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2013

Espelho, Espelho
Meu...
Elementos da Cultura da Imagem e
do Imaginário Social do Idoso
SERAFIM FORTES PAZ
Edição Online
2

Expediente
Núcleo de Pesquisa e Extensão sobre Políticas Públicas Espaços Públicos e Serviço Social
Coordenação: Profª Drª Deise Gonçalves Nunes
Profº Drº Serafim Fortes Paz

AUTOR
Profº Drº Serafim Fortes Paz

CRÉDITOS SOBRE AS FIGURAS ENCONTRAM-SE NAS PÁGINAS 62 E 63.

Tipo de Publicação:
Online

É permitida a reprodução parcial ou total desta obra para fins acadêmicos, desde que citada à fonte.
Não é permitida a reprodução parcial ou total desta obra para fins de comercialização.
3

Espelho, Espelho Meu...:Elementos da Cultura da


Imagem e do Imaginário Social do Idoso
Uma imagem vale mais que mil palavras" 1
Eduardo Neiva

Iniciaremos este percurso exatamente com a imagem poética frente ao Espelho2:

RETRATO

Cecília Meireles

EU NÃO TINHA este rosto de hoje,


assim calmo, assim triste, assim magro
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,


tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil:
– Em que espelho ficou perdida a minha face?

1 JÚNIOR, Eduardo Neiva. A Imagem. 2. ed. Série Princípios. Rio de Janeiro: Ática, 1994. p. 7.

2 O Espelho que se faz representar nesta poesia de Cecília Meireles, aqui nesta ‘imagem texto’ a nos revelar a imagem-
tempo que esculpe as marcas a todo o tempo em nós em nosso corpo físico e num tempo não percebido e somente no
espelho refletido, muitas vezes a nos falar do tempo perdido ou quem sabe da perda de tempo, ou ainda, ganhando o
tempo. Assim, o Espelho/Imagem/Símbolo se fará em imaginário, símbolo, imaginação, pensamentos, imagens ou
idéias, arte... revestido em ‘imagens textos’, ‘imagens estrofes/canções’, ‘imagens paisagens’, ‘imagens
figuras/estampas’, ou seja, estará atravessado a todo tempo e em todo o percurso do artigo.
4

A representação imagética dos idosos se apresenta, neste momento, como um olhar


(uma leitura preliminar) sobre os caminhos, meios e instrumentos que auxiliam na
produção e reprodução do imaginário social do idoso e da representação social da velhice.
Em especial, o de perceber das imagens de velhos, através dos anos, décadas e séculos,
as expressões e significações construídas na e pela sociedade.

Sem a pretensão de aprofundar muitos aspectos e longe de alcançar tantas


possibilidades interpretativas num único e pequeno artigo, a pesquisa e o artigo nos
permite alçar alguns vôos e percorrer outros caminhos e oferece alguns pontos
estimulantes para a reflexão.

Este texto/artigo é assim fruto e parte dos resultados de uma pesquisa realizada a
partir da Universidade Federal Fluminense, iniciada em 1995 e encerrada em 1998.

O tema da imagem sobre o homem-velho estará sendo desenvolvido a partir de


representações, significados e certos aspectos simbólicos e, de algum modo, se recorrerá
à análise e interpretação de alguns conteúdos e significados.

Segundo Castoriadis, o "imaginário deve utilizar o simbólico, não somente para


exprimir-se, o que é óbvio, mas para "existir", passar do virtual a qualquer coisa a mais".
(Castoriadis, 1982).

É, portanto, através da imagem, enquanto apoio e instrumento, que se buscará


compreender os elementos de formação do imaginário social sobre a velhice e, em
especial, como se constitui o conjunto de representações e significações sociais que criam,
alimentam ou reforçam idéias, pensamentos e imagens de velhos que, em geral, atuam no
processo de discriminação social.

Percebemos que tais processos se apresentam, assim, como formas de


desrespeito, exclusão e de violência ao segmento idoso e se mostram presentes no
cotidiano e em estreita relação com a realidade social, e, desse modo, são apropriadas,
fomentadas e disseminadas pela sociedade.
5

Dentre algumas, se tornam muito comuns as imagens que se dão a partir da


distinção e da qualificação entre os produtivos e os "inativos", os belos e os feios, os bons
e os maus.

Assim, é preciso apreender as formas de manipulação, mistificação ou ocultação da


realidade ou de outras formas de discriminação, estereotipização, coisificação – sutis ou
explícitas –, que acabam por delegar aos velhos um lugar ou um não lugar.

Uma espécie de (des)identidade ou a perda dela, que se pode traduzir como meios
de isolamento, asilamento e morte social. (Elias, 1986).

Com estes recursos e instrumentos, pretende-se uma aproximação de leituras,


olhares e o de, por vezes, analisar, imagens visuais, textuais e sua dimensão discursiva,
nos textos literários, poesias, canções ou falas e experiências de sujeitos, e perceber como
esse ideário se reproduz socialmente na memória dos homens, tornando-os objetos ou
"coisas", negação... (Mészaros,), fomentando a idéia de inutilidade, incapacidade e
dependência.

Ao lidar com a imagem, nos damos conta de que estas são capazes de reter
símbolos impregnados de inúmeras informações, ou seja, "o simbolismo supõe a
capacidade de estabelecer um vínculo permanente entre dois termos, de maneira que um
'representa' o outro"; (Castoriadis, 1982). Ou ainda, como destaca o referido autor: em três
elementos: "significante, significado e seu vínculo"

Esses elementos “são mantidos como simultaneamente unidos, e distintos, uma


relação ao mesmo tempo firme e flexível". (Castoriadis, 1982).

Assim, ao recorrermos a uma documentação ou um registro visual, constatamos que


imagens podem combinar um conjunto de representações e sinais importantes, que não
são, necessariamente, produtos da imaginação, ao contrário, podem sugerir uma estreita
relação entre fantasia versus realidade, ou seja, estão repletos de conteúdos e
conhecimentos, de tal modo que se constituem em unidade e significação de pensamentos
e idéias, revelados por seus elementos e relações ideológicas, buscando não “... camuflar
os conflitos e as contradições que a ideologia esconde...". (Barreto, 1992).
6

O Trabalho que ora se apresenta traz aspectos da pesquisa mencionada e, também,


da experiência com os sujeitos-idosos do UFF – Espaço Avançado3, incluindo conteúdos
e interpretações sobre o imaginário social da velhice, e, em especial, lança um olhar sobre
a imagem de velhos, tanto a partir da mitologia da antiguidade, nas artes, nas histórias
infantis (clássicas e modernas), em figuras lendárias (tradicionais), na mídia, em
campanhas publicitárias e outras formas de expressão presentes em nossa sociedade.

Uma atenção especial será dada na interpretação de certos aspectos simbólicos e


de significados, que nos auxiliarão no desvendamento e na compreensão ou, de algum
modo, como uma tentativa de explicar ou suscitar novas questões e reflexões sobre a
representação social da velhice.

Afirma-se, desde já, que imagens e símbolos podem ocultar ou (re)velar


significações e, portanto, informam sobre conteúdos diversos, em especial, a aspectos
ideológicos. Ou seja:

"o simbolismo se crava no natural e se crava no histórico (ao que já estava lá); participa,
enfim, do racional. Tudo isto faz com que haja encadeamentos de significantes, relações
entre significantes e significados, conexões e conseqüências, que não eram visadas nem
previstas. "(Castoriadis, 1982).

Nesse sentido, muitas imagens de velhos estão impregnadas de rudimentos do


passado, remoto ou mais recente, atravessando gerações, mantendo ativos e intactos
muitos símbolos e significados de sua origem.

Isto assegura que ao tratar da representação imagética do idoso não se apresenta


apenas como temática oportuna, mas, mostra-se como fundamental, tanto em sua
atualidade e, certamente, como um material de relevância histórica e social, que pode
contribuir na compreensão e desvendamentos da atualidade e da realidade social.

3 Projeto de Extensão Interdepartamental da Universidade Federal Fluminense, apoiado pela Pró-reitoria de Extensão e
campo de estágio de Serviço Social da UFF, está voltado para aposentados e familiares dos servidores da UFF, alunos
e seus familiares e idosos da região de Niterói e adjacências. Funciona no prédio da Escola de Serviço Social de
Niterói, Salão Térreo do Bloco E, Campus Universitário do Gragoatá, São Domingos, Niterói.
7

Serve, também, para acompanhar as perspectivas da velhice brasileira e suas


tendências futuras, visto que a imagem é "basicamente uma síntese que oferece traços,
cores e outros elementos visuais em simultaneidade...” 4, desse modo, reflete e
corresponde com significados sobre o real concreto. Desse modo, se:

"o simbólico pressupõe o imaginário radical e nele se apóia, isso não significa que o
simbólico seja, globalmente, apenas o imaginário efetivo em seu conteúdo. O simbólico
comporta quase sempre, um componente 'racional-real': o que representa o real o que é
indispensável para o pensar ou para agir ". (Castoriadis, 1982).

A imagem, então, se torna um instrumento, um elemento primordial, pois, a partir


dela, poderemos ser capazes de desvendar e compreender uma diversidade de questões
que englobam a visão (em geral estereotipada), do processo de envelhecimento humano,
uma vez que a velhice deve ser compreendida em suas múltiplas inter-relações, presentes
no cotidiano social, e pelas determinações sócio-históricas, pela multiplicidade de
situações e/ou problemas que permeiam as realidades sociais dos homens/mulheres
idosos.

Assim como o tema da velhice vem sendo explorado nos últimos anos, o assunto
sobre a imagem de velhos é praticamente novo. E, por isso mesmo, o torna bastante
intrigante. Mas, também, nos dá um certo vigor e uma certeza de uma temática bastante
apropriada que pode auxiliar nos estudos sobre idosos brasileiros e sobre o fenômeno do
envelhecimento humano e populacional num país de vários contrastes e desigualdades.

E é exatamente com essa proposta de “aventura investigativa” e reflexiva que a


imagem da velhice nos traz oportunidades de explicações ou interpretações, que se darão
num movimento dialético, logo repleto de contradições e, por esse caminho, nos propõe a
necessária continuidade e aprofundamentos.

Abordar a realidade imagética da velhice no Brasil ou sobre os aspectos da


realidade social de nossos idosos, obviamente, não será, na maioria delas, uma imagem
muito aprazível. Em particular, no nosso universo de "país em desenvolvimento" ou

4 JÚNIOR, Eduardo Neiva. opus cit


8

pertencente à atual denominação de "países emergentes", em que prevalece e se acentua


um quadro economicamente desigual, no qual grande parte dos idosos (em especial
aqueles de baixa renda) se encontram na pobreza, (na linha da miséria), situando-se em
plena exclusão sócio-econômica (especialmente etária), que os obriga a conviver em
sofrimento, à violência e à discriminação social.

O segmento idoso vem tolerando constantes e permanentes violações aos direitos


humanos e sociais, à sua cidadania social, política e econômica, de forma tão grave, à sua
dignidade humana.

Particularmente, amplia-se o desrespeito e a desconsideração aos seus direitos


sociais (trabalhistas), conquistados pela luta dos trabalhadores, principalmente a partir da
década de 30 e, hoje, praticamente eliminados pelas atuais Reformas (neoliberais) do
Estado.

Nesse sentido, aponta-se, também, a gravidade da incitação à violência provocada


pelo estímulo ao "confronto" (geracional e intraclasses), em que setores dominantes
instigam os trabalhadores (ativos versus aposentados) e/ou de diferentes faixas de idade
(jovens versus velhos).

Por vias escusas ou às claras, em geral, pela ótica capitalista e na propagação


ideológica de que só é produtivo aquele que se encontra ligado diretamente aos meios de
produção e consumo, aposta-se na realização do "confronto" entre trabalhadores “ativos” e
trabalhadores “inativos”.

Tudo isto como resultado de um sistema de relações de produção liderado, em


especial, pelos setores econômicos que em parceria com um Estado, à luz de um modelo
social e econômico (neoliberal), que desenvolve, ou melhor, não desenvolve, ou quando
muito, realiza políticas sociais restritivas e compensatórias.

