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CIÊNCIA POLÍTICA E
TGE
CADERNO DE CURSO.
1º SEMESTRE DE 2010.

Faculdade Doctum, campus Juiz de Fora.


Curso de Direito.
Prof. Responsável: Fernando Ramalho Ney Montenegro Bentes
(Mestre/Puc-Rio).
Monitor(a): Patrícia Maria Riani
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CURSO: Direito 
DISCIPLINA: Ciência Política
PERÍODO: 1º           

CARGA HORÁRIA SEMESTRAL: 72 h/a 

EMENTA:

Conceitos básicos: o fenômeno da institucionalização do Poder. Relações entre a sociedade civil e a


sociedade política. Ação política. Estado: Evolução histórica e conceitual. Natureza e funções do
Estado. Elementos constitutivos do Estado. Tipologias de Estado. Formas de Estado e de Governo.
Ideologia do Estado: concepção liberal e social do Direito. O Estado Marxista. Problematização
clássica e contemporânea da democracia. Estado, democracia e regime democrático. Novos
paradigmas do Estado moderno. Transformações e dilemas do Estado Contemporâneo.

OBJETIVOS:

A disciplina visa a fornecer aos estudantes de Direito os conhecimentos indispensáveis à


compreensão do funcionamento da vida política em suas idéias e em suas práticas institucionais.
Apresenta, também, como propósito considerar analiticamente as diversas teorizações sobre o
estado, suas funções e campos de atuação. O objetivo é abordá-lo discriminando sua evolução como
fenômeno e como conceito, além de apontar a variabilidade de sua classificação no espectro das
múltiplas possibilidades e limites paradigmáticos a ele referidos.

CONTEÚDO PROGRAMÁTICO:

Unidade I: A Constituição da Ciência Política como campo do saber: a questão do poder nas
raízes do pensamento político.
1.Ciência Política: Conceitos básicos.
2. A matriz greco-romana e os principais conceitos da tradição ocidental de reflexão sobre o poder.
3.Maquiavel e a autonomia do político.
4.O pensamento contratualista: soberania e interesse racional.
4.Montesquieu, Rousseau e Hegel: historicidade da política, democracia radical e o Estado
Moderno.
6.A teoria política do marxismo: distinção entre classes sociais e o mistério do Estado.
7. Poder na sua relação com a mudança social.
Unidade II: Sociedade Civil e Sociedade Política.
1. Conceito de sociedade.
2.O fundamento da sociedade: sociedade natural; teoria contratualista do Estado.
3.Relação entre sociedade civil e sociedade política.
Unidade III: Do Estado
1.Estado: necessário ou desnecessário – teorias anarquistas
2.Estado: origem e elementos
3.Formação Histórica do Conceito de Soberania
4.Tipologias de Estado.
5.Formas de Estado.
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6. Estado e Governo: Formas de governo, sistemas de governos, ideologias e Estado – o Estado


Marxista.
Unidade IV: Ideologia do Estado
1. Concepção liberal e social do Direito, e sua forma de cidadania.
2.A relação entre Estado social ( Welfare State) e o Estado Liberal no pensamento constitucional.
3.A concepção de Estado em Marx.
Unidade V: A questão da democracia
1.A noção clássica de democracia.
2.A democracia e a constituição da sociedade moderna; participação e direito.
3.Democracia e socialismo.
4.Democracia, liberalismo e neoliberalismo.
Unidade VI: Do Estado Moderno
1.Paradigma constitucional do Estado liberal, social e democrático de direito.
2.Constitucionalismo.
3.A Constituição.
4.Direitos e Garantias Fundamentais na Constituição.
5.Representação política.
6.Sufrágio, partidos políticos e grupos de pressão.
7.Problemas e críticas do Estado contemporâneo.
8.Novos paradigmas do Estado moderno.
Unidade VII: Política e sociedade no Brasil contemporâneo.
1.Política e questão social no Brasil.

RECURCOS DIDÁTICO­PEDAGÓGICOS:

Provas escritas e orais específicas, bem como trabalhos sobre o conteúdo programático, ou mesmo
sobre alguma obra clássica analisada, a qual se relacione diretamente com a disciplina. Promoção de
debates e seminários, que estimulem a oratória dos discentes, sobre temas atuais que encontrem
abrigo na disciplina, como forma de estimular o estudo. Exibição de vídeos.

AVALIAÇÃO:

A avaliação do desempenho dos estudantes será predominantemente de caráter diagnóstico,


formativo e somático, utilizando-se como instrumentos e parâmetros a observação de trabalhos
individuais e em grupo.
Serão adotados como critérios de avaliação o nível de interesse dos participantes nas atividades
desenvolvidas, a freqüência às aulas (no mínimo 75% da carga horária), e o nível de desempenho
nos trabalhos realizados, respeitando as normas instituídas no Regimento Geral da Instituição que
disciplina 60 (sessenta) pontos de trabalhos e provas a critério do professor, e 40 (quarenta) pontos
na prova obrigatória que será realizada no final do período letivo.
O aluno que não obtiver 60 (sessenta) pontos do total dos pontos distribuídos se submeterá ao
Exame Especial conforme norma regimental da IES.

BIBLIOGRAFICA:

Básica:

BONAVIDES, Paulo. Ciência Política. 10ª ed. São Paulo: Malheiros, 2001.
DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de teoria geral do estado. 25.ed. São Paulo: Saraiva,
4

2002.

ZIPPELIUS, Reinhold.Teoria geral do estado.3.ed.Lisboa:Fundação Calouste Gulbenkian, 1997.

Complementar:

ARISTOTELES. Ética a Nicomanos.4.ed. Brasilia:UNB,2001.


AZAMBUJA, Darcy. Teoria geral do estado. 41.ed. São Paulo: Globo, 2001.

BOBBIO, Norberto. A Teoria das Formas de Governo. 10ª ed.,tradução de Sérgio Bath, Brasília:
UnB, 2001.
BOBBIO, Norberto. As teorias das formas de governo.Brasilia:UNB,2001.

CASTRO, Celso Antonio Pinheiro de.Ciência Política.Sao Paulo: Atlas, 2004.

CRESPIGNY, Anthony de. Filosofia política contemporânea.2.ed. Brasília: UNB. 1982.

ENGELS; MARX. Manifesto do partido comunista. 9.ed. São Paulo: Global.2000.


FARACO, Raymundo. Os Donos do Poder. 3.ed. São Paulo: Globo.2001.

GOYARD-FABRE, Simone. Os Príncipios Filosóficos do Direito Político. 1.ed. São Paulo:


Martins Fontes, 1999.

GUIMARÃES, Juarez.Democracia e marxismo:crítica à razão liberal. 1.ed. São


Paulo:Xamã.1998.

HOBBES, Thomas.Dialogo entre um filosofo e um jurista.1.ed.São Paulo:Landy,2001.

KELSEN, Hans. A Democracia. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes. 2000.


KELSEN, Hans. Teoria Geral do Direito e do Estado. 3.ed. São Paulo: Martins Fontes.1998.
LEAL, Rosemiro Pereira. Soberania e mercado mundial:a crise jurídica das economias nacionais.
2.ed. São Paulo: Editora de Direito. 1999.
LEFORT, Claude. Pensando o político:ensaios sobre democracia, revolução e liberdade. 1.ed. Rio
de Janeiro: Paz e Terra. 1991.

LIMA JR,, Olavo Brasil de.Instituições políticas democráticas :o segredo da legitimidade.1.ed.


Rio de Janeiro:Zahar, 1997.

LOCKE, John. Dois Tratados sobre o governo. São Paulo: Martins Fontes. 2001.

LOWY, Michael. As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Munchhausen: Marxismo e


positivismo na sociologia... 7.ed. São Paulo: Cortez. 2000.

MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe.São Paulo:Martins Fontes,2001


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MAQUIAVEL, Nicolau. Escritos pólíticos.São Paulo:EDIPRO, 1995.


PLATÃO. A República.9.ed. São Paulo; EDIPRO,2001.
PLATÃO. Dialogos III: a república. 26.ed. Rio de Janeiro: Ediouro. 2001.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Pela mão de Alice. 8.ed. São Paulo: Cortez.2001.
SOARES, Mario Lúcio Quintão. Teoria do Estado. Belo Horizonte: Del Rey, 2004.

WEBER, Max. Ciência e Política:duas vocações. 11.ed. São Paulo: Cultrix. 2002.
WEFFORT, Francisco C. (org.). Os classicos da politica: Maquiavel, Hobbes, Loke, Mostequieu,
Rousseau, o federalismo: volume 1. 13.ed. São Paulo: Ática, 2004.

WOLKMER, Antonio Carlos. Introdução à historia do pensamento político. 1.ed.Rio de Janeiro:


Renovar, 2003.
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CIÊNCIA POLÍTICA E TGE


Aula 1: Denominação, Evolução da CP e Contratualismo, John Locke, Jean Jacques
Rousseau, Teoria Freudiana
I) Denominação: O termo “ciência política” valoriza o objetivismo na construção de
conceitos e análise das situações sócio-políticas.
O termo “teoria política” valoriza este campo do conhecimento sob uma perspectiva
zetética.
O termo TGE, marca a construção de teorias que descrevem e explica a gênese, o
desenvolvimento, os elementos e a continuidade do Estado.

II) Evolução da CP:


Na Grécia Antiga, a filosofia grega, com Sócrates, Platão e Aristóteles defendiam um
conceito de política voltado ao bem comum, à virtude republicana, à realização do bem. Era uma
atividade carregada de valor positivo.
No Renascimento, porém, na transição do séc. XV para o XVI, a política se isola, torna-se
ciência autônoma, perde seu conteúdo valorativo e divide-se entre a política real e a teoria política,
como campo do conhecimento humano que estuda o poder.

III) Contratualismo

Thomas Hobbes: aspecto histórico: união da burguesia com a realeza e contra a


fragmentação política e poder esfacelado da nobreza feudal.
Estado de Natureza: momento anterior à formação do Estado, em que não havia um ente
forte o suficiente para a manutenção de normas de conduta. Momento completamente anárquico.
No Estado de Natureza, há uma pluralidade de potências ilimitadas, tudo é permitido e tudo
pode, havendo liberdade absoluta.
Pressuposto Antropológico: o homem é mau, guiado pelo auto interesse, pela satisfação
egoísta de seus desejos e instintos.
No Estado de Natureza, portanto, vivia-se sob o império do medo, o “homem é o lobo do
homem” e o Estado de Natureza representa “a guerra de todos contra todos”.
Gênese de Estado: o homem no Estado de Natureza vive isolado, infeliz e com medo.
Portanto, por meio de um cálculo racional, projeta a construção do Estado, delegando ao soberano
sua liberdade.
O soberano é o único que goza de liberdade absoluta no Estado hobbesiano, porque os
homens lhe delegaram sua liberdade individual.
Pressupostos de legitimidade do Estado: o homem realiza o contrato social por meio do qual
adere com o surgimento do Estado para que sua vida seja protegida. A legitimidade do Estado
pesiste enquanto perdura sua capacidade de manter a segurança e a ordem. Se não consegue fazê-lo,
nasce o direito de revolução.
Obs. Pena de morte

IV) John Locke – Conjuntura histórica: consolidação do poder estatal e necessidade de


respeito às atividades burguesas pelo Estado. Construção do arcabouço de legitimidade do Estado
Liberal.
Estado de Natureza: é bastante completo, os homens tem noção intuitiva de seus direitos
naturais. A sociedade existe de maneira pacífica e com bastante complexidade no âmbito
econômico e comercial, existindo inclusive a monetarização.
Teoria do valor do trabalho, Locke acreditava que os homens já tem a consciência de seus
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direitos naturais no Estado de Natureza e se comportam de maneira a preservar estes direitos.


O Estado serve meramente para garantir o cumprimento de direitos naturais dos quais todos
tem consciência. Os direitos naturais na concepção européia pós Renascimento são inspirados pela
razão humana. São eles: direito à vida, liberdade, igualdade e propriedade.
Locke acreditava que o homem possuía um bem pelo fato de trabalhar nele. A propriedade
nasce dessa maneira. Porém, a propriedade não é ilimitada, ela pode se esgotar, o que é ultrapassado
na teoria de Locke, pela vastidão de terras nas colônias norte-americanas. A concentração de
propriedade é implicada por Locke como consequência do fato de alguns homens serem mais
diligentes e operosos que outros.
Teoria da Representação: Locke acreditava que a legitimidade do poder residia no seu
caráter não-intervencionista. Um governo opressor fazia nascer o direito de resistência, quando os
representantes do povo não mais refletissem os anseios daquela sociedade.

V) Jean Jacques Rousseau: Estado de Natureza: o homem é naturalmete bom, amável e


solidário, considerando como seu objetivo da comunidade. Esta consideração de Rousseau, este
pressuposto antropológico que estabelece influenciou todo o Romantismo, que apontava os nativos,
em sociedade simples como seres bons e desprovidos de sentimento de egoísmo “bom selvagem”
Sociedade complexa e diferenciação social: Rousseau acreditava que a diferenciação social e
a divisão do trabalho geravamo sentimento de egoísmo que destruíam aquela harmonia natural dos
seres humanos.
Vontade geral: Rousseau foi o grande teórico da democracia popular. Afirmava que o
Estado deveria buscar uma nova fundamentação, um novo pressuposto de legitimidade aliado na
vontade popular, que é a soma de todas as vontades individuais. Quem se opusesse a esta vontade,
possuia, em verdadem um vício de formação de sua vontade. Sua teoria desprezava o governo
representativo como uma perversão da vontade geral. Funda portanto, o conceito de soberania
popular do governo.
A classe social que ocupar o Estado.
Não acredita na teoria da representação com relação ao cumprimento do papel ao qual é
pressuposto.

VI) Teoria Freudiana

Pressuposto Antropológico: - Pulsão de Vida “Eros”


- Pulsão de Morte “Tanatos”
Parricídio: morte do pai primevo pelos filhos (Pulsão de Morte)
Recalque do sentimento por meio da pulsão de vida
Tabu do homicídio
Tabu do incesto
Texto de Trabalho:
Dos Fins da Sociedade Política e do Governo

John Locke – livro Os Clássicos da Política 1 – página 98

Se o homem no estado de natureza é tão livre, conforme dissemos, se é senhor absoluto da sua própria
pessoa e posses, igual ao maior e a ninguém sujeito, por que abrirá ele mão dessa liberdade, por que abandonará o
seu império e sujeitar-se-á ao domínio e controle de qualquer outro poder? Ao que é óbvio responder que, embora
no estado de natureza tenha tal direito, a fruição do mesmo é muito incerta e está constantemente exposta à
invasão de terceiros porque, sendo todos reis tanto quanto ele, todos iguais a ele, e na maioria pouco observadores
da equidade e da justiça, a fruição da propriedade que possui nesse estado é muito insegura, muito arriscada. Estas
circunstâncias obrigando-no a abandonar esta condição que, embora livre, está cheia de temores e perigos
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constantes; e não é sem razão que procura de boa vontade juntar-se em sociedade com outro que estão já unidos,
ou pretendem unir-se, para a mútua conservação da vida, da liberdade e dos bens a que chamo de “propriedade”.
O objetivo grande e principal, portanto, da união dos homens em comunidades, colocando-se eles sob
governo, é a preservação da propriedade. Para este objetivo, muitas condições faltam no estado de natureza.
Primeiro, falta uma lei estabelecida, firmada, conhecida, recebida e aceita mediante consentimento comum, como
padrão do justo e injusto e medida comum para resolver quaisquer controvérsias entre os homens. [...]
Em segundo lugar, no estado de natureza falta um juiz conhecido e indiferente com autoridade para
resolver quaisquer dissensões, de acordo com a lei estabelecida. [...]
Em terceiro lugar, no estado de natureza freqüentemente falta poder que apóie e sustente a sentença
quando justa, dando-lhe a devida execução.
[...]
Assim, os homens, apesar de todos os privilégios do estado de natureza, ao se verem apenas em más
condições enquanto nele permanecem, são rapidamente levados à sociedade. Daí resulta que raramente
encontramos qualquer grupo de homens vivendo dessa maneira. Os inconvenientes a que estão expostos pelo
exercício irregular e incerto do poder que todo homem tem de castigar as transgressões dos outros levam-nos a se
abrigarem sob as leis estabelecidas de governo e nele procurarem a preservação da propriedade. É isso que os leva
a abandonarem de boa vontade o poder isolado que têm de castigar, para que passe a exercê-lo um só individuo,
escolhido para isso entre eles e mediante as regras que a comunidade – ou os que com tal propósito forem por ela
autorizados – concorde em estabelecer. E nisso se contém o direito original dos poderes legislativos e executivo,
bem como dos governos e das sociedades. [...]
[...] E assim sendo, quem tiver o poder legislativo ou o poder supremo de qualquer comunidade obriga-se
a governá-la mediante leis estabelecidas, promulgadas e conhecidas pelo povo – e não por meio de decretos
extemporâneos – e mediante juízes imparciais e corretos, que terão de resolver as controvérsias conforme essas
leis. Obriga-se também a empregar a força da comunidade no seu território somente na execução de tais leis, ou
fora dele para prevenir ou remediar malefícios estrangeiros e garantir a sociedade contra incursões ou invasões. E
tudo isso tendo em vista nenhum outro objetivo senão a paz, a segurança e o bem-estar do povo.

Estado de Natureza, contrato social,

Estado Civil na filosofia de Hobbes, Locke e Rousseau

Marilena Chauí (profª de filosofia na USP e autora de vários livros)

(Do livro: Filosofia. Ed. Ática, São Paulo, ano 2000, pág. 220-223)

O conceito de estado de natureza tem a função de explicar a situação pré-social na qual os indivíduos existem
isoladamente. Duas foram as principais concepções do estado de natureza:
1. A concepção de Hobbes (no século XVII), segundo a qual, em estado de natureza, os indivíduos vivem
isolados e em luta permanente, vigorando a guerra de todos contra todos ou "o homem lobo do homem".
Nesse estado, reina o medo e, principalmente, o grande medo: o da morte violenta. Para se protegerem
uns dos outros, os humanos inventaram as armas e cercaram as terras que ocupavam. Essas duas atitudes
são inúteis, pois sempre haverá alguém mais forte que vencerá o mais fraco e ocupará as terras cercadas.
A vida não tem garantias; a posse não tem reconhecimento e, portanto, não existe; a única lei é a força do
mais forte, que pode tudo quanto tenha força para conquistar e conservar;
2. A concepção de Rousseau (no século XVIII), segundo a qual, em estado de natureza, os indivíduos vivem
isolados pelas florestas, sobrevivendo com o que a Natureza lhes dá, desconhecendo lutas e
comunicando-se pelo gesto, pelo grito e pelo canto, numa língua generosa e benevolente. Esse estado de
felicidade original, no qual os humanos existem sob a forma do bom selvagem inocente, termina quando
alguém cerca um terreno e diz: "É meu". A divisão entre o meu e o teu, isto é, a propriedade privada, dá
origem ao estado de sociedade, que corresponde, agora, ao estado de natureza hobbesiano da guerra de
todos contra todos.
O estado de natureza de Hobbes e o estado de sociedade de Rousseau evidenciam uma percepção do social como
luta entre fracos e fortes, vigorando a lei da selva ou o poder da força. Para fazer cessar esse estado de vida
ameaçador e ameaçado, os humanos decidem passar à sociedade civil, isto é, ao Estado Civil, criando o poder
político e as leis.
A passagem do estado de natureza à sociedade civil se dá por meio de um contrato social, pelo qual os indivíduos
renunciam à liberdade natural e à posse natural de bens, riquezas e armas e concordam em transferir a um terceiro
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– o soberano – o poder para criar e aplicar as leis, tornando-se autoridade política. O contrato social funda a
soberania.
Como é possível o contrato ou o pacto social? Qual sua legitimidade? Os teóricos invocarão o Direito Romano –
"Ninguém pode dar o que não tem e ninguém pode tirar o que não deu" – e a Lei Régia romana – "O poder é
conferido ao soberano pelo povo" – para legitimar a teoria do contrato ou do pacto social.
Parte-se do conceito de direito natural: por natureza, todo indivíduo tem direito á vida, ao que é necessário à
sobrevivência de seu corpo, e à liberdade. Por natureza, todos são livres, ainda que, por natureza, uns sejam mais
forte e outros mais fracos. Um contrato ou um pacto, dizia a teoria jurídica romana, só tem validade se as partes
contratantes foram livres e iguais e se voluntária e livremente derem seu consentimento ao que está sendo
pactuado.
A teoria do direito natural garante essas duas condições para validar o contato social ou o pacto político. Se as
partes contratantes possuem os mesmos direitos naturais e são livres, possuem o direito e o poder para transferir a
liberdade a um terceiro, e se consentem voluntária e livremente nisso, então dão ao soberano algo que possuem,
legitimando o poder da soberania. Assim, por direito natural, os indivíduos formam a vontade livre da sociedade,
voluntariamente fazem um pacto ou contrato e transferem ao soberano o poder para dirigi-los.
Para Hobbes, os homens reunidos numa multidão de indivíduos, pelo pacto, passam a constituir um corpo
político, uma pessoa artificial criada pela ação humana e que se chama Estado. Para Rousseau, os indivíduos
naturais são pessoas morais, que, pelo pacto, criam a vontade geral como corpo moral coletivo ou Estado.
A teoria do direito natural e do contrato evidencia uma inovação de grande importância: o pensamento político já
não fala em comunidade, mas em sociedade. A idéia de comunidade pressupõe um grupo humano uno,
homogêneo, indiviso, que compartilha os mesmos bens, as mesmas crenças e idéias, os mesmos costumes e que
possui um destino comum.
A idéia de sociedade, ao contrário, pressupõe a existência de indivíduos independente e isolados, dotados de
direitos naturais e individuais, que decidem, por uma ato voluntário, tornar-se sócios ou associados para vantagem
recíproca e por interesses recíprocos. A comunidade é a idéia de uma coletividade natural ou divina, a sociedade,
a de uma coletividade voluntária, histórica e humana.
A sociedade civil é o Estado propriamente dito. Trata-se da sociedade vivendo sob o direito civil, isto é, sob as
leis promulgadas e aplicadas pelo soberano. Feito o pacto ou o contrato, os contratantes transferiram o direito
natural ao soberano e com isso o autorizam a transformá-lo em direito civil ou direito positivo, garantindo a vida,
a liberdade e a propriedade privada dos governados. Estes transferiram ao soberano o direito exclusivo ao uso da
força e da violência, da vingança contra os crimes, da regulamentação dos contatos econômicos, isto é, a
instituição jurídica da propriedade privada, e de outros contratos sociais (como, por exemplo, o casamento civil, a
legislação sobre a herança, etc.).
Quem é o soberano? Hobbes e Rousseau diferem na resposta a essa pergunta.
Para Hobbes, o soberano pode ser um rei, um grupo de aristocratas ou uma assembléia democrática. O
fundamental não é o número dos governantes, mas a determinação de quem possui o poder ou a soberania. Esta
pertence de modo absoluto ao Estado, que, por meio das instituições públicas, tem o poder para promulgar e
aplicar as leis, definir e garantir a propriedade privada e exigir obediência incondicional dos governados, desde
que respeite dois direitos naturais intransferíveis: o direito à vida e à paz, pois foi por eles que o soberano foi
criado. O soberano detém a espada e a lei; os governados, a vida e a propriedade dos bens.
Para Rousseau, o soberano é o povo, entendido como vontade geral, pessoa moral, coletiva, livre e corpo político
de cidadãos. Os indivíduos, pelo contrato, criaram-se a si mesmos como povo e é a este que transferem os direitos
naturais para que sejam transformados em direitos civis. Assim sendo, o governante não é o soberano, mas o
representante da soberania popular. Os indivíduos aceitam perder a liberdade civil: aceitam perder a posse natural
para ganhar a individualidade civil, isto é, a cidadania. Enquanto criam a soberania e nela se fazem representar,
são cidadãos. Enquanto se submetem às leis e à autoridade do governante que os representa chamam-se súditos.
São, pois, cidadãos do Estado e súditos das leis.
John Locke e a teoria liberal – No pensamento político de Hobbes e de Rousseau, a propriedade privada não é
um direito natural, mas civil. Em outras palavras, mesmo que no estado de natureza (em Hobbes) e no estado de
sociedade (em Rousseau) os indivíduos se apossem de terras e bens, essa posse é o mesmo que nada, pois não
existem leis para garanti-la. A propriedade privada é, portanto, um efeito do contrato social e um decreto do
soberano. Essa teoria, porém, não era suficiente para a burguesia em ascensão.
De fato, embora o capitalismo estivesse em via de consolidação e o poderio econômico da burguesia fosse
inconteste, o regime político permanecia monárquico e o poderio político e o prestígio social da nobreza também
permaneciam. Para enfrentá-los em igualdade de condições, a burguesia precisava de uma teoria que lhe desse
uma legitimidade tão grande ou maior do que o sangue e a hereditariedade davam à realiza e à nobreza. Essa
teoria será a da propriedade privada como direito natural e sua primeira formulação coerente será feita pelo
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filósofo inglês Locke, no final do século XVII e início do século XVIII.


