatura na qual a pressão exercida pelo


gás é zero. Se lembrarmos do conceito de temperatura como o grau de agitação
dos átomos e moléculas, podemos pensar que, à temperatura zero, essa agitação
também é zero, segundo a Física Clássica.

TURO S
ESTUDOS FU

Veremos no decorrer deste curso que, mesmo em temperatura zero, as


moléculas mantêm um mínimo de energia, chamada energia de ponto zero. Essa energia
está associada a movimentos aleatórios das moléculas como consequência do princípio
da incerteza da Mecânica Quântica. Esse princípio nos diz que é impossível definirmos
simultaneamente a posição e a velocidade de uma partícula com precisão. Dessa forma, há
uma flutuação na energia que é maior do que o mínimo previsto pela Física Clássica.

Foi com base nesse conceito de zero absoluto que foi criada a escala Kelvin
de temperatura. Essa escala tem como ponto zero (0 K) a temperatura -273,15 oC.
Isso significa que qualquer temperatura medida na escala Kelvin será positiva. A

22
TÓPICO 2 | ESCALAS TERMOMÉTRICAS

conversão de uma temperatura na escala Kelvin para uma temperatura na escala


Celsius é feita por um deslocamento do ponto zero, conforme evidenciado na
equação a seguir:

T= Tc + 273,15

Assim, se precisarmos obter a medida da temperatura dos pontos de fusão


e ebulição da água na escala Kelvin, basta adicionarmos 273,15 às respectivas
medidas de temperatura da escala Celsius:

Temperatura do ponto de fusão da água na escala Kelvin:

0 + 273,15 =
T= 273,15 K

Temperatura do ponto de ebulição da água na escala Kelvin:

100 + 273,15 =
T= 373,15 K

É interessante reparar que as escalas Kelvin e Celsius estão divididas pelo


mesmo número de graus. Na escala Celsius, entre os pontos de fusão (0 oC) e
ebulição (100 oC) da água temos 100 graus. Na escala Kelvin, também contamos
100 graus entre os pontos de fusão (273,15 K) e ebulição (373,15 K).

ATENCAO

Note que ao mencionarmos uma temperatura na escala Kelvin nunca utilizamos


a palavra “grau”. Assim, o correto é dizer, por exemplo, “5 graus Fahrenheit”, “78 graus Celsius”
e “25 kelvin”.

No Sistema Internacional de unidades utilizamos a unidade kelvin, cujo


símbolo é a letra K, para dimensionar uma temperatura.

A escolha da escala Kelvin como padrão internacional se deve ao fato


de que é uma escala mais simples por não assumir valores negativos. Para essa
escala foram escolhidos dois pontos de calibração facilmente reprodutíveis.

O primeiro ponto de calibração é o zero absoluto obtido pela extrapolação


do valor da pressão para um gás, conforme discutido acima. O segundo ponto
de calibração é o ponto triplo da água. Este ponto é determinado pelas condições
de pressão e temperatura que permitem que a água líquida, o vapor de água e o

23
UNIDADE 1 | EQUILÍBRIO TÉRMICO E LEI ZERO DA TERMODINÂMICA

gelo estejam em equilíbrio. O ponto triplo ocorre a uma temperatura de 0,01 oC


(273,16 K) e à pressão de 612 Pa (aproximadamente 0,006 atm). O diagrama de
fases para a água, com a identificação do ponto triplo é dado na figura a seguir:

FIGURA 7 – DIAGRAMA DE FASES DA ÁGUA PARA PRESSÃO E TEMPERATURA

FONTE: O autor

O ponto triplo é onde ocorre a coexistência das fases sólida, líquida e


gasosa.

A definição formal da unidade kelvin no Sistema Internacional de
unidades é a seguinte:

“O kelvin, unidade de temperatura termodinâmica, é a fração 1/273,16 da


temperatura termodinâmica do ponto triplo da água” (INMETRO, 2012, p. 26).

O quadro a seguir relaciona algumas temperaturas importantes nas


escalas Celsius e Kelvin:

24
TÓPICO 2 | ESCALAS TERMOMÉTRICAS

QUADRO 1 – ALGUMAS TEMPERATURAS (NAS ESCALAS CELSIUS E KELVIN) ENCONTRADAS NO


UNIVERSO

Temperatura
Kelvin (K) Celsius (oC)
Zero absoluto 0 – 273,15
Radiação cósmica de fundo em micro-ondas 2,7260 – 270,424
Ponto triplo da água 273,16 0,01
Ponto de ebulição da água 373,15 100
Lâmpada incandescente 2500 2227
Superfície visível do Sol 5778 5505
Núcleo do Sol 16 x 106 16 x 106
Bomba nuclear (pico de temperatura) 350 x 106 350 x 106
Colisão próton X núcleo no CERN 10 x 1012 10 x 1012
FONTE: Adaptado de Serway e Jeweet (2004)

NOTA

Uma discussão aprofundada sobre o desenvolvimento histórico da termometria


pode ser encontrada no artigo “A termometria nos séculos XIX e XX”, disponível no Caderno
Brasileiro de Ensino de Física. Autores: PIRES, D. P. L.; AFONSO, J. C.; CHAVES, F. A. B. A
termometria nos séculos XIX e XX. Revista Brasileira de Ensino de Física, São Paulo, v. 28, n.
1, p. 101-114, 2006.

Exemplo 5:

(CEFET-MG) Em um determinado dia, a temperatura mínima em Belo


Horizonte foi de 15 oC e a máxima de 27 oC. A diferença entre essas temperaturas,
na escala Kelvin, é de:

a) 12
b) 21
c) 263
d) 285
e) 24

Resolução:

Para respondermos essa pergunta precisamos saber o valor da temperatura


mínima e máxima na escala Kelvin.

25
UNIDADE 1 | EQUILÍBRIO TÉRMICO E LEI ZERO DA TERMODINÂMICA

Para a temperatura mínima teremos:

Tmin= Tc + 273,15

Tmin= 15 + 273,15

Tmin = 288 K

Para a temperatura máxima teremos:

Tmax= Tc + 273,15

= 27 + 273,15
Tmax

Tmax = 300 K

A diferença entre essas temperaturas será então:

∆T= Tmax − Tmin


=T 300 K − 288 K

12 K
∆T =

Com isso, temos que a resposta correta é dada na alternativa A.

Note que poderíamos ter chegado na resposta de forma mais rápida,


sem fazermos a transformação de uma escala termométrica para outra. Bastaria
subtrair o valor da temperatura máxima e mínima diretamente na escala Celsius
e obteríamos o mesmo resultado: uma diferença de 12 graus.

Exemplo 6:

Em um laboratório medimos a temperatura de um dado líquido como


sendo 60 oF. O valor da temperatura desse líquido na escala Kelvin será:

a) 285,5
b) 321,5
c) 290
d) 282
e) 288,7

Resolução:

Para podermos obter o valor da temperatura na escala Kelvin é necessário


estabelecermos uma relação de proporcionalidade entre as escalas Kelvin

26
TÓPICO 2 | ESCALAS TERMOMÉTRICAS

e Fahrenheit. Essa relação é fácil de ser obtida se conhecermos ao menos dois


valores de temperatura para situações específicas em ambas as escalas.

Sabemos que os valores da temperatura para os pontos de fusão e ebulição


da água valem, na escala Kelvin, TK f = 273,15 K e TK e = 373,15 K, respectivamente.

Os valores de temperatura para esses mesmos pontos valem, na escala


Fahrenheit, TF f = 32 oF e TF e = 212 oF, respectivamente.

Agora podemos criar a relação de proporcionalidade entre as temperaturas


de ambas as escalas:

t K − TKf t F − TFf
=
TKe − TKf TFe − TFf

t K − 273,15 t − 32
= F
373,15 − 273,15 212 − 32
t K − 273,15 t F − 32
=
100 180
t K − 273,15 t F − 32
=
5 9
5
t K − 273,15 = ( t F − 32 )
9
5
t K − 273,15 =t F − 17, 78
9
5
tK
= t F + 255,37
9

Com isso, podemos converter o valor de temperatura de tf = 60 oF para a


5 × 60
=
escala Kelvin: tK + 255,37 .
9
Em que:

t K 33,33 + 255,37
=

t K = 288, 7 K

Portanto, a temperatura desse líquido é tK = 288,7 K e a alternativa correta


é a letra E.

27
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu que:

• Existem diferentes tipos de termômetros e como eles funcionam.

• Um termômetro de mercúrio é baseado na dilatação volumétrica do mercúrio.

• Um termômetro bimetálico é baseado na diferença de dilatação entre diferentes


metais. A variação de temperatura causa um entortamento de um fio bimetálico
que pode ser utilizado para mover um ponteiro sobre uma escala numerada.

• Um termômetro digital é baseado na variação da resistência elétrica de um


resistor presente em seu circuito interno.

• A origem das principais escalas termométricas usadas atualmente são: Celsius,


Fahrenheit e Kelvin.

• Para uma escala termométrica ser criada é preciso definir pontos de calibração
que servirão de base para a comparação de temperaturas.

• A escala Celsius tem como pontos de calibração a temperatura de fusão da


água (tomada como 0 oC) e a temperatura de ebulição da água (tomada como
sendo 100 oC).

• A escala Celsius é a principal escala termométrica utilizada no mundo.

• A escala Fahrenheit tem como pontos de calibração o ponto de congelamento


de uma mistura de água, gelo e cloreto de amônio e a temperatura do corpo
humano sadio.

• Na escala Fahrenheit a água congela a 32 oF e ferve a 212 oF.

• A escala Kelvin foi criada tomando como pontos de calibração a temperatura


do zero absoluto (0 K) e a temperatura do ponto triplo da água (a única
temperatura sob a qual gelo, água líquida e vapor de água podem coexistir em
equilíbrio), que ocorre a 273,16 K.

• A temperatura do zero absoluto surge da extrapolação de um gráfico de pressão


em função da temperatura para um gás. Quando a pressão é zero, teremos a
menor temperatura possível para uma molécula.

28
• Existe a conversão da escala Celsius para a escala Fahrenheit. Para isso utilizamos
a seguinte relação entre as temperaturas em Celsius TC e as temperaturas em
Fahrenheit TF .

9Tc
Tf
= + 32
5

• Existe a conversão da escala Celsius para a escala Kelvin. Para isso utilizamos
a seguinte relação entre as temperaturas em Celsius TC e as temperaturas em
Kelvin T.

T= Tc + 273,15

• É possível fazer a conversão de uma temperatura de qualquer escala


termométrica para outra.

29
AUTOATIVIDADE

1 (ACAFE-SC) Largamente utilizados na medicina, os termômetros clínicos


de mercúrio relacionam o comprimento da coluna de mercúrio com a
temperatura.

Sabendo-se que quando a coluna de mercúrio atinge 2,0 cm, a temperatura


equivale a 34 oC e, quando atinge 14cm, a temperatura equivale a 46 oC.
Ao medir a temperatura de um paciente com esse termômetro, a coluna de
mercúrio atingiu 8,0 cm.

A alternativa correta que apresenta a temperatura do paciente, em oC, nessa


medição é:

a) ( ) 36.
b) ( ) 42.
c) ( ) 38.
d) ( ) 40.

2 Mesmo que as escalas sejam diferentes, ainda é possível encontrar uma


temperatura para a qual um termômetro em Celsius e um termômetro em
Fahrenheit marcariam o mesmo número. Qual valor, a seguir, representa
esse número marcado no termômetro?

a) ( ) -40.
b) ( ) -35.
c) ( ) 10.
d) ( ) 40.

3 O uso do ponto de fusão do gelo e da ebulição da água ocorreu, pela primeira


vez, para a calibração de uma escala termométrica desenvolvida em 1730
pelo físico francês René de Réaumur. Essa escala foi bastante comum na
França, Alemanha e Rússia no século XVIII e ainda pode ser encontrada em
alguns lugares na Europa. A escala usava o símbolo oR e tomava o ponto de
fusão da água como 0 oR e o ponto de ebulição como sendo 80 oR.

a) Estabeleça uma relação de conversão entre as escalas termométricas Celsius


e Réaumur.

b) Se um objeto está à temperatura de 25 oR, qual será sua temperatura em


Celsius?

c) Um termômetro antigo na escala Réaumur verificou uma mudança de 5 oR


em um único dia. Qual foi a variação na escala termométrica Celsius?

d) Qual a temperatura do ponto triplo da água (273,16 K) em graus Réaumur?


30
4 Imagine que você está desenvolvendo uma nova escala termométrica que se
chamará Academius, e terá como símbolo oAc. Para calibrar essa escala você
utiliza um fio de ouro. Quando este fio de ouro está em equilíbrio térmico
com gelo, seu comprimento é de 20 cm. Quando este mesmo fio está em
equilíbrio térmico com água em ebulição seu tamanho é 20,03 cm.

a) Escreva a relação de conversão entre as escalas de temperatura Celsius e


Academius.

b) Sabendo que a temperatura de fusão do ouro é de 1064 oC, qual será o


comprimento máximo que o fio de ouro poderá ter antes de derreter
completamente?

31
32
UNIDADE 1
TÓPICO 3

DILATAÇÃO TÉRMICA

1 INTRODUÇÃO
Você já se perguntou sobre o que são os estalos que ocorrem em uma casa
após um dia de muito calor, ou por que os azulejos devem ser sempre separados
um do outro por uma camada de rejunte? Após esse tópico você saberá a causa
desses fenômenos.

As situações descritas têm relação com a contração e expansão que


diferentes materiais sofrem com a variação da temperatura. A esses fenômenos
damos o nome de dilatação térmica.

Entretanto, os materiais sofrem esse efeito de forma diferente. Qual a


origem dessa diferença? Veremos que é possível estudar a dilatação térmica de
forma simplificada considerando as dimensões do corpo estudado.

2 EXPANSÃO E CONTRAÇÃO
Como vimos anteriormente, uma das principais formas de verificarmos
a temperatura de um corpo é feita com base na expansão ou contração de uma
certa substância com a variação de temperatura.

Entretanto, a magnitude dessa contração ou expansão depende muito


da substância. É mais fácil verificar a variação de volume em materiais como
líquidos e metais.

Para desenvolver qualquer tipo de objeto ou estrutura é necessário


conhecer previamente todas as características dos materiais a serem usados. É
possível prever como esses materiais se comportarão de acordo com a variação
de temperatura a qual serão submetidos no dia a dia com o seu uso.

A mudança na distância média entre átomos e moléculas de um corpo


é o que define sua expansão térmica. Dessa forma, todas as substâncias sofrem
variações nas três dimensões (comprimento, largura e altura) simultaneamente.
Entretanto, dependendo do caso, é possível estudar a dilatação em cada uma das
dimensões separadamente.

33
UNIDADE 1 | EQUILÍBRIO TÉRMICO E LEI ZERO DA TERMODINÂMICA

3 DILATAÇÃO LINEAR
Em uma primeira situação vamos considerar um corpo idealmente linear.
Essa aproximação é possível se considerarmos um corpo em que seu comprimento
é muito maior que sua largura e altura. Estas outras dimensões podem ser, então,
desprezadas.

Experimentalmente é possível avaliar que a variação no comprimento


é diretamente proporcional à variação da temperatura. Dessa forma, podemos
escrever a seguinte equação:

∆L = αL0∆T

Em que ∆L é a variação no comprimento, ∆T é a variação na temperatura,


L0 é o comprimento original e a é uma constante de proporcionalidade obtida
a partir de experimentos. Essa constante também é chamada de coeficiente de
expansão linear e tem unidade (oC)–1.

Note que o valor será o mesmo se considerarmos a variação de temperatura


em kelvins, dado que o tamanho do grau nas duas escalas é o mesmo. O quadro
a seguir relaciona alguns materiais com seus respectivos coeficientes de expansão
linear:

QUADRO 2 – COEFICIENTES DE DILATAÇÃO LINEAR PARA DIFERENTES MATERIAIS

Coeficiente de Coeficiente de
Material expansão linear Material expansão linear
α (oC)–1 α (oC)–1
Alumínio 22 x 10–6 Ouro 14 x 10–6
Aço 14 x 10–6 Platina 9 x 10–6
Carbono 3 x 10–6 Prata 20 x 10–6
Chumbo 29 x 10–6 Quartzo fundido 0,55 x 10–6
Cimento 6,8 x 10–6 Silício 2,6 x 10–6
Cobre 17 x 10–6 Tungstênio 4,5 x 10–6
Cromo 4,9 x 10–6 Vidro comum 8,6 x 10–6
Vidro borossilicato
Latão 18 x 10–6 3,2 x 10–6
(vidro pyrex)
Níquel 17 x 10–6 Zinco 26 x 10–6
FONTE: Serway e Jewett (2004, p. 562)

Com base na equação anterior podemos obter facilmente a medida do


comprimento de um dado material após sua expansão ou contração. Essa nova
medida será dada por:

34
TÓPICO 3 | DILATAÇÃO TÉRMICA

L – L0 = αL0∆T
L = L0 + αL0∆T
L = L0(1 + α∆T)

Exemplo 7:

O gráfico a seguir representa os dados de dilatação linear obtida pelo


aquecimento de uma nova liga metálica. Um pesquisador precisa determinar o
coeficiente de dilatação para estudar uma nova possibilidade de utilização desse
novo material.

FIGURA 8 – VARIAÇÃO DO COMPRIMENTO DE UMA BARRA EM FUNÇÃO DA SUA


TEMPERATURA

FONTE: O autor

a) Com base no gráfico, calcule o coeficiente de dilatação linear dessa liga metálica.
b) Suponha que a dilatação continue linear mesmo a temperaturas muito altas.
Qual seria o comprimento da barra caso a temperatura atinja 300 oC?

Resolução:

Para calcularmos o coeficiente de dilatação linear da liga metálica


(alternativa A da questão), primeiramente devemos notar que o gráfico dado é
uma relação linear do tipo y = ax, onde a é o coeficiente angular que determina
a inclinação da reta. No gráfico temos a relação da variação do comprimento

35
UNIDADE 1 | EQUILÍBRIO TÉRMICO E LEI ZERO DA TERMODINÂMICA

em função da variação da temperatura. Podemos comparar a equação para a


dilatação ∆L = aL0∆T com essa equação da reta, e identificamos o termo aL0 como
o coeficiente angular.

Note que o gráfico nos informa que para uma variação de temperatura
entre 0 e 20 oC houve uma variação de comprimento de 150 cm a 150,014 cm. Com
base nessas duas informações, e tomando L0 = 150 cm, podemos calcular o valor
do coeficiente de dilatação linear α.

Em que:

∆L = aL0∆T
= aá150 ( 20 − 0 )
150, 014 − 150

0, 014 = áa150 ( 20 )

0, 014 = áa 3000

0, 0001
aá =
3000
aá 4, 67 ×10−6 (o亷
= C)
−1

Com isso, vemos que o coeficiente de dilatação dessa nova liga metálica
vale a = 4,67 x 10–6(oC)–1.

Para respondermos à questão proposta na letra B desta questão, devemos


ter em mente que a dilatação continua linear mesmo a altas temperaturas. Assim,
podemos extrapolar o gráfico dado, que continuará válido mesmo na temperatura
de 300 oC.

Durante o texto apresentamos uma equação que calcula diretamente o


novo comprimento linear de uma barra com base no comprimento inicial, na
variação de temperatura e no coeficiente de dilatação linear.

Com os dados da questão e com o valor obtido anteriormente para o


coeficiente de dilatação, teremos:

(1++ a∆T)
LáL =TLL00(1
= ∆ )

L = 150 1 + 4, 67 ×10−6 ( 300 − 0 ) 

=L 150 (1 + 0, 0014 )

L = 150 (1, 0014 )

L = 150, 21 cm
36
TÓPICO 3 | DILATAÇÃO TÉRMICA

Com isso, quando a temperatura de uma barra composta pela liga metálica
estudada atingir 300 oC, veremos que o comprimento desta barra terá aumentado
de 150 cm para 150,14 cm.

Exemplo 8:

(MACKENZIE – SP) Ao se aquecer de 1,0 oC uma haste metálica de 1,0 m, o


seu comprimento aumenta de 2,0 x 10–2 mm. O aumento do comprimento de outra
haste do mesmo metal, de medida inicial 80 cm, quando a aquecemos de 20 oC, é:

a) 0,23 mm.
b) 0,32 mm.
c) 0,56 mm.
d) 0,65 mm.
e) 0,76 mm.

Resolução:

Para calcularmos o aumento no comprimento da haste de metal é


necessário, antes de tudo, obtermos o coeficiente de dilatação linear do metal
utilizado. Podemos obter esse coeficiente usando os dados da primeira parte do
enunciado.

Vamos utilizar a equação da dilatação linear para obtermos o valor do


coeficiente α:

∆L = aL0∆T
∆L
áa =
L0 ∆T

Conforme dado no problema, temos que:

L0 = 1m, ∆T = 1m, ∆T = 1,0 oC e ∆L = 2,0 x 10–2 mm.

Para fazer o cálculo, precisamos sempre prestar atenção nas unidades


envolvidas. Neste caso devemos transformar a unidade de medida dada em
milímetros para metros, e teremos ∆L = 2,0 x 10–5m. Substituindo esses valores
teremos:

37
UNIDADE 1 | EQUILÍBRIO TÉRMICO E LEI ZERO DA TERMODINÂMICA

2, 0 ×10−5
aá =
1× 1
2, 0 ×10−5
aá =
1× 1
aá 2, 0 ×10−5 (o亷
= C)
−1

Este é o coeficiente de dilatação linear do metal que constitui a haste.

Agora podemos calcular o aumento no comprimento da haste de medida


inicial L0 = 80 cm após sofrer um aumento de temperatura de 20 oC.

Substituindo os valores na equação para dilatação linear, teremos:

∆L = aL0∆T
∆L= 2, 0 ×10−5 × 80 × 20

∆L= 2, 0 ×10−5 × 80 × 20

∆L =0, 032 cm

Note que o resultado foi dado em centímetros. Para compararmos com


as alternativas dadas nessa questão é preciso transformar esse resultado para
milímetros, e teremos ∆L = 0,32 mm.

Assim, a alternativa correta para essa questão é a letra B.

4 DILATAÇÃO SUPERFICIAL
Quando estamos lidando com objetos aproximadamente bidimensionais,
como um disco ou uma chapa, é mais interessante calcularmos a variação da área
em função da temperatura.

Dado que a área de um objeto é dada como A = L2, podemos extrapolar da


dilatação linear (L = L0(1 + a∆T) para a dilatação superficial:

L2 = [L0(1 + a∆T)]2
L2 = L02 + 2aL0∆T + a2 L02 ∆T2
A = A0 + 2aA0∆T + a2 A02 ∆T2

38
TÓPICO 3 | DILATAÇÃO TÉRMICA

Note que ∆T é muito menor do que um, de forma que elevá-lo a potências
maiores que 1 resulta em um número que podemos desprezar. Desconsiderando
este termo, teremos:

A = A0 + 2aA0∆T que é a equação para a dilatação superficial, onde a é o


coeficiente de dilatação linear e A0 a área original. Também podemos reescrever
essa equação de uma outra forma:

A – A0 = 2aA0∆T∆A = 2aA0∆T

Essa expressão é válida sempre que, para uma dada substância, o


coeficiente de expansão linear for constante em todas as dimensões para uma
mesma variação de temperatura em cada dimensão. Uma substância com esta
propriedade é dita isotrópica.

NOTA

Uma discussão sobre o método matemático para a dedução do coeficiente


de dilatação superficial pode ser encontrada no artigo “Dilatação térmica: Uma abordagem
matemática em física básica universitária”, de Paulo Machado Mors (2016), disponível no
Caderno Brasileiro de Ensino de Física. Consulte a referência ao final.

Uma utilização prática do nosso conhecimento sobre dilatação superficial


é quando precisamos abrir um pote em conserva. Muitas vezes, não conseguimos
abrir a tampa utilizando somente a força. Nessas situações vale lembrar que a
tampa é feita de metal, que tem propriedades de expansão e contração muito
diferentes das do vidro. Verifique o quadro 3 e veja que a maioria dos metais
possui coeficiente de dilatação muito maior que aquele do vidro comum.

Desse modo, podemos aquecer a tampa colocando-a brevemente próximo


a uma fonte de calor. O resultado será a dilatação (podemos tomá-la como
superficial) da tampa metálica. O vidro também deve aquecer com a proximidade
da fonte quente, porém sofrerá uma dilatação muito menor. Com isso, haverá
uma folga entre a tampa e o vidro, de forma que ficará muito mais fácil abrir o
pote em conserva.

Exemplo 9:

(UERN-RN) O quadro a seguir apresenta os coeficientes de dilatação linear de


alguns metais:

39
UNIDADE 1 | EQUILÍBRIO TÉRMICO E LEI ZERO DA TERMODINÂMICA

QUADRO 3 – COEFICIENTES DE DILATAÇÃO LINEAR

Metal Coeficiente de expansão linear α (oC)–1


Ferro 12 x 10–6
Cobre 17 x 10–6
Alumínio 22 x 10–6
Zinco 26 x 10–6
FONTE: Adaptado de Serway e Jewett (2004)

Uma placa de metal de área 1 m2 a 20 oC é aquecida até atingir 100 oC


apresentando uma variação de 35,2 cm2 em sua área. O metal que constitui essa
placa é o:

a) Ferro
b) Cobre
c) Zinco
d) Alumínio

Resolução:

Para resolvermos esse exercício, devemos descobrir qual o valor do


coeficiente linear do metal que compõe a placa. Lembrando que a placa pode ser
considerada como um objeto bidimensional, devemos utilizar as fórmulas para a
dilatação superficial.

Em que:

∆A = 2aA0∆T

O problema nos informa ainda que ∆A = 35,2 cm2, A0 = 1 m2 e que a variação


da temperatura foi de ∆T = T – T0 = 100 oC – 20 oC = 80 oC.

Note que a área original é dada em metros quadrados, enquanto que a


variação de área sofrida pela placa de metal é dada em centímetros quadrados. Para
podermos comparar ambos os valores, precisamos primeiramente transformar a
unidade de cm2 para m2. Isso pode ser feito facilmente por meio de uma relação
de proporcionalidade.

Em que:

1m 2 104 cm 2
=
∆A m 2 35, 2 cm 2

= 35, 2 ×10−4 m 2
∆A

40
TÓPICO 3 | DILATAÇÃO TÉRMICA

Isolando o valor de α e substituindo esses valores, teremos:

∆A
aá =
2 A0 ∆T

35, 2 ×10−4
aá =
2 (1)( 80 )

=aá 0, 22 ×10−4

aá= 22 × 10−6 (o亷


C)
−1

Podemos finalmente comparar o valor obtido com aquele dado no quadro


de coeficiente para os metais, e vemos que a placa deve ser composta de alumínio.

Logo, a resposta para essa questão é a letra D.

Exemplo 10:

(PUC-PR) Uma professora resolve passar suas férias de julho na Europa.


A temperatura ao embarcar em Curitiba é de 10 oC. Ao desembarcar na Itália,
após uma longa viagem, surpreende-se com o calor, muito maior que o esperado,
já que o termômetro de rua marcava a temperatura em 40 oC. Ao observar seu
anel, supostamente de ouro (coeficiente de dilatação linear a = 1,5 x 10–6 (oC)–1 de
diâmetro de 20 mm), pode-se afirmar que o anel:

a) Estava dilatado, com diâmetro 0,009 mm maior.


b) Estava dilatado, com diâmetro 0,018 mm maior.
c) Estava contraído, com diâmetro 0,009 mm menor.
d) Estava contraído, com diâmetro 0,018 mm menor.
e) Estava igual, sem sofrer qualquer variação.

Resolução:

Para resolvermos essa questão precisamos utilizar nossos conhecimentos


sobre dilatação superficial. Conforme vimos no texto, podemos aproximar o anel
como um objeto bidimensional.

A dilatação neste anel irá acontecer ao longo do tamanho de sua


circunferência e ao longo do seu diâmetro.

Neste problema estamos interessados unicamente na variação de seu


diâmetro. Dessa forma, basta calcularmos a variação linear que ocorre nesta
dimensão, e ignorarmos a variação no comprimento. Para isso, basta substituir
os valores dados nesta questão na fórmula da dilatação linear. Consideramos a
variação de temperatura como sendo ∆T = T – T0 = 40 oC – 10 oC = 30 oC.

41
UNIDADE 1 | EQUILÍBRIO TÉRMICO E LEI ZERO DA TERMODINÂMICA

∆L = aL0∆T
∆L = aD∆T
∆L = 20 ×1,5 ×10−6 × 30

∆L= 900 ×10−6

∆L =0, 009 mm

O valor obtido representa a variação no diâmetro do anel. Como a diferença


de temperatura entre a Itália e Curitiba foi positiva, e o coeficiente de dilatação
linear também possui um valor positivo, podemos identificar essa variação no
diâmetro como sendo uma expansão.

