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Pensamento Político

Material Teórico
Política e Ética: O Caminho Aristotélico

Responsável pelo Conteúdo:


Prof. Dr. Américo Soares da Silva

Revisão Textual:
Profa. Esp.Vera Lídia de Sá Cicarone
Política e Ética: O Caminho Aristotélico

• Política e Ética: O Caminho Aristotélico.

• Política e Ética, O Caminho Maquiaveliano.

Nesta unidade, o tema abordado será o surgimento do realismo


na teoria política.
É um tema muito importante, pois permite contextualizar o
aparecimento de uma importante abordagem no pensamento
político. Embora ainda nos deparemos com aspectos filosóficos
gregos, nesta unidade iniciamos as discussões que conduzem a
política para uma dinâmica própria que se afasta, um pouco, do
aspecto normativo da política encontrado entre os gregos.

Em relação ao conteúdo da unidade: abordaremos, nesta unidade, o surgimento do realismo


na teoria política. Começamos, ainda, com as concepções da antiga Grécia sobre a política,
tendo por base o trabalho de Aristóteles. Como você poderá observar, o mestre de Estagira
tinha uma concepção política um pouco mais prática do que a concepção platônica. No
entanto ainda mantinha seu caráter normativo (dizer como a política deveria ser) durante a
análise, segundo seu entendimento, dos principais tipos de governo.
Outro personagem estudado nesta unidade é Maquiavel. Com ele, a ciência política ganhou
um reforço importante naquilo que se refere tanto à objetividade quanto ao realismo. Para o
pensador florentino, é mais importante lidar com a política tal como ela é, e não como ela deveria
ser. O governante, ser for habilidoso, extrairá os melhores resultados de suas ações conforme as
circunstâncias que se apresentam. Daí a importância de estar pronto para a adversidade.
Em relação às estratégias de aprendizagem: nossa recomendação a você, estudante, é dividir
seus estudos em etapas: primeiro, faça uma leitura atenta do texto. Nesse momento não é
tão importante fazer marcações; busque uma compreensão de conjunto. Em um segundo
momento, retorne ao texto, mas, desta vez, você já conhece o final da história, não é
mesmo? Então, ao retornar, você o fará com um olhar de investigador(a); busque pelos
pontos principais: quem são os personagens mais relevantes dessa “história”? Que ideias
cada um deles defendia? Por quê? Outras questões são colocadas ao longo do texto para
sua reflexão? Quais são elas?

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Unidade: Política e Ética: O Caminho Aristotélico

Contextualização

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Política e ética: o caminho aristotélico.

Nesta parte dos nossos estudos vamos abordar o pensador nascido em Estagira, 384 a.C.,
filho de um médico da corte do rei da Macedônia. Muito provavelmente o seu interesse pelo
funcionamento da natureza deve-se à influência paterna. Aos dezoito anos, o jovem estagirita
foi enviado a Atenas, onde ingressou na academia de outro sábio renomado da época, Platão.
Se você estiver pensando “quem é o jovem estagirita”? e a resposta for “Aristóteles”,
você está certo(a)!
Foi com os ensinamentos de Platão que Aristóteles trilhou o caminho da filosofia. O
então jovem oriundo da Macedônia foi a Atenas e permaneceu discípulo da academia até
a maturidade – cerca de vinte anos de estudos. Ao longo desse amadurecimento intelectual,
Aristóteles empreendeu seu próprio caminho na busca pela Verdade, inclusive chegando a
discordar diretamente de seu mestre.
Apesar dos traços teóricos particulares, o pensamento aristotélico não escapa de uma
formulação que pode ser reencontrada em diversos momentos do pensamento grego antigo, a
saber, uma estreita relação entre Ética e Política.
Aristóteles escreveu, ao longo da vida, estudos sobre os mais variados assuntos - de botânica
a metafísica, mas o nosso interesse principal está naquilo que ele indicou como sendo a “ciência
da felicidade”. Essa ciência, na verdade, articulava aquilo que correspondia, de um lado, a
um estudo do caráter, dos costumes (ethos) e, de outro lado, ao estudo das leis e da maneira
como eram distribuídos benefícios e responsabilidades nas cidades-estados. Para este último,
reservou-se o termo Política.
Enquanto a ética guardava, no bojo das suas discussões, a preocupação com o que era a felicidade,
cabia à política discutir – como ciência prática que era, – os meios para obter essa felicidade.
Antes de entrarmos na visão aristotélica sobre a Política, iremos contextualizar, inclusive para
melhor compreender, alguns aspectos do entendimento de Aristóteles sobre a ética, visto que
existem alguns traços característicos presentes em ambos, sendo possível perceber, na teoria
política, um eco daquilo que foi discutido na teoria ética.
Se estivéssemos à procura de uma palavra que pudesse descrever o pensamento ético de
Aristóteles, essa seria: equilíbrio.
Outro termo associado ao equilíbrio é Razão. Segundo o pensador, a racionalidade é a chave
para encontrar o ponto de equilíbrio nas atitudes dos indivíduos e, com ele, obter os melhores
resultados para as ações, abrindo, dessa forma, o caminho para a felicidade.
A associação da ideia de justiça com aquilo que é o correto e a noção de que a justiça é
obtida racionalmente certamente tem algo do mestre Platão, porém a abordagem de Aristóteles
parece mais fortemente ligada ao mundo prático. Foi o filósofo de Estagira que defendeu, como
princípio de aplicação da justiça, tratar os iguais de maneira igual e os diferentes de
maneira diferente. A isso correspondia a ideia de que um benefício ou uma sanção não podiam
ser aplicados, em igual medida, a casos diferentes (uma interpretação modernizada diria que o
Estado deve cobrar tributos proporcionalmente diferentes conforme a riqueza de seus cidadãos).