Locke parte da definição do direito natural como direito à vida, à liberdade e aos bens necessários para a
conservação de ambas. Esses bens são conseguidos pelo trabalho.
Como fazer do trabalho o legitimador da propriedade privada enquanto direito natural?
Deus, escreve Locke, é um artífice, um obreiro, arquiteto e engenheiro que fez uma obra: o mundo. Este, como
obra do trabalhador divino, a ele pertence. É seu domínio e sua propriedade. Deus criou o homem à sua imagem e
semelhança, deu-lhe o mundo para que nele reinasse e, ao expulsá-lo do Paraíso, não lhe retirou o domínio do
mundo, mas lhe disse que o teria com o suor de seu rosto. Por todos esse motivos, Deus instituiu, no momento da
criação do mundo e do homem, o direito à propriedade privada como fruto legítimo do trabalho. Por isso, de
origem divina, ela é um direito natural.
O Estado existe a partir do contrato social. Tem as funções que Hobbes lhe atribui, mas sua principal finalidade é
garantir o direito natural da propriedade.
Dessa maneira, a burguesia se vê inteiramente legitimada perante a realeza e a nobreza e, mais do que isso, surge
como superior a elas, uma vez que o burguês acredita que é proprietário graças ao seu próprio trabalho, enquanto
reis e nobres são parasitas da sociedade.
O burguês não se reconhece apenas como superior social e moralmente aos nobres, mas também como superior
aos pobres. De fato, se Deus fez todos os homens iguais, se a todos deu a missão de trabalhar e a todos concedeu o
direito à propriedade privada, então, os pobres, isto é, os trabalhadores que não conseguem tornar-se proprietários
privados, são culpados por sua condição inferior. São pobres, não são proprietários e são obrigados a trabalhar
para outros seja porque são perdulários, gastando o salário em vez de acumulá-lo para adquirir propriedades, seja
porque são preguiçosos e não trabalham o suficiente para conseguir uma propriedade.
Se a função do estado não é a de criar ou instituir a propriedade privada, mas de garanti-la e defendê-la contra a
nobreza e os pobres, qual é o poder do soberano?
A teoria liberal, primeiro com Locke, depois com os realizadores da Independência norte-americana e da
Revolução Francesa, e finalmente, no século XX, com pensadores como Max Weber, dirá que a função do Estado
é tríplice:
1. Por meio das leis e do uso legal da violência (exército e polícia), garantir o direito natural de propriedade,
sem interferir na vida econômica, pois, não tendo instituído a propriedade, o Estado não tem poder para
nela interferir. Donde a idéia de liberalismo, isto é, o Estado deve respeitar a liberdade econômica dos
proprietários privados, deixando que façam as regras e as normas das atividades econômicas;
2. Visto que os proprietários privados são capazes de estabelecer as regras e as normas da vida econômica
ou do mercado, entre o Estado e o indivíduo intercala-se uma esfera social, a sociedade civil, sobre a qual
o Estado não tem poder instituinte, mas apenas a função de garantidor e de árbitro dos conflitos nela
existentes. O Estado tem a função de arbitrar, por meio das leis e da força, os conflitos da sociedade civil;
3. O Estado tem o direito de legislar, permitir e proibir tudo quanto pertença à esfera da vida pública, mas
não tem o direito de intervir sobre a consciência dos governados. O Estado deve garantir a liberdade de
consciência, isto é, a liberdade de pensamento de todos os governados e só poderá exercer censura nos
casos em que se emitam opiniões sediciosas que ponham em risco o próprio Estado.
Na Inglaterra, o liberalismo se consolida em 1688, com a chamada Revolução gloriosa. No restante da Europa,
será preciso aguardar a Revolução Francesa de 1789. Nos Estados Unidos, consolida-se em 1776, com a luta pela
independência.
Aula 2:Outras teorias sobre a gênese do Estado e Conceito de Estado
VII) Outras teorias sobre a gênese do Estado
a) Teoria Patriarcal de Robert Filmer: transição do poder familiar para o poder estatal. Não
existe registro etnográfico de sociedade matriarcal na história humana somente sociedades
matrilineares em que a definição dos bens em sucessão se dá pela linha materna.
b) Teoria Patrimonial de Friedrich Engels: o Estado se estrutura para garantir a propriedade
privada ( “A origem da Família, da propriedade privada e do Estado”)
c) Teoria da origem violenta de Franz Openheimer. O Estado nasce da rivalidade de
diferentes Tribos, que se organizam para a guerra.
d) Teoria da Formação Natural, Maurice Hariou diversos motivos conspiram para o
nascimento estatal.
e) Teoria da Formação Jurídica de Carré de Malberg: o Estado nasce com a formalização
jurídica, com a definição de competências e atribuições.
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VIII) Conceito de Estado

A) Conceito Filosófico: Segundo Hegel, o Estado é uma formação pemanente dialética entre
a família, a sociedade e o Estado. Na verdade, há 3 fases analíticas para a formação estatal:
▪ Tese - Família
▪ Antítese - Sociedade
▪ Síntese – Estado
▪ Idealismo Hegeliano: o Estado existe abstratamente
B) Conceito Sociológico: Segundo Weber, o Estado é a instituição que mopoliza a força na
sociedade.
C) Conceito Jurídico: segundo Georg Jellinek o Estado é uma mera abstração, uma ficção
jurídica. Dimensões Estatais.
- retrospectivas origem
-perspectivas: elementos
-perspectivas: futuro
E transformação do Estado
Texto de trabalho:
O Estado
Livro: Introdução à História do Pensamento Político – Antônio Carlos Wolkmer – página 313
O fenômeno estatal, para Marx, está intimamente ligado com sua filosofia da História. O conjunto das
reflexões marxianas sobre o Estado deve ser compreendido a partir de seu horizonte teórico fundamental, de sua
compreensão da história como um processo concreto, partindo de uma síntese do materialismo de Feuerbach com
a dialética hegeliana, como já referido antes. Nesta perspectiva, o Estado surge, pelo menos o Estado burguês, a
partir de uma compreensão do movimento da história, da luta interna de seus atores, para a criação e a reprodução
das suas condições materiais de existência.
Vários textos, em diversas fases da produção do pensamento marxiano, abordam a questão do Estado e,
tendo em vista os limites deste trabalho, cabe pinçar algumas noções fundamentais, sem atender, em determinados
momentos, a uma ordem diacrônica. Nesse sentido, parece relevante ressaltar que, no Prefácio para Contribuição
Crítica da Economia Política, Marx já espelhava o resultado do seu rompimento filosófico com a tradição
hegeliana, no que tange ao idealismo. No referido prefácio, afirma Marx.
Minha investigação desembocou no seguinte resultado: relações jurídicas, tais como as formas de
Estado, não podem ser compreendidas nem a partir de si mesmas, nem a partir do assim chamado
desenvolvimento geral do espírito humano, mas, pelo contrário, elas se enraízam nas relações materiais de vida,
cuja totalidade foi resumida por Hegel sob o nome de “sociedade civil”, seguindo os ingleses e os franceses do
século XVIII.
Ainda no prefácio da crítica da economia política, há uma passagem decisiva, na qual Marx resume
aquilo que denominara como o “fio condutor” dos seus estudos político-econômicos:
(...) na produção social de sua vida, os homens contraem relações determinadas, necessárias e
independente de sua vontade, relações de produção estas que correspondem a uma etapa determinada de
desenvolvimento das forças produtivas materiais. A totalidade dessas relações de produção forma a estrutura
econômica da sociedade, a base real sobre a qual se levanta uma superestrutura jurídica e política, e a qual
correspondem formas sociais determinadas de consciência. O modo de produção da vida material condiciona o
processo geral da vida social, política e espiritual.
Os excertos acima transcritos dão, em linhas gerais, a arquitetura geral do “Modo de Produção”, categoria
fundamental do arcabouço teórico marxiano, além de inserir o Estado no campo da “superestrutura”, arrima-se nas
condições materiais de existência de uma dada sociedade. Importante notar que os valores “paz”, “segurança” e
“propriedade”, até então concebidos como valores universais inatos a serem protegidos pelo Estado, passam a ser
encarados num processo histórico de lutas e contradições. Para Marx, o estabelecimento dessas condições reais de
produção, nas quais se erigira a “superestrutura”, parte de uma tensão fundamental entre os homens: a luta de
classes.
A noção de exploração do homem pelo próprio homem, expressa pela luta de classes, também está na
base da concepção materialista dialética de história. Esse é um ponto importante, na medida em que os
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contratualistas do século XVIII representavam, a partir do que se concebeu como estado de natureza, um
momento primeiro de tensão e insegurança na história humana. Para eles, o surgimento do Estado era o que
viabilizava a convivência e a paz de todos. Ou seja, o Estado, como instituição política, surgiria como superação
ou apaziguamento das tensões inerentes ao convívio humano do estado de natureza, no qual reinaria a liberdade
absoluta. Marx, de outro modo, pensava num momento de convívio comunal inicial, de produção e repartição
comum dos bens, cujo rompimento se daria justamente a partir da acumulação privada, por parte de um dado
segmento social.
De alguma forma, parece ser possível asseverar que Marx, ao analisar a origem e desenvolvimento do
Estado, inverte a lógica até então propalada acerca da superação do estado de natureza rumo a construção da
sociedade política. Dito de outra forma: antes do Estado, haveria uma situação comunal, livre e solidária. Nesse
sentido, pode-se afirmar que o Estado surge, na visão marxiana para quebrar essa situação de equilíbrio do
comunismo primitivo, em favor da manutenção da concentração de bens por parte de alguns. Essa imagem do
passado, de um comunismo primitivo, abala, como infere Löwy, a representação burguesa do estado de natureza,
bem como a idéia de que a propriedade privada ou o mercado seriam elementos decorrentes da natureza humana.
Ainda sobre a questão da origem do Estado, cabe destacar a célebre passagem da obra Origem do Estado,
da família e da propriedade privada, na qual Engels, partindo do estudo do etnólogo Morgan, sintetiza a função do
Estado:
Estado não é pois, de modo algum, um poder que se impôs à sociedade de fora para dentro; tampouco é
a “realização da idéia moral”, nem a “imagem e a realidade da razão”, como afirma Hegel. É antes um produto
da sociedade, quando esta chega a um determinado grau de desenvolvimento; é a confissão de que não consegue
conjurar (...). Este poder nascido da sociedade, mas posto acima dela se distanciando cada vez mais, é o Estado.
Marx comunga com Engels a idéia de que o Estado, como manifestação social, não é uma realidade
imanente à razão. Do ponto de vista da crítica direta, a organização política a que Marx e Engels se referem, ao
longo de suas vidas, é o Estado Burguês surge sob o falso corolário de proteção do bem comum, como estrutura
de manutenção dos antagonismos de classe, da exploração manifestada pela ambivalência entre a capital e
trabalho, alienação e exploração. Desta forma, o Estado moderno, no Manifesto Comunista, é simbolicamente
retratado como “um comitê que administra os negócios comuns da classe burguesa como um todo”.
Tem-se, pois, no que diz respeito ao conceito marxiano de Estado, uma radical crítica às doutrinas que
estabeleciam uma matriz contratualista-liberal de Estado, no século XVIII. De outra forma, vê-se, também, uma
crítica à perspectiva hegeliana, que concebe o Estado como um fundamento moral, expressão de uma
racionalidade imanente do espírito absoluto de um povo.
Aula 3: Elementos do Estado
IX) Elementos do Estado

A) Povo: é o elemento humano, são as pessoas que formam a sociedade de um Estado. Em regra,
possuem uma certa uniformidade étnica, que se exarceba com o confronto com outra etnia.
B) Território: É o elemento territorial geográfico, espacial, que vincula o Estado a uma área
específica que se deseja conservar e expandir.
C) Cultura: é uma reunião de fatores, alguns prepoderantes e outros menos. Forma um passado
histórico comum daquele Estado. São subdivisões do elemento cultural a língua ou dialetos, a
religião e as festas rituais. Estes elementos formam o espírito do Estado. Comumente, qualifica-se
de “nação” o termo que une o povo com uma cultura específica. Segundo o abade Emmanuel
Sieyes, seria a nação um ente abstrato que transcende o indivíduo, forma o Direito e pertence a
diversas gerações diferentes ao longo do tempo.
D)Finalidade: É a aspiração de um Estado, que advém de um sentimento de pertencimento à
comunidade e de comunhão de um projeto de futuro.
Obs. Povo x População – observe a diferença: povo é o elemento do Direito e da Ciência Política e
população é o elemento da geografia e da demografia.

X) Elemento de característica essencial dos Estados

Soberania
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A soberania estatal é o poder supremo e absoluto que marca o Estado em comparação com
todos os demais poderes sociais ou instituições organizadas da sociedade. É um poder permanente,
uno e indivisível, que pode ser exercido por diferentes instituições dependendo do desenho que
possui o aparato estatal. A Doutrina da Sabedoria foi desenvolvida pelo francês Jean Bodin, no
século XVII, como um meio de se caracterizar o Estado com o fim do feudalismo e a necessidade
de consolidação/unificação dos países sob uma única proteção estatal.
A) Teorias Teocráticas (Governo de Deus): Fundamentam a titulariedade da soberania na
relação do poder secular com o poder temporal.
Subdivide-se em 3:
- Teoria do poder divino: a soberania pertence a um soberano que é uma divindade.
- Teoria da Investidura Divina: a soberania carece de aprovação divina para se legitimar.
Ex. Doutrina do Direito Divino dos Reis
- Teoria da Investidura Civil com aprovação divina: existe uma mera aprovação geral dos
Estados voltados à concretização do “bem comum”.
B) Teoria Democrática
- Teoria da soberania nacional, desenvolvida por Sieyes (cf. com definição de nação)
− Teoria da Soberania Popular (cf. com Rousseau)

Texto de trabalho:
Soberania e superação do Estado Constitucional moderno
Paulo Márcio da Cruz – .www.jusnavigandi.com.br

"Soberania é o conceito, ao mesmo tempo político e jurídico, em que confluem todos os problemas e contradições
da teoria positivista do Direito e do Estado Constitucional Moderno" Luigi Ferrajoli (1999, p. 125).
O conceito de Soberania, historicamente, esteve vinculado à racionalização jurídica do Poder, no sentido de
transformação da capacidade de coerção em Poder legítimo. Ou seja, na transformação do Poder de Fato em Poder
de Direito, configurando um dos pilares teóricos do Estado Constitucional Moderno.
Bobbio (1994, p. 1179) indica que o conceito de Soberania pode ser concebido de maneira ampla ou de maneira
estrita. Em sentido lato, indica o Poder de mando de última instância, numa Sociedade política e,
conseqüentemente, a diferença entre esta e as demais organizações humanas, nas quais não se encontra este Poder
Supremo. Este conceito está, assim, intimamente ligado ao Poder político. Já em sentido estrito, na sua
significação moderna, o termo Soberania aparece, no final do Século XVI, junto com o Estado Absoluto, para
caracterizar, de forma plena, o Poder estatal, sujeito único e exclusivo da política.
Com a superação do Estado Absoluto e o conseqüente surgimento do Estado Constitucional Moderno, a
Soberania foi transferida da pessoa do soberano para a Nação, seguindo a concepção racional e liberal defendida
por pensadores como Emanuel Joseph Sieyès, expressa em sua obra A Constituinte Burguesa e sistematizada por
meio de sua teoria do Poder Constituinte.
Sieyès (1986, p. 113) estabeleceu a doutrina da Soberania da Nação, dizendo que "em toda Nação livre – e toda
Nação deve ser livre – só há uma forma de acabar com as diferenças que se produzem com respeito à
Constituição. Não é aos notáveis que se deve recorrer, é à própria Nação" Foi com essa posição que Sieyès
concebeu, racionalmente, o princípio da Soberania da Nação como instrumento de legitimação para a instituição
do Estado Constitucional Moderno.
Assim, a proclamação da Soberania como independência ante qualquer poder externo tornou-se uma
manifestação característica e essencial do Estado Constitucional Moderno desde seu início. A consolidação do
princípio democrático supôs a reafirmação da Soberania com relação ao exterior, passando a ser proibida qualquer
interferência nas decisões internas da comunidade, adotadas livremente por esta. Em muitos casos, como nos
movimentos pela independência colonial, estavam unidas aspirações pelo estabelecimento do sistema democrático
e a consecução da independência nacional.
A Soberania Nacional, a partir do final da Segunda Guerra Mundial, passou a debater-se para conciliar-se com
um fato inegável: que as comunidades políticas – os Estados – passaram a fazer parte de uma sociedade
internacional, regida por normas próprias. O Estado Constitucional Moderno Soberano encontrou-se,
forçosamente, vinculado a obrigações externas, obrigações estas que tiveram origens muito diversas. Podem ter
sido resultado de tratados bilaterais, de convenções multilaterais ou podem ter sido resultado da existência,
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reconhecida e consolidada, de uma prática costumeira no âmbito internacional (CRUZ, 2001, p. 247).
Hodiernamente, o descumprimento de obrigações internacionais pode acarretar sanções importantes por parte
dos outros Estados, normalmente representados por um organismo específico. Progressivamente, o
ordenamento internacional passou a dispor de mais armas, jurídicas e econômicas, destinadas a assegurar o
cumprimento dessas sanções, sempre numa perspectiva de conflito.
A existência de uma Sociedade internacional e, conseqüentemente, de obrigações vinculantes para o Estado
Constitucional Moderno, não é incompatível, em princípio, com a Soberania deste. Tal compatibilidade é
resultado do princípio de que os compromissos internacionais do Estado derivam do consentimento deste mesmo
Estado.
Hans Kelsen (1969, p. 421), referindo-se à vinculação do Estado Constitucional Moderno por meio de tratados,
escreveu que "em regra geral, pode-se dizer que o tratado não prejudica a soberania, já que, definitivamente, esta
limitação se baseia na própria vontade do Estado limitado; mais ainda: em virtude desta limitação, fica assegurada
a soberania estatal". Conforme essa construção histórica, o Estado Constitucional Moderno assume
voluntariamente suas obrigações internacionais, ficando, dessa forma, submetido ao Direito Internacional por sua
própria vontade soberana.
Como reflexo desta concepção, as Constituições passaram a prever que o Estado Constitucional Moderno
"soberano" poderia assumir voluntariamente obrigações internacionais. Dessa forma, ficaria ressalvada a doutrina
da Soberania. Acrescente-se que essas obrigações dependeriam, pelo menos as mais importantes, da aprovação
dos respectivos parlamentos representantes do povo. Mesmo que seja o Poder Executivo o encarregado de gerir as
relações internacionais, passou a ser exigido que os tratados fossem aprovados pelos parlamentos.
Até pouco tempo, essa construção teórica bastava para a discussão sobre a inserção do Estado do âmbito
internacional, porém sabe-se que a realidade atual não corresponde a ela. Com a crescente inter-relação e
interdependência entre Estados e a consolidação de princípios norteadores do comportamento entre eles foi sendo
provocada, de maneira evidente, a consolidação de uma ordem jurídica internacional, cuja força vinculante é
difícil de explicar em virtude da "aceitação" de cada Estado.
Antônio Celso Alves Pereira (2004, p. 631), no mesmo sentido, comenta que a Sociedade internacional, em seu
atual estágio, por um lado definido pela interação cultural decorrente das facilidades de comunicação e transportes
e, por outro, explicado pela globalização interdependente em vigor no planeta, não pode mais considerar o
conceito de Soberania absoluta.

Soberania e Globalização

A mundialização atua restritivamente sobre as "senhas" da Soberania. Um enfoque geral pode não ser
suficiente, na medida em que possa marginalizar uma parte muito importante dos dados. Efetivamente, ainda que
seja característico do atual processo de superação do Estado Constitucional Moderno, a cessão (ou
desaparecimento) de algumas de suas funções tradicionais, seja a favor de órgãos supranacionais, seja em favor
dos poderes privados, existe uma área na qual o processo parece haver se invertido. Trata-se dos controles de
fronteiras e, em geral, dos processos migratórios.
Em todo caso, não parece existir teoria capaz de integrar adequadamente o processo de liquefação do Estado
Constitucional Moderno como resultado da mundialização e o simultâneo reforço dos controles de imigração.
Sem dúvidas, até agora as teorias sobre a mundialização ignoraram esses fatos e ativeram-se, principalmente, à
crise da Soberania Moderna (DEL CABO, 2000, p.20). Opera-se aqui a discussão da terceira hipótese de pesquisa
nesse artigo.
As piores conseqüências nesse sentido, como observa Michel Albert (1993, p. 292) e como tem sido ao longo
da história do Estado do Estado Constitucional Moderno, estão se manifestando em países pobres ou em
desenvolvimento. Como diz Albert, atualmente estão os ricos ainda mais ricos e pobres cada vez mais lisos (sem
recursos), iletrados e excluídos.
Dessa maneira, o Estado Constitucional Moderno acaba subordinado a um tipo de constitucionalismo mercantil
global, não dirigido a controlar os poderes, mas sim a liberá-los, elevando a uma série de interesses corporativos
as normas do ordenamento jurídico internacional. A dependência das sociedades nacionais às empresas e
financeiras transnacionais é de tal ordem, que qualquer pronunciamento de agências privadas internacionais de
avaliação de crédito e risco acabam provocando instabilidade política, provocando crises monetárias, enfim,
criando dificuldades de toda ordem para o Estado Constitucional Moderno (PEREIRA, 2004, p. 631).
Esse fenômeno, por sua vez, se traduz numa degradação do Direito do Estado Constitucional Moderno, que tem
que co-existir com um Direito, não oficial, ditado por múltiplos centros criadores de normas jurídicas. Estes
centros, por seu poder econômico, acabam transformando seus interesses em normas jurídicas, disputando com o
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Estado o monopólio da violência e do Direito (DEL CABO, 2000, p. 32).


O grande desafio neste século XXI será encontrar uma nova forma de organização político-jurídica que
compatibilize estas tendências de globalização econômica com a necessidade premente de distribuição de
riquezas, de justiça social e de uma nova concepção de civilização.
O exame da realidade do mundo, nos dias de hoje, bem como as modificações havidas na trajetória histórica do
Estado Constitucional Moderno, levam à verificação de que houve uma mudança estratégica na sua postura, tanto
no plano internacional como no interno, caminhando-se, a passos largos, para a superação de seu conceito
jurídico, conforme ele foi concebido como nacional, territorial e soberano (POLETTI, 1996, p.142).
Sob o ângulo econômico, também o Estado Constitucional Moderno Soberano não se sustenta. Na verdade, em
face da economia mundial, a par do fenômeno das comunicações velozes, a soberania estatal perde sua substância.
A planetarização da economia gerou relações de interdependência, na quais os Estados têm sido, no mínimo,
obrigados a reunirem-se em grupos, as fronteiras comerciais desaparecem e a moeda nacional será, pouco a
pouco, substituída por outro instrumento comum de troca e de compra e venda.
Com o advento da globalização econômica, podemos constatar a crise ou o declínio do Estado Constitucional
Moderno, decorrente da transnacionalização da economia, respaldada pela teoria econômica do neoliberalismo,
em face da gradual erosão da Soberania, da obsolescência das fronteiras nacionais, do retraimento da esfera
pública em favor do mercado e da perda dos direitos políticos dos cidadãos como resultado do esvaziamento da
sua participação política (LIMA, 2004, p.154).
Países como o Brasil que, assim como toda América Latina, desde sua independência se debatem para encontrar
seu modelo de desenvolvimento completo, não só o econômico, está no "olho do furacão" da economia
globalizada e encontram dificuldades em vislumbrar – e propor - outras alternativas, pelo menos a curto e médio
prazos.
O Estado Constitucional Moderno não consegue mais dar respostas minimamente consistentes às sociedades
atuais. Mesmo nos países ricos, como já registrado, está sendo substituído por conglomerados financeiros e
industriais ou dominado por seus tentáculos.
A noção de Estado Constitucional Moderno Soberano se transforma cada vez mais em uma categoria oca e sem
conteúdo. É um mero critério formal de caracterização. É provável que se esteja vivendo o "tempo de transição"
entre a modernidade e a era que a substituirá e, em conseqüência, de superação da Soberania Moderna
(FERRAJOLI, 1999. p.149). Hoje, graças à rapidez das comunicações, todos os fatos que ocorrem no mundo são
de interesse de todos os habitantes do planeta, assim como nenhuma parte do planeta pode ser esquecida.
Deve ser objeto de consideração a real perda do poder soberano do Estado, com a ascensão de novas fontes de
produção jurídica. Em nível externo, como já foi visto, o fenômeno das integrações regionais exclui da capacidade
decisória da organização estatal diversos tópicos, que passam a serem regidos por meio de acordos internacionais
(DOBROWOLSKI, 2000. p.305).
Tudo leva a crer que o principal fator dessas crises cíclicas esteja localizado exatamente no próprio Estado
Constitucional Moderno. Ou, melhor dizendo, é o próprio Estado Constitucional Moderno.
Pode-se especular, já sem muita preocupação com erro essencial, que o Estado – pelo menos o Estado
Constitucional Moderno surgido das revoluções burguesas do Século XVIII – já seja uma construção político-
jurídica insuficiente para atender à complexidade da Sociedade atual (OLLER I SALA, 2002. p. 10) Os motivos
pelos quais o Estado Constitucional Moderno foi concebido há mais de dois séculos, como o individualismo,
capitalismo, economia de mercado e acumulação de riqueza ilimitada, em suas versões globalizadas, podem
determinar seu desaparecimento.
Essa tendência colabora para modificar substancialmente a Soberania como um dos paradigmas teóricos
fundamentais sobre os quais se há sustentado o poder e a legitimidade do Estado Constitucional Moderno. Na
verdade, nos encontramos diante de uma profunda crise do Estado Constitucional Moderno, tal como foi
concebido até o presente.
Definitivamente, a Soberania no seu sentido clássico deixou de existir. Trata-se, agora, de uma Soberania
limitada, compartilhada ou parcial, coisa que é contraditória com sua própria definição. A noção de Estado
Constitucional Moderno Soberano, desenvolvida nos séculos XVII e XVIII, se constituiu num autêntico progresso
em comparação com a noção de feudalismo da Idade Média, mas hoje se converte num verdadeiro freio para
questões vitais para a sobrevivência do mundo. Nesse sentido, o Estado Constitucional Moderno tornou-se muito
pequeno para os grandes problemas e demasiado grande para os pequenos problemas, em referência que Oller I
Sala faz a Daniel Bell (2001, 45).
Ou como escreve Ulrich Beck (2004, p. 45), ao afirmar que a Soberania da informação, por exemplo, do Estado
Constitucional Moderno, como parte da Soberania política, faleceu. O Estado Constitucional Moderno já não pode
continuar vivendo esse ambiente de conflito internacional. Sua atuação fora de suas fronteiras é desastrosa.
O Estado Constitucional Moderno verdadeiramente Soberano, na acepção do termo, não poderia jamais
16

abandonar sua Soberania e nem consentir que fosse restringida (MARITAIN, 1983. p. 216). Enquanto o corpo
político, que não é soberano, mas tem direito à plena autonomia, pode livremente abandonar esse direito – à
autonomia – se reconhece que já não é uma Sociedade perfeita e decide entrar numa Sociedade mais vasta,
verdadeiramente dotada dos pressupostos de uma Sociedade justa, transnacional, pautada por solidariedade e
cooperação.
O futuro do Estado Constitucional Moderno é certamente voltado ao seu esgotamento Deve-se ter em conta que
os atuais estados constitucionais modernos constituíram, em seu momento, uma resposta institucional necessária
diante de novas formas de organização social surgidas depois da Idade Média. Está-se numa situação semelhante,
atualmente. Tudo dependerá da capacidade para teorizar outro tipo de Estado, fora dos paradigmas teóricos do
Estado Constitucional Moderno.
Resta saber quem serão os substitutos de Descartes, Bodin, Hobbes, Rousseau, Adam Smith, Mill, Locke,
Constant, Kant e Sieyès, para citar apenas alguns dos "construtores teóricos" daquilo que seria uma inevitabilidade
histórica, como afirmou Francis Fukuyama [05].

Aula 4: Legalidade e Legitimidade do Poder Estatal


XI) Legalidade e Legitimidade do Poder Estatal

A) Legalidade: é o caráter geral de respeito às normas jurídicas estatais.


B) Legitimidade: Marx Weber fundamentou três formas de legitimação do poder do Estado.
- Legitimidade tradicional: é baseada nos costumes, na tradição que marcou todas as
monarquias hereditárias.
- Legitimidade carismática: É baseada no carisma de um líder, na empatia misteriosa,
injustificável, sobrenatural que ele desenvolve com seus súditos ou com o povo. Ex. Estados
populistas e totalitários, liderança cristã.
- Legitimidade racional – Legal ou Racional – Burocrática: é a justificação do poder estatal
pelo direito (generalidade das leis, moral, pré-compreensão da lei, segurança jurídica,
independência do judiciário) e por pressupostos técnicos de justificação do racional de ação e
ocupação do Estado (concurso público, divisão das funções e tarefas estatais). Itália e Alemanha
Texto de trabalho:
Três Tipos Puros de Poder Legítimo - Max Weber
Livro três tipos puros de poder legitimo – Max Weber - páginas 1 a 16
Legitimidade do poder; razões de legitimidade

O poder, isto é, a possibilidade de encontrar obediência a uma ordem determinada, pode assentar em
diferentes motivos de acatamento: pode ser condicionado apenas pela situação de interesses, portanto, por
considerações teleológico-racionais das vantagens e desvantagens por parte de quem obedece. Ou, além disso,
mediante o simples “costume”, pela habituação monótona à ação tornada familiar; ou pode ser justificado pela
tendência puramente afetiva, simplesmente pessoal do governado. Um poder que se baseasse apenas em
semelhantes fundamentos seria relativamente lábil. Nos governantes e nos governados, o poder costuma antes
assentar internamente em razões jurídicas, razões da “sua legitimidade”, e o abalo desta fé legitimadora costuma
ter consequências de vasto alcance.
Nas “razões de legitimidade” do poder há, numa forma de todo pura, apenas três, das quais – no tipo puro
– cada uma está ligada a uma estrutura sociológica radicalmente diversa do corpo administrativo e dos meios da
administração.