Dessa forma, a reposta correta para essa questão é a letra A, que afirma
que o anel “estava dilatado, com diâmetro 0,009 mm maior”.

Analisando atentamente a questão anterior, podemos perceber um


comportamento por vezes contraintuitivo da dilatação de superfícies.

Suponha que estamos estudando um disco com um orifício em seu interior,


como o ilustrado na Figura 9. Sabemos que, ao ser aquecido, este disco se dilatará,
mas o que acontecerá com o orifício no interior do disco quando a temperatura
aumentar?

FIGURA 9 – DISCO COM ORIFÍCIO

FONTE: Disponível em: <https://www.freeimages.com/photo/gear-


4-1566681>. Acesso em: 23 abr. 2018.

Quando aumentamos a temperatura de um corpo, estamos na verdade


aumentando a energia cinética média das moléculas que o compõem. As
moléculas mais agitadas tendem a se afastar umas das outras, aumentando o
tamanho do orifício. Assim, há um aumento de superfície da placa, e um aumento
no perímetro do orifício.
42
TÓPICO 3 | DILATAÇÃO TÉRMICA

5 DILATAÇÃO VOLUMÉTRICA
As considerações que fizemos até agora para dilatação linear e superficial
são válidas para algumas situações específicas. Entretanto, no mundo real
os objetos são tridimensionais e estamos geralmente mais intencionados em
descobrir a dilatação no comprimento, altura e largura de um dado material.

Dado que o volume de um objeto é por V = L3, podemos extrapolar da


dilatação linear (L = L0(1 + a∆T)) para a dilatação volumétrica, de forma análoga à
realizada para a dilatação superficial:

L3 = [L0(1 + α∆T)]3
L3 = L03 + 3αL03∆T + 3α2 L03 ∆T2 + α3L03∆T3
V = V0 + 3αV0∆T + 3α2 V0∆T2 + α3V0∆T3

Novamente podemos desprezar os termos que apresentam ∆T elevado a


potências maiores que 1. Ficaremos então com:

V = V0 + 3αV0∆T

Que é a equação para a dilatação volumétrica, onde α é o coeficiente de


dilatação linear e V o volume inicial. Podemos reescrever essa equação de uma
outra forma:

V – V0 = 3αV0∆T
∆V = 3αV0∆T

Exemplo 11:

Um engenheiro possui uma esfera metálica de raio 10 cm à temperatura


de 20 oC. Essa esfera é feita de alumínio maciço. Levando-se em conta que o
alumínio suporta cerca de 660 oC antes de derreter (sofrer fusão), calcule o
volume máximo que esta esfera irá atingir quando o engenheiro aumentar a
sua temperatura. Considere o coeficiente de dilatação linear do alumínio como
sendo a = 22 x 10–6(oC)–1.

Resolução:

Para resolvermos esta questão basta determinarmos a variação no volume


da esfera quando esta sofre uma variação de temperatura entre 20 oC e 660 oC.

Entretanto, a questão nos forneceu apenas o tamanho do raio da esfera.


É preciso calcular então qual o volume inicial da esfera. Para isso, utilizamos a
fórmula a seguir:

43
UNIDADE 1 | EQUILÍBRIO TÉRMICO E LEI ZERO DA TERMODINÂMICA

4p R 3
V0 =
3

Considerando o raio da esfera como sendo R = 10 cm = 0,1 m, teremos:

4p 0,13
V0 =
3
V0 = 0,00419 m3

Agora podemos calcular a variação do volume da esfera para o intervalo


de temperatura considerado:

∆V = 3aV0∆T
DV = 3´ 22 ´10-6 ´ 0,00419 (660 - 20)

DV = 3´ 22 ´10-6 ´ 0,00419 (640)

DV = 0,000177 m3

O valor calculado representa a variação no volume da esfera. Para calcular


o volume total após a dilatação devemos somar esse valor ao volume inicial:

V = V0 + DV

V = 0,00419 + 0,000177

V = 0,004367 m3

Com isso, vemos que, após sofrer uma variação de temperatura de 20 oC a


660 C (temperatura de fusão do alumínio), a esfera terá um volume de 0,004367 m3.
o

Exemplo 12:

(IFCE) Um bloco em forma de cubo possui volume de 400 cm3 a 0 oC e


400,6 cm3 a 100 oC. O coeficiente de dilatação linear do material que constitui o
bloco, em unidades (oC)–1 vale:

a) 4 x 10–5
b) 3 x 10–6
c) 2 x 10–6
d) 1,5 x 10–5
e) 5 x 10–6

44
TÓPICO 3 | DILATAÇÃO TÉRMICA

Resolução:

Para resolvermos esse exercício é necessário obtermos algumas variáveis a


partir do que nos foi dado no enunciado. A variação de temperatura ∆T é:

DT = T - T0

C- 0 亷
DT = 100 o亷 o
C
C
DT = 100 o亷

Da mesma forma devemos obter a variação no volume ∆V:

DV = V - V0

DV = 400,6 cm3 - 400 oC

DV = 0,6 cm3

Agora, basta substituirmos esses valores na equação para a dilatação


volumétrica de sólidos para obtermos o valor do coeficiente de dilatação linear α:

DV = 3aV0DT

DV
a=
V0DT

0,6
a=
400 ´100
a = 1, 5´10-5 (亷
o )-1
C

Assim, temos que o valor do coeficiente de dilatação linear do material


que constitui o bloco é a = 1,5 x 10–5 (oC)–1.

A alternativa correta é a letra D.

Durante a construção de pontes é imprescindível avaliar a dilatação dos


materiais que serão utilizados. Para evitar o colapso da estrutura, geralmente são
utilizados blocos de metal ou concreto que não encostam um no outro. Entre
os blocos são deixadas folgas de até alguns centímetros que garantem que as
estruturas não sejam forçadas com a dilatação após o aumento de temperatura.

A esses espaços de folga damos o nome de juntas de dilatação. A Figura


10 mostra um exemplo desse tipo de estrutura. Muitas vezes, essas juntas são
preenchidas por diferentes materiais, como borracha, que garantem a solidez da
estrutura e resistência à dilatação.
45
UNIDADE 1 | EQUILÍBRIO TÉRMICO E LEI ZERO DA TERMODINÂMICA

FIGURA 10 – JUNTAS DE DILATAÇÃO DENTADA EM UMA


PONTE EM AUCKLAND, NOVA ZELÂNDIA

FONTE: Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/


wikipedia/commons/thumb/2/20/BridgeExpansionJoint.
jpg/1200px-BridgeExpansionJoint.jpg>. Acesso em: 13 jul. 2018.

Caso as juntas de dilatação não existissem, as diferentes partes da estrutura


sofreriam graus variados de dilatação. Isso poderia fazer com que algumas
ligações fiquem sob grande tensão e possam sofrer rachaduras ou quebras.
Imagine um parafuso que dilate mais que o buraco onde está inserido. Nessa
situação é possível que o parafuso não suporte as forças às quais é submetido,
comprometendo toda a segurança da estrutura.

Exemplo 13:

Uma barra de comprimento L = 50 m, feita de um material X, sofre variação


de temperatura de 20 °C, e seu comprimento varia em 0,02%.

Considere duas barras do mesmo material X e de mesmo comprimento L,


posicionadas, uma em frente à outra, separadas por uma distância d = 1 cm (veja
a figura). Admitindo-se que cada barra cresça de forma homogênea, determine
a variação de temperatura necessária para que a distância d, entre elas, se anule.

46
TÓPICO 3 | DILATAÇÃO TÉRMICA

Resolução:

Nesta questão temos representada uma situação análoga à das juntas de


dilatação. Devemos avaliar a máxima variação de temperatura que o sistema
pode sofrer sem causar deformações indesejáveis às barras. Aqui consideraremos
novamente a aproximação das barras como materiais unidimensionais de
comprimento L.

Primeiramente é necessário calcularmos o coeficiente de dilatação linear


do material da barra:

DL = a L0DT

DL
a=
L0DT

O enunciado nos informa que, após sofrer uma variação de temperatura


de 20 °C, o tamanho da barra, que inicialmente era de 50 m, aumentou em 0,02%.
Podemos usar uma relação direta de proporcionalidade para obter o valor da
dilatação ∆L:

50 m 100 %
=
DL 0,02 %

Procedendo com o cálculo, teremos:

100DL = 50 ´ 0,02

50 ´ 0,02
DL =
100
50 ´ 0,02
DL =
100
1
DL =
100
DL = 0,01 m

Agora podemos calcular o valor do coeficiente de dilatação linear α para


o material X:

47
UNIDADE 1 | EQUILÍBRIO TÉRMICO E LEI ZERO DA TERMODINÂMICA

DL
a=
L0DT

0,01
a=
50 ´ 20
0,01
a=
1000
a = 1,0 ´10-5 (亷
o )-1
C

Com isso, podemos calcular a variação de temperatura necessária para


que as barras dilatem e preencham a distância d = 1 cm entre elas.

Note que ambas as barras devem preencher o espaço d, e que cada barra
cresce em ambas as suas extremidades. Assim, cada barra irá contribuir com
metade de sua dilatação total para o preenchimento do espaço.

Sendo a medida d = 1 cm, devemos calcular o quanto cada barra deve
dilatar:

2 ´DL
d=
2
d = DL

Assim, a dilatação total de cada barra tem que ser igual ao espaço vazio
entre elas para garantir o preenchimento.

Podemos agora calcular a variação de temperatura que garantirá


essa dilatação. Para isso, também é necessário trabalharmos com unidades
padronizadas, e devemos utilizar a medida d em metros, ou seja, d = 0,01 m:

DL = a L0DT

d = a L0DT

d
DT =
L0a

0,01
DT =
50 ´1,0 ´10-5
DT = 20亷
o
C

48
TÓPICO 3 | DILATAÇÃO TÉRMICA

Com isso, temos que, para preencher completamente o espaço entre as


barras, estas devem sofrer um aumento de temperatura de 20 °C. Caso o aumento
seja superior a esse valor, as barras começarão a se deformar.


6 DILATAÇÃO VOLUMÉTRICA DOS LÍQUIDOS
Quando a substância com a qual estamos lidando é um líquido, devemos
levar em conta o coeficiente de dilatação volumétrica β. Não faz sentido separar a
dilatação de um líquido em uma ou duas dimensões, porque um líquido sempre
toma a forma do recipiente no qual está contido. Para calcularmos a variação no
volume de um líquido devemos usar a seguinte expressão:

DV = b V0DT

Novamente, podemos obter o volume final do líquido com a reorganização


dos termos na equação anterior:

V - V0 = b V0DT

V = V0 + b V0DT

V = V0 (1 + bDT )

O quadro a seguir relaciona algumas substâncias líquidas com seus


respectivos coeficientes de dilatação volumétricos:

QUADRO 4 – COEFICIENTES DE DILATAÇÃO VOLUMÉTRICO PARA DIFERENTES SUBSTÂNCIAS


LÍQUIDAS

Substância Coeficiente de dilatação volumétrico β (oC)–1


Água 1,3 x 10–4
Mercúrio 1,8 x 10–4
Glicerina 4,9 x 10–4
Benzeno 10,6 x 10–4
Álcool 11,2 x 10–4
Acetona 14,9 x 10–4
Petróleo 10,0 x 10–4
FONTE: Adaptado de Serway e Jewett (2004)

Note que o coeficiente de dilatação volumétrica de um líquido é geralmente


muito maior do que o coeficiente volumétrico para os sólidos (veja Quadro 2).
Sempre devemos avaliar cuidadosamente nosso problema para verificarmos se
não há derramamento do líquido em função das diferenças nos coeficientes de
dilatação volumétrica.
49
UNIDADE 1 | EQUILÍBRIO TÉRMICO E LEI ZERO DA TERMODINÂMICA

Exemplo 14:

(Adaptada de Cesesp-PE) O tanque de gasolina de um carro, com


capacidade para 60 litros, é completamente cheio a 10 °C, e o carro é deixado num
estacionamento onde a temperatura é de 20 °C. Sendo o coeficiente de dilatação
volumétrica da gasolina igual a 1,1 x 10–3 (oC)–1 e considerando desprezível a
variação de volume do tanque, a quantidade de gasolina derramada é, em litros:

a) 1,32.
b) 1,64.
c) 0,66.
d) 3,45.
e) 0,58.

Resolução:

A gasolina dentro do carro sofreu dilatação térmica em função do aumento da


temperatura do carro. Desta forma, quando a temperatura variou de 10 oC a 20 oC parte
da gasolina transbordou do tanque (nesta questão devemos desprezar a variação do
volume do próprio tanque de gasolina).

Para calcular o quanto de gasolina foi derramada, basta substituir os


valores dados na questão na equação da dilatação volumétrica do líquido.
Consideramos β = 1,1 x 10–3 (oC)–1, V0 = 60 L, T0 = 10 oC e T = 20 oC.

Em que:

∆âV== βV
∆V
V T 0∆T

∆V = 1,1×10−3 × 60 × ( 20 − 10 )
∆V = 1,1×10−3 × 60 × (10 )
∆V =0, 66 L

Assim, vemos que 0,66 L de gasolina vão ser derramados do tanque


quando a temperatura variar de 10 oC a 20 oC.

A resposta correta para essa questão é a alternativa C.

ATENCAO

Em um sistema real não podemos considerar apenas a dilatação do líquido. É


necessário levar em conta a dilatação do recipiente que o contém.

50
TÓPICO 3 | DILATAÇÃO TÉRMICA

A dilatação real de um líquido deverá levar em conta a dilatação do


recipiente. Para avaliar o quanto um líquido se dilatou podemos estudar um
recipiente com líquido até a borda. Quando aquecidos, tanto o recipiente quando
o líquido se dilatarão. Entretanto, o recipiente se dilatará menos que o necessário
para comportar a dilatação do líquido, e este será derramado (em parte). A
quantidade derramada é chamada de dilatação aparente do líquido.

Para calcularmos a dilatação aparente do líquido devemos considerar a


dilatação real menos a porção dilatação que continuou contida no recipiente.

∆Vaparente = ∆Vreal − ∆Vrecipiente

O recipiente no qual o líquido está contido é tridimensional e, quando


submetido a uma variação de temperatura, sofrerá uma dilatação volumétrica
dada por V0(1+ 3α∆T). O líquido sofrerá uma dilatação dada por V0(1+ β∆T).
Assim, a dilatação aparente do líquido será:

= V0 (1 + β∆T ) - V0 (1 + 3α∆T )
∆Vaparente
∆Vaparente
= V0 + V0β∆T - V0 - V0 3α∆T
∆Vaparente= V0β∆T - 3αV0 ∆T

Nesta expressão fica claro que, quando o líquido e o recipiente sofrem uma
mesma modificação de temperatura, a variação aparente do volume do líquido
é determinada pela diferença entre os coeficientes de dilatação volumétrica do
líquido e do coeficiente de dilatação linear do recipiente (considerando a dilatação
nas três dimensões). Agrupando os termos semelhantes, teremos:

( - 3α ) V0 ∆T
∆Vaparente =β

A equação obtida é análoga àquelas obtidas anteriormente para a


dilatação de sólidos e líquidos. Desta forma, podemos chamar o termo (β – 3α) de
coeficiente de dilatação aparente de um líquido.

Exemplo 15:

(UFPR-PR) Uma taça de alumínio de 120 cm3 contém 119 cm3 de


glicerina a 21 °C. Considere o coeficiente de dilatação linear do alumínio
como sendo de 2,3 x 10 –5(K) –1 e o coeficiente de dilatação volumétrico da
glicerina de 5,1 x 10 –4(K) –1 .

Se a temperatura do sistema taça-glicerina for aumentada para 39 °C,


a glicerina transbordará ou não? Em caso afirmativo, determine o volume
transbordado; em caso negativo, determine o volume de glicerina que ainda
caberia no interior da taça.

51
UNIDADE 1 | EQUILÍBRIO TÉRMICO E LEI ZERO DA TERMODINÂMICA

Resolução:

Nesta questão devemos avaliar de formas separadas a dilatação da taça e a


dilatação da glicerina e analisar se a dilatação na taça é suficiente para compensar
a dilatação da glicerina. Do contrário, a glicerina irá derramar.

Para mensurar a variação no volume da taça precisamos saber o volume


inicial (V0 = 120 cm3), o coeficiente linear de dilatação (a = 2,3 x 10 –5(K) –1) e as
temperaturas inicial (T0 = 21 oC) e final (T = 39 oC) do sistema.

Entretanto, note que a temperatura é dada em oC enquanto que os


coeficientes de dilatação (tanto para o alumínio quanto para a glicerina) estão
dados em Kelvin. Para fazer o cálculo de forma correta devemos sempre
considerar a dimensionalidade correta em nossas equações. Para isso, precisamos
transformar as unidades.

A temperatura inicial será:

T
=0 (K) T0 ( o C ) + 273,16
( K ) 21 o C + 273,16
T0=
T0 = 294,16 K

A temperatura final será:

T ( K )= T + 273,16
T ( K=
) 39 + 273,16
T = 312,16 K

Agora podemos proceder para o cálculo da variação de temperatura:

∆T =T - T0
∆T =312,16 K - 294,16 K
∆T =
18 K

Vamos agora calcular a variação no volume da taça de alumínio para essa


variação de temperatura, considerando o coeficiente de dilatação linear α do
alumínio:

∆V =3αV0 ∆T
∆V =3 × 2,3 ×10-5 ×120 ×18
∆V =0,149 cm3

52
TÓPICO 3 | DILATAÇÃO TÉRMICA

O volume final da taça de alumínio será então:

Val= V0 + ∆V
V
=al 120 + 0,149
Val = 120,149 cm3

Agora procedemos para o cálculo da dilatação volumétrica da glicerina,


onde consideramos seu volume inicial como V0 = 119 cm3 e o coeficiente de dilatação
volumétrico β = 5,1 x 10–4 (K)–1 e a mesma variação de temperatura (∆T = 18 K).

∆V =βV0 ∆T
∆V = 5,1×10-4 ×119 ×18
1, 09 cm3
∆V =

O volume final da glicerina será:

Vgl= V0 + ∆V
V
=gl 119 + 1, 09
Vgl = 120, 09 cm3

• Podemos finalmente comparar os volumes finais e verificar que a dilatação da


taça de alumínio é suficiente para comportar o volume final da glicerina.
• Podemos também calcular quanta glicerina ainda pode ser colocada dentro
da taça de alumínio. Essa quantidade é dada pela diferença entre os volumes
finais (após a dilatação).

Em que:

∆V =Val - Vgl
∆V =
121, 49 -120, 09
∆V =0.059 cm3

Assim, vemos que ainda seria possível colocar 0.059 cm3 de glicerina
dentro da taça de alumínio.

53
UNIDADE 1 | EQUILÍBRIO TÉRMICO E LEI ZERO DA TERMODINÂMICA

ATENCAO

Se tivéssemos calculado a variação da temperatura em graus Celsius e


procedêssemos com o cálculo da dilatação, teríamos obtido o mesmo valor. Entretanto,
nosso cálculo estaria com o dimensionamento incorreto.

7 DILATAÇÃO ANÔMALA DA ÁGUA


A maioria dos sólidos e líquidos apresenta uma expansão quando há
aumento de temperatura e uma contração quando há uma diminuição de
temperatura. Entretanto, existem algumas substâncias que se comportam de
forma diferente em situações específicas.

O exemplo mais comum é água, para a qual o coeficiente de dilatação


volumétrica é negativo para temperaturas entre 0 oC e 4 oC, isto é, β < 0. Isso
quer dizer que a água se contrai à medida que sua temperatura diminui até
atingir 4 oC. A partir dessa temperatura a água começa a se expandir, conforme
pode ser visto na Figura 11.

Esse comportamento anômalo da água é o motivo de o gelo flutuar sobre


a água líquida. É também por causa desse fenômeno que animais e plantas se
mantêm vivos dentro de lagos cujas superfícies congelam durante o inverno.

FIGURA 11 – DILATAÇÃO ANÔMALA DA ÁGUA

FONTE: Jônatas B. Theodoro (Domínio público)

54
TÓPICO 3 | DILATAÇÃO TÉRMICA

Quando a temperatura é maior que 4 graus Celsius, a água mais quente


fica próxima à superfície do lago. Porém, quando a temperatura é menor do que
4 graus Celsius, ocorre o resfriamento da parte superior do lago, enquanto que
a água mais quente fica no fundo, por ser mais densa. A figura a seguir mostra a
relação da densidade da água em função da temperatura:

FIGURA 12 – GRÁFICO DA DENSIDADE DA ÁGUA EM FUNÇÃO DA TEMPERATURA

FONTE: O autor

A superfície do lago pode congelar, e o gelo formado irá flutuar sobre o


restante de água líquida. Isso permite que plantas e animais consigam sobreviver
dentro do lago (desde que este não congele completamente).

55
UNIDADE 1 | EQUILÍBRIO TÉRMICO E LEI ZERO DA TERMODINÂMICA

FIGURA 13 - LAGO CONGELADO DURANTE INVERNO

FONTE: Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/


thumb/2/20/BridgeExpansionJoint.jpg/1200px-BridgeExpansionJoint.jpg>.
Acesso em: 13 jul. 2018.

Exemplo 16:

(UFPEL-RS) A água, substância fundamental para a vida no planeta,


apresenta uma grande quantidade de comportamentos anômalos.

Suponha que um recipiente, feito com um determinado material hipotético,


se encontre completamente cheio de água a 4 °C.

De acordo com o gráfico e seus conhecimentos, é correto afirmar que:

a) Apenas a diminuição de temperatura fará com que a água transborde.


b) Tanto o aumento da temperatura quanto sua diminuição não provocarão o
transbordamento da água.
c) Qualquer variação de temperatura fará com que a água transborde.

56
TÓPICO 3 | DILATAÇÃO TÉRMICA

d) A água transbordará apenas para temperaturas negativas.


e) A água não transbordará com um aumento de temperatura, somente se o calor
específico da substância for menor que o da água.

Resolução:

Observando atentamente o gráfico, vemos que o volume do recipiente


ficará menor à medida que a temperatura diminui. Por outro lado, quando
diminuímos a temperatura da água no intervalo entre 4 oC e 0 oC veremos que ela
aumentará de volume. Neste caso, a água irá transbordar.

Se agora aumentarmos a temperatura do sistema, veremos que o recipiente
vai aumentar de volume. Entretanto, a água também irá se expandir e, conforme
o gráfico mostra, essa expansão será maior que aquela sofrida pelo recipiente.
Desta forma, a água também vai transbordar.

Portanto, vemos que, na situação apresentada, a água irá transbordar do
recipiente tanto com um aumento ou com uma diminuição da temperatura. A
resposta correta para essa questão é dada na alternativa C.

57
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você aprendeu que:

• Todos os corpos e substâncias sofrem contração ou expansão com a diminuição


ou aumento da temperatura.

• A contração ou expansão tem origem na mudança da distância média entre as


moléculas constituintes do material em função da variação da temperatura.

• Cada material sofrerá dilatação de uma forma diferente, alguns se dilatam


mais e outros se dilatam menos para uma mesma variação de temperatura,
e essa diferença de comportamento é explicada pelos diferentes valores dos
coeficientes de dilatação.

• Podemos estudar a dilatação dos materiais analisando a variação em seu


comprimento, largura e altura.

• Alguns objetos, como um fio comprido, podem ser considerados


unidimensionais.

• Para objetos unidimensionais calculamos a dilatação linear, dada pela equação:

∆L =αL0 ∆T

em que α é o coeficiente de dilatação linear, L0 é o comprimento original, ∆T é


a variação de temperatura e ∆L é a variação no comprimento (a contração ou
expansão sofrida).

• Também podemos obter diretamente o comprimento final L de um objeto


unidimensional, somando o comprimento original L0 com o tamanho da
dilatação ∆L:

=L L0 (1 + α∆T )

• Existem outros materiais, como um disco fino ou uma folha de papel, que
podem ser considerados bidimensionais.

• Para objetos bidimensionais calculamos a dilatação superficial, dada pela


equação:

58
∆A =2αA 0 ∆T

em que A0 é área original do objeto, e ∆A é a variação na área (a contração ou


expansão sofrida). Por ser bidimensional, o coeficiente linear aparece multiplicado
por um fator 2.

• A área final A de um objeto bidimensional pode ser obtida pela soma de sua
área inicial A com a dilatação sofrida (∆A) :

A A 0 (1 + 2α∆T )
=

• Quando há dilatação de uma superfície, há um afastamento de suas moléculas.


Isso significa que furos em uma superfície também crescem com o aumento da
temperatura.

• Para calcularmos a dilatação sofrida por objetos tridimensionais devemos


utilizar a seguinte equação:

∆V =3αV0 ∆T

em que V0 é o volume original do objeto, e ∆V é a variação no volume (a contração


ou expansão sofrida). Por ser tridimensional, o coeficiente linear aparece
multiplicado por um fator 3.

• Podemos obter o volume final V de um objeto tridimensional a partir da soma


de seu volume inicial V com a dilatação sofrida (∆V) :

V V0 (1 + 3α∆T )
=

• Líquidos são sempre considerados tridimensionais por possuírem a forma do


recipiente que os contêm.

• Consideraremos para os líquidos um coeficiente de dilatação volumétrica β,


que é, em geral, muito maior que o coeficiente de dilatação para sólidos.

• A dilatação volumétrica de um líquido é dada por:

∆V =βV0 ∆T

• Quando avaliamos a dilatação volumétrica real de um líquido é necessário


levar em conta a dilatação do recipiente onde ele está contido. A diferença
entre as duas nos dará a dilatação aparente:

59
∆Vaparente =
∆Vreal - ∆Vrecipiente
∆Vaparente= V0 ( β - 3α ) ∆T

• Chamamos o termo (β – 3α) de coeficiente de dilatação aparente de um líquido.

• Em algumas construções são utilizadas juntas de dilatação que são estruturas


criadas com o objetivo de suportarem as variações térmicas e impedirem o
colapso da construção. Algumas substâncias apresentam uma dilatação
anômala, isto é, se contraem com o aumento de temperatura, ou se expandem
com a diminuição da temperatura.

• A água apresenta este comportamento anômalo: quando a temperatura vai de


4 oC a 0 oC a água se expande, aumentando o seu volume e diminuindo a sua
densidade. Isso faz com que o gelo flutue sobre a água líquida.

60
AUTOATIVIDADE

1 Assinale as proposições a seguir como verdadeiras ou falsas:

a) ( ) Se aquecermos uma placa metálica com um orifício circular em seu


interior, o tamanho do furo irá aumentar.
b) ( ) Juntas de dilatação são um meio de evitar o colapso de estruturas e
construções quando essas sofrem variação de temperatura.
c) ( ) Todas as substâncias se contraem com a diminuição da temperatura e se
expandem com o aumento da temperatura.
d) ( ) É possível utilizarmos um termômetro de mercúrio, pois somente esta
substância sofre dilatação com a variação de temperatura.
e) ( ) A variação da área de um disco é inversamente proporcional ao produto
da variação de temperatura pelo valor da sua área inicial.

2 Uma placa metálica, inicialmente a 20 oC, é capaz de sofrer um grande


aumento de 15% em sua área inicial quando aumentamos sua temperatura
em apenas 50 oC. Com base nessas informações, determine o coeficiente de
dilatação linear do metal desta placa.

3 Um cubo de aço de aresta 10 cm foi aquecido de 0 oC a 200 oC. Sabendo que


o coeficiente de dilatação linear do aço é 14 x 10–6(oC)–1, calcule:

a) A variação no tamanho da aresta cubo.

b) O volume final do cubo após o aumento de temperatura.

4 (UPE-PE) Ao lavar pratos e copos, um cozinheiro verifica que dois copos estão
encaixados firmemente um dentro do outro. Sendo um copo externo feito de
alumínio e o interno, de vidro, sobre as formas de separá-los, utilizando os
princípios básicos de dilatação térmica, analise os itens a seguir:

I- Aquecendo apenas o copo de vidro.


II- Esfriando apenas o copo de alumínio.
III- Aquecendo ambos.
IV- Esfriando ambos.

Dados: os coeficientes de dilatação térmica do alumínio e do vidro são iguais a


aAl = 24 x 10–6(oC)–1 e avidro = 0,5 x 10–6(oC)–1, respectivamente.

Está(ão) CORRETO(S) apenas:


a) ( ) I e II.
b) ( ) I.
c) ( ) II.
d) ( ) III.
e) ( ) IV.
61
5 (UNIPÊ-PB) Considere uma panela de cobre, com volume interno igual a
1000,0 cm3, completamente preenchida com água.

Sabendo-se que os coeficientes de dilatação volumétrica do cobre e da água são,


respectivamente, iguais a aCu = 5,0 x 10–5(oC)–1 e aágua = 1,3 x 10–4(oC)–1, é correto
afirmar que o volume de água que transborda da panela, após o aquecimento
de 80 oC, é igual, em cm3, a:

a) ( ) 15,5.
b) ( ) 11,2.
c) ( ) 7,0.
d) ( ) 6,4.
e) ( ) 3,8.