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Unidade: Política e Ética: O Caminho Aristotélico

E também casos iguais não poderiam ser tratados de maneira desigual, quebrando a isonomia
entre eles (esse princípio é aproveitado nas modernas discussões de combate aos mais variados
tipos de preconceito que possam vir a interferir nas oportunidades de acesso de um determinado
segmento da sociedade).
Essa busca da “proporção correta”, da “medida certa das ações” levou o pensamento
aristotélico a formular uma “teoria do justo meio”.
Se a Ética está às voltas com a discussão sobre o que é a felicidade, não parece razoável, que
ela dê sinais de qual conduta deve ser adotada como parâmetro para começar essa procura da
felicidade? A resposta aristotélica é que a felicidade poderia ser encontrada através de uma vida
de ações guiadas pela razão. Mas, esta é uma pergunta pertinente:
“Como saber se as ações escolhidas são as mais apropriadas”? “Ou mais diretamente,
como saber se tais ações são as mais racionais”? Afinal, o que parece sensato aos olhos
de um pode muito bem parecer absurdo aos olhos de outro. O critério do pensador de
Estagira não era apenas ficar repetindo que a ação racional é a melhor; de modo prático,
ele indicava que a ação correspondente a um meio termo entre extremos possíveis tende
a ser a mais racional, a mais apropriada.
Dessa forma, Aristóteles, com base em suas observações e sua reflexão sobre o tema, chegou
à conclusão de que há uma medida (ou dosagem) apropriada da ação para cada circunstância.
O excesso ou a ausência na atitude que deveria ser tomada sempre conduziriam aos piores
resultados, enquanto a ação equilibrada seria aquela que melhor refletiria a busca pela felicidade.
Para entendermos melhor, tomemos aqui, para ilustrar, um exemplo da própria história
grega. Vamos analisar – mesmo que sem a pretensão de fazer um profundo juízo do ponto
de vista da história geral ou da história militar – o episódio que ficou conhecido como a
batalha de Termópolis.

Explore

Pesquise a batalha de Termópolis e as guerras do Peloponeso. Para isso acesse: <http://www.


mkmouse.com.br/livros/ABatalhadasTermopilas-MiltonGenesiodeBrito.pdf>. Você também pode
consultar diferentes manuais de História Geral.

Descrevendo o episódio de maneira resumida, num período em que o império persa


cobiçava conquistar as cidades-estados gregas, o rei Xerxes optou por uma estratégia ousada:
desembarcaria um vasto exército nas praias da Grécia, porém em uma localidade afastada da
vigilância dos soldados gregos. Viria por terra, através de uma área de geografia acidentada,
e atacaria as cidades de surpresa. O plano do rei persa poderia ter tido sucesso, não fosse
a presença do rei espartano Leônidas, que havia sido intimado a se render e dar passagem
aos persas, mas, em resposta, optou por resistir. Acompanhado dos seus soldados leais e do
contingente de algumas cidades aliadas, mesmo em número muito menor, tentou parar o avanço
persa, que, neste caso, contava com uma enorme vantagem numérica.

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Esse episódio pode ser lido como um exemplo daquilo que Aristóteles considerava como
meio termo em sua ética.
Pensemos juntos, leitor(a): quais eram as opções do rei Leônidas?
Atacar o inimigo em número muitíssimo maior? Seria morte Glossário
certa e, neste caso, após chacinar Leônidas e seus soldados, o rei Temerário – Arriscado,
persa teria o caminho para a conquista da Grécia aberto. Essa imprudente, perigoso.
atitude extremada (excesso) poderia ser chamada de temerária.
Outra opção disponível ao rei seria recuar, mas conseguiriam fugir a tempo de avisar as
outras cidades sobre o ataque? Não seria tarde demais se o aviso chegasse com o inimigo em
seu encalço? O recuo motivado pelo medo e pelo desespero nada mais seria do que covardia, o
extremo oposto da decisão anterior. Se, antes, haveria um excesso de voluntarismo (temeridade),
optar por fugir ou se render – naquele contexto – seria o mesmo que evitar tomar qualquer tipo
de providência, ou seja, caracterizaria ausência de atitude.
Então, qual seria a solução? Ao que parece, a decisão do rei espartano ficou bem próxima
daquilo que seria o meio termo entre o excesso, que seria uma temeridade, e a ausência, que
revelaria uma covardia; o meio termo, a ação virtuosa guiada pela razão, a saber, seria a coragem.
Se fugir ou atacar levaria à captura ou à morte, o que dizer, então, de “resistir”? Esta foi a
solução encontrada pelo rei espartano: para evitar uma catástrofe, ele e seus soldados obstruíram
o avanço persa, dando tempo suficiente para que as demais cidades gregas se preparassem para
se defender. O fato é que esse atraso do ataque persa cumpriu sua finalidade. O ponto que
é relevante nesta pequena digressão é que a coragem (virtude) é um ponto que fica entre o
extremo da temeridade (vício por excesso) e o outro extremo da covardia (vício por ausência).
O mesmo raciocínio podemos ter para quaisquer outras virtudes. Por exemplo, o generoso
está entre o avarento (ausência) e o esbanjador (excesso). Não é à toa que Aristóteles elegeu a
prudência como a virtude mais importante.
Foi com esse espírito, ao mesmo tempo prudente e racional, sempre buscando a “proporção
certa”, que o filósofo de Estagira se debruçou sobre a questão da Política.
Foi devido a esse enfoque filosófico que Aristóteles optou por fazer um longo estudo
das diferentes formas de governo da sua época, suas leis e costumes, da maneira como
cada cidade lidava com a questão do poder. Diferentemente de seu mestre, ele não nos
apresentou uma grande Utopia. A opção do estagirita era, simplesmente, apontar possíveis
virtudes e vícios presentes nas diferentes formas de governar das várias cidades-estados. É
muito difícil acusar Aristóteles de, na sua análise, não ter sido minucioso, cauteloso e - por
que não dizê-lo, leitor(a)? - prudente.
Aristóteles iniciou sua obra sobre política discorrendo sobre o que é a cidade:

Vemos que toda cidade é uma espécie de comunidade, e toda comunidade se forma
com vistas a algum bem pois, todas as ações de todos os homens são praticadas com
vistas ao que lhes parece um bem. Se todas as comunidades visam a algum bem, é
evidente que a mais importante de todas elas e que inclui todas as outras tem mais
que todas este objetivo e visa ao mais importante de todos os bens; ela se chama
cidade e é a comunidade política. (Aristóteles, 1985, p. 19 – 1252a).