Poder legal
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I. O poder legal em virtude de estatuto. O tipo mais puro é o poder burocrático. A idéia fundamental é
que, através de um estatuto arbitrário formalmente correto, se podia criar qualquer direito e alterar [opcionalmente
o existente]. A associação de poder é ou escolhida ou imposta; ela própria e todas as suas partes são empresas.
Uma empresa (parcial) heterônoma e heterocéfala devem ter o nome de autoridades. O corpo administrativo
consiste em funcionários nomeados pelo senhor, os súbditos são membros da associação (“cidadãos”,
“camaradas”).
Não se obedece à pessoa, em virtude do seu direito próprio, mas da regra estatutária que determina a
quem e enquanto se lhe deve obedecer. Quem ordena obedece também, ao promulgar uma ordem, a uma regra: à
lei ou ao “regulamento”, a uma norma formalmente abstrata.
O tipo daquele que ordena é o “superior”, cujo direito governativo é legitimado pela regra estatutária,
dentro de uma “competência” objetiva, cuja limitação se funda na especialização segundo a teleologia objetiva e
segundo as pretensões profissionais de desempenho do ofício.
O tipo do funcionário é o funcionário especializado instruído, cuja situação de serviço assenta no
contrato, com salário fixo, gradual de acordo com a categoria do ofício, não segundo a medida do trabalho, e com
o direito a reforma segundo regras fixas da promoção. A sua administração é trabalho profissional em virtude da
obrigação oficial objetiva; o seu ideal é ordenar, “sine ira et studio”, sem qualquer influência de motivos pessoais
ou interferências emocionais, sem arbítrio e imprevisibilidade, sobretudo “sem acepção da pessoa”, de um modo
rigorosamente formalista, segundo regras racionais e – onde estas falham – segundo pontos de vista de
praticabilidade “objetivos”. A obrigação de obedecer é gradual numa hierarquia de ofícios com a submissão dos
inferiores aos superiores e com processos de recurso regulamentados.

A base do funcionamento técnico é: a disciplina empresarial.

1. No tipo do poder “legal” inclui-se, naturalmente, não só a estrutura moderna do Estado e da comunidade, mas
também a relação de domínio na empresa capitalista privada, numa associação de fins ou união de qualquer
espécie, que dispõe de um numeroso corpo administrativo e hierarquicamente articulado. As modernas
associações políticas são apenas os representantes mais proeminentes do tipo. O poder na empresa capitalista
privada é, sem dúvida, parcialmente heterônomo: o ordenamento é, em parte, estatalmente prescrito - e, em
relação ao corpo coercivo, inteiramente heterocéfalo: o corpo judicial estatal e o corpo policial cumprem
(normalmente) estas funções – mas são autocéfalos na sua organização administrativa cada vez mais burocrática.
Que a entrada na associação de poder se siga formalmente de um modo livre em nada altera o caráter do
poder, pois a notificação é também formalmente “livre”, e isto sujeita normalmente os governados às normas
empresariais, devido às condições do mercado de trabalho; a afinidade sociológica do caráter do poder com o
moderno poder estatal tornará ainda mais saliente a discussão dos fundamentos econômicos da dominação. A
validade do “contrato” como base inscreve a empresa capitalista num tipo proeminente da relação de poder
“legal”.

2. A burocracia é o tipo tecnicamente mais puro de poder legal.

Mas nenhum poder é só burocrático, isto é, gerido apenas mediante funcionários contratualmente
recrutados e nomeados. Tal não é possível. As cúpulas mais altas das associações políticas são ou “monarcas”
(governantes carismáticos por herança, cf. adiante) ou “presidentes” eleitos pelo povo (portanto, senhores
carismáticos plebiscitários, cf. adiante) ou eleitos por uma corporação parlamentar, onde, em seguida, os seus
membros ou, melhor, os líderes, mais carismáticos ou mais notáveis (cf. adiante), dos seus partidos
predominantes, são os senhores efetivos. Também quase em nenhum lado é, de fato, o corpo administrativo
puramente burocrático, mas nas mais variadas formas, em parte os notáveis, em parte os representantes de
interesses costumam participar na administração (sobretudo, na chamada auto-administração).
Decisivo é, porém, que o trabalho contínuo assente de modo preponderante e crescente nas forças
burocráticas. Toda a história da evolução do Estado moderno se identifica, em especial, com a história do
funcionalismo moderno e da empresa burocrática (cf. adiante), tal como toda a evolução do moderno capitalismo
avançado se identifica com a crescente burocratização da empresa econômica. A participação das formas
burocráticas do governo aumenta em toda a parte.
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3. A burocracia não é o único tipo de poder legal.

O funcionalismo por turnos, por sorte e por escolha, a administração parlamentar e por comissões e todas
as espécies de corpos colegiais de governo e administração aqui se inscrevem, na suposição de que a sua
competência se baseia em regras estatutárias e o exercício do direito governativo corresponde ao tipo da
administração legal. Na época da emergência do Estado moderno, as corporações colegiais contribuíram de modo
muito essencial para o desenvolvimento da forma legal de poder, e a elas deve o seu aparecimento, sobretudo o
conceito de “autoridade”. Por outro lado, o funcionalismo por eleição desempenha um grande papel na pré-
história da moderna administração por funcionários (e também hoje nas democracias).

Poder tradicional

II. Poder tradicional, em virtude da fé na santidade dos ordenamentos e dos poderes senhoriais desde sempre
presentes. O tipo mais puro é a dominação patriarcal. A associação de poder é a agremiação, o tipo de quem
manda é o “senhor”, o corpo administrativo são “servidores”, os que obedecem são os “súbditos”. Obedece-se à
pessoa por força da sua dignidade própria, santificada pela tradição: por piedade. O conteúdo das ordens é
vinculado pela tradição, cuja violação inconsiderada por parte do senhor poria em perigo a legitimidade do seu
próprio poder, que assenta apenas na sua santidade. Criar um novo direito em face das normas tradicionais surge,
em princípio, como impossível. Na realidade, tem ele lugar mediante o “conhecimento” de uma proposição como
“valendo desde sempre” (através da “profecia”). Pelo contrário, fora das normas de tradição, a vontade do senhor
está vinculada apenas por limites que o sentimento de equidade traça no caso singular, portanto, de modo
extremamente elástico: o seu poder divide-se, pois, numa região estritamente cimentada pela tradição e noutra da
livre graça e arbítrio, em que ele governa segundo o agrado, a afeição, a aversão, e, sobretudo também mediante
favores pessoais a pontos de vista influentes. Mas na medida em que à administração e à arbitragem de conflitos
estão subjacentes princípios, são eles os da sensatez ética material, da justiça ou da praticabilidade utilitarista, não
os de natureza formal, como no poder legal. De igual modo procede ao seu corpo administrativo. Consiste este em
dependentes pessoais (elementos ou funcionários domésticos) ou em parentes ou amigos pessoais (favoritos) ou
naqueles que estão obrigados pelo vínculo pessoal de fidelidade (vassalos príncipes tributários). É inexistente o
conceito burocrático da “competência” enquanto esfera de responsabilidade objetivamente delimitada. O âmbito
do “legítimo” poder de mando dos servidores individuais rege-se segundo o bel-prazer singular do senhor, ao qual
eles estão de todo sujeitos relativamente à sua aplicação nos papéis mais importantes ou de categoria mais
elevada. Na realidade, rege-se em grande parte por aquilo que os domésticos se podem permitir em face da
obediência dos súbditos. Não é a obrigação nem a disciplina oficiais efetivas que regulam as relações do corpo
administrativo, mas a fidelidade pessoal dos servidores. Entretanto, há que atender, no tipo da sua posição, a duas
formas caracteristicamente diferentes:
1. A estrutura puramente patriarcal da administração: os servidores estão na total dependência pessoal do senhor,
ou são recrutados de modo puramente patrimonial – escravos, servos, eunucos – ou extra patrimonial a partir de
estratos não de todo desprovidos de direitos: favoritos, plebeus. A sua administração é inteiramente heterônoma e
heterocéfala; no seu ofício, não há nenhum direito próprio dos que administram, mas também não qualquer
seleção especializada e nenhuma honram do funcionário em virtude da sua condição social; os meios
administrativos objetivos são inteiramente controlados para o senhor na sua própria gestão. Na dependência plena
do corpo administrativo em relação ao senhor falta toda a garantia contra o arbítrio senhorial, cuja extensão
possível é, aqui, máxima. O tipo mais puro é o poder sultânico. Todos os verdadeiros regimes “despóticos” têm
este caráter, no qual o domínio é tratado como um vulgar direito de propriedade do senhor.
2. A estrutura segundo ordens [estamentos]: os servidores não são servidores pessoais do senhor, mas pessoas
independentes, de valor e proeminência social em virtude da sua própria posição; são agraciados (realmente ou
segundo uma ficção de legitimidade) com o seu ofício por privilégio ou concessão do senhor, ou têm mediante
uma transação legal (compra, penhor, renda) um direito seu, não arbitrariamente dirimível, ao cargo por eles
apropriado [adquirido], a sua administração é correlativa, embora limitada, autocéfala e autônoma, os meios
objetivos de administração encontram-se sob o seu controlo, não do senhor: domínio de ordens. – A concorrência
dos detentores do cargo em torno da esfera do poder dos seus ofícios (e das suas receitas) condiciona, em seguida,
a delimitação recíproca, quanto ao conteúdo, das suas esferas administrativas e está no lugar da “competência”. A
articulação hierárquica é, muitíssimas vezes, furada pelo privilégio (de non evocando, non apellando). Falta a
categoria da “disciplina”. A tradição, o privilégio, as relações feudais ou patrimoniais de fidelidade, a honra ligada
à ordem e a “boa vontade” regem as relações globais.
O poder dos senhores está, portanto, dividido entre o senhor e o corpo administrativo por apropriação e
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privilégio, e esta divisão do poder por ordens estereotipa em grau elevado a natureza da administração. O domínio
patriarcal (do pai-de-famílias, do chefe de clã, do “pai do povo”) é apenas o tipo mais puro do poder tradicional.
Todo o tipo de “governo” que reclama com êxito uma autoridade legítima, unicamente em virtude do costume
implantado, pertence à mesma categoria e só não apresenta um cunho tão claro. A piedade instilada pela educação
e pelo costume na relação da criança ao chefe de família é o mais típico contraste, por um lado, com a situação de
um trabalhador contratualmente assalariado numa empresa, por outro, com a relação emocional de fé de um
membro da comunidade a um profeta. E a associação doméstica é também, de fato, uma célula nuclear das
relações tradicionais de poder. Os “funcionários” típicos do Estado patrimonial e feudal são funcionários
domésticos com tarefas ligadas apenas à manutenção da casa (mordomo-mor, camareiro, marechal, copeiro,
senescal, regente).
A coexistência das esferas fortemente ligadas pela tradição e das esferas livres da ação é comum a todas
as formas tradicionais de poder. No seio destas esferas livres, a ação do senhor, ou do seu corpo administrativo,
deve ser comprada ou alcançada através de relações pessoais. (O sistema de taxas tem aqui uma das suas origens.)
A ausência decisivamente importante do direito formal e, em vez dele, o domínio de princípios materiais na
administração e na arbitragem dos litígios é, de igual modo, comum a todas as formas tradicionais de poder e tem,
em especial, consequências de longo alcance para a relação com a economia.
O patriarca, tal como o soberano patrimonial, governa e decide segundo os princípios da “justiça do
cádi”: por um lado, ligada fortemente à tradição, mas na medida em que esta vinculação permite uma liberdade,
segundo pontos de vista informais e irracionais de equidade e de justiça do caso singular, e decerto também “em
consideração da pessoa”. Todas as codificações e leis do soberano patrimonial respiram o espírito do chamado
“Estado de benefícios”: uma combinação de princípios ético-sociais e de princípios utilitarístico-sociais domina e
imbui toda robustez formal do direito.
A separação entre a estrutura patriarcal e a estrutura por ordens de poder tradicional é fundamental para
toda a sociologia do Estado da época pré-burocrática. (No seu âmbito total, o contraste só se torna compreensível
em conexão com a sua ulterior vertente econômica, ainda a discutir: separação do corpo administrativo dos meios
materiais de administração ou apropriação dos meios objetivos de administração pelo corpo administrativo.) A
questão plena de se e que “ordens” houve como portador dos bens culturais ideais está assim, em primeira linha,
historicamente condicionado. A administração por meio de dependentes patrimoniais (escravos, servos), como se
encontra no Próximo Oriente e no Egito até ao tempo dos Mamelucos, é o tipo mais extremo e, aparentemente
(nem sempre de fato), o mais consequente do domínio puramente patriarcal, sem quaisquer ordens. A
administração por meio de plebeus livres encontra-se relativamente perto do funcionalismo racional. A
administração por letrados pode, quanto ao seu cunho, ter um caráter muito diferente (contraste típico: os
brâmanes frente aos mandarins e, por seu turno, ambas as frente aos clérigos budistas e cristãos). Mas aproxima-se
sempre mais do tipo de ordens [estamentos]. Este é representado, com toda a clareza, pela administração
aristocrata, na forma mais pura pelo feudalismo, que põe a relação de fidelidade inteiramente pessoal e o apelo do
cavaleiro agraciado com o ofício à honra da sua ordem no lugar da obrigação oficial objetivamente racional.
Todos os tipos de domínio das ordens, baseada na apropriação mais ou menos fixa do poder
administrativo, se encontram numa situação mais próxima do patriarcalismo e do domínio legal do que aqueles
que, em virtude de garantias, rodeiam os poderes dos privilegiados, têm o caráter de um “título legal” muito
particular (consequência da “divisão do poder” das ordens), ausente nas formas patriarcais com as suas
administrações inteiramente sujeitas ao arbítrio do senhor. Por outro lado, a apertada disciplina e o inexistente
direito próprio do corpo administrativo no patriarcalismo acercam-se mais, tecnicamente, da disciplina oficial da
dominação legal do que a administração das formas das ordens, repartida e, portanto, estereotipada mediante a
apropriação, e a utilização de plebeus (juristas) no serviço dos senhores na Europa tornou-se justamente o
predecessor do Estado moderno.

Poder carismático

III. Poder carismático, mediante a dedicação afetiva à pessoa do senhor e aos seus dons gratuitos (carisma), em
especial: capacidades mágicas, revelações ou heroísmo, poder do espírito e do discurso. O eternamente novo, o
fora do quotidiano, o nunca acontecido e a sujeição emocional são aqui as fontes da rendição pessoal. Os tipos
mais puros são a autoridade do profeta, do herói guerreiro, do grande demagogo.
A associação de domínio é a agremiação na comunidade ou o séquito. O tipo daquele que ordena é o
chefe. O tipo de quem obedece é o “discípulo”. Obedece-se, com toda a exclusão, de modo puramente pessoal ao
chefe por mor das suas qualidades pessoais, fora do habitual, não por causa da posição estatutária ou da dignidade
tradicional. Portanto, também só enquanto estas qualidades lhe são atribuídas: o seu carisma preserva-se mediante
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a sua demonstração. Quando ele é “abandonado” pelo seu deus, ou despojado da sua da força heróica e da fé das
massas na sua qualidade de chefia, desvanece-se o seu poder. O corpo administrativo é escolhido segundo o
carisma e a dedicação pessoal: não, por contraste, segundo a qualificação profissional (como o funcionário), nem
segundo a ordem (como o corpo administrativo estamental), nem segundo a dependência doméstica ou outra
dependência pessoal (como, por contraste, o corpo administrativo patriarcal). Está ausente o conceito racional da
“competência” e também o conceito de “privilégio”, peculiar às ordens. Para o âmbito da legitimação do seguidor
ou discípulo indigitado é determinante apenas a missão do senhor e a sua qualificação carismática pessoal. À
administração – na medida em que este nome é adequado – falta toda a orientação por regras, quer estatutárias,
quer tradicionais. Caracteriza-a revelação imediata ou a criação imediata, ação e o exemplo, a decisão de caso a
caso, portanto – avaliada segundo o critério dos ordenamentos estatutários – irracional.
Não está ligada à tradição: para os profetas vale o “está escrito, mas eu digo-vos”; para os heróis
guerreiros esbatem-se os ordenamentos legítimos frente à nova criação em virtude do poder da espada; para o
demagogo, graças ao “direito natural” revolucionário por ele proclamado e sugerido. A forma genuína da
carismática norma jurídica e da arbitragem dos conflitos é a proclamação da sentença pelo senhor ou pelos
“sábios” e o seu reconhecimento pela comunidade (de armas ou de fé), que é obrigatório, no caso de não surgir
uma norma concorrente de outro com a pretensão à validade carismática. Neste caso, ocorre uma luta de chefes a
decidir, em última análise, só mediante a confiança da comunidade; nela o direito só pode existir num lado, e no
outro, a injustiça sujeita à reparação.
a) O tipo do poder carismático foi desenvolvido, de modo brilhante, primeiro, por R. Sohm no seu direito
eclesiástico para a comunidade cristã primitiva - ainda sem saber que se tratava de um tipo puro a expressão foi,
desde então, utilizada de muitos modos, sem o conhecimento do alcance. - O passado mais antigo, além de
enunciados menores de poder “estatutário” que, sem dúvida, de nenhum modo estão de todo ausentes, conhece a
divisão do conjunto de todas as relações de domínio em tradição e carisma. Ao lado do “chefe econômico”
(Sachem) dos índios, uma figura essencialmente tradicional, encontra-se o chefe guerreiro carismático (que
corresponde ao alemão “Herzog”) com o seu séquito. As expedições de caça e de guerra, que exigem um chefe
munido pessoalmente de qualidades fora do habitual, são os lugares da chefia mundana, a magia é o lugar
“espiritual” da chefia carismática. Desde então, o poder carismático sobre os homens atravessa os séculos com os
profetas e os chefes guerreiros de todas as épocas. O político carismático –“demagogo”– é o produto da cidade-
estado ocidental. Na cidade-estado de Jerusalém emergiu ele apenas na indumentária religiosa, como profeta; a
constituição de Atenas, pelo contrário, foi, desde as inovações de Péricles e Efialtes, inteiramente talhada para a
sua existência, e sem ela a máquina estatal não funcionaria um só instante.
b) O poder carismático assenta na “fé” no profeta, no “reconhecimento” que o herói guerreiro carismático, o herói
da rua ou o demagogo pessoalmente encontra e que com ele se desvanece. De igual modo, não deriva a sua
autoridade, por exemplo, deste reconhecimento pelos governados. Mas, ao invés, a fé e o reconhecimento surgem
como obrigação, cujo cumprimento o carismaticamente legitimado para si exige, e cuja infração ele vinga. O
poder carismático é, decerto, um dos grandes poderes revolucionários da história, mas, na sua forma mai pura, é
de caráter plenamente autoritário, dominador.
c). É evidente que a expressão “carisma” se usa aqui num sentido de todo axiologicamente neutro. O acesso de
raiva do “berserker” nórdico, os milagres e as revelações de qualquer profecia evasiva, os dons demagógicos de
Cléon são, para a sociologia, um “carisma” tão bom como as qualidades de Napoleão, Jesus, Péricles. Pois, para
nós, é apenas decisivo se eles apareceram e agiram como carisma, isto é, se encontraram reconhecimento. Para tal,
o pressuposto fundamental é a “comprovação”: pelo milagre, pelo êxito, pela prosperidade do séquito ou dos
súbditos deve o senhor carismático comprovar-se como “por graça de Deus”. Só surge como tal enquanto pode.
Se o êxito lhe é recusado, vacila o seu domínio. O conceito carismático da “graça de Deus” teve, onde ele existiu,
consequências decisivas. O monarca chinês estava ameaçado na sua posição logo que a seca, a inundação, o
insucesso no campo de batalha ou outras desgraças deixavam transparecer como incerto se ele estava na graça do
céu. Auto-acusação e penitência públicas, em desgraças persistentes: ameaçavam-no a deposição e,
eventualmente, a imolação. A abonação pelo milagre é exigida a cada profeta (ainda a Lutero pelos habitantes de
Zwickau). Também a existência da maior parte das relações de poder, legais segundo o seu caráter básico, assenta,
tanto quanto na sua estabilidade se expressa à fé legitimadora, em fundamentos mistos. O costume tradicional e o
“prestígio” (carisma) coadunam-se com a fé - em última análise, também implantada - no significado da
legalidade formal: o abalo de um deles por exigências inabituais, em face da tradição, feitas aos governados, por
um infortúnio extraordinário que aniquila o prestígio, ou pela infração da correção legal formal habitual, faz
vacilar em igual medida a fé legitimadora. Mas em todas as relações de pode é decisivo, para a consistência
incessante da obediência efetiva dos governados, sobretudo o fato da existência do corpo administrativo e da sua
ação incessante, dirigida à execução dos regulamentos e à coação (direta ou indireta) da sujeição à autoridade. A
garantia desta ação, que leva a cabo o domínio, é o que se pretende dizer com a expressão “organização”. Por seu
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turno, para a lealdade ao senhor, tão importante em toda a parte, do corpo administrativo é decisiva a sua
solidariedade de interesses com o senhor - tanto do ponto de vista ideal como material. Às relações do senhor com
o corpo administrativo aplica-se, comumente, esta proposição: que, em geral, em virtude do isolamento dos
membros desse corpo e da solidariedade de cada membro com ele, o senhor é o mais forte frente a todo o
indivíduo que se
Opõe, mas é, em seguida, o mais fraco em face de todos no seu conjunto, quando eles - como por vezes fizeram
numerosas categorias de pessoal do passado e do presente - se associam. Mas necessita-se de uma aliança
planeada dos membros do corpo administrativo para, graças à obstrução ou à medida oposta consciente, se
paralisar a influência do senhor sobre o agir associativo e, deste modo, o seu domínio. E igualmente se necessita
da criação de um corpo administrativo próprio.
d) O poder carismático é uma relação especificamente inabitual, uma relação social puramente pessoal. Na
existência contínua, mas não mais tarde do que com a remoção do portador pessoal do carisma, a relação de
domínio - no último caso, então, se ela se não extingue de imediato, mas de qualquer modo persiste e, portanto, a
autoridade do senhor passa para os sucessores – tem a tendência para se banalizar:
1. Mediante a tradicionalização dos ordenamentos. Em vez da nova criação carismática incessante no direito e nos
decretos administrativos pelo portador do carisma ou pelo corpo administrativo carismaticamente qualificado
surge a autoridade dos preconceitos e das precedências, que eles criaram ou que lhes foram atribuídos;
2. Mediante a transição do corpo administrativo carismático, o discipulado ou o séquito, para um corpo legal ou
de ordens, pela aceitação de direitos governativos internos ou apropriados por privilégio (feudos,
Prebendas);
3. Através da remodelação do sentido do próprio carisma. Para tal é decisivo o tipo de solução da questão
candente do problema da sucessão a partir de razões ideais e (muitas vezes, sobretudo) materiais. Esta é possível
de modos diferentes: a simples espera passiva da emergência de um novo senhor carismaticamente acreditado ou
qualificado costuma ser substituída pelo procedimento ativo em vista da sua obtenção, sobretudo quando o seu
aparecimento se faz esperar e fortes interesses, seja qual for a sua natureza, estão ligados à persistência da
associação de domínio.
a) Pela demanda de características da qualificação carismática. Um tipo razoavelmente puro: a busca do novo
Dalai Lama. O caráter fortemente pessoal, inabitual, do carisma converte-se numa qualidade determinável
segundo regras.
b) Pelo oráculo, pela sorte ou por outras técnicas da designação. A fé na pessoa do carismaticamente qualificado
transforma-se assim em fé na técnica em causa.
c) Pela designação do carismaticamente qualificado:
1. Pelo próprio portador do carisma: designação dos seguidores, uma forma muito frequente, tanto nos profetas
como nos chefes guerreiros. A fé na legitimidade própria do carisma muda-se assim em fé na herança legítima do
poder, em virtude da designação jurídica e divina.
2. Pelo discipulado ou séquito carismaticamente qualificado sob a adição do reconhecimento por parte da
comunidade religiosa e/ou militar. A concepção como direito de “escolha” ou de “eleição preliminar” para este
procedimento é secundária. Este conceito moderno deve de todo evitar-se. Segundo a idéia originária, não se trata
de uma “votação” acerca dos candidatos à eleição, entre os quais existe uma escolha livre, mas de um
estabelecimento e reconhecimento do senhor “genuíno”, do senhor chamado à sucessão enquanto
carismaticamente qualificado. Uma “falsa” escolha era, portanto, uma injustiça a expiar. Eis o postulado essencial:
deveria ser possível intentar a unanimidade, o contrário seria um erro e uma fraqueza. Vigorava então, em cada
caso, a fé, não já na pessoa só enquanto tal, mas na pessoa do senhor “genuína” e “validamente” designada e
(eventualmente entronizada) ou, aliás, indigitada para o poder, à maneira de um objeto de posse.
3. Pelo “carisma hereditário” na concepção de que a qualificação carismática residia no sangue. O pensamento,
óbvio em si, é sobretudo o de um “direito hereditário” ao poder. Esta idéia só se tornou predominante no
Ocidente, na Idade Média. Muitíssimas vezes, o carisma é inerente apenas ao clã e somente o novo portador
imediato deve ser estabelecido de modo particular: segundo uma das regras e dos métodos mencionados em a)-c).
Onde, relativamente à pessoa, existem regras fixas, estas não são uniformes. Só no Ocidente medieval e no Japão
é que se impôs de um modo inteiramente unívoco o “direito de primogenitura” na coroa, em grande parte para o
aumento da estabilidade do domínio local, pois todas as outras formas levam a conflitos internos. A fé já se não
põe então só na pessoa enquanto tal, mas no “legítimo” herdeiro da dinastia: o caráter só imediato e extraordinário
do carisma é transformado de um modo muito fortemente tradicionalizante e altera-se também de todo, no seu
sentido, o conceito da “graça de Deus” (= senhor por pleno direito próprio, não em virtude do carisma pessoal
reconhecido pelos governados). A pretensão dos senhores é, em seguida, totalmente independente das qualidades
pessoais.
4. Por meio da banalização ritual do carisma: a fé de que existe uma qualidade mágica transferível ou gerável por
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uma espécie determinada de hierurgia: unção, imposição das mãos ou outros atos sacramentais. A fé já se não põe,
então, na pessoa do portador do carisma – pelo contrário, a pretensão de domínio (como se levou a cabo de modo
especialmente claro mediante o princípio católico do caráter indelével do sacerdote) é de todo independente das
suas qualidades– mas põe-se na eficácia do respectivo ato sacramental.
5. O princípio carismático da legitimidade interpretado autoritariamente segundo o seu sentido primário pode
reinterpretar-se de modo anti-autoritário. A validade efetiva do poder carismático assenta no reconhecimento da
pessoa concreta enquanto carismaticamente qualificada e comprovada pelos governados. Segundo a concepção
genuína do carisma, este reconhecimento é devido ao pretendente legítimo, porque qualificado. Esta situação
pode, entretanto, ser facilmente reinterpretada de maneira que o livre reconhecimento pelos governados seja, por
seu lado, o pressuposto da legitimidade e o seu fundamento (legitimidade democrática). Em seguida, o
reconhecimento torna-se “escolha” e o senhor, legitimado em virtude do carisma próprio, torna-se um detentor do
poder pela graça dos governados e por força do mandato.
Tanto a nomeação pelo séquito como a aclamação pela comunidade (militar ou religiosa), como o
plebiscito, assumiram muitas vezes, historicamente, o caráter de uma seleção levada a cabo por votação e fez
assim do senhor, escolhido segundo as suas pretensões carismáticas, um funcionário escolhido pelos governados
somente segundo o seu bel-prazer.
Desenvolve-se igualmente o princípio carismático de que uma norma jurídica carismática da comunidade
(comunidade de armas ou comunidade religiosa) deve ser promulgada e por ela reconhecida; e, portanto, a
possibilidade existente de normas diferentes e antagônicas entrarem em competição e de, em seguida, se chegar à
decisão por meios carismáticos, em última análise, pelo acolhimento que a comunidade faz da norma correta,
facilmente se converte na concepção - legal - de que os governados decidem livremente, através da manifestação
voluntária, sobre o direito que deve vigorar, e que o número dos votos seja para tal o meio legítimo (princípio da
maioria).
A diferença entre um chefe eleito e um funcionário eleito fica a ser, então, simplesmente a do sentido que
o próprio eleito dá e – segundo as suas qualidades pessoais – pode dar, frente ao pessoal e aos governados, à sua
conduta; o funcionário comporta-se inteiramente como mandatário do seu senhor, aqui, portanto, dos eleitores, o
chefe comporta-se como exclusivamente atido à responsabilidade própria; este, portanto, enquanto reivindica com
êxito a sua confiança, agirá inteiramente segundo a discrição própria (democracia de líderes) e não, como o
funcionário, de harmonia com a vontade expressa ou presumida (num “mandato imperativo”) dos eleitores.