6 (UNILAGO-SP) Uma garrafa cheia de água pura é colocada em um freezer


com a finalidade de baixar a temperatura da água em alguns graus Celsius.
Entretanto, a garrafa foi esquecida no aparelho e retirada somente no dia
seguinte. A partir dessas informações, assinale a alternativa correta:

a) ( ) A garrafa rachou quando a água começou a descongelar e aumentar de


volume rapidamente.
b) ( ) A garrafa permaneceu intacta, pois o volume de água em seu interior
diminuiu gradativamente com a temperatura.
c) ( ) A garrafa deformou, pois a água aumentou de volume no intervalo de
temperatura de 4 oC a 0 oC.
d) ( ) O volume de água no interior da garrafa é o mesmo para as temperaturas
de 0 oC a 4 oC.
e) ( ) O volume de água no interior da garrafa é maior quando a temperatura
atinge o valor de 4 oC.

7 (UEFS – BA) Um recipiente de vidro tem 10 oC, o volume interno de 1,0 litro
e está completamente cheio com um certo líquido. Ao aquecer o recipiente
a 90 oC, ocorre um transbordamento de 4,8 cm3 desse líquido.

Considerando-se o coeficiente de dilatação linear do vidro igual a 1,4 x 10–5(oC)–1,


é correto afirmar que o coeficiente de dilatação real do líquido, em 10–5(oC)–1, é
igual a:

a) ( ) 9,4.
b) ( ) 10,2.
c) ( ) 11,3.
d) ( ) 12,1.
e) ( ) 13,5

62
UNIDADE 2

CALOR E A PRIMEIRA LEI DA


TERMODINÂMICA

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:

• entender a natureza do calor;

• saber qual a relação entre joule e caloria;

• relacionar os conceitos de calor e trabalho;

• calcular a quantidade de calor absorvida ou cedida por uma dada substância;

• distinguir diferentes fases da matéria;

• conhecer os diferentes tipos de transmissão de calor e saber onde cada um


ocorre;

• avaliar o trabalho realizado por uma transformação gasosa;

• conceituar energia interna;

• identificar graficamente os diferentes tipos de transformações térmicas;

• analisar características dos processos térmicos;

• expressar e entender a Primeira Lei da Termodinâmica;

• reconhecer ciclos térmicos.

PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, você en-
contrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.

TÓPICO 1 – NATUREZA E QUANTIDADE DE CALOR

TÓPICO 2 – FORMAS DE PROPAGAÇÃO DE CALOR

TÓPICO 3 – PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA

63
64
UNIDADE 2
TÓPICO 1

NATUREZA E QUANTIDADE DE CALOR

1 INTRODUÇÃO
Em nosso dia a dia é muito comum ouvirmos frases como “estou com
muito calor” e “naquele lugar faz muito calor”. Será que essas frases estão
corretas? Veremos ao longo deste tópico diversas definições envolvendo os
conceitos de temperatura, calor e energia térmica, e veremos em quais situações
usar cada uma delas.

O estudo do calor é extremamente importante na sociedade atual. O
mundo moderno tem como um de seus pilares o uso de máquinas térmicas, como
aquecedores, motores e geladeiras. O princípio por trás do funcionamento dessas
máquinas é um dos responsáveis pelos principais métodos de geração de energia
elétrica. Além disso, é por meio do estudo dos processos de transferência de calor
que desenvolvemos técnicas de cozimento e armazenamento de alimentos.

Vamos começar com a discussão dos principais conceitos envolvidos
nesta temática.

2 A NATUREZA DO CALOR
Os séculos XVIII e XIX foram marcados, dentro do campo científico, pelo
rápido desenvolvimento da termodinâmica e de seus princípios. Como qualquer
área efervescente do conhecimento, havia muita disputa entre diversas teorias
para a explicação dos fenômenos térmicos, como a origem do calor.

Uma das teorias, bastante popular entre o final do século XVIII e meados
do século XIX, defendia a existência de uma substância denominada calórico, um
fluido invisível e inodoro que estaria dentro de todo e qualquer corpo na natureza.
Quanto maior a temperatura de um corpo, mais calórico ele teria. Assim, para
dois corpos entrarem em equilíbrio térmico, eles deveriam ser postos em contato
e o calórico escorreria do corpo que tivesse maior quantidade para o que tivesse
menor. O equilíbrio térmico aconteceria quando os dois corpos tivessem a mesma
quantidade de calórico.

A teoria do calórico era defendida por grandes nomes. Joseph Black


(1728-1799) foi um grande físico escocês que utilizou experimentos para estudar
propriedades térmicas dos corpos. Em suas experiências, tratava o calor como um

65
UNIDADE 2 | CALOR E A PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA

fluido que podia ser armazenado dentro dos corpos. Foi com base nesses estudos
que Black estabeleceu os conceitos de calor específico e latente, propriedades que
variavam conforme a substância.

Antoine-Laurent de Lavoisier (1743-1794) foi um dos principais estudiosos


da “substância do calor” e a ela deu o nome de “calórico” (GOMES, 2012).
Segundo ele, havia uma quantidade constante de calor no Universo. Esse calor
se comportaria como um fluido, deslocando-se sempre do corpo mais quente ao
corpo mais frio.

A teoria do calórico encontrou muitas dificuldades de aceitação e muitas


dúvidas surgiam quando eram elaborados experimentos para testá-la. Segundo
esta teoria, quando um material é aquecido ou esfriado, sua massa deveria
aumentar ou esfriar em função do aumento ou diminuição da sua quantidade
de calórico. Experiências cuidadosas não conseguiam detectar variações de peso
nessas situações, o que implicaria no calórico ser uma substância sem massa.

A teoria do calórico também não era capaz de explicar o aquecimento


crescente entre dois materiais que se atritam. Conde Rumford (1753-1814) estudou
o calor produzido por canhões. Mesmo disparando muitas vezes, um canhão não
deixa de produzir calor, nem se percebe qualquer diminuição desse efeito. Não
havendo perda de calórico, de onde esta substância estaria sendo reposta?

DICAS

O artigo Ascensão e queda da teoria do calórico, de Luciano Carvalhais Gomes,


traz uma ótima discussão sobre o contexto histórico dessa teoria. Confira:

• GOMES, L. C. A ascensão e queda da teoria do calórico. Caderno brasileiro de ensino de


física. Florianópolis: UFSC, v. 29, n. 3, p. 1030-1073, dez. 2012. ISSN 2175-7941.

Com esses questionamentos houve uma mudança de paradigma, e o calor


passou a ser relacionado com a energia que era transferida de um corpo para
outro. Foi somente com o trabalho experimental do físico britânico James Joule
(1818-1889), na década de 1840, que houve uma comprovação efetiva do calor
como um tipo de energia.

Atualmente o calor é entendido como a quantidade de energia transferida
entre um sistema e outro em função da diferença de temperatura entre eles.
Assim, o calor pode ser visto como um modo de transferência de energia.

66
TÓPICO 1 | NATUREZA E QUANTIDADE DE CALOR

A unidade de calor, como as outras formas de energia no Sistema


Internacional de Unidades (SI), é o joule (J). Entretanto, historicamente o calor
foi associado a uma outra unidade, a caloria (cal). Essa unidade é ainda bastante
difundida, principalmente em medições de energia envolvendo alimentos.

ATENCAO

Nas embalagens de alimentos geralmente encontramos a palavra Caloria, com


“C” maiúsculo, que indica “quilocaloria”, isto é, 1 C = 1 kcal = 1000 cal.

A caloria é definida como o calor necessário para elevar de 14,5 oC a 15,5 oC


a temperatura de 1 g de água.

Outra unidade para calor que ainda é usada atualmente é a “British termal
unit”, o BTU, que indica a quantidade de calor necessária para aumentar de 63 oF
a 64 oF uma libra de água.

Conforme mencionamos anteriormente, foi James Joule quem demonstrou


que calor era um tipo de energia. Seu experimento serviu para mostrar que uma
dada diminuição na energia mecânica de um sistema implicaria no aumento de
uma mesma quantidade de calor.

James Joule era filho de um importante cervejeiro inglês e foi aluno do


famoso cientista John Dalton (1766-1844), o responsável pela teoria atômica e
pelos estudos pioneiros do daltonismo, nome dado em sua homenagem. Joule
começou a se interessar pela ciência quando verificava a possibilidade de instalar
motores elétricos no lugar dos motores a vapor utilizados na cervejaria até então.
Com base em seus estudos, Joule descobriu o aquecimento de um metal quando
este é atravessado por uma corrente elétrica (fenômeno que recebeu o nome de
efeito Joule). Após se dedicar ao estudo das vantagens financeiras de cada método
de produção de energia, Joule passou a estudar formas de conversão de energia.

James Joule desenvolveu diversas experiências para mostrar que o


movimento de massas era capaz de causar aquecimento, isto é, transferir calor.
Seu primeiro experimento utilizava um gerador elétrico que era iniciado pelo
movimento de massas em queda. A corrente elétrica gerada aquecia um arame
que aquecia uma certa quantidade de água. Com base na distância percorrida
pelas massas (diminuição da energia potencial gravitacional), Joule obtinha
o valor do trabalho produzido. Ao multiplicar a massa da água pela variação
de temperatura, era possível obter a quantidade de calor transferida e assim
comparar os valores obtidos.

67
UNIDADE 2 | CALOR E A PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA

Foi com base nessa experiência e em suas variações que Joule pôde
mostrar, com cálculos bastante precisos, que o calor está relacionado à energia
de um sistema. O valor aceito atualmente para o fator de conversão entre caloria
e joule é:

1 cal = 4,186 J

Este valor é conhecido como o equivalente mecânico do calor. O trabalho
experimental de Joule complementou o desenvolvimento teórico do conceito de
energia por Rudolf Clausius (1822-1888) e ajudou na consolidação do princípio
da conservação de energia na metade do século XIX.

DICAS

Você pode conhecer mais sobre a vida de James Joule e estudar mais a fundo
seus experimentos no artigo James Prescott Joule e o equivalente mecânico do calor:
reproduzindo as dificuldades do laboratório, de Rafaelle Souza, Ana Paula Silva e Thiago
Araújo. Nesse artigo é feita uma tentativa de reproduzir um dos experimentos de Joule. A
dificuldade dessa tarefa é o ponto central da discussão. Confira:

• SOUZA, R. S.; SILVA, A. P. B.; ARAÚJO, T. S. James Prescott Joule e o equivalente mecânico
do calor: reproduzindo as dificuldades do laboratório. Revista Brasileira de Ensino de Física, v.
36, n. 3, p. 1-9, set. 2014.

3 QUANTIDADE DE CALOR
Vimos anteriormente que para aquecer 1 g de água de 14,5 oC a 15,5 oC,
precisamos de 1 cal, ou, equivalentemente, de 4,186 J, mas se tentarmos aumentar a
temperatura de outras substâncias? Qual será a quantidade de energia necessária
para aumentar 1 g de alumínio em 1 oC?

Esse tipo de pensamento nos leva ao conceito de calor específico c,


isto é, a quantidade de calor necessária para aquecer em 1 oC a temperatura
de determinada substância. Essa grandeza é identificada pela letra c, é medida
usualmente em cal/goC.

O calor específico varia com a temperatura. Apenas no intervalo de 14,5 oC a


15,5 C é que o calor específico da água vale, por definição, c = 1 cal/goC. A variação
o

no calor específico com a temperatura pode ser desprezada quando consideramos


sólidos e líquidos. Entretanto, veremos ao longo deste curso que a diferença pode
ser importante para gases.

68
TÓPICO 1 | NATUREZA E QUANTIDADE DE CALOR

Podemos calcular o calor específico de uma substância utilizando a técnica


da calorimetria, isto é, levando em conta a quantidade de calor Q transferida, a
massa m da substância e a variação total de temperatura no processo. O calor
específico será dado por:

Q
c=
m∆T

Fazendo a análise dimensional e lembrando das unidades do Sistema


Internacional, vemos que o calor específico também pode ser medido em J/kgK.

Se conhecermos o calor específico de uma substância, podemos calcular a


quantidade de calor necessária para aquecê-lo até uma dada temperatura:

Q
= mc∆T

O Quadro 1 relaciona o calor específico de diversas substâncias, tanto


sólidos quanto líquidos:

QUADRO 1 – CALORES ESPECÍFICOS DE ALGUMAS SUBSTÂNCIAS A 25oC E PRESSÃO


ATMOSFÉRICA (1 atm)

Substância Calor específico (J/KgK) Calor específico (1 cal/gK)


Alumínio 900 0,215
Berílio 1830 0,436
Cádmio 230 0,055
Cobre 387 0,0924
Germânio 322 0,077
Ouro 129 0,0308
Ferro 448 0,107
Chumbo 128 0,0305
Silício 703 0,168
Prata 234 0,056
Bronze 380 0,092
Madeira 1700 0,41
Vidro 837 0,2
Mármore 860 0,21
Álcool etílico 2400 0,58
Mercúrio 140 0,033
Água (15 oC) 4186 1,0
FONTE: Adaptado de Serway e Jewett (2004)

69
UNIDADE 2 | CALOR E A PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA

Uma análise atenta do Quadro 1 nos mostra que a água é uma das
substâncias com maior calor específico, ou seja, a água é menos eficiente em ganhar
ou perder energia térmica. Precisamos de muito mais energia para aquecermos 1 g
de água do que precisaríamos para aquecer 1 g de alumínio.

Essa característica da água dá origem a diversos fenômenos, por exemplo,


quando vamos à praia, vemos que a areia facilmente fica quente enquanto absorve
a energia proveniente do Sol matutino. A água do mar, por outro lado, demora
muito mais para se aquecer. Ao fim do dia, quando o Sol está se pondo, a água
parece estar um pouco mais quente, enquanto a areia passa a esfriar rapidamente,
transferindo energia térmica ao ambiente de forma mais eficiente.

Essa diferença na velocidade de aquecimento da areia e da água influencia


diretamente na circulação do ar nessa região. Quando a área está aquecida, o ar
sobre ela também se aquece e, por ser menos denso, é empurrado pelo ar mais
frio e mais denso que está sobre a água. Durante a noite esse processo se inverte:
o ar mais quente está sobre a água e dá lugar ao ar mais frio que se movimenta
no sentido areia → mar.

Exemplo 1:

Durante o eclipse, em uma das cidades na zona de totalidade, Criciúma-


SC, ocorreu uma queda de temperatura de 8,0 oC. (Zero Hora – 04/11/1994).
Sabendo que o calor específico sensível da água é 1,0 cal/g oC, a quantidade de
calor liberada por 1000 g de água, ao reduzir sua temperatura de 8,0 oC, em cal, é:

a) 8,0.
b) 125.
c) 4000.
d) 8000.
e) 64000.

Resposta: Neste exemplo, nos foi informado que durante o eclipse total
houve uma queda de 8,0 oC na temperatura da cidade de Criciúma. A Lua impediu
que a luz do Sol atingisse essa região da Terra por alguns instantes, e foi suficiente
para que a água liberasse uma certa quantidade de energia ao ambiente. Para
calcularmos essa quantidade de energia é necessário levar em conta a massa, a
variação da temperatura e o calor específico da água.

A massa nos foi dada: m = 1000 g.

A variação da temperatura foi de:

∆T =T - T0
∆T =-8 o C

70
TÓPICO 1 | NATUREZA E QUANTIDADE DE CALOR

O calor específico da água vale 1,0 cal/g oC.

Assim, podemos calcular facilmente a variação da energia, isto é, do calor


trocado entre a água e o ambiente:

Q
= mc∆T
Q 1000 ×1× ( -8 )
=
Q = -8000 cal

Note que obtemos um valor negativo em função de a água ter cedido calor
ao ambiente. A resposta correta é, portanto, a letra d, 8000 calorias liberadas.

Exemplo 2:

Quando misturamos 1,0 kg de água (calor específico sensível c = 1,0 cal/g oC)
a 70° com 2,0 kg de água a 10 °C, obtemos 3,0 kg de água a:

a) 10 oC.
b) 20 oC.
c) 30 oC.
d) 40 oC.
e) 50 oC.

Resposta: Neste exemplo temos duas massas de água, com temperaturas


diferentes e devemos obter a temperatura (T) da mistura após esta ter atingido o
equilíbrio térmico.

Em um sistema isolado, a quantidade de calor liberada pela água mais


quente (Q1) será igual à quantidade de água absorvida pela água mais fria (Q2).
Sendo assim, podemos considerar:

Q1 + Q 2 =
0

A variação de temperatura sofrida pela massa de água mais quente será:

∆T1 =
T - T1
T - 70 o C
∆T1 =

A variação de temperatura sofrida pela massa de água mais fria será:

∆T2 =
T - T2
T -10 o C
∆T2 =

71
UNIDADE 2 | CALOR E A PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA

Vamos agora calcular a quantidade de calor fornecida pela água mais


quente:

Q
=1 m1c∆T1
Q
=1 1000 ×1× ( T - 70 )
Q1 = 1000T - 70000

Note que no cálculo acima usamos a massa em gramas. Isso foi feito para
deixar a equação dimensionalmente correta em função de o calor específico ter
sido dado em cal/g°C.

A quantidade de calor recebida pelo restante da água foi:

Q
= 2 m1c∆T1
Q
= 2 2000 ×1× ( T -10 )
Q 2 = 2000T - 20000

Podemos substituir esses valores na primeira equação e obter o valor da


temperatura de equilíbrio T:

Q1 + Q 2 =
0
1000T - 70000 + 2000T - 20000 =
0
3000T = 90000
90
T=
3
T = 30 o C

Com isso, vemos que as duas massas de água atingirão uma temperatura
de equilíbrio igual a 30 oC. A resposta correta para esta questão é a letra c.

Quando uma substância muda de temperatura, isto é, quando troca


energia por meio do calor com o ambiente a sua volta, pode ocorrer que suas
próprias características físicas mudem de forma. A este fenômeno damos o nome
de mudança de fase. Se a substância que estamos estudando é pura e há início no
processo de mudança de fase, não há variação de temperatura. Neste caso, todo o
calor recebido ou liberado se converte em uma variação na energia interna desta
substância.

72
TÓPICO 1 | NATUREZA E QUANTIDADE DE CALOR

E
IMPORTANT

Lembre-se! Energia interna é a energia associada aos átomos e moléculas de


um sistema. Ela envolve a energia de ligação entre as partículas, bem como a energia cinética
associada aos movimentos de rotação, translação e à vibração de cada componente.

As principais mudanças de fases que podem ocorrer estão representadas


na Figura 1 a seguir:

FIGURA 1 – DIAGRAMA DE MUDANÇA DE FASES / OS NOMES DADOS A


CADA PROCESSO TAMBÉM ESTÃO INDICADOS

FONTE: Adaptada de: <https://www.lifeder.com/wp-content/


uploads/2018/03/Calor-latente-283x300.png>. Acesso em: 12 jun. 2018.

Como durante uma transição de fase de uma substância pura não há


variação de temperatura, devemos pensar em uma outra equação que permita
calcular a quantidade de calor trocada durante esse tipo de processo. A equação
a seguir satisfaz essa condição:

Q = ± mL

Em que L é chamado de calor latente da substância. O valor de L é


diferente para cada substância e depende do tipo da mudança de fase. Também
podemos dar nomes diferentes dependendo do processo: quando ocorre fusão ou
congelamento utilizamos o nome calor de fusão Lf , e quando há vaporização ou
condensação utilizamos o termo calor de vaporização Lv.
73
UNIDADE 2 | CALOR E A PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA

O calor latente indica a quantidade de energia que deve ser dada a um


quilograma da substância para que ocorra determinada mudança de fase. Dessa
forma, unidade de L é dada em J/kg.

Na equação anterior devemos tomar cuidado com o sinal utilizado.


Quando a substância estiver recebendo energia, o sinal será positivo. Quando a
substância liberar energia para o ambiente, o sinal será negativo.

O Quadro 2 indica os valores dos calores latentes de fusão e vaporização


para algumas substâncias:

QUADRO 2 – VALOR PARA OS CALORES LATENTES DE FUSÃO E VAPORIZAÇÃO DE DIVERSAS


SUBSTÂNCIAS
Substância Ponto Ponto Calor Ponto de Ponto de Calor
de fusão de fusão latente de ebulição ebulição latente de
(oC) (K) fusão (J/kg) (oC) (K) vaporização
(J/kg)
Hidrogênio -259 14 5,8 x 104 -252,85 20,15 4,55 x 105
Nitrogênio -209,97 77,03 2,55 x 104 -195,81 77,19 2,01 x 105
Oxigênio -218,8 54,2 1,38 x 104 -182,9 90,1 2,13 x 105
Mercúrio -39,15 233,85 1,14 x 104 356,8 629,8 2,96 x 105
Álcool -114 159 1,04 x 105 78 351 8,54 x 105
Água 0 273 3,33 x 105 100 373 2,26 x 106
Chumbo 327,3 600,3 2,45 x 104 1750 2023 8,7 x 105
Prata 960,80 1233,8 8,82 x 104 2193 2466 2,33 x 106
Ouro 1063 1336 6,44 x 104 2660 2933 1,58 x 106
Cobre 1083 1356 1,34 x 105 1187 1460 5,06 x 106
Alumínio 660 933 3,97 x 105 2450 2723 1,14 x 107
FONTE: Adaptado de Serway e Jewett (2004); Young e Freedman (2008)

A Figura 2 mostra a variação de temperatura da água à medida que absorve


calor. No ponto de fusão há a coexistência de água líquida e gelo. Enquanto o
processo de fusão/solidificação ocorre não há mudança na temperatura do
sistema. O mesmo ocorre no ponto de ebulição, em que há coexistência de água
líquida e vapor.

74
TÓPICO 1 | NATUREZA E QUANTIDADE DE CALOR

FIGURA 2 – TEMPERATURA EM FUNÇÃO DA ENERGIA FORNECIDA PARA O SISTEMA


/ INICIALMENTE TEMOS 1G DE GELO A-20 °C

FONTE: O autor

Exemplo 3:

(UFPB-PB) Em um copo há 100 g de água (calor específico c = 1,0 cal/g oC)


à temperatura de 30 °C. Desejando resfriar a água, coloca-se nesse copo 100 g de
gelo (calor latente de fusão L = 80 cal/g) à temperatura de 0 oC. Considerando o
copo um calorímetro de capacidade térmica desprezível, após o equilíbrio térmico
a temperatura será de (em °C):

a) -20.
b) -10.
c) 0.
d) 10.
e) 20.

Resposta: Temos aqui um sistema isolado no qual há transferência de


calor apenas entre a água líquida e o gelo. Dessa forma, para calcularmos qual
a temperatura de equilíbrio térmico devemos calcular qual o calor máximo que
pode ser cedido pela água ao gelo. Para isso, vamos considerar a massa de água
(100 g), o calor específico da água c = 1,0 cal/g oC, e uma variação de temperatura
ΔT = T – T0:

Q=
a mc∆T
Q=
a 100 ×1× ( T - T0 )
Q=
a 100 ×1× ( 0 - 30 )
Qa = -3000 cal

75
UNIDADE 2 | CALOR E A PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA

Essa quantidade de calor foi totalmente absorvida pelo gelo. Podemos


verificar se essa quantidade foi suficiente para derretê-lo completamente (vamos
considerar o calor latente de fusão como sendo 80 cal/g):

Q = mL
3000 = m80
3000
m=
80
m = 37,5 g

Foram derretidos 37,5 gramas de gelo. Como inicialmente existiam 100 g


de gelo, ao final deste processo de transferência de calor havia uma mistura de
água e gelo a 0 oC dentro do copo. A temperatura não irá sofrer variação até que
todo o gelo se derreta. Esta é, portanto, a temperatura de equilíbrio do sistema.

A alternativa correta para esta questão é a letra c.

Exemplo 4:

(UFAC-AC) Em geral, a temperatura do ser humano é constante e igual


a 37 oC. A hipotermia é caracterizada pela redução da temperatura padrão de
nosso corpo. A Medicina faz o uso controlado da hipotermia, em determinadas
cirurgias cerebrais e cardíacas. Esse procedimento diminui o consumo de oxigênio
do cérebro e do coração, bem como reduz a chance de danos ocasionados pela
falta de circulação do sangue. Suponha que um paciente, de massa 60 kg, seja
submetido a uma cirurgia de coração. A temperatura inicial de seu corpo é 37 oC e
pretende-se diminuí-la para 30 oC. Considere o calor específico do corpo humano
igual a 1,0 cal/g oC e o calor latente de fusão do gelo igual a 80 cal/g. A massa
mínima de gelo necessária para diminuir a temperatura do paciente até 30 oC é:

a) 10 g.
b) 4,25 g.
c) 4,25 kg.
d) 5,25 g.
e) 5,25 kg.

Resposta: A temperatura deve ser diminuída em 7 oC (ΔT = 30 oC – 37 oC).


Devemos calcular qual a quantidade de calor que deve ser retirada do corpo para
que ocorra essa diminuição na temperatura. Note que devemos utilizar a massa
em gramas para tornar a equação dimensionalmente correta:

Q
= mc∆T
Q 60000 ×1× ( 30 - 37 )
=
Q = -420000 cal

76
TÓPICO 1 | NATUREZA E QUANTIDADE DE CALOR

O gelo será a substância utilizada para baixar a temperatura do corpo.


Agora é necessário calcular qual a massa de gelo que será capaz de absorver
essa quantidade de calor. Considerando o calor latente de fusão como sendo
Lf = 80cal/g, teremos:

Q = mLf
420000 = 80 m
m = 5250 g

Assim, para baixar a temperatura de um corpo humano de 60 kg em 7 oC


devemos utilizar uma massa de 5250 g (5,25 kg) de gelo.

A resposta correta para essa questão é a alternativa e.

77
UNIDADE 2 | CALOR E A PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA

LEITURA COMPLEMENTAR

A HISTÓRIA DA CIÊNCIA NO ENSINO DA TERMODINÂMICA

Margarete J. V.C. Hülsendeger


Regina M. R. Borges

RESUMO

Este artigo relata uma pesquisa realizada no curso de Mestrado em Educação


em Ciências e Matemática da PUCRS, na qual estiveram envolvidos professores
das áreas de Física, História e Redação e alunos da 1ª série do Ensino Médio de uma
escola particular, em Porto Alegre/RS. Trata-se do acompanhamento e avaliação de
um trabalho com a Termodinâmica, em sala de aula, que teve como objetivo central
superar uma visão linear e acabada da ciência, em especial da Física, mostrando-a
como uma construção humana. Nessa proposta, os conceitos físicos não foram
desvinculados do contexto de sua construção, levando em consideração aspectos
históricos e sociais. Foram debatidas diversas visões de mundo que, de alguma
forma, influenciaram o desenvolvimento da Termodinâmica e o aperfeiçoamento
das máquinas térmicas. Como resultado, além de possibilitar maior compreensão
dos fenômenos que estavam sendo tratados em sala de aula, essa abordagem
favoreceu a compreensão dos problemas que os cientistas enfrentaram e auxiliou
o aluno a compreender suas próprias dificuldades.

Palavras chave: Termodinâmica. História da Ciência. Ensino Médio.

INTRODUÇÃO

Conversando com outros professores que buscam atualização, há um


consenso de que, quando concluímos a licenciatura, geralmente acreditamos
conhecer e dominar razoavelmente bem a maior parte dos conceitos abordados
no decorrer do curso. Reconhecemos a existência de lacunas nesse conhecimento,
mas acreditamos que, com estudo e leitura, conseguiremos superá-las. No entanto,
gradualmente, passamos a perceber que elas eram maiores do que pensávamos.

Temos, em geral, uma concepção de ciência baseada na cumulatividade


e na linearidade das teorias e leis que, paulatinamente, vamos apresentando aos
alunos, desconhecendo conceitos como “ciência normal” ou “revolução científica”.
Mantemos os alunos imobilizados em suas classes, despejando, aula após aula,
conceitos e equações matemáticas, preocupados em vencer o conteúdo. Não
nos questionamos, com muita frequência, se isso tem significado para o aluno.
Apresentamos o conhecimento científico como algo pronto, acabado, no qual o
cientista surge como uma figura quase mitológica, com respostas para todas as
dúvidas, sem incorrer em erros ou passar por dificuldades.

78
TÓPICO 1 | NATUREZA E QUANTIDADE DE CALOR

Entretanto, ao lançarmos um olhar sobre a História da Ciência, podemos


perceber o quanto a compreensão da história das ideias pode auxiliar a entender
como a construção do conhecimento é complexa e não livre das mais diferentes
interferências. Da mesma forma, esse olhar permite ver a Física além das equações
ou fórmulas, como uma fração do conhecimento humano integrada ao nosso dia
a dia, influenciando nossa percepção do mundo onde vivemos.