Estes são alguns dos mecanismos que geram processos de dominação e exclusão
sobre a classe trabalhadora, assim como entre gerações, especialmente entre jovens e
adultos, o que impõem e reforçam, ideologicamente, um tipo de "apartheid" social e etário,
9

que provoca discriminação e suas mazelas, de forma preponderante, sobre o cidadão-


idoso.

Então nos cabe a pergunta: E de que forma as representações ideológicas que


estão na sociedade materializam essa opressão à velhice?

Uma possível resposta: de variadas formas. Algumas explicitamente perversas


outras tacitamente aceitas e outras perigosamente veladas.

Se oprime o cidadão idoso quer por intermédio de mecanismos institucionais visíveis


e/ou sutis e quase invisíveis. Também, por mecanismos individuais ou coletivos.

Nesse sentido, tanto o "Homem-velho" com sua auto-imagem quanto a sociedade,


sob um conjunto de representações e idéias, constituem uma "valoração" do jovem-
trabalhador produtivo e discrimina, desvaloriza e exclui o velho-trabalhador-aposentado:

"apagando da Memória do Social a própria trajetória do sujeito trabalhador e do seu


trabalho" (Chauí, 1979).

Nega-se ou anula-se, portanto, uma trajetória - um passado histórico ao idoso.

Impõe à classe trabalhadora (crianças, jovens, adultos e aposentados), em especial


aos idosos, ainda mais isolamento, distanciamento e exclusão social. Desse modo, os
velhos (trabalhadores aposentados) são duplamente atingidos por um "asilamento" etário e
social.

Nesse sentido, nossa análise, ao se debruçar sobre a imagem e sua carga


simbólica, crivadas de representações ideológicas, busca auxiliar nesse desvendamento,
onde algumas formas e processos (re)velam conflitos geracionais e/ou de estímulos ao
"confronto" intraclasses, que de algum modo contribuem na manutenção ou reprodução do
quadro de dominação, espoliação e exploração desse segmento.

A Imagem não será tratada aqui como fruto da ficção (imaginação), nem tampouco
como descolada da realidade, mas, ao contrário, buscaremos compreendê-la como
10

resultado de um conjunto de significados e representações, formas, elementos e/ou


figurações, estreitamente relacionados com o cotidiano e que, desse modo, se interagem,
estando, por isso mesmo, dotados de unidade e significação social.

Imagens visuais ou textuais estão relacionadas diretamente a palavras, frases,


idéias, pensamentos, atitudes e, por esta razão, estão impregnadas de conteúdos, e
reúnem, através delas, significados que merecem ser interpretados. Logo, uma imagem
pode expressar elementos e símbolos, e, através de sua projeção, pode-nos revelar
conhecimento e conteúdos.

Deste texto, farão parte algumas imagens que, com seus elementos, de alguma
forma, contribuíram ou ainda contribuem para a formação do imaginário social do velho e,
na mesma proporção, contribuem para fomentar a produção ou reprodução de estereótipos
sobre o sujeito velho.

Assim, pode-se perceber que uma infinidade de formas, símbolos e signos ainda
estão presentes na atualidade, e muitos deles percorreram séculos e gerações,
impregnados de valores, fatos, fantasias e imaginação, e que por muitos séculos, décadas
e anos, são parte da realidade dos homens.

Afinal, chega um momento em que, no acúmulo de anos, décadas, séculos e


milênios das civilizações "a história, mitos e lendas se confundem".

Imagens, idéias e imaginário podem estar presentes em diversas formas de


expressão da cultura, como na poesia, por exemplo, onde através das estrofes é possível
se remeter a diversas imagens, como nas Velhas Árvores 5, de Olavo Bilac, que exalta um
estilo positivo de enfrentar o envelhecer, muito embora distante da realidade social de
muitos idosos:

5 No simbolismo a árvore é o símbolo da velhice. Por isso vê-se muitas logomarcas de entidades ligadas a idosos que
usam o símbolo da árvore.
11

VELHAS ÁRVORES
Olavo Bilac

Olha estas velhas árvores, mais belas


Do que as árvores novas, mais amigas:
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas...

O homem, a fera e o inseto, à sombra delas


Vivem livres de fome e fadiga;
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
e os amores das aves tagarelas.

Não choremos, amigo, a mocidade!


Envelheçamos rindo! Envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem:

Na glória da alegria e da bondade,


Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo
aos que padecem!

Quantas imagens e idéias se encontram nas estrofes de um poema, numa música,


numa charge, num conto de histórias...

Contos e Fábulas: A Tradição e a Memória

Uma das maiores riquezas humanas é a possibilidade de comunicação e um


dos feitos do homem é a transmissão de conhecimento: em especial a ORAL.
12

Anterior à invenção da escrita, do papel e da impressão, uma das formas de


transmissão do conhecimento, de informações e de passagem de valores morais, sociais,
religiosos e/ou culturais – as tradições e a memória –, entre os povos antigos6 se dava
oralmente; quer dizer, através dos chamados narradores (contadores de histórias) e, mais
recentemente, pelos trovadores (espécie de cantores populares).

Na antigüidade, as informações e divulgação dos conhecimentos se constituíam


através de narrativas orais. Os narradores – contadores de histórias ou trovadores –
promoviam um meio de difusão de saber e, também, de transmissão de fatos e situações
ocorridos em outros povos, ou seja, atuavam como um instrumento de difusão cultural.
Assim, a narrativa de seus "contos" preservavam as tradições e a memória social e cultural
do grupo.

Com o passar do tempo e as invenções dos últimos séculos, especialmente, com o


advento da escrita e da expansão literária, a comunicação entre povos toma nova
dimensão e, desde o final do século XIX, particularmente nas últimas décadas, uma
dessas formas de comunicação – narrar histórias –, vem sendo substituída por outras
"maravilhas tecnológicas", tais como o rádio e a televisão.

As civilizações do passado, organizadas em aldeias, pequenos povoados e/ou clã


familiares, difundiam entre si e outros povos conhecimento, saber e cultura – de gerações
a gerações – revelando-lhes as tradições, mitos e ideologias. Em geral, se comunicavam
por meio das histórias orais. Os contos e/ou fábulas foram uma dessas formas de difusão e
de transmissão de conhecimentos, ideologias ou de idéias.

Já nos últimos séculos, uma das formas de "contos" e fábulas que ganha corpo e
passa a ser contada e recontada, especialmente para as crianças, são as "narrativas
maravilhosas" ou os chamados contos de fadas ou, simplesmente denominadas "histórias
infantis".7 Forma bastante expressiva, até em nossa época, as fábulas encantadas se

6 Nelly N. Coelho, em sua obra "O Conto de Fadas", Série Princípios – Editora Ática informa que: "todas essas formas
de narrar pertencem ao caudal de narrativas nascidas entre os povos da Antigüidade, que, fundidas, confundidas,
transformadas... se espelharam por toda parte e permanecem até hoje como uma rede, folclórica e de velhos textos
novelescos que, apesar de terem origens comuns, assumem em cada nação um caráter diferente."

7 O Iluminismo – Contos de Andersen – século XVII início século XVIII – La Fontaine.


13

constituem nos "contos de fadas", repletos de fantasia e imaginação, mas, sobretudo,


possuíam, e ainda possuem uma variação de elementos fantásticos ou mágicos, tornando-
se poderosos instrumentos que, em geral, são importantes meios difusores de modelos,
regras comportamentais, padrões morais, estéticos, pois estão impregnados de
significações ideológicas ou valores sociais. Ou seja, "transmitidos de pais para filhos
através dos séculos, os contos de fadas constituem verdadeiros tesouros da sabedoria
humana, destilando as observações e o pensamento de muitas gerações". (Chinen, 1989)

Com o tempo foram enfraquecidas ou alteradas pelas inúmeras versões ou, mesmo,
pelos avanços industriais ou pelas "maravilhas" tecnológicas. Os "contos" continuam
presentes na atualidade, entretanto, os "contadores de histórias" praticamente
desapareceram.

O que é necessário ressaltar é que grande parte das histórias ou fábulas se constituí
num precioso acervo, pois muitas histórias permanecem inalteradas e preservam um
importante material de estudos, nas várias áreas do saber, onde "os contos de fadas são
parábolas que narram a trajetória de vida do ser humano" (Franz, 1977), nos auxiliando
nas explicações ou interpretações do homem e da sociedade como um meio de
aproximação da realidade, pois "o social concreto alimenta as fantasias literárias e produz
as representações do homem comum... aproximar a realidade da fantasia é torná-la
progressista, permitindo a passagem do subjetivo ao objetivo...(Barreto, 1992).

Esses contos de ficção e de realidade, sempre repletos de imaginação, possuem


uma diversidade de elementos mágicos e simbólicos. Tornaram-se, assim, instrumentos
importantes na difusão e transmissão cultural. Muitos deles, certamente, apropriados para
estabelecer modelos de comportamentos disciplinares ou difusão de idéias, conceitos,
padrões ou valores (particularmente os de ordem religiosa) e, desse modo, serviram como
veículos para determinadas ideologias morais e sociais.

O conto, como forma de expressão ocidental, ganhou força nos dois últimos
séculos, principalmente na Europa. A história infantil, como conto, foi sistematizada na
Dinamarca por Cristian Andersen e na França por Charles Perrault, tornando possível que
esses "contos maravilhosos" chegassem a outros povos e continentes, estando presentes
até os nossos dias.
14

Cabe ressaltar que esse meio de comunicação e de expressão não se deu somente
na Europa ou por mera importação. No Brasil, por exemplo, desde outrora, particularmente
no Nordeste, se produzia a chamada "literatura de cordel", que se traduzia em uma forma
especial de comunicação entre os povos daquela região e que tinha um enorme poder de
difusão de conhecimentos e das tradições culturais (locais), através de pequenos livretos
em verso e prosa. Por trovas e modinhas, o povo do sertão nordestino, transmitia feitos,
fatos e histórias ocorridas nos povoados ou com os próprios personagens locais. Como
exemplo do poder desse instrumento utilizado pelos nordestinos está a história de
Canudos, que teve através da literatura de cordel, um grande aliado para transmitir
mensagens, assim como registrar os fatos históricos ocorridos em toda sua história.

É importante destacar que muitas das "histórias infantis" preservam intactos


símbolos e representações – imagens –, mesmo que atualizadas ou modernamente
reconstituídas, estão a reproduzir os aspectos ou elementos marcantes de suas origens. A
modernidade, com a tecnologia, no entanto, fez desaparecer os "contadores de histórias",
estes têm sido gradativamente substituídos por outros meios ou formas de expressão e
outros meios de comunicação. Muitos deles vêm sendo bastante usados para reviverem e
remontarem os contos infantis, no entanto, ainda que „recontem‟ as mesmas histórias,
através do desenho animado, cinema, vídeo, teatro, CD roms, o ato interpessoal de contar,
ainda é insubstituível.

Se, de um lado, temos a importância da tradição e do "agasalhar" a memória, como


na Poesia Velhas Árvores8, ou nos contos infantis como narrativas da história, dos feitos,
dos mitos, até mesmo das fantasias ou da imaginação, por outro, temos a repetição das
histórias daqueles que perderam o contato com a realidade concreta, com a fantasia e o
sonho, muitas vezes por estarem confinados a espaços isolados, asilados, fechados,
afastados das dinâmicas e transformações sociais que se realizam no mundo que os
cerca. Até mesmo no interior da casa cada vez mais comum é não haver espaços/tempo
para rememorar – transmitir.

