Você está na página 1de 9

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

MARIANA CECÍLIA XAVIER LEITE

PRIMEIRA AVALIAÇÃO

Recife
2019
Qual é o lugar da “América” e de seus povos originários na constituição do Mundo
Moderno?

A nova proposta de historiografia, que surge no século XX, propõe uma mudança na
forma de pensar as relações de dominação, analisando o interior das relações entre
dominantes e dominados. Ângela de Castro Gomes trata essa nova historiografia como uma
visão que recusa a interpretação socioeconômica estrutural e que busca focar nas variáveis
políticas e culturais para compreender as relações sociais entre dominantes e dominados. Ela
defende a ideia do dominado como sujeito ativo, capaz de resistir, e não como “anulado pelos
dominados” como a visão econômica sugere. Além disso, a História na década de 1980 é
repensada a partir da perspectiva global, relacionando os continentes e estudando a interação
entre eles. Surge, também nesse momento, a ideia de cultura atlântica que propõe a conexão
das culturas independente do território.

Assim, se partíssemos da antiga historiografia, a principal consequência da chamada


descoberta da América seria o enriquecimento europeu através de riquezas do Novo Mundo e
com tráfico de escravizados da África. No entanto, com essa virada historiográfica, autores
como Serge Gruzinski, por exemplo, propõe uma história contada pelo ponto de vista da
América, não da Europa, articulada a uma história global. Gruzinski levanta questões voltadas
para o eixo social e cultural, como a imposição do calendário europeu como história
universal, problematizando o fato da América e Europa possuem trajetórias completamente
distintas, e que a ideia de descobrimento- que para alguns autores é considerado um marco da
Modernidade- só faz sentido para os europeus. Essa última ideia pode ser melhor
compreendida nas palavras de Francisco Iglésias:

“A palavra descobrimento, empregada com relação a continentes e países, é um


equívoco e deve ser evitada. Só se descobre uma terra sem habitantes; se ela é
ocupada por homens, não importa em que estágio cultural se encontrem, já existe e
não é descoberta. Apenas se estabelece seu contato com outro povo. A expressão
descobrimento implica em uma ideia imperialista, de encontro de algo não
conhecido; visto por outro que proclama sua existência, incorporando-o ao seu
domínio, passa a ser sua dependente.” (IGLÉSIAS, 1992).
Gruzinski aborda, também, a questão do desconhecimento acerca da vida cotidiana das
populações nativas em decorrência das poucas informações que existem sobre o período, um
importante fato a ser levantado.

Stuart Schwartz e James Lockhart contribuem, também, para a compreensão do lugar


da “América” na Modernidade ao abordar as trocas culturais que ocorreram principalmente no
campo do Novo Mundo no período maduro. Esse período é caracterizado pelo equilíbrio dos
sistemas vigentes, como por exemplo, a criação de leis, decretos e ordens específicas da
Espanha para os funcionários das Índias Ocidentais. Esse cenário era caótico, visto que
figuras locais como vice-reis, governadores e administradores também criavam leis- em prol
do benefício próprio-, que muitas vezes eram conflituosas entre si. Dessa forma, “com uma
coleção de leis suficientemente grande, podia-se encontrar precedente e justificativa para
praticamente qualquer interpretação possível ou tinha de ação” (SCHWARTZ; LOCKHART,
2010, p. 161). Outro ponto levantado pelos autores é a mistura de raças que perturba a
pirâmide original onde os três grupos estavam completamente separados entre si. Schwartz e
Lockhart afirmam que nessa pirâmide original, os espanhóis e os negros (que agiam de forma
mais parecida com os espanhóis do que os indígenas) compunham o mundo espanhol, quanto
os indígenas compunham o mundo indígena. Logo, quando ocorre a mistura desses grupos,
surgem as classificações de mameluco e mulato, sendo acompanhadas das mudanças
culturais. No entanto, vale ressaltar que, na época, a questão étnica não era considerada tão
importante na sociedade como a questão de linhagens por exemplo. Havia, na verdade, a ideia
de “defeito de cor” que seria quando uma figura importante, que tinha traços negros ou
indígenas, tem sua cor de pele negada, “corrigida”, em função da sua posição social.