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Unidade: Política e Ética: O Caminho Aristotélico

Logo, era na condição de uma “comunidade de cidadãos” que a cidade se apresentava


ao pensamento aristotélico. Para compreender melhor tal comunidade, a análise do filósofo
começava por tentar compreender o que vinha a ser a própria cidadania.
O cidadão apresentaria duas características básicas:
1. o poder de administrar a justiça;
2. o exercício das funções públicas.

Aqui Aristóteles estava se referindo ao modelo de governo de muitos (democrático). Por isso
mesmo, ele fazia questão de frisar que, sob outras formas de governo, a cidadania poderia ser
entendida de modo diverso.
Mesmo sob outras formas de governo, a preocupação tendia a ser a mesma, ou seja, a
segurança da cidade, a manutenção da paz (a felicidade).
Contudo, para isso, era importante o desenvolvimento da “arte de governar”. O prudente
Aristóteles entendia que somente um homem que foi soldado de infantaria acumularia a
experiência necessária – somada, é claro, ao discernimento – para comandar uma tropa. Ele
chegou mesmo a dizer: “Fala muito bem, portanto, quem diz que é impossível comandar bem
sem ter sido comandado.” (Aristóteles, 1985, p. 91 - 1277b).
A ideia de que somente os preparados podiam governar conduz a outra reflexão: existiriam
aqueles que, não estando “prontos” para a função de governo, não deveriam participar
dela diretamente?
Aristóteles respondeu afirmativamente a essa questão. Os artífices ou os comerciantes não
eram considerados aptos, pelas leis de muitas cidades, a tomarem parte no governo, mesmo
sendo estes pertencentes a uma classe indispensável para a manutenção da cidade. Mesmo os
filhos de cidadãos poderiam não ser considerados como tais até atingirem a idade necessária.
Para Aristóteles, a cidadania estava ligada a um exercício prático de funções de mando, de
poder. Essas condições práticas iriam absorver bastante do pensamento do mestre de Estagira.
Mais uma vez peço ao leitor um pouco mais de atenção para falarmos da tipologia de governo
de Aristóteles. O velho mestre fazia uma advertência que, aos ouvidos modernos, causa um
misto de curiosidade e perplexidade, tendo em vista que uma série de problemas presentes no
mundo contemporâneo ocupou a cabeça do filósofo. Lembre-se, leitor(a), de que estamos nos
referindo a um texto datado de séculos anteriores ao início da era cristã.
Nas palavras do próprio Aristóteles:

[...] hoje, porém, as pessoas querem ocupar permanentemente os cargos, por


causa das vantagens que podem obter com as rendas públicas e com o exercício
das funções, como se a permanência no poder desse saúde aos funcionários antes
doentes crônicos (Aristóteles, 1985, p. 96 – 1279a).

Como podemos observar, leitor(a), a ganância e a sede de poder não constituem,


exatamente, um problema apenas da nossa época. Esse é um fato presente ao longo da
história. No caso aristotélico, o filósofo chegou mesmo a fazer admoestações para que os
funcionários do governo fossem fiscalizados para não enriquecerem de maneira inapropriada.

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Daí, certo traço aristocrático manifestado por parte do mestre estagirita ao não ver com
entusiasmo a participação de todas as classes sociais na política. Poderia ser um receio
antidemocrático herdado do mestre Platão pela condenação de Sócrates? O que você
pensa, leitor(a)?

O filósofo lembrava que um artífice, mesmo não sendo “aceito cidadão” pelo regime de
determinada cidade, não sofreria impedimento de receber cidadania pelo regime de outra
cidade; tudo dependeria do que ditavam as leis do lugar.

Com todos esses elementos somados, temos o suficiente para examinar as diferentes
classificações aristotélicas sobre as formas de governo e para entender como umas podiam ser
entendidas como virtuosas e outras degradadas.

Naquilo que diz respeito ao próprio governo, Aristóteles encarava-o como “o poder supremo
em uma cidade”. A partir disso, passava a avaliar a questão da distribuição do poder em maior
ou menor grau.

Segundo o filósofo, o governo de uma única pessoa equivale à monarquia. Mesmo sendo o
governo de um só indivíduo, este visa ao bem comum. Quando esse bem comum é buscado
por um governo de mais de um indivíduo, mesmo assim de poucas pessoas, então estamos –
segundo ele – diante de uma aristocracia.

Por último, no que diz respeito às formas virtuosas de governo, temos uma situação em
que o poder aparece ainda mais pulverizado do que na aristocracia. Trata-se do governo
de muitos, no qual as decisões estão a cargo de um grande contingente de pessoas. A esse
Aristóteles reservou o nome de “governo constitucional” (veja, leitor(a), Livro III, capítulo
V, 1279b em A Política).

A maneira como o filósofo estagirita separava o governo virtuoso do corrompido pode ser
reduzida a uma fórmula bastante simples: a busca, ou não, do Bem comum.

Aristóteles usava termos diferentes para descrever uma forma de governo que possuía a
virtude de tentar atingir o Bem comum e outra que não a possuísse, embora, no sentido da
pulverização do poder, fossem tipos equivalentes.