8 Na simbologia, conforme nos apresenta Cirlot "é um dos símbolos da tradição". Recomenda-se a leitura do referido
autor, pois, há uma diversidade de elementos simbólicos referentes à árvore e sua relação com a velhice.
15

No mundo contemporâneo, são cada vez mais raras as famílias que ainda
preservam o hábito de "contar histórias" para as crianças e, nos lares que mantêm a
presença de avós, certamente, narrativas recordam os "tempos atrás". No entanto, na
maioria dos lares, perdeu-se esse hábito e a ação de muitos avós, por vezes, é
considerada maçante, chata, enfadonha, especialmente, porque muitos idosos repetem as
mesmas velhas histórias. Se repetem, o fazem justamente pela falta de estabelecer
relacionamentos novos e mais amplos com o mundo público. Como nos revela a imagem-
canção de Fátima Guedes:

NO FIM DA CASA
(Fátima Guedes)

O Quarto do meu avô


já se sente um quarto do morto, Já
Muito embora vivo ele esteja aqui
nem sabe qual morto ele vive lá

O quarto do meu avô


tem uma cama que desarma
Na mesinha um retrato e uma flor
que ele usa como arma
E conta e reconta e torna a contar
os casos do tempo de moço
Herói das horas de jantar
o mesmo herói da história do almoço.

O quarto do meu avô


tem um velho armário enorme
tão grande que inibe um sonhador
e ele nem cochila enquanto dorme.

O quarto do meu avô


tem a extensão que a noite corta
tão escuro que não te enxerga a dor
16

tão profundo que não te abre a porta


e reza e reveza a Prece das seis
Quem nunca foi religioso
agora o que resta de um que foi três
dos três o mais laborioso.
Quando ele veio pra nós
Trouxe a viuvez no corpo de leão
trouxe a mala aberta
o orgulho aberto
pijama, pinico e carrilhão.

No trecho "e conta e reconta e torna a contar os casos do tempo de moço.


Herói das horas do jantar o mesmo herói do almoço"9, em que nos leva a perceber a
imagem do velho só sem renovar suas histórias. Um quadro muito comum nos lares, onde
há a presença de vovôs e vovós, que vivem de suas experiências restritas ao "mundo
privado", aprisionados - nos muros - de suas lembranças, da própria casa ou do "quarto",
confinados em suas reminiscências, ausências e dependência, na falta de contatos com o
"mundo público", asilados – "No Fim da Casa – O quarto do meu avô":

Um isolamento que nos indica uma morte (social) em vida, como nos mostra o
trecho a seguir:

"O Quarto do meu avô, já se sente um quarto do morto, Já."

Essa imagem da música se combina com a imagem visual da charge do homem


velho isolado, moribundo, tanto em seu quarto (enquanto a família festeja o Ano Novo),
quanto na ficção da charge chega-se à realidade de muitos lares e da maioria dos asilos e
clínicas para idosos sem renda.

9 Guedes, Fátima. No Fim da Casa. Long Play: Lápis de Cor. Brasil, EMI/Odeon, 1981.
17

A vida dinâmica, a família reduzida, ou a falta de encontros de familiares, também,


ajudaram nesse processo da perda do hábito de contar histórias.

Assim, a imagem desse lugar (figurado no " 'quarto' do meu avô" (tanto pode ser nos
fundos, no sótão ou no porão quanto em um quarto qualquer da casa, de um asilo) imagem
18

da foto acima. Tais como, na charge e na fotografia do idoso na Clínica Santa Genoveva,
Rio de Janeiro, palco da morte de centena de idosos. Nas duas imagens aqui expostas,
estampam a solidão (a presença da morte) de idosos - moribundos. No caso da charge, o
idoso só e isolado em seu quarto liga-se, virtualmente, à festa da família através de um
extenso cordão-campainha - em guirlanda - que une o moribundo à família, une o "quarto"
(Fim da Casa) ao salão, situação que se retrata a outra imagem no trecho da mesma
música de Fátima Guedes:

"Muito embora vivo ele esteja aqui, nem sabe qual morto ele vive lá."10

Essas imagens visual e textual11 acabam, por fim, configurando no vilão-vítima de


uma história que retrata a falta de comunicação, a repetição dos feitos do passado na falta
de novos assuntos e de atualização, frutos do isolamento e da "solidão dos moribundos",
ou, recorrendo a Elias"12, uma espécie de asilamento e morte.

Por outro lado, certamente, nos lares que preservam encontros (reuniões) e que
mantém a presença ativa e dinâmica do vovô ou da vovó, narrativas de "contos"
relembram os "tempos atrás". E a ação da memória viva traz aos netinhos: os mitos,
fábulas, fatos históricos ou heróicos, episódios de suas vidas ou de suas épocas. A ação
de "contar histórias" cultivada nas famílias, no passado, tenta ser resgatada por alguns
profissionais e/ou setores culturais, assim como em algumas famílias que ainda cultuam o
hábito de contar 'causos'" ou histórias..

Muitas dessas histórias, lendas, contos maravilhosos... estão documentadas ou


relançadas, especialmente em livros ou coleções – as denominadas histórias clássicas.

As histórias – e suas imagens – foram e, ainda, são apropriadas por sistemas de


dominação, algumas sofreram significativas alterações, transformando-se ou impregnando-
se de novas situações e informações, adaptando-as às novas realidades e reproduzindo as
idéias e estereótipos necessários à manutenção de valores e normas sociais.

10 Guedes, Fátima. opus cit.


11 Frase da música de O quarto do meu avô. opus cit.
12 ELIAS, Norbert. La soledad de los moribundos. México: Fondo Nacional de Cultura, 1986.
19

Essas histórias, na sua maioria, são parte da tradição ocidental ou são oriundas da
mitologia antiga (especialmente a greco-romana), de fatos históricos ou heróicos, de
contos folclóricos, de lendas ou de fábulas fantásticas. Se fazem presentes até hoje e, por
sua riqueza de conteúdos míticos e simbólicos, se constituem num importante material de
estudo. Auxiliam, portanto, novos desvendamentos, interpretações ou explicações de
situações sociais e ideológicas, ou atitudes e comportamentos sociais. Pois: "o
maravilhoso, o imaginário, o onírico, o fantástico... deixaram de ser vistos como pura
fantasia ou mentira, para ser tratados como portas que se abrem para determinadas
verdades humanas".13

Passemos então a realizar um pequeno percurso no interior de uma dessas


clássicas e, também, populares, histórias infantis. Convido a partir daqui, para um breve
passeio (no tempo-espaço) seguindo a trilha de certas imagens e palavras. Nesta viagem
ao "mundo encantado", buscaremos perceber como elas nos habitam, se fazem presente
em nós, e ainda se mantém vivas na memória ou de que maneira, para muitos, resgatarão
lembranças da infância.

Apresentaremos, nesta incursão, como símbolos, figuras e formas, estão,


certamente, a nos orientar sobre a representação de estereótipos da velhice. Assim, nossa
viagem (no tempo-espaço) mostrará como que o "mundo encantado" contribuiu e, ainda,
contribui na formação do atual imaginário social sobre a pessoa idosa.

Estamos partindo do pressuposto de que quando olhamos para uma determinada


imagem visual, textual ou auditiva (através de figuras (imagens), frases ou palavras), de
imediato, nossa memória é acionada e nos leva ao mundo das recordações. Em geral,
imagens transportam os indivíduos a uma infinidade de possibilidades; a determinadas
histórias, fatos, situações vividas ou a algum lugar.

É muito comum relembrarmos outras imagens ou situações que assumimos como


verdadeiras e reais. Muitas delas passam a fazer parte de nossa realidade, sem nem ao
menos tê-las vivenciado ou experimentado.

13 COELHO, Nelly. opus cit.


20

Neste sentido, é que recordaremos algumas imagens e, desta forma, observaremos


se elementos ou atributos dessas histórias resguardam em si símbolos e que nutrem ou
reproduzem um certo imaginário.

Embarquemos então em algumas dessas (imagens) Figurações.

Façamos um exercício: relembrem um símbolo ou uma imagem que é parte do


cotidiano e que nos remeta diretamente a algo (um fato, uma situação ou uma história).

Certamente alguns acionaram em sua memória símbolos veiculados em nossa


sociedade ocidental. É muito provável que uma diversidade de símbolos e imagens vieram
às mentes. É ainda bastante comum recordarmos de elementos próximos, tais como
símbolos: religiosos (igreja, cruz, Jesus crucificado...); econômico (cédula, moeda...);
político (bandeiras, brasões...); cultural (Papai Noel...); ou social (família, casa, amizade,
casamento...), enfim, possivelmente uma infinidade delas, que de algum modo são parte
do nosso cotidiano.

Vejamos o que acontece quando ouvirmos a seguinte frase-expressão:

– "Espelho. Espelho Meu... Existe alguém no mundo mais bonita do que eu ?"

Que imagens ou lembranças nos vêm imediatamente à memória? Decerto, muito de


nós, arriscaria dizer, todos tivemos uma associação a imagem da "Rainha Má", a
madrasta, diante do espelho mágico. Alguns recordam imediatamente do Conto de Fadas:
Branca de Neve e os Sete Anões.

Vamos então, de forma breve, iniciar nossa aventura revisitando um pouco dessa
história para quiçá associar diversos elementos imagéticos que se encontram em quase
todas as clássicas histórias infantis:
21

Era Uma Vez...

"Espelho... espelho meu". É exatamente a frase proferida, insistentemente, pela


madrasta de Branca de Neve – a "Rainha" – diante de seu fiel espelho.

Assim, ao ouvir a referida frase, muitos de nós evocamos a lembrança da cena em


que a "rainha" da história está diante do espelho. Ou, então, recordamos a própria
"estória". Se, de imediato, nos vem uma cena ou nos lembramos de algo, podemos afirmar
que isto é o sinal de que imagens ou palavras permanecem vivas, ativas ou latentes em
nossa mente - memória. Se assim ocorre confirma-se que as imagens, como estas dos
contos "fantásticos" – dos tempos atrás – se encontram registradas em nossa lembrança.
As imagens do antigamente que, de geração em geração, são contadas e recontadas,
estão presentes (latentes) e constituem nossa memória social.

Continuemos a caminhar mais um pouco nessa viagem / aventura, mas, pensemos


inicialmente neste objeto-personagem: o espelho. Iniciaremos pelo espelho (figura 01)
exatamente porque tem, para a simbologia um importante significado e traz, em si mesmo,
uma interessante e forte carga simbólica.

figura 01
22

O Espelho

Simboliza sabedoria, auto-conhecimento e


consciência resultando na verdade, clareza e
reflexão. Nos sonhos simboliza a aspiração ao
auto-conhecimento. É uma representação lunar e
feminina que simboliza o conhecimento sem
mácula de si mesmo. O espelho intacto funciona
como símbolo de união, enquanto que o espelho
partido, é um símbolo de separação.

Pode representar uma certa introspecção, uma falta de comunicação da pessoa com
seu mundo interno. Total desconhecimento de sua personalidade mais íntima e profunda.

O espelho é o reflexo da alma; ele não mente. É o conhecimento do homem de si


mesmo, a superfície clara e brilhante da verdade divina.

 Os Taoista têm o espelho como o mecanismo de auto-realização;

 no Cristianismo, um espelho sem manchas como a imagem da Virgem Maria.

 Para os Chineses, é sinceridade e para os Budistas é a alma em seu estado de


pureza.

As pessoas que fazem parte de sua vida refletem toda uma série de características
que são parte de você mesmo(a). Reconheça-te em cada uma delas.

