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As Antinomias

o fenômeno jurídico nas sociedades capitalistas modernas estrutura-se a partir


do monopólio da legislação e dos julgamentos nas mãos do Estado. O controle da
criação das normas é feito pela instauração de trâmites formais necessários. Ao
mesmo tempo, ao conjunto de normas jurídicas estatais imputa-se a necessidade
de guardar algumas características comuns, unificadoras.
As necessidades do capitalismo moderno são diretamente representadas nos
conteúdos das normas jurídicas estatais. Também as contingências e os interesses
políticos e sociais se veem espelhados imediatamente nas diretrizes das normas
jurídicas. Desse bloco unificado de interesses de poder que se espelham no direito
decorre - ainda que na prática isso seja um ideal ina1cançável - o pendor dos
juristas por construírem um conjunto de normas jurídicas coerentes. A almejada
coerência do ordenamento jurídico faz com que a teoria geral do direito abomine
a existência de antinomias entre as normas.
A prática jurídica - que busca fazer do direito um sistema fechado, ordenado
e bemestruturado de normas jurídicas - em geral recrimina o fato de que possa
haver normas que se oponham a outras no mesmo ordenamento. Por isso, uma das
principais inquietações do jurista sempre foi a de sanar o problema das antino-
mias, isto é, das normas contrárias ou contraditórias em relação a outras normas.
Claro está que o ordenamento jurídico, por ser estruturado a partir de uma
pluralidade de agentes, desde os variados legisladores até a miríade de operadores,
sempre será aberto, contraditório, vago, impreciso. No entanto, o esforço para
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controlar o direito fez com que se desenvolvessem ferramentas para identificar,


tecnicamente, o que são as antinomias e como resolvê-Ias sem perturbar de ma-
neira mais profunda o próprio sistema normativo.
A identificação e a resolução das antinomias dentro do ordenamento jurídico
são procedimentos de poder. Arrogando uma coerência do direito que ele não tem,
a partir de um prisma de coerência que é ideológico, os operadores do direito im-
põem uma estrutura de resolução das contradições normativas por eles mesmos
assim identificadas e consideradas, e que será então reputada de boa técnica e
harmonia jurídica.

A identificação das antinomias

Em benefício do controle sobre a forma e o conteúdo das normas, a teoria


geral do direito deve, logo de início, identificar as hipóteses nas quais ocorre uma
antinomia, localizando-a, para depois então lançar meios a fim de resolvê-Ia.
Para que se possa considerar que uma norma do ordenamento seja antinômica
em relação a outra, elas devem ambas tratar, de modo distinto, de uma mesma
questão. Esse passo inicial é óbvio, mas importante de ser ressaltado, porque se
duas normas tratam de questões distintas, então elas não são antinômicas, apenas
versam sobre coisas diferentes. Para serem consideradas antinômicas, devem versar
sobre a mesma coisa.
Assim sendo, pode-se identificar um grupo de fatores que, coincidindo em duas
normas, faria com que estas fossem antinômicas. Se elas coincidirem no tempo,
no espaço, na pessoa ou na matéria, aí então é que se tratará de uma antinomia.
No que diz respeito à temporalidade, se duas normas tratarem diferentemente
de uma mesma coisa concomitantemente, elas serão antinômicas. Há antinomia
entre duas normas que sejam dadas num mesmo tempo, mas não entre normas de
tempos distintos. Isso porque, se uma norma for posterior à outra, dir-se-á então
que a nova sucedeu à velha. Não se pode dizer que haja antinomia entre uma
regra de vestimenta do século XVIcom uma do século XXIse o tempo já revogou
essa norma antiga. Mas se dissermos que no século XXIhá, ao mesmo tempo, duas
normas de etiqueta de vestimenta, diremos então que há costumes, na moda, que
podem ser antinômicos.
Tratando do espaço, também só haverá antinomia se ambas as normas se
. referirem a um mesmo local. Se uma norma proíbe fumar no restaurante e outra
permite que se fume no jardim, não há aí antinomia.
Sobre as pessoas a que se dirigem as normas, também só haverá antinomia se
ambas as normas se referirem aos mesmos sujeitos destinatários. Se se proíbem
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os jogadores de futebol de jogarem armados, esta norma não é antinômica com