Peguemos, como exemplo, a monarquia (forma virtuosa). E se o monarca deixasse de lado


os interesses coletivos e passasse a buscar apenas seus próprios interesses? Apesar de ainda ser
o governo de um só, agora esse governo seria classificado como uma tirania. Essa seria a forma
corrompida da monarquia.

O mesmo binômio (virtude-corrupção) é aplicado às demais formas: o governo de poucos que


se preocupa apenas com o bem-estar de poucos não é uma aristocracia, e sim uma oligarquia.
Por fim, o caso mais curioso: Aristóteles considerava o governo de muitos que já não mais se
preocupam com o Bem comum como sendo uma democracia! Pois é, leitor(a), para o pensador
de Estagira, a democracia figurava entre as formas corrompidas de governo.

Certamente isso merece uma pequena reflexão; afinal o mundo contemporâneo veio a
consagrar a democracia como uma forma virtuosa de governo. No senso comum de diferentes
povos (pensamos, aqui, nas nações ocidentais), não se percebe um problema com a ideia de
democracia, mas, muitas vezes, aparecem queixas dos desvios que ocorrem no interior da mesma.

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Unidade: Política e Ética: O Caminho Aristotélico

Se examinarmos a questão com um pouco mais de cuidado, perceberemos que Aristóteles não
estava excluindo por completo a forma da democracia (governo de muitos), porém estava
preocupado com o fato de esse “governo de muitos” se voltar apenas para os pobres da cidade.
Assim sendo, leitor(a), não era a divisão do poder que incomodava Aristóteles, mas a maneira
como esse poder era exercido. Tanto mais, que havia uma forma virtuosa de governo de muitos,
que era, justamente, o governo constitucional. O que causa surpresa aos ouvidos contemporâneos
– pelo menos quando isso provém de um sábio grego – é a associação da palavra democracia com
forma corrompida de governo justamente pelo fato de se preocupar com os mais pobres.
Não percamos, leitor(a), o contexto de vista. Aristóteles viveu em uma época não muito
distante do julgamento de Sócrates. Sendo discípulo de Platão, seria muito difícil que – pensando
o aspecto político – não pairasse sobre ele um receio profundo em relação à demagogia. Seria
muito superficial e apressado dizer que o pensamento aristotélico é totalmente incompatível com
a ideia contemporânea de direitos sociais. O ponto é que, em se tratando de outro contexto,
as preocupações do filósofo grego eram outras. Mesmo por que é com a ideia de Bem comum
(o Bem estendido a todos e não a apenas um segmento) que estão associadas as diferentes
formas virtuosas de governo. Abusando, um pouco, dos termos, poderíamos dizer que o filósofo
tinha uma grande preocupação com os resultados (finalidade) do governo e admitia, para tal, a
existência de mais de um caminho (a maneira como o poder era distribuído).
Mas, se havia mais de um caminho para se atingir o objetivo político (o Bem comum da
cidade), o que evitaria que esse caminho fosse distorcido na sua versão corrupta? Como vimos,
não é a distribuição do poder por si só que soluciona a questão; um governo bom pode advir de
um só como de muitos. É importante assinalar que este foi um dos aspectos que levou Aristóteles
a discordar da solução da Utopia de seu mestre Platão, o qual insistia em que a distribuição do
poder deveria privilegiar os mais sábios.
A chave, para Aristóteles, estaria na philia (amizade). O verdadeiro motivo para se fundar uma
cidade não seria apenas a autoproteção e a possibilidade de fazer comércio – é claro que essas
questões estariam presentes –, mas a verdadeira motivação para o convívio seria a amizade. Mais
uma vez abusando um pouco dos termos, quando Aristóteles descreveu essa amizade ele o fez
em termos de famílias cujos membros se casam, clãs que se unem para obter uma vida melhor,
ou seja, em termos mais contemporâneos, poderíamos falar em laços de solidariedade. Esses
vínculos do tipo comunitário é que realmente abririam caminho para um governo virtuoso. Mais
importante do que saber se há um ou muitos governantes e como o poder político é pulverizado
é saber se aquele ou aqueles que estão à frente do governo são “amigos” da cidade - no sentido
de solidários -, se se preocupam com o bem estar de todos. Esse seria o elemento que não deveria
faltar a um governo caso este tentasse assumir uma forma mais virtuosa.
Finalmente, podemos perceber, leitor(a), que o pensamento político grego estava carregado do
dever ser. Por isso, pode-se afirmar que a política grega era normativa, ou seja, tratava da
questão política da maneira como as coisas deveriam ser, portanto rejeitava a realidade para tentar
adequá-la a um modelo ideal. Assim sendo, a ciência política grega apontava como deveria ser o
governo ou o governante; no caso aristotélico, isso tinha como fonte a racionalidade e a busca pela
justiça, a qual só seria possível através do equilíbrio. O equilíbrio na cidade seria encontrado quando
as forças que a governavam buscassem o seu bem estar e não benefícios ou vantagens egoístas.
Esse equilíbrio seria alcançado quando se atribuísse a cada um aquilo que lhe fosse devido, o que
nos leva ao domínio da lei, pois muitos maiores são os obstáculos em uma cidade com ausência de
leis. Mesmo que noções como igualdade fossem muito diferentes da percepção atual (a questão da
escravidão e o papel das mulheres, por exemplo), havia essa busca pela felicidade.

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Ideias Chave
Em suma, retomando o que foi dito no início, leitor(a): a ciência política – no entendimento aristotélico
– é uma ciência prática e essa prática está dirigida à busca da felicidade.

Política e ética, o caminho maquiaveliano.

