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Pensamento Político

Material Teórico
Contrato Social: A Paz e a Liberdade

Responsável pelo Conteúdo:


Prof. Dr. Américo Soares da Silva

Revisão Textual:
Profa. Ms. Magnólia Gonçalves Mangolin
Contrato Social: A Paz e a Liberdade

• Hobbes e a ênfase na segurança

• Locke e a busca pela liberdade

A relevância de se estudar o conceito de contrato social reside na


mudança que a partir dele se opera na abordagem política em torno
da questão do Estado e da sua relação com o indivíduo. O conceito
foi utilizado pela primeira vez por Thomas Hobbes como uma forma
de explicar racionalmente a origem do Estado e discutir o problema
da paz no território governado. Mais tarde, John Locke renovaria a
discussão propondo que o contrato social tivesse “garantias” para
que não fosse utilizado de forma abusiva pelo governante.

Atenção

Para um bom aproveitamento do curso, leia o material teórico atentamente antes de realizar as
atividades. É importante também respeitar os prazos estabelecidos no cronograma.

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Unidade: Contrato social: a paz e a liberdade

Contextualização

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Hobbes e a ênfase na segurança

Uma primeira aproximação sobre esse tema nos remete a figura do pensador inglês
Thomas Hobbes.
Hobbes teve origem humilde, seus estudos foram impulsionados pela ajuda de um tio
relativamente próspero, trabalhou como preceptor, participou das polêmicas intelectuais de sua
época e foi testemunha do abalo a monarquia inglesa durante a chamada revolução gloriosa.

A guerra civil inglesa:


99 http://www.historiadomundo.com.br/inglesa/guerra-civil-inglesa.htm
A revolução gloriosa:
99 http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=187

Thomas Hobbes que nascera no final do século XVI viveu para ver muito do conturbado
e efervescente século XVII, talvez, por isso, desenvolveu uma forte simpatia pela ideia de
estabilidade. Parece natural que aqueles que vivem em períodos de guerra se voltem tão
fortemente para a questão da paz. E a manutenção da paz, dentro do território, foi a principal
preocupação hobbesiana no campo político.
Sua abordagem segue um método diferente de qualquer outro antecessor.
Para começar, Hobbes procura por uma explicação racional para a existência e a
necessidade do Estado. No entendimento do pensador inglês é o Estado forte o único fiador
possível para a paz.
Hobbes se volta para uma formulação hipotética: Como viveriam os homens antes do Estado?
O pensador inglês parte da premissa de que os homens tendem a igualdade. Segundo ele,
naquilo que se refere à força: “...o mais fraco tem força suficiente para matar o mais forte,
quer por secreta maquinação, quer aliando-se com outros que se encontrem ameaçados pelo
mesmo perigo” (Hobbes, Leviatã, cap. XIII, p. 74). E o mesmo raciocínio pode, segundo o
autor, ser aplicado às faculdades do espírito (inteligência), de modo tal que haveria muito
mais semelhanças entre os homens do que desigualdades capazes de serem incrivelmente
determinantes em termos da sobrevivência de cada um. Então, Leitor(a), para o pensamento
hobbesiano, naquilo que se refere à capacidade do ser humano, não há diferenças marcantes.
Essa tendência de nivelamento traz consigo outra característica importante: a necessidade.
Quanto às coisas que precisamos para viver, também não são fundamentalmente diferentes.
Precisamos certamente de abrigo contra as intempéries do clima, água, comida, e, por que
não Leitor(a), de algum conforto. A origem das tensões estaria na pressuposição de que as
necessidades tendem a ultrapassar os recursos disponíveis, ou seja, em um determinado lugar,
pode não ter água ou comida suficiente para todos. É neste momento, em que o homem se vê
competindo com outro homem que as tensões começam.

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Unidade: Contrato social: a paz e a liberdade

Desta igualdade quanto à capacidade deriva a igualdade quanto à esperança


de atingirmos nossos fins. Portanto se dois homens desejam a mesma coisa,
ao mesmo tempo, que é impossível de ser gozada por ambos, eles torna-se
inimigos... (HOBBES, Leviatã, cap. XIII, p. 74).