O espelho, simbolicamente, é o elemento que significa a REFLEXÃO – "reflexos da


imaginação e da consciência" – (Cirlot, 1984), é considerado, assim, como o símbolo da
autocontemplação e de projeção do universo.14

14 No sentido de oferecer outras possibilidades de compreensão e leituras sobre o espelho, extraímos, na íntegra, do
Dicionário de Símbolos, produzido por Jean-Eduardo Cirlot, o seguinte trecho referente ao simbolismo do Espelho:
"O próprio caráter do espelho, a variabilidade temporal e existencial de sua função, explicam seu sentido essencial e
ao mesmo tempo a diversidade de conexões significativas do objeto. Já se disse que é um símbolo da imaginação –
ou da consciência – como capacitada a reproduzir os reflexos do mundo visível em sua realidade formal. Relacionou-
se o espelho com o pensamento, enquanto este – segundo Scheler e outros filósofos – é o órgão de auto-contemplação
e reflexo do universo. Este sentido liga o simbolismo do espelho ao da água que reflete e o mito de Narciso que vê a
si próprio refletido na consciência humana. Pois bem, o mundo, como descontinuidade afetada pela lei da mudança e
da substituição, é que projeta esse sentido negativo em parte, caleidoscópio de aparecer e desaparecer, que o espelho
reflete. Por isto, desde a Antiguidade, o espelho é visto como sentimento ambivalente. É uma lâmina que reproduz as
23

Nesta história se torna o arauto da consciência, o espelho se revela à „Rainha Má‟


sua essência. Em verdade a Rainha está repleta de elementos e significações negativas
como: a maldade, a ambição, a perversidade, a fraqueza, a fragilidade e a insegurança,
combinadas e associadas - simbolizada na bruxa – velha, feia e má. Sua "beleza" é falsa,
pactuada com o espelho, evidencia o conflito e os elementos postos de forma antagônica:
bem e mal, belo e feio... jovem e velha.

O personagem rainha má está a sugerir, também, subliminarmente, outros


elementos representativos do poder e da ambição. Impregnados de significados
ideológicos emitem mensagens morais e sociais, dirigida a certos grupos. No caso dos
contos infantis, embora os personagens rainhas, fadas, princesas são dirigidos às
mulheres, fortemente fortalecido e impregnado por um machismo, em especial, os contos
estão a sugerir, num modelo de sociedade em curso, condicionar e reproduzir padrões
estéticos, comportamentais, culturais - ideológicos - às mulheres da classe trabalhadora
em que por uma espécie de „enfeitiçamento‟ torná-las dóceis e submissas.

São estereótipos em que: "a ideologia é a fantasia da classe dominante, através


da qual esta procura eliminar (ou velar) os conflitos e as contradições da divisão de
classes.” (Barreto, 1992).

imagens e de certa maneira as contém e as absorve. Aparece com freqüência em lendas e contos folclóricos dotado
de caráter mágico, mera hipertrofia de sua qualidade fundamental. Serve então para suscitar aparecimentos,
devolvendo as imagens que aceitara do passado, ou para anular as distâncias refletindo o que um dia esteve diante
dele e agora se encontra bem longe. Esta variabilidade do espelho "ausente" ao espelho "ocupado" concede-lhe umas
espécies de fases e por isto, como o leque, está relacionado com a lua, sendo atributo feminino. Além, disso, é lunar
por sua condição refletora e passiva, pois recebe as imagens como a lua do sol. (Dicionário Universal de Mitologia.
Barcelona, 1835). Entre os primitivos, é também – e isto mostra com clareza sua pertinência à esfera lunar – símbolo
da multiplicidade da alma, de sua mobilidade e adaptação aos objetos que a visitam e retêm o seu interesse. Aparece
às vezes, nos mitos, como porta pela qual a alma pode dissociar-se e "passar" para o outro lado, tema este trabalho por
Lewis Carroll em Alice. Somente isto pode explicar o costume de cobrir os espelhos ou colocá-los voltados contra a
parede em determinadas ocasiões, especialmente quando morre alguém na casa (FRAZER, México, 1951). Tudo o
que dissemos não esgota o complexo simbolismo do espelho. Como o eco, é símbolo dos gêmeos (tese e antítese) e é
símbolo específico do mar de chamas (vida como doença) (SCHNEIDER, Marc. Barcelona, 1946) ( SCHNEIDER.
La danza de espadas y la tarantela. Barcelona, 1948). Para Loeffler, os espelhos são símbolos mágicos da memória
inconsciente (como os palácios de cristal) (LOEFFLER. Paris, 1949). Possuem um sentido particularizado os
espelhos de mão, emblemas da verdade (BAYLEY, Harold. Londres, 1952), e, na China, dotados de qualidade
alegórica à felicidade conjugal e de poder contra as influências diabólicas ( BEAUMONT, A. Nova Iorque, 1949).
24

Em contrapartida, com força simbólica e ideológica semelhante, sua rival – Branca


de Neve – possui os atributos essenciais da "verdadeira beleza": juventude, cordialidade e
ternura.

Na condição de reflexão, pode-se afirmar, que o espelho se define como a


dualidade, pois na busca da imagem projetada (refletida) está assinalando elementos
contraditórios: belo/feio, bem/mal, claro/escuro, novo/velho. Assim, está caracterizada
a própria consciência refletida em permanente duelo. Ao nos postarmos diante do espelho
quantas expressões são ditas ou perguntas são feitas, no diálogo entre nós mesmos frente
à própria imagem nele refletida. Na verdade quando nos dirigirmos ao espelho já estamos
nos confrontando com próprio juízo.

É nessa busca da imagem que o espelho indica então o mito de Narciso – "o reflexo
da imagem no espelho d'água" associação que remete, em latência, ao elemento vaidade.

Na associação desses elementos simbólicos combinam-se outros aspectos. O


espelho, também, é considerado um atributo feminino, visto que se relaciona com o
aspecto lunar.15 A lua, sob o aspecto feminino, é assim representada por sua condição
passiva, contemplativa e refletora (como um espelho) da luz solar. O sol, na condição de
ser possuidor de luz própria, é considerado um atributo masculino, logo, de poder.

Um outro aspecto associativo é que a vaidade é um dos sete pecados capitais. A


vaidade sempre esteve relacionada diretamente à mulher. Uma consideração importante,
pois, em geral, as histórias infantis dos clássicos contos de fadas, revelam um confronto
entre duas mulheres. O que nos informa essa relação? O que se esconderá por detrás
dessas histórias? Bem, não iremos caminhar por essa via, mas seguramente nos revela
sinais ou pistas que mereceriam maior dedicação e análise. No entanto, não nos
direcionaremos por essa via. Porém, haverá uma tendência ao confronto e negação em
que está em jogo a repressão sexual às mulheres, numa na negação à sexualidade na
velha desprovida de atrativos ou encantos físico-estéticos e na jovem, na necessidade de
reprimi-las a seus impulsos e sua sexualidade? Por que razão se fez e se faz tão

15 No simbolismo a lua está relacionada à mulher em que o sol é considerado masculino (ativo) por ser produtor da luz e
a lua (passivo) que a reflete
25

necessária „repressão sexual‟ às mulheres? A religião e fundamentalmente no


Cristianismo, desde Adão e Eva no paraíso, faz referência ao pecado atribuído à imagem
da maçã (sedução feminina) e da serpente – sabedoria - (enfeitiçadora), a sugerir
conhecimento e saber como fortemente sedutor, logo, perigoso?

Retomemos ao fio condutor deste artigo, o espelho, portanto, a procura da projeção


da própria imagem é, para muitos, uma necessidade de auto-admiração ou busca de
afirmação/confirmação. Muitos, geralmente, buscam no espelho se reconhecer belos,
revelando, portanto, a incerteza de sua beleza, como no caso da "Rainha Má" (figura 02).

A "Rainha Má" diante do espelho (numa procura incessante de confirmar sua


beleza) revela uma nítida intenção de busca do reconhecimento esperando ouvir a tão
esperada ou desejada resposta: – "Não Majestade. Tu és a mais bela de todas as belas
mulheres. És única com tamanha beleza em todo o reino."

figura 02

O apelo ao espelho se faz, principalmente na exteriorização de sua própria


consciência que a torna insegura em sua incerteza. Qual? A de que sua rival – Branca de
Neve – ainda exista e desta forma não "reinará" única. A existência de Branca de Neve a
obriga a um enfrentamento com alguém dotado dos valores morais e sociais, ou seja,
26

reúne os atributos essenciais – obviamente ideológicos –, dirigidos a "verdadeira beleza:


juventude, bondade e docilidade".

Ao exigir constantemente do espelho – arauto de sua consciência –, a "Rainha-Má"


sabe que sua essência está impregnada dos elementos que se contrapõem a essa
"verdadeira beleza" e como tal fornecem a idéia de Má, quais sejam: a ambição, a
amargura, a perversidade, a fraqueza, então representadas: na fragilidade ou insegurança
e, também, na expressão da maldade, aqui simbolizadas na feiúra (horror) da bruxa.

Assim, a consciência está a lhe revelar, a todo instante, que sua "especial beleza" é
falsa, pois não a possui na totalidade. Fica assim evidente, então, o conflito que se
deflagra nessa dualidade (figura 03). A Rainha-Má aparentemente possui uma certa
beleza, porém está incompleta, ou imperfeita, pois não a possui verdadeiramente, se na
aparência ela possui a beleza esta não se confirma na essência por não possuir
qualidades: o de não ser boa, jovem e dócil.

Em particular, nesse personagem "Rainha-Má", também se encontram diversos


outros elementos representativos, associativos e complementares, que compõem a história
e estão contidas na mensagem: o poder, a ambição, a dominação, a vaidade, a crueldade,
a frieza. São atributos impregnados de significados ideológicos que correspondem a
incorporação de ideais morais ou sociais defendidos à época e perpetuados.

figura 03
27

Do mesmo modo – Branca de Neve – "de tão branca quanto a neve" – (qual o
desejo de sua mãe) – detinha uma "beleza" inigualável. Neste caso, a beleza transcende a
da aparência, exatamente porque incorpora essas qualidades - os "atributos naturais e
essenciais" da "verdadeira beleza".

A Rainha-Má, "enfraquecida" ou “fragilizada”16 por sua falsa beleza e pela


existência de alguém ainda mais bela, terá de conquistar para si esse poder, custe o que
custar, não importando os meios para essa conquista, nem que para isso seja preciso
eliminar sua maior opositora Branca de Neve (figura 04)

figura 04

E na própria história ela se transformará no que verdadeiramente é em essência;


uma bruxa – personificada numa mulher feia e velha. O que se pode notar tanto nos
aspectos morais quanto nos estéticos (inclusive representando a própria assexualidade).
Os trajes escuros, tons vermelho-escuros, roxo e/ou preto conferem-lhe ar sombrio e
ameaçador, retiram qualquer possibilidade ou capacidade de sedução.

16 Neste duelo a mulher-rainha envelhece e se fragilizará exatamente na medida em que a menina – enteada – vai
deixando de ser menina e se tornando uma jovem-mulher. Ou seja, mais outro aspecto importante para a reflexão que
é o jogo, talvez, o grande duelo: a sexualidade. A exuberância da mulher em juventude e a decadência ou negação da
sexualidade na mulher que envelhece. Aspecto comum na maioria das histórias clássicas já que os personagens
centrais serão duas mulheres: a jovem e a velha.
28

As personagens das bruxas conseguem, pela força da imagem, materializar a


maldade - impiedosa. Provocam o horror, medo e pavor e, nesses ingredientes macabros,
as histórias são contadas e recontadas às crianças, desde pequenas, especialmente, na
fase infantil e de formação cognitiva e moral.

Como se vê, são histórias produzidas e reproduzidas que vão compondo a


"imaginação" infantil e que irão incorporando, ao imaginário social das crianças, no temor à
bruxa, no pavor da velhice. Nessas histórias, as mulheres (velhas e jovens) protagonizam
um duelo, um confronto de gerações. As mulheres idosas são identificadas como algozes;
velhas sisudas, feias e más. E atrairão ou maltratarão suas almejadas vítimas – as
meninas-moças; jovens suaves, meigas, belas e bondosas.

Estas histórias serão emolduradas em cenários compostos por „efeitos especiais‟,


em especial, pelos contornos e contextos, particularmente pelas cores, cenários e
ornamentos. O que se pode notar nestas imagens é a força de seus textos visuais
(símbolos, idéias e conteúdos) com estereótipos de bom / mau, feio / bonito, prazer /
desprazer, que respondem e correspondem ideologicamente a interesses de determinadas
sociedades, assim como retratam "os paradigmas eternos da vida humana e
freqüentemente refletem os papéis que as pessoas desempenham" (Chinen, 1989).
29

Estes clássicos infantis revelam com mais força, através das mulheres velhas e
feias versus jovens e belas, atributos aparentemente estéticos. Essa relação conflituosa
está a embutir atributos morais/ideológicos e valores sociais, inclusive, encobrindo a
própria sexualidade feminina. O visual alegre e colorido das donzelas (princesas) se
contrastam com o sombrio e ameaçador visual das velhas (bruxas), que vestidas de tom
escuro roxo e preto, causam medo e pavor. Neles estão elementos que irão compor o
imaginário social feminino e que se incorporarão gradativamente nas crianças e
dificilmente serão eliminados do discurso quando adultos.