Essa mudança social teve impacto na economia devido ao aumento da disponibilidade


de indivíduos ligados a cultura hispânica para ocupar posições intermediárias, acarretando no
desenvolvimento local. É também nesse período que a encomienda, sistema que se utilizava
da mão-de-obra indígena através das cidades-estado, perde sua força, obrigando aos
empreendedores espanhóis a buscar uma mão-de-obra permanente. Surgem, então, as
haciendas, que implicam na mudança da lógica de propriedade com base em direitos de
tributos de mãos-de-obra (encomienda) para a propriedade baseada na posse de terra. No
século XVII, a hacienda passa a ser considerada uma grande propriedade de terra que vende
produtos para o mercado local. Vale ressaltar, ainda, que os indígenas passaram a compor o
mercado também, e que os espanhóis passaram a consumir itens tradicionais da América
como cacau, coca e milho.
Nesse contexto, nota-se que a ideia de capitalismo no Novo Mundo pode ser
contraditória, visto que o poder está muito mais ligado a condição social de linhagem do que a
economia. Um indivíduo, mesmo que rico nesse período, não poderia ocupar um cargo
político de importância caso não fosse considerado nobre. Se tratando, claramente, da forte
influência da cultura hispânica sobre o Novo Mundo, integrando-o aos seus costumes.

Essa influência pode ser vista também na crônica escrita por Phelipe Guaman Poma de
Ayala, que escreve para o rei de Espanha sob o título de Don, demonstrando a possibilidade
de obtenção de um título de nobreza pelos nativos- mesmo que esse título não tivesse o
mesmo reconhecimento em Espanha. Don Phelipe defende, por sua vez, a ideia de que já
havia uma nobreza existente na terra antes da chegada dos europeus, impossibilitando a ideia
de conquista. Nessa lógica, o que ocorreu foi um pacto entre os nativos e os europeus, uma
partilha da jurisdição. Guamam Poma de Ayala afirma a existência do Reino das Índias, que
apesar de estar abaixo do Império Castelano, teria sua própria autonomia. Impossibilitando,
assim, o rei de Espanha de mandar na América.

A ideia proposta por Don Phelipe de que houve um pacto onde os nativos contribuíram
para a ocupação do território pelos europeus contribui para a visão da nova historiografia que
defende os dominados como agentes ativos. Sem deslegitimar, no entanto, a violência e o
genocídio cometido pelos europeus aos povos nativos da América. É perfeitamente possível a
coexistência de ambas as versões: houveram grupos que auxiliaram os espanhóis a explorar o
Novo Mundo, e houveram grupos que foram dizimados pelos mesmos. Francisco Iglésias
descreve esse momento como um momento de formação de alianças entre europeus e grupos
nativos que se encontravam em guerra com outros grupos.

É possível falar, ainda, da extensão do Antigo Regime para os trópicos, visto que
houve a imposição/adesão da taxonomia europeia no novo território. Isso se dá através da
eficácia da colonização espanhola a partir do consumo e da adesão de costumes por parte dos
nativos, tornando-se, então, participantes desse sistema. A criação de leis mencionadas
anteriormente juntamente com o sistema administrativo demonstra bem isso.

Para compreender o sistema administrativo proposto por Espanha para o Novo Mundo,
por sua vez, é preciso entender como se dá a monarquia desse período. Embora se fale sobre
concentração absoluta de poder, ela não existe, visto que haviam guinchos de certa forma
autônomos. Um exemplo de guincho autônomo seriam os próprios oficiais mandados para o
mundo ultramarino que deveriam seguir um dado regimento, mas que por muitas vezes
acabavam agindo de forma autônoma. No entanto, apesar dessa autonomia, a coroa ainda
buscava controlar e minimizar os desvios dentro desse sistema de autoridade compartilhada.
Vale ressaltar, ainda, que dentro desse período a literatura romana estava em alta, sendo
responsável por influenciar fortemente nesse modelo de administração da colônia.

O sistema administrativo era um sistema de governadorias, inicialmente, sendo o


cargo de governador primeiro ocupado por aqueles que participaram da chamada conquista da
terra. Dentro desse modelo havia a distribuição de deveres que se dava através de diferentes
cargos como cargos administrativos, cargos jurídicos, cargos financeiros e religiosos. Esses
cargos poderiam sobrepor-se devido a ausência de uma delimitação clara das funções,
podendo também, uma mesma pessoa combinar mais de um cargo. Esse sistema, no entanto,
foi substituído, gradativamente pelos vice-reinados que foi considerada a unidade
administrativa mais importante no Novo Mundo. Nesse modelo instituído pelas Novas Leis de
1942, o vice-rei representa o rei, sendo o alter ego do mesmo, ele é responsável também por
assumir atividades que em Espanha seriam desempenhadas por diversas pessoas. Os
principais vice-reinos do Novo Mundo foram Nova Espanha, Peru, Nova Granada e Rio de La
Plata (ELLIOT, 1997).