Muito bem, desta vez vamos nos posicionar mais adiante na história.
O salto que fazemos agora, para fins de um melhor aproveitamento deste estudo neste
momento, faz com que deixemos a Grécia de Aristóteles e ultrapassemos o Império Romano e a
Idade Média. São períodos importantes para a história universal, não resta dúvida, todavia, em
termos de elaboração da sabedoria política, foram muito próximos daquela desenvolvida pelos
gregos, com a ressalva de que, no período medieval, foram adicionadas expectativas – do ponto
de vista ético originadas do pensamento cristão – sem, no entanto, deixarem de estar atrelada
à esfera do dever ser.
Assim sendo, esse “salto” na história leva-nos até Florença, na Itália, em um período
particularmente conturbado da península.
No início do século XVI, a família Médici havia sido momentaneamente afastada do poder. Sob
os auspícios de Soderini e de um modelo republicano, um jovem promissor – Nicolau Maquiavel –
ficou responsável pela Segunda Chancelaria Florentina, o que lhe proporcionou a oportunidade
de conhecer os bastidores da política de sua época, ou seja, conhecer a política não apenas através
dos livros, mas também como ela realmente se desenvolvia no mundo real, no qual se observava
a distância existente entre o que se dizia abertamente e o que se decidia a portas fechadas.
É interessante, para compreender o pensador florentino, que façamos uma reflexão não
apenas sobre suas ideias políticas, mas também sobre a maneira como essas ideias foram
tratadas na posteridade.
Em uma de suas obras célebres: o Discorsi – cuja tradução chegou a nós com o título
Comentários sobre a primeira década de Títo Lívio – o pensador de Florença, já na
introdução do livro, declara: “Enfim, se este trabalho não me der glória, também não me servirá
de condenação”. Nicolau Maquiavel não imaginou o quanto – pelo menos nesse aspecto – ele
estava enganado. Muito do que escreveu, pela forma direta e pelo conteúdo ácido, levou seu
nome a ser transformado em adjetivo - “maquiavélico” - sempre para indicar uma ação ou
um indivíduo que, de maneira astuta, ludibria, engana, corrompe, conspira para atingir os
resultados esperados. Esperamos que você, leitor(a), faça seu próprio julgamento, mas que este
ultrapasse a percepção de senso comum. E se, ao final, isso resultar em um juízo condenatório,
que este seja baseado na própria reflexão e não no entendimento vulgar. Para tanto, seguiremos
as pistas de outros estudiosos do tema da política, os quais preferem – justamente para se
distanciar do entendimento mais superficial – usar o termo “maquiaveliano” para descrever o
pensamento político do autor florentino.

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Unidade: Política e Ética: O Caminho Aristotélico

Aqui discorreremos sobre duas de suas obras principais, a saber, o Discorsi e O Príncipe.

Você Sabia ?
Que o termo “Estado”, derivado do latim status, estar firme, foi empregado pela primeira vez
por Maquiavel no livro “O Príncipe” com o significado de permanência no convívio nos termos
de uma sociedade política.

O Discorsi também é chamado de “comentário sobre a primeira década de Títo Lívio”


justamente por ser uma análise dos dez primeiros livros do historiador romano de mesmo nome,
que analisa eventos importantes na história da formação do império romano.
Uma característica importante do pensamento maquiaveliano em relação ao estudo da
história poderia ser resumida na seguinte fórmula: devemos aprender com a história.
É mais do que provável que você, já tenha ouvido algo semelhante, talvez acrescido de um
complemento como: “para não repetirmos os erros do passado”. Entretanto precisamos levar
em consideração não apenas o fato de Maquiavel enunciar isso no começo do séc. XVI, mas,
principalmente, a maneira como ele o faz. Podemos afirmar que a ideia de “aprender com o
passado” foi adotada com uma seriedade muito maior do que o senso comum tende a interpretar
nos dias atuais. O Discursi, mais do que um comentário sobre um relato feito anteriormente da
história romana, é uma reflexão, um tipo de “história comparada” na qual o pensador florentino
exalta as relações entre os acontecimentos antigos e aqueles vividos no período que lhe era
contemporâneo. Não se trata de estabelecer uma relação de causa e efeito, algo do tipo: “como
aconteceu determinado evento A, em consequência aconteceu aquele outro evento B”, mas,
sim, de aprender com o que foi feito. Embora Maquiavel não tenha invadido a especulação
filosófica ao dizer que a história se repete da mesma maneira, ele compreendia que existiram
situações de conflitos, interesses, guerras e outros acontecimentos dos quais se podia obter um
aprendizado, extrair uma sabedoria das antigas soluções utilizadas. Isso não implicaria em adotar a
mesma linha de ação para tudo; as soluções e os erros cometidos no passado deveriam, pelo menos,
ser seriamente considerados pelos governantes do seu tempo (ele tinha, como pano de fundo, a
conturbada situação política da Itália de seu tempo). Ou seja, grandes temas - como “quando
começar uma guerra?” “O que fazer para administrar um território conquistado?” “Como manter
súditos e cidadãos felizes?” - eram temas para os quais, segundo o pensamento maquiaveliano,
os governantes deveriam buscar respostas servindo-se do exemplo de povos anteriores, fosse para
copiar, adaptar ou, simplesmente, evitar as atitudes tomadas. Toda a análise feita a partir dos livros
de Títo Lívio é feita nesse ritmo de comparação. Tudo isso implica em absorver o conhecimento da
História (História política) não apenas como um expectador que vê o desfile dos acontecimentos
e deles não se serve, mas, sim, como um estudioso atento para com eles aprender.
Ainda em relação à História, Maquiavel tece uma especulação sobre a repetição
de determinados acontecimentos históricos que, embora não acreditemos possam ser
considerados, por parte do pensamento maquiaveliano, como uma alusão a leis rígidas de
evolução dos acontecimentos, serve de base não apenas para o entendimento da importância
de o governante se interessar pela história, como também para abrir um canal de ligação
entre o pensamento político anterior e o seu próprio, que ganha uma exposição na forma de
“manual prático”, na obra O Princípe.