A partir dessas reflexões foi realizada, no Mestrado em Educação em


Ciências e Matemática da PUCRS, uma pesquisa na qual estiveram envolvidos
professores das áreas de Física, História e Redação e 30 alunos da 1ª série do Ensino
Médio do Colégio João XXIII, em Porto Alegre. A pesquisa consistiu na avaliação
de uma unidade de aprendizagem sobre Termodinâmica, sem desvincular os
conceitos físicos do seu contexto histórico e social, a partir de reflexões sobre as
diferentes visões de mundo que, de alguma forma, influíram no desenvolvimento
de máquinas térmicas e da própria Termodinâmica.

ESTABELECENDO CONEXÕES

Negar a complexidade dos conceitos físicos e a dificuldade da maioria


dos alunos em compreender esses conceitos seria desconhecer a realidade atual
do ensino da Física. E entre as diversas áreas da Física, a Termodinâmica é uma
das que apresentam mais sutilezas. Nela encontram-se as leis “que governam
quanta energia está disponível [...] e envolvem um conceito chamado entropia
para processos termodinâmicos irreversíveis” (FEYNMAN, 1999, p. 136). Como,
então, evitar que esses conceitos se tornem ininteligíveis para o aluno?

Na expectativa de contribuir nesse sentido, a pesquisa aqui resumida


consistiu na avaliação, com abordagem qualitativa, de uma proposta de ensino
e aprendizagem sobre Termodinâmica que vinculou os conceitos trabalhados
na Termodinâmica ao contexto histórico no qual surgiram (leia-se Revolução
Industrial e máquina a vapor). Inicialmente houve dificuldades, pois, para
muitos alunos, História e Física são conteúdos diferentes, não guardando entre si
qualquer tipo de relação. O conhecimento para eles é compartimentado, dividido,
e a resistência em relacionar as partes e enxergar o todo foi muito grande: História
é História, Física é Física, tudo em gavetas incomunicáveis.

Diante dessa situação, foi possibilitada, em sala de aula, a realização


de uma pesquisa sobre o surgimento e desenvolvimento da máquina a vapor,
valorizando, por meio de discussões, as informações que os alunos estavam
reunindo e, ao mesmo tempo, as ideias abordadas na Termodinâmica, buscando
estabelecer ligações com os conceitos físicos que começavam a estudar.

No entanto, uma das dificuldades enfrentadas pelos alunos foi relacionar


o que estava sendo estudado em sala de aula e o que pesquisavam fora dela.
Essa situação ficou mais clara quando, ao entrevistar a aluna coordenadora de
um dos grupos de trabalho, que estava estudando a Revolução Industrial, ela
declarou não conseguir ver com clareza a influência da máquina a vapor dentro

79
UNIDADE 2 | CALOR E A PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA

do contexto histórico. Da mesma forma, outra coordenadora de grupo afirmou


entender o que estava sendo explicado em aula, mas não enxergava as relações
disso com o aperfeiçoamento da máquina a vapor.

Estabelecer conexões não é simples. Contudo, a inserção dos conceitos


estudados na Termodinâmica dentro do contexto histórico e social em que eles
surgiram, realizando constantes paralelos entre o abstrato – conceito de energia – e
o concreto – funcionamento de uma máquina –como foi identificado na análise de
conteúdo dos depoimentos, de alguma forma auxiliou os alunos a estabelecerem
essas relações, inclusive porque, concomitantemente a isso, realizaram uma
pesquisa que favoreceu a compreensão dessas ideias. Os conceitos abordados em
sala de aula passaram a ter mais significado, a partir da percepção de que estavam
associadas não ao trabalho de apenas uma pessoa, mas de muitas que, ao longo
da História, buscaram as respostas aos inúmeros questionamentos que a Ciência
é capaz de propiciar. Portanto, no processo educacional, pode ser importante
trazer para dentro da Física a história das ideias. Afinal, “não há problema, nem
sequer matemático, que não se desenvolva dentro de um contexto histórico”
(PAVIANI, 2003, p. 93).

COMPREENDENDO AS DIFERENTES VISÕES DE MUNDO

A possibilidade de entrar em contato com diferentes visões de mundo é


um dos aspectos mais interessantes e fascinantes do trabalho com a História da
Ciência. Essa aproximação permite perceber a história humana não como algo
linear, mas como uma teia de relações, extremamente complexa.

No caso específico dessa pesquisa, em determinado momento, muitos


alunos começaram a compreender que a Física, assim como qualquer outro
produto do conhecimento humano, é o resultado do esforço e da pesquisa de
muitos, ao longo do tempo. E qual poderia ser o objetivo dessa abordagem dentro
do contexto da Física?

Seria possível favorecermos a compreensão de fenômenos físicos,


ensinando Física sem fazer referência ao processo de produção do conhecimento?
Segundo Robilotta,

ao fazermos isso, estamos implicitamente apresentando o


conhecimento físico como se ele fosse totalmente objetivo. A pretensão
a essa objetividade absoluta está na origem de um dos mitos mais
persistentes acerca da física. Segundo ele, a física seria um corpo de
conhecimentos independente de opiniões pessoais ou preconceitos,
neutro, apolítico, que descreve o mundo natural como ele realmente é
(ROBILOTTA, 1988, p.13).

Portanto, abrir espaço para esse tipo de discussão é importante para quem
deseja auxiliar na formação de sujeitos conscientes, críticos e questionadores.
Oportunizando ao aluno o questionamento, a ciência deixa de ser vista por ele
como uma série de verdades imutáveis e indiscutíveis. Com essa visão mais

80
TÓPICO 1 | NATUREZA E QUANTIDADE DE CALOR

crítica da ciência, ela deixa de ser o lugar onde deuses são gerados no imaginário
do aluno, lugar onde não há espaço para o cinza, mas somente para o preto ou
o branco, o certo ou o errado, permitindo o entendimento de percepções da
realidade, em diferentes épocas. Tais discussões são relevantes para que se possa
compreender que a ciência não é baseada apenas em acertos, ou que uma visão
é mais atrasada em relação à outra, mas que tratam-se de visões construídas em
contextos diferentes e como tais devem ser analisadas. Afinal, “teorias obsoletas
não são acientíficas em princípio, simplesmente porque foram descartadas”
(KUHN, 2000, p. 21).

Essa é uma ideia que, para o aluno, ainda não está suficientemente
clara. Para ele a ideia de atraso, de inferioridade de uma cultura em relação
à outra, de uma época em relação à outra, é muito forte. Para muitos é difícil
compreender que em épocas diferentes as necessidades e objetivos possam ser
diferentes. Daí a necessidade de debates para contextualizar o conhecimento,
discutindo os vínculos com a realidade social em que ele foi estruturado. Nem
sempre o considerado natural numa época, o será em outra, e isso não significa,
necessariamente, atraso ou ignorância.

O reconhecimento dessa realidade levou uma aluna a comentar que,


apesar das dificuldades, o trabalho foi interessante, justamente porque permitiu
o entendimento de como surgiu a máquina que estava sendo estudada na aula,
deixando o assunto mais claro e compreensível. Segundo ela, o trabalho permitiu
que se relacionasse “uma matéria com a outra, um assunto com o outro. E isso é
para o resto da vida, a gente sempre vai ter de saber relacionar uma coisa com a
outra, não é só Física, ou só História, misturou e eu achei isso interessante”.

Ao “misturar-se” algo que não é separado, a não ser em nossas mentes


e nos livros escolares, foi possível aumentar a compreensão dos fenômenos que
estavam sendo tratados em sala de aula, que adquiriram maior significado e
colorido no imaginário do aluno. Essa abordagem favoreceu a compreensão das
dificuldades que as pessoas dedicadas à ciência, em todos os tempos, tiveram que
ultrapassar para terem suas ideias aceitas dentro de um determinado contexto
histórico, contribuindo para auxiliar o aluno a compreender suas próprias
dificuldades na construção do conhecimento científico.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir do que foi exposto, no caso específico analisado nessa pesquisa,


a compreensão de como as ideias relacionadas à Termodinâmica surgiram e se
desenvolveram colaborou para atribuir significados ao ensino da Física, de forma
mais abrangente.

Entretanto, há limites na investigação, em termos de recomendações


a outros contextos, por tratar-se de um estudo de caso, com intenção de
compreender e não de generalizar. Em princípio, seria ingênuo afirmar que a
forma de abordagem do conteúdo ou a metodologia empregada pelo professor

81
UNIDADE 2 | CALOR E A PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA

permitam a solução de todos os problemas em sala de aula. São muitos os fatores


que, de alguma forma, relacionam-se a uma determinada situação.

Da mesma forma, não se deve esperar que os alunos percebam todas essas
conexões de uma hora para outra. Ao entrevistar as coordenadoras de grupo e
questioná-las sobre a validade desse trabalho para a compreensão dos fenômenos
físicos tratados na Termodinâmica, as opiniões se dividiram. Algumas, apesar
de considerarem o trabalho interessante, disseram ter ainda alguma dificuldade
em ver a Física no contexto da pesquisa, enquanto outras aparentaram ter uma
visão mais clara da proposta. Uma chegou a afirmar que “se a gente lembra da
máquina, entende as leis da Termodinâmica”, e que tudo se relaciona não só
à pesquisa propriamente dita, mas também a outros assuntos que estão sendo
desenvolvidos em aula.

Portanto, os resultados dessa investigação, embora não possam ser


generalizados, indicam que o trabalho com a História da Ciência pode tornar-se
uma ferramenta importante para auxiliar o aluno a compreender os fenômenos
estudados na Física, além de ser uma forma de possibilitar o entendimento de que
todo o conhecimento está interligado, e que a divisão instaurada pelas disciplinas
pode ser superada.

FONTE: HÜLSENDEGER, Margarete J. V. C.; BORGES, Regina Maria Rabello. A História da


Ciência no ensino da Termodinâmica. Atas do IV Encontro Nacional de Pesquisa em Educação
em Ciências, CD-ROM, Bauru/SP, 2003.

82
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você aprendeu que:

• Antigamente o calor era tomado como uma substância inodora, incolor e sem
massa que fluía do corpo mais quente para o corpo mais frio.

• A definição do calor como uma forma de transferência de energia entre um


sistema e o ambiente a sua volta em função da diferença de temperatura entre
eles.

• Não há troca de calor quando o sistema está em equilíbrio térmico.

• O calor também pode ser considerado como a quantidade de energia transferida


entre o sistema e o ambiente.

• A quantidade de calor necessária para aumentar a temperatura de determinada


massa m de uma substância pode ser calculada pela equação básica da
calorimetria:

Q
= mc∆T

em que m é massa da substância, ΔT é a variação de temperatura a que ela é


submetida, e c é o calor específico da substância, medida em J/kgK ou cal/g oC.

• A relação entre caloria (cal) e joule (J) foi estabelecida por James Joule, leva o
nome de equivalente mecânico do calor e é definida como:

1 cal = 4,186 J

• Cada substância possui um calor específico diferente, ou seja, precisa de


diferentes quantidades de energia para atingir a mesma variação de temperatura
para uma mesma massa.

• Durante a transição de fase de uma substância pura, há coexistência de estados,


por exemplo, mistura de água líquida e gelo.

• Durante o processo de transição de fase não há aumento ou diminuição da


temperatura do sistema: toda a energia absorvida ou perdida é utilizada na
reestruturação das moléculas e ligações químicas que compõem a substância.

83
• A quantidade de calor necessária para a mudança de fase de uma substância
pura é:

Q = ± mL

em que L é o calor latente, medido em J/kg ou cal/g.

• O valor do calor latente é diferente para as diferentes mudanças de fase, por


exemplo, ponto de fusão e ebulição.

84
AUTOATIVIDADE

1 (UFG-GO) Num piquenique, com a finalidade de se obter água gelada,


misturou-se num garrafão térmico, de capacidade térmica desprezível, 2 kg
de gelo picado a 0 oC e 3 kg de água que estavam em garrafas ao ar livre, à
temperatura ambiente de 40 oC. Desprezando-se a troca de calor com o meio
externo e conhecidos o calor latente de fusão do gelo (80 cal/g) e o calor
específico da água (1 cal/g oC), a massa de água gelada disponível para se
beber, em kg, depois de estabelecido o equilíbrio térmico, é igual a:

a) ( ) 3,0.
b) ( ) 3,5.
c) ( ) 4,0.
d) ( ) 4,5.
e) ( ) 5,0.

2 (UNESP-SP) O gálio é um metal cujo ponto de fusão é 30 oC à pressão


normal, por isso ele pode liquefazer-se inteiramente quando colocado na
palma da mão de uma pessoa. Sabe-se que o calor específico e o calor latente
de fusão do gálio são, respectivamente, 410 J/kg oC e 80.000 J/kg.

a) Qual a quantidade de calor que um fragmento de gálio de massa 25 g,


inicialmente a 10 oC, absorve para fundir-se integralmente quando colocado
na palma da mão de uma pessoa?

b) Construa o gráfico T (°C) x Q (J) que representa esse processo supondo


que ele comece a 10 °C e termine quando o fragmento de gálio se funde
integralmente.

3 (UNIFESP-SP) A enfermeira de um posto de saúde resolveu ferver 1,0 litro


de água para ter uma pequena reserva de água esterilizada. Atarefada,
ela esqueceu a água a ferver e quando a guardou verificou que restaram
950 mL. Sabe-se que a densidade da água é 1,0 x 103 kg/m3, o calor latente
de vaporização da água é 2,3 x 106 J/kg e supõe-se desprezível a massa de
água que evaporou ou possa ter saltado para fora do recipiente durante a
fervura. Pode-se afirmar que a energia desperdiçada na transformação da
água em vapor foi aproximadamente de:

a) ( ) 25 000 J.
b) ( ) 115 000 J.
c) ( ) 230 000 J.
d) ( ) 330 000 J.
e) ( ) 460 000 J.

85
4 Se 100 g de prata fundida a 960,8 °C forem posicionados sobre um bloco de
ouro de 500 g originalmente a 30 °C. Qual será a temperatura do sistema
após atingir o equilíbrio térmico? Imagine que este sistema está isolado, ou
seja, despreze qualquer perda de energia ao ambiente.

86
UNIDADE 2 TÓPICO 2
FORMAS DE PROPAGAÇÃO DE CALOR

1 INTRODUÇÃO
No tópico anterior falamos sobre a natureza do calor e como ele pode ser
calculado a partir do calor específico da substância estudada e da variação de
calor a que esta é submetida.

Sendo o calor um modo de transferência de energia, é necessário estudar


de que formas essa transferência acontece.

Existem basicamente três formas de transferências de calor: convecção,


radiação e condução. Veremos suas principais características e em quais situações
cada uma dessas formas ocorre.

2 CONVECÇÃO
A convecção é um processo de transferência de calor que ocorre geralmente
em fluidos, sejam eles gasosos ou líquidos. Ela é caracterizada pela transferência
de calor quando a massa do fluido se movimenta, gerando o que se denomina
corrente de convecção.

Quando há mudanças na temperatura, pode ocorrer a variação de


densidade de um fluido. Em geral, quando um fluido se esfria, sua densidade
aumenta, e quando o fluido aquece, sua densidade diminui.

Fluidos menos densos tendem a subir em função da força gravitacional. O


espaço ocupado por este fluido quente tende a ser ocupado por fluido mais frio.
Esse movimento das massas é que gera as correntes de convecção.

Correntes de convecção podem ser criadas artificialmente de diferentes


formas, como por meio do uso de ventiladores ou bombas. Neste caso temos
uma convecção forçada. Quando o processo ocorre naturalmente, temos uma
convecção natural ou livre.

O fenômeno da convecção pode ser visto quando aquecemos água em


uma panela. Este fenômeno também é responsável pela formação de ventos da
praia e pela circulação das massas de ar atmosféricas. Além disso, é por meio da
convecção que a energia térmica produzida no núcleo do Sol consegue atingir as
camadas exteriores.

87
UNIDADE 2 | CALOR E A PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA

A convecção também pode ser encontrada no corpo humano. Neste caso,


há a convecção forçada, onde o coração bombeia o sangue quente ao longo do
corpo, tentando aquecer as partes mais frias.

Apesar de ser um mecanismo muito comum de transferência de calor, as


equações que descrevem este fenômeno são muito complexas e raramente exatas.

3 RADIAÇÃO
A radiação é uma forma de transferência de calor através de ondas
eletromagnéticas. Como exemplo de ondas eletromagnéticas podemos citar as
ondas de rádio, as micro-ondas, a radiação infravermelha, a luz visível, a luz
ultravioleta, os raios X e os raios gama.

A radiação é a única forma de transferência de calor que pode ocorrer no


vácuo, isto é, sem a presença de matéria.

Todos os corpos emitem calor na forma de radiação térmica. Essa radiação


tem origem no fato de que, quanto maior a temperatura de um corpo, mais suas
moléculas estarão agitadas. O movimento de cargas elétricas dá origem às ondas
eletromagnéticas. Sendo assim, considerando que todas as moléculas possuem
cargas elétricas, quando as moléculas se agitam, temos o surgimento de radiação
eletromagnética.

Dependendo da temperatura que o corpo apresenta, a radiação


eletromagnética pode ser mais ou menos energética. O corpo humano, cuja média
de temperatura é em torno de 37 oC, emite radiação eletromagnética na faixa do
infravermelho. Substâncias mais quentes, como o ferro derretido nos fornos de
uma siderúrgica, emitem radiação não só no infravermelho, mas também como
luz visível. De fato, quanto mais quente for o corpo, maior a frequência da
radiação emitida.

P = dQ
Podemos relacionar a taxa de emissão de energia rad dt de um corpo
com área superficial A por meio da seguinte expressão, também conhecida como
Lei de Stefan-Boltzmann:

Prad = σεAT 4

Em que Prad é a potência irradiada pelo corpo (medida em watts), A é a área


do corpo, T é a temperatura superficial (em Kelvin) do corpo, e ε é a emissividade
do objeto, um valor entre 0 e 1 que depende da composição da superfície. O
símbolo σ denota a constante de Stefan-Boltzmann, e vale 5,6 x 10–8 W/m2K4.

88
TÓPICO 2 | FORMAS DE PROPAGAÇÃO DE CALOR

Note que um corpo também pode absorver radiação enquanto irradia.


Quando o corpo está em equilíbrio térmico com o ambiente ao seu redor, a taxa
de emissão e absorção de calor é a mesma, o que faz com que sua temperatura se
mantenha constante.

Se houver uma diferença entre a temperatura do corpo (T) e a temperatura


do ambiente (T0), podemos calcular a taxa da variação de energia do corpo em
função da radiação como sendo:

Prad = σεA ( T 4 - T04 )

O valor de Prad será positivo se o corpo absorver energia, e negativo se


ceder energia.

Assim, a emissão de radiação também depende da diferença entre as


temperaturas do corpo analisado e o meio ambiente.

Exemplo 5:

Uma chapa circular de ferro, com raio de 50 cm, é aquecida até atingir
500 oC. Qual a quantidade de energia transmitida por radiação pela chapa?
Suponha uma emissividade de 0,40 e despreze qualquer absorção de radiação.

Resposta: Neste exemplo devemos calcular a taxa de energia transmitida,


que nada mais é do que a potência irradiada pela chapa de ferro. Para resolver
essa questão podemos utilizar a seguinte equação:

Prad = σεAT 4

Que nos dá a potência irradiada em função da área e da temperatura do


corpo.

Como a chapa é circular de raio 50 cm = 0,5 m, sua área total (considerando


os dois lados) será dada por:

A = 2πr 2
A = 2π ( 0,5 )
2

A = 1,57 m 2

89
UNIDADE 2 | CALOR E A PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA

Também devemos ter cuidado ao trabalhar com a unidade de temperatura.


Lembre-se de que na equação para a potência irradiada a temperatura deve
sempre ser dada em Kelvin. Logo, teremos:

T=
K TC + 273
T
=K 500 + 273
TK = 773 K

Agora podemos finalmente calcular a potência irradiada pela chapa


de ferro, considerando uma emissividade ε = 0,4 e a constante de Boltzmann
σ = 5,6 x 10 –8 W/m 2K 4.

Prad = σεAT 4
Prad = 5, 6 ×10-8 × 0, 4 × 0, 79 × ( 773)
4

P=
rad 1, 25 ×104 W

Com isso, vemos que essa pequena chapa circular de ferro à temperatura
de 500 C é capaz de irradiar 1,25 x 104 joules por segundo.
o

Exemplo 6:

Considere uma caixa d’água em formato cúbico de aresta medindo


1 m. A emissividade desta caixa d’água, quando cheia, é de 0,8. Suponha que
a temperatura da água seja 25 oC em um local que possui uma temperatura
ambiente de 5 oC. Qual será a taxa total com que a caixa d’água estará trocando
energia com o meio?

Resposta: Nesta questão a caixa d’água está interagindo com o meio


ambiente. Ao mesmo tempo em que emite energia, a caixa também absorve um
pouco de calor do seu exterior.

Em função disso, devemos calcular a taxa total de radiação emitida


considerando a diferença entre as duas temperaturas. Isso pode ser feito com a
equação a seguir:

Prad = σεA ( T 4 - T04 )

Em que T é a temperatura da caixa d’água e T0 é a temperatura do ambiente.


90
TÓPICO 2 | FORMAS DE PROPAGAÇÃO DE CALOR

É necessário calcularmos a área total da caixa. Sendo um cubo com aresta


medindo 1 m, sua área total será:

A = 6L2
A= 6 ×12
A = 6 m2

Também é necessário transformarmos as unidades da temperatura em


graus Celsius para Kelvin. Fazendo a conversão, teremos T = 298 K e T0 = 278 K.

Considerando a emissividade sendo ε = 0,8 e a constante de Stefan-


Boltzmann σ = 5,6 x 10–8 W/m2K4, podemos finalmente calcular a taxa total de
transmissão de energia por radiação:

Prad = σεA ( T 4 - T04 )

Prad = 5, 6 ×10-8 × 0,8 × 6 ( 298 ) - ( 278 ) 


4 4
 
Prad = 513, 4 W

Essa será a taxa total de perda de energia por radiação. O resultado é


positivo porque a caixa d’água perde calor para o meio, que está mais frio.

4 CONDUÇÃO
O fenômeno da transmissão de calor por condução é visto facilmente
no nosso dia a dia. Uma panela de metal no fogo se aquece rapidamente. Se
estivermos segurando a panela pelo seu cabo, veremos que, com o tempo, o cabo
também fica quente, e somos obrigados a largá-lo.

A condução acontece pela troca de energia cinética entre as moléculas


que compõem um material. Sabemos que quando um corpo é aquecido, suas
moléculas começam a vibrar com mais intensidade. Por meio do choque dessas
moléculas mais agitadas (com mais energia cinética) com aquelas menos agitadas
(com menos energia cinética) ocorre a transferência de calor. Note que os átomos
não se movem de um lado ao outro no material, quem se desloca é a energia
cinética desses átomos.

Esse processo de colisão continua até que todas as moléculas estejam


vibrando com a mesma intensidade, isto é, até que suas temperaturas se igualem,
e o corpo esteja em equilíbrio térmico. Só há condução de calor entre regiões do
condutor se as temperaturas entre essas regiões forem diferentes.

91
UNIDADE 2 | CALOR E A PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA

Entretanto, só a vibração não explica completamente o fenômeno da


condução. Alguns materiais não são bons condutores de calor em função de certas
propriedades intrínsecas a eles. Os metais são considerados bons condutores por
possuírem elétrons livres que podem se movimentar e transportar energia. Os
gases, por serem rarefeitos e terem suas moléculas distantes umas das outras,
também são maus condutores de calor.

É possível calcular a taxa de transferência de calor, isto é, a taxa com que


a quantidade de calor dQ é transferida no tempo dt:

dQ
Pcond =
dt

Experimentalmente foi verificado que a transferência de calor em uma


barra uniforme aumenta com o aumento da seção reta dessa barra. O mesmo
acontece quando aumentamos a diferença de temperatura entre as duas pontas
da barra na qual ocorre a condução. Entretanto, quanto maior o comprimento
dessa barra, menor a taxa de transferência de calor. A Figura 3 exemplifica essas
relações:

FIGURA 3 – FLUXO DE CALOR ATRAVÉS DE UMA BARRA COM ÁREA DE SEÇÃO


RETA A COMPRIMENTO L E CONDUTIVIDADE TÉRMICA K

FONTE: O autor

O matemático e físico francês Jean-Baptiste Joseph Fourier (1768-1830) foi


quem primeiro assumiu que a corrente de calor era proporcional à diferença de
temperatura espacial local. Considerando apenas uma dada direção x, teríamos:

∂T
qx ∝ −
∂x
92
TÓPICO 2 | FORMAS DE PROPAGAÇÃO DE CALOR

Posteriormente, diversos experimentos puderam estabelecer melhor essa


relação de proporcionalidade, de forma que podemos escrever a seguinte equação
para a condução de calor:

TQ - TF
Pcond = kA
L

Em que A é a área da seção reta da barra, L é seu comprimento, e k é


uma constante denominada condutividade térmica do material. A diferença
de temperatura entre as duas extremidades da barra é dada por TQ – TF . Essa
equação, também conhecida como Lei de Fourier, pode ser utilizada sempre que
precisamos calcular a taxa de transferência de calor de um material homogêneo
em que o calor se propague perpendicularmente em relação à seção reta do
material.

A unidade de transferência de calor é a mesma utilizada para o cálculo de


potência, isto é, J/s, ou seja, watt (W). A unidade de condutividade térmica (k) é
W/m.K. No Quadro 3 estão listados alguns valores para k:

QUADRO 3 – CONDUTIVIDADE TÉRMICA PARA ALGUMAS SUBSTÂNCIAS


Substância k (W/m.K)
Metais
Alumínio 205,0
Latão 109,0
Cobre 385,0
Chumbo 34,7
Mercúrio 8,3
Prata 406,0
Aço 50,2
Materiais não metálicos
Tijolo vermelho 0,6
Concreto 0,8
Cortiça 0,04
Feltro 0,04
Fibra de vidro 0,04
Vidro 0,8
Isopor 0,01
Madeira 0,12-0,04
Gases
Ar 0,024
Hélio 0,14
Oxigênio 0,023
FONTE: Adaptado de Young e Freedman (2008)

93
UNIDADE 2 | CALOR E A PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA

Exemplo 7:

Considere uma estufa que possui uma única janela de área total 1,75 m2.
Essa janela é feita de um vidro com 5mm de espessura. Essa estufa consegue
manter uma temperatura de 27 oC em seu interior. Se, no inverno, a temperatura
média do lado de fora da estufa é de 12 oC. Qual a quantidade total de energia
perdida através da janela durante um dia (24h)?

Considere a condutividade térmica do vidro como sendo k=0,8 W/m.K.

Resposta: Para sabermos qual a quantidade de energia perdida pela estufa


no decorrer de um dia completo, precisamos calcular qual a taxa de perda de
calor por condução através do vidro da janela. Vamos considerar que as demais
paredes são isolantes. Assim, podemos utilizar a seguinte equação:

TQ - TF
Pcond = kA
L

Em que k é a condutividade térmica do vidro; A é a área da janela; TQ é


a temperatura interna da estufa; TF é a temperatura do exterior. Nesta equação
ainda temos o termo L, que indica a espessura do vidro pelo qual o calor será
conduzido.

Para efetuar esse cálculo precisamos transformar as unidades para o


Sistema Internacional (SI). Convertemos as temperaturas de graus Celsius para
Kelvin:

TQ =27 + 273 =300 K


TF =+
5 273 =
278 K

Também precisamos converter a espessura do vidro, dada em milímetros,


para metros:

L= 5mm= 5 ×10-3 m

Agora podemos calcular a taxa com que a energia é perdida através da


janela por condução de calor:

TQ - TF
Pcond = kA
L
300 - 278
Pcond =0,8 ×1, 75 ×
5 ×10-3
Pcond = 6160 W

94
TÓPICO 2 | FORMAS DE PROPAGAÇÃO DE CALOR

Lembre-se de que esta é a taxa de transferência de energia por segundo.


Neste exemplo estamos interessados em calcular a quantidade total de energia
perdida pela estufa ao longo de um dia. Para isso, basta lembrarmos da definição
de potência:

E
P=
t

Em que E é a quantidade de energia e t é o tempo. Sendo o calor uma


forma de energia, podemos obter seu valor substituindo nesta equação a potência
(Pcond = 6160 W) obtida anteriormente e o período de tempo considerado. Em um
dia temos 24 horas, em cada hora 60 minutos e cada minuto é composto de 60
segundos. Assim, em um dia temos 86400 segundos. Substituindo esses dados,
na equação para a potência, teremos:

E
P=
t
Q = Pt
Q 6160 × 86400
=
Q 5,32 ×108 J
=

Essa é a quantidade total de calor perdida pela estufa através da janela


de vidro no decorrer de um dia. Esse valor pode mudar à medida que variar a
diferença entre as temperaturas externa e interna. Lembre-se de que quando os
dois sistemas (lado interno e externo) estão com a mesma temperatura não há
transferência de calor, pois há equilíbrio térmico.