Dentro da questão administrativa, existe também o papel da Igreja no Novo Mundo, a


Igreja esteve presente na América através da construção de bispados, sendo, ainda, mais
próxima da população hispânica local do que instituições governamentais (SCHWARTZ;
LOCKHART, 2010, p. 189). Em 1536, quatorze bispados já haviam sido delimitados dentro
da América hispânica, havendo, também a presença de tribunais da inquisição e a construção
de um clero local. Para além da divisão do mundo, essa instituição desempenhou um papel de
suma importância na divisão territorial entre Portugal e Espanha através da bula Inter Caetera
de Alexandre VI. Essa Bula foi uma divisão inicial proposta por Alexandre VI, que conferia a
Castela e Leão o território recém-descoberto, mas não foi renegociada posteriormente dando
origem ao Tratado de Tordesilhas.

Foi também a Igreja que fundou universidades no Novo Mundo ainda no século XVI,
sendo voltadas, inicialmente, para os filhos dos espanhóis locais e tendo como principais
cursos Teologia, Lei e Medicina.

Outro grupo que foi de grande importância para a construção da América foram os
africanos. Além de contribuir para a economia daquele momento, mesmo que de forma
forçada, os africanos também desempenharam um papel importante na formação da cultura
americana.

Sua contribuição econômica foi principalmente pautada na mão-de-obra escravizada,


chegando a ser a única força de trabalho em áreas pouco habitadas e servindo de diversas
formas nas partes habitadas. Segundo John Thorton, os escravizados constituíram a força de
trabalho permanente antes exercido pelos nativos americanos e que foram limitados pela
legislação. Inicialmente, esses escravos eram nativos americanos obtidos através de grupos de
escravos das sociedades conquistas, capturados em emboscadas ou vendidos no comércio
espanhol. Mas, diante das circunstâncias adversas (proibição da Igreja e resistência por parte
dos indígenas) e da vantagem da coroa hispânica no tráfico de escravizados, essa atividade se
tornou comum. Com o tempo, foram tomadas medidas para a substituição da mão de obra
nativa pela africana, que favorecia a coroa não apenas com lucros- mesmo que baixos- e com
o contato com a África, que era considerado um centro comercial. Para a coroa, era muito
mais fácil taxar o comércio que vinha do exterior do que o comércio local, favorecendo a essa
prática.

Thorton interpreta, ainda, que os escravizados africanos serviram como apoio ou como
intermédio entre os europeus e nativos, auxiliando na exploração e na conquista da terra.
Além disso, os africanos recebiam o mesmo tratamento judicial que os europeus, recebendo
influencia da cultura europeia, quanto os povos indígenas estavam sujeitos a jurisdição das
ordens religiosas.

Dessa forma, podemos situar a América no período Moderno como um território


integrado ao resto do mundo a partir das trocas culturais e comerciais entre os continentes.
Embora a vontade do Velho Mundo prevalecesse, isso não implica na ausência de
beneficiamento ou resistência de uma parcela da população nativa, colocando essa população
como ativa e capaz de reagir. O genocídio praticado contra os povos indígenas e o
desaparecimento gradual diversas culturas reflete essa sobreposição, estando presente até
mesmo no nome do continente- América. O processo de chegada dos europeus significou uma
imensa mudança cultural e social para os nativos e para o restante do mundo, impossibilitando
que tratemos a importância da América na Modernidade exclusivamente como econômica,
visto que o continente também foi um polo de resistência social e cultural. Mais tarde, os
frutos desse período vão refletir na construção de nações que vão se apropriar e se afirmar
com base nessa cultura:
Miguel Rojas Mix afirma que “se durante a colônia o americano admitia ser
chamado de ‘criollo’, ‘indiano’ ou ‘espanhol das Índias’, em começos do século
XIX, associado aos processos de independência, o problema da identidade se
apresenta sob uma nova perspectiva”, com o processo emancipatório terminando
“por impor o nome de ‘americano’”. Claro está que a auto-afirmação de
“americano” corresponde a uma necessidade de se diferenciar do inimigo europeu e
que a eficiência desse qualificativo, no processo de lutas de independência, foi
considerável. Entretanto, talvez mais importante do que isso seria o fato de que,
tanto a criação, quanto a divulgação desse conceito representavam a necessidade de
se implantar uma identidade continental nas ex-colônias, pois assim se estabeleceria
a criação de uma grande força responsável pela defesa contra possíveis ataques das
antigas metrópoles européias. Certamente essas ações eram praticadas quase que
exclusivamente pelos grupos situados no topo da pirâmide social da região recém-
liberta, mas isso não diminui sua importância no processo de consolidação de uma
futura identidade latino-americana, uma vez que esta também foi “construída” de
cima para baixo, conforme veremos mais adiante. (FARRET, R.; PINTO, S., 2011,
pag. 33)