Muitos elementos dos contos de fadas vão sendo incorporados e reproduzidos em


uma diversidade de formas. É muito comum, por exemplo, pais, familiares ou a sociedade
recorrer à imagens de velhos (feios e maus), (tais como o velho do saco...velha bruxa),
entre outros seres fantásticos, como tentativa de educar/disciplinar e socializar as crianças,
principalmente na busca de assustá-las e amendrontá-las a fim de se impor disciplina,
obediência, respeito ou medo.

Desse modo, reproduzem e reforçam os estereótipos que serão registrados na


memória infantil e, de algum modo, refletidos ao longo de suas vidas. Logo, os contos de
fadas, ou melhor, o conto das bruxas e o uso da imagem dos velhos a ela ligados
atravessam o tempo e perpassam gerações se constituindo em expressões do imaginário
social sobre o idoso.

Como pode ser notado nesse olhar sobre os contos de fadas, estes, com suas
imagens, seus símbolos e pelas mensagens maniqueístas, propõem estereótipos de bom e
mau, feio e bonito, prazer e desprazer, relacionando-os às imagens e personagens que
confrontam gerações velhas, feias e más versus jovens, belas e boas.

Essas personificações acabam se difundindo, ou em outras histórias são retomadas,


nas mais variadas manifestações sociais e culturais (literárias, artísticas) que, através dos
meios de comunicação ou de expressão (teatro, cinema, artes plásticas, histórias em
quadrinhos, anedotas), se revelarão em muitas outras situações e comportamentos do
cotidiano promovendo o drama recheado de medo e pavor.
30

O conto Branca de Neve e os Sete Anões serviu de suporte para o nosso olhar
reflexivo-crítico, mas, outras tantas e muitas histórias infantis-clássicas, certamente,
poderiam nos emprestar as mesmas possibilidades de leituras, construção e interpretação.

Para recordar alguns famosos contos, quem não se lembra:

 da jovem Cinderela (pobre e boa) frente a uma madrasta velha


ambiciosa, má e egoísta, uma espécie de protótipo da "bruxa"?
 A Bela Adormecida, jovem, linda e meiga, atormentada e amaldiçoada
pela velha bruxa má?
 Rapunzel, a menina dos longos cabelos de ouro diante de sua algoz
velha e feia, a impedir seu romance com o príncipe encantado.

Assim como estas acima indicadas, tantas outras histórias induziam, em geral, que
jovens servas/aldeãs fossem disciplinadas, comportadas e recatadas. Atributos essenciais
para conquistar príncipes belos, jovens e ricos.

As histórias de velhas bruxas irão povoar outras histórias mesmo que elas não
sejam necessariamente de histórias de bruxas. Na história A Velha e os Gansos, onde a
imagem da mulher idosa se assemelha a imagem de uma bruxa. Ou até mesmo a imagem
que é apresentada ao leitor na estampa de A Casa na Floresta (em tom preto-esverdeado)
e, reforçando a imagem, há uma legenda no rodapé com o seguinte texto: "Houve, certa
vez, uma velhinha já decrépita. Toda corcovada. Que vivia com um bando de gansos num
lugar ermo...". O que a imagem estampa associada a imagem texto, diante do isolamento
e solidão da velha e em suas imagens de suas condições físicas e contornos, pode
provocar a quem lê e vê se não uma sensação de pavor e horror à velhice.

Algumas dessas histórias incluem outros personagens que contrastam com os


elementos do mal. As fadas madrinhas, como na história de Cinderela e A Bela
Adormecida, revestem-se do bem, inclusive nas feições físicas ou estéticas; apesar de
importantes, são subliminares, em geral, secundarizadas, aparecendo como
intermediárias, amenizadoras e consoladoras. Ou em Rapunzel (menina dos cabelos
longos e louros como o ouro, em confronto com uma bruxa velha e feia).
31

Em outras histórias, temos a velha revestida de sinais que lembram a bruxa, tal
como nos apresenta a figura 05.

figura 05

Assim, a protagonista na história A Velha e os Gansos, mesmo não sendo uma


bruxa, possui as mesmas características estereotipadas da personagem velha e feia das
outras histórias.

Há também outras velhas bruxas disfarçadas de rainhas num confronto com belas
jovens. A história d' A Bela Adormecida é um exemplo típico. (figura 06)

figura 06
32

A Bela Adormecida, uma princesa jovem e bonita que, por conta de um feitiço, sofre
uma espetada da agulha no tear (em face da proteção de jovens fadas madrinhas não
morrerá, mas cairá em sono profundo) e só despertará quando um jovem príncipe, rapaz
rico e belo, a libertará através do beijo de amor, sincero e verdadeiro, da maldição e,
juntos, a partir desse antídoto serão felizes para sempre. Ou em Rapunzel a Menina dos
Cabelos de Ouro, também atormentada pela velha que ameaça o romance com o jovem
príncipe (Figura 06.1).

Figura 06.1

Em João e Maria, como em outras, existirão personagens interessantes que


contrastarão com esses símbolos do mal, tais como as Fadas madrinhas.

Em geral, as fadas madrinhas, também são representadas por jovens e belas, ou


quando velhas e boas, os padrões estético-físicos, cores e entorno sugerem que não são
velhas bruxas, porém, velhas-fadas. (ver a figura 07).
33

figura 07

Estas personagens (fadas bondosas), ainda que importantes no enredo, não


exercem a mesma carga simbólica dos protagonistas. Em geral, aparecem como
mediadoras e acabam sendo colocadas em planos inferiores na própria estória.

A história de Chapeuzinho Vermelho, por exemplo, não possui a simbologia ou


estereótipo da bruxa. Já não trata mais de uma jovem e bela. Mas, introduz uma
personagem – menina – vivaz, inocente e "boa" (sai a visitar a vovozinha para levar-lhe
"quitutes"). No entanto, por ser "desobediente", – ao desrespeitar as orientações e
recomendações da mãe –, desviando-se de seu objetivo e destino, expõe-se ao perigo,
correndo o risco de se perder na floresta e, assim, ser atacada pelo lobo velho e mau.

A avó não se apresenta como uma mulher feia e má, mas numa outra condição,
uma personagem velha e só. Esta nova imagem, no entanto, incorpora atributos
representativos do ser velho: doente, dependente e incapaz. Os estereótipos mais
34

pertinentes à atualidade e, de certo modo, da visão ocidental da velhice (atributos tais


como: doente e, principalmente, improdutivo).

Embora importante para o conteúdo do enredo, a velha torna-se uma figura


secundarizada, pois a mensagem central da estória ressalta a menina (embora displicente,
mas esperta e inteligente, pois desconfia e descobre o golpe aplicado pelo lobo) e o
lenhador (homem forte e corajoso), que salvará a todos da astúcia do lobo. E assim, mais
uma vez o bem vencerá o mal. Na verdade, esse conto revela o confronto (maniqueísta)
entre a criança que é em si boa e inocente, e a associação entre a fragilidade da velha e a
maldade do lobo (figura 08).

figura 08

A história de Chapeuzinho Vermelho não apresenta uma jovem bela, mas uma
menina viva e inocente, porém "desobediente", que se expõe ao perigo e ao ataque do
lobo velho e mau. A avó, já se apresenta em oposição, uma velha doente e introduz novos
aspectos da realidade às histórias infantis: a fragilidade, a dependência e a solidão.

As imagens, aqui apresentadas, representam os velhos personificados e


identificados nas principais histórias infantis (das clássicas até às mais modernas). Suas
referências imagéticas contrastam desde a cor utilizada nas estampas (figuras 09 e 10),
até a incitação de duelos entre mulheres de faixas etárias diferentes, ou seja, as mulheres
vilãs – bruxas (velhas, feias e macabras) com mulheres heroínas – princesas (jovens,
belas e dóceis).
35

figura 09 figura 10

E, na modernidade, mulheres velhas, doentes e frágeis. Ou ainda, o constante


conflito com as mulheres vítimas – moças belas e joviais, que na atualidade se apresentam
como crianças rebeldes. Ou, na atualidade, talvez, numa analogia à moda de jovens não
loiras que pintam seus cabelos de amarelo e outras intervenções para modelarem seu
físico para se tornarem atraentes e muitas das quais conseguem casamentos com os
atuais homens ricos e famosos, em geral, bem sucedidos jogadores de futebol ou cantores
de pagode? Ou ainda, reproduz o machismo e se tornam alvo do anedotário popular de
associação das mulheres, de tom amarelo (aloiradas) como burras?

Nas histórias clássicas ou modernas, na simbologia contida, buscam tanto


disciplinar comportamentos17 quanto fomentar outras idéias e visões de temor à
autoridade, aos valores sociais e morais (às tradições, à religião), à autoridade paterna e
materna e basicamente reforçam a dominação e incutem noções de bondade, docilidade e
beleza, como atributos do bem (sempre vencedor), em permanente confronto com o mal
(sem chance). Essas histórias perduraram por dois ou mais séculos, influindo na produção
cultural de vários povos do ocidente, chegando a estas décadas, ainda, com muito vigor.

17 Também cabe aqui uma reflexão: na maioria dessas histórias clássicas infantis os conflitos travados entre duas
personagens femininas, onde a maldade está sempre na figura da mulher velha em ataques as mulheres jovens. Por
detrás destas personagens, ideologicamente, está um controle sobre a sexualidade, onde se observa tanto a
sexualidade negada nas mulheres velhas quanto à elas colocada a responsabilidade pela perseguição (de forma
perversa e cruel) à possibilidade da sexualidade nas jovens.
36

Tais histórias influem na produção cultural, estão recriadas numa variedade de


expressões (filmes, desenhos animados, peças teatrais e vídeos) que se constituem como
parte de um arsenal que continuará a fomentar o imaginário social das crianças, adultos e
dos próprios idosos, mantendo fortemente os ingredientes ideológicos/sectaristas de
grupos dominantes sobre outras classes.

Assim como as atuais histórias e as produções infantis ainda permanecem


fortemente ligadas aos mesmos elementos "maniqueístas", outra forma bastante
interessante sobre imagens de velhos, também originadas na antigüidade, através dos
gregos, se mostram presentes em nosso cotidiano.

A Imagem da Velhice expressa nas Artes Plásticas

Em nossos estudos, nos deparamos com imagens bastante curiosas e intrigantes.


Trata-se de obras de arte produzidas por artistas de épocas longínquas e de esculturas
expostas em locais públicos, que buscam relacionar a representação das idades humanas
ao ciclo solar (estações do ano) e às fases da lua. Embora essa relação das fases da vida
humana com os ciclos da natureza tenha sua origem na antigüidade greco-romana,
Simone de Beauvoir faz referências a Hipócrates como sendo "o primeiro a comparar as
etapas da vida humana às quatro estações da natureza" (Beauvoir, 1990).

Essa relação aparece nas artes plásticas, por exemplo, onde podemos encontrar
referências aos idosos. Trazemos aqui as obras do artista italiano (quinhentista)
Arcimboldo. Nelas, encontramos as referidas correspondências das estações do ano
relacionando-as às idades. (figuras 11 e 12).

figura 11 figura 12
37

Foi uma forma em que os antigos se referiam às idades humanas, relacionando-as


às fases da lua (representadas pelo sexo feminino) e ao ciclo solar (estações do ano).

Do mesmo modo, encontramos outras obras (réplicas, talvez) que fazem parte da
paisagem urbanística de dois locais públicos e importantes da cidade do Rio de Janeiro: a
Praça Paris, situada no bairro da Glória e o Campo de Santana, no Centro. Em cada um
desses locais, encontra-se um conjunto de 04 esculturas, com referência à figura humana.
(A título de informação: as esculturas da Praça Paris são elaboradas de cimento e em meio
corpo, enquanto as obras do campo de Santana são de corpo inteiro e em mármore).