Aula 5: Tipologia Estatal ou Formas de Estado


XII) Tipologia Estatal ou Formas de Estado

A) Estado Unitário: é um Estado que concentra o poder em um pólo de governo. Pode


delegar funções e poderes meramente, para melhorar a eficiência governamental. Os órgãos de
governo em regra, são nacionais. Ex. França
B) Estado Federal: é o Estado que utiliza a divisão vertical de poderes entre um centro de
comando e diferentes Estados, departamentos, regiões e províncias. Esta divisão tem um
fundamento duplo: evitar a acumulação de poder e tornar mais eficiente a administração
governamental. É proibida a secessão, ou seja, os Estados não podem se separar do todo, mas
podem se fundir, dividir ou incorporar outros Estados.
Ex. Suiça, Brasil, EUA, Rússia
C) Confederação de Estado: os Estados são absolutamente separados e se unem na medida
de sua conveniência para alcançar objetivos comuns, sejam econômicos ou militares.
− Ex. EUA até 1787, União Européia, Mercosul, Confederação de Delos
(Antiguidade).
Texto de Trabalho:
A DEFINIÇÃO CONTEMPORÂNEA DE FEDERALISMO

Lua Nova: Revista de cultura e política – Ivo Coser


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A definição contemporânea de federalismo o apresenta como um sistema de governo no qual o poder é dividido
entre o governo central (a União) e os governos regionais. O federalismo é definido, em sua acepção positiva,
como um meio-termo entre um governo unitário, com os poderes exclusivamente concentrados na União, e uma
confederação, na qual o poder central seria nulo ou fraco. Por sua vez, a confederação é caracterizada como uma
aliança entre Estados independentes. O governo central não poderia aplicar as leis sobre os cidadãos sem a
aprovação dos Estados, que seriam, em última instância, a fonte da soberania. A diferença essencial entre
federação e confederação é que, na primeira, o governo central possui poder sobre os cidadãos dos Estados ou
províncias que compõem a União sem que essa ação tenha de ser acordada pelos Estados 3. A experiência
histórica que gera esse novo conteúdo é a construção do Estado norte-americano a partir de 1787.
A Convenção da Filadélfia foi convocada em 1787 com o intuito de rever os artigos aprovados no Congresso
Continental em 1777 (usualmente conhecidos como Artigos da Confederação)4. Observemos, inicialmente, que
aspecto Hamilton, no artigo 15, criticava na confederação norte-americana produzida em 1777:
“O vício enorme e radical na construção da Confederação atual está no princípio da legislação para
Estados ou governos em seu caráter de corporações ou coletividades, em contraposição à legislação
para os indivíduos que os compõem. Embora não se estenda a todos os poderes conferidos à União,
esse princípio invade e governa aqueles de que depende a eficácia dos demais. Exceto no tocante à
honra de rateio, os Estados Unidos têm direito ilimitado a requisitar homens e dinheiro; mas não têm
autoridade para mobilizá-los por meio de normas que se estendam aos cidadãos da América. A
conseqüência é que, embora em teoria as resoluções da União referentes a essas questões sejam leis
que se aplicam constitucionalmente aos seus membros, na prática elas são meras recomendações que
os Estados podem escolher observar ou desconsiderar (Madison, Hamilton e Jay, 1993:160-161)”.

É fundamental que assinalemos com ênfase o principal defeito, para Hamilton, da confederação elaborada em
1777: o poder central não dispunha de autonomia para agir sobre os cidadãos que compunham a União. Poderia
apenas recomendar a aplicação de suas resoluções, cabendo aos Estados adotar ou não tais resoluções. A solução
política, para o autor, consistia no reforço do poder central. Este deveria dispor dos poderes necessários para agir
sobre os cidadãos, sem passar pelos Estados. A conseqüência desse reforço seria uma alteração fundamental no
status constitucional dos Estados, que deveriam dispor de autonomia, mas não seriam mais entidades soberanas;
agora estariam subordinados ao poder central.
Podemos perceber claramente a nova direção que Hamilton pretendia introduzir no arranjo constitucional norte-
americano. Entretanto, para se referir às inovações que deveriam ser introduzidas, o autor ainda fazia uso do termo
confederação. Vejamos um trecho do mesmo artigo 15 citado anteriormente:
Com o abandono de todas as pretensões a um governo confederado, isso nos reduziria a uma simples
aliança ofensiva e defensiva e nos poria em condições de sermos ciclicamente amigos e inimigos uns
dos outros, ao sabor de nossas cobiças e rivalidades. Mas se não queremos ser postos nessa situação;
e se ainda nos mantemos fiéis ao projeto de um governo nacional, o que é a mesma coisa, de um
poder superintendente sob a direção de um conselho comum, devemos incorporar em nosso plano
aqueles ingredientes que podem ser considerados pela diferença entre uma liga e um governo;
devemos ampliar a autoridade da União às pessoas dos cidadãos - os únicos objetos próprios de
governo (ibidem:161-162).

Observemos que Hamilton condenava o fato de que fossem abandonadas todas as pretensões a um governo
confederado em detrimento de uma mera liga. Esta seria, segundo ele, a mera reunião de Estados, uma aliança
com fins defensivos ou ofensivos. Para Hamilton, deveriam ser introduzidas inovações que estabelecessem uma
diferença radical entre uma confederação (confederate government) e uma liga (league). Para tanto, o autor
argumentava que seria imprescindível que a União tivesse os poderes necessários para chegar até o cidadão.
Podemos assinalar que Hamilton já mencionava um de seus elementos distintivos, ou seja, a capacidade de o
governo central chegar até os cidadãos das unidades que compõem o Estado sem passar pelo crivo dessas
unidades. Ocorre que o político norte-americano faz uso do termo governo confederado, distinguindo esse novo
arranjo político de uma mera liga sem fazer a distinção entre federação e confederação, como seria mais usual em
nossa contemporaneidade. Revela, dessa forma, que sob uma palavra antiga se manifestava um novo conteúdo. O
uso do termo confederação de Estados para se referir aos Estados Unidos da América foi comum até a Guerra
Civil (1861-1865)5. Esse descompasso entre o novo conteúdo histórico, gerado a partir da experiência norte-
americana, e a persistência de velhas palavras foi claramente percebido por Tocqueville (1977:123):
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“Em todas as confederações que precederam a União Americana de nossos dias, o governo federal, a
fim de prover às suas necessidades, dirigia-se aos governos particulares. No caso em que a medida
prescrita desagradava a um deles, este podia sempre subtrair-se à necessidade de obedecer. [...] Na
América, a União tem por governados, não Estados, mas simples cidadãos. Quando quer cobrar um
imposto não se dirige ao governo de Massachusetts, mas a cada um habitante de Massachusetts. Os
antigos governos federais tinham diante de si povos; o da União tem indivíduos. Não toma
emprestada a sua força, mas vai ele mesmo buscá-la. Tem seus próprios administradores, seus
tribunais, seus oficiais da justiça, seu exército. [...] Aqui o poder central age sem intermediários
sobre os governados, julga-os ele próprio, como fazem os governos nacionais, mas só age, neste
caso, dentro de um círculo restrito. [...] Assim, achou-se uma forma de governo que não era,
precisamente, nem nacional, nem federal; mas parou-se aí, e a nova palavra que deve exprimir a
coisa nova de maneira alguma existe ainda6”.

Em Tocqueville está presente a percepção da inovação da Convenção da Filadélfia para com as experiências
européias de confederação, ou seja, a União atuava diretamente sobre os cidadãos, sem a necessidade de recorrer
às unidades da federação. Entretanto, essa centralidade da União não era semelhante àquela dos Estados unitários,
pois as unidades que compunham o Estado dispunham de uma autonomia e de liberdades que inexistiam nos
Estados unitários. Nestes, as partes que compunham o Estado eram meramente unidades administrativas, sem
dispor de autonomia e de liberdade para escolha de funcionários, organização da Justiça e recolhimento de
impostos, aspectos que ocorriam no caso norte-americano.
O autor francês lamentava que não houvesse um termo novo capaz de designar o arranjo norte-americano. Nesse
sentido, Tocqueville assinalava o descompasso entre as palavras disponíveis (federação e confederação) e a
novidade histórica. Ao longo do debate político anterior, federação havia sido um sinônimo de confederação.
Quando, posteriormente, o termo foi associado exclusivamente à novidade introduzida pelo caso norte-americano,
o que ocorreu foi meramente a reutilização de um antigo termo para um novo conteúdo.
Portanto, podemos observar os seguintes pontos: 1) o uso dos termos federação e confederação para se referir ao
caso norte-americano era um procedimento comum. Isso porque a palavra federação estava associada à
confederação. 2) A inovação produzida pela experiência norte-americana consistiu no seguinte conteúdo: as
unidades que compunham a União disporiam de autonomia política e administrativa, entretanto, isso não
implicava um poder central fraco ou nulo; os Estados não seriam entendidos como um poder soberano tal qual a
União. As resoluções da União teriam caráter impositivo para os Estados, e não mais seriam meras
recomendações. Ao mesmo tempo que o poder central era reforçado, os Estados disporiam de autonomia decisória
em aspectos importantes. Nesse sentido, a idéia de federação era uma novidade política, como bem escreveu
Tocqueville; não era uma repetição das confederações, pois o poder central era forte, tampouco os estados
desempenhavam o mesmo papel que em um Estado unitário.

Aula 6: Formas de Governo


XIII) Formas de Governo

A) Monarquia

É o governo em que o poder é concentrado em um soberano escolhido por critérios


hereditários. A monarquia tem a vantagem da previsibilidade na escolha do sucessor, indicado por
critério sanguíneo, em regra, pelo primogênito do sexo masculino, com poucas variações.

B) Aristocracia

É o governo dos melhores, indicados segundo um critério que aponta uma elite classista,
intelectual, econômica. É um governo de poucas pessoas ocupando o poder.

C) Democracia

É o governo de todos, o poder concedido ao povo que é fundamento de exercício do poder e


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que ocupa o máximo possível, o governo. Esta ocupação pode se traduzir numa democracia direta,
efetiva transição entre povo e poder, e democracia indireta ou representativa, com uma mediação
entre o povo e o governo, exercido por representantes eleitos.

D) ●Formas de governo clássicas:

- Monarquia, Aristocracia e Democracia

●Formas de governo contemporâneas

- Monarquias e Repúblicas

Atualmente, a democracia se transformou em um princípio inspirador e estruturante de toda


a estrutura política. Os Estados variam, portanto, entre diferentes formas de república e monarquia.
As repúblicas são formas de publicização do patrimônio público e de incorporação das três
formas clássicas no poder.
A monarquia conserva alguns bens públicos com a família real e concentra as funções de
chefia de Estado.
Texto de trabalho:
As modernas classificações das formas de governo: de Maquiavel a Montesquieu
Ciência Política – Paulo Bonavides – página 251

De Aristóteles e Cícero, passemos a Maquiavel, o secretário florentino, que tanto se imortalizou na


ciência política, e que abre o capítulo primeiro de O Príncipe, sua obra-prima, com aquela afirmativa de que “to-
dos os Estados, todos os domínios que exerceram e exercem poder sobre os homens, foram e são ou Repúblicas
ou Principados”.1
Com essa afirmação, classifica Maquiavel as formas de governo em termos dualistas: de uma parte, a
monarquia, o poder singular; e, de outra parte, a República, ou poder plural. A república, segundo Maquiavel,
abrange a aristocracia e a democracia.
De Maquiavel vamos a Montesquieu, cuja classificação é a mais afamada dos tempos modernos.
Em toda forma de governo distingue Montesquieu a natureza e o princípio desse governo. A natureza do
governo se exprime naquilo que faz com que ele seja o que é. O princípio do governo, por sua vez, vem a ser
aquilo que o faz atuar, que anima e excita o exercício do poder: as paixões humanas, por exemplo.2
São formas de governo: a república, a monarquia e o despotismo, conforme a enumeração que consta do
Espírito das Leis.
A república compreende a democracia e a aristocracia. A natureza de todo governo democrático consiste,
segundo Montesquieu, em a soberania residir nas mãos do povo. Quanto ao princípio da democracia, temos a
virtude, que se traduz no amor da pátria, na igualdade, na compreensão dos deveres cívicos. Com relação à
aristocracia, sua natureza é a soberania pertencer a alguns e seu princípio a moderação dos governantes.3
Quanto à monarquia, diz Montesquieu que se trata do regime das distinções, das separações, das
variações e dos equilíbrios sociais. Sua natureza decorre de ser o governo de um só. Cumpre aqui ao soberano
governar mediante leis fixas e estabelecidas. A organização política da monarquia toma por traço característico a
presença de poderes ou corpos intermediários na sociedade. Essas organizações privilegiadas e hereditárias são o
clero, a justiça e a nobreza, que atuam em presença do trono como poderes subordinados e dependentes.4
O princípio da monarquia se cifra no sentimento da honra, no amor das distinções, no culto das
prerrogativas. Interpretando o pensamento de Montesquieu, assevera Emílio Faguet que esse princípio
monárquico não é o sentimento exaltado da dignidade pessoal, nem tampouco o orgulho feudal, mas o desejo de
ser distinguido numa corte brilhante, a satisfação do amor próprio numa posição, num grau, num título, numa dig-
nidade. A honra, como princípio monárquico, desperta nos servidores da Coroa a paixão da fidelidade pessoal, a
dedicação, o altruísmo, a abnegação, o desapego e o sacrifício.5
Por fim, o despotismo. Sua natureza se resume na ignorância ou transgressão da lei. O monarca reina fora
da ordem jurídica, sob o impulso da vontade e dos caprichos pessoais. O princípio de todo o despotismo reside no
medo: onde há desconfiança, onde há insegurança, onde há incerteza, onde as relações entre governantes e
26

governados se fazem à base do temor recíproco, não há, segundo Montesquieu, governo legítimo, mas governo
despótico, governo que nega a liberdade, governo que teme o povo.6
Segundo esse mesmo clássico da democracia liberal não chega sequer o despotismo a ser uma forma de
governo, porquanto diz o filósofo político: “o governo é o lavrador que semeia e colhe; o despotismo é o selvagem
que corta a árvore para colher os frutos”.7 E, de modo mais conclusivo: “o despotismo não é outra coisa senão
uma multidão de iguais e um chefe”.8

Formas fundamentais e formas secundárias de governo (Bluntschli)

Das classificações de formas de governo aparecidas modernamente, depois da de Montesquieu, é de


ressaltar a de autoria do jurista alemão Bluntschli, que distinguiu as formas fundamentais ou primárias de governo
das formas secundárias.9
Ao distinguir as formas fundamentais, afirmou o egrégio publicista que aí o princípio de sua classificação
atendia à qualidade do regente, ao passo que nas formas secundárias o critério a que obedeceu era o da par-
ticipação que têm no governo os governados.
São formas fundamentais: a monarquia, a aristocracia, a democracia e a ideocracia ou teocracia.10
Como se vê, Bluntschli enumera as formas já conhecidas da antiga classificação aristotélica,
acrescentando porém uma quarta forma: a ideocracia ou teocracia.
Com efeito, assevera esse pensador que há sociedades políticas organizadas onde a concepção do poder
soberano não reside em nenhuma entidade temporal, em nenhum ser humano, singular ou plural, senão que se
afirma ter a soberania por sede uma divindade. Conseqüentemente, em determinadas formas de sociedade impera
uma doutrina teológica da soberania. Não se deve por conseguinte menosprezar semelhantes modelos de
sociedade, onde a teoria do poder político, debaixo da inspiração sobrenatural, funda um sistema governativo de
teor sacerdotal, que se não amolda rigorosamente às três formas já conhecidas e mencionadas.
A teocracia, como forma de governo, segundo Bluntschli, degenera na idolocracia: a veneração dos
ídolos, a prática de baixos princípios religiosos extensivos à ordem política, que conseqüentemente se perverte.
Quanto às formas secundárias, referidas ao grau de participação dos governados no governo, tomam,
conforme o mesmo Bluntschli, a seguinte discriminação: governos despóticos ou servis, governos semilivres, e
governos livres, que são os compreendidos na forma dos chamados Estados populares (Volksstaat) ou Estados
democráticos.11

Aula 7: Ciclo da Morte ou ANAKUKLÒSIS POLITEIÒN ( Aristóteles,


Políbio e Montesquieu)

XIV) Ciclo da Morte ou ANAKUKLÒSIS POLITEIÒN ( Aristóteles, Políbio e


Montesquieu)

Formas puras de governo: são os que conservam a finalidade de governar para o bem
comum, com o objetivo de promover o bem dos súditos, cidadãos ou da nação. São a monarquia,
aristocracia e democracia.
Formas impuras de governo: São governos voltados à realização do grupo que ocupa o
poder. São a tirania, oligarquia e a demagogia ou anarquia.

Exemplos e classificação:
- Governo Revolucionário Francês (1793): aristocracia
- Ditadura Nazista: monarquia com concessão aristocrática
- Governo Militar brasileiro:aristocracia
- Ditadura Comunista
- Cuba: monarquia
- URSS até 1954 (Stálin): monarquia
27

- URSS após 1954: aristocracia


- Ditadura Vargas (1937-1945): monarquia

Esquema Geral do Ciclo da Morte

Formas de Governo Puras Formas de Governo Impuras Constituição ou República


(Politéia)

Monarquia Tirania Poder Executivo

Aristocracia Oligarquia Camara dos Lordes/

Poder Judiciário

Democracia Demagogia ou Anarquia Poder Legislativo/

Câmara dos Comuns

Texto de Trabalho:
Forma de Governo e Regime Político
Elementos de Teoria Geral do Estado – Dalmo de Abreu Dallari – página 224
A classificação mais antiga das formas de governo que se conhece é a de Aristóteles, baseada no número
de governantes. Distingue ele três espécies de governo: a realeza, quando é um só indivíduo quem governa; a
aristocracia, que é o governo exercido pelo grupo, relativamente reduzido em relação ao todo; e a democracia,
que é o governo exercido pela própria multidão no interesse geral. Cada uma dessas formas de governo pode
sofrer uma degeneração, quando quem governa deixa se orientar pelo interesse geral e passa a decidir segundo
as conveniências particulares. Então aquelas formas, que são puras, são substituídas por formas impuras. A
realeza degenera em tirania, a aristocracia em oligarquia e a democracia em demagogia. Essa classificação
que é feita em termos bem gerais baseando-se apenas no número de governantes e na preponderância do
interesse geral ou particular, é valida até hoje, sendo utilizada na teoria e na prática.
Depois de Aristóteles é com Maquiavel que vai aparecer nova classificação, já então mais precisa e atenta
para as características que iam revelando na organização do Estado Moderno. Nos “Discursos sobre a
Primeira Década de Tito Lívio”, publicado em 1531, Maquiavel desenvolve uma teoria procurando sustentar a
existência de ciclos de governo. O ponto de partida é um Estado anárquico, que teria caracterizado o início da
vida humana em sociedade. Para se defender melhor os homens escolheram o mais robusto e valoroso,
nomeando-o chefe e obedecendo-o. Depois de algumas escolhas percebeu-se que aquelas características não
indicavam um bom chefe, passando-se a dar preferência ao mais justo e sensato. Essa monarquia eletiva
converteu-se depois em hereditária, e algum tempo depois os herdeiros começaram a degenerar, surgindo a
tirania. Para coibir seus males, os que tinham mais riqueza, nobreza e ânimo valoroso organizaram
conspirações e se apoderaram do governo, instaurando-se a aristocracia, orientada para o bem comum.
Entretanto, os descendentes dos governantes aristocratas, que não haviam sofridos os males da tirania e não
estavam preocupados com o bem comum, passaram a utilizar o governo em seu proveito próprio, convertendo
a aristocracia em oligarquia. O povo, não suportando mais os descalabros da oligarquia, mas, ao mesmo
tempo, lembrando dos males da tirania, destituiu os oligarcas e resolveu governar-se a si mesmo, surgindo o
governo popular ou democrático. Mas o próprio povo, quando passou a ser governante, sofreu um processo de
degeneração, e cada um passou a utilizar em proveito pessoal a condição de participante do governo. E isso
gerou a anarquia, voltando-se ao estágio inicial e recomeçando-se o ciclo, que já foi cumprido muitas vezes na
vida de todos os povos. A única maneira de evitar as degenerações, quebrando-se o ciclo, seria a conjugação
28

da monarquia, da aristocracia e da democracia em um só governo. No ano seguinte ao da publicação dessa


obra, ou seja, em 1532, aparecia “O Príncipe”, em cujas primeiras linhas diz Maquiavel: “ Os Estados e
soberanias que tiveram e têm autoridade sobre os homens, foram e são ou republicas ou principados”. Os
governos aristocráticos, conhecidos entre alguns povos da Antiguidade, já não eram admitidos no tempo de
Maquiavel, consagrando-se a republica e a monarquia com as formas de governo possíveis no Estado
Moderno.
Mais tarde Montesquieu, em sua obra que tanta influência prática exerceu, apontaria três espécies de
governo: o republicano, o monárquico e o despótico, esclarecendo: “O governo republicano é aquele que o
povo, como um todo, ou somente uma parcela do povo, possui o poder soberano; a monarquia é aquele em
que um só governa, mas de acordo com as leis fixas e estabelecidas, enquanto, no governo despótico, uma só
pessoa, sem obedecer a leis e regras, realiza tudo por sua vontade e seus caprichos”.
Na realidade, ainda hoje, a monarquia e a republica são as formas fundamentais de governo, sendo
necessário, portanto, fazer a fixação das características de cada uma e o exame dos principais argumentos
favoráveis e contrários a elas.

A Constituição Mista e a Virtude Country


Fernando Ramalho Ney Montenegro Bentes
A Separação de Poderes na Constituição dos Estados Unidos:
Da Revolução Americana ao Constitucionalismo de Jefferson, Madison e Hamilton – página 17

A teoria da constituição mista estabelece que as três formas clássicas de governo – monarquia,
aristocracia e democracia – podem se degenerar, respectivamente, em uma tirania, oligarquia e anarquia, quando a
arbitrariedade e o interesse particular de uma pessoa ou grupo se impõem à justiça e ao bem-estar da comunidade
de cidadãos ou súditos.
Estas três formas se sucediam em um ciclo que se inicia com a monarquia.
Esta forma de governo podia sucumbir frente à ascensão de um governante autoritário. Sendo assim,
alguns homens valorosos e sábios se unem para demovêlo do poder, formando uma aristocracia. Esta, por sua vez,
tende a se transformar numa oligarquia, quando defende apenas seus privilégios, em detrimento do restante da
comunidade. Nestas condições, o povo se mobiliza para afastar aquela elite de dirigentes e formar uma
democracia, repudiando as formas concentradas
de exercício do poder - a monarquia e a aristocracia. Dado o caráter igualitário e libertário da sociedade
democrática, alguns homens mais ambiciosos se impacientam em não atingir seus objetivos, usando todos os
meios ao seu dispor para seduzir e corromper o povo. A própria democracia fenece diante desta ação demagógica
e passa a agir de maneira desordenada e anárquica. O ciclo de constituições - anakuklōsis politéiōn - se reinicia,
então, com a formação natural de uma autoridade monárquica, capaz de concentrar o poder e garantir a
estabilidade, a paz e a segurança.
Segundo a teoria da constituição mista, a solução que impediria este ciclo deveria brotar das próprias
formas de governo que se sucedem ao longo do tempo.
Embora afirmasse a tendência de toda sociedade em se polarizar entre um grupo numeroso de pobres e
outra parte minoritária de ricos, Aristóteles estabelecia que todos os homens formavam uma minoria naquilo a que
se dedicam com mais afinco. Esta elite pode ter origem na bravura, na riqueza, no gozo de privilégios, na
sabedoria ou em outro valor qualquer.
Ainda que considere a existência de múltiplas elites, Aristóteles constata que todas as sociedades são
divididas entre uma minoria e outra maioria, sendo de menor importância a causa desta divisão. Este fato gera o
problema de como estas diferentes ordens podem ocupar a constituição.
Aristóteles estabelece, então, que alguns deveres são mais bem realizados por uma elite, enquanto outros,
por todos os cidadãos. Cria-se uma divisão sóciopolítica de tarefas em que a minoria – “poucos” – adquire poder
para desempenhar funções de sua especialidade e a maioria – “muitos” – reservam a capacidade de decidir
questões dependentes da experiência de vida compartilhada por toda a comunidade. Neste esquema, conserva-se a
ação cívica de qualquer popular, ao mesmo tempo em que a elite se diferencia e realiza funções políticas especiais
e restritas. Tal como a elite e o povo podem contribuir para a sociedade política, também a realeza monopolizaria
atribuições devem ser realizadas por “um” do que por “poucos” ou “muitos”.
Sendo assim, a teoria da constituição mista estabelece que as três formas de governo relativas às três classes que
representam - monarquia e realeza, aristocracia e nobreza, democracia e povo - devem se juntar de maneira a
agregar os fatores positivos de cada uma, ou seja, a capacidade de ação de um executivo forte, a função mediadora
de uma nobreza e a legitimidade popular. A estrutura política se configura numa balança de poder que reconhece a
29

importância do conflito social e tenta dirimi-lo nas instituições estatais. Se a sociedade é fragmentada em diversas
classes, não há como garantir a estabilidade política sem que elas participem do governo de maneira igual.
No século XVIII, a Constituição mista inglesa já consolidara um modelo político de atribuição de poderes
às três ordens básicas da sociedade: a realeza, símbolo da unidade do Estado, que velava pela ordem e autoridade;
os cidadãos em geral, que representavam a maioria da população e promoviam as liberdades civis; e a nobreza,
bem instruída, rica e que gozava de privilégios, exercendo o papel independente de dirimir os conflitos entre as
duas outras ordens. A exclusão de uma destas forças sociais poderia degenerar as três formas clássicas de governo
incorporadas no cenário político – monarquia, aristocracia e democracia – na tirania ou oligarquia, caso a realeza
ou a nobreza, respectivamente, assumissem poderes exorbitantes, ou na anarquia, se o povo desprezasse as outras
ordens e tentasse governar caoticamente segundo seus múltiplos e inconciliáveis interesses.
A estabilidade da nação e a proteção das liberdades civis dependiam do correto
funcionamento deste sistema de controle mútuo, consolidado paulatinamente na
história inglesa pelo embate destas forças sociais.