Francisco Iglésias interpreta esse encontro como um encontro não apenas de duas
culturas, mas como de diversas, pois afirma que não havia uma única cultura espanhola e tão
pouco americana. Ele defende, ainda, que o principal objetivo dos europeus na América era a
busca por riquezas. Busca essa que vai dar origem ao sistema mercantilista, que por sua vez
vai possibilitar a industrialização europeia.

“A América entra na história com a chamada Idade Moderna. O Novo


Mundo começa na fase inaugural de novo tempo. Acontece, porém, que a América
portuguesa e espanhola- a chamada América Latina- foi em seu primeiro momento -
o século XVI- saqueada cruelmente e vê suas várias civilizações atingidas e até
destruídas, como se deu, sobretudo, com as de mais desenvolvimento. Se o
imperialismo na fase do capital mercantil e mesmo nas subsequentes é sempre
devastador, não tem respeito por nenhum povo, pois só se vê o interesse imediato, o
lucro, tem-se aí a explicação do processo selvagem de destruição direta ou indireta
das culturas americanas, com a agravante do morticídio de milhões, no mais
significativo de todos os genocídios. Espoliada no período colonial, continuaria a ser
mesmo após o surgimento das nações livres, a contar da segunda década do
oitocentos.” (IGLÉSIAS, 1992).
Assim, a América se insere no Mundo Moderno através das trocas culturais e
comerciais entre os continentes. Trocas essas que, embora tenham tido um maior impacto no
território recém-descoberto, também foram de suma importância para os demais continentes.
A descoberta de alimentos como a batata, por exemplo, teve um grande impacto na Europa,
contribuindo para combater a fome. Além disso, os mercadores da prata, figuras ligadas a
indústria de extração da prata, auxiliaram no financiamento da indústria.
BIBLIOGRAFIA

ELLIOTT, J. H. A Espanha e a América nos Séculos XVI e XVII. In. Bethell, L., (org.).
História da América Latina: América Latina Colonial. Vol. 1. São Paulo: EDUSP, Brasilia:
Fundação Alexandre Gusmão, 1997.

FARRET, R.; PINTO, S.. América Latina: da construção do nome à consolidação da ideia.
Topoi, v. 12, n. 23. jul./dez. 2011, p. 30-42.

FERNANDES, Juan Marchena. Los motivos de Don Phelipe: Revisitando La Nueva


Corónica de Guaman Pomam. In. Cuadernos de Investigación Universitaria Nº 01. Historia,
Cultura y Sociedade, 2012.

GOMES, Ângela de Castro. História, historiografia e cultura política no Brasil: algumas

reflexões. In: Rachel Soihet (e outros). Culturas políticas. Ensaios de história cultural,

história política e ensino de História. Rio de Janeiro: FAPERJ/Mauad,

GRUZINSKI, Serge. 1480-1520. A Passagem do Século. São Paulo: Companhia das Letras,
1999.

IGLÉSIAS, Francisco. Encontro de duas culturas: América e Europa. Scielo, v.6 n.14. São


Paulo Jan./Apr. 1992.

O’GORMAN, E. A Invenção da América. São Paulo: Edunesp, 1992.

SCHWARTZ, S., LOCKHART, J. A América Latina na época colonial. 2ª edição. Rio de


Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.

THORTON, John. A África e os Africanos na Formação do Mundo Atlântico (1400-


1800). Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.

Você também pode gostar