Esse cenário de escassez que levaria a arroubos de violência não seria produzido unicamente
pela falta em si de recursos, e esse é um dos aspectos polêmicos do pensamento de Hobbes,
pois segundo ele, ainda haveriam

...alguns que, comprazendo-se em contemplar seu próprio poder nos atos de


conquista, levam estes atos mais longe do que sua segurança exige, se outros
se contentariam em manter-se tranquilamente dentro de modestos limites,
não aumentarem seu poder por meio de invasões, eles serão incapazes de
subsistir durante muito tempo, se se limitarem apenas a atitude de defesa.
Consequentemente esse aumento do domínio sobre os homens, sendo
necessário para a conservação de cada um, deve ser por todos admitido
(Idem, p. 75).

Hobbes tinha muito gosto pela literatura clássica, lá encontrou uma frase do dramaturgo
romano Plauto, que se difundiria e popularizaria como estando associada ao seu pensamento:
O homem é lobo do homem.
A especulação política hobbesiana também atinge terreno filosófico ao postular que em um
cenário em que não houvesse a vigilância do Estado, quando o homem se deparasse com a
ausência de recurso faria de qualquer outro seu inimigo, aliás, ele o faria mesmo que não
fosse apenas para garantir uma desesperada necessidade de sobrevivência, como
vimos no trecho anterior do texto do autor, a própria satisfação em torno do poder seria para
alguns motivo suficiente para usurpar o que estaria na posse de outro. A natureza humana
estaria inclinada para a violência.
Daí, ao falar da natureza do homem Hobbes arrola três causas para a discórdia, a saber: a
competição, a desconfiança e a glória.
No que se refere à competição basta dizer que essa está ligada a ambição, ao lucro, ter posse
de tudo aquilo que seria propriedade do outro, possuir muito mais que todos os outros. Já
a desconfiança é motivada pela insegurança. Diante do fato de não saber o que esperar do
outro, se está ou não na iminência de ser traído ou atacado, leva os homens a tentar se prevenir
lançando mão da violência. O problema é que assim como no caso da competição parte-se de
uma tendência de igualdade, na qual, todos competem com todos e, também, todos desconfiam
de todos, o que ajuda a tornar a violência algo comum.
Não bastasse essas motivações para o conflito, Hobbes ainda adiciona a glória, um misto de
vaidade e honra cujos motivos para violência podem surgir por uma “ofensa” produzida por
uma palavra hostil ou simplesmente pelas mais variadas diferenças de opinião já seriam motivos
suficientes para alguns se lançarem sobre os outros. Das três causas da discórdia a glória é
certamente a mais banal.

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Mas essas causas da discórdia não estão isoladas entre si, juntas elas formam um arranjo de
coisas que levaria cada um a temer pela própria vida. Teríamos neste cenário, de acordo com o
pensamento hobbesiano, um clima de temor constante, em que cada um temeria o tempo todo
pela própria vida e pela vida dos seus entes próximos.
Certamente esse é um tipo de raciocínio que produz protestos, no entender hobbesiano,
vinculados a ideias oriundas da filosofia grega que compreendia o homem como um animal
político (Aristóteles), cuja sociabilidade seria natural, ou, ainda, por natureza estaríamos
inclinados a vivermos juntos. Essa linha de pensamento facilmente leva a compreensão do
conflito como uma exceção, e não como uma quase constância, conforme advoga Hobbes.
Um dos argumentos hobbesianos para se contrapor a essas críticas é invocar um exame de
consciência a cada um de nós.
É incorreto, ou moralmente questionável, duvidarmos da boa índole da humanidade? Pois
recuperamos os mesmos questionamentos feitos por Hobbes no século XVII e aplicamos no
nosso século.

Diálogo com o Autor


Você, deixaria de tomar certas precauções quando for viajar? Deixaria de trancar as
portas e janelas de sua casa mesmo sabendo que existe polícia e leis para punir os
criminosos? Não teria cautela adicional com tudo aquilo que lhe é de valor, às vezes, deixando
guardado fora das vistas de um visitante inesperado?

Se isso era feito na época de Hobbes, também, podemos afirmar que é também feito com
muita frequência em nossa própria época, e é justamente esse sentimento de desconfiança em
relação ao próximo que nos leva a tomar certas atitudes práticas, mesmo que não sejam faladas
com clareza pelo senso comum.

Pense
Então, a questão que poderia ser colocada a partir do pensamento de Hobbes seria:
Como viveríamos sem Estado?

