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OPINIÃO OPINION 861

Idosos dependentes: famílias e cuidadores

Dependent seniors: families and caregivers

Ursula M. Karsch 1

1 Pontifícia Universidade Abstract This article focuses on health care for dependent seniors in relation to chronic illness-
Católica de São Paulo.
es. Expectations about family support for the dependent elderly are related to the role of family
Rua Monte Alegre 984,
São Paulo, SP caregivers, but care requires support from the public and private sectors. Governments through-
05014-901, Brasil. out the developed countries are examining their role in the provision of social welfare programs,
ulakar@uol.com.br
especially in the public health sector. To recommend home care and family assistance, the con-
text of changing family structures, the type of care needed, and professional follow-up must be
taken into account.
Key words Aging Health; Home Nursing; Caregivers

Resumo Este artigo centra-se no tema assistência a idosos dependentes por doença crônica e
degenerativa, e chama a atenção para o papel do cuidador em casa. A recomendação para que os
cuidados aos idosos dependentes sejam desenvolvidos no domicílio está ganhando mais força,
muitas vezes de maneira incauta por parte dos profissionais de saúde. Delegar à família a fun-
ção de cuidar necessita de clareza sobre a estrutura familiar, o tipo de cuidado a ser executado, o
tempo necessário, as características da doença e o acompanhamento profissional. Em países on-
de o envelhecimento populacional se deu mais lentamente do que no Brasil, os cuidados e os
cuidadores familiares são objeto de políticas e programas de Saúde Pública.
Palavras-chave Saúde do Idoso; Cuidados Domiciliares de Saúde; Cuidadores