Aula 8: Teoria Do Governo Balanceado e Teoria da Constituição Mista


Ambas as teoria afirmam a necessidade de se alocar diferentes classes sociais no
poder e de se estabelecer um equilíbrio, uma balança de poder que garanta a sustentabilidade
política, a ordem e a estabilidade sócio-política. Com manifestações na Antiguidade e na Era
Romana, ambas as teorias permanecem fortes até meados do séc. XIX, principalmente, na
Inglaterra.
A essência da Teoria é vincular cada classe social a uma forma de governo e a
permitir a convivência das três formas numa república (face política) ou Constituição (face
jurídica).

Teoria da Separação de Poderes

Esta teoria assume a separação do governo em diferentes ramos como uma


necessidade de conciliação classista, eficiência funcional e limitação do poder. Desenvolve-se,
sobretudo, em fins do séc. XVIII e tem sua origem na luta contra o poder absoluto das anarquias
européias. Principal empoente é o Barão Montesquieu, autor do livro “O Espírito das Leis”
Os dois grandes valores que inspiram a Separação de Poderes são portanto a
democracia (divisão horizontal do poder real) e a necessidade de se especializar funções de
governo (criação do Direito, aplicação do Direito e interpretação/ aplicação do Direito)

Separação pura ou absoluta dos Poderes

Neste modelo, considera-se ineficiente e ilegítimo que um poder possua ingerência


sobre outro. Além disso, a separação pura permite um controle popular maior de uma decisão
estatal, posto que as autoridades responsáveis são facilmente identificáveis)

Separação de Poderes com “freios e contrapesos”

Neste modelo, cada poder possui instrumentos de controle dos poderes restantes,
usados, somente, quando houver excesso de poder ou tentativa de usurpação.

Poder Legislativo

Sob o imperativo democrático, é o mais importante, é supremo posto que representa a


sociedade de modo mais plural, em toda sua variedade de interesses. Geralmente, divide-se em
duas casas (Bicameralismo), mas pode se concetrar em uma só casa (Unicameralismo). É um
30

poder voltado ao futuro, à criação de leis que regem a sociedade em seu porvir.

Poder Executivo

É incumbido de aplicar as leis e gerenciar problemas atuais emergênciais da


sociedade. É voltado ao presente. Testemunhou grande acúmulo de funções com a emergência
da burocracia estatal, que aumentou após a compreensão do papel do Estado como promotor de
justiça social. Para se controlar essa tendência, tem-se admitido formas de participação da
sociedade (típicas do legislativo) no processo decisório das agências burocráticas estatais. É a
conciliação dos imperativos de democracia e eficiência nos “conselhos” de governo.

Poder judiciário

− Volta-se ao passado, ao Direito já posto, legislado no passado para solucionar casos


concretos e interpretar, de modo autorizado tecnicamente o Direito. Possui independência para
agir sem a interferência de grupos sociais, mas com base na lei.
Texto de trabalho:
O Sistema de Separação de Poderes na Constituição de 1787 (EUA)

Fernando Ramalho Ney Montenegro Bentes


“A Separação de Poderes na Constituição dos Estados Unidos:
Da Revolução Americana ao Constitucionalismo de Jefferson, Madison e Hamilton”`- página 52

Richard Bellamy afirma que o objetivo da Constituição de 1787 foi a construção de um mecanismo
eficiente de resolução de conflitos sociais. O pragmatismo federalista propunha que somente uma estrutura
política ajustada às particularidades da sociedade norte-americana poderia criar um esteio sólido e duradouro para
a defesa dos direitos individuais.
Os fundamentos deste pragmatismo estão no determinismo de Montesquieu, que afirmava a pertinência
das leis dependendo das variáveis que caracterizam uma sociedade específica. Sendo assim, a natureza das
instituições deve obedecer ao imperativo de adaptabilidade às circunstâncias sociais. Dado
que os federalistas apresentavam o homem como egoísta e a sociedade como uma arena de conflito de interesses
inconciliáveis, a constituição resultante deveria refletir o que o auto-interesse e o envolvimento do povo
representavam para a república. Neste sentido, surge a concepção de separação de Poderes, que vem se
somar à representação e à federalização como uma medida controladora da tendência perniciosa do homem e da
sociedade.
Ao invés de proclamar formalmente uma série de garantias, a Constituição se vinculava a um sistema de
separação de Poderes que assegurava, por via indireta, a proteção do indivíduo. Na verdade, os direitos não
preexistiriam à sociedade política, mas seriam definidos a partir da esfera estatal criada pela
Constituição.
O constitucionalismo americano rompeu com a concepção de governo misto, que Montesquieu defendia como um
fator de manutenção da liberdade política na Constituição inglesa. Em seu lugar, adotou uma definição jurídico
formal de governo e separação de Poderes. A distribuição das competências estaduais e federais, a representação e
a solução dos conflitos políticos entre os Estados, tudo está inserido no tecido constitucional, celebrado pelos
federalistas como grande instituição impessoal, que funciona como árbitro de uma sociedade que não poderia ser
dividida nas mesmas bases classistas rígidas com as quais a
teoria do governo misto fora criada.
A Constituição deu origem a um verdadeiro “organismo com vida própria” que funcionava
separadamente da dimensão social e que se baseava na competição entre as diversas instituições oficiais. O
conflito entre os Poderes não se resolveria pelo recurso aos mecanismos de consulta e decisão popular, mas
estaria voltado para a solução apresentada na Constituição, que construiu um mecanismo "de controle recíproco de
diferentes autonomias", ou seja, o sistema de checks and balances
Os federalistas remontaram a Montesquieu ao afirmar que a separação pura dos Poderes é quase impossível na
31

prática. No artigo n° 47 de O Federalista, Madison elenca uma série de exemplos de como os Poderes já se
encontravam imbricados nos Estados, cuja prática política os antifederalistas diziam resguardar
ao se oporem à Constituição de 1787.
Ao mesmo tempo em que a separação pura seria inviável, um governo popular deveria conviver com a
constante ameaça à estabilidade de uma maioria legislativa tirânica que poderia assumir as funções e
competências de um outro Poder. No artigo n° 48 de O Federalista, Madison elenca vários casos de
usurpação legislativa nos Estados, concluindo que “O Legislativo está, por toda a parte, estendendo a esfera de
suas atividades e abarcando todo o poder com seus ambiciosos tentáculos.”

O Mecanismo de Freios e Contrapesos como um Aperfeiçoamento da


Limitação da Participação Popular

Fernando Ramalho Ney Montenegro Bentes


“A Separação de Poderes na Constituição dos Estados Unidos:
Da Revolução Americana ao Constitucionalismo de Jefferson, Madison e Hamilton”`- página 55

A base material da concepção de separação dos Poderes da teoria do governo misto, que usava as
vantagens de cada classe no exercício das funções de governo, não se sustentava nos EUA. Seria impossível, na
sociedade norte-americana, estabelecer Poderes fundados em diferentes ordens sociais para limitar
o povo. Para os federalistas, sem instituições de controle, a própria democracia poderia perecer frente a uma
maioria tirânica legislativa ou degenerar para a anarquia, tal como previsto na anakuklōsis politeiōn.33
O pensamento federalista buscou as soluções para impedir estes inconvenientes da democracia dentro da
sua própria concepção de homem, motivado apenas pelo auto-interesse e que tende a se associar em torno de
facções para a realização egoísta de suas vontades. Se o faccionismo social era considerado, isoladamente, uma
ameaça à estabilidade republicana, dentro do organismo político-constitucional, foi uma solução.
Os federalistas souberam aproveitar a forma como definiram a sociedade para fundar uma estrutura
política que julgavam mais adequada para inibir a participação política popular, bastante intensa no período
revolucionário.
Com base no pressuposto do auto-interesse, os federalistas afirmavam que o melhor controle do governo
se fazia pela ganância dos homens que ocupam os diferentes Poderes. Como cada instituição estatal é composta
por indivíduos egoístas, sempre existiria a ameaça de que um órgão tentasse usurpar a
competência e as funções de um outro ramo do governo. Mas como cada Poder ameaçado também seria composto
por homens que visam o auto-interesse, certamente ele agiria de modo a conter os excessos que adviriam de uma
outra instituição.
Os três Poderes deveriam se contralar mutuamente, formando uma estrutura dans laquelle les limites de
chaque pouvoir sont le produit de La résistance et la réaction éventuelles des autres.
A política transcenderia a ação de grupos sociais e se transportaria para o jogo de forças entre os Poderes.
A racionalidade inerente ao sistema equilibraria as disputas, uma vez que cada ramo de governo não deveria
extrapolar suas funções porque saberia que, se o fizesse, seria contido. A Constituição criou uma teoria auto-
reforçante da estabilidade política, o que leva alguns autores a descrever sua dinâmica entre os Poderes como uma
concepção da teoria dos jogos ou um jogo de soma zero.
A irracionalidade, própria do engajamento popular, é afastada do governo e o perigo da usurpação ou da
ditadura de um dos Poderes se anula por uma solução que brota do próprio tecido constitucional e que não
depende da intervenção popular para funcionar. Os federalistas construíram uma teoria constitucional que afastou
o poder constituinte da política como um meio de torná-lo soberano.
Contrariando as críticas antifederalistas, Madison afirmou que Montesquieu não condenava a intervenção
recíproca entre os três Poderes, mas sim a concentração total de funções em um mesmo órgão, o que geraria um
governo tirânico:
“Tudo estaria perdido se o mesmo homem ou o mesmo corpo dos principais, ou dos nobres, ou do povo, exercesse
esses três poderes: o de fazer leis, o de executar as resoluções públicas e o de julgar os crimes ou as divergências
dos indivíduos.”
E, após discorrer sobre a competência de cada poder e as formas de
controle recíproco, conclui:
“Eis, assim, a constituição fundamental do governo de que falamos. O corpo legislativo sendo composto de duas
partes, uma paralisará a outra por sua mútua faculdade de impedir. Todas as duas serão paralisadas pelo poder
32

executivo, que o será, por sua vez, pelo poder legislativo.”


Os freios e contrapesos seriam a forma norte-americana de impedir a ameaça de usurpação de poder que
Montesquieu atribuiu à Constituição mista inglesa. Tal como os federalistas afirmavam, o Livro XI da obra Do
Espírito das Leis corrobora que o “oráculo” francês, longe de repudiar mecanismos de controles mútuos, exaltava-
os.
A defesa jurídico-formal da teoria dos freios e contrapesos se sustenta sobre a igualdade hierárquica das
instituições controladoras, ou seja, os três Poderes e suas respectivas funções fiscalizatórias estão definidas na
mesma fonte de legitimação, a Constituição de 1787. Estes mecanismos jurídicos de controle
recíproco representam um sistema de regulação endógena do poder, que atua preventivamente ao desequilíbrio
entre os órgãos republicanos.
Embora a participação política dos cidadãos seja menosprezada neste modelo político, a retórica
federalista se negava a assumir seu caráter refratário à vontade popular. O objetivo dos freios e contrapesos seria
impedir a manifestação efêmera e conturbada do povo por meio de mecanismos de filtragem, dos quais se
destacam o papel do Senado e da Suprema Corte. A vontade popular não seria esquecida ou alijada do governo,
mas sim submetida a uma ponderação mûrement réflechie.
John Taylor repudiou a limitação da participação popular no governo, ao afirmar que o sistema de
separação de Poderes adotado criava, em verdade, uma nova aristocracia nacional. Esta classe não se vincularia à
terra, como a nobreza feudal européia, mas sim aos grandes interesses financeiros nacionais, que
atuariam diretamente na esfera federal para cumprir seus objetivos. A ação desta nova aristocracia era viabilizada
pelo modelo de freios e contrapesos que permitia a inter-relação e interdependência dos Poderes, principalmente,
entre Executivo e Legislativo. O primeiro atuaria pervertendo as ligações populares do segundo, usando
expedientes clientelistas para submetê-lo aos interesses dos big business
men.45
Fernando Ramalho Ney Montenegro Bentes
“A Separação de Poderes na Constituição dos Estados Unidos:
Da Revolução Americana ao Constitucionalismo de Jefferson, Madison e Hamilton”

Aula 9: Sistemas de Governo: Relações entre Executivo e Legislativo

Questão dissertativa

PROVA DE ANALISTA DE ORÇAMENTO DO SENADO FEDERAL- CESPE/UNB

O acerto do STF

ANTÔNIO DELFIM NETTO-DEPUTADO FEDERAL/SP

Foi preocupante a reação de parte da imprensa (principalmente radiofônica


) diante da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que suspendeu o dispositivo od art.9º, §
3º, da lei complementar nº 101, de 4/5/2000, que tratada responsabilidade fiscal. Ficou a
impressão de que existe uma incompreensão absoluta do papel do STF, o que sugeriu hipótese
de que os recentes ataques ao Poder Judiciário tenham deixado um resíduo muito perigoso: as
decisões da Corte Suprema teriam de submeter-se aos interesses fazendários definidos pela
burocracia. Essa concepção é extremamente danosa à construção de uma sociedade aberta, em
que a separação dos poderes é fundamental. No país das medidas provisórias, onde inexiste o
controle social exercido por uma opinião pública bem informada, o STF é o último refúgio
daquela separação, permanentemente ameaçada pela invasão cada vez mais ousada do Poder
Executivo.
Não é à toa que o art.102 da Constituição determina: “Compete ao Supremo Tribunal
Federal, precipuamente, a guarda da Constituição”. Não deixa de ser alarmante verificar que
importantes setores da imprensa, justamente aqueles que atingem o maior número de cidadãos,
33

criticaram uma decisão importante do STF com base em argumentos falaciosos. O art.9º da Lei
de Responsabilidade Fiscal (LRF), que continua em vigor, diz: “ Se verificado, ao final de um
bimestre, que a realização da receita poderá não comportar o cumprimento das metas de
resultado primário ou nominal estabelecidas (...) os poderes e o Ministério Público promoverão,
por ato próprio e nos montantes necessários (...) limitação de empenho e movimentação
financeira, segundo os critérios fixados pela Lei de Diretrizes Orçamentárias”.
O que o STF suspendeu foi o § 3º desse artigo, que diz: “No caso de os Poderes
Legislativo e Judiciário e o Ministério Público não promoveram a limitação no prazo
estabelecido no caput (30 dias), é o Poder Executivo autorizado a limitar os valores”. O STF
julgou, corretamente, que se trata de clara invasão de competência que fere a autonomia
financeira e a garantia de independência de cada Poder Inconstitucional é, pois, a invasão de
competência, não a limitação das despesas que cada Poder continua obrigado a realizar por ato
próprio. Não houve portanto, nenhuma “irresponsabilidade fiscal do STF”, como se divulgou
em campanha radiofônica.
Todos concordam que a LRF foi um avanço enorme na direção do equilíbrio
financeiro dos três níveis do Poder Executivo. É absurdo supor que o STF excluiu, por aquela
decisão, os Poderes Legislativo e Judiciário de sua responsabilidade fiscal. Os três poderes
continuam, como antes, sujeitos às mesmas obrigações, cada um por si, mas independentes. Não
é possível que o Poder Executivo pretenda ser o único “guardião da ordem financeira”,
levantando a suspeição (é isso que era o § 3º) de que os outros são “irresponsáveis”.
Felizmente o STF manteve a independência dos poderes, fundamental para as
liberdades do cidadão comum.

1- À luz da teoria dos freios e contrapesos, responda qual importância teve o


Judiciário (STF) na defesa da independência dos poderes da República neste julgado citado pelo
Dep. Federal Delfim Netto.

XV) Sistemas de Governo


Relações entre Executivo e Legislativo

1) Presidencialismo Puro

Nesta modalidade, o Executivo se concentra na figura do Presidente da República,


que acumula as chefias de Estado e de Governo.

A) Chefia de Estado: trata-se de função que garante a estabilidade das instituições democráticas,
cuidando da estabilidade da estabilidade do sistema político. O chefe de Estado comanda as
forças armadas e o serviço de representação internacional do país.

B) Chefia de Governo: é uma função gerencial de liderança na implementação e administração


de assuntos internos e políticos públicos.

C) As relações do Poder Executivo com o Legislativo são, em regra, de submissão do último ao


primeiro. No máximo, o Legislativo assume um papel de veto aos projetos de lei enviados para
sua apreciação. Em regra, o Legislativo depende do poder de agenda do Executivo, perdendo
seu caráter supremo na teoria clássica da separação de poderes. Evidentemente, que uma
estrutura política pode formatar um sistema presidencialista puro com grandes competências
delegadas ao Legislativo, mas isto não ocorre em regra.

2) Presidencialismo Parlamentarista
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Neste modelo o Parlamento (Poder Legislativo) assume uma relevância maior,


indicando o Chefe de Governo (Primeiro Ministro, Chanceler, Premier) e, em alguns casos, seus
ministros (Gabinete). Há uma ingerência do Legislativo no
Executivo, que carece da anuência dos legisladores para manter a governabilidade. A Chefia de
Estado, neste modelo, é feita por eleição separada, também do Parlamento ou diretamente pelo
povo (mais comum). No parlamentarismo, o chefe de governo só permanece no poder enquanto
houver respaldo do Legislativo, que pode removê-lo a qualquer tempo ou adverti-lo desta
intenção (moção de desconfiança). O Premier ou o Presidente também tem a prerrogativa de
convocar eleições legislativas em ocasiões especiais, quando julgar que não há compatibilidade
entre a vontade popular e a ação/ comportamento do Parlamento.

Monarquia Parlamentarista ou Parlamento Monárquico

A) Chefia de Estado: se concentra no monarca, escolhido por critérios hereditários e


a chefia de governo é escolhida pelo Parlameto. Atualmente, diante da necessidade de
capacitação técnica e legitimidade democrática para o exercício de funções estatais, o monarca,
em regra, exerce posição figurativa, de garantia da estabilidade institucional (no máximo), mas
sem o comando das forças armadas ou representação internacional, que acabam delegadas ao
Primeiro Ministro.
Texto de trabalho:
Presidencialismo
Curso de Direito Constitucional – André Ramos Tavares- página 1176
A característica principal do Presidencialismo é a autonomia do Presidente da República perante o
Congresso, isto é, o Presidente não necessita do apoio do Congresso para manter-se no poder. É importante
ressaltar, no entanto, que o êxito de sua política governamental na direção do país vai depender de um bom
relacionamento com o Legislativo, único meio que lhe pode assegurar a efetividade de seus programas, uma vez
que estes dependem, em um Estado de Direito, de leis e da aprovação de verbas que custeiem a realização das
metas assinaladas.
Outra característica que podem ser assinaladas são: o presidente exerce o papel de Chefe do Estado e de
chefe do governo concomitantemente; os Ministros são meros auxiliares do Chefe do Executivo e demissíveis por
ele a qualquer momento; o Presidente não tem grande participação no processo legislativo, o povo é quem elege,
direta ou indiretamente, o Chefe do Executivo para cumprimento de um mandato, e não o Parlamento.
Chefe de Estado
Chefe de Estado é aquele que tem a tarefa de representar o pais no âmbito internacional e no âmbito
interno. Por que o Chefe de Estado é considerado irresponsável por seus atos políticos? Porque só presta contas ao
cidadão, não ao Poder Legislativo.
Chefe de Governo
O chefe de Governo é responsável por comandar a Administração Pública, devendo prever e executar as
metas de desenvolvimento.
É imperioso distinguir, na atualidade, entre função de governo e função administrativa. Nesse sentido,
consoante Carré de Malberg, o que caracteriza um ato de governo seria a circunstância de que ao contrário dos
atos administrativos, “encontra-se livre da necessidade de habilitações legislativas e se cumpre pela autoridade
com um poder de livre iniciativa, em virtude de uma potestade que lhe é própria e decorre de uma origem distinta
da lei”. O presidente da república, disse Woodrow Wilson, tem a confiança da nação na condução do governo. A
distinção parece ter acolhida, inclusive no STF, que julgando o caso da iniciativa presidencial do projeto de lei de
revisão geral anual da remuneração dos servidores da União, assentou que essa atribuição não se compreende
dentre aquelas de natureza administrativa.
Isso não significa, porém, deixar de reconhecer a função administrativa como umas das principais
atribuições do Poder Executivo. Não tem este, contudo, o monopólio da função administrativa, nem essa é a única
função que exerce. Bastaria citar os processos administrativos e a possibilidade de julgar e editar normas de
caráter geral e abstrato.(...)
Presidencialismo e Parlamentarismo
A grande diferença entre os dois modelos está no papel do órgão legislativo. Enquanto no
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parlamentarismo este não se limita a fazer as leis, mas também é responsável pelo controle do governo, tomando
posições políticas fundamentais, no presidencialismo aquela atividade lhe é atribuída em caráter principal.
Além disso, no Parlamentarismo, o Parlamento pode destituir o Gabinete (o conjunto dos ministros), por
razões exclusivamente de ordem política, enquanto no presidencialismo isso só poderia ocorrer em relação ao
Presidente da República e em razão da prática de certos delitos.
Ao comparar os dois sistemas, o Prof. Celso Bastos afirma: “(...) o que o presidencialismo perde em
termos de ductibilidade às flutuações da opinião publica, ganha em termos da segurança, estabilidade e
continuidade governamental”.
É observada, recentemente, uma tendência de aproximação dessas posições inicialmente antagônicas. Foi
o que ocorreu na França, em 1958, onde, por meio de uma votação plebiscitária, adotou-se um modelo que
procura reunir vantagens dos dois sistemas.
Aula 10: Partidos Políticos
XVI) Partidos Políticos

A) Teoria Behavorista

Esta teoria valoriza mais o comportamento de grupos do que a estrutura institucional


na qual se formam as disputas e decisões políticas.
Sendo assim, os grupos de pressão se consubstanciam em vetores da ação política
organizada, com especial destaque para os partidos políticos, que são grupos profissionalizados
para a conquista do poder.
Os partidos em economias agrárias, estruturavam-se sob critérios locais. Com a
industrialização e decorrente disputa de classes, a questão social é alçada à arena política, tendo
os partidos se dividido entre a maior ou menor predisposição de defender políticas socias.

B) Pluripartidarismo

É o modelo de funcionamento partidário em que várias agremiações políticas


disputam o poder.
Isto permite uma pureza ideológica maior, dado que cada macrocorrente de
interesses/ pensamento político pode criar seu próprio partido. No entanto, sempre há
concentração do poder em torno de 2 a 4 partidos principais com peso político efetivo.

C) Bipartidarismo

Neste modelo, embora haja permissão para o pluripartidarismo, o processo histórico


conspira para a galvanização dos grupos de pressão em torno de duas forças, apenas. Como
incorporam várias correntes diferentes, o projeto ideológico destes partidos, geralmente, são tão
abrangentes que quase não há diferença substancial entre eles.

D) Sistema majoritário

É o sistema que estabeleceu o maior número de votos para o preenchimento dos


cargos eletivos.
Ex. eleição para presidente da República no Brasil

Texto de Trabalho:
A dimensão sociológica do partido político brasileiro
Livro: Ciência Política – Paulo Bonavides – página 521
36