Um cenário desse tipo seria em princípio de plena liberdade. Essa liberdade é entendida por
Hobbes como “ausência de impedimentos”, ou seja, na situação de dispor de poder para fazer
alguma coisa, sendo ainda que ninguém viesse impedir o homem de fazer aquilo que ele quer,
então esse homem é livre.
Outro ponto importante a ser assinalado diz respeito à situação jurídica desse cenário.
Como não há governo ou Estado, a única lei a qual o homem se encontra atrelado é a própria lei da
natureza a qual Hobbes reduziu ao direito à vida.
O fundamental direito natural no entender hobbesiano é o direito à vida, pelo qual cada um fará uso
de todo e qualquer meio necessário para a preservação da própria.

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Unidade: Contrato social: a paz e a liberdade

Esse cenário foi nomeado, por Hobbes, de estado de natureza.


Façamos, uma reflexão sobre os pontos que vimos até aqui:
1 - Um cenário sem nenhuma lei externa a não ser a lei natural de preservação da vida.
2 - Uma tendência de igualdade entre os homens que têm aproximadamente as mesmas
capacidades e as mesmas necessidades.
3 - Uma inclinação natural para a violência dado que não só questões de sobrevivência
levariam um indivíduo a erguer a mão para seu semelhante: a glória é motivo suficiente.

Poderíamos ainda agravar o estado de natureza considerando momentos em que os recursos


sejam insuficientes a todos, isso tornaria a iniciativa violenta ainda mais frequente. O que temos,
portanto, é um cenário explosivo!

Hobbes, por esses motivos, também chamaria o estado de natureza de uma guerra de
todos contra todos. Afinal, todos precisam sobreviver, todos podem fazer o que for necessário
neste sentido (inclusive pilhar ou assassinar), não há leis que não a da autopreservação; o quê
evitaria o conflito generalizado?

É claro que Hobbes reconhece que não haveria combates de fato todo o tempo, entretanto,
a possibilidade disto ocorrer a qualquer momento seria palpável.

Se há sempre possibilidade de um conflito, seja com grupos estrangeiros, seja contra os


próprios vizinhos, então a única sensação dominante, no entender hobbesiano, é o medo.

Afinal, ninguém ou nenhum grupo seria forte suficiente a ponto de ser invencível. O horror
da morte e da violência seria uma constante no coração dos homens.

Neste ínterim, podemos perguntar usando as ideias de Hobbes: “Seria possível viver num
ambiente carregado de tanto medo?”

A resposta de Hobbes é não, ou pelo menos, usando termos contemporâneos, seria um


ambiente com péssima qualidade de vida. A desconfiança generalizada e a violência impediria
toda forma de melhoria social, do ponto de vista econômico; praticar comércio, por exemplo,
seria impossível (lembremos que não haveria leis para regular contratos).

Quando acompanhamos o raciocínio hobbesiano, por qualquer ângulo que se observe o


estado de natureza, temos um lugar ou uma situação ruim de viver.

Podemos imaginar que seria estranho as pessoas optarem por permanecer em semelhante
situação por tempo indeterminado. O pensador inglês já havia chegado a essa conclusão.

Cansados de estado de natureza tão brutal, Hobbes defende a ideia que as pessoas optaram
pela formação de um pacto. Esse pacto seria um acordo firmado, não exatamente por escrito, em
que cada uma dos indivíduos livres, participante do pacto, aceitaria renunciar a uma dose de sua
liberdade, cada associado desse empreendimento político concorda, então, com o surgimento
de regras de convivência para serem seguidas por todos. Isso significa limitar a liberdade.

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Diálogo com o Autor
Lembremos: Hobbes entendia a liberdade como não impedimento, estabelecer algumas
regras desautorizando determinadas ações e justamente impor alguns impedimentos.
Mas Hobbes argumenta que “pactos sem espada [sword] não são mais que palavras [words]”.
Portanto, é necessário organizar uma estrutura de poder que possa sustentar essa ordem.