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Ainda no capítulo 2 do primeiro livro do Discorsi, Maquiavel confirma a existência de três
formas de governo: Monarquia, Aristocracia e Governo Popular. E dá continuidade a esse raciocínio:
Outros, segundo a opinião geral, mais esclarecidos, acham que há seis formas
de governo, das quais três são essencialmente más; as três outras são em si boas,
mas degeneram tão facilmente que podem também tornar-se perniciosas. Os
bons governos são os que relacionei anteriormente [Monarquia, Aristocracia e
Governo Popular]; os maus, suas derivações. E se parecem tanto aos primeiros,
aos quais correspondem, que podem com facilidade ser confundidos com eles
(Maquiavel, 2008, p.24).

Pois sim, temos uma referência velada às formas de governo aristotélicas. Porém, e essa é
uma marca do pensamento maquiaveliano, é o afastamento de uma especulação filosófica no
sentido do dever ser o que logo percebemos a partir de Maquiavel com o tratamento da política
mais como uma prática, prática essa construída de acordo com as circunstâncias.
Isso é bastante diferente de uma prática para uma “ciência da felicidade”, em que há princípios
prévios a serem buscados (a própria felicidade) e também um “caminho” que nos conduziria ao
o objetivo buscado (no caso de Aristóteles, a philia).
Para Maquiavel, a relação dinâmica entre Monarquia, Tirania, Aristocracia, Oligarquia,
Democracia e um governo “permissivo” não oscilaria em função da maior ou menor amizade
do governante com o povo; na verdade, seriam etapas de um ciclo de possibilidades históricas.
Segundo Maquiavel, essa variedade de governos apareceu espontaneamente. No início,
os seres humanos viveriam separados e dispersos; a população aumentando com o tempo
levaria a formação de grupos, nos quais se destacariam os mais fortes, que logo assumiriam
a liderança. Com o tempo, os costumes de respeitar-se a liderança e condenar quem a ela
desafiasse levariam à formação de leis.
Ao se acostumarem com as leis, o povo passou a aspirar que o governante fosse sábio e
justo. Entretanto os príncipes herdaram suas posições por sucessão (aqui, leitor(a), temos
a Monarquia) e não por algum tipo de mérito. Também com o tempo, em muitos lugares,
diversos príncipes ficaram indolentes e mais preocupados em satisfazer seus próprios
desejos e ostentar sua riqueza do que com aqueles que governavam. Uma liderança inerte
certamente não preenchia as expectativas de seus liderados, consequentemente, tendiam a
surgir bastiões de queixas, que evoluíram para reclamações e para o motim. No esforço de
evitar a possibilidade de revolta, os príncipes indolentes tornaram-se, também, violentos e
repressores. Surgia, assim, a Tirania.
No entanto, tais afrontas não ficariam para sempre impunes, pois, mais cedo ou mais tarde,
bons homens cansados de tantos abusos instigariam o povo a se rebelar e depor o príncipe.
Após a punição aplicada ao último e com vistas a evitar o horror da tirania, o governo seria
confiado aos bons líderes da revolução, os quais ficariam incumbidos de restaurar a ordem e as
leis postas de lado pelo antigo tirano (aqui, surgiria a Aristocracia).
Mas, novamente, o direito de sucessão conduziria ao poder os filhos daqueles que lideraram
a derrubada da Monarquia e, em muitos casos, não tardaria o aparecimento da ambição e
da cobiça e mais uma vez os interesses individuais começariam a perdurar. Novamente a
insatisfação e a tentativa de sufocá-la. A Aristocracia tornar-se-ia Oligarquia.

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Unidade: Política e Ética: O Caminho Aristotélico

Mais uma vez a insatisfação crescente com tantos abusos levaria a se cogitar a derrubada
das lideranças e, para evitar a repetição dos erros que terminaram com uma oligarquia no
poder, estabelecer-se-ia um governo popular, atado às leis e sem figuras proeminentes que se
mantivessem no poder.
Durante um período breve, esse governo popular, essa democracia conduziria a bom termo
as expectativas do povo, todavia, outra vez, a memória dos abusos que levaram àquela forma
de governo se desvaneceria no tempo. Novamente surgiriam a ambição e a corrupção, desta vez
disseminada. Alastrando-se uma postura de cada um por si, o interesse público seria deixado em
segundo plano. O conflito de interesses – que são mais privados do que públicos – imobilizaria
as tomadas de decisão, em meio ao que surgiria a aspiração por um “governo forte”, uma
liderança que superasse a aparente anarquia instaurada no governo popular ou, como se diria
com uma expressão contemporânea, “colocasse ordem na casa”. Ou seja, leitor(a), nasceria o
desejo de abandonar o governo de muitos para atribuir a liderança a um “salvador” ou um “pai
da pátria” que, no fim, apesar de, às vezes, as titulações dadas ao novo líder serem diferentes,
representaria a reedição do despotismo monárquico.
Algumas considerações podem ser feitas sobre as observações de Maquiavel. Para começar,
ele próprio reconhece que é difícil que um Estado vivencie todas as etapas do ciclo, podendo
– principalmente em seus momentos de decadência e desordem – ser conquistado e absorvido
por uma potência vizinha. Por outro lado - e, leitor(a), essa é uma consideração nossa - não
há nenhuma garantia de que as transições para cada forma de governo tenham se realizado
apenas com base em “boas intenções”; cremos que seria mais factível um puro jogo de forças,
segundo o qual uma força que se excedeu e abusou demais de sua posição fosse substituída
por outra que se formou a partir da promessa de não perpetrar os mesmos abusos, apesar de,
muitas vezes, tal promessa ser descumprida.
Por fim, e é este aspecto que nos serve de ponte para a obra O Príncipe, o parâmetro
maquiaveliano para avaliar uma boa forma de governo estava na capacidade de este se perpetuar,
na sua própria estabilidade, em sobrepujar ameaças - e por que não? - em constituir leis duráveis.
É por isso que, ao comparar Esparta e Atenas – ver Discorsi, p. 26 –, ele preferiu a primeira, com
a duradoura legislação de Licurgo, à segunda, com a legislação mais efêmera de Sólon.