Exemplo 8:

Segundo Young e Freedman (2008, p. 21), “uma barra de aço de 10,0 cm


de comprimento é soldada pela extremidade a uma barra de cobre de 20,0 cm de
comprimento. As duas barras são perfeitamente isoladas em suas partes laterais. A
seção reta das duas barras é um quadrado de lado igual a 2,0 cm”. A extremidade
livre da barra de aço é mantida a 100 oC pelo contato com vapor d’água obtido por
ebulição, e a extremidade livre da barra de cobre é mantida a 0 oC por estar em
contato com gelo. Calcule a temperatura na junção entre as duas barras e a taxa
total da transferência de calor.

Resposta: Neste problema temos a troca de calor entre duas barras de


materiais diferentes. Entretanto, note que a quantidade de calor que sai de uma
barra deve ser igual à quantidade de calor que entra na outra.

A Figura 4, a seguir, exemplifica a situação apresentada neste problema:

95
UNIDADE 2 | CALOR E A PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA

FIGURA 4 – CONDUÇÃO DE CALOR NO EXEMPLO 8

FONTE: Adaptado de Young e Freedman (2008)

Para sabermos a temperatura T no ponto de junção entre as duas barras


devemos calcular qual a taxa de transmissão de calor para cada barra. Na junção
esses dois valores serão iguais, e poderemos obter a temperatura do local.

Vamos calcular a taxa de transmissão de calor na extremidade da barra de


aço. A temperatura TQ é a temperatura em contato com o vapor d’água a 100 oC,
ou, equivalentemente, 373 K. A temperatura TF é a temperatura na junção, valor
que queremos descobrir.

Para fazer o cálculo precisamos ainda do comprimento da barra L = 10,0 cm = 0,1 m,


e do valor da condutividade térmica do cobre (kAço = 50,2 W/m.K). Além disso, a área
da seção reta da barra de cobre vale A = l2 = (2 cm)2 = 4 cm2 = 4 x 10–4 m. Substituindo
esses valores na equação da taxa de energia, teremos:

TQ - TF
Pcond-Aço = kA
L
373 - T
= 50, 2 × 4 ×10-4 ×
Pcond-Aço
0,1

Para obtermos o valor da temperatura T, é necessário saber a taxa de


transmissão de calor na junção. Precisamos obter a expressão para a taxa de
transmissão para a barra de cobre, para então podermos igualar as expressões e
isolar T.

Para a barra de cobre, de comprimento L = 20,0 cm = 0,2 m, kCu = 385 W/m.K


e TF = 0 oC = 273 K. Note que, para a barra de cobre, a temperatura T na junção é
maior que a temperatura na outra extremidade. A área da seção reta será a mesma
que a área da seção reta para a barra de aço. Substituindo esses valores, teremos:

96
TÓPICO 2 | FORMAS DE PROPAGAÇÃO DE CALOR

TQ - TF
Pcond-Cobre = kA
L
T - 273
Pcond-Cobre= 385 × 4 ×10-4 ×
0, 2

Igualando as duas expressões para a taxa de transferência de energia e


isolando T:

Pcond-Aço = Pcond-Cobre
373 - T T - 273
50, 2 × 4 ×10-4 × = 385 × 4 × 10-4 ×
0,1 0, 2
502 × ( 373 - T ) =
1925 × ( T - 273)
2427T = 712771
T = 293, 7 K
T = 20, 7 o C

Com isso, vemos que a temperatura na interface da junção entre as barras


de aço e cobre é de 20,7 oC.

Podemos substituir essa temperatura nas equações para as taxas de


transferência de energia. Podemos utilizar qualquer uma das expressões
anteriores.

Para a barra de aço:

373 - 293, 7
= 50, 2 × 4 ×10-4 ×
Pcond-Aço
0,1
Pcond-Aço = 15,9 W

Para a barra de cobre:

293, 7 - 273
Pcond-Cobre= 385 × 4 ×10-4 ×
0, 2
Pcond-Cobre = 15,9 W

É interessante notar que a temperatura caiu muito mais rapidamente na


barra de aço do que na barra de cobre, apesar de aquela ter um comprimento
duas vezes menos. Para o aço houve uma variação de 100 oC a 20,7 oC, enquanto
que a barra de cobre variou de 0 oC a 20,7 oC. Essa diferença é explicada pelo fato
de que o aço possui uma condutividade térmica muito menor que a do cobre.

97
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu que:

• Existem três principais tipos de transmissão de calor: convecção, radiação e


condução.

• A convecção ocorre geralmente em um fluido.

• O calor é transferido por uma corrente de convecção, isto é, pela movimentação


das moléculas deste fluido.

• Esse movimento surge em função das mudanças de densidades a que diferentes


partes do fluido estão sujeitas quando há um aquecimento.

• As partes mais quentes são menos densas e têm a tendência de subir.

• As partes mais frias são mais densas e têm a tendência de descer.

• A convecção pode ser natural ou forçada (quando é produzida de forma


artificial).

• O calor também pode ser transferido através da radiação eletromagnética.

• Ao contrário das outras formas de transferência de calor, a radiação pode se


propagar no vácuo.

• A quantidade de radiação eletromagnética emitida depende da temperatura


do corpo. Quanto maior a temperatura, maior a frequência (mais energética) é
a radiação emitida.

• Podemos calcular a taxa de emissão de radiação de um corpo em função da


temperatura da sua superfície:

Prad = σεAT 4

em que Prad é a potência irradiada pelo corpo (medida em watts), A é a área do


corpo, T é a temperatura superficial (em kelvins) do corpo.

• A constante ε é a emissividade do objeto, um valor entre 0 e 1 que depende da


composição da superfície.

• O símbolo σ denota a constante de Stefan-Boltzmann e vale 5,6 x 10–8 W/m2K4.

98
• Se houver uma diferença entre a temperatura do corpo (T) e a temperatura do
ambiente (T0), a taxa da variação de energia do corpo será dada por:

Prad = σεA ( T 4 - T04 )

• O valor de Prad será positivo se o corpo absorver energia, e negativo se ceder


energia.

• A condução de calor é uma forma de propagação que só ocorre em meio


material.

• Na condução não há movimentação das partículas, o que ocorre é a troca de


energia cinética entre partículas em contato.

• Podemos calcular a taxa de transferência de calor em uma barra de seção reta


A e comprimento L com a seguinte expressão:

TQ - TF
Pcond = kA
L

em que TQ é a temperatura na extremidade mais quente da barra e TF é a


temperatura na extremidade mais fria da barra, e k é a condutividade térmica
do material que compõe a barra.

99
AUTOATIVIDADE

1 (UEPG, 2010 – Adaptada) Calor pode ser conceituado como sendo uma
forma de energia que é transferida de um sistema físico para outro sistema
físico, devido, exclusivamente, à diferença de temperatura existente entre os
dois sistemas. Sobre o fenômeno da transferência de calor, assinale V para as
alternativas verdadeiras e F para as falsas:

a) ( ) A transmissão do calor por convecção, em um meio, consiste essencialmente


no deslocamento de moléculas de diferentes densidades, de uma região para
outra desse meio.
b) ( ) A condução do calor pode ser atribuída à transmissão da energia através
de colisões entre as moléculas constituintes de um corpo. Por isso, os sólidos
são melhores condutores de calor do que os líquidos e do que os gases.
c) ( ) Fluxo de calor corresponde à quantidade de calor que atravessa uma
seção reta do corpo que o conduz, na unidade de tempo.
d) ( ) O calor, espontaneamente, se propaga do corpo de maior temperatura
para o corpo de menor temperatura.
e) ( ) Quando dois corpos, em contato, estão em equilíbrio térmico, pode-se
afirmar que o fluxo de calor entre eles é constante.

2 (UFPR-PR, 2007) Com relação aos processos de transferência de calor,


considere as seguintes afirmativas:

1- A condução e a convecção são processos que dependem das propriedades


do meio material no qual ocorrem.
2- A convecção é um processo de transmissão de calor que ocorre somente em
metais.
3- O processo de radiação está relacionado com a propagação de ondas
eletromagnéticas.

Assinale a alternativa CORRETA:


a) ( ) Somente a afirmativa 1 é verdadeira.
b) ( ) Somente a afirmativa 2 é verdadeira.
c) ( ) Somente a afirmativa 3 é verdadeira.
d) ( ) Somente as afirmativas 1 e 3 são verdadeiras.
e) ( ) Somente as afirmativas 2 e 3 são verdadeiras.

3 (HALLIDAY; RESNICK; WALKER, 2009) Um cilindro maciço de raio r1 = 2,5 cm,


comprimento h1 = 5,0 cm, emissividade ε = 0,850 e temperatura TC = 30 oC está
suspenso em um ambiente de temperatura TA = 50 oC.

a) Qual é a taxa líquida P1 de transferência de radiação térmica do cilindro?

b) Se o cilindro é esticado até que o raio diminua para r2 = 0,50 cm, a taxa líquida
de transferência de radiação térmica passa a ser P1. Qual é a razão P2/P1?
100
4 (ENADE, 2014) Em geral, o efeito estufa é entendido como o processo pelo
qual parte da energia infravermelha – emitida pela superfície do planeta
e absorvida por determinados gases atmosféricos – é irradiada de volta, o
que torna a temperatura da superfície da Terra mais elevada do que seria
sem a presença da atmosfera. Para a termodinâmica, a transferência de calor
via condução e convecção é mais efetiva para o aquecimento da atmosfera
e, portanto, a radiação infravermelha emitida pela superfície é capaz de
aquecer apenas uma fração dos gases atmosféricos radiativamente ativos.
Considerando os aspectos termodinâmicos, avalie as afirmações a seguir:

I- A radiação térmica da atmosfera é resultado da sua temperatura e não a


causa.
II- Uma quantidade de radiação superior à energia solar absorvida pela
superfície do planeta causa aquecimento adicional da Terra.
III- A radiação infravermelha resultante da temperatura da superfície do
planeta não pode induzir aquecimento adicional sobre a sua fonte.

É correto o que se afirma em:


a) ( ) I, apenas.
b) ( ) II, apenas.
c) ( ) I e III, apenas.
d) ( ) II e III, apenas.
e) ( ) I, II e III.

5 (SERWAY; JEWETT, 2004) A temperatura da superfície do Sol é de


aproximadamente 5800 K. O raio do Sol é 6,96 x 108 m. Calcule a energia
total irradiada pelo Sol a cada segundo. Considere que a emissividade é
0,965.

6 (SERWAY; JEWETT, 2004) Uma barra de ouro está em contato térmico com
uma barra de prata de mesmo comprimento e área, conforme figura a seguir.
Uma extremidade da barra composta é mantida a 80 oC e a extremidade
oposta está a 30 oC. Quando a transferência de energia atinge o estado
estacionário, qual a temperatura na junção?

FIGURA 5 – CONDUÇÃO DE CALOR NO EXERCÍCIO 6

FONTE: Adaptada de Serway e Jewett (2004)


101
102
UNIDADE 2 TÓPICO 3

PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA

1 INTRODUÇÃO
O nosso modo de vida moderno é extremamente ligado a diversos
fenômenos termodinâmicos. O funcionamento de uma geladeira, de um ar-
condicionado, dos motores de combustão usados em veículos e máquinas
industriais e até mesmo o aquecimento de uma panela são exemplos de
equipamentos e situações em que empregamos conceitos da termodinâmica.

Note que em todas as situações descritas há transformações de um tipo de


energia em outro. No motor de um carro, energia química presente na gasolina
é liberada quando esta reage com oxigênio e causa uma explosão. Essa explosão
(controlada) move pistões que realizam trabalhos mecânicos que ativam outras
partes do motor.

Para entendermos como se dá a transformação de energia de um tipo


em outro durante essas situações, precisamos conhecer a Primeira Lei da
Termodinâmica, que será o objeto de estudo deste tópico.

2 TRABALHO EM TRANSFORMAÇÕES GASOSAS


Para estudarmos as diferentes formas de transformar calor em trabalho,
vamos imaginar um gás confinado em um reservatório fechado por um pistão
(um êmbolo) móvel que pode deslizar sem atrito. Quando aquecido, o gás exerce
uma força para cima que empurra o êmbolo. Uma representação desse cilindro é
dada na Figura 6:

FIGURA 6 – UM RECIPIENTE FECHADO CONTENDO UM GÁS

FONTE: O autor

103
UNIDADE 2 | CALOR E A PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA

Quando as moléculas do gás se chocam com as paredes do cilindro ocorre


o surgimento de uma pressão p contra as paredes e contra a superfície do êmbolo,
de área A.

Imagine que este gás sofre um aquecimento isobárico, isto é, à pressão


constante. Para manter essa pressão constante o gás deve pressionar o êmbolo

para cima, com uma determinada força F .

Se considerarmos que o êmbolo se move em um deslocamento vertical


infinitesimal ds, então a força que o gás exerce realizará um trabalho dW dado
por:

dW = Fds

Note que o cilindro tem uma área de seção reta A. Quando o êmbolo se
movimenta verticalmente, o que ocorre é uma variação infinitesimal do volume dV:

dV = Ads

Se lembrarmos da relação entre força (F) e pressão (P), teremos:

F
P=
A
F = PA

Podemos então reescrever a equação para o trabalho:

dW = PAds
dW = PdV

O trabalho total realizado quando há uma variação de volume de V1 a V2


será:
V2

W = ∫ PdV
V1

Nos cálculos anteriores, consideramos a pressão como sendo constante.


Entretanto, geralmente a pressão é variável. Se conseguirmos saber os valores de
V e P durante um processo termodinâmico, podemos obter o trabalho realizado
pelo gás analisando um diagrama PV, como os representados na Figura 7:

104
TÓPICO 3 | PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA

FIGURA 7 – TRABALHO (ÁREA CINZA DO DIAGRAMA) REALIZADO POR UM GÁS AO MUDAR


SEU ESTADO DE (I) PARA (F) / O TRABALHO DEPENDE DA TRAJETÓRIA

FONTE: O autor

Assim, vemos que o trabalho realizado pelo gás depende do caminho


percorrido dentro de um diagrama PV.

Na Figura A, o gás sofre uma expansão do estado inicial (i) para o estado
final (f) variando sua pressão e volume.

Na Figura B, o gás sofre uma expansão inicialmente isobárica (pressão
constante) e depois uma transformação isovolumétrica (também chamada de
isocórica). Note que o trabalho (área cinza do diagrama) realizado pelo gás é
menor que o trabalho apresentado na Figura A. Lembre-se de que em uma
transformação isovolumétrica não há realização de trabalho. Na Figura C, o gás
sofre variação de pressão e volume simultaneamente.

Além disso, o trabalho também depende do caminho realizado pelo


sistema no diagrama. Como sabemos, se o volume está se expandindo, então
temos um trabalho positivo, é o trabalho realizado pelo gás. Se, por outro lado,
o volume estiver sendo comprimido, temos um trabalho negativo, ou seja, é o
gás que está sofrendo trabalho de forças externas. Caso o volume permaneça
constante, então o sistema não realiza trabalho.

Exemplo 9:

Com base na figura a seguir, analise os trabalhos realizados nas


transformações gasosas AB, BC, CD e DA e indique se tem valor nulo, positivo
ou negativo:

105
UNIDADE 2 | CALOR E A PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA

FIGURA 8 – REPRESENTAÇÃO DO CICLO TÉRMICO PARA EXEMPLO 9

FONTE: O autor

Resposta: Vamos começar analisando o processo AB. Neste processo,


vemos que a pressão do gás diminui, enquanto seu volume aumenta. Assim, o
gás está realizando trabalho, ou seja, o valor de W é positivo (WAB > 0).

No processo BC apenas a pressão está variando, enquanto o volume


permanece constante. Como sabemos, quando não há variação de volume,
também não há trabalho sendo realizado ou sofrido. Dessa forma, o trabalho será
nulo (WBC = 0).

Considerando o processo CD, vemos que a pressão é constante. Entretanto,


o volume varia, diminuindo seu valor. Como o gás está sendo comprimido, ele
está recebendo trabalho de alguma fonte externa e, portanto, teremos WCD < 0.

No processo DA temos um aumento da pressão, porém não há variação de


volume. Novamente, não há trabalho sendo realizado pelo sistema, então WDA = 0.

Outro ponto interessante a ser discutido nessa questão é o trabalho total


(WT) produzido pelo sistema. O trabalho total será a soma dos trabalhos de todos
os processos:

WT = WAB + WBC + WCD + WDA


W=
T WAB + 0 + WCD + 0

Note ainda que o trabalho WCD é negativo, então:

WT = WAB - WCD

106
TÓPICO 3 | PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA

Lembrando que o trabalho pode ser calculado pela área abaixo de cada
curva de um diagrama PV, vemos que o trabalho total será a área delimitada
pelas quatro curvas do gráfico acima que formam um trapézio.

3 PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA E PROCESSOS


TERMODINÂMICOS
Há também uma relação entre o trabalho (W), o calor (Q) e a variação da
energia interna (U) de um sistema.

Conforme vimos anteriormente, a energia interna é um tipo de energia


“armazenada” no corpo ou sistema. Em um gás, a energia interna é a soma das
energias de translação, rotação e vibração de suas moléculas. As forças internas e
a energia cinética (relacionada à agitação térmica) das partículas também entram
nessa conta.

Podemos então associar a variação da energia interna com essas variáveis:

∆U ~ ∆T

Em que ∆U é a variação da energia interna e ∆T é a variação da temperatura.

No primeiro tópico desta unidade também vimos que calor é uma forma
de transferência de energia. Assim, se um sistema recebe calor e não realiza
trabalho, então esse calor foi “armazenado” na forma de energia interna, ou seja,
∆U = Q.

Caso não haja transferência de calor, ainda assim o sistema realiza trabalho
(trabalho positivo). O sistema está, portanto, diminuindo sua energia interna. Se
o sistema estiver sofrendo trabalho (trabalho negativo) sem trocas de calor, então
ocorre um aumento da energia interna. Essa relação é determinada pela seguinte
equação:

∆U =-W

Entretanto, pode haver ocasiões em que o sistema troca calor e realiza/


sofre trabalho. A variação da energia interna será dada por:

∆U =Q-W

Ou, reorganizando os termos:

Q =∆U + W

107
UNIDADE 2 | CALOR E A PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA

A equação anterior é chamada de Primeira Lei da Termodinâmica.

Essa equação indica que, quando calor é transferido para um sistema,


pode haver variação de energia interna e o sistema pode realizar trabalho. As
diversas relações entre o aumento ou diminuição de energia interna ou o efeito
de realizar ou sofrer trabalho vão depender do tipo de processo termodinâmico
ao qual o sistema está sujeito.

Exemplo 10:

Suponha que 1,00 g de água evapore isobaricamente à pressão atmosférica


(1,013 x 105 Pa). Seu volume no estado líquido é Vl = 1,00 cm3 e seu volume no
estado de vapor é Vv = 1671 cm3. Descubra qual o trabalho realizado sobre o vapor
na expansão e a mudança na energia interna do sistema. Ignore qualquer mistura
do vapor com o ar ao redor – adotaremos o modelo de simplificação no qual
o vapor simplesmente empurra o ar ao redor para fora do caminho (SERWAY;
JEWETT, 2004).

A seguir, veremos os casos especiais de processos termodinâmicos, como


identificá-los e suas peculiaridades.

Resposta: Para resolvermos esta questão, precisamos usar vários conceitos


que vimos nesta unidade. Para o cálculo do trabalho devemos lembrar que este
está relacionado à variação no volume. No enunciado dessa questão nos foi dito
que o volume inicial (água ainda líquida) é Vl = 1,00 cm3 e o volume final (água em
estado de vapor) é Vv = 1671 cm3. Transformando esses valores para a unidade em
metros, teremos Vl = 1,00 x 10–6 m3 e Vv = 1671 x 10–6 m3. Considerando a pressão
constante, teremos:

W= P∆V
W = P ( Vv - Vl )
W= (1, 013 ×10 ) × (1671-1, 00 ) ×10
5 -6

W = 169 J

Agora precisamos calcular a variação da energia interna do sistema. Isso


pode ser feito com a equação da Primeira Lei da Termodinâmica:

∆U =Q-W

Para usá-la, precisamos calcular qual a quantidade de calor absorvida


pela massa de água durante o processo de ebulição. Considerando o calor latente
de vaporização da água como sendo Lv = 2,26 x 10–6 J/kg, a energia necessária para
vaporizar 1,00 g (1,00 x 10–3 kg) será:

108
TÓPICO 3 | PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA

Q = mL v
Q = 1, 00 ×10-3 ×2, 26 ×106
Q = 2260 J

Agora podemos finalmente calcular a mudança na energia interna do gás:

∆U =Q-W
∆U =2260 -169
∆U =2091 J

O resultado foi positivo, o que indica que a energia interna aumentou.


Note que, de toda a energia fornecida para o sistema, cerca de 93% foi utilizada
para alterar as ligações entre as moléculas de água, aumentando a energia interna.
O restante (169 J, ou 7% do total) foi utilizado para a expansão do gás.

4 PROCESSO ISOTÉRMICO

Em um processo isotérmico não ocorre transferência de calor, ou seja,
∆T = 0.

Se não há variação na temperatura, então também não há variação na


energia interna do sistema: ∆U = 0.

Desta forma, podemos analisar a primeira lei da termodinâmica:

∆U = Q-W
0 = Q-W
Q=W

Portanto, caso não haja variação na temperatura, qualquer variação na


energia interna de um gás irá se refletir em trabalho sendo realizado ou sofrido.

A figura a seguir mostra um exemplo de expansão isotérmica:

109
UNIDADE 2 | CALOR E A PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA

FIGURA 9 – UMA EXPANSÃO ISOTÉRMICA

FONTE: O autor

Todos os pontos dessa linha curva estão a uma mesma temperatura. Neste
tipo de processo o gás aumenta seu volume. Para isso acontecer é necessário que
receba calor, ou seja, Q > 0.

A Figura 10 representa uma compressão isotérmica:

FIGURA 10 – UMA COMPRESSÃO ISOTÉRMICA

FONTE: O autor

110
TÓPICO 3 | PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA

Neste processo, o gás libera calor Q < 0. Quem realiza trabalho é meio
(trabalho negativo), ocasionando a diminuição de volume.

5 PROCESSO ISOBÁRICO
A Figura 11 mostra um processo isobárico no qual há expansão do volume:

FIGURA 11 – UMA EXPANSÃO ISOBÁRICA

FONTE: O autor

Neste caso, temos ∆V > 0, e portanto, W > 0.

Note também as duas isotermas, uma com temperatura T1 e outra com


temperatura T2 , em que T2 > T1. Com o aumento da temperatura, teremos também
um aumento da energia interna do gás (∆U > 0).

Como ∆U > 0 e W > 0, então, pela Primeira Lei da Termodinâmica (Q = ∆U + W),


teremos Q > 0: o gás recebe calor do meio externo.

A Figura 12 mostra um processo isobárico no qual há contração do volume:

111
UNIDADE 2 | CALOR E A PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA

FIGURA 12 – UMA COMPRESSÃO ISOBÁRICA

FONTE: O autor

Como temos ∆V < 0, então W < 0. A temperatura varia de T2 a T1 , logo ∆T < 0


e a energia interna do gás diminui (∆U > 0).

Pela Primeira Lei da Termodinâmica, se a energia interna e o trabalho


são negativos, então o calor também é negativo (Q < 0): o gás cede calor ao meio
externo.

6 PROCESSO ISOVOLUMÉTRICO

O processo termodinâmico a volume constante também pode ser
chamado de isocórico. A Figura 13 mostra duas representações de processos
isovolumétricos com aumento da pressão:

FIGURA 13 – UM TIPO DE PROCESSO ISOVOLUMÉTRICO

FONTE: O autor

112
TÓPICO 3 | PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA

Na imagem à esquerda, temos um gráfico Pressão X Temperatura de um


processo isovolumétrico. Na imagem à direita, vemos em um gráfico PV que, a
volume constante, a pressão aumenta.

Se ∆V = 0, então não há trabalho. Como há aumento da temperatura


(∆T > 0), também temos ∆U > 0. Nesse caso, a Primeira Lei da Termodinâmica
afirma que o sistema irá receber calor do ambiente.

A Figura 14 mostra duas representações de processos isovolumétricos


com diminuição da pressão:

FIGURA 14 – OUTRO TIPO DE PROCESSO ISOVOLUMÉTRICO

FONTE: O autor

O painel à esquerda mostra um diagrama PT. O painel à direita mostra


um diagrama PV.

Na imagem à esquerda temos um gráfico Pressão X Temperatura de um


processo isovolumétrico. Na imagem à direita, vemos em um gráfico PV que, a
volume constante, a pressão diminui.

Como ∆V = 0, novamente não há trabalho. Como há diminuição da


temperatura, também temos ∆U < 0. Nesse caso, a Primeira Lei da Termodinâmica
afirma que o sistema irá liberar calor ao ambiente.

7 PROCESSO ADIABÁTICO
Existe ainda um outro tipo de processo, chamado de adiabático. Este
termo vem da palavra grega que significa “impenetrável”. De fato, um sistema
adiabático é um sistema que está isolado e não realiza trocas de calor com o

113
UNIDADE 2 | CALOR E A PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA

ambiente (Q = 0). Esse tipo de processo também ocorre quando a variação no


estado do sistema acontece de forma muito rápida, de forma que não haja tempo
para as trocas de calor.

Em um processo adiabático as grandezas físicas como pressão, volume e


temperatura se alteram. Um sistema que sofre expansão adiabática (ou seja, com
aumento de volume) pode ser representado pela Figura 15, a seguir:

FIGURA 15 – PROCESSO DE EXPANSÃO ADIABÁTICA

FONTE: O autor

Note que a curva central que representa o processo adiabático leva o


estado inicial de uma temperatura T2 (maior) à temperatura T1 (menor), ao mesmo
tempo em que diminui a pressão e aumenta o volume.

Pela Primeira Lei da Termodinâmica, e considerando Q = 0, teremos:

∆U =Q-W
∆U =-W

Como o volume está se expandindo, o trabalho tem sinal positivo, o que


faz com que a energia interna tenha o sinal negativo.

Um exemplo de expansão adiabática pode ser visto nos desodorantes spray,


quando as gotículas saem do recipiente, há uma diminuição rápida da pressão,
de forma que não há tempo para as partículas trocarem calor. Há também uma
diminuição na temperatura, o que nos faz sentir o aerossol mais frio.

114
TÓPICO 3 | PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA

Podemos ter também um processo adiabático em que há compressão do


gás, com uma diminuição do volume (∆V < 0), como ilustrado na Figura 16:

FIGURA 16 – PROCESSO DE COMPRESSÃO ADIABÁTICA

FONTE: O autor

Teremos então a seguinte relação para a energia interna:

∆U =Q-W
∆U =-W

Neste caso, a variação do trabalho é negativa (∆W < 0), o que implica em:

∆U > 0

Como a energia interna aumenta, há também um aumento da temperatura.


A diminuição do volume faz com que haja um aumento da pressão.

8 EXPANSÃO LIVRE
A expansão livre (Figura 17) é um tipo específico de processo adiabático
em que não há trabalho realizado sobre o gás. Neste caso, temos Q = 0, W = 0 e,
portanto, ∆U = 0.

115
UNIDADE 2 | CALOR E A PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA

FIGURA 17 – A EXPANSÃO LIVRE DE UM GÁS

FONTE: O autor

A expansão livre de um gás pode ser obtida movendo-se o êmbolo mais


rápido do que a velocidade dos átomos do gás, permitindo que este se expanda
livremente pelo volume do recipiente.

Como sabemos, a energia interna depende da temperatura. Se não há
variação de energia interna, então também não há variação na temperatura, o que
pode ser comprovado experimentalmente.

9 PROCESSOS CÍCLICOS

Existem ainda processos cíclicos nos quais um gás pode sofrer sucessivas
transformações e acabar voltando ao seu estado original, conforme a Figura 18:

116
TÓPICO 3 | PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA

FIGURA 18 – PROCESSO CÍCLICO (NO SENTIDO HORÁRIO) DE UM GÁS

FONTE: O autor

Em um processo cíclico a temperatura não sofre variação. Isso faz com


que a energia interna do sistema também permaneça inalterada. Entretanto, em
um processo desse tipo ainda pode haver trabalho.

Da Primeira Lei da Termodinâmica, teremos:

∆U = Q-W
0 = Q-W
Q=W

Assim, todo trabalho realizado ou sofrido pelo sistema será igual à


quantidade de calor recebida ou cedida pelo sistema.

Um processo cíclico representa uma máquina térmica, em que há


transformação de calor em trabalho mecânico. Quando o processo ocorre no
sentido horário (como na Figura 18), então o trabalho é positivo (gás recebe calor
do meio). Usaremos este ciclo para estudarmos os processos que ocorrem em
motores de combustão e em máquinas a vapor. Quando o processo ocorre no
sentido anti-horário (como na Figura 19), então o trabalho é negativo (gás cede
calor ao meio).