outra que faculte aos policiais o armamento.
No que versa sobre a matéria, só haverá antinomia caso duas normas tratem
diferentemente do mesmo tema, ou seja, do mesmo conteúdo. Se uma proíbe o
roubo e outra permite os contratos, não há antinomia porque as normas não estão
tratando da mesma matéria. Não falam da mesma coisa. Haveria antinomia, nesse
caso, se uma norma proibisse o roubo e outra norma o permitisse, por exemplo.
As antinomias, por sua vez, podem se dar entre duas normas de modo total ou
parcial. Quando uma norma proíbe o uso do álcool, e outra permite o uso do álcool
e do cigarro, diremos que a segunda é parcialmente antinômica com a primeira,
e a primeira totalmente antinômica com a segunda. Isso porque a totalidade da
primeira norma se choca com um pedaço da segunda.
Há normas que podem se chocar ambas totalmente. Se uma norma determinar
que o comércio fechará das 19hOOàs 20hOO e outra determinar que ele pode ser
aberto no mesmo horário, diríamos que ambas são antinômicas totalmente.
Mas, se uma norma determina a abertura do comércio das 19hOOàs 21hOO,
e outra determina o fechamento do comércio das 20hOO às 22hOO, diríamos que
há uma antinomia entre uma fração de tempo estipulado por uma norma e uma
fração estipulada pela outra, mas há frações em cada uma das duas normas que
não são antinômicas.
Alf Ross, tentando dar uma nomenclatura à extensão dessas antinomias, dirá
que são de três possíveis tipos: total-parcial, total-total ou parcial-parcial, corres-
pondentes aos exemplos dos três parágrafos acima.

Antinomia de princípios

Os ordenamentos contemporâneos, em especial a partir do século XX,tratando


da complexidade de sociedades contraditórias, com demandas sociais as mais
variadas, buscaram aliar velhos princípios de segurança, ordem, estabilidade e
defesa do capital com princípios novos de solidariedade social, bem-estar ou inter-
venção estatal. Há ordenamentos os mais variados neste sentido. A Constituição
de Weimar, por exemplo, estipulou, logo no início do século XX, na Alemanha,
uma série de preceitos ditos de social democracia que, no limite, se chocavam com
outros princípios basilares do capitalismo liberal.
No caso do Brasil, a Constituição Federal de 1988 revela de maneira clara
essa multiplicidade de princípios. Ao mesmo tempo é capitalista, defende a pro-
priedade privada e suas garantias de liberalismo, mas defende a intervenção do
Estado na economia, defendendo também os interesses sociais e uma sociedade
justa e livre. Ora, muitos desses preceitos constitucionais podem se chocar, prin-
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cipiologicamente, com outros. Alguns poderiam argumentar que, se o Brasil deve


promover ajustiça social, a propriedade privada não é um direito irrestrito. Outros
argumentam que se a propriedade privada é um direito, o Estado não poderia ter
caráter intervencionista.
Daí se levanta a grande questão de se saber se, teoricamente, há antinomia de
princípios. Caso assim considerarmos, normas se chocam contra outras por conta
de suas ideias e seus horizontes, e deverão ser reajustadas em prol da coerência.
Os juristas de extrato conservador, buscando garantir certos princípios em detri-
mento de outros, sem querer dar operacionalidade ao combate entre os horizontes
distintos, fazem da questão da antinomia de princípios um tema menor. Dizendo
que lhe falta um caráter técnico, relegam o tema a uma mera opção política. Claro
está que, de fato, as escolhas dos grandes princípios jurídicos são uma opção po-
lítica do jurista, porque, na verdade, revelam, tão só e simplesmente, as grandes
opções do poder social, político e econômico que está por detrás do Estado e do
direito. Mas é preciso apontar que os cientistas que tanto insistem na clareza e na
exatidão do ordenamento jurídico relegam os grandes nortes principiológicos do
direito, se antinômicos, a questão menor, e as pequenas antinomias entre normas,
mais fáceis de se resolver sem abalar o sistema, a questão maior. .
A resolução da antinomia de princípios impõe uma opção política clara do
jurista, no sentido de dar um direcionamento à economia, à política e à sociedade.
Daí a dimensão do posicionamento político do jurista e da necessidade de uma
envergadura sua maior que aquela meramente técnica. O jurista não se restringe
à técnica jurídica, e quando assim se porta, além de se amesquinhar, esconde sua
real função social.