Em Problemas de Política Objetiva, o terceiro problema que serve de tema a Oliveira Vianna e a que este
consagra três breves capítulos, é o da organização do partido político no Brasil.
Concedendo a Rui Barbosa o merecimento inestimável de haver acordado o país para a participação
cívica nas campanhas eleitorais e mostrando quanto já se fizera a esse respeito até a Campanha de Nilo Peçanha,
em 1922, Oliveira Vianna assinala, de uma parte, a inutilidade imediata daqueles movimentos feitos sobe a crosta
letárgica da sociedade rural brasileira, imobilizada nos vínculos do personalismo e presa ao cerrado egoísmo dos
clãs e seus chefes — sociedade insensível, por conseguinte, à palavra política, às plataformas de governo, às
formulações administrativas, ao apelo dos programas, à exposição das idéias e dos princípios — mas, doutra parte,
ressalva, um tanto contraditório, o pessimismo que exala, agudo, de suas reflexões iniciais.
Esse pessimismo assim se exprime: “Campanhas e propagandas com intuitos eleitorais só se justificam
entre povos cuja organização partidária não é o clã pessoal, ou em que o instinto gregário está ausente do caráter
das maiorias populares”.12
Conclui porém que aquelas caravanas, com paciência e lentidão, fazem trabalho ingente, constroem o
futuro, plantam o carvalho que há de crescer e atravessar decênios, transpor gerações. O meio rural conhecerá pois
os seus problemas ouvindo o orador dos comícios democráticos. Virá depois o tempo alforriá-lo da dependência
do chefe. A este se prendem as populações rurais por “instinto de fidelidade” por “preconceito de lealdade”, por
todos esses elementos de sujeição pessoal que tolhem se deixem elas “arrastar pela força abstrata e invisível das
idéias”.13
Do mesmo sociólogo: “Os nossos homens de interior costumam apoiar homens — e não programas;
pessoas — e não idéias”.14
Não temos democracia de partidos e a razão, segundo Oliveira Vianna, reside nisso: “Ora, em nossa
democracia, o que vemos é justamente o contrário disto: ela se baseia em indivíduos — e não em classes; em in-
divíduos dissociados — e não em classes organizadas, e todo mal está nisto”.15
Crê ademais o mesmo pensador que “todas as tentativas de organização partidária em nosso País, desde o
Primeiro Império” foram vítimas de um logro: o de “julgar possível a organização de um partido — partido que
não seja um bando, agitando-se em torno de um homem, de um caudilho — sem a preliminar organização das
classes econômicas, das classes que produzem e contribuem”.16
Todo o pensamento de Oliveira Vianna como análise sociológica do partido político no Brasil é em larga
parte correto ou válido até as vésperas da Revolução de 1930. Mas desde que ele escreveu aquelas considerações,
o meio eleitoral subjacente às estruturas partidárias padeceu em nosso País algumas relevantes transformações.
Houve pois mudança, houve progresso, houve passagens qualitativas em termos de apreciação social das nossas
bases políticas.
Com efeito, da Revolução de 1930 aos nossos dias, observam-se os seguintes pontos de mudança: as
massas rurais já não compõem sozinhas as três quartas partes do corpo eleitoral; o sufrágio urbano se fortaleceu
quantitativamente por decorrência da revolução industrial em marcha, e essa elevação aritmética tende a
robustecer-se com o tempo; o eleitor, em largas zonas rurais, continua preso ao chefe político, por laços de adesão
pessoal, mas essa adesão já não é passiva ou incondicional: resulta agora da expectativa de uma prestação e
contraprestação, base da mantença do prestígio das lideranças políticas; enfim, o eleitor vota ainda, em grande
parte, fora de um quadro de idéias, mas consciente do imediatismo pertinente ao atendimento de certos interesses
de ordem pessoal ou de natureza pública. Dantes apenas a obediência cega, o voto manipulado nas fraudes
eleitorais, o falseamento da verdade política. Agora, o voto dado por um eleitor exigente de compensações de
ordem pessoal: o emprego, por exemplo.
O erro de Oliveira Vianna é supor que na democracia do século, necessariamente uma democracia de
massas, seja possível o comportamento ideológico do corpo eleitoral classificado em partidos políticos. Esse
comportamento será de exceção, e só reconhecível àquelas agremiações em desacordo com o sistema político
estabelecido e assim determinadas no propósito de reformar ou abater as instituições desde os seus fundamentos.
Temos, por conseguinte, no Brasil, o que não poderíamos deixar de ter: esse quadro partidário de
patronagem, destino de todas as situações democráticas da faixa ocidental, coerentes com as suas origens. Já
chegamos, pois, a semelhante grau de desenvolvimento. O que temos distinto da Inglaterra, dos Estados Unidos e
mais países ocidentais é apenas a base da pirâmide eleitoral, ou seja, a compacta massa rural e urbana de eleitores,
cuja tomada de consciência política, quando efetivamente ocorrer, se dará principalmente em termos sociais, em
sentido oposto à política habitual dos partidos. Dar-se-á com notas de agressividade e impaciência, que se não
observam, com a mesma intensidade, nos países desenvolvidos.
“Desrevolucionar” essas massas consiste portanto em acomodá-las ao processo partidário clássico. A
democracia partidária será sempre no Brasil politicamente personalista em matéria de colheita ou captação de
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sufrágios: democracia de confiança no homem público para atender clientelas, democracia de empregos ou
democracia para dar soluções administrativas, práticas, concretas, positivas, a problemas que, se não dizem res-
peito a pessoas determinadas, dizem respeito a grupos ou classes.
Nisso se cifra o máximo de despersonalização a que se pode chegar num processo partidário onde não se
venha a confundir o voto nas idéias com o voto nas ideologias.
Se entendermos por voto nas idéias o voto em planos e programas de governo, tomando por tácitas as
bases institucionais, que serão feitas instrumentos ou órgãos desses planos, então já temos em verdade uma
pequena parcela do eleitorado brasileiro resolutamente caminhando para esse resultado.
Mas não tenhamos ilusões maiores a esse respeito. À proporção que camadas sociais mais numerosas se
vão politizando, egressas da marginalização que as excluíra de toda ingerência no processo político, observa-se
que seu comportamento dificilmente se poderá conter nos moldes tradicionais do pluripartidismo ocidental.
A democracia de massas nos países desenvolvidos abrange uma só força sufragante, com indiferença à
tese ideológica, como no caso norte-americano; com sustentação manifesta da ideologia dominante, de cunho
democrático-parlamentar, como no caso da Inglaterra.
Ali, eleitor e eleito buscam solução para problemas ou alimentam idéias de teor político-administrativo,
sem jamais questionarem as bases do sistema.
Do ponto de vista qualitativo, é isto o máximo a que se há de chegar em países, onde a dissidência
ideológica na estrutura partidária raramente alcança abalar o quadro das instituições.
Num país porém sem os níveis de um desenvolvimento industrial consumado, que é o caso do Brasil, esse
quadro se modifica, complica-se, enreda-se em contradições flagrantes e desesperadoras.
Convocado à participação, o eleitorado poderá ouvir das lideranças políticas o sedutor apelo às atitudes
ideológicas. Os problemas mais importantes em nosso país se vinculam invariavelmente a questões estruturais.
Debatê-los partidariamente traz sempre o “inconveniente” de suscitar questões de fundo. Não suscitá-los, significa
manter partidos e opinião boiando sem rumo em superfície de mar revolto, batido pelas tempestades sociais, que
poderão mais cedo ou mais tarde fazer submergir as instituições democráticas.
A dimensão social e política que se abre ao partido político brasileiro em termos de conservação
democrática implica portanto algo mais que aquilo que se passa na Inglaterra, Itália e Estados Unidos. Implica
tomada de consciência quanto às responsabilidades de uma missão para a qual ele se afigura de todo
despreparado.
Não basta situá-lo, pelo aperfeiçoamento democrático, como um partido de idéias, esvaziado de ideologia,
conforme o modelo das organizações partidárias norte-americanas, ou fazê-lo militantemente ideológico como na
Inglaterra (a ideologia democrática). Urge dar-lhe um programa de governo, com idéias profundas de reforma
econômica e social, que tragam na adesão ao princípio democrático uma confissão também dos rumos a serem
perlustrados quanto à transformação histórica da sociedade subdesenvolvida ou semidesenvolvida em sociedade
plenamente emancipada tocante à questão do século, que é, como todos sabem, para nós, a questão do
desenvolvimento.
A solução norte-americana geraria crises incoercíveis, crônicas, inarredáveis. A solução inglesa parece-
nos melhor. Resta porém saber se seria formalmente possível. Demanda o máximo de “politização” dos partidos
no quadro da ideologia democrática. Precisariam eles de transformar-se a cada passo em escolas de reverência à
lei, de culto às instituições, de consolidação da confiança pública nos homens que governam e no regime a que
servem para formar então lideranças de escol, ou homens que tivessem o perfil de estadistas. Partiríamos a seguir,
democraticamente, para intentar a solução de problemas, que muitos descrêem seja possível nos moldes
competitivos da recente estrutura que tinham os partidos brasileiros, e que continuarão a ter, sem dúvida.
Ora, essa desconfiança inicial, feita de pessimismo e suspeição, constitui já um agente negativo, fator que
mina as esperanças da opinião na subjugação das crises, por meios ou instrumentos normais de comportamento
democrático. E a vida de um país sub ou semidesenvolvido é a vida em crise institucionalizada.
Quando chegamos a esta altura da reflexão, temos que parar. Domina-nos de longe a sedução
parlamentarista. Por sermos um tanto “ingleses” na solução brasileira que convém às nossas instituições políticas
é que preconizamos o instrumento parlamentar de governo.
O parlamentarismo educaria os partidos e os partidos educariam o povo. Daqui por diante a estrada ainda
seria difícil de seguir, cortada de espinhos, ameaçada de desvios, marcada de longas e sinuosas curvas, que
ladeariam as grandes crises do poder. Mas se o parlamentarismo desse porventura ao país alguma tranqüilidade
institucional, a de que mais precisamos desde a queda da Primeira República, em 1930, decerto que o sistema
cobraria meios seguros de entrar a fundo na ordem administrativa, financeira e econômica, para então lograr, com
bom êxito e sem abalo do regime democrático, o termo da mudança industrial, promotora de nossa elevação à
categoria das nações desenvolvidas do Ocidente.
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Origens do bipartidarismo. Uma tentativa de entender as eleições norte-americanas

Lua Nova: Revista de Cultura e Política - Antonio Pedro Tota

Novembro de 2004, Universidade de Maryland, cerca de vinte minutos da Casa Branca, Washington DC. Os
Estados Unidos estavam em alerta total, não por questões de segurança nacional: a tensão era pela disputa entre o
democrata John Kerry e o republicano George W. Bush, buscando a reeleição. "Não se troca o cavalo no meio da
jornada." Essa metáfora western-hollywoodiana foi usada para justificar a vitória, relativamente fácil, de George
W. Bush, considerado o pior presidente que os americanos já tiveram.
Militantes do Partido Democrata protestaram quando, aparentemente, alguns votos não foram contados porque os
eleitores não conseguiram entender a disposição dos nomes dos candidatos nas cédulas - que são diferentes em
cada estado. Intrigado com o mecanismo das eleições que eu não podia entender completamente, por mais atenção
que prestasse, pedi a um professor de História Americana explicações sobre o sistema eleitoral do país. O
professor não hesitou em responder: "não sabemos exatamente".
O processo eleitoral nos Estados Unidos é bastante complexo e confuso, para os próprios americanos; para nós, é
quase impossível de entender. A leitura de um livreto editado pelo Bureau of International Information Programs 1
do Departamento de Estado no início do corrente ano, ajudou a esclarecer um pouco.
Os Estados Unidos da América são uma democracia representativa desde que a constituição de 1787 foi ratificada.
Eleição nunca foi uma novidade para os habitantes das treze colônias inglesas na Costa Leste do continente
americano. O township na América, lembrada por Tocqueville, vinha da Inglaterra e elegia seus administradores.
As eleições atuais guardam alguns resquícios dos tempos da colônia. A escolha do presidente e do vice-presidente
ocorre a cada quatro anos e se realiza em anos pares. E a cada dois anos são eleitos 435 membros da câmara dos
deputados, assim como, aproximadamente, um terço dos cem membros do senado (o mandato dos senadores é de
seis anos).
O sistema federativo americano é muito complexo. O governo federal exerce o poder central, evidentemente. Mas
nem tanto. Os governos dos estados têm muita autonomia, quando se compara com o que ocorre no Brasil. Na
verdade, muitas vezes, ao governo federal não é permitido exercer certas funções que só competem ao governo
dos estados. Os estados e governos locais (entenda-se governos dos condados ou county - o que corresponde mais
ou menos a nossos municípios) têm uma variedade muito grande de independência. Há dois tipos básicos de
eleições: uma primária e outra geral. As primárias são, como o nome indica, realizadas antes das eleições para
presidente e servem para indicar o candidato de cada um dos dois partidos americanos, isto é, o Democrata e o
Republicano. A rigor, a política dos Estados Unidos funciona como um sistema bipartidário. Há outros partidos,
mas foram poucas as vezes em que um terceiro partido chegou perto da vitória. Chegou perto, mas nunca ameaçou
o monopólio, ou melhor, o duopólio, dos dois partidos.
Desde o começo do século XX, as eleições primárias têm sido, em certo sentido, o principal instrumento para a
escolha do candidato do partido à presidência. Raramente aquele que ganha nas primárias não é escolhido
candidato do partido. Em alguns estados o candidato é escolhido por tradição em convenções locais em vez de
primárias. Esse sistema é chamado caucus. O caucus é uma espécie de encontro de membros do partido de uma
pequena localidade para escolher o delegado. O caucus envolve reuniões em casas de pessoas conhecidas ou clube
de uma comunidade. Cada pequeno grupo reúne-se num cômodo da casa ou nas dependências do clube e tenta
chegar a um consenso, depois numa reunião maior dizem o nome escolhido até chegarem a um nome comum.
Depois disso, o partido se reúne na convenção nacional, geralmente entre julho e setembro. Desde os anos 1970,
já se fica sabendo o nome do candidato muito antes da convenção. É o que está acontecendo agora: McCain, pelo
Republicano, e Barack Obama, pelo Democrata. Tudo isso porque eles conseguem a nomeação de delegados
partidários de suas candidaturas antes que as primárias e os caucuses terminem... Assim, as convenções viram
uma festa. Apitos, balões, ou melhor, bexigas, e principalmente bandas acompanhadas de cheerleaders. E os
chapéus de "palheta", herança da moda do fim do XIX. Na verdade, a convenção já é um primeiro e importante
passo para a propaganda nacional do candidato.
Daí vai-se para as eleições gerais. O problema é que não se escolhe somente o candidato. Alguns estados
aproveitam para fazer petições por escrito na própria cédula para aprovar o orçamento de uma obra pública.
Segundo o site da UOL, para a próxima eleição um grupo de democratas da Califórnia está recolhendo assinaturas
para incluir nas cédulas das eleições de novembro uma proposta de mudança do nome de uma estação de
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tratamento de água, de "Oceanside Water Pollution Control Plant" para "George W. Bush Sewage Plant" - ou seja,
Estação de Tratamento de Esgotos George W. Bush. Não é fácil votar nos Estados Unidos. A escolha do
candidato, na eleição geral, é feita por meio de uma lista escrita numa cédula. Assinala-se e deposita-se numa
urna. No livreto do Departamento de Estado há uma fotografia de uma funcionária segurando uma máquina de
votar. Essas novas máquinas estão sendo adotadas em alguns estados.
O número de votantes vem caindo de eleição em eleição. Com exceção das duas últimas (2000 e 2004), votam no
máximo 50% dos eleitores. Daí a dúvida que paira sobre a legitimidade do pleito. O voto não é obrigatório, mas
voluntário. O sistema complica-se com o grande número de eleições que podem ocorrer simultaneamente nos
planos local e geral. O eleitor precisa se auto-registrar, o que é diferente em cada condado, cada estado, cada
pequena cidade perdida no "sertão" de Montana ou de Oregon. Tudo isso leva o americano a uma preguiça
eleitoral macunaímica. E mais: a eleição não é feita num domingo, e sim em dia comum de trabalho.
Só americano nato pode se candidatar a presidente. Um terceiro mandato ficou proibido desde que a vigésima
segunda emenda foi aprovada, em 1951. O último que se reelegeu por mais de uma vez foi Franklin Delano
Roosevelt. No começo, isto é, em 1787, na época em que foi escrita a constituição, os chamados founding fathers
não planejaram a existência de partidos na acepção moderna do termo. Os primeiros mecanismos estavam
assentados nas premissas da separação entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. O federalismo era a
base e o presidente deveria ser eleito por um colégio eleitoral. Isso ajudou a nova república a ficar mais
independente de partidos e facções políticas.
No entanto, apesar das intenções dos pais da pátria, por volta de 1800 a nova república possuía organizações
políticas em bases nacionais semelhantes a partidos. Sem dúvida, isso era novo no mundo da política. Mesmo na
França revolucionária, não havia exatamente partidos nacionais. Pela primeira vez podia-se transferir o poder de
uma facção para a outra por meio de eleições. O desenvolvimento e expansão dos partidos foram seguidos pela
extensão do direito de voto. No começo da república, somente proprietários do sexo masculino é que podiam
votar. No século XIX, com a chegada dos imigrantes, a expansão para o Oeste e o crescimento das cidades, os
novos atores sociais começaram a exercer poderosa pressão para uma maior participação política. Aos poucos, o
direito foi se tornando extensivo a todos. Uma cena do filme O homem que matou o facínora (The man who shot
Liberty Valance), de John Ford, dá uma boa idéia do significado do direito de voto adquirido pelos imigrantes.
Ramson Stoddart, o advogado do Leste recém-chegado em Chimbone, uma imaginária cidadezinha perdida no
Oeste, dá aulas de cidadania aos semi-analfabetos habitantes da localidade, adultos e crianças. Num determinado
momento, o improvisado professor pergunta a Nora, uma sueca, o que ela havia aprendido sobre a democracia.
"Se o representante em quem votamos", respondeu a imigrante, "não fizer o que prometeu, vamos dar um chute
nos 'manda-chuvas' de Washington e não vamos votar mais nesses políticos." Na época em que o filme foi
ambientado, isto é, pouco depois da Guerra Civil, o voto ainda não tinha se estendido às mulheres, mas já havia
clara consciência dos direitos. Direitos limitados, entretanto. Depois da Guerra Civil, teoricamente os ex-escravos
estavam habilitados a votar. Durou pouco. Em 1877, o programa de reconstrução foi dado por encerrado, e os
negros livres voltaram a uma quase-escravidão, pelo menos em muitos estados do Sul.
O Partido Republicano e Partido Democrata têm suas origens nos predecessores do século XIX e dominam
totalmente o processo eleitoral. Com raríssimas exceções, são os dois partidos que controlam a presidência, o
congresso, a câmara dos deputados, os governos dos estados. Por exemplo, desde 1852 todos os presidentes foram
eleitos ou pelo Partido Republicano, ou pelo Democrata. Há possibilidade da participação de outros partidos?
Legalmente sim. Eles podem e têm seus candidatos. Mas a máquina dos dois partidos é de tal forma poderosa que,
na prática, é impossível a eleição por meio de um terceiro partido.
Os dois partidos majoritários não têm uma programação claramente ideológica. Há, isto sim, uma base mais
pragmática, o que facilita uma adaptação ao processo político.

OS DOIS PARTIDOS E O COLÉGIO ELEITORAL


O domínio dos dois partidos, desde os anos 1860, está ligado a aspectos da estrutura do sistema político
americano. A formação de bases nacionais do partido exige um aperfeiçoamento de gerenciamento, fontes de
financiamento e apelo popular para vencer nos distritos legislativos por todo o país. Sob esse sistema, pequenos
partidos ou o chamado terceiro partido não têm chance de ter representação. Mas os americanos não parecem ver
nisso um problema. "Estamos satisfeitos com os dois partidos. Dois partidos dão conta de nossos aspirações
políticas ideológicas", parece dizer o eleitor. Além do mais, para o historiador Richard Hofstader, "o destino dos
Estados Unidos da América não é o de ser uma nação que possui ideologias, mas de ser uma ideologia"2.
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Tecnicamente, os americanos não elegem o presidente e o vice-presidente por meio do voto direto. Essa é uma
atribuição do colégio eleitoral. Os americanos votam dentro de seus estados em um grupo de eleitores que se
compromete com um ou outro candidato (somente um) e formam um Colégio Eleitoral. Cada Estado tem um
determinado número de eleitores no colégio, baseado no tamanho de sua população. Em quase todos os estados, o
vencedor do voto popular leva todos os votos do colégio eleitoral daquele estado. Por causa desse sistema, um
candidato pode chegar à Casa Branca sem ter o maior número de votos populares em âmbito nacional. O número
de eleitores corresponde ao número de representantes (deputados) e senadores de cada estado. A eleição do
presidente requer maioria absoluta dos 538 votos dos cinqüenta estados.
Os pais fundadores dos Estados Unidos planejaram o colégio eleitoral para que os estados pudessem repartir o
poder estatal e nacional. É por isso que, sob o sistema de colégio eleitoral, o voto popular não possui um peso
significativo no resultado final. Algumas vezes, candidatos foram eleitos sem a maioria dos votos populares.
As eleições primárias (presidência, senado e governo estadual) são consideradas peças fundamentais para a
existência da democracia. Se algum militante mais radical, ou mais liberal, na linguagem da cultura política
americana, conseguir ser nomeado nas eleições primárias, ele pode e deve fazer valer sua plataforma política
dentro dos limites do programa do partido. A elasticidade política dos partidos americanos é social e étnica. Com
exceção dos judeus e dos negros americanos (que majoritariamente votam com os democratas), os dois partidos
recebem votos de quase todos os segmentos sociais e étnicos do país. Ou seja, os partidos têm grande flexibilidade
e grande diversidade a ponto de absorver em suas fileiras radicais de todos os lados. Em outras palavras, como já
vimos, quando um partido assume o poder, o pragmatismo tende a suplantar a ideologia. E para complicar mais as
coisas, um presidente não pode exigir do senador ou deputado de seu próprio partido um voto de lealdade
partidária.
Se a exigência de maioria absoluta torna impossível a eleição de um candidato por um terceiro partido, algumas
vezes isso quase foi possível. Em fevereiro de 1912, o ex-presidente Theodore Roosevelt quis disputar a indicação
como candidato do Partido Republicano. A disputa era severa. Do outro lado do partido estava William Howard
Taft, antigo amigo de Roosevelt que disputava a reeleição. A máquina do partido estava nas mãos dos seguidores
de Taft. Roosevelt, sabendo que seria derrotado, fundou um novo partido de caráter progressista. Durante sua
presidência, Roosevelt ficou conhecido como durão e se dizia forte como o alce gigante encontrado nas florestas
frias da América do Norte - em inglês, moose. O novo partido ficou conhecido como Bull Moose Party. Três
nomes disputavam a eleição em novembro de 1912: Theodore Roosevelt pelo Bull Moose Party, William Taft
pelo Partido Republicano e Woodrow Wilson pelo Partido Democrata. A participação de um candidato
(Roosevelt) com forte apelo popular por meio de um terceiro partido que tentava romper com a tradição do
bipartidarismo só serviu para dividir os eleitores do Partido Republicano. O democrata Wilson, como sabemos, foi
eleito. Theodore Roosevelt arrumou sua bagagem e veio curtir a ressaca da derrota na selva amazônica, ao lado de
Cândido Rondon3. Algo parecido ocorreu em 1992 quando o bilionário texano Ross Perot saiu por um terceiro
partido com uma plataforma conservadora. O Partido Republicano dividiu-se, e Bill Clinton, do Partido
Democrata, venceu, derrotando George Bush pai. Há quem afirme que a candidatura do verde Ralph Nader foi
financiada, secretamente, pelo Partido Republicano, já que Nader surrupiou muitos votos que iriam para Al Gore,
do Partido Democrata, facilitando a duvidosa vitória de George W. Bush em 2000. Ou seja, a candidatura por um
terceiro partido é legal, mas a eleição, impossível.

ORIGEM DOS PARTIDOS


O Partido Republicano que elegeu Abraham Lincoln em 1860 descendia do "Partido Federalista/Whig". Nasceu
com base de uma plataforma reformista, progressista, antiescravista e favorável a taxas que protegessem as
indústrias e manufaturas. Durante a ausência dos democratas no Congresso (na Guerra Civil 1861-1865), o
Partido Republicano implementou leis favoráveis aos negócios e aos agricultores do Norte: com altas tarifas,
ferrovia transcontinental, assentamentos de agricultores no Oeste (homesteads). A vitória do Norte na Guerra
Civil garantiu o domínio dos republicanos até 1913 (exceção feita a dois mandatos de Grover Cleveland, em
1885-1889 e 1893-1897). Em grande parte, graças à Guerra Civil, consolidou-se como um dos dois partidos que
dominam o cenário político americano.
Já o Partido Democrata originou-se no "Partido Republicano Jeffersoniano", por volta de 1790, para opor-se ao
"Partido Federalista/Whigs". De Jefferson, o partido recebeu os fundamentos de um governo mínimo - opondo-se
aos impostos que os Federalistas defendiam - e o apoio aos interesses agrários, em especial os do Sul. Nos anos
1830, o Partido Populista de Andrew Jackson (apoiado por pequenos agricultores) reforçou as fileiras do Partido
Democrata, transformando-o. Com a Guerra Civil, o Partido Democrata, por ter iniciado a secessão, ficou
41

associado aos sulistas, ao racismo e ao reacionarismo.


Os herdeiros políticos democratas-jacksonianos-populistas renasceram no final do século XIX com uma
plataforma de defesa dos interesses dos pequenos sitiantes (farmers) e de trabalhadores em geral. Esse grupo
acabou por se fundir aos progressistas de Theodore Roosevelt, representado também pelos partidários de Wilson
do Partido Democrata. Nos anos 1920, muitos membros do Partido Democrata - que haviam ficado fora do poder
por muitos anos - fundiram-se aos conservadores do Partido Republicano. Foi aproximadamente nesse período
que os dois partidos começaram a mudar de sinal. Isto é, a bandeira de conservadorismo passou para o Partido
Republicano, e a bandeira do liberalismo (na concepção americana), mais progressista, passou para o Partido
Democrata, que finalmente se livrou do estigma de escravista. Mas foi somente com Franklin Delano Roosevelt
(depois de 1933) que o Partido Democrata foi transformado em verdadeiro agente de uma revolução democrática,
que reviveu as reformas wilsonianas (e também do primeiro Roosevelt), radicalizando-as. Devem-se levar em
conta as particularidades do Sul dos Estados Unidos, onde o Partido Democrata continuou sendo o baluarte de um
reacionarismo racista. A revolução de Roosevelt apoiava-se fortemente na classe operária dos grandes centros
urbanos e industriais, na classe média ascendente, nos sindicatos, em minorias étnicas e religiosas e em alguns
democratas do Sul.

PRIMÁRIAS
As eleições primárias nem sempre foram a regra nos Estados Unidos. No século XIX e em parte do XX, a escolha
do candidato se fazia nas convenções, que eram controladas pelos líderes dos partidos. A liderança política usava
sua influência para garantir que os delegados votassem corretamente (de acordo com o interesse dos grupos) na
convenção. No entanto, no começo do século XX, os oponentes dos caciques dos partidos demandaram
modificações no sistema de escolha. Aos poucos, muitos estados começaram a fazer eleições para a escolha dos
delegados, isto é, eleições primárias. Em 1916, mais da metade dos estados americanos já realizavam esse tipo de
eleição. Durou pouco a alegria das oposições aos caciques. Depois da Primeira Guerra, os poderosos do partido
perceberam que as primárias minavam a estrutura de poder criada e mantida há muitos anos. Houve pressões
sobre os poderes dos estados: as primárias eram muito caras, e poucas pessoas participavam ó esse era o
argumento deles. Na eleição de 1936, somente doze estados as realizaram.
Depois da Segunda Guerra Mundial, o crescimento das cidades, a expansão dos subúrbios e, principalmente, a
difusão da televisão como meio de comunicação de massas transformaram a sociedade americana. Antes mesmo
de 1960, quando Kennedy foi eleito, mais de 90% das famílias americanas possuíam pelo menos um aparelho de
televisão. E foi a televisão que ajudou a trazer de volta as eleições primárias. A maioria das pessoas podia ver e
ouvir as campanhas políticas entre a propaganda de um sabão em pó e de um novo modelo de aspirador ou de uma
soap opera. Um candidato a presidente poderia exibir seu popular appeal, como foi o caso de John Kennedy. Da
televisão para a retomada na participação das primárias foram necessárias algumas décadas. Até chegar à situação
atual.
A vitória de Obama sem dúvida insere-se nesse quadro. O papel de Oprah Winfrey, conhecida líder de audiências
na televisão americana em talk-show, não foi determinante, mas foi fundamental. Ela abraçou a candidatura de
Barack Obama. E isso, sem dúvida, ajudou o senador por Illinois a superar Hillary Clinton em várias primárias em
redutos brancos do Centro-Oeste e Centro-Norte. Controvérsias dentro do Partido Democrata podem ainda
complicar as coisas. O historiador Sean Wilentz, autor de livros sobre a democracia americana, põe em dúvida a
lisura da campanha de Obama. E as militantes feministas democratas hillaristas preferem votar em McCain por
discordar da plataforma mais elástica de Obama, que pode dar margem a interpretações machistas. No recente
encontro pela unidade do partido, elas gritavam da platéia: "Nobama!", ou ainda "Snobama!", uma alusão ao
caráter elitista do jovem advogado formado em Harvard.
O que sabemos, neste meio de ano eleitoral americano, é que as pesquisas indicam uma ampla vantagem para o
candidato afro-americano. É fato inédito na história de um país com heranças racistas.
42

Aula 11: Sistemas Eleitorais e Fórmulas Eleitorais

Sistemas Eleitorais

A) Sistema Majoritário

É o sistema que estabeleceu o maior número de votos para o preenchimento dos


cargos eletivos.
Ex. eleição para presidente da República no Brasil.

B) Sistema Proporcional
É o sistema que estabelece o maior número de representantes de uma unidade eleitoral
(estado, província, etc) de acordo com sua população. Quanto maior a população, maior o número
de representantes eleitos. Ex. eleição para a Câmara dos Deputados no Brasil.

C) Sistema Desproporcional
É o sistema que estabelece a mesma quantidade de representantes para todas as unidades
eleitorais (estado, província, etc), independente do tamanho de sua população. Ex. eleição para o
Senado Federal brasileiro, em que cada estado possui 3 senadores, independente do tamanho de sua
população. No Senado dos EUA, cada estado indica 2 senadores.

D) Sistema Distrital
É o sistema que estabelece a representação por pequenas unidades eleitorias - distritos - com
um vínculo maior entre o representante político e uma região geográfica. Não é aplicado no Brasil.
Se fosse utilizado Brasil, p. ex., nas eleições para deputados federais, os estados - Minas
Gerais, Rio de Janeiro, etc - seriam divididos em regiões ou distritos, cada um contendo uma
eleição específica para eleger (pelo critério majoritário, quem obtiver mais votos) um representante.
Em Minas Gerais, p. ex., haveria um eleição entre candidatos da Zona da Mata, outra eleição entre
candidatos do Triângulo Mineiro, outra do Leste de Minas, outro da região metropolitana de BH,
etc. Os deputados federais de MG seriam, então, o conjunto dos representantes eleitos em cada
distrito. Este modelo valoriza a aproximação do representante político com a localidade. Despreza-
se, um pouco, uma eleição baseada em ideologias – não haveria possibilidade, p. ex., de um
morador do Triângulo Mineiro votar em Itamar Franco (da Zona da Mata) para deputado federal,
porque o considera importante para MG ou porque ele é um notório defensor da educação. A
escolha ideológica vai se restringir aos candidatos de seu distrito.
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F) Sistema Misto
É uma união dos critérios majoritário e distrital. Uma parte dos representantes seria
escolhida pelo critério distrital e outra parte pelo critério majoritário.
Fórmulas Eleitorais

A)Majoritária = elege-se o candidato que tem mais votos, no primeiro ou no segundo turno. Ex.
eleição para governador no Brasil.