117
UNIDADE 2 | CALOR E A PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA

FIGURA 19 – PROCESSO CÍCLICO (NO SENTIDO ANTI-HORÁRIO) DE UM GÁS

FONTE: O autor

Este tipo de ciclo, no sentido anti-horário, será utilizado quando


estudarmos o funcionamento de geladeiras e freezers.

TURO S
ESTUDOS FU

Estudaremos mais sobre os ciclos térmicos na disciplina Termodinâmica II.

O Quadro 4 traz um resumo das características dos processos


termodinâmicos vistos até aqui:

QUADRO 4 – PROCESSOS TERMODINÂMICOS E SUAS


Processo Característica Resultado
Isotérmico ∆U = 0 Q=W
Isobárico ∆P = 0 ∆U = Q – W
Isovolumétrico ∆V = 0 ∆U = Q
Adiabático Q=0 ∆U = –W
Expansão livre Q=W=0 ∆U = 0
Cíclico ∆U = 0 Q=W
FONTE: O autor

118
TÓPICO 3 | PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA

Exemplo 11:

(YOUNG; FREEDMAN, 2008) O diagrama PV da Figura 20 mostra uma


série de processos termodinâmicos. No processo AB, 150 J de calor são fornecidos
ao sistema e, no processo BD, 600 J de calor são fornecidos ao sistema. Calcule:

a) A variação da energia interna no processo AB.


b) A variação da energia interna no processo ABD.
c) A quantidade de calor transferida no processo ACD.

FIGURA 20 – DIAGRAMA PV COM DIVERSOS PROCESSOS


TERMODINÂMICOS

FONTE: O autor

Resposta: O problema nos diz que QAB = 150 J e QBD = 600 J (calores
fornecidos ao sistema). A questão da letra a nos pede o valor da energia interna
no processo AB. Neste processo não há variação de volume, assim WAB = 0 e
∆UAB = QAB = 150 J.

Na letra b, devemos descobrir o valor da energia interna para o processo


ABD. Note que o processo BD ocorre à pressão constante. Assim, o trabalho
realizado pelo sistema nesse processo de expansão será dado por:

WBD = P ( V2 - V1 )
WBD = 8, 0 ×104 × ( 5, 0 ×10-3 - 2, 0 ×10-3 )
WBD = 240 J

119
UNIDADE 2 | CALOR E A PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA

Assim, o trabalho total para o processo ABD será:

W=
ABD WAB + WBD
WABD= 0 + 240
WABD = 240 J

O calor total fornecido nesse processo será:

Q ABD
= Q AB + Q BD
Q ABD
= 150 + 600
Q ABD = 750 J

Agora podemos usar a equação da Primeira Lei da Termodinâmica e obter


o valor para energia interna para o processo ABD:

∆U ABD =
Q ABD - WABD
∆U ABD =
750 - 240
∆U ABD =
510 J

Para respondermos a letra c, basta lembrarmos que a energia interna não


depende do caminho (apenas da diferença de temperatura entre os estados finais
e iniciais). Assim:

∆U ACD =
∆U ABD
∆U ACD =
510 J

O trabalho total para o processo ACD será dado pela seguinte equação
(lembrando que durante o processo CD não há variação de volume (WCD = 0) e
que o processo AC ocorre à pressão constante):

W=
ACD WAC + WCD
WACD P ( V2 - V1 ) + 0
=
WACD = 3, 0 ×104 × ( 5, 0 ×10-3 - 2, 0 ×10-3 )
WACD = 3, 0 ×104 × ( 5, 0 ×10-3 - 2, 0 ×10-3 )

120
TÓPICO 3 | PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA

A Primeira Lei da Termodinâmica nos fornecerá o calor transferido no


processo ACD:

Q ACD =
∆U ACD + WACD
Q ACD
= 510 + 90
Q ACD = 600 J

DICAS

Confira o artigo de Júlio Cesar Passos intitulado Os experimentos de Joule e a


Primeira Lei da Termodinâmica, mostra o quanto o trabalho de Joule foi importante para a
demonstração de equivalência entre os diferentes tipos de energia.

• PASSOS, J. C. Os experimentos de Joule e a primeira lei da termodinâmica. Revista Brasileira


de Ensino de Física, v. 31, n. 3, p. 3603.1-3603.8, 2009.

121
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você aprendeu que:

• Um gás confinado, ao sofrer aumento de volume, realiza trabalho.

• Se o gás confinado for comprimido, o trabalho está sendo realizado sobre ele.

• O trabalho realizado vai depender da forma em que o gás modificou suas


propriedades físicas, como pressão, volume e temperatura.

• Uma outra grandeza, a energia interna, é definida como a energia “armazenada”


no gás e consiste nas energias rotacional, translacional e vibracional, além da
energia de ligação das moléculas.

• A energia interna de um gás é proporcional a sua temperatura.

• A Primeira Lei da Termodinâmica relaciona a variação da energia interna


(∆U) de um gás com o calor recebido/cedido (Q) e o trabalho realizado/sofrido
(W):

∆U =Q-W

• Existem diversos processos termodinâmicos pelos quais um gás pode passar.

• Em um processo isobárico a pressão é constante. Quando a variação da energia


interna e o trabalho são positivos, o sistema recebe calor do ambiente; quando
essas duas grandezas são negativas, o calor também é negativo, ou seja, o
sistema cede calor ao meio.

• Em um processo isovolumétrico (isocórico) o volume é constante e, portanto,


não há trabalho. Se a temperatura aumenta, a variação da energia interna é
positiva e o gás recebe calor; se a temperatura diminui, a variação da energia
interna é negativa e o gás cede calor.

• Em um processo isotérmico, a temperatura é constante, logo não há variação


no valor da energia interna do gás. Dessa forma, o trabalho realizado/sofrido é
igual ao calor recebido/cedido, respectivamente.

• Em um processo adiabático não há troca de calor com o meio. A pressão, o


volume e a temperatura podem variar. Se o gás é comprimido, sofrendo
trabalho do meio, então sua temperatura e sua energia interna aumentam. Se
o gás se expande, ele realiza trabalho, diminuindo sua temperatura e energia
interna.

122
• Em uma expansão livre não há transferência de calor nem trabalho realizado
sobre ou pelo gás, ou seja, a energia interna permanece inalterada, assim como
a temperatura.

• Em um processo cíclico o gás sai de um determinado estado e, após passar por


alguns processos termodinâmicos, acaba voltando ao seu estado original. Em
um processo cíclico não há variação de temperatura e, portanto, também não
há variação na sua energia interna.

• Um processo cíclico pode ser feito no sentido horário (como os ciclos que
descrevem máquinas a vapor e motores a combustão) ou no sentido anti-horário
(como os ciclos que descrevem o funcionamento de geladeiras e freezers).

123
AUTOATIVIDADE

1 (UFAM-AM, 2008) Analise as seguintes afirmativas a respeito dos tipos de


transformações ou mudanças de estado de um gás:

I- Em uma transformação isocórica o volume do gás permanece constante.


II- Em uma transformação isobárica a pressão do gás permanece constante.
III- Em uma transformação isotérmica a temperatura do gás permanece constante.
IV- Em uma transformação adiabática variam o volume, a pressão e a temperatura.

Com relação às afirmativas, podemos dizer que:


a) ( ) I e III são verdadeiras.
b) ( ) II e III são verdadeiras.
c) ( ) I, II, III e IV são verdadeiras.
d) ( ) I é verdadeira.
e) ( ) todas são falsas.

2 (UEFS-BA, 2017) A Primeira Lei da Termodinâmica para sistemas fechados


foi originalmente comprovada pela observação empírica, no entanto é hoje
considerada como a definição de calor através da lei da conservação da
energia e da definição de trabalho em termos de mudanças nos parâmetros
externos de um sistema. Com base nos conceitos da termodinâmica, assinale
V para as alternativas verdadeiras e F para as falsas:

a) ( ) A energia interna de uma amostra de um gás ideal é função da pressão e


da temperatura absoluta.
b) ( ) Ao receber uma quantidade de calor Q igual a 48,0 J, um gás realiza
trabalho igual a 16,0 J, tendo uma variação de energia interna do sistema
igual a 64,0 J.
c) ( ) Quando se fornece a um sistema certa quantidade de energia Q, esta
energia pode ser usada apenas para realizar trabalho.
d) ( ) Nos processos cíclicos, a energia interna não varia, pois volume, pressão
e temperatura são iguais no estado inicial e final.
e) ( ) A energia interna, o trabalho realizado e a quantidade de calor recebida
ou cedida independem do processo que leva o sistema do estado inicial A
até um estado final B.

3 (ENADE, 2011 – Adaptada) Sistemas termodinâmicos que utilizam


gases que movem cilindros estão presentes no cotidiano das pessoas em
dispositivos tais como motores de combustão interna, motores a vapor,
compressores de geladeiras e condicionadores de ar, entre outros. Durante
seu funcionamento, todos esses dispositivos passam por várias fases, em
ciclos que mudam seus estados termodinâmicos. Imagine um mesmo gás,
ideal, em três dispositivos dessa natureza, que vão de um estado 1 para um
estado 2 por três processos diferentes, representados nas figuras a seguir:

124
FIGURA 21 – PROCESSOS TERMODINÂMICOS PARA EXERCÍCIO 3

1 1 1

2 2 2

1 2 1 2 1 2

FONTE: ENADE

Considerando esse sistema, analise as afirmações a seguir:

I- Em todos os três processos, o trabalho é realizado pelo gás.


II- Em todos os três processos, a temperatura final do gás é mais baixa do que
a sua temperatura inicial.
III- A variação da energia interna do gás foi maior quando o sistema percorreu
o caminho apresentado na Figura I.
IV- O trabalho realizado em cada um dos processos é diferente, sendo máximo
no processo representado na Figura I.

É correto apenas o que se afirma em:


a) ( ) I e III.
b) ( ) II e IV.
c) ( ) III e IV.
d) ( ) I, II e III.
e) ( ) I, II e IV.

4 (SERWAY; JEWETT, 2004) Um cilindro com paredes termicamente


condutoras está imerso em um banho de água com gelo, conforme a Figura
22 a seguir:

FIGURA 22 – REPRESENTAÇÃO DO SISTEMA PARA EXERCÍCIO 4

FONTE: O autor

125
O gás dentro do cilindro é submetido a três processos:

(1) O pistão é empurrado rapidamente para baixo, comprimindo o gás no


cilindro.
(2) O pistão é mantido na posição final do processo anterior, enquanto o gás
retorna para a temperatura do banho de água com gelo.
(3) O pistão é elevado muito lentamente de volta para sua posição original.

Responda às seguintes questões:

a) Para o sistema do gás, qual é o tipo de processo termodinâmico representado


por cada um desses processos?

b) Desenhe o ciclo completo em um diagrama PV.

c) O trabalho realizado sobre o gás durante o ciclo é de 500 J. Qual a massa de


gelo no banho de água com gelo que derrete durante o ciclo?

5 (YOUNG; FREEDMAN, 2008) Você chuta uma bola de futebol,


2
comprimindo-a, de repente, até 3 de seu volume original. Nesse processo,
você realiza 410 J de trabalho sobre o ar (considerado um gás ideal) dentro
da bola.

a) Qual é a variação de energia interna do ar dentro da bola devido à


compressão?

b) A temperatura do ar dentro da bola aumenta, diminui ou permanece


constante durante a compressão?

126
UNIDADE 3

PROPRIEDADES DOS GASES IDEAIS

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir do estudo desta unidade, você será capaz de:

• reconhecer em quais situações podemos utilizar a aproximação de um gás


ideal;

• listar as propriedades de um gás ideal;

• conhecer o conceito de mol;

• entender e aplicar a Lei de Boyle;

• entender e aplicar a Lei de Charles;

• expressar e entender a Lei dos Gases Ideais;

• analisar os tipos de capacidades térmicas de um gás ideal;

• relacionar a capacidade térmica sob pressão constante com a capacidade


térmica sob volume constante;

• avaliar diferentes processos adiabáticos para um gás ideal;

• analisar o trabalho em processos adiabáticos;

• aplicar as propriedades dos gases reais em diversos problemas.

PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, você en-
contrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.

TÓPICO 1 – EQUAÇÃO DE ESTADO

TÓPICO 2 – ENERGIA INTERNA E CAPACIDADE TÉRMICA

TÓPICO 3 – PROCESSOS ADIABÁTICOS PARA GASES IDEAIS

127
128
UNIDADE 3
TÓPICO 1
EQUAÇÃO DE ESTADO

1 INTRODUÇÃO
Nas unidades anteriores, você estudou a conceituação de temperatura,
calor, capacidade térmica, e aprendeu a relacionar esses conceitos com diversas
atividades e situações do mundo real. Entretanto, o estudo da Termodinâmica
pode ser bastante complicado, então procuramos entender alguns fenômenos com
o desenvolvimento de modelos e aproximações. Se o modelo for bem entendido e
tiver êxito em explicar algumas situações, ele pode ser utilizado como base para
o estudo de problemas mais complexos.

Um dos modelos mais bem-sucedidos da física é o modelo de um gás


ideal, definido como um conjunto de moléculas ou átomos que possuem
um movimento aleatório, mas constante, e que não interagem entre si. Os
tamanhos dos átomos ou moléculas que compõem o gás podem ser considerados
desprezíveis em relação ao volume do recipiente que o contém.

A princípio, qualquer gás com baixa densidade e à temperatura ambiente


pode ser considerado um gás ideal. Neste tópico, entenderemos as principais
propriedades de um gás ideal, para depois estudarmos algumas aplicações.

2 EQUAÇÃO DE ESTADO
Uma equação de estado é uma equação que, baseada em determinadas
características físicas, é capaz de determinar o estado de uma dada substância.
Nas unidades anteriores, vimos que podemos utilizar as grandezas: pressão,
volume e temperatura para avaliar o estado de uma substância. Assim, a equação
de estado de uma substância será dada em função de sua pressão, volume e
temperatura.

Uma das primeiras relações entre essas variáveis foi descoberta por Robert
Boyle no século XVII e será apresentada a seguir.

2.1 LEI DE BOYLE


Robert Boyle foi um químico e físico inglês que demonstrou
experimentalmente a relação entre volume e pressão. O experimento de Boyle
consistia em utilizar um tubo em formato de J, em que uma das extremidades
129
UNIDADE 3 | PROPRIEDADES DOS GASES IDEAIS

é aberta e a outra é fechada. Nesse tubo era inserida uma certa quantidade
de mercúrio, de tal forma que uma quantidade de ar ficava presa na outra
extremidade do tubo, conforme o esquema na figura a seguir:

FIGURA 1 – O EXPERIMENTO DE ROBERT BOYLE

FONTE: O autor

Neste experimento, Boyle percebeu que, mantendo a temperatura


constante (à temperatura ambiente), e sem variar a quantidade de ar presa dentro
do tubo, o volume ocupado pelo gás variava em função da pressão exercida pelo
mercúrio.

Assim, com base nessa experiência, foi possível estabelecer a seguinte


relação:

PV = k

Note que a pressão multiplicada pelo volume é sempre igual uma


constante. Se o volume diminui uma certa quantidade, a pressão deve aumentar
para manter essa proporcionalidade inversa entre essas grandezas.

E
IMPORTANT

Lembre-se! Duas grandezas são inversamente proporcionais se, quando uma


aumenta, a outra diminui, e vice-versa.

130
TÓPICO 1 | EQUAÇÃO DE ESTADO

Se mantivermos a temperatura constante, os volumes e pressões iniciais e


finais de um dado gás poderão ser relacionados com a seguinte equação:

P1V1 = P2 V2

em que P1 e V1 são a pressão e volume iniciais e P2 e V2 são a pressão e volume


finais.

A Lei de Boyle é usada para explicar parte do funcionamento da


respiração em humanos. Quando o volume dos pulmões aumenta ou diminui,
há uma variação da pressão do ar em seu interior. Essa diferença de pressão do
ar dos pulmões em relação à pressão externa do corpo é que causa a inalação ou
expiração, ou seja, o movimento do ar entre as regiões com pressões diferentes.

Exemplo 1:

(FGV-SP) Na Coreia do Sul, a caça submarina é uma profissão feminina por


tradição. As Haenyeos são “mulheres-peixe” que ganham dinheiro mergulhando
atrás de frutos do mar e crustáceos. O trabalho é realizado com equipamentos
precários, o que não impede a enorme resistência dessas senhoras que conseguem
submergir por dois minutos e descer até 20 metros abaixo da superfície (REVISTA
DOS CURIOSOS, 2003).

Supondo que o ar contido nos pulmões de uma dessas mergulhadoras


não sofresse variação significativa de temperatura e se comportasse como um gás
ideal, e levando em conta que a pressão exercida por uma coluna de água de 10
m de altura equivale aproximadamente a 1 atm, a relação entre o volume do ar
contido nos pulmões, durante um desses mergulhos de 20 m de profundidade, e
o volume que esse ar ocuparia ao nível do mar, se a estrutura óssea e muscular do
tórax não oferecesse resistência, corresponderia, aproximadamente, a:

a) 0,3.
b) 0,5.
c) 0,6.
d) 1,0.
e) 1,5.

Dado: pressão na superfície da água = 1 atm.

Resposta: Neste problema, devemos calcular a relação entre o volume


ocupado pelo ar dos pulmões considerando uma mergulhadora no nível do mar e
a 20 m de profundidade. Consideramos que, ao nível do mar, a pressão é P0 = 1 atm
e o volume ocupado pelo ar nos pulmões é V0.

Primeiro, devemos obter qual a pressão exercida pela água e atmosfera


sobre o ar dos pulmões a 20 m de profundidade. O problema nos informa
que, a cada 10 m de água, há um aumento de 1 atm na pressão exercida pelo

131
UNIDADE 3 | PROPRIEDADES DOS GASES IDEAIS

líquido. Dessa forma, se a mergulhadora está a 20 m, a coluna de água sobre ela


estará exercendo uma pressão de 2 atm. A pressão total sobre a mergulhadora,
considerando a pressão atmosférica, será:

=P 2 atm + 1 atm
P = 3 atm

Para a situação descrita, temos P0 = 1 atm. Considerando que o ar dentro


dos pulmões possa se comportar como um gás ideal, podemos obter a relação
entre volume inicial V0 e volume final V por meio da Lei de Boyle:

P0 V0 = PV
V P0
=
V0 P
V 1
=
V0 3
V
≈ 0,33
V0

Assim, a alternativa correta para este problema é a letra a.

2.2 LEI DE CHARLES


A Lei de Charles foi formulada por Jacques Charles, por volta de 1780,
e testada experimentalmente por outros cientistas, como John Dalton e Joseph
Louis Gay-Lussac, no início do século XIX.

O estudo de Charles consistia em analisar a variação do volume com a


temperatura de um gás ao manter sua pressão constante. Em outras palavras, sua
ideia era estudar o coeficiente de dilatação volumétrica β de gás.

NOTA

Lembre-se de que já estudamos o coeficiente de dilatação volumétrica ao final


do Tópico 3 da Unidade 1.

132
TÓPICO 1 | EQUAÇÃO DE ESTADO

Conforme vimos na Unidade 1, a dilatação volumétrica de um fluido é


dada pela seguinte equação:

V V0 (1 + β∆T )
=

em que consideramos V0 como o volume a 0 oC.



Charles verificou que os gases possuem o mesmo valor para o coeficiente
de dilatação volumétrica:

1
( C)
o -1
β=
273,15

Assim, podemos reorganizar os termos na equação para a dilatação:

 1 
V= V0 1 + ∆T 
 273,15 
 273,15 + ( T - T0 ) 
V = V0  
 273,15 

Se considerarmos que T0 = 0 oC, então:

 273,15 + T 
V = V0  
 273,15 

Trabalhamos até agora com a temperatura em graus Celsius. Se


passarmos todos esses valores para Kelvin, lembrando que T = 273,15 + T(oC) e
que T0 = 0 oC = 273,15 K, teremos:

T
V = V0  
 T0 
V T
=
V0 T0

Chegamos, finalmente, à Lei de Charles! O volume do gás é diretamente


proporcional a sua temperatura quando está à pressão constante.

133
UNIDADE 3 | PROPRIEDADES DOS GASES IDEAIS

Também podemos desenvolver uma outra relação entre as grandezas


P, V e T. Agora consideramos a variação da pressão em função da temperatura
quando mantemos o volume constante e obtemos a seguinte equação:

P T
=
P0 T0

Exemplo 2:

(Adaptada de UFRN-RN) O departamento de Física da UFRN possui


um laboratório de pesquisa em criogenia, ciência que estuda a produção e
manutenção de temperaturas muito baixas, contribuindo para o entendimento
das propriedades físicas e químicas de sistemas nessas temperaturas pouco
comuns.

Nesse laboratório, uma máquina retira o gás nitrogênio do ar e o liquefaz


a uma temperatura de 77,0 kelvin (K), que corresponde a -196 graus Celsius (°C).
Nessa temperatura, o nitrogênio é usado cotidianamente pelos departamentos
de Física, Química e Biologia da UFRN, como também por pecuaristas no
congelamento de sêmen para reprodução animal.

O nitrogênio líquido, em virtude de suas características, necessita ser


manuseado adequadamente, pois pessoas não habilitadas poderão sofrer
acidentes e serem vítimas de explosões. Imagine uma pessoa desavisada
transportando, num dia quente de verão, uma porção de nitrogênio líquido numa
garrafa plástica fechada. Como o nitrogênio líquido tende a entrar em equilíbrio
térmico com o ambiente, mudará de estado físico, transformando-se em um gás.
A tendência desse gás é se expandir, podendo provocar uma explosão.

Admita que:

I- O nitrogênio rapidamente se transforma em gás ideal.


II- A pressão interna e a temperatura iniciais desse gás são, respectivamente,
2,0 x 105 Pa e 78,0 K.
III- A garrafa utilizada pode suportar uma pressão máxima de 4,0 x 105 Pa e o
volume dessa garrafa não varia até que a explosão ocorra.

Diante dessas considerações é correto dizer que a temperatura limite (do


gás nitrogênio) que a garrafa suporta sem explodir é:

a) 273 K.
b) 156 K.
c) 234 K.
d) 128 K.
e) 300 K.

134
TÓPICO 1 | EQUAÇÃO DE ESTADO

Resposta: Neste problema, podemos considerar o volume constante, pois


não há variação até o momento da explosão. Dessa forma, podemos avaliar a
situação utilizando a Lei de Charles, que nos dá a relação entre a variação na
pressão com a variação que ocorre para a temperatura em um gás ideal:

P T
=
P0 T0

Temos que, quando a pressão é P0 = 2,0 x 105 Pa, a temperatura do


nitrogênio dentro da garrafa é To = 78,0 K. A pressão máxima que a garrafa resiste
antes de explodir é P = 4,0 x 105 Pa. Substituindo esses valores, teremos:

4, 0 ×105 Pa T
5
=
2, 0 ×10 Pa 78 K
T= 2 × 78 K

T = 156 K

Esta é a temperatura limite que a garrafa suporta sem explodir. A


alternativa correta é a letra b.

2.3 A LEI DOS GASES IDEAIS


Até o momento, trabalhamos com a pressão, o volume e a temperatura
no Sistema Internacional de unidades. Entretanto, quando estudamos os gases é
bastante útil utilizarmos uma outra grandeza do SI, o mol.

O mol é definido como a massa de uma substância que contém um


determinado número de átomos ou moléculas. Esse número específico é chamado
de número de Avogadro, que equivale a NA = 6,022 x 1023. Assim, um mol de água
possui 6,022 x 1023 moléculas de água, e 1 mol de ouro possui 6,022 x 1023 átomos
de ouro.

É possível estabelecer uma relação entre o número de mols (n) e a massa


da amostra (mamostra) de uma dada substância:

m amostra
n=
M

Nessa expressão, M é a massa molecular da substância, isto é, quantidade


de massa de uma substância que corresponde a 1 mol. Por exemplo, 1 mol de
carbono contém 6,022 x 1023 átomos e equivale a uma massa de 12 g de carbono.

135
UNIDADE 3 | PROPRIEDADES DOS GASES IDEAIS

Você já quis saber qual a massa de uma molécula? É possível saber a massa
de uma molécula, de uma dada substância, pela seguinte expressão:

M
m=
NA

em que M é a massa molecular, e NA é o número de Avogadro. Como exemplo,


vamos calcular a massa de uma molécula de oxigênio, que possui massa molecular
de 32 g/mol (32 x 10–3 kg/mol):

32 ×10-3
m=
6, 022 ×1023
m 5,32 ×10-26 kg / molécula
=

Essa discussão sobre mol é importante para estudarmos mais a fundo as


propriedades dos gases ideais.

Agora, vamos relacionar as leis de Boyle e Charles vistas anteriormente.


Para isso, analisaremos uma substância que passa do estado (P0 , V0 , T0) a (P, V, T)
por dois caminhos diferentes, destacados na Figura 2:

FIGURA 2 – TRAJETÓRIA PARA DEDUÇÃO DA LEI DOS GASES PERFEITOS

FONTE: Adaptada de Nussenzveig (2002)

Com base na figura apresentada, imagine que uma substância está


inicialmente no ponto O. O estado final dessa substância será o ponto b, mas para
chegar até ele, devemos passar pelo estado marcado pelo ponto a.

136
TÓPICO 1 | EQUAÇÃO DE ESTADO

A passagem do ponto O para o ponto a caracteriza um processo


termodinâmico isobárico, isto é, à pressão constante. Conforme vimos
anteriormente, um processo isobárico pode ser descrito pela Lei de Charles:

Va T
=
V0 T0

Com base nessa equação, podemos isolar o valor de Va:

TV0
Va =
T0

O segundo trecho, do ponto a ao b, representa um processo isotérmico,


isto é, à temperatura constante. Esse processo pode ser descrito pela Lei de Boyle:

Pa Va = PV

Podemos substituir o valor de Va encontrado anteriormente:

TV0
Pa = PV
T0
Pa V0 PV
= = constante
T0 T

Assim, vemos que a passagem de um estado (P0 , V0 , T0) para outro (P, V,
T) depende de uma relação entre as três grandezas. Essa relação é uma constante
para qualquer estado e, quando consideramos uma massa de um mol de gás, essa
J
constante tem o valor R = 8,314 , chamada de constante universal dos gases.
mol.K
O valor da constante universal dos gases pode ser obtido com base
nas condições normais de temperatura e pressão (CNTP), que são P0 = 1
atm e T0 = 273,15 K. Um mol de qualquer gás ocupa um volume V0 = 22,4 L
quando estiver nas CNTP. Com base nesses valores, teremos:

1 atm ×22, 4 L
R=
273 K
1, 013 ×105 N / m 2 ×0, 0224 m3
R=
273 K
J
R = 8,314
mol.K

137
UNIDADE 3 | PROPRIEDADES DOS GASES IDEAIS

Com isso, temos que, para um mol de gás:

PV
=R
T
PV = RT

Se fizermos o mesmo cálculo para um número maior de mols de um gás,


e considerando que n mols ocupam um volume n vezes maior, teremos:

PV = nRT

Esta é a equação dos gases ideais e pode ser usada como uma ótima
aproximação na maioria das situações.

Podemos utilizar a equação dos gases ideais em uma série de problemas.


Um deles é o cálculo do trabalho de uma expansão isotérmica, como a mostrada
na figura a seguir:

FIGURA 3 – O TRABALHO EM UMA EXPANSÃO ISOTÉRMICA

FONTE: O autor

Conforme vimos na Unidade 2, o trabalho em um processo isotérmico


pode ser calculado pela área embaixo da curva delimitada pela temperatura e

138
TÓPICO 1 | EQUAÇÃO DE ESTADO

pelos valores iniciais e finais do volume. Para calcularmos a área, podemos usar
a seguinte integral:
Vf

Wi →f = ∫ PdV
Vi

Para vermos como a pressão varia com o volume, basta lembrarmos da


Lei dos Gases Ideais:

nRT
P=
V

Substituindo essa expressão na integral e lembrando que nessa


transformação a temperatura T é constante:

Vf
nRT
Wi→f = ∫
Vi
V
dV

Vf
1
Wi→f = nRT ∫ dV
Vi
V
Vf
Wi→f = nRT ln V
Vi
Wi→f = nRT ( ln Vf - ln Vi )
V 
Wi→f = nRT ln  f 
 Vi 

Você viu como a equação de estado dos gases perfeitos pode ser útil?
Lembre-se de usá-la sempre que as condições permitirem.

Exemplo 3:

(Adaptada de Serway e Jewett, 2004) Coloca-se hélio puro gasoso em um


tanque que contém um pistão móvel. O volume, a pressão e a temperatura iniciais
do gás são 15,0 x 10–3 m3, 200 kPa e 300 K. Encontre a temperatura final do gás se
o volume for diminuído para 12,0 x 10–3 m3 e a pressão aumentada para 350 kPa.