Essa estrutura de poder dependeria de um soberano. A ideia de soberania já havia sido


discutida pelo jurista francês Jean Bodin no começo de século XVI. Para Bodin, o poder
do soberano deve ser absoluto e perpétuo. Cabe ao soberano ficar acima das leis, ter uma
autoridade inquestionável e o poder que o acompanhe por toda a vida. Bodin estava exaltando
o modelo de monarquia absolutista que se firmava na época.
Hobbes pega emprestado o conceito de soberania de Bodin ao argumentar que em torno da
figura do soberano se organizaria o Estado. No entanto, o jurista francês defendia a legitimidade
do poder soberano como um direito dado a este governante por Deus (o direito divino dos reis),
ou seja, Bodin ainda se encontrava preso a uma mentalidade medieval que assegurava forte
poder político para a Igreja. Por seu turno, Hobbes procurará outra forma de explicar e justificar
a manutenção de um poder soberano.
A justificativa é racional. Os indivíduos concordam, ou melhor, fazem uma concessão
a esse governante, o qual passa a ter como atribuição por fim a guerra de todos contra todos
e trazer a paz. Não se trata mais de uma justificativa de ordem religiosa. O Estado existe como
fruto de um contrato social firmado entre o soberano e seus súditos.
O poder do soberano deve ser pleno. Não poderia o poder ser divido sobre pena de instaurar-
se uma competição que levaria mais cedo ou mais tarde à guerra civil. Além disso, o ato de
transferência de poder é irreversível, o pacto, uma vez firmado, não pode mais ser desfeito (na
linha da soberania perpétua como queria Bodin).
Não foi sem motivo que Hobbes nomeou sua obra célebre de Leviatã, o monstro bíblico
do livro de Jó. A ideia é que o Estado – organizado e representado pelo soberano – fosse uma
estrutura poderosa o suficiente para impor ordem ao caos, organizar a defesa contra ataques
estrangeiros, como as milícias para garantir a ordem interna.
Até mesmo a propriedade, fonte de disputas e conflitos, seria mediada pela figura do
soberano. Quando fala da manutenção ou nutrição de Estado, ou seja, dos materiais (recursos)
disponíveis em um determinado território, para a preservação da vida, Hobbes argumenta que
sua distribuição é de competência do soberano. Este pode intervir – se for entendido que assim
é necessário para a manutenção da paz – até na distribuição da terra:

Nesta distribuição, a primeira lei diz respeito à distribuição da própria terra,


da qual o soberano atribui a todos os homens uma porção, conforme o
que ele, e não conforme o que qualquer súdito, ou qualquer número deles,
considerar compatível com a equidade e com o bem comum. (...) De onde
podemos concluir que a propriedade que um súdito tem em suas terras
consiste no direito de excluir todos os outros súditos do uso dessas terras,
mas não excluir o soberano, quer este seja uma assembleia de homens ou
um monarca (HOBBES, Leviatã, cap. XXIV, p. 151).

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Unidade: Contrato social: a paz e a liberdade

A isso também deve se acrescer aos poderes do soberano – novamente a partir do princípio
de se preservar a paz – a possibilidade de fazer censura se assim julgar necessário.

Reflita
Como podemos perceber, trata-se de poderes extraordinários. Hobbes já se antecipava aos
seus críticos, pois estes certamente ficaram indignados com um desenho político ao qual
o súdito fica completamente a mercê de seu soberano. Contra essa crítica, o argumento
hobbesiano é simples:
Qual seria a melhor escolha: viver sob o julgo de um soberano com poderes para em tudo
interferir ou viver na permanente insegurança de um estado de natureza?

Para Thomas Hobbes, por mais dura que possa parecer à situação de viver conforme
as regras ditadas pelo Estado, ainda é uma alternativa muito melhor do que viver (ou
tentar sobreviver) no cenário da guerra de todos contra todos. Escolher o Estado seria uma
escolha para viver em paz.