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A freqüência das doenças crônicas e a longevi- lo (PUC-SP) (Sposati et al., 2002). Os governos
dade atual dos brasileiros são as duas princi- dos países desenvolvidos estão avaliando o seu
pais causas do crescimento das taxas de idosos papel na provisão de políticas de bem-estar so-
portadores de incapacidades. A prevenção das cial, e a tendência à redução dos investimentos
doenças crônicas e degenerativas, a assistên- nos setores de saúde e de benefícios reverte na
cia à saúde dos idosos dependentes e o suporte ampliação das responsabilidades familiares pe-
aos cuidadores familiares representam novos lo sustento e pelos cuidados aos idosos depen-
desafios para o sistema de saúde instalado no dentes e incapacitados.
Brasil. No Brasil, a transição demográfica e a tran-
Neste país, a velhice sem independência e sição epidemiológica apresentam, cada vez
autonomia ainda faz parte de uma face oculta mais, um quadro de sobrevivência de idosos
da opinião pública, porque vem sendo manti- na dependência de uma ou mais pessoas que
da no âmbito familiar dos domicílios ou nas suprem as suas incapacidades para a realiza-
instituições asilares, impedindo qualquer visi- ção das atividades de vida diária. Estas pessoas
bilidade e, conseqüentemente, qualquer preo- são familiares dos idosos, especialmente, mu-
cupação política de proteção social. lheres, que, geralmente, residem no mesmo do-
Estudos revelam que cerca de 40% dos in- micílio e se tornam as cuidadoras de seus ma-
divíduos com 65 anos ou mais de idade preci- ridos, pais e até mesmo filhos. Aliás, não é só no
sam de algum tipo de ajuda para realizar pelo Brasil que as mulheres são as “grandes cuida-
menos uma tarefa como fazer compras, cuidar doras” dos idosos incapacitados: todos os auto-
das finanças, preparar refeições e limpar a ca- res e os dados coletados pelo mundo indicam
sa. Uma parcela menor (10%) requer auxílio pa- que, salvo por razões culturais muito específi-
ra realizar tarefas básicas, como tomar banho, cas, a mulher é a cuidadora tradicional (Kinsel-
vestir-se, ir ao banheiro, alimentar-se, sentar e la & Taeuber, 1992). Por causas predominante-
levantar de cadeiras e camas, segundo Medi- mente culturais, o papel da mulher cuidadora,
na (1998). Estes dados remetem à preocupação no Brasil, ainda é uma atribuição esperada pe-
por mais de 6 milhões de pessoas e famílias, e a la sociedade (Neri, 1993). A visibilidade social
um e meio milhão de idosos gravemente fragi- desta personagem, porém, ainda é muito res-
lizados no Brasil, segundo a Pesquisa Nacional trita, sobretudo nos países em que o envelheci-
por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2001 (IB- mento da população vem acontecendo há pou-
GE, 2002). cas décadas.
Historicamente, diferentes países do mun- A literatura sobre cuidadores, em muitos
do têm desenvolvido variadas formas de apoio países desenvolvidos, é extensa, e as tentativas
e cuidados aos seus idosos dependentes, e, em de conceituar cuidadores formais e informais,
alguns países, o suporte oferecido é quase ex- ou cuidadores principais e secundários, e fato-
clusivamente de responsabilidade estatal, em res que designam o tipo de cuidador requerido
outros, são predominantemente as famílias que para cada idoso dependente é bastante discu-
desempenham todos os encargos. Em alguns tido com base em dados empíricos. Nestes ter-
países, ainda, as responsabilidades são dividi- mos, a literatura internacional aponta para qua-
das, em graduações variadas, entre o setor pú- tro fatores, geralmente presentes, na designa-
blico e o privado, incluindo benefícios, políti- ção da pessoa que, preferencialmente, assume
cas e serviços previdenciários, de organizações os cuidados pessoais ao idoso incapacitado: pa-
sindicais, de empresas para seus funcionários rentesco (cônjuges); gênero (principalmente,
responsáveis por algum idoso dependente, de mulher); proximidade física (vive junto) e pro-
agências e unidades sanitárias estatais, assim ximidade afetiva (conjugal, pais e filhos). A este
como de organizações particulares de seguro- respeito ver Sinclair (1990), Ungerson (1987),
saúde, conforme o estudo comparativo entre Stone et al. (1987) e Lewis & Meredith (1988).
onze países, de Lechner & Neal (1999). Por motivos vários, como a redução de cus-
Entretanto, estes diferentes modelos estão to da assistência hospitalar e institucional aos
sofrendo novos impactos e mudanças inusita- idosos incapacitados, a atual tendência, em
das causados pelas transformações nas rela- muitos países e no Brasil, é indicar a perma-
ções sociais, sejam no âmbito do trabalho e em- nência dos idosos incapacitados em suas casas
prego, sejam nas estruturas familiares, ou até sob os cuidados de sua família.
no redirecionamento das funções de proteção No entanto, a recomendação não tem sido
e justiça social do Estado, de acordo com o que objeto de debates críticos, a não ser muito re-
discutem os estudos do Núcleo de Estudos e centemente. Os pressupostos, nem sempre pre-
Pesquisas em Seguridade e Assistência Social sentes, de um modelo estável de família nu-
da Pontifícia Universidade Católica de São Pau- clear, e de que qualquer família pode sempre