As antinomias e os funtores deônticos

Buscando ainda compreender quando duas normas são de fato antinômicas,


os juristas desenvolveram, no decorrer da história do direito, instrumentos lógicos
para sua identificação.
Se duas normas jurídicas permitem uma mesma coisa, não diríamos que são
antinômicas, mas sim que se repetem. Seriam antinômicas, por exemplo, se uma
permitisse e outra proibisse. Então, para que se entenda a antinomia, é preciso
estabelecer também a compreensão dos Juntares deônticos, isto é, dos elementos
operativos das normas que determinam se elas estão proibindo ou permitindo,
por exemplo.
Há, fundamentalmente, quatro funtores deônticos, e da relação entre eles sairá
um quadro lógico de antinomias. As normas ou proibem, ou obrigam, ou permitem
jazer, ou permitem não jazer. Pode-se, desses quatro termos, estabelecer um quadro
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lógico. Norberto Bobbio, em suas reflexões sobre o ordenamento jurídico, relembra


a utilidade didática de tal quadro deôntico, usado já na Idade Média, que permite
entender quais normas, relacionadas entre si, tendo em vista o funtor deôntico,
serão de fato antinômicas.
Se uma norma obriga a algo, e outra proíbe este algo, ambas são antinômicas,
Se uma norma proíbe, e outra permite fazer, também entre si são antinômicas. Se
uma norma obriga, e outra permite não fazer, há também antinomia.
No primeiro caso, entre uma norma que obriga e outra que proíbe, a anti-
nomia existente leva o nome, pela lógica, de contrariedade. Entre as normas que
obrigam e proíbem, de um lado, e as que permitem não fazer ou' fazer, de outro,
a antinomia leva o nome de contradição. <

Mas, entre duas normas, se uma obriga e a outra permite fazer, nesse caso
não há antinomia, porque se se obriga é claro que se permite fazer o que se está
obrigando. Nesse caso, e também no caso entre as normas que proíbem e as que
permitem não fazer, falamos de subalternidade. Não são casos de típicas antinomias.
Também se compararmos duas normas, uma permitindo fazer algo e outra
permitindo não fazer este mesmo algo, diremos não haver antinomia, porque,
tomadas apenas as duas, permitir-se-á então fazer ou não fazer. Nesse caso, fala-
mos de subcontrariedade.
Assim se pode expor o tradicional quadro das antinomias, quanto aos funtores
deônticos, chamando o obrigatório por 0, o proibido por P, o permitido positivo
por Pp e o permitido negativo por Pn:

o ( ) p

IXI
Tratando em termos lógicos, há antinomia entre O e P, entre P e Pp, e entre
°e Pn. Entre °
e Pp, entre P e Pn e entre Pp e Pn não há antinomia.

Critérios para a resolução das antinomias

Ao mesmo tempo em que o pensamento jurídico se desenvolveu no sentido


de identificar as antinomias, também propôs critérios e ferramentas para resolvê-
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Ias. Algumas dessas ferramentas são tradicionais no uso jurídico. Por isso, só serão
consideradas antinomias, ao final das contas, aquelas normas cujo conflito não
consiga ser resolvido por meio dos critérios já tradicionais e consolidados pelos
juristas e teóricos do direito.
Há três grandes critérios para se resolver uma antinomia: a cronologia, a hie-
rarquia e a especialidade. O primeiro critério resolve uma antinomia tomando por
base uma questão de tempo. O segundo critério tem por diretriz a questão do
nível da norma dentro do escalão hierárquico do ordenamento jurídico. O terceiro
critério resolve o problema entre normas gerais e normas específicas.
O primeiro critério é bastante claro ao jurista: caso haja duas normas tratando
da mesma questão, mas uma seja mais nova que outra, entre as duas há de se
preferir a mais nova. Entre o velho Código Civil e o Novo Código Civil, a norma
válida é o novo código.
O segundo critério também é cristalino: entre duas normas antinômicas, se
uma for de um escalão hierárquico superior à outra, prefere-se a norma superior.
Assim sendo, caso haja antinomia entre uma norma da Constituição Federal e outra
do Código Civil, pelo critério da hierarquia há de se escolher a norma superior, a
constitucional.
O terceiro critério, embora mais difícil, será também de claro entendimento.
Se uma norma trata sobre assunto geral, e outra trata de maneira distinta de um
caso específico dentro desse assunto geral, a específica revoga a geral, mas apenas
para o caso específico. Se há uma norma geral proibindo o uso de armas, e uma
norma específica facultando o uso de armas aos militares, então diríamos que a
norma especial (ou específica) revoga a geral, mas não totalmente, e sim apenas
para os militares. No geral, os demais continuam proibidos de portar armas.
Há velhos brocardos latinos que resumem essas três ferramentas de resolução
de antinomias: lex posterior derogat priori (a lei posterior derroga a anterior); lex
superior derogat inferiori (a lei superior derroga a inferior); lex specialis derogat
generali (a lei especial derroga a geral).

