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PADRÃO

O esforço é grande e o homem é pequeno.


Eu, Diogo Cão1, navegador, deixei
Este padrão ao pé do areal moreno
E para diante naveguei.

A alma é divina e a obra é imperfeita.


Este padrão sinala ao vento e aos céus
Que, da obra ousada, é minha a parte feita:
O por-fazer é só com Deus.

E ao imenso e possível oceano


Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.

E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma


E faz a febre em mim de navegar
Só encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar.
Fernando Pessoa, Mensagem, 10.ª ed., Lisboa, Ática, 1972

(1) Diogo Cão: navegador português do século xv. Enviado por D. João II de Portugal, realizou duas viagens de
descobrimento da costa sudoeste africana, entre 1482 e 1486.

1. Explicite as relações de sentido que o primeiro e o quinto versos estabelecem entre si

2. Demonstre a existência de uma conceção providencialista da História no poema.

3. Comente o significado dos versos: "Que o mar com fim será grego ou romano:/ O mar sem fim é português"
(vv. 11-12).
4. Interprete o sentido da expressão «febre […] de navegar» (v. 14).

5. Justifique o título do poema tendo em conta a estrutura da obra em que se integra.


O mostrengo

O mostrengo que está no fim do mar


Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse, «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tetos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo,
«El-Rei D. João Segundo!»

«De quem são as velas onde me roço?


De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso,
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse,
«El-Rei D. João Segundo!»

Três vezes do leme as mãos ergueu,


Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de temer três vezes,
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»

Fernando Pessoa, Mensagem (ed. Fernando Cabral


Martins), Lisboa, Assírio & Alvim, 2014, pp. 52-53.

1. Caracteriza a figura do «mostrengo», justificando com elementos do texto.

2. Atenta, agora, na figura do «homem do leme».


2.1. Demonstra que as suas reações ao discurso do «mostrengo» evoluem em sentido crescente.

3. Explica a simbologia de ambas as figuras: o «mostrengo» e o «homem do leme».


4. Faça referência ao valor simbólico do Mostrengo, confrontando-o com o episódio do Adamastor em “Os
Lusíadas”.

5. Esclarece o valor simbólico do número três ao longo de todo o poema.

6. Indica dois recursos presentes no poema, explicitando o respetivo valor expressivo.

7. Integre este poema na estrutura formal da Mensagem e justifique a sua resposta.


CORREÇÃO:

PADRÃO
1. O primeiro e o quinto versos relacionam-se entre si na medida em que evidenciam, por um lado, a pequenez do
"homem" e, consequentemente, a imperfeição da sua obra e, por outro lado, a grandiosidade da missão "divina"
que lhe foi atribuída e que ele teria de tentar executar ("O esforço é grande e o homem é pequeno" - v. 1; " A alma
é divina e a obra é imperfeita." - v. 5). Perante estas contradições, terá de ser feito um exercício enorme de
autossuperação das limitações do "homem", tendo como fim último a  procura da perfeição "divina"  e o
cumprimento da missão atribuída  por Deus a Diogo Cão, em particular (herói individual), e ao povo português,
em geral  (herói coletivo).

2. No poema «Padrão», evidencia-se a sensação do dever cumprido por parte do sujeito poético («Que, da obra
ousada, é minha a parte feita» (v. 7)) e tudo o que ainda está "por-fazer"(«O por-fazer é só com Deus.» (v. 8))
depende exclusivamente de Deus, remetendo para uma conceção providencialista da História, segundo a qual
todos os acontecimentos são explicados por aquilo que a providência divina determinou. Além disso, o poema
apresenta uma interpretação dos Descobrimentos em que o carácter religioso e a procura da transcendência
explicam a ação levada a cabo pelos portugueses.

3. A contraposição entre o "mar com fim", que é "grego ou romano"  e o "mar sem fim", que é "português",
consubstancia um enaltecimento das viagens marítimas dos Portugueses, afirmando a sua superioridade
relativamente às dos povos da Antiguidade Clássica. Estes últimos dominaram apenas o conhecido, o "mar com
fim, o Mare Nostrum, enquanto os Portugueses se apropriaram do desconhecido, do "mar sem fim", que foram
desvendando, acentuando-se, assim, a sua dimensão épico-heroica.

4. Na última estrofe, o sujeito poético explicita o que simboliza a cruz do padrão, fazendo referência à «febre de
navegar». Esta febre ou doença resulta do desejo de querer mais e procurar, desejo que, segundo a filosofia de
Mensagem, distingue a natureza humana e permite que o homem se distancie da «besta». A cura para esta doença
da insatisfação, da procura ou do sonho é o repouso em Deus, depois da morte.