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contar com a disponibilidade de um de seus pendência; contudo, 67,9% dos cuidadores en-
membros para assistir às necessidades dos ido- trevistados prestavam estes cuidados sem ne-
sos dependentes fazem parte, sem nenhuma nhum tipo de ajuda. A faixa etária de 59% dos
crítica, das propostas de serviços de assistên- cuidadores estava acima de 50 anos e 41% ti-
cia médica domiciliar. nham mais de 60 anos. Os dados mostraram,
É preciso e urgente que, quando se propu- também, que 39,3% de cuidadores, entre 60 e
serem os cuidados familiares, seja examinada a 80 anos, cuidavam de 62,5% de pacientes da
estrutura familiar na sociedade e na cultura em mesma faixa etária, o que mostra que pessoas
que estes cuidados devem ser desenvolvidos. idosas estão cuidando de idosos. As condições
Criado em 1991, o grupo multidisciplinar físicas desses cuidadores levaram a inferir que
de pesquisa, Epidemiologia do Cuidador, den- os cuidadores são doentes em potencial e que
tro do Programa de Estudos Pós-graduados em sua capacidade funcional está constantemente
Serviço Social da PUC-SP, tem realizado estu- em risco. Os dados sobre a saúde dos cuidado-
dos cujo objetivo é o perfil do cuidador familiar res reforçam essa hipótese: dos casos entrevis-
no Brasil. O primeiro trabalho acadêmico reali- tados, 40,7% tinham dores lombares, 39,0%, de-
zado entre 1992 e 1997 denomina-se Estudo do pressão, 37,3% sofriam de pressão alta, 37,3%
Suporte Domiciliar aos Adultos com Perda de tinham artrite e reumatismo, 10,2%, problemas
Independência e Perfil do Cuidador Principal, cardíacos, e 5,1%, diabete.
com o apoio do Dr. Alexandre Kalache, na épo- Apesar das mudanças ocorridas no cenário
ca, na London School of Hygiene & Tropical nacional em relação às políticas de proteção
Medicine, e cujos resultados foram publicados social ao idoso, estas ainda se apresentam mui-
pela Editora da PUC-SP (Karsch, 1998). Este es- to restritas na oferta de serviços e programas
tudo, levado a efeito no Município de São Pau- de Saúde Pública, como na amplitude da sua
lo, revelou quem são os cuidadores principais intervenção. O Estado se apresenta como um
nos domicílios de 102 pessoas com mais de 50 parceiro pontual, com responsabilidades re-
anos, que sofreram o primeiro episódio de aci- duzidas, que atribui à família a responsabilida-
dente vascular cerebral (AVCs), e retornaram às de maior dos cuidados desenvolvidos em casa
suas casas apresentando um quadro de depen- a um idoso na dependência de outra pessoa.
dência de outra pessoa para a realização das Constata-se que inexiste uma política mais vee-
suas atividades de vida diária. Tais vítimas do mente no que se refere aos papéis atribuídos às
AVC, que depois de um ano continuaram inca- famílias e aos apoios que cabem a uma rede de
pacitados, provavelmente envelhecerão na de- serviços oferecer ao idoso dependente e aos
pendência de um cuidador. O estudo mostrou seus familiares.
que o impacto nas relações familiares, causado Cuidar do idoso em casa é, com certeza,
pelo primeiro ou por múltiplos AVC e suas con- uma situação que deve ser preservada e esti-
seqüências, mostrou-se muito forte. Decorren- mulada; todavia, cuidar de um indivíduo idoso
te das alterações inevitáveis, que envolvem afe- e incapacitado durante 24 horas sem pausa
to, finanças, relações de poder e outras variá- não é tarefa para uma mulher sozinha, geral-
veis, desenvolveu-se um processo de reorgani- mente com mais de 50 anos, sem apoios nem
zação familiar, quando alguém deixava de exe- serviços que possam atender às suas necessi-
cutar tarefas pessoais, domésticas e sociais. A dades, e sem uma política de proteção para o
perda de independência, e às vezes até da au- desempenho deste papel. Em países mais de-
tonomia de um idoso, pressupõe que, em casa, senvolvidos, em que o envelhecimento popu-
alguém assuma as funções de cuidador. Trata- lacional foi mais lento e recebeu mais atenção
se da pessoa que chama a si a incumbência de durante décadas, foi construída uma rede de
realizar as tarefas para as quais o doente lesado organizações maiores e menores, que se define
pelo episódio mórbido não tem mais possibili- como community care, e cujo grande objetivo é
dade; tarefas que vão desde a higiene pessoal manter o idoso em sua casa oferecendo supor-
até a administração financeira da família. tes para a família e o cuidador. Entre as diferen-
Em 98% dos casos pesquisados, o cuidador tes modalidades de assistência ao cuidador,
era alguém da família, predominantemente do destaca-se o serviço de sua substituição por
sexo feminino (92,9%). A maior parte era for- um profissional, para alternar os cuidados com
mada de esposas (44,1%), seguidas pelas filhas alguém. Outro programa fundamental para
(31,3%); as noras e as irmãs não foram freqüen- idosos, que existe em muitos países, é “comida
tes. O cuidador familiar revelou-se o ator social sobre rodas”, que produz e distribui as refei-
principal na dinâmica dos cuidados pessoais ções programadas para os doentes e incapaci-
necessários às atividades de vida diária dos tados, poupando o cuidador da tarefa de cozi-
portadores de lesões que lhe tiraram a inde- nhar todos os dias.