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Sugerimos a você, estudante, uma pesquisa breve sobre as figuras de Sólon e Licurgo, legisladores,
respectivamente, de Atenas e de Esparta. Indicamos: Palma, R. F. História do Direito. – 4. ed. – São
Paulo: Saraiva, 2011. Cap. XI.

Para o pensador florentino, é fundamental a efetividade da ação política e não supostos


princípios morais aos quais ela esteja atrelada.
Sim, estamos entrando no terreno pertencente à obra O Príncipe. Não que essa separação
entre moral e política não pudesse ser localizada ao longo do Discorsi. No entanto, foi O Príncipe
a maior fonte da notoriedade de Maquiavel; aliás, foi a partir dessa obra que o pensamento
político maquiaveliano ganhou a pesada fama que carrega até hoje.

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O Príncipe é mais breve em extensão e traz uma linguagem surpreendentemente direta,
podendo-se mesmo dizer, tal qual a de um manual de instruções. Talvez por isso tornou-se mais
acessível e mais difundido. De qualquer maneira, lá encontramos Maquiavel a dar “conselhos”
práticos de como gerir um Estado. Nesse trabalho, ele também é mais econômico no que se
refere à “história comparada”, enfatizando o melhor curso de ação para cada circunstância.
Foram precisamente as recomendações dadas que levaram a obra a ser associada a uma
espécie de “manual para tiranos”, “livro de ditadores” e que ajudaram a construir a ideia do
“maquiavélico”.
Antes de maiores reflexões, vamos compilar algumas das recomendações maquiavelianas a
título de exemplo:

1 – Sobre territórios conquistados: encontramos recomendações que distinguem a melhor


maneira de se manter o controle sobre um principado conquistado. Primeira opção: arruiná-
lo, destruir tudo, aproveitar as terras e as riquezas naturais do lugar e, possivelmente,
colonizá-lo com seus próprios súditos. Segunda opção: habitar pessoalmente nesse lugar
conquistado, ou seja, se, por exemplo, você, leitor(a), conquistasse outra nação, uma
possibilidade para manter a ordem ali seria mudar a sede do reino ou o quartel-general
para o território ocupado, de maneira a poder observar as coisas bem de perto. Terceira
opção: cooptação. Você, leitor(a), na condição acima, poderia governar seu novo território
à distância, mas teria que “promover” alguém do lugar para uma posição de poder de
que, antes, esse não dispunha. Deve-se deixar claro que essa nova posição dependeria de
sua benesse e que por isso mesmo aquele que governasse em seu nome lhe deveria total
lealdade e ficaria ainda encarregado de lhe enviar os tributos devidos a você, soberano(a).

2 – Quanto à conduta do príncipe: Maquiavel esperava que o soberano fosse agraciado por
duas qualidades fundamentais: virtú (virtude) e fortuna (oportunidade, sorte). É claro
que a segunda é algo que independe do indivíduo. A primeira diz respeito à habilidade, à
percepção e à força de vontade para fazer aquilo que fosse necessário para se preservar
no poder. Por exemplo, o momento de fraqueza de um principado rival (sorte) poderia ser
o momento certo para se iniciar um conflito. Aproveitar-se, ao máximo, da oportunidade
que se faz presente é um exemplo de virtú.

Assim encontramos nos dizeres do próprio Maquiavel:

Nas ações de todos os homens, especialmente dos príncipes, contra os quais


não há tribunal a que recorrer, os fins é que contam. Faça, pois, o príncipe tudo
para alcançar e manter o poder; os meios de que se valer serão sempre julgados
honrosos e louvados por todos, porque o vulgo atenta sempre para aquilo que
parece ser e para os resultados. (Maquiavel, n/d, 113).

Sim, é essa a fonte da máxima maquiaveliana: “os fins justificam os meios”.


Muitos outros fragmentos ou frases da obra do pensador florentino poderiam ser apresentados,
no entanto entendemos que temos o suficiente para assimilar o “espírito” do texto.

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Unidade: Política e Ética: O Caminho Aristotélico

Certamente, como já dissemos, aos olhos e ouvidos mais modernos, o texto de Maquiavel
pode apresentar-se como um “manual para reacionários ou tiranos”, mas a boa análise política
não dispensa o entendimento do contexto de sua época. A Itália do começo do século XVI era
uma colcha de retalhos de diferentes principados, repúblicas e até um Estado Papal que lutavam
vigorosamente entre si e, ainda, era acossada por invasões de Estados estrangeiros mais fortes,
como França e Espanha. Sendo assim, que elementos aquele jovem funcionário de chancelaria
tinha à sua disposição para pensar a política?

Quando olhava para o presente, a situação era de permanente beligerância. Inteirado, como
estava, dos bastidores das negociações e disputas das diferentes forças políticas, não tardou
para perceber que, apesar do bom discurso cristão, os mais bem sucedidos em suas ações (ou
seja, aqueles que alcançavam os fins propostos) eram os que se valiam das oportunidades
apresentadas ultrapassando certos limites de moralidade. Fazer uso de espionagem, repressão e
até assassinato político era arma constante em sua época.

Quando olhava para traz, os exemplos daqueles que permaneceram mais tempo no poder
e que lograram maior êxito em preservar aquilo que fora conquistado evidenciaram que essas
conquistas foram produto da combinação de força e astúcia.