5. Este poema está inserido na 2ª parte da “Mensagem”, “Mar Português”, inspirada na ânsia do desconhecido e
no esforço heroico da luta contra o Mar.
Num discurso de primeira pessoa, o sujeito poético, Diogo Cão, produz um discurso poético centrado no ato de
navegar (tornando-se como que um hino da viagem marítima e de exaltação da descoberta), evidenciando a sua
viagem de descoberta da costa ocidental, desde o Cabo de Santa Catarina até à Serra Parda, tendo levantado
padrões de pedra (em vez de cruzes em madeira) nos vários locais onde aportava.
Assim, o Padrão por um lado indica que o navegador cumpriu a sua missão “(sinala ao vento e aos céus/Que, da
obra ousada, é minha a parte feita”), por outro lado destina-se a afirmar a soberania portuguesa nas terras que iam
sendo descobertas (“Ensinam estas Quinas, que aqui vês, (…) / O mar sem fim é português”).
Esta 2ª parte representa simbolicamente a vida ou a realização.
MONSTRENGO

1. O «mostrengo» é caracterizado como um ser «imundo e grosso». Indiretamente, caracterizam-no as suas ações:
realiza movimentos circulares intimidatórios e sitiantes à volta da nau («À roda da nau voou três vezes, / Voou
três vezes a chiar», vv. 3-4), e profere palavras ameaçadoras: diz morar em locais remotos, «cavernas» que
ninguém conhece, de «tetos negros do fim do mundo» (v. 7), e escorre «os medos do mar sem fundo» (v. 16), o
que sugere que é um ser horrendo e ameaçador.
2.1. Às interpelações do «mostrengo», nas duas primeiras estrofes, o «homem do leme» começa por responder
assustado – «tremendo», «tremeu» –, intimidado pelo tom aterrador das suas palavras e pelo ambiente sinistro que
o circunda, reagindo apenas com uma frase que invoca a autoridade de que foi investido: «El-Rei D. João
Segundo!» Porém, à terceira vez, parece tomar consciência de que não é apenas ele, «homem do leme», que ali
está, assume-se como símbolo de um «Povo», como um herói coletivo que tem, naquele momento, uma missão
patriótica a cumprir, a defesa da tripulação e da vontade de uma nação. O «homem do leme» responde, por fim, ao
«mostrengo», desta feita em seis versos, mobilizando energias, com a convicção e força da determinação de um
herói. Há, ainda, uma clara gradação ascendente nas atitudes do «homem do leme» que nos permite adivinhar uma
evolução que contraria as do «mostrengo» que acaba neutralizado.
3. O «mostrengo» simboliza os medos dos navegadores que enfrentam o desconhecido e os perigos do mar; o
«homem do leme» é a figura do herói mítico, símbolo de um Povo, passando de herói individual a coletivo, com
uma missão a cumprir.

4. Este poema, O Mostrengo, apresenta uma profunda semelhança com o episódio do Adamastor de Os
Lusíadas, Canto V, de Luís de Camões. Trata-se de retomar a alegoria presente nesse episódio, pois tal
como este, ele é o guardião do mar tenebroso, no cabo das Tormentas, mais tarde o Cabo da Boa
Esperança. Simboliza também as dificuldades, os medos, a coragem, as barreiras que os Portugueses
tiveram que ultrapassar para dominar os mares.
5. Começando pela forma, o poema é constituído por três estrofes de nove versos (o 9 é um múltiplo de 3).
Em termos de conteúdo, quer o «mostrengo» quer o «homem do leme» falam três vezes, o primeiro «voou três
vezes» e «rodou três vezes» à volta da nau, e o segundo «tremeu» três vezes. («Três vezes do leme as mãos ergueu
/ Três vezes ao leme as reprendeu».) Não há, de facto, qualquer acaso na presença do número três, sete vezes
repetido ao longo do poema. Das várias explorações possíveis à simbologia do número três, destacamos a do
sinónimo de perfeição, da unidade divina, de totalidade a que nada mais pode ser adicionado.

6. Destacam-se, como recursos expressivos, a anáfora, em toda a estrutura do poema, bem como nas falas das
personagens, convergindo para a ideia central de que o povo português é capaz de vencer os seus medos, os seus
monstros, com uma determinação de «homem do leme». A metáfora «que me ata ao leme» (v. 26), por exemplo, a
salientar a firmeza do homem do leme e, consequentemente, a contribuir para a construção da imagem de um
herói épico e coletivo.

7. Este poema integra-se na segunda parte da Mensagem – Mar Português - onde o poeta refere acontecimentos
dos Descobrimentos e enaltece os excelentes marinheiros que ousaram enfrentar o mar desconhecido, dominando
o próprio medo, sublimando a Pátria-mãe pela realização de uma epopeia de carácter universal.

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