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O cuidador familiar de idosos incapacita- ganização dos cuidados aos idosos residentes
dos precisa ser alvo de orientação de como na casa.
proceder nas situações mais difíceis, e receber Na década de 90, o desemprego e o traba-
em casa periódicas visitas de profissionais, mé- lho informal afetaram mais de 40 milhões de
dico, pessoal de enfermagem, de fisioterapia e pessoas no mundo. De um lado o mercado in-
outras modalidades de supervisão e capacita- formal não oferece segurança nem possibili-
ção. Este apoio é fundamental quando se trata dade de aposentadoria, de outro, a tecnologia
de um casal de idosos, em que o cônjuge me- vem substituindo a mão de obra, fazendo os
nos lesado assume os cuidados do outro, que salários caírem e a taxa de desemprego aumen-
foi acometido por uma súbita e grave doença tar. Esta realidade desencadeia uma onda mi-
incapacitante. gratória permanente dos mais jovens e mais
É preciso, também, chamar a atenção dos corajosos, que largam as suas famílias e ingres-
profissionais de saúde que indicam cuidados sam em algum mercado de trabalho em outra
em casa a idosos dependentes, que sejam con- cidade ou em outro país. Hoje não é difícil em
sideradas as mudanças sociais e econômicas qualquer país estrangeiro ouvir conversas de
que estão transformando as estruturas familia- brasileiros atrás de balcões de lojas em Portu-
res nas cidades brasileiras e como estas podem gal, ou servindo em bares e restaurantes ame-
afetar a posição e o papel tradicional do cuida- ricanos, espanhóis, franceses ou japoneses.
dor de idosos fragilizados e dependentes. Nem sempre há a expectativa de retorno. E as-
Até pouco tempo atrás, a família era enten- sim, no Brasil, muitas pessoas sabem que vão
dida como o conjunto de pessoas residentes envelhecer sem a perspectiva de receber qual-
sob o mesmo teto, e, que, entre si, apresentam quer apoio de seus filhos. Há casos em que o
laços de parentesco e de afinidade. Estas ca- avô ou a avó ficam encarregados de tomar con-
racterísticas, entretanto, têm sofrido alterações ta dos netos; e quando algum dos velhos adoe-
de todos os tipos, e há sempre quem afirme ce, quem vai cuidar é, muitas vezes, uma crian-
que “a família está em crise”, conforme Sullerot ça ou um adolescente, sem qualquer experiên-
(1997). cia para desempenhar o papel de cuidador (Me-
As estruturas familiares, no mundo inteiro, deiros, 1998).
estão sofrendo modificações rápidas ocasiona- A longevidade e a diminuição do número
das por diferenciados motivos: separações; di- de nascimentos nas cidades brasileiras está
vórcios e novas uniões; instabilidade do mer- “verticalizando” as estruturas familiares, e uma
cado de trabalho e movimentos migratórios nova forma de convívio está aparecendo: a “in-
nacionais e internacionais em busca de opor- timidade à distância”, segundo a qual as pes-
tunidades de trabalho; maior tempo de vida soas não moram na mesma casa, mas se visi-
das gerações e um aumento do contingente de tam, telefonam e trocam favores, conforme
viúvas, geralmente morando sozinhas nas ci- afirma Birren (1998). Como fica este convívio à
dades; idosos exercendo chefias de família; e a distancia no momento em que um idoso da fa-
participação crescente da mulher no mercado mília se torna dependente?
de trabalho. Mesmo morando com os seus pais, a atual
Nas últimas décadas, no Brasil, vem sendo geração de mulheres integra desde cedo o mer-
notado o aumento do número de separações e cado de trabalho. Para as mais jovens a vida
divórcios, tanto entre casais mais antigos como profissional representa as fundações de seu fu-
entre cônjuges com pouco tempo de vida con- turo, em torno do qual irão organizar, como pu-
jugal. Registrou-se, a cada uma das três últimas derem, os futuros acontecimentos familiares.
décadas, o dobro de separações e divórcios da Em alguns países, como nos Estados Unidos,
década anterior (IBGE, 1993). A freqüência de existe uma política de apoio a estas mulheres
idosos divorciados neste início de século será no caso de algum idoso delas vier a depender.
muito mais alta do que em qualquer outra ge- Podem ter reduzida a sua jornada de trabalho e
ração precedente. receber uma ajuda em dinheiro para suprir os
Se o fracasso do primeiro casamento for se- gastos com a assistência prestada ao seu idoso,
guido de uma nova união, e se desta nascerem como citado em Lechner & Neal (1999).
filhos, ou se os filhos de dois ou mais casamen- É sabido que as mulheres, em quase todo o
tos passarem a morar na mesma casa, a estru- mundo, vivem, em média, mais do que os ho-
tura familiar torna-se mais complexa, e novos mens. No Brasil esta diferença corresponde,
laços afetivos podem se formar, assim como hoje, a mais de sete anos. A razão de sexos para
novas rupturas podem abalar as relações fami- a população idosa brasileira, em 1991, era de
liares. É provável que, mais tarde, esta altera- 100 mulheres para cada 83 homens de mais de
ção reflita na identificação do cuidador e da or- 65 anos, conforme Berquó (1996). Este dado