Os estudiosos tendem ao consenso de que, para o pensador florentino, a unificação italiana era
uma prioridade, pois somente um Estado Italiano forte faria frente às intervenções estrangeiras
e poria um fim nas disputas internas.

Há, no texto maquiaveliano, uma percepção do chamado “mal menor”. Seria um mal
menor um príncipe utilizar a astúcia e a força e fazer uso de toda e qualquer oportunidade
tendo em vista bater seus rivais e unificar o território. Isso seria preferível à permanência, para
sempre, de um Estado dividido e vulnerável. Esse clima de guerra e de disputa política levou
o pensamento de Maquiavel a assumir características de uma lógica militar: conquistar, manter
o conquistado, extrair oportunidades, evitar motim etc. Por isso, não foge em nada ao tema o
fato de o nosso autor de Florença, na obra O Príncipe, incluir recomendações ao governante
quanto à necessidade de utilizar tropas militares oriundas de seu próprio reino e de evitar, ao
máximo, o uso de tropas mercenárias – contratar soldados da fortuna era uma prática comum
na península italiana.

Todo esse empenho tinha um objetivo certo: a coletividade. Ainda no Discorsi, Maquiavel
defenderia que não se encontra a grandeza dos Estados nos interesses individuais, mas sim no
interesse coletivo (Maquiavel, 2008. p.198).

O que vibra reiteradamente no pensamento de Maquiavel são as chamadas “razões de


Estado”: em nome de um “Bem maior”, certas medidas extremas podem ser implementadas,
ou seja, algo que não se faria normalmente, como a violência chancelada pelo Estado,
passa a ser válido.

É correto, leitor(a), termos muita cautela neste aspecto. Afinal, mesmo já no século XXI, ainda
se faz presente, nas mesas de discussão, a questão de saber o que são essas razões de Estado.

É também muito delicado esse argumento do “Bem maior”, visto que vários governos
ditatoriais, ao longo da história – incluindo a história recente de diferentes países –, utilizaram
esse argumento para oprimir suas populações e tentar justificar atos de violência injustificáveis.

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Toda essa ponderação nos leva a perguntar: Maquiavel foi, afinal, tão “maquiavélico” como
dizem? Não teriam muitos governantes sido “maquiavélicos” antes de Maquiavel? Muitos não
teriam agido da mesma maneira mesmo que Nicolau nada tivesse publicado seu texto?
Particularmente, não compartilhamos da leitura mais otimista que defende que Maquiavel
trouxe ao mundo uma denúncia da maneira perversa como os governantes abusavam dos
governados e que sua publicação, disfarçada de manual, era uma arma de defesa do povo. Todavia
não temos elementos para julgá-lo um defensor de tiranos egocêntricos que se compraziam do
poder pelo poder, isentando-se de se responsabilizar pelo bem de seus governados.
Resta-nos enfatizar que o grande mérito do pensamento maquiaveliano foi introduzir o
realismo em matéria de política, discutir e tomar decisões com base na conjuntura vivida e não
se ater a discussões de como deveria ser essa conjuntura, mesmo que, por trás de seu realismo
e dessa busca por resultados, estivesse o norte de um “Bem maior” com apelos patrióticos.
Um exercício de imaginação para você, leitor(a), é pensarmos como se comportaria Nicolau
Maquiavel fosse hoje parte do corpo da chancelaria da Itália atual? Neste contexto de conquistas
dos direitos humanos, das liberdades civis, da Itália unificada e fazendo parte de um bloco de
integração econômica e política com a Europa atual, quais problemas o preocupariam? Teria ele
posições tão severas como aquelas que surgiram no início do século XVI? Seria possível vê-lo
como um defensor intransigente das instituições e dos direitos constitucionais.

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Unidade: Política e Ética: O Caminho Aristotélico

Material Complementar

ARANHA, M.L. de Arruda, MARTINS, M.H.P. Filosofando: Introdução à Filosofia. – 4ªed.


– São Paulo: Moderna, 2009.

ARISTÓTELES. Política; tradução de Mário da Gama Kury. Brasília: Editora Universidade de


Brasília, 1985.

DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de teoria geral do Estado. 32ª ed. – São Paulo:
Saraiva, 2013

DE CICCO, Cláudio, GONZAGA, Álvaro de Azevedo. Teoria Geral do Estado e Ciência


Política. - 4ª ed. ver. atual. e ampl. – São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2012.

LARA, Tiago Adão. Caminhos da razão no Ocidente: a filosofia nas suas origens gregas. –
Petrópolis, RJ: Vozes, 1989.

LEBRUN, Gérard. O que é poder. São Paulo: Brasiliense, 1981.

MAQUIAVEL,N. Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio/Nicolau Maquiavel;


tradução de Sérgio Bath. – 5ª. Ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2008.

______. O príncipe. Tradução, introdução e notas de Antonio D’Elia. São Paulo: Cultrix, N/D.

PALMA, Rodrigo Freitas. História do Direito. – 4ª ed. – São Paulo: Saraiva, 2011.

REALE, Giovanni, ANTESERI, Dario. História da filosofia: Antiguidade e Idade Média.


– São Paulo: Paulus, 1990.

WEFFORT, F.C. Os clássicos da política 1. organizador Francisco C. Weffort; colaboradores


Maria Tereza Sadek...[et. al]. – São Paulo: Ática, 2008.

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Referências

ARISTÓTELES. Política; tradução de Mário da Gama Kury. Brasília: Editora Universidade


de Brasília, 1985.

MAQUIAVEL, N. Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio/Nicolau


Maquiavel; tradução de Sérgio Bath. – 5ª. Ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2008.

______. O príncipe. Tradução, introdução e notas de Antonio D’Elia. São Paulo: Cultrix, N/D

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Unidade: Política e Ética: O Caminho Aristotélico

Anotações

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Tel: (55 11) 3385-3000