B)Proporcional =os votos são distribuídos proporcionalmente, de acordo com a votação dos
candidatos. Sua preocupação é assegurar que a diversidade de opiniões das diversas correntes
políticas esteja representada no parlamento ou qualquer outro órgão legislativo. Ex. eleição para o
legislativo no Brasil.

B.1) Lista Fechada


Os partidos decidem antes da eleição, a ordem que os candidatos aparecerão na lista. Os
eleitores votam apenas na legenda e não em nomes. Valoriza a escolha ideológica partidária, a
fidelização do eleitor a um projeto político-partidário. Tem a desvantagem de o eleitor não saber em
quem está votando e pode retardar um processo de renovação da elite partidária. A maioria dos
países: África do Sul, Argentina, Uruguai, Espanha, Portugal.

B.2) Lista Aberta


A decisão sobre quais candidatos serão eleitos cabe exclusivamente ao eleitor O partido
apresenta a lista de candidatos O eleitor vota em um dos nomes da lista Os mais votados de cada
lista ocupam as cadeiras. Vantagens: maior liberdade de escolha eleitoral. Favorece a renovação
política. Desvantagens: estimula a competição entre os candidatos do mesmo partido. Estimula a
personalização da escolha eleitoral. É o modelo brasileiro.

B.3) Cáulculo do quociente eleitoral do Brasil, para distribuição de cadeiras pelo sistema de
representação proporcional:

Exemplo: Divisão de 17 cadeiras no Município onde votaram 50.037 eleitores.


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1ª operação: Determinar o nº de votos válidos, deduzindo do comparecimento os votos nulos e os


em branco (art. 106, § único do Código Eleitoral e art. 5º da Lei nº 9504 de 30/09/97).

Votos em branco Votos nulos Votos válidos


Comparecimento 50.037 - - =
883 2.832 46.322

2ª operação: Determinar o quociente eleitoral, dividindo-se os votos válidos pelos lugares a


preencher (art. 106 do Código Eleitoral). Despreza-se a fração, se igual ou inferior a 0,5,
arredondando-a para 1 se superior.

Votos válidos nº de cadeiras Quoc. eleitoral


÷ = 2.724,8 =
46.322 17 2.725

3ª operação: Determinar os quocientes partidários, dividindo-se a votação de cada partido (votos


nominais + legenda) pelo quociente eleitoral (art. 107 do Código Eleitoral). Despreza-se a fração,
qualquer que seja.

Partidos Votação Quociente Eleitoral Quociente Partidário


A 15.992 ÷ 2.725 = 5,8 =5
B 12.811 ÷ 2.725 = 4,7 =4
C 7.025 ÷ 2.725 = 2,5 =2
D 6.144 ÷ 2.725 = 2,2 =2
E 2.113 ÷ 2.725 = 0,7 =0*
Total = 13
(sobram 4 vagas a distribuir)
* O partido E, que não alcançou o quociente eleitoral, não concorre à distribuição de lugares (art.
109, § 2º, do Código Eleitoral).

4ª operação: Distribuição das sobras de lugares não preenchidos pelo quociente partidário.
Dividir a votação de cada partido pelo nº de lugares por ele obtidos + 1 ( art. 109, nº I do Código
Eleitoral). Ao partido que alcançar a maior média, atribui-se a 1ª sobra.

Partidos Votação Lugares +1 ÷ Médias

A 15.992 ÷ 6 (5+1) 2.665,3

B 12.811 ÷ 5 (4+1) 2.562,2 (maior média 1ª sobra)

C 7.025 ÷ 3 (2+1) 2.341,6

D 6.144 ÷ 3 (2+1) 2.048,0


45

5ª operação: Como há outra sobra, repete-se a divisão. Agora, o partido A , beneficiado com a 1ª
sobra, já conta com 6 lugares, aumentando o divisor para 7 (6+1) (art. 109, nº II, do Código
Eleitoral).

Partidos Votação Lugares +1 Médias

A 15.992 ÷ 7 (6+1) = 2.284,5

B 12.811 ÷ 5 (4+1) = 2.562,2 (maior média 2ª sobra)

C 7.025 ÷ 3 (2+1) = 2.341,6

D 6.144 ÷ 3 (2+1) = 2.048,0

6ª operação : Como há outra sobra, repete-se a divisão. Agora, o partido B , beneficiado com a 2ª
sobra, já conta com 5 lugares, aumentando o divisor para 6 (5+1) (art. 109, nº II, do Código
Eleitoral).

Partidos Votação Lugares +1 Médias

A 15.992 ÷ 7 (6+1) = 2.284,5

B 12.811 ÷ 6 (5+1) = 2.135,1 (maior média 3ª sobra)

C 7.025 ÷ 3 (2+1) = 2.341,6

D 6.144 ÷ 3 (2+1) = 2.048,0

7ª operação: Como há outra sobra, repete-se a divisão . Agora, o partido C , beneficiado com a 3ª
sobra, já conta com 3 lugares, aumentando o divisor para 4 (3+1) (art. 109, nº II, do Código
Eleitoral).

Partidos Votação Lugares +1 Médias

A 15.992 ÷ 7 (6+1) = 2.284,5

B 12.811 ÷ 6 (5+1) = 2.135,1 (maior média 4ª sobra)

C 7.025 ÷ 4 (3+1) = 1.756,2

D 6.144 ÷ 3 (2+1) = 2.048,0

OBS: No exemplo acima, a 7ª operação eliminou a última sobra. Nos casos em que o número de
sobras persistir, prosseguem-se os cálculos até que todas as vagas sejam distribuídas.
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RESUMO:

PARTIDOS NÚMERO DE CADEIRAS OBTIDAS

pelo quociente partidário pelas sobras total

A 5 2 7

B 4 1 5

C 2 1 3

D 2 0 2

E 0 0 0

TOTAL 13 4 17

C)Mista = combina-se as duas modalidades de fórmulas.

Aula 12: Estruturalismo e Teoria da Ação Social

Para Wacquant e Calhoun, trata-se de um confronto de paradigmas provenientes de dois


pólos epistemológicos (epistemologia: ciência do conhecimento) cujas força de atração são
atualmente crescentes no campo das ciências sociais norte-americanas e que podemos, de maneira
apressada e simplificada, caracterizar como: de um lado, o pólo individualista e racionalista, que
entende a ordem social como a agregação, simples ou composta, de ações individuais realizadas por
agentes que procuram deliberadamente maximizar sua utilidade pelo ajuste instrumental de meios
disponíveis a fins claramente dados e ordenados; do outro lado, encontra-se o pólo histórico e
culturalista, que se esforça em compreender a lógica dessas mesmas ações tomando seu significado
subjetivo e contextual, e procura descobrir a lógica de constituição dos agentes e de seus fins,
retraçando suas influências recíprocas no tempo (Wacquant, Calhoun, 1989, p. 52).

A) Estruturalismo
Na verdade, o estruturalismo é mais um método de análise, que consiste em construir
modelos explicativos de realidade, chamados estruturas.
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Por estrutura entende-se um sistema abstrato em que seus elementos são interdependentes e que
permite, observando-se os fatos e relacionando diferenças, descrevê-los em sua ordenação e
dinamismo. É um método que contraria a teroia da ação social. Para o estruturalismo, ao contrário,
não existem fatos isolados, mas partes de um todo maior. Assim, compreende-se que:
− Alguns fenômenos podem ser explicados não pelo que deixam à mostra, mas por uma
estrutura subjacente.
− Os fatos possuem uma relação interna, de tal forma que não podem ser entendidos
isoladamente, mas apenas em relação aos seus pares antagônicos.

O estruturalismo é uma forma de anti-humanismo metodológico que proclama a «morte do


homem».O estruturalismo foi acusado, especialmente por Sartre, de ser uma mera ideologia
formalista que conduzia a posiçoes conservadoristas.

B) As teorias da ação social fazem parte de um conjunto analítico conhecido como sociologia
compreensiva. Essas teorias representam uma outra abordagem da sociedade, pois deslocam a
relevância das estruturas sociais para a análise das ações sociais mais ligadas ao indivíduo.
Se, para o estruturalismo, existe uma estrutura supra-individual que determina as ações individuais
em uma sociedade, para as teorias de ação social essa estrutura inexiste e é relegada a segundo
plano.
Buscam compreender as motivações que levaram os indivíduos a agirem de determinada
forma, o sentido que a ação social possui, dentre outras coisas. Portanto, a principal diferença entre
as teorias da ação social e o estruturalismo é a ênfase dada à participação do indivíduo na sociedade.
Para as teorias da ação, o indivíduo possui uma grande importância na sociedade, e não é
determinado por uma estrutura. O indivíduo possui motivações próprias, desejos, vontades que dão
a tônica da ação que ele estabelece socialmente. Isto significa dizer que o indivíduo pode agir
socialmente influenciado por valore morais, éticos, ou pela tradição. Suas ações são dotadas de
sentido próprio.
Ao conviverem em sociedade, os indivíduos estabelecem entre si interações, através das
quais criam-se expectativas mútuas de comportamento. Dessa forma, os indivíduos podem ser
considerados atores sociais e, como atores, estabelecem papéis diversos no seio de uma sociedade.
Um exemplo prático: uma mulher numa sociedade ocidental, por exemplo, exerce o papel de mãe,
mulher, trabalhadora, dentre outros.

TEXTO COMPLEMENTAR:
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Fragmentos do artigo: “DO DESVIO ÀS DIFERENÇAS” Richard Miskolci


Publicado em teoria & pesquisa. São Carlos: Programa de Pós-Graduação em Ciências
Sociais/Departamento de Ciências Sociais, n. 47, julho/dezembro de 2005, p.9-41.

O crime, a prostituição, a vagabundagem, o alcoolismo, as ditas “perversões” sexuais eram


apenas algumas das tantas outras formas de classificação que podiam ser unificadas como
anormalidade. Por trás do desvio havia fenômenos explicáveis de forma social e histórica, mas que
teorias deterministas apoiadas na biologia apontavam como tendo uma origem intrínseca nos
desviantes, portanto a fonte explicativa principal do desvio era “natural”.
A degeneração era considerada um desvio da normalidade de fundo hereditário e sem cura.
Suas manifestações iam desde estigmas físicos como estrabismo, orelhas imperfeitas, crescimento
atrofiado até doenças mentais como histeria, egoísmo exagerado, pessimismo, apatia,
impulsividade, emocionalismo, misticismo e completa falta de senso sobre o certo e o errado. Como
bem sublinhou Sander L. Gilman, o termo degenerado/a tornou-se o rótulo para o outro como
essência da patologia, um rótulo que carregava consigo o fardo de uma condição congênita,
portanto sem a menor possibilidade de cura e diante da qual nenhum esforço humano valeria a pena.
A partir do exposto, é possível afirmar que, no século XIX, o indivíduo considerado como
fadado a um destino de fraqueza, doença e comportamento social perigoso recebia o maior dos
estigmas sob o selo do termo degenerado: o atestado de sua queda, a rejeição da redenção em
Cristo, apenas sob o verniz cientificista que apontava seu cerne corrompido por alguma forma de
desvio sexual. A degeneração era a categoria máxima do opróbrio e a ameaça social que
impulsionaria a criação de uma poderosa corrente de estudos conhecida como eugenia.
Como ciência da proteção da hereditariedade, a eugenia criou teorias e práticas para o
controle da reprodução humana, incentivou a segregação de grupos considerados racialmente
inferiores como judeus, ciganos e outras minorias étnicas assim como pregou a esterilização dos
portadores de deficiências físicas, de doentes mentais e mulheres pobres em geral. Dentre os alvos
da eugenia, sem dúvida, cumpre destacar as mulheres devido a seu papel reprodutivo e, portanto, de
depositárias das expectativas sociais com relação à hereditariedade.
A eugenia buscou responder a demandas sociais através de teorias e técnicas que buscavam
eliminar os marginalizados ao invés de acabar com a sua marginalização. Foi uma resposta técnico-
científica aos problemas e às demandas de transformação social, uma resposta que visava manter
inalteradas as condições de poder na sociedade. Daí o fato de que seus métodos e testes para
classificar os indivíduos entre aptos e inaptos para a existência (como testes de QI e medições
antropométricas) buscavam demonstrar o que os eugenistas pressupõem de antemão: aspectos como
o analfabetismo e a pobreza são hereditários ou, para usar o termo do início do século XX,
disgênicos.
Cesare Lombroso (1835-1909) escreveu diversos livros caracterizando o criminoso nato, a
prostituta, o gênio e até mesmo o anarquista. Seu livro mais famoso, L’Uomo Criminoso (1876),
teve acolhida internacional imediata e foi traduzido rapidamente para um grande número de
idiomas. O sucesso da teoria sobre o criminoso foi tanto que na quinta edição de 1895 a obra foi
ampliada 5 vezes e atingiu 1.203 páginas (em contraste com as 252 da primeira edição).
Segundo Lombroso, as características do criminoso nato eram baixa capacidade cranial,
testa encolhida, narinas grandes, crânio grosso, orelhas grandes, maxilar inferior protuberante,
cabelo crespo e em tufos e dentes caninos proeminentes. O criminologista italiano também afirmava
que a maioria dos criminosos era formada por canhotos. Já que essa descrição parece a de algum
selvagem, isto levou Lombroso a concluir que o criminoso era alguém que apresentava sinais
visíveis de uma origem bárbara, não-civilizada. Apesar desse retrato determinista e racista
49

Lombroso chegou a propor não a pena de morte, mas sim que o Estado deveria enviar assassinos
para o exército, onde seriam úteis para a sociedade assim como trapaceiros e vigaristas deveriam ser
incentivados a se tornarem policiais ou jornalistas.
Os primeiros estudos sociológicos sobre o desvio datam da formação da sociologia como
ciência na Europa de fins do século XIX. As abordagens iniciais tendiam a corroborar as
explicações naturalizantes desenvolvidas por outros teóricos sociais, sobretudo eugenistas. Até
mesmo Durkheim, o responsável pela institucionalização da sociologia como ciência, chegou a
desenvolver um capítulo sobre a distinção entre o normal e o patológico em As Regras do Método
Sociológico. Ainda que coerente com seu objetivo de só explicar o social pelo social, o sociólogo
francês terminou por transferir o binômio normalidade-desvio para a esfera sociológica.
Se considerarmos que a sociologia deve se afastar de explicações naturais e enfatizar os
aspectos propriamente sociais e históricos então pode-se afirmar que a sociologia do desvio
constituiu-se como uma subárea, ainda que institucionalmente pouco reconhecida, a partir da
tradição sociológica da Escola de Chicago. Sua origem está umbilicalmente ligada ao estudo dos
problemas que emergiram com a formação da metrópole marcada pelo crescimento populacional
acelerado associado à imigração, ao caos urbano, o processo de assimilação de indivíduos vindos de
toda parte e com bagagens culturais e históricas as mais diversas e conflitantes.[28]
Chicago foi uma das cidades que cresceram mais rapidamente no mundo na virada do século
XIX para o XX. De um povoado de pouco mais de quatro mil habitantes em 1840 a cidade já
ultrapassara um milhão e cem mil habitantes quando da fundação da Universidade de Chicago em
1892. Esse crescimento espantoso faria com que a cidade alcançasse a marca de três milhões e meio
de habitantes em 1930. Os imigrantes de origem européia assim como os negros vindos do Sul do
país em busca de melhores condições de vida criaram uma metrópole multi-étnica marcada pela
indústria, comércio diversificado e uma próspera bolsa de valores.
O que se convencionou chamar de Escola de Chicago é uma criação a posteriori levada a
cabo principalmente por Herbert G. Blumer (1900-1987), o qual unificou aspectos que considerava
típicos dos estudos desenvolvidos naquela universidade sob o rótulo de Interacionismo Simbólico.
O feito de Blumer merece tanto respeito quanto cautela, pois ele transformou uma grande
diversidade de pesquisas e abordagens numa tradição com um conjunto coerente de premissas
teóricas e uma metodologia clara.
Os estudos sobre criminalidade eram marcados por abordagens espaço-temporais que
enfatizavam a observação das relações sociais em um meio geográfico específico. Os sociólogos de
Chicago analisavam o modo de vida de determinados grupos sociais em certo bairro, suas relações,
a censura ou ataque de que eram alvo por outros grupos da mesma área ou vindos de outro bairro.
Na década de 1950, os estudos de criminalidade não eram mais tão importantes e
predominavam pesquisas sobre profissões e formas de interação social. É neste contexto que
surgem pesquisas tão originais com relação a diversas formas de desvio social que alguns passariam
a unificá-las como constituindo uma nova tradição, a Segunda Escola de Chicago. Nessa tradição,
duas obras marcaram definitivamente os estudos sobre normalidade e desvio, uma de cada um dos
teóricos mais conhecidos desta linha de estudos, Asylums de Erving Goffman (1922-1982) e
Outsiders de Howard Becker (1928-).
Goffman enfatiza o papel da instituição de forma que até os psiquiatras poderiam ler seu
livro e se sentir vítimas da “instituição social” que molda seus atos, portanto se não os isenta de seu
papel de controle social ao menos os coloca como “obrigados” a agirem como agem devido à
instituição e suas regras enquanto em Foucault as críticas também se dirigem ao campo dos saberes
psiquiátricos e seu papel ativo na criação das instituições. Não que Goffman ignore a distinção entre
internos e pessoal, a qual ele expõe e analisa com o objetivo de colocar em relevo os três elementos
50

condicionalizantes da instituição total: isolamento, racionalização e controle disciplinar. Esses


elementos em combinação tornam-se claros nas práticas que diminuem a identidade social e pessoal
do interno, cuja liberdade é drasticamente cortada desde a admissão na instituição.
Goffman mostra como a admissão em uma instituição total se dá através de procedimentos que são,
na verdade, rituais de degradação. Essas instituições não destroem uma auto-imagem e a trocam por
outra fabricada por elas, pois nelas se passa algo mais restritivo do que aculturação ou assimilação.
Todas as oportunidades de ação, interação ou ainda de participação em eventos que se passam na
sociedade exterior são vedadas ao interno. Assim, se ele fica bastante tempo em uma dessas
instituições acaba por ser “treinado” para se tornar um incapaz com relação ao mundo exterior.
O processo de deterioração da capacidade do paciente de se reintegrar na vida exterior é
aprofundado pelo que Goffman denomina de perda de papel (role dispossession). Na vida cotidiana,
as pessoas têm que “atuar” de acordo com um grande número de situações, mas este “jogo de
cintura” é perdido por alguém cuja vida passa a ser pura rotina e marcada pela uniformidade de
situações. Além disso, a própria auto-imagem do interno é mantida sob ataque constante e há uma
obrigação a dotar um comportamento submisso. Em todas as instituições totais, os internos sempre
se deparam com a afirmação de que seu passado foi um fracasso, de que a causa dele estava dentro
dele mesmo, de que sua atitude com relação à vida é errada e que se ele quer ser alguém terá que
mudar sua forma de lidar com as pessoas e sua própria concepção a respeito de si mesmo.
Goffman explica como instituições sociais criam a “anormalidade”, transformam os indivíduos em
pacientes e sua identidade em caso patológico. Seu estudo desloca a ênfase tradicional no desvio
para as instituições e os processos envolvidos em sua constituição como objeto de reflexão teórica e
cuidado prático. Dessa forma, seu empreendimento sociológico rompe com a tendência anterior de
confirmar, ou até mesmo justificar, formas de controle e normalização social.
Um colega de Goffman iria ainda mais longe no processo de compreensão do desvio como criação
social que envolve, sobretudo, o estudo dos responsáveis por sua criação. Howard Becker começou
suas pesquisas na Universidade de Chicago lidando com a sociologia do trabalho, mas nos anos
cinqüenta passou a adentrar no campo da delinqüência e o renovou com seu estudo sobre os
músicos de jazz, estudo que foi publicado como Outsiders em 1963.[34]
A abordagem utilizada por Becker para estudar os músicos usuários de maconha é a mesma que ele
utilizou em seus estudos de situações de trabalho. A idéia principal, tão cara a seu professor
Hughes, é a de que uma situação dada é o resultado de interações entre os agentes. Para
compreender tal situação, é necessário levar em conta o conjunto das partes que são implicadas.
Assim, para estudar os comportamentos desviantes não bastam dados oficiais e estatísticos. É
necessário levar em consideração aqueles que impõem as normas ou formulam as acusações ao
mostrar como tal indivíduo ou grupo vem a transgredir essa norma ou foi rotulado como desviante.
Quem acusa quem e de quê? Esta é a questão que se deve impor ao pesquisador diante de um
comportamento ou identidade socialmente proscritos.
Dentro da perspectiva adotada por Becker, o desvio não é uma característica específica de certas
categorias de pessoas. O caráter desviante ou não de um ato depende da maneira segundo a qual os
outros reagem. Por exemplo, os policiais não prendem todas as pessoas que cometem crimes. O
desvio traduz uma fuga às normas fixadas pelos grupos sociais, mas para ser considerado como
desviante é necessário também se tornar objeto de uma acusação.
Becker estende ao estudo do desvio a noção de carreira que empregava em seus estudos da
sociologia das profissões. Ele encontra na noção de carreira a idéia de uma evolução por etapas em
que o resultado final nunca é certo. Herbert Blumer costumava afirmar que engajar em uma
atividade ilegal não significava nada em si, pois um roubo isolado não é o mesmo que a altamente
complexa atividade de roubar com freqüência. É necessário saber o que, de quem roubar e para
51

quem vender de forma a tornar essa atividade conseqüente e lucrativa. Roubar é uma atividade que
se aprende, tem etapas.
A sociologia do desvio de Becker propõe uma distinção entre fatos e o ato de acusação e admite que
as acusações não são sempre exatas. Há variantes no sistema penal de país para país, por exemplo.
Assim, o sociólogo norte-americano não enfatiza o comportamento ou ato “desviante” em si, mas
sim os processos pelos quais os desviantes são definidos pelo resto da sociedade. Segundo sua
teoria da rotulagem (labeling theory), o desviante é aquele que é designado como tal e não existe
um consenso que defina claramente o que é a violação de uma norma ou mesmo o que seria uma
norma nas sociedades modernas. Na verdade, ser designado como desviante resulta de uma
variedade de contingências sociais influenciadas por aqueles que detém o poder de impor essa
classificação.
A sociologia do desvio desenvolvida por Becker e Goffman funda-se na necessidade de abordar as
condições nas quais as normas são instituídas. Além disso, Becker e sua abordagem interacionista
convida à compreensão do desvio como um processo em constante elaboração, no qual o indivíduo
pode ou não se engajar. Quanto mais ele se engaja, mais ele é implicado e mais difícil se torna
renunciar a isso. O paralelo com a sociologia do trabalho surge na adoção da noção de “carreira”:
cada tipo de desvio consiste em uma carreira específica, mas o esquema de engajamento é similar:
primeiro há um ato primário (que pode permanecer secreto e mesmo ser não-intencional), depois a
aquisição de uma identidade desviante e, finalmente, a adesão a um grupo desviante.
Becker sublinha o papel fundamental da sociedade na definição das carreiras desviantes. A
vida dos músicos de Jazz de Chicago, por exemplo, se resume em uma tensão entre o desejo de
fazer música de qualidade, o que os mantém na marginalidade, e a demanda social por música
comercial, da família por ascensão e estabilidade. A válvula de escape se torna a construção de
relações que permitam ao músico tocar em bons lugares. De certa forma, essa solução é paralela à
do ladrão que se alinha em uma quadrilha, portanto organiza sua vida de forma a se estabelecer em
sua carreira (no caso realmente desviante segundo as normas burguesas) de forma definitiva e com
relativa estabilidade.
As pesquisas desenvolvidas por autores como Goffman e Becker conseguiram superar o que
parecia ser uma conformação dos estudos sociológicos às premissas e, sobretudo, aos objetivos
sociais de normalização e controle. A teoria da etiquetagem inaugura uma abordagem em que os
comportamentos rotulados como desviantes não são o foco da investigação, antes o meio pelo qual
certos grupos sociais detém o poder de rotular outros como desviantes.
Apesar dos estudos de Goffman e Becker não se aprofundarem em uma gênese histórica do
chamado “desvio”, sem dúvida se inserem no movimento de mudança de uma abordagem fincada
no conceito de desvio para uma fundada no de diferenças.
Desde a publicação de O Segundo Sexo (1949) de Simone de Beauvoir, o feminismo tornou
visíveis os processos sociais e históricos que levaram à construção da mulher como um Outro do ser
hegemônico, o homem. Contribuiu, assim, para o desenvolvimento dos estudos sobre diferenças
devido a seu próprio objeto de crítica e por adotar a perspectiva da metade (feminina) da
humanidade que é objeto de processos de subordinação e controle.
Progressivamente, tornou-se claro que as mulheres não podiam ser vistas como desviantes e
sua condição de inferioridade social mostrava que elas vivenciavam processos similares aos de
outros “diferentes”. Os processos de subalternização e controle possuíam similaridades, mas
também distinções temporais e locais, assim não podiam mais serem explicados de forma genérica e
atemporal por conceitos como o de dominação masculina a partir do Patriarcado. Gayle Rubin, com
o objetivo de trazer à luz esses processos de forma a levar em conta os aspectos locais e históricos,
introduziu o conceito de gênero como categoria de análise em seu texto “O Tráfico de Mulheres:
52

Notas sobre a ‘Economia Política’ do Sexo” (1975).Segundo a antropóloga, o gênero seria um


imperativo da cultura que opunha homens e mulheres por meio do parentesco. De forma geral, o
que havia era um sistema em que a sociedade imprimia significado à diferença sexual biológica de
forma a justificar e fazer valer a dominação masculina. Pouco a pouco, pesquisadores que
trabalhavam com a categoria mulheres se aproximaram do gênero e houve uma expansão dessa
linha de estudos, os quais encontraram interfaces nas pesquisas sociológicas sobre diferenças, além,
é claro, da influência de Foucault.
Na década de 1960, muitos estudos avançaram na constituição do que hoje denominamos de
sociologia das diferenças. Goffman, em Estigma (1963), propôs explicitamente modificar a
perspectiva hegemônica sobre o desvio e passar a focar os normais e as regras de normalidade
socialmente prescritas. Além de provar que o desvio na verdade se tratava de diferença com relação
às normas sociais, ele definiu a identidade daquele que era considerado absolutamente normal: “um
homem jovem, casado, pai de família, branco, urbano, do Norte, heterossexual, protestante, de
educação universitária, bem empregado, de bom aspecto, bom peso, boa altura e com um sucesso
recente nos esportes.” (Goffman, 1988:139) Qualquer desvio desse modelo resultaria em diferenças
que seriam socialmente avaliadas como desvios.
Os Estabelecidos e os Outsiders (1965) de Norbert Elias e John L. Scotson, explorou as
razões por trás da divisão de uma pequena cidade inglesa, em tudo aparentemente homogênea, em
“a boa sociedade” e os outsiders. A investigação das relações de poder que permitiam que parte da
população se sentisse superior à outra permitiu demonstrar como diferenças são construções sociais
que resultam de uma repartição desigual do poder.
Inspirados parcialmente na teoria de Becker sobre os empreendedores morais, um conjunto
disperso de pesquisas começou a configurar os estudos sobre pânicos morais. O inventor do
conceito foi Stanley Cohen em sua investigação sobre o temor social diante das gangues, em fins da
década de 1960. A partir de então, estudos na mesma perspectiva analisam a resistência coletiva às
pressões por mudanças comportamentais que colocam em xeque dogmas morais e crenças sociais
arraigadas.
Mais recentemente, teóricos como Kenneth Thompson enfatizaram o papel da mídia como
veículo de discussão e “defesa” dos limites morais da sociedade. A imprensa em geral, e a marrom
em particular, tende a privilegiar abordagens moralizantes sobre fenômenos sociais novos. Assim,
contribuem para a emergência e disseminação de pânicos morais, os quais costumam resultar em
reações institucionais fundadas no controle coletivo de comportamentos e estilos de vida. Alguns
exemplos são a reação conservadora diante da AIDS no início da década de 1980 e o renascimento
do temor da pedofilia na década seguinte.