Locke e a Busca pela Liberdade


No contexto do conflito político da Inglaterra do século XVII, além de Hobbes, encontramos
a figura que se torna seu oposto-complementar. Outro pensador inglês: John Locke.
Durante o conturbado período de disputas entre o rei e a nascente burguesia inglesa que
advoga poderes para o parlamento, Locke foi partidário do segundo grupo.
Como filósofo chegou a escrever sobre diferentes temas e no campo político ele também
deixou uma poderosa marca, a saber, os ideais liberais. Também Locke é identificado como um
dos filósofos do contrato social (o terceiro expoente célebre é Jean-Jacques Rousseau).
Aquilo que irá diferenciar o pensamento de Locke e Hobbes está não tanto na forma mas
mais nos resultados de suas reflexões.
O ponto de partida de Locke não é tão diferente de seu conterrâneo, ele também se debruça
sobre o tema da origem e da finalidade do Estado e pensa a partir de um estado de natureza,
no entanto, suas reflexões enfocam o estado de natureza de uma maneira diversa.
John Locke reconhece a possibilidade da violência no estado natural. O remédio para evitar
que um homem pudesse tentar invadir ou usurpar aquilo que por direito pertence a outro é que
os homens criariam a sociedade civil, em associação.
No entanto, Locke desconfia da fórmula hobbesiana, pois para ele a fonte de problemas do
estado de natureza reside no fato de cada um poder ser juiz de si mesmo. Alguém, cuja índole
permite atentar contra outra pessoa, dificilmente se acusaria por seu crime. E, exatamente por isso, a
solução não passaria por escolher um monarca e transformá-lo em um juiz extremamente poderoso,
afinal, que impedimento haveria a este monarca para que ele não abusasse de sua posição.

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Locke não é contra a ideia do contrato social, pelo contrário, entretanto ele defende que esse
contrato tenha algumas garantias.
A defesa dessas “garantias” está atrelada a um entendimento diferente do que é o estado
de natureza. Estamos, nos referindo ao tema do direito natural, a pressuposição de um estado
natural, antes da formação do Estado, acompanha – na abordagem hobbesiana – o entendimento
que o indivíduo seria portador de um único direito por natureza que é o direito à própria vida.
Na versão lockeana, o direito a vida está presente, mas não está sozinho:
Por exemplo, como poderia o Estado exercer censura ou proibir a divulgação de certas ideias,
sem que, com isso, entrasse em choque com o direito de liberdade?
Outra questão passa a ser a da propriedade. Lembremos, Leitor(a), para Hobbes a distribuição
da propriedade seria uma atribuição do soberano.
Locke compreende a propriedade como produto do trabalho do indivíduo. É o trabalho do
corpo que modifica algo, altera, melhora, portanto, pertence ao autor desse esforço. Aquele
que planta na terra tem direito de posse sobre a colheita, aquele que junta madeira e com ela
constrói uma casa tem posse sobre a mesma, e assim por diante.
O pensamento de John Locke associou-se perfeitamente com as expectativas da burguesia
que começava a se desenvolver. O entendimento da origem da propriedade como produto do
trabalho entrava em sintonia com um segmento da sociedade que começava a prosperar via -
trabalho, e não por herdar privilégios atribuídos ao nascimento.
Esse entendimento muda ou faz ajustes na fórmula anterior para a finalidade do Estado. Na
versão hobbesiana o Estado deveria garantir a paz. Na versão de Locke o Estado deve fazer
mais do que isso: também zelar pela propriedade de seus súditos ou cidadãos. Bem, como
assegurar a eles liberdade.
Pode-se dizer que a mudança de perspectiva sutil ao primeiro olhar produz resultados
muito contrastantes. Se uma das atribuições do Estado é a preservação da liberdade daqueles
irmanados pelo contrato social, a postura de poder apenas cerceador que aplica, pela força, a
coerção necessária para o cumprimento da lei seria revista. O Estado se torna muito mais um
protetor, isso transparece na forma com que suas ações passariam a ser executadas.

O homem nasceu, como já foi provado, com um direito à liberdade perfeita


e em pleno gozo de todos os direitos e privilégios da lei da natureza, assim
como qualquer outro homem ou grupo de homens na terra; a natureza
lhe proporciona, então, não somente o poder de preservar aquilo que lhe
pertence – ou seja, a vida, sua liberdade, seus bens – contra as depredações
e as tentativas de outros homens, mas de julgar e punir as infrações daquela
lei em outros, quando ele está convencido que a ofensa merece, e até com
a morte, em crimes em que ele considera que a atrocidade a justifica...
(LOCKE, 1994, p. 132.).