AbJrdância ou falta de critérios

Os critérios para a resolução das antinomias passam sempre pela escolha da


lei mais nova, da superior ou da especial em face da geral, no limite da sua espe-
cíficídade. Essas três ferramentas são clássicas para se resolver uma antinomia.
No entanto, a existência de três critérios pode levar a um problema: e se houver
uma antinornia que, se resolvida por um critério leve a uma escolha, e se resolvida
por outro .critério leve a outra escolha, como proceder?
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Esses casos podem acontecer quando há mais de uma ferramenta possível para
a resolução de antinomias. Trata-se de um conflito de critérios. Também nesse caso
o pensamento jurídico e a prática dos juristas estabilizaram uma série de escolhas.
Se para se resolver uma antinomia puder se usar ao mesmo tempo o critério
da cronologia e o da hierarquia, há de se preferir então o critério da hierarquia.
Isto é, se uma norma for mais nova, mas de escalão hierárquico inferior, há de se
ficar com a outra, mais velha, mas superior hierarquicamente.
Assim sendo, entre a cronologia e a hierarquia, o critério mais forte para
resolver a antinomia será a hierarquia.
De outra forma; se puder se usar ao mesmo tempo o critério da cronologia
e da especialidade, há de se escolher o da especialidade. Uma norma específica,
ainda que mais velha, é preferível à geral mais nova no ponto de sua especificidade.
Neste caso, entre a cronologia e a especialidade, o critério mais forte para
resolver a antinomia será a especialidade.
A dificuldade reside em se determinar, entre uma norma hierarquicamente
superior geral e uma inferior hierarquicamente mas específica, qual das duas pre-
valecerá. Isso porque no critério entre a hierarquia e a especialidade, não é ponto
pacífico do pensamento jurídico que uma tenha que valer sempre mais que a
outra. Nesse caso, não há um critério técnico estabilizado, dependendo, pois, da
circunstância da questão em tela.
Assim sendo, nos casos em que há abundância de critérios para a resolução
das antinomias, quase sempre os juristas já consolidaram a escolha de certos cri-
térios em relação a outros.
Outro problema que pode surgir na resolução das antinomias é, diferente-
mente do caso acima (em que abundam critérios), o caso em que falte totalmente
meios de resolução. Tratar-se-ia de um caso de insuficiência de critérios. Isso so-
mente aconteceria quando as normas antinômicas fossem ambas do mesmo nível,
da mesma cronologia e da mesma especialidade. Por exemplo, se o legislador, na
mesma lei promulgada no mesmo dia, estipulasse, em dois artigos distintos, uma
permissão e uma proibição para o mesmo assunto, não haveria critério suficiente
para que o jurista, por si só, resolva a antinomia.
Nesse caso de insuficiência de critérios, em geral o legislador há de editar nova
lei, refazendo sua determinação legal, ou então, em caso de omissão do legislador,
há uma técnica, de caráter mais vago, porque mais dependente da aceitação de
todos, que é o uso de uma ferramenta que se chama lexfavorabilis (lei favorável).
No caso de antinomia entre duas normas, não havendo possibilidade de
resolução por meio dos critérios de cronologia, hierarquia ou especialidade, se
uma norma obriga ou proíbe e a outra norma permite, em geral é menos custosa
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socialmente a escolha da norma que permite. A permissão é percebida como mais


favorável que a obrigação ou a proibição.
No caso entre duas normas, uma obrigando e outra proibindo, a lexfavorabilis
seria um tertius, uma terceira via, ou seja, a aceitação de uma permissão, o que
na prática anularia a norma proibidora e a obrigatória ao mesmo tempo. Daí que
a lexfavorabilis, permissiva, seja uma construção do jurista no sentido de resolver,
artesanalmente, a antinomia jurídica. Não é uma ferramenta pacífica, nem muito
usada, porque em geral, nesses casos, volta-se ao legislador a pressão por criar
nova norma que resolva a antinomia entre as normas já existentes.

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