Aula 13: Teoria Marxista

Enfocar as seguintes questões ao longo da leitura:


-estrutura social x ação social
-dialética e materialismo histórico
-mais valia
-análise marxista do Direito

TEXTO COMPLEMENTAR I:

No século XIX, vários pensadores tinham grande preocupação em dar respostas aos vários
problemas sociais que se desenvolviam no seio da sociedade capitalista. Os socialistas utópicos
foram os primeiros a proporem e teorizarem meios que pudessem resolver a expressa diferença
53

percebida entre os membros do proletariado e da classe burguesa.

Em 1848, os pensadores Karl Marx e Friedrich Engels apareceram com um elaborado arcabouço
teórico que visava renovar o socialismo. Para tanto, realizaram um complexo exercício de reflexão
sobre as relações humanas e as instituições que regulavam as sociedades. Como resultado,
obtiveram uma série de princípios que fundamentaram o marxismo, também conhecido como
socialismo científico.

Por meio do chamado materialismo histórico, compreenderam que as sociedades humanas


viabilizam suas relações a partir da forma pela qual os bens de produção são distribuídos entre os
seus integrantes. Dessa forma, as condições socioeconômicas (infraestrutura) acabavam
determinando como a cultura, o regime político, a moral e os costumes (superestrutura) se
configurariam.

Um exemplo dessa condição pode ser vista no processo revolucionário francês. Nesse evento
histórico, o socialismo científico observa que o desenvolvimento da economia capitalista foi
impondo a criação de um novo regime político, leis e costumes que se adequavam a essa nova
realidade. Nesse sentido, os arcaicos costumes feudais bem como seus demais representantes
acabaram sendo combatidos.

Além disso, o pensamento marxista alega que o materialismo dialético seria uma das molas
propulsoras fundamentais que alimentam as transformações históricas. Dessa forma, no momento
em que um sistema econômico passa a expor os seus problemas e contradições, os homens passam a
refletir e lutar por novas formas de ordenação que possam se adequar às novas demandas.

Por isso, ao avaliar os mais diferenciados contextos históricos, Marx e Engels chegaram à conclusão
de que a história das sociedades humanas se dá por meio da luta de classes. Nessa perspectiva, o
marxismo aponta que a oposição que se desenvolvia entre nobres e camponeses na Idade Média
seria uma variante da mesma relação de conflito que, no mundo contemporâneo, ocorre entre a
burguesia e o proletariado.

Pensando estrategicamente as contradições do capitalismo, Marx e Engels defendiam que a


superação definitiva de tal sistema seria alcançada por uma sociedade sem classes. Contudo, para
que isso fosse possível, os trabalhadores deveriam conduzir um processo revolucionário incumbido
da missão de colocar a si mesmos frente ao Estado, com a instalação de uma ditadura do
proletariado.

Esse regime ditatorial teria a função de assumir os meios de produção e socializar igualmente as
riquezas. Dessa forma, seriam dados os primeiros passos para o alcance de uma sociedade
igualitária. Na medida em que essa situação de igualdade fosse aprimorada, o governo proletário
cederia lugar para uma sociedade comunista onde o Estado e as propriedades seriam finalmente
extintas.

TEXTO COMPLEMENTAR II:

KARL MARX nasceu em Treves, na Prússia, em 1818. Era fi lho de um advogado judeu convertido
ao protestantismo. Formado em Direito, trabalhou esporadicamente como jornalista. Deixou
numerosos escritos como "Manuscritos econômicos e filosóficos", "0 18 Brumário de Luís
Napoleão", "Contribuição à crítica da economia política", "0 Capital", e, em conjunto com Engels,
"A Ideologia Alemã", "Manifesto Comunista", entre outros. Segundo Engels, as duas grandes
54

descobertas cientificas de Marx foram: a concepção do materialismo histórico e a teoria da mais-


valia. Ativista político fundou e dirigiu a Primeira Internacional Operária, de 1867 a 1873. Em
1843, exilou se em Paris e posteriormente em Bruxelas e em Londres, onde morreu em 1883.
FRIEDRICH ENGELS (1820/1895) era filho de um rico industrial do ramo têxtil, da Renânia.
Escreveu "A situação,das classes trabalhadoras na Inglaterra", "Do Socialismo Utópico ao
Socialismo Científico", "A origem da família, da propriedade privada e do Esta do", entre outras
obras. Colaborou intensamente com Marx e foi responsável pela organização e publicação do
segundo e do terceiro volumes de "0 Capital", após a morte de Marx, com base em manuscritos e
notas deixados por ele.
As idéias de Karl Marx e de Friedrich Engels sofreram influência das principais correntes de
pensamento de sua época, como a economia liberal inglesa de Adam Smith e David Ricardo; o
socialismo utópico dos franceses Fourier e Saint Simon; a dialética(l) e o materialismo(2) dos
alemães Hegel e Ludwig Feurbach.
Marx utilizou o método dialético para explicar as mudanças importantes ocorridas na história da
humanidade através dos tempos. Ao estudar determinado fato histórico, ele procurava seus
elementos contraditórios, buscando encontrar aquele elemento responsável pela sua transformação
num novo fato, dando continuidade ao processo histórico.
Marx desenvolveu uma concepção materialista da História, afirmando que o modo pelo qual a
produção material de uma sociedade é realizada constitui o fator determinante da organização
política e das representações intelectuais de uma época.
Assim, a base material ou econômica constitui a "infraestrutura" da sociedade, que exerce
influência direta na "super-estrutura", ou seja, nas instituições jurídicas, políticas (as leis, o Estado)
e ideológicas (as artes, a religião, a moral) da época.
Segundo Marx, a base material é formada por forças produtivas (que são as ferramentas, as
máquinas, as técnicas, tudo aquilo que permite a produção) e por relações de produção (relações
entre os que são proprietários dos meios de produção as terras, as matérias primas, as máquinas - e
aqueles que possuem apenas a força de trabalho).
Ao se desenvolverem as forças produtivas trazem conflito entre os proprietários e os não-
proprietários dos meios de produção. 0 conflito se resolve em fav or das forças produtivas e surgem
relações de produção novas, que já haviam começado a se delinear no interior da sociedade antiga.
Com isso, a super-estrutura também se modifica e abre-se possibilidade de revolução social.
No Prefácio do livro "Contribuição à crítica da economia política", Marx identificou na História, de
maneira geral, os seguintes estágios de desenvolvimento das forças produtivas, ou modos de
produção: o asiático (comunismo primitivo), o escravista (da Grécia e de Roma), o feudal e o
burguês, o mais recente e o último baseado no antagonismo das classes porque dará lugar ao
comunismo, sem classes, sem Estado e sem desigualdades sociais.
A evolução de um modo de produção para o outro ocorreu a partir do desenvolvimento das forças
produtivas e da luta entre as classes sociais predominantes em cada período. Assim, o movimento
da História possui uma base material, econômica e obedece a um movimento dialético. A passagem
do modo de produção feudal, para o modo de produção capitalista burguês, e um exemplo claro:
"0 modo de produção feudal é o fato positivo, a afirmação mas já traz dentro de si o germe de sua
própria negação: o desenvolvimento de suas forças produtivas propicia o surgimento da burguesia.
À medida que estas forças produtivas se desenvolvem, elas vão negando as relações feudais de
produção e introduzindo as relações capitalistas de produção. A luta entre a nobreza e a burguesia
vai se acirrando; em um determinado ponto deste desenvolvimento ocorre a ruptura e aparece o
terceiro elemento mais desenvolvido, que é mo do de produção capitalista. É, portanto, 5 luta entre
as classes que faz mover a História.'' (SPINDEL, A. op. cit. p. 39.)
55

Marx e Engels começaram a formular a concepção matéria da História quando escreveram juntos
"A Ideologia Alemã", em 1845/46; o materialismo histórico é, de acordo com Marx, o "fio
condutor" de todos os estudos subseqüentes. Os conceitos básicos do Materialismo Histórico(3)
constituem uma teoria científica da História, vista até então como uma simples narração de fatos
históricos. Ele revolucionou a maneira de se interpretar a ação dos homens na História, abrindo ao
conheci mento, uma nova ciência e aos homens uma nova visão filosófica do mundo: o
Materialismo Dialético.

TEXTO COMPLEMENTAR III:

Em diversos tipos de organização social essa divisão se dava de forma transparente. Assim, quando
a divisão fundamental da sociedade contrapunha senhores e escravos, era evidente que os escravos
trabalhavam (de graça) para os senhores. Do mesmo modo, na época feudal, os camponeses, servos,
eram obrigados a trabalhar parte dos dias da semana nas terras dos senhores feudais, sem qualquer
pagamento.
Na economia capitalista a divisão da sociedade em classes permanece, mas já não é tão
transparente. Se analisarmos atentamente a situação perceberemos que a classe dominante não
produz aquilo que consome – vive, por exemplo, dos juros de aplicações financeiras, lucros gerados
por empresas nas quais, muitas vezes, os acionistas proprietários não têm participação direta, sequer
como administradores ou diretores, ou de aluguéis. Esta classe se mantém pela apropriação do
excedente gerado por gente que trabalha e produz. Mas as formas precisas pela quais a transferência
deste excedente se faz são complexas, e nem sempre podem ser facilmente percebidas.
No capitalismo, os trabalhadores assalariados são, fundamentalmente, os responsáveis pela
produção. Recebem pagamento pelo seu trabalho: o salário. Aparentemente realizam uma troca,
visto que, ao contrário dos escravos ou dos servos, não trabalham de graça para seus patrões. Mas se
isso fosse verdade, não haveria como explicar como vivem os que não produzem.
Uma das contribuições fundamentais de Marx para compreender a economia capitalista foi
justamente explicar a forma como isto acontece. Ele destacou que o salário não é o pagamento pelo
valor gerado pelo trabalho. É, isto sim, uma espécie de aluguel da capacidade de trabalho de um
trabalhador ou de uma trabalhadora por um período de tempo (por exemplo, por um mês, se o
salário é pago mensalmente).
Ora, cabe ao capitalista que contrata os trabalhadores, ou a seus prepostos, garantir que eles
produzam um valor maior do que aquele recebido como salário. Isto não é muito difícil: os salários
tendem a se fixar no nível em que são apenas aproximadamente suficientes para a subsistência e a
reprodução da classe trabalhadora (incluindo sua qualificação); o desenvolvimento da tecnologia
tornou possível que cada trabalhador produza um valor bem maior do que este.
Marx chamou de mais-valia a diferença entre o valor adicionado pelos trabalhadores (incorporado
às mercadorias produzidas) e o salário que recebem. A mais-valia definida desta maneira é em tudo
semelhante ao trabalho gratuito que escravos ou servos entregavam a seus senhores. É uma forma
disfarçada de transferência de um excedente para a classe dominante.

TEXTO COMPLEMENTAR IV:

Marxismo e Direito

Debate entre Olavo de Carvalho e Alaor Caffé Alves


56

Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo,


19 de novembro de 2003.

ALAOR CAFFÉ ALVES : Boa tarde a vocês todos, meus alunos, e ao prof. Olavo de Carvalho. Em
meia hora evidentemente não dá para dizer quase nada a respeito do pensamento jurídico, e
especialmente do pensamento jurídico calcado na perspectiva de uma metodologia singular, que é a
metodologia marxista. Já digo inicialmente que não sou um marxista no sentido tradicional do
termo, mas tenho meu namoro com relação a certas questões, e a certas questões metodológicas,
que se exprimem ao longo da vida do pensamento teórico marxista, desde Marx até hoje. É claro
que, com as idas e vindas históricas, problemas graves, inclusive de situações relacionadas com
frustrações políticas extraordinariamente importantes, tudo isso nos dá um grau de perplexidade.
Mas, por outro lado, nos permite ver algumas coisas importantes. Eu simplesmente tive de escolher
– porque meia hora é tão pouco – alguma coisa estratégica relacionada com o Direito, a sociedade e
a perspectiva marxista, que é uma perspectiva que no século XX teve um domínio muito grande,
especialmente na ordem política, embora não daquela forma que desejávamos que fosse. O
marxismo teve distorções profundas no esquema político e social, enveredou nações inteiras por
caminhos que não são efetivamente (ou não eram efetivamente) marxistas, ou pelo menos na
conclusão do ideal desse pensador que conhecemos, que é Marx. De qualquer forma, influiu muito a
vida do século XX, e a nós cabe apenas uma perspectiva um pouco mais elementar, porque vamos
tratar apenas de uma parte da sociedade e sob uma certa ótica, que é a jurídica. Marx nunca tratou
do Direito. Na verdade, Marx foi um economista dos clássicos. Atuou de uma forma muito singular
no plano do pensamento teórico da economia, estabelecendo seus princípios, enfim, aquilo que ele
julgava adequado para explicar a sociedade em que ele vivia. Muitas das explicações de Marx já
não valem mais, em função da historicidade dessas mesmas expli cações. Então, é claro, temos de
dar o devido valor e entender que isso não significa absolutamente compreender Marx sob o ponto
de vista dogmático, mas sim o que ele pode nos fornecer, nos dar, nos oferecer para entender um
pouco, especificamente, o problema social; e aqui, no nosso caso, o problema jurídico.
Para colocar a questão muito rapidamente, muito estrategicamente, no ponto de possível discussão,
nós temos de levar em conta as características do Direito exatamente dentro da perspectiva e da
posição que postulava Marx naquela época, o século XIX, já numa dimensão estrutural social;
precisamos entender o que significa a chamada estrutura social, se ela comporta ou não
previsibilidade, se admite ou não as possibilidades de um conhecimento razoável do ser humano, a
ponto de prever as condições objetivas de sua vida social. Nós encontramos várias ciências sob o
ângulo da previsão, como a sociologia, como a própria economia, mas a questão é saber se a
história pode ser prevista. Essa é uma questão importante, porque o próprio homem é considerado
como ser produto da história e de sua socialidade. Se o ser humano é um produto social, a par da
situação individual em que ele se apresenta também como ser biológico – ele também tem a sua
individualidade singular, biológica, psicológica –, aqui também se indaga sobre a forma social que
toma essa expressão biológica e psicológica. Até que ponto a socialidade determina as dimensões
de vontade, os valores humanos, as crenças? Em que sentido isso ocorre?
O próprio Direito é uma expressão social, pois é um fenômeno social e, sendo um fenômeno social,
tem de ser estudado desde de certos critérios que permitem caracterizar uma certa regularidade no
Direito. É por isso que temos de considerar que o Direito pode ser um saber científico. Muitos não o
admitem como um saber científico, e sim como um saber apenas prático; alguns levam em conta se
é possível um saber prático ou se há apenas um conjunto de propostas gerais que não têm uma
fundamentação científica adequada para verificação de sua validade, de sua verdade. Tudo isso é
um problema complicado, pois se trata da metodologia do saber jurídico, focada na perspectiva da
metodologia de Marx. Existem teóricos juristas sobre esse assunto. Por exemplo, na própria União
Soviética, nós temos um grande teórico jurista, que sofreu os impactos da ditadura de Stalin:
57

Pashukanis, um grande pensador que, atendendo às premissas, enfim, às diretrizes postuladas pela
metodologia marxista, pela visão marxista do mundo, acabou dando-nos uma visão interessante,
que depois ele mesmo transforma; ele mesmo altera seu ponto de vista, dá uma virada, e acaba
morto em 1937 na União Soviética. É claro que outros filósofos existem: mais atualmente, temos os
filósofos juristas como Ceromi [?], grande pensador italiano, ligado também à perspectiva marxista,
e também Atienza, um grande pensador ligado às questões da ordem do método marxista do
Direito. Também temos o namoro feito por Norberto Bobbio relacionado com a questão do Direito;
mas ele é um neoliberal, mas de uma forma um tanto diferente daquelas relativas aos neoliberais do
século XIX e mesmo do século XX.
Dadas essas condições gerais, o que quero mostrar a vocês é o seguinte: como é que vamos tratar o
Direito dentro de uma perspectiva não positivista? Uma delas é a marxista. O conceito de direito no
sentido positivista, como vocês sabem, decorre exatamente de uma posição e definição da lei como
sendo aquela que deve definir as condições e as específicas diretrizes jurídicas de uma sociedade. A
sociedade deve ser produzida do ponto de vista econômico, mas também do ponto de vista jurídico
mediante as posturas legais ou legislativas. O grande problema é saber como esta referência
positivada do Direito se deu. Há, claro, explicações, inclusive contrapondo o positivismo ao
jusnaturalismo, que são muito interessantes – mas não vamos perder tempo agora em defini-los,
porque é muito complicado e precisaríamos de mais tempo –, explicações estas que não têm
normalmente, por definição, a produção do espírito humano senão mediante a confissão de
reflexões filosóficas ou reflexões dentro do âmbito ideal do Direito. Por exemplo, a perspectiva
idealista ou a perspectiva não-materialista corresponde ao fato de que há um espírito, espírito este
que não significa o de cada um de nós, mas o conjunto dos espíritos, que na verdade são as ações
culturais dos homens, particularmente, que formam o espírito que em última instância exprime
aquilo que a história deve nos dar, vale dizer, o espírito na busca da liberdade. Esta postura é
justamente hegeliana: a busca da liberdade produz praticamente a vida social. O Estado mesmo é
uma expressão desse mesmo espírito. Essa visão é extremamente criticada pelos marxistas, que
acham que a espiritualidade tem por base uma estrutura social calcada na visão da produção da vida
social, na produção da vida material. Se não houver a idéia da produção da vida material da
sociedade, nós não temos a idéia mais clara do próprio espírito; a espiritualidade está
dinamicamente relacionada à materialidade. Claro que não existe um espírito isolado, solitário,
como não caberia existir a matéria solitária. A matéria, para Karl Marx, não é jamais a matéria
bruta, nem aquela matéria opaca; não é materialidade dos físicos gregos clássicos, a busca de um “
em si ”, de uma substância material no mundo. Para Karl Marx, a matéria é postulada em função da
produção da vida social humana. Materialidade, portanto, é algo que é prenhe de espiritualidade, de
certo modo; há uma relação dialética entre o processo de pelo qual os homens agem no mundo e
transformam o mundo; e nesse processo de transformação do mundo, os homens, progressivamente,
vão transformando-se a si mesmos. É isso o que acontece.
Portanto, esta visão inaugura a idéia de processualidade, exatamente o oposto da visão positivista do
Direito. Vocês podem ver, por exemplo, o caso de Kelsen, que trabalha uma visão
fundamentalmente estática, ou, vale dizer, muito abstrata. Para ele, o Direito é substancialmente
norma e é uma estrutura de sentido. A norma como estrutura de sentido não será estudada do ponto
de vista de sua gênese e nem de seus fins, porque gênese e fins da norma são questões de outras
ciências e não do próprio Direito. O Direito, em sua essencialidade, se exprime pela norma abstrata,
por um dever-ser postulado segundo uma estrutura de coação, que é definida pelo próprio Estado.
Então, um dever-ser , para Kelsen, é fundamental, e ele separa fundamentalmente o dever-ser do
ser. Evidentemente, essa postura não é aceita pela perspectiva marxista, porque o ser e o dever-ser
se compõem numa relação dialética. Não é fácil compreender isto. É difícil. Na visão kelseniana,
portanto na linha neokantiana, se faz diferença profunda e séria entre ser e dever-ser: o ser
determina o dever-ser , isto é, ele é condição para o dever-ser. Ou seja, Kelsen aceita que a
58

sociedade deve existir necessariamente para que exista o Direito, para que exista o dever-ser, a
norma; mas o dever-ser não tem por fundamento o ser, ou seja, a relação social, a sociedade, e sim
tem por fundamento um outro dever-ser, e este outro tem por fundamento um outro mais, até um
dever-ser fundamental, que ele chama de norma fundamental. Portanto, para ele, a relação do dever-
ser com o ser é absolutamente separada, não existe uma comunhão entre uma e outra a não ser pela
condição necessária – não a condição per quam , pela qual, mas a condição necessária pela qual se
deve ter uma ordem. É claro que não há Direito sem sociedade, com isto ele concorda. Kelsen era
um homem extremamente ladino, profundo, grande pensador do Direito; mas tem uma visão
formalizada. O Direito como estrutura de sentido organiza a vontade; o Direito, embora tendo como
causa a vontade humana, porque já não pode mais ter causa divina (desde que Deus está morto,
segundo Nietzsche), então não há mais essa postura de direito teologal, como também não há a idéia
do direito natural, um direito que estabelecesse uma relação direta entre o ser e o dever-ser , em que
o próprio ser é dever-ser. Como já não se admite isso, a única forma de se admitir o Direito é aquele
imposto pelos homens. A forma de impô-lo implica uma relativização do Direito, e esta
relativização do Direito imposto pelo homem (porque o homem é um ser circunstanciado, histórico,
condicionado por situações singulares) evidentemente tem de ter alguma segurança a respeito do
que ele faz, especialmente, no plano do Direito moderno. Para isso, Kelsen não pode aceitar senão a
linguagem do discurso jurídico. É por isso que a positivação do Direito moderno é fundamental,
porque é uma das formas pela qual se dá a garantia de uma certa estabilidade da forma como se diz
o Direito. Diz através da lei, a lei é a positivação do Direito mediante formas escritas; por isso a
codificação do sistema, porque antes não havia esta codificação tão expressiva, mas a partir do
século XVII, a codificação se torna cada vez mais presente, e no século XIX é praticamente
universalizada. O Direito é um direito escrito, e enquanto direito escrito, tem estrutura de sentido, é
um direito que tem de ser interpretado. Vejam vocês, portanto, que a estrutura econômica se torna
muito complexa, determina a necessidade de os homens registrarem o Direito necessariamente, sem
o que o Direito não pode ser devidamente interpretado e aplicado adequadamente.
Mas tudo isso define uma situação de positividade que de certo modo extrai as possibilidades
materiais do próprio Direito. Esquece-se Kelsen dos fundamentos sociais, das estruturas sociais; daí
o problema de que no positivismo se faz uma separação entre Direito como norma positivada e
justiça, moralidade e ética jurídica. Estas questões são muitos distintas. O próprio Kelsen aceita
perfeitamente essa postura e diz que o Direito é isto. É claro que esta visão é formalizada, portanto,
uma visão estática do Direito, melhor ainda, uma visão universal do Direito. De certo modo se diz o
seguinte: a norma jurídica, como jurídica que é, que dá a essencialidade à compreensão do Direito,
é igual no sistema capitalista, socialista, comunista, feudal, clássico: a norma é sempre a norma, é
sempre o dever-ser .

Aula 14: DEMOCRACIA

A) DEFINIÇÃO: demo+kratos - povo+poder


B) ORIGEM HISTÓRICA:Grécia antiga, na democracia ateniense, 590 A.C..
C) DEMOCRACIA DIRETA: É o exercício direto da democracia pelos cidadãos, com total
transitividade entre a ação de governo e a vontade do povo. São formas de democracia direta o
plebiscito, referendo, “recall” (revogação de mandato ou constitucionalidade de lei) e veto popular.
D) DEMOCRACIA INDIRETA OU REPRESENTATIVA:É o exercício da política por meio de
representantes eleitos, políticos profissionais pagos com este intuito. Este é um imperativo da
democracia de massa, manter a representatividade do povo, sem que cada cidadão tenha de se
inteirar da política diretamente, seja porque tem outros interesses em sua vida particular, seja pela
59

impossibilidade que milhares ou milhões de pessoas exerçam o poder diretamente.


F) DEMOCRACIA COMO FORMA DE GOVERNO: É a forma de governo que incorpora “todos”
no processo decisório e que tende a promover um maior número de cidadãos nos assuntos de
governo, abolindo a restrição numérica presente nas outras formas de governo. Diante de um
governo demagógico ou anárquico, a democracia se degenera em sua forma impura.
G) ESTADO DEMOCRÁTICO MODERNO: O Estado democrático possui algumas características
marcantes. Obviamente, pode sofrer variações de conjuntura histórica, lugar e aspectos culturais,
mas, em regra, o Estado democrático deve possuir eleições livres de coerção, sufrágio universal e
periódico, voto igual, secreto e direto. Além disso, deve-se primar pela separação e harmonia dos
poderes, pelo respeito à legalidade e à constituição, Lei Maior que protege os direitos fundamentais.
H) DEMOCRACIA DUAL (BRUCE ACKERMAN): Quando há um envolvimento maciço do povo
nos assuntos públicos, os cidadãos se revestem de uma cidadania pública, em que o bem comum é
priorizado no lugar do bem individual, privado, egoístico, que acontece nos momentos de “normal
politics”, de política ordinária.
I) POLIARQUIA (ROBERT DAHL): ver texto complementar.
J) CONCEITO ELITISTA DE DEMOCRACIA:A democracia é um ponto, o povo só se manifesta
no ato eleitoral e depois, desvanece qualquer ligação entre o governo e o povo. As eleições são o
conflito de elites pelo poder. Quando ele é alcançado, tende a ser reproduzido pelas oligarquias
governantes na forma de apadrinhamento, indicações a cargos e políticas clientelistas.
L) DEMOCRATIZAR O PODER: Se a democracia, em essência, significa a participação do povo
no poder, deve-se ponderar de que maneira os cidadãos podem interferir nas instituições que mais
acumulam poder na sociedade: a burocracia estatal e as corporações econômicas. Há tentativas de
se abrir o tecido estatal ao controle popular por meio da instalação de conselhos consultivos e
deliberativos que envolvem a sociedade civil organizada.
M) DEMOCRACIA MAJORITÁRIA E DEMOCRACIA CONSENSUAL: ver texto complementar
de Arendt Lipjhart, na pasta do professor.
60

Aula 15: Política Internacional.

Correntes de Análise da Política Internacional

Idealistas ou Utópicos: É a corrente de política internacional que antepõe os princípios, os ideais às


ações. Considera que a ação internacional deve ser pautada por princípios morais, por uma doutrina
que defenda a justiça universal, a proteção dos direitos humanos e o respeito pela normas
internacionais construídas na história das relações internacionais, entre diversos países
democráticos.

Pragmáticos ou Realistas ou Burocráticos: É a corrente de política internacional que se pauta pelos


interesses antes dos ideais. Na verdade, a ideologia internacional é construída a partir dos interesses
do país ou ator internacional. Definidos estes interesses - econômicos, políticos, etc- constrói-se
uma ideologia, uma ética justificadora.

Texto Complementar: Artigo “Algumas teorias das relações internacionais: realismo, idealismo e
grocianismo”, de Gustavo Biscaia de Lacerda, Intersaberes – Revista Científica, na pasta do
professor.