Então, Leitor(a), encontramos no pensamento de Locke mais direitos por natureza do que na proposta
anterior. Isso muda muita coisa, uma vez que, não é qualquer coisa que Locke está colocando como
direito natural. Incluir a propriedade e também a liberdade implica em repensar o próprio papel do
Estado, visto que o Estado não poderia mais fazer o que bem lhe julgasse sob pena de entrar em conflito
com outra parte dos direitos naturais.
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Unidade: Contrato social: a paz e a liberdade

Para o pensamento de Locke, sim o contrato social é necessário, também a organização do


Estado, contudo, isso seria feito a partir do poder legislativo, o qual teria a responsabilidade pela
elaboração das leis. Portanto, temos um predomínio do poder legislativo ao invés da concentração
de poderes na figura de um monarca. Na prática isso implica em um papel importante a ser
desempenhado pelo parlamento.
Além de evitar uma certa personalização do poder, a proposta de Locke traz à tona a questão
dos limites do próprio poder.
Nada mais de poderes absolutos, mesmo o parlamento deveria legislar com base nos direitos
por natureza, muito pouco adiantaria transferir os poderes do monarca para uma assembleia
se não tivesse limites quanto ao poder de interferir na vida dos indivíduos. Assim sendo, pelo
pensamento lockeano o parlamento pode legislar desde que não agrida os direitos, a vida, a
liberdade e a propriedade. Então, a menos que haja uma exceção que precisaria ser muito
criteriosamente examinada, o Estado está excluído da propriedade do súdito.
O pensamento de John Locke contribuiu tão fortemente com os chamados movimentos
liberais que muitas vezes ele é identificado como “pai do pensamento liberal”. O liberalismo
não pode ser confundido com licenciosidade, ao contrário, prega um apego à ordem que seja
assegurada pela lei.
O ponto chave está na legitimidade das leis, que precisam ser fruto de um processo político
livre de opressão.
Como a proposta de Locke é um contrato social com garantias, não poderia deixar de refletir
sobre o espinho problema de quando o governante ou o Estado deixa de cumprir com sua
obrigação, que é zelar pelos direitos naturais dos súditos.

Trocando Ideias
Em sua obra O Segundo tratado sobre o governo civil, Locke aborda a questão com a
pergunta: “pode-se resistir às ordens de um príncipe?” Para o autor essa é, num primeiro
momento, uma pergunta que se deve responder de forma negativa. Não adequado
que qualquer um por alegar estar sendo injustiçado seja autorizado a descumprir a lei
estabelecida por um governo que em teoria foi instituído para preservar os interesses de
todos. Imagine, Leitor(a), um cidadão qualquer de repente compreende que não deve
pagar mais seus impostos porque se entende lesado, ou que deve preservar para si aquele
quinhão de riqueza. Isso prejudica a administração pública que usa esses recursos pelo
bem estar da coletividade.

No entanto, Locke é claro ao reconhecer que há casos em que de fato, e não por mero
interesse egoísta, o povo tem direito a queixa, pois aquele que governa não está cuidando da
preservação dos direito da população. Neste caso:

... se estes atos ilegais estendem seus efeitos à maioria do povo; ou se a


má ação e a opressão só atingem uma minoria, mas em condições tais que
todo mundo parece ameaçado pelo precedente assim criado e por suas
consequências, que suas leis estão em perigo, e com elas seus bens, liberdade
e vidas, e talvez até sua religião, eu não sei como eles poderiam ser impedidos
de resistir à força ilegal usada contra eles (LOCKE, 1994, p. 211.).

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Desta maneira, aquele que faz uso indevido do poder que lhe foi conferido pelo povo perde sua
legitimidade. Isso permite à população se desobrigar da obediência de sua autoridade. Mais ainda,
se faz legítima a aspiração popular em substituir aquele que não outrora deveria defendê-la.
Na versão lockeana do contrato social, o poder é conferido em confiança, podendo ser
recuperado e dado a outro nos caso em que essa confiança foi quebrada. Algo muito distante
da ideia de um monarca com poder perpétuo.
As proposições liberais não apenas possibilitaram a discussão em torno do direito de
insurreição dos povos. Na Inglaterra a Revolução Gloriosa abriu caminho para a assinatura
da do Bill of Rights (declaração de direitos), que delimita os poderes do rei e possibilita o
desenvolvimento da chamada monarquia parlamentarista.