Para efeito de exposição, seguiremos a apresentação dessas obras conforme a


cronologia que estas sugerem. Assim, comecemos analisando as imagens que se referem
a Primavera (figuras 13 e 14). Em ambas, as praças elas se representam como belas
jovens em corpos seminus. Contêm as esculturas, alguns elementos simbólicos que se
atribuem à estação da primavera: ramos de trigo em referência à colheita, e as coroas de
flores nas mãos (Praça Paris) ou na cabeça (Campo de Santana). Estes elementos são
melhor configurados na escultura da Praça Paris. Portanto, a Primavera, neste simbolismo,
se relaciona à juventude (pré-adolescência e adolescência).

Praça Paris Campo de Santana


figura 13 figura 14

Nas esculturas do Verão, temos duas representações: na Praça Paris temos a figura
de uma mulher-jovem (seminua) com os seios à mostra e parte do corpo descoberto
arrumando os cabelos, como se estivesse a sair de um banho (figura 15); no Campo de
38

Santana, apresenta-se a figura de um homem-jovem totalmente despido, portando uma


ceifa (encontra-se com a parte superior quebrada).

Como se poderá notar aqui há uma nítida diferença de gênero e atributos na mesma
representação simbólica (figura 16).

Praça Paris fig. 15 Campo de Santana fig. 16

No Outono, também, encontramos duas representações: na Praça Paris, um homem


mais maduro, seminu, com características mitológicas, talvez representando Baco (figura
17); no Campo de Santana, a imagem de uma mulher adulta, semicoberta com algumas
vestes sobre o corpo, com certo despojamento. Apresenta, ainda, a mulher uma certa
jovialidade (figura 18). Estas imagens nos dão a impressão de se preparar para os
prazeres que a vida adulta oferece.

Em ambas as esculturas, encontramos os mesmos elementos simbólicos: cachos de


uva e folhas de parreira estão a representar os produtos da colheita do outono: as uvas e o
vinho, o que nos confirma a tese dos prazeres da vida na idade madura.

Praça Paris fig. 17 Campo de Santana fig.18


39

Chegando ao Inverno, temos na escultura da Praça Paris a figura de um de um


homem totalmente vestido, que apresenta características de uma pessoa mais envelhecida
que as demais. (figura 19)

Praça Paris
figura 19

Os sinais da velhice ficam mais perceptíveis no detalhe das mãos ou do rosto.


(figura 20).

figura 20
40

Na imagem do Campo de Santana, os sinais da velhice e a relação com o inverno,


são flagrantes (figura 21).

Campo de Santana
figura 21

Nessa escultura-imagem, se deflagra a representação de um ancião e a idéia de um


rigoroso inverno. Um homem bem velho, bastante curvado e totalmente coberto por um
grosso e pesado manto, também, pelo ato de aquecer as mãos com o próprio ar quente
eliminado de sua boca, está a nos transmitir uma intensa relação da velhice com o inverno.

Não nos deteremos em outros detalhes simbólicos de cada estação do ano. Neste
trabalho, procuramos enfocar a significação da relação e a origem dessas imagens, em
figuras humanas, com as estações do ano. Elas associam e representam os ciclos solares
e as fases da lua – correspondendo, assim, suas quatro fases às quatro estações do ano e
as relacionando às quatro idades da vida humana.
Poderíamos, em síntese, apresentar as correspondências no quadro a seguir:
41

CICLO SOLAR IDADE HUMANA ATRIBUTOS


FASES da LUA - MULHER

crescente primavera infância vivacidade


nova verão adolescência/juventude vitalidade
cheia outono maturidade exuberância
minguante inverno velhice fragilidade

Outro detalhe entre os dois conjuntos de esculturas, aqui apresentados, é a


coincidência do sexo feminino nas estações da primavera, correspondendo às origens
gregas. Há uma coincidência do masculino nas esculturas que representam o inverno e há
uma diferenciação de sexo nas esculturas que representam o outono. Provavelmente, se
trata de uma corruptela da simbologia original ou, certamente, a chamada liberdade
artística de seus escultores. Contudo, neste último caso os dois símbolos estão ligados ao
prazer.

Na análise simbólica, a partir destas referências gregas, idades humanas, ciclo solar
e ciclo lunar, curiosamente, nos fez refletir sobre a simbologia ligadas aos referidos ciclos
do sol e da lua, no ciclo solar fica bastante evidente nas referências as produções
agrícolas e aos aspectos da natureza relacionados às estações do ano. No entanto,
quando nos dirigimos ao ciclo lunar temos a informação que os gregos fazem referência a
imagem da mulher conforme a fase etária: primavera = mulher menina, verão = mulher
jovem, outono = mulher madura e inverno = mulher velha. Na busca de buscar informações
sobre por que relacionar os ciclos lunares à figura da mulher encontramos na simbologia a
seguinte referência, certamente machista, uma vez que o ciclo solar se caracteriza como
masculino já que o sol produz a luz e o calor, neste caso, significando atributos iluministas
a razão e a lua (como num espelho) se ilumina a partir da luz do sol. Neste caso, além da
subalternidade que lhe confere tal simbolismo, também, atribui-se a lua o caráter de
contemplação e emoção, neste caso, como atributos femininos. Assim como nas histórias
clássicas infantis, aqui, também, encontram-se fortes indícios de uma busca da
supremacia machista/masculina sobre a feminina, o que nos leva a sugerir que há algo a
ser desvendado e a ser refletido sobre essas origens e significados, supostamente
crivadas de assegurar a manutenção do poder no homem.
42

No particular deste artigo, o que é importante, no entanto, ressaltar com estas obras
é a referência às idades com os fenômenos climáticos, especialmente a reprodução da
imagem do velho ligada ao inverno. Neste caso, a escultura do Campo de Santana retrata
uma imagem muito significativa do ancião curvado e com frio, que transmite, em primeira
instância, a representação da solidão, da carência e do abandono.

A Imagem Moderna que revela a Violência e Exclusão

Todas essas imagens até aqui trabalhadas nos (re)velam conteúdos simbólicos –
sutis ou explícitos –, que espelham a presença de conflitos. No entanto, há outras formas
mais diretas de se difundirem imagens que pretendem a disseminação e incitação ao
"confronto" geracional ou intraclasses.

“Existe um tipo de violência que não faz parte das estatísticas de criminalidade, mas
que é verdadeiramente um crime. Que não é visível porque ocorre entre muros ou entre
quatro paredes, mas que é tão dramático quanto uma arma apontada para você na rua. É
43

a fome, o abandono e a extrema carência em que sobrevivem precariamente milhares de


seres humanos, nos mais diversos asilos, abrigos, creches e instituições desta cidade...”

Se há formas sutis de violência há, no entanto, outras que são promovidas de forma
bem escancaradas.

Na perspectiva de espalhar idéias e valores, ou explicitamente como tentativa de


incitar tipos de violência contra idosos, como forma de se garantir mais lucro, acumular
capital e na preservação ou manutenção do próprio sistema de produção, é que se assiste
a campanhas de setores econômicos, como o dos transportes coletivos, através do
Sindicato das Empresas de Transportes Coletivos do Rio de Janeiro, na ocupação
ostensiva da mídia ou, então, na distribuição de panfletos na Grande Rio de Janeiro, com o
objetivo de formar opinião e de acusar diretamente os idosos (na imagem-visual e na
imagem-texto), sobre o aumento das tarifas dos ônibus.18 (figura 32)

figura 32

18 O panfleto foi distribuído, em 1993, em algumas localidades da cidade do Rio de Janeiro e em alguns Municípios
vizinhos que compõem o chamado "Grande Rio", locais de grande concentração de bairros populares. Essa
Campanha assinada pelo SINTREJ, explicitava o interesse econômico de fomentar confrontos entre os segmentos de
uma mesma classe – trabalhadores atvios versus trabalhadores aposentados. A campanha, após denúncia de
Federações de Aposentados e de diversos Sindicatos de Trabalhadores, foi impedida de atingir grande parte da
cidade. Porém, em alguns lugares como no município de São Gonçalo, conforme divulgado pelo Jornal O Dia,
houve registros policiais de agressões física à idosos, usuários de ônibus.
44

Assim como a deturpação de símbolos tradicionais como a imagem aparentemente


amena do Papai Noel, nos vemos diante de um "vale tudo" na corrida de maior lucro. Há
uma forte evidência de que por detrás de tudo isso existe o interesse econômico e uma
real vinculação da mídia publicitária, através dos diversos meios de comunicação, em
especial pela televisão, que se envereda na propagação sistemática e massiva sobre o
culto à juventude (isto porque os jovens produtivos são o alvo principal do mercado).
Sobretudo quando ela presta importantes e "bons" serviços à acumulação do capital e,
logicamente, à conservação do atual modelo social e econômico.

Como afirma Guitta Debert:

“Essas novas imagens do envelhecimento que acompanham a construção da terceira idade


ocupam um espaço cada vez maior na mídia que – respondendo ao interesse crescente da
sociedade pelas tecnologias de rejuvenescimento – desestabiliza mecanismos tradicionais
de diferenciação no interior do mundo dos experts e, ao mesmo tempo, abre novos campos
para a articulação de demandas políticas e para a constituição de novos mercados de
consumo”. (Debert, 1997.)

Desse modo, a mídia publicitária, que tem como alvo segmentos de renda média ou
alta, apropria-se de discursos técnicos e profissionais ou, inclusive, de outras formas de
expressão, como trechos de músicas como "Forever young, I want be forever young"
(sempre jovem eu quero ser jovem para sempre), demonstrados no comercial de cigarros.
Crivado de atributos e símbolos da juventude atual: esportivo, dinâmico, colorido e com
muita ação. Apesar da propaganda "Cheia de vida", na verdade, veiculou, à época, um
produto da "morte". Paradoxalmente, ainda que obrigado a revelar nos produtos e nos
comerciais seu potencial mortífero ("causa câncer e mata"), o comercial incentiva a
população ao consumo de cigarros, atrelando-o à imagem de que se é atual – moderno –
fumar.

Outras formas de se afirmar a juventude são veiculadas nos meios de comunicação


e em diversas expressões culturais, como é o caso do Humor. Especialmente na televisão,
os programas de comédias apresentam muitos personagens humorísticos que projetam
imagens visuais de velhos ou imagens textuais sobre o velho, que representam tipos
estereotipados da velhice. Esses meios, ao circularem com maior ênfase, personagens
45

estereotipados, em sua maioria, alimentam e reforçam a valoração da juventude em


detrimento da velhice.

Como exemplos citaremos apenas alguns: "Eu sou é jovem", tornou-se um "chavão"
popular. A partir da fala (texto) insistente de um famoso personagem de Chico Anísio,
contrastando com outros personagens "velhos-gagás" que o mesmo programa possuía. Do
mesmo modo, no Programa Praça da Alegria, encontramos uma estereotipada velhinha
senil (bastante curvada e com problemas de mobilidade, em especial, arrancava risos pela
dificuldade de sentar e levantar), bastante "surda", acabava causando "os maiores
problemas" em decorrência de sua deficiência auditiva.

Como os exemplos citados, poderíamos apresentar inúmeros outros, especialmente


no anedotário popular, nas charges humorísticas ou nas diversas "piadas" veiculadas nos
jornais, revistas, programas de humor e até mesmo em variados sites da internet, voltados
para o humor19.

Quase todos os meios e expressões, nessa área do humor, na verdade,


demonstram uma consideração ao homem velho na expressão do imprestável. De algum
modo, contribuem para a incorporação da visão de "inativo-improdutivo" (figura 33) gerada
e fomentada pelo sistema de produção, que buscam vincular a imagem de aposentados e
idosos como ônus para os cofres públicos, ou como de responsabilidade única da família
ou nos altos custos para a assistência social.