Resposta: Se considerarmos o gás hélio como sendo um gás ideal, e


imaginarmos que nenhum gás escape do tanque, isto é, o número de mols é
constante, podemos utilizar a equação dos gases ideais para obter a temperatura
final após a diminuição do volume e aumento da pressão.

139
UNIDADE 3 | PROPRIEDADES DOS GASES IDEAIS

Para a situação inicial, teremos:

Pi Vi = nRTi
Pi Vi
nR =
Ti

Para a situação final, teremos:

Pf Vf = nRTf
Pf Vf
nR =
Tf

Como o número de mols (n) não se altera, podemos relacionar as equações


para as situações inicial e final:

Pi Vi Pf Vf
nR
= =
Ti Tf

Substituindo os valores dados neste exemplo, teremos:

Pi Vi Pf Vf
=
Ti Tf
Pf Vf
Tf = Ti
Pi Vi
350 ×103 × 12, 0 × 10-3
=Tf × 300
200 ×103 ×15, 0 ×10-3
Tf = 420 K

Ou seja, com a compressão do gás, além da diminuição do volume e


aumento da pressão, houve também um aumento na sua temperatura.

Exemplo 4:

(Adaptado de Young e Freedman, 2008) As chamadas condições normais


de temperatura e pressão (CNTP) de um gás correspondem a um estado com uma
temperatura de 0 oC = 273,15 K e uma pressão de 1 atm = 1,013 x 105 Pa. Se você
deseja manter um mol de gás ideal nas CNTP, qual será o volume necessário?

140
TÓPICO 1 | EQUAÇÃO DE ESTADO

Resposta: Note que este problema nos dá todos os valores correspondentes


às Condições Normais de Temperatura e Pressão. Precisamos apenas descobrir o
volume de um mol de gás nessa temperatura e pressão. Para efetuar esse cálculo,
basta substituirmos os valores dados na equação geral dos gases ideais. Dessa
forma, considerando R = 8,314 J/mol.K, teremos:

PV = nRT
nRT
V=
P
1× 8,314 × 273,15
V=
1, 013 ×105
V = 0, 0224 m3
V = 22, 4 l

Assim, um mol de gás ocupa um volume de 22,4 litros nas condições


normais de temperatura e pressão. Para você ter uma ideia do que isso significa,
esse é o volume aproximado de três bolas de basquete.

Exemplo 5:

(Adaptado de Serway e Jewett, 2004) Um gás ideal ocupa um volume de


100 cm3 a 20,0 oC e 100 Pa.

a) Encontre o número de mols do gás no recipiente.


b) Quantas moléculas do gás estão no recipiente?

Resposta: Esse exemplo tem uma resolução bastante imediata. São
fornecidos os valores de volume, temperatura e pressão, porém as unidades de
volume e temperatura não estão no Sistema Internacional. Vamos primeiramente
transformar as unidades:

Para o volume:

100 cm3 →10-4 m3

Para a temperatura:

t K= t C + 273,15
t=
K 20 + 273,15
t K = 293,15 K

141
UNIDADE 3 | PROPRIEDADES DOS GASES IDEAIS

Agora precisamos apenas calcular o número de mols do gás. Isso pode ser
feito utilizando a equação dos gases ideais:

PV = nRT
PV
n=
RT

J
Tomando o valor de R como 8,314 t, teremos:
mol.K

100 ×10-4
n=
8,315 × 293,15
n 4,10 ×10-6 mol
=

Assim, dentro do recipiente há 4,10 mols de gás.

Para o cálculo da letra b, basta lembrarmos que em um mol de qualquer


substância há exatamente um número de Avogadro (NA = 6,022 x 1023) de átomos
ou moléculas. Dessa forma, considerando N o número de moléculas que compõem
o gás, teremos:

N = 4,10 ×10-6 × 6, 022 ×1023


N 2, 47 ×1018 moléculas
=

Exemplo 6:

(Adaptada de UERJ-RJ) A bola utilizada em uma partida de futebol é uma


esfera de diâmetro interno igual a 20 cm. Quando cheia, a bola apresenta, em
seu interior, ar sob pressão de 1 atm e temperatura de 27 oC. Considere π = 3,
R = 0, 080 atm.L e, para o ar, comportamento de gás ideal e massa molar
mol.K
igual a 30 g/mol. No interior da bola cheia, a massa de ar, em gramas, corresponde
a:

a) 2,5.
b) 5,0.
c) 7,5.
c) 10,0.
d) 12,5.

142
TÓPICO 1 | EQUAÇÃO DE ESTADO

Resposta: Nesse exemplo, devemos calcular a massa de ar, em gramas,


contida dentro de uma bola de futebol à pressão de 1 atm e temperatura de 27 oC
(300 K). Neste tópico, vimos que a massa molar é dada por:

m
n=
M

em que n é número de mols do gás, m é a massa desse mesmo gás e M é a massa


molar da substância, que para este problema consideramos M = 30 g/mol.

Precisamos calcular o volume ocupado pelo ar dentro da bola. Como a


bola é uma esfera com diâmetro d = 20 cm (ou, equivalentemente, r = 10 cm)
teremos:

4πr 3
V=
3
4π103
V=
3
V = 4000 cm3

(
Como o valor da constante universal dos gases R = 0, 080 atm.L
mol.K )
nos foi dada com unidade em litros, se torna interessante transformar em litros o
valor do volume que acabamos de calcular. Lembre-se de que 1 dm = 1 litro, de
forma que:

= cm3 4=
V 4000= dm3 4 l

Agora podemos calcular a massa de ar dentro da bola de futebol utilizando


a equação geral dos gases ideais:

PV = nRT
m
PV = RT
M
PVM
m=
RT
1× 4 × 30
m=
0, 08 × 300
m=5 g

Assim, vemos que todo o ar dentro de uma bola de futebol corresponde a


uma massa de 5 g. A resposta correta para este problema é a letra b.

143
UNIDADE 3 | PROPRIEDADES DOS GASES IDEAIS

LEITURA COMPLEMENTAR

A EVOLUÇÃO DO CONCEITO DE ENERGIA

Alessandro Aquino Bucussi

CONTRIBUIÇÕES DA TERMODINÂMICA

Depois de estabelecida a conservação da energia expressa na primeira


lei da termodinâmica pela formulação do conceito de “energia interna”, os
investigadores procuraram expressar sob a forma de outra lei uma proibição
existente na natureza: a irreversibilidades dos fenômenos espontâneos. Lorde
Kelvin (1824-1907), matemático e físico inglês, já havia contribuído para a
formulação do paradoxo da reversibilidade e da concepção da morte térmica
do universo, quando em um enunciado para a segunda lei da termodinâmica
“proíbe” a transformação de calor integralmente em trabalho. Pouco antes, em
1850, Clausius procurou expressar de maneira mais simples esta segunda lei
afirmando apenas que o calor sempre deverá passar dos corpos mais quentes
para os mais frios, afirmando que o contrário não ocorreria de forma espontânea
na natureza. Quinze anos depois, o próprio Clausius estabelece outro enunciado
para a segunda lei, afirmando que a “entropia” de um sistema isolado só pode
aumentar ou permanecer constante (Gaspar, 2001, v. 2, p. 361).

A segunda lei da termodinâmica terá, portanto, diferentes enunciados,


todos tentando expressar o fato de que na natureza há uma busca pelo equilíbrio
térmico e que este movimento estabelece um certo sentido temporal para a
ocorrência dos fenômenos.

Desta forma, em 1872, o físico estatístico austríaco Ludwig Edward


Boltzmann (1844-1906) formula outro enunciado para a segunda lei, afirmando
que em qualquer sistema físico, a tendência natural é o aumento da desordem;
o restabelecimento da ordem só é possível mediante o dispêndio de energia.
Boltzmann estabelecia que a desordem é uma grandeza termodinâmica
fundamental e que a tendência dos fenômenos naturais à irreversibilidade e à
degradação era resultado de uma maior probabilidade estatística.

Foi devido ao trabalho de Boltzmann (pai da mecânica estatística) em


conjunto com o de James Clerk Maxwell (1831-1879) que foi estabelecida a
Teoria Cinética dos Gases, que explicava microscopicamente os fenômenos
termodinâmicos mesmo antes da descoberta do átomo. As contribuições de
Maxwell foram ainda de grande relevância para a Teoria Eletromagnética.

Ainda em 1906, Hernann Walther Nernst (1864-1941) propõe a terceira


lei da termodinâmica, afirmando não ser possível, por nenhuma série finita de
processos, a temperatura de zero kelvin (o zero absoluto). Mesmo que se atinja
um estado de ordem absoluta das partículas, isto não significará a inexistência

144
TÓPICO 1 | EQUAÇÃO DE ESTADO

absoluta de movimento, pois continuará existindo uma energia residual, que


por não causar desordem, não tem como se transferir sob a forma de calor, e
consequentemente, não será eliminada.

CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA ELETROMAGNÉTICA

No século XIX, o estabelecimento da teoria eletromagnética abre espaço


para considerações sobre a energia presente nos campos elétricos e magnéticos, e
confirma a radiação como um novo processo de transferência de energia, sendo
a luz uma onda eletromagnética. A conservação da energia no eletromagnetismo
considerará que a variação de energia dos campos em uma determinada região
do espaço será igual à radiação mais o trabalho realizado pelos campos sobre as
cargas no interior desta região. Ou seja, um enunciado muito parecido com o da
primeira lei da termodinâmica.

CONTRIBUIÇÕES DA FÍSICA MODERNA E CONTEMPORÂNEA

No início do século XX, o mundo microscópico começa a ser descortinado


com maior profundidade, com isso se começa a questionar, por exemplo: De
onde resulta a energia proveniente das reações nucleares? Há transformação de
massa em energia ou elas continuam a se conservar de forma independente uma
da outra?

A partir da Teoria da Relatividade de Albert Einstein (1879-1955), quando


se introduz o conceito de equivalência entre massa e energia (E = mc2), passa-
se a acrescentar a massa de repouso no somatório de energias do princípio
de conservação, considerando este um princípio mais amplo que pressupõe o
princípio de conservação da massa.

O advento da Mecânica Quântica, através das contribuições de Max


Planck (1858-1947) e Einstein, introduz as ideias de quantização da energia (E
= h.f), ressignificando novamente o conceito que passa a fazer parte, e de forma
relevante, de um novo paradigma na ciência, o “quântico-relativista”.

FONTE: BUCUSSI, A. A. Introdução ao conceito de energia. Texto de apoio ao professor de


Física. v. 17, n. 3, Porto Alegre: UFRGS, Instituto de Física, Programa de Pós-Graduação em
Ensino de Física, 2007.

145
RESUMO DO TÓPICO 1

Neste tópico, você aprendeu que:

• Um gás ideal é definido como um conjunto de átomos ou moléculas que


ocupam um volume desprezível em um recipiente e não interagem uns com os
outros.

• As propriedades físicas como pressão, volume e temperatura determinam uma


equação de estado para o gás.

• Robert Boyle apresentou pela primeira vez a relação entre a pressão e volume
de um gás quando este está à temperatura constante. Essa relação é conhecida
como Lei de Boyle e é representada pela seguinte equação:

P1V1 = P2 V2

em que P1 e V1 são a pressão e volume iniciais e P2 e V2 são a pressão e volume


finais.

• Charles estabeleceu uma relação (Lei de Charles) entre volume e temperatura


quando o gás está à pressão constante:

V T
=
V0 T0

• Uma variação da Lei de Charles considera a relação entre pressão e temperatura


quando o gás está a volume constante:

P T
=
P0 T0

• Vimos que o mol é definido como a massa de uma substância que contém um
número de Avogadro (NA = 6,022 x 1023) de átomos ou moléculas.

• A massa de uma molécula pode ser calculada pela seguinte expressão:

M
m=
NA

em que M é a massa molecular e NA é o número de Avogadro.

146
• Podemos relacionar pressão, volume e temperatura com o número de mols (n)
e a constante universal dos gases R para estabelecer a Lei dos Gases Ideais:

PV = nRT
J
em que R = 8,314 .
mol.K

• A equação dos gases pode ser utilizada para o cálculo do trabalho em uma
expansão isotérmica.

147
AUTOATIVIDADE

1 (Adaptada de HALLIDAY; RESNICK; WALKER, 2009) O melhor vácuo


produzido em laboratório tem uma pressão de aproximadamente
1,00 x 10–18 atm ou 1,01 x 10 –13 Pa. Quantas moléculas de gás existem por
centímetro cúbico nesse vácuo a 293 K?

2 (Adaptada de HALLIDAY; RESNICK; WALKER, 2009) Uma amostra de um


gás ideal é submetida ao processo cíclico abca, mostrado na figura a seguir:

A escala do eixo vertical é definida por Pb = –7,5 kPa e Pac = –2,5 kPa. No ponto
a, T= 200 K.

a) Quantos mols do gás estão presentes na amostra?


b) Qual é a temperatura do gás no ponto b?
c) Qual é a temperatura do gás no ponto c?
d) Qual é a energia adicionada ao gás, na forma de calor, ao ser completado o
ciclo?

3 (Adaptada de YOUNG; FREEDMAN, 2008) Um mergulhador observa uma


bolha de ar ascendendo do fundo de um lago (onde a pressão absoluta é
igual a 3,50 atm) até a superfície (onde a pressão é 1,0 atm). A temperatura
no fundo do lago é 4 oC e a temperatura da superfície é 23 oC. Qual é a razão
entre o volume da bolha quando ela atinge a superfície e o volume da bolha
no fundo do lago?

4 (Adaptada de UDESC-SC) Um motorista, antes de iniciar sua viagem,


calibrou os pneus de seu carro, deixando-os a uma pressão manométrica
de 150,0 x 103 Pa. No momento da calibração, a temperatura ambiente e dos

148
pneus era de 27,0 °C. Quando chegou ao destino de sua viagem, o motorista
percebeu que a pressão manométrica do ar (gás) nos pneus aumentara para
160,0 x 103 Pa. Considere o ar dentro dos pneus como sendo um gás ideal:

a) Ao chegar ao destino, qual a temperatura do gás nos pneus, sabendo que


eles expandiram, aumentando seu volume interno em 5%?

b) Considerando as condições iniciais da viagem e que os pneus suportem, no


máximo, uma variação de volume de 8%, calcule a pressão do gás no interior
dos pneus nessa condição limite. Sabe-se ainda que a temperatura do gás
dentro dos pneus, na condição limite, atinge aproximadamente 360 K.

5 (PUC-RJ) Seja um mol de um gás ideal a uma temperatura de 400 K e à


pressão atmosférica P0. Esse gás passa por uma expansão isobárica até dobrar
seu volume. Em seguida, esse gás passa por uma compressão isotérmica até
voltar ao seu volume original. Qual a pressão ao final dos dois processos?

a) ( ) 0,5 P0.
b) ( ) 1,0 P0.
c) ( ) 2,0 P0.
d) ( ) 5,0 P0.
e) ( ) 10,0 P0.

6 (FUVEST-SP) Certa massa de gás ideal, inicialmente à pressão P0 , volume


V0 e temperatura T0 , é submetida à seguinte sequência de transformações:

1- É aquecida à pressão constante até que a temperatura atinja o valor 2T0 .


2- É resfriada a volume constante até que a temperatura atinja o valor inicial T0.
3- É comprimida à temperatura constante até que atinja a pressão inicial P0 .

a) Calcule os valores da pressão, temperatura e volume final de cada


transformação.
b) Represente as transformações num diagrama pressão x volume.

149
150
UNIDADE 3
TÓPICO 2

ENERGIA INTERNA E CAPACIDADE TÉRMICA

1 INTRODUÇÃO
Conforme vimos anteriormente, um gás tem seu estado definido por suas
grandezas físicas, como volume, pressão e temperatura.

Outra grandeza bastante útil para o estudo de gases é o mol, que define a
massa de uma substância em função da quantidade de átomos ou moléculas que
a compõem.

Podemos relacionar essas grandezas com o trabalho realizado pelo gás e
com sua energia interna. Também poderemos estabelecer outros conceitos, como
capacidade térmica a volume ou à pressão constante, que são úteis para uma
melhor compreensão das características de um gás ideal.

Neste tópico, iremos nos aprofundar no conceito de energia interna


e deduzir as equações para a capacidade térmica e suas relações com outras
propriedades de um gás.

2 ENERGIA INTERNA
Você deve se lembrar do experimento de Joule que estudamos na Unidade
2. Nesse experimento, James Joule estudou o equivalente mecânico do calor,
estabelecendo uma relação entre o trabalho realizado pelo gás e o calor fornecido
pelo sistema, sem ser necessário considerar a variação da energia interna.

Entretanto, era necessário verificar mais a fundo o papel da energia


interna nesse tipo de processo. Para isso, foi desenvolvida a experiência de Joule-
Thomson.

DICAS

A descrição desse experimento é baseada no texto de Nussenzveig (2002). Não


se esqueça de estudar essa referência para se aprofundar no assunto!

151
UNIDADE 3 | PROPRIEDADES DOS GASES IDEAIS

Essa experiência consistia na expansão de um gás por um tampão poroso


confinado por paredes adiabáticas, conforme a figura a seguir:

FIGURA 4 – EXPERIMENTO DE JOULE-THOMPSON ENVOLVENDO A


PASSAGEM DE UM GÁS POR UM TAMPÃO POROSO

FONTE: O autor

O experimento consistia em manter um fluxo estacionário de gás dentro


desse espaço confinado. Quando o gás passa pelo tampão, há uma diminuição da
pressão de Pi para Pf . Como as paredes são adiabáticas, não há troca de calor com
o meio, de forma que a temperatura possa ser considerada constante.

Para estudarmos o que está acontecendo nesse experimento, precisamos


utilizar os conceitos envolvidos na Primeira Lei da Termodinâmica.

Vamos avaliar esse experimento considerando um estágio inicial e um


estágio final. No estágio inicial, imaginamos que o gás ocupa inicialmente um
volume Vi e exerce uma pressão Pi sobre o tampão. O tampão poroso permite que
o gás passe através dele.

Consideramos o estágio final desse processo quando todo o gás tiver


passado. A pressão do gás terá diminuído e o gás ocupará um novo volume Vf .

Na situação inicial, tomamos a compressão como isobárica, isto é, à
pressão constante Pi. O trabalho realizado pelo gás, considerando que o volume
vai de Vi a zero, teremos:
Vf

Wi = Pi ∫ dV
Vi

Wi = Pi ( 0 - Vi )
Wi = -Pi Vi

152
TÓPICO 2 | ENERGIA INTERNA E CAPACIDADE TÉRMICA

Na situação final, o gás está sujeito a uma expansão isobárica à pressão Pf .


O trabalho realizado pelo gás, considerando uma variação de volume de 0 a Vf
será dado por:
Vf

Wf = Pf ∫ dV
Vi

Wf = Pf ( Vf - 0 )
Wf = Pf Vf

Dessa forma, o trabalho total realizado pelo gás será:

WT = Wi→f
W=
T Wi + Wf
WT = Pf Vf - Pi Vi

Os dois processos ocorreram em um espaço confinado por paredes


adiabáticas, de modo que o calor transferido pelo gás será:

Q=0

Substituindo os valores obtidos para o trabalho e para o calor na expressão


para a Primeira Lei da Termodinâmica, teremos:

∆U =Q - WT
∆U 0 - Pf Vf + Pi Vi
=
∆U =Pi Vi - Pf Vf

Se lembrarmos da Lei de Boyle, vemos que os termos do lado direito dessa


equação se anulam e, portanto, ΔU = 0.

Além disso, Joule e Thomson verificaram experimentalmente que a


variação de temperatura nesse sistema é muito pequena:

∆T =Tf - Ti
∆T =0

Dessa forma, se considerarmos que há uma variação de volume de Vi para


Vf , então a energia interna não depende dessa variação. Seguindo essa lógica, vemos
que a energia interna de um gás ideal deve depender somente da sua temperatura.

153
UNIDADE 3 | PROPRIEDADES DOS GASES IDEAIS

3 CALOR ESPECÍFICO MOLAR A VOLUME CONSTANTE


No Tópico 1 da Unidade 2, nós estudamos que a quantidade de calor
necessária para aumentar a temperatura de determinada massa m de uma
substância é dada por:

Q
= mc∆T

em que m é massa da substância, ΔT é a variação de temperatura à que ela é


submetida, e c é o calor específico da substância, medida em J/kg oC ou cal/g oC.

A partir de agora, vamos aplicar essas ideias no estudo dos gases ideais.
Para isso, ao invés de estudarmos o calor de uma dada massa m de gás, iremos
considerar a quantidade de gás sendo dada por um número n de mols.

Conforme vimos anteriormente, podemos aumentar a temperatura de


uma certa quantidade (n mols) de um gás por meio de diferentes caminhos entre
o estado inicial i e o estado final f. A energia total necessária será dependente do
caminho escolhido. A figura a seguir exemplifica alguns desses caminhos:

FIGURA 5 – ALGUMAS TRAJETÓRIAS ENTRE O ESTADO INICIAL I E TRÊS


POSSÍVEIS ESTADOS FINAIS F. AS TRÊS TRAJETÓRIAS DEFINEM UM AUMENTO
DE TEMPERATURA ENTRE AS ISOTERMAS T E T+ΔT

FONTE: Adaptado de Serway e Jewett (2004)

154
TÓPICO 2 | ENERGIA INTERNA E CAPACIDADE TÉRMICA

Na Figura 5, o gás passa do estado inicial i na isoterma T para um dos


estados finais f na isoterma T+ΔT. Dessa forma, a diferença de temperatura entre
os estados final e inicial é constante e, portanto, a variação de energia interna
durante qualquer uma dessas trajetórias será a mesma. Todavia, se prestarmos
atenção na equação da Primeira Lei da Termodinâmica, Q = ΔU – W, veremos que
o calor fornecido ainda será dependente do trabalho, que varia com a trajetória.

Existem duas situações mais simples, baseadas em processos isobáricos e


isovolumétricos, que podemos trabalhar de forma mais imediata.

A seguir, na Figura 6, está representado um processo isovolumétrico


entre o estado inicial i com pressão P e o estado final f com pressão P+ΔP. Se
fornecermos uma certa quantidade de calor ao sistema, a temperatura aumentará
de T a T+ΔT:

FIGURA 6 – REPRESENTAÇÃO DE UM PROCESSO ISOVOLUMÉTRICO

FONTE: O autor

Considerando que o gás possui uma quantidade n de mols, o calor


necessário para o gás ter esse aumento de temperatura será dado por:

Q nCV ∆T
=

em que CV é o calor específico molar a volume constante e possui unidade J/mol.K.

155
UNIDADE 3 | PROPRIEDADES DOS GASES IDEAIS

Neste caso, como temos um processo isovolumétrico, note que o gás não
realiza ou sofre trabalho. Com base na Primeira Lei da Termodinâmica, podemos
estabelecer uma relação com a energia interna:

∆U =Q-W
∆U =Q
∆U= nCV ∆T

Na Figura 7, temos representado um processo isobárico entre o estado


inicial i com volume V e o estado final f com volume V+ΔV. Se fornecermos uma
certa quantidade de calor ao sistema, a temperatura também aumentará de T a
T+ΔT:

FIGURA 7 – REPRESENTAÇÃO DE UM PROCESSO ISOBÁRICO

FONTE: O autor

Sendo o gás constituído por uma quantidade n de mols, o calor necessário


para que ocorra esse aumento de temperatura será dado por:

Q nCP ∆T
=

em que CP é o calor específico molar à pressão constante com unidade J/mol.K.

É importante ressaltar que o calor específico à pressão constante é sempre


maior que o calor específico a volume constante. Isso se deve ao fato de que, no
processo isobárico, o calor recebido pelo gás tem que ser suficiente para aumentar
a temperatura e, ao mesmo tempo, variar o volume do sistema.

156
TÓPICO 2 | ENERGIA INTERNA E CAPACIDADE TÉRMICA

É possível escrever uma relação matemática entre CP e CV utilizando a


Primeira Lei da Termodinâmica:

∆U =Q-W

Substituindo as equações anteriores para ΔU e Q, teremos:

nCV ∆T= nCP ∆T - W

Lembre-se de que, no processo isobárico, o trabalho é calculado por


W = PdV e que, para gases ideais, PV = nRT. Com isso:

W = PdV
W
= nR∆T

Substituindo esse termo na equação com os calores específicos, teremos:

nCV ∆T= nCP ∆T - nR∆T


CV = CP - R

ou, equivalentemente:

C=
P CV + R

Existe ainda uma outra relação entre CP e CV , dada pela grandeza


adimensional γ:

CP
γ=
CV

Para a dedução dessa equação será necessário estudarmos a Teoria


Cinética dos Gases, o que será feito durante o curso de Termodinâmica II. Por ora,
γ 5 ≈ 1, 67 e,
é interessante mencionar que, para gases ideais monoatômicos, = 3
γ 7 = 1, 4 .
para gases ideais diatômicos, =
5
O quadro a seguir contém alguns valores experimentais dos calores
específicos CP , CP e do valor de γ para alguns gases. Note a proximidade do valor
experimental de CP – CV com o valor teórico da constante universal dos gases que
J
obtivemos no Tópico 1 desta unidade ( R = 8,314 ):
mol.K

157
UNIDADE 3 | PROPRIEDADES DOS GASES IDEAIS

QUADRO 1 – CALORES ESPECÍFICOS MOLARES PARA DIFERENTES GASES

Calores específicos molares (J/mol.K) para diferentes gases


(em T = 300K – exceto água)
CP CV CP – CV γ
Gases monoatômicos
Hélio 20,8 12,5 8,33 1,67
Argônio 20,8 12,5 8,33 1,67
Neônio 20,8 12,7 8,12 1,64
Criptônio 20,8 12,3 8,49 1,69
Gases diatômicos
H2 28,8 20,4 8,33 1,41
N2 29,1 20,8 8,33 1,40
O2 29,4 21,1 8,33 1,40
CO 29,3 21,0 8,33 1,40
Cl2 34,7 25,7 8,96 1,35
Gases poliatômicos
CO2 37,0 28,5 8,50 1,30
SO2 40,4 31,4 9,00 1,29
H2O 35,4 27,0 8,37 1,30
CH4 35,5 27,1 8,41 1,31
FONTE: Adaptado de Serway e Jewett (2004)

Exemplo 7:

(Adaptado de Serway e Jewett, 2004) Um cilindro contém 3,00 mols de gás


hélio à temperatura de 300 K.

a) Quanta energia deve ser transferida para o gás pelo calor para aumentar sua
temperatura para 500 K se ele for aquecido a volume constante?

b) Quanta energia deve ser transferida para o gás pelo calor à pressão constante
para aumentar a temperatura para 500 K?

Resposta: Para a letra a devemos calcular o calor que deve ser transferido
ao gás para que este aumente sua temperatura de 300 K a 500 K em um processo
isovolumétrico.

Como sabemos, a volume constante, o calor é uma função do número de


mols, do calor específico CV da substância e da temperatura:

Q nCV ∆T
=

158
TÓPICO 2 | ENERGIA INTERNA E CAPACIDADE TÉRMICA

Para este exemplo, temos n = 3,00 e ΔT = 500 – 300 = 200 K. Consultando o


Quadro 1, vemos que o calor específico do gás hélio é CV = 12,5 J/mol.K.

Substituindo esses valores na equação para o calor, teremos:

Q= 3 ×12,5 × 200
Q = 7500
Q 7,5 ×103 J
=

Para a letra b, devemos calcular o calor que deve ser transferido ao gás para
que este aumente sua temperatura de 300 K a 500 K em um processo isobárico.

De forma análoga à situação anterior, temos que, à pressão constante, o
calor é uma função do número de mols, do calor específico Cp da substância e da
temperatura:

Q nCP ∆T
=

Utilizando os mesmos dados anteriores, mas lembrando que agora


devemos ter Cp = 20,8 J/mol.K:

Q= 3 × 20,8 × 200
Q = 12480
=Q 12, 48 ×103 J

A diferença nos valores encontrados é justificada pelo fato de que, para


manter a pressão constante em um processo isobárico, o gás deve empurrar um
êmbolo. Dessa forma, parte do calor fornecido ao gás é utilizada para realizar
trabalho, enquanto que no processo isovolumétrico isso não ocorre.

Exemplo 8:

(Adaptado de Young e Freedman, 2008) Um quarto típico contém cerca de


2500 mol de ar. Calcule a variação da energia interna para essa quantidade de ar
quando ele é resfriado de 23,9 oC até 11,6 oC mantendo-se uma pressão constante
igual a 1,0 atm. Considere o ar um gás ideal com γ = 1,40.

Resposta: Existem diversas formas de resolver esse problema. Você


poderia, por exemplo, obter o calor retirado do gás, calcular a variação no volume
e posteriormente o trabalho realizado pelo gás. Depois, bastaria utilizar a Primeira
Lei da Termodinâmica para encontrar a variação da energia interna.