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torna visível o reforço gradual do contingente que, se pudessem manter o seu velho em casa,
de viúvas na sociedade brasileira; muitas de- o fariam até o último minuto (Karsch, 1998).
las estão desempenhando o papel de chefe de Dessa maneira, o envelhecimento com de-
família. Mas é às chefias femininas que cor- pendência toma significados particulares que,
respondem os menores rendimentos. O Censo dentro de um contexto histórico, social, políti-
Demográfico de 1991 já apresentou mais de 1,4 co, econômico e cultural, precisa ser analisado
milhões de domicílios chefiados por mulheres e esclarecido. Na metrópole brasileira, cenário
com mais de 65 anos, das quais 1,1 milhões na em que se concentra o envelhecimento saudá-
classe de rendimento de até dois salários mí- vel, também se acumula o envelhecimento em
nimos! O mesmo censo contou 2,8 milhões de dependência.
homens chefes de família com mais de 65 anos, Tanto nos Estados Unidos, como na Euro-
e pouco mais de 2 milhões com o mesmo ren- pa, há grandes investimentos das políticas
dimento (IBGE, 2002). públicas a fim de construir e manter redes de
A transição demográfica no Brasil exige no- suporte a idosos, ou diretamente, ou prestando
vas estratégias para fazer frente ao aumento ex- apoio a cuidadores: familiares, voluntários e
ponencial do número de idosos potencialmen- profissionais. Isto é conhecido porque pesqui-
te dependentes, com baixo nível sócio-econô- sas recentes, como as de Lechner & Neal (1999),
mico, consumidores de uma parcela despro- mostram que os cuidados oriundos de redes
porcional de recursos da saúde destinada ao fi- informais de apoio constituem a mais impor-
nanciamento de leitos de longa permanência. tante fonte de suporte a idosos e, por isso mes-
A internação dos idosos em asilos, casas de mo, precisam ser estudados e amparados.
repouso e similares, está sendo posta em ques- Pode-se inferir, portanto, que o envelheci-
tão até nos países desenvolvidos, onde estes mento em dependência e a figura do cuidador
serviços alcançaram níveis altamente sofistica- estão a exigir novas formas de assistência e
dos de conforto e eficiência. O custo desse mo- novos enfoques por parte das políticas públi-
delo e as dificuldades de sua manutenção es- cas de saúde. Além do que, o próprio envelhe-
tão requerendo medidas mais resolutivas e me- cimento da população brasileira está se dando
nos onerosas. No Brasil é comum, mesmo nas num momento de profunda desordem econô-
famílias de renda geral mensal abaixo de dois mica, deixando, com certeza, a população de
salários mínimos, que a opção de internar o seu baixa renda mais desamparada e carente, de-
idoso em instituições asilares ocorra, predomi- mandando posturas de apoios compensatórios
nantemente, no limite da capacidade familiar a essa realidade. Está se configurando um se-
em oferecer os cuidados necessários. Com to- vero e crítico quadro de exclusão social do ido-
das as dificuldades, os cuidadores dos idosos so, tanto mais grave, quando esse idoso perder
dependentes das famílias visitadas durante a a sua capacidade funcional.
pesquisa sobre o suporte domiciliar referiram

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Versão final reapresentada em 17 de outubro de 2002
Aprovado em 21 de fevereiro de 2003

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