Ou então, como propagada, direta e indiretamente, nos discursos oficiais dos


últimos governos, em especial, neste último, em virtude da justificativa da reforma da
previdência, coloca os aposentados como vilões da inoperância financeira, culpando-os
pela "falência" da Previdência Social.

19 Em geral, as chamadas "piadas de salão" ou no anedotário popular tratam de conteúdos sobre alguns segmentos
socialmente discriminados, tais como: mulheres, homossexuais, deficientes físicos, idosos.
46

figura 33

Mesmo na condição de aposentados ou pensionistas, ainda que desconsiderados,


por medidas de redução das políticas ou na restrição dos direitos, massacrados pelo poder
econômico e pelo estado (figura 34), impondo-lhes novas regras, retirando-lhes direitos e
47

garantias, homens e mulheres, velhos ou não, nem sempre se conformam, ao contrário,


sobrevivem e resistem.

figura 34

É possível que, com a tendência de crescimento populacional de idosos nas


próximas décadas, venha a se alterar esse processo, pois o mercado já se insinua em
direção aos idosos como "bons" e futuros consumidores, e não apenas como mero
compradores de produtos e artigos farmacêuticos ou da cosmetologia; ou, ainda, já temos
sinais visíveis na direção de novos espaços e produtos para "abocanhar" os possíveis
milhões de idosos-aposentados dos futuros anos 2000. Como expressa Guitta Debert:
"Disciplina e hedonismo combinam-se na medida em que as qualidades do corpo são tidas
como plásticas, e os indivíduos são convencidos a assumir a responsabilidade pela sua
própria aparência". (Debert, 1997)

Os setores econômicos e o discurso dominante, na perspectiva ideológica, já estão


se dando conta dessa tendência e já se torna mais comum a presença de pessoas idosas
à procura de ocupações, especialmente no culto ao corpo:

"a recompensa pelo corpo ascético não é a salvação espiritual, mas a aparência
embelezada, um eu mais disputado... nesse novo ideário, a subjugação do corpo através das
rotinas de manutenção corporal é a precondição para a conquista de uma aparência mais
aceitável, para a liberação da capacidade expressiva do corpo. As rugas ou a flacidez
transformam-se em indícios de lassitude moral e devem ser tratadas com a ajuda de
cosméticos, da ginástica, das vitaminas, da indústria do rejuvenescimento." (Debert, 1997).
48

A mídia em geral, atua exatamente nesse filão e inclui a imagem do idoso,


participando ativamente de comerciais publicitários, enfatizando a velhice saudável em
revistas voltadas para a "terceira idade" ou nos comerciais de televisão.

Nossa pesquisa20 fez um levantamento sobre comerciais de televisão e constatou


que, desde 1996, estiveram em circulação, cerca de dez comerciais nos quais os
"garotos(as)-propaganda" eram idosos. Desses comerciais, apenas um tratava de uma
imagem mais positiva sobre a necessidade de tratar bem o idoso, no caso, o comercial de
creme para a pele. Enquanto os demais veiculavam uma imagem em que o idoso era
infantilizado, como no comercial de xampu infantil; idiotizado no comercial de vídeo
cassete; ridicularizado e estereotipado, como no comercial de pneus ou em comerciais de
plano de saúde.

Quem iria imaginar, outrora, que uma velhinha, num comercial de microondas,
poderia estar falando de um jeito tão natural e descontraído, sem o menor
constrangimento, que os jovens deveriam ocupar melhor o seu tempo praticando sexo do
que cozinhando. Ou, então, um casal de velhos em pleno exercício de "erotismo" dentro de
uma banheira, para vender sabonete infantil. Ou, ainda, uma senhora, bastante idosa,
chegando a casa e anunciando ao esposo (já com pouca audição) a compra do grande
sonho (desde a época de namoro), o parelho de som. No entanto, o que na verdade se
percebe é que, na maioria dos comerciais, os idosos são utilizados para vender produtos
de interesse de outras faixas etárias ou para cultuar a imagem dos jovens – os verdadeiros
consumidores. Debert revela que:

"os publicitários explicam o uso dos velhos na publicidade alegando, entre outras coisas,
que o choque que essas imagens provocam, invertendo o que acontece na vida real, ou que
o aspiracional são o segredo do sucesso de uma propaganda. Essas imagens, entretanto,
têm um papel ativo na definição de novos padrões de envelhecimento". (Debert, 1997).

Apesar do crescente progresso tecnológico e científico obtido neste século,


especialmente pelos extraordinários avanços de algumas áreas como a mídia, a literatura
infantil, a música, o cinema, ainda não se eliminaram do imaginário social, diversos

20 Em nossa pesquisa, particularmente nas investigações realizadas pela Equipe de Iniciação Científica Projeto .
49

conteúdos e significações, pois em muitos deles alguns símbolos se cultivam ou se


preservam.

É preciso destacar que, embora a realidade se mostre adversa, e sem deixar de ter
em conta as dificuldades materiais e sociais onde se situa a maioria dos idosos, pode-se
vislumbrar a necessária realização de ações e programas públicos, até mais otimistas, na
perspectiva de transformação e reversão desse quadro.

Acima de tudo, é preciso ter claro que imagens, em especial aquelas que versam
sobre a realidade, não são necessariamente representações fixas ou cristalizadas ou que
se estendem a todos indiscriminadamente. No caso dos idosos, por exemplo, há uma
pequena parcela desse segmento que desfruta de meios econômicos e materiais que
seguramente os coloca em situações mais favoráveis ao enfrentamento da velhice.

Que, no entanto, não é para essa grande maioria de idosos brasileiros que se volta
os Programas Sociais: "trata-se de propor ações que beneficiem os mais fragilizados, mas
não é esse o perfil dos velhos que essas ações mobilizam e que ganha visibilidade na
mídia". (Debert, 1997). De todo modo, a imagem de velho ideal, idoso saudável, velhice
com qualidade de vida, está a tomar cada vez mais força.

A idéia de higienização que hoje também toma lugar no receituário do “bom


envelhecer”, de “velhice bem sucedida”, de “velhice saudável”, dentre outras, que faz se
imaginar que basta colocar-se na vida alguns ingredientes, bater, mexer, descansar e levar
ao forno que aí está a “melhor velhice”, pronta para ser servida!

E, muitas vezes, por detrás das boas receitas se escondem intenções bastante
adversas ou perversas. Relembremos o primeiro projeto higienista do Brasil, por detrás do
primeiro projeto urbanista da cidade: o passeio público:
50

Este primeiro projeto urbanista, em verdade, aterrou a Lagoa do Boqueirão, junto


aos Arcos da Lapa, a fim de evitar que os fidalgos e nobres ao chegarem a cidade não
assistissem o povo, negros alforriados banhando-se na lagoa. Assim, o passeio público
não era público, mas sim, privado para a corte e fidalguia usufruírem os jardins, protegidos
por altos muros, suas horas de lazer. E o que está ocorrendo com nossas praças públicas
hoje, são verdadeiramente públicas: Gradeadas e sob horários limitados de uso?

A imagem se torna cada vez mais poderosa nos últimos tempos e incide sobre
nossas formas de pensar e de agir. Pois:

"o que quer que se faça – e mesmo que se tenha consciência disto – cada um de nós está de
fato mergulhado em um clima cultural e tomado por algo que resulta em que somos mais
pensados do que pensamos, que se age mais sobre nós do que agimos". (Maffesoli, 1993).

No entanto, a maioria depende de ações governamentais e de suportes (social,


assistencial, previdenciário), que requer posicionamentos e enfrentamentos sistemáticos
na luta por garantir a sobrevivência ou na defesa dos direitos sociais. Como pudemos ver
nestas imagens, sem dúvida alguma, são instrumentos poderosos na difusão de idéias e
símbolos, são instrumentos fundamentais que espelham e afirmam um ou outro interesse,
e, nesse sentido, elas também podem e devem servir de instrumentos para a construção
de novas imagens e de novas possibilidades.

Uma vez que a vida humana e a realidade social não são determinadas sem as
necessárias contradições, e, por esta razão, da mesma forma que imagens podem
difundir modelos e estereótipos, do mesmo modo, podem, também, ser revertidas e
transformadas em outras imagens que busquem valorizar pessoas idosas e difundir
outros papéis sociais para o idoso na sociedade atual.

A sociedade contemporânea e as novas tecnologias, com seus instrumentos e


equipamentos, possuem a capacidade de colocar-se a serviço dessa transformação e,
desta forma, contribuir para alterar, modificar ou construir novas imagens-identidades,
logicamente, dependendo dos compromissos com determinados projetos teóricos, políticos
e sociais.
51

Na imagem texto a seguir, a letra da canção de Péricles Cavalcante e Arnaldo


Antunes, nos sugere que independentemente da faixa etária, estamos todos presentes em
um mesmo tempo/espaço, ou seja, independente de quem chegou ou de quem está
chegando, estamos todos aqui e que a melhoria das condições, as conquistas de direitos e
a cidadania devem ser construídas e asseguradas a todos indistintamente, numa
perspectiva de universalização dos direitos e de políticas humano-sociais que garanta a
todos a convivência intergeracional.

VELHOS E JOVENS

Péricles Cavalcante Arnaldo


Antunes

Antes de mim vieram os velhos


Os jovens vieram depois de mim
E estamos todos aqui

No meio do caminho dessa vida


Vinda antes de nós
E estamos todos a sós

No meio do caminho dessa vida


E estamos todos no meio
Quem chegou e quem faz tempo que veio
Ninguém no início ou no fim

Antes de mim
Vieram os velhos
Os jovens vieram depois de mim
E estamos todos aí.
A Cidadania em Construção e a Nova Imagem do Velho

A expansão das informações, das comunicações, do próprio conhecimento, a


diversificação de projetos sociais, políticos e culturais, podem ser utilizados nesse sentido,
assim como os homens que os operam afinados a um ideal de transformação social e
comprometidos com a busca de mudanças reais das atuais condições sociais em que vive
52

a população em geral (crianças, jovens, homens e mulheres trabalhadores, idosos). Afinal


de contas, não dá para pensar somente em um segmento, pois "estamos todos aí, como
na música de Péricles Cavalcanti e Arnaldo Antures,interpretada por Adriana Calcanhoto:

"Antes de mim vieram os velhos,


os jovens vieram depois de mim
e estamos todos aí".21

É preciso que numa nova perspectiva de solidariedade política e de compromisso


social, pensemos em medidas sociais, econômicas e políticas que somente assim se
possibilite a conquista dos direitos humanos e dêem conta das várias questões sociais que
atravessam os vários segmentos sociais até à velhice, e, assim, parceiros e aliados nas
transformações, busquem-se os meios e formas de se recriar, resistir, manifestar e de se
expressar na construção de uma imagem do homem idoso – com suas características
físicas: cabelos brancos, curvos e enrugados (figura 35), velhos sim, belos, também, eretos
em dignidade e cidadania (figura 36).

figura 35 figura 36

As caras lavadas -, os "caras enrugadas" -, com seus rostos e corpos, possuem


uma beleza de vida acumulada, ou como no depoimento pessoal da atriz Fernanda
Montenegro (por ocasião de uma entrevista no “Programa do Jô” respondendo a
embelezamento e cirurgia plástica) revelando algo semelhante:

21 Trecho da música Jovens e Velhos, de autoria de Péricles Cavalcanti e Arnaldo Antunes, faixa nº 10 no CD da
cantora Adriana Calcanhoto, intitulado – SENHAS -, Columbia Compact Disc Digital Audio
53

"eu não estou preocupada com o aumento das rugas em meu rosto, muito menos em
escondê-las ou, até mesmo, em me livrar delas, exatamente porque são as rugas de
meu rosto que registram a minha vida, o quanto vivi. Cada ruga possui uma história
por mim experimentada". (Fernanda Montenegro, 1998)

Com as características físicas, sim: curvos, lentos, enrugados..., mas, eretos em


dignidade, em sua história e na certeza de sua participação e contribuição com a história e
os destinos do país e pela própria Vida. Velhos sim, eternos também. Velhos trabalhadores
aposentados ou, simplesmente, Belos.