159
UNIDADE 3 | PROPRIEDADES DOS GASES IDEAIS

Entretanto, existe uma forma mais direta de resolvê-lo, bastando


lembrar que em um gás ideal, a variação da energia interna é sempre dada por
ΔU = nCVΔT, sendo o processo isovolumétrico ou não. A variação de volume (e,
consequentemente, do trabalho) está relacionada ao termo nCpΔT.

Dessa forma, vamos primeiro encontrar o valor de CV . Isso pode ser feito
facilmente, dado que o exemplo nos forneceu o valor de γ = 1,40. Além disso,
J
sabemos que o valor da constante universal dos gases é R = 8,314 .
mol.K

CP
γ=
CV
CV + R
γ=
CV
R
γ = 1+
CV
R
CV =
γ -1
8,314
CV =
1, 40 -1
J
CV = 20, 79
mol.K

Agora, basta calcularmos a variação da energia interna:

∆U= nCV ∆T

Note que é necessário calcularmos a variação da energia interna na


Unidade do Sistema Internacional para que a equação esteja dimensionalmente
correta. Entretanto, sabemos que os graus nas escalas Celsius e Kelvin possuem o
mesmo tamanho, de forma que ΔT(Kelvin) = ΔT(Celsius):

∆T( Celsius ) =
Tf ( Celsius ) - Ti( Celsius )
∆T( Celsius ) =
11, 6 - 23,9
-12,3 o C
∆T( Celsius ) =
∆T( Kelvin ) =
-12,3 K

160
TÓPICO 2 | ENERGIA INTERNA E CAPACIDADE TÉRMICA

Substituindo os valores encontrados na equação para a energia interna e


considerando n = 2,500 mol, teremos:

U 2,500 × 20, 79 × ( -12,3)


∆=
∆U= 6,39 ×105 J

Essa é a energia que um ar-condicionado precisa retirar do quarto e transferir


para o lado externo para diminuir a temperatura do ambiente de 23,9 oC até 11,6 oC.

161
RESUMO DO TÓPICO 2

Neste tópico, você aprendeu que:

• Por meio da experiência de Joule-Thomson, envolvendo a passagem de um gás


por um tampão poroso, é possível mostrar que a energia interna não varia com
mudanças no volume ou pressão, sendo dependente apenas da temperatura.

• É possível calcular o calor específico de um determinado número de mols de


um gás quando este passa por um processo isovolumétrico ou isobárico.

• Quando o processo termodinâmico é isovolumétrico, temos:

Q nCV ∆T
=

em que CV é o calor específico molar a volume constante.

• Quando o processo termodinâmico é isobárico, temos:

Q nCP ∆T
=

em que CP é o calor específico molar a volume constante.

• A unidade do calor específico molar é J/mol.K.

• Podemos relacionar os dois calores específicos CP e CV pela seguinte equação:

C=
P CV + R

• Se dividirmos CP por CV obteremos a constante γ:

CP
γ=
CV

• Essa constante assume diferentes valores quando o gás estudado é


monoatômico, diatômico ou poliatômico.

• Para um gás ideal, a variação da energia interna é sempre dada por ΔU = nCVΔT,
sendo o processo isovolumétrico ou não.

162
AUTOATIVIDADE

1 (Adaptado de Serway e Jewett, 2004) Um mol de gás hidrogênio é aquecido


à pressão constante de 300 K a 420 K, calcule:

a) A energia transferida para o gás pelo calor.


b) O aumento em sua energia interna.
c) O trabalho realizado pelo gás.

2 (Serway e Jewett, 2004) Um cilindro vertical com um pistão pesado contém


ar a 300 K. A pressão é 200 kPa e o volume inicial é 0,350 m3. Considere a
massa molar de ar como 28,9 g/mol e CV = 5R 2 :

J
a) Encontre o calor específico do ar a volume constante em unidades de o .
kg. C
b) Calcule a massa de ar no cilindro.
c) Suponha que o pistão seja fixo. Encontre a quantidade de energia necessária
para aumentar a temperatura do ar para 700 K.
d) Considere novamente as condições do estado inicial e que o pistão pesado
está livre para se mover. Encontre a quantidade de energia necessária para
elevar a temperatura para 700 K.

3 (Young e Freedman, 2008) O calor Q flui para dentro de argônio (considere-o


um gás monoatômico ideal), e o volume aumenta enquanto a pressão é
mantida constante. Que fração da energia calorífica é usada para realizar o
trabalho de expansão do gás?

4 (Adaptado de Halliday, Resnick e Walker, 2009) Um mol de gás nitrogênio


(N2), que consideramos como um gás ideal diatômico, vai de a a c ao longo
da trajetória diagonal na figura a seguir. A escala do eixo vertical é definida
por Pab = 5,0 kPa e PC = 2,0 kPa. A escala do eixo horizontal é definida por
Vbc = 4,0 m3 e Va = 2,0 m3:

163
Durante a transição, calcule:

a) Qual a variação de energia interna do gás?


b) Qual é a energia adicionada ao gás na forma de calor?
c) Que calor é necessário para que o gás vá de a a c ao longo da trajetória abc?

164
UNIDADE 3
TÓPICO 3
PROCESSOS ADIABÁTICOS PARA GASES IDEAIS

1 INTRODUÇÃO
No terceiro tópico da Unidade 2 deste livro, nós estudamos diversos
processos termodinâmicos: isovolumétricos, isobáricos, isotérmicos e adiabáticos.
Para os três primeiros, sempre havia uma grandeza termodinâmica que
permanecia constante: volume, pressão e temperatura, respectivamente.

O que há de diferente em relação ao processo adiabático?



Você deve se lembrar de que é a ausência de trocas de calor entre o sistema
e o meio ao seu redor que caracteriza um processo adiabático.

Como sabemos, é impossível termos um recipiente ou local perfeitamente


isolado sem trocas de energia, mas podemos aproximar essa situação analisando
casos em que o gás é comprimido ou expandido muito rapidamente, ou quando
o gás sofre uma lenta expansão em recipiente térmico.

Neste tópico, veremos que as equações para gases ideais que vimos até
aqui também são válidas para o estudo de processos adiabáticos reversíveis,
como compressão e expansão.

2 EXPANSÃO ADIABÁTICA
A figura a seguir representa uma expansão adiabática que ocorre
muito lentamente. Note que a temperatura diminui durante o processo aqui
representado. Neste caso, dizemos que a expansão é quase-estática:

165
UNIDADE 3 | PROPRIEDADES DOS GASES IDEAIS

FIGURA 8 – EXPANSÃO ADIABÁTICA PARA UM GÁS IDEAL

FONTE: O autor

Se olharmos com atenção o gráfico anterior, veremos que durante o


processo de expansão adiabático as grandezas volume, pressão e temperatura
são alteradas simultaneamente. Apesar disso, a seguinte equação:

PV = nRT

também chamada de equação dos gases ideais, ainda é válida. Dessa forma,
podemos imaginar que é a combinação dessas três grandezas que deve permanecer
inalterada durante o processo.

Para descobrir qual é essa combinação, vamos analisar mais a fundo o


processo de expansão adiabática de um gás ideal.

Supondo que o processo representado acima é quase-estático, podemos


analisar as variações infinitesimais na energia interna, trabalho e calor conforme
dado pela Primeira Lei da Termodinâmica:

dU = dQ - dW

Podemos calcular a energia interna considerando o calor específico molar


do gás:

dU
= nCV ∆T

166
TÓPICO 3 | PROCESSOS ADIABÁTICOS PARA GASES IDEAIS

O trabalho pode ser calculado considerando variações infinitesimais no


volume:

W = PdV

E, como sabemos, em um processo adiabático temos Q = 0. Substituindo


esses valores na equação da Primeira Lei, teremos:

nCV dT = 0 - PdV

Isolando o termo dT:

-PdV
dT =
nCV

Podemos também obter as variações infinitesimais das grandezas


presentes na equação geral dos gases ideais por meio da diferenciação, conforme
você estudou nas aulas de cálculo:

PdV + Vdp =
nRdT

Substituindo o valor de dT que obtivemos anteriormente:

PdV
PdV + Vdp =
-nR
nCV

Podemos reescrever a constante universal dos gases (R) como uma


função dos calores específicos molares a volume e pressão constante, dado que
R = CP – CV :

PdV
-n ( CP - CV )
PdV + Vdp =
nCV

Agora, vamos dividir por PV, reorganizar alguns termos e eliminar n para
simplificar a equação:

dV dP
+
( C - C ) dV
- P V
=
V P CV V

167
UNIDADE 3 | PROPRIEDADES DOS GASES IDEAIS

CP
No tópico anterior, vimos que γ = , de modo que teremos:
CV

dV dP dV
+ =- ( γ -1)
V P V
dV dP dV
+ = (1- γ )
V P V
dV dP dV dV
+ = -γ
V P V V
dP dV
+γ =0
P V

Essa equação pode ser integrada facilmente. Considerando os limites de


integração como os estados iniciais e finais, e sendo γ uma constante, teremos:

P V
dP dV
∫P P + V∫ γ V =constante
0 0

P V
ln   + γ ln   =constante
 P0   V0 

Podemos reescrever a equação apresentada utilizando as propriedades


do logaritmo:
γ
P V
ln   + ln   = constante
 P0   V0 
 P  V γ 
ln     = constante
 P0  V0  

Ou ainda:
γ
PV
  = constante
P0  V0 
PV γ P=
= 0 V0
γ
constante

Podemos obter ainda outras relações com a temperatura, lembrando que:

PV = nRT
T
P~
V
168
TÓPICO 3 | PROCESSOS ADIABÁTICOS PARA GASES IDEAIS

Teremos então:

T γ
V = constante
V
TV γ -1 = constante

Ou ainda:

γ -1 γ -1
T=
f Vf T=
i Vi C
Ti Vfγ -1
=
Tf Viγ -1

Essa relação nos indica que, quando V aumenta, ou seja, γ – 1 > 0, a


temperatura deve diminuir, conforme esperado.

Também podemos obter uma relação da temperatura com a pressão, dado


que:

T
V~
P
Então:
γ
T
P   = constante
P

= constante
P γ -1

Dessa forma, vemos que, em um processo adiabático, a temperatura


diminui quando a pressão diminui. Em uma compressão adiabática, em que há
aumento da pressão, haverá aumento da temperatura.

DICAS

No artigo de Mario Tosi Furtado, intitulado Modelo adiabático da atmosfera


terrestre compatível com o aquecimento global e o efeito estufa, você pode acompanhar
uma discussão muito interessante sobre a aplicação do que vimos até agora sobre processos
adiabáticos no estudo de um modelo para a atmosfera terrestre. Confira:

• FURTADO, Mario Tosi. Modelo adiabático da atmosfera terrestre compatível com o


aquecimento global e o efeito estufa. Rev. Bras. Ensino Fís., São Paulo, v. 34, n. 3, p. 1-13, 2012 .

169
UNIDADE 3 | PROPRIEDADES DOS GASES IDEAIS

Exemplo 9:

(Adaptado de Halliday, Resnick e Walker, 2009) Inicialmente, 1 mol de


oxigênio (considerado um gás ideal) está a uma temperatura de 310 K com um
volume de 12 L. Permitimos que o gás se expanda para um volume final de 19 L.

a) Qual será a temperatura final se o gás se expandir adiabaticamente?


b) Quais serão a temperatura final e a pressão final se o gás se expandir livremente
para o novo volume a partir de uma pressão de 2,0 Pa?

Resposta: Nesse problema, nos foram dadas as informações sobre


temperatura e volume de 1 mol de gás oxigênio. Para responder à letra a, vamos
considerar uma expansão adiabática. Como vimos, em uma expansão adiabática
há uma relação muito simples entre volume e temperatura do estado inicial e do
estado final, traduzida na equação a seguir:
γ -1 γ -1
T=
f Vf T=
i Vi C

No Quadro 1, vemos que γ assume o valor 1,40 para uma molécula


diatômica, como a que compõe o gás oxigênio. Substituindo os valores dados no
problema, e considerando Vi = 12 L, Vf = 19 L, Ti = 310 k, teremos:

Ti Viγ -1
Tf =
Vfγ -1
310 × (12 )
1,40-1

Tf =
191,40-1
0,4
 12 
Tf 310 ×  
=
 19 
Tf = 258 K

Como esperado, em uma expansão adiabática ocorre a diminuição da


temperatura, dado que não há troca de calor com o ambiente e toda energia
necessária para a expansão contra a pressão do ambiente provém da energia
interna do gás.

Para a letra b, consideramos uma expansão livre do gás, isto é, a
temperatura não sofrerá variação. Dessa forma, Ti = Tf = 310 K.

170
TÓPICO 3 | PROCESSOS ADIABÁTICOS PARA GASES IDEAIS

Para calcularmos a pressão final nesse tipo de expansão, basta


lembrarmos da relação entre pressão e volume, dada pela Lei de Boyle, como
vimos no Tópico 1:

Pi Vi = Pf Vf
Pi Vi
Pf =
Vf
2 ×12
Pf =
19
Pf = 1,3 Pa

Assim, para manter a temperatura constante é necessário que a pressão


do gás diminua com a expansão.

Exemplo 10:

(Adaptado de Young e Freedman, 2008) A razão de compressão de um


motor diesel é 15 para 1: isso significa que o ar é comprimido no interior do
cilindro até um volume 115 do seu volume inicial. Sabendo que a pressão inicial
é 1,01 x 105 Pa e que a temperatura inicial é 300 K, calcule a temperatura final e a
pressão final depois da compressão.

O ar é basicamente uma mistura dos gases diatômicos oxigênio e


hidrogênio. Considere o ar um gás ideal com γ = 1,40.

Resposta: Nesse exemplo, o ar sofre uma compressão adiabática. Como


estamos trabalhando com processos adiabáticos reversíveis, podemos tratar o
problema da mesma forma que tratamos o caso da expansão adiabática.

O exemplo nos informa a pressão inicial Pi = 1,01 x 105 Pa, a temperatura


Vi
inicial Ti = 300 K, e que a razão entre Vi e Vf é = 15 . Para calcularmos a
Vf
temperatura final, basta relacionarmos a temperatura com a variação de volume:

Tf Vfγ -1 = Ti Viγ -1
Ti Viγ -1
Tf = γ -1
Vf
γ -1
V 
Tf= Ti ×  i 
 Vf 
Tf 300 × (15 )
1,40-1
=
Tf 300 × (15 )
0,40
=
Tf = 886 K
171
UNIDADE 3 | PROPRIEDADES DOS GASES IDEAIS

Assim, após a compressão adiabática, a temperatura aumentou para


T f = 886 K ou, equivalentemente, T f = 613 oC.

Agora, podemos calcular a pressão final após a compressão adiabática:

Pf Vf γ = Pi Vi γ
γ
V 
Pf= Pi ×  i 
 Vf 
Pf = 1, 01×105 × (15 )
1,4

Pf 44,8 ×105 Pa
=

Ou, equivalentemente, Pf = 44 atm.

Assim, nesse processo de compressão, houve um grande aumento de


temperatura e um grande aumento de pressão exercida pelo gás.

3 TRABALHO EM EXPANSÃO ADIABÁTICA


Com base nas considerações anteriores é possível calcular o trabalho
realizado por um gás durante uma expansão adiabática. O trabalho realizado por
gás é dado por:
Vf

Wi→f = ∫ dW
Vi
Vf

Wi→f = ∫ PdV
Vi

Sabemos que, em um processo adiabático,

PV γ P=
= 0 V0
γ
C
C
P=

P = CV - γ

172
TÓPICO 3 | PROCESSOS ADIABÁTICOS PARA GASES IDEAIS

Podemos substituir essa equação na integral para o cálculo do trabalho:

Vf

Wi→f = ∫ CV - γ dV
Vi
Vf

Wi→f = C ∫ V - γ dV
Vi

Vf
V1- γ
Wi→f =C
1- γ
Vi
1
Wi→f =
1- γ
( CVf1- γ - CVi1- γ )

Note ainda que PVγ = PiViγ = C, de modo que teremos:

1
Wi→f =
1- γ
( Pf Vf - Pi Vi )

Podemos utilizar a equação geral dos gases ideais para obter novas
relações entre essas grandezas:

nR
Wi→f = ( Tf - Ti )
1- γ

CP
Temos ainda que γ = e que R = Cp – CV. Com isso:
CV

nR
Wi→f = ( Tf - Ti )
 CP 
1- 
 CV 
nR
Wi→f = ( Tf - Ti )
 CV - CP 
 
 CV 
nRCV
Wi→f = - (T - T )
( CP - CV ) f i
nRCV
Wi→f = - ( Tf - Ti )
R
Wi→f = -nCV ( Tf - Ti )
Wi→f -nCV Tf + nCV Ti
=
173
UNIDADE 3 | PROPRIEDADES DOS GASES IDEAIS

Podemos substituir os termos do lado direito dessa equação pela


expressão da energia interna:

Wi→f = U i - U f
Wi→f = -∆U

Com isso, vemos que o trabalho realizado pelo gás durante uma expansão
adiabática pode ser calculado com a análise da variação da energia interna
durante esse processo.

Exemplo 11:

(Adaptado de Young e Freedman, 2008) Considere novamente os dados


do Exemplo 10. Naquele problema, um gás sofre uma compressão adiabática em
que a pressão inicial é Pi = 1,01 x 105 Pa e a temperatura inicial Ti = 300 K. Também
somos informados de que a razão entre Vi e Vf é Vi = 15 , e que γ = 1,40. Após
Vf
alguns cálculos, obtivemos o valor da temperatura final Tf = 886 K e a pressão
final Pf = 44,8 x 105 Pa.

Qual é o trabalho realizado pelo gás durante a compressão, sabendo que


o volume inicial do cilindro é Vi = 1,0 L = 1,0 x 10–3 m3? Considere o CV do ar igual
J
a 20,8 .
mol.K

Resposta: O trabalho realizado pelo gás pode ser calculado muito


facilmente, pois sabemos que o trabalho se relaciona com a temperatura e com o
calor específico molar conforme a seguinte equação:

Wi→f = -nCV ( Tf - Ti )

Para utilizá-la, entretanto, é necessário sabermos o número de mols (n) de


gás contidos dentro do cilindro. Como sabemos o estado inicial do gás, podemos
usar a Lei Geral dos gases ideais para descobrir o valor de n:

Pi Vi = nRTi
Pi Vi
n=
RTi
1, 01×105 ×1, 0 ×10-3
n=
8,314 × 300
n = 0, 0405 mol

174
TÓPICO 3 | PROCESSOS ADIABÁTICOS PARA GASES IDEAIS

Podemos finalmente retornar à equação do trabalho e substituir os valores


dados no problema:

Wi→=
f -0, 0405 × 20,8 × ( 886 - 300 )
Wi→f = -494 J

Note que o trabalho é negativo, porque o gás está sendo comprimido


adiabaticamente dentro do cilindro.

O cálculo do trabalho também poderia ser feito de outra maneira, sem


considerações quanto à temperatura. A equação a seguir relaciona o trabalho com
os estados finais e iniciais com base nos valores de pressão e volume:

1
Wi→f =
1- γ
( Pf Vf - Pi Vi )

Substituindo os valores dados no problema, e lembrando que calculamos


Vi
no exemplo anterior o valor da pressão final (Pf = 44,8 x 105 Pa) e que Vf =
15
teremos:

1  5 1, 0 × 10
-3

Wi→f
=  44,8 × 10 × -1, 01×105 ×1, 0 ×10-3 
1-1, 40  15 
Wi→f = -494 J

Os dois resultados foram iguais, como esperado.

Exemplo 12:

(Adaptado de Nussenzveig, 2002) Um litro de oxigênio à temperatura de


27 C e a uma pressão de 10 atm se expande adiabaticamente até quintuplicar de
o

volume:

a) Quais são a pressão e a temperatura finais?


b) Qual o trabalho realizado pelo gás?

Resposta: Primeiramente, vamos calcular a pressão final do gás. Em uma


expansão adiabática é válida a seguinte relação:

PV γ P=
= 0 V0
γ
C
γ
P0  V 
= 
P  V0 

175
UNIDADE 3 | PROPRIEDADES DOS GASES IDEAIS

A molécula que compõe o gás oxigênio é diatômica (O2), de forma


que teremos γ = 1,4 (veja os valores aproximados no Quadro 1). Além disso, o
problema nos informa que P0 = 10 atm e que V = 5V0 . Dessa forma:
1,4
10  5V0 
= 
P  V0 
10
=P
51,4
10
P≈
9,5
P ≈ 1, 05 atm

Podemos agora calcular a temperatura final. A temperatura inicial é dada


em graus Celsius, então devemos transformá-la para Kelvin:

T=
K TC + 273,15
T=
K 27 + 273,15
TK ≈ 300 K

Em um processo adiabático, também temos a seguinte relação:

Ti Vfγ -1
=
Tf Viγ -1
1,4-1
300  5Vi 
= 
Tf  Vi 
300
= 50,4
Tf
300
Tf ≈
1,9
Tf ≈ 158 K
Tf ≈ -115 o C

Assim, vemos que durante o processo de expansão adiabática o gás


diminuiu sua temperatura em cerca de 142 oC. Note que a temperatura final
( Tf ≈ −115 o C ) ainda está bastante acima do ponto de liquefação do oxigênio
(que ocorre a T = –183 oC), o que nos deixa seguros para utilizar a aproximação
de um gás ideal.

176
TÓPICO 3 | PROCESSOS ADIABÁTICOS PARA GASES IDEAIS

Vamos agora responder à letra b, calculando qual o trabalho realizado


pelo gás durante essa expansão. O trabalho realizado pelo gás em função da
pressão e do volume, considerando os estados iniciais e finais, é dado por:

1
Wi→f =
1- γ
( Pf Vf - Pi Vi )

Para efetuar esse cálculo é importante lembrar que o trabalho é dado em


m2
joules, ou seja, kg 2 . Dessa forma, devemos transformar as unidades de pressão
s
e volume para o Sistema Internacional para tornar o cálculo dimensionalmente
correto.

Para a pressão, lembrando que 1 atm = 1,013 x 105 N/m2:

Pi = 10 atm → 1, 013×106 N / m 2
Pf= 1, 05 atm → 1, 064 ×105 N / m 2

Para o volume, lembrando que 1 l = 1 dm3 = 10–3 m3 :

V=
i 1 l → 10-3 m3
Vf = 5 l → 5 ×10-3 m3

Agora, podemos substituir esses valores na equação anterior para o


cálculo do trabalho do gás:

1
Wi→f
=
1-1, 4
(1, 064×105 × 5 ×10-3 -1, 013×106 ×10-3 )
1
Wi→f ≈- ( 0,532 -1, 013) ×103
0, 4
Wi→f ≈ 1, 2 ×103 J

Este foi o trabalho realizado pelo gás durante sua expansão adiabática.

Exemplo 13:

(Adaptado de Nussenzveig, 2002) Utilizando os dados do exemplo


anterior, faça o cálculo do trabalho realizado pelo gás caso este sofresse uma
expansão isotérmica e compare os resultados.

177
UNIDADE 3 | PROPRIEDADES DOS GASES IDEAIS

Resposta: Caso o gás sofresse uma expansão isotérmica, a relação entre


volume e pressão seria dada pela Lei de Boyle:

Pi Vi = Pf Vf
Pi Vf
=
Pf Vi
10 5Vi
=
Pf Vi
10
Pf =
5
Pf = 2 atm

Ao final da Unidade 2, vimos como calcular o trabalho realizado por uma


expansão isotérmica entre:

V 
Wi→f = nRT ln  f 
 Vi 

Substituindo os valores obtidos e considerando PiVi = nRT, com uma


temperatura constante de 300 K teremos:

V 
Wi→f = nRT ln  f 
 Vi 
V 
Wi→f = Pi Vi ln  f 
 Vi 
Wi→f = 1, 013×106 ×10-3 ln ( 5 )
Wi→f ≈ 1, 013×103 ×1, 6 l
Wi→f ≈ 1, 63×103 J

Esse é o trabalho realizado pelo gás durante uma expansão isotérmica.


Note que este valor é superior ao obtido anteriormente para uma expansão
adiabática. Esse resultado está correto, como podemos verificar pela análise do
gráfico na figura a seguir:

178
TÓPICO 3 | PROCESSOS ADIABÁTICOS PARA GASES IDEAIS

FIGURA 9 – RELAÇÃO ENTRE EXPANSÃO ISOTÉRMICA (LINHA CHEIA


VERDE) E EXPANSÃO ADIABÁTICA (LINHA PONTILHADA AZUL)

FONTE: O autor

Observando atentamente a representação do gráfico, podemos estabelecer


uma relação entre a expansão isotérmica e a expansão adiabática.

A expansão isotérmica acontece sobre a linha verde, levando o gás do


estado (P2 , Vi , Ti) ao estado (P3 , Vf , Ti).

A expansão adiabática acontece sobre a linha pontilhada azul, levando o


gás do estado (P2 , Vi , Ti) ao estado (P1 , Vf , Tf).

Na unidade anterior, vimos que o trabalho realizado por um gás é


numericamente igual à área abaixo da curva que representa um dado processo
termodinâmico. Dessa forma, vemos que a área sob a curva da expansão
isotérmica (linha verde) é maior que a área sob a curva da expansão adiabática
(linha pontilhada azul). Assim, o gás realiza um trabalho maior na expansão
isotérmica, o que comprova o resultado que obtivemos por meio do cálculo.

179
RESUMO DO TÓPICO 3

Neste tópico, você aprendeu que:

• Um processo adiabático é aquele em que não há trocas de calor.



• Processos adiabáticos podem acontecer de três formas: compressão rápida,
expansão rápida ou expansão extremamente lenta em um recipiente
termicamente isolado.

• Uma expansão adiabática lenta também pode ser chamada de expansão quase-
estática.

• As seguintes relações entre pressão e volume de um gás ideal são válidas para
uma expansão quase-estática:
γ
PV
  =C
P0  V0 
PV γ P=
= 0 V0
γ
C
CP
em que γ = e C é uma constante.
CV

• Também podemos estabelecer uma relação entre temperatura e volume:

γ -1 γ -1
T=
f Vf T=
i Vi C
Ti Vfγ -1
=
Tf Viγ -1

• E entre temperatura e pressão:


=C
P γ -1

• Durante uma expansão adiabática o gás realiza trabalho, que pode ser calculado
com a seguinte equação:

1
Wi→f =
1- γ
( Pf Vf - Pi Vi )

180
• Também é possível calcular o trabalho por meio de considerações sobre a
variação na temperatura:

nR
Wi→f = ( Tf - Ti )
1- γ

• Ou calcular o trabalho com base na variação da energia interna do gás:

Wi→f = U i - U f
Wi→f = -∆U

• Em uma expansão adiabática, o gás realiza menos trabalho do que se sofresse


uma expansão isotérmica.

181
AUTOATIVIDADE

1 (Serway e Jewett, 2004) O ar em uma nuvem se expande à medida que sobe.


Se a temperatura inicial é 300 K e nenhuma energia é perdida por meio
da condução térmica na expansão, qual é a temperatura quando o volume
inicial dobra?

2 (Young e Freedman, 2008) O motor do carro esportivo Ferrari F355 F1 injeta


ar a 20 oC e 1 atm e comprime-o adiabaticamente até atingir 0,0900 do seu
volume inicial. O ar pode ser considerado um gás ideal com γ = 1,40.

a) Desenhe um diagrama PV para esse processo.


b) Calcule a temperatura e a pressão no estado final.

3 (Nussenzveig, 2002) Um mol de um gás ideal, contido num recipiente munido


de um pistão móvel, inicialmente a 20 oC, se expande isotermicamente até
que seu volume aumenta de 50%. A seguir é contraído, mantendo a pressão
constante, até voltar ao volume inicial. Finalmente é aquecido, a volume
constante, até voltar à temperatura inicial.

a) Desenhe o diagrama PV associado.


b) Calcule o trabalho total realizado pelo gás neste processo.

4 Considere o processo de compressão adiabática de um gás ideal com γ = 1,40


em que ocorre o aumento da pressão de 1 atm a 25 atm e responda às perguntas
a seguir:

a) Qual a razão entre o volume final e o volume inicial?


b) Qual a razão entre a temperatura final e a temperatura inicial?
c) Calcule a quantidade de calor, o trabalho e a variação de energia interna
desse processo considerando que, inicialmente, havia 3 mols de gás à
temperatura inicial de 300 K.

5 (Adaptada de Serway e Jewett, 2004) Uma amostra de 2,00 mols de um gás


ideal com γ = 1,40 se expande lentamente e adiabaticamente da pressão de
5,00 atm e volume de 12,0 L para um volume final de 30,0 L.

a) Qual é a pressão final do gás?


b) Quais são as temperaturas inicial e final?
c) Encontre os valores de Q, W e ΔU.

182
REFERÊNCIAS
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dois blocos distintos revisitada. Revista Brasileira de Ensino da Física, São
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184

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