Pesquise Monarquia parlamentar em sites:


99 http://www.sohistoria.com.br/ef2/centralizacaopoder/p2.php
99 http://clickeaprenda.uol.com.br/portal/mostrarConteudo.php?idPagina=27736

As propostas liberais tiveram forte impacto nos anos seguintes. Os ventos do pensamento
liberal percorreram os oceanos e no século XVIII levaram colonos ingleses a se erguer contra a
metrópole inglesa e fundar a primeira democracia do novo mundo. Muito do espírito por trás da
revolução americana tive como inspiração ideias liberais.

Explore
Pesquise Independência dos Estados Unidos em:
99 http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=207

Outra face muito importante do pensamento liberal foi o liberalismo econômico, ao apontar
que a propriedade é um direito natural, Locke estava abrindo o caminho para questionar a
política de intervenção do monarca que, muitas vezes, determinava quem poderia explorar
certa atividade econômica, ou ainda quais produtos poderiam ser comprados do exterior. Essa
forma de condução política ia de encontro aos ideais de prosperidade da burguesia, além de
beneficiar de maneira desequilibrada alguns poucos, geralmente, ligados à nobreza.
Graças a essa abordagem de considerar o Estado como um agente regulador, mas que
não deve fazer seus súditos reféns pudemos observar o gradual aparecimento da liberdade de
expressão, liberdades de pensamento e religião e até da livre iniciativa.

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Unidade: Contrato social: a paz e a liberdade

Material Complementar

BARBOSA, Alexandre de Freitas. O mundo globalizado. 5. ed - São Paulo: Contexto,


2010.

BONAVIDES, Paulo. Ciência Política. 19 ed. – São Paulo: Malheiros Editores, 2012.

BOBBIO, N. Teoria Geral da Política: A Filosofia Política e as Lições dos Clássicos. Rio
de Janeiro: Campus, 2000.

BOBBIO, N.; MATTEUCCI, N. Dicionário de Política. 13. ed. , v. 01 e 02, Brasília:


Universidade de Brasília, 2007.

DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de teoria geral do Estado. 32ª ed. – São
Paulo: Saraiva, 2013.

DE CICCO, Cláudio, GONZAGA, Álvaro de Azevedo. Teoria Geral do Estado e


Ciência Política. - 4ª ed. ver. atual. e ampl. – São Paulo: Editora Revista dos Tribunais,
2012.

HOBBES, Thomas. Leviatã, trad. João P. Monteiro e Maria B.N. da Silva – 2ª ed. – São
Paulo: Abril Cultural, 1979. (Col. Pensadores).

LEBRUN, Gérard. O que é poder. São Paulo: Brasiliense, 1981.

LOCKE, John. Segundo tratado sobre o governo civil, trad. Magda Lopes e Maria
Lobo da Costa. – Petrópolis, RJ: Vozes, 1994.

REALE, Giovanni, ANTESERI, Dario. História da filosofia: Antiguidade e Idade Média.


– São Paulo: Paulus, 1990.

WEBER, Max. Ciência e Política: duas vocações; prefácio Manoel T. Berlinck; trad.
Leonidas Hegenberg e Octany Silveira da Mota. 18ed. – São Paulo: Cultrix, 2011.

WEFFORT, F.C. Os clássicos da política 1. organizador Francisco C. Weffort;


colaboradores Maria Tereza Sadek...[et. al]. – São Paulo: Ática, 2008.

16
Referências

BOBBIO, N. Teoria Geral da Política: a Filosofia Política e as Lições dos Clássicos. Rio de
Janeiro: Campus, 2000.

BOBBIO, N.; MATTEUCCI, N. Dicionário de Política. 13. ed. , v. 01 e 02, Brasília:


Universidade de Brasília, 2007.

HOBBES, Thomas. Leviatã, trad. João P. Monteiro e Maria B.N. da Silva – 2ª ed. – São Paulo:
Abril Cultural, 1979. (Col. Pensadores).

LEBRUN, Gérard. O que é poder. São Paulo: Brasiliense, 1981.

LOCKE, John. Segundo tratado sobre o governo civil, trad. Magda Lopes e Maria Lobo da
Costa. – Petrópolis, RJ: Vozes, 1994.

REALE, Giovanni, ANTESERI, Dario. História da filosofia: Antiguidade e Idade Média. –


São Paulo: Paulus, 1990.

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Maria Tereza Sadek [et. al]. – São Paulo: Ática, 2008.

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Unidade: Contrato social: a paz e a liberdade

Anotações

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