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Jacques Le Goff

“Os camponeses e o mundo rural na literatura da Alta Idade Média (séc. V e séc. VI)”
In: Para um novo conceito de Idade Média, p. 121-133.

• O historiador estuda os séculos V e VI, com algumas incursões no século VII.

“O período da Alta Idade Média, (...), abarca um longo período de tempo, desde o
século V ao século XI e, por vezes, até mais. Sei bem que a carência de documentação,
ela própria reveladora da mocidade de utensilagem de perpetuação desta época e da
lentidão dos processos de evolução das estruturas deste período, nos obriga a uma
história alongada no tempo e nos impede de seguir, no decorrer destes séculos, a
cronologia rigorosa que podemos adotar mais tarde.”

• Os tempos estudados são períodos em que a vida individual é curta e a vida coletiva é
lenta. Sendo assim, no plano das mentalidades e das sensibilidades, é o tempo das
fundações, dos fundamentos, da incubação intelectual e espiritual da Idade Média.

Testemunhos principais do propósito de Le Goff: Salviano, Cesário de Arles, Martinho


de Braga e Gregório de Tours.

2.

• Le Goff não pretende descrever os camponeses como na literatura dos séculos V e


VI.

“(...) não há camponês nem mundo rural na literatura dos séculos V e VI e o meu
objetivo deve pois ser, antes de tudo, explicar tal ausência.”

• Relação complicada entre literatura e sociedade.

“Se a literatura pode ser, não sem alguma retórica, definida como um espelho da
sociedade, trata-se, sem dúvida, de um espelho mais ou menos deformante, conforme ou
desejos conscientes ou inconscientes da alma coletiva que nele se olha, e, sobretudo,
conforme os interesses, os preconceitos, as sensibilidades, as nevroses dos grupos
sociais que fabricam esse espelho e mostram à sociedade – pelo menos à parte da
sociedade que é capaz de ver, melhor dizendo, de ler, mas felizmente também para nós,
à posteridade melhor preparada para ver e interpretar esse jogo de ilusões”.

3.

• Ruralização da economia e da sociedade;


• A terra tornou-se fonte essencial de subsistência, de riqueza, de poder.

• Desaparecimento do camponês (agrícola) na literatura da Alta Idade Média.


Entretanto, este foi na literatura antiga um importante personagem.
De onde provém esta ausência do camponês e do universo rural na
literatura do início da Idade Média?

“A ideologia da Alta Idade Média não é favorável ao trabalho e, sobretudo, a


esse trabalho humilde destinado a garantir a simples subsistência a que se reduz o
essencial do labor humano, neste alvorecer de onde emerge dificilmente a sociedade
medieval.”

• Heranças que contribuíram a uma ideologia não favorável ao trabalho:

1. Herança greco-romana - havia uma classe dependente do trabalho


escravo e que se orgulhava do ócio;

2. Herança bárbara - valorização do modo de vida militar;

3. Herança judaico-cristã - primazia à vida contemplativa. Para São Bento a


prática do trabalho manual é vista como uma forma de penitência imposta ao
homem pecador.

• Desvalorização da figura do camponês: “só o clérigos e o guerreiro podiam ser


considerados como tipos da humanidade merovíngea”.

“Se ainda há camponeses livres, pequenos proprietários, que se mantêm aqui e ali, em
maior quantidade talvez do que se afirma, o seu peso econômico e social tornou-se
quase nulo”.

“Salviano, no limiar da Idade Média, descreve muito bem a realidade social e jurídica
dos camponeses, como a dos servi, dos mancipia, dos coloni, cuja situação é social e
ideologicamente condenada.”

• A canonização de um santo camponês século XIII, demonstrou o tardio


reconhecimento da Igreja à figura do camponês.

Desestruturação das imagens tradicionais da sociedade organizada segundo as funções


sociais, remodelando-as segundo vocações orientadas para fins religiosos.

“A Igreja substituiu o realismo pagão por um universo de símbolos, de signos. Nega a


essencialidade do homem perante Deus e o Além e impõe novos quadros para a
representação da sociedade”.

Através de um olhar atento, Le Goff busca descobrir, sob vários disfarces, os


camponeses que parecem ausentes da literatura da Alta Idade Média.

• A partir do século V, em um tempo de evangelização, os camponeses são


caracterizados como pagãos pelos autores cristãos. Embora o termo pagão não se
identifique ao aspecto de rusticidade.
• Os pobres (pauperes) são considerados como objetos e perigosos aos olhos das
camadas superiores, devido ao seu significativo poder de manifestação, no que diz
respeito.

• O problema da ruralização do Ocidente da Alta Idade Média:

“O problema da ruralização do Ocidente da Alta Idade Média, considerada


como uma época de ressurgência de técnicas, de estruturas sociais, de mentalidades
primitivas, digamos pré-romanas, como um tempo de afloramento de estruturas rurais
tradicionais subjacentes e dotadas de grande resistência à modificação.”

• O camponês:

“O camponês é também o pobre, pauper, e, as mais das vezes, pauperes numa


multidão cada vez menos diferenciada. É-nos por vezes difícil afirmar a identidade entre
o pobre e camponês, distinguir entre os pauperes dos textos os pobres da cidade e os
pobres do campo”.

“Antes do mais, é a antítese do rico ou do santo. A sua única razão de ser é


fornecer-lhes instrumento, uma oportunidade de salvação. Numa sociedade em que é a
salvação do espírito o essencial e onde as classes dominantes também julgam ter
prioridade nisso, o pobre permite ao rico ou ao santo que lhe dão esmola salvar-se.
Coisificado pela caridade dos grandes, o pobre é, em todos os sentidos da palavra
alemã, um Gegenstand, um objeto e só mais tarde, e dificilmente, conseguirá obter a
dignidade de um estado social, um Stand. Cesário de Arles define-o bem como
existindo apenas em função dos ricos: Deus, com efeito, permitiu que haja pobres
neste mundo para que todo homem tenha medo de resgatar seus pecados”.