A velhice, enquanto registro do tempo e da vida, não se mede apenas pelos anos de
vida, tampouco a beleza se afirma pela aparência "estético-física", mas, sim, pelo acúmulo
de histórias, experiências e sabedoria e na firmeza e garra da "cabeça erguida".

Idosos produtivos ocupam cada vez mais espaços nas diversas áreas, tais como:
literatura – a Academia Brasileira de Letras serviria de exemplo, escritores como Jorge
Amado (figura 37), no jornalismo destaca-se o já centenário Barbosa Lima Sobrinho, na
política e na ciência, sexagenários e de mais idade têm contribuído com seus feitos, no
teatro e no humor vários artistas se destacam, como na figura 38, na filantropia e na
assistência na figura 39, são exemplos das celebridades.

figura 37 figura 38 figura 39

Do mesmo modo, os idosos anônimos, ilustrados nas figuras 40, 41 e 42, que se
dispõem a se manter vivos, atuantes e atualizados em continuar sua trajetória de luta, na
conquista de espaços, direitos e dignidade.
54

São rostos que marcam sua existência e presença, registram sua história da vida,
no tempo e no espaço, (figuras 43 e 44), e, desse modo, cultivam e exemplificam sua
existência, contribuindo socialmente e combatendo formas de negação, asilamento e
anulação.
55

Permanecendo ativos na preservação da vida (avivando a memória histórica), na


demonstração de atitudes significativas, para si e para os outros homens, tornam-se,
assim, algumas maneiras de – se olhar no espelho – acentuar a beleza do homem velho,
como na imagem que se estampa na música – O Homem Velho –, de Caetano Veloso22:

O HOMEM VELHO
(Caetano Veloso)

O homem velho deixa a vida


e morte para trás
Cabeça a prumo, segue rumo
e nunca mais
O grande espelho que é o mundo
ousaria refletir os seus sinais
O homem velho é o rei dos
animais

A solidão agora é sólida, uma


pedra ao sol
As linhas do destino nas mãos
a mão apagou
Ele já tem a alma saturada de
poesia, soul e rock'n roll
As coisas migram e ele serve
de farol.

A carne a arte arde e a tarde cai


No abismo das esquinas
A brisa leve traz o olor fulgaz
Do sexo das meninas.

22 VELOSO, Caetano. O Homem Velho. Faixa nº 02, do CD Caetano Veloso, Polygram/Philips, 1986.
56

Luz fria, seus cabelos têm


tristeza de néon
Belezas, dores e alegrias passam
sem um som
Eu vejo o homem velho rindo
numa curva de Hebron
E a seu olhar tudo que é cor
muda de tom

Os filhos, filmes, livros, ditos


como um vendaval (vendaval)
Espalham-no além da ilusão
do seu ser pessoal

Mas ele dói e brilha único indivíduo,


maravilha sem igual
Já tem coragem de saber que
é imortal.

Aqui o Espelho, reflete a capacidade que a velhice, depositária de uma sabedoria,


experiência e de vida se mostra presente no novo. O trecho a seguir nos dá essa pista
interpretativa.

"O grande espelho que é o mundo ousaria refletir os seus sinais.


O homem velho é o rei dos animais"

figura 43 figura 44
57

Para garantir essa relação intergeracional e de solidariedade sócio-políticas, deve-


se ampliar os meios e instrumentos técnicos e científicos e de participação social, maior
presença nas lutas sociais, específicas e gerais, em prol do desenvolvimento da nação
tornam-se indicadores de um novo rumo e na construção de uma nova imagem que,
certamente, ajudará a dissipar a velha imagem de solidão – inutilidade, fragilidade e
imprestabilidade – na direção de uma outra nova imagem, como a que é transmitida neste
trecho da música Homem e Velho:

"A solidão agora é sólida, uma


pedra ao sol
As linhas do destino nas mãos
a mão apagou
Ele já tem a alma saturada de
poesia, soul e rock'n roll
As coisas migram e ele serve
de farol".

Como faróis, nesta última década, os idosos brasileiros se tornaram uma espécie de
referência dos movimentos sociais organizados, nos dando uma demonstração de força e
capacidade de organização e luta, pela reivindicação, participação, mobilização e
organização nos anos 80/90.

Crescem em todo o Brasil, espaços de convivência, que para além de se tornarem


somente lugares de confraternização ou de laços afetivos, que por si só já seriam de
extrema importância, esses novos lugares já demonstram em um importante lugar de
resistência e de luta pela cidadania, junto com os outros espaços como os Departamentos
de Aposentados ou Sindicatos, Associações de Idosos e Aposentados.23

23 Os espaços denominados Grupos de Convivência, Centros de Convivência, mesmo aqueles voltados somente para o
lazer, realização de festas, passeios, bailes, jogos..., podem se transformar em lugares de "resistência", no sentido de
se operar neles o lúdico. Nesse sentido, é preciso se refletir melhor sobre a Festa – enquanto recursos não só de
confraternização, mas de agregar pessoas e de possibilitar trocas em várias dimensões: afetivas, sociais, culturais e
políticas.
58

Como exemplo dessa afirmação está o movimento dos aposentados e pensionistas,


na luta dos 147 %, foi uma imagem e ação dos protagonistas do grande movimento – Fora
Collor – contra aquele governo. Ou na mobilização e ação de suas organizações
representativas contra as atuais propostas do governo, resultando no recuo das medidas
pretendidas em relação à desvinculação das pensões.

figura 45

É com esse grau de participação que muitos homens e mulheres idosos acenam
para as novas mudanças e, dessa forma, acentuam sua beleza nestas últimas décadas
que antecedem o próximo século. Cada vez mais, idosos engrossam as passeatas e os
manifestos públicos, presentes nas lutas de um modo geral e, em especial, juntamente
com sua própria categoria – os trabalhadores.

Desse modo, já marcam e marcarão sua presença ativa nos mais diversos setores e
grupos sociais, contribuindo para a mudança dessas imagens, e, desta maneira, poderão
59

alcançar novos e importantes espaços e, sobretudo, resgatar e preservar sua memória de


trabalhador e de sua participação na história deste país.

figura 46

Muitos têm estado ao lado de outros setores e categorias também trabalhadores,


buscando, juntos, reivindicar melhorias das condições de vida, salário justo, aposentadoria
digna, bem como a aquisição de novos direitos sociais e a garantia dos já conquistados.
Conscientes de sua importância e participação numa perspectiva de preservar sua
memória e identidade, com vistas a construir, reafirmar e expandir a cidadania.

Ao nos aproximarmos da finalização deste texto, é preciso destacar que estas


imagens influem na formação do imaginário, mas não significa que elas sejam eternas e
60

cristalizadas. Por esta razão, é possível revertê-las. A sociedade contemporânea tem


capacidade de alterá-las ou modificá-las.
A expansão das informações, das comunicações, do próprio conhecimento, a
diversificação de projetos sociais, políticos e culturais, – em especial profissionais
sensíveis de várias áreas podem atuar e devem direcionar ações e intervenções nesse
sentido.

Assim como os homens, incluindo-se os próprios velhos, como já vêm fazendo,


tornam-se parceiros e aliados das transformações, buscando-se os meios e formas de
recriar, manifestar e expressar a nova/velha imagem do homem idoso – sem estereótipos.

Mas, também é precioso que estejamos ao lado deles, os apoiemos e os


estimulemos na criação e organização de novos canais de informação e de expressão, de
denúncia, no combate aos maus tratos ou formas de violência; na elaboração e divulgação
de seus projetos de vida, na busca de novos aprendizados, na atualização social, cultural e
política, lazer, recreação, entre tantas outras formas, e, logicamente, tudo isto com muito
prazer.

É com essa presença e participação, em todos os níveis, que os idosos estão a nos
mostrar que são belos velhos – trabalhadores –, tanto no passado quanto no presente,
permanecerão sempre trabalhadores e, como tal, compartilham dessa identidade e, assim,
continuarão a contribuir na construção desta nação, no seu desenvolvimento social,
econômico e cultural.

De todo modo, o homem velho – na imagem-texto da letra da música de Caetano


Veloso, está e deve se fazer presente, pois, acima de tudo:

“... ele dói e brilha único indivíduo,


maravilha sem igual
Já tem coragem de saber que
é imortal.”
61

E na cena da idosa diante da imagem do ancião (Imagem 46), frente ao espelho,


pergunta-se:

figura 46

Espelho, Espelho Meu ! ! ! ... Existe alguém no mundo mais bela do que Eu
CRÉDITOS

Fotos (esculturas) – Toninho Caetano


Scanner de imagens – Papel e Tinta Editora
Revisão Ortográfica – José Maria Maia
Diagramação – Márcio Borges e Silva
Lay-out final – Eneida de Almeida Mendonça
Figuras sem número na página 12: Charge da revista Caras e Imagem da reportagem
sobre Clínica Santa Genoveva, Revista Isto É, Junho/1996.
Figuras 01 e 02 – Imagens da História Branca de Neve – Coleção Disney Stars,
Melhoramentos/Disney, 1986.
Figuras 03 e 04 – Imagens da História Branca de Neve e os Sete Anões – Coleção
Livro de Ouro das Mil Histórias Sem Fim – Editora Itatiaia Villa Rica, s/d.
Figura 05 – Imagem da História A Velha e os Gansos – Coleção Livro de Ouro das Mil
Histórias Sem Fim – Editora Itatiaia Villa Rica, s/d.
Figura 06 – Imagem da História A Bela Adormecida – Coleção Berimbau, nº 5, Editora
Brasil-América, s/d.
Figura 07 – Imagem da História Rapunzel – Coleção Histórias maravilhosas, Editora
Itatiaia Limitada, Belo Horizonte, 1987.
Figura 08 – Imagem da História Chapeuzinho Vermelho – Coleção Biblioteca de Ouro
de Contos Clássicos, Editora Itatiaia Villa Rica, s/d.
Figura 09 – Imagem da História A Velha da Floresta – In Histórias Infantis: Contos e
Lendas dos Irmãos Grimm, Coleção Completa, Vol. III. Tradução de Íside M. Bonini.
Ilustrações de Ramirez. Gráfica e Editora "Edigraf" S.A., São Paulo.
Figura 10 – Imagem da História A Velha e os Gansos – Coleção Livro de Ouro das Mil
Histórias Sem Fim – Editora Itatiaia Villa Rica, s/d.
Figuras 11 e 12 – Pintura de Arcimboldo do século XVI.
Figuras 13 à 21 – Fotografias das esculturas existentes no Rio de Janeiro: Praça Paris
– Glória e do Campo de Santana – Centro.
Figuras 22 e 23 – Imagens da Coleção As Memórias da Bruxa Onilda. Editora Scipione,
São Paulo, 1994.
Figuras 24 à 26 – Imagens da História Sítio do Pica-Pau Amarelo, Obra Infanto-Juvenil
Monteiro Lobato – Coleção Monteiro Lobato, Círculo do Livro, s/d.
Figuras 27 à 31 – Imagens da Revista Domingo/Jornal do Brasil.
Figura 32 – Imagem do folheto distribuído em localidades do Rio de Janeiro e outros
Municípios do Estado, pelo Sindicato das Empresas de Transporte Rodoviário do Rio
de Janeiro.
Figura 33  Imagem de charge produzida para este trabalho.
Figura 34  Imagem recolhida em trabalho escolar de aluno de graduação da
Universidade Federal Fluminense.
Figura 35 – Imagem de capa da Revista Cadernos do Terceiro Mundo, 1995.
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Figuras 36 à 41 – Imagens da revista Domingo – Jornal do Brasil.


Figuras 42 e 43 – Fotografia de membros do Projeto de Extensão: UFF – Espaço
Avançado, da Universidade Federal Fluminense.
Figura 44 e 45 – Imagens de reportagens da Revista Terceiro Mundo, 1995.
Figura 46  Imagem de charge do Jornal do Brasil.

BIBLIOGRAFIA

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NUPESS/UFF
Serafim Fortes Paz
sfpaz@uol.com.br